DEDICATÓRIA “ O ÚNICO VALOR ABSOLUTO É A CAPACIDADE HUMANA DE DAR EM RELAÇÃO A SI PRIORIDADE AO OUTRO”. (Emmanuel Lévinas) Dedicatória Dedico este caderno aos trabalhadores das entidades e organizadores de assistência social e à fundadora da Casa Espírita Cristã Maria de Nazaré – Rocinha, Rio de Janeiro- RJ, Vera Simões. NOTA SOBRE O AUTOR Assistente Social, especialista em Gestão Social pela FGV, com aperfeiçoamento em formulação, monitoramento e avaliação de Programas Sociais pela CEPAL (Comisión Econômica para América Latina y el Caribe. Especialista em Terapia do Adolescente (UFRJ) e Direitos da Criança e do Adolescente (ISMP-RJ). Consultor da CAPEMISA SOCIAL – Instituto de Ação Social. Experiência na área de Políticas Sociais, desenvolvendo desde 2005 consultoria, assessoria e capacitação para implementação do SUAS em diversos Estados do Brasil. Foi presidente do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente do Rio de Janeiro. Edvaldo Roberto de Oliveira APRESENTAÇÃO O EAD Novos Rumos da Assistência Social no Brasil é o resultado do Encontro de Trabalhador Espírita realizado pela Casa Espírita Cristã Maria de Nazaré, em julho de 2010, e conduzido pelo Assistente Social Edvaldo Roberto de Oliveira*. O EAD Novos Rumos aborda temas atuais e necessários para a qualificação e atuação dos trabalhadores das entidades e organizações de assistência social. Espero que o EAD Novos Rumos contribua para que as entidades e organizações de assistência social adotem os padrões de organização e funcionamento indispensáveis aos novos tempos do SUAS. Bom Estudo! Maio de 2011 *agradecimento especial a Mary-Andy B.S.Pinto pelo valioso trabalho de transcrição deste evento. TEMÁRIO 1) Da pobreza incluída à pobreza multidimensional: as demandas sociais de ontem e de hoje. 2) Exclusão Social: principais dimensões do cotidiano dos indivíduos. 3) Proteção Social: o paradigma atual da assistência social - A base ética - As seguranças sociais - A hierarquização dos serviços socioassistenciais pelo grau de complexidade 4) A família: ontem e hoje - Atenção Integral às famílias é o foco prioritário da proteção Social. 5) O SUAS e os desafios atuais das entidades e organizações de assistência social. 6) O voluntário e as entidades e organizações de assistência social - A caridade e a ética da alteridade - O voluntário como educador social - Assistir é Educar. Educar é promover o homem integral. INTRODUÇÃO Meus amigos seja este um dia de alegrias que nos sustentem os corações. Conheço esta Casa desde os dias da tia Vera, a sua fundadora, mas só recentemente tive a oportunidade, através de um convite do Ricardo, de ver de perto, numa manhã de sábado, o trabalho desenvolvido na Rocinha. Desde então reflito a extensão do trabalho que lá se realiza. Também naquela oportunidade tomei conhecimento que este prédio onde nos encontramos é como se fosse filial da sede juridicamente falando, na Rocinha. Isso diz da finalidade da missão da casa, diz de um sonho de fundadores, sonho que continua para aqueles que se propuseram a dar continuidade à obra. Certa vez, perto do Natal, assisti a uma reportagem bastante inusitada no Fantástico, da TV Globo. O repórter entrevistou uma senhora, em Londres, que tinha um pinheiro na porta de casa. Até ai nada de mais. Só que o pinheiro estava de cabeça para baixo e as raízes voltadas para cima. Ela disse ao repórter que esse é o espírito do natal; as raízes estão para o céu. Toda casa espírita tem as raízes voltadas para o céu. Esta Casa tem suas raízes voltadas para o céu e provavelmente este céu, este horizonte para o qual as raízes se voltam, tem a ver com a Rocinha, que vai além do espaço físico e do trabalho que traduz a finalidade da missão da Casa. Os estudiosos dizem que a Rocinha é uma das maiores favelas do município do Rio. Sabemos hoje que se trata de um bairro onde vivem mais 60 mil pessoas, ou seja, maior do que muitas cidades. Lá, tive a oportunidade de observar a obra do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento –, a movimentação de pessoas jovens, crianças, adolescentes, adultos. Eu já conhecia a Rocinha, só não conhecia o trabalho feito por esta Casa. Naquele sábado, pude observar a movimentação e a dinâmica e fiquei pensando nas motivações que levaram um grupo de espíritas até àquele lugar. O que moveu a Tia Vera e os que estavam com ela quando resolveram implantar um trabalho ali? Pensei também na Rocinha que aquelas pessoas encontraram, e pensei no que estava vendo agora, a movimentação, as obras e até engarrafamento pegamos, horário para sair, etc. Rocinha e o sonho da Tia Vera, é a partir daí que devemos refletir. Alguns pesquisadores, entre eles Marcelo Nery, da Fundação Getulio Vargas, no Rio, têm apontado um fenômeno social no cenário brasileiro. Ele é especialista em estudo de política de pobreza, doutor em economia, coordena um centro importante e, de vez em quando, aparece na mídia. Recentemente Marcelo Nery teve um trabalho publicado nas Revistas Época e Veja, e mais recentemente deu uma entrevista à Folha de São Paulo sobre o que tem ocorrido nos últimos cinco, seis anos, no Brasil. Enfim, um fenômeno chamado ascensão da classe média, da chamada classe C, e ele toma como exemplo, a Rocinha. Então, vamos começar provocando uma reflexão: eu queria que observássemos uns dados dessa pesquisa, e, a partir daí, pensar no trabalho que hoje se realiza na Rocinha. O Ricardo me descreveu as frentes de trabalho, mas como eu posso esquecer de alguma, são tantas, vou recorrer à mídia. A primeira transparência é um gráfico que facilita a comparação dessas questões que a gente ouve, lê, mas nem sempre presta atenção. Só quem é da área, por dever de oficio, EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil como é o meu caso, entende o fenômeno que é surpreendente e tem várias leituras importantes. É a supremacia da Classe C nesta pirâmide nos anos 2002 e 2009. Esta reportagem é do finalzinho do ano passado e dá para perceber a mudança expressiva. Os indicadores são da Fundação Getúlio Vargas que define como classe média famílias com renda entre 1.065,00 e 4.591,00 reais. O que chama atenção é que hoje essa classe média chega a 52% da população brasileira. E é aqui que está o que os pesquisadores chamam de classe C, que hoje pode consumir o supérfluo, como por exemplo, eletrodomésticos, móveis, lazer, viagem, telefone celular, computador e carro. Não se fala aqui do básico, feijão, arroz. Não é mais entrar no supermercado e ir direto onde estam o arroz e o feijão. Vejam que aqui 41% têm eletrodomésticos, 21% têm carro, 28% já falam em lazer e viagem. São os chamados gastos não essenciais, ou seja, não são gastos em supermercado, energia elétrica, aluguel, gás. Hoje, se investem em outros gastos, vestuários, telefone, combustível, crediário, mensalidade escolar, telefone celular. Na pesquisa aparece como exemplo uma manicure, moradora da Rocinha, que tem os filhos estudando em boas escolas particulares, tem carro e dinheiro para uma pequena viagem de fim de semana, uma vez por mês. Esse é um fenômeno recente, que aconteceu nos últimos 8 anos de maneira vigorosa, forte. Diante desta pesquisa, podemos perguntar: foi essa a realidade que a tia Vera encontrou quando chegou lá? Era essa a Rocinha? Era esse o Brasil? Então, esta é a primeira questão a ser pensada: 7 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil que mudanças ocorreram nesses anos, nessas décadas, desde a iniciativa da tia Vera para o momento atual? As várias frentes de trabalho são as mesmas dos dias de hoje? Que alterações houve no Brasil todo, e particularmente na Rocinha? Há um mês, estive em um encontro de pesquisadores para discutir um dos mais importantes e completos relatórios já realizados no Brasil sobre favelas, feito no Rio de Janeiro. A partir dos debates foi possível abrir uma seqüência no tempo, e ver a geração que a tia Vera conheceu e passou a atender na Rocinha; aqueles homens, aquelas mulheres com as suas crianças, aquelas famílias. Vamos tomar como objeto de comparação as famílias que a tia Vera encontrou quando do início do trabalho, e as famílias, as crianças, os adolescentes que hoje vocês atendem. Aqueles primeiros moradores que a tia Vera conheceu eram oriundos de outros estados brasileiros. Vieram em busca de conquista de vida e sobrevivência, procurar emprego que lhes dessem uma condição de ganho maior, ou, pelo menos, mais permanente. Muitos tinham vindo do nordeste talvez para trabalhar na construção civil, ou trabalhos semelhantes, aproveitando um mercado que se abria nas proximidades da Rocinha. Muitos se fixaram em atividades desse tipo, construção civil, motorista, serviços gerais, porteiro. E essas famílias trouxeram seus valores, suas culturas, sua visão de vida e do mundo. Será que essa visão de vida, do mundo, esses valores são exatamente iguais aos das famílias de hoje? Muitas dessas famílias são descendentes daqueles, ou seja, netos, bisnetos... Será que os valores são os mesmos, os desejos, o que eles buscam? Será que aquelas famílias que a tia Vera atendeu queriam eletrodomésticos, móveis, lazer, telefone celular, computador, carro? Milton Santos, já desencarnado, um nome de referência internacional, foi um grande pesquisador. Em um de seus livros sobre globalização (Por outra globalização:pensamento único à consciência universal), ele fala de três momentos de pobreza no Brasil (pp 70 -74): a dos anos 50/60, vividos pela tia Vera, que ele chama de Pobreza Incluída. ...as soluções ao problema eram privadas,assistencialistas, locais, e a pobreza era frequentemente apresentada como um acidente natural ou social. Em um mundo onde o consumo ainda não estava largamente difundido, e o dinheiro ainda não constituía um nexo social obrigatório, a pobreza era menos discriminatória. Daí pode-se falar de pobres incluídos. Não havia naquela época essa mobilidade tão intensa. As classes eram muito definidas: quem era da elite, fazia parte das classes A e B. Quer dizer quem era rico era rico, e quem era pobre era pobre. Não havia mobilidade dos últimos oito anos, e nem havia tanta preocupação com esta questão. O que preocupava os pobres era o que comer; como cuidar dos filhos; ter uma casinha para morar, um trabalho, enfim, era esse mais ou menos o horizonte naquela época. E havia, ao lado disso, um entendimento, dado pelo Milton Santos, em que as pessoas não se sentiam excluídas; se tivessem o que comer, onde morar, trabalho e fazer uma feirinha, estava tudo muito bem obrigado. Essa era uma realidade daquele contexto, daquele modelo econômico, daquele modelo social, daquela cultura. Há um empreendedor social, da época da Tia Vera, o espírita Jaime Rolemberg de Lima, fundador de uma das maiores obras sociais do Brasil - o Lar Fabiano de Cristo/LFC - que levando em conta a existência, naquela época, de uma iniciativa norte americana chamada ‘Alimentos para a Paz’ que distribuía alimentos para os pobres na America Latina, dizia que se ele conseguisse os alimentos desse programa, acabaria com a fome dos usuários dos serviços do LFC porque evidentemente essa era a demanda das famílias pobres. Portanto, as pessoas estavam “ incluídas” se conseguissem comer, morar em um lugarzinho, ter seu trabalho, daqueles que eu citei como pedreiro, serviços gerais, porteiro. Essa foi a primeira geração da Rocinha. 8 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Os pesquisadores daquele encontro que mencionei sobre favela, se referem a uma segunda geração, uma geração intermediaria que herda os valores da primeira, e com alguma sorte os mantém. Não há tanta mudança. Ela acontece apenas no sentido das aspirações. Essa segunda geração, mais do que a primeira, efetivamente começa a querer que os filhos tenham escolaridade. Mas o que os pesquisadores mostram é que a grande mudança se dá na terceira geração, provavelmente aqueles com os quais hoje vocês estão lidando, os mais jovens descendentes daquele grupo da tia Vera. Certamente eles têm outras aspirações, diferentes das do primeiro grupo, daquelas famílias que a tia Vera atendia. O que houve nesses últimos 60 anos? Não só no Brasil mais no mundo, sem muito aprofundamento, é fácil perceber as grandes mudanças. O trabalho feminino, a mulher no mercado de trabalho, isso é um dado significativo. Junto a isso, essa emancipação feminina do ponto de vista econômico, a disputa pelo mercado de trabalho, houve nos anos 60 algo revolucionário, para as relações humanas, homem mulher, que foi o surgimento dos anticonceptivos. A chamada liberação sexual da mulher, pondo-se em igualdade com o homem na questão da sexualidade, podendo controlar, se essa relação iria trazer uma gravidez ou não. A mudança para uma sociedade chamada midiática, os meios de comunicação de massa, que dos anos 60 para cá ganharam uma velocidade fantástica, incrível. Aqui ela aparece na classe C como um desejo de consumo, telefone celular, computador, e outros instrumentos da moderna tecnologia. Foram mudanças de cultura, de valores, mudanças da economia que encaminhou para a globalização. Um fenômeno notável, às vezes despercebido, são os shoppings que deixaram de ser apenas um espaço físico para compras e se transformaram em “microcidades”. Lá tem o cinema, se pode lanchar. Um amigo meu, pesquisador da UERJ, fez sua tese de doutorado sobre os shoppings que evidentemente mudaram a vida das pessoas, e se tornaram um símbolo de grande mudança na sociedade. Não há mais pracinha para se passear, namorar, isso foi substituído pelo shopping. É um símbolo de relacionamento humano, de encontros, de convivência, de lazer e de consumo. Frei Beto chama o shopping de o “templo da religião moderna”. Símbolo do consumo, embora o shopping não seja apenas isto. Às vezes ficamos presos ao consumo concreto, por exemplo, consumir um telefone celular. O que significa isto? Mais do que consumir, o telefone celular é um emblema do poder de consumir. Essa sociedade, diferentemente daquela da tia Vera, é muito marcada pelo simbólico, aquilo que não é concreto, o valor que as coisas têm. Primeiro possuir um celular; depois vem a marca; terceiro o que esse celular é capaz de fazer. Esses são alguns dos fatores que vão definir muita coisa para uma pessoa. Essas mudanças ocorreram e hoje, por exemplo, quando se fala de pobreza, não há mais possibilidade de se referir daquela forma que o Milton Santos chamou de Pobreza Incluída. Hoje há um fenômeno novo, que os pesquisadores denominaram de Pobreza de Exclusão. E vocês vão poder daqui a pouco ver qual é o significado dessa expressão. Certamente no tempo da tia Vera era algo muito comum, não era algo restrito ao grupo dela, determinada “visão reducionista de pobreza”. Todos os grupos sociais daquela época, que surgiram naquele período, toda intervenção governamental dos anos 50, 60 até os anos 80, olhavam a pobreza por renda, e isso ainda de certa maneira permanece no imaginário. As pessoas fazem uma leitura de pobreza de forma equivocada, ou seja, pobre é aquele que não tem um “quantum” de renda. 