Português
Fascículo 10
Carlos Alberto C. Minchillo
Izeti Fragata Torralvo
Marcia Maísa Pelachin
Índice
Gramática
Resumo Teórico ..................................................................................................................................1
Exercícios............................................................................................................................................4
Gabarito.............................................................................................................................................5
Literatura
Primeiras estórias, Guimarães Rosa......................................................................................................7
Grandes temas em Primeiras estórias ..................................................................................................9
Exercícios..........................................................................................................................................15
Gabarito...........................................................................................................................................16
Gramática
Resumo Teórico
Estrutura e Criação de Palavras
Objetivos
• Treinar a identificação e análise de sentido de alguns elementos mórficos (em especial, prefixos,
sufixos e radicais)
• Treinar a identificação de derivação imprópria
Conteúdo do resumo teórico
I. Estrutura de palavras
II.Criação vocabular. Conceituação e análise de alguns processos
Estrutura de palavras
Além da classificação das palavras em grupos, a morfologia também se detém na análise
da estrutura das palavras e da formação de palavras.
Ao estudar a estrutura das palavras, identificam-se os morfemas, isto é, unidades
mínimas portadoras de significado. Em “atualmente”, por exemplo, o sentido básico da palavra é
identificado no morfema “atual”; o morfema “-mente” transforma o adjetivo “atual” em advérbio. No
caso, o primeiro morfema é um radical; o segundo um afixo, especificamente um sufixo.
comportam:
Dos elementos mórficos, importa destacar alguns, em especial pelo significado que
Morfemas
Radical
Exemplos
• Consciência, ciência, onisciência são palavras
cognatas, que possuem o radical “ciência” (sabedoria,
(É responsável pelo sentido básico da
conhecimento).
palavra)
• Geologia, geografia, apogeu são palavras
cognatas, possuem o radical “geo” (terra)
Desinências
• “– s”, em nomes, é o morfema que indica plural:
carros, casas, tabus
(São responsáveis pelas flexões das
• “ – m”, em verbos, é marca de 3.a. pessoa do plural:
palavras)
mentem, falam, vendem
• “– sse – “, em verbos, é desinência de pretérito
imperfeito do subjuntivo : cantasse, vendesse, partisse
Afixos
•“in – ” indica negação, ausência: infeliz, imoral
Prefixos
• “semi –“ indica metade: semideusa, semicírculo
(afixos
que
vêm
antes
do
(São responsáveis
• “– ão” indica grau aumentativo: carrão, gatão
radical)
pela criação de
• “– dade” forma substantivos a partir de adjetivos:
palavras)
Sufixos
felicidade, beldade
(afixos que vêm após o
radical)
1
Notas
1. Como mostram os exemplos acima, conhecer radicais e afixos significa, muitas vezes, reconhecer o
significado das palavras, ainda que de modo vago.
2. Chamam-se cognatas as palavras que possuem um mesmo radical. Exemplo: desenvoltura, envolver,
desenvolvimento.
3. É importante estar atento aos afixos.
Prefixos
• Prefixos diferentes podem traduzir uma mesma idéia. Exemplo: “i – “ (prefixo latino) e “a –“ (prefixo
grego) indicam ausência, negação, privação. Exemplo: imoral, amoral.
• Mesmas letras podem identificar prefixos diferentes. Exemplo: em “injetar”, “in – “ não expressa
ausência, privação, mas movimento para dentro.
• Um mesmo prefixo pode assumir diferentes acepções: “des – “ pode indicar privação, ação contrária,
como em “desunião”, ou transformação, intensidade, como em “desenvolver”.
Sufixos
• Embora possuam uma descrição quanto ao sentido, é comum que assumam conotação afetiva,
pejorativa em contextos específicos. Exemplo: o aumentativo “– ão” pode simplesmente expressar
afetividade, quando uma tia chama o sobrinho de “molecão”.
• Em várias palavras, o sufixo perdeu o valor original. Exemplo: em “portão” o sufixo “– ão” perdeu o
valor aumentativo.
Criação vocabular. Conceituação e análise de alguns processos
A morfologia também estuda a maneira como as palavras da língua foram formadas e
como se podem formar palavras ainda hoje.
Processos de formação vocabular identificam as diversas formas que a língua apresenta
para criar palavras.
2
Processos de Formação
Conceito
Prefixal
Um afixo precede o radical. Desigual
(um único radical)
Sufixal
Há um afixo após o radical. Igualmente
Prefixal e sufixal
A palavra apresenta dois
Desigualdade
afixos: um antes do radical
e outro após.
Parassintética
Para a formação da palavra, ajoelhar
um prefixo e um sufixo
amanhecer
interdependes foram
acrescidos ao radical.
Regressiva
A palavra é formada pela
perda de morfemas finais.
Com esse processo é
comum a formação de
substantivos de origem
verbal.
Fuga (<fugir)
Ataque (<atacar)
Canto (<cantar)
Imprópria
A palavra muda de classe
gramatical sem acréscimo
ou retirada de afixos.
Seu não explodiu em
meus ouvidos!
Por justaposição
Na palavra formada, os
radicais são unidos sem
alteração fonética.
Girassol
Principais
Derivação
Composição
(dois ou mais
radicais)
Por aglutinação
Hibridismo
Siglonização
Outros
Exemplos
Pé-de-moleque
Há alteração fonética
Vinagre
quando os radicais se unem Pernalta
para formar a nova palavra.
Planalto
Os morfemas (radicais, afixos) empregados
para a formação da nova palavra têm origem
em línguas diferentes.
Goiabeira (tupi +
português)
Letras ou sílabas iniciais de uma expressão
passam a substituir a expressão toda.
