Crítica Modernista e Urbanismo:
Geraldo Ferraz em São Paulo, da Semana a Brasília
José Tavares Correia de Lira1
Deve ser enorme o vínculo de origem dos jornais face a cidade tal a recorrência do
discurso sobre a urbanização, os problemas urbanos e o urbanismo na imprensa. De fato,
desde meados do século XIX, neles tornou-se comum a presença de um espaço específico para
as notícias urbanas, as coisas da cidade, as manifestações e debates em torno das iniciativas de
melhoramento e reforma. Espaço que atravessaria o século XX e o processo de especialização
dos meios de comunicação, a temática urbanística continuaria a permear as pautas das
redações. Por certo, esta tendência repercute a relevância do assunto no dia a dia dos
habitantes destas cidades que, ao menos no Brasil como se sabe, a partir de 1840 pouco antes
ou depois, teriam as suas instalações e traçados, a sua fisionomia e imagens profundamente
modificados pelos inúmeros trabalhos de aformoseamento, higienização ou saneamento, obras
públicas e de melhoramentos urbanos, pelas demolições e reformas, pela implantação de
redes, sistemas, planos e projetos que ano após ano se sobrepunham uns aos outros.
Repercussão em massa de operações de vulto que visavam precisamente a conversão destes
meios locais em espaços integrados aos novos circuitos técnicos e sociais da produção em
massa.
Muito deste processo pode ser apreendido percorrendo-se as páginas de muitos de
nossos jornais. De um Correio Paulistano, na São Paulo de João Theodoro Xavier de Matos
ou de Menotti del Picchia; de um Correio Mercantil de Manuel Antônio de Almeida, em um
Jornal do Commercio de Pereira Passos, no Rio de Janeiro; de um Diário de Pernambuco, na
Recife de Gilberto Freyre ou Mário Melo, em toda parte a imprensa faria ressoar as
transformações de paisagens, os seus efeitos sobre o cotidiano dos citadinos, as novas
representações que estas cidades em modernização suscitavam. Neles doravante
encontraríamos as esferas fundamentais da vida pública letrada, redes de sociabilidade
articuladas pela informação de relevância comum em difusão, instâncias de popularização,
vulgarização, publicidade e legitimidade de quase tudo o que dizia respeito ao urbano. Na
imprensa, com efeito, ora empenhavam-se projetos de civilização e constituição de públicos
aptos ao uso das informações, ora amplificavam-se interesses de mercado e arenas de
consumo; ora refinavam-se discursos e opiniões, ora oficializavam-se as representações e as
ações sobre a cidade.
Por diversos caminhos, a pesquisa recente em história da cidade e do urbanismo vem
abrindo possibilidade instigantes para o estudo do papel desempenhado pelos jornais neste
processo. Na maior parte das vezes, como campo de embates e discussões em torno da
urbanização e do planejamento2, mas também como meios de reivindicação ou de
1
FAU-USP. E-mail: [email protected]
Por exemplo D.C. Stuckenbruck, O Rio de Janeiro em Questão: o Plano Agache e o ideário reformista dos
anos 20, Rio de Janeiro, IPPUR/FASE, 1996.
2
comunicação entre esferas distintas da sociedade, e até como espaço de expressão e defesa de
um ponto de vista popular ou cidadão3. Já se notou até mesmo a presença histórica dos
jornalistas no interior de instâncias técnico-políticas da planificação e urbanismo4. Contudo, se
alguns estudos vem mostrando o papel do discurso leigo, da crônica ou da crítica de jornal por
exemplo, sobretudo de matriz modernista5, como discurso influente nas esferas de
competência e especialização, o espaço social e cultural da imprensa no estudo da cidade e do
urbanismo revela-se um filão ainda por explorar6.
O que dizer da imprensa como espaço relevante de atuação crítica com relação ao
urbanismo? Salvo engano, não há no Brasil um único trabalho que tenha enfrentado
diretamente o movimento de constituição e especialização entre nós de uma crítica de
urbanismo. É neste sentido que esta comunicação visa contribuir para o entendimento da
formação, funcionamento e efeitos de uma crítica de urbanismo no Brasil, ou ao menos de um
momento no qual a crítica (literária, de arte ou arquitetura) foi levada a se defrontar com os
problemas da cidade e com as técnicas e ideários nascidos para resolvê-los. Mais
especificamente, trata-se aqui de examinar historicamente a produção crítica do jornalista
Geraldo Ferraz em seus momentos de inflexão e posicionamento sobre os assuntos de
urbanização, urbanismo e projeto urbano em São Paulo; na imprensa comercial, nos espaços
especializados que foram se abrindo à sua intervenção, nas colunas, seções e periódicos
especializados em arquitetura, artes e urbanismo. Em outras palavras, trata-se de retornar aqui
a alguns momentos chave do debate e da prática urbanística em São Paulo e no Brasil pelo
crivo da crítica.
Jornalismo e Modernismo: 1922, 28 e 29
Geraldo Ferraz (1905-1979) tornou-se muito conhecido entre os arquitetos brasileiros
pela autoria de um livro fundamental para o entendimento da gênese da arquitetura moderna
no Brasil, Warchavchik e a Introdução da Nova Arquitetura no Brasil: 1925-1940, publicado
pelo Museu de Arte de São Paulo em 1965. Esta bela realização de nossa primeira
historiografia arquitetônica todavia só veio à público depois de décadas de atividade
profissional. Literalmente, depois de tudo7.
3
Por exemplo, L. F. Balcão, “A cidade das reclamações: moradores e experiência urbana na imprensa paulista
(1900-1913)” in D. R. Fenelon (org.), Cidades, São Paulo, Olho d’Água, 1999, pp.225-56.
4
Cf. V. Pontual, Uma Cidade e Dois Prefeitos: narrativas do Recife nas décadas de 1930 a 1950, Recife, Ed.
UFPE, 2001, pp. 67, 85, 108.
5
Mais recentemente, tem sido explorada a produção jornalística e cronística de um Gilberto Freyre sobre o
Recife ou de um Câmara Cascudo sobre Natal, como ponto de vista relevante na história da urbanismo. Cf. J.T.C.
de Lira, Mocambo e Cidade: regionalismo na arquitetura e ordenação do espaço habitado, São Paulo, FAUUSP, 1997 (Doutorado); G.A.F. Dantas, Linhas Convulsas e Tortuosas Retificações: transformações urbanas em
Natal nos anos 1920, São Carlos, EESC-USP, 2003 (Mestrado).
6
É verdade que pela via da história cultural e literária já se afirmou um estudo da imprensa como esfera de
expressão e diferenciação da experiência urbana. Cf. por exemplo A. Dimas, Tempos Eufóricos: análise da
revista Kosmos, 1904-1909, São Paulo, Ática, 1983; H. F. Cruz, Na Cidade, sobre a Cidade: cultura letrada,
periodismo e vida urbana. São Paulo 1890/1915, São Paulo, FFLCH-USP, 1994 (Tese de doutorado); M.Z.F.
Cury, Horizontes Modernistas: o jovem Drummond e seu grupo em papel jornal, Belo Horizonte, Autêntica,
1998; M. Padilha, A Cidade como Espetáculo: publicidade e vida urbana na São Paulo dos anos 20, São Paulo,
Annablume, 2001.
7
Depois de Tudo é o título de sua autobiografia publicada em 1983, após a sua morte. É também o título do
último capítulo do livro, no qual se explicam as motivações e significados do livro sobre Warchavchik. Cf.
Ferraz, pp.176-8. A informação biográfica baseia-se aqui quase inteiramente neste livro. Na estruturação dos
Ferraz foi um destes críticos militantes improváveis, que parecem ter surgido do nada
mas cujo trabalho revela uma trajetória pelos assuntos de arquitetura e urbanismo de raro
senso de atualidade. De família sem posses, órfão aos dez anos de idade, de instrução formal
quase nula, educado pela avó em cômodo de cortiço de São Paulo, a partir da década de 20
passaria a trilhar uma intensíssima carreira na imprensa que o levaria a se tornar um dos
principais críticos de arte em atividade na cidade em meados do século XX8. Por força da
condição, cedo trocou a educação pelo trabalho, compensando a labuta na paixão juvenil pela
leitura. Foi como auxiliar de distribuidor que aos 14 anos introduziu-se no meio gráfico local.
Logo promovido, pelo métier aproximou-se do mundo das letras. Ainda tipógrafo, conheceu
Fernando Azevedo, Guilherme de Almeida, Afonso Schmidt e Vicente Licínio Cardoso,
iniciou-se em filosofia e anarquismo, em gramática e francês, ampliou o seu leque de
relacionamentos e em 1922 escreveu o seu primeiro romance. Foi como escritor que se
apresentou ao influente editor Monteiro Lobato, que apesar de não aconselhar a publicação do
romance ofereceu-lhe o emprego, bem melhor remunerado, de revisor da Revista do Brasil,
então de sua propriedade. Neste espaço profundamente marcado pelo redespertar da questão
nacional, em que se entrecruzavam esforços diversos de conhecimento do passado e da cultura
brasileira com uma certa índole paulista (Luca, 1999), tomou contato com Ribeiro Couto,
Pedro Ferraz do Amaral e Sérgio Milliet.
A falência de Lobato em 1925 constitui em sua vida um momento crucial de
enfrentamento de suas ambições no campo do jornalismo e da literatura. Depois dali, o revisor
desempregado passou para o São Paulo Jornal; em 1927 e 1928, começou a assinar pequenas
contribuições para a revista modernista Festa9, do Rio de Janeiro; também naqueles anos
atuou no Jornal do Comércio e na Folha da Manhã, para logo estabelecer-se, e por longos
anos, na redação do Diário da Noite, o de São Paulo, então chefiada por Rubens do Amaral e
provavelmente àquela altura de certa coloração radical dada a colaboração ali de figuras de
esquerda como Lívio Xavier, Mário Pedrosa, Brasil Gerson e Di Cavalcanti. No início de
1928, foi promovido a repórter do vespertino Associado, o segundo diário de Assis
Chateubriand, quando este começava a montar a sua cadeia de jornais. Desde 1927, passara a
integrar também a redação do recém-criado Diário Nacional, prestigioso órgão de imprensa
ligado ao Partido Democrático, no qual colaboravam intelectuais influentes como Sérgio
Milliet, Mário de Andrade, Tácito de Almeida, Couto de Barros e Amadeu Amaral.
Proletarizando-se de redação em redação, trabalhando por vários, fazendo bico aqui e ali
e dobrando a remuneração habitual do redator, a paixão pelo jornalismo logo iria manifestar-se
momentos focalizados neste texto segui as indicações profissionais oferecidas pelo jornalista, em especial no que
diz respeito à sua interferência nos debates arquitetônicos e urbanísticos contemporâneos.
8
É verdade que nos livros de Aracy Amaral e Maria Cecília França Lourenço, estudiosas da crítica de arte em
São Paulo e no Brasil, Geraldo Ferraz não mereceu o grande destaque, seja por sua perspectiva de cronista, seja
pelo privilégio dado a uma perspectiva crítica erudita (Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Luiz Martins, Mário
Pedrosa, Lourival Gomes Machado entre outros), seja ainda pela ênfase na crítica politizada, nos debates e
projetos coletivos de revisão da produção nacional. Nesta última chave, Amaral evoca a participação de Geraldo
Ferraz como redator chefe do semanário de política e cultura O Homem Livre, de alinhamento internacionalista,
trotskista e antifacista em 1933. Cf. Amaral, 2003, pp.40-6; Lourenço, 1995.
9
Com o psedônimo de Zagus Ferras, assinou os artigos “Lima Barreto. O que eu penso da sua literatura, hoje” in
Festa: mensário de pensamento e arte, ano 1, num. 3, Rio de Janeiro, Officinas Alba, dez. 1927, p.14; e “Notícia
sobre a pintura e música em São Paulo” in Festa: anno 1, num. 7, Rio de Janeiro, Officinas Alba, abr. 1928, p.4,
no qual o autor se refere às exposições de Lasar Segall, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti na cidade. Apud
Caccese, 1971. Sobre a revista carioca e nelas sobre as relações entre modernismo e nacionalismo ver A. de C.
Gomes, Essa Gente do Rio: Modernismo e Nacionalismo, Rio de Janeiro, FGV, 1999.
como intervenção na cultura. Foi certamente por sua agilidade profissional e predisposição de
autodidata para a literatura e o modernismo que penetrou nas redes de sociabilidade que
envolvia o jornalismo e a vida intelectual e artística na província. Em 1927, na sede do Diário
Nacional, conheceu o arquiteto Flávio de Carvalho, com quem conviveria intensamente nos
anos seguintes, contribuindo para divulgar as suas idéias, projetos e experiências; no Diário da
Noite, ainda em 1928, escreveu notícia sobre a exposição de Lasar Segall e entrevistou a
pintora Tarsila do Amaral e o pianista João Souza Lima; também a serviço do jornal conheceu
o escritor Oswald de Andrade que, impressionado por seu grau de informação em arte
moderna, logo o convidaria ao salão de Tarsila, no qual viria a reencontrar Guilherme de
Almeida, Sérgio Milliet, Tácito de Almeida e Paulo Prado, a conhecer Alvaro Moreyra, Felipe
d’Oliveira e Ronald de Carvalho, intelectuais do Rio, além da elite modernista paulistana,
entre os quais Mário de Andrade, Antônio de Alcântara Machado, Lasar e Jenny Segall, além
do arquiteto Gregori Warchavchik e sua esposa Mina Klabin. Do salão de Tarsila ao salão de
Paulo Prado, ex-diretor da Revista do Brasil, e à casa modernista da rua Santa Cruz foi um
passo: “como era clara, arejada, racionalmente articulada em suas partes, numa planta que
concretizava a teorização da nova arquitetura!”10. Com efeito, este ano de 1928, no qual
seriam lançados a Revista de Antropofagia e os livros Macunaíma e Retrato do Brasil, tem na
vida de Ferraz um sentido de conversão definitiva à causa modernista de renovação
intelectual, estética e artística:
“Era o ‘novo’ que me arrastava e a que eu aderia encontrando, em todas as motivações que me
oferecia, razões bastante para me colocar a serviço das idéias renovadoras, sem descanso, levado
pelas certezas, que faziam tantos hesitar e não aceitar inovações. O ano de 1928 tinha assim para
mim todo o fascínio de uma arrancada, da qual participava, invisivelmente preso à sorte de uma
vanguarda, que aqui chegava bem depois de ter-se imposto em outros países”.11
Ao mesmo tempo o momento parecia-lhe apontar para um período novo no modernismo
brasileiro, precisamente na arquitetura entrevendo-se aquela fase construtiva que anos depois
Mário de Andrade viria a sintetizar como posterior à revolução de 30 (Andrade, 1942), com o
recentramentro da geografia da cultura a partir do Rio de Janeiro e renovação por dentro das
instituições artísticas do Estado, em outras palavras, com a diluição do espírito de vanguarda e
recrudescimento da luta ideológica no campo das artes (Lafetá, 2000; Vieira, 1984; Zilio,
1982; Amaral, 2003). Para Ferraz, ao menos em São Paulo, o corte parecia remontar àqueles
anos de 1928 ou 29, quando já se via claramente brotar na arquitetura um novo sentido para o
movimento.
