ESPERANÇA DE FAMÍLIA
de Calixto de Inhamuns
Inspirado livremente nos contos
A Esperança de Família e A Suruba,
de Alfredo Mesquita
para o projeto
TRÍPTICO ALFREDIANO
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PERSONAGENS:
Godofredo
Marido de Nanci
Zulmira
Matriarca, esposa de Almeida
Nanci
Irmã de Zulmira
Almeida
Marido de Zulmira.
Eduardo
Filho de Zulmira e Almeida
CENÁRIO: CAIXA PRETA. NO MEIO DO PALCO UM MANEQUIM, SEM A
CABEÇA, TRAJANDO UM VESTIDO DE BAILE VISIVELMENTE DESGASTADO PELO TEMPO E QUATRO CADEIRAS.
ATO ÚNICO
Prólogo
BLACKOUT. FOCO CENTRAL. ENTRA GODOFREDO E FICA OLHANDO
PARA A PLATÉIA. ELE VAI MUDANDO, COMO SE VISSE UMA COISA
TRISTE.
GODOFREDO
Eles derrubaram... O casarão foi derrubado... Derrubaram
as paredes, mas ficaram pedaços onde se pode ver o
vermelho da decoração do quarto... O velho e rangedor
portão de ferro pelo qual passei a primeira vez... Eles derrubaram... Derrubaram...
CAI O FOCO CENTRAL, LENTAMENTE. ACENDE LUZ GERA E, EM CENA,
ZULMIRA, NANCI E ALMEIDA. ZULMIRA E NANCI ESTÃO SENTADAS EM
VOLTA DO MANEQUIM ATENTAS, OLHANDO, MEDINDO. ALMEIDA ESTÁ
SENTADO, MAIS DISTANTE, LENDO UM JORNAL.
NANCI:
Você lembra, Zulmira?... O baile dos Nogueira? Que festa, hein? Nós duas fomos de branco, com faixas cor-derosa, iguaizinhas!
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ZULMIRA:
Foi lindo!... E mamãe com seu vestido de veludo preto, de
cauda!
NANCI:
Dona Nenê Nogueira tinha um igual, grená... Mas o da
mamãe era mais bonito, muito mais.
ZULMIRA:
Lindo!... Ela usava o broche de brilhantes que foi da nossa bisavó... Lembra, Nanci?... O broche da família!... Preto é muito mais bonito, mais distinto... Branco é para as
mocinhas... (SE APROXIMA DO MANEQUIM) Você não
acha que a gente devia ter vestido a Mirinha de branco?
NANCI:
Foi pra aproveitar o forro que já tinha... Aquele roxo... E
aproveitamos também estes vidrilhos de um vestido
meu... Não se lembra? (CONTEMPLA O MANEQUIM)
Está bonito, não está? Cor-de-rosa também é bonito... Os
nossos vestidos brancos eram bonitos, chiques, mas o
dela também ficou.
ZULMIRA:
É... A gente era rica... Papai podia... A família tinha um título do Paulistano, o melhor clube de São Paulo... O broche de brilhantes ainda era da família... Hoje, o Almeida
não se cansa de chorar miséria... Ele nunca quis realizar
o sonho de Mirinha, ser novamente sócia do Paulistano, e
a coitada...
ALMEIDA:
(LARGA O JORNAL E CORTA) Querer é uma coisa...
Poder é outra, Zulmira!... Parem de falar mal de mim!...
Desgrudem desse manequim, vão dormir!
ZULMIRA:
Nem o broche ela pôde usar... Imagina ela com esse vestido bonito e o broche de brilhantes... O Zeca não teria tido a ousadia de olhar para outra moça.
ALMEIDA:
Para de falar desse maldito broche.
ZULMIRA:
Você podia ter vendido o broche e dado entrada em um título do Paulistano... Com o título ela não iria precisar de
favores dos Melo...
ALMEIDA:
Nós vendemos o broche pra reformar a casa, Zulmira!
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Você queria colocar essas malditas pastilhas... Era nobre... Chique!... O maldito título do Paulistano nós vendemos quando o Dudu nasceu... O maldito do Zeca não casou com Mirinha porque ela não tinha um maldito de um
broche... Não foi porque ela não era sócia do Paulistano...
Foi porque... Este vestido... (SE APROXIMA DO MANEQUIM.) Qualquer dia eu queimo este maldito vestido.
AS DUAS MULHERES PROTEGEM O MANEQUIM.