BANESPA (Banco do
Estado de São Paulo)
Sociologia (latim + grego)
USP (Universidade de São
Paulo)
Abreviação
Palavra Valise
A palavra perde parte de seus elementos
(sílabas, letras).
Moto (<motocicleta)
A nova palavra é formada por “pedaços” de
outras, sem que se respeitem morfemas.
Portunhol (Português +
espanhol)
Cinema (<cinematógrafo)
Mecatrônica (mecâncica +
eletrônica)
Criação Semântica
A nova palavra resulta de um emprego
figurado, do emprego conotativo.
Rede (de computadores)
Onomatopéia
A escolha sonora da palavra procura
reproduzir o som do que é nomeado.
“Boom”
tique-taque
3
Mais do que o nome de um processo por meio do qual uma palavra foi formada,
espera-se de um estudante de nível médio que saiba identificar o sentido em que uma palavra foi
empregada. Assim, talvez se deva destacar a criação semântica e a derivação imprópria como
processos de grande produtividade na língua, uma vez que não implicam alteração mórfica, mas
criação de sentidos novos.
Exercícios
01. O prefixo que se encontra em “perímetro” está presente também em:
a. circunferência
b. hemisfério
c. hipérbole
d. supracitado
e. paradigma
02. Todas as palavras destacadas possuem a mesma relação morfológica e semântica que se encontra na
palavra destacada na frase que segue, exceto em uma das alternativas. Identifique-a.
Obs.: Todas as frases foram retiradas de Guimarães Rosa, “Sorôco, sua mãe, sua filha”.
o nenhum.”
”(...) a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras –
a. “(...) não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outroras grandezas, impossíveis.”
b. “Ele era um homenzão, brutalhudo de corpo; com a cara grande, uma barba, fiosa, encardida em
amarelo, e uns pés, com alpercatas (...)
c. “(...) era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem
jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.”
d. “A velha só estava de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes.”
e. “O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras.”
03. O sufixo indicador de diminutivo pode expressar intensidade. É o que ocorre em:
a.“Fora engaçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera
outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada.“
Mario de Andrade
b. “E, o que havia ali, era uma mulher. Era uma velha, uma velhinha – de história, de estória –
velhíssima, a inacreditável.”
Guimarães Rosa
c. “Produtos com a marca de qualidade Hi-Care. O pessoal chama de carrinho e cadeirinha. Mas é só
por força de expressão.”
Anúncio de produtos para bebês. Revista Alô Bebê.
d. “O sujeitinho de óculos começou a recitar Gustave Le Bon mas a destra espalmada do catedrático
o engasgou.”
Antônio de Alcântara Machado
e. “Eu vi nos muros de canga / A simples folhagem rasa, / A avenca úmida e humilde, / Brancos botões
pequeninos / A custo se entreabrindo (...)”
Murilo Mendes
4
04. Na frase
“O Chico Horta deperecia de não ver a moça que só aparecia aos domingos, na missa
das cinco, assim mesmo guardada pelo Cérbero paterno.” (Pedro Nava), o prefixo da palavra
deperecia possui sentido equivalente ao que se encontra em:
a. Assim que cheguei, minha mãe desfez minhas malas.
b. Carlos desapareceu sem deixar notícia.
c. Os grãos de milho foram disseminados pela terra previamente adubada.
d. O pássaro velho está a depenar-se.
e. É incontestável o desenvolvimento da informática.
05. Assinale a alternativa que contém a palavra que preenche adequadamente a lacuna do texto.
“Para esta ilha sóbria não se levará bíblia nem se carregarão discos. Algum amigo que
saiba contar histórias está naturalmente convidado. Bem como alguma amiga de voz doce ou quente,
que não abuse muito dessa prenda. Haverá pedras à mão – cascalho miúdo – que se possa lançar ao
céu, a título de advertência quando demasiada arte puser em perigo o ruminar bucólico da ilha. Não
vejo inconveniente na entrada _____________________ de jornais. Servem para embrulho, e nas
costas do noticiário político ou esportivo há sempre um anúncio de filme em reprise, invocativo, ou
qualquer vaga menção a algum vago evento que, por um obscuro mecanismo, desperte em nós
fundas e gratas emoções retrospectivas.“
Carlos Drummond de Andrade – “Divagação sobre as ilhas”
a. sub-rogada
b. sub-reptícia
c. superestimada
d. subliminar
e. superexcitante
Gabarito
01. Alternativa a.
Tanto em “perímetro” quanto em “circunferência” o prefixo tem o sentido de “ao redor
de”. Verifique o sentido dos demais prefixos: “hemisfério”: metade; “hipérbole”: posição acima;
“supracitado”: posição acima; “paradigma”: proximidade.
02. Alternativa b.
Em todas as frases, a palavra destacada possui derivação imprópria (na frase do
enunciado, o verbo foi substantivado; em “a”, o advérbio foi empregado como adjetivo; em “c”, a
preposição foi substantivada; em “d”, o advérbio foi substantivado; em “e”, o adjetivo foi
substantivado). Na alternativa b, há um neologismo formado por derivação sufixal.
03. Alternativa b.
Ratifica-se, na frase, a idéia de intensidade pela forma “velhíssima”. Na alternativa “a”, o
diminutivo é afetivo, afetuoso. Na “c” perdeu o valor de diminutivo, uma vez que “carrinho” identifica
o carrinho de bebê. Na alternativa “d”, o diminutivo é pejorativo. Em “e”, tem simples valor de
diminutivo.
5
04. Alternativa e.
Em “deperecer” e “desenvolvimento” o prefixo marca intensidade.