Nada a estranhar que o contato com Warchavchik (1896-1972) e com Flávio de
Carvalho (1899-1972), para ele importante do ponto de vista de sua inscrição histórica no
curso do modernismo, viesse a se desdobrar em um permanente interesse pelo debate
arquitetônico. Através deles, familiarizava-se com as idéias de Le Corbusier e adquiria as suas
obras, tornava-se leitor de revistas como Art et Décoration e Cahiers d’Art, passando a cobrir
pela imprensa boa parte dos acontecimentos arquitetônicos na cidade. O fato é que de
Warchavchik e Flávio de Carvalho, pouco a pouco ampliaria este espaço específico de
interlocução, aproximando-se de figuras como Jayme da Silva Telles e Carlos Prado,
estendendo também o seu círculo de amizades para o âmbito da engenharia e do urbanismo e
firmando relações duradouras com José Maria da Silva Neves e Luiz de Anhaia Mello.
10
11
Ferraz, 1983, p.26.
Idem, ibidem.
Em outras palavras, já por volta de 1928, em que se inaugurava a casa da rua Santa Cruz
e se publicava Macunaíma, ou 1929, de crack mundial e crise do café, no qual Le Corbusier
visitava São Paulo e Anhaia Mello publicava o seu Problemas de Urbanismo, um novo
período modernista parecia anunciar-se em São Paulo, ainda que apenas se tornasse visível no
país um pouco adiante. Mesmo o episódio da Revista de Antropofagia, na qual o jornalista se
engajaria pessoalmente, parecia confirmar a inflexão. Como se sabe, lançada em 1928 como
agremiação que integrava nomes como os de Oswald e Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e
Patrícia Galvão, Alcantara Machado e Raul Bopp, Yan de Almeida Prado e Plínio Salgado,
Câmara Cascudo e Jorge Fernandes, Ascenso Ferreira e Carlos Drummond de Andrade, já
começaria o ano de 1929 com um grande racha no interior do grupo. Foi neste contexto que o
redator do Diário da Noite, do Diário Nacional e que, no início daquele ano, tomara parte da
fundação do Diário de S. Paulo, foi convidado por Oswald e Bopp para assumir a secretaria de
redação do periódico. Tratava-se então de convertê-la em uma página semanal a ser lançada
neste último jornal de Assis Chateaubriand, como “segunda dentição” do periódico de
vanguarda. Para os antropófagos remanescentes, a empreitada constituía um último grito de
“radicalização, literária, política e social”12, completamente livre da censura do jornal e de
seus assinantes, que de fato não cessariam de protestar13 contra as indecências e irreverências
no interior destes dezesseis números da revista, publicados entre 17 de março e 1 de agosto de
1929. A verdade é que desde a primeira dentição, Oswald já estava praticamente sozinho no
tom klaxista de vanguarda negativa que propunha reviver com a antropofagia (Campos, 1976).
Esta segunda tentativa de prolongá-la, ao invés de demarcar uma continuidade com o
momento anterior, antes parecia manifestar o desconforto para com as derivações
predominantes no modernismo paulistano para uma atitude ora construtiva, ora contemplativa,
ora moderada ora mesmo reacionária, em todo caso antecipando os nexos ideológicos da
geração de artistas posterior a 30.
Modernismo e Urbanismo: 1929 e 1930
Como se sabe, a vinda de Le Corbusier (1887-1965) ao Brasil foi intermediada por seu
conterrâneo e amigo Blaise Cendrars junto a Paulo Prado, que o acolheu principescamente em
sua casa de Higienópolis, garantindo-lhe também boa remuneração pelas conferências que
proferiria em São Paulo14. Na ocasião, Geraldo Ferraz foi pessoalmente convocado para
entrevistá-lo:
“Em certo dia de novembro, informava-me Paulo Prado que Le Corbusier chegara da Europa e se
achava em sua residência. Como eu me encontrava envolvido no movimento modernista mais em
evidência nessa altura – com uma página literária que causava espanto e escândalo, no “Diário de São
Paulo”, onde se refugiara o grupo de vanguarda, com Oswald de Andrade, Raul Bopp, Oswald Costa,
Jayme Adour, Patrícia Galvão – Paulo Prado me perguntava se eu queria dar uma notícia. Le Corbusier
12
Ferraz, 1983, p.46-54.
“A inclusão no jornal, aos domingos, da Revista de Antropofagia, acabaria gerando uma crise na redação. Às
centenas, conservadores leitores do interior do estado pediam o cancelamento de suas assinaturas, inconformados
com o escárnio produzido semanalmente pelos modernistas em um diário que se pretendia sério.” Morais, 1994,
p.193.
14
Eulálio, 2001, p.233, 325; Harris, 1987, pp.19-23. A obra de Le Corbusier já era conhecida localmente em
primeira mão, seja através da revista L’Esprit Nouveau, seja através de seus livros publicados naquela década.
Entre os assinantes da revista constavam Mário de Andrade, Oswald de Andrade, René Thillier, Roberto
Simonsen, Jaime da Silva Telles e Francisco Teixeira da Silva Telles.
13
realizaria uma conferência no Instituto de Engenharia. Marquei a hora para a entrevista. Telefonei a
Flávio de Carvalho, e organizamos ambos o questionário para a entrevista com Le Corbusier (…)
Entre perguntas e respostas, disse o grande arquiteto: “As condições da vida humana em sociedade só
podem ser estáveis quanto mais facilitadas forem as condições de trabalho. Uma organização
urbanística, no meu modo de vêr, controla, precisamente, a intervenção do homem na vida mecanizada
de hoje, sem todavia contrariar as suas tendências naturais. Isto porque a excessiva mecanização da
vida produz no animal humano uma reação que se traduz em neurastenias e doenças nervosas. Aliás
essa reação natural está entre os dois extremos, o da cidade mecanizada excessivamente, e o da cidade
desorganizada”.15
A bem da verdade, na ocasião a página antropofágica já havia desaparecido, tal o grau
de isolamento a que chegara o movimento não apenas em relação a seu público, mas também
face ao meio intelectual e artístico local. Paulo Prado fôra dos primeiros a romper com o seu
principal mentor e por extensão a distanciar-se do próprio periódico. Indício talvez da
independência profissional e ideológica do assim chamado “açougueiro” da Revista de
Antropofagia em relação a seu ideário, o contato de Ferraz via Prado para produzir a primeira
entrevista de Le Corbusier no Brasil revela ademais certo prestígio do jornalista para o trato da
matéria específica, indício talvez de sua já renomada bisbilhotice quanto ao assunto.
Em São Paulo, foi também Geraldo Ferraz o principal cicerone do arquiteto francosuiço. Acompanhado de Warchavchik e do escultor Celso Antônio, Ferraz o levaria “da Lapa
ao Mercado Novo, do Jardim América à casa do Pacaembú, onde se realizaria meses depois a
Exposição de uma Casa Modernista e partindo daí até o Cemitério da Consolação”16. De
Warchavchik, visitou a obra do Pacaembu e as casas da Melo Alves e da Santa Cruz, e foi lá
que testemunhou, em meio a um grupo seleto de arquitetos paulistas entres os quais Flávio de
Carvalho, Jayme da Silva Telles, Dácio de Moraes, Guilherme Malfatti e o decorador John
Graz, o convite formulado ao arquiteto russo para que representasse os sul-americanos nos
Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, inaugurados em La Sarraz no ano anterior.
A indicação seria encaminhada imediatamente a Siegfried Giedion17, então secretário geral da
agremiação, que manifestaria formalmente o convite, superando as diferenças que então –
soubessem ou não os brasileiros – dividiam os membros dos CIAM entre o grupo latino e o
grupo germânico18. A adesão de Warchavchik seria completa: com o auxílio da esposa,
traduziria e imprimiria o manifesto de 1928 em volante para divulgação local do ideário
internacionalista; já em 1930, emitiria o primeiro relatório regional a Giedion dando conta das
dificuldades de exercício e organização profissional em termos modernos em um país de
industrialização incipiente como o Brasil.
Muito se falou da importância deste vínculo local com o movimento europeu na
arquitetura, e do peso que a ponte Le Corbusier teria para a atualização da prática nacional no
plano da arquitetura moderna. Pouco ainda, porém, foi dito acerca de sua importância na
gênese de um crivo modernista de intervenção no debate em urbanismo19. De fato, desde cedo
15
Ferraz, 1965, p.28. A entrevista foi publicada no Diário da Noite, em 20 de novembro de 1929.
Idem, “Perfil de um homem e de um livro” in P. Prado, Retrato do Brasil, 6a. ed., Rio de Janeiro, Jose
Olympio, 1962.
17
Idem, 1965.
18
Sobre a conjuntura arquitetônica contemporânea à visita de Le Corbusier ao Brasil, ver Martins, 2004, pp. 265290. As versões sobre as declarações de La Sarraz são bastante díspares, refletindo as distintas perspectivas então
colocada. É importante lembrar que o momento, na trajetória de Le Corbusier é assinalado por sua aproximação
com a elite econômica e industrial do Redressement Français. Cf. Steinmann, 1972; Hilpert, 1983, pp.245-54;
Frampton, 1992, p.269; Callabi, 2000, pp.201-205.
19
Ver a respeito Leme, 2002,e também Martins, 1992.
16
em sua obra, Le Corbusier vinha tematizando os principais paradigmas reformadores do
século XIX, interessando-se em particular pela Cité Industrielle de Garnier. Já em 1922, com
as pranchas da “Cidade Contemporânea para Três Milhões de Habitantes”, propôs sintetizar a
sua pesquisa em um protótipo manipulável por meio de uma certa distribuição espacial das
funções básicas de uma cidade industrial20. A imagem da cidade como uma grande máquina
está na base de seu Plan Voisin para Paris, apresentado em 1925 na Exposição de Artes
Decorativas e do livro Urbanisme21, publicado no mesmo ano. Concentrado em alguns
kilômetros quadrados ao norte do Sena, o plano alinhava ortogonalmente imensos arranhacéus envidraçados separados uns dos outros por parques e avenidas. A proposta simplesmente
desconsiderava acres e acres de quarteirões históricos. No livro, os princípios teóricos também
seriam aplicados ao centro de Paris. Tanto em um quanto em outro, o urbanismo apoiava-se na
oposição entre geometria e desordem para distinguir os planos horizontais e verticais da
edificação urbana, volumes isolados e vias de circulação rompendo definitivamente com os
traçados tortuosos, o estrangulamento das vias, as encruzilhadas de caminhos e ruascorredores em que se superpunham usos e funções na cidade tradicional22.
O fato é que, a despeito do interesse despertado pelas obras de Warchavchik e do debate
arquitetônico local, a ênfase na visita de Le Corbusier à capital paulista recaiu mesmo no
debate sobre a cidade. De um lado, talvez, porque em sua avaliação, em São Paulo, a
conferência sobre “a revolução arquitetural contemporânea” não foi tão boa quanto a de
“urbanismo”. De outro, provavelmente, porque o seu auditório na cidade foi o Instituto de
Engenharia, então presidido por Luiz de Anhaia Mello, que justamente naqueles anos cada vez
mais enviezava-se para o debate urbanístico, pouco interessando-se pela nova arquitetura,
quando não revelando-se “refratário às idéias do grande arquiteto”23. Com efeito, já na
primeira conferência, o tema da cidade se impôs a partir da idéia de uma unidade entre as
disciplinas, a revolução arquitetural não sendo possível senão como realização de
possibilidades urbanas.24 Na segunda, a considerarmos o registro de ambas as conferências
contido na edição de dezembro de 1929 de Movimento Brasileiro, tal como realizadas no Rio
de Janeiro, Le Corbusier retomaria a explicação evolucionista desde a origem das cidades,
para marcar a revolução trazida pelos novos meios de transportes na história das grandes
metrópoles contemporâneas. No entanto, se a união entre cidade e transportes, entre
urbanismo e circulação parecia fazer eco a uma equação então corrente no debate local mais
influente e informado25, na seqüência de seu raciocínio já se veria desenhar uma fronteira
muito nítida entre as concepções de urbanismo moderno dos engenheiros, marcada pelas teses
rodoviaristas, e o urbanismo arquitetônico dos modernistas. Tendo como modelos os
esquemas realizados para a cidade de três milhões de habitantes e o Plan Voisin, Le Corbusier
viria justamente a sugerir, ao lado da destruição da cidade existente, a edificação ao ar livre de
uma “cidade standard, com os seus arranha-céos em vidro, como centros de actividade, as
casas cellulas, com os seus jardins ao lado, as grandes auto-estradas, elevadas, para
descongestionar o trânsito.”26
20
Curtis, 1998.
