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Quando Joana Ofélia entrou pela primeira vez na
Casa dos Três Anjinhos, ainda ela se chamava Casa do
Freixo e os relógios andavam todos na perfeição.
Não levava bagagem que se visse: a roupa e pouco
mais, que assim ordenara Maria da Piedade. Além do
saco de linho com bagas da erva-das-sete-sangrias, que
Demétria lhe passara para as mãos.
— Quem te quiser bem encontrará o caminho do
teu coração — dissera ela, em jeito de despedida, acrescentando, num murmúrio de voz:
Aqui se guardam todos os males,
se liga o que tem de ser ligado,
e se desliga o que não nasceu para ser ligado.
Por luas e sóis
e mundos a haver.
Joana Ofélia pensou em Pedro Ruiz:
— Qualquer janela serve para voar — murmurou.
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Mas logo deitou a recordação para muito longe.
Pedro Ruiz desaparecera, um dia voltaria, tinha a certeza.
Agora, ela era uma senhora casada, com um homem
que mal conhecia, mas que prometera amá-la até ao fim
da vida, numa cerimónia muito rápida na igreja da
aldeia, com o padre Aparício a perguntar «e os convidados?, então não se espera pelos convidados?» sem perceber que não havia convidados nenhuns, porque Maria da
Piedade assim o determinara. Também Joana Ofélia prometeu amá-lo até ao fim da vida, olhando para ele,
muito direito a seu lado, com a farda impecavelmente
engomada.
Delfina serviu-lhe de madrinha («porque em mim
ninguém manda, era só o que faltava»), não sem que antes,
já diante do altar, lhe tivesse novamente perguntado:
— Gosta mesmo dele?
Joana Ofélia sorriu:
— Qualquer janela serve para voar — murmurou.
Delfina encolheu os ombros, Joana Ofélia sempre
dissera coisas que ninguém entendia. Ou então talvez
tivesse respondido que sim, e ela não tivesse percebido.
A surdez afligia-a cada vez mais. De resto, o Padre
Aparício já começara a cerimónia, não havia tempo para
perguntas despropositadas.
Na Casa do Freixo, Nicolau olhou para Joana Ofélia
e franziu o sobrolho. Sentou-se pesadamente na cadeira,
que a velhice e os quilos a mais não permitiam grandes
caminhadas, e dali à igreja ainda era um bom bocado.
Sempre pensara que o filho havia de casar com uma
mulher forte, capaz de lhe dar uma ranchada de netos e
de pegar numa enxada se fosse preciso — e entrava-lhe
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aquele dez-réis de gente pela porta dentro, sem enxoval,
sem dote, sem mãe conhecida.
Nicolau ainda estava para saber o que se tinha passado na cabeça do filho para engraçar de tal maneira com
ela, a ponto de o fazer passar por aquela vergonha de ter
ido ao Perpétuo Socorro apresentar desculpas a Maria da
Piedade.
Afinal, mandara o rapaz estudar para Lisboa, e os
estudos tinham dado naquilo. A farda subira-lhe à cabeça. Só podia ser isso.
Quando chegava a casa, de férias, já nem procurava
os antigos amigos, nem punha os pés no café, nem jogava bilhar com os filhos do Casimiro da venda. A cidade e
a tropa tinham feito dele outra pessoa. Usava palavras
diferentes, enfiava-se no quarto a ler, raramente o viam
pela quinta, não perguntava pelas colheitas nem pelas
ovelhas, não se misturava com os empregados, e exigia
que eles o tratassem por Senhor Alferes, tempos depois
por Senhor Tenente, quase logo a seguir por Senhor
Capitão, que o rapaz era esperto, isso Nicolau não podia
negar, e estava a subir na vida.
Desde sempre pensara casá-lo com uma das irmãs do
Perpétuo Socorro, talvez a do meio, já que a mais velha
tinha o nariz demasiado empinado para o seu gosto e a
mais nova fugira de casa com um vendedor de electrodomésticos que um dia aparecera na aldeia. Na outra irmã
nem pensara sequer, era pouco mais que uma criança e,
além disso, não se sabia bem donde tinha vindo e, nestas
coisas de heranças, quer-se sempre tudo pelo seguro.
Quando Maria da Assunção fez 18 anos, Nicolau
bateu à porta do Perpétuo Socorro e sentou-se com Maria
da Piedade na sala de visitas.
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— Está na hora — disse ele. — O rapaz vai bem na
vida, com 24 anos já é tempo de assentar. Marcamos a
data?
Maria da Piedade não concordou:
— É muito cedo. A minha irmã é muito nova.
Esperemos algum tempo.
Quando Maria da Assunção fez 20 anos, de novo
Nicolau se sentou com Maria da Piedade na sala de visitas do Perpétuo Socorro:
— Está na hora. O rapaz está quase tenente, dei-lhe
um bom apartamento em Lisboa, é mais que tempo de
marcarmos a data.
Mas Maria da Piedade ainda não estava de acordo:
— É muito cedo. Deixe o seu filho ser promovido e
então falamos outra vez.
Almerindo foi promovido a tenente.