9 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Esse conceito foi ultrapassado. Hoje, não há mais possibilidade de lidar com esse conceito. No tempo de tia Vera, sim! Por isso que naquela época, Jaime Rolemberg dizia “se eu tenho alimento resolvo a pobreza”. Era algo muito concreto, dar alimento para as pessoas, uma roupinha, algumas possibilidades e se resolvia a questão. De lá pra cá aconteceram muitas mudanças. Hoje a pobreza ganhou nome que também alguns estudiosos estão utilizando: “Pobreza Multidimensional”. Ela não é mais de uma única dimensão, não é mais possível olhar a pobreza por um aspecto apenas, não se vai compreendê-la e muito menos lidar com ela. A pobreza tem múltiplos aspectos, é multidimensional. Se nos voltarmos à comparação do consumo é muito curioso o que os pesquisadores apontam hoje. Vejam, aqui aparecem pobres, quem são? Classe E, e certamente lá na Rocinha vocês devem lidar com pessoas da Classe E, colocada ali em 18% dentro da pirâmide. Agora, o que os pesquisadores mostram hoje sob uma ótica mais ortodoxa da econômica, utilizada no mundo globalizado, é que um país como o nosso, nesse contexto atual do grande desenvolvimento econômico, empurra a classe E para cima. O país precisa de consumidores de eletrodomésticos, móveis, lazer, telefone, computador, para fazer parte do chamado desenvolvimento econômico, que é a condição básica para um país ser considerado emergente. Então, como é que alguns economistas, numa visão mais ortodoxa, exergam isso? Que comparação fazem entre o pobre e a classe média? Entre as classes E e C? Aqueles também consomem. É o fenômeno, por exemplo, que acontece no México, que vive esse drama coletivamente: o consumo pobre. O que eles chamam de consumo pobre? É o consumo quase de segunda mão que aparece aqui como consumo não essencial, ou seja, o vestuário de segunda mão. Talvez alguns possam vestir umas roupinhas tidas como melhores porque vão lá no bazar na Rocinha comprar uma roupa. Os móveis também, de uma categoria inferior. E assim sucessivamente, ou seja, é um consumo de baixa qualidade, consumo de matéria prima de má qualidade. Do ponto de vista econômico isso não é bom, pois tolhe o desenvolvimento coletivo, ou seja, o investimento na produção também precisa ter qualidade. Todavia, não é esse aspecto que cabe aqui examinar, mas apenas citar. O que importa para nós é que quando esse conceito é ampliado, encontramos de novo o simbólico. Nesta sociedade de consumo as classes se diferenciam pelas marcas dos produtos que consomem. No que a elite consome a mídia investe. Tem até tablóide que fala, por exemplo, do vestuário usado pela elite, é o terno Armani, a bolsa Vuitton, enfim. A Classe E também consome.No entanto, qual é a marca dos produtos que ela consome? Qual é a qualidade? . Então o que vai diferenciar é a marca, e a marca é simbólica. Onde estou querendo chegar? Estou querendo chegar a uma questão própria desse contexto que não é concreta: o Desejo, que é subjetivo. O desejo foi estudado primeiramente de maneira brilhante, por Sigmund Freud. Nós somos seres de desejo. A Doutrina Espírita também se refere a isso, antes de Freud, na questão 712, Lei de Conservação. A nota dos espíritos diz que o que move o comportamento humano, o que leva o ser humano a agir é o desejo que ele chama de gozo (prazer). Então estamos em uma sociedade que estimula, excita o desejo e a marca representa isso, é simbólico. É diferente consumir uma marca X que confere um status, de pertencimento social, de importância social, de valor social, que consumir algo inferior. É como frequentar um shopping. A Barra mostra isso claramente: tem o Barrashopping que é claramente universal, para todo mundo, mas tem um shopping lá que é só para classe A e B. 10 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Há diferença simplesmente em frequentar, e ela não está só na capacidade aquisitiva do dinheiro, no bolso ou no cartão. Está no que isso representa. Estamos em uma sociedade marcada por valores simbólicos e isso vai mudando o significado de pobreza para além do restritamente econômico. O economista que ganhou o Prêmio Nobel, Amartya Sen, diz que não dá para você falar em desenvolvimento, por exemplo, sem falar em liberdade. Se usarmos esse critério, qual é o grau de liberdade que tem o pobre da classe E, comparando com a elite? Qual é o grau de liberdade? Daí é possível agregar à liberdade outros valores, sempre no campo dos valores, no plano subjetivo. Eu procuro refletir a visão de pobreza própria do tempo da tia Vera que não existe mais. Hoje o conceito de pobreza é outro e se alargou, é Multidimensional. Isso torna complexo o entendimento, e complexa a intervenção. Como aquele grupo que a tia Vera atendia era de uma sociedade sem essa mobilidade tão intensa, porque não havia esse desejo, as famílias eram muito mais estáveis, as relações também eram mais estáveis, e mesmo a relação do grupo, da tia Vera com aquelas pessoas, era muito mais estável. Não havia autoritarismo, mas uma autoridade moral muito consolidada. Aquelas pessoas ocupavam um lugar social e para elas aquilo era bom. Elas se moviam em tradições e, como procediam de outro espaço geográfico, trouxeram suas culturas, seus valores, noção do certo e do errado, o que é relação humana, o que é educar um filho. Isso era muito definido, não havia incerteza, era tudo muito pacifico. A orientação dada às famílias pela autoridade moral da tia Vera e de seus cooperadores, era perfeitamente aceita. Certamente hoje, não é o mesmo quando se fala para os descendentes daquela geração, que estão com 15, 20 anos. O universo deles ampliou-se, eles têm acesso a outro mundo, a outras informações. As famílias mudaram. A família da tia Vera é chamada nuclear, modelo de família herdado do século 19 onde havia a figura paterna como a grande autoridade, uma linha vertical de obediência: o homem, a mulher, após a mulher o filho mais velho até chegar ao caçula. Hoje não se fala mais em família, não há mais esse conceito de família. Hoje se fala em arranjos familiares pela multiplicidade de organização da dinâmica familiar. São as mudanças que estão aí. Como lidar com isso nesse grau de complexidade? Ao lado disso, também a sociedade foi mudando, e a brasileira caminhou junto na ampliação de certos conceitos de liberdade. A calça “jeans”, numa certa época virou sinônimo de liberdade porque representava o movimento jovem, a rebeldia, os hippies com seus desejos de liberdade, de viver livremente, questionando a geração anterior, a liberdade nas relações, relações não tão mais estáveis. Ontem eu fui a um casamento e o padre fez questão de frisar que ele estava casando uma jovem de 24 anos, mas ali, à frente de todos, estava a avó de idade avançada, que deve estar nos seus 50 ou 60 anos de casamento. Isso aí já é uma raridade nessas mudanças. Como é que está hoje o jovem nesse desejo de ficar, não ficar? O que significa isso? As famílias mudaram, os valores mudaram esses conceitos, e nessa ampliação houve de fundamental importância, também, a noção de direitos. Esse conceito de direitos humanos se alargou. Ele começou após a segunda guerra mundial com a declaração dos direitos humanos. Daquele momento aos dias de hoje, a ONU foi responsável por vários encontros na linha dos direitos humanos, ampliando o direito da mulher, o direito do trabalhador, da criança, das minorias. As questões de gênero têm sido trabalhadas há décadas; de etnia; criança e adolescente ganharam uma conceituação nova nos anos 90. Os idosos, também. O Brasil é uma sociedade adultocêntrica. Não havia conceito, concepção de criança no Brasil Colônia, no Brasil Império. Criança era um homem pequeno e vista como tal. Criança como um ser próprio em desenvolvimento, com direitos é coisa dos anos 90 para cá. 11 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil O Brasil experimentou um período longo de ditadura. O que representou isso no após? Os exilados quando voltaram da Europa afirmaram o conceito de cidadania que era pouco conhecido no Brasil pelas entidades de assistência social do modelo filantrópico. Cidadania como direito civil de se organizar, se mobilizar em busca dos direitos políticos. Além dos direitos civis e dos direitos políticos , a cidadania inclui os direitos sociais. Não é sem razão que a Constituição de 1988 é a primeira na historia do Brasil, desde a de 1824, que tem um capítulo exclusivo(II) sobre direitos sociais: direito a lazer, habitação, a emprego, moradia, assistência social, saúde e educação. A nossa Constituição é exemplar nesse particular. Dizem alguns especialistas que a nossa Constituição apresenta contradição central: ela traz uma marca da visão liberal, que é uma tradição que remete ao pensador Locke - a liberdade, o valor do indivíduo. Nós estamos aqui em nome desse direito individual discutindo idéias que caracterizam esse grupo. Mas, igualmente, a Constituição se remonta a Rousseau, no campo dos direitos sociais, da garantia disso. Então, isso virou um caldeirão de mudanças. Nem é oportuno nem é a intenção aprofundar isso, apenas estabelecer uma visão bem geral tentando comparar dois momentos. Isso que descrevi não havia no tempo da tia Vera; criança com direitos, questão de gênero, liberdade sexual, família como se concebe hoje com arranjos. É uma realidade nova, e implica que pensemos no papel desta Casa na Rocinha, sem abrir mão das raízes que se voltam para o céu. Isto porque, há 50 anos tia Vera foi com um grupo de trabalhadores do bem para a Rocinha, e fincou no céu as raízes da Casa Espírita Maria de Nazaré. Mas a Doutrina Espírita traz a Lei do Progresso. Emmanuel diz que a maior lei é a lei da mudança, que não muda, apesar de tudo mudar. É assim que o progresso se faz, e se faz na contradição. Espíritos como nós, de mediana evolução, vinculados a esse planeta de provas e expiações, com conquistas no campo intelectual, também moral, ainda que menos neste que no primeiro, estamos em um patamar de consciência que nos confere uma liberdade para decidir, optar. Em conseqüência disto padecemos de certas questões. Por exemplo, os conflitos inerentes aos espíritos que estão agindo neste planeta, ou sejam, conflitos de valores, decisões a tomar. Há sombras que nos acompanham, de culpas, algumas muito fortes que geram remorsos, que estão em nossa intimidade consciencial. É como diz o poeta popular Noel Rosa: o remorso é como se fosse um vulto que no meio das sombras está a nos perseguir. E remorso nos desequilibra, cria distonias mais profundas que vão para o corpo físico, para o corpo emocional, para as relações. Determinam o lugar que ocupamos na sociedade, distúrbios que enfrentamos hoje. A grande marca desse momento histórico é a contradição. Talvez em nenhum momento da historia humana se aplique com correção aquele pensamento de Jesus, quando disse que não era dado o tempo de arrancar o joio, que deveria ser mantido junto ao trigo. Este é o momento de conviver com o joio e o trigo. Quando olhamos para a sociedade temos conquistas das quais nos orgulhamos, porém temos também muitos problemas a enfrentar. E como! São contradições da sociedade. Por exemplo, essa questão do consumo para o qual se bate palma: “olha só que maravilha, olha só como o Brasil está maravilhoso; é um país que progride... Eram 44%, hoje são 52! Estão consumindo eletrodomésticos, computadores, que maravilha!” Mas o que está por trás disso? Não desse consumo da classe C, mas de uma sociedade cujo consumo é a centralidade? O que significa esse consumo? Esse desejo associado ao consumo é o que se expressa no nosso cotidiano, nos valores que nos movem, diante do que alguns pesquisadores colocam na conta como uma sociedade líquida, porque os valores são fluidos, as relações são fluidas, instáveis. Estamos pagando um preço da instabilidade emocional, da inquietação, do corre-corre. E, muitas vezes do “salve-se quem puder”. 12 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Hoje há demandas que não havia há 50, 60 anos. No meio de tantas conquistas há questões para pensar: qual é o papel de uma casa espírita na Rocinha hoje? Será que é o mesmo de 50 anos atrás, preservando-se, por outro lado, as “raízes no céu”? Nós temos por hábito e, isso é humano, o conservadorismo. Lembro-me que há muitos anos atrás, eu nas minhas idas a Petrópolis como trabalhador espírita, fui a uma domingueira. Quando terminou o evento, um senhor que eu conhecia há muito tempo, seu Quadrios, estava na porta do centro com uma boina na mão, recebendo doações em dinheiro. As pessoas passavam e colocavam dinheiro. Curioso, tinha um lanchinho. Eu falei: - Seu Quadrios, o que é isso? - Ah! Meu filho, você sabe que domingueira aqui de Petrópolis é uma tradição! Essas reuniões mensais aos domingos, cada mês em um centro espírita foi criado por Leopoldo Machado. Não sei se vocês sabem quem foi o Leopoldo Machado, mas ele foi uma figura importantíssima, assim como a tia Vera é uma líder aqui, citada sempre, Leopoldo é uma figura importante da Baixada Fluminense. E Seu Quadrios continuou com muito orgulho: -Leopoldo dizia: a gente vai faz esse domingo fraterno no centro, tem a palestra, tem um lanchinho. - E o centro tem o seu trabalho assistencial, não tem? - Ah tem! - Então porque não recolher um donativo para o trabalho assistencial? - Era a razão daquela boina recebendo dinheiro. E Quadrios fazia aquilo com muita tranqüilidade e dedicação, e os anos tinham se passado. E é assim que a gente faz, como Leopoldo criou, mantemos as práticas e não refletimos. Os anos se vão, a realidade muda, as demandas são outras, a gente continua fazendo a mesma coisa. É a historia do soldado e o banco, que as pessoas conhecem. Um comandante chegou ao quartel e tinha que mostrar mudança. Mandou pintar o quartel, limpar e botou um soldado para tomar conta do banco pintado, para ninguém sentar. O comandante foi embora, veio outro comandante, veio outro, e outro e mais outro, e perguntaram por que a sentinela do banco? Sei lá, já encontrei assim, sempre foi assim... As pessoas resistem às mudanças. Se ela é uma lei, elas resistem por acharem que estão ferindo os fundamentos dos pioneiros, estão indo de encontro, magoando o pioneiro. Lá na Tijuca há uma instituição tradicional fundada por Dona Olímpia Belém, uma figura de mérito, emblemática. E a filha ficou conduzindo o trabalho. De vez em quando eu ia lá, e ela reclamava de um Juiz: “Ah! Esse Siro Darlan é um chato, vem aqui e quer mudar tudo. Não pode mudar! Minha mãe fundou e foi sempre assim...”. Um belo dia, ela me mostrou uma mensagem mediúnica da mãe dela, dona Olímpia, psicografada por Divaldo Franco. Dona Olímpia dizia a certo trecho para a filha: “... minha filha não recalcitre, não recalcitre com esse tal de estatuto da criança, ai está algo novo, é mudança...” E ela lá se achando chateada pelas exigências dos novos conceitos da modernidade. Não é fácil, a gente sabe que não e fácil. As gerações se sucedem, a figura dos fundadores deve ser sempre lembrada e guardada, mas as mudanças estão aí! 13 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Bom, dando seguimento, vamos tentar entender como isso hoje se coloca. Vou pedir para ele colocar a segunda transparência, que fala de exclusão. Vocês reparem como o conceito de exclusão se ampliou. Qual é a real necessidade dos excluídos hoje? Certamente não é a mesma daquelas famílias do tempo da tia Vera. O que as pessoas hoje têm como real necessidade? Aos pobres basta alimento? Será que hoje vamos dar conta da pobreza com isso? Até porque temos o Bolsa Família; são mais ou menos 12 milhões de famílias recebendo o Bolsa Família. Como é que vamos lidar com isso? Aliás, Alan Kardec pôs essa questão também, aos Espíritos no século 19, quando perguntou o que se deve pensar da esmola. Já no contexto do século 19, com as mudanças que estavam acontecendo, Kardec pergunta se aquele modelo medieval da esmola, porque a esmola é um modelo de caridade da idade média, da hegemonia da igreja católica, se aquele modelo numa sociedade que começava a revolução industrial, após a revolução francesa, se aquele modelo de atender aos pobres era suficiente. Vamos lá, o que é exclusão social? Exclusão Social Considera-se aqui, essencialmente como: uma situação de falta de acesso às oportunidades oferecidas pela sociedade aos seus membros. Desse modo, a exclusão social pode implicar privação, falta de recursos ou, de uma forma mais abrangente, ausência de cidadania, se, por esta, se entender a participação plena na sociedade, aos diferentes níveis em que esta se organiza e se exprime: ambiental, cultural, econômico, político e social. Então reparem; hoje a questão é muito mais profunda é multidimensional. Quer dizer, hoje lidar com essa questão não é atender somente a um aspecto, não é só falta de recursos. Aliás, cada vez menos hoje se lê pobreza pela carência. Nossa leitura de pobreza é pela falta, é pobre por que falta isso, falta aquilo. A visão de exclusão põe isso de cabeça para baixo, a gente vai ver adiante como é que isso se dá. O que importa é a compreensão de que isso ganhou múltiplas dimensões. Está se falando de cidadania, direitos sociais. Está se falando de saúde, de educação, de moradia. Está se falando de participação, de ser ouvido, de ser acolhido, respeitado. De ter acesso as riquezas que a sociedade produz. Por isso, esse desejo de ascensão social, de sair da Classe E (é importante registrar que