NANCI:
Não!
ZULMIRA:
Se você tocar no vestido de Mirinha, Almeida, acabo com
a sua vida.
ALMEIDA:
(RECUA.) Por favor, vão dormir! É quase meia-noite!
ZULMIRA:
Não durmo enquanto o menino não chegar.
ALMEIDA:
Menino?... O Dudu já é um homem, Zulmira.
NANCI:
O Godô está com ele... Foi uma loucura deixar o Godô sair de casa... Ele, depois da história daquela noite, não está
bem da cabeça.
ALMEIDA:
Depois da história daquela noite?... Se não estar bem da
cabeça fosse um motivo forte pra não deixar ele sair, minha cunhada, não deveriam ter deixado sair da maternidade.
ZULMIRA:
Não gosto dessas saídas noturnas do Eduardo com o
Godofredo. Adulto sai com adulto, criança com criança.
ALMEIDA:
Criança? O Dudu já tem 21 anos, Zulmira!... Espera, aí!...
Adulto sai com adulto? Você tá insinuando que eu saia
pela noite com o Godofredo, é? É... Como nessa casa,
depois da pseudoaventura escabrosa dele, acabaram-se
as festas... Quem sabe?... Dizem que ele é íntimo da casa
da Gina.
NANCI:
Almeida!
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ZULMIRA:
O tempo passa e a idade traz o bom senso... Não somos
mais crianças para ficarmos... Para...
NANCI:
(CORTA.) Não vamos falar sobre isso, por favor! (TEMPO. VOLTA-SE E TOCA UM XALE QUE ESTÁ CAÍDO
SOBRE OS OMBROS DO MANEQUIM) A saída do baile... Que lindo esse xale cor de morango!
ZULMIRA:
Ganhei de uma tia avó... Bonito esse bordado, ton sur ton,
não é?... Ele sempre fica para a filha mais velha. (TEMPO) Mirinha não gostou... É tão suave, delicado... Que
franja!
NANCI:
ATRÁS DO MANEQUIM, APARECENDO SÓ A CABEÇA. MUDA.) Não se usa mais desses xales, mamãe!
ZULMIRA:
(MUDA.) Que boba, Mirinha! O que é bonito não sai de
moda... Vê lá! Não usa quem não tem! Você vai ficar na
última estica! Todos vão falar. (AJEITANDO O XALE) Assim, coloque de lado, meio caído... Fica melhor... Négligé.
NANCI:
(MUDA.) Clarinha, falou que as Melo não gostaram...
Acharam cafona... Riram.
ZULMIRA:
(MUDA.) Devem ter rido por despeito... Clarinha nunca foi
amiga de Mirinha... Elas se roíam de inveja.
ALMEIDA:
(QUE TENTAVA LER O JORNAL) Não fale assim, Zulmira, foram os Melo que levaram Mirinha ao baile.
ZULMIRA:
Por obrigação!... Eles tinham obrigações... Não fomos nós
que levamos as filhas ao casamento da Odete? Eu nem
queria, mas Mirinha fez questão. Que vida aquela, meu
Deus! Depender dos Melo, daqueles trates!
NANCI:
(ATRÁS DO MANEQUIM. MUDA.) Clarinha é minha melhor amiga, mamãe... A senhora só implica!
ZULMIRA:
(MUDA.) Filha, ela não é sua amiga... Os avôs deles foram empregados dos nossos avôs... É uma gentinha.
ENTRA EDUARDO E AS DUAS VÃO AO ENCONTRO DELE.
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NANCI:
E o Godô, Dudu?
ZULMIRA:
Isso são horas de chegar, senhor Eduardo?
NANCI:
Cadê o Godô, Dudu?
EDUARDO:
O que faço antes? Justifico o atraso ou falo do Godô?
NANCI:
Você prometeu, Dudu, que cuidava do Godô.
EDUARDO:
Ele ainda não chegou?
ZULMIRA:
Não se faça de engraçado, senhor Eduardo... O senhor
estava com ele.
EDUARDO:
Deixei ele no Bar do Alemão... Tinha os amigos dele... Alguns... Poucos... Um!... A gente combinou... Quando voltei, o seu Jorge falou que ele ficou pouco e saiu.
ALMEIDA:
É... A reunião dos amigos, onde o verbo mais usado, como aqui em casa, é o verbo lembrar, vai chegar ao fim por
falta de quórum.
