“É TRISTE NÃO SER BRANCO”: NOTAS SOBRE O DIÁLOGO ENTRE
INDIVÍDUO E SOCIEDADE NA OBRA DE LIMA BARRETO.
Alexandro Dantas Trindade1
Jules Ventura Silva2
RESUMO:
“É triste não ser branco” é uma expressão que encontramos no Diário Intimo (1900-1918) do
escritor mulato, Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922). Neste trabalho buscamos
apreender o significado da referida expressão a partir de um esforço empregado no sentido de
situar o lugar de escrita do seu autor, bem como de explorar a relação entre indivíduo e
sociedade tal como ela configura-se em sua obra. Esse diálogo não se resume a nota pessoal e
nem pode ser traduzido como simples expressão dos ressentimentos do escritor, pois está
intrinsecamente ligado a um projeto político/literário. O autor acreditava que o problema das
pessoas de seu nascimento não estava em sua carne, pele e ossos, mas na sociedade que era
coisa fora delas. Lima Barreto erigiu seu ideal de literatura militante contra o racismo
cientifico vigente no Brasil de 1870 a 1930. E a despeito das teorias que tomavam evidências
de um corpo negro como sinais de degenerescência física, psicológica e moral, defendeu que
a questão racial era, sobretudo, uma questão social e política. O social, nesse sentido,
emergindo em seus escritos, era ora metaforizado numa máquina, cujas engrenagens
esmagariam com sua trama intrincada de conceitos e preconceitos o individuo, ora descrito
com um olhar vesgo que distorce a sua autoimagem para diminuí-lo e desacreditá-lo. Com o
objetivo de evidenciar algumas facetas desse diálogo, exploramos alguns escritos de Barreto
que evidenciam a consciência social que o autor tinha do peso de seu pertencimento racial.
Esperamos com isso contribuir para a compreensão do drama vivenciado pelas pessoas negras
em uma sociedade cujas relações de poder são estruturadas também por diferenças raciais
históricas e socialmente produzidas.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura. Lima Barreto. Indivíduo. Sociedade. Pensamento Social.
Um lugar de escrita e um espaço de voz.
Fui a bordo ver a esquadra partir. Multidão. Contato pleno com meninas
aristocráticas. Na prancha, ao embarcar, a ninguém pediam convite; mas a mim
pediram. Aborreci-me. Encontrei Juca Floresta. Fiquei tomando cerveja na barca e
saltei. É triste não ser branco. (BARRETO, 1993, p.84).
O trecho acima transcrito fora extraído do Diário Íntimo (1900-1922) do escritor
mulato Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) e representa apenas uma nota do
1
Doutor em Ciências Humanas pela UNICAMP-SP, docente do Programa de Pós-Graduação do Departamento
de Ciência Política e Sociologia da Universidade Federal do Paraná (DECISO-UFPR) e membro do Núcleo de
Estudo Afro-Brasileiros da mesma instituição (NEAB-UFPR). [email protected]
2
Graduado em Ciências Sociais pela UFPR, aluno bolsista CAPES de mestrado do Programa de Pós-Graduação
em Sociologia da UFPR, tutor presencial do Curso de Especialização a Distância em Educação para as Relações
Étnico-Raciais oferecidas pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiro (ERER-EAD/NEAB-UFPR).
[email protected]
1
extenso, fragmentário e contundente testemunho que nos legou esse autor que, para usar as
palavras de Bosi (1995), vivera o “exílio na pele”. Chamando para si a tarefa, por vezes
dolorosa, de retratar o processo de marginalização que sofrera, dentre outras razões, por conta
de seu pertencimento étnico-racial, Lima Barreto transformara a si mesmo na causa principal
de sua literatura, mas tendo como horizonte o coletivo. (HIDALGO, 2008, p. 91-126) Isso
com uma sensibilidade e lucidez impressionante tanto a respeito dos condicionamentos sociais
que colaboraram para a sua tragédia individual, quanto do significado político e social de seu
esforço, realizado no sentido de escrutinar e, por esse caminho, denunciar os mobilis de seu
destino.
Concebendo o ofício de escritor como uma forma de militância, e a literatura como
uma missão, ele atribuíra ao artefato artístico uma função duplamente redentora ao mesmo
tempo individual e coletiva. Ao explorar o próprio caso, ele acreditava estar colaborando para
o reconhecimento da existência de um verdadeiro drama coletivo. Assim como esperava ser
reconhecido por tal demonstração de inteligência e coragem, que, na sua opinião, e a despeito
das críticas dirigidas aos seus escritos, atestavam o valor de sua literatura3.
Contudo, o que é preciso ter em vista para entender o caso do referido escritor é que
ele fora o primeiro intelectual a emergir no pós-abolição, como também fora o primeiro a
colocar em pauta os dilemas e contradições desse período de transição - entre um regime
escravocrata e patrimonialista para uma nova ordem de classe e “liberal” - da perspectiva das
“pessoas de cor” (GILENO, 1997). Isso, não do ponto de vista do recém-liberto, mas das
“pessoas de cor” livres que há muito já haviam constituído em uma classe acomodada dentro
da estrutura social escravocrata. Em alguns casos, ao ponto de chegarem a obter alguma de
ascensão social. Referimo-nos a pessoas mais ou menos negras, mulatas em geral, que, de
acordo com Freyre (2004), emergem como uma verdadeira potência social na segunda metade
do século XIX e que puderam traçar trajetórias diversificadas nessa sociedade, dentre outros
meios, por vias abertas pela instituição do apadrinhamento. (NEEDELL, 1993, p. 227)
Instituição essa por meio da qual as elites brasileiras incorporavam protegidos aos seus
3
O tom excessivamente autobiográfico da literatura barretiana, assim como, as deficiências de estilo e erros de
linguagem foram alvo de condenações por parte dos críticos de renome de sua época como, por exemplo, José
Veríssimo, Medeiros de Albuquerque e Veiga Miranda. Mas a verdade é que seu nome e obra entraram para a
história da literatura nacional sob a égide desconfiança, pois essas considerações reverberariam nas críticas
póstumas de sua obra. Sobre isso ler: FERREIRA, Luciana da Costa. Um personagem chamado Lima
Barreto. 2007. 147 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Letras, Departamento de Programa de Pós Graduação
em
Letras
da
Ufrj,
Ufrj,
Rio
de
Janeiro,
2007.
Disponível
em:
<http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/trabalhos/2007/lucianadacostaferreira_umpersonagem.pdf>. Acesso em: 24
maio 2014.
2
círculos sociais e, por conseguinte, à sua rede de prestações e contraprestações. Por vezes,
filhos inconfessos de senhores de escravos, alais, casos estes em que se enquadram os de João
Henriques de Lima Barreto e Amália Augusta Pereira de Carvalho - pais do escritor4.
Lima Barreto não só pertencia à categoria de pessoas que viram com alguma suspeita
o advento da República, como também partilhava dessa esperança, depositada na era pósabolição e pressentida como a abertura de novos tempos de total liberdade, onde todas as
barreiras entre os homens cairiam por terra5 (DOMINGUES, 2014). Mas, tanto sua vida,
quanto a obra que ele nos legaria, acabou por constituir um testemunho triste e contundente de
que as velhas barreiras não só ainda se fariam presentes, como se ergueriam novas. (GILENO,
1997; BOSI, 2002, NASCIMENTO, 2003) Com efeito, o que Lima Barreto acabaria
descobrindo na pele, e por caminhos dolorosos, é que os debates em torno da Abolição
promoveram, como uma de suas repercussões, a racialização das relações sociais: antes
fundadas predominantemente na diferença de status entre cativos e homens livres.
