DOSAGEM DE MISTURAS ASFÁLTICAS RECICLADAS A FRIO COM EMULSÃO
ASFÁLTICA E CIMENTO PORTLAND
Iuri Sidney Bessa
Letícia Rezende de Almeida
Kamilla L. Vasconcelos
Liedi Légi Bariani Bernucci
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
Laboratório de Tecnologia de Pavimentação
Amanda Helena Marcandali da Silva
José Mario Chaves
Centro de Desenvolvimento Tecnológico
Arteris
RESUMO
Na área da engenharia rodoviária, existe um aumento constante da demanda de matéria prima para a construção
de novas obras e para a manutenção de obras já existentes. Devido a isso, os recursos naturais têm se tornado
cada vez mais escassos, e o desenvolvimento de novas técnicas e o uso de novos materiais que têm o objetivo de
diminuir a exploração da natureza se tornam essenciais. Entre os materiais alternativos que vêm sendo utilizados
em diversas pesquisas, pode-se destacar o uso do material fresado, também conhecido como RAP (Reclaimed
Asphalt Pavement). O uso desse insumo tem crescido ao longo dos últimos anos em diversos tipos de misturas
asfálticas, devido a seus benefícios econômicos e ambientais. Apesar de todas as suas vantagens e do seu
crescente uso em obras rodoviárias, ainda não existe uma metodologia de dosagem, internacionalmente aceita, de
misturas a frio compostas por materiais reciclados. Sendo assim, este trabalho tem como objetivo principal
realizar a dosagem desse tipo de mistura, com a adição de cimento, através do ensaio de compactação Proctor,
apresentando os procedimentos necessários para definição dos teores ‘ótimos’ de água e de emulsão asfáltica. Os
resultados mostram que, no geral, a variação no teor de umidade não altera muito os valores de massa específica
das misturas. Em relação à propriedade mecânica de resistência à compressão simples, não houve alteração
significativa com a variação no teor de emulsão, porém a variação no teor de cimento trouxe diferenças nos
resultados. As misturas produzidas sem cimento tiveram valores muito inferiores para essa propriedade.
Palavras-chave: Misturas Asfálticas Recicladas a Frio, Fresagem de Revestimentos Asfálticos, Dosagem,
Emulsão Asfáltica, Cimento Portland.
ABSTRACT
In the pavement engineering practice, there is a constant increase in the use of raw materials for new
constructions and for the rehabilitation projects. Due to that, natural resources have become scarcer, increasing
the necessity of new techniques development with the use of alternative materials, in order to decrease the
exploration of the natural resources. Among the alternative materials that have been used, there is the
Reclaimed Asphalt Pavement (RAP), produced from the milling operations of deteriorated asphalt surface
courses. The use of RAP has increased along the past years for different types of asphalt mixes production, due
to its economical and environmental benefits. Despite all its advantages and its increasing use on pavement
projects, there is still lack of consensus on the best methodology to design cold recycled mixes. Therefore, this
paper aims to evaluate the design of this type of mix through the Proctor compaction method, presenting the
procedures necessary to obtain the ‘optimum’ moisture and emulsion contents. The results show that in general
the variation of moisture content does not influence much on the density values of the mixes produced. In
relation to the mechanical property of compressive strength there was no significant effect of changing the
emulsion content, however cement content influenced the results. Mixes produced with no cement had very low
resistance.
Keywords: Cold Recycled Asphalt Mixes, Asphalt Mixes Milling, Mix Design, Asphalt Emulsion, Portland
Cement.
1. INTRODUÇÃO
Devido ao crescimento constante das diversas áreas da engenharia nos últimos anos, a
exploração de recursos da natureza acaba trazendo consequências negativas para o meio
ambiente. Entre os principais problemas que podem ser ocasionados por causa das atividades
que envolvem obras de engenharia, estão a escassez dos materiais utilizados e o despejo de
resíduos ambientais de forma inadequada na natureza. A área da pavimentação asfáltica
explora, entre outros, jazidas e pedreiras, além do petróleo, e, especialmente por esses
motivos, tem tentado apresentar técnicas de aproveitamento de materiais que seriam
descartados, além da reciclagem de materiais antigos que inicialmente não teriam mais
utilidade. Isso tudo é capaz de trazer benefícios tanto a nível ambiental, como a nível
econômico e técnico.