EDUARDO:
Verbo lembrar, pai?
ALMEIDA:
É... Ainda me lembro... Ontem eu estava lembrando... O
Fulano é muito lembrado... Lembra-se?... Lembrar daqueles tempos, como dói.
NANCI:
Ele foi encontrar com elas novamente... Ele foi a casa delas!
EDUARDO:
A senhora sabe que ele não pôde se encontrar com elas,
tia.
ALMEIDA:
Depende... Você perguntou ao tal do seu Jorge se ele bebeu muito? Dependendo da quantidade de álcool ingerida
ele pode se encontrar até com São Gabriel, com Lúcifer,
com Salomé.
NANCI:
Não é hora de brincadeiras, Almeida. Eu vou até a casa
delas!
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EDUARDO:
Como vai até a casa delas, tia? A casa tá pra ser demolida... Ninguém mora lá.
ZULMIRA:
O senhor, Eduardo, ficou de tomar conta dele... Vai atrás
dele, Almeida!
ALMEIDA:
(JOGA O JORNAL NA CADEIRA) O quê? Eu sair quase
meia-noite pelas ruas de São Paulo, atrás de um cunhado
vagabundo e maluco?
NANCI:
Vagabundo e maluco, mas é ele quem paga tudo nessa
casa... Você, meu cunhado, também não trabalha.
EDUARDO:
Calma, pessoal, calma!
ALMEIDA:
Não me compara com aquele lunático!... Não trabalho,
mas trabalhei a vida inteira... Minha aposentadoria é uma
merda, mas consegui trabalhando... Não herdei de um pai
que trabalhou a vida inteira juntando uma fortuna para um
filho... desnorteado... um biscateiro.
NANCI E ZULMIRA CERCAM O MANEQUIM.
ZULMIRA:
Respeita a sua filha, Almeida!
NANCI:
Você vendeu o broche de brilhantes por orgulho... O Godô
iria pagar a reforma... Vender uma joia valiosa da própria
filha? Ela foi ao encontro do Zeca sem ele... Bem feito pra
você... Se Mirinha casasse com o Zeca podia até arrumar
um emprego na assembleia para você. Ah, se ela, naquele baile, tivesse usado o broche de brilhantes... Era a esperança da família.
ALMEIDA:
Sabe de uma coisa, Nanci? Acho que você e sua irmã são
mais malucas que o maluco do seu marido... Aliás, acho,
principalmente com esta seca em casa, que ele vai pra
rua atrás de biscate por falta do que comer em casa.
ZULMIRA:
Vai lavar essa boca suja com sabão, Almeida!
EDUARDO:
Pai, por favor, pai! (TEMPO. AS DUAS MULHERES FICAM EM VOLTA DO MANEQUIM. ALMEIDA SENTA NA
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CADEIRA E VOLTA AO SEU JORNAL. ABRAÇA O
MANEQUIM) E você, maninha, como está?
NANCI:
Você acha que esse xale é feio, Eduardo?
EDUARDO:
Não, tia, é bonito.
NANCI:
Quero dizer fora de moda... É... Vai procurar o seu tio,
Dudu, pelo amor de Deus, vai.
ALMEIDA:
Ah, meu saco! (LEVANTANDO-SE) Vamos, Dudu, vamos
ver se encontramos o maluco do seu tio. Você sabe onde
fica esse casarão abandonado?
EDUARDO:
Sei.
ZULMIRA:
Não precisa levar o Eduardo, Almeida... É tarde pra ele
sair.
ALMEIDA:
Pra ele é tarde, pra mim é cedo? É... Realmente, é cedo,
o Sol nem nasceu... Aliás, nem pensou ainda em nascer...
Por que não vão comigo você e sua irmã que estão preocupadas com o maluco?
EDUARDO:
Eu vou com o senhor, pai... Vamos.
ALMEIDA JOGA O JORNAL NA CADEIRA, SE LEVANTA E GODOFREDO
ENTRA. ENQUANTO ZULMIRA CORRE AO SEU ENCONTRO, NANCI SE
ESCONDE ATRÁS DO MANEQUIM.
ZULMIRA:
Onde você estava, Godofredo? Mata a família de preocupação.
EDUARDO:
Grande, tiozão! Na boêmia?
GODOFREDO:
Demoliram... Eles demoliram a casa.
ZULMIRA:
Que bom! Quem sabe você não sossega e deixa de imaginar coisas?
