PA
R
TE
Letras Vernáculas . Módulo 6 . Volume 3
LITERATURA, IMAGINÁRIO,
HISTÓRIA E CULTURA
André Luis Mitidieri Pereira
Fabiane Pianowski
Nadson Vinícius dos Santos
Ilhéus, 2013
2
Universidade Estadual de
Santa Cruz
Reitora
Profª. Adélia Maria Carvalho de Melo Pinheiro
Vice-reitor
Prof. Evandro Sena Freire
Pró-reitor de Graduação
Prof. Elias Lins Guimarães
Diretor do Departamento de Letras e Artes
Prof. Samuel Leandro Oliveira de Mattos
Ministério da
Educação
Letras | Módulo 6 | Volume 3 - Parte 2 | Literatura, Imaginário, História e Cultura
1ª edição | Março de 2013 | 462 exemplares
Copyright by EAD-UAB/UESC
Todos os direitos reservados à EAD-UAB/UESC
Obra desenvolvida para os cursos de Educação a
Distância da Universidade Estadual de Santa Cruz UESC (Ilhéus-BA)
Campus Soane Nazaré de Andrade - Rodovia Jorge
Amado, Km 16 - CEP 45662-900 - Ilhéus-Bahia.
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Projeto Gráfico e Diagramação
Roberto Fabian Santos de Araújo
João Luiz Cardeal Craveiro
Capa
Sheylla Tomás Silva
Impressão e acabamento
JM Gráfica e Editora
Ficha Catalográfica
P436
Pereira, André Luís Mitidieri.
Literatura, imaginário , história e cultura / André Luís
Mitidieri Pereira, Fabiane Pianowski, Nadson Vinícius dos
Santos. – Ilhéus, BA : Editus, 2013.
222 p. : il. (Letras – módulo 6 – volume 3 – Parte II - EAD)
ISBN: 978-85-7455-303-0
Inclui referências.
1. Literatura – História e crítica. 2. Literatura - Estudo e ensino.
3. Cultura na literatura. 4. Estilo literário. 5. Literatura e sociedade. 6. Gêneros literários. I. Título.
CDD 809
EAD . UAB|UESC
Coordenação UAB – UESC
Profª. Dr.ª Maridalva de Souza Penteado
Coordenação Adjunta UAB – UESC
Profª. Dr.ª Marta Magda Dornelles
Coordenação do Curso de Licenciatura em
Letras Vernáculas (EAD)
Profª. Ma. Ângela Van Erven Cabala
Elaboração de Conteúdo
Prof. Dr. André Luis Mitidieri Pereira
Profª. Ma. Fabiane Pianowski
Prof. Nadson Vinícius dos Santos
Instrucional Design
Profª. Ma. Marileide dos Santos de Oliveira
Profª. Dr.ª Cláudia Celeste Lima Costa Menezes
Revisão
Prof. Me. Roberto Santos de Carvalho
Coordenação Fluxo Editorial
Me. Saul Edgardo Mendez Sanchez Filho
DISCIPLINA
LITERATURA, IMAGINÁRIO,
HISTÓRIA E CULTURA
EMENTA
O poeta e o historiador: Aristóteles. Culturas clássicas: desdobramento
das ideias aristotélicas. Literatura e documento. A narrativa no discurso
da história e na ficção. Literatura como arte. Conceitos de cultura.
Literatura e cultura no século XX. Estudos Culturais na América Latina.
A construção do público. Esfera pública e esfera privada. A literatura
como bem de consumo.
OS AUTORES
Profº. Dr. André Luis Mitidieri Pereira
Mestre e doutor em Letras pela PUCRS. Pós-Doutorado em
Estudos Literários pela UFGRS. Professor do Departamento
de Letras e Artes da UESC, área de Língua e Literaturas
Estrangeiras/Espanhol. Docente efetivo do Mestrado em Letras:
Linguagens e Representações da UESC e docente colaborador
do Mestrado em Literatura Comparada da URI-FW.
E-mail: [email protected]
Profª. Ma. Fabiane Pianowski
Mestre em Educação Ambiental pela Fundação Universidade
Federal do Rio Grande (2004). Doutoranda em História,
Teoria e Crítica da arte na Universidade de Barcelona. Tem
experiência na área de Artes, com ênfase em Artes Visuais,
atuando principalmente nos seguintes temas: arte, história da
arte, arte-educação, educação ambiental e produção cultural.
Também atua como designer gráfico.
E-mail: [email protected]
Prof. Nadson Vinícius dos Santos
Mestrando em Letras - Mestrado em Letras: Linguagens e
Representações da UESC. Escritor premiado em concursos
nacionais, possui trabalhos publicados em antologias literárias
e coletâneas teóricas.
E-mail: [email protected]
APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA
Durante muito tempo, a compreensão da literatura se restringiu
aos textos escritos e dotados de algum valor estético ou pedagógico,
quer dizer, com algo de belo, ou ainda, de bom e de verdadeiro. Entre
os gregos, a epopeia e a tragédia eram consideradas como os melhores
exemplares da poesia. As noções defendidas por Aristóteles em sua
Poética vigoraram até o século XVIII, e desde sua redescoberta pelo
Ocidente, no século XVI.
Nessa época, também se instituiu uma compreensão da literatura
enquanto documento, notada nas cartas e diários dos descobridores
de países americanos, nos relatos de viajantes etc. Daí haver alguma
indecisão sobre os limites entre o ficcional e o histórico, o literário e o
documental. No entanto, o mesmo Aristóteles, em outra obra, a Retórica,
já fornecia munição suficiente para o estabelecimento das linhas divisórias
entre história e literatura.
As discussões envolvendo a literatura enquanto arte e a história
enquanto sucessão de fatos no tempo, bem como enquanto áreas de
estudos, literários e históricos, exigem sua inserção num campo mais vasto,
que é o da cultura. Por isso, buscaremos discuti-lo em suas inter-relações,
a fim de compreender os Estudos Culturais, desde sua implantação na
Inglaterra da década de 1950, até sua adoção nas universidades
latino-americanas, o que não ocorre pacificamente.
Alargando as zonas de abrangência do fazer histórico e da arte
literária até às notações culturais midiáticas, do mundo digital etc., os
estudos de cultura transitam do público ao privado, sem que isso implique
rígida separação entre as duas esferas mencionadas. Na atualidade,
além de o texto literário ser compreendido como objeto estético e meio
de interpretação do mundo, ainda precisa ser estudado a partir de
seu entendimento como um bem de consumo, do mesmo modo que um
DVD de cine-arte ou um CD de Arrocha, sujeitando-se, portanto, aos
mecanismos de construção do gosto e do público.
Conquistar um público a cada dia mais seduzido pela indústria do
entretenimento e ávido por informação veloz é um desafio que se impõe
aos professores de Literatura. Sem querermos autenticar os produtos da
indústria de massa, entre eles, os Best-sellers, entre nossos bens maiores,
buscaremos em nossas aulas entender os mecanismos de difusão dos
produtos culturais e de formação dos leitores. Porque a literatura é um
direito que nos cabe, um bem maior; seu estudo com método e fruição
pode abrir-nos os olhos a faces do mundo ainda não vistas.
Como nos ensina Roland Barthes em sua magnífica Aula, se todas
as disciplinas devessem ser expulsas dos sistemas de ensino, e apenas
uma pudesse ser salva, essa seria a disciplina literária, “pois todas
as ciências estão presentes no monumento literário”. É com esse olhar
que pretendemos guiar nossos encontros ao mundo sempre vibrante da
literatura, que é também o mundo da arte, da cultura, da história.
Boas aulas,
André, Fabi e Nadson
SUMÁRIO
UNIDADE 5: LITERATURA COMO ARTE
1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................................................... 15
2 FANTÁSTICO ROMÂNTICO: DISTANCIAMENTO DO AMBIENTE.................................... 16
3 ALGUMAS DIFERENCIAÇÕES PARNASIANAS E SIMBOLISTAS......................................... 17
4
5
6
7
DIACRONIA E SINCRONIA: GILKA, QUINTANA & CIA ILIMITADA................................. 24
ATIVIDADES.............................................................................................................................................. 58
RESUMINDO............................................................................................................................................. 71
REFERÊNCIAS.......................................................................................................................................... 72
UNIDADE 6: LITERATURA E CULTURA
1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................................................... 79
2 COLONIZADOS E MODERNISTAS.................................................................................................. 80
3 OS CONCEITOS DE CULTURA.......................................................................................................... 85
4 CULTURA E REPRESENTAÇÃO......................................................................................................... 91
5 LITERATURA COMO URTICÁRIA................................................................................................... 103
6 ATIVIDADES............................................................................................................................................110
7 RESUMINDO...........................................................................................................................................113
8 REFERÊNCIAS........................................................................................................................................115
UNIDADE 7: ESTUDOS CULTURAIS E LITERÁRIOS
1 INTRODUÇÃO........................................................................................................................................121
2 ANTECESSORES E OS PAIS FUNDADORES............................................................................... 122
2.1 Crítica e cultura, sociedade e política............................................................................................. 122
2.2 Os pais fundadores e um dileto filho............................................................................................. 125
3 BIRMINGHAM: DA BONANÇA ÀS VIRAÇÕES.......................................................................... 129
4 UMA TEMPESTADE REPARTE O MAPA MÚNDI...................................................................... 132
4.1 Rumo a novas rotas: realocar e redirecionar................................................................................. 132
4.2 Los Estudios Culturales: na América Latina..................................................................................... 135
5 RESPEITÁVEL PÚBLICO, CÍRCULOS PRIVADOS...................................................................... 142
5.1 Formação do gosto, construção de públicos................................................................................ 142
5.2 Da lama ao caos: a cidade e a cultura visual................................................................................. 149
5.3 Das esferas públicas e dos domínios privados............................................................................. 157
6 ATIVIDADES............................................................................................................................................160
7 RESUMINDO...........................................................................................................................................163
8 REFERÊNCIAS........................................................................................................................................164
UNIDADE 8: ESPAÇO BIOGRÁFICO: CONSUMO, HISTÓRIA, CULTURA
1 INTRODUÇÃO........................................................................................................................................171
2 GÊNEROS DO ESPAÇO BIOGRÁFICO, BIOGRAFIA E BIOGRAFISMO.......................... 172
3 PACTO AUTOBIOGRÁFICO, AUTOBIOGRAFIA, AUTOBIOGRAFISMO.......................... 176
4 AUTOBIOGRAFISMO EM UM SERMÃO DO PADRE ANTÔNIO VIEIRA........................ 178
5 O MAJOR CALABAR DE JOÃO FELÍCIO: UM ROMANCE BIOGRÁFICO........................ 187
6 FLORA TRISTÁN, PAUL GAUGUIN: CULTURAS À BUSCA DO PARAÍSO........................ 197
7 ATIVIDADES............................................................................................................................................214
8 RESUMINDO...........................................................................................................................................215
9 REFERÊNCIAS........................................................................................................................................217
5ª
unidade
LITERATURA
COMO ARTE
OBJETIVOS
Ao final da presente aula, você será capaz de:
• analisar textos literários que permitam divisar o caráter artístico da
literatura;
• compreender a literatura em perspectiva diacrônica e sincrônica;
• estudar o fantástico romântico como modalidade que acentua o
teor artístico da obra literária;
• identificar estéticas literárias mais propícias à diferenciação da
literatura enquanto sistema, tais como o parnasianismo, simbolismo,
decadentismo e surrealismo;
• analisar e discutir o fato de uma estética, como o impressionismo,
pender à diferenciação enquanto arte, ao mesmo tempo em que
não se descola da referência;
• conhecer escritores que não integram o cânone literário nacional ou
são pouco citados em histórias e/ou manuais de literatura;
• relacionar contextos de escritas e representações literárias a outras
artes e textualidades.
Literatura, Imaginário, História e Cultura
14
Letras
EAD
Literatura como Arte
1 INTRODUÇÃO
5
Leituras recomendadas
Antonio.
Noite
na
taverna.
<http://www.biblio.com.br/
Nas aulas anteriores, vimos como a questão indígena,
embora de maneira idealizada, bem como os temas da
escravatura e da negritude, junto à perspectiva engajada em
considerável número de escritores, e à presença do romance
histórico, não afastavam o romantismo, em totalidade, do
mundo real. Uma maior aproximação entre texto e contexto
foi buscada pelas estéticas naturalista/realista.
Veremos agora como alguns românticos se encantaram
pela diferença entre ambiente e obra, no empenho por um
sistema próprio da literatura, entre outros motivos, através
do fantástico. O distanciamento da realidade, como médium
para o ganho das formas literárias, realçando seu caráter
artístico, marcaria assim uma parcela do Romantismo,
também o Parnasianismo, Simbolismo, Decadentismo,
Esteticismo, Impressionismo, sendo que esse mostra com
propriedade como um texto se vincular aos universos da
arte e das coisas existentes ao mesmo tempo.
defaultz.asp?link=http://
www.biblio.com.br/conteudo/
alvaresazevedo/noitenataverna.
htm>. Acesso em: 27 jul. 2011.
CADEMARTORI, Lígia. Parnasianismo. Simbolismo. Impressionismo. Modernismo. In: CADEMARTORI, Lígia. Períodos literários. São Paulo: Ática, 1987.
p. 49-69.
Atentaremos à perspectiva diacrônica que orienta
muitas histórias da literatura e à outra face dessa moeda
- perspectiva sincrônica – a nos indicar que as escolas
literárias não ficam presas a um dado período. Analisaremos
textos que se relacionam entre si e, uma vez situados os
modos pelos quais a literatura se faz reconhecer como arte,
chegaremos de mansinho aos movimentos de vanguarda.
Os vanguardistas tentam derrubar as barreiras entre
arte e vida. Nesse ponto, encontramos pequeno obstáculo.
Nada grave, embora a compreensão da obra literária
como objeto artístico, unânime entre críticos e teóricos,
seja bastante comum, e seu entendimento por intermédio
dos aspectos históricos possa nos soar como íntimo. Esta
aula, sobretudo, é um convite ao prazer dos textos e das
textualidades, desfrutemos de seus variados saberes e
sabores...
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
15
Unidade
ÁLVARES DE AZEVEDO, Manuel
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Para conhecer
Jorge
ro
Francisco
Luis
Borges
IsidoAcevedo
(1899-1986): Poeta, escritor,
crítico, ensaísta e tradutor,
2 FANTÁSTICO ROMÂNTICO: DISTANCIAMENTO
DO AMBIENTE
foi professor de literatura da
Universidade de Buenos Aires
(UBA) e diretor da Biblioteca
Nacional da República, situada em Buenos Aires. Autor de
vasta obra ensaística, narrativa e poética, Borges empresta muitos dos temas e ideias
presentes em sua literatura e
em suas reflexões para o desenvolvimento dos enfoques
mais contemporâneos da teoria literária.
Para
maiores
informações
sobre o escritor e sua obra,
consulte:
<http://www.
me.gov.ar/efeme/jlborges/>
e <http://www.internetaleph.
com/> e assista:
Um amor de Borges (Un
amor de Borges). Direção de
Javier Torre, 2000, 92 min.
El amor y el espanto. Dire�����
ção de Juan Carlos Desanzo,
2000, 115 min.
Também
recomendamos
longa-metragem
o
brasileiro
Onde Borges tudo vê (Direção de Taciano Valério, 2012,
77 min), que faz referência
ao poeta e narra a história de
Napoleão, um cego dono de
um hamster de nome Borges
e amante do legado do escritor argentino, do qual diz
guardar uma obra escrita que
ninguém no mundo possui.
Figura 48 - Jorge Francisco Isidoro
Luis Borges Acevedo.
Fonte: <http://www.mozaik.
com.br/blog/wp-content/
uploads/2010/06/jorge_luis_
borges.jpg>.
16
O Romantismo demonstrou certo fascínio por
temas como duplos, espelhos, sósias que, ao lado de certo
balanço entre o real e o fantasioso, a racionalidade a loucura,
contribuem para destacar a comunicação realizada pela
literatura como exclusiva, i. e. diferenciada daquela levada a
cabo por outros sistemas, como a história e a sociologia. A
ênfase aos elementos responsáveis pela diferenciação da arte
literária pode ser vista no fantástico, modalidade assinalada
pela presença de acontecimentos estranhos, como, por
exemplo, um homem de cujo nariz saem borbotões de
formigas, paredes que se movem, pessoas que voam, uma
senhora que, de tão gorda, explode e vira uma flor mal
cheirosa etc.
Elementos e fatos estranhos podem ser pensados
de duas maneiras: a partir de uma explicação “natural”
ou “sobrenatural”. De acordo com Tzvetán Todorov
(1992, p. 31), o fantástico surge do titubeio entre as duas
possibilidades de leitura para os fenômenos narrativos: a
“realidade” ou a “ficção” ao extremo. Surpreso, hesitante
quanto às irrealidades que encontra num texto literário, o
leitor pode aceitá-las como naturais. Não é somente a dúvida
do leitor sobre coisas estranhas com as quais se depara em
sua leitura que sustenta o fantástico, já que o mesmo titubeio
deve ser experimentado por alguma personagem no interior
do texto.
Como nos alerta Remo Ceserani (2006), não seriam
o natural ou o sobrenatural que estariam em jogo, mas as
convenções de realidade, os meios pelos quais concebemos
sua existência. Os modos através dos quais determinada
sociedade pensa a respeito do que lhe é normal ou estranho
também mudam com o passar dos anos, com as diversas
necessidades, experiências culturais, transformações
Letras
EAD
Literatura como Arte
5
Para conhecer
Manuel Antônio Álvares de
Azevedo (1831-1852): Poeta,
contista e dramaturgo carioca,
é um dos principais nomes da
chamada segunda geração do
Romantismo brasileiro. Como
estudante de Direito em São
Paulo, escandalizou a sociedade
pelas
não,
histórias,
de
verídicas
orgias
Satã.
Toda
que,
devido
a
e
sua
a
cultos
ou
a
produção
ter
morrido
precocemente, seria publicada
após seu falecimento, pertence
a essa época, englobando os
poemas, os contos de Noite
na taverna e o drama Macário,
além de ensaios e traduções.
Saiba mais sobre a vida e obra
do autor no post “Álvares de
Azevedo – poeta da Lira dos
vinte anos”, publicado por Elfi
Kürten Fenske (27 de abril de
2012) no blog Templo Cultural
Delfos, disponível em: http://
elfikurten.blogspot.com.br/
search/label/Alvares%20
de%20Azevedo%20-%20o%20
poeta%20da%20Lira%20
dos%20vinte%20anos.
Figura 49 - Álvares de
Azevedo
FONTE: http://4.bp.blogspot.
3 ALGUMAS DIFERENCIAÇÕES PARNASIANAS E
com/-Im9AJKEvias/
T5s0rKHICCI/AAAAAAAAE08/
xygyogNUMPQ/s1600/alvares_
SIMBOLISTAS
azevedo.jpg
Se o Romantismo se preocupou com as questões
sociais e valorizou a imaginação, a liberdade de criação e o
conteúdo em vez da forma, os parnasianos tomaram o gosto
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
17
Unidade
históricas e vivências linguísticas dos seres humanos.
Em alguns recantos de nosso país, por exemplo,
o fogo que se desprende de bichos mortos no campo é
considerado sobrenatural e tem nome: Boitatá. Para muitos
indianos, animais como elefante e vaca não fazem parte da
realidade em si, mas pertencem à esfera do irreal, divina; são
deuses. Outro fato que salta à vista é ligado à interpretação
que, acontecendo dentro da história contada, lida, assistida,
pode mudar com as transformações sucedidas em espaços e
tempos diferenciados.
Entre os procedimentos que o escritor argentino
Jorge Luis Borges (2007) selecionou como os mais
comuns à literatura fantástica, encontram-se a obra de
arte dentro da mesma obra de arte; a contaminação do
mundo real pela ordem dos sonhos; o duplo; a viagem no
tempo; a invisibilidade; a onipotência; as ações paralelas; as
metamorfoses; a presença de deuses e fantasmas; o presságio
e os espelhos. Bem, agora vamos dar uma paradinha.
Como você fez o dever de casa e já trouxe lidos os
relatos de Noite na taverna, do romântico brasileiro Álvares
de Azevedo, passará a reunir-se em grupos, com colegas de
seu polo ou por meio do chat. Cada grupo ou mais deverá
reler um dos relatos desse livro a fim de responder: como
fica a questão da dúvida sobre os eventos ou personagens
fantásticos, irreais, sobrenaturais? Permanece até o fim do
relato? Quais dos procedimentos identificados por Borges
se encontram no texto relido?
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Saiba mais!
Verso alexandrino: Verso
de doze sílabas poéticas composto por dois versos de seis
sílabas poéticas, também conhecido como dodecassílabo.
Metodicamente
empregado
no Roman d’Alexandre, como
sabemos, deve a origem de
seu nome a esse poema francês.
romântico como demérito e construíram uma estética em
sentido contrário. As mudanças ocorridas no final do século
XIX fizeram-se sentir na literatura através de uma escola
que se caracterizava pela contenção lírica, pelo culto da
forma, pela valorização da arte pela arte e a impessoalidade
objetiva: o Parnasianismo.
O poeta parnasiano retomava outra vez os valores
clássicos como modelo de composição, porém era visto
como alguém que detinha pleno domínio da arte produzida.
O apreço dos parnasianos pelos ideais clássicos fez ressurgir
nessa estética o verso alexandrino de doze sílabas e o
entendimento de que a poesia não tem “outro objetivo senão
a expressão da beleza” (CADEMARTORI, 1987, p.51) e,
portanto, deve afastar-se das questões sociais, conforme os
seguintes versos de Olavo Bilac:
A um poeta
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica, mas sóbria como um templo grego
Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a beleza, gêmea da verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e graça na simplicidade
18
Letras
EAD
Literatura como Arte
5
Para conhecer
Unidade
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (18651918): Poeta, cronista e jornalista carioca, não
concluiu nenhum dos dois cursos universitários que
havia começado: Medicina e Direito. Decidiu dedicarse às Letras, trabalhando em quase todos os jornais
e revistas importantes de sua época. Bilac entrou no
mundo literário aos 23 anos com a publicação de Poesias
(1888). Pertenceu à escola parnasiana brasileira,
sendo um de seus principais representantes. Patriota,
defensor da instrução primária, da educação física e do
serviço militar obrigatório, escreveu a letra do “Hino à
Bandeira” e se dedicou a temas de caráter históriconacionalista. Extremamente popular, em 1913 foi
FIGURA 50 - Olavo Bilac
Fonte: http://www.exercito.gov.
br/image/journal/article?img_
id=230616&t=1296819956113
eleito “Príncipe dos poetas brasileiros”, no concurso
promovido pela revista Fon-Fon. Suas principais obras:
Poesias (1888), Crônicas e novelas (1894), Crítica
e fantasia (1904), Conferências literárias (1906), Tratado de versificação (1910),
Dicionário de rimas (1913), Ironia e piedade, crônicas (1916), Tarde (1919).
Esse texto nos diz que o poeta, operário da arte, devia se afastar
dos turbilhões externos para exaustivamente compor versos capazes de
expressar beleza. A poesia parnasiana, pura e desinteressada, evitaria
contato ou até mesmo o diálogo com questões sociais, culturais ou
históricas e revelaria seu caráter nacionalista, não pela exacerbação
emocional do Romantismo, e sim pela louvação dos símbolos nacionais
(como a língua portuguesa), tema de um dos poemas de Bilac.
Pensar literatura como arte então significaria colocá-la apenas
no campo de seus elementos propriamente artísticos, a exemplo dos
ritmos, sons e versos de um poema. Cabe uma crítica nesse sentido,
pois a aversão por ideologias, demonstrada pelos poetas parnasianos,
na verdade, poderia revelar e respaldar a existência de outra ideologia:
a hegemônica. A negação dos problemas sociais nos versos parnasianos
impedia o questionamento e a desestabilização do status quo, além de
manter a situação confortável dos que se beneficiavam das mazelas da
sociedade.
Contudo, as estéticas interessadas nessas questões já apresentadas
com certas restrições pelo Romantismo davam o ar de sua graça entre
o final do século XIX e princípios do século XX. Impulsionados por
transformações filosóficas e tecnológicas, artistas e escritores, é claro que
nem todos eles, tentariam subverter a ordem vigente e também o cânone
literário.
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
19
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Para conhecer
Luís Delfino dos Santos
(1834-1910):
médico,
Escritor
dedicou-se
e
tam-
bém à política, sendo senador por Santa Catarina.
Estreou na literatura com o
conto “O órfão do templo”,
editado na revista carioca Beija-flor. Entre 18611881,
colaborou
com:
Revista Popular, Diário de
Rio de Janeiro, A Estação,
Gazetinha. Em 1885, foi
eleito por concurso d’A Semana como o maior poeta
vivo do Brasil. Em 1886,
colaborou com a revista A
Vida Moderna e, de 1898
Dentro do Romantismo, mas fora do cânone
por bom tempo, como ocorreu com Luís Gama, outro
escritor negro, o catarinense Luís Delfino dos Santos,
teve vasta produção, abrangendo as tendências românticas:
abolicionista, em poemas como “À arena”, “À nação” e “In
Excelsis”; indigenista, no livro Esboço da epopeia americana;
regionalista, em Rosas negras; sentimental em Íntimas e
áspasias. O poeta também passeou pelo simbolismo, com
Posse absoluta, mas encontraria sua melhor expressão no
parnasianismo.
Conheça ainda um pouco mais de Luís Delfino, por
intermédio dos poemas logo transcritos:
a 1904, com os periódicos
simbolistas
Revista
Rosa-Cruz
A
Meridional,
Contemporânea,
e
Vera-Cruz.
Coroado “Príncipe dos Poe-
PRIMEIRA MISSA NO BRASIL
(a Vítor Meireles)
tas Brasileiros” (1898) pela
revista Vera-Cruz, apesar
da intensa atividade como
escritor, seus livros seriam
publicados postumamente,
destacando-se entre eles:
Algas e musgos (1927), Íntimas e aspásias (1935) e
Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, encima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas
Imortalidades (1941).
Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.
Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.
Da armada a gente ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.
20
Letras
EAD
Literatura como Arte
5
UM GRANDE PINTOR
Unidade
Victor Meirelles
Foste, a hora bateu, irmão de Urbino,
Juntar-te ao mestre na celeste esfera:
Para ficar com teu pincel divino,
Ninguém ousou dizer à morte: — Espera.
Pisando o pé no solo eterno, o hino
Do triunfador, à tua musa austera,
Soou de sol em sol: foi teu destino
O amor do ideal, que o belo inspira e gera.
Correu-te a vida por areal em fora;
Da terra nossa a enorme dor partilho:
Quem tua alma entre nós vai ter agora?...
Teu gênio a história da arte encheu de brilho;
Pátria, ajoelha; amou-te muito, chora:
Quem mais deve chorar tão grande filho?...
Poemas disponíveis em: <http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/santa_
catarina/luis_delfino.html>.
Observe que o vocabulário empregado nesses poemas é menos
rebuscado e, portanto, mais compreensível do que o utilizado por Bilac.
Entretanto, o segundo está mais perto do estilo desse escritor parnasiano,
não é verdade? Note que o tema do primeiro poema – primeira missa no
Brasil – já fora abordado antes, no terceiro capítulo. Você lembra disso?
Lembra também quem foi o artista que pintou o quadro trabalhado
naquela unidade? Por que será que Luís Delfino menciona o pintor nos
trabalhos ora destacados?
Com qual destas estéticas - Parnasianismo e Simbolismo - cada um
dos poemas mais se identifica? Por quê? Mais adiante, suas respostas se
confirmarão, ao olharmos mais de perto para as características simbolistas.
No momento, queremos chamar atenção à capacidade que tais veiculações
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
possuem para marcar a literatura como arte, revelando seu afastamento
do referente histórico. Entretanto, como você deve ter percebido, mesmo
nessas expressões, digamos mais “artificiais”, a referência não parece se
apagar nem ser eliminada, a julgar pelas dedicatórias impressas nos dois
trabalhos poéticos e pelo tema histórico explícito no primeiro deles. Já
o segundo traz uma referência que pertence à história da arte. Trata-se
muito provavelmente de Francesco da Urbino, pintor cuja história o
Você sabia?
Francesco
da
Urbino
(1545-
1582): Pintor nascido no município
italiano de Urbino, passou boa parte da vida e morreu na Espanha a
serviço do rei Felipe II, realizando
afrescos para o monastério El Escorial e para o palácio Alcázar de
Madrid. Discípulo de Giovan Battista Castello, que o chamou para
a Espanha em 1567, soube fundir
em suas composições e figuras geralmente de caráter religioso - o
estilo de seu conterrâneo Rafael
Sanzio (1483-1520) e de BaldasFIGURA 51 - O juízo de Salomão, Francesco da Urbino, sarre Peruzzi (1481-1537) com o
1581, fresco da abóbada da cela baixa do Prior,
estilo grotesco, caracterizado pela
Monastério El Escorial.
FONTE: <http://1.bp.blogspot.com/_YfJC22sNtA4/
TJJqEYsnQeI/AAAAAAAAAJE/tawECc6Hl_c/s1600/
salomon.jpg>.
deformação de elementos naturais
e pela combinação original de volumes e cores.
ajudará a interpretar a composição poética de Delfino.
Expressões artísticas e literárias estiveram muito interligadas no
Simbolismo, movimento estético de teor espiritualista que se desenvolveu
na França, nas duas últimas décadas do século XIX. Os simbolistas
desejavam expressar através da linguagem poética a vida interior, a “alma
das coisas”. Nesse sentido, os poetas Gérard de Nerval (1808-1855) e
Stéphane Mallarmé (1842-1898) buscaram tratar dos mistérios do mundo
e do inconsciente por meio de sugestões, do ritmo musical e da magia das
palavras.
O Manifesto do Simbolismo (1886) do poeta Jean Moreás (18561910) e o Tratado do verbo (1886) de René Ghil (1862-1925) exprimem
os princípios orientadores dos simbolistas: arte como fusão dos
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Letras
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Literatura como Arte
Unidade
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elementos sensoriais e espirituais, ênfase aos temas míticos, imaginários
e subjetivos, afastamento das questões sociais e rechaço à lógica e à
razão em favor da intuição. Entre as inovações formais que caracterizam
o Simbolismo encontram-se a prática do verso livre, em oposição ao
rigor do verso parnasiano, e o uso de “uma linguagem ornada, colorida,
exótica, poética, em que as palavras são escolhidas pela sonoridade, ritmo,
colorido, fazendo-se arranjos artificiais de parte ou detalhes para criar
impressões sensíveis, sugerindo antes que descrevendo e explicando”
(COUTINHO, 1972, p. 322).
É importante destacar o contexto de profundas modificações
sociopolíticas, provocadas fundamentalmente pela expansão do
capitalismo, em que surgia o Simbolismo, opondo-se às ideias positivistas
e cientificistas que influenciaram movimentos literários tais como
o Realismo, Naturalismo e Parnasianismo. No Brasil, o movimento
se expandia na década de 1890, quando o país enfrentava intensas e
radicais transformações, marcadas pela abolição da escravatura e pelo
estabelecimento da República, o qual acarretaria, entre outras coisas, a
industrialização e urbanização dos grandes centros. Quando significativa
parte da população era analfabeta e o número de editoras, ínfimo, seriam
os jornais e as revistas os principais meios de divulgação dessa estética no
âmbito literário, destacando-se Clube Curitibano, O Cenáculo, A Época,
Horus, Folha Popular, Fon-Fon!, Kosmos, Nova Cruzada, A Padaria
Espiritual, Rio-Revista, Rosa-Cruz.
Em relação à pintura, mais do que representar a realidade, os
simbolistas buscaram revelar, através de símbolos, aquilo que escapasse
à consciência. Pretendiam superar a pura visualidade defendida pelos
impressionistas, através da apreensão dos valores transcendentes,
como o bem, o belo, o verdadeiro e o sagrado. Dentro do imaginário
simbolista, estão os símbolos religiosos, as referências ao natural e ao
onírico, a sensualidade feminina e os mistérios da morte. Seus pintores
mais famosos foram Gustave Moreau (1826-1898), Gustave Klimt (18621918) e Odilon Redon (1840-1916).
Não devemos, entretanto, pensar em divisões absolutas ou
muito fixas para os períodos literários, pois em cada um deles haverá
convivência de estilos diferenciados e, às vezes, divergentes entre si. “Um
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
dos aspectos típicos dos estudos literários é justamente não apresentarem
definições acabadas e de exatidão matemática. Estamos pisando o terreno
do humano, frente a frente com todas as infinitas possibilidades que a sua
riqueza nos oferece” (CUNHA, 1990, p. 129).
Saiba mais!
Um rico acervo de obras plásticas
simbolistas pode ser acessado no
Google Art Project, disponível
em
<http://www.googleartproject.
com>. Empreenda sua busca pelo
nome dos seus pintores, escolha
algumas obras e as explore com
a potente ferramenta de zoom do
programa, que permite a visualização detalhada das pinceladas,
cores, texturas, figuras etc.
Assista Klimt, direção de Raoul
Ruiz, 2006, 131 min.
FIGURA 52 - Aparição, Gustave
Moreau, 1876, óleo sobre tela.
Essa é uma das obras mais famosas do pintor simbolista, representa a figura de Salomé apontando
para a cabeça degolada de João
Batista. O artista soube utilizar a
luz para criar uma atmosfera mística e ao mesmo tempo mágica.
FONTE:
<http://s3.amazonaws.com/
estock_dev/fspid9/66/44/02/apparitionwatercolor-painting-664402-o.jpg>.
4 DIACRONIA E SINCRONIA: GILKA, QUINTANA & CIA
ILIMITADA
Já sabemos que texto e contexto mantêm relações bilaterais, como
o tráfego numa via de mão dupla. Os textos podem ser estudados por
meio de seus contextos, dia a dia, mês após mês, ano pós ano e assim
sucessivamente, em uma perspectiva diacrônica, ou entre si mesmos
ao longo do tempo, numa perspectiva sincrônica. “A periodização
estilística liga-se à problemática temporal, pois a arte só é ela mesma
na história. Também o homem, ser essencialmente histórico. O texto
literário mergulha suas raízes no momento, nele se inspira e dele extrai
seus traços mais notórios, já que cada fase histórica oriente sua feição
peculiar, em função da emergência de forças dominantes” (CUNHA,
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Letras
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Literatura como Arte
Perspectiva
5
Saiba mais!
diacrônica
e sincrônica: A perspectiva diacrônica é o procedimento metodológico que
estuda a evolução histórica dos fenômenos ou fatos
linguísticos. A perspectiva
sincrônica trata do estudo
dos fatos ou fenômenos
linguísticos de um período
determinado,
sem
levar
em consideração sua evolução histórica. A sincronia
se ocupa do caráter estático da língua e se baseia no
INCENSO
eixo das simultaneidades,
no qual devem ser estudadas as relações entre os
A Olavo Bilac
fatos existentes ao mesmo
tempo num dado momento do sistema linguístico,
Quando, dentro de um templo, a corola de prata
do turíbulo oscila e todo o ambiente incensa,
fica pairando no ar, intangível e densa,
uma escada espiral que aos poucos se desata.
que pode ser tanto no presente quanto no passado.
Para Ferdinand de Saussure, existem duas formas
de observar a língua: em
sua época (sincronia) e
através
Enquanto bamboleia essa escada e suspensa
paira, uma ânsia de céus o meu ser arrebata,
e por ela a subir numa fuga insensata,
vai minha alma ganhando o rumo azul da crença.
do
tempo
(dia-
cronia), ao afirmar que “a
cada instante, a linguagem
implica
ao
mesmo
tempo um sistema estabelecido e uma evolução:
a cada instante, ela é uma
instituição atual e um produto do passado” (1969,
O turíbulo é uma ave a esvoaçar, quando em quando
arde o incenso. Um rumor ondula, no ar se espalma,
sinto no meu olfato asas brancas roçando.
p. 16). Dessa maneira, a
língua será sempre e simultaneamente
sincronia
e diacronia. Não obstante,
a perspectiva linguística é
que poderá ser ou sincrô-
E, sempre que de um templo o largo umbral transponho,
logo o incenso me enleva e transporta minha alma
à presença de Deus na atmosfera do sonho.
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nica ou diacrônica, dependendo dos objetivos a que
se propõe.
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Unidade
1990, p. 130).
O estudo sincrônico da literatura permite unir, em
tempos diferenciados, a estética parnasiana em geral e a
poética de Gilka Machado em particular. Embora nascida
ao final do século XIX, essa escritora vive e produz ao longo
do século XX, durante o qual, compor versos ao estilo
parnasiano não constitui uma força dominante. Observemos
o seguinte poema que, publicado em 1915, no livro Cristais
partidos, sem inocência, ela dedica a Olavo Bilac:
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Para conhecer
Gilka Machado (1893-1980): Procedente de uma família de artistas, aos 13 anos
ganhou os três primeiros prêmios (usando seu nome e pseudônimos) do concurso do jornal A imprensa; publicou seu primeiro livro, Cristais partidos, em 1915,
com 22 anos. A partir da década de 1930, sua popularidade aumentaria: alguns
de seus poemas foram traduzidos ao espanhol e ganhou o concurso da revista
O Malho, sendo aclamada como a maior poetisa brasileira. Recusou o convite da
Academia Brasileira de Letras, mas recebeu o prêmio Machado de Assis em 1979
pela publicação de Poesias completas. Seus poemas, marcadamente eróticos, manifestam desejos, emoções e sensações: “a forma ousada dos seus versos, de um
ritmo livre e bastante pessoal, harmoniza-se com a liberdade de inspiração, onde
predomina um forte sensualismo, tão forte que Humberto de Campos notava-lhe,
nos poemas, verdadeiras ‘tempestades de carne’... Seus livros provocavam, simultaneamente, admiração e escândalo, já que a poetisa confessava sentir pelos no
vento’, desejava penetrar o amado ‘pelo olfato, assim como as espiras/invisíveis
do aroma...’ e declarava, sem rebuços: ‘Eu sinto que nasci para o pecado’” (GOÉS,
1960, p.165) Capaz de representar as experiências íntimas do universo feminino
em mistura dosada de rigor formal e sensualidade ousada, causava dupla reação
no público: admiração, por parte dos que a viam como a porta-voz das representações do prazer erótico feminino, e rechaço, pelos moralistas e conservadores.
Sua obra é um marco na história de resistência à alienação da mulher, firmandose como “precursora na luta pelos direitos de acesso à representação do prazer
erótico na poesia feminina brasileira” (GOTLIB, 1982, p. 47).
Algumas de suas obras literárias estão disponíveis na internet:
Cristais partidos (1915), disponível em: <http://www.brasiliana.usp.br/bbd/
handle/1918/03431100#page/1/mode/1up>.
A revelação dos perfumes (1916), disponível em: <http://www.brasiliana.usp.
br/bbd/handle/1918/01077900>.
Estados de alma (1917), disponível em: <http://www.brasiliana.usp.br/bbd/
handle/1918/01077700>.
Poesias: 1915-1917 (1918), disponível em: <http://www.brasiliana.usp.br/
bbd/handle/1918/03434500>.
Mulher nua (poesias) (1922), disponível em: <http://www.brasiliana.usp.br/
bbd/handle/1918/03637900>.
Meu glorioso pecado (1928), disponível em: <http://www.brasiliana.usp.br/
bbd/handle/1918/03493900>.
Observamos aí o soneto italiano ou petrarquiano que, típico de
poetas renascentistas, seria realocado pelos parnasianos, consistindo
basicamente na divisão em quatro estrofes: duas delas de quatro versos
(quartetos) e outras duas, com três versos (tercetos). O último deles
encerra a “chave de ouro”, espécie de conclusão que permite desvendar
o significado expresso pelo poema. Outras características da poesia
parnasiana, verificadas em “Incenso”, são as seguintes:
a) primorosa utilização do verso alexandrino;
b) vocabulário formado por palavras rebuscadas, de uso não
coloquial, tais como “corola”, “turíbulo”, “bamboleia”, “esvoaçar”,
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Literatura como Arte
5
“ondula”, “umbral”, “eleva”;
Unidade
c) desejo de perfeição do ser ou da forma, visto nos dois primeiros
versos da última estrofe: “E, sempre que de um templo o largo umbral
transponho, logo o incenso me enleva e transporta minha alma”;
d) obsessão pela palavra exata, mais adequada possível ao poema.
Nesse sentido, se o texto em estudo se compõe de um interior
para cuja saída a solução que se apresenta é uma escada espiral, o
vocábulo apto a fazer a intermediação entre o externo e o interno, entre
um estágio e outro (além de resolver, pela rima, questões relativas a
sua estrutura interna), é o “umbral”, que levaria “à presença de deus na
atmosfera do sonho”. Além do mais, esses versos encerram uma marca
dos poetas simbolistas, tais como Arthur Rimbaud e Paul Verlaine o “messianismo estético” - visto na escrita em que vibra uma sede de
sacralidade, de atingir o divino.