(ALBUQUERQUE, 2009) Processo esse que se fez, dentre outros caminhos, também pela
circulação das teorias racialistas de origem europeia (darwinismo social, evolucionismo
histórico, eugenismo, antropologia física e criminal) e que foram mobilizadas pela
intelligentsia brasileira, feito um paradigma de explicação da realidade nacional e, por
conseguinte, da construção de projetos de nação para o Brasil entre 1870 e 1930. (SKIMORE,
1976; ORTIZ, 2005; ALBUQUERQUE, 2009) Além de oferecem um horizonte de
cientificidade, a partir do qual a realidade nacional poderia ser interpretada e uma nação
poderia ser construída, ofereciam também uma resposta ao problema do estabelecimento, da
igualdade formal entre os indivíduos, com o advento da nova ordem. (GILENO, 1997;
SCHWARCZ, 2007)
Seja como for, a questão é que, enquanto filho homem e mais velho do casal de
mulatos João Henriques e Amália Augusta - ele tipógrafo de profissão e ela professora
pública -, Lima Barreto tornara-se o principal depositário dos investimentos familiares em um
4
De acordo com Barbosa (1964), biógrafo de Lima Barreto, João Henriques de Lima Barreto profissionalizarase como tipógrafo pelo Instituto Imperial Artístico, e, a partir do desempenho dessa profissão técnica, travara
contato com Afonso Celso de Assis Figueiredo (Visconde de Outro Preto), último chefe do gabinete liberal e
que, com o advento da república em 1890, partiu para o exílio. Seja como for, o fato é que esse líder político,
que conhecera o pai de Lima Barreto quando esse trabalhara n’A Tribuna Liberal – órgão de divulgação do
Partido Liberal, além de arrumar cargos para João Henriques, apadrinharia também seu filho e custearia parte de
seus estudos. Amália Augusta, por sua vez, era junto com seus irmãos, filha inconfessa de Manuel Feliciano,
patriarca da família Pereira de Carvalho, e que, apesar disso, recebera uma educação que lhe permitiria tornar-se
professora pública (nome que se dava as professoras de ensino primário).
5
Sobre as expectativas relacionadas à promulgação da Lei Áurea e os receios a respeito da proclamação da
República tal como eles foram experimentados pelo escritor ler: BARRETO, Afonso H. L. Maio. In: Um longo
sonho de Futuro: diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas. Rio de Janeiro: Graphia Editorial, 1993, p.
313-315.
3
projeto de ascensão social de seus membros pela via do letramento. (SILVA, 2013) Além de
ter tido, por intermédio dos laços de apadrinhamento que mantivera com Afonso Celso de
Assis Figueiredo- um político importante da época - condições de receber uma educação em
par de igualdade com a dos filhos da elite de seu tempo6. Isso o possibilitou a ingressar no
curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, e, vislumbrar assim, a
possibilidade de tornar-se doutor de sobrecasaca preta e anel no dedo. Projeto esse que
aderira por acreditar que a conquista de um título lhe permitiria gozar dos privilégios e
prerrogativas sociais destinadas aos portadores de um diploma de científico.
No entanto,
ao descobrir que essa conquista de fato não amaciaria o que certa vez ele chamaria de a
moléstia da cor, ele abandonou o projeto. (BARRETO,1956, p. 44) Tudo porque, ele viu
com tristeza e revolta recair sobre si, não só os estereótipos relacionados ao negro e ao mulato
proveniente da experiência escravocrata, como também aqueles advindos da circulação social
das teses racialistas. Isso significaria, em termos objetivos e coletivos, a imposição de um
obstáculo tácito à assimilação por parte das elites letradas e brancas da Primeira República
não só do referido escritor, mas também, das pessoas de sua mesma origem, na medida em
que, como bem observara Gileno (1997), acabava por atar o nosso liberalismo o preconceito
de cor.
Enquanto um alguém que almejava receber um tratamento compatível com o das
pessoas de sua mesma educação, Lima Barreto foi levado a reconhecer, no decorrer do
desenvolvimento de suas relações cotidianas, que “o que era verdade na (para) a raça branca
não era extensivo ao resto” (BARRETO, 1993, p. 26). Devido às situações de humilhação e
constrangimento que sofrera, acabaria sentindo-se como alguém que estava condenado a ser
tomado com pertencendo a uma classe/raça inferior de homens. Com efeito, são inúmeras as
passagens que ele nos relata, pela boca das máscaras ficcionais que utilizou, episódios de
discriminação racial que sofrera e aos quais estava suscetível, em razão mesmo de sua
6
Lima Barreto recebeu o nome de Afonso como uma homenagem por parte de seu pai, João Henriques de Lima
Barreto, morto em 1922, ao Visconde de Ouro Preto (1836-1912). Foi uma forma que João Henriques tinha de
transferir os laços de apadrinhamento que mantinha com o referido político e, desse modo, garantir sua proteção.
E foi o que de fato aconteceu, pois seu padrinho lhe garantiu os estudos secundários no Liceu Popular
Niteroiense e, já quando cursava o Engenharia Civil na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, veio-lhe em
socorro financeiro a pedido de seu pai, que desejava ver seu filho Doutor. Contudo, as relações com seu protetor,
embora mantidas com aparente deferência, não eram as mais amistosas em razão de ele não estar disposto a dar
continuidade ao regime de contraprestações que esse tipo de laço implicava. Podemos concluir isso por uma nota
que encontramos em seu Diário Íntimo (1900-1918) datada de 12 de Junho de 1903, onde ele comenta o auxílio
que recebera do padrinho dizendo “E os dez mil-réis do tal visconde! Idiota. Os protetores são os piores tiranos.
(BARRETO, 1993, p. 13).
4
sensibilidade cultivada nos bancos d’escola7. Essa sensibilidade que foi responsável por lhe
fazer desenvolver uma percepção de sua verdadeira condição social enquanto alguém fadado
a levar uma vida entre meio, e condenado a caminhar pelas ruas, bondes, cafés, teatros,
exilado em sua imagem/pele. Estava sujeito a causar, com sua presença, sentimentos de
repugnância, medo, piedade, desconforto e desconfiança8. Tudo porque ele era alvo de
práticas discriminatórias diretas ou indiretas informadas, dentre outras ideias, por aquelas que
compunham um imaginário social produzido pela circulação das teses racialistas.
Tais teses apregoavam a inferioridade natural do negro e do mulato com base em
“evidências científicas” e encontravam ampla repercussão em uma sociedade em pleno
processo de secularização. A elite mantinha os olhos e o coração voltados para conquistas
culturais, tecnológicas e materiais, alcançadas pelas sociedades norte-européias9, o que as
levavam a tomar como certas as teses que explicam a superioridade dessas conquistas
alcançadas pela raça branca. Por essa via, as razões de nosso atraso como consequência direta
de origem plurirracial, tida como resultante do encontro entre raças diferentes e desiguais, a
dizer: o índio, o negro e o branco. (ORTIZ, 2005) Fato que teve consequência direta sobre
esse escritor que não pode aceitar os anátemas e esconjuros construídos sobre um horizonte
7
A título de exemplo podemos mencionar uma passagem de Recordações do Escrivão Isaias Caminha (1909) em
que Isaias Caminha, após ser tomado como suspeito de um roubo e ser chamado de Mulatinho pelo delegado
responsável por apurar o ocorrido faz a seguinte confissão: “Não tenho pejo em confessar hoje que quando me
ouvi tratado assim, as lágrimas me vieram aos olhos. Eu saíra do colégio, vivera sempre num ambiente artificial
de consideração, de respeito, de atenções comigo; a minha sensibilidade, portanto, estava cultivada e tinha uma
delicadeza extrema que se ajuntava ao meu orgulho de inteligente e estudioso, para me dar não sei que exaltada
representação de mim mesmo, espécie de homem diferente do que era na realidade, ente superior e digno a quem
um epíteto daqueles feria como uma bofetada. Hoje, agora, depois não sei de quantos pontapés destes e outros
mais brutais, sou outro, insensível e cínico, mais forte talvez; aos meus olhos, porém, muito diminuído de mim
próprio, do meu primitivo ideal, caído dos meus sonhos, sujo, imperfeito, deformado, mutilado e lodoso. Não sei
a que me compare, não sei mesmo se poderia ter sido inteiriço até ao fim da vida; mas choro agora, choro hoje
quando me lembro que uma palavra desprezível dessas não me torna a fazer chorar. Entretanto, isso tudo é uma
questão de semântica: amanhã, dentro de um século, não terá mais significação injuriosa. Essa reflexão, porém,
não me confortava naquele tempo, porque sentia na baixeza do tratamento todo o desconhecimento das minhas
qualidades, o julgamento anterior da minha personalidade que não queriam ouvir, sentir e examinar. O que mais
me feriu, foi que ele partisse de um funcionário, de um representante do governo, da administração que devia ter
tão perfeitamente, como eu, a consciência jurídica dos meus direitos ao Brasil e como tal merecia dele um
tratamento respeitoso”. (BARRETO, 2003, p. 59-60)
8
Com efeito traduzira esses sentimento advindo das experiências muito próprias de sua condição ambivalente
enquanto um mulato letrado em um conto chamado Dentes Negros cabelos Azuis de 1920, presente em uma
ontologia organizada autor intitulada Histórias e Sonhos, e ao qual dedicaremos uma reflexão no próximo
subtítulo.