GODOFREDO:
Agora tenho certeza... Hoje, à tarde, fui ao consultório do
Doutor Ezequiel... Eu encontrei mesmo com elas... Vocês
lembram que falei de um cachorro... O Azor?... Encontrei,
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também, ele ganindo em volta dos tijolos derrubados...
Era o cachorro delas... O cachorro que fez aquela coisa
horrível com a Nonouche... A Nonouche, a afilhada da Serafita, lembram? Derrubaram as paredes, mas ficaram
pedaços onde se pode ver o vermelho da decoração do
quarto... Pedaços dos espelhos que refletiam as carnes
brancas dos corpos delas... Eu tive mesmo um encontro
com elas!
ZULMIRA:
Pelo amor de Deus, Godofredo, respeita sua esposa.
EDUARDO:
Calma, tio, calma... O casarão estava abandonado... Nós
vimos... Deviam morar mendigos... O cachorro era deles,
com certeza.
GODOFREDO:
Cadê a Nanci?
EDUARDO:
Para de se esconder tia, fala com o Godofredo. (NANCI
SAI DE TRÁS DO MANEQUIM, SEM OLHAR PARA
GODOFREDO. TEMPO.) O senhor precisa dormir.
GODOFREDO:
O que você fazia atrás do vestido de Mirinha, Nanci?
NANCI:
A combinação estava aparecendo... Tive que encurtar.
(MOSTRA OS BORDADOS DA BLUSA.) Você sabia,
Dudu, que esses bordados foram feitos pela tia Alzira, que
mora na Liberdade? Nossa família sempre foi unida. Naquela noite todos estavam em nossa casa.
EDUARDO:
Ah... O dia do grande baile.
ZULMIRA:
Sim... O dia do grande baile... Todos estavam aqui... Algumas desde manhã... Colocando os papelotes no cabelo
da Mirinha... Fazendo as unhas... Ofereciam bijuterias...
Zizi trouxe o seu leque de noivado, todo bordado à mão,
com varetas de madrepérola.
EDUARDO:
É... Foi um grande dia... Agora, vamos todos dormir.
NANCI:
Foi uma correria. (MUDA.) E os Melo que não chegam...
Cuidado, Mirinha, não vá amassar a barra do vestido... É
preciso passar a bainha a ferro, senão não fica direito!
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ZULMIRA:
(MUDA.) Pelo amor de Deus, não atropelem, senão prefiro não ir; mal-arranjada não vou mesmo! Não fiquem correndo atrás de mim! Que inferneira!
NANCI:
Calma, Mirinha, já estão chegando... Elas sempre se atrasam... Juju, parou um carro... Olha na janela!... Vê se não
foram eles que chegaram. (MUDA.) Como pode terminar
tão mal um baile que prometia tanto? (PARA GODOFREDO.) Que humilhação, Godô, por que foi atrás delas
novamente?
GODOFREDO:
Eu precisava saber a verdade, Nanci, ou ia enlouquecer.
ALMEIDA:
Pode enlouquecer à vontade, Godofredo que, nessa casa
de loucos, ninguém vai perceber.
EDUARDO:
Por favor, pai.
GODOFREDO:
Eu não tive culpa, Nanci... Você estava viajando... Só
queria me divertir um pouco... Encontrei os amigos no Bar
do Alemão... Bebemos... Tomei quatro uísques... Depois,
fui com o Ricardo até a casa dele... Ele precisava trabalhar no outro dia, não quis sair comigo... Saí pela cidade...
Fui me perdendo... Afundei num bairro estranho... Queria
voltar, mas como?... Perdi a noção... Onde fica o centro?... Parei embaixo de um lampião... Ouvi passos de
mulher... Tac-tac-tac-tac... Soavam como numa igreja...
Numa catedral... Fiquei parado... Duas mulheres entraram
na luz do lampião... Distintas... Passaram e andei na direção contrária, lentamente... Estranho... Eu as conhecia...
Quem seriam?... Senti que elas pararam... Parei... Volteime... Os nossos olhos se encontraram...
EDUARDO:
(MUDA.) Você... Você não é o... Godofredo?
GODOFREDO:
(MUDA.) Sou. (MUDA.) Que havia de fazer... Falei e balancei a cabeça afirmativamente.
EDUARDO:
O que faz por aqui uma hora dessas?... Passeando?...
Sozinho? (MUDA.) A gente já sabe, tio... O senhor já contou várias vezes.