Almerindo foi promovido a capitão.
Nicolau insistia e Maria da Piedade sempre torcendo o nariz. Ainda não era a hora.
Até que Nicolau não voltou a insistir. Não era
homem para se rebaixar àquele ponto, ainda por cima
diante de uma fedelha com idade para ser sua filha.
Nunca mais tocou no assunto.
No dia em que Almerindo fez 36 anos, Nicolau
lembrou-lhe que era mais que tempo de arranjar mulher,
criar filhos, encher aquele casarão, que para ali estava
sem ninguém.
Para seu grande espanto, Almerindo concordou.
E, para seu ainda maior espanto, disse-lhe que já
tinha escolhido noiva:
— Vá ao Perpétuo Socorro e peça a mais nova para
mim.
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— Maria das Dores? — admirou-se Nicolau —, já
vais tarde, rapaz! Sabes perfeitamente que há mais de
dois anos que ela se enfiou dentro daquela carrinha que
vendia...
— Eu disse a mais nova, pai — interrompeu Almerindo. — A mais nova de todas.
Nicolau ficou sem palavras.
— A... a... a bastarda?
Almerindo levantou-se da mesa, ofendido.
— A mais nova. Acho que o pai sabe muito bem
qual é a mais nova das quatro irmãs do Perpétuo Socorro,
sem ter de dizer essas coisas.
— Mas é uma criança! Muito mais nova que tu!
— O tempo passa. Já deve ter 20 anos. Vi-a ontem.
Está uma beleza.
Nicolau ainda tentou mais uma vez:
— E Maria da Assunção?
Almerindo deu uma gargalhada:
— Francamente, pai! Para que quero eu uma trintona? E, além disso, no coração das pessoas não se manda.
E foi exactamente isso que Nicolau disse a Maria da
Piedade quando, no dia seguinte, se voltou a sentar na
sala de visitas do Perpétuo Socorro.
A conversa foi curta.
Maria da Piedade endireitou-se na cadeira de espaldar alto, e disse-lhe que aquilo era uma traição; Maria
da Assunção tinha passado a vida inteira à espera daquele casamento, era óptima dona de casa, aprendera piano
na Escola Familiar de Música e Artes Domésticas
Madame Neves, as artes de cozinha com Delfina, preparara-se para ser a melhor mãe do mundo, agora o que ia
ser dela?
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— Se calhar levou tempo de mais a preparar-se... —
resmungu Nicolau, recordado de outras conversas naquela sala.
— Não estou aqui para ser ofendida — disse Maria
da Piedade —, a minha irmã mais nova casará com o seu
filho se for da sua vontade, embora eu pense que é a
maior asneira que ela faz. Aos 20 anos, que sabemos nós
da vida? Mas desde já o aviso: a partir do momento em
que ela sair desta casa, é para nunca mais voltar. Como se
as nossas famílias nunca se tivessem conhecido. Os filhos
que tiver nunca serão meus sobrinhos. Não admito traições dentro da minha própria casa.
Levantou-se da cadeira, indicando que a conversa
acabava ali.
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Quando Olinda Dulce entrou pela primeira vez na
Casa dos Três Anjinhos, descobriu que todos os relógios
estavam parados.
Apertou melhor o filho contra si e um estranho
arrepio subiu por ela acima.
— Assim como quando o contra-regra dizia «a sala
está cheia», cinco minutos antes de abrir a cortina — háde dizer mais tarde.
Onze e dez na parede da sala.
Sete e um quarto no corredor.
Três e vinte na cozinha.
Cinco para as oito no quarto.
— Estão todos avariados? — perguntou então.
O Major encolheu os ombros, não era altura para
falar de coisas dessas, ainda o leite era capaz de lhe secar
com o susto.
— Se calhar — respondeu.
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Mas Carlota tinha vindo para ajudar a levar a bagagem, e logo tratou de explicar:
— O primeiro relógio parou quando Augusto morreu.
O Major mudou imediatamente de assunto («Carlota está mesmo a ficar senil», pensou), não fosse Olinda
Dulce começar a magicar em mortes e desgraças, gente
de teatro é supersticiosa que Deus me livre.
— Carlota vai mostrar-te a casa. E tu já sabes, muda
o que quiseres. A patroa agora és tu.
Deixou-se depois cair no cadeirão do escritório, passando distraidamente os três dedos que lhe restavam da
mão direita pelos fascículos da História do Império
Romano, empilhados num banquinho junto da secretária,
há anos esperando encadernação conveniente.
De repente quis recordar a cara de Augusto, e não
foi capaz. Se é que ele tinha chegado a olhar para Augusto.
— Nem tempo tivemos de o beijar — dizia
Carlota, que ajudara ao nascimento de todas as crianças
da casa.
— Mais um anjinho no céu — murmurara ela
quando Augusto, alguns minutos depois de nascido, deixara de respirar.
O Major, que nesse tempo ainda era capitão, olhou
para a mulher, meio adormecida entre os lençóis de linho
amarrotados e húmidos, e resmungou apenas:
— Mau sinal.
