Português Fascículo 10 Carlos Alberto C. Minchillo Izeti Fragata Torralvo Marcia Maísa Pelachin Índice Gramática Resumo Teórico ..................................................................................................................................1 Exercícios............................................................................................................................................4 Gabarito.............................................................................................................................................5 Literatura Primeiras estórias, Guimarães Rosa......................................................................................................7 Grandes temas em Primeiras estórias ..................................................................................................9 Exercícios..........................................................................................................................................15 Gabarito...........................................................................................................................................16 Gramática Resumo Teórico Estrutura e Criação de Palavras Objetivos • Treinar a identificação e análise de sentido de alguns elementos mórficos (em especial, prefixos, sufixos e radicais) • Treinar a identificação de derivação imprópria Conteúdo do resumo teórico I. Estrutura de palavras II.Criação vocabular. Conceituação e análise de alguns processos Estrutura de palavras Além da classificação das palavras em grupos, a morfologia também se detém na análise da estrutura das palavras e da formação de palavras. Ao estudar a estrutura das palavras, identificam-se os morfemas, isto é, unidades mínimas portadoras de significado. Em “atualmente”, por exemplo, o sentido básico da palavra é identificado no morfema “atual”; o morfema “-mente” transforma o adjetivo “atual” em advérbio. No caso, o primeiro morfema é um radical; o segundo um afixo, especificamente um sufixo. comportam: Dos elementos mórficos, importa destacar alguns, em especial pelo significado que Morfemas Radical Exemplos • Consciência, ciência, onisciência são palavras cognatas, que possuem o radical “ciência” (sabedoria, (É responsável pelo sentido básico da conhecimento). palavra) • Geologia, geografia, apogeu são palavras cognatas, possuem o radical “geo” (terra) Desinências • “– s”, em nomes, é o morfema que indica plural: carros, casas, tabus (São responsáveis pelas flexões das • “ – m”, em verbos, é marca de 3.a. pessoa do plural: palavras) mentem, falam, vendem • “– sse – “, em verbos, é desinência de pretérito imperfeito do subjuntivo : cantasse, vendesse, partisse Afixos •“in – ” indica negação, ausência: infeliz, imoral Prefixos • “semi –“ indica metade: semideusa, semicírculo (afixos que vêm antes do (São responsáveis • “– ão” indica grau aumentativo: carrão, gatão radical) pela criação de • “– dade” forma substantivos a partir de adjetivos: palavras) Sufixos felicidade, beldade (afixos que vêm após o radical) 1 Notas 1. Como mostram os exemplos acima, conhecer radicais e afixos significa, muitas vezes, reconhecer o significado das palavras, ainda que de modo vago. 2. Chamam-se cognatas as palavras que possuem um mesmo radical. Exemplo: desenvoltura, envolver, desenvolvimento. 3. É importante estar atento aos afixos. Prefixos • Prefixos diferentes podem traduzir uma mesma idéia. Exemplo: “i – “ (prefixo latino) e “a –“ (prefixo grego) indicam ausência, negação, privação. Exemplo: imoral, amoral. • Mesmas letras podem identificar prefixos diferentes. Exemplo: em “injetar”, “in – “ não expressa ausência, privação, mas movimento para dentro. • Um mesmo prefixo pode assumir diferentes acepções: “des – “ pode indicar privação, ação contrária, como em “desunião”, ou transformação, intensidade, como em “desenvolver”. Sufixos • Embora possuam uma descrição quanto ao sentido, é comum que assumam conotação afetiva, pejorativa em contextos específicos. Exemplo: o aumentativo “– ão” pode simplesmente expressar afetividade, quando uma tia chama o sobrinho de “molecão”. • Em várias palavras, o sufixo perdeu o valor original. Exemplo: em “portão” o sufixo “– ão” perdeu o valor aumentativo. Criação vocabular. Conceituação e análise de alguns processos A morfologia também estuda a maneira como as palavras da língua foram formadas e como se podem formar palavras ainda hoje. Processos de formação vocabular identificam as diversas formas que a língua apresenta para criar palavras. 2 Processos de Formação Conceito Prefixal Um afixo precede o radical. Desigual (um único radical) Sufixal Há um afixo após o radical. Igualmente Prefixal e sufixal A palavra apresenta dois Desigualdade afixos: um antes do radical e outro após. Parassintética Para a formação da palavra, ajoelhar um prefixo e um sufixo amanhecer interdependes foram acrescidos ao radical. Regressiva A palavra é formada pela perda de morfemas finais. Com esse processo é comum a formação de substantivos de origem verbal. Fuga (<fugir) Ataque (<atacar) Canto (<cantar) Imprópria A palavra muda de classe gramatical sem acréscimo ou retirada de afixos. Seu não explodiu em meus ouvidos! Por justaposição Na palavra formada, os radicais são unidos sem alteração fonética. Girassol Principais Derivação Composição (dois ou mais radicais) Por aglutinação Hibridismo Siglonização