Para conhecer
Arthur Rimbaud (1854-1891): Um dos máximos representantes do Simbolismo, esse poeta de personalidade inquietante começou a escrever prosa aos oito
anos e poesia, aos dez. Com 17, enviou o poema “O
barco ébrio”, considerado sua obra-prima, a Paul Verlaine. Impressionado com tamanha originalidade, esse
o convida a morar em Paris. Juntos, vivem intensa e
tumultuosa relação, que acabou com Verlaine preso e
Rimbaud no hospital. Em 1873, terminou e publicou
seu único livro, Uma temporada no inferno, mal acolhido pelos círculos literários parisienses. Desiludido,
destruiria seus manuscritos, deixaria de escrever aos
20 anos, trocando a vida literária pela de aventureiro
no exterior. Verlaine escreveu sobre Rimbaud em Os
poetas malditos (1884) obra à qual acrescentou uma
seleção de poemas daquele, recebida com entusiasmo.
FIGURA 53 - Athur Rimbaud
FONTE: <http://4.bp.blogspot.
com/-Y5tO8lX5eKM/
Tqy8FKnN0JI/AAAAAAAABeE/
I5jiBHMgcCo/s1600/rimbaud1.
jpg>
Em 1886, Verlaine publicou em La Vogue os poemas
em prosa das Iluminações. Essas publicações, somadas ao mito que começava a se forjar em torno de sua
figura, possibilitaram que Rimbaud gozasse de certa
notoriedade na última etapa da vida.
Conheça mais sobre Rimbaud autor através do docu-
mentário Charleville, Charlestown - O eterno retorno de Rimbaud, disponível em
<http://www.youtube.com/watch?v=g7SXldQ8Niw>.
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
Para conhecer
Paul Verlaine (1844-1896): Poeta que também figura
entre os principais representantes do Simbolismo. Suas
primeiras obras, entre as quais se destacam Poemas
saturnianos (1866) e Festas galantes (1869), caracterizam-se pelo antirromantismo próprio dos parnasianos.
Casou-se em 1870 com Mathilde Mauté, mas a abandonaria dois anos depois para viver com Rimbaud. Em
1873, em estado de embriaguez, feriu o amado com um
disparo. Devendo passar dois anos na prisão, aí escreveu Romances sem palavras (1874) e o poema místico
Sabedoria (1881). Ao sair do cárcere, mudou-se para a
Inglaterra, onde ministrou aulas de francês entre 1875 a
1877 e conheceu Lucien Létinois, com o qual empreenderia uma vida campesina sem êxito. Dedicou a Létinois,
FIGURA 54 - Retrato de Paul
Verlaine, Eugène Carrière,
1890, óleo sobre tela.
morto precocemente, muitas de suas elegias de amor.
FONTE: < http://2.bp.blogspot.
com/_vhl-SMfmDFI/
TMW8fzCp4PI/AAAAAAAAFEw/
QfFPqXEjLuM/s1600/Carriere++Verlaine.JPG >.
cação da obra crítica Os poetas malditos (1884), passou
Seus últimos dias transcorreram entre momentos de alcoolismo e arrependimento ascético. A partir da publia se preocupar com a temática simbolista dos sonhos
e da ilusão. Também é importante destacar sua prosa
autobiográfica, como Memórias de viúvo (1886), Meus
hospitais (1891) e Confissões (1895).
Para saber mais sobre a relação entre Verlaine e Rimbaud, assista a Total Eclipse,
dirigido por Agnieska Holland (1995, 111 min.).
Outros aspectos simbolistas trazidos pelo poema de Gilka
Machado consistem: a) na exploração dos sentidos, neste caso, do olfato
que a presença do incenso lembra, e da audição, atingida, por exemplo,
pela sonoridade da segunda estrofe, que se garante, entre outras coisas,
pela aliteração dos sons; b) na criação de uma atmosfera misteriosa, obtida
por meio de construções frasais que mais sugerem do que se referem a algo
concreto. Esse aspecto faz-se notar na primeira estrofe do poema, onde
“uma escada espiral que aos poucos se desata” pode significar muito mais
do que os simples sentidos das palavras “escada” e “espiral”. Vejamos que
o significado da palavra escada se desvela gradativamente, a par e passo,
como a fumaça de um incenso que, para completar a semelhança entre as
duas imagens, também sobe pelo ar em espiral.
Atentemos agora a “Vibrações do Sol”, de Gilka Machado, que
obteve edição em seu livro Estados da alma (1917):
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Literatura como Arte
Unidade
5
VIBRAÇÕES DO SOL
Dias em que fremindo os meus nervos estão,
em que estranho meu ser passivo e cismarento;
dias em que meu corpo é uma palpitação
de asas, da natureza ante o deslumbramento!
Num dia, assim, como este, os meus tédios se vão,
e ao céu de escampo azul, e ao Sol, de ardor violento,
eu só quero sentir a forte vibração
da vida, num prazer ou mesmo num tormento.
Saem dos lábios meus as expressões em trovas;
quero viver, gozar emoções muito novas,
amo quanto me cerca, amo o bem, amo o mal.
E, numa agitação de anseios incontidos,
nestes dias de Sol, os meus cinco sentidos,
são aves ensaiando o vôo para o Ideal.
Também nesse poema, encontramos: a) verso alexandrino;
b) vocábulos nada corriqueiros, como “fremindo”, “cismarento”,
“escampo”, “ardor”; c) vontade da perfeição, expressa na última estrofe.
Essa aspiração, primeiro a ser sentida em “forte vibração da vida, num
prazer ou mesmo num tormento”, visa transformar-se nas “expressões
em trovas” que, saindo dos lábios do sujeito-lírico, sejam capazes de dar
vazão a todos os seus sentidos. Porém, tais expressões revelam-se limpas
e polidas, à busca do Ideal, nessa tarefa incomum que é a composição
poética, para os parnasianos, “arte pela arte” e, assim, digna do culto à
deusa forma.
O Ideal, pertencente a um plano superior à existência, equivale à
imagem do rubi, que deveria ser encontrado na chave de ouro, engastado
nos últimos versos, como propunha Olavo Bilac. De mais a mais, uma
alusão ao mito grego de Ícaro colabora na aderência de “Vibrações do
sol” ao Parnasianismo, estética que usa e abusa das alusões, intertextos,
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
metáforas e referências concernentes a histórias, lendas, mitos, da
Antiguidade clássica greco-latina.
Esse poema, assim como “Incenso”, apresenta traços simbolistas
Você sabia?
Ícaro: Ícaro e seu pai, Dédalo, foram aprisionados no
Labirinto de Creta, onde vivia o aterrorizante Minotauro, ser com cabeça de touro
e corpo de homem. Dédalo,
como plano de fuga, fabricou asas com cera e penas
para ele e seu filho. Na fuga,
porém, Ícaro se aproximou
demasiado do sol, de modo
que a cera derreteu e ele
voou para a morte.
FIGURA 55 - A queda de
Ícaro, Jabob Peter Gowy, 1636,
óleo sobre tela
FONTE: <http://anideaaday.
files.wordpress.com/2008/10/
la-caduta-di-icaro-jacob-petergowy-1636-7.jpg>.
e, embora aluda aos cinco sentidos, explora mesmo a visão (do céu, do
sol) e o tato (os nervos fremem, o corpo palpita como asas, os raios
solares ardem na pele, os anseios incontidos se agitam). A audição é
contemplada pelos versos, pelos sons e pelo ritmo do próprio poema,
a trazer igualmente um clima de mistério. Que emoções muito novas
seriam essas a serem gozadas? Quais anseios incontidos agitam os
cinco sentidos? Ao final, temos menos certeza e mais sugestão de que
os desejos e ânsias constituem, como as aves que retomam a metáfora
(asas) da primeira estrofe, ensaios, fases do almejado “voo para o Ideal”
cuja letra maiúscula aponta à noção que tinha Platão da Ideia, forma
eterna, que jamais haveria de se modificar, ao contrário das formas que as
coisas tomavam em sua apresentação mundana, como cópias imperfeitas
e transitórias daquela realidade superior.
Essa quimera sublime, busca de purificação por meio da qual o
espírito atingiria o espaço do infinito, portanto, conjuga-se com aquilo
que é mais terreno, experimentado pelos cinco sentidos. A oscilação
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entre pureza e impureza, mostrada no último verso da terceira estrofe
– “amo quanto me cerca, amo o bem, amo o mal” – assinala o conjunto
da obra poética de Gilka. Pendendo ao primeiro eixo dessa balança, o
“Ideal” destacado em “Vibrações do sol” toma formas sinônimas, por
exemplo, o termo “Formas”, como aparece neste poema de autoria do
simbolista Cruz e Sousa:
ANTÍFONA
I
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...
II
Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas...
III
Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...
IV
Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
V
Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.
VI
Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, sodas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.
VII
Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.
VIII
Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passe
Do Éter nas róseas e áureas correntezas...
IX
Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos,
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos...
X
Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios...
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XI
Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte...
Saiba mais!
João da Cruz e Sousa (1861-1898): Nascido em Santa Catarina, filho de escravos alforriados, adotado pela família que os libertou,
pôde assim ser educado nas melhores escolas da região. Com a morte dos protetores,
largou os estudos para trabalhar, sofrendo
perseguições raciais que o impediram de assumir o cargo de promotor público. Mudou-se
em 1890 para o Rio de Janeiro, onde travou
contato com a poesia simbolista, colaborou
com jornais, fez-se conhecido com Broquéis
(1893), mas não conseguiu emprego decente. A obra do “cisne negro” surge dessa
atmosfera: “são as experiências, recortadas
FIGURA 56 - Cruz e Sousa
FONTE: <http://3.bp.blogspot.
com/-Uv8QmoZYmAo/TzyFHKIqizI/
AAAAAAAAAus/FpvGKU3Tz2k/s1600/
Cruz+e+Souza308.jpg>.
pelo sentimento de pertencimento a uma coletividade escravizada, marginalizada, que
definem suas alianças. Nas relações pessoaa-pessoa, conheceu as práticas intermediadas por discriminação sutil, ou o racismo
exacerbado” (LEITE, 1994, p. 98). Seus livros
Missal (1893) e Evocações (1897) exemplificam a prosa poética de uso comum no
Simbolismo brasileiro. Morreu vitimado pela tuberculose e a pobreza.
Para saber mais sobre o poeta, assista à reportagem Cruz e Sousa – De lá pra cá,
disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=z72-Gf6ch4c>.
Em 2007, os restos mortais de Cruz e Sousa retornam à Santa Catarina a pedido
do Governo do Estado. Cláudia Cárdenas e Rafael Schlichting realizaram um curta-documentário sobre a cerimônia desse retorno: Cruz e Sousa, a volta de um
desterrado (2007, 20 min.), disponível em: <http://www.curtadoc.tv/curta/index.
php?id=313>.
Nesse poema, chamamos atenção às palavras grafadas em
maiúsculas: 1) Formas e Amor; 2) Virgens, Santas; 3) Cor, Perfume 4)
Ocaso, Sol, Dor, Luz; 5) Mistério, Sonho, Estrofe, Verso; 6) Éter, Sonho;
7) Morte. Todas elas são também substantivos, de maneira que a marca
simbolista de associar vocábulos e ideias aqui se faz presente. Trata-se das
formas de um tipo de amor que, maiúsculo, como afirmado ao princípio
do texto, não deve ser comum ou terreno. A segunda dupla de vocábulos
resolve a sugestão da primeira: é um amor virginal, santo. Já a terceira
dupla elenca termos relacionados aos sentidos – visão e olfato – que,
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
como no “Incenso” de Gilka, se ligam à palavra turíbulo.
Entretanto, o ato de ver dá lugar a movimentos e sensações;
como se num corpo vivo, as horas em que o dia termina tremem nesse
momento extremo. Assim, no quarto grupo, os substantivos geralmente
vinculados à claridade tornam-se obscurecidos por que o sol se põe e,
ao se apagar, a luz se faz dorida. Notemos a intercalação dos termos que
lembram escuridão e clareza em duas duplas, tornado ocaso semelhante a
dor e sol igual a luz. O próximo quarteto reúne os vocábulos referentes à
criação poética cuja origem misteriosa procede de outra esfera, segundo
o eu-lírico, para ser fecundado, materializado em estrofes, em versos. Por
fim, a reiteração de Sonho, junto com Éter, i. e. com as regiões superiores
da atmosfera, fecha o ciclo associativo com a Morte, de maneira que esses
três substantivos singulares retornam às Formas pluralizadas da abertura
do texto.
Tema simbolista por excelência, a morte sela o clima místico que
paira em todo o poema, assumindo não apenas seu significado literal,
de fim de vida, mas também as significações metafóricas de refúgio em
outro espaço/tempo, de evasão de um universo social tão conturbado
como se apresentava o finissecular. Por isso, o desejo de manter distância
do ambiente, de afastar a literatura da realidade. Assim, a pureza ansiada
desde o primeiro momento da composição de Cruz e Sousa adjetiva-se
numa série de palavras relacionadas com a brancura, tais como “alvas,
brancas, claras, luares, neves, neblinas, cristalinas, puras, vaporosas,
lírios”.
Outros vocábulos encontram utilização rara (como “volúpico,
diafaneidades, triunfamentos”, respectivamente originados de “volúpia,
diáfano, triunfo”) ou são bastante exóticos por eles mesmos, a exemplo
de: “aras, mádidas, eflúvio, álacre, flébeis, alabastros, eflúvio, tantálicos”.
Mesmo que desconheçamos suas denotações, percebemos como auxiliam
na configuração de uma atmosfera estranha, misteriosa, e distinguimos
na sonoridade obtida com seus distintos agrupamentos um apoio
importante para que a imaginação seja estimulada e o sentido geral do
texto, de alguma forma, alcançado.
Voltando a seu começo e indo aos dicionários, vemos que “Antífona”
refere-se ao verso cantado em liturgias como resposta a um salmo, função
34
Letras
EAD
Literatura como Arte
Unidade
5
que teria originado o “canto antífonal”, peça executada por dois coros
semi-independentes, interagindo um com o outro, às vezes, entoando
frases alternadas. De algum modo, essa definição se compatibiliza com
a inspiração e sua transpiração em elementos concretos, a todo tempo,
solicitadas pelo eu-lírico, como antigos invocavam musas. A invocação
dirigida àquelas Formas, diáfanos elementos ou indefinidas forças, resulta
no embate decifrado em meio a imagens e sons veiculados por uma
linguagem que, à primeira vista, não se compreende tão facilmente como
a manchete dos jornais ou um anúncio das lojas Insinuante. Musical e
sensual, o poema tanto insinua e sugere que merecer ser escutado em:
<http://www.youtube.com/watch?v=bLF-C9HSJe8>.
Um pouco fartos de tanta pureza, retornemos a Gilka Machado
que, em outros poemas, ousa e torna mais evidente as impurezas. O
impuro nela se amplia, como quando ao tomar forma da mulher erotizada
em “Particularidades”, também de seu livro Estados da alma:
PARTICULARIDADES...
Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,
os meus gostos crimino e busco, em vão torcê-los;
é incrível a paixão que me absorve por tudo
quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... Os pelos...
Amo as noites de luar porque são de veludo,
delicio-me quando, acaso, sinto, pelos
meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo
em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.
Pela fria estação, que aos mais seres eriça,
andam-me pelo corpo espasmos repetidos,
às luvas de camurça, aos boás, à pelica...
O meu tato se estende a todos os sentidos;
sou toda languidez, sonolência, preguiça,
se me quedo a fitar tapetes estendidos.
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
Lembremos que os parnasianos visavam à impessoalidade,
à libertação de toda e qualquer interferência das dicções, emoções,
impressões, situações etc. do sujeito no texto poético. A poetisa que,
nesse caso, não renuncia (como queriam os simbolistas) à forma definida
do objeto poético, vai se afastar do modo parnasianista devido ao tom
confessional que imprime a seus versos. Por outro lado, a fêmea desejosa
e frágil que, tomada pela paixão, absorvida pelas sensações terrenas,
revela-se perturbada por elas, aproxima-se à ideia de inutilidade da arte,
expressa por esteticistas do porte de Gabriele D’Annunzio.
Para conhecer
Gabriele D’Annunzio(1836-1938): Máximo representante do decadentismo italiano entre os
séculos XIX e XX, sua estreia no mundo literário
deu-se aos 16 anos, com a publicação dos poemas
de Primo vere (1879), nos quais demonstrava sua
admiração pelo poeta romântico Giosué Carducci
(1835-1907). Em 1881, foi viver em Roma e ingressou na universidade para estudar Letras, publicando, nesse período, Canto novo (1882), em que
apostava decisivamente no decadentismo literário.
Em L’intermezzo di rime (1883), exaltava a beleza como o único objetivo artístico, convertendo-se
na figura central da polêmica entre decadentistas
e naturalistas. Também publicou prosa - O prazer (1889), Giovanni Episcopo (1892), O inocente
FIGURA 57 - Gabriele D’Annunzio
FONTE: <http://forcolaediciones.
com/wordpress/wp-content/
uploads/2011/07/Foto_1.jpg>.
(1892), O triunfo da morte (1894), As virgens das
pedras (1895), O fogo (1900) - e os dramas A cidade morta (1899) e A Gioconda (1899). Teve uma
vida repleta de escândalos amorosos, que o levou
a viver um período na França, onde não deixou de
escrever e publicou em francês. Durante a I Guerra Mundial (1914-1919), regressou
à terra-natal e se envolveu com a ideologia fascista. Condecorado pelo próprio Duce,
não deixaria de escrever romances como Leda sem cisne (1916) e Noturno (1918).
Fonte: ENEI, 2010.
Já que hoje estamos por demais voltando ao texto e lembrando
coisas fora dele, recordemos que o Esteticismo surgiu na França e
Inglaterra a partir de 1860, e que se baseia na valorização do belo em
detrimento de outros valores associados à esfera ético-moral. Apesar de
manter estreita relação com a teoria da arte pela arte, alguns estetas, como
os ingleses John Ruskin (1819-1900) e William Morris (1834-1896), não
compartiam a ideia da total autonomia da arte, posto entenderem o belo
e o artístico compromissados com a realidade circundante e não como a
completa emancipação do fenômeno estético.
36
Letras
EAD
Literatura como Arte
Unidade
5
Com Walter Pater (1839-1894), a teoria da arte pela arte se assumiria
como uma filosofia de vida que coloca o belo no centro da experiência
humana. Pater, entretanto, opunha-se ao hedonismo dos estetas da década
de 1880, entre os quais se destacam o pintor James Whistler (1834-1903)
e o escritor Oscar Wilde (1854-1900) que, ansiosos por transcender a
cultura e a moral burguesas, encontrariam respostas para seus anseios
no culto do artificialismo e do dandismo. O Esteticismo algumas vezes
é considerado como uma vertente do Decadentismo. Já esclarecemos o
significado do conceito, mas antes, lançamos um convite: passeie pelo
Reino Unido ao crepúsculo oitocentista, através da obra e da vida desses
artistas.
Para conhecer
Aprecie a obra plástica de
James
Whistler,
aces-
sando seus trabalhos em
Google Art Project, disponível em <http://www.
googleartproject.com/pt/
artist/james-mcneill-whistler/4128034/>.
FIGURA 58 - Noturno em
azul e prata, a lagoa de
Veneza, James McNeill
Whistler, 1879, óleo sobre
tela. Nos noturnos, como
o próprio nome indica,
o pintor quis registar os
efeitos da noite através
de uma gama de tons
azuis prateados sem se
atentar a nenhum tema,
simplesmente buscando a
combinação harmônica das cores na construção de uma pintura formulada.
FONTE: < http://uploads7.wikipaintings.org/images/james-mcneill-whistler/nocturne-in-blueand-silver-the-lagoon-venice-1880.jpg>.
Para conhecer
Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde (18541900): Intelectual irlandês, filho da escritora
Joana Elgee. Representante da teoria da arte
pela arte, pretendeu que a própria vida se
tornasse uma obra artística. Na Universidade
de Oxford, deu-se a conhecer como escritor,
recebendo importantes prêmios; ao terminar a
faculdade em 1878, começou a publicar artigos
e poemas em jornais e revistas. Em 1884, casou
com Constance Lloyd, irlandesa rica que lhe
FIGURA 59 - Oscar Wilde
FONTE: <http://pt.wikipedia.org/wiki/
Ficheiro:Oscar_Wilde.jpg>.
UESC
permitiu dedicar-se exclusivamente às Letras.
Suas ideias políticas e sociais eram também
admiradas e seu refinado modo de vestir colou-
Módulo 6 I
Volume 3
37
Literatura, Imaginário, História e Cultura
se ao termo “dandismo”, moda dos dândis (cavalheiros elegantes e extravagantes). Em
1895, foi preso devido à relação homoerótica mantida com um jovem nobre inglês. Ao
sair do cárcere depois de dois anos, perdeu influência, refugiou-se em Paris, onde viveu
praticamente na miséria com o nome falso de Sebastian Melmoth. Morreu na capital
francesa em 1900, vítima de meningite. Autor dos contos de O príncipe feliz (1888) e O
crime do lorde Arthur Saville (1891), do romance O retrato de Dorian Gray (1891), dos
dramas Salomé (1891) e A importância de se chamar Ernesto (1895). Várias de suas
obras literárias ganharam adaptação ao cinema:
O leque de Lady Windermere. Direção de Ernst Lubitsch, 1925, 98 min, mudo.
O fantasma de Canterville. Direção de Jules Dassin, 1944, 95 min.
O retrato de Dorian Gray. Direção de Albert Lewin, 1945, 109 min.
Um marido ideal. Direção de Alexander Korda, 1947, 96 min.
A importância de se chamar Ernesto. Direção de Anthony Asquith, 1952, 92 min.
Salomé. Direção de William Dieterle, 1953, 103 min.
A última dança de Salomé. Direção de Ken Russel, 1988, 89 min.
Um marido ideal. Direção de Oliver Parker, 1999, 96 min.
A importância de se chamar Ernesto. Direção de Oliver Parker, 2002, 97 min.
Uma boa mulher. Direção de Mike Baker, 2004, 89 min.
O retrato de Dorian Gray. Direção de Oliver Parker, 2009, 112 min.
Também é interessante assistir aos filmes que tratam da vida do escritor, como:
Os crimes de Oscar Wilde. Direção de Ken Hughes, 1960, 123 min.
Wilde. Direção de Brian Gilbert, 1997, 117 min.
A decadência é uma atitude existencial e uma corrente estética
que emergiu ao final do século XIX, contrapondo-se aos ideais
realistas e naturalistas de progresso. O termo “decadentistas”, usado
pejorativamente pelos críticos para designar os jovens intelectuais
franceses que partilhavam uma visão pessimista, cética e agônica do
mundo, seria apropriado por eles, convertendo-se em seu lema. O
Decadentismo caracterizou-se por ser
a arte em seu ponto de extrema maturidade a que as
civilizações, ao envelhecerem, conduzem seus sois
oblíquos: estilo engenhoso, complicado, erudito, cheio
de nuanças e rebuscado, recuando sempre os limites da
língua, tomando suas palavras a todos os vocabulários
técnicos, tomando cores a todas as paletas, notas a todos
os teclados, esforçando-se por exprimir o pensamento
no que ele tem de mais inefável e a forma em seus mais
vagos e mais fugidios contornos, ouvindo, para traduzir
as confidências sutis da neurose, as confissões da paixão
que envelhece e se deprava e as alucinações estranhas
da ideia fixa ao tornar-se loucura (GAUTIER, 1989, p.
42).
Nas produções decadentistas, encontramos tanto o desconforto e
o pessimismo com a sociedade, quanto culto pela arte e pelo sensorial numa
tentativa de liberar a literatura e a arte das convenções da moral burguesa.
38
Letras
EAD
Literatura como Arte
Unidade
5
Um poeta conhecido como maldito em sua época, Charles Baudelaire,
e um conterrâneo seu, o escritor e crítico de arte Joris Karl Huysmans,
são reconhecidos como decadentistas. Poetas simbolistas brasileiros,
como Alphonsus de Guimaraens e Cruz e Sousa, apresentaram marcas
decadentes, embora o único poeta que no Brasil mereça ser associado a
tal estética talvez seja Emiliano Perneta (1866-1921), também um dos
fundadores do Simbolismo no país.
Para conhecer
Charles Baudelaire (1821-1867): Escritor, crítico
de arte e tradutor. Foi chamado de “poeta maldito”
devido à vida boêmia que levava e à visão do mal por
ele expressa. Sua coletânea de poemas As flores do mal
(1855) teve grande peso sobre a estética simbolista e
lançou bases para a poesia moderna, mas se mostrava
polêmica para a época, de modo que voltaria à circulação
apenas em 1911. Baudelaire introduziu um novo conceito
de modernidade no ensaio “Le peintre de la vie moderne”
(1863) onde a definia como “o transitório, fugitivo,
contingente; a metade da arte, da qual a outra metade
é o eterno e o imutável”. Seus poemas destacam-se pela
magia, a música, a sensualidade, conseguindo plasmar
neles o sublime e o grotesco. A maioria de seus escritos
FIGURA 60 - Charles Baudelaire,
encontraria
somente
publicação
póstuma.
Walter
fotografia de Felix Nadar, 1855-58. Benjamin (1892-1940) em Charles Baudelaire, um lírico
FONTE:
<http://pt.wikipedia.org/ no auge do capitalismo (1935) mostra o poeta como
wiki/Ficheiro:Baudelaire_crop.jpg>.
a consciência lírico-crítica do século XIX, analisando-o
em suas várias dimensões: o poeta, o crítico da modernidade, a testemunha da
modernização social, fazendo importante referência a sua sensível interpretação da
urbanidade.
Joris
Karl
Huysmans
(1848-1907):
Escritor e crítico francês, nascido em
Paris. Apesar das afinidades estéticas e
pessoais que o vinculavam ao Naturalismo
- era intimo amigo de Émile Zola -, a partir
do terceiro romance, começou a assumir
de modo mais evidente as tendências ao
Simbolismo e ao Decadentismo. Em Às
avessas (1884), considerada sua obraprima, demonstrava estar cansado da
mediocridade da vida cotidiana e buscava
FIGURA 61 - Joris Karl Huysmans
FONTE: <http://www.palettemuseum.com/wpcontent/uploads/2010/09/HuysmansJorisKarl
uma via de escape através da estética.
Encontrou
no
misticismo
católico
e,
posteriormente, no demonismo, a solução
para evadir da entediante realidade. Là-
bas (1898) é a primeira obra literária contemporânea dedicada aos cultos satânicos,
na qual o autor cria um paradoxal realismo do sobrenatural. Após essa incursão nos
domínios do maligno, reencontrou-se com o catolicismo ortodoxo. Cabe destacar seu
grande êxito na produção de ensaios como A arte moderna (1883) e Certains (1889).
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Módulo 6 I
Volume 3
39
Literatura, Imaginário, História e Cultura
O Decadentismo de Huysmans parece impregnar os dois
últimos versos das “Particularidades” de Gilka, marcados pelo tédio e
o negativismo. Tais percepções sobre um mundo tão hostil e insensível
às demandas do sujeito assemelham-se àquelas expressas por artistas
decadentistas que, cansados das agruras da vida, tentavam amparar-se na
solidão e no isolamento. Ainda no mesmo poema da escritora brasileira,
o tema profano vê-se reforçado pela explosão sensorial dos “frágeis
membros”, pela interdição das “carícias sutis”, pelo erotismo do “corpo
desnudo” e dos “espasmos repetidos pelo corpo”. A temática profana,
ao lado das palavras de uso corriqueiro e de um elenco de coisas triviais
(pelos, cabelos, luvas de camurça, pelica, tapetes estendidos), flerta
com o desvio e a quebra de tabus, notáveis em Baudelaire, o precursor
do Simbolismo e da poesia moderna, como um todo, nela incluída a
decadentista e a impressionista.
O Impressionismo é uma corrente pictórica e musical que surgiu
na França ao final do século XIX. Nomeando primeiramente a música
de Claude Debussy (1862-1893) e a pintura de Claude Monet (18401926), o termo deriva da tela dessa artista - Impressão, sol nascente - dada
a conhecer na primeira
exposição dos novos
artistas em 1874. As
obras impressionistas
foram hostilizadas em
seu tempo, por boa
parte da crítica e do
público. Entre seus
principais integrantes,
estão
o
próprio
Monet, Alfred Sisley
FIGURA 62 - Impressão do sol nascente, Claude Monet, 1874, óleo sobre
tela. Essa obra foi a responsável por dar o nome ao movimento impressionista.
(1839-1899), Armand
Perceba que o artista registra a luz em pinceladas rápida e as cores surgem de
combinações cromáticas.
Guillaumin
(1841FONTE: <http://www.esec-josefa-obidos.rcts.pt/cr/ha/seculo_19/
Imagens19/sunrise.JPG>.
1927), Berthe Morisot
(1841-1895), Camille Pissarro (1831-1903), Edgar Degas (1834-1917),
Frédéric Bazille (1841-1870), Paul Cézanne (1839-1906) e Pierre Auguste
Renoir (1841-1919).
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Letras
EAD
Literatura como Arte
5
Saiba mais!
Unidade
Para ter acesso à obra plástica impressionista, consulte Google Art Project, disponível
em <http://www.googleartproject.com>. Busque pelo nome dos pintores mais conhecidos,
escolha algumas obras e as explore com a potente ferramenta de zoom do programa, que
permite a visualização detalhada das pinceladas, cores, texturas, figuras etc.
O site da TV escola disponibiliza uma série com oito programas sobre os impressionistas:
Henry
de
Tolouse-Lautrec,
disponível
em
<http://tvescola.mec.gov.br/index.
php?option=com_zoo&view=item&item_id=1928>.
Claude Monet, disponível em <http://tvescola.mec.gov.br/index.php?option=com_
zoo&view=item&item_id=8741>.
Edgar Degas, disponível em <http://tvescola.mec.gov.br/index.php?option=com_
zoo&view=item&item_id=1931>.
Edouard Manet, disponível em <http://tvescola.mec.gov.br/index.php?option=com_
zoo&view=item&item_id=1918>.
Paul Cézanne, disponível em <http://tvescola.mec.gov.br/index.php?option=com_
zoo&view=item&item_id=1918>.
Paul Gauguin, disponível em <http://tvescola.mec.gov.br/index.php?option=com_
zoo&view=item&item_id=1932>.
Pierre-Auguste Renoir, disponível em <http://tvescola.mec.gov.br/index.
php?option=com_zoo&view=item&item_id=1223>.
Vicente Van Gogh, disponível em <http://tvescola.mec.gov.br/index.php?option=com_
zoo&view=item&item_id=1930>.
Também assista:
Camille Claudel. Direção de Bruno Nuytten, 1988, 175 min.
Pinturas impressionistas, disponível em <http://www.youtube.com/
watch?v=uPZQhRrrqeo>.
Os Impressionistas (2006), minissérie realizada pela BBC e disponível legendada em
português em: <http://www.youtube.com/user/tassuett/videos?query=impressionists>
(em episódios).
O Poder da Arte (BBC) – Van Gogh, vídeo disponível em <http://www.youtube.com/wat
ch?v=Rve77XDdK0I&feature=related>.
Van Gogh. Direção de Maurice Pialat, 1991, 158 min.
Não se pode tê-los como membros de uma escola homogênea,
mas é possível verificar traços comuns em suas obras: pintura ao ar livre
através da observação da natureza; valorização das impressões pessoais e
sensações visuais imediatas, bem como da ação da luz natural; pinceladas
fragmentadas e justapostas; decomposição das cores; suspensão dos
contornos e efeitos de claro e escuro. Uma característica destacável é
a técnica da mistura ótica, ou seja, as colorações formam-se na retina
do observador e não pela mistura de pigmentos. Apesar das paisagens e
naturezas-mortas como temas preferidos das pinturas impressionistas,
apresentaram importante variação de repertório.
No Brasil, algumas marcas impressionistas podem ser visualizadas
nas obras de Almeida Júnior (1850-1899), Antônio Parreiras (1860-1937),
Arthur Timótheo da Costa (1882- 1922), Belmiro de Almeida (18581935), Castagneto (1851-1900) e Eliseu Visconti (1866-1944), entre
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Módulo 6 I
Volume 3
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
outros. A resistência do público às novas tendências estéticas, a pouca
ousadia dos pintores e as limitações impostas pela Academia Imperial
de Belas Artes dificultaram que o Impressionismo fosse incorporado
pelos pintores nacionais, limitados então ao uso superficial das técnicas
impressionistas.
Designando uma das correntes literárias do final do século XIX,
o Impressionismo denominou inicialmente a escrita artística dos irmãos
Edmond e Jules Goncourt, mas se estenderia a escritores “decadentes”,
tais como Anton Tchecov (1860-1904) e Eça de Queirós (1845-1900).
Aprimorado na obra adulta de Henry James (1843-1916), Italo Svevo
(1861-1928), Joseph Conrad (1857-1924) e Marcel Proust (1871-1922),
assinala-se por trocar as peripécias exteriores pela análise psicológica:
O relato de narrador impessoal e onisciente, usado pelos realistas e naturalistas, é substituído pela histórica
contada do ponto de vista do herói-autor (Proust, Svevo) ou então, como em James e Conrad, pela narração construída com ponto de vista plurifocal, isto é,
contada a partir da perspectiva dos vários personagens.
Elaborando a técnica do ‘discurso vivido’, o romancista
procura captar a vida interior dos protagonistas (MERQUIOR, 1977, p. 151).
Marcas impressionistas, também simbolistas, revelam-se na
obra do escritor sul-rio-grandense Mario Quintana, situada entre
os anos de 1930 e 1950, ou seja, desde suas publicações em jornais e
revistas aos livros ordenados por gêneros poéticos. Os elos do poeta
com tais estéticas tornam-se visíveis em algumas partes dos livros A
rua dos cataventos (1940) e Canções (1946). Sua rotulação como “neosimbolista” contribuiria para afastá-lo das vanguardas, já que, no Brasil,
o Simbolismo não se identificava com os ares modernistas, tendo surgido
no interior do Parnasianismo, em convivência nada conflitante.
Para conhecer
Mario de Miranda Quintana (1906-1994): O “anjo poeta” nasceu prematuramente
em Alegrete (RS). Seus pais, Celso e Virgínia Quintana, responsabilizaram-se por sua
alfabetização. Em 1919, foi estudar no Colégio Militar de Porto Alegre, publicando seus
primeiros textos na revista Hyloea, da Sociedade Cívica e Literária dos alunos dessa
escola. Obteve o primeiro lugar no concurso literário do Diário de notícias de Porto Alegre com o conto “A sétima personagem” (1926) e a publicação de um de seus poemas
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Letras
EAD
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Literatura como Arte
na revista carioca Para todos (1927). A partir de 1929,
Unidade
passou a viver em Porto Alegre e a trabalhar no jornal O
Estado do Rio Grande; em 1932, como tradutor para a
Editora Globo; em 1935, na Gazeta de Notícias do Rio de
Janeiro, onde conheceria Cecília Meireles. Seu primeiro
livro, A rua dos cataventos, foi publicado em 1940 e o
último, Velório sem defunto, em 1990. Em 1960, Rubem
Braga e Paulo Mendes Campos organizaram sua Antologia poética. 20 anos depois, receberia o Prêmio Machado
de Assis pelo conjunto de sua obra.
Leia Micro-história italiana para uma contribuição
à biobibliografia de Mario Quintana de André Luís
Mitidieri (2011). Disponível em: <http://www.neiita.cce.
ufsc.br/relit/Numeros/N3Vol1Agosto2011.pdf>.
FIGURA 63 - Mario Quintana
FONTE: <http://2.bp.blogspot.
com/-T2-G9r7rIYM/T9fGg1EaYFI/
AAAAAAAAAQU/oOF3zHrweaM/
s1600/mario+quintana.jpg>.
Para saber mais sobre a vida e obra do poeta, acesse
Mario Quintana – página web do Estado do Rio
Grande do Sul, disponível em <http://www.estado.
rs.gov.br/marioquintana/>.
Assista aos vídeos:
Anjo Malaquias, disponível em: <http://globotv.globo.com/rbs-rs/curtas-gauchosespeciais-de-sabado/t/veja-tambem/v/assista-ao-curta-anjo-malaquias-da-serie-20gauchos-que-marcaram-o-seculo-xx/2066137>.
Mario Quintana, disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=rfxAopMFnEI>.
Mario Quintana, vida & obra, disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=rT
BgJvsg89g&feature=related>.
Saiba mais sobre a Casa de Cultura Mario Quintana, acessando <http://www.ccmq.
com.br>.
Convém esclarecer que o termo “vanguardas”, originário do
francês avant-garde, refere-se ao conjunto de tendências artísticas
surgidas no início do século XX: Futurismo, Cubismo, Expressionismo,
Suprematismo, Construtivismo, Dadaísmo, Surrealismo etc. De acordo
com Peter Burger (2008), as vanguardas atacam os conceitos burgueses de
instituição da arte (conteúdo essencial das obras) e da autonomia da arte
(separação da arte da práxis cotidiana), questionando o funcionamento
da arte na sociedade, tanto em relação a seu efeito como a seu conteúdo.
Dessa forma, rompem com o conceito tradicional de “obra orgânica”,
criando obras “não-orgânicas”, ou seja, suas produções se mostram como
uma montagem, um artefato; são reproduções e reproduzíveis, dão novos
significados aos materiais, apropriam-se dos meios disponíveis e, com
isso, dissolvem a possibilidade de um estilo de época ao mesmo tempo
em que apagam a aura artística.
No entanto, Quintana consegue ser simbolista e modernista ao
mesmo tempo, e em um só texto, como veremos neste poema d’A rua
dos cataventos:
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Módulo 6 I
Volume 3
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
Soneto XVII
Mario Quintana
Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…
E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, amarelada…
Como o único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!
Entre as características simbolistas aí observadas, destacamos a
abordagem por via indireta, pois as sucessivas perdas, metaforizadas em
assassinatos, levam o sujeito lírico a se declarar uma série de cadáveres, o
que pode ser entendido como expropriações e privações, não no sentido
literal, material, mas também e, sobretudo, emocional. Quando diz “me
assassinaram”, não fala diretamente, mas pela transversal, querendo dizer,
quando me desapossaram, quando me tiraram coisas, pessoas, sentimentos
etc. O cadáver “mais desnudo”, assim, não deve ser compreendido em si
mesmo, como um corpo morto, mas pelo que poderá sugerir. A sugestão
parece tão perfeita, que é capaz de instalar o símbolo a ser decifrado pela
leitura, quer dizer, cadáver não é = cadáver, mas equivale a uma situação
de falta, penúria, pobreza, saudade etc.
Outro traço simbolista reside no poder de evocar associações, o
44
Letras
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Literatura como Arte
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Unidade
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que vemos quando, à perda de um ato, de uma maneira (jeito de sorrir)
sucede a perda de algo mais pendente ao concreto (qualquer coisa minha),
mas nem por isso, definido. A indefinição é acompanhada de certo
mistério em busca de maior concretude - o “toco de vela, amarelada” que se associa às repetições da palavra “luz” nas estrofes seguintes. Os
cadáveres geram associações superpostas com “corvos, chacais, ladrões
da estrada” e “Aves da noite” Asas do Horror!”. O peso conferido às
vogais “a”, “o” e “u” assegura musicalidade ao poema, ao mesmo tempo
em que algumas palavras, como cadáveres, deixam de corresponder a seu
sentido denotativo, abrindo-se a outros significados, como vimos.
O gosto simbolista pela religiosidade e pela incompreensibilidade
é notado na “luz sagrada”, “luz, trêmula e triste como um ai”, que logo
tem sua compreensão dificultada ao se mostrar como a “luz do morto
[que] não se apaga nunca”. O simbolismo também prefere o individual ao
geral e o vago ao exato. Nesse sentido, ao fixar vínculos entre o abstrato
e o concreto no “Soneto XVII”, a natureza significante da palavra
“amarelada”, e não sua propriedade conceitual, é que permite relacionar a
morte à velhice. A postura do ser frente ao passar do tempo é particular,
antes de tudo, mas “Quintana se volta antes para o plano da objetividade,
da relação do homem com a natureza, do que para o plano individual.
Quando se refere ao seu próprio íntimo, o poeta geralmente nos defronta
com um quadro de tristeza e desolação” (BECKER, 1996, p. 40).
O símbolo está ali, naquela luz que jamais se apaga e o ponto alto
do poema consiste na tentativa de desvendar esse enigma. O que tal luz
significa? Pode significar a própria poesia, único bem que resta ao eu
lírico. Como o poema está escrito na primeira pessoa do singular, há
sugestão de que esse possa identificar-se como Quintana, o ser histórico,
de carne e osso cuja poesia enraizada na experiência pessoal também se
aproxima dos românticos, pois muitos deles buscavam a identificação
entre a vida vivida e a obra de arte, neste caso, literária. Por outro lado,
Quintana se insere no modernismo literário, entre cujos critérios, ressalta
“o compromisso com o princípio de um exame cerrado de si mesmo, que
acarreta uma exploração do eu” (GAY, 2009, p. 21). Como nos lembra
Paulo Becker (1996), para o poeta moderno,
45
Literatura, Imaginário, História e Cultura
defrontado com uma existência racionalizada e
coisificada ao extremo, a palavra lírica serve muitas
vezes como uma válvula de escape. Através dela, o poeta
afirma sua individualidade contra a indiferenciação
que vigora no mundo reificado. Mergulhado em seu
próprio íntimo, e abandonando qualquer referência a
objetos e situações ‘reais’ (por serem ideologicamente
marcados), o poeta pode criar a ficção do indivíduo
íntegro e pleno, reconciliado com a natureza e consigo
mesmo. Mas esta é antes uma utopia do que uma
realidade conquistada (p. 39-40).