Le Corbusier, 1992.
22
Cf. Martins, 1992.
23
G. Ferraz, 1983, p.57. Ferraz se refere aqui à primeira conferência de Le Corbusier no Instituto de Engenharia.
24
Pereira et alli, 1987, pp.35, 62-3.
25
Leme, 1996, pp.245-258.
26
“As Conferências de Le Corbusier”, in Movimento Brasileiro, Rio de Janeiro, ano I, n. 12, dez. 1929, pp.6-8.
21
O fato é que, recebido pelo Prefeito Pires do Rio e pelo presidente estadual Júlio Prestes,
a visita de Le Corbusier teria grande repercussão nos meios técnicos e políticos locais. Não
por acaso, seria convidado a proferir uma terceira palestra na Câmara Municipal em 23 de
novembro de 1929. Na recepção oficial, o vereador Gofredo Silva Teles acentuaria a
incompatibilidade entre os princípios de utilidade na base de sua doutrina urbanística e o
traçado tradicional da cidade herdado da colônia, que produzia o congestionamento da área
central, a inadequação das ruas estreitas e a falta de espaços livres. Na ocasião, Le Corbusier
insistiria: “a urbanização das cidades não é nem um problema de filantropia, nem um
problema de estética; é um problema de equipamento. (…) A superfície do centro da cidade
deve ser consagrada à circulação e este fenômeno é inteiramente independente daqueles da
habitação ou do trabalho, que se desenvolvem em altura”.27 O estabelecimento deste plano da
cidade com suas funções independentes, ao invés de oneroso, revelava-se altamente
econômico, tal o potencial de valorização dos terrenos urbanos pela verticalização e
racionalização das construções.
Muito provavelmente Geraldo Ferraz esteve presente em todas as ocasiões. Não apenas
pela afinidade com as idéias de Le Corbusier nutrida no contato com os arquitetos de São
Paulo, mas também pelo fato de mais ou menos naqueles anos as discussões de urbanismo
terem cativado a sua atenção. Este encontro entre as idéias do mestre europeu, principalmente
através de seus livros sobre arquitetura, e o debate urbanístico paulistano está provavelmente
na base da intervenção do jornalista no assunto nos anos seguintes, ora voltado para a
publicização do debate especializado a partir de um ideário de arte cívica, ora para o alcance
urbanística da arquitetura modernista.
Desde fins de 1928, o seu interesse pelos acontecimentos contemporâneos o fariam
aproximar-se do engenheiro e urbanista Luiz Ignácio Romeiro de Anhaia Mello (1891-1968),
de quem se tornaria admirador e amigo. A colaboração entre ambos havia surgido após as
famosas conferências de Mello no Rotary Club e no Instituto de Engenharia, que dariam
origem ao livro Problemas de urbanismo. Por meio delas, a revisão didática das experiências
norte-americanas de regulação urbanística encontrariam ampla difusão em São Paulo.
Entre os temas de Anhaia: o zoneamento, as taxas de melhoria, as unidades de vizinhança, as
comissões multidisciplares de planejamento, o seu papel na contenção dos interesses privados
na expansão urbana, com seus efeitos nocivos no mercado imobiliário e no tráfego. Contudo,
foi provavelmente na atenção dedicada, principalmente nas primeiras conferências, aos
mecanismos de legitimidade do urbanismo que o elo com Ferraz se estreitaria. Afinal, para
este pioneiro de urbanismo em São Paulo, o trabalho de informação, a constituição de
comissões de cidadãos e outros dispositivos democráticos como a introdução do referendo
popular na deliberação sobre a questão urbana constituíam estratégias decisivas de efetivação
do ideal urbanístico28. Foi certamente por aí que o professor de urbanismo da Escola
Politécnica cativou o jornalista de vocação militante:
“Foi Anhaia Mello o mestre informado e culto, uma das raras personalidades às quais
acompanharíamos, sem desfalecimento, sem uma interrupção, ao longo de sua vida. A palavra mágica,
“urbanismo”, que trazia para nós, era uma força irradiadora de possibilidades, desde a primeira das
conclusões que lhe conhecemos e que para aqui transladamos, a fim de esclarecer ainda agora o
deslumbramento da nova tarefa com que se nos acenava: ‘uma campanha prática e eficiente em prol de
27
Campos, 2002, pp.361-3. O documento citado é o “Discurso de Le Corbusier” in Anais da Câmara Municipal
de São paulo: 1929, pp.764-5.
28
Mello, 1929.
São Paulo maior e melhor deve ser iniciada, pela formação do ambiente, pela educação do público, e
pela conquista da opinião pública, por todos os meios de propaganda de que se possa dispor’.”29
Em Anhaia Mello, Ferraz descobriria não somente a disciplina urbanística, mas
um sentido político para a reportagem urbanística no Diário da Noite, onde assinaria matérias
específicas sob o pseudônimo de Gonçalves, nas quais o jornalista viria a se apresentar como a
“vanguarda da divulgação das grandes idéias em favor da cidade”. Sabe-se que antes de 30, no
mesmo Diário da Noite, o jornalista já vinha se interessando pela temática, ali publicando, sob
a orientação de Anhaia, uma série de 15 entrevistas, “em que procurávamos respostas para o
desenvolvimento de São Paulo, a fim de prevenir seu crescimento caótico – São Paulo deve
crescer vertical ou horizontalmente”.30 Tratava-se então de difundir pela imprensa os ideais do
urbanismo moderno na opinião pública: “inscrevíamo-nos, com Anhaia Mello, nessa cruzada,
daí por diante, com tudo quanto dispuséssemos de esforço, de inteligência e espaço para
divulgação”.
“Vinha Anhaia Mello de assistir nos Estados Unidos a uma campanha de conquista da opinião pública,
e tencionava aqui repeti-la, em prol do urbanismo, de “São Paulo maior e melhor”. (…) Colocava-se,
pela primeira vez, entre nós, o tema de que a cidade é um problema de governo e, ao lado dos aspectos
políticos e sociais, visava-se a dar soluções a quatro ordens de atividades específicas, quais sejam:
habitação, trabalho, circulação e recreio”.
É interessante notar que, para Ferraz, enveredar pelo urbanismo não significava trabalhar
no sentido da especialização jornalística. Antes, ao contrário, para ele, isto apenas conduziria à
divisão e à esterilização dos repórteres e redatores. Explorar a nova temática, ao contrário,
contribuía para a “diversificação jornalística”, naquele tempo desafiadora, “principalmente
para quem procurava não só aspectos culturais, como técnicos, políticos e econômicos” nos
temas que abordava em sua prática profissional. Percebe-se, pois, neste processo, como a
incursão pela informação especializada, ao lado das tarefas previstas, abria espaço para uma
atividade poligráfica, de crítico interessado em ampliar os ângulos de abordagem e mesclar
distintos conteúdos e setores da vida cultural. Transitando entre arte, literatura, psicanálise,
arquitetura, urbanismo, crítica e política, o jornalista seria freqüentemente responsável pela
formulação de juízos bastante particulares, ora alinhando-se contra o automóvel na metrópole
das avenidas; ora, identificando o zoning norte-americano à cidade funcional em discussão no
interior dos CIAM31.
De Francisco Prestes Maia (1896-1965), ao que parece, nunca se aproximou como de
Anhaia. Em junho de 1930 - registrou em suas memórias - foi convidado pelo autor do Plano
de Avenidas para uma exposição detalhada de suas propostas ao lado do engenheiro João
Florence d´Ulhôa Cintra, chefe da Divisão de Urbanismo da Prefeitura. Pouco depois,
entrevistaria o engenheiro Rodolfo Valadão sobre as reformas propostas por Prestes Maia,
mostrando-se bem informado a respeito do debate em questão:
“a preferência para o desenvolvimento em irradiação, a fim de descentralizar o movimento da cidade,
com o Plano de Avenidas. De importante e novo na entrevista de Valadão, declarava ele que,
entretanto, o problema urbano de São Paulo não poderia ser estudado apenas no plano isolado da
cidade. "Como complemento à obra de Prestes Maia, devia ser organizado o Plano Regional de São
29
Ferraz, 1983, p.36.
G. Ferraz, Depois de Tudo, op. cit., p.184.
31
Mumford, 2000.
30
Paulo, abrangendo o distrito metropolitano formado pela capital e pelos pequenas cidades satélites”.
Era observação justa, já entrevista nas lições de urbanismo de Anhaia Mello.”32
Contudo, se se mostrava a par do approach regional de Anhaia Melo33, é visível a
confusão entre o zoning americano e a setorização funcional de Le Corbusier. Para Anhaia, o
zoneamento, espinha dorsal do urbanismo, não se confundia com o zoneamento modernista,
mas apresentava uma história própria. Havia nascido como forma de restringir o uso
indiscriminado da propriedade urbana, criando para tal distritos com parâmetros diferenciados
de ocupação e edificação, de modo a proteger as áreas residenciais (e bairros jardins) de usos
incompatíveis e a garantir, com isso, a integridade estética da cidade e a escala humana da
aglomeração urbana. Em outras palavras, “antes de aderir ao zoneamento funcional
modernista – que destacava a eficiência da separação entre usos -, Anhaia Mello defendia um
zoneamento protetor e regulador”34.
O fato é que, ao lado das discussões locais sobre o plano, profundamente marcadas pelas
temáticas da racionalização do sistema viário e pelo zoning, Ferraz iria se manter muito bem
informado do andamento dos CIAM. Em sua auto-biografia, entre os poucos documentos que
transcreveu na íntegra, encontra-se o manifesto de La Sarraz; no livro sobre Warchavchik
anexou um conjunto significativo de documentos que atestam a continuidade da
correspondência entre o arquiteto russo e os líderes do movimento internacional, e que
testemunham a difusão da arquitetura moderna no Brasil. Mas é provável que mesmo antes da
indicação formal de Warchavchik para o CIAM, a informação específica já circulasse
localmente. Certamente no Diário da Noite, onde Ferraz trabalhava. Em 30 de novembro de
1929, um artigo já dava conta do “Intercâmbio entre nossos arquitetos e os CIAM”. Em 21 de
agosto de 1930, o mesmo jornal publicaria uma matéria sobre “Os Congressos Internacionais
de arquitetos modernos”:
“Agora é Warchavchik quem anuncia o 3o. dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna
(CIAM), para breve. Acentuara a importância dos estudos dos seus companheiros do CIAM, em torno
do problema da “habitação mínima”. Citava uma das resoluções do CIAM: “a arquitetura e o
urbanismo devem ocupar-se da vida dos povos e dos indivíduos, e relacionar-se com toda a
experiência das profissões e as qualidades dos materiais”. “Por aí se vê, juntava, que não queremos
fugir das bases concretas das questões”.”35
Apesar do envolvimento com a matriz anglo-americana do planejamento, o fato é que
Ferraz jamais dispensaria o parâmetro modernista. Antes ao contrário, a ele retornaria por
distintas razões: à Carta de Atenas, originária do IV CIAM, seja para postular uma
circunscrição do urbanismo ao campo arquitetônico, seja para salientar a competência do
arquiteto no enfrentamento da questão urbana como parte de seu papel público e social36; ao
32
G. Ferraz, 1983, pp.80 e 82.
Como lembrou Sarah Feldman, as matrizes de Anhaia encontram-se na tradição inglesa e sobretudo norteamericana. De Ebenezer Howard e do ideário de cidade-jardim ao city planning americano, via Thomas Adams,
autor do plano de Nova York, base do planejamento estadual e metropolitano, Clarence Perry, que desenvolve o
conceito de Neighborhood Unit Cell, e Clarence Stein, ligado ao grupo do Regional Planning Association. Cf.
Feldman, 1996, pp.224-34.
34
Campos, 2002, p. 469.
35
G. Ferraz, 1983, pp. 88-9.
36
G. Ferraz, “Ensino de arquitetura e urbanismo”, in Habitat, n.24, out. 1955, p.1
33
relatório de Le Corbusier para o V Congresso, em Paris, 1937, para defender a criação de uma
política habitacional efetiva no Brasil37.
A Querela do Paço: 1939, 1946, 1952
Quando da visita de Le Corbusier a São Paulo, Mário de Andrade foi o primeiro a
cobrar do arquiteto mais do que palavras. Em sua coluna no Diário Nacional pediria algo de
concreto, “a realização por ele aqui de alguma grande casa, uma palácio pra Câmaras, uma
Prefeitura”38. Se o Brasil teria que esperar apenas alguns anos para que a colaboração do
mestre franco-suiço se materializasse em uma prática projetual efetiva (Bardi 1984, Harris
1987, Pereira 1987, Lissovsky 1996, Tsiomis 1998), logo perceptível, pelo menos no Rio de
Janeiro, em uma safra bastante generosa de obras de inspiração corbusieriana, a questão da
sede do poder municipal paulistano permaneceria em aberto por longos anos:
“O Paço Municipal! Esse monumento, ainda sem sahir das regiões da fantasia despertou polemicas em
salas de conferencias e nas colunas de jornaes. Chefes de repartições especialisadas, técnicos de
renome, financistas eminentes, emfim, todas as personagens de escol se manifestaram a favor de uma
iniciativa mais decidida que pusesse cabo a uma situação nada airosa para o munícicipio.”39
E de fato, o debate era antigo e teria longa vida. Desde 1911, após a demolição do
edifício que abrigava a prefeitura do município na rua do Tesouro, sua sede havia sido
transferida para um prédio alugado na rua Libero Badaró. Além da velha questão da
inadequação do edifício às funções oficiais, o ônus aos cofres públicos que ano após ano se
acumulava por conta das diversas dependências da prefeitura e das secretarias que se
espalhavam pela cidade, aliado ao absurdo de a Prefeitura não dispor de sede própria capaz de
representá-la publicamente, exigia as vistas do poder municipal. “Já em 1921, um primeiro
concurso foi promovido pela Prefeitura. Contratado por lei desde 1910 para projetar o edifício,
o escritório Ramos de Azevedo apresentou um projeto de Ricardo Severo, combinando uma
composição clássica com detalhes neocoloniais. Essa proposta partia de uma implantação em
frente ao Teatro Municipal, entre as ruas Xavier de Toledo e Conselheiro Crispiniano. Os
demais concorrentes, seguindo sugestão de Ulhoa Cintra, optaram pela localização do Paço no
eixo da avenida São João.”40
Apesar deste primeiro concurso, a questão permaneceria irresolvida. Em 1930, no
Plano de Avenidas, diversas possibilidades de implantação seriam aventadas. Além do eixo da
São João, o terreno do Convento do Carmo, recentemente urbanizado à moda colonial41, e a
extremidade sul do vale do Anhagabaú, na atual praça das Bandeiras. Nesta última, o esquema
de irradiação, sugeria a localização do Paço em uma tal “Sala de Visitas” de São Paulo:
“A idéia é transformar todo o trecho do valle entre os viaductos de Sta. Ephigenia e de São Francisco
numa só praça, de aspecto differente de tudo que possuem as outras cidades. Desapparece em primeiro
37
G. Ferraz, “Habitação para o homem de nosso tempo”, in Habitat, n. 26, jan. 1956, p.7.
M. de Andrade, “Táxi: Le Corbusier” in Diário Nacional, São Paulo, 21/11/1929.
39
“Notícias Diversas”, in O Estado de S. Paulo, São Paulo, 5/5/1939.