9
É preciso lembrar que no período de nossa história nacional que Needell (1993) denominou de Belle Époque
Tropical, o centro das atenções de nossas elites intelectuais e politicas eram os países norte europeus dos quais,
encantados pelo seu estágio de civilização, importávamos desde a moda até padrões de sociabilidade. Nesse
sentido tratava-se de um padrão de relação neocolonial onde ser brasileiro, diante do contrates entre as formas e
processos civilizatórios em questão, era pautado por um dimensão de tristeza advinda do sentimento de estar
exilado na própria terra. Sobre isso ler: Gilmar. Nação, tristeza e exotismo no Brasil da Belles Èpoque. Varia
HistÓria, Belo
Horizonte,
n.
24,
p.172-189,
jan.
2001.
Disponível
em:
<http://www.fafich.ufmg.br/varia/admin/pdfs/24p172.pdf>. Acesso em: 02 jun. 2014
5
cientificista e que tinham como objeto as pessoas de seu nascimento. (BARRETO, 1993,
p.18) E como alguém que se viu prejudicado por uma “ciência” que estava transformando, na
sua visão, o que antes era simples preconceito (religioso) em conceito (científico), Lima
Barreto erigiu sua obra como uma espécie de levante contra o que ele denominaria
ironicamente de “sociedade brilhante”, fazendo referência com esse termo à elite letrada e
arrivista de nossa Belle Époque Tropical10 e ao qual ele acusava de estar muito pronta a
aceitar as teorias racialistas levantadas pelos “sábios estrangeiros”11 (BARRETO, 1993,
p.71).
Com efeito, embora tenha mantido um diálogo do tipo acadêmico com os autores
racialistas, nacionais ou estrangeiros, Lima Barreto travou, no entanto, um diálogo íntimo e
sofisticado com o racismo científico12. A elite nacional, que reivindicava pra si uma
superioridade, uma brancura helênica e uma pureza racial, segundo o escritor, era desmentida
pela origem multirracial de muitos de seus membros13. São diversas as passagens em seus
escritos onde ele faz menção à tese do branqueamento14, da degenerescência do mestiço, da
incapacidade intelectual do negro; todas elas reproduzidas na boca de personagens que
O termo “sociedade brilhante” é empregado pelo escritor em, pelo menos dois momentos onde ele descreve os
tipos pertencentes à elite da Belle Époque Carioca, que frequentava os teatros luxuosos, cafés afamados, os
salões e cassinos. Lugares onde reproduziam padrões de sociabilidade importados das sociedades norte
europeias, principalmente a francesa. E implica um julgamento moral, que tinha como objeto um mundo
povoado por pessoas que tinham subido na vida por meios escusos e que lhe parecia hostil; por que o tomavam,
em razão de sua ascendência racial, na conta de inferior, mas em relação a qual, apesar de ter desejado pertencer
a elas, se julgava superior, mesmo “imaculado”(BARRETO, 1918, p. 177-188). Seja como for, a questão, que
não exclui a problemática referente ao ressentimento, é que Lima Barreto oferecia em contraposição ao estigma
de inferioridade racial que lhe fora imputado, uma superioridade moral em relação àquela sociedade a partir do
qual ele sentiu-se no direito e dever de julga-la ao expor suas mazelas e misérias.
11
Em uma nota de 1905, que encontramos em seu Diário Intimo, Lima Barreto, ao discorrer a respeito do perigo
representado pela circulação das teses racialistas e esboçar um contestação a respeito das provas científicas de
“superidades e inferioridades” (raciais), acusava a elite nacional de tomar como certo tudo que era dito pelas
autoridades estrangeiras (BARRETO, 1993, p. 1771-112). Embora não podemos, nesse momento de nossa
pesquisa, afirmar com a exata precisão de que a origem da crítica do escritor em relação a nossa “mania e
“estrangeirismo”, muito recorrente em seus escritos, que a ruptura com a sociedade de sua época seja, dentre
outras razões, advindas desse embate com as teses racialistas, podemos ao menos lançar essa hipótese que
consideramos perfeitamente plausível.
12
Com efeito, Heackel. Spencer, Taine, Gobineau, entre outros racialistas são amplamente mencionados nos
escritos de Lima Barreto, mas ele não se dedicara a construir detidamente nenhuma crítica a suas idéias com base
na leitura de sua obras.
13
Idem ao 10
14
Dentre esses episódios encontramos claras menções a tese do desaparecimento da população negra como, por
exemplo, na passagem em que um dos personagens Loc – critico literário e um dos personagens do Recordações
afirmava referindo-se a um mulato: “ - Essa gente está condenada a desaparecer; a ciência já lhes lavrou a
sentença...” (BARRETO, 2003, 57). Outra passagem interessante encontramos em Gonzaga de Sá, quando
Augusto Machado sentado ao lado de um homem “com um grande anel indicador no dedo”( referência ao seu
status de “doutor”) palestra para um jovem estudante que o ouve atentamente e, apontando para Machado – um
homem mulato, diz:” – Tem a capacidade mental, intelectual, limitada; a ciência já mostrou isso.( BARRETO,
1997, p.66).
10
6
afirmavam falar em nome da ciência, mas que, segundo ele, apenas a utilizam como um
“enfeite”. Isto é, feito mais um recurso no discurso de sua produção retórica15. Ele também
demonstra uma tentação sempre presente de não só colocar em desmentido tais teses, como a
de colocar em xeque a crença da certeza científica como um todo e, por extensão, a crença
naqueles que se apresentavam como homens da ciência, a dizer, o doutor positivista16. Essa
tentação o levou a realizar estudos filosóficos, onde encontrou caminhos para por sob
permanente dúvida a crença positivista na infabilidade ciência17. E, na literatura, a busca por
Sobre essa crítica a ciência utilizada como uma espécie de “enfeite”, isto é, como recurso retórico e não feito
uma prática, há um conto de Lima Barreto intitulado Agacarius Auditie ( Cogumelos Auditáveis) que
encontramos na ontologia de contos Histórias e Sonhos (1918), organizada pelo próprio autor. Nele o autor
narra a história de um acordo pré-nupcial realizado entre uma jovem doutor, Alexandre Ventura Soares e um
desembargador aposentado, pai de sua pretendente. Acontece que para casar com a filha do desembargador,
Soares tem que escrever uma memória na qual ele deveria narrar alguma de suas aventuras no campo da ciência.
Coisa que faz consultando livros, relacionando teorias e autores os mais incompatíveis, lançando mão do
discurso retórico e narrando a descoberta que faz de cogumelos que tinham a notável propriedade de crescerem
sobremodo ( mais de meio metro) com o estimulo da música que seu criado tocava.