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GODOFREDO:
Eram as primas da Nanci e da Zulmira... A Serafita e a
Elisete.
ZULMIRA:
Nossas primas, não... Só se forem suas.
ALMEIDA:
São primas... Filhas de um primo do pai de vocês... Conte, Godofredo, conte como levaram você pra casa delas.
NANCI:
(CANTA E DANÇA, DESAJEITADA.) Trá-lá-lá... Trá-lálá...
ALMEIDA:
Vamos começar um baile? Quem sabe não podemos repetir uma daquelas belas noites? Permita-me a primeira
dança, madame?
ZULMIRA:
Naquela que seria a grande noite... A noite da nossa filha... Você não ajudou, Almeida, ficou lendo o seu jornal.
NANCI:
Era um dia tão bonito... A família toda ajudando a Mirinha... Tinha parentes da Liberdade, da Mooca... Os Melo,
atrasados como sempre, chegaram... Nós saímos pra
conversar com as meninas e dona Fortunata... Quando vi
as três irmãs sentadas no banco detrás, todas com vestidos em tons de azul, cheirando a novo, senti um arrepio.
GODOFREDO:
Eu também senti um arrepio quando Serafita me convidou
pra entrar na casa... Que fazer?... Ela insistiu... Eu não
queria, mas ela insistiu... Passamos um velho e rangedor
portão de ferro... Abriu a porta e senti um cheiro de fechado, de mofo, misturado com um perfume adocicado de
igreja... Entrei.
NANCI:
Nós estávamos fora, ao lado do carro dos Melo... Quando
a porta se abriu, no clarão, surgiu Mirinha triunfante... Tudo parou em volta... Na auréola de luz, com a majestade
de uma deusa, desceu os três degraus de cimento... As
minhas esperanças cresceram.
GODOFREDO:
Sentei no sofá ao lado de Serafita... Tinha um cheiro de
decomposição, úmido...
ZULMIRA:
As Melo não me pareceram nada bem... A Clarinha esta11
va um bonde no seu vestido azul claro... Mirinha era a
mais bonita... A mais bonita.
GODOFREDO:
Um cheiro adocicado, de igreja...
EDUARDO:
(CORTA.) Amanhã o senhor conta, tio!... Vamos todos
dormir... Vamos, tio, amanhã quero ter uma conversa séria com o senhor.
ALMEIDA:
Não... Antes quero ouvir toda a história do Godofredo...
Conta como você sentiu a mão de Serafita afagando suas
coxas... Subindo... Apalpando... O dedo dela se insinuando por sua braguilha... Conta tudo, Godofredo!
NANCI:
(MUDA.) Clarinha me roubou o noivo, mamãe... Eles ficaram noivos... Eles têm carro... Titulo do Paulistano... A
minha vida está como o meu vestido, cheia de buracos,
remendos... Meu pai é só um funcionariozinho público que
encosta a barriga num balcão... A gente ficou pobre, mãe,
pobre.
ALMEIDA:
Conta, Godofredo... Conta como ela chamou a irmã mais
nova, a que parecia a Shirley Temple, pra junto de vocês.
ZULMIRA:
(MUDA.) Pobre sim... O Almeida ganha uma mixaria...
Mas você, Mirinha, era a mais bonita que todas... A Clarinha sempre invejou você, sempre.
GODOFREDO:
Antes de tudo ela me ofereceu um bebida... Da antiga
adega do pai dela... (FALANDO, AFETADO.) Temos um
Fine Napoleon que é, como dizem os franceses, le petit
Jesus em culotte de velours...
NANCI:
Pare, imbecil, pare! (MUDA.) Zeca escolheu a Clarinha,
mamãe.
GODOFREDO:
Elas estavam esperando o noivo de Elisete, o Tim-Tim...
Elisete serviu o conhaque...
EDUARDO:
Nós sabemos, tio... (MUDA.) Sente-se conosco, Elisete, o
sofazinho é pequeno – como a petit table, da Manon –,
mas para nós três dá de sobra... Venha, o primo gostosão
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fica entre nós duas...
ZULMIRA:
Até você, Eduardo? Não emporcalhem esse lar com a
lembrança daquelas meretrizes... Amanhã faz quatro anos
que Mirinha morreu... Respeitem... Morreu de vergonha,
de tristeza...
ALMEIDA:
Se não querem ouvir, vão dormir... Amanhã cedo vou jogar fora esse manequim e esse vestido velho... É preciso
limpar tudo, jogar essa velharia fora.