a Classe E é aquela cuja renda é até R$ 768,00), ser pobre, para alcançar a Classe C, possuir um celular, possuir um carro, viajar... Porque esse é o modelo de sociedade, e eu não estou entrando nem no mérito de se isso é bom ou ruim. É um modelo de sociedade que está aí. Estou querendo dizer com isso, que é um desejo hoje universal. Aquele jovem da Rocinha da Classe E tem o mesmo desejo que do jovem que mora no Leblon. O acesso é diferente, mas o desejo é o mesmo. A sociedade estimula esse desejo tanto para um quanto para outro, de forma idêntica. Vamos adiante. Principais Dimensões do Cotidiano Real dos Indivíduos: • Do SER, ou seja, da personalidade, da dignidade e da autoestima e do autorreconhecimento individual. Então, essa é uma dimensão, que hoje é muito marcada. Vou até repetir, como no momento não cabe muita reflexão se é bom ou ruim. Por esse viés do consumo, do desejo, estimula a dignidade, a autoestima e o autorreconhecimento. Ter acesso a certos bens como celular, a roupa de marca, 14 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil o tênis de marca, isso tem um efeito subjetivo, o que se chama subjetividade, identidade dessa pessoa, como ela percebe que se coloca no mundo. Então não dá para esquecer isso quando está se falando de exclusão. • Do ESTAR, ou seja, das redes de pertencimento social desde a família às redes de vizinhança, grupos de convívio e de interação social e à sociedade mais geral. Isso hoje é um sentido. Vou dar um exemplo para vocês de um trabalho de campo: eu coordenei uma pesquisa no aterro de eixo controlado que é o maior da América Latina, o Aterro de Gramacho. Em certa ocasião no trabalho de campo eu coordenei uma discussão com os jovens que trabalhavam como catadores. Tinham um acesso ao Aterro noite adentro. Eram todos jovens com escolaridade relativa, quando muito teriam até a quarta série, ou quinta. Na conversa com eles, ali discutindo o trabalho, apareceu claramente uma questão: do ponto vista econômico, financeiro eles se sentiam muito bem. Se comparasse aquela atividade profissional que eles exerciam de catação, de ir ao Aterro pegar material para vender, com uma atividade similar, por exemplo, serviços gerais, trabalhar numa empresa, contratado com carteira assinada, do ponto de vista econômico, a primeira era melhor. Havia a questão da insegurança relativa, não tinham carteira assinada, mas o Aterro estava lá, disponível, ou seja, não tinham o problema de ser mandado embora. Mas o curioso é o seguinte, com o desdobramento da discussão eles deixaram claro que não declaravam condição de contador fora da sua rede pessoal – vizinhos, a família. Quer dizer, eles tinham necessidades, sobretudo como jovem, de ter um sentimento de pertença social – frequentar as baladas, ter namorada e tal. Mas nesse outro espaço, com essas outras pessoas, eles não declinavam sua condição de trabalhador do lixo porque isso é humilhante, degradante. Tomavam banho, botavam perfume e não diziam onde trabalhavam. Tinham de um lado essa necessidade de estar nessa rede como qualquer jovem, frequentar os mesmos ambientes que os jovens frequentam, eles sentiam necessidade, mas ao mesmo tempo tinham esse problema, pelo tipo de trabalho que exerciam. É uma necessidade crescente, sobretudo hoje no mundo atual, esse mundo que o Milton Santos bem examina, esse modelo de globalização é muito mais “mundialização” do que globalização. É um processo massacrante, de perda de identidade. As pessoas precisam mais do que no passado, provavelmente, se sentir pertencendo a um grupo, de vizinhos, de amigos, grupos de convívio. Isso é uma necessidade fortíssima, hoje. Isso é uma dimensão da exclusão. Aqueles que são excluídos nesse aspecto. Outro exemplo: em Niterói, eu fiz um trabalho de consultoria para implantar o Sistema Único de Assistência Social, e Niterói naquela época era o único município que tinha um programa interessantíssimo na área da assistência social – o Programa Transporte Eficiente – que era transporte para pessoas com deficiência. Qual era a razão de inclusão no programa? Era a renda? Não! O motivo de se ter direito àquele programa social era o fato de ser uma pessoa com deficiência. Sem acesso àquele programa a pessoa não tinha garantido o seu direito de ir e vir. Porque a cidade não oferecia um transporte coletivo que atendesse àquelas pessoas. Portanto, cabia ao poder público, a Prefeitura, garantir essa mobilidade das pessoas. É um sentimento de pertencimento, a razão ali não era dinheiro. É que elas tinham que pertencer à sociedade, frequentar escola, etc... Como frequentar a escola sem poder se locomover? Então isso é muito forte hoje, e se fala da discriminação. Imagine que deve ocorrer ainda com jovens da Rocinha que, procurando emprego, tomam seu banho, se vestem direitinho, chegam lá ao declinar que são moradores da Rocinha; “Não! Você pertence à Rocinha, então aqui não quero você como trabalhador.” 15 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Então as contradições: de um lado ser incluído nos grupos, mas ao mesmo tempo o sentido da rejeição, da discriminação. Isso é um fenômeno muito forte nos dias de hoje, não só no Brasil, mas também na Europa. Em vários países europeus vive-se hoje isso por conta da migração. • Do FAZER, ou seja, das tarefas realizadas e socialmente reconhecidas, quer sob a forma de emprego remunerado (uma vez que a forma dominante de reconhecimento social assenta na possibilidade de se auferir um rendimento traduzível em poder de compra e em estatuto de consumidor), quer sob a forma de trabalho voluntário não remunerado. Vejam: as pessoas têm a necessidade de realizar tarefas, mas que sejam socialmente reconhecidas, que tenham valor social, não só do ponto de vista do pagamento da moeda. Aí entra o dinheiro como possibilidade de ser consumidor, voltando para o consumo das marcas, ou seja, ganhar tanto para poder comprar. Essa idéia de consumir, vou até alargar, não são só os bens materiais, consumir também bens simbólicos: poder ir a cinema, teatro, comprar revistas. Veja como é interessante e como estão atentos a essas necessidades. À medida que a Classe C se alargou, saiu outra revista feminina muito parecida com a Marie Claire que para a outra classe é mais densa, mais grossa, com a leitura mais cuidadosa, mais cara. Para a classe C a nova revista vem com textos mais curtos, tem o psicólogo que dá uma orientação, tem o consultor de moda, da vida sexual, etc. E aqui cabe um parêntese, já que estamos falando nesta casa de trabalho voluntário. O trabalho voluntário não é remunerado, mas entra nessa dimensão do fazer. Há uma necessidade humana, isso depois nós vamos voltar, é histórica, e não é histórica só culturalmente, é da nossa história enquanto humanos, espíritos que somos criados simples e ignorantes para o progresso, dessa necessidade, desse tipo de trabalho voluntário. É o que vocês fazem na Rocinha, nas ruas, no bazar, aqui na casa. É trabalho que também traz reconhecimento. Ele também é simbólico, tem um valor. Não é igual ao outro, mas também tem um sentido. Na página intitulada “Remuneração Espiritual” (do livro “Perante Jesus”, psicografado por Chico Xavier, apud Manual de Apoio do SAPSE, p.36), Emmanuel afirma: “Além do salário amoedado o trabalho se faz invariavelmente seguido de remuneração espiritual respectiva , da qual salientamos alguns dos itens mais significativos: acende a luz da experiência; ensina-nos a conhecer as dificuldades e problemas do próximo, induzindo-nos, por isso mesmo, a respeitá-lo; promove auto-educação; desenvolve criatividade e a noção do valor do tempo; imuniza contra os perigos da aventura e do tédio; estabelece apreço em nossa área de ação; dilata o entendimento; amplia-nos o campo das relações afetivas; atrai a simpatia; extingue a pouco e pouco as tendências inferiores que ainda estejamos trazendo de existências passadas.” Assim, mesmo o trabalho remunerado tem um valor simbólico, ou seja algo a mais do que valor em dinheiro representado no contracheque, que é o poder de compra. As pesquisas mostram, como é importante a pessoa se sentir reconhecida no lugar que trabalha, pelo chefe, pelos companheiros – “ele é capaz, inteligente...” – no lugar que ele pode fazer uma rede social de relações com pessoas que convive, troca, é respeitado, é querido. O trabalho também remunerado é provocativo das possibilidades e capacidades humanas, e desafios de aprender uma coisa nova, de mudar. 16 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Emmanuel complementa: “Quando, no entanto , o trabalho se transforma em prazer de servir surge o ponto mais importante da remuneração espiritual.” A razão do trabalho não é só a quantidade de dinheiro que se recebe num mês, está também nos ítens relacionados pelo benfeitor Emmanuel. Daí se pode acrescentar: quando esse trabalho mesmo remunerado cresce um pouco mais, além de bater o cartão às 8 horas da manhã, e permanecer até as 17hs, executando todas as tarefas, o trabalhador tenta ser amigo, conviver, aprender, fazer curso, crescer. E se, ademais, por exemplo, ele apóia um companheiro por iniciativa própria, ajuda um, a outro. Se a necessidade de um colega ou da empresa for urgente e ele se coloca prontamente, espontaneamente para colaborar, Emmanuel assinala nesse trabalho um algo simbólico acima, superior, além. É o “plus”. É um tipo de gratificação que a pessoa sente além daquilo que sua função o obriga a fazer. Isso lhe traz um ganho indireto também, que ele se coloca para fazer a mais. Começa a experimentar algo. É nesse “plus” da “pirâmide” desenhada por Emmanuel que se encontra a razão para o trabalho voluntário. Esse plano da espontaneidade é um nível a mais de consciência. É a consciência que se amplia acima de um dado limite. Os psicólogos chamam a consciência estreitada, de consciência captativa, é o egocêntrico. O outro que amplia a consciência e caminha na espontaneidade de colaborar, ajudar, apoiar, este está num estágio que os psicólogos chamam de consciência oblativa, da generosidade. Aí as pessoas passam a experimentar um bem-estar físico, emocional e mental que a neurociência identifica e tem estudado. O psicólogo, Abraham Maslow, que desenvolveu pesquisas sobre as necessidades humanas determinantes do comportamento, registrou as chamadas metanecessidades. Isto tem a haver com o trabalho voluntário. • Do CRIAR, ou seja, da capacidade de empreender, de assumir iniciativas, de definir e concretizar projetos, de inventar e criar ações, quaisquer que elas sejam. Então aquelas pessoas da Rocinha, hoje mais do que no tempo da Tia Vera, também tem a necessidade de crescer em autonomia, ter projeto de vida, conduzir suas vidas. Não são mais para serem tuteladas mesmo que seja em nome do bem. Dizer-lhes o que fazer e o que não fazer, não faz mais sentido. O trabalho tem que ser de tal ordem que estimule o potencial de cada um. Aquilo que cada qual tem dentro de si deve ser trabalhado e estimulado para que ela tenha projetos, iniciativas, empreendimentos. Seja alguém capaz de mudar a vida. Então isso é uma necessidade hoje. Estou falando de exclusão. Utilizo o dicionário para anotar a origem da palavra “trabalhar”: do latim tripaliare, martirizar com o tripalium (instrumento de tortura). Isto explica o sentido de castigo dado ao “trabalho”, em particular o manual que remete ao trabalho escravo, e depois ao repetitivo das fábricas. O ato de criar, ou seja de transformar, no uso da inteligência (com o significado dado pelos Espíritos em o L. dos Espíritos – pergunta 71), um dado objeto,é ao mesmo tempo o ato mediante o qual o homem se transforma, desperta e desenvolve as potencialidades únicas do Ser. • Do SABER, ou seja, do acesso à informação (escolar ou não; formal ou informal), necessária à tomada fundamentada de decisões, e da capacidade crítica face à sociedade e ao ambiente envolvente. Aquelas pessoas de cinquenta anos atrás eram muito mais passivas. Uma pessoa com autoridade, bondosa dizia: “... deve criar filho assim, não crie filho assim, não bata...”. 17 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Hoje, isso já não cabe! O que essas pessoas estão carecendo é de informação. A informação é um direito de hoje. Não só a informação escolar, mas a informal: sob seus direitos; sob seu universo; que valores têm; que pessoas são. Saber do mundo que a cerca, e ampliar a capacidade critica, de criticar a sociedade. Ajudá-los a pensar a sociedade na qual estão, principalmente os jovens. Eles precisam ampliar a capacidade crítica porque estão numa sociedade muito complexa, mediática. As coisas são muito contraditórias, sempre têm os dois lados da moeda. É difícil você distinguir um caminho porque as coisas são muito embricadas, se misturam. E não basta ler um jornal para se informar. O jornal tem uma direção, uma condução. A novela está expressando valores, tanto é que as novelas mudam. Quando tem um autor há um caminho, outro autor outro caminho. Ampliar essa capacidade é fundamental. • Do TER, ou seja, do rendimento, do poder de compra, do acesso a níveis de consumo médios da sociedade, da capacidade aquisitiva (incluindo a capacidade de estabelecer prioridades de aquisição e consumo). Frei Beto, citando o conto do cubano Onélio Cardoso se refere as duas grandes fomes do ser humano: “pão e beleza”. Então a idéia do ter se ampliou. Hoje é muito mais complexo ter do que no tempo da tia Vera. O ter da tia Vera era muito mais concreto. Hoje ele tem muito de simbólico. Poder ter para comprar, consumir, tem um significado muito profundo e amplo. Agora, trabalhar essas prioridades. Eu lembro que o Programa de Renda Mínima da Prefeitura do município de Campinas, o primeiro do Brasil, derrubou algumas idéias preconceituosas sobre o pobre. Quando se criou o programa, como ele era novidade, fez-se um trabalho de investigação, de pesquisa muito acurada, e durante um ano houve um acompanhamento dos gastos das famílias inscritas no programa. Isto porque em geral há um entendimento: ... já que são pobres quando botarem a mão no dinheiro vão gastar com qualquer coisa, vão gastar adoidadamente, irresponsavelmente. Realmente nos primeiros meses aconteceu, foram comprados muito supérfluos, mas depois de 3 meses isso foi naturalmente se dirigindo, e foi havendo essa prioridade no consumo. Eu fiz trabalhos no interior do Brasil acompanhando o Programa Bolsa Família, e verifiquei isso. O Ibase, que é uma ONG importante, fez uma pesquisa nacional sobre o Programa Bolsa Família e, para espanto, as pessoas não estão usando o dinheiro do bolsa família de maneira irresponsável.. Estão comprando alimentos, estão botando criança na escola, comprando material escolar. As pessoas têm essas necessidades, e o trabalho pode ajudá-las a pensar. Como é uma sociedade consumista, um trabalho reflexivo, um trabalho de orientação, de informação pode fazer com que elas percebam as coisas e saibam cada vez mais distinguir. A exclusão social é, portanto, segundo esta leitura, uma situação de não realização de algumas ou de todas estas dimensões. Esse entendimento de exclusão é o “não ser”, o “não estar”, o “não fazer”, o “não criar”, o “não saber” e/ou o “não ter”. Isto nos leva a outro entendimento atual. Nossas atitudes podem fazer a diferença Pois bem, se o conceito de exclusão se ampliou, por outro lado alargou o conceito de proteção social. Este conceito é novo, vem dos anos quarenta do século passado, na Europa. Mas é fruto de toda uma dinâmica, vem da revolução francesa, século dezenove, que é proteção social, hoje entendido, e o Brasil incorpora esse conceito e é reconhecido. A Constituição Federal de 88 rompeu 18 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil com os modelos tradicionais de assistência social – primeiro, a assistência social realizada pelos religiosos, principalmente, os católicos, que cuidava dos pobres, distribuindo cestas básicas, roupas, cobertores no inverno - e depois pela filantropia (na 1ª metade do século XX) utilizando as técnicas do Serviço Social. O conceito histórico dos dois modelos, o religioso e filantrópico, foram superados pelo novo modelo da assistência social – o da proteção social como política pública, Dever do Estado e Direito do cidadão. É um conceito