Um dos principais materiais sustentáveis que vêm sendo usados na pavimentação asfáltica nos
últimos anos é o fresado, mundialmente conhecido como RAP (Reclaimed Asphalt
Pavement), material reciclado de pavimentos antigos e deteriorados que pode ser utilizado
como agregado a ser reincorporado a uma mistura asfáltica para a produção de pavimentos
novos. Uma das técnicas que podem ser utilizadas para o aproveitamento desse tipo de
material é a produção de misturas asfálticas a frio constituídas de fresado misturado à emulsão
asfáltica, com a adição de cimento como tentativa de melhorar as propriedades mecânicas da
mistura em um curto prazo, mantendo sua flexibilidade no longo prazo. Essa técnica, além de
dar um fim apropriado ao material reciclado, também é capaz de reduzir o consumo de
energia na restauração de pavimentos. Apesar de todas as vantagens e de seu uso comum nos
dias de hoje pelo meio técnico, o projeto de misturas asfálticas recicladas a frio não possui
uma metodologia padrão, que seja reconhecida e aceita internacionalmente.
Este trabalho tem como principal objetivo avaliar o procedimento de dosagem de misturas
asfálticas recicladas a frio, na tentativa de se obter os teores ótimos de água, de emulsão
asfáltica e de cimento, que irão compor essas misturas. Nesta etapa da pesquisa, foi utilizada a
metodologia do ensaio de compactação Proctor. As misturas dosadas tiveram seu teor de
emulsão variando entre 2, 3 e 4%; o teor de cimento variando em 0, 1 e 2%; além da variação
na temperatura de cura de algumas amostras compactadas. Para a dosagem, foi variado
também o teor de umidade para cada tipo de mistura produzida.
2. O USO DE MISTURAS RECICLADAS A FRIO
As técnicas de reciclagem a frio não são novas e vêm sendo amplamente utilizadas há algum
tempo, sendo responsáveis por diminuir a exploração de fontes de materiais pétreos, o
consumo de energia, os próprios custos e as possíveis consequências do depósito inadequado
dos materiais não reciclados (Ameri et al., 2012). No Brasil, os primeiros registros do uso de
reciclagem datam da década de 1960, na cidade do Rio de Janeiro (Castro, 2003).
Segundo Kavussi e Modarres (2010), a emulsão adicionada à mistura reciclada é responsável
por formar ligações flexíveis entre o RAP, o que resulta em uma maior coesão e uma elevada
resistência à deformação permanente. Nos estudos desses autores, foram obtidas misturas que,
mesmo sem a adição de cimento, apresentaram uma massa específica crescente com o
aumento do teor de emulsão. No entanto, segundo Martínez et al. (2007), os parâmetros
relativos à massa específica e à resistência do material aumentam até certo valor de teor
emulsão. A partir desse teor, uma queda começa a ser observada. Dadas essas características
que resultam da adição de emulsão em misturas recicladas, diferentes procedimentos podem
ser adotados para determinar o seu teor ótimo, dependendo do parâmetro de análise utilizado.
2.1. Adição de cimento em misturas recicladas a frio
De acordo com Recasens et al. (2000), a adição de cimento em misturas asfálticas recicladas
com emulsão se dá com o propósito de fornecer uma rigidez mais elevada a essas misturas. O
uso dessa combinação é capaz ainda de fornecer alguma flexibilidade a misturas que
contenham apenas cimento em sua composição. Esses autores realizaram um estudo com
cinco misturas, uma contendo apenas emulsão, duas contendo apenas cimento em teores
variados, e duas com uma mistura dos dois materiais. Ensaios de Resistência à Compressão
Simples (RCS) mostraram que, com cura de 7 dias, as misturas se comportaram de maneira
muito parecida, porém com cura prolongada de 60 e 90 dias, as misturas contendo apenas
cimento se comportaram melhor em relação a esse ensaio.
Taha et al. (2002) produziram misturas recicladas com diferentes teores de cimento, variando
entre 3, 5 e 7%, para o uso como materiais de base e concluíram que, quanto maior o teor,
maior o teor de umidade e maior a massa específica aparente das amostras. Em relação às
características mecânicas, ensaios de resistência à compressão simples indicaram que as
misturas com maior teor de cimento geraram melhores resultados, especialmente quando o
tempo de cura chegava a 28 dias.