Outros Exemplos Pé-de-moleque Há alteração fonética Vinagre quando os radicais se unem Pernalta para formar a nova palavra. Planalto Os morfemas (radicais, afixos) empregados para a formação da nova palavra têm origem em línguas diferentes. Goiabeira (tupi + português) Letras ou sílabas iniciais de uma expressão passam a substituir a expressão toda. BANESPA (Banco do Estado de São Paulo) Sociologia (latim + grego) USP (Universidade de São Paulo) Abreviação Palavra Valise A palavra perde parte de seus elementos (sílabas, letras). Moto (<motocicleta) A nova palavra é formada por “pedaços” de outras, sem que se respeitem morfemas. Portunhol (Português + espanhol) Cinema (<cinematógrafo) Mecatrônica (mecâncica + eletrônica) Criação Semântica A nova palavra resulta de um emprego figurado, do emprego conotativo. Rede (de computadores) Onomatopéia A escolha sonora da palavra procura reproduzir o som do que é nomeado. “Boom” tique-taque 3 Mais do que o nome de um processo por meio do qual uma palavra foi formada, espera-se de um estudante de nível médio que saiba identificar o sentido em que uma palavra foi empregada. Assim, talvez se deva destacar a criação semântica e a derivação imprópria como processos de grande produtividade na língua, uma vez que não implicam alteração mórfica, mas criação de sentidos novos. Exercícios 01. O prefixo que se encontra em “perímetro” está presente também em: a. circunferência b. hemisfério c. hipérbole d. supracitado e. paradigma 02. Todas as palavras destacadas possuem a mesma relação morfológica e semântica que se encontra na palavra destacada na frase que segue, exceto em uma das alternativas. Identifique-a. Obs.: Todas as frases foram retiradas de Guimarães Rosa, “Sorôco, sua mãe, sua filha”. o nenhum.” ”(...) a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras – a. “(...) não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outroras grandezas, impossíveis.” b. “Ele era um homenzão, brutalhudo de corpo; com a cara grande, uma barba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com alpercatas (...) c. “(...) era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.” d. “A velha só estava de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes.” e. “O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras.” 03. O sufixo indicador de diminutivo pode expressar intensidade. É o que ocorre em: a.“Fora engaçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada.“ Mario de Andrade b. “E, o que havia ali, era uma mulher. Era uma velha, uma velhinha – de história, de estória – velhíssima, a inacreditável.” Guimarães Rosa c. “Produtos com a marca de qualidade Hi-Care. O pessoal chama de carrinho e cadeirinha. Mas é só por força de expressão.” Anúncio de produtos para bebês. Revista Alô Bebê. d. “O sujeitinho de óculos começou a recitar Gustave Le Bon mas a destra espalmada do catedrático o engasgou.” Antônio de Alcântara Machado e. “Eu vi nos muros de canga / A simples folhagem rasa, / A avenca úmida e humilde, / Brancos botões pequeninos / A custo se entreabrindo (...)” Murilo Mendes 4 04. Na frase “O Chico Horta deperecia de não ver a moça que só aparecia aos domingos, na missa das cinco, assim mesmo guardada pelo Cérbero paterno.” (Pedro Nava), o prefixo da palavra deperecia possui sentido equivalente ao que se encontra em: a. Assim que cheguei, minha mãe desfez minhas malas. b. Carlos desapareceu sem deixar notícia. c. Os grãos de milho foram disseminados pela terra previamente adubada. d. O pássaro velho está a depenar-se. e. É incontestável o desenvolvimento da informática. 05. Assinale a alternativa que contém a palavra que preenche adequadamente a lacuna do texto. “Para esta ilha sóbria não se levará bíblia nem se carregarão discos. Algum amigo que saiba contar histórias está naturalmente convidado. Bem como alguma amiga de voz doce ou quente, que não abuse muito dessa prenda. Haverá pedras à mão – cascalho miúdo – que se possa lançar ao céu, a título de advertência quando demasiada arte puser em perigo o ruminar bucólico da ilha. Não vejo inconveniente na entrada _____________________ de jornais. Servem para embrulho, e nas costas do noticiário político ou esportivo há sempre um anúncio de filme em reprise, invocativo, ou qualquer vaga menção a algum vago evento que, por um obscuro mecanismo, desperte em nós fundas e gratas emoções retrospectivas.“ Carlos Drummond de Andrade – “Divagação sobre as ilhas” a. sub-rogada b. sub-reptícia c. superestimada d. subliminar e. superexcitante Gabarito 01. Alternativa a. Tanto em “perímetro” quanto em “circunferência” o prefixo tem o sentido de “ao redor de”. Verifique o sentido dos demais prefixos: “hemisfério”: metade; “hipérbole”: posição acima; “supracitado”: posição acima; “paradigma”: proximidade. 02. Alternativa b. Em todas as frases, a palavra destacada possui derivação imprópria (na frase do enunciado, o verbo foi substantivado; em “a”, o advérbio foi empregado como adjetivo; em “c”, a preposição foi substantivada; em “d”, o advérbio foi substantivado; em “e”, o adjetivo foi substantivado). Na alternativa b, há um neologismo formado por derivação sufixal. 03. Alternativa b. Ratifica-se, na frase, a idéia de intensidade pela forma “velhíssima”. Na alternativa “a”, o diminutivo é afetivo, afetuoso. Na “c” perdeu o valor de diminutivo, uma vez que “carrinho” identifica o carrinho de bebê. Na alternativa “d”, o diminutivo é pejorativo. Em “e”, tem simples valor de diminutivo. 