novo que está posto na sociedade brasileira como um padrão civilizatório que se introduz na cultura e nas práticas sociais do Brasil. Proteção social vem do latim, protectione, ou seja, tomar a defesa de algo, impedir sua destruição, sua alteração. A ideia de proteção tem um caráter preservacionista. Agora, que vem a questão muito interessante: a idéia de proteção tem um caráter preservacionista, não da precariedade, mas da vida: apoio, guarda, socorro e amparo. Aqui ocorre a grande virada da história. A assistência social anterior trabalhava com a precariedade, com a carência. Na proteção social, o valor que se a levanta é o da vida. Aquela pessoa tem o direito de ter um prato de comida, não é porque esteja faltando comida, é uma vida que tem que ser preservada. Deu para entender a diferença? É radical isso. O sentido preservacionista mobiliza: a segurança social Isso é um conceito novo. Segurança social, em nome da proteção social vai ter que garantir ao indivíduo, para lhe preservar a vida, um rendimento, uma autonomia, projeto de vida, a convivência familiar e comunitária, acolhida que é ser ouvido, respeitado, com ele um diálogo. E o apoio e auxílio em riscos circunstanciais que é aquela questão do benefício, que pode ser uma cesta básica, pode ser uma roupa, pode ser um remédio. Mas não mais no sentido de cobrir uma precariedade, mas no sentido de preservar a vida. É uma vida que tem de ser preservada. Direitos sociais, política de proteção social – conjunto de direitos de civilização de uma sociedade e o elenco das manifestações, e das decisões de solidariedade de uma sociedade para com todos os seus membros. É um padrão civilizatório. A Doutrina Espírita não afirma a Lei do Progresso (Livro dos Espíritos, Capítulo VIII)? Pois bem, o Movimento Espírita (ação organizada dos espíritas) precisa reconhecer e incorporar esse padrão civilizatório dos direitos em suas práticas sociais. Volto à questão 888 de O Livro dos Espíritos: “O que se deve pensar da esmola?” Aí a resposta é “Uma sociedade que se organiza sob a Lei de Deus e na justiça, ninguém deve ficar dependente da esmola. A sociedade tem que se organizar, tem que se estruturar, tem leis, programas, instituições que preservem a vida, que garantam a vida.” Porque isso remete a outra pergunta a 880: “Qual é o primeiro direito do homem?” O de viver. E a ninguém é dado o direito de atentar contra a vida do seu semelhante, ou de nada fazer que ponha essa vida em risco. Então é o valor máximo, preservar essa vida. O sentido preservacionista justifica a necessidade da política pública de Proteção Social que garanta os direitos sociais que estão definidos na Constituição Federal/88. Esta é a missão, segundo o pensador italiano Noberto Bobbio, do Estado como ente jurídico de caráter permanente. Desta forma, os Serviços e Programas da Política Pública de Proteção Social não são ações de políticas partidárias submetidas às mudanças de governo. É do Estado não é do governo. Estamos vivendo um ano eleitoral, mudança de governador, eleição para deputado estadual e federal, presidente da república... Isto é governo. Estado, como um ente jurídico de caráter per19 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil manente, é uma conquista civilizatória que se consolidou no processo histórico. Neste mesmo processo, a sociedade civil se afirmou mediante a construção de instituições e organizações de participação social. De tal maneira que aí está a razão pela qual a Casa Espírita Maria de Nazaré deve, hoje, permanecer na Rocinha. É uma organização da sociedade civil que, em nome da Doutrina Espírita, se constituiu por meio da união de pessoas que se mobilizam e se organizam para fins não econômicos (Associação: pessoa jurídica de direito privado, conforme disposto no artigo 53 do Código Civil): Empresa do Bem (expressão da benfeitora Joanna de Angelis). São voluntários, militantes do Ideal do Bem, que podem utilizar tecnologias sociais para desenvolver ações socioassistenciais da Política Pública de Proteção Social, de maneira complementar ao Estado. Para tanto, participar da Rede Socioassistencial de base territorial. Vamos adiante: qual é a base ética desse trabalho? A base ética da proteção social – dignidade humana provém do latim e desígna o que é estimado ou considerado por si mesmo e não algo derivado de outro. Dignidade humana – o ser humano deve ser considerado um valor absoluto Veja, isso é padrão civilizatório. Até aqui ninguém usou o nome caridade. Isso aqui vale para judeu, para espírita, evangélico e ateu também. Isso é uma conquista civilizatória. Porque a proteção social tem que ser garantida? Pela dignidade humana. Dignidade humana significa que aquela pessoa em si mesma tem um valor, um valor que é irredutível. Ela não vale por uma razão que seja externa, vale pelo valor dela mesma. E aí que se pode fazer mediações com o conceito de caridade. Ela pode ser um canalha, ainda assim, é possuidora de dignidade humana. Pode-se até chegar aos extremos: a pessoa praticou o mal :a polícia prendeu, foi julgada e condenada a passar anos na prisão.Nem nesta condição perde a dignidade humana, ainda que sua conduta a faça negar (aparentemente) a dignidade humana. É um padrão civilizatório que, a luz da Lei do Progresso (Livro dos Espíritos, capítulo VIII), deve ser considerado pelos espíritas. Podemos traduzir isso de outra forma, se quisermos colocar um sinônimo: traduzir dignidade humana com o conceito de espírito: ele é um espírito imortal criado por Deus para o progresso, para a felicidade, como está no Livro dos Espíritos, na questão 920, quando Allan Kardec pergunta aos Espíritos se é possível a felicidade aqui na Terra. E os Espíritos dizem não de maneira absoluta, mas de maneira relativa, sim. E deve o homem ser tão feliz quanto possível aqui na Terra. E tudo deve ser feito para diminuir as vicissitudes, porque ele é um filho de Deus, e essa condição de filho de Deus é universal. Eu sou filho de Deus, o outro não é, porque é negro. Eu sou filho de Deus e o outro não é porque é uma mulher. Esse conceito de “Deus em mim” constitui a minha identidade primária - a base da dignidade humana. É a mesma coisa, e é com esse conceito que o voluntário deve atuar. (2ª parte - foi feita uma pergunta que infelizmente não ficou gravada) O nosso amigo Sandro levantou uma questão que é pertinente a este momento. Esses novos conceitos trazem a necessidade da desconstrução de mentalidades, de paradigmas, de conceitos e práticas, e simultaneamente a construção de algo novo. Antes nós trabalhávamos com conceito de carência. Agora passamos a trabalhar com conceito de direito. A primeira coisa que tenho de fazer quando me relaciono com o outro é reconhecer que, 20 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil por ele ter dignidade humana, que lhe é intrínseca, um valor que é absoluto nele mesmo, atender-lhe a necessidade de demanda é a garantia de um direito. Sendo assim, a relação muda. Em um modelo de carência você tem alguém que tem mais dinheiro, mais saber, mais poder, mais conhecimento. Na relação com o outro, que já de saída está inferiorizado – ele tem menos dinheiro ou não tem, tem uma casa inferior, a roupa é de qualidade inferior, conhecimento inferior. Ao longo dos anos, os programas sociais trabalhavam com os indivíduos de per si, eram verticais para pessoas de acordo com a sua carência: um programa de assistência para criança com dificuldades de aprendizagem, outro para idosos abandonados. No cenário atual da assistência social como política pública de Proteção Social, o foco prioritário é a atenção integral às famílias. Essa foi a grande mudança: “O núcleo familiar é o espaço insubstituível de proteção e socialização primários, independentemente dos arranjos, modelos que ele tenha assumido com as transformações econômicos, sociais e culturais contemporâneos. A família é provedora de cuidados aos seus membros e, como tal, precisa, por sua vez, de cuidados e proteção do Estado. O reconhecimento da importância da família no contexto da vida social está explícito na Constituição Federal/88 que endossa a Declaração dos Direitos Humanos - Artigo 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.” (Artigo 229. Os pais têm o deve de assistir, criar e educar os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade.) Esse reconhecimento reafirma-se, ainda, nas legislações específicas da assistência social como política pública de Proteção Social: Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA; Lei Orgânica da Assistência Social - LOAS. Este é um conceito inovador que o Direito incorporou nesses últimos anos: trazer para o campo do próprio Direito, a noção de afeto e cuidado. Hoje, o juiz já não mais decide em questões de família, deixando de considerar o afeto e o cuidado como dados importantes da dinâmica familiar. A família é vista hoje, independente do arranjo que ela tenha, como uma unidade básica onde se constroem identidade, valores, referências afetivas. E, sobretudo, um espaço de afetos e cuidados. No Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIV, item 8, Allan Kardec registra os 2 parâmetros da evolução intelecto-moral: as famílias pelos laços corporais e as famílias pelos laços espirituais. À medida que a evolução se faz, cada vez mais caminhamos na direção do modelo de família pelos laços espirituais, dos laços afetivos, e menos força tem os laços de sangue para construir e preservar os vínculos de pertencimento familiar. Esse é o novo conceito, ou seja, a família, como uma instituição que desliza no tempo e no espaço, experimentou mudanças na segunda metade do século XX, a ponto de haver o entendimento que ela iria desaparecer. Ao contrário, mudou preservando-se na sua condição de instituto social fundamental, mas ganhou novos papéis e tão importantes que requer proteção social. A Proteção Social está hierarquizada por grau de complexidade. Há um nível de proteção que se chama Proteção Social Básica. Que família deve ser alvo da Proteção Social Básica? É a família em vulnerabilidade social. Isso é um conceito novo. Vulnerabilidade na perspectiva da exclusão social. A família está excluída na dimensão do TER - não tem renda, ou tem e é precária. E também está excluída de acesso aos serviços de saúde, educação, lazer, emprego, etc. Por outro lado, é uma família que cumpre as funções parentais de cuidados e proteção e se constitui como um grupo de referência afetiva e moral, mesmo em situação vulnerabilidade social. 21 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil A criança e o adolescente até podem ir pra rua, bater perna pela Rocinha, pra lá e pra cá, mas voltam para casa. Freqüentam a escola, porque a mãe, o pai, enfim, o responsável, acompanha: vai à escola, cobra, vê o que pode e o que não pode. A criança vê naquele adulto uma referência. Os vínculos estão preservados, ainda que possam estar fragilizados pela circunstância da pobreza, do acesso precário aos serviços públicos e porque a pessoa responsável pela criança/adolescente precisa trabalhar muito, e, assim, não sobra tempo suficiente para a convivência familiar. É uma família chefiada pela mulher (muito comum nos dias atuais) que tem múltipla jornada de trabalho, mas o laço existe. Essa realidade é a realidade da maioria das famílias do Brasil. Os 12 milhões de famílias que estão no Programa de Transferência de Renda “Bolsa Família,” a maioria tem os vínculos preservados. Diferentemente do que as pessoas pensam que toda família pobre é desagregada, vive aos tapas, com um bando de alcoólatras, não é verdade! A realidade não diz isso. Esta é a realidade de uma minoria que acaba tomando uma proporção muito grande, porque o problema é muito grande, do ponto de vista qualitativo, que alcança um caráter exponencial. A família encontra-se em vulnerabilidade social, e segundo as suas condições de vida, dá um jeito, cuida, sabe cuidar, sabe como faz, vai à escola, se interessa. Portanto, é preciso reconhecer os limites e possibilidades dessas famílias, superando possíveis preconceitos. Nessa nova visão de promover o direito e não de trabalhar a carência, qual deve ser o trabalho social? É prevenção primária, é a ação socioassistencial que promove.. A família precisa de um investimento para que ela não vá esgarçando os laços, se fragilizando, no enfrentamento do sofrimento cotidiano. “dor que surge da situação social de ser tratado como inferior,subalterno sem valor, apêndice inútil da sociedade” (in Sawaia, 2008, p.104). É uma categoria definida pela professora Bader Sawaia, da qual me aproprio e acho muito interessante, denominada de sofrimento ético político que não é o mesmo que transtorno psíquico. Transtorno psíquico é neurose, é psicose. É o sofrimento que, continua Sawaia: “retrata a vivência cotidiana das questões sociais dominantes em cada época histórica.” O sofrimento ético político é o “mal estar interior” que tem duas razões fundamentais: uma é porque a dignidade humana está ferida; o seu valor, enquanto pessoa, sua auto-estima. A outra razão é que os direitos estão violados.. Numa sociedade complexa como a atual são os “infortúnios ocultos”, dos sofrimentos, de mil nadas que compõe o cotidiano, um sentimento de menos valia, de solidão, ausência de um lugar de escuta, de acolhimento, de orientação, de informação. E qual é a intervenção? Quais são as ações? Aqui está outra virada, é outra desconstrução. Quando me formei, sou Assistente Social, na minha época, e mesmo depois, com os psicólogos, nos formamos para tratar de família. É como se toda família pobre fosse doente! Era uma visão curativa, e a visão proposta é socioeducativa. O que significa socioeducativa? É o reconhecimento, e é muito importante para o trabalho do voluntário na Rocinha, que todo o trabalho social se faz mediado por relações. O que vocês fazem na Rocinha, a atividade qualquer que seja, atendimento médico, atendimento da fonoaudióloga, da terapeuta, são atividades que estão mediadas, acontecem através 22 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil de relações, destacando: relações entre pessoas. Pessoas de mundos diferentes, valores diferentes, realidades diferentes. Impossível qualquer trabalho humano dessa ordem sem que não haja espaço relacional. É a relação: Eu/Tu. Pois bem, social porque é uma relação. Agora é uma relação que, embora nem sempre tenhamos consciência, é educativa. Melhor seria se tivéssemos consciência de que essa relação deve ser educativa, que aquela atividade é um espaço de relação para que o outro aprenda, e que exercite o direito de aprender. Aprender significa alargar-se, enquanto ser humano. Significa: “alargar a sua condição de humanidade, de ser mais humano, se hominizar, conquistar a sua condição de humano que pensa; que tem afeto, que tem desejo; que essa hominização amplie a sua capacidade relacional de pertencimento neste mundo, naquela comunidade com olhar pra fora; que isso lhe faça conquistar a si mesmo, ou seja, uma conquista de singularidade com valores únicos, com potencialidades únicas, que ele pensa nisso.” É socioeducativa por que a relação deve ser intencionalmente educativa. E não há sentido que no trabalho social assim não seja. Todo o trabalho social em sua finalidade e estratégia de intervenção deve ser de educação. De educação, que por falta de uma melhor terminologia, tem sido chamada de Educação não Formal. Não é a educação da escola formal, também não é a educação informal doméstica, do cotidiano. É uma relação que tem que ter intencionalidade, quem faz precisa saber o que está fazendo, precisa conhecer aquela realidade, aquelas pessoas, aqueles valores, e conviver com uma cultura e com valores diferentes, possibilitando o alargamento de consciência dessas pessoas. Esse é o sentido. Assistir é Educar; Educar é a promoção integral do Ser. A ação socioeducativa, nesta perspectiva ,deveria utilizar como estratégia de trabalho social – o grupo (espaço de convivência que possibilita a reflexão/ação sobre o cotidiano das famílias). E aí vem uma visão de herança cultural. Somos herdeiros, em geral, diz Leonardo Boff (no livro “América Latina: da conquista à nova evangelização’), de um “método jesuítico” que se instalou nas Américas de cultura, de aculturamento, de educação dominadora, excludente, de cima pra baixo. Não o “método franciscano” da relação, da convivência (Francisco não se preocupou em organizar nenhuma obra para os pobres. Ele se fez um deles. Libertou-os convivendo com eles, tocando suas peles, comendo com eles). Esta “proposta jesuítica” nos fez dono do saber, e a gente coloca num lugar mais alto, e se põe aqui em cima para ensinar os outros. Sem dúvida, o melhor espaço para as relações é o espaço de grupo de acolhida, de escuta, de conversa, de troca. E outra ação é uma ação socioassistencial. Há momentos que por direito e não por carência, aquelas pessoas, aquelas famílias precisam de apoio circunstancial. Pode ser uma cesta básica, um remédio, roupa, dinheiro ou material para melhorar a moradia, ou outros serviços que exige encaminhamentos. Ninguém está dizendo que isso não pode ser feito. No entanto, não como uma ação eventual e desarticulada, mas dentro de um conjunto de ações socioassistenciais e socioeducativas No Brasil nestes últimos cinco anos, encontra-se em construção o Sistema Único de Assistência Social – SUAS. No caso do município do Rio de Janeiro, foram instalados equipamentos de Proteção Social Básica – Centro de Referência de Assistência Social/CRAS. O CRAS conta com uma equipe de trabalho social: assistentes sociais, psicólogos e educadores sociais, tendo como principal ação socioassistencial o Programa de Atenção Integral à Família – o PAIF. O CRAS tem um papel estratégico, como porta de entrada do SUAS: articulador da Rede Socioassistencial em seu território de abrangência. 