Românticos, impressionistas e modernistas comungam da
presença do eu em seus textos, em geral, correspondente ao uso da
primeira pessoa do singular, o que sugere identificação entre o sujeito
lírico (voz que fala no texto lírico, como quer a teoria literária) e o poeta
(ser de carne e osso, aquele que vive e escreve). Pense aí, pense. Pense
que o próprio Quintana havia afirmado, em Da preguiça como método de
trabalho (1987): “Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são
eu mesmo, nunca escrevei uma vírgula que não fosse uma confissão” (p.
11).
A postura do escritor frente ao mundo real e ao fazer artístico
pode ser avaliada a partir do soneto que abre A rua dos cataventos:
SONETO I
Mario Quintana
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta.
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
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Literatura como Arte
Unidade
5
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me, estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
Vamos notar certa vizinhança entre literatura e pintura, o poeta
escrevendo seus versos e o pintor que cria seus quadros, escolhendo
tintas e tons. Assim, a “caneta é cor das venezianas: Verde!”, “o sol na
página deserta desenha “leves, lindas filigranas”, quer dizer, delicadas
obras que os ourives produzem com fios de ouro e prata entrelaçados
e soldados. O cenário não está definido, não sabemos que janela é essa
nem onde ou quando se situa. A indefinição e as analogias com a pintura
prosseguem na segunda estrofe, em que o sujeito lírico não sabe quem
poderia estar agindo por meio de suas mãos (desconhecido “paisagista
doidivanas”) que “Mistura os tons [...] colorindo as horas quotidianas”,
produz “Jogos de luz dançando na folhagem”. Os adjetivos aberta, leves,
lindas e deserta realçam os efeitos que os objetos, assim visualizados de
modo praticamente autônomo, produzem nele, mais importantes do que
os próprios objetos e do que a definição do ambiente.
Se o paisagista poderia encarnar uma forma mística, algo
sobrenatural, típico da literatura simbolista, essa ideia é logo desfeita
porque o substantivo se acompanha do adjetivo doidivanas. Extravagante
e ignorada, a força que o leva a cantar só pode vir dele mesmo. A
extravagância chega a tal ponto que o poeta afirma até se esquecer do
que ia escrever, mas não abandona a caneta, frente ao desafio da página
deserta, do papel branco. Seu estado de espírito é objeto do poema que
resulta da própria ação, portanto, ele atua enquanto sujeito produtor ao
mesmo tempo em que faz parte da paisagem, passivamente, numa atitude
típica do Impressionismo.
O último verso, “Nos leves dedos que me vão pintando”, vem
confirmar a comparação entre poeta e pintor, pintura e poesia. E com
qual movimento artístico ele se identifica? Para responder, você precisará
considerar, antes de tudo, que, apreendendo a existência
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Módulo 6 I
Volume 3
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
como um constante devir, manifestado pelo poeta em
seus autorretratos, a atitude contemplativa perante o
mundo, tão bem sintetizada no verso ‘Pra que pensar? Também sou da paisagem...’, a atenção dispensada
aos dados sensíveis do real e, também, a busca de uma
linguagem nova, que exprima uma visão pré-racional,
necessariamente subjetiva e fragmentária (a do ‘paisagista doidivanas’), sempre ‘em busca de uma nova descoberta’ [...] – todos estes são aspectos característicos
de uma tendência que aflorou nas artes pictóricas na
segunda metade do século passado, o Impressionismo
(BECKER, 1996, p. 26).
Como produtor de sonetos e outras composições clássicas,
Quintana reforça sua posição de leitor dessa tradição, mas não deixa de
absorver as expectativas da poesia moderna, incorporando a oralidade e
o coloquialismo a uma dicção própria, que assinala seu sujeito poético de
forma mais acentuada nos anos de 1950. Em Sapato florido, Caderno H,
A vaca e o hipogrifo e Da preguiça como método de trabalho, ele pratica
a prosa poética, como evidenciamos nos seguintes poemas, retirados do
primeiro desses livros: CARRETO – “Amar é mudar a alma de casa”;
EPÍGRAFE – “As únicas coisas eternas são as nuvens”.
O verso livre é uma conquista da poesia moderna e muito deve a
Baudelaire. Seus poemas desencadeados a partir da ideia de que a vida é
passagem, resultado do ir e vir e do ritmo acelerado das grandes cidades,
inspirou seus conterrâneos Rimbaud e Stéphane Mallarmé. Visualizamos
a questão da fugacidade do momento e a presença de figuras que, até o
advento da poesia moderna, não eram dignas de integrar um texto poético,
em “O cão e o frasco”, dos Pequenos poemas em prosa de Baudelaire e
“Os vira-luas”, do Sapato florido de Quintana:
O CÃO E O FRASCO
Meu bom cão, meu cachorrinho, querido Totó, cheguese e venha respirar um excelente perfume comprado no
melhor perfumista da cidade.”
E o cão, agitando a cauda, o que é, creio eu, nesses
pobres seres, o sinal correspondente a um sorriso
ou riso, aproximou-se e pousou curiosamente seu
focinho úmido sobre o frasco destampado; em seguida,
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Literatura como Arte
Unidade
5
recuando subitamente, com medo, latiu contra mim
como se me reprovasse.
“Ah! miserável cão, se eu tivesse lhe oferecido um
pacote de excrementos, você o teria farejado com prazer
e talvez até devorado. Assim você mesmo, indigno
companheiro de minha triste vida, você se parece com
o público a quem não se pode jamais presentear com
perfumes delicados que o exasperam mas com sujeiras
cuidadosamente escolhidas.
OS VIRA-LUAS
Todos lhes dão, com uma disfarçada ternura, o nome,
tão apropriado, de vira-latas. Mas e os vira-luas?
Ah! Ninguém se lembra desses outros vagabundos
noturnos, que vivem farejando a lua, fuçando a lua,
insaciavelmente, para aplacar uma outra fome, uma
outra miséria, que não é a do corpo.
No Brasil, o poema em prosa à la Baudelaire, que privilegia o ritmo
Para conhecer
Stéphane Mallarmé (1842-1898): Durante os
anos 1880, revelou-se como a figura central de
um grupo de escritores, entre os quais estavam
Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust. Publicou
seus primeiros poemas no Parnasse Contemporain
em 1866; iniciou em 1867 o relato Igtur, ou a
loucura de Elbehnon e, em 1869, Hérodiade.
Seu trabalho mais famoso, A tarde de um fauno
(1876), inspirou o prelúdio homônimo de Debussy
e foi ilustrado por Manet. Outras de suas obras
literárias: antologia Verso e prosa (1893) e o
volume de ensaios Divagações (1897). Em seu
polêmico poema experimental Um lance de dados
(1897), emprega versos livres e uma tipografia
revolucionária
FIGURA 64 - Retrato de Stéphane
Mallarmé,
Pierre
Auguste
Renoir,
1892, óleo sobre tela. Mallarmé foi amigo
dos pintores impressionistas Manet e
Renoir, como também de Degas, Gauguin
e Whistler, ajudando a concretizar o
diálogo entre a pintura e a poesia do final
que
influenciaria
a
poesia
de
vanguarda. Suas inovações seriam referenciais
aos poetas concretistas brasileiros Décio Pignatari,
Augusto e Haroldo de Campos. Alquimista das
palavras, Mallarmé defendia que não se faz poema
com ideias, mas com palavras; queria assinalar
que o poema deve ser visto com um objeto em si
mesmo (CAMPOS et. al., 1974).
do século XIX.
FONTE: <http://www.histoire-image.org/
photo/zoom/sio10_renoir_001f.jpg>.
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
do devir, os momentos passageiros, conquistou simbolistas, a exemplo
de Cruz e Sousa (Missal e Evocações) e impressionistas, como Adelino
Magalhães (Os violões) e Raul Pompeia (Canções sem metro). Essa
forma seria utilizada de modo sistemático por poetas sul-rio-grandenses,
dentre outros, Augusto Meyer e Álvaro Moreyra, de quem Quintana se
julga devedor.
Consideremos agora esta composição retirada dos Pequenos
Para conhecer
Adelino
Magalhães
como
dos
um
mais
(1887-1969):
importantes
Reconhecido
representantes
do
Impressionismo no Brasil, transitou pelos diferentes estilos
das vanguardas. Em sua prosa, encontramos espaços e
tempos ilusórios, oníricos e alucinatórios onde retumbam
ecos onomatopeicos. As imagens e os ruídos denunciam
a angústia das personagens e definem a atmosfera de
seus contos por meio de uma linguagem original (Cf.
BICHUETTE, 2009, p.13). Dono de uma expressão singular,
sua obra foi incompreendida e se manteria praticamente
no anonimato não fosse o esforço que alguns poucos
pesquisadores
empreendem
nos
últimos
anos.
Suas
inovações literárias foram reunidas em Obras completas
FIGURA 65 - Adelino Magalhães
FONTE: <http://sobreomedo.
files.wordpress.com/2010/11/b>
Raul
D’Ávila
Pompeia
(1963). No ano seguinte, ele receberia o Prêmio Machado
de Assis da ABL pelo conjunto da obra.
(1863-1895):
Intelectual
talentoso, aos dez anos foi internado no Colégio Abílio
do Rio de Janeiro, cenário e personagem d’O Ateneu
(1888). Nesse romance, narra em primeira pessoa
o drama de um menino que, arrancado de seu lar, é
obrigado a viver num internato. Sua primeira narrativa
romanesca é Uma tragédia no Amazonas (1880). A
partir de 1881, engajou-se às campanhas abolicionistas
e republicanas, tornando-se amigo de Luís Gama.
Escreveu em jornais paulistas e cariocas, publicou os
poemas em prosa de Canções sem metro no Jornal do
Commercio. Depois da abolição, tornou-se florianista
exaltado e se opôs a intelectuais como Olavo Bilac. Com
a morte de Floriano Peixoto, foi demitido da direção da
Biblioteca Nacional e, sentindo-se desdenhado, pôs fim à
vida no Natal de 1895. Em sua obra, “pode-se observar
a característica do estilo, de não só refletir a impressão
FIGURA 66 - Raul Pompeia
FONTE: <http://4.bp.blogspot.
com/-V2zCTT2SK3s/T6tCmJmUxYI/
AAAAAAAAAqM/AgQGu0wTgfM/
s1600/RAUL_P~1.JPG>.
que causa um dado objeto, mas a impressão causada
pelo objeto em um momento especial sob um determinado ângulo. A impressão de
cada instante é inédita. Os fenômenos se apresentam à impressão sem correlações
lógicas. A realidade exterior surge decomposta em múltiplas facetas, segundo o ângulo
de visão. O simultâneo, o fragmentário, o instável e o subjetivo assumem a maior
importância” (CADEMARTORI, 1993, p.59).
Augusto Meyer (1902-1970): Poeta, ensaísta e professor. Seu primeiro poemário,
Ilusão querida, foi publicado em 1920, mas Coração Verde (1926), Giraluz (1928)
e Poemas de Bilu (1929) é que lhe dariam reconhecimento internacional. Principal
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Literatura como Arte
responsável pela introdução das ideias modernistas no Rio Grande do sul, dirigiu a
Unidade
Biblioteca Pública desse estado entre 1930 e 1936 e o Instituto Nacional do Livro
em duas ocasiões: 1938-1956 e 1961-1967. Seu ensaio Machado de Assis (1935)
mostrou-se fundamental para a revalorização da obra desse autor. Também estudou a
literatura e o folclore sul-rio-grandenses. Em 1960, entrou para a Academia Brasileira
de Letras.
Para saber mais sobre a obra e o poeta, leia Ciclo de conferências – Centenário
de nascimento de Augusto Meyer, disponível em: http://www.academia.org.br/abl/
media/conferencias5.pdf
Álvaro Moreyra (A. Maria da Soledade Pinto da Fonseca Velhinho Rodrigues M. da Silva) (1888-1964):
Instalou-se no Rio de Janeiro em 1910 para terminar o
curso de Direito e, depois de um período fora do país, desenvolveu exitosa carreira jornalística como redator das
publicações A Hora, Bahia Ilustrada, Boa Nova, Diretrizes,
Dom Casmurro, Fon-Fon!, Ilustração Brasileira e Para Todos. Participou junto com sua mulher, a jornalista e líder
feminista Eugênia, da Semana de 22. Fundou em 1927 o
“Teatro de Brinquedo”, primeiro movimento brasileiro dedicado à renovação teatral. A partir de 1942, dedicou-se
à crônica, trabalhou na Rádio Cruzeiro do Sul e na Rádio
Globo. Entrou para a Academia Brasileira de Letras em
1959 e deixou uma obra notável, na qual figuram Elegia
FIGURA 67 - Casal Moreyra,
ilustração de Álvarus (Álvaro
Cotrim), c. 1920.
FONTE: <http://upload.
wikimedia.org/wikipedia/
commons/0/06/Casal_Moreyra_
por_Alvarus.jpg>.
da bruma (1910), Um sorriso para tudo (1915), Amargas
(1954) e Havia uma oliveira no jardim (1958).
Aprofunde sua visão sobre o autor lendo As amargas, não (lembranças), disponível em: <http://www.
academia.org.br/antigo/media/As%20amargas%20
N%C3%A3o%20-%20Lembran%C3%A7as.pdf>.
poemas em prosa de Baudelaire:
O ESTRANGEIRO
Charles Baudelaire
— A quem mais amas tu, homem enigmático, dizei: teu pai, tua
mãe, tua irmã ou teu irmão?
— Eu não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
— Teus amigos?
— Você se serve de uma palavra cujo sentido me é, até hoje,
desconhecido.
— Tua pátria?
— Ignoro em qual latitude ela esteja situada.
— A beleza?
— Eu a amaria de bom grado, deusa e imortal.
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Módulo 6 I
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
— O ouro?
— Eu o detesto como vocês detestam Deus.
— Quem é então que tu amas, extraordinário estrangeiro?
— Eu amo as nuvens.., as nuvens que passam lá longe...
as maravilhosas nuvens!
Tanto nesse poema quanto em “Carreto” e “Epígrafe”, de Mario
Quintana, está presente a ideia de transitoriedade, daquilo que é fugaz
e não podemos reter, pois não conseguimos dominar a ação do tempo.
Para Baudelaire, as instituições que tradicionalmente prenderiam alguém
a uma terra não importam. Sendo a beleza, inalcançável para um humano
e o dinheiro, desprezível, assim como a classe social a que está ligado – a
burguesia –, o único objeto digno de seu amor são as nuvens porque,
passageiras e distantes, parecem encarnar, materializar aquela beleza
inatingível, dar uma mostra de sua existência.
Quintana não se mostra em total inconformidade com os valores
sociais de sua época, a julgar, pela crença no amor, capaz de transformar
alguém, mudar sua alma. Ainda que a paixão seja transitória e os amores
não durem para sempre, como o inquilino que muda de residência, o
estado de espírito de quem ama pode modificar-se, do mesmo modo que
os objetos das paixões, mais breves e menos duradouras, e do amor, que
não é imortal, como disse Vinícius de Moraes, mas “infinito enquanto
dure”.
O “anjo-poeta” compartilha com Baudelaire “o sentimento de
exílio, como se fosse um estrangeiro entre os seus [...]. Além disso,
Quintana possui uma percepção acurada do tempo, cuja passagem arrasta
tudo consigo. Esse sentimento de transitoriedade não é imediatamente
vinculado à vida moderna nas primeiras obras de Quintana, parecendo
emergir antes da contemplação da natureza” (BECKER, 1996, p 115116) humana, como observamos em “Carreto” e da natureza física, como
vemos em “Epígrafe”, poema no qual reitera a concepção do efêmero, do
transitório, expressa por seu confrade francês em “O estrangeiro”.
A simplicidade aparente dos quintanares oferecidos à leitura em
revistas e jornais fez com que caíssem no gosto popular antes de o escritor
se inserir no cenário editorial e conquistar espaço no cânone brasileiro.
Sua produção inicial revela um processo desordenado, e antes sincrônico
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Unidade
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do que diacrônico, como indica sua história editorial. A obra quintanesca
possibilita observar um modernismo que, embora tendo pouco a ver com
a literatura vanguardista brasileira, se traduz pela “concordância com a
recusa programática ao mundo burguês e pela volta a uma originalidade
primitiva, que nele transparece no aproveitamento da oposição idade
adulta/infância, grandes eventos históricos/pequenos eventos do dia-adia, gravidade/ludismo, intelectualismo/emocionalidade” (BORDINI,
1997, p. 12).
Como tivemos oportunidade de estudar, Gilka Machado e Mario
Quintana encarnam em sua poesia, escrita desde as primeiras décadas
do século XX, tendências vigentes no século anterior, permitindo
compreender suas obras em perspectiva sincrônica, que não exclui o
diálogo com outros espaços, estéticas, estilos, tempos. Isso também
ocorre quando, além de outros elementos e fatores, o tema da morte
interliga a poetisa carioca e o poeta gaúcho ao simbolista catarinense
Cruz e Sousa.
Quintana também se une aos escritores românticos que
incursionaram pelo fantástico por intermédio de Sapato florido em cujo
interior, desfilam anjos, fantasmas, monstros, vozes do além. No poema
“O Anjo Malaquias”, por exemplo, o poeta fala de um ogre que iria
devorar uma criancinha inocente “por esporte”, quer dizer, menos por
ser bravo do que por sua natureza de ogre. Quem salva o menininho é
Nossa Senhora, dando-lhe um par de asas que, na pressa, não cai em suas
costas, mas no bumbum.
O ANJO MALAQUIAS
Mario Quintana
O Ogre rilhava os dentes agudos e lambia os beiços grossos,
com esse exagerado ar de ferocidade que os monstros gostam de
aparentar, por esporte.
Diante dele, sobre a mesa posta, o Inocentinho balava, imbele.
Chamava-se Malaquias – tão pequenino e rechonchudo, pelado,
a barriguinha pra baixo, na tocante posição de certos retratos da
primeira infância...
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
O Ogre atou o guardanapo ao pescoço. Já ia o miserável devorar o
Inocentinho, quando Nossa Senhora interferiu com um milagre.
Malaquias criou asas e saiu voando, voando, pelo ar atônito...
saiu voando janela em fora...
Dada, porém, a urgência da operação, as asinhas brotaram-lhe
apressadamente na bunda, em vez de ser um pouco mais acima,
atrás dos ombros. Pois quem nasceu para mártir, nem mesmo a
Mãe de Deus lhe vale!
Que o digam as nuvens, esses lerdos e desmesurados cágados
das alturas, quando, pela noite morta, o Inocentinho passa por entre
elas, voando em esquadro, o pobre, de cabeça pra baixo.
E o homem que, no dia do ordenado, está jogando os sapatos dos
filhos, o vestido da mulher e a conta do vendeiro, esse ouve, no
entrechocar das fichas, o desatado pranto do Anjo Malaquias!
E a mundana que pinta o seu rosto de ídolo... E o empregadinho
em falta que sente as palavras de emergência fugirem-lhe como
cabelos de afogado... E o orador que pára em meio de uma frase...
E o tenor que dá, de súbito, uma nota em falso... Todos escutam,
no seu imenso desamparo, o choro agudo do Anjo Malaquias!
E quantas vezes um de nós, ao levantar o copo ao lábio,
interrompe o gesto e empalidece... – O Anjo! O Anjo Malaquias! –
... E então, pra disfarçar, a gente faz literatura... e diz aos amigos
que foi apenas uma folha morta que se desprendeu... ou que um
pneu estourou, longe... na estrela Aldebaran...
Além da presença do ser monstruoso e da santa, identificamos
certa oscilação entre os mundos real e irreal através das presenças do pai
jogador, da mulher que pinta o rosto, do “empregadinho” e da imagem a
ele associada (cabelos de afogado). Como leitores, ficamos em dúvida se
os acontecimentos e os seres que povoam o universo poético desafiam
a “ordem natural das coisas” ou se fazem mesmo entender como
pertencentes à esfera sobrenatural, tampouco se a ação de Nossa Senhora
consistiu mesmo em um bem para o menino.
O ogre realmente o devoraria, se não demonstrava apetite para tal?
A quem beneficia a transformação da criança em anjo? A quem prestamos
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Literatura como Arte
Unidade
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mais atenção, às coisas e fatos irreais ou às personagens mais aparentadas
com o mundo real? No fim, o desconforto que resta possibilita dizer: nem
tudo que se refere ao ser humano pode ser desvendado com explicações
lógicas, racionais, pois nossa existência, num mundo nem sempre, ou em
todos os lugares, organizado, planejado, inúmeras vezes escapa do livre
arbítrio, submete-se à arbitrariedade dos mais fortes, é comandada pelos
dados da sorte.
Sem termos a mesma ventura do menininho que pôde contar
com ajuda sobre-humana, precisamos adiantar o nosso lado. Como
resultado de um esforço, vamos chegando ao fim deste capítulo. O
modo de estudo aqui privilegiado é o sincrônico, ao mesmo tempo em
que procuramos apontar escolas ou períodos literários caracterizados
pela referência à própria literatura e sua utilização como meio para o
ganho de formas, distanciando-se do ambiente e enfatizando seu caráter
artístico, os aspectos estéticos, a exemplo do Parnasianismo, Simbolismo,
Decadentismo, Esteticismo, Impressionismo. Muito mais do que o
Impressionismo pictórico, entretanto, o Impressionismo literário
não busca desvincular-se da matéria. Para o
impressionista, o indivíduo é composto por partículas e
átomos. Há uma existência real e tocável que é percebida
pelos órgãos dos sentidos. Disso resultará o princípio
do instantâneo sobre a continuidade do tempo. A arte
incorporará o momentâneo pelas impressões do fato
no homem. A importância não recairá mais no objeto,
mas naquilo que ele provoca nos indivíduos. Há aqui
maior valorização das emoções do que do objeto
propriamente dito, maior importância da consequência
de uma impressão do que particularmente sua causa.
Na literatura, desaparece quase totalmente a intriga, e a
atenção se volta aos estados de espírito (BICHUETTE,
2009, p. 8).
Ressaltamos que, nos impressionistas, a percepção viabilizada de
modo antinatural e fragmentário não deixa totalmente de se referir ao
mundo real, do qual alguns românticos tampouco guardam distância tão
grande, por exemplo, quando realçam a experiência subjetiva ou quando
incorrem no fantástico, um parente do Surrealismo. Mas parente não
muito chegado, tipo cunhado: bem menos próximo do que sonha nossa
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Volume 3
55
Literatura, Imaginário, História e Cultura
mais vã teoria.
Em seus primórdios, o Surrealismo mesclou-se às práticas
Saiba mais!
Surrealismo
Para entender a estética surrealista, recomendamos o curta-metragem Un chien Andalou, dirigido por Luis Buñel (1928, 22 min.). Disponível em <http://www.youtube.
com/watch?v=bmgkFxzdTSo&feature=rel
ated>.
Para saber mais sobre Surrealismo e cinema, veja a entrevista a Igor Capellato, Surrealismo: o que é isso?, disponível
em
<http://www.youtube.com/
watch?v=ZXTT3ZygBuk>
(parte
I)
e
<http://www.youtube.com/watch?v=dUkF
s7c5o1o&feature=relmfu>(parte II)
FIGURA 68 - Cadavre exquis, desenho
coletivo de Joan Miró, Yves Tanguy, Man Ray,
Max Morise, Cadavre exquis, tinta y lápis de
cor sobre papel, 1927-28. O cadavre exquis
era um jogo surrealista que podia ser feito
de forma tanto visual como verbal, no qual o
que importava era a espontaneidade, o acaso,
a intuição, a imaginação e a brincadeira. Para
saber mais sobre este jogo leia Construção
do imaginário surrealista através do jogo do
cadavre exquis (PIANOWSKI, 2007), disponível
em<http://www.sanjeev.net/modernart/nudeby-cadavre-exquis-with-yves-tanguy-joanmiro-max-moris-0170.jpg >.
FONTE: Coleção Manon Ponderox
dadaístas, até atingir sua autonomia em 1924, quando o francês André
Breton (1896-1966) escreveu o primeiro Manifesto surrealista. Para atingir
seus objetivos, os surrealistas utilizaram, como principais ferramentas de
trabalho, o automatismo e o registro dos sonhos, sem preocupação moral
e buscando eliminar todo e qualquer controle exercido pela razão. Apesar
dos esforços empregados para burlar qualquer tipo de preocupação
estética ou moral, suas obras não resultariam do acaso que, entretanto,
tinha papel relevante e podia ser entendido como o passo inicial para a
produção surrealista (Cf. PIANOWSKI, 2007).
Entre seus principais representantes, encontram-se os escritores
André Breton, Antonin Artaud (1896-1948), Benjamin Péret (18991959), Jaques Prévet (1900-1977), Louis Aragon (1897-1982) e Paul
Éluard (1895-1952); os pintores Joan Miró (1893-1983), Max Ernst
(1891-1976), René Magritte (1898-1967) e Salvador Dalí (1904-1989).
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Também é importante destacar o nome de Luis Buñuel (1900-1983), que
levou a estética surrealista para o cinema. No Brasil, Murilo Mendes é
um dos mais importantes poetas surrealistas.
Um surrealista, como todo vanguardista que se preze, não busca
Para conhecer
Murilo Mendes (1901-1975): Nascido em Minas Gerais, abandonou os estudos aos 16 anos
para viver no Rio de Janeiro. De 1924 a 1929,
apareceram seus primeiros poemas, “Antropofagia” e “Verde”, nas revistas modernistas.
Seu primeiro livro, Poemas, seria publicado
em 1930, recebendo o Prêmio Graça Aranha.
No mesmo ano, publicou Bumba-meu-poeta e,
em 1933, História do Brasil. Transitou por diferentes estéticas literárias, converteu-se ao
catolicismo, editou Tempo e eternidade (1935).
Em 1947, casou-se com a poetisa Maria da
Saudade Cortesão. De 1952 a 1956, realizou
missão cultural na Europa, fixando-se na Itália em 1957. Sua fertilidade transparece nestas publicações: A poesia em pânico (1937),
O visionário (1941), As metamorfoses (1944),
FIGURA 69 - Retrato de Murilo Mendes, Mundo enigma e O discípulo de Emaús (1945),
Alberto da Veiga Guignard, óleo sobre tela,
Poesia liberdade (1947), Janela do caos (1949),
1990.
Contemplação de Ouro Preto (1954), Office HuFONTE: <www.ufjf.br/mamm/files/2012/09/
reproducao_alberto-da-veiga-guignard_retrato-demurilo-mendes.jpg>.
main (1954), A idade do Serrote (1968), Con-
vergência (1972), Poliedro (1972) e Retratosrelâmpago (1973). Considerando que a heresia
é uma marca das vanguardas do século XX, o exemplo nos prova que nem sempre os
traços de uma estética se confirmam nos casos particulares dos artistas e obras.
nem se aproximar do ambiente nem se afastar dele, mas superar e eliminar
as fronteiras entre arte e vida; aposta por uma arte feita de subjetividades
e singularidades poéticas, livre da imposição de estilos, que conduzirá ao
experimentalismo das manifestações artísticas. No entanto, mesmo a arte
que se apresente mais aparentemente afastada do mundo real, ou tenha
intenção de assim se mostrar, como a dita pintura abstrata e a literatura
surrealista, e ainda que não expresse juízos, mas “quase-juízos”, nunca
deixará de dizer algo, embora mínimo, sobre a realidade vivida.
O artista, o escritor, são seres de carne e osso, que experimentam
situações concretas e suas produções artísticas não nascem do nada,
mas da vida, à qual apontam de soslaio. O caráter artístico da literatura
relaciona-se à dimensão ocupada por essa transversalidade: quanto mais
acentuada, menos a obra literária parece ligada à vida vivida. E quanto mais
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Módulo 6 I
Volume 3
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
evidentes as referências ao universo real, menos a obra literária parece
“artificial”, artística. Em ambos os casos, literatura é arte e se refere ao
mundo real, de uma ou de outra forma; o que mudam são as distintas
gradações verificadas em cada texto literário que, como caso particular,
deve ser analisado por meio de seus elementos e de sua estrutura. Por isso
é que, especialmente nesta aula, precisamos nos deter nas análises dos
mais diferentes textos e em várias comparações entre eles.
5 ATIVIDADES
1. Escolha poemas do livro Arcos de triunfo, de Luís Delfino dos
Santos, disponíveis em: <http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/_
documents/arcosdetriunfo-delfino-1.htm#0.1_up005>. Leia-os
em voz alta, a fim de sentir os atrativos proporcionados por sua
musicalidade e seu ritmo. Analise-os, de acordo com o que você
aprendeu nesta unidade. No chat, compartilhe suas experiências e
análises com os colegas.
2. Acesse o verbete Gilka Machado no site Brasiliana USP,
disponível
em:
<http://www.brasiliana.usp.br/node/456>.
Encontre o livro de poemas Cristais partidos, buscando nele o
poema “Ânsia azul”. Observe que está dedicado a Francisca Júlia
da Silva e realize uma pesquisa sobre essa personalidade. Quem
era? O que fazia? Por quais trabalhos se destacou? Compare um
trabalho dessa autora com “Ânsia Azul”, de Gilka Machado. Poste
os resultados de sua investigação na Plataforma Moodle.
3. No mesmo livro antes acessado, encontre dois poemas: “O
sino” e “Ao som de um sino”. Leia-os em voz alta, a fim de sentir
a musicalidade neles contida. Releia-os atentamente a fim de
responder: a) os poemas são mais sugestivos ou mais referenciais?
b) qual deles é ainda mais sugestivo? c) como os sons constroem
a musicalidade de tais poemas? d) nesse propósito, quais recursos,
palavras e letras se destacam? e) existem neles traços parnasianos,
decadentistas e/ou simbolistas? Enumere e destaque, em cada
poema, essas características, caso encontradas. Registre suas
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Letras
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Literatura como Arte
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respostas e conclusões na Plataforma Moodle.
Unidade
Pesquise sobre o poeta brasileiro Alphonsus de Guimaraens,
informe sobre sua biobibliografia, destaque suas atitudes frente
ao mundo, características da obra, suas filiações estéticas. Indique
como, em seu poema “A cabeça de corvo”, as palavras se livram
da ordem normal que ocupariam em uma frase, a fim de valerem
por outros fatores, que não a denotação e a racionalidade, como a
sonoridade e a sugestividade. Atividade a ser também socializada na
Plataforma Moodle.
A CABEÇA DE CORVO
Alphonsus de Guimaraens
Na mesa, quando em meio à noite lenta
Escrevo antes que o sono me adormeça,
Tenho o negro tinteiro que a cabeça
De um corvo representa.
A contemplá-lo mudamente fico
E numa dor atroz mais me concentro:
E entreabrindo-lhe o grande e fino bico,
Meto-lhe a pena pela goela a dentro.
E solitariamente, pouco a pouco,
Do bojo tiro a pena, rasa em tinta...
E a minha mão, que treme toda, pinta
Versos próprios de um louco.
E o aberto olhar vidrado da funesta
Ave que representa o meu tinteiro,
Vai-me seguindo a mão, que corre lesta.
Toda a tremer pelo papel inteiro.
Dizem-me todos que atirar eu devo
Trevas em fora este agoirento corvo,
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
Pois dele sangra o desespero torvo
Destes versos que escrevo.
5. Compare o poema “A cabeça de corvo”, de Alphonsus de
Guimaraens, com “O corvo”, de Edgar Allan Poe, destacando a
busca daquilo que não se define facilmente ou à primeira vista, e
como isso faz com que a expressão poética se dê por via indireta.
Explore as insinuações verbais, sugestões, evocações. Procure situar
os momentos em que os elementos poéticos se relacionam com os
da música e da pintura. Compartilhe seus resultados e comparação
na Plataforma Moodle.
O CORVO
Edgar Allan Poe, tradução de Fernando Pessoa
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, ‘”está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais”.
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
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Literatura como Arte
Unidade
É só isto, e nada mais”.
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor’”, eu disse, “ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais”.
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
“É o vento, e nada mais”.
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais”.
Disse o corvo, “Nunca mais”.
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, “Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais”.
Disse o corvo, ‘Nunca mais’.
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais”,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
Era este “Nunca mais”.
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
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Que qu’ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele “Nunca mais”.
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
“Maldito!”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
“Profeta”, disse eu, “profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
“Profeta”, disse eu, “profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
Disse o corvo, “Nunca mais”.
“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!”, eu disse. “Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!
Adote os mesmos procedimentos de pesquisa utilizados para
Alphonsus de Guimaraens em relação à vida e à obra de Emiliano
Perneta. Analise o seu poema “Dor!”, abaixo transcrito, a fim de
responder a esta pergunta, com adequada justificativa: a composição
é decadentista ou simbolista? Encaminhe sua resposta ao tutor.
DOR
Ao Andrade Muricy
Noite. O céu, como um peixe, o turbilhão desova
De estrelas e fulgir. Desponta a lua nova.
Um silêncio espectral, um silêncio profundo
Dentro de uma mortalha imensa envolve o mundo
Humilde, no meu canto, ao pé dessa janela,
Pensava, oh! Solidão, como tu eras bela,
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Literatura como Arte
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Quando do seio nu, do aveludado seio
Da noite, que baixou, a Dor sombria veio.
Toda de preto. Traz uma mantilha rica;
E por onde ela passa, o ar se purifica.
De invisível caçoila o incenso trescala,
E o fumo sobe, ondeia, invade toda a sala.
Ao vê-la aparecer, tudo se transfigura,
Como que resplandece a própria noite escura.
É a claridade em flor da lua, quando nasce,
São horas de sofrer. Que a dor me despedace.
Que se feche em redor todo o vasto horizonte,
E eu ponha a mão no rosto, e curve triste a fonte.
Que ela me leve, sem que eu saiba onde me leva,
Que me cubra de horror, e me vista de treva.
6. Compare o “Soneto XVII”, d’A rua dos cataventos, que você já
conhece, com o “Soneto XIV”, do mesmo livro de Mario Quintana,
sublinhando as associações de ideias que lembrem mundos irreais.
Assunto para dar o que falar no chat.
SONETO XIV
Mario Quintana
Dentro da noite alguém cantou.
Abri minhas pupilas assustadas
De ave noturna... E as minhas mãos, velas paradas,
Não sei que frêmito as agitou!
Depois, de novo, o coração parou.
E quando a lua, enorme, nas estradas
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
Surge... dançam as minhas lâmpadas quebradas
Ao vento mau que as apagou...
Não foi nenhuma voz amada
Que, preludiando a canção notâmbula,
No meu silêncio me procurou...
Foi minha própria voz, fantástica e sonâmbula!
Foi, na noite alucinada,
A voz do morto que cantou.
7. Compare os poemas de Mario Quintana “A janela”, do “Caderno
H”, e “Auto-retrato”, de Apontamentos de história sobrenatural,
reproduzidos logo a seguir. Destaque elementos impressionistas,
tais como a experiência diretamente ótica; a impressão dos objetos,
normalmente não captada pelos sentidos, ou captada e não elaborada
na forma de um conceito; o enfoque a um elemento da experiência
humana, no lugar da totalidade; o desprezo à natureza; a reflexão da
arte sobre si mesma. Troque ideias com o tutor e com seus colegas
no chat a respeito dessa tarefa.
A JANELA
Mario Quintana
Sento-me à mesa. Quem sabe? Quem se senta, se tenta... 60, 70,
escrevo, arredondando caprichosamente os zeros. E o burro do
papel me fica incompreensivelmente olhando, na espera inútil dos
80. O papel está hoje com uma abominável falta de imaginação.
Continua, apenas, olhando-me: vazio, mais quadrado do que nunca.
Porque o papel é uma janela que, em vez de a gente espiar por ela,
ela é que espia para a gente...
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Literatura como Arte
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AUTO-RETRATO
Mario Quintana
No retrato que me faço
- traço a traço às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Terminado por um louco!
8. Compare esses dois poemas de Mario Quintana com os poemas
logo citados, de Álvaro Moreyra e Augusto Meyer. Em que se
avizinham suas formas e temáticas? São impressionistas? Envie
suas respostas ao tutor.
Do Outono e do Silêncio
Álvaro Moreyra
Ah como eu sinto o outono
nestes crepúsculos dispersos,
de solidão e de abandono!
nessas nuvens longínquas, agoureiras,
que têm a cor que um dia houve em meus
versos e nas tuas olheiras...
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
Tomba uma sombra roxa sobre a terra.
A mesma nuança em torno tudo encerra
nuns tons fanados de ametista.
Caem violetas...
Paisagem velha e nunca vista...
Paisagem próxima e tão distante...
A luz foge, esfacelando
em silhuetas
os troncos da alameda agonizante.
O outono é uma elegia
que as folhas plangem, pelo vento, em
bando...
E o outono me amargura e anestesia
com o silêncio...
Silêncio
das ressonâncias
esquecidas
que o fim do dia deixa sempre no ar...
Silêncio
irmão das covas, das ermidas,
incenso das distâncias,
onde a memória fica a ouvir perdidas
palavras que morreram sem falar...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
Elegia para Marcel Proust
Augusto Meyer
Aléia de bambus, verde ogiva
recortada no azul da tarde mansa,
o ouro do sol treme na areia da alameda,
farfalham folhas, borboletas florescem.
Portão de sombra em plena luz.
Gemem as lisas taquaras como frautas folhudas
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Literatura como Arte
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onde o vento imita o mar.
Marcel, menino mimoso, estou contigo, Proust:
vejo melhor a amêndoa negra dos teus olhos.
Transparência de uma longa vigília,
imagino as tuas mãos
como dois pássaros pousados na penumbra.
Escuta – a vida avança, avança e morre...
Prender a onda que franjava a areia loura de Balbec?
Cetim róseo das macieiras no azul.
Flora carnal das raparigas passeando à beira-mar.
Bruma esfuminho Paris pela vidraça
Intermitências chuva e sol Le temps perdu.
Marcel Proust, diagrama vivo sepultado na alcova.
O teu quarto era maior que o mundo:
Cabia nele outro mundo...
Fecho o teu livro doloroso nesta calma tropical
como quem fecha leve leve a asa de um cortinado
sobre o sono de um menino...
10. Compare os poemas “Aparição” e “Do sobrenatural”, da obra
quintanesca Sapato florido, com os relatos de Noite na taverna,
de Álvares de Azevedo. Destaque, caso os encontrar, aqueles
procedimentos do fantástico identificados por Jorge Luis Borges.
Bom motivo para um post na Plataforma Moodle.
Aparição
Mario Quintana
Tão de súbito, por sobre o perfil noturno da casaria, tão de súbito
surgiu, como um choque, um impacto, um milagre, que o coração,
aterrado, nem lhe sabia o nome: - a lua! – a lua ensanguentada e
irreconhecível de Babilônia e Cartago, dos campos malditos de
após-batalha, a lua dos parricídios, das populações em retirada, dos
estupros, a lua dos primeiros e dos últimos tempos.
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Do sobrenatural
Mario Quintana
Vozes ciciando nas frinchas... vozes de afogados soluçando nas
ondas...vozes noturnas, chamando... pancadas no quarto ao lado,
por detrás dos móveis, debaixo da cama... gritos de assassinados
ecoando ainda nos corredores malditos... Qual nada! O que mais
amedronta é o pranto dos recém-nascidos: aí é que está a verdadeira
voz do outro mundo.
11. Compare o poema “Função”, do livro O aprendiz de feiticeiro
(1950), de Mario Quintana, com “Pré-história”, de Murilo Mendes.
Elementos de quais estéticas literárias você consegue identificar
nesses poemas? Enumere-os. Confira seus resultados no chat,
tutor e colegas estarão lá com o mesmo objetivo.
FUNÇÃO
Mario Quintana
Varri-me como uma pista.
Frescor de adro, pureza um pouco triste
De página em branco... Mas um bando
De moças enche o recinto de pestanas.
Mas entram inquietos pôneis.
Ridículos.
Ergo os braços, escorre-me o riso pintado
E uma pura pura lágrima
Que estoura como um balão.
Pré-história
Murilo Mendes
Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
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Literatura como Arte
Unidade
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Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.
6 RESUMINDO
Não pensamos em divisões absolutas para os períodos literários,
sempre haverá a convivência de diferentes estilos ou artistas destacados
pela singularidade frente às tendências dominantes. Assim, escritores
românticos destacavam o conteúdo em vez da forma, ao passo que
outros valorizaram a liberdade criativa, contribuindo para que a literatura
marcasse seu diferencial quanto a outros sistemas de comunicação, como
a sociologia e a história.