40
Campos, 2002, p. 572. Este autor se baseia nas informações constantes do artigo “O paço municipal:
concorrência para projetos”, in Boletim do Instituto de Engenharia, vol. IV, num. 15, mar. 1922, pp.133-140.
41
“Melhoramentos Urbanos: o alargamento da ladeira do Carmo: dados interessantes sobre a obra em execução”,
in Revista de Engenharia do Mackenzie, ano XIII, n.44, São Paulo, set. 1927, pp.15-7.
38
logar, em parte, o aspecto de jardim comum. O local assume o carater de praça e, mais do que isso,
quasi o de um centro civico. (…) Como será o logar mais grandioso da cidade, pensamos que ahi póde
ser localizado o Paço Municipal, cuja silhueta symbolica é a torre.”42
Na perspectiva do Paço apresentada por Prestes Maia em uma das aquarelas do livro, o
programa municipal seria resolvido em um grande conjunto monumental de inspiração norteamericana – americano no motivo neo-clássico característico dos arranha-céus da época- ,
simetricamente disposto sobre os dois arcos de trinta metros do viaduto São Francisco, isto é,
sobre o vértice do sistema viário que conduzia do centro às bordas sul e oeste da cidade pelas
avenidas Anhagabaú e Itororó projetadas. Basicamente composto de três grandes volumes, o
conjunto formado pelos dois edifícios nos flancos, com seus efeitos de massa e equilíbrio, e a
torre central que lhe conferia a grandiosidade esperada, absorvia também as faces e cabeceiras
do viaduto igualmente arrematados com uma decoração geométrica de acento verticalizante.
Mais do que a silhueta imaginada, é importante reter do projeto uma constante, que seria
posteriormente recuperada nos sucessivos concursos do Paço a partir de 1939: a fusão
altamente variada entre arquitetura e projeto urbano, seja pelos nexos resultantes da
implantação ou da articulação viária, seja pela própria concepção arquitetônica das propostas,
ora de monumentalidade ou grandiosidade, ora de composição com o entorno, ora de
resolução do programa na escala do espaço público, já presente na imagem do Vale como
“Sala de Visitas” da cidade.
Com efeito, em 1938, na gestão do prefeito Fábio Prado, a construção do Paço
Municipal já estava projetada para a esplanada do Carmo, tendo sido para tal desapropriados
os prédios necessários a suas obras e melhoramentos anexos43. Fábio Prado já havia proposto a
realização do concurso: “o alargamento da ladeira do Carmo (a “avenida de irradiação”
derivada do perímetro de Ulhoa Cintra, atual avenida Rangel Pestana), realizado sob Pires do
Rio, previa o prolongamento da via até a catedral, o que foi inviabilizado pela construção de
prédios altos na praça da Sé, como o edifício Santa Helena. Como alternativa, imaginou-se
criar uma praça no topo da ladeira, em frente ao Palácio da Justiça, servindo como terminal
para as linhas de bonde provenientes da Zona Leste. Aproveitando as desapropriações já
realizadas, Fábio Prado pretendia construir a nova sede da prefeitura naquele ponto e propôs
um concurso de projetos, destacando no programa a idéia de um grande auditório e sala de
concertos destinados ao Departamento de Cultura”44, por ele criado.
Em 1939, quando da gestão Prestes Maia em São Paulo, um novo concurso arquitetônico
seria instituído para resolver a pendência. Conforme o edital, o edifício deveria se localizar
entre o final da ladeira do Carmo e a praça da Sé. Em abril, dos 48 ante-projetos apresentados,
12 seriam selecionados para serem desenvolvidos em projeto e submetidos à concorrência
pública; em maio, suas plantas e maquetes seriam apresentadas publicamente em uma
exposição organizada no Teatro Municipal45. A cobertura na imprensa e o público visitante
seriam enormes, e tanto revistas especializadas como a Revista Politécnica e a Revista de
Engenharia Mackenzie46, quanto jornais como O Estado de S. Paulo, dedicar-se-iam a
42
Maia, 1930, p.72.
“São Paulo de hontem e São Paulo de hoje: uma interessante entrevista do prefeito Fabio Prado a `A Nação´”,
in A Nação, Rio de Janeiro, 25/01/1938.
44
Campos, 2002, p.572.
45
“Anteprojectos do Paço Municipal de São Paulo”, in O Estado de S. Paulo, São Paulo, 3/5/1939, p.7.
46
Ariosto Mila, “o futuro paço municipal”, in Revista Politécnica, vol. XXXV, num. 130, São Paulo, abr.-jun.
1939, pp. 217-23; Antonio Arantes Monteiro, “O novo paço municipal”, in Revista de Engenharia Mackenzie,
vol. XXIV, n.72, São Paulo, mai. 1939, p.94.
43
examinar e avaliar os projetos, antes mesmo que a comissão julgadora se pronunciasse a
respeito.
A série de cinco artigos publicada entre 9 e 13 de maio de 1939 no Estado de S. Paulo é
certamente a análise mais minuciosa dos projetos concorrentes então publicada. Não assinada,
ela foi certamente redigida por um profissional, alguém com experiência de redação de jornal
e ao mesmo tempo dotado de certa informação arquitetônica e crivo modernista – logo
veremos o porquê - suficientemente elaborados para não desperdiçar a análise em questões
técnicas de alcance muito restrito e recuperar a dignidade estética e urbana do ponto de vista
popular. Como tal, não parece coisa de engenheiro, mas de um crítico. É o próprio autor quem
especifica a perspectiva que visa instituir:
“menos que uma crítica – não somos technicos, nem temos em mãos memoriaes justificativos ou mais
detalhes de cada projecto – será esta pequena série de pequenos artigos apenas uma apreciação leiga,
superficial mesmo, puramente uma bem simples impressão esthetica de quem passa, vê, pensa e diz.
Imaginamos – diante desses desenhos e maquetes - que esses doze projectos são obra realisada já: que
foram construídos todos, que formam uma cidade monumental de uma duzia de palacios, que estamos
passeando por entre elles, contemplando as suas massas, medindo as suas proporções, examinando as
suas fachadas – e dizendo, afinal, da sensação de belleza – não mais que de belleza – que ante este ou
aquelle tenhamos experimentado.”47
Ou ainda, dirigindo-se à comissão julgadora ao final da série, em nome de uma certa
“palavra popular” ao lado da palavra do técnico e da responsabilidade do juri:
“foi com olhos profanos – os do cidadão que passa e vê a Casa da Cidade: mais do que isso, da “sua”
cidade – que contemplamos os doze projectos expostos á vista pública.”48
A série, ao que parece, apesar da clara inspiração em algumas de suas chaves críticas,
não deve ter sido obra de um Mário de Andrade. Apesar do interesse eventual pelas questões
de arquitetura (Souza 2002, Lira 2002), o escritor paulistano tem um estilo de crônica crítica
mais aberta, mais interrogativa e desconcertante49, e assinatura indispensável. A não ser que a
premência do assunto em tempos de certo silêncio do autor quanto à cidade, afastado que fôra
por Prestes Maia do Departamento de Cultura, e exilado no Rio de Janeiro, inspirasse o tom
didático, as concessões ao senso comum e a opção pelo anonimato. Certamente não foi escrita
por um Lourival Gomes Machado, cuja atividade como crítico de arte, e umas poucas vezes de
“arquitetura”, apenas começaria a despontar naquele e em outros jornais da cidade a partir de
1941, depois do lançamento da revista Clima.50 Seria de autoria de Sérgio Milliet, que
efetivamente passou a atuar como crítico de arte do Estadão a partir de 1938 e de quem não há
registro de ter escrito a série em foco?51 Seria de Geraldo Ferraz, que em 39 estava em Santos
trabalhando em A Tribuna, e que – apesar de uma vez ou outra ter nele colaborado52 - apenas
em 1956 passaria a responder regularmente pela crônica de arte naquele jornal?53 Não
47
“Notícias Diversas: O Paço Municipal”, in O Estado de S. Paulo, Sào Paulo, 9/5/1939, p.6.
“O Paço Municipal”, in O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13/5/1939, p.7.
49
Lopez, 1976, pp.37-59.
50
Pontes, 1998, pp.21-51.
51
Gonçalves, 1985. Na lista de artigos de Milliet levantados pela autora no jornal não constam estes artigos.
52
G. Ferraz, “Artes e artistas: exposição da Pintura Britânuca Contemporânea”, in O Estado de S. Paulo, São
Paulo, 11/11/1943, apud Lourenço, p.141.
53
Em seu livro sobre Warchavchik, Ferraz inseriu o trecho específico de análise do projeto de Warchavchik e
Artigas para o Paço, o que mostra ao menos que ele tomou contato com a série publicada no jornal. Porém não dá
48
dispomos de dados suficientes para afirmá-lo. Em todo caso, na impossibilidade de
autenticarmos a origem dos artigos, destaquemos alguns de seus critérios, comentários e
avaliações, provavelmente muito próximos àqueles que um Ferraz assumiria e que ajudam a
situar a diversidade de propostas então aventadas.
Para o autor, o conjunto projetado deveria funcionar como uma “casa da cidade”, a sua
arquitetura representando o “padrão”, o “exemplo”, o “modelo” adequado a uma cidade
“inquieta” e “evolutiva”. Neste sentido, um Paço Municipal deveria preencher pelo menos
dois requisitos: em primeiro lugar, “ter physionomia propria, um ‘physique du rôle’, capaz de
sugerir logo ao primeiro golpe de vista a sua funcção”; em segundo lugar, “fixar, se não um
estilo, pelo menos certa “maneira” nossa”54. Pois um Paço historicamente constituía um
edifício-padrão “capaz de dizer por sua physionomia a sua funcção” e “de traduzir no estilo a
índole de um povo”. Se toda arquitetura há, pois, de ser “expressiva”,
“dentre os doze projectos apresentados, a nosso ver, só um ou dois nos parecem representativos, pelo
seu aspecto architectonico, do fim a que se destinam; e parecem determinar, pelo seu espirito de epoca
(pois que realmente não temos um estilo nosso), o nosso caracter de povo moderno, ainda em
formação, mas já integrado no mundo de hoje”.55
Com efeito, ao longo da semana, o autor examinaria um a um os doze projetos
concorrentes. “Braz” e “Civitas”, no segundo dia; “Eu”, “Helius” e Jaraguá”, no terceiro56;
“Marco Zero”, “Pacaembu”, “Paraquedas” e “Praça Cívica”, no quarto dia57; e “Rio”, “Tietê –
1534” e “Viribus Unitis”, no último58. “Braz” era demasiado massivo, preso ao clássico,
grande porém não grandioso. “Civitas”, de autoria da construtora Severo, Villares e Cia, tinha
grandiosidade, combinava bem a monumentalidade clássica com a comodidade moderna, mas
era “tipicamente um monumento de sabor ‘yankee’”. “Eu” era “obra clara, desembaraçada,
corajosa, quasi mesmo que aggressiva na sua sumptuosa modernidade”, dois grandes
paralelepípedos de 18 andares, em cimento-armado, “essencialmente estrutural”, porém com
certa frieza de mausoleu. “Helius” não passava de “um pedacinho de Nova York visto pelo
lado errado do binoculo”, “uma miniatura de building”. “Jaraguá”, que depois saberemos de
autoria de Carlos Henrique Porto, Humberto Paulino e Sylvio Jaguaribe Hermanni, “apesar do
mesmo ar novayorquino”, tinha “inspiração e opulência”, faltava-lhe porém o tal “physique du
rôle”. “Marco Zero”, também do escritório Severo e Villares, que ganharia o primeiro lugar no
concurso, revelava no autor um “perfeito savoir-faire”, o seu virtuosismo porém “esfria a
obra”, o arranha-céu que realmente assinalava “um marco” era grande mas, da mesma forma
que “Braz”, não era grandioso. “Pacaembu”, então, tinha um ar de hospital, com sua colunata
indicações de autoria, apenas um “extraído de um artigo sobre a exposição dos projetos apresentados no concurso
organizado pela prefeitura para o futuro Paço Municipal de S. Paulo. Cf. Ferraz, 1965, p. 220. Sobre a sua
atuação em O Estado de S. Paulo ele escreveu: “Nesse ano de 1956, em maio, fui convocado à redação de OESP,
uma certa tarde. Notificaram-me que Lourival Gomes Machado, que logo teria uma missão cultural na Europa,
tinha indicado o meu nome para substituí-lo em sua coluna de artes plásticas. Essa indicação for a apoiada por
Sérgio Milliet, Luís Martins, Arnaldo Pedroso Horta, o redator-chefe e meu velho amigo, Marcellino Ritter, o
secretário-geral da redação, Cláudio Abramo. Aceitei a indicação, e fui, então, apresentado a Júlio Mesquita
Netto, a quem não conhecia; Ruy Mesquita eu já conhecera e mantínhamos boas relações. (…) Iniciei então, em
1956, uma tarefa que se estendeu por quinze anos.” Ferraz, 1983, p.162.