23 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil A Casa Espírita Cristã Maria de Nazaré, considerando as ações socioassistenciais que desenvolve, e o cenário atual do SUAS, deve integrar, como uma Unidade de Proteção Social Básica, a Rede Socioassistencial do seu território de abrangência. É oportuno destacar que a Casa E. C. Maria de Nazaré ao longo de quase 50 anos por suas atividades de assistência social, conquistou o título de Utilidade Pública Federal, o certificado de entidade beneficente e a inscrição no Conselho Municipal de Assistência Social – CMAS.. Nas mudanças em curso com a construção da assistência social como política pública de Proteção Social, as entidades e organizações de assistência social (este é o caso do Maria Nazaré) precisam manter “a inscrição dos serviços, programas, projetos e benefícios socioassistenciais nos Conselhos de Assistência Social Municipais para que suas ações socioassistenciais tenham reconhecimento público.” (Art. 6º da Resolução - CNAS /Nº 16, de 5 de maio de 2010.) Para tanto, as entidades e organizações de assistência social devem adotar os padrões de organização e funcionamento estabelecidas na Resolução CNAS Nº 109, que aprova a Tipificação Nacional dos Serviços Socioassistenciais. Outro nível de Proteção Social é a chamada Média Complexidade na qual começa a mudar o perfil da família. Além da vulnerabilidade que estava na Proteção Social Básica, o que caracterizava a violação dos seus direitos, a família alvo da Proteção Social Especial de Média Complexidade, é violadora de direitos, em particular de crianças e adolescentes: maus-tratos (negligência, violências, abuso sexual). Portanto, as demandas apresentam maior grau de complexidade. A família neste caso, já não cumpre com o seu papel de cuidadora. Aqui a ação não é mais de prevenção primária, torna-se necessária a intervenção restaurativa (prevenção secundária) em face do problema já instalado. Isto vai exigir, além da ação socioeducativa, e socioassistencial, a ação socioterapêutica. Daí a necessidade de conhecimento especializado para oferecer a atenção individualizada que a família precisa. Um voluntário qualificado no papel de educador social pode trabalhar na Proteção Social Básica com supervisão, com apoio técnico. No caso da Proteção Social de Média Complexidade, o voluntário (caso seja) deve ser um profissional de Serviço Social ou de Psicologia. Isto porque ele vai ter que lidar com situações de violência, uso de drogas, abuso sexual; entre outras de maior complexidade. As Unidades de Serviços Socioassistenciais de Proteção Social Básica diante das demandas de famílias que precisam da atenção individualizada dos serviços especializados da Proteção Social de Média Complexidade devem reconhecer os limites e a incompletude institucional. Neste caso, o equipamento do SUAS para atender tais demandas é o Centro de Referência Especializado de Assistência Social-CREAS. E chegamos à Proteção Social Especial de Alta Complexidade. São serviços socioassistenciais que garantem a proteção integral – moradia, alimentação e o trabalho protegido para famílias e indivíduos que se encontram sem referência e/ou, em situação de ameaça, necessitando ser retirados de seu núcleo familiar. Esse é um trabalho que a Casa E. Maria de Nazaré também realiza: o trabalho social com a população em situação de rua cujos direitos foram violados, com danos a integridade física, emocional, mental e espiritual, inclusive com risco de vida. A família não é mais grupo de referência, os vínculos foram rompidos. A situação atinge um grau de complexidade, envolvendo muitas e diversas variáveis (psicológicas, sociais, econômicas, de saúde e outras) requer uma Rede Socioassistencial mais ampla. Não pode ser apenas a abordagem de rua e a Unidade de Acolhimento Institucional Não se pode dar conta apenas com um prato de comida e um lugar para dormir. Há outras questões: droga, tuberculose, AIDS. Tem que haver uma ampla Rede de Proteção Intersetorial (envolve diferentes setores 24 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil de Políticas Sociais – saúde, habitação, trabalho e geração de renda, educação). A abordagem na rua é apenas uma etapa do processo do trabalho social que é muito maior. Quando eu dirigi a Fundação Leão XIII (nos anos 1999/2000) não havia uma política definida. Recentemente, foi definida uma política de proteção social para a população em situação de rua com padrões, protocolos, ações, etc. Aqui eu começo fechando com uma reflexão para irmos caminhando para a Doutrina, ou seja, fazer umas pontes com Doutrina. Os voluntários devem pensar na afirmativa do pensador da segunda metade do século XX, Emmanuel Lévinas: “O único valor absoluto é a capacidade humana de dar em relação a si prioridade ao outro.” Que será que esta frase quer dizer? O que ela está trazendo? Emmanuel Lévinas apresenta um conceito de ética próprio, diferente, e muito próximo da Doutrina Espírita. Chama-se Ética de Alteridade – do latim álter - outro. Ele falou em valor, e quando se fala em valor se fala em ética. Respeito, bondade, justiça são valores e, como tal, pertencem a ética. E aqui vamos fazer uma diferença entre Ética e Moral. Uma vez, num curso de Responsabilidade Social o professor citou uma empresa de cigarros, e nos perguntou se a empresa era moral. Diante de tudo que tínhamos visto, respondemos que sim. Ela cumpre as leis, paga os empregados, os impostos. Depois ele acrescentou: mas ela é ética? Porque é uma empresa que produz e vende cigarro. Ela atinge um valor mais alto que é a vida. Então qual a diferença entre Ética e Moral? Moral é sempre um conceito mais restrito no tempo, no espaço, nos grupos e na cultura. A Ética é um valor absoluto, universal. O que Jesus trouxe não foi uma Moral, ele nos trouxe uma Ética. O que a Doutrina propõe não é uma Moral, é uma Ética, acompanhando Jesus. Então, estamos falando de Ética, de um valor absoluto. E qual é esse valor absoluto que Emmanuel Lévinas ressalta? É uma capacidade que eu devo ter, pensando em mim mesmo, o outro é um valor absoluto. Quando eu me olho, quando vou tomar uma decisão qualquer, o outro se me impõe como valor absoluto, mesmo em relação a mim. O que ele quer dizer com isto? Ele diz que isto é fundamental! Temos de ver que estamos num contexto de relações, falamos em relação anteriormente. E sobre o tema os Espíritos, com propriedade, têm muito a esclarecer. Apanho a questão 643 do L. dos Espíritos: Haverá quem pela sua posição não tenha possibilidade de fazer o bem? “Não há quem não possa fazer o bem. Somente o egoísta nunca encontra oportunidade de o praticar. Basta que se esteja em relação com outros homens para se ter ocasião de fazer o bem.” Os Espíritos colocam aqui algo que é fundamental: relações. A Doutrina Espírita não é a única, o pensamento filosófico, em certa medida, também coloca a relação como um tema de atualidade. Martin Buber, do século passado, falava muito do eu/tu. O Espiritismo no livro O Céu e o Inferno, capítulo III, item 8, Kardec registra: o espírito reencarnando para progredir do ponto de vista moral, só vai fazê-lo em uma vida de relação. É na relação que eu me construo, que eu construo a minha identidade. 25 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Agora nesse contexto de relação vem o Lévinas e afirma que na relação o outro emerge com valor absoluto. Por isso é que a ética vem do outro. Ela é dada pelo outro. Aquele que está comigo emerge na relação, e quando ele emerge como é que ele se apresenta a mim? Como estranho. Primeiro é o estranhamento; deste estranhamento o outro vai provocando uma dinâmica na qual só são possíveis três posições: 1) o amor; 2) a indiferença ou o falso amor. A indiferença pode ser a camuflagem de um falso amor. E a terceira posição: não amor, o desamor, a destruição do outro. Nesse contexto, vamos pensar em Jesus, na Doutrina Espírita. Em O Livro dos Espíritos, na questão 886, Kardec pergunta sobre a caridade, como é que se deve entender a caridade. E usa um parâmetro: como se deve entender a caridade segundo Jesus? O padrão de caridade que Kardec quer saber é o de Jesus. Qual o padrão que Jesus utiliza para definir caridade? Em vários momentos vai aparecendo; com a samaritana, com a mulher adúltera, com Zaqueu. Mas é na parábola do Bom Samaritano que isso aparece com precisão: a medida da caridade é o outro. Se eu quero medir a minha caridade é o outro que vai determinar o valor - a caridade. Daí pode-se afirmar que a caridade é uma categoria ética – um valor subjetivo. Neste momento se apresenta outra questão que é complexa para os espíritas brasileiros. Os antropólogos e sociólogos, que têm estudado ao longo do tempo o movimento espírita , perceberam o que muitas vezes nós – os espíritas – confundimos. O movimento espírita apartou, algumas vezes, o conceito subjetivo, consciencial de sua prática. A prática tomou o lugar do conceito. Quando eu dou um prato de sopa digo que estou fazendo caridade. E pode ser que eu esteja dando um prato de sopa distanciado do valor subjetivo. Nessa relação com o outro, o que estou dando de mim? Estou dando um prato de sopa! Ou além do prato de sopa, que me obrigou ir ao uma bolsa e tirar coisas, eu também estou dando algo que não tiro do bolso e nem da bolsa, mas tiro do coração: ternura, compreensão, generosidade, amor. Perdemos o sentido, mas o sentido da caridade genuíno, autêntico, tem a ver com o conceito subjetivo. É uma ética. É um valor subjetivo que deve ser expresso numa relação, onde o outro tem ou não tem pra mim valor absoluto. É isso que Jesus colocou e que a Doutrina Espírita toma. “... e não há dia da existência que não ofereça a quem não se ache cego pelo egoísmo oportunidade de praticá-lo. Fazer o bem não consiste para o homem apenas ser caridoso, mas em ser útil, na medida do possível, toda vez que o seu concurso venha a ser necessário.” Neste texto, percebe-se que no contexto da relação há um movimento de abertura consciencial em direção ao outro: 1º Fazer o Bem, sendo útil na medida do possível; 2º em um estágio de consciência ampliada, fazer o Bem é ser caridoso. O Espírito Joanna de Ângelis, no livro Plenitude, refere-se a isso de maneira muito clara. Há uma dinâmica na relação que corresponde, tem a ver com uma dinâmica interna, socioafetiva e espiritual. Isso nos leva a pensar que a caridade como um conceito subjetivo é necessariamente um alargamento da consciência. É uma consciência que se alarga em um processo de incluir o outro. Trazer o outro, primeiro estranho, para dentro do meu contexto afetivo. “Esse processo abraâmico de saída de si mesmo para o coração do outro, devolve humanidade ao pobre” (Boff, 1992,p.86) É aquilo que Jesus fala na parábola do Bom Samaritano, quando termina ele pergunta: quem te parece que foi próximo do caído? Aquele que usou de misericórdia. Essa condição consciencial da misericórdia fez com que o samaritano trouxesse um estranho para dentro da sua dinâmica afetiva. Ele foi incluído, não apenas por ter direitos garantidos, mas foi incluído no campo afetivo, emocio26 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil nal. Ele que era um estranho, um sem nome, apenas um caído, passa a ter um significado interior para o samaritano (de estranho, o caído é feito próximo; e de próximo é transformado em irmão). Portanto, a caridade é uma dinâmica muito mais complexa. Joanna de Angelis, mais uma vez no livro Plenitude, desenha um ciclo: No primeiro momento é o gesto de generosidade que abre a mão: - é o gesto para dar coisas que estão na bolsa ou no bolso, mas eu posso dar essas coisas sem desconstrução dos preconceitos que eu tenho. Eu dou a bolsa, mas em mim o outro não foi incluído. O outro continua lá, distante. E entre mim e ele existem os preconceitos e os interesses, que são os “esses” que se interpõem entre mim e ele. Que “esses” são esses? Ah! Ele é um canalha! É um vagabundo, preguiçoso! Quando eu avanço para o segundo estágio, da abertura consciencial ,eu abro o coração,; - um movimento de trazê-lo para dentro de mim e eu desconstruo os preconceitos – ele não é mais um canalha, não é mais um vagabundo! Ele é o meu próximo, e a seguir meu irmão, é um filho de Deus! É o alargamento da consciência que modifica a relação, aquieta o coração (é a suspensão do julgamento) , saio de uma posição vertical, me coloco para ouvir, acolher, caminhar junto, estar com ele, para conviver. 3º momento: É a síntese - o homem alcança a maturidade no processo consciencial/existencial – a generosidade que se efetiva como um espaço amplo da compreensão em que não há contradição:o bom e o mau, pois todos são filhos de Deus! Com esse conceito posto, vem a grande pergunta para vocês mesmos: para quê esse trabalho na Rocinha? Para além da questão, da realidade de hoje, proteção social. Qual é a razão de uma Casa Espírita chamar pessoas que se identificam com a Doutrina, e se autodenominam espíritas e fazer um trabalho no dia de sábado na Rocinha, deixar suas casas para fazer um trabalho na manhã inteira? Qual é a razão pessoal para isso? Porque este trabalho é importante para cada uma das pessoas que se identificou com a doutrina, que estuda a Doutrina Espírita? Retomando os conceitos de Emmanuel em seu texto “Remuneração Espiritual”. Vai alargando a consciência e nesse alargamento se constrói o que se chama consciência social, que é a inclusão do outro. O entendimento do outro e junto deste entendimento a compreensão que a Doutrina Espírita nos traz sobre um bem. Se nós fizermos uma reflexão, que a Doutrina Espírita propõe, sobre um círculo no qual estamos mergulhados, que eu toquei nele rapidamente – erro gerou culpa; culpa remorso. Como sair disso? Pela reparação. Acontece que ficou uma cultura equivocada de castigo, uma herança religiosa medieval. Tem um psicólogo espírita, Milton Menezes, que fez uma pesquisa e identificou que mais de cinquenta por cento dos espíritas quando respondem a essas questões falam em castigo. Isso é erro doutrinário! Fazer o bem não é castigo! Não sou chamado para ir a Rocinha aos sábados como castigo. Porque eu errei, pequei vou pra lá! Não. É reparação! O conceito é outro, muito mais profundo! É de reparação, de reconstrução interior no bem. A proposta do bem, esse é o conceito. Isso significa que para o voluntário isto é um exercício no bem. Só tem sentido se for no bem! No bem como exercício para acolher, ouvir, para a criança, com o idoso, com o velhinho. Não é campeonato de coisas que se dá nem de milhagem de horas que se passou lá. O conceito é amplo! Sim, é uma plantação para o futuro! Mas muito mais para o presente. É um processo de reconstrução interior. Mexer nas engrenagens internas onde tem o remorso ou a culpa mobilizando outra energia que é do bem. A inclusão do outro como o outro, aprender com ele, quando ele se lhe impõe como outro é amá-lo! É o exercício da amorosidade. Essa é a proposta, é o trabalho do voluntario. 