2.2. Efeito da temperatura e do tempo de cura
Chelelgo (2010) estudou misturas recicladas a frio variando a temperatura de cura em três
diferentes processos: cura a 35°C, cura alternada em 29 e 37°C, e cura alternada em 34 e
44°C. Essa cura alternada tentou representar os picos de temperaturas que ocorrem em regiões
temperadas e tropicais, respectivamente. Ensaios de módulo de rigidez mostraram que as
misturas curadas com o ciclo de temperaturas mais elevado tiveram resultados melhores. Em
relação à fadiga, essas mesmas misturas tiveram menor resistência ao dano.
Kavussi e Modarres (2010) analisaram misturas recicladas a frio com cimento e emulsão
asfáltica através de ensaios de Resistência à Tração (RT) e Módulo de Resiliência (MR). Seus
resultados indicaram que, à medida que o tempo de cura aumenta, chegando até 120 dias, os
valores para essas propriedades também aumenta, chegando a dobrar em alguns casos,
melhorando assim o comportamento mecânico das misturas.
2.3. Procedimentos de dosagem de misturas recicladas com cimento e emulsão
Em relação à dosagem de misturas recicladas com emulsão, diferentes métodos de
compactação e ensaios podem ser utilizados para a determinação dos teores ótimos de
emulsão e de umidade. Baker et al. (2000) utilizaram o ensaio de compactação Proctor,
através da energia modificada, para determinar a curva de massa específica versus teor de
umidade. Martínez et al. (2007) comparam esse método com outros métodos de compactação
(Marshall e compactação estática) com a finalidade de encontrar a massa específica que mais
se aproximava daquela encontrada em campo. Além disso, utilizaram o compactador
giratório, variando o ângulo de compactação entre 0,5, 1,25 e 2,0° e a pressão entre 0,3, 0,6 e
0,9MPa, com a mesma finalidade. Determinado o teor de umidade ótimo relativo à massa
específica desejada, o ensaio de compressão simples condicionado foi aplicado para
determinar os teores ótimos de emulsão.
Lee e Kim (2003) compararam os métodos de compactação Marshall e através do
compactador giratório, chegando à conclusão de que, com 75 golpes por face e 25 giros,
respectivamente, as densidades obtidas eram semelhantes. Kim e Lee (2012) adotaram uma
umidade ótima de 3%, foi utilizado o ensaio de resistência à tração indireta a fim de comparar
amostras com 0,5, 1,0, 1,5 e 2,0% de emulsão. Com esse ensaio, foi possível achar os valores
ótimos de emulsão, que foram diferentes para os dois métodos de compactação utilizados.
Kavussi e Modarres (2010) utilizaram o método de compactação Marshall com energia
modificada e 50 golpes por face. Em seu procedimento de dosagem, as misturas foram
inicialmente compactadas sem a adição de cimento, e com umidade de 3%, variando-se o teor
de emulsão entre 2,5 e 4,5%. As amostras foram então submetidas ao ensaio de estabilidade
Marshall, e, em seguida, foi selecionado um teor ótimo de emulsão de 4%. Após essa etapa,
amostras com diferentes teores de cimento (1, 2 e 3%) foram compactadas no teor ótimo de
emulsão, para que o teor ótimo de umidade fosse selecionado com base nos valores de volume
de vazios, nos resultados do ensaio de estabilidade Marshall e nos valores de densidade
aparente. Para misturas com 3% de cimento e 4% de emulsão, foi obtido um teor ótimo de
umidade de 5,5%.
3. DOSAGEM DAS MISTURAS RECICLADAS
A dosagem através da compactação Proctor foi realizada neste estudo com o objetivo de se
verificar possíveis diferenças entre misturas compostas por teores variáveis de emulsão,
cimento e água. Inicialmente foi realizada a produção de misturas com 2, 3 e 4% de emulsão
asfáltica polimerizada do tipo RR-2C-E, e 1% de cimento (CP II), com processo de cura em
estufa a 25°C durante 7 dias. Em seguida, decidiu-se variar a temperatura de cura,
aumentando-a para 40°C. Por fim, variou-se a quantidade de cimento. Misturas com 2% de
cimento e sem cimento foram então produzidas para analisar a influência do teor desse
componente nas propriedades das amostras produzidas.
Para a realização do ensaio no compactador Proctor, foram produzidos Corpos de Prova (CPs)
de dimensões de 10cm × 20cm (diâmetro × altura), através do uso da energia modificada, com
aplicação de 26 golpes por camada, em um total de 8 camadas. O teor de água foi variado a
fim de se obter a curva de compactação. Como a emulsão asfáltica já continha certa
quantidade de água em sua composição, foi realizado um ensaio para determinar qual seria
essa quantidade. O resultado obtido foi de aproximadamente 38%. Após a cura, cada CP foi
levado à prensa para a realização do ensaio de RCS. A Figura 1 apresenta um exemplo de CP
compactado e durante o ensaio.