5 04. Alternativa e. Em “deperecer” e “desenvolvimento” o prefixo marca intensidade. Em “a”, “b”, “d”, o prefixo “des-“ e “de-“ indicam movimento contrário; em “c”, o prefixo “dis-“ indica distribuição. 05. Alternativa b. “Sub-reptício” significa ilícito. A descrição da ilha destaca seu caráter paradisíaco e isolado da realidade, portanto, o jornal não seria visto como necessário ou desejado (o que exclui as opções “sub-rogada”, “superestimada”, “superexcitante”). O jornal também não seria “subliminar”, uma vez que se tem consciência dele. 6 Literatura Primeiras estórias, Guimarães Rosa As muitas vozes da geração do pós-guerra Os anos de 40, 50 e início da década de 60 marcam um tempo de aprofundamento de crises políticas para o brasileiros. Ainda que o fim do Estado Novo, a derrota internacional das forças nazi-fascistas e as alianças entre as nações capitalistas pudessem ser interpretados como indicadores de maior liberdade, o Brasil vive momentos de agitação interna, de controvérsias ideológicas e políticas1. A discussão a respeito do modelo econômico a ser seguido e da definição das bases que garantiriam o desenvolvimento do país divide a opinião pública e surgem propostas sintonizadas com ideais capitalistas e socialistas. Esse clima de livre debate dominou a vida nacional e propiciou a convivência de variadas manifestações artísticas2. Diferentemente das gerações anteriores, os escritores do pós-guerra não se filiam a um ideário comum. De diversos centros do país, surgem novas vozes que insistem em pronunciar de modo particular e pessoalíssimo a interpretação que fazem do mundo. Ilustram essa diversidade a poesia intelectualizada de João Cabral de Melo Neto, o romance intimista de Clarice Lispector e a prosa regionalista de Guimarães Rosa. Cada um a seu modo colabora na composição do panorama abrangente e complexo que define a chamada “geração de 45". A voz inovadora de Guimarães Rosa A estréia de Guimarães Rosa com Sagarana anuncia com vigor uma revolução nos Leia o que o próprio Guimarães Rosa fala a conteúdos tradicionalmente abordados na respeito de sua linguagem tão particular. prosa regionalista, pois flagrantemente não se reconhecem neste livro de contos sinais dos “Escrevo, e creio que este é o meu romances dos anos 30, quando a literatura aparelho de controle: o idioma português, tal como nordestina identifica-se com engajamento em usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou causas políticas e sociais. Na obra de escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros idiomas. Guimarães, a exposição da degradação das Disso resultam meus livros, escritos em um idioma próprio, populações sertanejas, a denúncia do descaso e meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania desmandos da elite brasileira, a divulgação de da gramática e dos dicionários dos outros.” teses ideológicas são substituídas pela delicada paixão de contar histórias, que trazem à tona os mistérios da alma na cadência de uma linguagem originalmente inovadorada. A sua técnica de narrar e o estilo desestabilizam as formas consagradas, como afirma o professor Afrânio Coutinho: “Guimarães fez ir pelos ares tudo quanto havia de estratificado na nossa dicção literária.” 1. Encerra-se o Estado Novo com a deposição de Getúlio Vargas, em 45. General Dutra governa até 1950, quando Getúlio retorna ao poder e tragicamente se mata em 1954. Juscelino Kubitschek toma posse em meio a descontentamentos de militares. Em 61, Jânio Quadros renuncia após sete meses de governo; há turbulência no ambiente político e econômico e tentativas de golpe didatorial. 2. Até o Golpe Militar de 64, que estabeleceu por mais de vinte anos uma rígida ditadura militar, podia-se discutir com liberdade a realidade social e o destino do país. 7 Concentra-se especialmente na “Tudo se amaciava na tristeza. Até o dia; linguagem a novidade desse estilo que de fato isto era: já o vir da noite. Porém, o subir da noitinha é “faz ir para os ares” os limites das formas sempre e sofrido assim, em toda a parte. O silêncio saía de conhecidas. São inúmeras as ousadias: seus guardados.” Guimarães funde a estrutura frasal típica da (“As margens da alegria”) fala brasileira com vocabulário arcaico, Observe que as aliterações e o ritmo neológico, regional; explora intensamente 3 interno do período acentuam a tristeza de um Menino, recursos sonoros , desconstrói frases feitas, protagonista do conto. reinventa comparações, enfim, concentra-se na busca pela expressão que carregue a força dos sentidos que quer comunicar. Desse modo, não se pode desassociar dos conteúdos das histórias de Guimarães o seu modo originalíssimo de contá-las. O mundo distante da civilização Em 62, já consagrado com sua obra-prima Grande sertão: veredas, Guimarães publica Primeiras estórias, 21 contos que reforçam as marcas originais do regionalismo rosiano. As narrativas se passam em paragens distantes da civilização, em lugarejos escondidos nos Gerais, onde se abrigam personagens que de algum modo vivem carências: são pobres, doentes, loucos, estranhos, marginalizados, mas em nenhum momento podem ser tomados como meros tipos representativos da geografia hostil do local. Não se identificam nessas narrativas aspectos deterministas, intenções de análise das estruturas políticas e sociais que