27 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Logicamente, não se pede de pronto, de imediato, que todos que vão à Rocinha possam ter esse grau de entendimento. As razões que levam uma pessoa a ser voluntário são muitas ! Todas válidas. O que estou afirmando é que o processo socioafetivo de cada voluntário é um movimento consciencial (ético) e existencial (atitude) que vai das necessidades pessoais percebidas , no passo a passo da real transformação interior, até alcançar a “consciência espírita”. É neste momento que se define a identidade espírita: “O verdadeiro espírita jamais deixará de fazer o bem. Lenir corações aflitos; consolar, / Acalmar desesperos, operar reformas morais, essa é a sua missão. / É nisso também que encontrará satisfação real.” (Livro dos Médiuns – capítulo III, item 31) O grande desafio, hoje posto para as instituições espíritas, e este é o caso da Casa Espírita Cristã Maria de Nazaré, de uma parte, se inserir no cenário atual socioinstitucional e legal do SUAS , estabelecendo aproximações teóricas e metodológicas com as diretrizes, as categorias, os conceitos da assistência social como política pública de Proteção Social, de outra parte, manter a essencialidade ou razão de ser do Centro Espírita, conforme Allan Kardec e as origens do Cristianismo – a Casa do Caminho. Penso que a resposta a esse desafio passa necessariamente pela preparação do trabalhador espírita. Allan Kardec registra 2 categorias: o flutuante e o estável. O primeiro é aquele que chega à Casa Espírita com suas necessidades pessoais, passa a freqüentar reuniões públicas, utiliza o recurso do passe e do atendimento fraterno, lê livros espíritas, participa de eventos, e a partir de um dado momento começa um processo de mudança de visão de vida, experienciando novos valores; o estável, aquele que constrói a entidade espírita em processo de mudança interior e descobre a alegria de trabalhar no Bem, tornando-se um trabalhador espírita. Remeto ao texto de Joanna de Ângelis sob o título O trabalhador espírita que se encontra no livro “Vitória sobre a Depressão”. Aqui se pode visualizar (ultima lamina apresentada) a Metodologia do SAPSE (Manual de Apoio do SAPSE, p.38) tal qual se encontra na Parábola do Bom Samaritano: um processo de “ir ao encontro do outro “que se expressa em um ciclo. Como está na parábola, para o voluntário é um exercício no qual, primeiro, a cada encontro, com cada criança, com cada família, o primeiro trabalho que o samaritano faz é o de observar. Ele para. Veja, ele está em movimento, tem a sua vida, tem uma agenda de coisas. Ele para a fim observar o outro, para dar atenção ao outro! Porque esse trabalho não pode ser marcado pelo relógio, pela sofreguidão do relógio? Porque tem que ter qualidade de escuta, qualidade de acolhimento, de estar junto nesse ato de relação. Segundo, aproximar-se: a cada encontro é um processo de estar mais junto, conhecer mais as pessoas, suas dinâmicas, sua cultura, seus valores. Assistir como conseqüência é o cuidar. Se traduz no cuidar como sendo a ética da alteridade que avança para a ética do cuidar. O cuidar aqui pode ser com coisas materiais. O samaritano fez isso, usou óleo e vinho. Óleo para cuidar das coisas materiais, do corpo ferido, garantir o direito da pessoa de moradia, de saúde etc. etc. E o vinho é o cuidar interior dado na própria relação numa capacidade de escuta, de respeito ao outro. Não só como cidadão que tem direitos, mas como filho de Deus. Acompanhar significa como fez o samaritano, estabelecer um compromisso. Vai uma reflexão para o voluntário: de novo respeita-se e deve se respeitar o ritmo do voluntário. São diferentes cada qual. Mas há que se colocar como horizonte para todos nesse tipo de trabalho não o mesmo compromisso com quantidade de horas, nem dias. Esse não é o compromisso. Quem pode dar uma 28 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil hora, dê uma hora diariamente. Quem pode dar as vinte e quatro horas que o faça. É só uma vez por mês, que o faça. Mas aqui está se falando do compromisso com aquilo que se faz, ainda que seja uma vez por mês. É respeito ao outro. Constrói-se uma relação, um comprometimento que tem um valor e um significado. Não se pode, por qualquer razão , simplesmente faltar! É acompanhar. Esse acompanhar constrói um compromisso de responsabilidade com o outro, com aquelas famílias, com aquelas pessoas. Então vocês estão vendo a complexidade que isso tomou. Eu tenho viajado por esse Brasil. Estive semana passada em Cuiabá, e o que eu tenho observado, o que eu tenho visto? Que os espíritas, as casas, espíritas estão numa encruzilhada. De um lado têm que atentar para o que está aí de modernidade, proteção social, cidadania, etc. sem perder as raízes da doutrina que é a essencialidade, a razão de ser da Casa Espírita. Aqui nós nos reportamos à Casa do Caminho, em Jerusalém. Quando a noite chegava e as estrelas acendiam no céu, as portas se abriam para as palestras públicas. Mãos que aplicavam passes, ações da mediunidade abençoada, mas isso só concorria após um dia inteiro de trabalho no bem. Havia um caldo quente para alguém abandonado e triste, um leito macio, uma palavra amiga esclarecedora. Porque isso é da identidade da Casa Espírita. Deve ser espaço de acolhida, de convivência, de escuta, do cuidado , da amorosidade. Essa é a sua essencialidade. “No período em que o Cristianismo primitivo mantinha a pulcritude dos ensinamentos de Jesus, os núcleos onde se reuniam os discípulos do Senhor eram constituídos por esses trabalhadores dedicados e fiéis que se davam ao serviço da lídima fraternidade, ensinando pelo exemplo os insuperáveis conteúdos da Mensagem libertadora”(FRANCO, Divaldo/Joanna de Ângelis, 2010, p.107) Que demandas hoje há mais do que anos atrás quando Tia Vera começou? Certamente pessoas hoje têm demandas mais profundas. Numa sociedade líquida, de relações tão fluidas, as pessooas requerem ser acolhidas, ouvidas e cuidadas. Aquele menino envolvido pela droga. Aquela mulher, aquele homem estão precisando de um ombro, de um ouvido qualificado (amor + técnica) de alguém que escute, conviva. Uma palavra, o consolo (com + solo = estar com quem se encontra em solidão), o estar juntos, isso diz da identidade da Casa Espírita. E aí está o papel do voluntário daquele que se aproximou da Doutrina, por uma palestra, por um livro, se identificou com a Doutrina, passou a estudá-la, e ao estudá-la quis fazer o exercício do bem. E a medida que vai fazendo vai se identificando com esse ideal espírita. Esse valor absoluto que é a caridade - valor , ao mesmo tempo consciencial e atitudinal. “Transforma-se em servidor...(FRANCO,Divaldo/Joanna de Ângelis, 2010, p.107) Veja em que situação nos encontramos hoje, de alta complexidade, com as mudanças que houve. E é dentro disso que nós estamos. Então agradeçamos ao Senhor da Vida que nos colocou nesse cenário atual do século XXI com tantas questões, de um lado tão positivas e tão complexas, do outro. Outras perguntas da assistência Existem algumas das perguntas que foram feitas logo que Edvaldo começou a fazer esse momento de fechamento, e eu vi de, certa forma, que ele respondeu algumas perguntas formuladas aqui. Mesmo assim eu vou lê-las, e se você puder ser meramente sintético para que possamos ouvir de você sobre outras questões colocadas aqui, e que não foram abordadas, que são dúvidas. Acho que agora você entrou num desafio de concisão e discernimento a respeito dessas questões. Vou ler todas e serei fiel a como elas estão colocadas. Cabe então ao Edvaldo fazer esse trabalho. 29 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil 1) Uma vez que o material vem sendo suprido, conforme estatística mostrada, como podemos fazer a ajuda aos “pobres”? Tem ai um reconhecimento internacional de que, sem dúvida, o Brasil tem montado uma rede de proteção social. Ela ainda é frágil, tem problemas, enfim, mas isso está efetivamente acontecendo com reconhecimento internacional pela ONU, pelo Banco Mundial, pelo BID, por todos os organismos, pelo PNUD. Isto é que é importante, só dizendo que precisa reconhecer duas coisas: 1º) algo que a Doutrina já coloca de maneira basilar – que o homem é uma unidade. Allan Kardec nunca colocou uma dicotomia; nunca separou o material do espiritual; muitas vezes quem faz isso é o espírita de maneira inadvertida. Em ‘A Gênese’, na apresentação, Kardec chega a fazer uma analogia curiosíssima: ela toma a água. A água todos sabemos que é um composto de hidrogênio e oxigênio. Se você tiver hidrogênio e não tiver o oxigênio você não tem a água e vice-versa. O homem não é corpo. Também não é espírito. Ele é um espírito que tem um corpo, e deve ser entendido, visto e trabalhado sempre com essa unidade espírito-corpo. 2º) obviamente, na realidade atual, esse homem espírito-corpo tem demandas altamente complexas num mundo marcado pelo simbólico, pela mídia. Uma sociedade midiática traz demandas e necessidades que o homem do começo do século passado até a sua segunda metade não tinha. Então há de considerar e lidar com isso, essa complexidade do homem. Há vários autores que trabalham com esta idéia. Então a complexidade humana tem que ser levada em conta na escuta, no trabalho de assistência, não dá para separar uma coisa da outra, descurar uma coisa da outra, isso é um conjunto de ações, etc. “Daí delicadamente, juntai ao benefício que fizerdes o mais precioso de todos os benefícios: o de uma boa palavra, de uma carícia, de um sorriso amistoso” (Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XIII, item 18) 2) Qual é a forma de governo que deve ser exercida segundo os valores espíritas? Isto está no Livro Obras Póstumas quando Allan Kardec fala em aristocracia. Ele faz uma análise da evolução e aponta para o futuro a chamada aristocracia intelecto-moral. Quando acompanhamos a evolução humana, num país como o nosso, se tomarmos o Brasil desde a época do Brasil Colônia, vamos ver que o país caminhou, e essa constituição atual reconhece uma democracia representativa, eleições, isso é um ganho. Não havia isto, nem no Brasil Colônia, nem no Brasil Império. Mesmo na primeira república era muito frágil. Isto é uma conquista recente. E também se agregou a isso a chamada democracia participativa por meio dos diversos conselhos que são espaços de participação da sociedade civil. Agora, os estudiosos dizem que isso é um marco liberal de um modelo possível. Claro que para a Doutrina Espírita isso é apenas uma etapa de um longo processo de amadurecimento de todos nós. Poderemos construir uma sociedade, valores e instituições cujos padrões serão tanto do intelecto quanto da ética, do progresso ético-moral. Gostaria que você pontuasse a diferença da proteção social oferecida por um PAC e pela Casa Espírita. O PAC é um Programa de Aceleramento do Crescimento muito voltado para a infra-estrutura. A pergunta é interessante, primeiro para esclarecer isso. E segundo, hoje não há como entender nenhuma intervenção econômica de infra-estrutura sem considerar o social humano. A ONU reconhece desenvolvimento hoje com o foco no ser humano. Não dá mais para fazer intervenções urbanisticas, como se fez há cinquenta ano, interven30 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil ções de melhorias do ponto de vista de infra-estrutura, sem levar em conta a centralidade do ser humano. Nesse sentido ela vai ter que trabalhar junto com a proteção social, pois uma não pode caminhar sem a outra. Fala-se muito em gestão participativa. Gostaria que você comentasse essa idéia na prática de proteção social. Na proteção social, pela definição da lei, ela já é assim considerada desde a constituição. A Constituição Federal/ 88 tem um princípio que fala da participação da sociedade. Daí porque foram criados os conselhos. Existem os Conselhos de Assistência Social que são constituídos de maneira paritária com representantes dos governos federal, estadual e municipal e da sociedade civil. E assim tantos outros conselhos, o da Criança, o do Idoso. Já é o alargamento do conceito de democracia que falei. De início, a democracia era apenas representativa, mas houve esse alargamento na direção de a sociedade participar. É importante porque convoca as pessoas a responsabilidade como cidadãos. Por vezes somos irresponsáveis até o ponto de levar a questão do voto de maneira negligente. Aí é chamado à responsabilidade da escolha, da participação, do acompanhamento, uma visão comunitária da sociedade de troca, de participação. Isso é decisivo hoje, não há como mais fugir disso. Existem vários trabalhos feitos tanto na Europa como no Brasil. Estudos feitos na Itália examinando o progresso tanto da Itália Sul como da Itália Norte, verificou-se que o progresso, o desenvolvimento econômico não faz fruto só de razões econômicas. O capital não é só o econômico. Eles criaram outra expressão: “o capital social”, que é a participação de uma sociedade que se organiza, em comunidades de troca, de pertencimento que é fundamental como marca do progresso. 3) Questão 712: “os atrativos dos gozos dos bens materiais tem por fim levar o homem ao cumprimento de sua missão”. Como conciliar isto com o excesso de consumo que vemos nos dias atuais? No próprio O Livro dos Espíritos, na sua última parte (pergunta 923) aborda a contradição supérfluo/necessário, dando como exemplo “a pessoa que tinha cinqüenta mil libras de renda, vendo-se reduzido a só dez mil libras, se considera muito desgraçado, por não mais poder fazer a mesma figura, conservar o que chama sua posição, ter cavalos, lacaios, satisfazer a todas as paixões, etc. que lhe falta ao necessário. Kardec mostra com isso que nós construímos necessidades factícias. Uma característica da sociedade atual foi criar essas necessidades factícias do aspecto exterior da aparência, da mera aparência e do ter. Então, claro que isto amplia, exacerba todos esses desequilíbrios que vivemos tanto interiormente, distonias emocionais, quanto externamente. Por falta de uma capacidade de discernimento, de ajuizamento. Antes de Freud, o budismo estudava o desejo. O desejo é mola do comportamento humano, ele é fundamental. Como é que colocamos isso? Quando paramos para refletir. Por que estou dizendo “para”? Porque, a bem da verdade, a sociedade atual não tem essa prática. A situação se complica quando damos significado às coisas. Por exemplo, eu tenho esse celular. Qual o significado que ele tem pra mim? Se ele tiver o significado que ele deve ter, é um instrumento, um aparelho para telefonar, ótimo, muito bem obrigado. Se ele tem significado da minha felicidade, esse objeto, que fiz um fetiche dele, sem ele sou infeliz, não sou importante, não encontro namorada, não caso! Já começa a complicar. É o que nós temos feito. Transformamos as coisas, que são coisas, num valor simbólico que sociedade lhes empresta, e quase sempre um “objeto mágico”. Nunca esqueço uma propaganda onde aparecia um jovem bonitão e um sapato. Sem aquele sapato não arranjava namorada nenhuma. O sapato virou fetiche! Vai além do que ele significa. Essa que é a questão. Por quê? Isso é sintoma, isso não é doença. É sintoma da vacuidade interior. 31 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Quanto mais vazio eu estou de mim mesmo, dos meus valores. Quanto mais alienado eu estou de mim mesmo, enquanto espírito encarnado, mais me apego as coisas de fora. Se eu me auto preencho de mim mesmo, dos meus auto valores, às coisas terão o valor que as coisas têm. 4) Tem uma pergunta aqui que é clássica, mas eu acho que você já respondeu na segunda parte, que é a velha questão da esmola. Sobre o ponto de vista social é positivo ou negativo dar-se esmola na rua? Depende! 