Design para quem? Representações de "usuários/as" nos projetos acadêmicos de design de produto Suelen Christine Caviquiolo1 Gilson Leandro Queluz2 Resumo Este artigo é caracterizado por aproximar estudos das representações de “usuários/as” pelos/as designers durante o desenvolvimento de artefatos tecnológicos e as questões gênero, cultura, tecnologia e sociedade nelas presentes. Assim, pretendemos discutir as descrições das pessoas destinadas a interagir com os artefatos projetados por estudantes de design em seus trabalhos de conclusão de curso (TCCs). Em pesquisa documental, realizada no curso de Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR), analisamos os fragmentos de texto dedicados a informar para quem são os produtos projetados. A amostragem se refere a parte dos TCCs produzidos entre os anos de 1978 e 2000. Podemos perceber que, nas descrições de quem utilizará os produtos, estão envolvidas intenções - conscientes ou não - de reforçar ou desestabilizar ideologias de gênero entrelaçadas a diferentes concepções sobre classe, etnia e geração e que se transformam no curso da história. Palavras-chave: Design; Gênero; Tecnologia e Cultura; Trabalhos de Conclusão de Curso; História do Design. 1 2 Mestranda em Tecnologia, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, [email protected] Doutor em Comunicação e Semiótica, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, [email protected] 1 Introdução Este artigo é parte integrante de pesquisa de mestrado dedicada a refletir sobre as questões culturais, econômicas, políticas e sociais presentes nos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) de 3 Desenho Industrial da Universidade Federal do Paraná (UFPR) entre os anos de 1978 a 2000 . Assim, buscamos construir uma abordagem crítica do design a partir da relação tecnologia, cultura e sociedade além de contextualizar esses TCCs, enquanto artefatos da cultura material, feitos por e para indivíduos no interior de relações sociais na história. A partir de nossas interpretações de abordagens dedicadas às dimensões sociais, culturais e históricas do design e da tecnologia, desenvolvemos o referencial analítico que orientou o recorte e a re-organização dos textos dos TCCs. O método empregado na pesquisa para obter os fragmentos de texto mais significativos para nossa análise e nossos objetivos foi a construção e uso de algumas categorias, que nos levaram a concepções sobre o que, como, porque e para quem se projeta. Esses fragmentos foram discutidos em torno das relações entre design, tecnologia e sociedade onde percebemos que o viés de gênero poderia contribuir para a compreensão de questões culturais e políticas, envolvidas na concepção, produção e uso dos artefatos, o que também nos deu subsídios para pensar a articulação com as questões de classe e etnia. Segundo Lerman, Oldenziel e Mohun (2003, p.5, tradução da autora), “a análise de gênero ilumina nossas compreensões da tecnologia, da 4 mesma forma que a atenção à tecnologia ilumina nossas compreensões de gênero” . Assim, neste trabalho, problematizamos os fragmentos de texto com as descrições das pessoas destinadas ao uso/ consumo do [ou interação com o] produto projetado, ou seja, para quem eles projetam. Essas pessoas, quando explícitas, são descritas como usuários/as, consumidores/as ou público-alvo, citados em seção especial do projeto ou no interior de outras seções. Buscamos também inserir nesta categoria qualquer indivíduo ou coletivo descrito como beneficiado pelo produto, o que acarretou na inclusão de empresas, instituições e comunidades colocadas nesta condição. Interações entre design, tecnologia e gênero Apoiando-se na abordagem histórica de Scott (1995, p.86), entendemos que o gênero “é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos”. Entretanto, ele não é somente uma maneira de classificar as pessoas de acordo com características físicas; a atribuição dessas diferenças ocorre no interior de relações sociais, que (ainda) se apresentam de forma assimétrica e desigual. Segundo Flax (1991, p.228), “[...] as relações de gênero, tanto quanto temos sido capazes de entendê-las, têm sido (mais ou menos) relações de dominação”. 3 Nossa amostragem se refere à cerca de 60% ou mais dos trabalhos da habilitação em Projeto de Produto hoje disponíveis no Departamento de Design da UFPR. 4 “Gender analysis illuminates our understandings of technology, and attention to technology illuminates our understandings of gender”. 