16
O fato é que, dentre os personagens que configuram nas obras do referido escritor, nenhum é maior alvo de
suas críticas e ironias do que, para usar suas palavras, esse tipo zoológico e social que é o doutor. Sobre o sentido
dessa crítica há um artigo do autor, datado de maio de 1918, intitulado A Superstição do doutor onde ele faz uma
crítica ao “area de sagrado’ que a cultura local lhe emprestava, assim como, acusava-o de fundar de seu poder no
que, na verdade, ele provava não ter, a dizer, o saber. ( BARRETO, 1993, 324-325).
17
Há varias maneiras de demonstrar assertividade dessa afirmação, porém escolhemos lançar mão de mais uma
nota extensa que retiramos do romance do autor, inacabado e publicado postumamente, intitulado Cemitério dos
Vivos (1922) com. Nele o autor reconstrói ficcionalmente pela voz de Vicente Mascarenhas e com base no seu
Diário do Hospício (1920) as razões que o levaram aos domínios da loucura. Não por acaso ele começa
recapitulando as etapas de sua educação sentimental e intelectual e, por esse caminho, ela traz o dialogo que ele
mantinha desde sua adolescência com a tese da degenerescência: [...] era meu propósito ambicioso de menino
examinar a certeza da ciência e isto – vejam só os senhores – porque, lendo um dia, nos meus primeiros anos de
adolescência, uma defesa de júri, encontrei este período: “O réu, meus senhores, é um irresponsável. O peso da
tara paterna dominou todos os seus atos, durante toda a sua vida, dos quais o crime de que é acusado, não é mais
do que o resultado fatal. Seu pai era um alcoólico, rixento, mais de uma vez foi processado por ferimentos graves
e leves. O povo diz: tal pai, tal filho; a ciência moderna também.” Muito menino, sem instrução suficiente,
entretanto, semelhante aranzel me pareceu abstruso e sobretudo baldo de lógica e em desacordo com os fatos.
Conhecia filhos de alcoólicos, abstinentes; e abstinentes pais, com filhos alcoólicos. Demais, um vício que vem,
em geral, pelo hábito individual, como pode de tal forma impressionar o aparelho da geração, a não ser para
inutiliza-lo, até o ponto de determinar modificações transmissíveis pelas células próprias à fecundação? Por que
mecanismo iam essas modificações transformar-se em caracteres adquiridos e capazes de se constituírem em
herança? Não sabia responder isto e até hoje não sei responder, e ainda mais se me perguntava, nesse caso de
alcoólico: no ato da geração, dado que fosse a verdade essa sinistra teoria da herança de defeitos e vícios, o pai já
seria deveras um alcoólico que tivesse as suas células fecundantes suficientemente modificadas, igualmente, para
transmitir a sua desgraça ao filho virtual? Menino, pouco lido nessa cousa, como ainda hoje sou, a afirmação
daquele advogado de júri me pareceu menos certa do que se ele dissesse que um desvario, um mau gênio, tinha
feito o seu constituinte errar, pecar, roubar ou assassinar. É mais decente pôr a nossa ignorância no mistério, do
que querer mascará-la em explicações que a nossa lógica comum, quotidiana, de dia-a-dia, repele imediatamente,
e para as quais as justificações com argumentos de ordem especial não fazem mais do que embrulha-las,
obscurece-las a mais não poder. Sou, e hoje posso afirmar sem temor, sujeito a certas impressões duradouras,
tenazes, que me acodem todos os dias à lembrança, por estas ou aquelas circunstâncias aparentemente sem
relação com o fundo delas. Não sei nunca porque me ficaram e, as mais das vezes, não posso verificar o instante
em que elas me ficaram. [...] Tinha, entretanto, já treze anos de idade. Esse fraseado de advogado, que mais
acima citei, jamais me saiu da memória. De mim para mim pensei: se um simples bêbado pode gerar um
assassino; um quase-assassino (meu pai) bem é capaz de dar origem a um bandido (eu). Assustava-me a
revoltava-me. Seria possível que a ciência tal dissesse? Não era possível. Havia ali, por força, uma ilusão
científica, um exagero, senão uma verdadeira imperfeição; e o meu pensamento de menino foi estudá-la, mas
15
7
novas fórmulas de compreender a realidade e comunicar, dentre outras coisas, suas
apreensões em relação aos usos sociais que ele observava, com grande preocupação, serem
feitos da ciência18.
Enquanto mulato letrado com grandes aspirações intelectuais Lima Barreto chocara-se
profundamente em como o imaginário produzido pela difusão do racismo científico e, por
conseguinte, com a sociedade no qual essas ideias tinham lugar. Dentre as ideias racialistas,
aquela com a qual mais dialogou fora a tese da degenerescência do mestiço, em razão dessa,
por assim dizer,
lançar uma sombra terrificadora sobre seu destino. As teorias da
degenerescência racial afirmavam que o produto da miscigenação entre raças (branca, negra e
indígena), tomadas como diferentes e desiguais, daria origem a um tipo biologicamente
inferior e fadado a degenerar-se. Ou seja, a desenvolver comportamentos antissociais com o
alcoolismo, homossexualidade, loucura, criminalidade, feitiçaria19. E ele que, devido ao
choque com o ambiente hostil, acabaria desenvolvendo comportamentos aparentemente
contraditórios, uma acentuada misantropia que o levaria, junto com o sofrimento infringindo
pela discriminação racial, a encontrar no álcool um lenitivo e, a partir dele, a se aproximar dos
bem depressa, depois que a freqüência das prédicas positivistas deram-me, por negação, algumas vistas sobre as
bases metafísicas das ciências, planejei estuda-las, decompô-las e marcar o grau de exatidão dos seus métodos, a
sua conexão com o real, a deformação que ele trazia ao que passava de fato bruto para o dado na teoria
científica; havia de aquilatar a colaboração da fatalidade da nossa inteligência nas leis, na contingência delas as
idéias primeiras – todo um programa de alta filosofia, de alta lógica e metafísica eu esboçava nas voltas com o
cálculo de “pi”. Parecia-me que estávamos, quanto à experiência, ao método experimental, caindo nos mesmos
erros e exageros que os escolásticos medievais com os seus princípios aristotélicos, seus silogismos e outras
alusões e preconceitos lógicos, bem etiquetados, enfileirados e disciplinados. Sobretudo, no que tocava aos
confins da biologia e do que chamam sociologia ou estudos sociais, havia vícios insanáveis de pensar, e tudo o
que parecia indução, resultado de experiências honestas e conclusões de documentos que equivaliam, devia
merecer uma crítica rigorosa, não só dessas experiências e documentos, como também dos instrumentos de
observação e de exame – crítica que, neste e naquele ponto, já vinha sendo feita por espíritos mais leves, mais
ousados, libertos das tiranias da tradição das Academias e Universidades. (BARRETO, 1956c, 35)
18
No Diário Intimo do escritor, encontramos uma passagem onde ele discorre sobre o perigo da circulação das
teses racialistas, ao que ele denominara de “noções perigosas” que ele imaginava, no futuro, dar sentido para
perseguições as raças por menosprezadas. Mas o que é interessante nessa passagem é o tom pessoal que se
segue, o que faz valer a citação: Oh! A ciência! Eu era menino, tinha aquela idade, andava ao meio dos
preparatórios, quando li, na Revista Brasileira, os seus esconjuros, os seus anátemas... Falavam as autorizadas
penas do senhor Domício da Gama e Oliveira Lima... Eles me encheram de medo, de timidez, abateram-me; a
minha jovialidade nativa, a satisfação de viver nesse fantástico meio tropical, com quem tenho tantas afinidades,
ficou perturbada pelas mais degradantes sentenças. Desviei a corrente natural de minha vida, escondi-me em
mim mesmo e fiquei a sofrer para sempre. Mas, hoje! Hoje! Já posso alguma coisa e amanhã poderei mais e
mais. Não pararei nunca, não me deterei; nem a miséria, as perseguições, as descomposturas me deterão. Sacudi
para longe o fantasma do medo; sou forte, penso, tenho coragem... Nada! Nada! Nada! E que senti que a ciência
não é assim um cochicho de Deus aos homens da Europa sobre a misteriosa organização do mundo.