Em “a”, “b”, “d”, o prefixo “des-“ e “de-“ indicam movimento contrário; em “c”, o
prefixo “dis-“ indica distribuição.
05. Alternativa b.
“Sub-reptício” significa ilícito.
A descrição da ilha destaca seu caráter paradisíaco e isolado da realidade, portanto, o
jornal não seria visto como necessário ou desejado (o que exclui as opções “sub-rogada”,
“superestimada”, “superexcitante”). O jornal também não seria “subliminar”, uma vez que se tem
consciência dele.
6
Literatura
Primeiras estórias, Guimarães Rosa
As muitas vozes da geração do pós-guerra
Os anos de 40, 50 e início da década de 60 marcam um tempo de aprofundamento de
crises políticas para o brasileiros. Ainda que o fim do Estado Novo, a derrota internacional das forças
nazi-fascistas e as alianças entre as nações capitalistas pudessem ser interpretados como indicadores
de maior liberdade, o Brasil vive momentos de agitação interna, de controvérsias ideológicas e
políticas1. A discussão a respeito do modelo econômico a ser seguido e da definição das bases que
garantiriam o desenvolvimento do país divide a opinião pública e surgem propostas sintonizadas com
ideais capitalistas e socialistas. Esse clima de livre debate dominou a vida nacional e propiciou a
convivência de variadas manifestações artísticas2.
Diferentemente das gerações anteriores, os escritores do pós-guerra não se filiam a um
ideário comum. De diversos centros do país, surgem novas vozes que insistem em pronunciar de
modo particular e pessoalíssimo a interpretação que fazem do mundo. Ilustram essa diversidade a
poesia intelectualizada de João Cabral de Melo Neto, o romance intimista de Clarice Lispector e a
prosa regionalista de Guimarães Rosa. Cada um a seu modo colabora na composição do panorama
abrangente e complexo que define a chamada “geração de 45".
A voz inovadora de Guimarães Rosa
A estréia de Guimarães Rosa com
Sagarana anuncia com vigor uma revolução nos
Leia o que o próprio Guimarães Rosa fala a
conteúdos tradicionalmente abordados na
respeito de sua linguagem tão particular.
prosa regionalista, pois flagrantemente não se
reconhecem neste livro de contos sinais dos
“Escrevo, e creio que este é o meu
romances dos anos 30, quando a literatura
aparelho de controle: o idioma português, tal como
nordestina identifica-se com engajamento em
usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou
causas políticas e sociais. Na obra de
escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros idiomas.
Guimarães, a exposição da degradação das
Disso resultam meus livros, escritos em um idioma próprio,
populações sertanejas, a denúncia do descaso e
meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania
desmandos da elite brasileira, a divulgação de
da gramática e dos dicionários dos outros.”
teses ideológicas são substituídas pela delicada
paixão de contar histórias, que trazem à tona os
mistérios da alma na cadência de uma
linguagem originalmente inovadorada. A sua técnica de narrar e o estilo desestabilizam as formas
consagradas, como afirma o professor Afrânio Coutinho: “Guimarães fez ir pelos ares tudo quanto
havia de estratificado na nossa dicção literária.”
1. Encerra-se o Estado Novo com a deposição de Getúlio Vargas, em 45. General Dutra governa até 1950, quando Getúlio
retorna ao poder e tragicamente se mata em 1954. Juscelino Kubitschek toma posse em meio a descontentamentos de
militares. Em 61, Jânio Quadros renuncia após sete meses de governo; há turbulência no ambiente político e econômico e
tentativas de golpe didatorial.
2. Até o Golpe Militar de 64, que estabeleceu por mais de vinte anos uma rígida ditadura militar, podia-se discutir com
liberdade a realidade social e o destino do país.
7
Concentra-se especialmente na
“Tudo se amaciava na tristeza. Até o dia;
linguagem a novidade desse estilo que de fato
isto era: já o vir da noite. Porém, o subir da noitinha é
“faz ir para os ares” os limites das formas
sempre e sofrido assim, em toda a parte. O silêncio saía de
conhecidas. São inúmeras as ousadias:
seus guardados.”
Guimarães funde a estrutura frasal típica da
(“As margens da alegria”)
fala brasileira com vocabulário arcaico,
Observe que as aliterações e o ritmo
neológico, regional; explora intensamente
3
interno do período acentuam a tristeza de um Menino,
recursos sonoros , desconstrói frases feitas,
protagonista do conto.
reinventa comparações, enfim, concentra-se na
busca pela expressão que carregue a força dos
sentidos que quer comunicar. Desse modo, não
se pode desassociar dos conteúdos das histórias
de Guimarães o seu modo originalíssimo de contá-las.
O mundo distante da civilização
Em 62, já consagrado com sua obra-prima Grande sertão: veredas, Guimarães publica
Primeiras estórias, 21 contos que reforçam as marcas originais do regionalismo rosiano.
As narrativas se passam em paragens distantes da civilização, em lugarejos escondidos
nos Gerais, onde se abrigam personagens que de algum modo vivem carências: são pobres, doentes,
loucos, estranhos, marginalizados, mas em nenhum momento podem ser tomados como meros tipos
representativos da geografia hostil do local. Não se identificam nessas narrativas aspectos
deterministas, intenções de análise das estruturas políticas e sociais que determinam o isolamento nos
quais se encontram os personagens; ao contrário, todos os contos ressaltam situações particulares,
jeitos individuais de ser, de viver. Interessa ao autor sobretudo captar o que há na alma desses
sertanejos, aquilo que transcende os fatos e a condição material, apontando um sentido místico e
misterioso da vida humana. É por isso que se afirma que a paisagem e o homem se universalizam nos
textos de Guimarães.