2 Logo, o gênero dá significado às relações de poder, é a partir dele que o poder se articula (Scott 1995, p.88). O gênero, assim como a tecnologia, é dinâmico, se transforma no curso da história, conformando e sendo conformado pelas representações simbólicas, normas, organizações e instituições sociais e identidades, variando de acordo com o espaço, a cultura e a situação (LERMAN; OLDENZIEL; MOHUN, 2003, p.4). No nível simbólico, o gênero opera através das representações do masculino ou feminino, nas suposições de como homens e mulheres são, em mitos, expectativas e ideologias baseadas na diferença de gênero (SCOTT, 1995, p.86; LERMAN; OLDENZIEL; MOHUN, 2003, p.4). Scott (1995, p.86) considera importante para a história uma investigação desses símbolos e representações, buscando entender como, quando e onde eles são evocados. Em um nível mais individual, o gênero pode estar ligado às identidades subjetivas (ou coletivas), que manifestam como um indivíduo vê a si e como ele se apresenta ao outro; que também podem ser expressadas a partir de meios materiais, como as roupas, ferramentas, utensílios domésticos e produtos de higiene (LERMAN; OLDENZIEL; MOHUN, 2003, p.4). As identidades generificadas-, contudo, não são construídas somente a partir do indivíduo, mas da sua relação com “toda uma série de atividades, de organizações e representações sociais historicamente específicas” (SCOTT, 1995 p.88). Ao observarmos como os objetos materiais constroem e são construídos pelo gênero, percebemos como é importante tratar essas duas categorias, gênero e tecnologia, em conjunto. Esses processos de co-construção tornam-se mais evidentes ao examinarmos as tecnologias e ideologias de gênero do passado, pois quando identificamos a escolha humana na conformação do gênero e da tecnologia, e de suas interações, percebemos que esses também se manifestam como poder: social, político e econômico (LERMAN; OLDENZIEL; MOHUN, 2003). Em estudo sobre barbeadores e depiladores, van Oost (2003) mostra como a política pode ser materializada nos artefatos, expressando ideologias de gênero. Para a autora, esses produtos contém um script de gênero, que “se refere às representações das relações ou identidades de gênero que os designers de um artefato têm ou constroem - representações que eles então inscrevem na 5 materialidade daquele artefato” (van OOST, 2003, p.195, tradução da autora). A trajetória histórica dos barbeadores e depiladores (shavers) da marca Philips é um exemplo de como os scripts de gênero se manifestam. A análise de van Oost (2003) mostra que, apesar de serem produtos similares na função, as ideias que vinculam a masculinidade com a competência tecnológica foram fortemente inscritas no design dos barbeadores. O script dos depiladores, por sua vez, inibe (simbolicamente e materialmente) a capacidade das mulheres verem a si mesmas como interessadas em tecnologia ou como tecnologicamente competentes (id., ibid., p.207). No entanto, essa mesma pesquisa indicou que os mais recentes barbeadores masculinos daquela marca apontam para um novo script, que parece convergir para um design simplificado que não demanda habilidades ou possibilidades para o 5 “'Gender script' refers to the representations an artifact's designers have or construct of gender relations and gender identities – representations that then inscribe into the materiality of that artifact” 3 ajuste ou controle do aparelho, se aproximando das características antes comuns aos aparelhos femininos. Os motivos dessas mudanças na configuração técnica, visual e funcional dos aparelhos masculinos ainda não são evidentes, no entanto, elas manifestam a dimensão histórica, tanto do gênero quanto da tecnologia. A presença de ideologias de gênero na produção de artefatos também foi indicada por Ono e Carvalho (2005) a partir de estudos de caso desenvolvidos no setor de eletrodomésticos. Nesta pesquisa, as autoras concluem que, tanto as pesquisas de mercado quanto o design, direcionam esses produtos somente às mulheres. As representações que orientavam o processo criativo de algumas das empresas, no período em que foram pesquisadas, eram caracterizadas por imagens que os designers entendiam como ligadas à uma “mulher brasileira”. A partir dessas imagens, esses projetistas buscaram traduzir idéias como “sensualidade”, “sentimentalismo” e “erotismo” nas características formais, funcionais e técnicas dos produtos direcionados ao mercado brasileiro. Assim, ao mesmo tempo em que essa prática projetual reflete uma ideologia de gênero que atribui às mulheres, e somente à elas, o trabalho doméstico, também reproduz idéias pré-concebidas do que é ser uma “mulher brasileira”. A exclusão de certos grupos sociais no direcionamento dos projetos é também comentada por van Oost (2003, p.196). Para essa autora, “as preferências, competências e interesses dos próprios designers, que serviram como direcionamento no projeto, podem inibir outros grupos sociais (idosos, étnicos, mulheres, analfabetos) de utilizar o artefato.” Sobre essa influência das ideias e préconceitos dos próprios designers (e seus chefes) na concepção e comunicação dos produtos, Forty (2007), chama a atenção para o fato de que as características dos produtos não são somente resultado de um processo criativo autônomo do designer, mas também de um processo que está condicionado às ideias sobre o mundo, às condições materiais existentes e às relações sociais nas quais esses profissionais estão inseridos. Design para quem? Para além de projetos técnicos e descritivos, os TCCs são a expressão