(BARRETO, 1993b, 71-72)
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A teoria da degenerescência do mulato encontra sua formulação mais acabada na obra de médico maranhense
Nina Rodrigues (1862 -1906); entretanto, ela alcançou ampla repercussão em áreas como a criminologia, a
medicina legal e a psiquiatria nas ultimas décadas do séc. XIX e começo do séc. XX.
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domínios da loucura. Barreto não podia admitir que sua vida fosse compreendida como a
realização de tal profecia racialista20.
Em razão disso, seus escritos parecem ter sempre no horizonte o imaginário racialista
de sua época, assim como uma tentação presente de explorar a sua própria miséria, que era no
fundo, a de sua sociedade. O escritor buscou lançar luzes sobre os condicionamentos sociais
que colaboraram para sua tragédia individual, intenção essa que percorre toda a sua obra
ficcional, desde a escrita de Recordações do Escrivão Isaias Caminha (1907), passando por
Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, como Que fim levou (1914) e Dentes negros cabelos
azuis (1918), até sua ultima obra inacabada e intitulada Cemitério dos Vivos (1922) - advinda
da sua experiência como interno de uma instituição asilar. No caso de Recordações – a obra
de estreia de Lima Barreto no mundo das letras é exemplar, pois, de acordo com o escritor, ele
tinha uma dupla função a cumprir. Retirar o autor do segmento dos incapazes que a nossa
antropologia oficiosa decretara e por outro, fazer ver aquilo que os simples fatos não dizem.
Ou seja, demonstrar que mesmo um rapaz como o Isaias (autor fictício do referido romance)
poderia falhar ao ser esmagado pelo preceito com seu cortejo de humilhações, não em razão
de suas disposições individuais, mas da sociedade que, segundo acreditava, era coisa fora
dele. (BARRETO, 1956a, p. 189-191)
Seja como for, o fato é que contra uma ciência e/ou sociedade que vi nos sinais de um
corpo negro estigmas de inferioridade e degenerescência racial, Lima Barreto erigia seu
projeto de literatura militante. De acordo com o escritor, a literatura tinha uma grande função
a cumprir em nossa sociedade, revelar as almas aparentemente diferentes umas as outras para
soldá-las ao construir entre elas laços de solidariedade. (BARRETO, 1956c, p. 55) A literatura
militante era aquela que tinha um escopo sociológico, isto é, que tratava da realidade social e
era orientada para a transformação da realidade ao abordar questões que importavam ao nosso
destino enquanto povo, raça, humanidade. (BARRETO, 1993, p. 384-395) Deste modo,
concebendo o artefato artístico como um instrumento de intervenção social e o ofício do
escritor como um sacerdócio, ele acreditava que deveria buscar todas as formas que
coubessem para comunicar seu pensamento acerca de determinada questão de interesse geral.
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Com efeito, há dois momentos cruciais na trajetória de Lima Barreto: o primeiro, relacionado ao
desencantamento das expectativas relacionadas a conquista de um titulo de ensino superior, processo que se
inicia aproximadamente em 1893 e se estende até 1903 quando abandona tal projeto para buscar construir uma
carreira de jornalista e escritor; o segundo, relacionada a sua malfadada estreia no mundo das letras, com a as
críticas e o processo de marginalização que sofrera por conta da edição de seu primeiro romance em 1909. O fato
é que essas duas desilusões o levariam da dandismo a boemia desregrada. Por conta de alucinações alcoólicas ele
seria internado por duas vezes em instituições para alienados, a primeira delas em 1914 e a segunda em 19191920.
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Dentre elas, aquela que para ele tratava-se de uma questão urgente, a dizer, a questão racial. E
uma das maneiras por ele encontrada de realizar tal ideal artístico fora tratando da questão
racial no Brasil de uma perspectiva, em que coloca o problema em termos da relação entre
indivíduo e sociedade e a partir das problemáticas referentes ao destino.
Por vezes, explorando o seu caso particular, mas buscando tatear questões
correspondentes a uma experiência que transcende a sua problemática individual por todos os
lados. Buscamos problematizar a maneira como a relação entre indivíduo e sociedade
configura-se em alguns de seus escritos. Para tanto, escolhemos as seguintes obras as quais
consideramos exemplares: Recordações do Escrivão Isaias Caminha, Vida e Morte de M. J.
Gonzaga de Sá e Dentes negros cabelos Azuis. Sem a intenção de reconstruir os enredos que
cada uma encerra, vamos apenas explorar a relação entre indivíduo e sociedade nelas
problematizadas a partir de sua dimensão dialógica e, como buscaremos demonstrar, tensa.
A maquinaria social e o esmagamento do “indivíduo de cor”.
Num relâmpago, passaram-me pelos olhos todas as misérias que me esperavam, a
minha irremediável derrota, a minha queda aos poucos — até onde? até onde? E
ficava assombrado que aquela gente não notasse o meu desespero, não sentisse a
minha angústia... Imbecis! pensei eu. Idiotas que vão pela vida sem examinar,
vivendo quase por obrigação, acorrentados às suas misérias como galerianos à
calceta! Gente miserável [...] Riem-se, enquanto do suor, da resignação de vocês,
das privações de todos tiram ócios de nababo e uma vida de sultão... Veio-me um
assomo de ódio, de raiva má, assassina e destruidora; um baixo desejo de matar, de
matar muita gente, para ter assim o critério da minha existência de fato. Depois
dessa violenta sensação na minha natureza, invadiu-me uma grande covardia e um
pavor sem nome: fiquei amendrontado em face das cordas, das roldanas, dos
contrapesos da sociedade; senti-os por toda a parte, graduando os meus atos,
anulando os meus esforços; senti-os insuperáveis e destinados a esmagar-me,
reduzir-me ao mínimo, a achatar-me completamente... (BARRETO, 2003, p. 55).
Lima Barreto encontrara diversificadas formas de representar o social em suas obras,
assim como, também variadas são as maneiras pelas quais ele buscou descrever, por assim
dizer, suas manifestações de força. Contudo, aquela que acreditamos ser a forma mais
representativa de sua percepção acerca da dinâmica que o caracteriza, é aquela em que ele
refere-se ao social como uma espécie de maquinaria, cujas engrenagens têm o notável poder
de graduar os atos individuais. Tal representação, aparece no romance Recordações do
Escrivão Isaias Caminha (1909), uma obra que segundo o escritor, tinha por objetivo
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apresentar um caso de desmoralização envolvendo um mulato e na qual teria impressos os
seus mais tristes pensamentos (BARRETO, 1993, p. 241). Objetivava traduzir o
reconhecimento por parte do escritor de um poder que embora se fizesse sentir através das
palavras, dos gestos, dos olhares. Tratava-se no entanto, de um poder impessoal.
Isso porque se constituíam em ideias que compunham um imaginário a respeito das
pessoas do nascimento e que informavam as práticas discriminatórias das quais ele se tornara
objeto. Além disso, encontravam adeptos nas mais diversas camadas da sociedade (portanto,
fazendo referência a ideias que tinham ampla circulação), razão pela qual o indivíduo não
poderia levantar-se contra esse poder sem que esse levante tomasse a sociedade como um
todo. Ainda que, nos casos que iremos explorar, esse indivíduo sobre qual tal poder impessoal
recai, tende, como demonstraremos abaixo, a revoltar-se contra parte letrada/ branca dela.