O interesse por indagar o que há além do visível e explicável pela lógica se revela em
diversas narrativas de Primeiras estórias, que apresentam situações absurdas, pois não podem ser
entendidas pela racionalidade e expressam a complexidade da vida humana. Esses enigmas muitas
vezes são relacionados nos contos a forças igualmente misteriosas, incontroláveis, como intuição,
premonição, magia e fé4.
Nada acontece por acaso
Guimarães Rosa parece fazer questão de afirmar em suas histórias que uma ordem oculta
organiza o mundo e que somos todos atores de um destino que se faz cumprir. Os personagens de
Primeiras estórias sempre estão envolvidos em situações que os fazem agir meio cegamente, de modo
intuitivo, sem ter clareza do resultado de suas decisões. Na verdade, parecem ser impelidos a agir e
realizam um destino que não se faz por acaso5.
Essa crença em uma ordem controladora e velada apóia-se na idéia de que a alma é
imortal e obedece ao permanente movimento cósmico: o fim de uma vida representaria o início de um
novo ciclo, assim, a alma migraria para um corpo e se libertaria dele, de acordo com o nascimento e a
morte dos homens. Durante o período de confinamento na dimensão humana, a alma às vezes se
3. Aliterações, assonâncias, onomatopéias, rimas internas, até então explorados em versos, passam a participar da prosa,
subvertendo-se desse modo os limites da composição tradicional.
4. “A menina de lá”, “Um moço muito branco”, “A terceira margem do rio”, “O espelho”; “Nada e nossa condição”,
“Nenhum, nenhuma” são bons exemplos de narrativas que subvertem a lógica materialista cartesiana.
5. A idéia de que o destino já está determinado está presente principalmente nos contos “Seqüência”, “Fatalidade”.
8
lembraria do conhecimento acumulado em outras existências, o que possibilitaria ao homem
momentos de pura iluminação nesta vida terrena. Com efeito, pode-se associar essa concepção de
mundo às teorias platônicas da imortalidade da alma, da reminiscência, da existência dos mundos
sensível e inteligível e da busca da alma pela perfeição6.
No universo de Primeiras estórias, Guimarães Rosa nos conta variados momentos de
iluminação e deslumbramento em que os homens, os bichos se elevam à própria natureza e
inevitavelmente caminham para o aperfeiçoamento.
Grandes temas em Primeiras estórias
As surpreendentes descobertas
As margens da alegria
Experiências que inauguram novas
O Menino via, vislumbrava. Respirava
formas de se ver o mundo sustentam o eixo
muito. Ele queria poder ver ainda mais vívido – as novas
temático deste conto que abre o livro Primeiras
tantas coisas – o que para os olhos se pronunciava.
estórias. Nessa narrativa, conta-se a história de
um garoto que, pela primeira vez, viaja para um
lugar distante, em que se construía uma cidade.
Vai de avião, acompanhado pelo tio e pela tia. O deslumbramento inicial se dá pela visão cartográfica
que o garoto experimenta da janelinha da aeronave. O estado de excitação aumenta quando chegam
à grande cidade em obras e o menino se depara com inúmeras novidades.
Especialmente, uma imagem paralisa o Menino – um peru imperial belíssimo. Mas,
impedido de desfrutar a beleza daquela ave extraordinária, o menino é levado a um passeio de jipe
pelos campos. Durante o passeio encanta-se com tantas flores e bichos desconhecidos. Retornam para
o almoço e ansiosamente o menino procura pelo peru que o encantara. Em sobressalto, descobre que
a bela ave fora morta para ser servida na festa de aniversário de um engenheiro, trabalhador do local.
Abalado com a morte do peru, o
Menino não encontra graça nem alívio nos
lugares para onde o levam passear durante a
tarde. Quando retornam à noitinha, o garoto vê
no terreirinho da casa uma cena chocante: um
peru ferozmente bicava a cabeça do peru
morto, que fora servido na festa. Tomado pela
tristeza, o Menino olha para a mata e vê a luz
de um vaga-lume e se encanta com a delicadeza
do brilho daquele inseto.
“.. o peru até ali viera, certo, atraído.
Movia-o um ódio. Pegava de bicar, feroz, aquela outra
cabeça. O menino não entendia. A mata, as mais negras
árvores, eram um montão demais; o mundo.
Trevava.
Voava, porém, a luzinha verde, vindo,
mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume,
sim era lindo! – tão pequenino, no ar, um instante, só,
alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a
Alegria.”
Esse clima de contrates, de
alternância de alegrias/deslumbramentos e
tristezas/sofrimentos traduzem as experiências
inéditas vividas pelo personagem e podem ser
tomadas como descobertas necessárias para o
amadurecimento psicológico. Na verdade, são vivências que equivalem a ritos que promovem a
passagem para um estado menos inocente.
6. A idéia de que a alma lembra experiências acumuladas em seu eterno retorno à dimensão humana é evidente no conto
“Seqüência”.
9
Os cimos
O último conto do livro retoma o
assunto do primeiro. O mesmo Menino viaja
para a mesma cidade em construção.
Diferentemente da primeira vez, o garoto não
parte com alegria, na verdade, sente-se um
tanto solitário, temeroso, porque não se tratava
de um passeio, ia com o tio, pois a mãe estava
doente e não podia cuidar dele. Para
confortá-lo, a tia lhe entrega o brinquedo
favorito: um macaquinho de pano, de
chapeuzinho.
O pobre macaquinho, tão pequeno,
sozinho, tão sem mãe; pegava nele, no bolso, parecia que
o macaquinho agradecia, e, lá dentro, no escuro, chorava.
É interessante observar que, por meio da
onisciência do narrador, percebe-se que o menino
transfere para o brinquedo a sua própria tristeza, receio,
insegurança.