Figura 1 – Corpo de prova: (a) compactado e (b) durante o ensaio de RCS
3.1. Variação do teor de emulsão
A primeira etapa do estudo envolveu a dosagem das misturas recicladas variando-se o teor de
emulsão, porém mantendo o teor de cimento e a cura por 7 dias a temperatura de 25°C. As
curvas de compactação obtidas na dosagem são apresentadas na Figura 2.
2,015
2% de emulsão
3% de emulsão
4% de emulsão
ρaparente (g/cm³)
2,005
1,995
1,985
1,975
1,965
1,955
2,0
3,0
4,0
5,0
Teor de água (%)
6,0
7,0
8,0
Figura 2 – Curvas de compactação para as misturas com teor de emulsão variável
Através do gráfico, é possível perceber que a mistura constituída de 2% de emulsão asfáltica
gerou CPs com menores valores de massa específica aparente (ρaparente), enquanto que a
mistura com 3% de emulsão levou à produção de CPs com valores mais elevados desse
parâmetro. Para um mesmo teor de emulsão, não se pode dizer que há uma diferença elevada
nos valores de massa específica aparente das amostras. Dentro de um mesmo grupo de
amostras, a diferença entre as massas específicas foi muito pequena, evidenciando uma
semelhança em relação a suas propriedades volumétricas. Para as misturas com 3% de
emulsão, por exemplo, a variação entre o menor e o maior valor de massa específica aparente
obtida foi de apenas 0,024g/cm³, o que corresponde a aproximadamente 35g de material.
Em relação ao teor ótimo de umidade, o valor tende a diminuir levemente com o aumento do
teor de emulsão. Para a mistura com 2% de emulsão, o teor ótimo de umidade seria de
aproximadamente 6,2%, para a mistura com 3% de emulsão, seria 5,5% e, por fim, para a
mistura com 4% de emulsão, o teor seria de 5,3%. Após as dosagens e o período de cura, cada
um dos CPs produzidos foi submetido ao ensaio de RCS. Os resultados obtidos são
apresentados na Figura 3.
0,5
0,5
2% de emulsão
3% de emulsão
0,4
RCS (MPa)
RCS (MPa)
0,4
0,3
0,2
0,1
0,3
0,2
0,1
0,0
0,0
5,0
5,5
6,0
Teor de água (%)
(a) 2% de emulsão
7,0
3,5
4,5
5,5
6,5
Teor de água (%)
(b) 3% de emulsão
7,5
0,5
RCS (MPa)
0,4
4% de emulsão
0,3
0,2
0,1
0,0
3,0
4,0
5,0
6,0
Teor de água (%)
7,0
(c) 4% de emulsão
Figura 3 – Valores de RCS para as misturas com variação de teor de emulsão
Os gráficos indicam que, no geral, a variação da quantidade de água em misturas com mesmo
teor de emulsão não alterou muito os valores de RCS (no máximo 33%). Também se pode
concluir que, à medida que se aumenta o teor de emulsão nas misturas, o valor de RCS tende
a diminuir. Vale ressaltar que os valores de massa específica aparente para os CPs produzidos
com 2% de emulsão foram mais baixos do que aqueles para os CPs dos demais teores. Para as
misturas com 2 e 3% de emulsão, os valores mais elevados de RCS foram obtidos para
aqueles CPs com teor de umidade próxima do teor ótimo, porém, para a mistura com 4% de
emulsão, isso não pôde ser observado.
3.2. Variação da temperatura de cura
Como não há um padrão bem definido em relação ao processo de cura de misturas recicladas
a frio com emulsão, decidiu-se por alterar a temperatura de cura para uma das misturas
produzidas nesse estudo. Para isso, a dosagem da mistura com 3% de emulsão foi refeita,
mantendo-se a quantidade de cimento em 1%, o número de dias de cura em 7, porém
aumentando a temperatura de cura para 40°C. Esse aumento teve como objetivos: (i) acelerar
o processo de cura na fase de projeto das misturas (comparando com uma cura em
temperatura próxima da ambiente, 25C); (ii) observar sua influência nas características das
misturas e (iii) avaliar o limite do percentual de perda de água durante a cura (antes do ensaio
mecânico). A Figura 4 apresenta as curvas de compactação obtidas.