Outra característica importante desse poder cuja metáfora em questão faz referência, é
que ele se fazer sentir pela coerção que promove - essa sensação de esmagamento do qual fala
o escrito-, bem como, pelos seus efeitos objetivos, como a redução das chances de existência
e, por conseguinte, das expectativas de vida do indivíduo, na medida em que, tem por efeito
graduar os atos individuais. Isto é, diminuir o alcance das ações individuais, ou ainda,
degradar os impulsos que as orientam. Nesse sentido, trata-se de um poder que além de
impessoal é também perverso, pelo fato de não tem por efeito promover o indivíduo e sim
coagí-lo a ocupar um lugar de subalternidade dentro da estrutura social que ele encerra. Isso
tende a retirar desse indivíduo qualquer pretensão a oferecer resistência. Razão pela qual a
tomada de consciência de sua existência e de sua magnitude só pode produzir revolta,
terrificação e impotência, principalmente no caso de indivíduos tal como eram Isaias
Caminha, autor fictício dos “livros de memórias” homônimo, que encontra-se numa situação
de fragilidade social. Em suas palavras: desprovido de tudo, de família, de afetos, de
simpatias, de fortuna, isolado contra os inimigos que o rodeiam, armados da bala e da insídia
do veneno. (BARRETO, 2003, p. 19)
Indivíduo esse que não é qualquer um, mas um “indivíduo de cor” como o é Isaias
Caminha, Augusto Machado, Gabriel – o homem de dentes e negros azuis, dentre outros
personagens que configuram nos romance barretianos e cujas trajetórias são marcadas por
uma dimensão trágica. O reconhecimento de que sua condição social enquanto “pessoas de
cor” acaba por colaborar de alguma forma para seu desmerecimento pessoal e, deste modo,
para impor-lhes uma triste existência e um fim trágico.
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Seja como for, o fato é que esse indivíduo, tal como colocado por Lima Barreto, não
pode oferecer grande resistência à sociedade da qual sairá, em razão mesmo de não ter
grandes e poderosos vínculos sociais que lhe pudessem dar qualquer segurança ou poder de
ação. Por conseguinte, por estar destituído de uma posição a partir do qual pudesse exercer
controle ou influência efetiva sobre seu próprio destino, quanto mais, da sociedade como um
todo. Seja como for, o fato é que, por conta dessas relações de forças desproporcionais, esses
indivíduos na medida em que não podiam encontrar meios de concretizar num levante contra
a “inimigo” que lhes feria mortalmente - nas palavras de Gabriel, enfiando-lhe alfinetes na
alma - quase que só podiam dar vazão aos seus ressentimentos na forma de um lirismo
monológico: por meio dos quais eles expressavam a solidão, a melancolia e a revolta de quem
se via subjugado antecipadamente e, quando não eternamente preteridos, condenados a uma
posição subalterna e a viver uma vida incompatível com suas aspirações.
Como exemplo, podemos citar o caso do amanuense mulato Augusto Machado, autor
(fictício) de uma obra que se pretendia ser uma biografia de seu amigo e herói Gonzaga de Sá
– amanuense da secretária de cultos, mas na qual acabou imprimindo muito de sua pessoa.
Machado sentia-se parte de uma intelectualidade que encontrara no serviço público alguma
segurança material, e nos cafés um espaço onde podiam desenvolver, entre o enfado da
repartição e as agruras dos lares difíceis, palestras animadas a respeito de grandiosos temas de
interesse social. Embora circulasse com alguma desenvoltura em diversos espaços sociais,
sentia bem a sua condição particular de intelectual mulato. Em razão de sua ascendência
racial, era constantemente tomado na conta de inferior e sem condições de ocupar um lugar
que lhe pudesse devolver em iguais proporções a dado infringido. Sentia-se inclinado a optar
por várias possibilidades de existência: por um lado, impulsionado a entregar-se a uma vida
vulgar e sem maiores aspirações. Por outro, uma tentação de levar a cabo um verdadeiro
levante contra aquela sociedade que encontrava na ciência a certeza de sua incapacidade
intelectual. Por fim, amedrontado pelos sacrifícios e humilhações que antecipava, era levado a
crer que o mais certo era resignar-se e se contentar com uma vida resignada e dedicada apenas
ao refinamento desinteressado do conhecimento.
A narrativa que Machado nos lega é toda ela marcada pelas oscilações de sua
consciência que, por sua vez, desloca-se em torno das possibilidades acima descritas. O que a
torna demasiadamente cerebrina, como bem classificara Lima Barreto – o autor real.
(BARRETO, 1956a, p. 169) Mas o que é interessante na narrativa que nos fora deixada por
Machado, é que esse deslocamento é impulsionado por sentimentos suscitados pela
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experiência vivida. Ou seja, a consciência é promovida não pelo descolamento da razão, mas
pelo que o indivíduo vai encontrando no circuito social que percorre, motivos para se
problematizar enquanto pessoa. Enquanto alguém enredado por outros indivíduos de várias
categorias sociais que lhe parecem indiferentes ou ignorantes das questões que lhe tumultuam
o espírito. Fato que lhe gera desde revolta, quando tem em mente a elite letrada e arrivista
carioca, até compaixão, quando o caso é pensar nas massas cujo destino lhe parecia ser o de
carregar o peso da vida montada por aquela ”sociedade brilhante”, para que essa pudesse
gozar de seus privilégios. A questão é que Machado se considerava diferente daquela
sociedade que via celebrar suas vitórias nos teatros, embora também seduzido por ela, não só
porque acreditava-se moralmente superior a ela, como também, intelectualmente. Por isso ele
se sentia, num momento, tentado a levantar-se contra seu poder, para no outro, amedrontar-se
diante dele.
Uma passagem em que Machado projeta sua consciência sobre Aleixo Manuel, um
menino negro que receberia uma educação por conta dos esforços de seus padrinhos, para
adivinhar-lhe o destino; é bastante ilustrativa do que vamos tentando colocar. Nela Machado
explicita, como base no seu próprio caso, o que a vida reserva para aquele menino a quem ele
reconhecia ter uma inteligência extraordinária:
Que seria dele, por ai pela vida? Sob a ascendência do padrinho, estudaria muito,
aplicar-se-ia aos livros. Durante anos no ambiente falso dos colégios e escolas, a sua
situação na vida não se lhe representaria perfeitamente. Viriam os anos, e anciã que
o estudo dá; viria o mundo social, com a sua trama de conceitos e preconceitos,
justos e injustos, bons e maus – trama unida e espinhenta, contra a qual sua alma ira
se chocar. Era então a dor, as loucas fugidias pela fantasia... Era o doloroso
peregrinar com o opróbio á mostra, á vida de todos, sujeito á irrisão do condutor do
bonde e do ministro plenipotenciário... Era sempre, nos cafés, nas ruas, nos teatros,
andando vinte metros na frente um batedor que avisava da sua presença e fazia que
se preparassem as malícias, os olhares vesgos ou idiotas.... Coitado! Nem o estudo
lhe valeria, nem os livros, nem o valor, porque, quando o olhassem dirão lá para os
infalíveis, aquilo lá pode saber nada! (BARRETO, 1997, p.74)
O que o caso Machado aponta é para o drama do indivíduo que, independente de força
de vontade demonstrada e das qualidades morais e individuais que provara ter, encontrava-se
sempre numa posição a partir da qual não pode se constituir enquanto sujeito absoluto de seu
destino. Ao contrario, é quase sempre levado pelo redemoinho da vida (social), obrigado a
abandonar as suas grandes aspirações e, por conta disso, condenado a viver uma vida entre
meio, sem pertencer ao certo a nenhum mundo e aprisionado por limites tácitos e
intransponíveis dos quais, por vezes, só toma consciência tardiamente. Nesse sentido, o caso
de Isaias Caminha, autor fictício do romance barretiano homônimo, é exemplar, pois narra a
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história de um jovem mulato que, a despeito dos intempéries de sua vida, conseguira alguma
ascensão social. Mas, no entanto, continuaria sofrer por sentir bem o caráter falso de posição.