No final do século XIX, floresciam estéticas que permitem notar
a preponderância dos aspectos artísticos sobre os traços documentais
da obra literária: Parnasianismo, Simbolismo, Decadentismo,
Impressionismo. Alguns simbolistas foram também decadentistas, viceversa e por aí vai, o que reforça o caráter sincrônico da literatura.
Impressionistas brasileiros preocuparam-se com a subjetividade
sem perder de vista a referência ao mundo real, ainda que distorcida
pelas impressões. Afinal, emoções e sensações fazem parte da natureza
humana, da realidade. E a vida mesma pode se transformar em arte. No
limite, perderíamos a noção de seus limites, como queriam os surrealistas
e, com eles, as vanguardas.
No século XX, Gilka Machado e Mario Quintana produzem
suas obras que, diversas e singulares, apresentam traços de movimentos
literários antecedentes. Ambos, poetisa e poeta, abrem espaços à
realização de produtivos estudos sincrônicos. Vamos e voltamos com
eles, de entre século a fim de século. Por que o tempo? Porque o tempo
não para...
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Módulo 6 I
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
7 REFERÊNCIAS
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EAD
Literatura como Arte
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Unidade
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Módulo 6 I
Volume 3
73
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MITIDIERI, André Luis. Micro-história italiana para uma contribuição
à biobibliografia de Mario Quintana. Revista de Estudos Literários do
Núcleo de Estudos Interdisciplinares de Italiano da UFSC, v. 1, n. 3, p.
31-41, ago. 2011. Disponível em: <http://www.neiita.cce.ufsc.br/relit/
Numeros/N3Vol1Agosto2011.pdf>. Acesso em: 27 jul. 2012.
MONTEIRO Guilherme Lentz da Silveira. Expressão infinita
um contato com os cristais partidos, de Gilka Machado. Revele,
Belo Horizonte, n. 3, ago. 2011. Disponível em: <http://www.
letras.ufmg.br/cpq/revista%20revele/Revista_tres/ESTUDOS%20
LITER%C3%81RIOS/11EXPRESS%C3%83O%20INFINITA%20
-%20GUILHERME%20MONTEIRO.pdf>.
MOREYRA, Álvaro. Legenda da luz e da vida. In: MOREYRA, Álvaro.
Lenda das rosas. São Paulo: Editora Nacional, 1928. p. 37-38.
MUCCI, Latuf Isaias. Ruína e simulacro decadentista. Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro, 1994.
PIANOWSKI, Fabiane. Construção do imaginário surrealista através do
jogo do cadavre exquis. PSIKEBA - Revista de psicoanálisis y estudios
culturales, v. 1, ano 2 – n. 4 - , 2007. Disponível em:http://www.psikeba.
com.ar/articulos/FP_surrealismo_cadaver_exquisito.htm>. Acesso em:
27 jul. 2012.
74
Letras
EAD
Literatura como Arte
Unidade
5
QUINTANA, Mario. Apontamentos de história sobrenatural. 2. ed.
Porto Alegre: Globo, 1977.
QUINTANA, Mario. Da preguiça como método de trabalho. Rio de
Janeiro: Globo, 1987.
QUINTANA, Mario. Poesias. Porto Alegre: Globo, 1961.
RIGHI, Volnei José. O poeta emparedado: tragédia social em Cruz
e Sousa. 2006. 150 p. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira)
– Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de
Brasília, Brasília, 2006. Disponível em: <http://repositorio.bce.unb.
br/bitstream/10482/2764/1/VOLNEI%20JOS%C3%89%20RIGHI.
pdf>. Acesso em: 27 jul. 2012.
SAMUEL, Rogel (Org). Manual de teoria literária. 5. ed. Petrópolis:
Vozes, 1990.
SANTOS, Luiz Delfino dos. Poesia completa. Org., est. e bibl. por
Lauro Junkes. Rev. e atualização lingüística por Terezinha Kuhn Junkes.
Florianópolis: ACL. 2001.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. Tradução de A.
Chelini, José P. Paes e I. Blikstein. São Paulo: Cultrix; USP, 1969.
STEEN, Edla Van. Mario Quintana. In: STEEN, Edla Van. Viver e
escrever. Porto Alegre: L&PM, 1981. p. 13-24. 2 v. v. 1.
TODOROV. Introdução à literatura fantástica. 2 ed. São Paulo: Editora
Perspectiva S.A., 1992.
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
75
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Suas anotações
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76
Letras
EAD
6ª
unidade
LITERATURA E CULTURA
OBJETIVOS
Ao final da presente aula, você será capaz de:
• compreender as relações entre literatura e cultura no intervalo temporal
compreendido entre os séculos XIX e XX;
• interpretar a cultura e a literatura brasileiras, por meio dos bens simbólicos
realizados nesse período e, com tal propósito em vista, analisar textos e
textualidades que se constituem em marcos culturais dos mais expressivos;
• definir o conceito de cultura e suas distintas compreensões;
• relacionar as diferentes compreensões da cultura nacional à Independência
das Américas, à Semana de Arte Moderna de 22, à Geração de 30, ao
Pós-Guerra e à Pós-modernidade;
• compreender as noções de cultura central, hegemonia, etnocentrismo, comunidades imaginadas, colonialismo, cultura popular, cultura de massa, cultura
dominante, indústria cultural, hibridação, cultura negra, Pós-modernidade e
Pós-modernismo, multiculturalismo e pluriculturalismo.
Literatura, Imaginário, História e Cultura
78
Letras
EAD
Literatura e Cultura
leitura recomendada
ANDRADE, Oswald de. Manifesto antropófago. Disponível em:
<http://www.lumiarte.com/luardeoutono/oswald/manifantropof.
html>.
COELHO, Teixeira. O que é indústria cultural. São Paulo: Brasiliense, 1993. (Coleção Primeiros Passos).
HELENA, Lúcia. Modernismo brasileiro e vanguarda. São Paulo:
Ática, 2000. (Série Princípios).
SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. São Paulo: Brasiliense,
Unidade
6
1994. (Coleção Primeiros Passos).
1 INTRODUÇÃO
É corriqueiro ouvirmos expressões do tipo: tal pessoa não tem
cultura. Será que realmente podem existir pessoas que não tenham
cultura? A presente aula terá a incumbência de responder a essa e a outras
perguntas que envolvam tal assunto. Além dos vários entendimentos
que o tema possui nos múltiplos ramos das ciências humanas, os grupos
humanos não são homogêneos, assim, não devemos imaginar que
discutiremos cultura apenas sob um aspecto.
Quando a discussão em torno do que fosse cultura surgiu na
efervescência dos ideais iluministas da Europa do século XVIII, e se
afirmou nos anos de 1800, a intenção era encontrar algo capaz de unir
os distintos grupos sociais que formavam a sociedade. O conceito de
cultura, em primeira instância, visava à dissolução das diferenças e à
congregação das semelhanças no intuito de formar um povo.
Visando a pensar e a elaborar um traço identitário comum no
Brasil do século XIX, a burguesia e a literatura por ela apreciada, com
raras exceções, provocaram o silenciamento de outras identidades que
constituíam nossa sociedade. Isso haveria de reverberar, nas décadas
finais de 1800 e no século XX, em constantes revisões daquilo que
se poderia chamar de cultura brasileira. Eis o foco de nossos estudos
no momento, adentremos a uma vasta teia cultural, que se tece com a
literatura e a história; também com diversos outros fios, muitos mais do
que talvez pudéssemos imaginar.
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
79
Literatura, Imaginário, História e Cultura
2 COLONIZADOS E MODERNISTAS
A partir do século XVIII, mas com ação marcante na centúria
posterior, as nações europeias esforçavam-se por se definir enquanto tais,
preocupadas com as questões da cultura e da identidade nacional. Todo
elemento comum aos grupos sociais foi utilizado como objeto cultural,
por exemplo, a língua, a música, a literatura, vestimentas, culinária, traços
físicos etc.
Desse conjunto, merece destaque a língua que, em sua modalidade
escrita, se tornou o veículo mais rápido de unificação cultural através
dos jornais, com grande circulação na época. Os textos literários também
participavam dos projetos nacionais, ajudando a implantar o sentimento
de nacionalidade, ou seja, de pertencimento a um mesmo grupo, povo e
cultura.
A relação entre literatura e cultura é bastante forte, pois não
pode haver texto literário que não dialogue com a realidade cultural
nele representada ou reapresentada, ainda que seja para questioná-la ou
desestruturá-la. No caso europeu, especialmente no Estado Alemão, esse
status era bem diferente. A literatura servia para consolidar e cristalizar
aquela cultura ainda em formação.
Daí em diante, o conceito de cultura passou a ser sinônimo de
civilização, daquilo que era cultivado e de bom gosto, ao contrário do
bárbaro, do selvagem e do que se associasse ao mau gosto. O ponto
problemático desse pensamento é que, nesse período, as nações europeias
exerciam controle político, econômico e militar em territórios de outros
continentes, especialmente, nas Américas.
Logo, os europeus se outorgaram o título de plenamente
civilizados entendendo que as outras nações, sobre as quais eles exerciam
poder, ainda experimentavam estágios de primitivismo, o que justificava
a intervenção das potências europeias para que esses povos atingissem
pleno estágio de civilização, o que, para eles, significava, entre outras
coisas, o domínio escrito e falado do idioma do colonizador.
Colonizadores invadiram e exploraram países ou territórios, para
depois explorarem os recursos humanos e naturais aí existentes. Esse
processo, chamado de “colonização”, foi impulsionado por dois objetivos
80
Letras
EAD
Literatura e Cultura
Unidade
6
principais: povoar e explorar. Toda a vez em que se inicia um ciclo de
colonização, potencializam-se e se reproduzem os meios de vida, as
relações de poder, a esfera econômica e política, a transferência cultural
dos colonizadores para os colonizados e vice-versa.
Na América, os Estados Unidos foram colonizados por ingleses;
o Canadá, por ingleses e franceses; o Brasil, pelos portugueses e vários
outros países, como Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador,
México, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela, pelos espanhóis. Em África,
os portugueses colonizaram Angola, Cabo Verde, Moçambique, San Tomé
e Príncipe. No mesmo continente, os ingleses se lançaram à colonização
da África do Sul e a França, da Argélia e do Marrocos. A Inglaterra ainda
colonizou, na Oceania, Austrália e Nova Zelândia e, na Ásia, a Índia. Há
sociedades, como as ilhas do Caribe, que foram duplamente colonizadas,
uma vez que o genocídio dos indígenas ocasionou o deslocamento de
povos da África e da Ásia para a região.
FIGURA 70 - A mão, escultura de Oscar Niemeyer, 1989. Em vermelho, representando o sangue da
brutal colonização, está o mapa da América Latina. Essa escultura é uma mensagem de liberdade a
um continente oprimido pela colonização e em busca de identidade e emancipação. “Suor, sangue e
pobreza marcaram a história desta América Latina tão desarticulada e oprimida. Agora urge reajustá-la
num monobloco, capaz de fazê-la independente e feliz” (NIEMEYER, 1989). A imagem se vincula ao livro
As Veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeano, no qual o escritor uruguaio compila a história da
exploração do continente latino-americano, mostrando ao leitor quanto sangue se derramou em favor das
nações colonizadoras.
FONTE: <http://www.pressenza.com/wp-content/uploads/2012/12/M%C3%A3o-Niemeyer.jpg/>.
Entre os séculos XVIII e XIX, as discussões em torno do tema
cultura tomaram novo fôlego. Nesse momento histórico, a Independência
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
81
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Saiba mais!
Para saber mais sobre a
colonização no continente
americano, leia As veias
abertas da América Latina, de Eduardo Galeano
(1970).
das Américas ia resultando de um processo que durou mais
de meio século e ocorreu de maneira diferente ao longo do
continente. As transformações ideológicas, econômicas e
políticas sofridas pela Europa repercutiam no outro lado do
oceano Atlântico.
A Revolução Norte-americana (1775-1783) foi o
estopim da luta pela liberdade das 13 colônias inglesas e serviu
de marco referencial às demais revoluções, com a posterior
aprovação da Constituição dos Estados Unidos em 1787.
Outro evento importante e emblemático foi a Revolução
Haitiana (1791-1804), na qual os escravos da então colônia
francesa se revoltaram contra os colonizadores. Essa foi
não só a primeira independência da América Latina, como a
única movida por escravos.
Nas colônias espanholas, por outro lado, a
independência resultou do fortalecimento das oligarquias
crioulas. Insatisfeitos com as exigências da metrópole, e na
busca por maior liberdade política e econômica, os oligarcas
influenciaram os movimentos de emancipação, que se deram
de modo fragmentado por todo o território de domínio
espanhol, originando os vários países que hoje compõem a
América Hispânica.
Na colônia de Portugal, verificou-se um processo
diferente do que ocorria com os vizinhos. Em vez de se
colocarem contra a metrópole, como os demais países
do continente americano, as oligarquias receberam a
independência pelas mãos da própria monarquia, através de
Dom Pedro I que, convencido pela elite local em tornar-se o
novo Imperador, declarou a independência.
Os povos americanos, agora independentes dos
europeus, não admitiam serem considerados primitivos
ou bárbaros. Entretanto, como não queriam comungar da
cultura europeia, logo trataram de discutir o que seria a cultura
local. No Brasil do século XIX, a elite local e os intelectuais
tentaram encontrar aquilo que melhor representasse a alma
82
Letras
EAD
Literatura e Cultura
Unidade
6
nacional e pudesse ser chamado de cultura brasileira.
Esse período coincidiu na literatura com a estética romântica e
a literatura, como era de se esperar, participou ativamente do processo
de construção da identidade nacional, conforme vimos na aula passada.
Novamente, a literatura contribuiria na tarefa de revisar a cultura brasileira,
entre cujos empenhos, vale ressaltar o empreendido pela Semana de
Arte Moderna de 1922, inserida nas atividades de comemoração da
Independência do Brasil, transcorrida entre 13 e 18 de fevereiro de 1922.
Entre os artistas que participaram do festival com exposição de
aproximadamente 100 obras de artes plásticas e sessões noturnas de
literatura e música no Teatro Municipal de São Paulo, destacam-se: os
pintores Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Ferrignac, John Graz, Vicente
do Rego Monteiro, Zina Aita; o escultor Victor Brecheret; os escritores
Graça Aranha, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira, Mário de
Andrade, Menotti Del Picchia, Oswald de Andrade, Renato de Almeida,
Ronald de Carvalho e Tácito de Almeida e Manuel Bandeira. Pensada
e patrocinada por Paulo Prado, embalada por composições musicais de
Debussy e Villa-Lobos, nas interpretações de Guiomar Novaes e Hernani
Braga, a Semana de 22 resultava da busca por renovação encabeçada já
anteriormente por textos e exposições de Anita Malfatti, Mário e Oswald
de Andrade e Menotti Del Picchia.
Saiba mais!
Para saber mais sobre arte
moderna
brasileira,
assista
ao vídeo Viajando pelo Modernismo: aspectos da cultura brasileira. Disponível em
< h t t p : / / yo u t u . b e / p O 4 t 9 U mF2us>.
Em 1992, a Escola de Samba Estácio de Sá apresenta
o
samba-enredo
Paulicéia
desvairada: 70 anos de modernismo.
Disponível
em:
<http://www.youtube.com/
FIGURA 71 - Mário de Andrade (primeiro no alto à esquerda) e
watch?v=znjle7mZ2CU>.
outros modernistas em 1922.
Fonte: http://www.freewords.com.br/wp-content/gallery/
modernismo/modernismo-brasileiro-vale-a-pena-conhecer-umpouco-da-historia-tarsila-e-artista.jpg
Em fevereiro de 2012, a TV
Cultura exibiu a reportagem
Semana da Arte Moderna:
90 anos, no programa Metrópolis. Assista em <http://www.youtube.com/watch?v=wY
E6guySbm8&feature=related>.
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
83
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Saiba mais!
Conheça mais sobre vidas e obras dos artistas plásticos modernistas:
Tarsila do Amaral, site
oficial da artista disponível em <http://www.tarsiladoamaral.com.br/>.
Cândido Portinari, site
oficial do artista disponível em <http://www.portinari.org.br/>.
Di Cavalcanti, site oficial
do artista disponível em
<http://www.dicavalcanti.com.br/>.
Victor
Brecheret,
site
oficial do artista disponível em <http://www.victor.brecheret.nom.br/>.
FIGURA 72 - Abapuru, Tarsila
do Amaral, óleo sobre tela, 1928.
Com esse quadro cujo título em
tupi-guarani significa “homem
que
come
homem”,
Tarsila
presenteia Oswald, que nele
inspira o Manifesto antropófago.
FONTE: <http://4.bp.blogspot.
com/--ojjz3vrjyg/UDQZvUAv34I/
AAAAAAAAADY/cTR2rZelgf8/
s1600/imagem+09+abaporu.
jpg>.
O século XX brasileiro é marcado por constantes discussões na
literatura em torno da cultura nacional, porém, a partir da terceira década
desse século, os intelectuais e literatos, já munidos de uma noção de cultura
completamente diferente da que herdaram dos europeus, decidiram trazer
para a cena literária as vozes pouco ouvidas nas construções identitárias
anteriores, promovendo fervorosas discussões sobre essa questão. Nesse
propósito, destacamos a Geração de 30, assim como outros artistas e
escritores que a sucedem no decurso do século XX.
Nos anos de 1930, consolida-se a renovação do gênero romanesco
no Brasil, em um dos momentos mais autênticos da literatura brasileira:
o Romance de 30. Movidos pelas ideias de independência cultural,
escritores do de várias regiões do país buscavam renovar a narrativa,
propondo-se a escrever uma prosa regional, consistente e realista,
que representasse criticamente a realidade brasileira. As temáticas
contempladas: desigualdade social, vidas dos retirantes, resquícios da
escravidão, coronelismo etc.
84
Letras
EAD
Literatura e Cultura
3 OS CONCEITOS DE CULTURA
Unidade
6
Há duas definições de cultura bastante aceitas na
contemporaneidade, sendo que a primeira delas diz respeito a todos
aqueles elementos que caracterizam a existência de um povo ou nação ou
de vários grupos no interior de dada sociedade. A segunda refere-se de
forma mais específica ao conhecimento, às ideias e crenças, bem como às
distintas maneiras de suas existências no universo social (Cf. SANTOS,
1994, p. 24).
De acordo com a primeira concepção, se pensamos em cultura
brasileira, devemos considerar, por exemplo, o fato de falarmos português
com um vocabulário marcadamente africano e indígena, além de outros
fatos que precisam de melhor esclarecimento, ou que talvez não passem
de discursos ou estereótipos, como ter preferência esportiva pelo
futebol, gostar de samba e ser um povo notadamente feliz. A segunda
concepção de cultura, ainda no contexto brasileiro, refere-se a questões
mais abstratas, como a literatura produzida no Brasil, a lógica trabalhista
do brasileiro, sua relação com o divino, em que se nota a existência de
elementos oriundos de culturas não cristãs, sem mencionar o sincretismo
religioso.
Podemos ainda extrair, da citação utilizada, a ideia de cultura
como aquilo que caracteriza grupos no interior de uma sociedade. Essa
definição torna-se ainda mais rarefeita porque a noção de brasilidade se
transformaria em algo mais plural, isto é, não precisaríamos ter tudo
em comum para nos reconhecermos como brasileiros, poderíamos nos
reconhecer na diferença. O fato de algumas comunidades não terem
o português como língua materna ou de possuírem outros padrões de
representação divina não os faria menos brasileiros, porque outros fatores
influem no sentimento de pertença, naquilo que Benedict Anderson
(2008) considera como determinante para a existência de “comunidades
imaginadas”.
Conforme o estudioso, as nações constituem-se em comunidades
políticas imaginadas como soberanas e implicitamente limitadas por suas
raízes culturais. O companheirismo profundo e horizontal, entendido
como comunidade, teve, no desenvolvimento da imprensa e do romance,
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
85
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Darwinismo: Termo referente às ideias do naturalista inglês Charles Darwin
(1809-1882) segundo as
quais, as espécies animais
e vegetais têm origem comum e se formaram por
processos
de
evolução,
diferenciação e seleção, a
partir da adaptação a determinadas condições ambientais transmitidas geneticamente. Na tentativa
de justificar o imperialismo
e as políticas civilizatórias,
extrapolou-se a teoria de
Darwin ao campo social e
ideológico a partir do argumento de que indivíduos e
coletivos com maior capacidade seriam mais aptos
a sobreviver, enquanto os
demais se condenariam à
extinção. Nessa perspectiva, o branco europeu, com
sua refinada técnica, organização e vindo de uma
civilização considerada superior, se capacitaria a “civilizar” e explorar os povos
menos evoluídos. Ideias do
darwinismo social desembocariam no racismo e na
xenofobia, sendo amplamente utilizadas entre os
séculos XIX e XX.
Para saber mais sobre Darwin e sua teoria, assista
a O desafio de Darwin
(Darwin’s Darkest Hour),
direção de John Bradshaw,
2009, 104 min.
86
entre os séculos XVIII e XIX, dois novos aliados à ideia
de simultaneidade temporal, que o fez possível. As nações
são imaginadas porque capazes de produzir sentidos e
significados para o “espírito” de um tempo e para tudo
aquilo que seja capaz de animar os desejos e projeções dos
indivíduos reunidos em um território e que compartilham
folclores, literaturas, línguas, sentimentos de pertença etc.
É preciso admitir que pensar a cultura de forma
heterogênea e não monolítica é algo recente e se constitui
num avanço a frutificar do afluxo de teorias que tocam esse
assunto desde o início do século XX, pois nem sempre se
admitiu a igualdade entre as culturas. No início do século XIX,
época em que o darwinismo vigorava como corrente teórica
influente, tentou-se aplicar os conceitos evolucionistas
no campo cultural. De tal modo, pensou-se que também
as culturas evoluíssem, e os europeus, exportadores de
conhecimento para o redor do mundo colonizado por eles,
concebiam-se no ápice cultural, acreditando que os outros
povos ainda viviam em estágio de barbárie, primitivismo
e selvageria, simplesmente por não possuírem os mesmo
hábitos culturais deles.
Com a derrocada dessa visão etnocentrista, outras
noções de cultura passaram a vigorar. Entretanto, certa
dicotomia ainda permaneceu no campo dos estudos da
cultura, que também é entendida da seguinte forma:
por um lado, pode referir-se a alta cultura, à
cultura dominante, e por outro a qualquer
cultura. No primeiro caso cultura surge em
oposição à selvageria, à barbárie; cultura é,
então, a própria marca da civilização. Ou
ainda, a alta cultura surge como marca
das camadas dominantes da população de
uma sociedade; se opõe a falta de domínio
da língua escrita ou a falta de acesso à
ciência, à arte e à religião daquelas camadas
dominantes. No segundo caso, podese falar de cultura a respeito de qualquer
povo, nação, grupo ou sociedade humana.
Letras
EAD
Literatura e Cultura
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
Colonialismo: Concepção
e sistema ideológico dos
processos de colonização
que preconiza o domínio de
uma sociedade sobre a outra, caracterizando o modo
como se deu a exploração
cultural durante os últimos
500 anos. Distingue-se do
imperialismo da Antiguidade “como consequência
do capitalismo incipiente,
com a finalidade de exploração material para o enriquecimento da metrópole.
A expansão colonial europeia nos séculos XV e XVI
coincidiu, portanto, com o
início de um sistema capitalista moderno de trocas
econômicas”
(BONNICI,
2009, p. 262). Diferenças
fundadas na hierarquia jamais permitiriam equilibrar
relações econômicas, sociais e culturais, agravando
a situação dos colonizados.
Termos hoje em voga, como
raça, racismo e preconceito
racial ligam-se à afirmada superioridade europeia.
Colonização e colonialismo
trouxeram consigo o patriarcalismo e o sexismo
que, junto às ideias deslocadas do puritanismo cristão em culturas que com ele
entravam em choque, complicaram ainda mais nossos
quadros de referência.
87
Unidade
O primeiro desses conceitos de cultura, além de
apresentar aspecto etnocêntrico, é bastante colonialista:
pois, se cultura se opõe à barbárie, a partir de que ponto
de vista pode-se dizer o que é ou não barbárie? Claro que,
ao definirem o sentido da mencionada palavra, os europeus
não consideraram a pluralidade de sociedades para construir
seu conceito de civilização; ao contrário, julgaram todas as
culturas a partir de seu ponto de vista e entenderam por
civilização o seu modo de vida.
Assim sendo, tudo que não fosse europeu não era
civilizado, mas selvagem. Por exemplo, não comer com
talheres, não ser cristão, utilizar medicamentos fitoterápicos,
não dominar a língua padrão etc. Essa ideia de cultura
nos chegou mediante a colonização e representa somente
a posição social dos grupos dominantes, aristocratas,
donatários de terras, descendentes do império luso que se
julgaram merecedores de posses e benesses, quase sempre,
resultantes do compadrio, do favor, das relações de força,
e não propriamente da competência ou do trabalho digno.
A segunda definição citada já abre certo espaço para
uma discussão mais democrática sobre cultura, uma vez
que a define como todas as maneiras da vida humana, o que
não implica seguir os moldes europeus para ser civilizado.
“Com o passar do tempo cultura e civilização ficaram quase
sinônimas, se bem que usualmente se reserve civilização
para fazer referências a sociedades poderosas [...] usa-se
cultura para falar não apenas em sociedades, mas também
em grupos no seu interior” (SANTOS, 1994, p.36).
Não obstante o tom colonial ao se referir a sociedades
poderosas, essa citação distingue três conceitos-chave:
sociedade, civilização e cultura. O primeiro trata dos grupos
humanos; o segundo, daquilo que eles produzem e o terceiro,
Etnocentrismo: Conceito
antropológico
designativo
das pessoas ou grupos sociais que consideram os valores e a visão de mundo da
própria sociedade como os
únicos parâmetros válidos
para julgar as demais culturas e sociedades, sempre
baseados na ideia de que
suas práticas socioculturais
superem as demais. O choque cultural e a intolerância
resultam diretamente do etnocentrismo.
6
Considera-se como cultura todas as
maneiras de existência humana (SANTOS,
1994, p. 35).
Literatura, Imaginário, História e Cultura
do que os caracteriza. Isso nos habilita a pensar que é possível haver, numa
mesma civilização, uma diversidade de grupos sociais, a formarem uma
sociedade única (mas não homogênea), composta inevitavelmente pela
pluralidade cultural, em meio à qual, cada cultura reivindica seu espaço de
voz. Se quisermos esmiuçar ainda mais o conceito de cultura, podemos
falar em cultura popular, cultura de massa e cultura dominante, bem
como dizer que elas interagem no interior de uma sociedade, emprestando
elementos umas às outras e, ao mesmo tempo, se afastam no intuito de
manter intactas suas características originais.
Você sabia?
Cultura popular: Em termos
gerais, é a soma dos valores
tradicionais de um povo, expressos tanto artisticamente
como através de suas crenças e costumes. Conceito polêmico, tem duas vertentes
interpretativas
dedutivistas,
não
haver
radicais:
que
os
acreditam
cultura
popular
autônoma, posto que sempre subordinada à cultura da
classe dominante que rege a
criação e recepção; os indutivistas, para os quais a cultura
FIGURA 73 - Mudança de sertanejo, J. Borges, xilogravura, popular é autônoma e inerens.d. A xilogravura popular brasileira se desenvolveu na te às classes subalternas, com
literatura de cordel e é uma da infinitas expressões da
produção criativa própria, que
cultura popular.
resiste à imposição cultural
FONTE: <http://3.bp.blogspot.com/-UIipMrK8Atc/
dominante. Uma concepção
TsrWNWPxb6I/AAAAAAAABOM/K6SeeMMQYEg/s1600/
intermédia apresenta a culmudanca-de-sertanejo.jpg>.
tura popular como “conjunto
heterogêneo de práticas que se dão no interior de um sistema cultural maior e que
se revelam, como expressão dos dominados, sob diferentes formas evidenciadoras
dos processos pelos quais a cultura dominante é vivida, interiorizada, reproduzida e
eventualmente transformada ou simplesmente negada” (COELHO, 1997, p. 119). Com
o reconhecimento das diferenças culturais na sociedade contemporânea, atualmente
se fala tanto em culturas populares como em culturas eruditas, reconhecendo nesse
pluralismo a expressão de diferentes processos sociais.
O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular disponibiliza informação acerca
desse tema, possuindo acervo digital bastante rico, disponível em <http://www.cnfcp.
gov.br>.
Cultura de massa: Conjunto de bens culturais produzidos pela indústria cultural, assim como os bens culturais de parcelas da população difundidos pelos meios de comunicação de massa (TV, cinema, jornal, rádio, revistas). A produção cultural de massa,
realizada em série, submete-se à lógica capitalista e, pois, às leis de mercado, destinando-se ao consumo das massas que se contrapõem e, ao mesmo tempo, validam
e fetichizam a alta cultura, caracterizada pela erudição, pelo elitismo e o hermetismo.
Portanto, “a cultura de massa integra e se integra ao mesmo tempo numa realidade
policultural; faz-se conter controlar, censurar (pelo Estado, pela Igreja) e, simultanea-
88
Letras
EAD
Literatura e Cultura
mente, tende a corroer, a desagregar
outras culturas. A esse título, ela não
é absolutamente autônoma: ela pode
embeber-se de cultura nacional, religiosa ou humanista e, por sua vez, ela
embebe as culturas nacional, religiosa
ou humanista” (MORIN, 1977, p. 16).
Para saber mais sobre cultura de massa, recomendamos a leitura de Apocalípticos e integrados, de Umberto
Eco (1965).
Unidade
6
FIGURA 74 - O que exatamente torna os lares
de hoje tão diferentes, tão atraentes?, Richard
Hamilton, colagem, 1956. Esta obra é um dos
emblemas do movimento artístico denominado
art pop, no qual defendem uma arte popular
(pop) que se comunique diretamente com o
público por meio de signos e símbolos retirados
do imaginário que cerca a cultura de massa e a
vida cotidiana. Na composição de Hamilton, se
apresenta uma cena doméstica, feita a partir de
recortes de jornais e revistas, na qual um casal se exibe com (e como) os atraentes objetos da vida moderna:
TV, aspirador de pó, enlatados, embalagens etc. O que o artista consegue com isso é borrar a fronteira entre
arte erudita e arte popular, ou entre arte elevada e cultura de massa.
FONTE: <http://4.bp.blogspot.com/-ymJJGN2vXdk/T4FQcncGfJI/AAAAAAAADms/UPotDoBDCsc/s1600/RichrdHAMILTON-Just-what-is-it-that-makes-today’s-homes-so-different,-so-appealing,-1956.jpg>.
Cultura dominante: Conjunto de ideias, conhecimentos e mitos compartidos por grupo amplo de pessoas, mas que não é algo neutro nem surgido espontaneamente; ao
contrário, determina-se por relações econômicas, políticas e sociais, sendo imposto e
institucionalizado como referência central e fonte inspiradora. A existência ideológica
desse conceito integra a classe dominante, assegurando a comunicação entre seus
membros, ao mesmo tempo em que os distingue das demais classes sociais. Como afirma Pierre Bourdieu (2001, p. 11), “a cultura que une (intermediário da comunicação)
é também a cultura que separa (instrumento de distinção) e que legitima as distinções
compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua
distância em relação à cultura dominante”.
Por exemplo, temos no Brasil o carnaval, que é uma festa
originalmente cristã, trazida pela igreja católica. Esse festejo absorveu
elementos populares, tornando-se marcadamente festa do povo, mas
a elite brasileira não se priva ao usufruto do evento, desde que haja
as devidas ressalvas: nos camarotes ou dentro das cordas, no carnaval
baiano; nos camarotes ou arquibancadas, em cima dos carros alegóricos
ou em caras fantasias de alas, no caso do carnaval carioca. Sim, porque
os maiores carnavais do Brasil foram privatizados, viraram festa “para
inglês ver”. À grande parte do povo, ficaram proibitivos os preços para
se fantasiar e brincar em um bloco ou escola de samba ou para assistir aos
festejos de momo.
A festa foi apropriada pela indústria cultural, que logra milhões
de reais todos os anos. Nem tudo é perda, há a alternativa dos blocos
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
89
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Saiba mais!
Indústria cultural: Refere-se a uma série de
produtos
relacionados
à
produção cultural: textos,
filmes, vídeos, músicas e
seus meios de reprodução e distribuição: livros,
revistas,
jornais,
cine-
mas, redes de televisão e
rádio, atualmente, internet, ou seja, os meios de
comunicação
de
massa.
A indústria cultural, cujo
início simbólico é a invenção dos tipos móveis de
imprensa no século XV,
caracteriza-se como fenômeno da industrialização,
tal como começou a se
desenvolver a partir só século XVIII. Seus princípios
são os mesmos da produção econômica geral: uso
crescente
da
máquina,
submissão do ritmo humano ao da máquina, divisão
e alienação do trabalho.
Sua matéria-prima não é
mais vista como instrumento da livre expressão
e do conhecimento, mas
como produto permutável
por dinheiro e consumível
como outro produto (processo de reificação da cultura ou, como se diz hoje,
de
commodification
informais que, nos últimos tempos, trazem outra vez à
cena as velhas marchinhas, o autêntico samba, mais lento
do que o das escolas, cantado e dançado rua afora. Além
do carnaval, subsistem festas populares que precisam
ser valorizadas e mantidas em nossa cultura, como o São
João do Nordeste. Quem de nós nunca bebeu quentão e
licor, comeu amendoim e canjica, dançou quadrilha, pulou
fogueira no mês de junho? Se você não sabe o que significa
a pergunta – “São João passou por aqui?” – é porque precisa
tomar parte de um festejo inesquecível. Ou conhecer um
pouco mais nossa vasta malha cultural.
É interessante pensarmos a cultura a partir do conceito
de hibridação proposto por Nestor García Canclini (2003),
segundo o qual, a cultura híbrida se opõe à fragmentação
da cultura em categorias rígidas, colocando em pauta e
circulação novas formas, que misturam elementos da cultura
popular, culta e de massa. Portanto, falar em conceito de
cultura é trazer à discussão múltiplos pontos de vista e
acionar diversos campos das ciências humanas.
Por outro lado, isso não impede que formemos um
conceito sobre o assunto, diante daquilo que, para alguns
estudiosos, forma consenso. Desse modo, cultura pode ser
entendida como:
da
cultura, isto é, sua transformação em commodity,
mercadoria com cotação
individualizável e quantificável).
Para saber mais, leia O
que é indústria cultural,
de Teixeira Coelho (1980).
• traço caracterizador de um povo, ou grupo
humano, no interior de uma sociedade;
• conhecimento acumulado por um grupo humano
ou por um povo;
• visão de mundo de um povo ou grupo humano;
• hábitos ou modo de vida de um povo ou grupo
humano.
O estudioso francês Edgar Morin (2002, p. 35)
sintetiza essas definições quando afirma que a cultura “é
constituída pelo conjunto de hábitos, costumes, práticas,
90
Letras
EAD
Literatura e Cultura
Saiba mais!
Hibridação:
Designam
processos culturais globalizadores, interétnicos e de
descolonização; viagens e
cruzamentos
de
frontei-
ras; fusões artísticas, literárias e comunicacionais.
Na voz do autor: “Entendo
por hidridação processos
socioculturais
nos
quais
cretas, que existiam de
forma separada, se combinam para gerar novas
estruturas, objetos e prá-
4 CULTURA E REPRESENTAÇÃO
ticas. Cabe esclarecer que
as
Falar em literatura implicar falar em cultura. Entre
ambas, existe uma reciprocidade muito grande, visto que a
literatura representa a realidade cultural e com ela dialoga.
A construção ou a contestação de elementos da cultura
passa impreterivelmente pela representação literária. Logo,
podemos inferir que um texto literário é o lugar onde se
encontram os vários discursos que envolvem a cultura.
Um olhar minucioso nos mostra que os textos de
literatura sempre estiveram atrelados à noção e à discussão
em torno da cultura. Entre o final do século XVIII e
início do XIX, quando a cultura girava em torno de uma
homogeneidade, as obras literárias apresentavam elementos
(enredo, personagens, espaço) que visavam a uma formação
homogênea; configuravam-se posições ideológicas distintas
e, ao final da obra literária, uma dessas posições era derrubada
para que a outra saísse vitoriosa.
Nesse sentido, temos O Uraguay, poema épico
de Basílio da Gama já estudado anteriormente, que narra
as guerras guaraníticas. O embate se deu entre índios das
missões jesuíticas e os exército português e espanhol, porém
o que se encontra por trás dessa guerra, além do tratado de
Madri, é a submissão de todos os grupos sociais ao poder de
uma mesma civilização, no caso, a portuguesa.
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
estruturas
discretas
chamadas
foram
resulta-
do de hibridações, razão
pela qual não podem ser
consideradas fontes puras
[...] A construção lingüística (Bakhtin, Bhabha) e a
social (Friedman; Hall, Papastergiadis) do conceito
de hibridação serviu para
sair dos discursos biologísticos
e
essencialistas
da identidade, da autenticidade e da pureza cultural. Contribuem, de outro
lado,
para
identificar
e
explicar múltiplas alianças
fecundas: por exemplo, o
imaginário
pré-colombia-
no com o novo-hispano
dos colonizadores e depois
com o das indústrias culturais (Bernand; Gruzinski),
a estética popular com a
dos turistas (De Grandis),
as culturas étnicas nacionais com a das metrópoles
(Bhabha) e com as instituições globais (Harvey).
Os poucos fragmentos escritos de uma história das
hibridações puseram em
evidência
a
produtivida-
de e o poder inovador de
muitas misturas interculturais” (CANCLINI, 2003,
p. XVIII-XXIII).
91
6
estruturas ou práticas dis-
Unidade
savoir-faire, saberes, normas, interditos, estratégias,
crenças, ideias, valores, mitos, que se perpetua de geração
em geração, reproduz-se em cada indivíduo, gera e regenera
a complexidade social”. Esse conceito, portanto, foge de
qualquer enquadramento etnocêntrico, colonialista ou
elitista, visto que considera os agrupamentos humanos em
sua especificidade e, pelo mesmo viés, especifica as culturas
produzidas por eles.
Literatura, Imaginário, História e Cultura
As mudanças econômico-sociais tomadas pelo império lusitano
se respaldavam na ideologia iluminista, representada em Portugal pela
figura do Marquês de Pombal (1699-1782). O poeta Basílio da Gama,
adepto à filosofia pombalina, compôs seu texto épico embasado nessa
ideologia. Ou seja, O Uraguay visava a uma formação homogênea da
cultura brasileira; os elementos que não se permitiam homogeneizar são
tratados na obra literária com desprezo ou indiferença, pois não poderia
haver divergência cultural. No entanto, os povos que habitavam o
território brasileiro deveriam comungar a mesma cultura. Desse modo, o
índio derrotado é chamado de “rude americano que reconhece as ordens
e se humilha” (BERND, 2010, p.16). Para que esse americano não fosse
denominado “rude”, deveria compartilhar outra visão de mundo: a do
império português.
No século XIX, outra noção de cultura se desenvolveu no Brasil
e a literatura romântica, em voga na época, acompanhou de perto esse
processo. A independência política de Portugal levava os brasileiros a
buscarem elementos locais para construírem uma cultura soberana, como
sabemos. O calcanhar de Aquiles dessa construção consiste no fato de que
a ideia de cultura continuava homogênea e, assim, as especificidades da
sociedade brasileira foram descartadas em favor de uma pseudoigualdade
ao modo iluminista.
Como a gênese do pensamento iluminista era europeia, os literatos
e intelectuais brasileiros revestiram a cultura local de características
europeias. O resultado dessa fusão transparece na obra de Alencar, quando
o índio é cristianizado; nos poemas de Castro Alves, que destituem o
negro de sua negritude e o aburguesam; também, quando o ideal de beleza
continua etnocêntrico, como se percebe na obra de Álvares de Azevedo,
por exemplo, no seguinte poema:
NO MAR
(Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo
(1853). Poema integrante da série Primeira Parte. Grandes poetas
românticos do Brasil. São Paulo: LEP, 1959. v. 1).
92
Letras
EAD
Literatura e Cultura
Les étoiles s’allument au ciel, et la brise du soir
erre doucement parmi les fleurs: rêvez, chantez et
soupirez. (GEORGE SAND)
Como pálida sorrias
E no meu peito dormias
Aos ais do meu coração!
Unidade
E que noite! que luar!
Como a brisa a soluçar
Se desmaiava de amor!
Como toda evaporava
Perfumes que respirava
Nas laranjeiras em flor!
Ah! que véu de palidez
Da langue face na tez!
Como teus seios revoltos
Te palpitavam sonhando!
Como eu cismava beijando
Teus negros cabelos soltos!
Sonhavas? - eu não dormia;
Suspiravas? que suspiro!