Durante a viagem, o menino
“Mas o Menino em seu mais forte coração
permanece triste, sentindo vagos remorsos
declarava,
só:
que
a Mãe tinha de ficar boa, tinha de ficar
por não ter aproveitado melhor a companhia
salva!
da mãe, nos tempos em que ela não estava
Esperava o tucano, que chegava, a justo,
doente. Essa permanente solidão e tristeza
a-tempo, a-ponto, às seis-e-vinte da manhã; ficava, de
são inesperadamente suavizadas num
arvoragem, na copa da tucaneira, fruticando as frutas..”
momento em que o Menino vê no alto de
uma árvore um tucano alimentando-se de
Os adjuntos adverbias, os neologismos e a
frutinhas. Encanta-lhe especialmente o
carga sonora contribuem para sugerir as emoções do Menino.
movimento e as cores do pássaro e uma
intensa alegria toma conta do garoto. Nas
madrugadas seguintes, espera
silenciosamente a vinda do belo tucano para poder aproveitar dos encantamentos que a ave lhe
proporcionava. Em todos esses encontros o garoto dedica as belas imagens e as intensas sensações
para a mãe distante. Repetem-se esses encontros até o momento em que chega um telegrama
anunciando que a mãe estava curada.
Na viagem de volta a casa, o
Menino sente-se feliz e ao mesmo tempo
saudoso por saber que não mais encontraria o
belo tucano. Procura no bolso o macaquinho e
se dá conta de que o perdera. Vive instantes de
confusão: sente ao mesmo tempo alegria,
saudade, tristeza, felicidade, sentimentos
ambíguos, contraditórios e, meio
intuitivamente, percebe que a vida é
exatamente multiplicidade, contradição,
ambigüidade e, sobretudo, transitoriedade.
Parece ter aprendido que é possível resistir aos
sofrimentos que a vida proporciona,
transformando-os harmoniosamente em
energia para mover a própria vida.
10
Não, o macaquinho não estava perdido, no
sem-fundo escuro do mundo, nem nunca. Decerto, ele só
passeava lá, porventura e porvindouro, na outra-parte,
aonde as pessoas e as coisas sempre iam e voltavam. O
Menino sorriu do que sorriu, conforme de repente se
sentia: para fora do caos pré-inicial, feito o desenglobar-se
de uma nebulosa.
Era o inesquecível de-repente, de que podia traspassar-se, e a calma, inclusa. Durou um nem-nada,
como a palha se desfaz e, no comum na gente não cabe:
paisagem, e tudo, fora das molduras.
Nesse trecho, o narrador revela sua
onisciência seletiva, pois adota a perspectiva do menino e
inclui-se na narrativa. Em termos de linguagem, o discurso
indireto livre e expressões ambíguas (“na gente”) marcam
a ambigüidade do foco narrativo.
Nenhum, nenhuma
Neste conto, apresenta-se um
narrador-personagem que se esforça em
relembrar uma experiência de sua infância, mas
que não consegue compor integralmente todas
as cenas, os detalhes dessa vivência e, por isso,
só tem contato com elementos esgarçados de
memória, o que cria uma atmosfera de
imprecisão e de incertezas, próprias de quem se
esforça por recuperar momentos longínquos do
passado. Esse esforço determina dois planos na
narrativa: o do passado (infância) e o do
presente (memória) que são diferenciados
inclusive tipograficamente, no texto impresso.
A moça tinha um leque? O Moço
conjrava-a, suspensos olhos. A Moça disse ao moço:
– “Você ainda não sabe sofrer..” – e ela tremia como os
ares azuis. Tenho de me lembrar. O passado é que veio a
mim, como uma nuvem, vem para ser reconhecido:
apenas, não estou sabendo decifrá-lo.”
O esforço do narrdor-personagem
concentra-se em relembrar a experiência infantil, na
tentativa de reviver as intensas descobertas daqueles dias
em que se hospedara em uma fazenda.
Quando criança, o Menino estivera hospedado por vários dias numa fazenda e vira um
casal de namorados ter que se separar porque a moça não podia abandonar uma velhinha que parecia
teimar em viver, a despeito de sua velhice e doença. Observando os olhares apaixonados desse casal,
o garoto encanta-se com a beleza da moça, sentindo até mesmo raiva e ciúmes do namorado. Aquele
amor tão intenso que percebia no jovem casal o fazia pensar que deveria ser perpetuado nas relações
e não abrandado pelas tarefas diárias, como parecia ter ocorrido com o amor que outrora unira os
seus pais. Todas essas percepções contribuem para que o Menino descubra a diversidade do
sentimento amoroso, ampliando pela experiência o seu conhecimento sobre a vida7, e promovem
aprendizagem, amadurecimento.
Tensão e Violência
Famigerado
A narrativa gira em torno do esclarecimento do significado da palavra “famigerado”,
ouvida por Damázio da Siqueiras, jagunço valentão, que suspeita ter sido ofendido por um
funcionário do governo. Como não soubesse se era realmente um insulto, não respondera de pronto à
provável ofensa e fora pedir tradução ao farmacêutico da cidadezinha.
Essa questão banal cria um clima de apreensão e de suspense, pois se espera para
qualquer momento uma reação violenta do brutal Damázio. No entanto, essa expectativa é frustrada,
porque com muita habilidade e intuitivamente o farmacêutico explica o significado de famigerado,
entretanto omite o provável sentido em que foi dita pelo tal funcionário. Restringe-se a dizer que
“famigerado é inóxio, é célebre, notório, notável”, sem fazer alusão ao sentido pejorativo, consagrado
pelo uso popular – “malfeitor”, “de má sina”. O jagunço se dá por satisfeito e uma desgraça foi
evitada.