de concepções sobre o design e a sociedade, ou de como é concebida a relação entre esses dois universos. O que é visto como um problema a ser resolvido ou como necessidade a ser atendida e de que forma serão resolvidos se dá a partir da experiência/vivência das pessoas que negociam o quê será projetado e como será projetado. Essa negociação pode se dar entre os/as alunos/as autores/as do trabalho de conclusão de curso, professores orientadores, professores das disciplinas, possíveis usuários do produto projetado, possíveis empresas compradoras do projeto, possíveis fornecedores de matériasprimas e indústrias/oficinas que poderiam fabricar o produto projetado. A participação direta ou indireta desses atores se mostra dentro de muitos dos TCCs que analisamos, onde podemos perceber essa negociação se manifestando de diversas formas. 4 Nossa referência para pensar a concepção de artefatos tecnológicos, em termos de negociação social, tem origem na abordagem proposta por Pinch e Bijker (1994): a Construção Social da Tecnologia (SCOT). Na SCOT, desenvolvida a partir da combinação de perspectivas históricas e sociológicas, se busca evitar visões lineares e deterministas para o estudo dos artefatos tecnológicos na história, considerando que os mesmos são construídos através de processos de interação social (BIJKER, 1997). O artefato tecnológico, nessa perspectiva, é visto por cada grupo ou indivíduo que participa de sua construção de maneiras diferentes e, a partir de suas referências, conhecimentos, 6 experiências sociais e objetivos, cada “grupo social relevante” atribui a ele diferentes significados . Essa negociação, no entanto, não ocorre sem conflitos, pois está permeada por relações de poder, sendo elas também determinantes na configuração final do produto. Além disso, ela se vincula a estruturas sociais, econômicas, ideológicas que se modificam no curso da história, que podem 7 condicionar a relação das pessoas com a tecnologia . As interpretações dos designers a respeito das pessoas que fazem (ou farão) uso dos 8 produtos por eles projetados foram motivo de preocupações por vários autores/as . Entre esses, Akrich (1998), constatou que os usuários costumam ser sub-representados no trabalho de concepção de artefatos tecnológicos. A partir do levantamento de algumas das técnicas empregadas pelos designers no desenvolvimento de seus projetos, a autora as inseriu em dois grupos: técnicas implícitas e técnicas explícitas. O grupo de técnicas implícitas utiliza como referência alguns representantes do usuário pré-definido, que podem ser os próprios profissionais envolvidos no projeto (em uma discussão ou tomada de decisões, fazem uso de suas próprias experiências para justificar escolhas ou pontos de vista), ou então experts, aqueles que se supõe possuírem conhecimento particular sobre o usuário. No grupo das técnicas implícitas, existe ainda aquela que se baseia nos produtos já existentes, na qual, a partir de produtos que se imagina serem pertencentes a determinado usuário, é possível tirar conclusões sobre ele. As técnicas explícitas, são exemplificadas pela autora com as pesquisas de mercado ou pós-venda, que buscam compreender os consumidores/usuários a partir dos resultados mais expressivos, ou a partir da média obtida pelas respostas. A crítica de Akrich (1998) é feita justamente no sentido em que esses usuários não são convidados a participar das escolhas e decisões técnicas do projeto pois, na adoção dessas técnicas, espera-se que eles permaneçam em seus lugares. Entre os trabalhos de conclusão de curso analisados, identificamos algumas descrições de usuários, feitas a partir de "técnicas implícitas" e “explícitas”. Mas antes, precisamos chamar atenção para um fator decisivo na construção das pessoas que usam, que é a própria maneira como o/a 6 O conjunto de elementos que influenciam na negociação e na forma como o artefato é interpretado é chamado de Estrutura Tecnológica (Technological Frame). 7 A impossibilidade de pensar essas interações em torno de um artefato em um contexto macro, levando em conta as estruturas sociais, e a exclusão de determinados grupos "não relevantes" para a análise, estariam entre as principais limitações da Construção Social da Tecnologia (RUSSEL, 1986; WINNER, 1993; KLEIN; KLEIMANN, 2002) 8 Akrich (1995); Woolgar (1991) e Hyysalo (2006) 5 9 designer interpreta essas pessoas na realidade social, ou seja, as "lentes" socioculturais pelas quais ele ou ela olha para elas. É dessa maneira que entendemos as descrições dos/as possíveis utilizadores/as do "Equipamento de Lazer para pessoas Idosas e Crianças", onde as autoras traduzem a relação entre pessoas idosas e crianças no relacionamento entre avô e neto. Assim, são construídas imagens de "idoso" e de "criança", as quais percebemos como marcadas por estereótipos de geração e de gênero, provavelmente construídas a partir de experiências pessoais, expressas nos seguintes fragmentos: As pessoas de idade perambulam por praças e parques sem ter o que fazer e