determinam o isolamento nos quais se encontram os personagens; ao contrário, todos os contos ressaltam situações particulares, jeitos individuais de ser, de viver. Interessa ao autor sobretudo captar o que há na alma desses sertanejos, aquilo que transcende os fatos e a condição material, apontando um sentido místico e misterioso da vida humana. É por isso que se afirma que a paisagem e o homem se universalizam nos textos de Guimarães. O interesse por indagar o que há além do visível e explicável pela lógica se revela em diversas narrativas de Primeiras estórias, que apresentam situações absurdas, pois não podem ser entendidas pela racionalidade e expressam a complexidade da vida humana. Esses enigmas muitas vezes são relacionados nos contos a forças igualmente misteriosas, incontroláveis, como intuição, premonição, magia e fé4. Nada acontece por acaso Guimarães Rosa parece fazer questão de afirmar em suas histórias que uma ordem oculta organiza o mundo e que somos todos atores de um destino que se faz cumprir. Os personagens de Primeiras estórias sempre estão envolvidos em situações que os fazem agir meio cegamente, de modo intuitivo, sem ter clareza do resultado de suas decisões. Na verdade, parecem ser impelidos a agir e realizam um destino que não se faz por acaso5. Essa crença em uma ordem controladora e velada apóia-se na idéia de que a alma é imortal e obedece ao permanente movimento cósmico: o fim de uma vida representaria o início de um novo ciclo, assim, a alma migraria para um corpo e se libertaria dele, de acordo com o nascimento e a morte dos homens. Durante o período de confinamento na dimensão humana, a alma às vezes se 3. Aliterações, assonâncias, onomatopéias, rimas internas, até então explorados em versos, passam a participar da prosa, subvertendo-se desse modo os limites da composição tradicional. 4. “A menina de lá”, “Um moço muito branco”, “A terceira margem do rio”, “O espelho”; “Nada e nossa condição”, “Nenhum, nenhuma” são bons exemplos de narrativas que subvertem a lógica materialista cartesiana. 5. A idéia de que o destino já está determinado está presente principalmente nos contos “Seqüência”, “Fatalidade”. 8 lembraria do conhecimento acumulado em outras existências, o que possibilitaria ao homem momentos de pura iluminação nesta vida terrena. Com efeito, pode-se associar essa concepção de mundo às teorias platônicas da imortalidade da alma, da reminiscência, da existência dos mundos sensível e inteligível e da busca da alma pela perfeição6. No universo de Primeiras estórias, Guimarães Rosa nos conta variados momentos de iluminação e deslumbramento em que os homens, os bichos se elevam à própria natureza e inevitavelmente caminham para o aperfeiçoamento. Grandes temas em Primeiras estórias As surpreendentes descobertas As margens da alegria Experiências que inauguram novas O Menino via, vislumbrava. Respirava formas de se ver o mundo sustentam o eixo muito. Ele queria poder ver ainda mais vívido – as novas temático deste conto que abre o livro Primeiras tantas coisas – o que para os olhos se pronunciava. estórias. Nessa narrativa, conta-se a história de um garoto que, pela primeira vez, viaja para um lugar distante, em que se construía uma cidade. Vai de avião, acompanhado pelo tio e pela tia. O deslumbramento inicial se dá pela visão cartográfica que o garoto experimenta da janelinha da aeronave. O estado de excitação aumenta quando chegam à grande cidade em obras e o menino se depara com inúmeras novidades. Especialmente, uma imagem paralisa o Menino – um peru imperial belíssimo. Mas, impedido de desfrutar a beleza daquela ave extraordinária, o menino é levado a um passeio de jipe pelos campos. Durante o passeio encanta-se com tantas flores e bichos desconhecidos. Retornam para o almoço e ansiosamente o menino procura pelo peru que o encantara. Em sobressalto, descobre que a bela ave fora morta para ser servida na festa de aniversário de um engenheiro, trabalhador do local. Abalado com a morte do peru, o Menino não encontra graça nem alívio nos lugares para onde o levam passear durante a tarde. Quando retornam à noitinha, o garoto vê no terreirinho da casa uma cena chocante: um peru ferozmente bicava a cabeça do peru morto, que fora servido na festa. Tomado pela tristeza, o Menino olha para a mata e vê a luz de um vaga-lume e se encanta com a delicadeza do brilho daquele inseto. “.. o peru até ali viera, certo, atraído. Movia-o um ódio. Pegava de bicar, feroz, aquela outra cabeça. O menino não entendia. A mata, as mais negras árvores, eram um montão demais; o mundo. Trevava. Voava, porém, a luzinha verde, vindo, mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume, sim era lindo! – tão pequenino, no ar, um instante, só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria.” Esse clima de contrates, de alternância de alegrias/deslumbramentos e tristezas/sofrimentos traduzem as experiências inéditas vividas pelo personagem e podem ser tomadas como descobertas necessárias para o amadurecimento psicológico. Na verdade, são vivências que equivalem a ritos que promovem a passagem para um estado menos inocente. 6. A idéia de que a alma lembra experiências acumuladas em seu eterno retorno à dimensão humana é evidente no conto “Seqüência”. 