GODOFREDO:
Era um quarto cheio de móveis... Tinha um oratório cheio
de santos... Tudo era vermelho... O papel de parede... As
almofadas... A colcha... Tudo vermelho...
ZULMIRA:
Essa casa não é sua, Almeida... É minha e da Nanci... É
da nossa família e...
ALMEIDA:
(CORTA.) E a porta da rua é a serventia da casa! É isso?
Vocês não vão me jogar fora como um osso roído... Um
osso que as duas roeram.
NANCI:
Nós vivemos dos aluguéis do Godô, Almeida... O que você fez pra dar uma vida digna para a Mirinha? Vendeu o
broche de brilhantes e... Ela não suportou o dia do casamento da Clarinha com o Zeca.
GODOFREDO:
Nas paredes, os retratos da família... Solenes e impassíveis, enquadrados em velhas molduras vermelhas, os retratos do clã... Ao centro, o pai e a mãe... Mais alto, nossos avós... As fotos eram velhas, amareladas, mas ainda
dava pra ver no peito de cada matriarca, um broche de
brilhantes... O mesmo broche de brilhantes que brilhava
no peito de Serafita.
ZULMIRA:
Como o nosso broche que passava de filha mais velha
para filha mais velha.
NANCI:
Como o broche que Mirinha devia usar... Não se quebra a
tradição.
EDUARDO:
Mirinha morreu, tia... A esperança da família morreu...
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Não podemos mais viver no passado... Faz quatro anos
que a esperança da família morreu, mas eu estou vivo.
ALMEIDA:
Eu quero ouvir o Godofredo... Quero que ele conte a suruba que fez com as primas... No quarto dos pais delas,
na cama dos pais delas, em cima da colcha vermelha dos
pais delas... Fala de como os quadris dela rebolavam lentamente, roçando o seu sexo... Fala do Azor fora do quarto arranhando a porta, ganindo.
GODOFREDO:
Serafita, murmurava: tire a roupa... tire a roupa...
ZULMIRA:
É mentira... Elas morreram...
GODOFREDO:
A gente se afastou para tirar a roupa... Serafita desamarrou-me a gravata... Desabotoou-me a camisa... A calça...
Ágil... Ao mesmo tempo me acariciava por todos os cantos...
NANCI:
(SEM DANÇAR, BAIXO.) Trá-lá-la... Trá-lá-lá...
ZULMIRA:
Eu levei você até a sepultura delas... Têm os nomes, as
datas das mortes... Os retratos... Elas estão mortas.
GODOFREDO:
Tomou um gole do conhaque, apresentou-me a garrafa...
Tome, vai precisar... Ela esfregava suas partes no meu
ombro, no meu braço... Agarrei-a pelas nádegas... Caímos da cama... Rolamos pelo chão... Se esfregamos....
Rugimos... Meus músculos se crisparam. cederam... O
espasmo chegou, tremendo, doloroso... Desfaleci... Dormi
profundamente no tapete vermelho.
EDUARDO:
(AFETADO.) Que foi, chéri? Acordou assustadinho, é?
Levante-se, vamos para a cama. (MUDA.) O senhor tinha
acordado com uns sons estranhos, gemidos, roncos, gritinhos histéricos vindos da cama... Nela, deitados, nus, Elisete e Tim-Tim... Grudados, rebolando sobre a colcha
vermelha... Agora chega, tio, vamos descansar.
ZULMIRA:
Não!... Deixa-o contar a podridão dos quatro na cama...
Almeida quer ouvir... Não quer, Almeida?... Almeida quer
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saber dos espelhos que existiam no quarto... No teto...
Nos armários... Na penteadeira... Espelhos onde o brilho
do suor nojento dos corpos se refletia... Não quer, Almeida?
NANCI:
É... Fala, Godô!... Fala como ela lhe arrastou novamente
para a cama... Como recomeçou por sua barriga onde esfregava a testa... Como uma vaca a marrar... E foi descendo, descendo, descendo sempre... Como ficou ajoelhada no meio das suas pernas, com a cara enfurnada no
seu baixo ventre...
ZULMIRA:
Fala, Godofredo, da nova onda de desejo que possuiu
seu corpo... De como você tirou Elisete de cima de TimTim, beijou a boca dela, beijou os seios menos juvenis do
que lhe pareceram à primeira vista... Fala, Godofredo, fala... Do gozo que fremiu seu corpo... Do quase desmaio...