54
“Notícias Diversas: O Paço Municipal”, in O Estado de S. Paulo, São Paulo, 9/5/1939, p.6.
55
“O Paço Municipal”, in O Estado de S. Paulo, São Paulo, 10/5/1939, p.7.
56
“O Paço Municipal”, in O Estado de S. Paulo, São Paulo, 11/5/1939, p.8
57
“O Paço Municipal”, in O Estado de S. Paulo, São Paulo, 12/5/1939, p.9
58
“O Paço Municipal”, in O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13/5/1939, p.7.
desproporcional à massa dos andares. Os desenhos de “Rio” revelavam certo descaso, “um
moderno excessivamente frio” com os seus dois volumes cúbicos entrecortados, um vertical,
outro horizontal, com alguma coisa do partido adotado alguns anos antes na sede do
Ministério da Educação no Rio de Janeiro. “Tietê”, de autoria de José Maria da Silva Neves e
Cícero Costa Vidigal, que ficaria em terceiro lugar no concurso, era “um moderno
accomodado, com base clássica”, excessivamente ornamental e suntuoso, um “moderno
burguês”. “Viribus Unitis”, por fim, em estilo dórico, revelava “certo achanhamento no todo”.
De fato, apenas dois projetos mereceriam um comentário puramente elogioso. “Paraquedas”,
de autoria de Flávio de Carvalho, que ganharia menção honrosa:
“dentre todos os projetos este é o que “affirma”. Certo? Errado? – Elle não permitte indagações.
Acceita-se ou recusa-se. Torreão de vidro em trinta e muitos andares, elle se planta no local (segundo
os planos de urbanisação do centro, que o instruem) como a ponta de um compasso que vae traçar um
novo circulo “cittadino”. Para um Paço Municipal – a casa do governo da cidade – o symbolo será
realmente expressivo.”
E “Praça Cívica”, classificado em segundo lugar na competição, sob a regência de
Gregori Warchavchik e do engenheiro-arquiteto paranaense, recém-formado pela Poli, João
Batista Vilanova Artigas. Sobre esta última proposta, o entusiasmo era ainda maior e inspiraria
o comentário mais atento, em tom de contribuição a seu desenvolvimento para fins de
implantação:
“Concepção grandiosa sob todos os aspectos: o architectonico, o urbanistico e o utilitário, por
exemplo. Mas examinando apenas o primeiro desses aspectos; dir-se-ia que falta certa elevaçào ao
corpo principal, o que dá um ar de fabrica. Mas poder-se-ia reprlicar que esse abatimnto é proposital,
para não esmigalhar pelo volume, o Palacio da Justiça e para dar maior realce ainda, pelo contraste, ao
“campanille” de cem metros de altura, onde se alojará o arquivo municipal e que sustentará o clássico
relógiso dos ‘hoteles de ville’. Detalhe importante esse do relogio, nos paços municipais, que dá a hora
official da cidade. Architectonicamente importante, porque, tradicional, como já é, convencional se
quizerem, entretanto o facto é que elle marca o edificio, define-o, completa-lhe o ‘physique du rôle’,
diz que aquillo ‘é’ um Paço Municipal. Há em todo o tratamento do projecto, uma fortissima
originalidade. Citamos um detalhe, ao acaso: o do portico em tapa-vento, decorado de relevos ou
desenhos commemorativos. O projecto preconisa, com clarividência, uma indispensavel solução para o
problema do homem do Largo da Sé. Talvez o largo mais feio que há no mundo: propõe a sua
transformação, com a suppressão de uma quadra (a do predio Santa Helena), numa ‘praça cívica’ de
condignas proporções. E, com isso, respeita o projecto das obras já feitas, ou em execução, e que não
poderiam ser despresadas: a Catedral e o Palacio da Justiça”.
De todos, apenas estes dois também seriam considerados pelo crítico em sua dimensão
urbanística. O primeiro, pelo realce previsto para o Paço pelos diversos planos da torre
envidraçada. O segundo, pelo misto de ousadia e sensibilidade, na resolução do projeto em
uma praça, na sua demarcação sobre quadras existentes e no diálogo com as construções a
serem preservadas. Tal o veredito do crítico do jornal59. Quanto ao projeto de Warchavchik e
Artigas, é interessante notar que, para além do comentário arquitetônico propriamente dito, a
mesma atenção aos aspectos urbanísticos da proposta pode ser encontrada no livro de Geraldo
Ferraz sobre a obra do arquiteto russo.
“O projeto “Praça Cívica” localizou o edifício do Paço Municipal em ângulo reto com o Palácio da
Justiça, para a criação de uma praça de nobres dimensões, retangular, que proporcionasse aos edifícios
59
Ferraz, 1965, p.41.
públicos em sua volta uma moldura digna e um ambiente adequado a certas funções públicas, como
sejam, comícios, paradas militares e escolares, etc. Daí o nome “Praça Cívica”. Com a demolição da
quadra da qual faz parte o edifício Santa Helena, o único bloco que impede a ligação da Praça da Sé à
Praça Municipal, ter-se-ia uma área cortada pela interessante diagonal Catedral-Torre. Aproveitando o
desnível existente, foi projetada uma parte da praça em subterrâneo para estacionamento de veículos, e
60
mesmo para estação de ônibus.”
Conforme o relato da comissão julgadora composta por João Ulhoa Cintra, Dácio de
Moraes, Francisco Silva Telles, Heribaldo Siciliano, Jorge Przirembel, Francisco Kosuta, Ary
Torres, Ademar de Moraes e Carlos Gomes Cardim, o resultado seria bem outro. Contudo, no
parecer datado de 5 de julho de 1939, o que se lê acerca dos doze projetos examinados é o
seguinte:
“Nenhum resolve em sua plenitude o problema submetido a concurso, não podendo ser aconselhada a
edificação do Paço segundo projeto algum ora em apreço (…) devido a difficuldade e complexidade do
problema e multiplicidade dos elementos: de funcionamento, de área, de beleza, de majestade e de
implantação a harmonizar. (…) Alguns trabalhos notaveis sob muitos aspectos, solucionam apenas este
ou aquele elemento do problema.
Do certame, apenas as bases para uma nova concorrência ou estudo individual, entre as quais,
“a) orientação do edifício de forma a que se marque o eixo da avenida Rangel Pestana com uma torre
(Marco Zero, Jaraguá, Helius, Paraquedas); b) formação de praça cívica, acessível – mas nào essencial
ao trânsito geral – pondo em destaque o Paço, o Palácio da Justiça, e adaptavel a certas cerimonias
civicas (Praça Civica); c) não esquecer entranto que a cidade de Anchieta é do lado do largo da Sé, e
que, portanto, a frente para esse largo (Rangel Pestana alargada) é de capital importância não só sob o
ponto de vista tradicional, como mesmo, sob o do conjuncto do centro civico da cidade (Praça Civica);
d) distribuição funcional das plantas (Paraquedas, Praça Civica, Jaraguá, Tietê, Civitas); e) evitar o
excesso de paredes de vidro (Praça Civica, Jaraguá, Marco Zero, Civitas, Tietê, Helius, Eu); a), b) e c)
obrigatoriamente determinariam a implantação”61.
Se na cobertura da Folha da Manhã restava apenas a possibilidade de restabelecer o
programa para uma nova concorrência, no relato oferecido pelo Diário de S. Paulo, a proposta
para a esplanada do Carmo seria inclusive calculada em termos de custos para a sua
remodelação e de construção do novo Paço62. O fato é que nada seria encaminhado, a não ser a
abertura de novo concurso. Conforme o julgamento de Geraldo Ferraz,
“o grande projeto da época foi o realizado para o Paço Municipal de São Paulo. (…) Foi essa, como
frisou o prefeito Prestes Maia, uma rude prova para os arquitetos brasileiros. O projeto Praça Cívica
dominou as dificuldades; foi dos poucos que se ativeram à solução moderna, e ainda a uma solução
local de ordem urbanística. Propunha a transformação da Praça da Sé numa Praça cívica de grandes
proporções, com a demolição de uma quadra, a do prédio Santa Helena. Idéia pioneira constituiu aí a
planificaçào de uma garagem subterrânea para estacionamento de carros e um terminal de ônibus,
voltadas para a avenida Rangel Pestana. Velho problema de São Paulo, o concurso de 1939 não lhe deu
uma solução, como posteriormente, em 1946, não lhe daria o nôvo debate em tôrno do Paço,
provocado por uma solução eventual, o chamado “Pacinho”. Mas, nessa ocasião, a concepção de
60
idem, ibidem, p.219. Em seu livro, Ferraz reproduz o trecho sobre Praça Cívica do artigo de O Estado de S.
Paulo.
61
“Julgados hontem os projectos do Paço Municipal”, in Folha da Manhã, São Paulo, 7/7/1939, p.16.
62
“O futuro Paço Municipal”, in Diário de S. Paulo, São Paulo, 7/7/1939.
Warchavchik se simplificara muito. Publiquei nesse tempo um esquema de sua sugestão, que recebeu,
em sessão pública do Instituto de Engenharia, os aplausos do professor Anhaia Mello”63.
De fato, em 1946, durante a gestão Abraão Ribeiro, o debate foi reaceso; novo terreno
tendo sido indicado para a edificação da sede municipal sobre o viaduto Maria Paula, uma das
localizações sugeridas pelo Plano de Avenidas. Na ocasião, vários artigos seriam publicados,
sobretudo no Diário da Noite64 onde Ferraz trabalhava, unanimemente criticando a
provisoriedade da proposta, como um arremedo de solução, logo a ser dispensada. Um artigo
da revista Engenharia, do Instituto de Engenharia, denunciava a proposta municipal de se
adquirir um edifício já existente na cidade para nele instalar um Paço provisório. Apesar da
oposição à idéia, o prefeito da cidade insistiria na aquisição de um arranha-céu de 35 andares a
ser construído na rua Formosa, idéia defendida com veemência pelo engenheiro arquiteto
Carlos Gomes Cardim Filho. Um dos maiores críticos da idéia, seria o próprio Anhaia Mello.
Seja pelos riscos da adaptação de um programa a outro, seja pela sugestão de concentrar um
programa tão complexo como o do Paço em uma torre vertical:
“o ´partido` arquitetônico a ser adotado deve ser certamente o de um grupo de edifícios inter-ligados
mas independentes. Um central, representativo – Câmara e Prefeito – e os blocos de serviços. É mais
ou menos o que propõe o arquiteto Warchavchik.”65
Outros profissionais, como Amador Cintra do Prado e Luiz Pereira de Queiroz,
entrariam na polêmica ao lado de Anhaia. Para Prado, a aproximação do quarto centenário de
fundação da cidade exigia uma solução à altura.
O debate ressurgiria em 1951, 52. Desta vez, Geraldo Ferraz interviria como colunista
do Diário de S. Paulo. A convite de Assis Chateubriand, Ferraz passara em 1946 a dirigir um
suplemento literário neste jornal, que teria como papel mais relevante a difusão da literatura e
do pensamento contemporâneo em São Paulo. Em todo caso, o jornalista estenderia a sua
pauta sobre todo o campo das artes. Lívio Abramo e Marcelo Grassmann tornaram-se
ilustradores e ao longo dos anos aumentava o espaço dedicado a pintura, música, paisagismo,
arquitetura, design, exposições e instituições de arte. A iniciativa sucumbiu em 1948, por
determinação do próprio Chateubriand, mas Ferraz continuaria a trabalhar, além da secretaria
do Diário da Noite e noticiarista da Agência France-Presse, como comentarista do Diário de
S. Paulo, no início dos anos 50 responsável por uma seção de “Arquitetura e Urbanismo”,
espaço cedido pelo jornal e financiado pela empresa de publicidade Arco & Artusi. Foi nesta
condição que Ferraz assumiu um papel de liderança no debate público sobre o Paço.
“A história das tentativas para se chegar ao que dever ser o Paço Municipal em certos aspectos ilustra
com muitos exemplos, a história de uma insatisfação, inerente às iniciativas e aos métodos, às varias
modalidades de solução e aos projetos apresentados. Rigorosamente, cabe partir de há doze anos atrás,
quando o prefeito Prestes Maia fez a primeira tentativa de localização do Paço no alto da colina na
Esplanada do Carmo, e lançou consequentemente o primeiro concurso de projetos. Houve depois uma
tentativa de solução “provisória”, ao tempo do prefeito Abrahão Ribeiro. Tinham-se passado seis anos
e a idéia de localização evoluiu não mais no alto, mas na confluência das avenidas de um Y, traçado
63
Ferraz, 1965, pp.40-1.
“Abandonada a idéia do pacinho provisório”, in Diário da Noite, São Paulo, 28/8/1946; “Por um Paço
Municipal definitivo para São Paulo”, in Diário da Noite, 20/8 1946; “Treze projetos” in Diário da Noite,
24/10/1946. Infelizmente a coleção do Diário da Noite no Arquivo do Estado de São Paulo encontra-se
indisponível para consulta, e na da Biblioteca Municipal não consta o ano de 1946.
65
“Crônica: Paço e Pacinho”, in Engenharia, ano V, vol. V, num. 50, São Paulo, out. 1946, p.2.