9 Os cimos O último conto do livro retoma o assunto do primeiro. O mesmo Menino viaja para a mesma cidade em construção. Diferentemente da primeira vez, o garoto não parte com alegria, na verdade, sente-se um tanto solitário, temeroso, porque não se tratava de um passeio, ia com o tio, pois a mãe estava doente e não podia cuidar dele. Para confortá-lo, a tia lhe entrega o brinquedo favorito: um macaquinho de pano, de chapeuzinho. O pobre macaquinho, tão pequeno, sozinho, tão sem mãe; pegava nele, no bolso, parecia que o macaquinho agradecia, e, lá dentro, no escuro, chorava. É interessante observar que, por meio da onisciência do narrador, percebe-se que o menino transfere para o brinquedo a sua própria tristeza, receio, insegurança. Durante a viagem, o menino “Mas o Menino em seu mais forte coração permanece triste, sentindo vagos remorsos declarava, só: que a Mãe tinha de ficar boa, tinha de ficar por não ter aproveitado melhor a companhia salva! da mãe, nos tempos em que ela não estava Esperava o tucano, que chegava, a justo, doente. Essa permanente solidão e tristeza a-tempo, a-ponto, às seis-e-vinte da manhã; ficava, de são inesperadamente suavizadas num arvoragem, na copa da tucaneira, fruticando as frutas..” momento em que o Menino vê no alto de uma árvore um tucano alimentando-se de Os adjuntos adverbias, os neologismos e a frutinhas. Encanta-lhe especialmente o carga sonora contribuem para sugerir as emoções do Menino. movimento e as cores do pássaro e uma intensa alegria toma conta do garoto. Nas madrugadas seguintes, espera silenciosamente a vinda do belo tucano para poder aproveitar dos encantamentos que a ave lhe proporcionava. Em todos esses encontros o garoto dedica as belas imagens e as intensas sensações para a mãe distante. Repetem-se esses encontros até o momento em que chega um telegrama anunciando que a mãe estava curada. Na viagem de volta a casa, o Menino sente-se feliz e ao mesmo tempo saudoso por saber que não mais encontraria o belo tucano. Procura no bolso o macaquinho e se dá conta de que o perdera. Vive instantes de confusão: sente ao mesmo tempo alegria, saudade, tristeza, felicidade, sentimentos ambíguos, contraditórios e, meio intuitivamente, percebe que a vida é exatamente multiplicidade, contradição, ambigüidade e, sobretudo, transitoriedade. Parece ter aprendido que é possível resistir aos sofrimentos que a vida proporciona, transformando-os harmoniosamente em energia para mover a própria vida. 10 Não, o macaquinho não estava perdido, no sem-fundo escuro do mundo, nem nunca. Decerto, ele só passeava lá, porventura e porvindouro, na outra-parte, aonde as pessoas e as coisas sempre iam e voltavam. O Menino sorriu do que sorriu, conforme de repente se sentia: para fora do caos pré-inicial, feito o desenglobar-se de uma nebulosa. Era o inesquecível de-repente, de que podia traspassar-se, e a calma, inclusa. Durou um nem-nada, como a palha se desfaz e, no comum na gente não cabe: paisagem, e tudo, fora das molduras. Nesse trecho, o narrador revela sua onisciência seletiva, pois adota a perspectiva do menino e inclui-se na narrativa. Em termos de linguagem, o discurso indireto livre e expressões ambíguas (“na gente”) marcam a ambigüidade do foco narrativo. Nenhum, nenhuma Neste conto, apresenta-se um narrador-personagem que se esforça em relembrar uma experiência de sua infância, mas que não consegue compor integralmente todas as cenas, os detalhes dessa vivência e, por isso, só tem contato com elementos esgarçados de memória, o que cria uma atmosfera de imprecisão e de incertezas, próprias de quem se esforça por recuperar momentos longínquos do passado. Esse esforço determina dois planos na narrativa: o do passado (infância) e o do presente (memória) que são diferenciados inclusive tipograficamente, no texto impresso. A moça tinha um leque? O Moço conjrava-a, suspensos olhos. A Moça disse ao moço: – “Você ainda não sabe sofrer..” – e ela tremia como os ares azuis. Tenho de me lembrar. O passado é que veio a mim, como uma nuvem, vem para ser reconhecido: apenas, não estou sabendo decifrá-lo.” O esforço do narrdor-personagem concentra-se em relembrar a experiência infantil, na tentativa de reviver as intensas descobertas daqueles dias em que se hospedara em uma fazenda. Quando criança, o Menino estivera hospedado por vários dias numa fazenda e vira um casal de namorados ter que se separar porque a moça não podia abandonar uma velhinha que parecia teimar em viver, a despeito de sua velhice e doença. Observando os olhares apaixonados desse casal, o garoto encanta-se com a beleza da moça, sentindo até mesmo raiva e ciúmes do namorado. Aquele amor tão intenso que percebia no jovem casal o fazia pensar que deveria ser perpetuado nas relações e não abrandado pelas tarefas diárias, como parecia ter ocorrido com o amor que outrora unira os seus pais. Todas essas percepções contribuem para que o Menino descubra a diversidade do sentimento amoroso, ampliando pela experiência o seu conhecimento sobre a vida7, e promovem aprendizagem, amadurecimento. Tensão e Violência Famigerado A narrativa gira em torno do esclarecimento do significado da palavra “famigerado”, ouvida por Damázio da Siqueiras, jagunço valentão, que suspeita ter sido ofendido por um funcionário do governo. Como não soubesse se era realmente um insulto, não respondera de pronto à provável ofensa e fora pedir tradução ao farmacêutico da cidadezinha. Essa questão banal cria um clima de apreensão e de suspense, pois se espera para qualquer momento