Fala de quando você saiu pra se lavar e ouviu no corredor
o choro dolorido de uma criança, fala.
NANCI:
É, fala da Nonouche... (MUDA.) Quelle amour d’enfant!
Veja que beleza de olhos, de cabelo, de tudo! E este corpinho!
GODOFREDO:
Ela estava no corredor... Serafita a levou pro quarto...
(AFETADO) Cet ange belle! (MUDA) Ela foi desfazendo
os laços que fechavam a camisolinha, abrindo-lhe o peito,
despindo a criança... Nonouche se entregava com os
olhões imensos, arregalados e vazios... O esqueletinho
raquítico surgiu sob a pele translúcida, violácea... Nuinha
se deixou cair para trás, abrindo as perninhas de cabrito...
NANCI:
(FALANDO AFRANCESADO.) Azor! Azor!
GODOFREDO:
Era a voz emocionada de Serafita... O cão enorme não
resistiu àquela megera... Aproximou-se com a língua pendente.
ZULMIRA:
Chega, Godofredo, já basta.
NANCI:
Chega, Godô, chega. Vamos dormir, vamos... Faz tanto
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tempo.
ZULMIRA:
Vamos dormir... Vamos, Almeida, vamos... Vamos todos
dormir, vamos.
ALMEIDA:
Não é assim... Vocês me humilharam até agora... Você
me pede desculpas, Zulmira, pede?
ZULMIRA:
Peço, mas vamos... Amanhã a gente termina de ajeitar o
vestido de Mirinha, não é Nanci?
ALMEIDA:
Se a noite for boa, amanhã ajudo vocês a terminarem o
ajeito do vestido.
NANCI:
É... Mirinha vai ficar linda... Vamos, Godô.
GODOFREDO:
Vão vocês... Vou daqui a pouco... (OS TRÊS FICAM ESPERANDO.) Por favor, vão.
ZULMIRA:
(BEIJA O MANEQUIM.) Tchau, amor. A gente espera você, Godofredo, não demora.
OS TRÊS SAEM. TEMPO.
EDUARDO:
Vocês criaram um mundo sem saída... Desde a morte de
Mirinha, a esperança da família, estão apodrecendo. Tio,
amanhã, eu vou embora dessa casa... O senhor me arruma dinheiro?
GODOFREDO:
Vai acontecer o que aconteceu nas outras vezes.
EDUARDO:
Desta vez, vou mesmo, tio.
GODOFREDO:
Não quero que você vá, Dudu... Preciso de você... Agora
sei que preciso de você.
EDUARDO:
Tenho que ir ou vou enlouquecer.. Vou ficar como vocês,
mortos. O senhor me arruma o dinheiro?
GODOFREDO:
Pra onde você vai?
EDUARDO:
Vou ficar na casa de um amigo... Até arrumar um emprego e um lugar pra morar. O senhor me arruma o dinheiro
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pra viver nos primeiros dias?
GODOFREDO:
Não se preocupe, arrumo.
TEMPO. GODOFREDO HESITA.
EDUARDO:
Eles estão esperando o senhor.
GODOFREDO:
Eu não posso, Dudu... Podem falar que foi um sonho...
Que foi bebedeira... Mas eu passei, realmente, a noite
com elas.
EDUARDO:
Deixa disso, tio... O senhor viu as sepulturas... A gente foi
ver a casa vazia que agora foi demolida... Há muito tempo
não morava ninguém lá.
GODOFREDO:
Eu encontrei com elas naquela casa, Dudu... Eu voltei ao
médico hoje... Ele tinha mandado fazer uns exames... Deu
positivo... Estou com doença venérea.
EDUARDO:
Doença venérea? O senhor deve ter contraído na casa da
Gina... Com as prostitutas.
GODOFREDO:
Nos últimos meses, antes de passar a noite com elas, só
fiz sexo aqui, dentro de casa... Foi de Serafita que peguei
essa doença... Foi dela... Preciso falar com eles... (MOSTRA UM PAPEL.) É o resultado... Estou morrendo de
vergonha... Peguei doença venérea dela... Eles não vão
me perdoar... Não vão me perdoar.
SAI. TEMPO.
EDUARDO:
Todos estão mortos... O mundo deles morreu... Sou apenas um desconforto na contramão... A última esperança
da família.
A LUZ CAI, LENTAMENTE.
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