Ai que ainda me deliro
Sonhando a imagem tua
Ao fresco da viração,
Aos ais do meu coração,
Embalada na falua!
A minh’alma se embebia
Em tua alma pensativa!
E tremias, bela amante,
A meus beijos, semelhante
Às folhas da sensitiva!
Como virgem que desmaia,
Dormia a onda na praia!
Tua alma de sonhos cheia
Era tão pura, dormente,
Como a vaga transparente
Sobre seu leito de areia!
E que noite! que luar!
E que ardentias no mar!
E que perfumes no vento!
Que vida que se bebia
Na noite que parecia
Suspirar de sentimento!
Era de noite - dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!
Minha rola, ó minha flor,
Ó madressilva de amor!
Como eras saudosa então!
UESC
6
Era de noite - dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!
Módulo 6 I
Volume 3
93
Literatura, Imaginário, História e Cultura
O século XX nasce em torno de uma discussão mais inclusiva
de cultura, apesar de persistir a ideia de congregar as diferenças num
mesmo espaço, o que, de certa forma, mantém ainda o pensamento de
homogeneização. Os modernistas da segunda década do século XX
acrescentam os elementos oriundos da cultura negra na formação da
civilização brasileira, o que até então estava praticamente silenciado, e
tentam representar a cultura indígena de modo mais próximo à realidade,
marcando suas diferenças em relação a José de Alencar.
Você sabia?
Cultura
negra:
às
diversas
mais
das
culturas
afro-brasileiras
Relacionada
expressões
africanas
ou
marcadas
por
autorias ou temáticas negras.
O Brasil tem a maior população
de
origem
africana
fora
da
África e, por isso, a cultura
desse continente exerce grande
influência na cultura nacional.
No século XIX, as expressões
culturais afro-brasileiras eram
proibidas e vistas como algo
atrasado, por não fazerem parte
do universo cultural europeu.
Somente no século XX passam a
ser aceitas como genuinamente
nacionais. A partir de 2003,
a
FIGURA 75 - Capoeira, Pierre Verger, fotografia, Salvador, 194647. O fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger seduzido pela
hospitalidade e riqueza cultural da Bahia decide ali viver. Na
companhia da população local conheceu em detalhe a vida dos
negros brasileiros e fotografou seu cotidiano. Apaixonou-se pelo
Candomblé e se dedicou a estudar os ritos africanos, sendo iniciado
como babalaô. O acervo fotográfico de Verger e suas pesquisas são
uma importante referência na fotoetnografia do Brasil.
FONTE: <http://www.arteeleilao.com.br/img_
lotes/20120418_200921_5.jpg>.
história
brasileira
e
a
cultura
tornam-se
afroparte
obrigatória do currículo escolar.
Influências africanas podem ser
percebidas em muitos âmbitos,
como
a
música
(samba,
congada, cavalhada, maracatu),
a dança (samba, capoeira), a
religião (Candomblé, Umbanda)
e a culinária (feijoada, vatapá, acarajé, caruru, mugunzá, sarapatel, baba-de-moça,
cocada, bala de coco etc.).
Para saber mais sobre a cultura negra e afro-brasileira, acesse a página da Fundação
Pierre Verger, disponível em <http://www.pierreverger.org/>.
Para saber mais sobre eventos e expressões da cultura negra, acesse Portal da
Cultura Negra, disponível em <http://portaldaculturanegra.wordpress.com/>.
Nesse sentido, cabe referência a Mário de Andrade, com
Macunaíma, e aos poemas de Oswald de Andrade. Para esses escritores
e outros, a cultura brasileira se assenta sobre esta base: o português, o
indígena e o africano contribuindo igualmente para a formação do espírito
nacional e tendo uma convivência pacífica. Entre os principais artistas
94
Letras
EAD
Literatura e Cultura
modernistas como eles, destacam-se: na música, Heitor Villa-Lobos; na
escultura, Victor Brecheret; na pintura, Anita Malfatti, Di Cavalcanti,
Tarsila do Amaral e Cândido Portinari.
Para conhecer
Mário Raul de Morais de Andrade (18931945): Oriundo de família aristocrática, nasceu
em São Paulo, cidade com a qual manteria estreita relação. Formado em Ciências e Letras, iniciou
em 1917 sua colaboração como crítico de arte
nos jornais Folha da Manhã e Estado de São Pau-
6
lo, ano em que também publicava o primeiro li-
Unidade
vro: Há uma gota de sangue em cada poema, sob
o pseudônimo de Mário Sobral. Organiza a revista Kláxon, publica Paulicéia desvairada (1922);
a poesia experimental de Losango cáqui (1926);
os poemas de Clã do Jabuti (1927), os contos de
Primeiro andar (1946), o ensaio A escrava que
não é Isaura (1925) e o romance Amar, verbo
intransitivo (1927). Inicia sua atividade como
folclorista em viagem etnográfica à Amazônia
(1927). No ano seguinte, publica a obra-prima
FIGURA 76 - Retrato de Mário de
Andrade, Tarsila do Amaral, pastel sobre
papel, 1922.
FONTE: < http://143.107.31.231/Acervo_
Imagens/CAV/MA/Media/MA-0027.jpg >.
Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, na qual
reelabora literariamente temas da mitologia indígena e do folclore brasileiro, reunidos a partir de
pesquisa antropológica. Recomendamos a leitura
do Comentário crítico sobre a obras de Mário
de Andrade, disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=2723&cd_item=2&cd_
idioma=28555>.
Assista também ao vídeo Mário de Andrade: reinventando o Brasil, disponível em
<http://www.youtube.com/watch?v=p6-sL4y0dAY>.
Macunaíma foi adaptada ao cinema por Joaquim Pedro de Andrade (1969, 108 min.)
José Oswald de Andrade (1890-1954): Sob
o pseudônimo de Annibale Scipione, publicava
os
primeiros
trabalhos
no
semanário
O
Pirralho, que fundou em 1911. No exterior,
teve contato com artistas vanguardistas. Em
1917, conhece Mário de Andrade e, juntos,
promovem a Semana de Arte Moderna. Em
1924, publica o Manifesto da poesia PauBrasil, no qual busca valorizar os elementos
nativos, colocando-o em prática no romance
Memórias sentimentais de João Miramar. Em
1926, casa com Tarsila do Amaral. Em 1928,
publica o Manifesto antropófago, a partir de
cujos conceitos, Mário escreve Macunaíma
(1928) e Raul Bopp, Cobra Norato (1931);
Tarsila realiza seus quadros O ovo (1928),
A lua (1928), Floresta (1929), Sol poente
(1929) e Antropofagia (1929). Em 1929, com FIGURA 77 - Retrato de Oswald de Andrade,
a crise econômica mundial, suas finanças
são abaladas, rompe com Mário, separa-se
de Tarsila, casa com a escritora e militante
UESC
Tarsila do Amaral, óleo sobre tela, 1923.
FONTE: < http://catracalivre.folha.uol.com.
br/wp-content/uploads/2010/01/139_tarsila_
retratodeoswald.jpg
Módulo 6 I
Volume 3
95
Literatura, Imaginário, História e Cultura
política Patrícia Galvão (Pagu) e adere ao Partido Comunista Brasileiro (1931-1945).
Em 1945, torna-se livre-docente de literatura brasileira com a tese A Arcádia e a
Inconfidência.
Assista ao vídeo Oswald de Andrade: de lá pra cá, disponível em <http://www.
youtube.com/watch?v=uAF5oC9GMpU>. (parte I) e <http://www.youtube.com/
watch?v=Xjd0L84tmmM&feature=relmfu (parte II)>.
No contexto modernista, artistas visuais, escritores e músicos
partem de duas inclinações: uma internacionalista e outra nacionalista.
Por um lado, visam atualizar as linguagens estéticas do Brasil, colocandoas em contato com as vanguardas europeias; por outro lado, à criação
de uma arte brasileira autônoma. Apesar de o marco modernista ser
a Semana de 22, o conflito entre ambas as visões só se resolve com a
publicação, em 1928, do Manifesto antropófago de Oswald de Andrade, no
qual, reelaborando o conceito eurocêntrico e negativo de “antropofagia”
como metáfora de um processo crítico de formação da cultura brasileira,
busca solucionar a tensão entre a cultura do colonizador e a nativa:
Na rejeição de falsos purismos, de cópias subservientes
ou de xenofobias redutoras, a Antropofagia condenava
o indianismo, em sua feição ufanista e romântica. No
entanto, malgrado a sua crítica desabusada dos românticos, (‘contra o índio de tocheiro. O índio filho de
Maria, afilhado de Catharina de Médicis e genro de D.
Antonio de Mariz’, lemos no Manifesto), Oswald reduplicou a atração romântica pelo passado indianista,
especialmente pelo mito pré-cabralino. Executou mesmo, nas palavras de Augusto de Campos, um ‘indianismo às avessas’ – prefigurado, aliás, cinquenta anos
antes pelo maranhense Souzândrade. Marcantemente
diferenciado do índio romântico, o índio configurado por Oswald de Andrade tampouco se assemelhava
a seu modelo real. Conforme observa o antropólogo
Carlos Fausto, ‘o índio nu oswaldiano continua sendo
uma figuração distante das realidades indígenas efetivas’. Fausto ressalva, por outro lado, a importância da
Antropofagia como metáfora, a expressar uma compreensão profunda do canibalismo, enquanto operação
prático-conceitural (GOMES, 2010, p. 42).
96
Letras
EAD
Literatura e Cultura
Saiba mais!
A
canção
comer
“Vamos
Caetano”,
de
Adriana Calcanhotto, faz
referência ao movimento
antropofágico. Escute a
canção e atente para a
sua letra, disponível em
<http://www.youtube.
com/watch?v=kfQjqCBX
6
0YE&feature=related>.
Unidade
Para Oswald, a antropofagia se constitui como
metáfora, diagnóstico e medida terapêutica ao mesmo
tempo. “Metáfora do que deveríamos rejeitar, assimilar e
superar em prol de nossa independência cultural; diagnóstico
da sociedade brasileira reprimida por uma colonização
predatória; medida terapêutica porque forma eficaz de reação
contra a violência aqui praticada pelo processo colonizador”
(Id. Ibid., p. 49). Por intermédio da “‘aglutinação” do acervo
colonizador, confrontado à “generosa utopia do matriarcado
de Pindorama”, a concepção antropófaga lida no Manifesto
pretende servir de ponto inaugural a uma outra história
que, embora não surja do nada, possa valer-se do passado
conhecido por variadas representações, a fim de deslocar
a tradição e as versões históricas oficiais, reconstruindo
a cultura nacional e elaborando distintas concepções a
respeito das notações culturais. No entanto, a antropofagia
oswaldiana
não pretende ser, nem efetua, uma leitura consistente das questões sociais brasileiras. Exibe, mesmo, um patente descompromisso com o espaço social, que
desmantela e reinventa, invocando um
anarquismo liberalizante. Por outro lado,
expressa uma fina percepção da problemática da dependência cultural que hoje,
passados mais de 80 anos desde a publicação do Manifesto Antropófago, ainda nos
acomete (Ib. Ibid., p. 52).
A antropofagia e a poesia oswaldiana são precursoras
de dois importantes movimentos artísticos entre os anos de
1950 e 1960: o Concretismo e o Tropicalismo. O primeiro
ocorre nas artes plásticas, na música e na poesia, com origem
na Europa da década de 1950, tendo como antecedentes Max
Bill (artes plásticas), Pierre Schaeffer (música) e Vladimir
Mayakovsky (poesia). No Brasil, vivem-se os “anos
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
97
Literatura, Imaginário, História e Cultura
dourados”, época de desenvolvimento econômico e democratização
política, de maneira que a poesia concreta se associa ao movimento
desenvolvimentista que sacode o país com a bossa nova e o alegra com o
sorriso do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, o J. K.
O principal texto da poesia concreta, publicado em 1958, com
o título Plano piloto para poesia concreta, assinado por Augusto de
Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari (1927), faz referência
direta ao Plano Piloto para a construção de Brasília, elaborado por Lúcio
Costa e Oscar Niemeyer (Cf. MENEZES, 1988). Concebido para ser um
movimento internacional, o Concretismo brasileiro tem seu lançamento
oficial no ano de 1956, com a Exposição de Arte Concreta, realizada no
Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Entretanto, desde 1952, Décio Pignatari, Augusto e Haroldo
de Campos, quando lançaram a revista Noigrandes, já estavam fazendo
poesia concreta. Os concretistas se opõem à poesia lírica e discursiva,
apresentando o poema-objeto, no qual usam elementos visuais e sonoros.
Entre alguns de seus trabalhos, destacamos: Teoria da poesia concreta
(1965), de Décio Pignatari; Poetamenos (1953) e Pop-cretos (1964), de
Augusto de Campos; Galáxias (1963), de Haroldo de Campos.
A Tropicália é um movimento de ruptura cultural do final da
década de 1960 que, inspirado no manifesto antropofágico de Oswald
de Andrade, propõe o diálogo com diferentes tendências musicais da
época, unindo o popular, o pop e o experimentalismo. Seus participantes
formam um coletivo liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, que
inclui músicos e compositores como Gal Costa, Nara Leão, Tom Zé,
Torquato Neto, entre outros. A eclosão ocorre com as apresentações, em
arranjos eletrificados, da marcha Alegria, alegria, de Caetano, e da cantiga
de capoeira Domingo no parque, de Gil, no III Festival de MPB da TV
Record, em 1967. O tropicalismo renova as letras das canções brasileiras,
promovendo intertextualidade com obras literárias, de maneira que
algumas composições ganham status de poema, além de mostrarem
criticamente o quadro sociocultural do país. O movimento dura pouco
porque, considerado subversivo, é reprimido pelo governo militar, que
prende alguns de seus líderes e leva alguns deles ao exílio.
98
Letras
EAD
Literatura e Cultura
Saiba mais!
Assista à palestra de Frederico Barbosa, Concretismo – São Paulo na literatura (2004), disponível em
http://www.youtube.com/
watch?v=MafBfT1GELI
Assista
ao
documentário
Tropicália, direção de Marcelo
Machado, 2012, 89min (trailer
disponível
em
<http://www.
6
youtube.com/watch?v=SS8
uhFa0MYg&feature=player_
Saiba
mais
movimento,
sobre
esse
acessando
o
projeto de Ana de Oliveira,
disponível
em:
<http://
tropicalia.com.br>.
Escute
Alegria,
disponível
em
Unidade
embedded>.
alegria,
<http://
w w w. yo u t u b e . c o m /
watch?v=hmK9GylXRh0>,
e
FIGURA 78 - Tropicália, Hélio Oiticia, instalação, 1967. Consiste
num ambiente formado por duas tendas às quais o autor chama
penetráveis. O cenário se compõe de areia, brita, araras, plantas e
uma espécie de labirinto; ao fundo, uma televisão ligada. O artista
quer demonstrar que a cultura brasileira é negra, índia e branca.
A obra empresta seu nome à canção composta por Caetano e ao
próprio movimento tropicalista.
FONTE:
<
http://bravonline.abril.com.br/blogs/arteria/
files/2010/03/Tropic%C3%A1lia-PN-2-e-PN3-1967-Instal-UnivEst-RJ_Foto-C%C3%A9sar-Oiticica-Filho.jpg>.
Domingo no parque, disponível
em
<http://www.youtube.
com/watch?v=Zbv3M-AdxC0>.
Os modernistas, portanto, trazem um novo ponto de vista
estético e se comprometem com a independência cultural brasileira,
mas não têm repercussão imediata nem adesão em todo o país. Seu
discurso não é comprado, por exemplo, pela Geração de 30, e antes dela,
já não era seguido por Lima Barreto que, ainda nas primeiras décadas
do século XX, representava em sua literatura a marginalização do negro
e sua exclusão numa sociedade ainda de base colonial, como podemos
evidenciar nas obras literárias Clara dos Anjos, Triste fim de Policarpo
Quaresma e Recordações do escrivão Isaías Caminha.
Escritores da Geração de 30, tais como Erico Verissimo e Jorge
Amado, rompem com a ideia de centralização da literatura e passam a
representar o interior do Brasil. Suas produções literárias serão acusadas
de bairristas pela teoria de centro. Entretanto, o que eles mostram é
a cultura existente na periferia brasileira, notadamente marcada pela
submissão à cultura dominante.
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
99
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Para conhecer
Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922):
Nascido no Rio de Janeiro, filho de um tipógrafo e uma
professora, foi apadrinhado pelo Visconde de Ouro Preto,
ministro do Império, que lhe garantiu formação de
qualidade. Publicou o primeiro romance, Recordações do
escrivão Isaías Caminha, em 1909. Sua obra-prima Triste
fim de Policarpo Quaresma seria publicada como folhetim
no Jornal do Commercio em 1911. Trata-se de um romance
histórico que se soma a outras produções do autor nesse
subgênero: Numa e a ninfa (1917); Vida e morte de M. J.
Gonzaga de Sá (1919). Com sérios problemas relacionados
ao alcoolismo e à depressão, é internado para tratamento
com frequência, evento que registra em Diário íntimo e
FIGURA 79 - Lima Barreto
FONTE: < http://imguol.com/2012/10/31/
o-escritor-lima-barreto-fotografadono-hospital-psiquiatrico-pedro“militante”, esteve inteiramente voltada ao relato irônico e
ii-no-rio-de-janeiro-em-1919sarcástico das desigualdades e da hipocrisia nas relações
1351720139889_643x1024.jpg >.
no romance inacabado O cemitério dos vivos, publicados
postumamente. Sua obra, definida por ele mesmo como
sociais.
Para saber mais, assista ao vídeo documental Lima Barreto: um grito brasileiro, disponível em:
<http://www.youtube.com/watch?v=W0wXbSKiYdA&feature=related>.
Sua vida também é tema do samba-enredo Lima Barreto, mulato, pobre, mas livre, da Escola de
Samba Unidos da Tijuca (1982). Escute em <http://www.youtube.com/watch?v=oPh7PZNiyb4>.
Triste fim de Policarpo Quaresma tem adaptação ao cinema como Policarpo Quaresma, herói
do Brasil, direção de Alcione Araújo, 1998, 123 min. Assista ao trailer em: <http://www.youtube.
com/watch?v=aLJtx87RrJg>.
Saiba mais!
Erico Verissimo (1905-1975): Escritor sul-rio-grandense, iniciase nas Letras em 1930, como secretário de redação e tradutor da
Editora Globo. Sua reunião de contos Fantoches é publicada em
1932. Pratica mais o romance: urbano, quando registra a sociedade
burguesa de Porto Alegre, como: Clarissa (1933), Caminhos cruzados
(1935), Um lugar ao Sol (1936), Olhai os lírios do campo (1938),
Saga (1940) e O resto é silêncio (1943); histórico, representado
pela trilogia O tempo e o vento (1949-1962) (1745-1945); político,
que compreende textos escritos durante a ditadura militar, nos quais
denuncia o autoritarismo e as violações dos direitos humanos: O
senhor embaixador (1964), O prisioneiro (1967) e Incidente em
Antares (1971). Também escreve biografia, ensaios, livros infantis
e de viagem.
Para saber mais, assista ao vídeo documental Erico Verissimo: de
FIGURA 80 - Érico Veríssimo
FONTE:
<http://2.bp.blogspot.
com/_BHsEetvGatM/
SxDpz2CYJtI/
AAAAAAAAAQI/
A9iruFadnD8/s1600/
ERICO.jpg>.
lá para cá. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=5PZJnEYzCk> (parte I) e <http://www.youtube.com/watch?v=NTuZ0ODzWD8&feature=relmfu>
(parte II).
Também leia o post Erico Verissimo: a saga dos homens do Rio Grande do Sul, publicado por
Elfi Kürten Fenske (7 de janeiro de 2012) no blog Templo Cultural Delfos, disponível em <http://
elfikurten.blogspot.com.br/search/label/Erico%20Verissimo%20-%20A%20saga%20dos%20
homens%20do%20Rio%20Grande%20do%20Sul>.
Informações sobre o Acervo Literário Erico Verissimo, que serve de referência à acervística
literária nacional, podem ser encontradas neste site: <http://ims.uol.com.br/Erico_Verissimo/
D816>.
Um dos capítulos de O continente, primeiro volume de sua trilogia O tempo e o vento - Um certo
Capitão Rodrigo – tem adaptação ao cinema pelo diretor Anselmo Duarte (1971, 100 min.). A
trilogia completa é adaptada à minissérie televisiva de 25 capítulos dirigida por Denise Saraceni,
Paulo José e Wálter Campos, exibida pela Rede Globo em 1985. Assista à abertura e escute seu
tema, Passarim, de Tom Jobim, em: <http://www.youtube.com/watch?v=LhYfIFVvTa4>.
100
Letras
EAD
Literatura e Cultura
Saiba mais!
Jorge Leal Amado de Faria (1912-2001):Escritor baiano
que, durante a infância, viveu em Ilhéus, cenário de
alguns de seus romances. Em 1930, estuda Direito no Rio
de Janeiro, onde trabalha como jornalista e, aos 19 anos,
escreve seu primeiro romance, O país do carnaval (1931).
As principais obras literárias desse período marcado pela
escrita realista são Cacau (1933), Capitães de areia (1937),
Terras do sem fim (1942), São Jorge dos Ilhéus (1944) e
FIGURA 81 - Jorge Amado
FONTE: <http://www.
casadacultura.unb.br/wp-content/
uploads/2012/03/Jorge-Amado_
destaque-1024x684.jpg>.
Jubiabá (1935). Publicado em 1954, seu romance histórico
em trilogia - Os subterrâneos da liberdade – tem como foco
a era Vargas (1937-1945). Com Gabriela, cravo e canela
6
(1958), adentra-se no pitoresco das cidades baianas,
carregando-as de lirismo, com linguagem mais viva e sensual. Destacam-se: Dona Flor e seus dois
Unidade
maridos (1967), Teresa Batista cansada de guerra (1973) e Tieta do Agreste (1977), que obtêm
grande aceitação do público e são adaptados ao cinema, à televisão e ao teatro.
Saiba mais, assista ao vídeo-documentário Jorge Amado: de lá para cá. Disponível em <http://
www.youtube.com/watch?v=S1_x_xzODbk>.
Sua vida também é tema do samba-enredo Jorge Amado Jorge, da Escola de Samba Imperatriz
Leopoldinense (2012). Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=Moi3TkwBGwY&featur
e=related>.
Várias de suas obras ganham adaptação fílmica:
Dona Flor e seus dois maridos, direção de Bruno Barreto, 1976, 120 min.
Tenda dos milagres, direção de Nelson Pereira dos Santos, 1977, 132 min.
Gabriela, cravo e canela, direção de Bruno Barreto, 1983, 102 min.
Tieta do Agreste, direção de Cacá Diegues, 1996, 140 min.
Quincas Berro D’Água, direção de Sérgio Machado, 2010, 102 min.
Capitães de areia, direção de Cecília Amado e Guy Gonçalves, 2011, 96 min.
Dorival Caymmi compõe Modinha para Gabriela (1975), para a telenovela Gabriela, baseada no
romance Gabriela, cravo e canela. Escute a interpretação de Gal Costa, disponível em <http://
www.youtube.com/watch?v=KqBRcHU0xAI&feature=related>.
Para conhecer
José Lins do Rego (1901-1957): Durante o período em que
estuda Direito em Recife (1919-1923), tem a possibilidade
de contatar com intelectuais relacionados aos movimentos
regionalistas do Nordeste, como o romancista José Américo
Almeida. Ao concluir o curso, conhece o sociólogo Gilberto Freyre,
que o incentiva a desenvolver uma literatura relacionada à cultura
local. Seu primeiro livro, Menino de engenho (1932) é um êxito,
ao qual se seguem as publicações do “Ciclo da Cana de Açúcar”,
que discutem a decadência da economia canavieira nordestina:
Doidinho (1933), Banguê (1934), Moleque Ricardo (1935), Usina
(1936) e Fogo Morto (1943).
Para saber mais, assista ao vídeo José Lins do Rego: o contador
de
histórias.
Disponível
em:
<http://www.youtube.com/
FIGURA 82 - José Lins do Rego
FONTE: <http://4.
bp.blogspot.com/BrJkVi2_dFU/T_-GkUxqgKI/
AAAAAAAABC0/lKgAnD3zbh0/
s1600/Z%C3%89+LINS++NA+JANELA+DO+TREM.jpg>.
watch?v=Mh0snNXd9iI>.
Personagens trabalhadores rurais, de Jorge Amado e José Lins do
Rego, assim como retirantes de Graciliano Ramos, veem-se obrigadas a
se calar diante dos desmandos dos coronéis e nem imaginam que existe
um mundo do qual eles não fazem parte, um mundo que lhes é negado e
para o qual só contribuem com a força de trabalho bestial. No entanto,
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
101
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Para conhecer
Graciliano Ramos de Oliveira (1892-1953): Muito jovem,
colabora com o periódico carioca O Malho e o Jornal de Alagoas.
Depois de um período no Rio de Janeiro, colaborando com vários
jornais, retorna à terra natal, casa-se e assume um comércio da
família. Em 1927, torna-se prefeito de Palmeira dos Índios (AL).
Seu primeiro romance, Caetés, iniciado em 1925, é publicado em
1933; logo vem São Bernardo (1934) e Angústia (1936). Acusado
de subversão, Graciliano é preso e enviado ao Rio de Janeiro; dessa
experiência, escreve Memórias do Cárcere, publicado postumamente
em 1953. Ao ser liberado, torna-se inspetor de ensino no Rio de
Janeiro sem deixar de produzir romances, contos e livros infantis.
Em 1945, filia-se ao PCB. Viaja à Rússia e a outros países do bloco
socialista, experiências contadas em Viagem (1953).
Visite o site oficial do escritor, disponível em <http://www.graciliano.
com.br/>.
Assista aos seguintes vídeos:
Graciliano Ramos, literatura sem bijuterias. Disponível em
FIGURA 83 - Retrato de
Graciliano Ramos, Cândido
Portinari, desenho a carvão e
crayon sobre papel, 1937.
FONTE: <http://www.
vidaslusofonas.pt/graciliano4.
jpg>.
<http://www.youtube.com/watch?v=AyOOItiYRbI&feature=relmfu>.
O
mestre
da
graça,
Graciliano
Ramos.
Disponível
em
<http://www.youtube.com/
watch?v=vP4pbf0PAEQ>.
Várias de suas obras literárias são adaptadas ao cinema, como:
Vidas secas, direção de Nelson Pereira dos Santos, 1963, 103 min.
São Bernardo, direção de Leon Hirszman, 1971, 113 min.
Memórias do cárcere, direção de Nelson Pereira dos Santos, 1984, 185 min.
esse universo é bastante rico em expressões da cultura popular e fértil à
criação artístico-literário.
O chamado Modernismo Regional vai mostrar essa cultura
fragmentada, de resistência, que os adeptos do candomblé, por exemplo,
têm de manter escondida frente à ameaça de homogeneização. Também
diante da hegemonia que, relacionada à cultura dominante, não se
centra nos determinantes econômicos como a própria ideologia, mas
sim em suas formas de expressão, seus sistemas de significação e nos
mecanismos através dos quais as classe oprimidas sobrevivem, em
aparente conformidade, posto que sua consciência se encontra invadida
e apta à manipulação. De acordo com o pensador italiano Antonio
Gramsci, “a hegemonia é a dominação consentida, ou seja, o método
pelo qual os dominadores conseguem oprimir os subalternos através da
aprovação aparente dessas mesmas classes sociais, especialmente pela
cultura” (BONNICI, 2009, p. 259) e, sobretudo, através da cultura de
massa, por exemplo, dos programas de auditório e das telenovelas.
Resistindo ao apagamento que os poderes hegemônicos impõem
constantemente às expressões culturais, a literatura da época é militante.
102
Letras
EAD
Literatura e Cultura
Suas produções, nas quais diferentes visões de mundo não
convivem pacificamente, tampouco apresentam somente o
entrelace de aspectos europeus, indígena e africano como
pensavam os modernistas de 1922, mas se constitui por uma
gama de identidades híbridas e periféricas. Muitas delas,
despossuídas de voz, lutam por espaços de representação.
6
LITERATURA COMO URTICÁRIA
Unidade
5
Urticária é aquilo que incomoda. Sendo assim,
literatura como urticária deve ser entendida como aquela
que causa incômodo; porém a quem incomoda esse tipo de
literatura? Logicamente, àqueles que vêm se beneficiando
de um status quo que o texto literário tenta discutir,
problematizar. Jorge Amado, por exemplo, em obras literárias
como Capitães da areia; Gabriela, cravo e canela; A morte e a
morte de Quincas Berro D’água; São Jorge dos Ilhéus e Terras
do sem fim, mostra traços culturais que o centro não conhecia
ou se recusava a conhecer. Primeiramente, o autor brinca
com a moral cristã introduzindo, em sua prosa, palavrões
que fazem parte do linguajar popular; personagens donas
do próprio corpo, como Gabriela e Malvina; prostitutas,
bêbados, jogadores e ladrões que denunciam as fissuras de
uma cultura centralizadora e excludente; a monocultura da
exploração existente nas regiões agrícolas.
Em Amar, verbo intransitivo, Mário de Andrade
promove algo semelhante ao criticar a hipócrita burguesia
paulistana em seu anseio de assemelhar-se à cultura europeia,
ao mesmo tempo em que explora e estigmatiza os imigrantes
alemães e italianos recém chegados a São Paulo. Andrade
mostra também uma elite que “esquizofrenicamente” aspira
a outra cultura, para não se reconhecer enquanto brasileira,
a fim de isolar-se em uma cultura imaginada e perpetuar o
controle social, mantendo-se altamente preconceituosa;
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
103
Literatura, Imaginário, História e Cultura
porém, sub-repticiamente pratica escondido tudo aquilo que condena.
Oswald de Andrade reconhece a gênese desse processo, e em seu
poema “Erro de português”, representa o histórico brasileiro marcado
pela colonização:
Quando o português chegou aqui
Debaixo de uma baita chuva
Vestiu o índio.
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio teria despido o português.
Em Oswald, percebe-se que a realidade cultural do Brasil do
século XX ainda se prende às circunstâncias da dominação estrangeira no
século XVI. O elemento novo trazido pelo mencionado poeta consiste
na discussão desse processo, a fim de provocar a ruptura de tal modelo,
aludindo ao fato de que é possível a construção de uma cultura sem as
amarras portuguesas. Essa forma de pensar abre novos horizontes na
literatura brasileira produzida no Pós-guerra.
A partir desse momento, exploram-se com mais veemência
aqueles temas culturais dos quais o Brasil não se apercebia, a exemplo dos
apresentados pelo escritor mineiro Guimarães Rosa. Sua coletânea de
contos intitulada Primeiras estórias traz aspectos culturais poucas vezes
observados, como representações maravilhosas que fogem da explicação
cristã em “A menina de lá”, a discussão em torno do peso que a cultura
exerce sobre a formação psíquica dos sujeitos em seu conto mais famoso
- “A terceira margem do rio” -, o controle social pela cultura da violência
em “Os irmãos Dagobé”, assim como o domínio e o poder da língua
padrão em “Famigerado”.
O alagoano Graciliano Ramos traz para a literatura a imagem dos
retirantes, pessoas que, subordinadas a um regime cruel de exploração
104
Letras
EAD
Literatura e Cultura
Para conhecer
João Guimarães Rosa (1908-1967): Escritor, médico e
diplomata, estreia na literatura com um livro de poesias:
Magma (1936). Considerado um revolucionário da palavra,
seus textos destacam-se pela inovação na linguagem, tanto
no uso da fala popular e de expressões regionais misturadas
a arcaísmos, palavras indígenas e estrangeiras como pela
construção de frases que não obedecem à sintaxe da língua
portuguesa. Inovar nos aspecto linguístico e narrativo,
superando noções clássicas de espaço, tempo e personagem.
Esses elementos fazem de sua produção um conjunto literário
e complexo, pelo qual recebe inúmeros prêmios, sendo
6
reconhecido internacionalmente e publicado em diferentes
(1946), Grande sertão: veredas (1956) e Primeiras estórias
(1962).
Para saber mais, assista ao vídeo Guimarães Rosa: o mágico
do reino das palavras, disponível em <http://www.youtube.
com/watch?v=yNsbd0Jcxw4>.
Unidade
idiomas. Destacam-se entre suas obras literárias: Sagarana
FIGURA 84 - Guimarães Rosa
FONTE: <http://4.bp.blogspot.
com/-gyvR_5kntNs/UCR2PeT2FVI/
AAAAAAAAVMI/2fV07TQKnuc/
s1600/Guimar%C3%A3es+Rosa+1.
jpg>.
e exclusão social, associado ao problema climático da seca, veem-se
obrigadas a migrar para regiões onde possam encontrar sustento. A
questão levantada por Graciliano possibilita notar que esses indivíduos não
ocupam outro lugar no conjunto social que não o de mão de obra barata.
Além disso, caso não se contentem com o lugar social que a sociedade
lhes reserva (mão de obra), sua condição muda, sendo percebidos agora
como ameaça ao sistema e, por isso, devem ser combatidos pelo aparelho
repressor do Estado, que os mantém silenciados e oprimidos.
É possível traçar um paralelo entre as personagens de Graciliano
e Macabéa, de Clarice Lispector em A hora da estrela. A protagonista
dessa obra literária é também retirante, alagoana que se muda com a tia
para o Rio de janeiro. Nesse novo lugar, sua cultura é silenciada e sua
identidade, negada; em primeira instância, ela é considerada feia. Na
busca de se adequar à cultura do lugar, ao que é valorizado socialmente,
tenta se parecer com a atriz e cantora Marilyn Monroe, nome artístico
de Jeane Mortensen (1926-1962), um dos maiores símbolos sexuais do
século XX e ícone da cultura pop.
O único momento em que a personagem consegue estabelecer
comunicação acontece quando trava contato com o também nordestino
Olímpico que, visando à ascensão social (ele também é uma vítima), troca
Macabéa por Glória. Por fim, o atropelamento e a morte da protagonista
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
105
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Saiba mais!
Clarice Lispector (1925-1977): Nascida na Ucrânia, emigrou
ainda criança para o Brasil, instalando-se em Maceió. Em 1929,
muda-se para Recife e, em 1935, após a morte da mãe, instalase no Rio de Janeiro. Em 1936, publica seu primeiro conto no
jornal literário Dom Casmurro. Estuda Direito e trabalha como
redatora em diferentes jornais. Casa-se com o diplomata Maury
Gurgel Valente e vive em diferentes cidades da Europa e Estados
Unidos. Em 1944, aos 19 anos, publica seu primeiro romance,
Perto do coração selvagem. Em 1959, divorcia-se e regressa ao
Brasil. Suas principais obras literárias: Laços de família (1960),
A paixão segundo G.H. (1961), Água viva (1973) e A hora da
estrela (1977). Em 1967, a pedido de seu filho caçula, escreve o
livro infantil O mistério do coelho pensante.
Para conhecer mais sobre a vida e a obra de Clarice
Lispector, acesse seu site oficial, disponível em <http://www.
claricelispector.com.br/>.
Sua obra A hora da estrela tem adaptação ao cinema, realizada
por Suzana do Amaral (1985, 96 min.)
FIGURA 85 - Clarice Lispector
FONTE: <http://7em1.files.
wordpress.com/2012/12/claricelispector2.jpg>.
Saiba mais sobre Marylin Monroe na reportagem disponível em
<http://www.youtube.com/watch?v=pnFv7ENg_DI&feature=related>.
servem para não deixar dúvidas a respeito do lugar social destinado às
pessoas sem identidade: sua morte é tão importante quanto a de um
cavalo. A cultura hegemônica brasileira, enraizada no centro do país, de
onde partem a maioria das transmissões televisivas e onde se concentram
editoras, gravadoras de discos, produtoras de cinema etc., mostra um
desprezo para com o conhecimento das culturas das margens, notado
nas expressões utilizadas para referências indistintas a todo e qualquer
migrante nordestino: “baiano” e “paraíba”, respectivamente, em São
Paulo e no Rio de Janeiro.
Os poemas de Vinicius de Moraes, em boa parte, de temática
amorosa, não se esquivam, porém, de representar os elementos que
constituem a complexa cultura brasileira, tampouco, de construir uma
literatura de caráter contestador. Nesse sentido, cabe uma referência a
seu poema “Operário em construção”, que trata do processo alienante do
trabalho e da tomada de consciência do trabalhador.
Vinícius também aborda a questão religiosa em uma canção
composta juntamente com Toquinho, que traz à cena os elementos do
candomblé, demonstrando o quanto a representação da cultura brasileira
106
Letras
EAD
Literatura e Cultura
Saiba mais!
Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes (1913-1980): Seu
primeiro livro, Forma e exegese, é publicado em 1933. Formado
em Direito no Brasil, estuda língua e literatura na Inglaterra.
No retorno, escreve críticas de cinema para jornais e revistas.
Em 1943, ingressa na carreira diplomática, prestando serviços
consulares em diversos países até 1968, quando em oposição à
ditadura militar é exonerado do cargo. Sua dedicação musical
inicia na década de 1950, lançando, em parceria com Tom Jobim,
o disco Canção do amor demais (1958). Faz-se mundialmente
conhecido quando o filme Orfeu negro, do diretor francês Marcel
Camus, adaptado de seu drama Orfeu da Conceição, ganha a
principal parceiro.
Para saber mais sobre a vida e obra de Vinicius de
Moraes, acesse o site oficial disponível em <http://www.
FIGURA 86 - Vinicius de Moraes
FONTE: <http://4.bp.blogspot.
com/_qDUxvx5RSHk/S9iHYyXSDEI/
AAAAAAAAAEs/blfzPIkv3Pg/s1600/
DSC05564.JPG>.
Unidade
de sua vida são dedicados à música e Toquinho se torna seu
6
Palma de Ouro no Festival de Cannes (1959). Os últimos anos
viniciusdemoraes.com.br>.
Assista ao documentário Vinicius dirigido por Miguel Faria Jr., 2005, 121 min, disponível em
<http://www.youtube.com/watch?v=JvEOkeJiX_I>.
Leia “O Operário em construção”, de Vinícius de Moraes, disponível em: <http://letras.mus.br/
vinicius-de-moraes/87332>.
Escute a canção “Meu Pai Oxalá”, de Vinícius e Toquinho, disponível em: <http://www.youtube.
com/watch?v=_ahsXzmmplU>.
longe está de ser homogênea:
MEU PAI OXALÁ
Atotô, Obaluaiê
Meu pai Oxalá
Que vontade de chorar
Meu pai Oxalá
Atotô, babá
É o rei
No terreiro de Oxalá
É o rei
Atotô, Obaluaiê
Venha me valer
Quando eu dei
Venha me valer
Atotô, babá
Meu pai Oxalá
Com a minha ingrata
Meu pai Oxalá
É o rei
Que era filha de Iansã
É o rei
Venha me valer
Com a sua espada
Venha me valer
O velho Omulu
Cor-de-prata
O velho Omulu
Atotô, Obaluaiê
Em meio à multidão
Atotô, Obaluaiê
O velho Omulu
Cercando Xangô
O velho Omulu
Atotô, Obaluaiê
Num balanceio
Atotô, Obaluaiê
Vem das águas de Oxalá
Essa mágoa que me dá
Ela parecia o dia
A romper da escuridão
Linda no seu manto
Todo branco
Em meio à procissão
Cheio de paixão
Atotô, Obaluaiê
E eu
Atotô, babá
Que ela nem via
Atotô, Obaluaiê
Ao Deus pedia amor
Atotô, babá
E proteção
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
107
Literatura, Imaginário, História e Cultura
A canção do “poetinha” prova que existe uma intrínseca relação
entre literatura e cultura, afinal não há texto literário que não dialogue
com a realidade cultural por ele representada, mesmo se para questionála ou desestruturá-la. Nessa composição, uma identidade silenciada
como a afrodescendente ganha voz e passa a fazer parte tanto da cultura
quanto da produção literária nacional com a qual, de quebra, dialoga
produtivamente.
Como em Vinícius e Toquinho, a noção de cultura defendida pela
maioria dos autores estudados nesta aula não corresponde àquela emitida
pelo centro, isto é, as formulações construídas pela visão de mundo
europeia são discutidas e problematizadas em seus textos. Eles contestam
o poder centralizador, visando chamar a atenção para a ocorrência de
outras experiências culturais. Essa atitude, inevitavelmente, provoca
reação, por isso a literatura que produzem é, muitas vezes, entendida como
urticária. Essa peculiaridade pode ser observada na obra do escritor Caio
Fernando Abreu, ao tratar do estrangeiro, da experiência com drogas,
dos hipppies, do homoerotismo, da medicina alternativa, de uma mística
que não segue os preceitos da religiosidade judaico-cristã ocidental etc.
Para conhecer
Caio Fernando Abreu (1948-1996): Aos 15 anos, publica seu
primeiro conto, “O Príncipe Sapo”, na revista Cláudia, em 1963.