64
pelas avenidas Anhagabaú e Nove de Julho, que se apresentava como o ponto ideal. (…) Essa
reincidência de seis em seis anos agora parece ter sido coincidentemente com o despejo da Prefeitura
do Palacete Prates e a comemoração do 4o. Centenário da Cidade.”66
Na verdade, em fins 1951, Ferraz já havia publicado no jornal a este respeito, uma
entrevista com o arquiteto Gregori Warchavchik, autor do projeto classificado em 2o. lugar em
1939 e cuja sugestão para o “pacinho” em 1946 havia sido considerada “a mais adequada”pelo
urbanista Anhaia Mello. Nela, Warchavchik se pronunciara sobre a indefinição da Prefeitura
acerca de suas necessidades, visível na própria concepção dos técnicos municipais sobre um
projeto para o Paço:
“Pela situação presente, penso que a questão de um projeto para o Paço Municipal de São Paulo se
encontra num verdadeiro “impasse”. Depois de dois concursos para chegar a um resultado, deveríamos
acreditar que a Prefeitura acabasse por saber o que quer e do que necessita. Mas não ocorre isto: o
ante-projeto organizado pela comissão de engenheiros dos quadros da Prefeitura nos demonstra que
não se obteve o desejado. Pelo que foi publicado, estamos diante de um projeto a que falta a
monumentalidade exigida pelo Paço da cidade.”67
Para Warchavchik, na proposta municipal para o edifício, faltava o sentido de
permanência necessário ao grandioso e ao monumental em uma sede do poder público. Dado o
impasse, só havia um caminho para a sua solução: investir o máximo no estabelecimento de
uma nova concorrência de envergadura internacional, “ao alcance da grande arquitetura de
nosso tempo”, para além da esfera bairrista e mesquinha do debate, para além de projetos que
já nasciam velhos:
“Uma concorrência internacional para o Paço Municipal de São Paulo seria um apelo aos Neutra, aos
Le Corbusier, aos Gropius, aos Nervi, à equipe de Taliesin, a tantos outros grandes mestres da
arquitetura mundial. Ao lado da repercussão do acontecimento, a nossa jovem e vitoriosa arquitetura
brasileira encontraria ocasião rara de defrontar-se com a arquitetura internacional, numa prova
única”.68
O fato é que o concurso mais uma vez seria anulado e descartado o esforço dos vários
arquitetos que participaram do processo. Mas o episódio ainda renderia novos dissabores com
a entrada em cena de um projeto oferecido à Prefeitura pelo arquiteto Oscar Niemeyer.
“Por qualquer motivo que não posso hoje averiguar, o concurso foi anulado, sem se haver chegado a
um resultado favorável neste ou naquele sentido. Dias depois, recebia eu no Diário de S. Paulo, onde
assinava a seção “Arquitetura e urbanismo”, espaço cedido por Assis Chateaubriand, mas financiado
pela firma de publicidade Arco & Artusi, um convite para assistir, na Câmara Municipal de São Paulo,
à apresentação de um projeto para o Paço, pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Estavam presentes todos os
vereadores e o presidente da Câmara, não me recordo se, também, o prefeito, que nessa ocasião era
Armando de Arruda Pereira, engenheiro muito conceituado. Foi apresentado o projeto, e Oscar
Niemeyer arengou aos presentes, dizendo que aquela era sua contribuição ao problema ainda em
suspenso da construção do Paço Municipal de São Paulo. Vira os projetos apresentados, e julgava que
os arquitetos Hélio duarte e Miguel Borba haviam apresentado boas soluções. O concurso, porém,
terminara sem vencedores. Era por isso que fizera, em seu ateliê no Rio de Janeiro, o projeto que ali
submetia ao interesse da edilidade paulistana.”69.
66
G. Ferraz, “Um Paço Municipal à altura de São Paulo”, in Diário de S. Paulo, 18/9/1952.
apud G. Ferraz, “Entrevista com Warchavchik”, in Diário de S. Paulo, 21/11/1951.
68
G. Ferraz, “Um Paço Municipal à altura de São Paulo”, in Diário de S. Paulo, 18/9/1952.
69
G. Ferraz, 1983, p.156.
67
O incidente para Ferraz beirava o terreno da ética profissional. Sem contar a intromissão
pelo alto e para além do processo público da concorrência, o arquiteto carioca assegurava às
autoridades presentes que o projeto nada custaria à Prefeitura, oferecendo os seus serviços
gratuitamente. É óbvio que, tendo acompanhado de perto a construção do impasse, a solução
oferecida soava para Ferraz como uma indignidade:
“Fomos para a redação examinar o caso a nosso modo, e o que a minha coluna registrou foi a falta de
ética do arquiteto Niemeyer, que, como profissional, não poderia oferecer gratuitamente um projeto à
Prefeitura de São Paulo. Ainda mais, nas condições especialíssimas em que se dava o fato, depois de
um concurso, em que não se inscrevera, como era sempre seu feitio, Niemeyer não poderia oferecer tal
projeto. Nem que fosse uma obra de caridade, isto poderia se dar. Depois da publicação dessa nota
assinada, o projeto Niemeyer perdeu terreno e foi afastado de outras cogitações. Vários arquitetos do
IAB em São Paulo nos cumprimentaram pelo acerto daquele comentário, e nos julgamos mais do que
justificados.”70
Faltara a Niemeyer aquela compostura de mestre tão sabiamente observada por colegas
de estatura profissional comparável como um Reidy ou um Rino Levi. Algo absolutamente
inadmissível para um crítico que desde então se tornaria uma voz autorizada em matéria de
concursos de arquitetura71. Foi assim que a questão do Paço surgiu para a história como um
eterno impasse, até hoje a Prefeitura da cidade ressentindo-se de uma sede expressamente
projetada e construída para abrigá-la.
Urbanismo Arquitetônico Brasileiro: 1955 e 1956
É importante notar que justamente entre o final da década de 1940 e o início da década
de 50, Geraldo Ferraz assumira um papel de liderança no panorama arquitetônico local, seja
como contumaz combatente em prol do internacionalismo, seja como defensor entusiasta da
importância de Gregori Warchavchik, e por extensão do modernismo arquitetônico paulistano,
como o verdadeiro pioneiro da arquitetura moderna no Brasil72. A despeito dos participantes,
esta últimpa posição beirava o bairrismo, ainda que se afirmasse o contrário:
“A rivalidade nunca existiu do ponto de vista da construção, mas a questão “moderna” é uma constante
iniciada em São Paulo e não no Rio de Janeiro. (…) Não há, no período que se situa até 1930,
rivalidade entre São Paulo e Rio, mas dois desenvolvimentos diferentes. Por isso foi possível haver
arquitetura moderna “antes” em São Paulo, e “depois” no Rio, e Lúcio Costa sabe disto, pois, ao lhe
ser entregue, numa das “inspirações” do governo provisório e “revolucionário”a direção da Escola de
Belas Artes, vem a São Paulo para buscar Warchavchik para a direção da cadeira de arquitetura
“nova”, ocasião em que Reidy foi assistentes do pioneiro da arquitetura moderna”73.
Vale a pena situar alguns momentos deste debate, pois assinalam por certo dissonâncias
no entendimento e localização da perspectiva modernista em arquitetura no Brasil. A celeuma
com Lúcio Costa remonta a 1948, quando após a publicação do catálogo Arquitetura
70
Idem, ibidem, p.157.
G. Ferraz, “Deve-se, sempre, proceder a concursos de arquitetura” in Habitat, num. 26, jan. 1956, pp.23-5.
72
Nesta linha citemos, entre outros, os seguinte artigos de sua autoria: “Warchavchik e o Congresso de La
Sarraz”, in Diário de S. Paulo, 2/1/1948; “Resultados positivos e negativos na mostra de arquitetura da Bienal, in
Diário de S. Paulo, 9/12/1951.
73
G. Ferraz, “São Paulo iniciou o movimento da arquitetura moderna no Brasil"” in Diário de S. Paulo, 3/6/1952.
71
Contemporânea no Brasil74, o mestre carioca havia sido homenageado pelo seu “pioneirismo”.
Ferraz exigira o devido esclarecimento da parte do arquiteto quanto à precedência de
Warchavchik no posto75. A cobrança seria imediatamente respondida - e na coluna específica
do jornal paulistano – por Lúcio Costa que afirmará uma explicação alternativa do sucesso da
arquitetura moderna no Brasil. Se, para ele, não se tratava de questionar a obra pioneira de
Warchachik, teria sido apenas com Oscar Niemeyer que o vínculo em primeira mão com as
fontes originais do movimento moderno teriam frutificado em uma arquitetura internacional
de feição diferenciada. Quanto a Ferraz,
“compreendo a sua veemência de amigo e aprecio o seu zelo policial de guarda dessa verdade, pois do
pouco ou muito que fazemos é o que perdura; apenas lamento que a falta de informação adequada o
haja levado a umas tantas insinuações descabidas, e ao meu vezo de pretender reavivar, sem motivo,
certo ranço de bairrismo dantes justificável e natural devido à crise de crescimento, mas já agora
inconcebível numa cidade adulta como São Paulo.”76
A publicação do segundo volume do catálogo, com a inclusão da resposta de Lúcio
Costa sem menção ao contexto que lhe dera origem, e a quase indiferença do arquiteto carioca
aos eventos de São Paulo em seu depoimento sobre a Arquitetura Brasileira77, inspiraria a
nova investida do crítico paulistano sobre a interpretação histórica da arquitetura moderna
brasileira proposta desde o MEC. Reparos a Lúcio Costa, censura a Niemeyer, foi
aparentemente em meio a este debate que pela primeira vez se esboçou entre os arquitetos a
distinção fundamental entre a produção paulistana e carioca, entre a teimosia autodidata e
sistemática de arquitetos imigrantes ou formados no exterior e o luxo de exotismo e gratuidade
dos artistas nacionais à sombra das instituições estatais, explicação aliás já recorrente quanto à
pintura modernista em sua fase inaugural nas duas cidades78.
Vale assinalar que justamente naqueles anos o jornalista começara a se aproximar dos
espaços de uma crítica especializada, passando a atuar com fôlego no interior da revista
Habitat lançada em São Paulo, em fins de 1950, e dirigida pela arquiteta italiana Lina Bo
Bardi que chegara ao país em 1946. Em seu prefácio inaugural, é verdade, já se percebe um
interesse variado pela arte brasileira, pregressa e contemporânea, insuspeita de bairrismo ainda
que permeada pelo clima populista do pós-guerra, tanto na Itália quanto no Brasil:
“a beleza imaginativa de uma floresta, de uma cabana de pau-a-pique, de um pote marajoara, de uma
igreja barroca, o Aleijadinho, os ourives da Bahia, os moveleiro manuelinos do Recife, os epígonos da
missão francesa, os arquitetos do teatro de Manaus e os do Ministério da Educação e Saúdo do Rio, os
pintores caipiras e os artistas de renome, ceramistas, os gameleiros do litoral, indígenas, africanos,
descendentes de conquistadores, imigrantes, todos os que contribuíram, continuam contribuindo e
participam de alguma forma da arte no Brasil, terão as suas atividades registradas em Habitat”.79
74
Jaimovich e Graeff , 1947.
G. Ferraz, “Quem é o pioneiro da arquitetura moderna brasileira? Falta o depoimento de Lúcio Costa”, in
Diário de S. Paulo, 1/2/1948.
76
Costa, 1948.
77
Costa, 1952.
78
Machado, 1947.
79
“Prefácio”, in Habitat, São Paulo, num. 1, out.-dez. 1950. O periódico inicialmente trimestral seria dirigido por
Lina até o número 9; entre os números 10 e 13, por Flávio Motta, e com a presença da arquiteta; os números 14 e
15, seriam dirigidos por Lina e Pietro Maria Bardi. A arquiteta se afastaria da revista no número 15, em função de
seu envolvimento com o MASP.
75
A colaboração de Geraldo Ferraz na revista iniciara-se ainda em 1951, mas se
intensificaria a partir de 1955 durante a direção de Geraldo N. Serra, quando o jornalista
assumiria a chefia da redação de arquitetura. No editorial do número 25, em que se
comemorava o início do sexto ano de existência da revista, um “novo programa de trabalho”
seria expressamente assumido pelo periódico, doravante abrangendo “arquitetura, urbanismo e
artes”:
“Repensando o problema da arquitetura, deduz-se que ela se insere, com suas condicionantes mais
profundas e diretas, como organização do espaço, para os acontecimentos humanos em qualquer
escala, e em suas derivações e repercussões relacionais, no quadro mais amplo que é o do urbanismo,
como técnica e arte da organização do maior espaço. É, portanto, destas consequencias, que implicam
no conceito da planificação, da racionalização da cidade, da sua transfiguração, que estamos lançando
algumas das possibilidades de um programa.”80
E, de fato, o temário do urbanismo, se não era de todo ausente, pouco a pouco se
afirmaria no interior da revista. Sobretudo a partir de 1956, ano do concurso do Brasília. Uma
das lembranças de Geraldo Ferraz acerca do período de trabalho na revista, remete-nos
diretamente à importância que o urbanismo assumiria entre os arquitetos modernistas:
“Na revista Habitat tínhamos uma coluna de arquitetura, que fez época, enquanto muitas vezes
tratávamos dos problemas urbanísticos sem assinatura. Uma ou outra vez ali colocávamos nossas
considerações sobre arquitetura, e assim mantínhamos com o meio profissional as melhores relações,
pois nenhum crítico de arte se aventurava nesse campo, que o longo trato com o arquiteto
Warchavchik, com o ponderado Rino levi, com Cerqueira César, Eduardo Kneese de Melo, Abelardo
de Souza, Artigas, iam se modificando na linha de mais conhecimentos. Não cabe num resumo como
esta asinalar os trabalhos levados a efeito na Habitat, desde 1951, quando publiquei ali um artigo
bastante ilustrado sobre a gravura nordestina da literatura de cordel, decorrente de uma viagem que
devia ser de recreio, paralela que foi ao Congresso de Jornalistas efetuado em Recife”.81
Na verdade, desde o começo, o jornalista tinha sido responsável pela inserção das
questões de urbanismo entre os leitores de Habitat. Assim, por exemplo, o editorial do número
21 seria assinado por seu amigo Luiz de Anhaia Mello; o do número 24, pelo próprio Geraldo
Ferraz, que também neste número, publicado alguns meses depois da IV Congresso da União
Internacional de Arquitetos na Holanda, e enquanto tramitava na assembléia legislativa o
projeto de regulamentação do curso de arquitetura e urbanismo da FAUUSP, defenderia a
indissociabilidade do ensino de ambas as disciplinas:
“Pode-se dizer que há um indício de conquista ao denominar-se a Faculdade sob a designação das duas
disciplinas. Não se trata dum acaso, mas do amadurecimento de uma idéia. Recorde-se que exatamente
nesse ano [1948], ao reunir-se o primeiro Congresso da União Internacional de Arquitetos, sob o
temário geral – o arquiteto diante de suas novas tarefas – particularizava-se a abertura do debate com o
tema: “o arquiteto e o urbanismo”. Os trabalhos apresentados, discussões e conclusões levavam à idéia
de que ao ensino da arquitetura, impunha-se uma especializaçào em urbanística. Fazer arquitetura,
dizia-se, implicava atenção ao problema geral do urbanismo. Inversamente colocada a questão, para
fazer urbanismo, o arquiteto “tomará certamente o lugar preponderante nos planos de organizaçào das
aglomerações, por que se trata aí de realizações onde suas qualidades de arquiteto intervirão em tôda a
sua amplitude” (do texto final da Resolução). Quinze anos antes, a Carta de Atenas, redigida pelo
80
“6o. Ano – Novo programa de trabalho: Arquitetura, urbanismo e artes: componentes da revistas Habitat”, in
Habitat, num 25, dez. 1955.