à narrativa.
O clima de suspense, o desfecho surpreendente e bem humorado dão um tom anedótico
7. A lembrança do narrador-personagem traz à tona um momento de profunda compreensão, iluminação, vivido pelo
Menino. Simbolicamente, é possível associar essa experiência às teorias de Platão, no sentido de que, nos dias em que o
garoto passara na fazenda, alcançara um estado de luz e perfeição, próprios de quem em alguns relances tem contato
com o mundo harmonioso das idéias puras: o mundo inteligível.
11
Os irmãos Dagobé
Este é um conto que se assemelha a “Famigerado” não só por tratar da brutalidade e
violência, mas principalmente pela estrutura da narrativa. Cria-se desde o início uma atmosfera de
suspense de perigo próximo e inevitável e, ao final, essa tensão é negada por algo inesperado e de
certo modo cômico8.
Um narrador de 3.a pessoa, adotando a perspectiva de testemunha dos fatos, conta a
tensão que se viveu no velório de Damastor Dagobé, o mais velho de quatro irmãos perversos. A
tensão se devia à espera de uma desgraça inevitável: a vingança do assassino de Damastor.
O tempo vai passando e as pessoas presentes no velório vão especulando qual seria o
cruel castigo que esperava Liojorge, homem franzino, pacato, amado por todos que, ameaçado de ter
as orelhas cortadas, inexplicavelmente, em poder de uma arma de fogo, dispara contra o peito de
facínora Damastor.
Essa atmosfera de preocupação e
expectativa aumenta com os pedidos
A gente espiava os Dagobés, aqueles três
descabidos do assassino: inicialmente manda
pestanejares. Só: – ‘Dei’stá’... – O Dismundo dizia. O
um mensageiro dizer aos irmãos do finado que
Derval: – ‘Se esteja a gosto!’– hospedoso, a casa honrava.
matara sem intenção, agira em autodefesa,
Severo, em si, enorme o Doricão. Só fez não dizer. Subiu
logo depois, envia outro recado, dispunha-se a
na seriedade. De receio, os circunstantes toamvam mais
carregar o caixão. O maior estranhamento
cachaça queimada.
advém da reação dos três irmãos que parecem
É interessante notar que a tensão é
inabaláveis, compreensivos, gentis e consentem
reforçada pelo narrador-testemunha.
os desejos do assassino. A desconfiança cresce,
pois as pessoas que testemunham tamanho
disparate imaginam tratar-se de um disfarce
para uma tragédia nunca vista. Logo após o enterro, ainda ao lado da sepultura, o silêncio é quebrado
pela voz grave de Doricão : “— Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso Irmão é
que era um diabo de danado...". O impacto provocado pela declaração de Doricão emudece todos os
presentes e encerra-se o conto.
A história dos Dagobé traduz um dos conceitos freqüentes em Primeiras estórias: o de
que inevitavelmente o homem caminha em direção ao aperfeiçoamento, tende a abandonar a
brutalidade, a violência, ignorância em direção à serenidade e sabedoria9.
Amor e Destino
Luas-de-mel
A narrativa deste conto pode ser interpretada como ilustração para a idéia de que em
meio a situações corriqueiras, banais, é possível viver fortes emoções e grandes amores. É o que ocorre
com Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza, velho casal acostumado com a vida pacata da fazenda
Santa-Cruz-da-Onça.
A pedido do amigo Seo Seotaziano, Jorge Norberto e Sa-Maria Andreza acolhem dois
jovens que, sem consentimento dos pais, haviam fugido para casarem-se. Os hóspedes clandestinos
alteram a rotina dos donos da fazenda, que se encantam com a beleza da noiva, com o porte garboso
8. Pode-se afirmar que esse tipo de narrativa explora o que se chama de “anticlímax”.
9. Ainda que se assemelhe a uma anedota, o conto não se caracteriza pela superficialidade, na verdade, traduz de modo
bem humorado uma história que confirma uma concepção filosófica.
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do rapaz e sobretudo se comovem com a afeição que um manifesta ao outro. Proteção ao jovem casal
e preparativos para a festa passam a ser as preocupações de Jorge Norberto e Sa-Maria Andreza.
No dia das núpcias, o fazendeiro
descobre que a noiva era a filha do Major
“Eu, feliz, olhei minha Sa-Maria Andreza;
Dioclécio, homem conhecido pelo seu caráter
fogo de amor verbigrácia. Mão na mão, eu lhe dizendo –
violento e rude. Mesmo temendo represálias,
na outra o rifle empunhado –: — ‘Vamos dormir
Jorge Norberto mantém a proteção aos noivos e
abraçados..."
o casamento é realizado sob clima de
expectativa e tensão. No dia seguinte,
Observe que o amor do casal maduro é
inesperadamente o irmão de Sa-Maria chega à
retratado numa atmosfera de proteção e serenidade.
fazenda com a notícia supreendente de que o
pai queria abençoar aquele casamento feito em
desobediência e para isso propunha que realizassem, na fazenda paterna, um novo casamento. Os
jovens partem felizes em lua-de-mel para a grande festa preparada pelo Major Dioclécio e Jorge
Norberto e Sa-Maria, reconfortados pelo antigo amor, sentem-se também em lua-de-mel.