5) E sob o ponto de vista do Espiritismo? Depende! Se esta esmola é tão somente utilizada como mediação de uma relação. Houve um grupo de jovens, dos seus vinte e poucos anos, tinha engenheiro, físicos, médicos, espíritas que queriam fazer um trabalho nas ruas do Rio de Janeiro. Nós conversamos muito em reuniões. E o que se construiu? Eles foram para as ruas lidar com aquelas crianças da Candelária. Não eram crianças que eles trabalhavam. Eles perguntaram: levo alguma coisa? Respondi que sim, pode levar. Agora, penso que eu que melhor do que você levar comida, porque você não faz um lanche com eles? O lanche aí é para estabelecer a relação: durante o lanche você vai conversar com eles, ouvir as histórias que eles têm pra contar, vai saber quem eles são, você vai ficar junto. Eu fui a um Centro Espírita que trabalha com a população em situação de rua que ia ao Centro tomar sopa. Perguntaram: tem alguma sugestão? Tenho! “Simples”, mudem! Não ponham essas pessoas para ir lá pegar um prato de sopa e sentar à mesa. Por que vocês não comem junto com eles? Por que estar junto deles? Para conviver, para ouvir a história, para estar junto. Isso tem esse sentido. (É o “método franciscano). Essa pergunta aqui tem que ser entendida em duas partes: uma que é específica da sua exposição, e outra teria que ser respondida pela Direção da Casa. Você fica com a sua parte, que eu depois vou me enrolar para responder a minha. 6) O que é esperado do voluntário na Rocinha? Eu acho que, primeiro, como qualquer voluntário. Essa pergunta é interessante, e se o Ricardo me permitir, vou me alongar um pouco. A grande pergunta que se faz é a seguinte: quais são as necessidades e demandas que levam uma pessoa para um trabalho voluntário? Lá na casa Ronald McDonald que trabalha com crianças portadoras de câncer? E lá no Hospital do Câncer? O que leva? Essa a primeira pergunta que se faz e é muito complexa. Pensamos nos outros, quando chamamos para trabalhar, tanto quanto pensamos em nós mesmos quando nos colocamos como voluntário, que a razão básica, primeira que nos leva a esse trabalho é o ideal: “É para servir.” “É por amor ao próximo.” Não é não! E não quer dizer que não seja nobre. A razão pela qual nós vamos é pessoal, são necessidades pessoais. São feridas internas, coisas que não estão bem resolvidas dentro da gente que nos levam: é uma perda afetiva, é um filho etc. Isso tem que ser reconhecido e respeitado no primeiro momento. A pessoa não vai chegar ali pronta, generosa, altamente aberta: “... não Ricardo, eu estou aqui para o que der e vier...”. Não é verdade! Ela diz isso, mas não sabe que ainda não está pronta. Isso é uma dinâmica: ela chega, põe o pé, se 32 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil aproxima. É um namoro, como qualquer namoro antes de casar. Ainda que nos tempos modernos o casamento acabasse um pouco prejudicado, mas a bem da verdade é isso. Ela vai para atividade, vai se identificando com o que faz, vai gostando, se aproximando até que a ficha cai, como o povo diz. Isto tem que ser respeitado, é uma dinâmica. É muito complexo! Há coisas dentro da gente que até Deus duvida. Eu estava certa ocasião em Vila Isabel, onde tem a Parmê, com uma psicóloga. Nós tínhamos feito um trabalho nas ruas do Rio de Janeiro com a população de rua, uma pesquisa. Paramos para lanchar e já era madrugada. E ela disse: o que há em nós? Que buraco há em nossa cabeça, na nossa psique que nos põe para fazer um trabalho desses de maluco, não é? Alguma coisa está faltando dentro da gente, ou tem coisa demais! Ai eu aproveito para trazer até vocês uma coisa interessante que é muito usada com os psicólogos: a vocação que leva uma pessoa à psicologia. Existe um mito entre os mitos gregos o Quiron, na forma de um Centauro, que em português quer dizer cirurgião, aquele que cura com as mãos. Quiron foi ferido, não mortalmente, mas incurável. Ele foi a tudo que é lugar para encontrar tratamento para a ferida dele. Foi ao Pai de Santo, ao Centro Espírita, à Igreja, tudo que é lugar. Não encontrou forma de curar-se. Mas amenizou o sofrimento e aprendeu a curar. Ele passou a ser um curador procurado por muita gente. Sabe como ele era chamado? O curador ferido. Somos nós! Os voluntários que vão para a Rocinha devem ter a consciência de que são nada mais nada menos do que curadores feridos. A razão são suas próprias feridas. Aquele trabalho de amorosidade, a cada encontro, a cada escuta vai tratar as próprias feridas interiores. Com agir diante daquele que na via pública pede ajuda para a criança, dizendo que a criança não tem o que comer, precisa de um remédio etc. Observação: atualmente a criança vem no colo de um rapaz. Essa é outra questão muito recente. Quando nós começamos os trabalhos na rua até com criança, eu digo que foi um período romântico que acabou com aquela chacina da Candelária. Podemos dizer que um pouco ingênuos, os que estavam naquele trabalho. O contexto favorecia isso. Hoje, as coisas estão mais complexas. As pessoas são muito mais marcadas por outras questões. Existe também, muito engano. Joanna de Ângelis tem uma página sobre outro mito grego, o Sísifo. Esse mito fala dos malandros, dos espertos, dos manipuladores. Sísifo era tão malandro, tão esperto que ele tentou enganar o próprio Zeus. Existe isso, não temos que ter ingenuidade. Não dá para fazer esse trabalho sendo ingênuo. Achando que todo mundo está ali. Não é verdade! Existe muita esperteza. Hoje, dentre essa população tem bandido. Pessoas marcadas e em débito com a lei. Ingenuidade não dá! Jesus disse que é preciso ter a prudência das serpentes sem perder a simplicidade das pombas. E o doce Francisco era marcado por duas questões fundamentais: ternura e vigor. Ternura sempre! Nunca perder a ternura, mas ela tem que estar apoiada no vigor, nas regras, nos limites, na racionalidade. Tudo isso é da maior importância. Essa pergunta, em parte você já respondeu, mas ela tem uma nuance que talvez você possa complementar: cientes desse modelo consumista da sociedade, da exacerbação do ter em detrimento do ser, da superficialidade dos valores, não caberiam à Doutrina Espírita ajudar na mudança desse paradigma apesar da resistência da sociedade? 33 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Sem dúvida! Isso está no Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XI, tem uma mensagem linda – Lei do Amor. Num certo trecho é dito o seguinte: falando no cristianismo, dos cristãos primitivos, é dito que a eles, que nos antecederam, coube o trabalho de resgatar o espírito pelo sangue. E qual é o nosso trabalho hoje? É resgatar o homem, a partir de nós mesmos, da matéria pelo espírito. É reconhecer que essa sociedade construiu uma subjetividade calcada na matéria. Nós nos constituímos, de maneira subjetiva, os nossos valores, via matéria. Mesmo os religiosos! Tem um psicólogo, Roberto Assagioli, italiano católico, que nos seus trabalhos de atendimento em pesquisa descobriu católicos religiosos materialistas. Sim! Deve haver outros religiosos materialistas. Religiosos no sentido formal do termo, porque têm uma religião, mas não a vivem. Não vivem como se detivessem um valor na subjetividade da sua condição de espírito. Na hora de tomar decisões não utilizam! A Doutrina propõe isso no cotidiano. Eu não sou espírito depois da morte, apenas. Eu sou espírito quando assino um cheque, quando dirijo um automóvel, quando estou no metrô. Esta consciência a Doutrina me propõe. E está propondo à sociedade. É esse é um grande trabalho pedagógico da espiritualidade. Vejamos a mídia: as novelas, filmes. É para fazer aquilo que Emmanuel no livro Nosso Lar coloca de maneira muito clara: mais do que Espiritismo ou Espiritualismo, a humanidade precisa de Espiritualidade. Esse é o trabalho que a Doutrina Espírita se propõe. 7) O discurso que fazemos para nossas filhas avançar na profissão antes de serem mães não funciona com as jovens da Rocinha. Qual discurso funcionaria? Para mim não fica muito claro, até me colocando aqui como pai, que discurso eu faria. Eu penso, me permitindo pensar alto: acho que eu não faria nenhum nem outro. Eu tentaria na relação do cotidiano ajudar para que ela se encontre enquanto mulher, no sentido amplo do termo, não dicotomizada separando a maternidade que é um altar sagrado do seu contexto de realização social. É o trabalho total que se faz na relação. É o respeito a ela desde pequena. Tenho duas hoje já casadas, e uma de sete anos. É nessa convivência que isso vai ser construído, que ela forma uma identidade completa e não dicotomizada. Dando mais valor a uma coisa do que a outra, não tem sentido separado. Só tem sentido junto! E se isto é “vivido” com ela na relação do dia a dia, é provável que construa a sua “identidade integral”. O lugar dela no mundo, na sociedade, na família, como cidadã, e como mulher. É um espírito em um corpo feminino que tem desejo de mulher, na sua condição feminina que não era respeitada na cultura. Acho que esse é um trabalho educativo complexo. 8) Essa pergunta, em parte, você já respondeu, mas quem sabe ainda tem algo a acrescentar. De que forma aliar o trabalho da Casa na Rocinha com a inclusão social, no caso dos adolescentes que frequentam o Estudo Dirigido (trabalho realizado durante a semana de apoio escolar e de convivência com os adolescentes)? Esse tipo de trabalho que vocês chamam de Estudo Dirigido, é uma educação chamada não formal: ação socioeducativa com criança e adolescente no Serviço de Convívio e Fortalecimento de Vínculos da Proteção Social Básica. Como educação não formal tem hoje uma importância fundamental, ou seja, a própria lei de Diretrizes e Base entende que, ao lado daqueles conhecimentos formais do currículo, o ser na sua integralidade – criança/adolescente – precisa de um conjunto de experiências e formações que transcendem aqueles aspectos formais do currículo. Quais sejam? Precisam de arte, de esporte, informação, e de apoio quando das dificuldades escolares. É isso que 34 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil se chama educação não formal que hoje cresce e há prêmios. Eu sou avaliador do Prêmio Itaú; há três ou quatro versões que avalio o Prêmio Itaú, que valoriza esse tipo de trabalho, que complementa o trabalho da escola. Portanto, é um trabalho que não deve restringir-se, como foi no passado, à banca do dever. Não basta botar a criança sentada na cadeira repetindo os deveres da escola. Desculpe dizer, isso é pobre! É visão do passado e nem mais se aprende assim. Existem outras formas de aprender matemática, geografia, de se apropriar do mundo desenvolver potencialidades. É isto que é proposto hoje nos Serviços e/ou Programas Proteção Social. 9)Trabalho nas quentinhas, e recebo críticas de alguns, pois, acham que esse trabalho incentiva os que vivem nas ruas a permanecerem e não mudarem de vida. Qual sua opinião? Eu acho que é um equivoco essa afirmação, ela é muito reducionista do problema. Não é tão simples assim. Primeiro que isso faz parte de uma cultura. Desde que eu vivo isso, fui descobrir uma coisa curiosa que ainda se mantém. Enquanto que na atenção “à criança e ao adolescente de rua” as ONG (inclusive as de origem religiosa, em particular as católicas) realizavam o trabalho social na perspectiva da cidadania, dos direitos; o trabalho com o adulto em situação de rua era realizado pelos os religiosos: católicos, evangélicos, espíritas na perspectiva da assistência social tradicional (religiosa/filantrópica). Isto, tem que ser considerado e entendido, mas não desqualificado. Quando eu estive na Fundação Leão XIII procurei colaborar na qualificação dos voluntários religiosos. Capacitá-los para que pudessem entender a complexidade do problema. Como é que você vai para a rua distribuir uma quentinha, por exemplo, sem levar em conta quem você vai encontrar? Você vai encontrar tuberculoso, aidético. Você sabe lidar com alcoólatra? Lidar com psicótico em surto? Você sabe lidar com alguém que tem uma história no crime, no banditismo? Não é negar. É trazer e qualificar. Este trabalho tem que ser visto no seu limite. Ele tem um limite. É o limite que a sociedade civil pode. O trabalho das instituições religiosas ocupam o lugar da ausência do poder público. Apesar de existir hoje, uma política escrita e pactuada entre os entes federados (União, Estados e Municípios). Eu escrevi um texto, me reporto a ele, quando eu me referia ao Rio de Janeiro como uma cidade que se orgulha de ser um cartão postal por sua beleza natural que precisa cuidar dos seus moradores, incluído o chamado “morador de rua”. Vem aí a Olimpíada, antes vem a Copa. Vamos embelezar a cidade, erguer arranha-céus, mas uma cidade vale pelo humano! Ser Prefeito de uma cidade não é apenas cuidar de ruas, cuidar de praças. É cuidar de pessoas, crianças, sobretudo dos mais frágeis! Com a ausência de serviços e programas que continuam não existindo, ou quando existem é de má qualidade, são incompletos. Eu digo isso com consciência, é dever porque a situação de nossa cidade eu conheço de perto. Eu tenho conversado com gestores da política e eu tenho me espantado! Com a baixa qualidade. Quando hoje tem uma política definida, porque então não é posta em prática? Enquanto isso, as instituições religiosas vão ocupando esses lugares. Agora, ao lado disso seria interessante que a sociedade civil superasse “a consciência ingênua” do problema. Não vou resolver o problema da população em situação de rua com a distribuição de quentinhas. O problema é muito mais amplo. Tenho dado trabalho de consultor, como técnico e espírita, ao IPE – Instituto Paulo Estevão, no centro da cidade, que faz este trabalho. Nós temos discutido muito não só a forma de trabalhar, a metodologia, mas o limite que as pessoas têm nesse trabalho. Mas não quer dizer que por reconhecer o limite que vamos desconsiderar a importância do trabalho feito com muita dedicação pelas entidades religiosas. Isto seria ingenuidade de raciocínio. 35 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil 10)Como a Casa Espírita, com o seu trabalho de quentinhas, pode colaborar nesse processo? Primeiro, tem que reconhecer que, hoje, há uma Política de Proteção Social à População em Situação de Rua. Não se pode continuar trabalhando sem considerar tal política pública. Está definida, registrada, carimbada, tem um Fórum que se reúne regularmente. Tem que ter essa visão mais ampla. Não é para deixar de fazer, tem que ampliar. Tem que ter noção de rede, rede socioassistencial, que há demandas que nenhuma instituição isolada consegue atender. É o grau de complexidade que esse problema tem. 11) Por que a assistência social, tanto da parte do governo ou de trabalho voluntário se concentra e se preocupa só com os moradores de favela, e não de outros bairros mais pobres como o Centro da Cidade, subúrbios etc, que também precisam de assistência e oportunidades mesmo que trabalhem, embora ganhando o suficiente para moradia e alimentação. Por que se pensa que só em favelas existem necessidades. O que se pode fazer? Primeiro, que esse modelo chamado Sistema Único de Assistência Social não é para favela. É um modelo universal colocado no Brasil inteiro. Onde tem favela, onde não tem, onde tem morro, onde não tem. A noção de proteção é universal. O único critério dentro dessa universalidade é aquele que dela precisar. Eu posso precisar da proteção social. Tenho a minha casa, houve uma enchente e a casa foi ao chão! Preciso da proteção social do estado. Não é critério de renda! É um critério da dignidade humana que tem aquele direito. Isso está sendo construído no Brasil de maneira ampla. Hoje tem CRAS em Santa Cruz, Campo Grande, Duque de Caxias, Niterói. Estão sendo construídos com muitas dificuldades. Um país dessa dimensão, com sua herança cultural de que assistência era terreno de qualquer pessoa, era terra de ninguém. Assistência era moeda eleitoreira; distribuía dentadura para ter voto. Não vai se mudar isso da noite para o dia. 12) Sua proposta é de “profissionalizar” a caridade? Você não acha que o papel da caridade das casas espíritas não é o de complementar o Estado e doar algo que o mesmo não dá como o amor, os fluidos etc.? A bem da verdade, de novo nós precisamos voltar primeiro àquele ponto, caridade é valor subjetivo. Eu disse uma vez num Congresso Espírita, em Goiás, uma frase de efeito; Centro Espírita não faz caridade, ou seja não são os móveis, as paredes, mas sim as pessoas que o constituem. Completei dizendo o seguinte: quem faz caridade é “gente de carne e osso e coração”! Porque é um valor consciencial que se expressa na relação. Ninguém vai tornar isso profissional, vai legislar sobre isso, porque isso é da consciência. Isso não é para ser feito apenas no Centro Espírita! É para ser feito na rua, é com o outro no cotidiano, no ambiente de trabalho, onde quer que haja “gente convivendo”. Agora, diferente é quando eu me proponho a fazer um trabalho com pessoas em vulnerabilidade, com histórico de pobreza, com famílias de risco, com idoso, tem que ter um conhecimento teórico e técnico, uma metodologia! Bezerra de Menezes tem uma frase notável: Amor sim, mas técnica também! Nesse trabalho há que ter técnica. Eu posso acrescentar o seguinte: nós estamos num mundo de expiações e provas, e nós seus habitantes somos de mediana evolução. Acontece que nós não somos capazes de amar suficientemente. Uma das lições que aprendi na Fundação Leão XIII foi a seguinte: A situação de abandono em que se encontrava a População em Situação de Rua acolhida na Unidade localizada no bairro de Campo Grande que mais parecia ser um” campo de concentração.” Aidético misturado com tuberculoso, doente mental sem comida, enfim. A questão que eu lembrei 36 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil é a seguinte: Como cuidadores dos caídos, qual é o nosso papel? Os de mediana evolução, que não somos capazes de amar como Francisco de Assis; não temos, por enquanto , aquele amor incondicional. Um amor incondicional capaz de amar os não amáveis; erraram tanto, estão num quadro expiatório tão doloroso que não merecem amor! Não conseguem ser amados! Só serão amados por aqueles que amam incondicionalmente, que não é a nossa condição! 