Ele que recebera, devido aos esforços familiares, uma educação superior às suas condições
tendo cultivado sua sensibilidade, e que se fizera um homem do mundo - sabendo jogar,
vestir-se bem, falar às mulheres, acabava, nas suas próprias palavras, sentindo as nuvens
começarem a invadir sua alma. (BARRETO, 2003, p. 163) Isso ao perceber a sua exceção
naquele mundo ao qual desejava pertencer, a dizer: o mundo das pessoas letradas.
Isaias verificava em suas relações cotidianas que para a gente mais ou menos letradas
do Brasil, os homens e as mulheres do seu nascimento eram todos iguais. “Os homens [...] uns
malandros, pianistas, parlapatões quando aprendem alguma coisa, fósforos dos politicões; as
mulheres (a noção aí é mais simples) [...] naturalmente fêmeas” (BARRETO, 2003, p. 158).
E embora alimentasse uma revolta, por vezes, sopitada por tais considerações e a ponto de
fazê-lo explodir, tivera que se submeter a uma disciplina humilhante, apesar de sofrer por
conta da consideração especial que lhe era destinada (consideração especial por quem?). Isto
para não colocar em xeque a posição social que alcançara depois de, inclusive, de ter sido
levado às franjas da substância, passando longos períodos de fome e sem forças para lutar
contra algo que era maior que ele. Isaias só tardiamente se daria conta de que a promessa da
assimilação social que lhe fora feita era, na verdade, um bilhete falso de entrada para o mundo
dos brancos. Pois acabara se reconhecendo como alguém que havia abandonado seus ideais de
juventude para tornar-se um arrivista e egoísta, escalando na pirâmide social não por mérito
próprio, mas por ser conivente com uma sociedade que lhe humilhara ao ponto de lhe tirar o
gosto pela vida.
Sociedade essa que lhe incutira a vergonha de sua origem humilde, que o fizera tornarse indiferente ao destino de pobre mãe (negra) e dos outros parentes dela, e que o fizera aderir
um projeto de branqueamento com vistas a sustentar a sua projeção social, feita pela via da
subalternidade. Sociedade essa composta por homens das letras, da ciência, políticos,
jornalistas, estudantes, burgueses e doutores de variadas ordens que se demonstravam
indiferentes à sua sensibilidade, ao seu destino como parte daquela gente que ela considerava
condenada a desaparecer de acordo com o imaginário eugenista da época. Enfim, uma
sociedade muito pronta a acreditar que o problema das pessoas de seu nascimento estavam em
sua carne, pele e ossos. Isto é, em sua raça, cuja presença em espaços civilizados e frente aos
visitantes estrangeiros, lhe causavam constrangimento. Mas que apesar de tudo, primeiro pela
submissão e depois pela sedução lhe fizera se encantar com seu brilho falso, com sua vida
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mundana e com os privilégios e prerrogativas que ele, sob a sua sombra tutelar, poderia gozar;
tudo isso fazendo o acreditar que a conquistas delas seriam também as suas.
Porém, Isaias só chega a tomar consciência do poder que fora exercido sobre sua
pessoa após desvincular-se daquela sociedade ao cavar uma posição como escrivão de uma
coletoria esquecida.
Com efeito, é só partir desse lugar que ele tem condições perceber o seu triste destino,
de vivenciar a solidão de sua situação de exilar e de repassar os fatos de sua vida, que nesse
momento lhe parecia destituída de sentido, lamentando porque a humanidade perdera a
capacidade de saber ler nas estrelas o seu destino. Mas que se constitui também em um lugar
a partir do qual é possível ele erigir seu projeto de reconstituir as etapas de sua educação
sentimental e intelectual, com a intenção de explorar o processo de desmoralização que sofreu
em razão das situações de humilhação e constrangimento que vivenciara em razão de sua
visível ascendência racial.
Encontrou forças de reviver experiências dolorosas, bem como coragem de expor
“sem reservas e nem perífrases” suas fraquezas, dores, desilusões, nas suas palavras tal como
uma mulher pública cuja intimidade é publicitada. Na crença de que seu esforço servisse para
que, em vistas do seu caso, pudesse modificar a opinião dos seus concidadãos para “obrigálos a pensar de outro modo; a não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos que tinha há dez anos passados”.
Por fim, podemos explorar ainda o drama de Gabriel – o home de dentes negros e
cabelos azuis -, que, embora quisesse ser apenas um homem normal e gozar da consideração
comum das pessoas de sua condição, compreendia que não seria possível alcançá-la e sofria.
Isso pelo fato de em todas as relações que travava e nas mais diversas situações, até as mais
inusitadas como a de ser tomado em assalto, ele era sempre lembrado como “aquele de dentes
negros e cabelos azuis” Isso concorria sempre e de alguma forma para seu desmerecimento.
Portanto, a problemática existencial que o absorvia, a razão do sentimento de profunda
incompatibilidade com o meio social de onde sairia, dizia respeito a uma relação tensa entre
essência e aparência. Sentindo uma profunda tristeza devido à condição ao qual estava
relegado e angustiado por não saber traduzi-las, Gabriel buscava apaziguar seu espírito,
oscilando entre o desejo de plenitude, conquistada com a realização de um ideal de liberdade
que, no entanto, não se materializava, e a entrega à satisfação momentânea encontrada em
uma vida mundana. Em razão dessa oscilação de seu espírito, Gabriel acabara desenvolvendo
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uma personalidade complexa e cheia de aspectos contraditórios que Lima Barreto, que se diz
no referido conto apenas um amigo desse personagem-autor, nos esforça para descrever:
Sua natureza era assim, dual, bifronte, sendo que os seus aspectos, por vezes,
chocavam-se, guerreavam-se sem nunca se colarem, sem nunca se justaporem,
dando a crer que havia entre as duas partes um vazio, uma falha a preencher, que à
sua união se opunha um forte obstáculo mecânico... Esta maneira biface de sua
organização, a sua sensibilidade muito pronta e uma tentação delirante, para as
satisfações materiais, tinham transformado a sua vida num acúmulo de desastres;
pelo que, em decorrer dela, de todo se lhe fora aquela película céptica, faceta, gaiata,
ficando-lhe mais evidente a alegria e o sainete do filósofo pessimista, irônico,
debicando a mentira por ter conhecimento da verdade, que é uma das povoadoras da
imagem sem validade que é o mundo. (BARRTO, 2002, p.80)
A questão é que Gabriel lamentava pelo caráter trágico de sua triste existência, ao
mesmo tempo em que não encontrava meios de dar vazão ao profundo sentimento de
inconformismo que o exasperava. Desenraizado, isto é, sem conseguir se envolver de modo
profundo em qualquer relação social, pelo fato de ter sua inferioridade decretada a priori, ele
seguia pelas ruas sem destino, procurando nas pequeninas coisas do mundo a felicidade que
lhe faltava na sua vida, para se desvincular por um breve momento dos pensamentos que
tumultuavam seus sentimentos. Entretanto, o que sua alma procurava era um meio de fazer
dissipar sua melancolia e ele acreditava conseguir fazer isso caso se tornar-se capaz traduzir
suas inquietações por meio de uma grande obra. A verdade é que o mundo social deixará de
ter sentido pra ele, pois acreditava ter tido acesso a um conhecimento negado às pessoas
comuns, todas elas crentes de que a verdade sobre os homens e as coisas estava ali,
prontamente acessível às inteligências mais medíocres. Em razão disso, e por não encontrar
meios de traduzir sua descoberta, concebia o mundo como uma “imagem sem validade” e
tornara-se “irônico”, “pessimista” e “queixoso”, confiante da assertividade de suas
conclusões, mas consciente da banalidade de suas pretensões filosóficas e reformistas diante
do imperativo social.