2,015
25°C
ρaparente(g/cm³)
2,005
40°C
1,995
1,985
1,975
1,965
1,955
2,0
3,0
4,0
5,0
Teor de água (%)
6,0
7,0
8,0
Figura 4 – Curvas de compactação para as misturas com temperatura de cura variável
As curvas de compactação mostram que a mistura curadas a 40°C possuem valores de massa
específica mais baixos. A temperatura mais elevada provavelmente fez com que uma maior
quantidade de água fosse evaporada das amostras, diminuindo então a massa final do CP após
a cura. Apesar dessa diferença, não foi possível perceber mudança no teor ótimo de umidade,
uma vez que para ambas as temperaturas, o teor estaria por volta de 5,5%. Novamente, podese perceber que houve apenas uma pequena diferença entre os valores mínimo e máximo de
massa específica obtidos, demonstrando que independente do teor de umidade utilizado, os
CPs compactados são muito parecidos em termos de compactação. A Figura 5 apresenta os
valores de RCS obtidos para esse grupo de misturas.
0,5
25°C
0,4
RCS (MPa)
RCS (MPa)
0,4
0,5
0,3
0,2
0,1
40°C
0,3
0,2
0,1
0,0
0,0
3,5
4,5
5,5
6,5
Teor de água (%)
7,5
3,5
4,5
5,5
6,0
Teor de água (%)
6,5
(a) 25°C
(b) 40°C
Figura 5 – Valores de RCS para as misturas com variação da temperatura de cura
Os resultados apresentados indicam que os valores de RCS diminuíram com o aumento da
temperatura de cura, apesar da presença de menor quantidade de água nas amostras ensaiadas
para o caso de 40°C. A média de valores caiu aproximadamente 25% quando se variou a
temperatura. Uma possível explicação seria o menor valor da massa específica que os CPs
tiveram após a cura a 40°C. Quando se compara as misturas com mesma temperatura de cura,
porém com variação no teor de água, observam-se valores de RCS próximos. No caso das
misturas curadas a 40°C, o maior valor de RCS foi obtido com o CP produzido com 3,5% de
umidade.
3.3. Variação do teor de cimento
O teor de cimento das misturas produzidas foi inicialmente de 1%. Após a obtenção dos
resultados de RCS, decidiu-se analisar a influência da variação desse teor nas propriedades
físicas e mecânicas das misturas. Foram dosadas novas misturas, com 0 e 2% de cimento, para
que as comparações pudessem ser feitas. O teor de emulsão foi mantido em 3%, e a
temperatura de cura adotada foi a de 40°C (situação mais crítica, frente aos resultados
apresentados nos itens anteriores). A Figura 6 apresenta as curvas de compactação obtidas
para essas misturas.
2,010
0% cimento
1% cimento
2% cimento
ρaparente (g/cm³)
1,990
1,970
1,950
1,930
1,910
2,0
3,0
4,0
5,0
Teor de água (%)
6,0
7,0
8,0
Figura 6 – Curvas de compactação para as misturas com teor de cimento variável
As curvas de compactação obtidas pela dosagem mostram que há uma tendência de maior
densificação das misturas que possuem cimento em sua composição, o que também pôde ser
observado por Taha et al. (2002). Em relação ao teor ótimo de umidade, a tendência foi de
aumento nesse teor com o aumento da quantidade de cimento, devido à maior presença de
finos, que exige mais água para a lubrificação da superfície das partículas presentes na
mistura. Após o processo de cura, foi realizado o ensaio de RCS nas amostras confeccionadas.
Os resultados são apresentados na Figura 7.
0,5
0% de cimento
0,4
RCS (MPa)
RCS (MPa)
0,4
0,5
0,3
0,2
0,1
1% de cimento
0,3
0,2
0,1
0,0
0,0
2,5
3,5
4,5
5,5
Teor de água (%)
6,5
3,5
(a) 0% de cimento
4,5
5,5
6,0
Teor de água (%)
6,5
(b) 1% de cimento
0,5
2% de cimento
RCS (MPa)
0,4
0,3
0,2
0,1
0,0
3,5
4,5
5,5
6,5
Teor de água (%)
7,5
(c) 2% de cimento
Figura 7 – Valores de RCS para as misturas com variação de teor de emulsão
Os valores de RCS para as misturas sem cimento foram muito baixos, em comparação com
aqueles das misturas que possuíam 1 ou 2% desse material em sua composição. A variação do
teor de água não trouxe, no geral, grandes diferenças nos resultados, porém é possível
perceber que, para a mistura com 2% de cimento, a amostra que possuía o teor mais próximo
do teor ótimo de umidade (5,5%) trouxe o melhor resultado em relação a esse parâmetro.