uma reação violenta do brutal Damázio. No entanto, essa expectativa é frustrada, porque com muita habilidade e intuitivamente o farmacêutico explica o significado de famigerado, entretanto omite o provável sentido em que foi dita pelo tal funcionário. Restringe-se a dizer que “famigerado é inóxio, é célebre, notório, notável”, sem fazer alusão ao sentido pejorativo, consagrado pelo uso popular – “malfeitor”, “de má sina”. O jagunço se dá por satisfeito e uma desgraça foi evitada. à narrativa. O clima de suspense, o desfecho surpreendente e bem humorado dão um tom anedótico 7. A lembrança do narrador-personagem traz à tona um momento de profunda compreensão, iluminação, vivido pelo Menino. Simbolicamente, é possível associar essa experiência às teorias de Platão, no sentido de que, nos dias em que o garoto passara na fazenda, alcançara um estado de luz e perfeição, próprios de quem em alguns relances tem contato com o mundo harmonioso das idéias puras: o mundo inteligível. 11 Os irmãos Dagobé Este é um conto que se assemelha a “Famigerado” não só por tratar da brutalidade e violência, mas principalmente pela estrutura da narrativa. Cria-se desde o início uma atmosfera de suspense de perigo próximo e inevitável e, ao final, essa tensão é negada por algo inesperado e de certo modo cômico8. Um narrador de 3.a pessoa, adotando a perspectiva de testemunha dos fatos, conta a tensão que se viveu no velório de Damastor Dagobé, o mais velho de quatro irmãos perversos. A tensão se devia à espera de uma desgraça inevitável: a vingança do assassino de Damastor. O tempo vai passando e as pessoas presentes no velório vão especulando qual seria o cruel castigo que esperava Liojorge, homem franzino, pacato, amado por todos que, ameaçado de ter as orelhas cortadas, inexplicavelmente, em poder de uma arma de fogo, dispara contra o peito de facínora Damastor. Essa atmosfera de preocupação e expectativa aumenta com os pedidos A gente espiava os Dagobés, aqueles três descabidos do assassino: inicialmente manda pestanejares. Só: – ‘Dei’stá’... – O Dismundo dizia. O um mensageiro dizer aos irmãos do finado que Derval: – ‘Se esteja a gosto!’– hospedoso, a casa honrava. matara sem intenção, agira em autodefesa, Severo, em si, enorme o Doricão. Só fez não dizer. Subiu logo depois, envia outro recado, dispunha-se a na seriedade. De receio, os circunstantes toamvam mais carregar o caixão. O maior estranhamento cachaça queimada. advém da reação dos três irmãos que parecem É interessante notar que a tensão é inabaláveis, compreensivos, gentis e consentem reforçada pelo narrador-testemunha. os desejos do assassino. A desconfiança cresce, pois as pessoas que testemunham tamanho disparate imaginam tratar-se de um disfarce para uma tragédia nunca vista. Logo após o enterro, ainda ao lado da sepultura, o silêncio é quebrado pela voz grave de Doricão : “— Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso Irmão é que era um diabo de danado...". O impacto provocado pela declaração de Doricão emudece todos os presentes e encerra-se o conto. A história dos Dagobé traduz um dos conceitos freqüentes em Primeiras estórias: o de que inevitavelmente o homem caminha em direção ao aperfeiçoamento, tende a abandonar a brutalidade, a violência, ignorância em direção à serenidade e sabedoria9. Amor e Destino Luas-de-mel A narrativa deste conto pode ser interpretada como ilustração para a idéia de que em meio a situações corriqueiras, banais, é possível viver fortes emoções e grandes amores. É o que ocorre com Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza, velho casal acostumado com a vida pacata da fazenda Santa-Cruz-da-Onça. A pedido do amigo Seo Seotaziano, Jorge Norberto e Sa-Maria Andreza acolhem dois jovens que, sem consentimento dos pais, haviam fugido para casarem-se. Os hóspedes clandestinos alteram a rotina dos donos da fazenda, que se encantam com a beleza da noiva, com o porte garboso 8. Pode-se afirmar que esse tipo de narrativa explora o que se chama de “anticlímax”. 9. Ainda que se assemelhe a uma anedota, o conto não se caracteriza pela superficialidade, na verdade, traduz de modo bem humorado uma história que confirma uma concepção filosófica. 12 do rapaz e sobretudo se comovem com a afeição que um manifesta ao outro. Proteção ao jovem casal e preparativos para a festa passam a ser as preocupações de Jorge Norberto e Sa-Maria Andreza. No dia das núpcias, o fazendeiro descobre que a noiva era a filha do Major “Eu, feliz, olhei minha Sa-Maria Andreza; Dioclécio, homem conhecido pelo seu caráter fogo de amor verbigrácia. Mão na mão, eu lhe dizendo – violento e rude. Mesmo temendo represálias, na outra o rifle empunhado –: — ‘Vamos dormir Jorge Norberto mantém a proteção aos noivos e abraçados..." o casamento é realizado sob clima de expectativa e tensão. No dia seguinte, Observe que o amor do casal maduro é inesperadamente o irmão de Sa-Maria chega à retratado numa atmosfera de proteção e serenidade. fazenda com a notícia supreendente de que o pai queria abençoar aquele casamento feito em desobediência e para isso propunha que realizassem, na fazenda paterna, um novo casamento. Os jovens partem felizes em lua-de-mel para a grande festa preparada pelo Major Dioclécio e Jorge Norberto e Sa-Maria, reconfortados pelo antigo amor, sentem-se também em lua-de-mel. Substância Por piedade e a pedido de uma velha empregada