Daí a fuga constante, a imaginação e a busca da verdade de nossa existência nas
“pequeninas coisas do mundo”, nos objetos intocados pelos homens e, portanto, livres da
tirania por eles exercida ao afirmarem conhecer a lógica que oculta e que as anima. Incapaz de
se deixar imergir por completo pelo social, pois se via injustiçado pela trama de preconceitos
tão caros ao comum dos homens, ele imaginava ser a mais amaldiçoada das criaturas,
condenado a sofrer solitariamente e martirizado pela consciência de sua condição. Entretanto,
seu desespero maior advinha da impossibilidade de se desvincular definitivamente das noções
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que o feriam, pois a realidade de sua condição lhe era lembrada nos momentos mais
inesperados, quando acreditava ter conseguido, nem que fosse por um momento apenas, lhes
apagar da mente:
Se, em dia claro e azulado, continuei, vou por entre árvores, crendo-me só, e feliz, o
miserável rafeiro que passa deixa a inexorável busca do osso descarnado, para olhar
as caretas do símio em que me desdobro, e ri-se de mim, meio espantado, mas
satisfeito. Então, como por encanto o caminho se povoa. Há por toda parte
zumbidos, alaridos, risotas. Do farfalho das árvores ouço: Olá, tingiste a cabeça no
céu; mas onde enlameaste a boca? Os seixos rolam, crepitam, e na sua vileza não
escolhes palavras, não ensaiam deboches, gritam: monstrengo, vergonha da terra.
[...]mas palmilho tais lugares escravo do meu gênio, servo dos meus sentidos, que
são inimigos do meu corpo; posso fugir deles, mas muito me custa seguir o curso
imperioso dos meus nervos. Não sei... Não sei... Eu devia fugir, desaparecer, pois
mal ando passos, mal me esgueiro numa travessa, das gelosias, dos mendigos, dos
cocheiros, da gente mais vil e da mais alta, só uma cousa ouço: lá vai o homem de
cabelos azuis, o homem de dentes negros... É um suplício! Tudo se apaga em mim.
Isso unicamente brilha. Se um amigo quer referir-se a mim em conversa de outros,
diz: aquele, aquele dos dentes negros... Os meus sonhos, as minhas leituras, são
povoados pelos momos do símio. Se escrevo e faltam sílabas nas palavras, se estudo
e não compreendo logo, o sagüi salta-me na frente dizendo com escárnio:— fui eu
que a "cumi", fui eu que não te deixei compreender... (BARRETO, 2002, 81)
Sem ser capaz de traduzir essa triste condição de forma habitual, pois percebia que
talvez isso implicasse em ter de demonstrar algo que só era percebido por ele, Gabriel lança
mão de um artifício literário: constrói um personagem portador de qualidades tão
extraordinárias que saltam aos olhos de todos. Para falar do seu próprio caso, Gabriel cria
então um ser fantástico que possuía atributos anormais, a dizer, dentes negros e cabelos azuis,
estereótipos esses que poderiam ser traduzidos, sem prejuízo de compreensão, por pele negra
e cabelos crespos. O que Gabriel se esforça por traduzir através do pequeno texto que criara é
o que era afinal ser um negro ou mulato intelectual nessa época e ter de conviver sob o peso
do estigma de pertencer a uma raça considerada inferior, apesar de se considerar intimamente
um homem igual a qualquer outro.
Impedido de ter uma aceitação social plena, em razão dos estereótipos que apresentava
isto é em função de ter uma cor e do que isso significava neste contexto ideológico, Gabriel
travava uma luta solitária contra as concepções comuns acerca de sua natureza e também
contra a influência delas em seu espírito. Luta da qual não podia fugir por mais que tentasse,
uma vez que, tal associação, entre estereótipos e os significados sociais que eles encerravam,
lhe surgia de forma sentenciosa nos momentos mais inesperados. Mesmo quando se
encontrava sozinho, com seus pensamentos na forma de um escárnio interior, quando a
violência da qual era vítima se traduzia em auto-depreciação:
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Ah! Como és mau estratego! Não percebes que não me é dado oferecer batalha; que
sou como um exército que tem sempre um flanco aberto ao inimigo? A derrota é
fatal. Se ainda me houvesse curvado ao estatuído, podia... Agora...não posso mais.
No entanto tenho que ir na vida pela senda estreita da prudência e da humildade, não
me afastarei dela uma linha, porque à direita há os espeques dos imbecis, e à
esquerda, a mó da sabedoria mandarinata ameaça triturar-me. Tenho que avançar
como um acrobata no arame. Inclino-me daqui; inclino-me dali; e em tomo recebo a
carícia do ilimitado, do vago, do imenso Se a corda estremece acovardo-me logo, o
ponto de mira me surge recordado pelo berreiro que vem de baixo, em redor aos
gritos: homem de cabelos azuis, monstro, neurastênico. E entre todos os gritos soa
mais alto o de um senhor de cartola, parece oco, assemelhando-se a um grande
corvo, não voa, anda chumbado à terra, segue um trilho certo cravado ao solo com
firmeza — esse berra alto, muito alto: "Posso lhe afirmar que é um degenerado, um
inferior, as modificações que ele apresenta correspondem a diferenças bastardas,
desprezíveis de estrutura física; vinte mil sábios alemães, ingleses, belgas, afirmam e
sustentam"... Assim vivo. E como se todo dia, delicadamente, de forma a não
interessar os órgãos nobres da vida, me fossem enterrando alfinetes, um a um
aumentando cada manhã que viesse... Até quando será? Até quando? fiz eu
exuberante. (BARRETO, 2002, p.83).
Para uma conclusão
Acima buscamos trazer alguns aspectos das relações entre indivíduo e sociedade tal
como ela aparece em algumas obras de Lima Barreto, buscando demonstrar como nessa
relação o social emerge na consciência do indivíduo como um poder impessoal, imperativo e
perverso. E contra o qual, o indivíduo, destituído de um lugar de poder, não poderia oferecer
outra forma de resistência se não aquela que se faz por meio da escrita. Por isso tal exercício
de escrita é eminentemente reflexivo: como se o que move a pena, por assim dizer, fosse
pensado no momento mesmo em que essa é posta em movimento. O que implicou em trazer a
relação entre indivíduo e sociedade, tal como ele se configura, nesse caso, pela tensão que lhe
é inerente, a partir de sua dimensão dialógica. Tensão essa que só em uma de suas dimensões
é pessoal, pois o transcende a questão individual por todos os lados.
A relação entre indivíduo e sociedade tal como pintada pelo autor, não só é realizada
sem um aporte de uma teoria social, como se encontra comprometida com o lugar a partir do
qual ela é colocada e com o sentido que ela busca atender. Lugar e sentido que nos
esforçamos para tornar evidentes acima, mas que representa um esforço digno de nota, ou
ainda, de ser notado, de alguém que desenvolveu uma consciência possível, acerca de sua
condição social. E cuja visão, embora comprometida pela posição a partir do qual essa
realidade social é iluminada, não deixa de ser, no entanto, uma possibilidade de vislumbrar o
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social no que tange o seu caráter imperativo, e a desigualdade racial no que ela tem de mais
trágica.
Depois de situarmos o lugar a partir do qual emerge a escrita barretiana, bem como
trazer a tona algumas das dimensões sócio-existenciais que ela problematiza, a expressão que
nos serve de título desse trabalho está então em condições de ser compreendia. “É triste não
ser branco” longe de significar um grito melancólico de um homem mulato, que desejava ser
branco para gozar dos privilégios sociais que a condição de brancura permite, ela constituiuse num percepção sóbria, sem deixar de ser melancólica, de sua condição enquanto “homem
de cor” numa sociedade arraigadamente racista. Nesse sentido é que ela adquiriu o caráter de
um testemunho contundente e realizado por um “homem de cor” que teve condições de
vislumbrar o social de seu lugar. E cuja narrativa que nos legou desse lugar fala de si, mas
também de todo um contingente de pessoas para o qual o liberalismo, atado ao preconceito de
cor, não tem condições de realizar a sua promessa de “igualar” os homens para hierarquiza-los
de acordo e exclusivamente per suas capacidades ou qualidades individuais.
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“É TRISTE NÃO SER BRANCO”: NOTAS SOBRE O DIÁLOGO