E afastou-se do quarto.
No dia seguinte, a mulher acordou de olhos muito
tristes e voz magoada:
— O próximo vai vingar. Verá.
Não vingou. Chamou-se César e morreu às sete e
um quarto da manhã em que completava uma semana.
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— Foi então — assegura Carlota — que parou o
relógio do corredor.
O Major, ainda capitão, não disse palavra, nem
sequer quando a mulher, olhando o berço vazio, murmurou:
— O próximo vai vingar. Verá. E há-de ter o seu
nome.
O Major sempre sonhara dar nomes de imperadores
de Roma aos filhos que tivesse. Como a protegê-los de
inimigos futuros. Mas, pelos vistos, a protecção não
tinha resultado, Augusto e César mortos mal tinham
começado a viver. Por isso não fez grande questão quando, à terceira gravidez, a mulher insistiu em manter o
Almerindo para o varão que não tardaria a chegar.
— Para Almerindo basto eu. E não é lá grande
nome... — tentou ainda.
Mas a mulher abanou a cabeça:
— Vai ser Almerindo. De resto, é da tradição que o
primeiro filho herde o nome do pai.
O Major não sabia de tradição nenhuma, o pai dele
chamava-se Nicolau e o avô Dionísio, mas não fez perguntas. Possivelmente, seria alguma mania que ela trouxera do Perpétuo Socorro, e nessas coisas ele não se
queria meter. Já lhe bastavam as complicações com
Maria da Assunção. Pois que fosse Almerindo.
Foi Almerinda, carregada de icterícia, com peso a
menos e olhos que nunca mais abriam.
Carlota torceu o nariz e, à socapa, foi ver os relógios.
Mas — tirando o da cozinha, parado nas três e vinte da
madrugada em que morrera Augusto, e o do corredor,
preso nas sete e um quarto da morte de César — todos
funcionavam na perfeição.
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— Pode ser... — murmurou, olhando para o berço.
Almerinda lá foi fazendo pela vida, chupando sem
vontade o leite materno, choro fraco e olhos sempre
fechados.
— Deve ser cega... — murmurava Carlota.
O Major, que ainda continuava capitão, pouca atenção lhe dava. Uma filha mulher, e ainda por cima cega,
não estava propriamente nos seus planos.
Animou-se um pouco, alguns meses depois, regressava ele do quartel para uma breve licença em casa,
quando a mulher lhe anunciou nova gravidez.
— Agora é que vem o rapaz. Verá.
Veio outra rapariga.
— Se não se importasse — pediu a mulher em voz
muito fraca — gostava de lhe dar o nome da minha irmã
mais velha, que me serviu de mãe, como deve estar lembrado.
O Major estava lembrado, claro, mas também estava
lembrado de como a mulher tinha sido expulsa de casa e de
como nunca ninguém do Perpétuo Socorro lhe voltara a falar
— mas resignou-se. Encolheu os ombros, os relógios continuaram a andar, e a criança lá se chamou Piedade. Tinha os
olhos bem abertos e um choro que se ouvia na casa inteira.
— O rapaz virá a seguir — disse a mulher, de olhos
baixos, como se tivesse cometido crime grave que necessitasse de perdão.
No exacto dia em que Almerinda completava dois
anos, nasceu Cláudio, mas já vinha morto. Faltavam
cinco minutos para as oito no relógio do quarto, que
nunca mais andou.
O Major, quase a deixar de ser capitão, já tinha
desistido do seu sonho de filho macho («mau-olhado que
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Maria da Assunção me deitou», pensava às vezes) quando, no ano seguinte, nasceu Pedro.
— Agora — dissera a mulher — nada de nomes de
imperadores, que pode dar azar.
O Major não era homem de acreditar em sortes e
azares, mas, lembrando-se de Augusto, César e Cláudio,
não quis forçar o destino e concordou com a mulher
quando ela, na sua voz sempre mansa, pediu que a criança se chamasse Pedro.
— Pois que seja Pedro — disse ele —, Pedro, o
Grande.
Não seria imperador dos romanos, seria imperador
dos russos.
— E terá asas no coração... — murmurou a mulher,
muito baixinho, para que ele não ouvisse.
E Pedro foi. Robusto, grande cabeleira negra, e toda
a fome do mundo.
O Major, finalmente promovido, passou o dia e a
noite ao lado do berço, vendo o filho respirar e olhando
ansiosamente para os relógios.
Quando, às onze e dez da manhã seguinte, o relógio
da sala parou, o Major estremeceu. Mexeu ao de leve na
mãozinha enrugada do bebé, e logo ele começou a chorar,
desagradado do toque.
O Major respirou de alívio. Realmente, só mesmo
Carlota para acreditar nos dedos da morte a pararem os
relógios para sempre.
Apesar de tudo voltou a entrar na sala e a olhar para
o relógio: onze e dez. Correu de novo para o quarto e voltou a tocar no filho — que voltou a refilar, franzindo a
sobrancelha, agitando-se no berço. O Major já lhe adivinhava parecenças, o nariz de Nicolau, seu pai, a cabeleira
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