os que possuem netos, saem com eles o que, às vezes pode resultar em alegria, isto porque a peraltice da criança nem sempre vai de encontro às condições físicas do avô, que fica deprimido por não poder acompanhá-la, escapando de sua proteção. [...] Os brinquedos serão destinados na sua maioria, para avô e neto ao mesmo tempo. Onde os dois possam se divertir, não se tornando monótono para a criança, nem prejudicando as frágeis condições do outro (GÉRIKAS; SILVA, 1981, p.3). Mesmo quando o/a aluno/a vai à campo com a finalidade de entender como essas pessoas se comportam e de conhecer seus desejos, vontades e necessidades, a interpretação do que foi observado, ouvido e registrado traz consigo concepções sobre a sociedade e de como ela se organiza materialmente e/ou idealmente. O lugar da mulher que trabalha e da mulher que consome, por exemplo, é traduzido nos objetivos de um dos TCCs, com o título "Equipamento para Profissionais em Estética Corporal - Manicure/Pedicure" apresentado em 1994. Enquanto busca-se o conforto para aquela que consome, para aquela que trabalha o produto é pensado em termos de racionalidade e desempenho: A cadeira da cliente foi desenvolvida para proporcionar maior conforto e melhorar a posição da cliente em relação à profissional. Nesta cadeira também são encontrados a mesa de tarbalho [sic] da Manicure, a cumbuca, o apoio para a perna e a bacia. Com esta disposição o trabalho da profissional torna-se mais racional (GRABOVSKI, 1994, p.66). A cadeira desenvolvida para a profissional possui uma altura adequada, além de conter os acessórios melhor dispostos para a realização do trabalho: a mesa de apoio, a gaveta e o reservatório de água. Com isso, consegue racionalizar suas operações melhorando seu desempenho (Id., Ibid, p.68). Outra maneira encontrada para entender aquelas pessoas que usam, também citada por Akrich (1998) no grupo das "técnicas implícitas", é a consulta às pessoas ligadas aos/às utilizadores/as pretendidos/as. Nos textos dos TCCs também foi possível identificar essas estratégias, nas quais determinados profissionais teriam legitimidade para fornecer as informações a respeito dos usuários, ou falar “em nome deles” como neste projeto de assento de ônibus para pessoas portadoras de deficiência: “Com o auxílio de atendentes, médicos, terapeutas e pedagogos, traçamos um perfil geral dos deficientes que utilizam o serviço do SITES” (FONSECA; NAKAMURA, 1995, p.50). 9 A idéia de cultura como lente "através da qual o homem vê o mundo" é trazida por LARAIA (2006, p.67) ao fazer referência a BENEDICT (1972). 6 A descrição daqueles e/ou daquelas que usam passa a ser mais detalhada na década de 90, provavelmente por influência dos métodos de pesquisa em marketing, que levantam uma maior quantidade de dados relacionados às pessoas pretendidas como futuras utilizadoras e/ou consumidoras do produto projetado, a partir de questionários e entrevistas. O uso dessas técnicas "explícitas", de acordo com a condução da pesquisa, tanto podem direcionar o produto aos resultados mais "expressivos", como comentou Akrich (1998), quanto excluir determinados grupos de pessoas dos "usuários". A escolha de quem será entrevistado, e como será entrevistado, pode determinar para quem esse produto será projetado, mesmo quando a intenção é obter um produto acessível a um grande número de pessoas ou quando não se define - explicitamente - as pessoas desejadas a interagir com ele. Essa questão pode ser observada no projeto de Mochila Escolar, no qual "a pesquisa foi realizada com a amostragem de aproximadamente 60 alunos de escolas particulares e 35 alunos de escolas públicas [...]" (KLINOWSKI, 2000, p.4). Os resultados mais expressivos, neste caso, seriam mais voltados à realidade de crianças das escolas particulares, já que as respostas foram convertidas em dados numéricos percentuais que direcionaram aspectos técnicos do projeto. "Usuários" e questões de gênero, classe e etnia A perspectiva de gênero contribuiu com a análise no sentido de chamar a atenção para outras formas de perceber a sociedade expressas nos trabalhos analisados, seja no sentido em que reproduzem estereótipos ou em que os subvertem. O uso da metáfora das lentes é novamente útil para interpretar outra observação feita no projeto de Equipamento de Lazer para Pessoas Idosas e Crianças: “Os meninos vão mais no escorregador que é caracterizado por muita bagunça. As meninas brincam mais no balanço, pois este é um brinquedo mais calmo” (GÉRIKAS; SILVA, 1981, p.54). Nesta observação de crianças que brincam em um parque, percebe-se a diferença entre as escolhas de meninos e meninas atribuídas a características dos brinquedos escolhidos. No entanto, se os meninos tivessem escolhido o balanço e as meninas o escorregador, provavelmente as 10 qualidades desses brinquedos não seriam as mesmas . Assim, a leitura e descrição daquele espaço de interação entre crianças e objetos trazem consigo noções sobre o que se considera apropriado para meninos e para meninas, e marcam