Substância
Por piedade e a pedido de uma velha empregada de sua fazenda, Sionésio admite abrigar
Maria Exita em suas terras. Como era filha de pai leproso e de mãe leviana, irmã de assassino, a moça
era marginalizada, no entanto, parecia conformar-se com a trágica sina e de bom grado aceita o mais
duro trabalho que lhe ofereceram em troca de moradia: quebrar blocos de mandioca com as próprias
mãos até obter polvilho. Entrega-se ao árduo trabalho com dedicação extrema e certa vez,
inesperadamente, chama a atenção do patrão que se encanta perdidamente pela bela Maria. A força
dessa paixão advém do duro trabalho que confere à moça ao mesmo tempo sofrimento e beleza
contagiante. Sionésio não resiste, declara-se à Maria que prontamente confirma sentir o mesmo amor.
O tema da resignação e do amor sublime, puro, incondicional, fazem pensar que a
paciência e a resistência ao sofrimento determinam a elevação da alma10, mas também pode ser
associado à idéia da predestinação. O fato de Sionésio acolher uma moça marginalizada, marcada por
tantas desgraças familiares, atendendo sem nenhum questionamento o pedido de uma velha
empregada, sugere que o fazendeiro parece ter sido dominado por uma força que o impeliu a agir
meio inconscientemente, como se obedecesse a uma ordem misteriosa que fizesse o destino
cumprir-se11.
Seqüência
Com saudades de sua
terra natal, uma vaquinha foge da
fazenda de seo Rigério e é
perseguida pelo filho do
fazendeiro, um rapaz que enfrenta
sérios perigos na tentativa de
recuperar o animal.
“O rapaz, no vão do mundo, assim vocado e ordenado.
Ele agora se irritava. Pensou de arrepender caminho, suspender aquilo
para mais tarde. Pensou palavra. O estúpido em que se julgava.
Desanimadamente, ele, malandante, podia tirar atrás. Aonde um animal o
levava? O imcomeçado, o empatoso, o desnorte, o necessário. Voltasse
sem ela, passava vergonha. Por que tinha assim tentado? (...) Transcendia
ao que se desatinava.”
A passagem é mais uma ilustração para a crença na
predestinação, porque, mesmo sem compreender bem porque, o rapaz
não desiste do caminho, e atordoadamente cumpre o caminho indicado
pelo animal.
10.Reconhecem-se no comportamento de Maria Exita princípios do Estoicismo, doutrina filosófica grega, cuja principal tese
é a de que o ideal da vida humana é buscar a harmonia perfeita com a natureza, o domínio das próprias paixões, a
resignação diante de todos os sofrimento até que se alcance a mais completa impassibilidade. O amor de Sionésio seria a
“recompensa”, a elevação para uma alma purificada pelo próprio sofrimento.
11.Nota-se mais uma vez a concepção de imortalidade da alma, expressa na “Teoria das reminiscências”, de Platão.
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O moço obedece a uma determinação que não entende bem, chega até mesmo a
questionar porque incansavelmente corre atrás da vaquinha que, em sua decisão de retornar à
Fazenda Pãodolhão, não cede aos obstáculos e o obriga a segui-la. Num determinado momento, a
vaquinha invade as terras do Major Quitério, o rapaz atordoadamente acompanha o animal,
ultrapassam porteiras, currais, avistam luzes na casa do dono das terras. Inexplicavelmente o moço
entra casa adentro, sobe uma escada e depara-se com as quatro filhas do Major. Encanta-se com uma
delas, fixa o olhar na bela moça, esquece-se da vaquinha fugitiva e é tomado por um sentimento de
extraordinária felicidade: inesperadamente encontrara o verdadeiro amor. A vaquinha, liberta de seu
perseguidor segue em direção a sua felicidade.
A narrativa do conto retoma a crença na predestinação e na recompensa que advém da
resistência ao sofrimento: o rapaz e a vaquinha superam obstáculos, enfrentam sérios perigos e são
recompensados, pois o moço encontra o verdadeiro amor, a vaquinha, a liberdade12.
Fatalidade
Um delegado de polícia, homem de vasta cultura e fatalista por crença, é interrompido
no seu exercício de pontaria por um caipira franzino, frágil, de apelido Zé Centeralfe que pedia auxílio
para livrar sua esposa do assédio do famoso bandido Herculinão. Ouvindo a queixa, o delegado olha
para uma das carabinas penduradas na parede, como se sugerisse algo ao o homem ofendido.
Centralfe entende a mensagem e sai da delegacia agradecido. Pouco tempo depois, o delegado e o
narrador-testemunha partem em busca do bandido, quando o encontram, o delegado dispara um
tiro no meio dos olhos de Herculinão, no mesmo momento, Centeralfe acerta uma bala no coração do
homem desrespeitoso. O delegado declara que a causa do assassinato fora a “resistência à prisão” e
convida Centralfe para o almoço.
Sob a perspectiva do
delegado, a morte brutal de Herculinão
Socó é conseqüência de seu
comportamento condenável e, como
autoridade da cidadezinha, coube a ele
ser o meio pelo qual o destino se fez
realizar. Não há motivos para culpa, tudo
não passou de uma fatalidade.
“... o destino são componentes consecutivas –
al’me das circunstâncias gerais de pessoa, tempo e lugar... e o
karma...”
O delegado emprega o termo “karma”, que
significa as adversidades por que temos que passar como
conseqüência dos atos praticados nesta ou em outras vidas, para
justificar que o homem não escapa das determinações do destino.
12.É interessante observar que para Guimarães Rosa os animais estão sujeitos às mesmas leis que organizam a vida humana.
O comportamento estóico da vaquinha é recompensado com a sua libertação.
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Exercícios
Testes sobre seus conhecimentos sobre Primeiras estórias, de Guimarães Rosa
01. Leia o comentário a seguir para responder ao teste.
“Nas histórias de Rosa os viventes sonham, e o narrador segue-os de perto e de dentro,
confiante em que um dia desejo e ventura poderão dar-se as mãos, pois afinal Deus tarda, mas não
falha.”