de sua fazenda, Sionésio admite abrigar Maria Exita em suas terras. Como era filha de pai leproso e de mãe leviana, irmã de assassino, a moça era marginalizada, no entanto, parecia conformar-se com a trágica sina e de bom grado aceita o mais duro trabalho que lhe ofereceram em troca de moradia: quebrar blocos de mandioca com as próprias mãos até obter polvilho. Entrega-se ao árduo trabalho com dedicação extrema e certa vez, inesperadamente, chama a atenção do patrão que se encanta perdidamente pela bela Maria. A força dessa paixão advém do duro trabalho que confere à moça ao mesmo tempo sofrimento e beleza contagiante. Sionésio não resiste, declara-se à Maria que prontamente confirma sentir o mesmo amor. O tema da resignação e do amor sublime, puro, incondicional, fazem pensar que a paciência e a resistência ao sofrimento determinam a elevação da alma10, mas também pode ser associado à idéia da predestinação. O fato de Sionésio acolher uma moça marginalizada, marcada por tantas desgraças familiares, atendendo sem nenhum questionamento o pedido de uma velha empregada, sugere que o fazendeiro parece ter sido dominado por uma força que o impeliu a agir meio inconscientemente, como se obedecesse a uma ordem misteriosa que fizesse o destino cumprir-se11. Seqüência Com saudades de sua terra natal, uma vaquinha foge da fazenda de seo Rigério e é perseguida pelo filho do fazendeiro, um rapaz que enfrenta sérios perigos na tentativa de recuperar o animal. “O rapaz, no vão do mundo, assim vocado e ordenado. Ele agora se irritava. Pensou de arrepender caminho, suspender aquilo para mais tarde. Pensou palavra. O estúpido em que se julgava. Desanimadamente, ele, malandante, podia tirar atrás. Aonde um animal o levava? O imcomeçado, o empatoso, o desnorte, o necessário. Voltasse sem ela, passava vergonha. Por que tinha assim tentado? (...) Transcendia ao que se desatinava.” A passagem é mais uma ilustração para a crença na predestinação, porque, mesmo sem compreender bem porque, o rapaz não desiste do caminho, e atordoadamente cumpre o caminho indicado pelo animal. 10.Reconhecem-se no comportamento de Maria Exita princípios do Estoicismo, doutrina filosófica grega, cuja principal tese é a de que o ideal da vida humana é buscar a harmonia perfeita com a natureza, o domínio das próprias paixões, a resignação diante de todos os sofrimento até que se alcance a mais completa impassibilidade. O amor de Sionésio seria a “recompensa”, a elevação para uma alma purificada pelo próprio sofrimento. 11.Nota-se mais uma vez a concepção de imortalidade da alma, expressa na “Teoria das reminiscências”, de Platão. 13 O moço obedece a uma determinação que não entende bem, chega até mesmo a questionar porque incansavelmente corre atrás da vaquinha que, em sua decisão de retornar à Fazenda Pãodolhão, não cede aos obstáculos e o obriga a segui-la. Num determinado momento, a vaquinha invade as terras do Major Quitério, o rapaz atordoadamente acompanha o animal, ultrapassam porteiras, currais, avistam luzes na casa do dono das terras. Inexplicavelmente o moço entra casa adentro, sobe uma escada e depara-se com as quatro filhas do Major. Encanta-se com uma delas, fixa o olhar na bela moça, esquece-se da vaquinha fugitiva e é tomado por um sentimento de extraordinária felicidade: inesperadamente encontrara o verdadeiro amor. A vaquinha, liberta de seu perseguidor segue em direção a sua felicidade. A narrativa do conto retoma a crença na predestinação e na recompensa que advém da resistência ao sofrimento: o rapaz e a vaquinha superam obstáculos, enfrentam sérios perigos e são recompensados, pois o moço encontra o verdadeiro amor, a vaquinha, a liberdade12. Fatalidade Um delegado de polícia, homem de vasta cultura e fatalista por crença, é interrompido no seu exercício de pontaria por um caipira franzino, frágil, de apelido Zé Centeralfe que pedia auxílio para livrar sua esposa do assédio do famoso bandido Herculinão. Ouvindo a queixa, o delegado olha para uma das carabinas penduradas na parede, como se sugerisse algo ao o homem ofendido. Centralfe entende a mensagem e sai da delegacia agradecido. Pouco tempo depois, o delegado e o narrador-testemunha partem em busca do bandido, quando o encontram, o delegado dispara um tiro no meio dos olhos de Herculinão, no mesmo momento, Centeralfe acerta uma bala no coração do homem desrespeitoso. O delegado declara que a causa do assassinato fora a “resistência à prisão” e convida Centralfe para o almoço. Sob a perspectiva do delegado, a morte brutal de Herculinão Socó é conseqüência de seu comportamento condenável e, como autoridade da cidadezinha, coube a ele ser o meio pelo qual o destino se fez realizar. Não há motivos para culpa, tudo não passou de uma fatalidade. “... o destino são componentes consecutivas – al’me das circunstâncias gerais de pessoa, tempo e lugar... e o karma...” O delegado emprega o termo “karma”, que significa as adversidades por que temos que passar como conseqüência dos atos praticados nesta ou em outras vidas, para justificar que o homem não escapa das determinações do destino. 12.É interessante observar que para Guimarães Rosa os animais estão sujeitos às mesmas leis que organizam a vida humana. O comportamento estóico da vaquinha é recompensado com a sua libertação. 