No ano seguinte, inicia o curso de Letras e Arte Dramática na
UFRGS, mas para se dedicar ao jornalismo, abandona ambos
os cursos e se muda-se para São Paulo em 1968, integrando a
primeira redação da revista Veja. Em 1970, publica Inventário
do irremediável, recebendo por ele o prêmio Fernando Chinaglia
da União Brasileira de Escritores. Caio vive uma vida errante,
viaja dentro do Brasil e pelo exterior. Em 1994, na França,
descobre ser portador do vírus HIV. Falecerá dois anos depois,
aos 47 anos, sem tempo de concluir seu último trabalho:
FIGURA 87 - Caio Fernando Abreu
FONTE: <http://2.bp.blogspot.
com/-gEMoRxv-HqM/UMJ3jGNvrkI/
AAAAAAAAECA/t2J13ng7vew/
s1600/caio-fernando-abreu.jpg>.
Estranhos estrangeiros. Entre sua obra, destacam-se: Sarau
das nove às onze (1974), Ovo apunhalado (1975), Pedras de Calcutá (1976).
Para saber mais, recomendamos a leitura do comentário crítico da obra de Caio Fernando Abreu
da Enciclopédia de Literatura do Itaú Cultural, disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/
aplicexternas/enciclopedia_lit/index.cfm?fuseaction=biografias_texto&cd_verbete=5069&cd_
item=226>.
Visite a página oficial do escritor, disponível em <http://www.caiofernandoabreu.com/>.
Mais do que direcionar uma crítica aos valores excludentes de nossa
sociedade, esse tipo de literatura também eleva a autoestima daqueles que
integram qualquer tipo de minoria ou estão às margens, porque assim são
capazes de se reconhecer nos bens simbólicos, e leva quem ainda não se
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Literatura e Cultura
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havia apercebido à compreensão da riqueza existente fora do
circuito da cultura dominante ou hegemônica. Dessa forma,
a produção literária do século XX já realoca temas culturais
tratados sob a ótica dos sujeitos de seus textos.
Atualmente, sabemos ser a cultura o elemento que
gera e regenera a complexidade social e, por isso, devemos
pensá-la a partir de um enfoque plural, múltiplo, pois em
uma mesma civilização há uma diversidade de grupos sociais,
que formam uma sociedade única (mas não homogênea)
composta inevitavelmente pela pluralidade cultural. O
século XXI já nasce marcado pelo processo da globalização,
o que faz a noção de cultura ser completamente deslocada.
Se antes havia uma referência, o mundo contemporâneo
a problematiza. Essas marcas serão evidenciadas por
uma literatura também descentrada e, muitas vezes, sem
referência espacial, tornando o conceito ainda mais fluido e
problemático.
Ideias mais amplas de cultura e de literatura chegarão
ao século XXI a pleno vapor, ganhando, entre outros
impulsos, os do multiculturalismo e do pluriculturalismo.
O terceiro milênio terá uma ideia de cultura completamente
fragmentada, as aspirações dos grupos sociais procurarão
o respeito a suas diferenças, não mais se congregarão
numa unidade, isto é, buscarão garantir suas vozes e seus
espaços, como se perceberá em Carandiru, de Dráuzio
Varela, e Cidade de Deus, de Paulo Lins; Ponciá Vicêncio,
de Conceição Evaristo, e Dançar o nome, de Edimilson de
Almeida Pereira, Fernando Fábio Fiorese Furtado e Iacyr
Anderson Freitas; Coisas de índio, de Daniel Munduruku, e
Meu querido canibal, de Antonio Torres, A senhorita Simpson,
de Sérgio Santana, e A máquina de fazer Espanhóis, de Walter
Hugo Mãe, A natureza ri da cultura, de Milton Hatoum, e
Leite derramado, de Chico Buarque; Rei do cheiro, de João
Silvério Trevisan, e O teatro dos anjos, de Dirceu Cateck.
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Módulo 6 I
Volume 3
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
Verbetes
Multiculturalismo: Termo usado a partir dos anos 1980 na América do Norte e Europa para
denominar o fenômeno da diversidade cultural por meio do qual mulheres, homossexuais, afroamericanos, latino-americanos e migrantes marcam presença como atores políticos. Define a
experiência social do artista, sua origem, classe, orientação sexual etc. Visto com desconfiança em
muitos lugares, o multiculturalismo é saudado euforicamente como “resultante de um processo de
mistura e de encontro de diferenças sem precedência na história dos Estados Unidos. Ela representa
uma reação à dificuldade e, frequentemente, ao fracasso deste processo” (SEMPRINI, 1999, p.
42). A partir dos anos 1980, o termo “torna-se uma palavra-código vinculada aos significantes
que incluíam ‘ação afirmativa’ contra ‘raça’ e racismo, enquanto nos anos 1990 o significado se
estende à inclusão de gays e lésbicas. Portanto, o multiculturalismo é um conjunto de políticas para
a acomodação de povos diaspóricos (não brancos) e de minorias, ou seja, uma resposta liberal para
contornar a realidade racializada destas sociedades e frequentemente para esconder a existência do
racismo institucionalizado. A crítica multicultural radical salienta o poder, o privilégio, a hierarquia
das opressões e os movimentos de resistência. Por outro lado, a crítica multicultural tradicional
analisa as teorias de diferença e da administração da diversidade geopolítica nas antigas metrópoles
coloniais e nas suas ex-colônias. É, portanto, um discurso globalizado porque compreende a
diáspora moderna, os imigrantes e sua convivência, populações minoritárias e hegemonia cultural,
e problemas de gênero, ‘raça’, etnia e classe” (BONNICI, 1999, p. 281).
Pluriculturalismo: Junto ao etnocentrismo e ao relativismo cultural, é uma das posições
através das quais se estabelece o contato entre diferentes culturas. Trata-se da caracterização
e do reconhecimento de uma situação: a de que toda sociedade moderna é diversa, múltipla,
pluricultural, ou seja, formada por distintas culturas. Essa atitude esbarra na dos etnocentristas
e dos relativistas que, sem interesse por outras culturas, consideram a temática irrelevante. Ao
contrário da pluricultura, a monocultura prende-se à cultura que se fizer hegemônica, a exemplo
da maioria branca, anglo-saxã e protestante norte-americana. Confrontada a minorias étnicas,
multiculturais, que nelas formam comunidades, as sociedades estruturam-se de modo que “as
modalidades e o ritmo de integração são tradicionalmente estabelecidos de cima para baixo por uma
elite monocultural ‘iluminada’” (SEMPRINI, 1999, p. 41). Para saber mais sobre o assunto, consulte:
FIGUEIREDO (2005), disponível em: <http://seer.fclar.unesp.br/letras/article/view/81/71>.
6
ATIVIDADES
1. Releia o Uraguay, de Basílio da Gama (disponível em <http://www.
brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/00892100#page/1/mode/1up>).
Leia o capítulo “A fonte”, de “O continente I”, primeiro volume da
trilogia de Erico Verissimo, O tempo e o vento (disponível em < http://
es.scribd.com/doc/103439540/A-Fonte-Capitulo-O-Continente-IErico-Verissimo>). Em que os autores se aproximam e se distinguem
no tratamento à cultura e ao indígena? Encaminhe seu trabalho ao tutor.
2. No site aqui indicado, de Álvares de Azevedo, escolha um poema
para interpretação. Como esse poema é capaz de negar ou de reafirmar a
cultura dominante? Atividade para discutir no chat.
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Literatura e Cultura
Unidade
6
3. Leia o Manifesto antropófago, de Oswald de Andrade, disponível em:
<http://www.lumiarte.com/luardeoutono/oswald/manifantropof.
html>. Leia o fragmento intitulado “O inferno de Wall Street”, do
poema “O Guesa”, de Souzândrade, disponível em: <http://www.
revistaeutomia.com.br/volumes/Ano4-Volume1/artigo-capa/Anexo.
pdf> e a artigo crítico de Ana Carolina Cenicchiaro, intitulado
“Sousândrade-Guesa e a cidade-inferno”, disponível em <http://www.
uel.br/pos/letras/terraroxa/g_pdf/vol12/TRvol12i.pdf>. Como esses
três textos dialogam entre si? Que aspectos das considerações de Oswald
podem ser encontrados no poema de Souzândrade e na análise crítica
que recebe? Procure assistir ao filme Como era gostoso o meu francês, de
Nelson Pereira dos Santos, a fim de ampliar o diálogo entre as referidas
produções. Socialize suas análises na Plataforma Moodle.
4. Escute a canção “Domingo no parque”, de Gilberto Gil, com Os
Mutantes, disponível em <http://letras.mus.br/gilberto-gil/46201/>.
Leia e interprete a letra da canção. Depois, relacione sua interpretação
com a poética de Oswald de Andrade e o concretismo. Para tanto,
explore os sites de Augusto de Campos - disponível em: <http://www2.
uol.com.br/augustodecampos/poemas.htm> - e Poesia Concreta 50
Anos, disponível em: < http://pt.scribd.com/doc/25376297/POESIACONCRETA>. Atividade para postar na Plataforma Moodle.
5. O romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, tem forte relação com a
série de pinturas Retirantes (19341960) de Cândido Portinari.
Leia o artigo de Denise Almeida
Silva (2010), aprecie e interprete
a obra pictórica de Portinari.
Responda: Que relação existe
entre as obras dos dois artistas?
Explique como ambos tratam a
questão da desigualdade social
e articulam a relação entre o
homem e o ambiente.
FIGURA 88 - Retirantes, Cândido Portinari,
óleo sobre tela, 1944.
FONTE: <http://24.media.tumblr.com/tumblr_
ma5wcmn5i61rfy7w2o1_1280.jpg>.
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Módulo 6 I
Volume 3
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
6. No livro Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, o conto “Famigerado”
apresenta um homem rude, que entra na disputa pelo poder municipal
com um advogado recém formado. Esse tenta resolver os problemas pela
lei e aquele, pela força. O advogado o chama de famigerado e o homem
rude, sem saber o significado de tal palavra, percorre quilômetros a fim
de saber se era ou não uma ofensa. Enganado no tocante ao sentido do
termo, retorna a sua terra, sem nada fazer ao jovem advogado. Leia a
narrativa, elegendo quaisquer das perspectivas vistas nesta unidade para
abordá-la. Encaminhe sua resposta ao tutor.
7. Escute a canção “Meu pai Oxalá”, de Vinícius de Moraes, anteriormente
citada, e “Canto de Ossanha” (disponível em http://www.youtube.com/
watch?v=I7SGgf5vaNc), do mesmo poeta. Leia as letras de tais canções
e nelas selecione elementos caracterizadores da hibridação cultural e
do multiculturalismo. É possível aproveitar, nesse exercício, o livro
de Sangirardi Júnior (1988) e o site da Federação Internacional AfroBrasileira, disponível em: <http://www.fietreca.org.br/orisas.htm>.
Poste os resultados de seu trabalho na Plataforma Moodle.
8. Leia os contos listados a seguir, da antologia Mel e girassóis, de Caio
Fernando Abreu, detectando elementos que possibilitem afirmar a
presença da hibridação cultural e/ou do multiculturalismo nas narrativas
que a integram. Quais são eles? Discuta suas respostas no chat.
Contos:
Sargento Garcia, disponível em <http://semamorsoaloucura.blogspot.com.es/2007/02/
sargento-garcia.html>.
Garoupaba, mon amour, disponível em <http://semamorsoaloucura.blogspot.com.es/2007/05/
garopaba-mon-amour.html>.
London, London ou ajax, brush and rubbish, disponível em <http://semamorsoaloucura.blogspot.
com.es/2007/08/london-london.html>
Para uma avenca partindo, disponível em <http://semamorsoaloucura.blogspot.com.es/2006/08/
para-uma-avenca-partindo.html>.
Uns sábados, uns agostos, disponível em <http://semamorsoaloucura.blogspot.com.es/2007/07/
uns-sbados-uns-agostos.html>.
Pela passagem de uma grande dor, disponível em
<http://semamorsoaloucura.blogspot.com.
es/2007/01/pela-passagem-de-uma-grande-dor.html>.
Divagações
de
uma
marquesa,
disponível
em
<http://semamorsoaloucura.blogspot.com.
es/2007/05/divagaes-de-uma-marquesa.html>.
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Literatura e Cultura
Aqueles dois, disponível em <http://semamorsoaloucura.blogspot.com.es/2006/10/aqueles-dois.
html>
Mel & girassóis, disponível em< http://semamorsoaloucura.blogspot.com.es/2006/09/mel-girassis.
html>
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6
9. Leia A morte a morte de Quincas Berro D’água, de Jorge Amado,
disponível
em
<http://www.alemdoarcoiris.com/BIBLIOTECA/
biblioteca.htm>. Consulte a obra artística de Carybé, disponível
em: <http://odebrechtusa.com/carybe>. Destaque os modos como
o escritor e o artista se posicionam frente à cultura de massa, suas
abordagens da cultura dominante, da cultura negra e da cultura popular,
bem como o tratamento dado à questão da hegemonia. Desejando
sofisticar o trabalho, leia Deuses da África e do Brasil, de Sangirardi Júnior
(1988) Atividade para postagem na Plataforma Moodle.
10. Identifique, no próximo item, “Resumindo”, todas as citações
marcadas em itálico. Na Plataforma Moodle, diga de quais notações
culturais procedem? Comente-as, de acordo com o que você aprendeu
nesta aula.
7
RESUMINDO
A literatura se atrela à noção de cultura e à discussão em torno desse
conceito que, surgido com o ideário do Século das Luzes, tinha como
objetivo dissolver diferenças e congregar semelhanças dos diferentes
grupos sociais. Todo elemento comum a eles passou a ser considerado
cultural, em especial o idioma, veículo de unificação. Monsieur have
Money per mangiare?
Cultura significava civilidade e bom gosto; cartola, fraque e
livros à mancheia, lombadas de ouro. Essa ideia reforçava o pensamento
colonizador, dos que se julgavam com direitos a intervir nestes tristes
trópicos. Afinal, andávamos nus, líamos quase nada, mas foram eles que
trouxeram a escravidão e os escravos.
Nas Américas, o desenvolvimento de uma identidade cultural
própria foi possível após emancipação política e econômica, construída à
base da pena e da espada. No Brasil, a busca por uma identidade nacional
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Módulo 6 I
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
começou no século XIX através do Romantismo. Índios à vista outra
vez; arco e flecha, as penas e o cocar.
Batia forte o tambor, mas ainda ligada a cânones estrangeiros e a
preconceitos de raça ou classe, gênero ou sexualidade, grande parte da
estética romântica deixava de fora muitas partes de nosso mapa identitário,
sujeitos produtores e suas culturas minoritárias. Eis que a brisa espalha no
ar um buquê de poesia. À Paulicéia desvairada, vamos nós...
No início do século XX, os intelectuais retomam e renovam
discussões em torno da cultura nacional. Para os modernistas, a cultura
brasileira se assenta sobre a base dos índios, negros e brancos em harmonia
racial, realçando a natureza deste país tropical. Trata-se de uma estética de
inclusão que, todavia, mantém a ideia de homogeneização. E tanto que
o Macunaíma canta: Vou-me embora, vou-me embora. Eu aqui fico mais
não, vou morar no infinito e virar constelação.
Alguns escritores questionam a visão pacifista do convívio
cultural e produzem uma literatura na qual se expõe as desigualdades e
a marginalização. Outros buscam descentralizar a cultura e se voltam ao
interior. Olhai os lírios do campo, O país do carnaval, Menino de engenho,
A terra dos meninos pelados.
O conceito de uma cultura que fuja a qualquer enquadramento,
etnocêntrico ou elitista é recente; por muito tempo, prevaleceu a ideia
evolucionista do século XIX, na qual se apoiavam as políticas colonialistas
de Vitórias Secrets e Napoleons, de Dão João a Dons Juan. Reis postos,
rainhas loucas, após a Segunda Guerra Mundial, exploram-se questões
antes invisíveis à República dos Estados Unidos do Brasil.
N’A hora da estrela, viver é perigoso, seu moço. E o perigo se
apresenta para a gente é no meio da travessia. Tanto concreto, a Tropicália,
os exílios, um dia, o operário do edifício em construção que sempre dizia
sim começou a dizer não. E aprendeu a notar coisas a que não dava atenção.
Os dragões não conhecem o paraíso, Morangos mofados no Inventário
do ir-remediável. No século XXI, ganhará impulso a ideia de cultura
fragmentada e heterogênea, das múltiplas identidades. O homem que diz
‘sou’ não é! Porque quem é mesmo ‘é’ não sou!.
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Literatura e Cultura
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REFERÊNCIAS
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a
origem e a difusão do nacionalismo. Tradução de Denise Bottman. São
Paulo: Companhia das Letras, 2008. Disponível em: <http://books.
google.com.br/books?id=aPcKOdTtsZsC&printsec=frontcover&dq
=comunidades+imaginadas&lr=#v=onepage&q=comunidades%20
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Unidade
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Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana (Orgs). Teoria literária: abordagens
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e sair da modernidade. 4. ed. Tradução por Ana Regina Lessa e Heloísa
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Disponível em: <http://www.uel.br/pos/letras/terraroxa/g_pdf/vol12/
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COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural: cultura e
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Módulo 6 I
Volume 3
115
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Módulo 6 I
Volume 3
Unidade
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SILVA, Denise Almeida. Repensando o conceito de lar em contextos
migratórios: bagagens esperançosas, entre errância e enraizamento.
Letras, Santa Maria, v. 20, n. 41, p. 165-182, jul/dez 2010. Disponível
em: <http://w3.ufsm.br/revistaletras/artigos_r41/165-182.pdf>.
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
Suas anotações
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7ª
unidade
ESTUDOS CULTURAIS E
LITERÁRIOS
OBJETIVOS
Ao final da presente aula, você será capaz de:
• conhecer o percurso dos Estudos Culturais britânicos, desde seus antecedentes até à implantação do Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS)
na Universidade de Birmingham;
• compreender o processo de institucionalização dos Estudos Culturais, sua
disseminação, principalmente, para os Estados Unidos, e a formatação diferenciada que recebe na América Latina, onde é reivindicado o termo
“estudos sobre cultura”;
• identificar os principais teóricos latino-americanos comprometidos com os
estudos sobre cultura;
• destacar os mecanismos de recepção da obra de arte literária e da cultura
de massa, o que implica na formação do gosto e na construção de públicos;
• travar contato com uma análise da cidade e da cultura visual massiva que,
na perspectiva culturalista engajada, aborda relações entre público e privado, feminino e feminismo, mídia e consumidor;
• distinguir a esfera pública da esfera privada e detectar suas possíveis inter-relações.
Literatura, Imaginário, História e Cultura
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Estudos Culturais e Literários
Leitura recomendada
BORDINI, Maria da Glória. Estudos culturais e estudos literários. Letras de
Hoje, Porto Alegre, v. 41, n. 3, p. 11-22, 2006. Disponível em: <http://
revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fale/article/view/610/441>.
ESCOSTEGUY, Ana Carolina. Uma introdução aos estudos culturais.
Famecos, Porto Alegre, n. 9, p. 87-97, dez. 1998.
MATTELART, Armand; NEVEU, Érik. Introdução aos estudos culturais.
São Paulo: Parábola, 2004.
1 INTRODUÇÃO
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Módulo 6 I
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Unidade
7
O advento dos Estudos Culturais permitiu entender
a lógica na qual se assenta a divisão entre alta cultura
e cultura popular, separação que se apoia em critérios
subjetivos e representa, na verdade, os interesses de grupos
hegemônicos. Assim, “bom gosto” e “mau gosto” não são
critérios objetivos como pensam os adeptos da alta cultura,
mas conceitos forjados socialmente, imbricados com
interesses econômicos.
Essa forma de pensar permitiu observar o conceito de
cultura sob diferentes ângulos, fugindo da lógica dicotômica
e exclusivista do modelo ocidental, bem como concedeu às
expressões populares um maior espaço de resistência. Nesse
novo cenário, não é possível mais entender as expressões
culturais de maneira simplista (bom e ruim).
Do contrário, precisam ser compreendidas juntamente
com os vários fios que as envolvem, principalmente, em
suas relações com os estudos históricos e os mecanismos
de consumo e formação do gosto. Eis o foco de nossos
estudos no momento. Adentremos a uma vasta teia cultural,
a se tecer com a história, a literatura e diversos outros fios,
muitos mais do que talvez pudéssemos imaginar.
121
Literatura, Imaginário, História e Cultura
2 ANTECESSORES E OS PAIS FUNDADORES
2.1 Crítica e cultura, sociedade e política
No decorrer do século XIX, uma corrente de pensamento conhecida
como Culture and Society (Cultura e Sociedade) se desenvolveu no Reino
Unido, sendo difundida pelos intelectuais do humanismo romântico que
questionavam a ideologia burguesa de civilização moderna. O conceito
de cultura passou a ser assumido como o eixo central das inquietações
de tais pensadores, que convertiam a literatura simultaneamente em seu
símbolo e seu transmissor (cf. MATTELART; NEVEU, 2004). A maneira
de expor as preocupações e indagações desse movimento contribuiu para
o desenvolvimento do que hoje conhecemos como “Estudos Culturais”.
A escolha do escritor como o representante intelectual da
sociedade foi feita por Thomas Carlyle (1795-1881) que, inspirado pela
filosofia e a literatura romântica alemã, apresentou uma nova maneira
de realizar a pesquisa historiográfica: “Carlyle percebeu que, em plena
época romântica, a História estava em toda a parte, inclusive fora do
discurso histórico formal; estava na literatura, nos romances, ou mesmo
em todo conhecimento prático que constituía uma História indireta”
(ANDRADE, 2006, p. 222).
A partir de uma perspectiva mais intuitiva e menos metódica,
sua obra alcançou grande número de leitores e admiradores, não
se restringindo ao público especializado. Admirador de Goethe, o
historiador escocês utilizou estratégias e táticas da narrativa literária em
sua produção histórica. Alimentando a crença de que a história universal
residiria mais do que nada na reunião “das biografias dos heróis, de
que ela é o resultado material dos pensamentos dos grandes homens,
Carlyle não cessa de buscar a categoria dos homens providenciais, aptos
a recriar uma ‘nova alma do mundo’, a fim de deter a crise de civilização
precipitada pela marcha forçada rumo a uma industrialização precoce”
(MATTELART; NEVEU, 2004, p. 20).
O crítico literário e social Matthew Arnold (1822-1888) seguiria
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Estudos Culturais e Literários
Unidade
7
as ideias de Carlyle, apesar de se aproximar mais ao pensamento francês
do que ao alemão. Em ensaios como A função da crítica na época atual
(1865) e Estudo da poesia (1880), o autor coloca a literatura como a
responsável por dar forma à cultura, enquanto em sua principal obra,
Cultura e anarquia (1869), defende a cultura como um estado de perfeição
vinculado ao conhecimento.
Inventor de uma filosofia da educação e defensor do ensino público
contra os riscos de um ensino conduzido pelo sectarismo puritano,
Arnold descartava as culturas populares, consideradas subversivas, em
favor da alta cultura. Dando privilégio ao texto, elegeu Shakespeare e
a sociedade elisabetana como seus paradigmas, pregando a necessidade
de civilizar a classe média por meio dos ideais clássicos de beleza e da
institucionalização da literatura humanizante.
Rejeitado nas universidades gray stone (de pedra cinza)
frequentadas pela elite, como Cambridge e Oxford, dedicadas às Letras
clássicas, o estudo da literatura inglesa ganharia campo nos colégios
profissionais, escolas técnicas e cursos universitários de formação para
adultos, ao mesmo tempo em que, numa parte do império britânico,
difundia-se a política da “anglitude”, a elevar o ideal do gentil homem
inglês, educado e paladino da moral.
Outra contribuição importante aos Estudos Culturais foi a de
William Morris (1834-1896). Ligando o humanismo romântico às causas
da classe operária, esse artista e editor socialista superou a dicotomia
entre visão poética e prática política. De acordo com Matterlart e Neveu
(2004), a visão poética de Morris concebe a revolta romântica como
rebelião contra as artes brutalizadas pela era industrial, representando um
decisivo momento para a construção do pensamento crítico distanciado
do economicismo que marca a história do movimento trabalhista inglês.
Por volta de 1930, a ideias de Arnold seriam retomadas por Frank
Raymond Leavis (1895-1978) como solução à suposta crise cultural
que vivia a civilização ocidental com o aparecimento dos meios de
comunicação de massa: o rádio, a televisão, o cinema, a publicidade etc.
Portanto, até os anos de 1960 aproximadamente, as ideias de Arnold
tiveram enorme influência nas políticas culturais do Ocidente, em que
a cultura era entendida como um instrumento “civilizador das massas”.
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Módulo 6 I
Volume 3
123
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Em 1932, Leavis funda a revista Scrutinity, voz que se alça contra
o “embrutecimento” oriundo de um tempo governado pela mídia e
pela publicidade. No Entre Guerras, afirmam-se os estudos de cultura
e a língua inglesa nas universidades, adotam-se ações resultantes de
experiência que se vinha adquirindo com a educação de adultos, mas
ainda se dá centralidade às análises de textos da literatura inglesa, em
detrimento a sua interação com as práticas sociais. Uma das maiores
contribuições dos Estudos Ingleses nesse período reside no modo como
encaminham a crítica de textos literários.
No jogo de forças que envolve a educação popular de adultos,
sobressaem duas alternativas para seleção dos professores: a) a da “massa”
visa à modernização educacional, centrada no ensino universitário, com
prioridade às Artes e Letras; b) a “da classe” se apoia nas “realidades
regionais, valoriza as tradições puritanas do movimento operário e milita
em favor de uma abordagem sociológica em sentido amplo, apoiando-se
na economia, na filosofia e na política, assim como buscando mobilizar
as pessoas mais avançadas da classe operária para formar quadros”
(MATTELART; NEVEU, 2004, p. 39).
No meio tempo, emigra à Inglaterra uma leva de intelectuais
que escapam do nazismo, como Arnold Hauser e Norbert Elias (18971990). Suas formações e perspectivas contribuem tanto à nova história
inglesa quanto ao estabelecimento de uma ciência da sociedade e de uma
sociologia da cultura. Na mesma situação desses estudiosos, mas com
menos sorte ao fugir dos nazistas, encontra-se o filósofo alemão Walter
Benjamin cujo Livro das passagens: Paris, capital do século XIX se associa
à obra notadamente surrelista Pandaemonium, de Humphrey Jennings
(1907-1950).
Esse múltiplo artista inglês, assim como Morris, não vê nos
tempos modernos um contexto que provoque nostalgia ou reação;
suscita, sim, a consciência sobre um novo tipo de poder, a trazer com ele
outras possibilidades de criação artística e inovação política. Sem renegar
os questionamentos levados a cabo por Carlyle, Arnold e Leavis, sobre o
papel da cultura frente ao rolo compressor do mundo capitalista, parece
que os Estudos Culturais irão se decidir mesmo é por Morris e sua opção
pela cultura das classes populares.
124
Letras
EAD
Estudos Culturais e Literários
2.2 Os pais fundadores e um dileto filho
Os Estudos Culturais apenas se consolidam institucionalmente
na década de 1960, no entanto, o esforço de três pensadores – Richard
Hoggart, Raymond Williams e Edward Thompson - durante a década
anterior, mostra-se fundamental ao estabelecimento dessa perspectiva
teórico-metodológica. Mesmo sem apresentar uma intervenção
coordenada entre si, esses que são considerados os “pais fundadores” do
culturalismo compartilharam de preocupações significativas no âmbito
da cultura, da história e da sociedade:
Unidade
7
O que os une é uma abordagem que insiste em afirmar
que através da análise da cultura de uma sociedade – as
formas textuais e as práticas documentadas de uma cultura
– é possível reconstituir o comportamento padronizado e
as constelações de ideias compartilhadas pelos homens e
mulheres que produzem e consomem os textos e as práticas
culturais daquela sociedade. É uma perspectiva que enfatiza
a atividade humana, a produção ativa da cultura, ao invés de
seu consumo passivo (STOREY, 1997, p. 46).
Para conhecer
FIGURA
89 - Richard
Hoggart,
fotografia
de Granville
Davies, 2005.
FONTE:
<http://www.
gd.talktalk.
net/portraits/
images/
Richard_
Hoggart.
jpg>.
Richard Hoggart (1918-): Pensador britânico, nascido
em Leeds, cuja carreira abarca os campos da sociologia,
literatura inglesa e Estudos Culturais, para os quais
se torna referência fundamental desde que funda em
1964, na Universidade de Birmingham, o Center for
Contemporany Cultural Studies (CCCS). Diretor desse
centro no período de 1964 a 1973, é substituído por
Stuart Hall ao assumir o cargo de subdiretor geral da
UNESCO (1971-1975).
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
125
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Para conhecer
Raymond Williams (1921-1988): Nascido em Llanfihangel
Croncorney, na “esquina” do País de Gales, seus estudos no
Trinity College de Cambridge foram interrompidos em 1940 pela
Segunda Guerra Mundial, na qual serviu ao exército britânico
como capitão. Conclui seus estudos em 1946, passando a
trabalhar com a educação de adultos na Universidade de Oxford.
Influenciado pelo conceito de hegemonia cultural de Gramsci,
seu compromisso político vincula-se à corrente denominada
“nova esquerda”, iniciando, a partir de 1950, sua carreira de
escritor como fundador das publicações de esquerda The New
Reasoner e The New Left Review. Nos anos 60, ingressa como
professor na Universidade de Cambridge, onde trabalha até
1983. Novelista, dramaturgo, comunicólogo e comunicador,
FIGURA 90 - Raymond Williams.
FONTE: <http://www.
parthianbooks.com/sites/default/
files/imagecache/product_full/
RW_report.jpg>.
orienta-se pela perspectiva “marxista culturalista”, na qual os
processos culturais estão relacionados aos processos históricos e transformações sociais. Publica
várias obras sobre os meios de comunicação e a indústria cultural, dentre as quais, se destacam:
Communications (1962); Television: Technology and Cultural Form (1974).
Para conhecer
Edward Palmer Thompson (1924-1993): Nascido em Oxford,
é respeitado como uma das principais referências da área de
História. Comprometido politicamente com a esquerda e com
o pacifismo, em 1946, forma junto com Christopher Hill, Dona
Torr, Eric Hobsbawn, entre outros, o grupo de historiadores do
Partido Comunista. Esse que também é conhecido como Grupo
de Cambridge envolve-se com pesquisas históricas no campo
marxista, sendo fundamental ao desenvolvimento da “nova
esquerda” (New Left). Inscrito no “socialismo humanista”, é
mais conhecido por seu trabalho histórico sobre movimentos
radicais britânicos do final do século XVIII e princípio do
FIGURA 91 - E. P. Thompson.
FONTE: <http://2.bp.blogspot.
com/-W2OXsNDfBMU/TjAm-B4_xRI/
AAAAAAAABEk/k3yxf4diW7g/
s1600/069+E+P+Thompson.jpg>.
XIX, através d’A formação da classe trabalhista na Inglaterra
(1963). Autor de destacadas biografias, como a de William Morris (1955), também será jornalista e
ensaísta, além de haver publicado um romance de ciência-ficção e uma coleção de poesia.
Reconhecido como um dos grandes pensadores do século
XX, Hoggart publica em 1957 The Uses of Literacy, traduzido ao
português como As utilizações da cultura: aspectos da vida cultural da
classe trabalhadora. Nesse livro, considerado fundamental aos Estudos
Culturais, o autor focaliza tanto a cultura popular como a cultura de
massa, antes desprezadas, demonstrando que, no âmbito popular, não
há somente submissão, mas também resistência. Sua produção mais
fecunda, contudo, está em artigos que, além das culturas populares,
tratam da educação na Grã-Bretanha. Embora pense haver uma tendência
a superestimar a influência da indústria cultural sobre os trabalhadores,
suas ideias marcam-se pela desconfiança com a industrialização crescente
dos meios culturais.
126
Letras
EAD
Estudos Culturais e Literários
Unidade
7
No ano seguinte, Raymond Williams publica Culture and Society
(1958). Trata-se uma genealogia do conceito de cultura na sociedade
industrial que explica como “as noções, as práticas e as formas culturais
materializam visões e atitudes que expressam regimes, sistemas de
percepção e de sensibilidade” (MATTELART; NEVEU, 2004, p. 41).
Ao apresentar uma nova perspectiva sobre a história literária, Williams
acaba por conceber a cultura como elemento de conexão entre a análise
literária e a investigação social. Em seu trabalho posterior, The Long
Revolution (1962), avança na discussão em torno do impacto que os
meios de comunicação de massa e da educação exercem sobre a cultura.
Edward P. Thompson, em seu trabalho mais conhecido, The
Making of the English Work Class (1963), estuda basicamente a vida e as
práticas de resistência das classes populares, restaurando o pensamento
marxiano dentro da história social britânica. Thompson compartilha com
Williams de uma tentativa de salvaguardar as análises que, sob o peso
do marxismo, especialmente, do marxismo vulgar, tornavam a cultura
refém da economia. Sem negar os entrecruzamentos dessas duas áreas,
ambos entendem o campo cultural como uma rede de práticas e relações
no âmbito cotidiano, na qual o centro é inevitavelmente ocupado pelo
indivíduo e seus modos de resistir ao capitalismo.
No entanto, Thompson difere de Williams ao perceber a cultura
como um enfrentamento entre diferentes modos de vida, em vez de se
configurar como uma forma de vida global (cf. ESCOSTEGUY, 1998,
p. 89). Os dois intelectuais, juntamente com Hoggart, levam em conta a
multiplicidade dos objetos a serem investigados pelos Estudos Culturais
e a impossibilidade de abstrair a reflexão cultural dos meios para obtenção
da mudança social e das relações de poder.
O trio culturalista vai contar com
mais um parceiro que, contudo, pertence
à geração seguinte e cuja produção, em
vez de transcorrer pelos anos 19501960, amadurecerá nas proximidades da
FIGURA 92 - Centre for
Contemporary Cultural Studies da
década seguinte. Trata-se de Stuart Hall,
Universidade de Birmingham
FONTE: < http://2.bp.blogspot.
intelectual jamaicano que vai dirigir não
com/_L4T5rbqMdx8/TSSh2I6vC5I/
AAAAAAAAAJk/RAfPUG_DeiE/s1600/
birmingham2.jpg>.
só a revista da nova esquerda intelectual
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
127
Literatura, Imaginário, História e Cultura
britânica, New Letf Review, como incentivar os estudos etnográficos, as
pesquisas das práticas de resistência das subculturas e as análises dos meios
de comunicação de massa. Hall substituirá Hoggart na direção do Centre
for Contemporary Cultural Studies da Universidade de Birmingham entre
os anos de 1968 e 1979.
Para conhecer
Stuart Hall (1932-): Teórico cultural e sociólogo jamaicano que
reside na Inglaterra desde 1951. Também participa como membrofundador das revistas de esquerda The New Reasoner e New Left
Review. Depois de escrever em co-autoria com Paddy Whannel o
livro The popular Arts (1964), é convidado por Richard Hoggart
para participar do CCCS de Birminghan, convertendo-se em uma
das principais referências dos Estudos Culturais. A partir de 1979,
incorpora-se como professor de sociologia da Open University.
Para saber mais, leia a entrevista realizada por Heloísa Buarque de
FIGURA 93 - Stuart Hall
FONTE: <http://www.bbc.
co.uk/iplayer/images/episode/
p0094b6r_640_360.jpg>.
Hollanda, disponível em <http://www.heloisabuarquedehollanda.com.br/?p=719>.
Apesar da importância dos quatro pensadores citados, os Estudos
Culturais não devem ser entendidos apenas como ação individual deles,
mas pelas redes que formam e possibilitam discutir novos problemas
nas engrenagens da cultura, política e sociedade, coadunando-se àqueles
que, nos anos de 1950, se desencantam com o stalinismo e, por extensão,
com as experiências socialistas. Nas décadas seguintes, a mobilização
anti-imperialista, as lutas anticoloniais e as descrenças em hierarquias e
tradições ocuparão os setores progressistas da sociedade inglesa.
As revistas da nova esquerda conectam seus partidários e, além
deles, o campo democrático popular, com a comunidade vinculada à
educação da classe trabalhadora. Em instituições pequenas, no interior ou
nos subúrbios, em universidades abertas, sempre às margens do sistema
universitário consolidado, e mesmo em atividades extra muros, os
intelectuais “intrusos” ganham aliados, fixam elos entre as comunidades
acadêmica e política, divulgam novos autores, editores e objetos de
estudos. Quatro anos antes da Primavera de Praga e do Maio de 1968,
anos em que intensas movimentações estudantis haverão de sacudir a
França, é chegada a hora e a vez da Primavera de Birmingham.
128
Letras
EAD
Estudos Culturais e Literários
3 BIRMINGHAM: DA BONANÇA ÀS VIRAÇÕES
O Centro de Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade
de Birmingham (CCCS), fundado em 1964, acolhe estudos que até então
não eram considerados pela tradição universitária inglesa, seja inovando,
seja importando teorias do continente europeu ou da América. Sua marca
principal reside primeiramente na tentativa de utilizar instrumentos e
métodos da crítica literária e textual, mas deslocados das obras literárias
clássicas aos produtos da cultura de massa e ao universo das práticas
culturais populares.
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
Unidade
7
Seus pesquisadores apoiam-se no trabalho autoetnográfico de
Hoggart que, para compreender a cultura popular, necessita retornar
sucessivamente ao campo das sociabilidades, por exemplo, à influência
da televisão, à ampliação das novas formas de competências culturais e
escolares, às relações das gerações, às formas de identidades e subculturas
específicas dos jovens das classes trabalhadoras. Adentrados os anos 70,
eles ampliam seus trabalhos à relação dessa juventude com a instituição
escolar e à diversidade dos produtos culturais consumidos pelas classes
populares, como as mídias audiovisuais e os programas de informação
e entretenimento. Duas outras ampliações se mostrarão fundamentais
à disseminação de seus estudos: às questões de gênero e às alteridades
imigrantes, as quais trazem consigo a problemática do racismo.
Embora se situe como lugar privilegiado dos Estudos Culturais,
Birmingham não detém exclusividade sobre eles. Thompson empreende,
na Universidade de Cambridge, investigações sobre o universo de
costumes e culturas populares ingleses verificados a partir do século
XVIII e cria o Centro de Pesquisas em História Social na Universidade
de Warwick, onde é contratado no ano de 1964. Williams vai desenvolver
suas pesquisas em Cambridge, que o admite como professor de
dramaturgia em 1974.
Privilegiando métodos que deem conta das vidas comuns, como
os da etnografia, da história oral, da pesquisa em escritos que desvelem
o popular (arquivos industriais, judiciários, paroquiais), e não somente a
escrita do poder, os trabalhos realizados pelos culturalistas caracterizamse por uma análise ideológica ou externa da cultura:
129
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Eles não buscam simplesmente mapear culturas, captar sua
coerência, mostrar a maneira como frequentar o pub, assistir
ao jogo de futebol, participar de festas populares pode
constituir um conjunto de práticas coerentes. As atividades
culturais das classes populares são analisadas para interrogar
‘as funções que elas assumem perante a dominação social’
[...] Se a cultura é o núcleo do comportamento, ela o é como
ponto de partida de um questionamento sobre seus desafios
ideológicos e políticos. Como as classes populares se dotam
de sistemas de valores e de universos de sentido? Qual é a
autonomia desses sistemas? Sua contribuição à constituição
de uma identidade coletiva? Como se articulam nas
identidades coletivas dos grupos dominados as dimensões
da resistência e de uma aceitação, resignada ou aflita, da
subordinação? (MATTELART; NEVEU, 2004, p. 72-73).
A vinculação do objeto cultural às problemáticas que envolvem
o poder convoca interrogações teóricas, dentre as quais, sobressaem
quatro conceitos: de hegemonia e identidade (nossos conhecidos de
aulas anteriores); de ideologia e resistência. A noção de ideologia,
devedora do pensamento marxiano, leva a notar que as representações
e os sistemas de valores relacionados a determinados contextos podem
conduzir à aceitação do status quo ou a sua recusa em diversas práticas.
Nesse processo, discursos e símbolos fazem com que os grupos populares
ou se enquadrem de forma alienante no ideário hegemônico ou tomem
consciência de sua força e identidade.
Por exemplo, um afrodescendente que alise o cabelo atende às
imposições da identidade branca dominante no mundo europeu. Por
isso, o apelo à manutenção do crespo original em dreads rastafári, lindas
tranças ou ao estilo Black-Power, como traços de valorização duma
etnia e duma identidade. No mesmo raciocínio, a mulher que aceite ser
apenas “rainha do lar” submete-se à dominação patriarcalista, enquanto
ao estudar e trabalhar fora, encontra meios de fugir a essa lógica; o gay
“dentro do armário” não transgride os ditames heterossexuais, esse
objetivo só é alcançado caso ele não esconda sua orientação sexual.