diferenças que se propõem como inerentes àqueles corpos. Forty (2007, p.91) nos mostra que "o estudo do design não somente confirma a existência de certas distinções sociais, mas também mostra o que se pensava que eram essas diferenças entre categorias". Segundo o autor, no século XIX começa a se tornar mais importante distinguir os homens das mulheres e as crianças dos adultos, uma concepção que está presente - materializada e simbolizada - nos produtos de uso pessoal daquela época. Relógios e canivetes, por exemplo, eram concebidos de acordo com convenções sociais de masculinidade e feminilidade, sendo os modelos femininos em tamanho menor, com formas curvilíneas e ornamentadas e os masculinos com tamanhos maiores, linhas mais retas e poucos ornamentos. A criação de designs diferenciados para homens e mulheres estava associada "ao fato de que os homens e as mulheres das classes altas e médias do século XIX se viram levando existências muito separadas" (id., ibid, p.94). Essa separação 10 "É preciso que se diga ainda que as atribuições de gênero aos objetos funcionam como sentidos imanentes. Tais objetos se tornam emblematicamente sexualizados. Tal imanência, no entanto, deve ser entendida como um resultado da prática social, cotidianamente reiterada pela prática social, momento em que se atribui o gênero aos objetos" (CARVALHO, 2008, p.44). 7 se dava pela gradual exclusão das mulheres do campo político e comercial (espaço público) desde o século XVI, assim, sua vida social no século XIX era restrita ao espaço doméstico. Para manter essa ordem, eram empregadas justificativas de que a mulher era naturalmente frágil, delicada, emotiva, e emocional. Segundo Lubar (1998), manter essas mulheres protegidas de uma vida pública era também uma necessidade econômica, situada no Reino Unido, no período da Revolução Industrial. Devemos reforçar então, que esses significados não são estáveis, e diversas circunstâncias no tempo e no espaço produziram e produzem outras interpretações e modos de interação entre pessoas e a tecnologia (id., ibid., p.17). Outro trabalho condizente com concepções sociais que atribuem “tarefas” às pessoas em função do sexo é o projeto de “Sistema de Transporte para Bebê e Acessórios”, no qual se usa uma justificativa biológica para atribuir a mãe (fêmea), e somente a ela, a função social de cuidado dos filhos: Desde os primeiros tempos a fêmea dá a luz, fornecendo a sua prole alimento e cuidados até que a mesma esteja preparada para viver individualmente, pelo menos no que diz respeito às condições básicas de vida, tais como: alimentação, higiene, locomoção. A maneira como a fêmea, humana ou animal, carrega seu filhote é muito interessante e varia de acordo com a espécie, geograficamente e através dos tempos. Embora a mulher de nossa sociedade atual tenha maiores condições, no que diz respeito à facilidade, e comodidade para realizar sua tarefa, em relação à mulher primitiva, as dificuldades são inúmeras, e estão ligadas às diferentes atividades exercidas tanto por uma quanto por outra (KNOPF; SANTOS, 1982, p.2-3). A partir dessas conclusões, têm se a justificativa para a proposta de um sistema de transporte para o bebê e acessórios, [...] objetivando facilitar e minimizar o esforço físico exercido pela mãe ao se locomover, levando consigo o bebê, objetos para sua higiene e alimentação, além dos objetos pessoais, possibilitando uma movimentação muscular normal e proporcionando o conforto indispensável ao bebê. (Id., Ibid., p.1) Dez anos após, outro projeto de sistema de transporte para bebê foi apresentado. Segundo as autoras, “O produto proporciona ao usuário múltiplas opções de uso visando satisfazer plenamente as necessidades de conforto e segurança da mãe e do bebê no momento do seu transporte seja em casa, na rua ou no automóvel” (VILLAVICENCIO; DALLA COSTA, 1992. p.1). Os dois projetos preconcebem as pessoas que usam com base em um ideal de gênero construído, mantido e tensionado nas relações sociais: o de que o cuidado com os filhos é trabalho a ser realizado pela mãe. A idéia de feminilidade vinculada à maternidade é uma construção que se dá entre os séculos XVIII e XIX (SCAVONE, 2001), esse modelo foi consolidado “em uma ideologia que passou a exaltar o papel natural da mulher como mãe, atribuindo-lhe todos os deveres e obrigações na criação do(a)s filho(a)s e limitando a função social feminina à realização da maternidade” (Id., Ibid., p.49). Essas idéias, no entanto, contradiziam a realidade das mulheres mais pobres, que precisavam trabalhar naquela sociedade industrial que estava se constituindo e não tinham condições de se dedicar àquela maternidade. 