13) Qual é, então, a lição? O Pobrezinho de Assis, Madre Teresa de Calcutá, que têm o amor incondicional precisam das mãos daqueles que ainda não conseguem amar o com amor incondicional para fazer uma rede de solidariedade! Porque eles têm uma técnica que nós não temos: a técnica do amor. Francisco de Assis não precisa de psicologia, serviço social porque o amor é a técnica! Mas Edvaldo, que não ama como ele ama, precisa de técnica! Tem que fazer uma faculdade para aprender a escutar; para entender a dinâmica social; para não ter preconceito. O trabalho social, pela sua complexidade, requer que a caridade seja uma “chama viva” no coração, que leva a acolher, a ouvir, a conviver e cuidar do outro, deve também, levar a pegar um livro para aprender um pouco mais, a participar de uma capacitação que ensina a dialogar, a fazer grupos, para ser um voluntário capaz. Uma coisa não substitui a outra. Um dia nós teremos uma sociedade em que as pessoas se amarão. Como está lá no Novo Testamento, em Ato dos Apóstolos quando se refere à Casa do Caminho. É dito que naquele espaço não havia necessitados porque todos cuidavam de todos! As necessidades de uns e de outros eram atendidas na própria relação. Mas numa sociedade desigual em que nós estamos é preciso que haja essa dinâmica. E daí os programas, os serviços, as metodologias, as técnicas para que cuidemos uns dos outros. 14) Você acha possível a casa espírita inserir um frequentador da casa e morador da Rocinha no mercado de trabalho? Muitos empregadores ainda têm discriminação com aqueles que moram em comunidades, e a casa espírita por sua vez não é tão reconhecida socialmente para garantir esse direito. A bem da verdade, um companheiro me abordou no intervalo dizendo que ele já observa umas mudanças em relação a isso. É verdade que hoje, até pela posição que a Rocinha vem tendo, positiva pelos talentos que de lá saem, isso já mudou. Mas isso, de certa maneira, ainda persiste com alguns em outros lugares, às vezes mais forte do que em outros. E aí o trabalho que se faz da assistência, voltando à questão anterior, por que a caridade + técnica? Porque você conhece as questões que foram postas aqui para dialogar, fazer pontes. E aqui eu vou insistir numa coisa que é fundamental: há que ter um conhecimento diferentemente do tempo da Tia Vera, ou seja, todas as instituições são incompletas. Existe hoje uma teoria da incompletude: todas as instituições, quer sejam governamentais ou não governamentais, mesmo tendo recursos e organização, são incompletas! Diante da demanda atual , as entidades de assistência social só conseguem dar conta caso integrem uma Rede! É preciso articular as ações socioassistenciais. Por isso que falei aqui do CRAS. É importante que os trabalhadores da Rocinha saibam o que é um CRAS. O que ele faz? Que serviços ele propõe? E vice-versa. Eu acho que essa questão tem a ver também com auto-estima. Às vezes eu coloco em mim mesmo um letreiro. Eu nunca esqueço um hanseniano com quem trabalhei. Ele era um jovem, tinha uns trinta anos, se recuperando da hanseníase. Ele veio a mim: - Eu queria falar com você. - O que você quer? 37 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil - Você podia me ajudar lá com um médico a conseguir uma declaração? - Que declaração você quer? - Uma declaração de que estou curado. - Um papel escrito? - É! - O que você vai fazer com isso? Ficou claro na conversa, procurei trabalhar isso com ele, de que ele ainda se via hanseniano. Ele tinha escrito nele mesmo, Eu sou Hanseniano! Era ele que se via hanseniano! Por isso ele precisava de uma declaração. Pode ser que muitos dos jovens excluídos, se vejam assim! Não são os olhos dos outros apenas que o enxergam como hanseniano. Ele que se vê dessa forma! E aí há um trabalho muito importante a ser feito na relação, no respeito a esse jovem, na valorização dele, da importância, do talento dele. É um trabalho que pode ser feito numa relação pessoal, num trabalho de grupo. Muito importante. 15) Como pensar a criança que para os pais ainda é um mini-adulto, e para o voluntário é alguém a quem ele tem que atender materialmente? Isso é uma questão da nossa sociedade que ainda é adultocentrica. Tem uma grande pesquisadora e historiadora, que escreveu o livro ‘A História da Criança no Brasil’, Mary Del Priori. Ela demonstra que já avançamos na roda do progresso, mas que ainda paira no imaginário uma visão adultocentrica da sociedade no trato com a criança, na forma de educar, de lidar com ela. Isso tem vários desdobramentos. Nós não nos permitimos enxergar certas situações, por exemplo, um adulto teve um problema no trabalho, mal dia, está de mal humor. A esposa é chamada a compreendê-lo, ou vice-versa, é o colega. Mas a criança não pode ter mau humor! Eu tenho uma de sete anos, e ela não sabe bem, mas diz que está de mau humor! Tem que ser respeitada! Porque ela não pode ter mau humor? Pode! Mas o adulto não admite. Vê aquilo como indisciplina, como má criação. Ela está de mau humor, está triste, zangada, ansiosa. Ontem foi o casamento da professora e ela ficou numa ansiedade que só Deus sabe. Era um negócio, mas pode! Como é que você lida com isso? Você é o adulto: tem escuta para isso? Você tem um olhar para estar junto? Passar a mão por cima evidentemente não, mas compreender sim. Nós temos muito que caminhar! De novo essa dicotomia do material. Não temos que atender ninguém materialmente. Vejam vou dar dois textos para pensar e ambos estão no Cap. XIII do ‘Evangelho Segundo o Espiritismo’. O primeiro texto é lindo. É de Cáritas e diz assim: “Fiz esta manhã o meu passeio habitual...” Ai ela entrou numa casa. “Eu lia em seus pobres semblantes que o corpo, esse tirano do espírito, tinha fome...” Onde que ela leu a fome? Num fogão que estava apagado por que não tinha o que cozinhar? Não, foi no semblante! Foi no rosto, numa relação com o outro que ela viu a fome. Mas ela não viu a fome só do corpo. Ela viu a fome do afeto, do carinho, da auto estima machucada. É uma visão integral do homem; espirito/corpo E no mesmo Capítulo XIII, item 18, diz o texto tão lindo, tão delicado: “Daí com delicadeza, juntai ao benefício material...” Juntai não é separai, não! Não diz dividir: agora eu dou a coisa material; agora eu dou a coisa espiritual. Não diz isso, diz “... juntai ao benefício material o mais precioso de todos os benefícios: uma boa palavra, um carinho, um sorriso amigo.” Não diz para separar. Nós é que separamos: agora é caridade material; agora é caridade espiritual. Isto não existe. O homem é 38 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil um ser total. Com dinâmica total em suas relações. Tem que ser cuidado como tal, observado como tal, ouvido, estar com ele nessa visão mais ampla. É essa a proposta da Doutrina. 16) O que fazer em relação aos direitos do idoso, do deficiente em geral em um mundo de hoje, como Assistente Social e como Espírita? Primeiro passo é reconhecer que ele é um portador de direitos. Segundo passo é reconhecer e saber onde que se podem garantir esses direitos. Para os serviços que existem e oferecem garantias a esses direitos, qual é o amparo de instituições que são defensoras do direito, conselhos e delegacias que existem. Isso tem que ser reconhecido. Por isso que o trabalho tornou-se complexo. Eu sei isso pela minha própria pele. Quando eu me formei a realidade era uma; o que eu precisava saber conhecer era uma coisa, hoje para exercer minha profissão eu tenho que dominar tais conhecimentos informações. Tenho que entender e me valer dos direitos. Conselho Tutelar - eu tenho que saber o que é como funciona e como utilizo. O Ministério Público que é uma instituição nova no Brasil, antes da Constituição Federal de 88 ele não era o que é hoje. Ele é um defensor dos direitos. Então eu preciso reconhecer isso, saber utilizar e como funciona. Não querer resolver sozinho tudo, eu sou incompleto. Não querer que minha instituição dê conta de tudo. Caridade também é reconhecer o limite institucional e encaminhar as pessoas ao que, hoje, existe sob a denominação de Sistema de Garantias de Direitos – SGD para exercer sua cidadania. Eu posso até fazer mediações; ele está tão fragilizado que não consegue ir pelos próprios pés; eu posso dar o pontapé e ir até com ele se necessário no primeiro momento. Mas eu preciso ir ampliando os horizontes do direito. 17) Esta última pergunta não sei se está fora do contexto, deixei por último, e não sei você quer responder. E também, não me parece uma pergunta, parece mais uma afirmação: a situação social é também tão séria no campo quanto nas cidades. A posição do jovem agricultor. Você quer falar alguma coisa? Sim. De novo, olha só: isso é uma situação complexa nesse contexto todo. Uma coisa que está acontecendo, olha como o progresso é contraditório. Eu estive no Mato Grosso algumas vezes, ano passado eu rodei o Mato Grosso fazendo um trabalho profissional. Passei por regiões do agronegócio e é espantoso o que a soja fez, trouxe o progresso, as cidades explodiram, grupos enriqueceram, mas os problemas estão lá. Primeiro, os problemas ambientais: o que a soja tem produzido naquelas terras; isso é uma coisa. Segundo, uma dificuldade de inserção social: porque a pessoa que me levava no carro dizia assim: “Você está vendo aquela máquina? Ela é caríssima. Tem um custo altíssimo. Portanto seu proprietário não coloca para operar aquela máquina qualquer pessoa. E ela é tão complexa, operada por computador, que hoje tem que ter uma formação mínima para fazer.” Então, olha aí os problemas colocados. Do outro lado, nós que estamos distantes, não conseguimos enxergar o outro lado do problema: como a riqueza chegou, ainda que seja com esse desequilíbrio, pela desigualdade provocada, pela mudança de vida, trouxe no bojo o que aconteceu aqui no Rio de Janeiro tão próximo, com Macaé. Eu conheço Macaé há quantos anos! Aí, essa dinâmica, desse modelo de desenvolvimento, às vezes segmentado, muito movido pelo mercado , na visão meramente econômica, provocou determinados problemas: a droga , a violência como não havia antes. Nessa cidade de porte médio, em que o progresso explodiu com os agronegócios, também tem esse outro problema. Faz parte desse contexto. E naquelas regiões mais afastadas que nem isso chegou, são outras as dinâmicas. No Pará, por exemplo, eu estive trabalhando com algumas pessoas daquela região, parece que você está num país medieval. Não tem direito nenhum! O direito lá é da arma. 39 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil É a complexidade do tamanho de um País qual o nosso, com a sua história, como é que nós vamos dar conta disto? Com essas mudanças, com a construção desses valores, da proteção social, dos direitos humanos. Lá no norte do Mato Grosso, fiquei na casa do Prefeito e fui fazer uma refeição com ele. Ele é muito jovem. Ele e a esposa muito desesperados porque eles mesmos representavam aquele grupo que veio do sul e que devastou a madeira. Agora estão pagando um preço da situação que está lá. Esse quadro que ai está de contradições, próprio desse País que vai ficando adulto. Adulto politicamente, culturalmente, socialmente. E nós temos aí um papel como cidadão e como espírita dentro desse contexto. 18) Há alguma iniciativa da FEB em unificar ou padronizar as ações assistenciais dos Centros Espíritas ou isso ficará a cargo dos próprios centros? A FEB promoveu, em 2000, um encontro nacional. Eu participei, colaborei e construímos um Manual dos SAPSE – Serviço de Assistência e Promoção Social Espírita. Inclusive ele é acessado no portal da FEB, em download. Quem quiser não precisa comprar é só acessar. Então existe é o Manual do SAPSE, que deve ser lido e estudado. De certa maneira, ele está desatualizado em alguns aspectos, de 2000 para cá muita coisa mudou na legislação, mas está lá. De maneira que é útil para os trabalhadores da assistência social das casas espíritas. 19) Por favor, qual é o título do livro de Leonardo Boff sobre a formação do Brasil e os Jesuítas? Vou primeiro dizer esse, mas vou dar outros dele que eu acho que tem tudo a ver. Esse livro chama-se “América Latina: da conquista a nova evangelização. Editora Ática; ele estuda isso do modelo jesuítico, que foi hegemônico que difere do modelo franciscano. O modelo franciscano nunca usava a imposição. Quando perguntaram ao Francisco: “Francisco tem ali no bosque uns ladrões, nós queremos evangelizar. O que nós temos que fazer, qual é o método?” Ele disse: “Vai lá primeiro, leva um pão e um vinho, senta com eles, convive.” E depois? “Volta lá, leva outro pão, outro vinho, e convive.” E depois? “Volta lá, aí você nesse processo vai dizendo para ele assim: Oi irmão ladrão, seu ofício é o de roubar, vocês são ladrões, mas eu queria pedir a vocês, daqui para frente quando vocês roubarem evitem, ferir ou matar. Aí volta lá: Oi irmão ladrão vocês já estão roubando sem ferir e nem matar, será que não dá um jeitinho de agora não roubar mais? Tem tanta terra aqui, eu estou junto com vocês...” É método franciscano das relações. Este relato encontra-se em outro livro de Leonardo Boff que agora foi reeditado, chama-se “Ternura e Vigor” é a história de Francisco de Assis. Em outro livro , que faz parte da coletânea “Virtudes Possíveis para um Mundo Atual”, Boff desenvolve o tema “Convivência” com base na Parábola do Bom Samaritano. 40 EAD | Novos Rumos da Assistência Social no Brasil Referências Bibliográficas 1) ASSAGIOLI, Roberto. Psicossintese. São Paulo: Editora Cultrix Ltda 2)BUBER, Martin. Eu e Tu; tradução , introdução e notas por Newton Aquiles Von Zuber.—8ª Edição.- - São Paulo: Centauro,2001 3)BOFF, Leonardo. América Latina: da conquista à nova civilização. -3ª ed. –São Paulo: Editora Ática, 1992 S. Francisco de Assis: Ternura e Vigor. – 6ª Ed – Rio de Janeiro:Editora Vozes, 1984 Virtudes para outro mundo possível;volume II; Convivência, Respeito e Tolerância: Rio de Janeiro : Editora Vozes, 2006. 4) FRANCO, Divaldo(pelo Espírito Joanna de Ângelis). Vitória sobre a depressão. Salvador-Livr. Espírita Alvorada Editora, 1 ed. 2010 5) LÉVINAS, Emmanuel. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Tradução de Pergentino Stefano(Coord) Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2005 6) SANTOS, Milton. Por outra Globalização: pensamento único à consciência universal. – Rio de Janeiro: Record, 2001 7)SEN, Amartya . Sobre Ética e Economia; tradução Laura Teixeira Motta, revisão técnica - Ricardo D. Mendes- São Paulo: Companhia das Letras,1999 41