Assim, a ideologia implica a hegemonia, as identidades que se
superpõem a classes sociais variáveis (como geração, gênero, etnicidade,
sexualidade) e a práticas de resistência. Por sua vez, a resistência significa
mais propriamente um espaço de debate, por meio do qual as classes
130
Letras
EAD
Estudos Culturais e Literários
Unidade
7
populares erguem um muro contra qualquer tipo de dominação do que
uma noção rigidamente fixa. Essa barreira tanto comporta o conflito
social e a indiferença prática ao discurso quanto os locais de autonomia
e festa que escapem à disposição e à organização dos espaços culturais
tradicionais.
Abordagens sociológicas focadas no desvio e em interações
sociais no cotidiano encontram apoio no procedimento biográfico que
orienta as obras de Hoggart. Ao mesmo tempo, a teoria amparada no
marxismo vulgar é reelaborada em outras bases, mas sem abandono ao
pensamento marxiano. Os Estudos Culturais convocam as reflexões
de Louis Althusser (1918-1990) sobre os “aparelhos ideológicos do
Estado”, dos sociólogos da literatura Georg Lukács (1885-1971) e
Lucien Goldmann (1913-1970), da Escola de Frankfurt, de Jean-Paul
Sartre e Mikhail Bakhtin (1895-1985) junto à reiteração das formulações
de Antonio Gramsci. Esse caldo será engrossado pelo estruturalismo e a
semiologia, que brilham no cenário teórico francês, por meio de estrelas
como a crítica búlgara Julia Kristeva (1941) e o teórico de cinema
Christian Metz (1931-1993).
Nem tudo serão flores na primavera de Birmingham. Não é
sempre que tais importações são recebidas pacificamente; muitas vezes,
provocam aquecidos debates e polêmicas infindas. As debilidades
aparecem no desconhecimento das prioridades das Ciências Sociais,
tornando-se visível a) na persistência de uma ideia de cultura como alta
literatura, música clássica e obras de arte das galerias e dos museus; b) no
populismo que celebra objetos pouco aptos a questionarem as relações
sociais; c) num modelo choroso e coitadista de se perceber a cultura
popular.
Nessa época, os Estudos Culturais também apresentam um saldo
devedor em relação à economia e à história. Junto aos outros débitos antes
mencionados, o quadro se agrava devido ao fato de os saberes produzidos
terem, em boa parte de sua procedência, aportes da semiologia, das
tradições literárias e de um marxismo geralmente teoricista, afastado da
prática. Resulta uma tendência a textualizar as culturas não canônicas,
sem que haja a contrapartida, ou seja, a extração dos benefícios de um
mergulho em bens simbólicos marginais, o que poderia advir da longa
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
131
Literatura, Imaginário, História e Cultura
experiência com a educação popular.
Porém, o florescimento do CCCS dá bons frutos, como a
renovação dos objetos de questionamentos acadêmicos, aí incluída a
cultura, desvestida daquele raso entendimento como erudição, mas
relacionada às instâncias de poder. Os estudiosos culturalistas combinam
engajamento e pesquisa, recusam o confinamento de suas docências e
investigações em disciplinas muito específicas, dando espaço a fecundas
transversalidades, principalmente, entre análise literária, análise
midiática, etnografia e sociologia do desvio. Tudo isso permite uma tripla
ultrapassagem que se expandirá nos anos de 1980: a) dos hermetismos
estruturalistas; b) das visões mecanicistas da ideologia propostas pelo
marxismo; c) da sociologia funcionalista norte-americana da mídia.
4 UMA TEMPESTADE REPARTE O MAPA MÚNDI
4.1 Rumo a novas rotas: realocar e redirecionar
Nos anos de 1980, os Estudos Culturais se marcam por abrir
terreno à recepção da mídia e seu papel na produção de diversos registros
identitários, em especial, entre as classes populares e as mulheres. Em
simultâneo, deslocam-se questões básicas como as reconfigurações
identitárias, resultantes da cristalização das subculturas verificada nas
décadas anteriores e da fragilização das identidades sociais ligadas à era
do capitalismo industrial. O hippie ecológico, o intelectual orgânico e
o sindicalista contestador, dentre outras identidades e seus meios de
mobilização, assistem a contínuo enfraquecimento devido à política
neoliberal que, implementada entre os anos de 1979 e 1990 pela primeiraministra do Reino Unido, Margareth Thatcher (1925), se espalhará nem
tão somente no continente europeu.
No começo da década de 1990, Stuart Hall localiza os fatores que
levam as pesquisas culturalistas a uma maior abertura: a) globalização
econômica, com efeito nas fronteiras entre culturas nacionais e nas
identidades individuais; b) mudanças profundas nas sociedades industriais
avançadas, o que leva o indivíduo a se redefinir quanto a diversas
132
Letras
EAD
Estudos Culturais e Literários
Unidade
7
coordenadas, e não apenas a uma delas (como classe, etnia, gênero, nação
etc.); c) força das migrações; processo de homogeneização e simultânea
diferenciação, que abala as representações do Estado-nação, da cultura e
da política nacional.
Além dessas mudanças na conjuntura internacional, bem como
nos contextos político-sociais de cada nação, e das reorientações
epistemológicas, o ingresso de pesquisadores socializados com o
audiovisual e os recursos das indústrias culturais exige novas sensibilidades
à cultura e às relações com a mídia. Métodos mais capazes de dar conta
do “comum do sujeito” captam os prazeres mediáticos, as funções que
o viabilizam, as ambíguas implicações entre o desejo e a passividade ou a
servidão que, embora voluntárias, amarram os consumidores a produtos
da indústria cultural.
Enquanto os trabalhos acerca das identidades sociais se articulam
com outros, sobre a mídia e o espaço público, o fio etnográfico que
perpassava os Estudos Culturais ingleses desde seu primeiro momento vai
costurar o que se convenciona chamar de “virada etnográfica” e consiste
numa forma de pesquisa que dá menos atenção ao conteúdo dos textos
mediáticos, a seu impacto ou sentido no dia a dia dos receptores, e mais
centralidade ao papel dos media no cotidiano de um grupo determinado.
Como balanço positivo desde a Primavera de Birmingham aos
trovões e tempestades das décadas de 1980 e 1990, as práticas culturalistas
destacam-se pelo espaço oferecido à interpenetração das culturas, das
economias e das sociedades. Isso sucede a partir do reconhecimento
da troca desigual entre elas, das lógicas de exclusão que assinalam
sensivelmente a integração mundial dos sistemas econômicos e técnicos.
No interior desse processo, o dito “terceiro mundo” vinha sempre
ocupando as posições mais ínfimas possíveis.
Os Estudos Culturais, que antes importavam teorias, agora
passam a ser exportados, tirando vantagem da universalização da língua
inglesa, dentre outros fatores. Como aspectos negativos, apresentarão
perdas de fecundidade, identidade e rigor. Riscos corridos com sua
institucionalização na Grã-Bretanha e sua acelerada disseminação pelo
mundo na década de 1980, quando os departamentos das universidades
norte-americanas se convertem em polos privilegiados para sua
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
133
Literatura, Imaginário, História e Cultura
transmissão. Sucesso de crítica e público na América do Norte e na
Austrália, influente no Sudeste asiático, rejeitada na Alemanha, na França
e na Europa Central, essa corrente de pesquisa parece ter suas chances
reduzidas em países que contam com sistemas acadêmicos nos quais os
quadros de análise da cultura são bem definidos e os objetos culturais
já recebem tratamento por disciplinas institucionalizadas das Ciências
Sociais.
Por outro lado, as doutrinas estruturalistas e pós-estruturalistas
francesas, em meio a essas, a “desconstrução” derridiana, encontram
terreno propício para se expandir nos Estados Unidos:
[...] quando a Nova Crítica e a Psicanálise foram perdendo
força explicativa, em virtude de seu imanentismo, nenhum
novo suporte garantia o prestígio de estudos literários
ou culturais. Dessa forma, as questões da identidade
e da diferença, reformuladas pela Escola Francesa, se
transformaram no corpo mais apreciado do pensamento nos
departamentos de Inglês, que passaram a atrair estudantes
de outras áreas, igualmente interessados nas possibilidades
transdisciplinares que ali se abriam. De outra parte, o espírito
pragmático dos norte-americanos logo percebeu que esse
novo âmbito de conhecimento oferecia respostas a problemas
não apenas acadêmicos. A discussão sobre identidades
múltiplas e diferenças culturalmente situadas propiciava o
encaminhamento de condutas políticas sem pressupor a luta
de classes ou a determinação da superestrutura ideológica
pela base econômica, princípios do marxismo penosamente
conservados, num meio claramente hostil à contestação
do capitalismo, por uma escassa camada de intelectuais
progressistas. É assim que a vinculação entre os estudos
literários e os estudos culturais se produz, incentivada por
um projeto de renovação da formação acadêmica em Letras e
Humanidades (BORDINI, 2006, p. 18-19).
Países recentemente democratizados (exceto aqueles sob
anterior domínio político da União Soviética e o influxo intelectual da
reflexão alemã, seguida da francesa) adotam teorias culturalistas com
ares subversivos e em atendimento a desafios inéditos, relacionados ao
consumo e aos novos estilos de vida que decorrem de suas aceleradas
modernizações. Na América Latina, a pesquisa sobre culturas populares
134
Letras
EAD
Estudos Culturais e Literários
contemporâneas também se institucionaliza, mas não perderá a
criatividade nem a inventividade, como adiante veremos.
Verbete
ESTRUTURALISMO: Escola teórica das ciências sociais e humanas originada por Ferdinand de
Saussure (1857-1913). O estruturalismo considera o objeto de estudo como um sistema dividido
em elementos relacionáveis entre si; para serem analisados cientificamente, necessitam do estudo
das relações entre eles e das maneiras por meio das quais afetam a globalidade que, a partir dessa
perspectiva, adquire um significado além da soma das partes. Não é uma metodologia exclusiva
dos estudos literários, sendo também utilizada na antropologia, linguística, psicanálise, psicologia
e sociologia. Dentre outros, eis os estruturalistas mais famosos: Jean Piaget na psicologia; LéviStrauss na antropologia; Louis Althusser na filosofia; Jacques Lacan na psicanálise, Ferdinand de
Saussure, Leonard Bloomfield e Noam Chomsky na linguística; Gérard Genette, Roland Barthes,
Roman Jakobson e Tzvetan Todorov nos estudos literários.
PÓS-ESTRUTURALISMO: Termo que entra em uso nos anos de 1970; designa não uma escola
unificada de pensamento ou um movimento, mas é muito usado no discurso da crítica atual. A
maioria dos autores normalmente rotulados como pós-estruturalistas (Jacques Derrida, Michel
Foucault e Roland Barthes) raramente considerava seu trabalho sob esse nome. Entretanto, a
crítica ao projeto da Modernidade empreendida por Jürgen Habermas (1929-) junta sob tal rótulo
interesses e visões divergentes, como a crítica metafísica de Derrida, as investigações de Foucault
sobre a epistème e as relações de poder, a crítica feminista radical de Hélêne Cixous e Luce Irigaray.
Isso gera problemas à crítica e à teoria literárias: ler a “pós-teoria” como diagnóstico de uma
época (com a realidade social de referente) ou como uma volta exacerbada da teoria (contra a
7
representação). Entre os precursores dos “pós-estruturalistas”, encontram-se Friedrich Nietzsche,
Unidade
Georges Bataille e Marcel Mauss (Cf. SAMUEL, 2002, p. 125-128).
DESCONSTRUÇÃO: nome dado pelos norte-americanos (com os quais ganhará dimensão destacada
nas décadas de 1970 e 1980) sobretudo à critica surgida na França com Jacques Derrida (19302004) a partir dos anos 1960. Consiste em resposta complexa a uma variedade de movimentos
teóricos e filosóficos do século XX, como o estruturalismo e a fenomenologia, expondo a natureza
problemática de todo discurso centrado, propondo a destruição da metafísica e o deslocamento
de seus limites conceituais, entre outros meios, através da exploração das margens dos sistemas
tradicionais e do jogo semântico que não se ancora em qualquer significado (Cf. SAMUEL, 2002, p.
136-138).
4.2 Los Estudios Culturales: na América Latina
Como vimos, os Estudos Culturais surgem no Reino Unido nos
anos 50 do século passado como uma perspectiva teórico-metodológica
interdisciplinar de democratização da cultura. Na América Latina, o
intelectual peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930) já adotava
no Entre Guerras a noção de hegemonia elaborada por Gramsci e o
educador brasileiro Paulo Freire, no início dos anos de 1960, quando dá
UESC
Módulo 6 I
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135
Literatura, Imaginário, História e Cultura
forma à “pedagogia do oprimido”, se vale dos elementos de resistência
apresentados pelas classes populares. Uma década mais tarde, o Chile de
Salvador Allende (1970-1973) assistirá aos primeiros estudos etnográficos
acerca da recepção a séries americanas e a telenovelas entre as classes
populares.
Entretanto, as pesquisas sobre culturas populares só aportam no
continente durante os anos de 1980, aproveitando as transformações
sociopolíticas decorrentes dos processos de abertura política e reinserção
democrática. A cultura popular empurrada pela emergência das indústrias
culturais assume novas configurações que também contribuem para
que essa problemática seja pensada e repensada: “Os deslocamentos
com os quais se buscará refazer conceitual e metodologicamente o
campo da comunicação virão do âmbito dos movimentos sociais e das
novas dinâmicas culturais, abrindo, dessa forma, a investigação para as
transformações da experiência social” (MARTÍN-BARBERO, 1992, p.
29).
A partir desse contexto, os estudos que tratam da cultura no
continente latino-americano passam a revisar os cânones estéticos e
as identidades entendidas como universais, questionando os discursos
hegemônicos e as imposições culturais, numa postura assumidamente
não subalterna e vinculada ao âmbito sociocultural a partir de três eixos comunicação, sociologia e antropologia – inter-relacionados com outras
disciplinas como história, crítica literária, política etc. Com o passar do
tempo,
os Estudos Culturais na América Latina mostram hoje uma
clara originalidade, de impacto internacional, em função do
encaminhamento que vem propondo para temas como a
tensão entre a cultura local e global, o papel da cultura no
mercado de bens simbólicos e a busca de novos modelos e
conceitos operacionais que dêem conta da complexidade da
produção cultural transnacionalizada (HOLLANDA, 2000).
No limiar da década de 1990, os pesquisadores latino-americanos
começam a identificar-se e a ser identificados em âmbito internacional
com essa perspectiva, destacando-se a partir daí o hispano-colombiano
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Letras
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Estudos Culturais e Literários
Unidade
7
Jesús Martín-Barbero (1937-) e o argentino radicado no México Néstor
García Canclini (1939-). O primeiro, com formação em filosofia e
semiótica, relaciona as práticas sociais à comunicação. Em sua obra mais
conhecida, Dos meios às mediações – hegemonia, cultura e poder (1987),
estabelece a teoria das mediações através da qual é possível entender a
interação entre produção e o prazer encontrado em sua recepção a partir
dos dispositivos socioculturais. O sentido social, implícito nas formas
de mediar formações hegemônicas e expressões populares, permeia tal
interação a partir de uma estrutura mais complexa de significações.
Sob a perspectiva do autor, as mediações podem ser meios,
sujeitos, gêneros e espaços, constituídos “em articulações entre matrizes
culturais distintas, por exemplo, entre tradições e modernidade, entre
rural e urbano, entre popular e massivo, também, em articulações entre
temporalidades sociais diversas, isto é, entre o tempo do cotidiano
e o tempo do capital, entre o tempo da vida e o tempo do relato”
(ECOSTEGUY, 2001, p.107). No espaço simbólico ou representativo
dessas articulações, repousa o olhar do pesquisador que, ao enfocar os
processos de comunicação a partir da cultura, amplia a análise já não
mais restrita ao meios, mas extrapolada nos objetos e sujeitos capazes de
mediá-los.
Néstor García Canclini, estudioso com trajetória acadêmica
voltada tanto para a filosofia como para a sociologia e antropologia, é um
dos principais pensadores a tratar da Modernidade, da Pós-modernidade
e da cultura a partir da perspectiva latino-americana. Autor de vasta
obra, na qual questiona os cânones e a hegemonia cultural, defende o
rompimento das barreiras entre o hegemônico e o subalterno, o tradicional
e o moderno, o erudito, o popular e o massivo. Envolvendo diversas
“comunidades de consumidores”, o conceito de “culturas híbridas”
consiste nessa heterogeneidade cultural que está presente no cotidiano
urbano e é responsável pela elaboração e reelaboração das inúmeras
identidades, como tivemos oportunidade de tomar conhecimento em
nossa sexta aula.
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
Verbete
Pós-modernidade: Quanto à periodização da pós-modernidade, Fredric Jamenson (1997)
assume seu provável início em torno dos anos de 1960, quando há uma academização da arte
moderna. Mike Featherstone (1995, p. 25) corrobora com essa ideia, lembrando que o termo “pósmodernismo” teve sua popularidade “na década de 60, em Nova York, quando usado por jovens
artistas, escritores e críticos”. É nesse período também que surgem os movimentos contraculturais
como o manifesto hippie, o ambientalismo e o pacifismo, indicando uma mudança, ou tentativa de
mudança, de postura frente ao que até então se apresentava.
Diferindo de pós-modernidade, num primeiro momento, designativa de um período temporal,
mas intrinsicamente ligado a esse conceito, o Pós-modernismo - com o sufixo ismo - assume
uma classificação tipológica dirigida aos produtos resultantes de uma dimensão estética. O pósmodernismo se constrói sobre experiências da pós-modernidade, como urbanização, industrialização,
tecnologia e informação. É uma característica sua apropriar-se da condição de incerteza e assimetria;
a realidade é percebida como rompimento, o homem é alienado e coisificado. Nessas condições, é
necessário aparecer para o indivíduo pós-moderno o preenchimento do vazio, criando-se, assim,
uma nova ordem (PIANOWSKI, 2008). Segundo Jamenson (1997), há uma íntima relação do termo
pós-moderno com as novas configurações da sociedade que passa, após a Segunda Guerra Mundial,
a ser descrita como sociedade pós-industrial, sociedade de consumo, sociedade da mídia, sociedade
do espetáculo etc. A tecnologia que irá imperar nessa “nova” sociedade do “capitalismo tardio” será
a da informação.
Saiba mais!
Visite o site oficial de Néstor García Canclini, acessando: <http://nestorgarciacanclini.net/>.
Outro importante conceito criado pelo autor é o de “reconversão
cultural”, que reapropria da área econômica o primeiro termo dessa
expressão, para explicar como muitas vezes a hibridização “surge do
desejo de reconverter um patrimônio (conjunto de técnicas e saberes) para
reinseri-lo em novas condições de produção e mercado, não é uma simples
mescla de estruturas ou práticas sociais discretas, puras, que existem de
forma separada; ao combinar-se, geram novas estruturas e novas práticas”
(CANCLINI, 1996, p. 3). A estratégia é usada no contexto erudito e
no popular, resultando em práticas e estruturas culturais novas. Para
as culturas populares, em geral, é mais do que estratégia; torna-se uma
necessidade de reconhecimento nos contextos globalizados de inserção
laboral ou de afirmação identitária, o que frequentemente constitui uma
árdua experiência.
Canclini (2006) prefere a expressão “Estudos sobre cultura”, como
uma necessária reorientação dos Cultural Studies de tradição anglófona,
evitando menos a questão da dependência e mais a hipertextualização
com pouca análise de contexto, o que ocorre sobretudo na vertente
americana dos Estudos Culturais,
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Estudos Culturais e Literários
Unidade
7
que tampouco são os mesmos em todas as áreas anglosaxônicas.
Na Grã Bretanha têm um certo desenvolvimento, nos
Estados Unidos, outro, e no mundo asiático é diferente.
Mas, em parte eu compartilho, na América Latina, com
preocupações e estilos básicos dos cultural studies. A
vocação transdisciplinária, a reflexão e investigação sobre
cultura em relação a estrutura e poder, a divisão de classes
e grupos de consumo na sociedade e o interesse de estudar
sociológica ou socioantropologicamente os produtos
culturais, não analisar isoladamente as obras de arte ou as
obras literárias, mas vê-las na trama complexa de relações
de produção cultural. Tudo isto tem sido característico dos
cultural studies e também dos estudos culturais ou estudos
de cultura na América Latina. Se bem aí existem uns 10 a
15, 20 autores que eu poderia identificar na América Latina
com uma produção vinculável aos estudos culturais, eu não
encontro nenhum dos mais importantes ou que tenham
obras e trabalhos mais consistentes que sejam simplesmente
afiliáveis aos estudos culturais, que cumpram com um
requisito de um paradigma internacional, o que por outro
lado não existe, é uma convenção. Uns interpretam de uma
maneira e outros de outra (p. 13).
Outros conceitos provenientes do corpus teórico gerado pelo
contexto latino-americano são o de “moderna tradição” e globalização
do “internacional popular”, desenvolvidos pelo brasileiro Renato Ortiz
(1947-), e dos “frontes da cultura cotidiana”, presente na reflexão do
mexicano Jorge González (195?-). Dialogando com referências latinoamericanas, os quatro teóricos mencionados não deixam de se valer
das contribuições de culturalistas europeus, nem sempre, ingleses.
Além dos estudos do quarteto em voga, destacam-se pesquisas latinoamericanas sobre antropologia das megalópoles e recepção (em especial,
de telenovelas).
Vivendo situação bem diferente daquela encontrada pelos
estudiosos culturais britânicos entre os anos de 1970 e 1990, os latinoamericanos ainda estão sob o autoritarismo ditatorial ou em transições
democráticas envoltas a estruturas persistentes das ditaduras ou ainda,
mais tarde, enfrentarão duras crises oriundas da implantação das políticas
neoliberais. Na própria nação ou no território de emigração, tratar
do consumo, da identidade ou dos produtos midiáticos parece menos
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Módulo 6 I
Volume 3
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
problemático do que se voltar à ação política, às estruturas de poder, aos
movimentos sociais.
Além disso, entre investigações sobre cultura que se revelam
críticas quanto à politização dos anos de chumbo e a reivindicação
“pós-colonialista” de engajamento, a “literatura de testemunho” latinoamericana demarca sua clivagem em relação ao relato testemunhal ligado
às experiências do holocausto judeu (Shoah). Cunha-se assim a noção
de testimonio, a proporcionar duas compreensões, surgidas em distintos
momentos, e vinculadas a perspectivas teóricas divergentes. A mais
antiga dessas concepções dá-se estritamente na produção teórica latinoamericana desde os anos de 1970, envolvendo relatos ligados a experiências
com as ditaduras militares dos anos 1960-1980 e à interpretação da
violência gerada nesses processos.
Verbete
Pós-Colonialismo
Estudos surgidos nos anos de 1970, relacionados aos efeitos do colonialismo, inicialmente
vinculado aos estudos literários, atualmente é aplicado a diferentes áreas das ciências humanas,
estando fortemente associado aos Estudos Culturais. O pós-colonialismo problematiza as questões
relacionadas à dominação, opressão e autoritarismo da história do colonialismo e das sociedades
pós-coloniais.
Para saber mais recomendamos a leitura do artigo Pensamento pós-colonial, publicado em Janus
2010, disponível em: <http://janusonline.pt/popups2010/2010_3_1_7.pdf>.
Por outro lado, uma acepção distinta se estabelece nos anos de
1980, popularizando-se com o relato da índia guatemalteca Rigoberta
Menchú, que narra em primeira pessoa a violência contra as minorias
étnicas de seu país. Tal compreensão “volta-se exclusivamente para a
literatura hispano-americana, desenvolve-se no espaço universitário norteamericano ou em áreas a ele vinculadas e faz fronteiras com os estudos
culturais” (DE MARCO, 2004, p. 46). Esse é um indício da absorção
dos Estudios Culturales nos Estados Unidos, onde se naturalizam como
Latin American Cultural Studies.
Como um braço do conhecimento anglófono desenvolvido
por pesquisadores norte-americanos que estudam a América Latina,
tal agrupamento denota a geopolítica de apropriação envolvida na
globalização. A perda de poder político e de espaço de mobilização
que afetou os Estudos Culturais na década de 1990 deve muito a
pesquisadores norte-americanos que fizeram por merecer o rótulo de
“analistas de shopping-centers” ao tentarem operacionalizar categorias
140
Letras
EAD
Estudos Culturais e Literários
que se direcionam à reflexão, mas não servem para ser aplicadas em
análises estritas. Uma enxurrada de autores americanos, dispostos a
“desconstruir” e a “relativizar” tudo o que viesse pela frente, a produzir
bricolagens e a se encantar com simulacros, remove uma gama de
conceitos concretos oriundos de vários campos, criando uma corrente
de pensamento conhecida que, se mostrando distanciada dos Estudos
Culturais, dá-se a conhecer como multiculturalismo.
Esse termo, nascido na terra de Tio Sam, nomeia não uma
disciplina, uma área de estudos ou práticas interdisciplinares, mas um
sistema de pensamento e intervenção social, como visto, apoiado em
noções derridianas, e cuja ascensão
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Módulo 6 I
Volume 3
Unidade
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deriva das condições da formação da sociedade norteamericana, a saber, a inicial colonização inglesa, de confissão
puritana, com o genocídio das populações indígenas, a
importação em massa de escravos africanos para o trabalho
braçal, a abertura do país à imigração ocidental e oriental
quando o progresso do capitalismo liberal tornou o país o
sonho de redenção para as camadas pobres da Europa e do
Oriente, resultando numa sociedade multirracial, dominada,
porém, por uma ética protestante que favorecia o acúmulo
de capital e o empreendimento individual. Em todos esses
estágios de formação, o elemento nativo e o estrangeiro, aos
olhos dos cidadãos anglo-saxões, foi visto como alteridade
ameaçadora, que deveria ser eliminada ou submetida,
assimilando-se à cultura dos dominadores. Separadas de
suas raízes de origem e perseguidas na terra de adoção, essas
populações todas passaram por crises de identidade, que se
resolveram ou com a separação em relação à sociedade branca
– caso de negros e índios – ou com a adesão ao American way of
life, no caso dos imigrantes europeus e asiáticos. Entretanto,
as tensões não se atenuaram e, reforçados pelo declínio
econômico do país nas últimas décadas, os conflitos entre
maioria e minorias continuam acesos. Explica-se, assim, que
o pensamento multiculturalista encontrasse solo fértil para se
expandir nas esferas mais intelectualizadas, que entendiam ser
o reconhecimento das diferenças culturais o caminho para a
pacificação da sociedade. Pensar uma sociedade multicultural
seria admitir o outro não como alteridade ameaçadora para a
integridade do sujeito, mas como um outro eu que permite
o autoconhecimento e o autoaperfeiçoamento por contraste
[...] (BORDINI, 2006, p. 19).
141
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Outras diferenciações entre a questão cultural nos Estados Unidos
(ou demais sociedades centrais) e na América latina, assim como demais
elucidações acerca de tal problemática, vêm a ser oferecidas por mais
uma figura cara aos estudos latino-americanos sobre cultura: a ensaísta
portenha Beatriz Sarlo (1942-). Ela se volta a trabalhos sobre uma Pósmodernidade às margens das sociedades industriais avançadas em seu
ensaio Una modernidad periférica: Buenos Aires 1920 y 1930 (1988).
Conjuntamente às reflexões de Canclini, a pesquisadora argentina traz
importantes aportes acerca das mudanças socioculturais causadas pela
crise da Modernidade e pelos efeitos do neoliberalismo.
Como vamos observando ao longo desta aula, as reflexões dos
Estudos Culturais na América Latina correspondem às singularidades
determinadas pela história cultural do continente assim como à própria
tradição na produção de conhecimento. No entanto, não podemos
esquecer que o campo de pesquisa culturalista é “um projeto transnacional
de reflexão sobre as transformações globais em curso e seu impacto sobre
o horizonte de novos paradigmas socioculturais” (HOLLANDA, 2000).
Saiba mais!
Para saber mais sobre Estudos Culturais:
Assista à entrevista de Tatiana Amendola Sanches realizada para a Jovem Pan Online, disponível
em: <http://www.youtube.com/watch?v=U7qxcoLcfiA>.
Acesse a Biblioteca Virtual de Estudos Culturais, disponível em <http://www.bibvirtuais.ufrj.
br/estudosculturais/>.
Acesse o porta do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC), disponível em
<http://www.pacc.ufrj.br/>.
Leia os artigos da Revista Z Cultural, disponível em< http://www.pacc.ufrj.br/z/ano5/3/index.
php>.
Leia os textos publicados no blog de Heloisa Buarque de Hollanda, disponível em <http://www.
heloisabuarquedehollanda.com.br/>.
5 RESPEITÁVEL PÚBLICO, CÍRCULOS PRIVADOS
5.1 Formação do gosto, construção de públicos
Atividade de suma importância desempenhada pelos Estudos
Culturais, embora não seja exclusividade sua, é a dinamicidade dos
trabalhos sobre recepção. Uma das pesquisas exemplares nesse sentido
- A ascensão do romance: estudos sobre Defoe, Richardson e Fielding -
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Estudos Culturais e Literários
publicada em 1957 por Ian Watt (1917-1999), procede a um histórico
dos comportamentos do sistema literário, indicando suas inter-relações
com a vida cultural. Outra investigação de porte realiza a norteamericana Janice Radway (1949-) em Reading the Romance (1984) que
aí investiga as contradições e interrogações reveladas por leitoras dos
ditos romances “cor-de-rosa”, nos quais as estórias de amores difíceis
e príncipes encantados permitiam a elas momentos de libertação das
rotinas domésticas.
Quanto à formação do gosto pela leitura e à construção do públicoleitor, durante os séculos XVIII e XIX, a Igreja Católica incentivava a
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Módulo 6 I
Volume 3
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leitura feminina, mas permitia apenas os livros sagrados, que visassem à
educação familiar e à conservação da moral e dos bons costumes. Desde a
Revolução Francesa em 1789, a expansão do sistema de ensino propiciava
a entrada de material impresso nos educandários. Além disso, a imprensa
também se expandia, provocando a necessidade de aumentar as práticas
de escrita e leitura, principalmente, devido ao aumento de circulação do
jornal e do romance, firmes e fortes aliados de novas nações à formação
das identidades nacionais.
Apresentados como bens culturais, os livros ficavam subordinados
à aceitação pelo leitor que se educava basicamente por intermédio de
autobiografias, cartas, documentos de cartório, letras jurídicas e das
sagradas escrituras. No Brasil, foi com a vinda de dom João VI e sua
família, no ano de 1808, que a imprensa pôde se converter em uma
fonte para a educação dos jovens e a informação dos adultos. Quanto
ao romance, “existiu no Brasil, antes de haver romancistas brasileiros.
Quando apareceram, foi natural que estes seguissem os modelos, bons
e ruins, que a Europa já havia estabelecido em nossos hábitos de leitura”
(SCHWARZ, 2000, p. 35).
Na busca por uma dicção nacional, os poucos escritores que
havia em solo pátrio ainda deveriam conquistar um público que se lhes
mostrasse fiel: “o comércio dos livros era, como ainda hoje, artigo de
luxo; todavia, apesar de mais baratas, as obras literárias tinham menor
circulação” (ALENCAR, 1990, p. 59). Leituras coletivas, em que um
grupo de anônimos recebia em alto e bom tom as estórias e informações
lidas por alguém apto e eleito para tal fim constituem uma das práticas
143
Literatura, Imaginário, História e Cultura
destinadas à formação do público leitor (Cf. LAJOLO; ZILBERMAN,
1996). Por outro lado, havia um leitor habilitado, já tido em vista por
algum escritor como ideal para a recepção de determinados textos.
Diferentes membros e segmentos da sociedade começavam a
consumir bens culturais impressos. Educadas para o lar e a maternidade,
as moças pareciam mais inclinadas a ler historietas de amor realizado ou
irrealizável, que lhes arrancassem lágrimas e suspiros: “desde as primeiras
linhas, os livros destinados às mulheres estiveram associados com o que
mais tarde seria chamado de amor romântico [...] nas labutas, perigos e
agonias dos casais amorosos, as mulheres às vezes descobriam alimento
insuspeitado para o pensamento” (MANGUEL; SOARES, 1997, p. 256257).
Mulheres que, na maior parte das vezes, não integravam práticas
culturais letradas, passavam a ser conquistadas pelos romances. Tanto,
que os escritores previam suas leitoras dentro dos textos e se dirigiam a
elas, como uma das táticas mais efetivas na busca de um público maior.
As leituras femininas preenchiam longas horas de silêncio, substituíam a
sesta, entravam no lugar do crochê e do tricô, das costuras e dos doces
por fazer. Ainda que não estimulassem à ação na cultura e na política, os
livros de fácil digestão não deixavam de contribuir para o incremento da
prática leitora e algum tipo de reflexão ensimesmada ou entre pares que
poderia trazer à baila outros temas, problemas, soluções.
Em grande parte do século XIX brasileiro, a crítica literária era
feita quase sem exceção por intelectuais do sexo masculinos. Além de
informar, os periódicos dedicavam-se ao entretenimento, por exemplo,
publicando folhetins como o Guarani de Alencar, conhecido nosso de
outros tempos e de outro momento neste curso. A maioria dos romances
a ser encaminhados ao público feminino empenhava-se na construção
de personagens com algum lustro, mas não perdiam a oportunidade de
mantê-las fieis ao ideal burguês de família, à fé religiosa e às estruturas
patriarcais.
A construção das leitoras se dava na órbita doméstica, porém as
mulheres de carne e osso iam saindo de casa para o passeio público, os
cafés, saraus e teatros, locais onde socializar discussões acerca do que
tomavam conhecimento através dos jornais. Cuidados do lar, moda e
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Estudos Culturais e Literários
outros assuntos considerados “menores”, porque não diziam respeito
à economia ou à vida político-social, confrontavam-se às leituras
masculinas, destinadas a informar e preparar os dirigentes ou executores
de ordens e serviços. De menos a mais e de mais a menos, o progressivo
crescimento do número de leitoras contribuía ao consumo e à produção
de romances no Brasil.
Nem tão somente em nosso país, mas em grande fração do mundo
ocidental, entre o final do século XIX e início do XX, surgia a figura
do consumidor que, acompanhando o surgimento da cultura de massa,
respondia às necessidades de consumo geradas pela sociedade massificada.
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Os avanços tecnológicos permitiram que produtos quaisquer, antes
artesanais, fossem fabricados em série, criando uma escala produtiva
nunca vista anteriormente. Ao mesmo tempo, a sociedade se estratificou
acompanhando o cenário de produção e consumo massificados.
Comprar bens duráveis ou efêmeros e adquirir serviços tornavase uma regra geral para “sociedade de consumo”. Enchiam-se as galerias;
depois, cinemas e lojas de departamento; mais tarde, parques de diversão,
bienais de arte, shopping centers... Da rua, o consumidor vai para dentro de
casa, a zappear ofertas entre mil canais de televisão, um milhão de clicks
na internet. A aldeia se globaliza mais velozmente do que sonhávamos
hoje depois do almoço.
FIGURA 94 - Tirinha do personagen Mafalda, criada pelo cartunista argentino Quino.
FONTE: <http://4.bp.blogspot.com/-1gYgUrW8mV0/T-3LsP0HNgI/AAAAAAAACYg/CvUQNBe9-h8/s1600/mafalda-ainfluencia-tv.jpg>.
Aproveitando-se dessa euforia, a comunicação de massa direcionase ao público através de mensagens que vão influir na concepção de
felicidade e prazer dos indivíduos, com o claro objetivo de fazê-los
consumir. Surge o processo de formação do gosto, compramos aquilo do
que gostamos e, para gostar, precisamos conhecer. Não à toa, nas ruas,
vitrines, telas de computadores, celulares e tablets pululam os modelitos
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
que vemos vestidos nas protagonistas de filmes, minisséries, telenovelas,
geralmente ricas, afinal, “quem anda na moda, não se incomoda”, já dizia o
dito popular. Tampouco é por nada que as prateleiras dos supermercados
e os catálogos dos sites de compras estejam cheios daquele produto
anunciado no horário comercial de alguma emissora à noite anterior.
Esses mecanismos são pesquisados pelo norueguês Jostein
Gripsrud que, em 1995, investiga simultaneamente a recepção da
minissérie Dinasty e os dispositivos usados por sua produção a fim de
aumentar a audiência ao máximo possível. Também, pelo sueco Peter
Dahlgren quando ao se voltar, em 1998, para os diálogos de televisão, e
pelo dinamarquês Kim Christian Schroder que, em 2000, apresenta sua
proposta de combinar seis critérios em pesquisa sobre pequenos grupos
de receptores, a fim de compreender melhor e de forma mais aprofundada
o pensamento acerca da recepção nos media:
A motivação designa o grau de apetite, de atração para
consumir um texto ou um programa. A compreensão mede a
concordância entre o sentido codificado e o sentido percebido.
A noção de indiscriminação introduz um parâmetro relativo à
familiaridade dos receptores com as gramáticas próprias a uma
mídia, os jogos de intertextualidade que ele pode mobilizar
(por exemplo, a compreensão de determinado esquete dos
Guignols supõe conhecer a publicidade que ele imita). O
posicionamento se interessa pelo grau de aquiescência do
receptor à mensagem tal qual ele a percebe e se completa
com uma noção de avaliação que busca captar as significações
desse posicionamento, pois a impaciência com uma novela
ou um programa pode surgir de razões contraditórias. Por
fim, a variável de realização busca explorar a existência de
efeitos e de influências de determinada recepção sobre os
comportamentos e as atitudes (MATTELART; NEVEU,
2004, p. 172-173).
Goste ou não goste, goste que se enrosque, o gosto nos classifica e
aquilo que escolhemos para comer, beber, vestir, ler ou assistir fala sobre
quem somos; é o gosto que condiciona as constantes tentativas das classes
populares no sentido de ficarem parecidas com as classes altas, fazendo
chapinha, pintando o cabelo de louro, por exemplo. Entram em jogo dois
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Estudos Culturais e Literários
fatores do modo de consumo: a questão do gosto e a busca pela distinção
social, de forma que a marca, o nome, o preço etc. se tornam elementos
que distinguem física ou simbolicamente o valor de determinados bens.
Nesse cenário, entra a estratégia ambígua da lei de consumo, pois
ao mesmo tempo em que cria a ilusão de facilitar o acesso aos bens de
consumo tangíveis ou simbólicos a todas as classes sociais, mantém a
distinção tanto palpável quanto simbólica desses mesmos bens, pois
as classes sociais de pouco poder aquisitivo dificilmente alcançarão o
consumo pleno. Um dos paradoxos com o qual os Estudos Culturais
então se defrontam é que sua excitação com a figura do consumidor
passa a relegar a um segundo plano a figura do cidadão. A radicalidade
não impedirá que muitos de seus pesquisadores despertem a cobiça de
administradores, empresários, publicitários ávidos por instrumentos de
domínio social “eficazes, eficientes e efetivos” no controle social e na
conquista de audiências, consumidores, mercados, públicos et caterva.
Unidade
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A doutrina da “absoluta soberania do consumidor”, típica da
ideologia liberal e, assim, do livre-comércio, se encaixa no perfil de um
telespectador que exerce sua autonomia à simples troca dum ínfimo botão
de seu controle remoto. Não é bem assim, e os programas oferecidos
repetem enlatados nos horários de maior audiência, as concessões para
funcionamento das emissoras, para venda de pacotes e outras demandas,
subordinam-se a interesses políticos os mais vis e mesquinhos; temos
exemplo claro disso no Brasil, em que canais religiosos e rurais ocupam
grande parte da programação dos canais fechados. É nos fechados, pagos,
que isso ocorre, nem vamos falar daquilo que rola nos abertos, públicos
e gratuitos.
Cidadão marginalizado, pacato cidadão ou um Homer Simpsons
das vidas vividas e televisivas, adormecido em sua poltrona, já não interpela
os agentes de produção, o estatuto de consumo, o esvaimento do Estadonação, cada vez mais integrado à sociedade pós-fordista e delirante com
as imagens Full HD. Alta definição máxima, pura adrenalina, o produtor
quer a todo segundo ser informado sobre o consumidor, mais um produto
de consumo a aprimorar plim-plim by plim plim. Dia após dia, que à noite
é show de bola e telenovela, tele tom ou tele tubbies. “Ligue já”, “ligue
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
já”, eu quero é tchu, eu quero tchá. A primeira faz tchan, a segunda faz
tchum e tchan tchan tchan...
Por ondas as mais sofisticadas, ocultam-se novos quilombos
de Zumbi, a miséria da filosofia, os filhos da favela, mas quem gosta
de miseráveis é intelectual; Victor Hugo, por exemplo. Em fevereiro,
tem carnaval, megaevento seguido de outros megaeventos mês a mês,
espicha verão, coelhinho da Páscoa, que trazes para mim? Presente para
mamãe, namorada, namorado, papai, criança feliz e então é Natal. O
ano termina e antes de nascer outra vez, os CDs e DVDs de meninosprodígio que cantavam, mas perderam a voz ao crescer; apresentadoras
de tevê mais infantis do que os próprios programas que apresentavam, e
após consumirem tudo o que é ilegal, imoral ou engorda, agora, vejam
só, cantam gospel. Nossas identidades tão pluralizadas em meio a pósmodernos, pós-estruturais e por aí vai, viraram migalhas, se fizeram pó.