14 Exercícios Testes sobre seus conhecimentos sobre Primeiras estórias, de Guimarães Rosa 01. Leia o comentário a seguir para responder ao teste. “Nas histórias de Rosa os viventes sonham, e o narrador segue-os de perto e de dentro, confiante em que um dia desejo e ventura poderão dar-se as mãos, pois afinal Deus tarda, mas não falha.” Alfredo Bosi, Céu,inferno O conto de Primeiras estórias, que poderia ser tomado como exemplo da afirmação do professor Alfredo Bosi é a. ”Famigerado”. b. ”Substância”. c. ”Os irmãos Dagobé”. d. ”Luas-de-mel”. e. ”Nenhum, nenhuma”. 02. Do ponto de vista da composição, o conto “Nenhum, nenhuma” apresenta dois eixos bem distintos: o passado e o presente. Esses dois planos temporais evidenciam: a. a atmosfera obscura, incompreensível, representada pela impossibilidade de se restaurar no presente as experiências do passado. b. a oposição que se estabelece entre a infância, tempo de intensas descobertas, e o presente, caracterizado pela vida monótona e entediante do narrador-personagem adulto. c. os primeiros momentos em que o Menino se dá conta da infelicidade que caracteriza a vida dos seus pais. d. a crença de que, ao lembrarmos daquilo que está esquecido, restauramos as vivências, como se pudéssemos revivê-las e entender melhor aquilo que somos. e. a incapacidade de se restaurar no presente as emoções do passado, o que inevitavelmente gera angústia, perturbação. 03. No conto “Seqüência”, a vaquinha assume um caráter simbólico para o destino do filho de seo Rigério e da filha do Major Quitério. Assinale a alternativa que caracterize esse caráter. a. A vaca tem a incumbência de revelar ao rapaz que é necessário enfrentar o desconhecido para se encontrar a felicidade. b. O animal representa o meio para realização do destino reservado aos dois jovens. c. A fuga da vaca apressou o destino já sabido pelos amantes. d. O acaso, o imponderável é representado pela determinação do animal que acidentalmente promove o encontro dos jovens. e. O animal é somente um pretexto para que o jovem rapaz abandone a casa paterna e encontre a sua amada. 15 04. Nos textos de Primeiras estórias, com freqüência, o narrador sintetiza por meio de frases genéricas suas reflexões filosóficas, criando o que se chama de máximas ou aforismos. Assinale a única alternativa em que esse procedimento não se verifica. a. “A vida, mesmo, nunca parava.” (“Os cimos”) b. “Mas a gente nunca se provê segundo garantias perpétuas.” (“Substância”) c. “Tudo não é escrito e previsto?” (“Fatalidade”). d. “A gente cresce, sem saber para onde.” (“Nenhum, nenhuma”) e. “A vida tem poucas possibilidades.” (“Fatalidade”). Leia o trecho para responder ao teste 05. “O assombrável! Iam-se e vinham-se, no estar da noite, e: o que tratavam no propor, era sóa a respeito do rapaz Liojorge, criminal de legítima defesa, por mão de quem o Dagobé fizera passagem daqui. Sabia-se já o quê, entre os velantes; sempre alguém, a pouco e pouco, passava palavra. O Liojorge, sozinho em sua morada, sem companheiros, se doidava? Decerto, não tinha a experiência de se aproveitar para escapar, o que não adiantava – fosse aonde fosse, cedo os três o agarravam. Inútil resistir, inútil fugir, inútil tudo.” 05. Em relação a perspectiva adotada pelo narrador do trecho, pode-se afirmar que: a. ora assume a perspectiva de narrador-observador, distanciado dos fatos que narra, ora adota a visão do personagem Liojorge, assassino de Damastor. b. o narrador-observador não varia sua perspectiva, apenas inclui pensamentos que suspeita ter o assassino de Damastor. c. mescla a sua voz e à do personagem, não sendo possível a distinção entre a fala do narrador e a do personagem. d. associam-se as perspectivas do narrador-testemunha, que manifesta suas impressões, com a do personagem Liojorge. e. o narrador adota o discurso indireto livre e por isso não se pode distinguir a voz do narrador e dos personagens. Gabarito 01. Alternativa b. O conto ”Substância” pode ser tomado como exemplo da idéia de que o sofrimento, o desamparo, o destino infeliz é inevitavelmente alterado. É o que ocorre com Maria Exita, moça que, após intenso sofrimento, tem a condição de vida completamente modificada pelo amor de seu patrão Sionésio. 02. Alternativa d. O tema da recuperação da memória é o que move a narrativa de “Nenhum, nenhuma” e reflete a idéia de que a recomposição das experiências do passado, ainda que de modo confuso, possibilita o entendimento do que fomos e do que somos. 03. No conto “Seqüência”, a vaquinha assume um caráter simbólico para o destino do filho de seo Rigério e da filha do Major Quitério. Assinale a alternativa que caracterize esse caráter. 16 03. Alternativa b. Guimarães Rosa no conto “Seqüência” ilustra a tese da predestinação. Guiado pelo instinto da vaquinha, o jovem rapaz, sem saber, vai em direção à felicidade, obedecendo ao princípio de que os seres interagem cegamente, não sabendo cada um de que modo influencia na realização do destino dos outros. 04. Alternativa c. Os aforismos têm a função de sintetizar um conceito, uma idéia genérica a respeito da vida. A afirmação “Tudo não é escrito e previsto?” expressa uma dúvida particular do personagem, não constitui, portanto, uma máxima. 05. Alternativa d. Um procedimento comum nos textos de Guimarães Rosa é a polifonia, criada pela variação da perspectiva adotada pelo narrador. No caso, associam-se a vozes do narrador-testemunha, participante da cena, e a perspectiva de Liojorge, assassino de Damastor. 17