81
Ferraz, 1983, p.158.
CIAM em 1933, mas só publicada em 1941, em plena guerra, indiretamente formulava o mesmo: “a
arquitetura é a chave de tudo”.”82
Ao mesmo tempo que intervia no debate pedagógico e profissional local, entre outras
coisas exaltando o aparecimento no interior da FAU de um Centro de Pesquisas e Estudos
Urbanísticos, o crítico cobrava a revisão das competências do arquiteto em função das
tendências contemporâneas em âmbito internacional. Para o mesmo número da revista,
traduziria e comentaria as conclusões de cada uma das comissões do IV Congresso da UIA83,
dedicado ao tema do direito à habitação, particularmente interessado no novo escopo social da
disciplina que cada vez mais aprofundava a complementariedade entre arquitetura e
urbanismo.84
Mas foi precisamente no número 25 da revista, que Geraldo Ferraz lançaria aos
arquitetos, engenheiros, urbanistas e sociólogos, “uma meditação de fim de ano”, discurso
eminentemente social acerca da questão nacional, politicamente alinhada às vésperas da posse
do novo presidente eleito Juscelino Kubitschek. A motivação imediata era o próprio
“crescimento marginal da população brasileira”, que se refletia tanto em seus níveis de vida
quanto em seus estágios de civilização. Partindo do diagnóstico pessimista de Paulo Prado, em
Retrato do Brasil, chamava-se à responsabilidade as elites econômicas, políticas e
profissionais do país, exortando-lhes um senso de realismo, um espírito de planejamento, o
desinteresse privado em nome da recuperação e fortalecimento das populações
marginalizadas:
“um novo ano se apresenta, um novo governo está à vista. Os horizontes precisam ser esclarecidos. Na
paisagem brasileira, o problema do tugurio, da habitação miserável, da falta de escolas e de hospitais,
da falta de organização dos transportes, da deficiência das fontes de energia exploradas, do saneamento
e do domínio da produção por uma produtividade qualificada, tudo isto reclama da administração, da
iniciativa privada, do meio técnico, esforços de organização e de solução. Não podemos adiar mais.”85
Decididamente, a escala do planejamento surgia em sua abrangência social máxima. Um
de seus temas preferenciais, como se percebe, tornara-se a habitação popular. Já no número
anterior um artigo sobre as realizações do Departamento de Habitação Popular da Prefeitura
do Distrito Federal exaltava como exemplares as realizações coordenadas por Afonso Eduardo
Reidy86. No número 25, Ferraz avaliaria os resultados do IX Congresso Panamericano de
Arquitetos, em Caracas, cujo temário centrara-se na “planificação integral dos espaços
urbanos”. No número 26, apareceria novo artigo sobre “Habitação para o homem de nosso
tempo”. Nele, o autor – certamente o mesmo Geraldo Ferraz – passaria em revista o despertar
crescente de uma sensibilidade para com o problema habitacional desde o V CIAM em 1937.
De Marselha à problematização regional da questão (Seminário Latino Americano sobre
Estudos Demográficos de 1955, no Rio; a publicação em 1954 pela União Panamericana do
livro “Problemas da habitação de interesse social”; os programas de cooperação técnica da
82
G. Ferraz, “Ensino de arquitetura e urbanismo”, in Habitat, num. 24, out. 1955, p.1.
Idem, ibidem, pp. 3-7.
84
Tema que seria pouco depois repisado no relato das conferências de Marcelo Roberto na Faculdade de Direito
de Santos em 1956. Cf. G. Ferraz, “Marcelo Roberto aos universitários: a Interdependência da arquitetura e do
urbanismo”, in Habitat, n. 28, mar. 1956, pp.49-50.
85
G. Ferraz, “Meditaçào de fim de ano: uma palavra a arquitetos, engenheiros, urbanistas, sociólogos”, in
Habitat, num. 25, dez. 1955, p.12.
86
G. Ferraz, “Um ensaio brilhante do Departamento de Habitação Popular”, Habitat, num. 24, out. 1955.
83
OEA como o Centro Interamericano de Habitação, criado em 1953 em Bogotá) e aos impasses
nacionais, flagrantes seja na instrumentalização dos IAPs em detrimento de suas finalidades
sociais, seja nas realizações absolutamente excepcionais, como as de Reidy.
É fato que a questão do urbanismo não surgiria simplesmente pelo discurso e prática
dos arquitetos. Prova disto é o destaque que a redação daria em 1956, aos trabalhos da
Comissão Orientadora do Plano do Município, coordenada por Anhaia Mello87, como exemplo
de encaminhamento da questão urbana para o plano regional. No entanto, é nítida a
predominância na revista dos passos àqueles anos ensaiados pelos arquitetos modernos no
campo da planificação, da habitação e do urbanismo, seja na esfera dos CIAM de Atenas/1933
a Paris/1937 e Hoddesdon/1951, seja no âmbito nacional das realizações contemporâneas. Isto
fica particularmente evidente quando examinamos a famosa série “Individualidades na história
da atual arquitetura no Brasil”, composta de 6 artigos, publicados entre março e novembro de
1956, sobre Warchavchik, Reidy, Rino Levi, M.M.M. Roberto, Lúcio Costa e Burle-Marx,
nesta seqüência. Àparte a inquestionável contribuição que representará à história da
arquitetura nova, é sintomática a atenção dedicada ao percurso dos arquitetos pelo urbanismo.
Se no primeiro deles, sobre Warchavchik, tratava-se mais uma vez de reforçar o argumento do
pioneirismo88, já no segundo, sobre Afonso Eduardo Reidy, a questão habitacional e urbana
ganharia enorme destaque:
“Há em Reidy uma dupla constante, que não se observa em outros arquitetos que logo depois
passariam a fazer parte do grupo do Rio, de arquitetos modernos. Essa feição, mais do que o evidente
pioneirismo de sua atuação, é que queremos frisar nessa introdução à sua biografia. Affonso Eduardo
Reidy é de fato, por circunstâncias especiais que se cruzaram sôbre a sua formação, e, posteriormente,
sobre a sua carreira, um dos arquitetos brasileiros predispostos à enquadração urbanística da
arquitetura e, por outro lado, devotado á feição social da arquitetura e do urbanismo”89.
Avesso aos exibicionismos de forma, nele predominava a relevância do fato urbanístico
e do fim social da arquitetura. Desde cedo, a sua experiência ao lado de Agache no plano do
Rio de Janeiro e o despertar de um projeto social no Albergue da Boa Vontade conduziriam a
Pedregulho e Gávea, ao Plano da Cidade e à Urbanização do Morro de Santo Antônio, ao
“urbanista e sociólogo aplicado a soluções arquitetônicas”. Um urbanismo arquitetônico nele
encontraria o seu melhor representante. Vale destacar o trecho em que Geraldo Ferraz se
detêm no projeto para a esplanada do morro:
“O Projeto de Urbanização do Morro de Santo Antônio cujo atêrro, incorporado ao centro do Rio de
Janeiro, deveria servir para estabelecer um espaço em que a construção fosse inteiramente favorecida
por uma libertação do terreno. Esse projeto, de 1949, realiza exatamente o oposto do quarteirão
Serrador de 1929… Não despreza, antes preconiza a arquitetura vertical, mas localizada em amplo
espaço aberto a uma circulação livre, constituiria um “core” para o Rio de Janeiro. A Urbanizaçào do
Atêrro do Morro Santo Antônio estabelece na obra de Reidy uma nova etapa: o antigo estudante
auxiliar de Alfred Agache, coloca em pleno centro do Rio de Janeiro uma exemplificação da cidade
futura. Os blocos verticais criam um conjunto de edifícios monumentalmente projetados para
assinalarem o “coração da cidade”.”90
87
A Redação, “Urbanismo: rumo à planificação em escala estadual”, in Habitat, num. 30, mai. 1956, p. 29.
G. Ferraz, “Individualidade na História da Atual Arquitetura no Brasil I - Gregori Warchavchik”, in Habitat,
num. 28, mar. 1956, pp. 40-8.
89
G. Ferraz, “Individualidade na História da Atual Arquitetura no Brasil II – Affonso Eduardo Reidy”, in
Habitat, num. 29, abr. 1956, pp.38-55.
90
Idem, ibidem, p.46.
88
Mesmo no caso de Rino Levi, que não se destacaria propriamente por sua prática
urbanística, Ferraz faria questão de incluir todo o conteúdo da carta de 1925, “a arquitetura e a
estética das cidades”, como prova de uma tendência no arquiteto para a urbanização, que então
já se poderia entrever em projetos arquitetônicos como a casa da fazenda Olivio Gomes, os
planos para os dormitórios da Cidade Universitária ou para o conjunto residencial de São José
dos Campos91. Tanto mais quanto no caso dos irmãos Roberto, em quem se descortinava uma
mentalidade de planejamento pelo crivo da arquitetura, ou seja, como obra de harmonização
de espaço. Na prática, a inclinação era manifesta em seu trabalho de planejamento de
balneários como Grumarim, Angra dos Reis ou Cabo Frio-Buzios, como “urbanismo
praticado”:
“Ao longo das centenas de projetos realizado, estes é o mais importante. Êle compendia um
planejamento amplamente servido pela pesquisa minuciosa: a arquitetura brasileira contemporânea
chega aqui a um dos seus grandes objetivos: desembocar num urbanismo”.92
É verdade que os dois últimos artigos da série, sobre Lúcio Costa e Roberto Burle
Marx, pouco acrescentarão à preocupação urbanística que o crítico vê presente entre os
modernos. Quanto a Lúcio Costa, a expressão – ambígüa, vimos o porquê – de reverência, ao
lado de uma ênfase em seu pendor para a história e a paisagem, parecem sombrear qualquer
ponderação quanto ao assunto. Nem mesmo quanto a Gamboa, ao ante-projeto para
Monlevade, ao Parque Guinle nem ao Ministério, apenas referindo-se a uma passagem dos
próprios autores do projeto a respeito das vantagens urbanísticas da implantação deste último
prédio na quadra para a criação da grande esplanada cívico-cultural93. Quanto a Burle Marx, a
referência a uma vaga dimensão urbanística do paisagismo, patente seja na organização dos
canteiros e promenades, praças e parques, seja no grande espaço verde como “moldura
adequada”, “complemento natural” ao “quadro mais amplo do núcleo das atividades
humanas”94.
O debate, porém, surgirá com toda a ênfase tão logo o concurso de Brasília entrasse em
pauta. “Logo nos vimos envolvidos com a campanha de Brasília”. Nas próprias páginas de
Habitat, Geraldo Ferraz seria dos primeiros a se posicionar criticamente quanto ao curso
oficial da iniciativa. No editorial 35, de outubro de 1956, no mesmo número dedicado a Lúcio
Costa, já se observa um monitoramento do processo pela revista. Lançado em 19 de setembro
daquele ano, o edital do concurso nacional para o Plano Piloto se completava à lei específica
sobre a transferência da capital federal que instituíra a Companhia Urbanizadora. Se não se
podia mais levantar a questão da política da transferência, a discussão de suas implicações
arquitetônicas e urbanísticas vinha à tona, donde a premência de se discutir o edital. Em
primeiro lugar, indagava o periódico, “a que visa o Plano Piloto?”:
91
Idem, “Individualidade na História da Atual Arquitetura no Brasil III – Rino Levi”, in Habitat, num. 30, mai.
1956, pp.34-49.
92
Idem, “Individualidade na História da Atual Arquitetura no Brasil IV – M.M.M. Roberto”, in Habitat, num. 31,
jun. 1956, p. 66.
93
Idem, “Individualidade na História da Atual Arquitetura no Brasil V – Lúcio Costa”, in Habitat, num. 35, out.
1956, pp.28-43.
94
Idem, “Individualidade na História da Atual Arquitetura no Brasil VI – Roberto Burle Marx”, in Habitat, num.
31, jun. 1956, p.12-24.