8 A referência que se faz à mãe, nesses projetos, não se limita aos ideais de gênero, pois esses se entrecruzam com a classe e a etnia. O projeto de 1982, por exemplo, faz a seguinte análise das atividades realizadas pela mãe: A mulher que sai com seu bebê hoje, geralmente o faz para ir ao médico, fazer compras, visita ou passeio. Ela não leva o bebê para o trabalho. Já a mulher primitiva, em muitas tribos, leva seu filho consigo para executar suas tarefas tanto em casa quanto no campo. [...] A média de tempo que a mãe fica fora de casa com o bebê é em torno de duas a quatro horas. O meio de transporte utilizado depende além do poder aquisitivo, da atividade exercida, assim como: para passeios rápidos e curtos a mãe vai a pé; o ônibus é geralmente para idas até o centro, ou visitas fora do bairro; o automóvel é usado por ser mais prático. As atividades exercidas variam muito, desde ir ao médico, o [sic] ir a passeio, compras, visita. O mais comum é o passeio rápido com o bebê até uma praça (KNOPF; SANTOS, 1982, p.2-3). Pode-se perceber que, nesse caso, o produto está sendo pensado para mulheres “modernas” e “não primitivas” que fazem compras, andam de ônibus ou automóveis, vão ao médico, fazem compras, visitam pessoas e passeiam em praças com seus bebês. Ou seja, o produto é pensado para mulheres que vivem nos centros urbanos, em uma sociedade que não permite levar os filhos para o trabalho fora de casa. Através disso, podemos entender de que forma o gênero também se articula com as questões de classe, pois percebemos novamente uma visão de mulheres marcada pela divisão entre aquelas que trabalham e aquelas que consomem. Nos trabalhos que analisamos, o consumo é uma categoria importante para a interpretação das questões de gênero, pois a busca por entender e representar as pessoas que usam e as pessoas que compram se mistura, principalmente nos projetos a partir da década de 80. O ambiente doméstico e os espaços de consumo costumam ser entendidos e representados como “espaços femininos”, uma visão que começa a se construir a partir do século XIX (LUBAR, 1998; LERMAN; OLDENZIEL; MOHUM, 2003; CARVALHO, 2008). No projeto de torneira doméstica, temos definido como "usuário" um "consumidor alvo do sexo feminino, jovens de 25 a 50 anos, pertencentes à classe média" (DINIZ; GROSSMANN, 1990, p.1). Podemos entender que esse texto se refere à uma visão das pessoas que compram, em lugar daquelas que usam, pois se tratando de uma torneira doméstica, todos aqueles e aquelas que vivem ou trabalham nesse ambiente poderiam fazer uso da torneira: homens e mulheres, crianças, idosos e idosas, que poderiam ser pais, filhos, avós, e empregadas/os domésticas/os. As pessoas que compram, para as autoras do projeto, seriam mulheres, e não somente mulheres, mas aquelas com poder aquisitivo suficiente para obtê-lo. Passando da concepção de um “utilizador” para um “consumidor” (em um consumo pensado como 11 "compra" de mercadorias) temos, nesse período de profundas desigualdades sociais , um novo direcionamento dos projetos que inclui as classes altas e emergentes e exclui aquelas que não participam desse circuito de compra e venda de design. O direcionamento dos projetos de forma a privilegiar determinadas classes sociais e econômicas, em lugar de outras, reproduz visões sobre o design e a sociedade, e sobre quem deve 11 Em nossa pesquisa, percebemos que os projetos da década de 90 dialogam profundamente com a crise econômica e social pela qual passava o nosso país. De forma a ilustrar algumas das transformações do período, recorremos a Alves (2002), que discute os impactos no mundo do trabalho durante essa “década neoliberal”. 9 ter acesso aos seus produtos. A escolha das pessoas que podem fazer uso de certos produtos, e porque elas “necessitam” deles, traz visibilidade às próprias estruturas sociais e transformações históricas do período que analisamos. Exemplificamos essa discussão com os projetos que explicitam um objetivo de projetar para as pessoas mais pobres e carentes, mais comuns entre o final da década de 70 e início da década de 80. O projeto de "Unidade Volante para Integração Lazer-Cultura Infantil", segundo suas autoras, estaria destinado à "atingir a uma camada social de baixa renda, que vive em bairros periféricos ou favelas", para "levar às crianças destes locais, um tipo de lazer voltado também para a comunicação de dados culturais, noções de higiene, cuidados com a alimentação etc." (RADIGONDA; MARTINS, 1979, p.5). Se situarmos esse trabalho no contexto daquele período em que foi feitos e apresentado, temos as crises no setor agrícola, que incentivaram a migração das áreas rurais para os centros urbanos, e outras crises urbanas em consequência da falta de estrutura das cidades para a absorção desse contingente de pessoas, apresentando problemas de saneamento básico, acesso à saúde, educação, lazer e "cultura" para os mais pobres (BRITO; SOUZA, 2005). Da mesma maneira como aumenta o interesse por questões envolvidas com o mercado, no final da década de 80, aumentam os projetos voltados explicitamente para os mais mais ricos. A colocação de Boy (1998, p. 62) sobre o design – europeu - nos anos 80, se aproxima do que percebemos nos trabalhos de graduação analisados. Este autor caracteriza o design dos anos 50, 60 e 70 pela democratização, enquanto nos anos 80 estava mais voltado ao culto do designer 'estrela', ao