Alfredo Bosi, Céu,inferno
O conto de Primeiras estórias, que poderia ser tomado como exemplo da afirmação do professor
Alfredo Bosi é
a. ”Famigerado”.
b. ”Substância”.
c. ”Os irmãos Dagobé”.
d. ”Luas-de-mel”.
e. ”Nenhum, nenhuma”.
02. Do ponto de vista da composição, o conto “Nenhum, nenhuma” apresenta dois eixos bem distintos: o
passado e o presente. Esses dois planos temporais evidenciam:
a. a atmosfera obscura, incompreensível, representada pela impossibilidade de se restaurar no
presente as experiências do passado.
b. a oposição que se estabelece entre a infância, tempo de intensas descobertas, e o presente,
caracterizado pela vida monótona e entediante do narrador-personagem adulto.
c. os primeiros momentos em que o Menino se dá conta da infelicidade que caracteriza a vida dos
seus pais.
d. a crença de que, ao lembrarmos daquilo que está esquecido, restauramos as vivências, como se
pudéssemos revivê-las e entender melhor aquilo que somos.
e. a incapacidade de se restaurar no presente as emoções do passado, o que inevitavelmente gera
angústia, perturbação.
03. No conto “Seqüência”, a vaquinha assume um caráter simbólico para o destino do filho de seo
Rigério e da filha do Major Quitério. Assinale a alternativa que caracterize esse caráter.
a. A vaca tem a incumbência de revelar ao rapaz que é necessário enfrentar o desconhecido para se
encontrar a felicidade.
b. O animal representa o meio para realização do destino reservado aos dois jovens.
c. A fuga da vaca apressou o destino já sabido pelos amantes.
d. O acaso, o imponderável é representado pela determinação do animal que acidentalmente promove
o encontro dos jovens.
e. O animal é somente um pretexto para que o jovem rapaz abandone a casa paterna e encontre a sua
amada.
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04. Nos textos de Primeiras estórias, com freqüência, o narrador sintetiza por meio de frases genéricas
suas reflexões filosóficas, criando o que se chama de máximas ou aforismos. Assinale a única
alternativa em que esse procedimento não se verifica.
a. “A vida, mesmo, nunca parava.” (“Os cimos”)
b. “Mas a gente nunca se provê segundo garantias perpétuas.” (“Substância”)
c. “Tudo não é escrito e previsto?” (“Fatalidade”).
d. “A gente cresce, sem saber para onde.” (“Nenhum, nenhuma”)
e. “A vida tem poucas possibilidades.” (“Fatalidade”).
Leia o trecho para responder ao teste 05.
“O assombrável! Iam-se e vinham-se, no estar da noite, e: o que tratavam no propor, era
sóa a respeito do rapaz Liojorge, criminal de legítima defesa, por mão de quem o Dagobé fizera
passagem daqui. Sabia-se já o quê, entre os velantes; sempre alguém, a pouco e pouco, passava
palavra. O Liojorge, sozinho em sua morada, sem companheiros, se doidava? Decerto, não tinha a
experiência de se aproveitar para escapar, o que não adiantava – fosse aonde fosse, cedo os três o
agarravam. Inútil resistir, inútil fugir, inútil tudo.”
05. Em relação a perspectiva adotada pelo narrador do trecho, pode-se afirmar que:
a. ora assume a perspectiva de narrador-observador, distanciado dos fatos que narra, ora adota a
visão do personagem Liojorge, assassino de Damastor.
b. o narrador-observador não varia sua perspectiva, apenas inclui pensamentos que suspeita ter o
assassino de Damastor.
c. mescla a sua voz e à do personagem, não sendo possível a distinção entre a fala do narrador e a do
personagem.
d. associam-se as perspectivas do narrador-testemunha, que manifesta suas impressões, com a do
personagem Liojorge.
e. o narrador adota o discurso indireto livre e por isso não se pode distinguir a voz do narrador e dos
personagens.
Gabarito
01. Alternativa b.
O conto ”Substância” pode ser tomado como exemplo da idéia de que o sofrimento, o
desamparo, o destino infeliz é inevitavelmente alterado. É o que ocorre com Maria Exita, moça que,
após intenso sofrimento, tem a condição de vida completamente modificada pelo amor de seu patrão
Sionésio.
02. Alternativa d.
O tema da recuperação da memória é o que move a narrativa de “Nenhum, nenhuma” e
reflete a idéia de que a recomposição das experiências do passado, ainda que de modo confuso,
possibilita o entendimento do que fomos e do que somos. 03. No conto “Seqüência”, a vaquinha
assume um caráter simbólico para o destino do filho de seo Rigério e da filha do Major Quitério.
Assinale a alternativa que caracterize esse caráter.
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03. Alternativa b.
Guimarães Rosa no conto “Seqüência” ilustra a tese da predestinação. Guiado pelo
instinto da vaquinha, o jovem rapaz, sem saber, vai em direção à felicidade, obedecendo ao princípio
de que os seres interagem cegamente, não sabendo cada um de que modo influencia na realização do
destino dos outros.
04. Alternativa c.
Os aforismos têm a função de sintetizar um conceito, uma idéia genérica a respeito da
vida. A afirmação “Tudo não é escrito e previsto?” expressa uma dúvida particular do personagem,
não constitui, portanto, uma máxima.
05. Alternativa d.
Um procedimento comum nos textos de Guimarães Rosa é a polifonia, criada pela
variação da perspectiva adotada pelo narrador. No caso, associam-se a vozes do narrador-testemunha,
participante da cena, e a perspectiva de Liojorge, assassino de Damastor.
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