“O plano piloto se limita, primeiro à proteção urbanística da cidade. Faz o edital nítida separação entre
o “traçado básico da cidade” e o “planejamento de edifícios”, invertendo, pois, o que sempre aconteceu
no país, ou seja, que a arquitetura, surgindo, exigia condições urbanísticas nào existentes. Aqui, o
urbanismo precede separadamente qualquer projeto arquitetônico, sendo funçào do Plano Piloto as
previsões zoneadoras, de abastecimento e circulação ao desenvolvimento da nova cidade, numa
harmonização de relações urbanas, rurais e industriais, sôbre um campo inteiramente virgem, embora
conhecido pela prospecção técnica já efetuada. A Comissão de Planejamento considera que “o
planejamento de edifícios escapa ao âmbito deste concurso” e assim “decidiu que os projetos dos
futuros edifícios públicos serão objeto de deliberações posteriores, a critério desta Comissão”.95
Para o editor, além da dimensão das expectativas, desproporcional em relação ao grau de
especialização em urbanismo no país e ao curto prazo oferecido pelo governo aos candidatos,
em todo caso inferior ao que o IAB recomendava96, no edital havia brechas para a
interferência direta da Companhia Urbanizadora no desenvolvimento da proposta selecionada.
Em dezembro, Geraldo Ferraz tomaria a palavra para testemunhar pessoalmente contra
as incongruências do processo: algumas construções estavam sendo encaminhadas na cidade
antes mesmo da apresentação das propostas urbanísticas ao juri; o diretor do Departamento de
Arquitetura e Urbanismo da Companhia Urbanizadora da nova capital, o arquiteto Oscar
Niemeyer, vinha projetando para a cidade uma série de edifícios públicos, um palácio, uma
igreja e um centro cívico; além de ferir uma cláusula do edital, que supunha a anterioridade do
plano em relação às construções, para surpresa do crítico os projetos haviam sido
desenvolvidos antes mesmo da criação da Companhia, ou seja, antes mesmo do acionamento
do processo do concurso. A informação, conforme escreveu em suas memórias, chegara a ele
através do amigo Burle Marx, a quem visitara em setembro de 56:
“Burle Marx, que tinha a maior intimidade comigo perguntou-me se eu sabia da arquitetura de
Brasília… Como eu nada sabia, ele me contou que, na véspera [da publicação do edital], quinta-feira,
for a chamado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, e este lhe mostrara alguns projetos inclusive da Praça
dos Três Poderes, pedindo a Burle-Marx que colaborasse, projetando jardins para Brasília. “Pois, disse
eu a Burle Marx, então anda maroteira nisso, porque um dos últimos ítens do edital diz que os projetos
arquitetônicos serão objeto de outro edital.”97
A manipulação parecia óbvia. O próprio edital, redigido no Instituto de Arquitetos do
Brasil, no Rio de Janeiro, havia sido deturpado em sua publicação e o protesto de seus
diretores, amortecido pela eleição de uma nova diretoria aliada de Niemeyer. Pior: se era até
compreensível que o arquiteto se isentasse do concurso, era inadmissível que um outro
arquiteto, seu “admirador incondicional”, o mestre Lúcio Costa, inscrito no concurso do Plano
Piloto, tivesse acesso privilegiado aos projetos. Problemático, ademais, que na composição do
juri predominasse a “logística” de um de seus membros, o próprio Niemeyer. Nada a estranhar
que Afonso Eduardo Reidy não se inscrevesse no concurso por discordar de sua organização98.
“Esses incidentes culminariam logo diante do concurso do Plano Piloto, com a decisão favorável ao
arquiteto Lúcio Costa, após uma competição internacional que não ficou bem para o Brasil. Nem no
memorial do Plano Piloto se colocou a questão essencial contra a exploração imobiliária, a saber, de
que o solo urbano pertence à municipalidade e não pode ser vendido, mas arrendado, para os usos
estabelecidos no zoneamento. (…) Assim se fez Brasília… Um negócio rendoso, entregue por
95
“Construção da nova cidade: Brasília”, in Habitat, num. 35, out. 1956.
G. Ferraz, “Deve-se, sempre, proceder a concursos de arquitetura”, in Habitat, num. 26, jun. 1956, pp.23-5.
97
G. Ferraz, 1983, p.159.
98
Idem, “Construção da nova capital Brasília”, in Habitat, num. 37, dez. 1956, p.32.
96
antecipação a um só arquiteto, que teve o monopólio dos projetos. (…) E como não houve
planejamento regional para nele se inserir Brasília, ali se deu o fenômeno mais virulento da
proliferação da favela.”99
A indisposição do crítico com a solução para Brasília é evidente. Somada à censura
antes formulada por Ferraz à proposta de Niemeyer para o Paço Municipal de São Paulo, por
pouco a denúncia não chegou ao pugilato em um incidente de rua entre os dois membros do
recém-empossado Conselho Federal de Cultura na nova capital em 1961.
Uma perspectiva crítica
Não deixa de ser intrigante o percurso do autodidata em jornalismo e crítica de arte rumo
a certo protagonismo na cena arquitetônica brasileira pré-Brasília. De fato, a sua trajetória
assinala uma perspectiva singular de enfrentamento das questões de arquitetura e urbanismo.
Ao longo dos anos, Ferraz foi dos primeiros a propor aqui no Brasil a interdependência entre
os dois campos; mais do que isso, foi dos únicos a propor uma dimensão urbanística própria à
arquitetura moderna sem desconsiderar a importância do ponto de vista dos engenheiros.
crítico é responsável por uma das interpretações mais eficazes acerca da nova arquitetura no
Brasil, contribuindo para inscrevê-la na história como um dos principais momentos de
realização da cultura brasileira. Contudo, o seu maior feito para além da crescente
especialização acadêmica e profissional Em meio às controvérsias que animam o debate
contemporâneo uma dignidade pública da matéria urbanística em detrimento de sua
especialização acadêmica e profissional. Se a arquitetura é a arte social por excelência, o
urbanismo tem aqui um relevo cultural suficiente para interessar um público bem maior que o
de especialista.
Mas qual é precisamente o ponto de vista que o situa no debate urbanístico? Em
primeiro lugar, ele é tributário do radicalismo demolidor das vanguardas. É via Le Corbusier
que Ferraz se aproxima da questão urbana. Um Le Corbusier, contudo, que lhe chega não
pelas vias do urbanismo, mas que ecoa um contato muito intenso com o modernismo e a
arquitetura moderna em São Paulo. Por um lado, através da Revista de Ocidente, de Esprit
Nouveau, dos colaboradores da Revista do Brasil, Terra Roxa e outras terras ou de Festa,
quase todos reunidos no ambiente cultural dos salões paulistas do modernismo; por outro,
através de Gregori Warchavchik e Flávio de Carvalho, que lhe despertam para esta dimensão
revolucionária da arquitetura nova, o que incluía também uma preocupação pioneira dos
arquitetos com a cidade.
Mas o contato do jornalista com as proposições de Le Corbusier para a cidade situam-se
também no horizonte de proselismo que cercava a afirmação do urbanismo moderno em São
Paulo. Ou seja, trata-se aqui de um Le Corbusier traduzido pelos termos do debate local acerca
do Plano de Avenidas. Afinal, se considerarmos o que Ferraz nos informa em sua
autobiografia, o contato com a sua obra teria passado principalmente pelos escritos de arte e
aquitetura – La Peinture Moderne, Vers une Architecture, L’Art Decoratif d’Aujourd’hui,
Une Maison – Un Palais. Ou seja, menos bem informado sobre urbanismo modernista que
sobre arquitetura moderna, este jornalista, cuja vocação para a crítica e a informação de arte
havia sido recentemente descoberta pelos modernistas da cidade (em um meio ainda pobre de
jornalistas profissionais disponíveis ao novo credo), deixara-se permear pelo meio urbanístico
99
Idem, 1983, pp.159-60.
local, que por volta de 1929 parecia mesmo gravitar em torno dos debates sobre zoneamento e
código de obras, sistemas de transporte e sistemas viários, o planejamento de conjunto da
expansão da cidade ou a preservação de padrões mínimos de habitação e vizinhança. O fato é
que a agenda urbanística paulistana não apenas cativou o visitante ilustre, que entre políticos,
intelectuais e artistas encontrou em seu auditório uma elite bem aguerrida de engenheiros
urbanistas, entre os quais Ulhôa Cinta, Prestes Maia, Gofredo Silva Telles e Luiz de Anhaia
Mello. Muito provavelmente o seu discurso não trouxe nada de novo aos politécnicos, em
geral impermeáveis aos movimentos de vanguarda a que Le Corbusier se filiava. No entanto,
para Ferraz, é provável que as idéias de Le Corbusier tenham se deixado entremear por sua
aproximação simultânea com os engenheiros, e particularmente com Anhaia.
Mas o que exatamente teria restado de Le Corbusier neste insólito convívio com Anhaia
Mello no repertório do crítico? Ainda é necessário examinar mais detidamente a ressonância
das conferências de Anhaia nos artigos e entrevistas sobre urbanismo publicados por Ferraz no
Diário Noite a partir de 1929/30. No entanto, é possível pensar em pelo menos dois sentidos
por meio dos quais este precoce convívio com os problemas de urbanismo teriam frutificado
em sua atividade jornalística. De uma parte, Anhaia está presente no próprio entendimento do
papel cívico, político e pedagógico da discussão pública e bem informada em matéria de
urbanismo, donde encontrarmos desde cedo no jornalista menos a informação militante –
típica do modernista da Revista de Antropofagia ou do socialista de O Homem Livre – que o
investimento na formação de uma opinião mais refletida e, pretensamente, mais influente
sobre as propostas e perspectivas de urbanismo e urbanização. De outra parte, a dobradinha
profissional entre o jornalista e o urbanista é o que fornece a Ferraz um critério regional e
metropolitano para o planejamento, que ora lhe previne da escala então colocada para o plano
da cidade ora lhe assegura uma aproximação da técnica e da arte com relação às dimensões
sociais e econômicas envolvidas na disciplina.
Curiosamente, esta inflexão rumo ao enfoque politécnico do urbanismo não irá impedílo de recorrer aos princípios dos CIAM. Muito ao contrário, em Anhaia Mello, Geraldo Ferraz
vai encontrar a gênese de uma abordagem diferenciada do urbanismo de algum modo
conciliável com a arquitetura moderna. Cada vez mais irredutível aos limites disciplinares
peculiares à formação do engenheiro, para ele o urbanismo tenderá ao que na arquitetura a
predispõe para as artes e as humanidades. Por isso, talvez, as preocupações de Ferraz oscilarão
entre a escala do plano macro-urbano e a escala do desenho do objeto aquitetônico; em outras
palavras, entre plano regional e projeto urbano, o urbanismo parecia encaminhar-se com ele
para uma arte do social ou uma sociologia aplicada.
É interessante percebermos como esta dupla pertinência do objeto urbanístico está
inscrita nas polêmicas em que o crítico embarcaria anos depois. Em primeiro lugar, o
problema do Paço Municipal, no qual o crítico se defronta pela primeira vez com o urbanismo
pelo prisma do projeto, de um lado enquanto concepção expressiva de uma praça cívica, de
outro enquanto uma questão de inserção na cidade, no seu tecido tradicional e nos sistemas
propostos para a circulação e integração viária. Não é irrelevante que no concurso de 1939
novamente ele se depare com seus heróis, Warchavchik e Carvalho, e que no concurso de
1952 ele ensaie, no campo da ética profissional e pelo crivo do IAB-SP, um primeiro embate
com a escola carioca de arquitetura, em particular com Oscar Niemeyer. Para além do
conteúdo das propostas então apresentadas para o Paço, o que se vê nestes momentos é o
alinhamento do crítico em favor de um urbanismo arquitetônico consciente das dimensões
representativas do desenho de espaços públicos e intervenções em áreas centrais conforme um
plano controlado de expansão e integração da cidade, no primeiro momento o de Prestes Maia,
no segundo, o de Anhaia.
Em segundo lugar, o problem Brasília. Desde 1948, Ferraz é o principal formulador da
tese do pioneirismo de Warchavchik em arquitetura, de um lado, exprimindo a vocação de
uma cidade para o futuro e, por extensão, para o moderno; de outro, reafirmando um ethos
desbravador do paulista às vésperas do IV Centenário de São Paulo. Vale lembrar também que
no início da década de 1950, a passagem do jornal para a revista especializada, se de um lado
repercutem uma clara institucionalização da vida arquitetônica local, com a criação do IAB e
das FAU de São Paulo, por outro assinalam uma atenção especial do crítico para as questões
de formação e exercício profissional. É nesta perspectiva que passa a escrever na revista
Habitat a sua série sobre os arquitetos modernos, sintomaticamente, sobre as
“individualidades” históricas na arquitetura brasileira, da qual a contribuição de Oscar
Niemeyer está simplesmente excluída. Neste periódico de claro realinhamento crítico antiformalista, Ferraz enfatizará precisamente um sentido social e urbanístico da arquitetura: em
toda arquitetura, um urbanismo; em todo bom urbanismo, uma base para a boa arquitetura. É
nesta perspectiva que polemiza também sobre o concurso de Brasília, nele acusando ao mesmo
tempo as irregularidades do processo público e sua contraditória inversão dos papéis
respectivos da arquitetura e do urbanismo. Se aqui intervêm os desdobramentos dos CIAM
rumo à Unité d’Habitation e ao Heart of The City, isto é, à escala propriamente projetual da
cidade funcional, Geraldo Ferraz não perderá de vista as lições de Anhaia. De um lado, é o
publicista que fala, bem informado e ousado do andamento do concurso; de outro, é o crítico
que condena no seu resultado a ausência de critério regional em um plano piloto elaborado
também com objetivos de integração nacional, regionalismo que muito além da forma
simbólica antes deveria passar pela especificidade latino-americana, isto é, pela questão da
marginalidade do continente no desenvolvimento do capitalismo, pelo enfrentamento decidido
da questão social pelo Estado.
Da afirmação do modernismo nos anos 20 à consagração da arquitetura moderna nos
anos 50, o momento Brasília surge então como interrupção de um projeto de modernização:
nem pioneirismo, nem atualização; nem integração, nem desenvolvimento. Ao invés de
reforçar os nexos entre arquitetura, urbanismo e sociedade, a nova capital punha a nu as
vicissitudes do processo de modernização do país.
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