desenvolvimento de objetos em séries limitadas e o retorno aos materiais caros, ou ainda à grande oferta de objetos fetiche, apoiados pela mídia e pela moda. Como conseqüência, o design tomou, obviamente, o caminho da aristocratização.12 Em 1987, é apresentado o projeto de Linha de Objetos de Mesa para Escritórios, voltado para “consumidores de classe média e alta” (MACHIAVELLI, ROZA, 1987, p.1). No projeto de Jogo de Chá, “procurou-se, sem descuidar da funcionalidade e do conforto, chegar a um produto com linhas não convencionais que atingisse um público jovem e de maior renda” (ALMEIDA FILHO, 1989, p.2), objetivo que é reforçado na conclusão do projeto: “O jogo de chá foi projetado visando um público jovem mais preocupado com a funcionalidade e a estética do produto e pode arcar com o preço de sua escolha” (Id., ibid., p.60). As classes econômicas divididas entre média, média-alta, e alta também foram o foco dos projetos de Linha Experimental de Embalagens para Cosméticos, de 1989; da Torneira Doméstica para aquecimento de água, de 1990; Jogo de Quarto Infantil, de 1996; Design de Sandálias, de 1997; Cerâmica Infantil, de 1998; Estação Multimídia e Linha de metais para banheiro, de 2000. Interessante também foi perceber que todos os projetos citados não falam mais somente em termos de “usuário”, mas de público, público-alvo, consumidor, consumidor alvo ou consumidor final. 12 Le design des années 50, 60 et 70 visait, nous l'avons vu, la démocratisation. Les années 80, souvent tournées vers le culte du designer "star", ont vu se développer les objets en séries limitées, Le retour à des matériaux onéreux, ou encore La surenchère de l'objet fétiche, appuyé par les médias et la mode. Par conséquent, le design prenait de toute évidence le chemin de l'aristocratisation (BOY 1998, p. 62). 10 Possibilidades de superação? É, no entanto, importante para nossa análise não desconsiderar aqueles projetos baseados em outras leituras da sociedade com relação às diferenças atribuídas às pessoas ou grupos de pessoas. Produtos que a princípio seriam ligados ao ambiente doméstico - e “feminino”, em dois projetos que analisamos, são pensados em outros espaços - “masculinos”-, como as cabines de caminhão. O primeiro trata-se de projeto de geladeira portátil que, segundo seus autores: poderá ser utilizado por todas as pessoas que têm um caminhão como transporte, a trabalho ou passeio. A maioria quase totalitária, na faixa etária entre 18 a 60 anos, sendo que a quantidade de mulheres é ínfima. O nível econômico é variável entre o baixo e o médio (HEZEL, PEIXOTO, 1985, p.23). O segundo projeto, também voltado ao uso por caminhoneiros, apresentado em 1999, é uma cozinha portátil, que visa “tornar a vida do motorista mais fácil, graças a utilização de soluções que tornem o ato de cozinhar na estrada o mais cômodo” (BUCHMANN; AYALA, 1999, p.1). Outro trabalho que busca, neste caso explicitamente, transcender as fronteiras daquilo que se considera como apropriado aos homens ou às mulheres é o projeto de Sandálias Plásticas Masculinas, de 1997. Batizada de “Melissa Olimpus”, o produto foi projetado com a intenção de se propor uma linha 13 masculina da sandália marca “Melissa”, até então -e ainda- voltada para mulheres . Segundo sua autora, “os modelos foram concebidos seguindo alguns objetivos básicos direcionados ao público em questão”, entre eles: “incentivar o homem a usar acessórios de moda mais descontraídos, superando preconceitos” (SCHWARZ, 1997, p.4). A autora reforça essas intenções ao longo do projeto, sempre articulando a questão do comportamento masculino às questões de mercado, moda e consumo. No fragmento abaixo, retirado da conclusão do projeto, percebemos de que forma se apresentam as intenções de “superar preconceitos”: É sabido que a moda masculina foi regulada, durante muito tempo, por um tabu que a proibia dos jogos de charme, sedução e metamorfoses extremas, sempre explorados pela moda feminina. Atualmente a situação está mudando. Os homens começam a ser mais vaidosos e exigentes. Preocupam-se com a aparência e a moda, e estão gastando cada vez mais com o visual. Aos poucos eles se iniciam nos jogos dos artifícios, do desejo de se sentir atraente, num processo de identificação individual e social. Esse processo caminha lentamente e por vezes ainda apresenta rompantes de automáticas rejeições a qualquer semelhança com o grupo feminino. Tanto é, que há certas recusas quanto a determinados materiais e cores em seu vestuário (Id.,ibid., p.2). O processo de escolha da linha formal foi extremamente cuidadoso para que o público masculino fosse seduzido a usar, e o feminino a apreciar, sem preconceitos de origem histórica, ou pré-histórica, e com anseios dirigidos ao futuro. O marketing e a marca propostas [sic] influenciam na exclusão do preconceito, por seu caráter, até mesmo histórico – os conceitos de beleza clássica masculina eternizadas pelas esculturas gregas, evidenciam a natureza vaidosa do homem, que por muito tempo foi abandonada (Id, Ibid., p.97). 