A Figura 8 apresenta a relação entre os valores de massa específica e os valores de RCS de
todos os CPs compactados e ensaiados neste estudo com material reciclado com emulsão.
Percebe-se que, para as diversas misturas produzidas e testadas neste estudo, não houve uma
tendência linear clara entre esses parâmetros, ou seja, o aumento da massa específica das
misturas, ou sua maior densificação, não necessariamente significa a obtenção de misturas
com maior resistência à compressão simples.
0,5
RCS (MPa)
0,4
0,3
0,2
R² = 0,24
0,1
0,0
1,92
1,94
1,96
1,98
ρaparente (g/cm³)
2,00
2,02
Figura 8 – Valores de RCS × valores de massa específica
3.4. Perda de umidade das misturas
A cura das misturas em estufa foi feita para que a água contida nas amostras fosse eliminada,
no entanto, nem toda a água evaporou durante o processo. Após a cura, os CPs foram pesados
a fim de se verificar quanto da água total inicial foi perdida. A Figura 9 apresenta uma relação
entre o teor de água inicial e a perda de água dos CPs para cada teor de emulsão. Pela
inclinação da linha de tendência, percebe-se que, no geral, quanto maior o teor de água
utilizado na produção das amostras, menor é a perda proporcional dessa água durante a cura.
Perda de água (%)
8
6
4
R² = 0,91
2
0
0
2
4
|Teor de água inicial (%)
Figura 9 – Perda de umidade das misturas compactadas
6
8
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho teve como objetivo principal avaliar o procedimento de dosagem de misturas
asfálticas recicladas a frio com emulsão e cimento Portland em sua composição, quando
adotada a compactação Proctor para a preparação de corpos de prova de 10 por 20cm. Foram
variados o teor de emulsão, a temperatura de cura e o teor de cimento das misturas, a fim de
verificar esses efeitos no comportamento volumétrico (massa específica aparente) e mecânico
(resistência à compressão simples) dessas misturas. Algumas das principais conclusões que
podem ser tiradas após a realização do estudo com o material reciclado com emulsão incluem:
 A dosagem das misturas com teores variáveis de umidade não apresentou, no geral,
grandes diferenças em termos de massa específica. Variando-se o teor de água
acrescentada para a obtenção das curvas de compactação, obteve-se pouca diferença na
massa específica das amostras;
 O teor de emulsão de 3% resultou em misturas melhor compactadas (maiores valores de
massa específica), quando comparada aos teores de 2 e 4% avaliados;
 O teor ótimo de umidade para as misturas com teores de emulsão variáveis ficou entre 5 e
6%, aumentando um pouco com a diminuição de quantidade de emulsão nas misturas;
 A variação da temperatura de cura indicou que a mistura curada a 40°C teve menor valor
de massa específica máxima, porém o teor ótimo de umidade manteve-se semelhante
àquele da mistura curada a 25°C;
 Em relação à RCS, a variação no teor de emulsão e na temperatura de cura não trouxe
grandes diferenças nos valores obtidos nos ensaios, porém a variação no teor de cimento
trouxe diferenças. As misturas sem cimento tiveram valores muito inferiores, e o teor de
2% de cimento elevou os valores em relação à mistura que continha 1%.
Como recomendações para trabalhos futuros envolvendo o estudo de misturas recicladas a
frio, outros ensaios mecânicos devem ser realizados para melhor caracterizar esse tipo de
mistura, especialmente no que diz respeito à deformabilidade. Além disso, misturas recicladas
sem o uso de emulsão, contendo apenas cimento e água, devem ser produzidas para a
avaliação de suas propriedades mecânicas. Por fim, o estudo reológico e químico da mistura
de emulsão com cimento pode levar a um melhor entendimento da interação entre esses dois
materiais e seu comportamento na presença de água.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem à ANTT pelo financiamento desta pesquisa e à Autopista Fernão Dias e ao Centro de
Desenvolvimento Tecnológico da Arteris pelo apoio no desenvolvimento deste trabalho. Os autores agradecem
ainda ao CNPq e a CAPES pelas bolsas de pesquisa dos autores.
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Laboratório de Tecnologia de Pavimentação, Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.
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COMO PREPARAR UM TRABALHO PARA APRESENTAÇÃO