13 Durante a redação deste artigo houve o lançamento do primeiro modelo masculino da marca Melissa, muito próximo ao formato de outros sapatos para homens, no entanto, em 2006 já tinha sido realizado um desfile no qual os modelos usavam sandálias dessa marca adaptadas aos códigos de masculinidade, essas seriam modelos “unissex” que “não deram muito certo” (ALLVES, 2010). 11 Assim, a conversão de um modelo de sandálias “femininas” para um modelo “masculino” ainda precisa se utilizar de marcadores tidos como próprios do mundo masculino. As transformações sociais e culturais, que poderiam ser interpretadas como uma dissolução das fronteiras de gênero, são principalmente relacionadas aos hábitos de consumo de homens e o crescente interesse por produtos antes tidos como “femininos”, como a moda e o cuidado com o corpo. O resultado não foi a descaracterização de um estilo masculino, mas sim, sua integração nas tendências atuais de moda, que têm raízes em tendências comportamentais. Tendências estas que estão hoje, voltadas à procura do bem estar e saúde do corpo, aos desejos de distinção individual e poder de atração, da busca de praticidade, economia, versatilidade e materiais que correspondam ao máximo esses objetivos (SCHWARZ, 1997, p. 97). Assim como “produtos masculinos” são tidos como mais uma oportunidade para ampliar o mercado de produtos antes segmentados para mulheres, uma nova “categoria intermediária” também aparece no direcionamento dos produtos projetados, a “unissex”. Ela é empregada no projeto de embalagens para cosméticos, no qual se propõe cores para uma linha feminina: lilás, rosa, rosa bebê e amarelo; uma linha unissex: transparência total, azul, verde e uma linha masculina em madeira, vinho e grafite (MEINERT, SANTOS, 1989, p.77-78). As possibilidades que mostramos de diluir, ou neutralizar, as fronteiras entre “masculino” e “feminino”, entre o final da década de 1980 e início da década de 1990, são, no entanto, contrapostas por dois trabalhos dedicados ao projeto de produtos para banheiro em 1999 e 2000. O primeiro projeto, de acessórios para banheiro, propõe objetos com a função de “auxiliar na utilização de produtos cosméticos como gotas de banho, cremes e outros” que também podem ser decorativos. Esse produto é dividido em duas opções, a primeira, composta por seis peças: “três potes para conter refil com creme” com diferentes tamanhos, uma saboneteira e um “recipiente para conter objetos”; e a segunda composta por três: “um pote contendo tampa, corpo refil e base”, “uma saboneteira e um recipiente para conter objetos”. Nota-se que as diferenças entre os dois conjuntos se limitam à quantidade de peças e à descrição dos “potes”, pois no primeiro, o uso é direcionado para “cremes” enquanto na segunda opção o tipo de produto contido no refil não é descrito. Essa segunda opção é definida pela autora como “mais universalizada, abrangendo, inclusive, o público masculino” (CRACCO, 1999, p.1). Novamente percebemos que foi preciso estabelecer diferenças na forma ou uso para incluir o “público masculino” na compra/uso do produto que projetam. Em outro trabalho voltado aos produtos para banheiro, os autores observam a existência de banheiros separados para casais e, como resposta, propõem diferentes maneiras de configurar o produto a fim de se obter uma linha masculina e outra feminina: Além disso, temos em certas residências, a ocorrência de banheiros conjugados, onde casais tem banheiro separados, para este tipo de banheiros, utiliza-se do conceito formal que prevê vários estilos de cúpulas para as torneiras e demais peças, fazendo com que se possa satisfazer a ambas as partes do casal, tendo o uso de uma linha masculina e outra feminina (STIVAL; SOUZA FILHO, 2000 p.56). 12 Considerações finais A partir dessas concepções sobre as pessoas que interagem e/ou consomem os produtos projetados pelos futuros designers, foi possível compreender como gênero está vinculado às questões políticas, sociais e econômicas. Percebemos também as limitações de uma abordagem de gênero que só leva em conta as oposições entre masculino e feminino sem considerar o espaço entre esses pólos, no sentido em que os textos analisados mostram que há negociação dessas fronteiras - mesmo que não sejam completamente superadas - na história e no fluxo sócio-econômico. Devemos ainda deixar claro que nosso estudo se limitou à concepção e não ao uso dos artefatos, e que a forma como os produtos são configurados nem sempre condiciona ou determina como as pessoas irão utilizá-los. Referências AKRICH, Madeleine. Les utilisateurs, acteurs de l'innovation. Education Permanente, Arcueil: Education Permanente, n.134, 1998, p. 79-89. AKRICH, Madeleine. User representations: Practices, methods and sociology. In: RIP, Arie; MISA, Thomas J.; SCHOT, Johan (Eds.) Managing Technology in Society: The Approach of Constructive Technology Assessment. Pinter, 1995. ALMEIDA FILHO, Mário B. de. Jogo de Chá. 1989. 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