Plunct, plact, zum...
Tudo isso demonstra como a maneira de consumir interfere na
formação de nossa identidade, que agora depende mais do que possuímos
ou somos capazes de possuir do que das heranças culturais:
As transformações constantes nas tecnologias de produção,
no desenho dos objetos, na comunicação mais extensiva
e intensiva entre as sociedades – e o que disto se gera na
ampliação de desejos e expectativas - tornam instáveis as
identidades fixadas em repertórios de bens exclusivos de uma
comunidade étnica ou nacional (CANCLINI, 1995, p. 14).
Estar feliz com o que se tem é a maneira hoje encontrada de
afirmar nossa identidade num mundo globalizado no qual nem mais os
bens de consumo nos diferenciam, pois os objetos já não pertencem
mais a territórios específicos: um Ford pode ser fabricado no Brasil com
peças de Taiwan; um filme dirigido por um brasileiro pode ser rodado
na África, com atores de todas as nacionalidades no elenco. A cultura
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Estudos Culturais e Literários
passa a ser “um processo de ensamblado multinacional, uma
articulação flexível de partes, uma montagem de traços que
qualquer cidadão de qualquer país, religião ou ideologia
pode ler e usar” (CANCLINI, 1995, p. 16).
No entanto, esse caminho - no qual as identidades
locais se apagam em favor de identidades globais - não
é um labirinto sem saída; sempre há, no mínimo, uma de
emergência. Podemos encontrá-la na resistência cultural
e nos direitos à diferença. Atentar ao mundo que nos
rodeia, analisar ações, gostos, entender os porquês e
Unidade
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como se dão os processos sociais, culturais, econômicos e
políticos, transforma-nos em cidadãos ativos, com voz e
vez. Atentos ao universo social, estiveram ou ainda estão
muitos estudiosos sobre a cultura. São diversos, para não
dizer infinitos, os temas que podemos analisar sob o molde
culturalista. Por isso, veremos a seguir como a análise da
cidade e da cultura visual de massa pode nos viabilizar o
entendimento das relações entre público e privado, do
feminino e do feminismo, da mídia e do consumidor.
5.2 Da lama ao caos: a cidade e a cultura visual
A cidade é, antes de tudo, a configuração da terra: da
lama ao caos, canta Chico Science (1999): “O sol nasce e
ilumina as pedras evoluídas/ que cresceram com a força de
pedreiros suicidas/Cavaleiros circulam vigiando as pessoas/
não importa se são ruins, nem importa se são boas/E a cidade
se apresenta centro das ambições/para mendigos ou ricos e
outras armações/Coletivos, automóveis, motos e metrôs/
trabalhadores, patrões, policiais, camelôs/ A cidade não
para, a cidade só cresce/ O de cima sobe e o debaixo desce”.
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Módulo 6 I
Volume 3
149
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Saiba mais!
Chico Science (1966-1997): músico e compositor
pernambucano, responsável pelo Manguebeat, iniciado
em 1991 na cidade do Recife, onde vários pontos da
cidade se tornam núcleos de pesquisa e produção de
ideias pop. O objetivo desse movimento é engendrar
um “circuito energético” capaz de conectar as boas
vibrações dos mangues com a rede mundial de
circulação de conceitos pop. Imagem-símbolo: uma
antena parabólica enfiada na lama.
Escute A cidade e assista o clipe disponível em:
<http://www.youtube.com/watch?v=UVab41Zn7Yc>
Para conhecer mais a obra de Chico Science assista:
FIGURA 95 - Chico Science
FONTE: <http://thumb.mais.uol.com.br/
photo/135100.jpg?ver=1>.
Movimento Maguebeat, disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=E-H_sDlXWWw>.
Mosaicos, disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=9p8FzYSNlf0>.
Chico Science, Especial MTV, disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=Tn0sdmA_1PQ>.
O beat de Chico Science, disponível em <http://vimeo.com/5700192>.
Chico Science, Cultura 40 anos, disponível em < http://www.youtube.com/watch?v=6UGhGgQu
9lI&feature=relmfu>
15 anos sem Chico Science, reportagem do Jornal da Tribuna – PE, disponível em <http://www.
youtube.com/watch?v=pJZyywRvBVg>.
“As origens da cidade são obscuras, enterrada ou irrecuperavelmente
apagada uma grande parte do seu passado, e são difíceis de pesar suas
perspectivas futuras” (MUNFORD, 1998, p. 09). Porém, ao conhecermos
sua história, podemos optar por uma “nova cidade”: buscando melhorar
a condição humana ou continuar nos modelos de lixo jogado às ruas,
de esgotos a céu aberto, onde não canta o sabiá, mas passam nuvens de
urubus.
A cidade, enquanto organização cultural, foi um elemento
presente a partir da sedentarização do homem neolítico, lugar onde
algumas estruturas e símbolos urbanos - como paredes e muros - já
existiam. Nesse período, os ajuntamentos humanos eram “primitivos” as chamadas aldeolas - nas quais, em espírito de comunidade e instinto de
equilíbrio, vivia-se em condições de igualdade, sem tirar da natureza nem
por nela nada mais do que o necessário. Ligação de algo parecido com o
respeito mútuo, esse que falta no dia-a-dia dos que não dizem bom dia e
passam com seus carros por cima de nossos pés, se por acaso deixarmos.
No nascimento da cidade, a mulher possuiu papel fundamental,
pois lhe deu forma - cuidando dos jardins, das casas, das crianças. Além
do mais, há uma relação delas com utensílios predominantes do neolítico:
para guardar e conter, assim como as funções femininas: de mãe e
amante, braços e pernas usados especialmente para conter e segurar;
150
Letras
EAD
Estudos Culturais e Literários
de reprodutora, órgãos internos como reentrâncias que contêm a vida.
O aumento da produção dos alimentos e a necessidade de armazenálos, também a água, mostraram-se determinantes para a supremacia dos
recipientes que permanecem úteis até hoje. A própria cidade nada mais é
do que um recipiente de recipientes.
Entretanto, a relação com o feminino seria esquecida a partir do
momento em que a preocupação com a segurança norteasse a vida humana
na terra. A cultura neolítica uniu forças com a paleolítica, a exercer uma
função de segurança para aldeias que exigiam um espírito ativo de caçador
e lutador. O intercâmbio entre as duas culturas se deu no decorrer um
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Módulo 6 I
Volume 3
Unidade
7
longo período, no fim do qual, os processos masculinos venceram, pela
força do dinamismo, as atividades mais passivas de alimentar a vida, que
levavam a marca da mulher (Cf. MUNFORD, 1998, p. 33).
Essa perda de importância das forças femininas ainda é sentida
nos dias atuais. Muitas mulheres estão submissas quer em casa a serviço
do marido e dos filhos, quer no trabalho onde sua condição feminina
resulta em árdua luta para a manutenção de seus direitos e em salários
mais baixos. As mulheres têm de obedecer a um rígido padrão de
costumes: formas de vestir, de comportamento e atitudes que, quando
rompidas, geram uma série de preconceitos; as transgressoras passam a
ser classificadas como deselegantes e vulgares, dentre outros rótulos a
mais não poder.
A estrutura social se desequilibrou, o movimento feminista custou
a chegar, só veio na cidade moderna, e não livre de preconceito, por parte
dos machistas homens, também das mulheres aflitas, cegas pelo mito de
Eva e por anos de dominação. E o que sabemos de Lilith? Retirada da
Bíblia, como apagada do imaginário coletivo, o que foi feito dessa mulher
forte e decidida? Além do mais, o movimento feminista é considerado
por muitos como coisa de mulher mal amada, mal resolvida ou ainda
homossexual; porque na regra geral, mulher mesmo é frágil e passiva, não
se envolve em movimentos, não contesta o sistema; deveria saber o lugar
dentro da sociedade que, por milênios, quiseram lhe dar.
Os direitos iguais, a custo adquiridos, implicam jornada de
trabalho dobrado, casa e filhos, mais o serviço fora do lar. O caos está
instaurado, segundo Fritjof Capra (1982), é através dele que chegamos
151
Literatura, Imaginário, História e Cultura
à ordem. Cabem às mulheres atitudes ativas e renovadoras, como
fazem maestras, mestras, doutoras, ministras, presidentas. Seria a
desvalorização do feminino, somada aos elos perdidos entre o homem
e a terra, a responsável pelo atual desequilíbrio em que vivemos? Teria a
cidade atual outra configuração, se terra e homem não tivessem deixado
de ser aliados? Pelo sim, pelo não, uma civilização mais “orgânica” não
faria mal a ninguém.
A cidade surgiu de uma nova relação da natureza com o homem
que, ao ter de se fixar, exerceria o domínio sobre a terra, organizando
o espaço e a produção coletiva. Em aldeolas e aldeias, havia o espírito
comunitário, interesses comuns a todos. A partir do momento em que os
interesses se individualizaram e a posse da terra se tornou fundamental, a
organização espacial e dos produtos se hierarquizou, as divisões deixaram
de ser equitativas para atender a interesses de pequenos grupos. Foi assim
com os egípcios, gregos e romanos, que se alimentavam da escravidão
declarada; com a sociedade feudal, onde os servos não eram escravos, mas
deviam total submissão a seus senhores; com o mundo renascentista, de
regras ditadas pelo poder monárquico e religioso.
É assim até hoje, desde quando os burgueses tomaram o poder e
aperfeiçoaram o sistema capitalista de vida. Já não somos mais escravos
declarados, temos chuveiro elétrico, televisão e outros pequenos prazeres.
Vivemos, contudo, numa escravidão velada, submetidos diariamente às
regras do consumismo e da ambição, que definem o aspecto dos espaços
íntimos e coletivos, das formas de comportamento. O individualismo e a
competição erguem inimigos a cada esquina, seja o estrangeiro que vem
de fora, seja o irmão que dentro não deve entrar: “Nós passa a ser um
ruidoso enxame de Eus” (MUMFORD, 1998, p. 22).
Esses tipos de relacionamento interpessoal, a cada dia, mais se
exibem nos meios de comunicação de massa, por exemplo, no programa
Big Brother, onde o coletivo só existe como forma de interesses individuais,
evidenciando o mórbido prazer que sentimos quando podemos eliminar
alguém. Se o outro não é visto como inimigo, passa despercebido, pouco
importando a sua existência. Assim sendo, subimos nos ônibus todos os
dias, quase sempre vemos as mesmas pessoas, não imaginamos nem nos
interessa saber quem são elas; o que fazem; no que pensam. Podemos até
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Letras
EAD
Estudos Culturais e Literários
reparar em suas roupas, seus cabelos, mas nada que prenda
a atenção por mais do que alguns segundos, um olhar tão
passageiro quanto nosso breve tempo naquele veículo.
Assim se configuram as relações humanas em
ambientes públicos, onde a vida de vários se entrelaça,
toma novos formatos; o nome ainda é o mesmo, mas o ser
público se perde. Cada um se isola na própria existência,
viaja sozinho nos ônibus ou na internet. Nas filas de espera,
ninguém se olha, o próximo é um adversário, um estorvo.
A relação de competitividade e de aparências se expande
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Módulo 6 I
Volume 3
Unidade
7
às relações sociais básicas, à comunicação interpessoal.
Daquele ser humano sobre o qual aprendemos ter o polegar
opositor e a capacidade de pensar, que o diferiam dos outros
animais, agora sabemos caracterizar-se por viver sozinho,
apesar de suas natas aptidões para conviver, bem e feliz, com
um exército de aparelhos eletrodomésticos, alguns deles,
completamente inúteis.
Paradoxalmente, vem a necessidade de colocar a
vida privada no meio público, fazer jus aos 15 minutos de
fama preconizados por Andy Warhol. Bate outra vez o
gigantesco prazer em ver pessoas enfrentando situações
“reais” ou “difíceis”, aquela velha morbidez com a qual nos
deleitamos frente ao sentido contemporâneo da palavra
tragédia. Na presença de mortos ou feridos, esse “show”
de realidade grassa pelos meios de comunicação de massa.
Exemplos não faltam: vídeo cassetadas do “Faustão”,
acidentes como simples palhaçadas; os programas Linha
Direta e Aqui e Agora, crimes na bandeja do café, sangue
muito-sangue no telejornal; as fazendolas fake e as casas de
artistas, monitoradas 24 horas por dia, quartos e banheiros
inclusive. Por detrás dos conceitos invertidos de público e
privado, os mesmo seres humanos de antes da inversão, mas
pasteurizados como o leite na caixa, desnatado.
153
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Para conhecer
Andrew Warhola, mais conhecido como Andy Warhol (19281987): Pintor norte-americano e figura central do movimento artístico
conhecido como Pop Art. É quem mais se atém à documentação objetiva
dos fetiches-símbolos da civilização de consumo (ARGAN, 1992, p.
688). Ficou famoso pelos seu trabalhos como ilustrador, desenhador
gráfico, pintor, cineasta, produtor musical, escritor e escultor, além
das suas relações com intelectuais, celebridades e aristocratas. É
reconhecido como um dos artista mais famosos do século XX.
Para saber mais assita os filmes:
Cocaine Cowboys. Direção de Uli Lommel, 1979, 87 min.
Doors (The Doors). Direção de Oliver Stone, 1991, 140 min.
Basquiat, traços de uma vida (Basquiat). Direção de Julian
Schnabel, 1996, 108 min.
FIGURA 96 - Andy Warhol
FONTE: <http://www.lpmblog.com.br/wp-content/
uploads/2011/11/andy.jpg>.
Eu disparei em Andy Warhol (I shot Andy Warhol). Direção de Mary Harron, 1996, 103 min.
Absolut Warhola. Direção de Stanislaw Mucha, 2001, 80 min.
Andy Warhol: a documentary film. Direção de Ric Burns, 2006, 240 min.
Também assista os vídeos on-line:
Andy Warhol, disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=_UGUYiU8BDQ>.
Andy Warhol acreditava no sonho americano, disponível em <http://tvuol.uol.com.br/assistir.
htm?video=andy-warhol-acreditava-no-sonho-americano-diz-curador-0402983762C8B98326>.
Tantas as referências, as modas, extravidadas antes mesmo de
podermos ser atuais, que se reatualizar torna-se imperativo. Fechados
em nós mesmos, parecemos estar mesmo de passagem, como a canção
de Branco Mello e Arnaldo Antunes na voz de Marisa Monte (1991):
“Eu não sou da sua rua/Eu não sou o seu vizinho/Eu moro muito longe,
sozinho./Estou aqui de passagem/Eu não sou da sua rua/Eu não falo a
sua língua/Minha vida é diferente da sua/ Estou aqui de passagem/ Esse
mundo não é meu/Esse mundo não é seu”.
A solidão, a perda da crença no coletivo, a falta de contato, o
isolamento pelo qual passamos é paradoxal quando confrontado com a
globalização que diz querer tudo único, igual, sob o emblema “o mundo
de mãos dadas”. Façam o que digo, não façam o que faço, diz o lema
popular; o que se faz não é o que realmente se quer. Nesse falatório,
simples mortais, nos perdemos numa imensa multidão, acreditando
cegamente no individualismo remasterizado de fragmentação, como se
não houvesse mais nada em que acreditar. Cadeados nos poros, trancamos
até a epiderme: sol dá câncer, buraco negro na camada de ozônio, um gás
que pode ser engarrafado e, como não, vendido.
A homogeneização cultural está mais do que em voga como neste
século XXI. Mais do que nunca, faz-se presente o mito da Megalópolis de
Lewis Mumford que, na década de 1960, já teoriza sobre as consequências
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EAD
Estudos Culturais e Literários
advindas de grandes metrópoles que ditam modas e costumes, inferiorizam
e descartam como provinciano tudo o que se diferencie dos hábitos dos
grandes centros, como nos relembra poeticamente Chico Science (199): “Ilusora de pessoas de outros lugares a cidade e sua fama vai além dos
mares/No meio da esperteza internacional a cidade até que não está tão
mal/E a situação sempre mais ou menos, sempre uns com mais e outros
com menos/A cidade não para, a cidade só cresce/O de cima sobe e o
debaixo desce”.
Esses hábitos intensificam-se pela ação dos mass-media, o
descendente do masscult, que significa cultura de massa de nível inferior;
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Módulo 6 I
Volume 3
Unidade
7
embora “lance mão de padrões e modos das vanguardas, na sua irrefletida
funcionalidade não levanta o problema de uma referência à cultura
superior, nem para si, nem para a massa dos consumidores” (ECO, 1998,
p. 81). Para Jaime Brihuega (1997), o mass-media é o correspondente da
cultura contemporânea: o que estrutura a comunicação visual de massas
produzida através dos meios icônicos de massa. Seu principal meio, ou
pelo menos o mais influente nos dias atuais, por seu fácil acesso, é a
televisão que homogeniza tudo como o leite aquele em tetra-pack. Nessa
espécie de embalagem para uso em larga escala, papelão, metal e plástico,
a fim de durar mais como Rayovac (a pilha do gato), o leite é encontrado,
reencontrado, consumido como a TV em qualquer lugar do globo, até
mesmo no mundo rural.
Consumimos todas as formas de enlatados, não importando quais
serão os resultados da absorção e digestão desse way of life. As culturas
locais estão sufocadas em prol de uma cultura tão universal como o reino
de Deus. Somos átomos na massa descartável em meio à qual, a arte se
relaciona intrinsecamente com a cidade (Cf. ARGAN, 1998; PEIXOTO,
1996) e isso ocorre desde os princípios da urbe. As “paisagens urbanas”
contemporâneas requerem uma arte que envolva o povo e dessa maneira
se torna/é Kitsch, porque vem para agradar - quer como consumo direto,
quer como publicidade, ou ambos - a maior quantidade de pessoas, sem
valorizar a qualidade. Brihuega (1997) e Mumford (1998) salientam essa
excessiva preocupação quantitativa e o esquecimento qualitativo que
rege a atualidade, um descendente direto do modo de pensar capitalista,
dinheiro e lucro acima de tudo.
155
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Nem sempre foi assim, porém. Até as Idades Médias, outros
valores eram levados em conta, como a individualidade do artesão e a
qualidade de seu trabalho. Quando as relações de trabalho começaram a
se desvalorizar, o que atinge seu ápice na era industrial, tais valores foram
trocados pela quantidade impessoal. As consequências dessa troca aí
estão nos produtos de baixa qualidade que consumimos, nas modas que
seguimos, nas porcarias que comemos com a marca do big e do max. Eis
o império do midcult, corrupção e corruptela da alta cultura, um bastardo
do masscult: “sujeito aos desejos do público como o masscult está, mas,
na aparência, convida o fruidor a uma experiência privilegiada e difícil”
(ECO, 1998, p. 83).
A submissão a esse império e a seus imperadores faz tabula rasa,
igual tudo como todas e todos, remetendo a cidade contemporânea a
“Trude”, uma das cidades invisíveis de Italo Calvino, que se diferenciava
das demais somente pela placa com seu nome no aeroporto: “Pode partir
quando quiser - disseram-me -, mas você chegará a uma outra Trude,
igual ponto por ponto; o mundo é recoberto por uma única Trude, que
não tem começo nem fim, só muda o nome no aeroporto” (1990, p. 118).
Tudo se iguala, em maior ou menor grau, uma esquina de São
Paulo reflete Chicago City. Nas duas e em outras mais, o Mac Donalds
ao lado de um outdoor da Coca-cola. A gente não quer só comida, a gente
quer comida, diversão e arte e a cultura que engolimos é praticamente
toda ela norte-americana; soap opera é altamente indicado para lavagem
cerebral. O que nos alimenta ao mesmo tempo nos consome, ciclo
vicioso, infindável, invencível, sem feed-back algum e tampouco retorno
ou troca. Nada de usar o termo estrangeiro até o fim de nossos sonhos
devorados. Nós, como a dura poesia concreta das esquinas, também nos
igualamos; o que parece ser ordeiro é caótico, e “a mente apavora o que
ainda não é mesmo velho, nada do que não era antes quando não somos
mutantes” (VELOSO, 1978). O caos é o “ponto de mutação”, o local de
encontro do qual precisamos para voltar a ser nada mais nada menos do
que a impura lama.
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Estudos Culturais e Literários
5.3 Das esferas públicas e dos domínios privados
Unidade
7
Os conceitos de “esfera pública” e de “esfera privada”
existem desde a Antiguidade, no entanto, à medida que as
estruturas e relações sociais se tornavam mais complexas,
os significados para ambos os termos foi sendo atualizado,
acompanhando as transformações da sociedade ao longo
do tempo. Será a Modernidade a responsável por separar
efetivamente o público do privado, ao estabelecer limites
claros do que correspondia ao Estado e à sociedade. Nesse
sentido, a família, o trabalho e os negócios se afirmariam no
âmbito privado. Por sua vez, a política e o Estado seriam do
âmbito público, que teria primazia sobre o privado e no qual
prevaleceria, ao menos teoricamente, o interesse coletivo.
Portanto, como espaço público, entende-se o
conjunto das instituições públicas, midiáticas, nas quais
uma sociedade se visibiliza, organiza o debate sobre
seus valores e seu funcionamento, sendo essa a esfera da
coletividade e do exercício do poder. Por outro lado, o
espaço privado é o domínio do particular, do individual. De
acordo com o sociólogo americano Craig Calhoun (citado
por BOURDIEU; COLEMAN, 1991), esses espaços se
complementam, contestando a percepção hiper-racionalista
de Habermas, provinda do ideário francês do Século das
Luzes.
O espaço público pode ser entendido como
forma de mercado identitário, de estrutura
de exibição e de ofertas em que, através dos
discursos políticos, o fluxo de informação, os
produtos culturais e mesmo as modas, circulam
modelos de realização, a valorização de
comportamentos, de séries de identidades (gay,
negro, rural, muçulmano). É a partir desses
padrões que tomam forma e operacionalidade,
numa constante mistura dos afetos e da
racionalidade, processos que se responsabilizam
por construir os coletivos, as combinações
frequentes de individualidades com alteridades
(MATTELART; NEVEU, 2004, p. 110).
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Módulo 6 I
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
A mistura da esfera privada na pública foi e segue sendo um
dos maiores problemas da América Latina. No Brasil, essa indistinção
responsabilizou-se pelo aspecto que o antropólogo brasileiro Sérgio
Buarque de Hollanda (1902-1982), em seu livro Raízes do Brasil,
identificou como “cordialidade”. Nesse sentido, o “homem cordial” não
pode ser confundido com a pessoa gentil, pois é aquele que, agindo com
o cor, palavra latina para coração, transforma o espaço público numa
extensão de sua vida privada, familiar, íntima; a repartição pública, em
extensão da sala de visitas da própria casa. É por meio desse mecanismo
que são feitos concursos de cartas marcadas, que ocupações de cargos
se fazem determinar pelo pistolão e pelo Q. I. (“Que indica”). Dessa
forma, o mérito e o profissionalismo deixam de ser reconhecidos para
benefício das apadrinhagens, seguindo o lema: “para os amigos, tudo;
para os inimigos, os rigores da lei”.
O famoso “jeitinho brasileiro” decorre da cordialidade, essa
tendência ao informal, a passar por cima das leis que assim não ganham
moral alguma para serem aplicadas e respeitadas, em nome do “amigo do
amigo do amigo”. Uma vez que, desde a colonização, as ordens vêm de
cima, sem discussão entre os membros da sociedade, a legislação e a ordem
adquirem certo artificialismo: existem, mas quando cumpridas, não se
aplicam a todos; quem pode mais, chora menos. O comércio, o tráfico
de influências, o “sabe com quem está falando” se beneficiam quando
as elites econômicas e políticas burlam as penas legais ou as punições
exemplares como prova de sua “extrema bondade e magnitude”. Tanta
fé dada e concedida exigiria depois reciprocidade: um favor, um voto,
uma campanha política e por aí vai, em gestos corruptos que até hoje nos
sangram as veias e nos envergonham.
No entanto, alguma incerteza quanto aos limites entre o público
e o privado, de outra parte, permite uma recente articulação entre
indivíduo e sociedade. Como já sabemos, o modelo de Habermas separa
o individual e o social, o privado e o público, oferecendo lugar de destaque
à opinião pública burguesa. Fiel ao espírito iluminista recondicionado
pelos ares modernos, o filósofo alemão devota uma crença inestimável
na racionalidade literária. Dos agrupamentos de cidadãos em academias,
cafés, centros, clubes etc. a partir do século XVIII, resultaria a formação
158
Letras
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Estudos Culturais e Literários
dos raciocínios, tanto político quanto literário, sendo esse alimentado
“pelas novas formas autobiográficas, o romance na primeira pessoa,
o gênero epistolar. A paixão pela relação entre pessoas, a descoberta
intersubjetiva de uma nova afetividade, unia-se assim ao hábito da
polêmica e da discussão política, prenunciando os espaços futuros de
representação (ARFUCH, 2010, p. 88).
Essa lógica, de acordo com a qual, as pessoas físicas, o privado,
influenciavam o domínio público, tendo em mira o bem comum,
seria alterada a partir da difusão dos meios de comunicação de massa,
responsáveis pelo descontrole da fiscalização racional do poder, exercida
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Unidade
7
na esfera pública burguesa, e de certo deslize aos domínios mais do que
privados, íntimos. A confusão dos papéis no que diz respeito ao privado
e ao público tem mesmo efeitos nefastos, principalmente na política,
como demonstramos ao tratar da cordialidade. Ao lado da midiatização
e da globalização do consumo, isso causa desconfortos de vários tipos.
Entretanto, na medida em que as pessoas excedem suas
individualidades para figurarem como expressão de condutas e modelos
coletivos, põem a mostrar uma forma de relacionamento entre o
individual e o social mais estrita do que se poderia pensar. Esse é o tema
privilegiado pelo pensador holandês Norbert Elias (1897-1990) para
quem, indivíduo e sociedade não se confrontam, mas vivem em relação
de interdependência. Em seu livro intitulado A sociedade dos indivíduos
(1994), o estudioso infere que os sujeitos constituem-se pelas redes de
interações que existem antes deles mesmos: “assim como numa conversa
ininterrupta as perguntas de um entranham as respostas do outro e viceversa [...] Assim a linguagem dos outros faz nascer também no sujeito
que cresce algo que lhe pertence inteiramente como próprio [...] que é
sua língua e que é ao mesmo tempo o produto de suas relações com os
outros” (p. 71-72).
Nesse trecho, não por acaso, bastante similar ao pensamento
de Mikhail Bakhtin, já que ambos compartilham de leituras e teorias
semelhantes em suas formações, notamos que, num processo histórico
no qual está constantemente a conhecer e reconhecer, a conhecer-se e a se
reconhecer, o ser humano em sua intimidade, particularidade, privacidade,
não parece mais configurar-se numa singularidade ímpar que o mundo
159
Literatura, Imaginário, História e Cultura
social virá ameaçar e surrupiar. Sua configuração dá-se em meio a uma
rede de laços e entrelaces, de entrecruzamentos e inter-relacionamentos
sociais; é desse núcleo complexo que o eu sempre vai surgir e aí mesmo
é que se inscreve, se escreve, por vias literárias, mediáticas e outras,
marcando suas posições de sujeito. Aprofundaremos esse tema em nossa
próxima e última aula, um espaço público, virtualizado, mas também
bastante real, repleto de gente como a gente.
6 ATIVIDADES
1. Resuma a trajetória dos Estudos Culturais, considerando: os
antecessores; os “pais fundadores”; as atividades do CCCS de
Birmingham; os distintos modos pelos quais são recebidos nos Estados
Unidos e na América Latina. Encaminhe seu trabalho ao tutor.
2. Como as reflexões de Beatriz Sarlo e Néstor García Canclini se
relacionam com esse caminho percorrido pelos Estudos Culturais?
Discuta suas respostas no chat.
3. O diretor brasileiro Marcelo Masagão inspira-se na obra historiográfica
Era dos extremos, do historiador britânico nascido no Egito Eric
Hobsbawn (1917-) para produzir seu filme Nós que aqui estamos por
vós esperamos (1999), disponível em: <http://www.youtube.com/
watch?v=maDnJcVbAoQ>. Em impressionante trabalho de montagem,
com imagens produzidas no século XX, acompanhadas da impactante
música de Wim Mertens, o cineasta mostra os contrastes dessa época.
Assista ao vídeo e, considerando o que você aprendeu no quarto e no
quinto subcapítulos desta unidade, comente-o na Plataforma Moodle.
4. Escute “Divino Maravilhoso” (VELOSO; GIL, 1969), interpretada
por Gal Costa, disponível em <http://www.youtube.com/
watch?v=emc1Oaop_z8>. Discuta no chat as relações possíveis entre
essa canção popular e o processo por meio do qual as identidades
se globalizam. Atente à letra; mesmo quando todas as luzes estejam
apagadas, é preciso atenção, muita...
160
Letras
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Estudos Culturais e Literários
Atenção ao dobrar uma esquina
Uma alegria, atenção menina
Você vem, quantos anos você tem?
Atenção, precisa ter olhos firmes
Pra este sol, para esta escuridão
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte
Atenção para a estrofe e pro refrão
Pro palavrão, para a palavra de ordem
7
Atenção para o samba exaltação
Unidade
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte
Atenção para as janelas no alto
Atenção ao pisar o asfalto, o mangue
Atenção para o sangue sobre o chão
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
(VELOSO; GIL, 1968).
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Módulo 6 I
Volume 3
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
5. Assista ao capítulo de uma telenovela do momento ou a um programa
de televisão, analisando-o criticamente. Poste sua crítica na Plataforma
Moodle.
6. Leia o artigo “Mafalda e a televisão: a comunicação de massa nos
quadrinhos de Quino” de Camila da Graça Sandoval, disponível em
<http://www.contemporanea.uerj.br/pdf/ed_12/contemporanea_
n12_13_camila.pdf> e realize uma análise crítica das tirinhas do
cartunista brasileiro André Dahmer. Disponibilizamos algumas delas,
mas você pode encontrar mais material na página web do autor: <http://
www.malvados.com.br>. Encaminhe seu trabalho ao tutor. FIGURA 97 - Tirinhas dos Malvados, André Dahmer.
FONTE: <http://www.malvados.com.br/tirinha1626.jpg / http://www.malvados.
com.br/tirinha1627.jpg / http://www.malvados.com.br/tirinha1622.jpg>.
7. Navegue pelo site colaborativo voltado à cultura brasileira Overmundo,
disponível em <http://www.overmundo.com.br/>. Qual a sua opinião
sobre a proposta desse projeto? Você tem vontade de colaborar? Converse
sobre isso no chat.
162
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Estudos Culturais e Literários
8. O site Obvious (http://obviousmag.org/) tem publicações muito
interessantes sobre diversos temas culturais. Leia alguns posts. Escolha
um tema e escreva sobre o que você gosta, procure imagens para ilustrar
o seu post. Publique no fórum da Plataforma Moodle. Leia os posts dos
colegas. Discutam sobre os posts no fórum.
7 RESUMINDO
Nesta aula, enfocamos os Estudos Culturais a partir de pesquisas
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Módulo 6 I
Volume 3
Unidade
7
antecedentes, voltadas à crítica, sobretudo literária, à cultura, à política
e à sociedade; dos assim denominados “pais fundadores” e do Centro
de Estudos Culturais Contemporâneos de Birmingham. Durante a
expansão do sistema universitário britânico, no período de 1964 a 1980,
os culturalistas levam a cabo uma efervescência produtiva, seus textos
são traduzidos e suas reflexões, discutidas, quando não adotadas, nos
departamentos universitários ou fora deles, dentro do Reino Unido e
fora dele.
Os Cultural Studies vêm ao encontro dos problemas de definição,
síntese e métodos, enfrentados pela historiografia e a teoria literárias.
Preenche-se o sentimento de vazio causado pelo fracasso dos britânicos
em não terem desenvolvido uma corrente marxista ou uma crítica
sociológica dotadas de identidade própria. Alargam-se os objetos de
pesquisa da história e da literatura, contemplando até mesmo suas interrelações auto-questionadas.
Alianças entre a prática e o processo reflexivo levam a análises da
cultura de massa, da cultura popular e da indústria cultural, das relações
entre o espaço público e a esfera privada, o que toma o nome de estudos
sobre cultura na América Latina. No entanto, a banalização dessa
perspectiva nos Estados Unidos vai degenerar em multiculturalismo.
No Brasil, importamos Estudos Culturais, estudos sobre cultura e
multiculturalismo.
Isso tudo no plano de um teoricismo chic, a preencher vazios
deixados pelo fim do estruturalismo e suas análises bem casadinhas. Na
prática, um processo semelhante ao que aconteceu na Inglaterra entre as
163
Literatura, Imaginário, História e Cultura
décadas de 1960 e 1980 apenas agora começa a se pronunciar em nosso
país, com a expansão do sistema universitário e das escolas técnicas,
a disseminação do ensino à distância etc. Resta ver se continuaremos
a injetar a ideologia da classe média canônica e elitista nas mentes de
jovens e adultos oriundos das classes populares. Antes consistir um vão
desafio, mantê-los nas instituições e interessados pelos estudos é um
compromisso social.
8 REFERÊNCIAS
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Unidade
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1CD, digital, estéreo. Acompanha livreto.
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Módulo 6 I
Volume 3
165
Literatura, Imaginário, História e Cultura
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Módulo 6 I
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167
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Suas anotações
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168
Letras
EAD
8ª
unidade
ESPAÇO BIOGRÁFICO:
CONSUMO, HISTÓRIA,
CULTURA
OBJETIVOS
Ao final da presente aula, você será capaz de:
• definir o espaço biográfico e compreender as diferenças entre dois de seus
gêneros: autobiografia e biografia;
• entender os conceitos de pacto autobiográfico, autobiografia,
autobiografismo, biografia e biografismo;
• interpretar os gêneros do espaço biográfico a partir do enfoque dos Estudos
Culturais, tendo em mente a importância da recuperação da história para
essa perspectiva;
• analisar textos que correspondem a esses gêneros e suas formas híbridas,
como o romance biográfico, além de comportarem o autobiografismo;
• compreender a diferença entre os conceitos de emissão e recepção e a sua
importância na análise literária.
Literatura, Imaginário, História e Cultura
170
Letras
EAD
Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
Leitura recomendada
ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico: mapa do território. In: ARFUCH,
Leonor. O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea.
(Trad. Paloma Vidal). Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010. p. 39-73.
CHIARA, Ana Cristina de Rezende. O espaço biográfico de Leonor Arfuch:
uma nova leitura dos modos como vidas se contam. Matraga, Rio de
Janeiro, v.14, n. 21, jul./dez. 2007, pp. 165-169. Disponível em: < http://
www.pgletras.uerj.br/matraga/matraga21/arqs/matraga21r01.pdf>.
1 INTRODUÇÃO
Unidade
8
Agora que já sabemos como funcionam os Estudos
Culturais e os estudos sobre cultura, analisaremos
alguns textos por meio dessas perspectivas. Para tanto,
compreenderemos o “espaço biográfico”, percebendo
semelhanças e diferenças entre dois de seus principais
gêneros: autobiografia e biografia, que não se confundem
com autobiografismo e biografismo.
O primeiro texto analisado é o “Sermão pelo bom
sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda” (1640)
do padre Antônio Vieira, obra histórica e literária, mas
que também se marca pelo autobiografismo. Outra fonte
de análise é o romance biográfico Major Calabar (1960),
texto híbrido de João Felício dos Santos, no qual o autor
transita tanto pelos espaços biográfico e histórico ao trazer
igualmente à tona o período em que o Brasil foi invadido
pela Holanda, um mesmo fato histórico lido e contado de
maneiras bem diferentes.
Finalmente, a análise volta-se para a obra literária de
Mario Vargas Llosa, O paraíso na outra esquina (2003), que
se enquadra no mesmo subgênero do romance biográfico.
No texto de Llosa, encontramos importantes marcas
dos estudos sobre cultura: combinação entre pesquisa e
engajamento, interdisciplinaridade, preocupação histórica,
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Módulo 6 I
Volume 3
171
Literatura, Imaginário, História e Cultura
renovação dos objetos e problemas da cultura. O paraíso é aqui mesmo?
Não, é logo ali na outra esquina...
2 GÊNEROS DO ESPAÇO BIOGRÁFICO, BIOGRAFIA E
BIOGRAFISMO
O “espaço biográfico”, definido da seguinte maneira por Leonor
Arfuch (2010) “- confluência de múltiplas formas, gêneros e horizontes
de expectativa – supõe um interessante campo de indagação; permite
a consideração das especificidades respectivas sem perder de vista sua
dimensão relacional, sua interatividade temática e pragmática, seus usos
nas diferentes esferas da comunicação e da ação”. Apesar de encontrarem
variados desdobramentos na contemporaneidade, múltiplos gêneros e
espécies (auto)biográficas comungam da característica de veicularem
“narrativas do eu”, quer dizer, de contarem, embora de diferentes
maneiras, uma história ou experiência de vida.
O espaço biográfico foi tomando formato próximo a sua
configuração atual a partir do estabelecimento da autobiografia, da
biografia, das confissões e gêneros semelhantes, como o diário íntimo,
a partir do final do século XVII. Ponto importante nesse percurso foi a
ideia de uma personalidade em desenvolvimento, conforme figura nas
Confissões (1770) de Jean-Jacques Rousseau. As noções de indivíduo
e vida privada contribuiriam ao sucesso dos gêneros autobiográficos e
biográficos, o qual apenas iria enfrentar breve declínio entre o final do
século XIX e princípios do século XX, quando a historiografia passasse
a se preocupar cada vez mais com o documento e a objetividade, para
retomar força no período compreendido entre as duas guerras mundiais.
Cabe lembrar que um gênero somente se define quando apresenta
relativa estabilidade e se faz reconhecer enquanto tal por uma comunidade
de receptores. Assim, enquanto gênero discursivo instituído, a biografia
se assenta na narrativa para “mostrar” eventos relativos a uma determinada
pessoa, que viveu fatos e acontecimentos, dentro de uma conjuntura
histórica. Valendo-se tanto de fontes documentais e testemunhos
quanto da interpretação e da narrativa, o gênero biográfico oscila ente
172
Letras
EAD
Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
os dois polos anunciados por François Dosse (2009), pois os recursos
da pesquisa, da procura em arquivos e fontes verídicas, assim como a
narração, realizadas por um biógrafo, se entrecruzam com o as tessituras
do discurso da ciência histórica e também do discurso ficcional, levado a
cabo por um romancista.
Dosse (2009, p. 55) ressalta que a biografia, assim como a
narrativa de ficção, se situa em dois níveis: a) na tensão constante entre
a vontade de reproduzir, segundo as regras da mimese, o passado real
vivido, b) no polo imaginário do biógrafo que deve recriar, segundo
sua intuição e suas competências criativas, um universo perdido.
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Unidade
8
Situado entre a representação histórica e as vidas imaginárias, o gênero
biográfico se caracteriza por nascer de uma indefinição epistemológica,
misturando erudição, criatividade literária e intuição psicológica; na
contemporaneidade, mais do que nunca, revela-se como um gênero de
fronteira, situado entre a história e a ficção, a realidade e a imaginação,
denotando que o real e o verossímil separam-se por uma linha muito
tênue (Cf. AGUIAR; MEIHY, 1997).
O tema a ser tratado pelas biografias – vida individual, história de
uma personalidade – requer que a personagem representada no interior
do texto e seu referente extratextual sejam vistos a partir da categoria da
semelhança. O inter-relacionamento protagonista-modelo se articula por
meio das informações dadas pelo narrador, devendo visar a um elevado
grau de exatidão. Se os historiadores narram, assim como também
fazem os romancistas, o que se narra na biografia? Para respondermos
à pergunta, necessitamos entender o gênero em seu trânsito entre o
romance, o relato histórico e o testemunho, em meio ao qual, o ajuste
a uma cronologia, a invenção de um tempo narrativo e a interpretação
minuciosa de documentos aliam-se à figuração de espaços reservados,
somente atingida pela pessoa que viveu os fatos e, como esses, precisa
ser narrada.
É preciso estabelecer que uma narrativa biográfica se identifica
pela narração retrospectiva, em terceira pessoa e sob uma perspectiva
ampla. Assim, o tempo narrado pode retroagir a muitos anos, abarcando
a infância, as primeiras experiências, a educação, a juventude, dentre
outros momentos afastados temporalmente, na vida do sujeito
173
Literatura, Imaginário, História e Cultura
biografado. O gênero biográfico difere de outros gêneros que compõem
o espaço biográfico, como a autobiografia, o diário íntimo, as memórias e
o romance autobiográfico, porque o narrador não fala dele próprio, mas
de um outro, deixando suas impressões no sujeito do enunciado.
Em uma narrativa biográfica, deve ser respeitada a temporalidade
do discurso. A vida do biografado deve ser colocada de maneira gradual
em diferentes etapas. Isso exigirá que o autor selecione momentos a
serem citados e despreze outros, irrelevantes à história do sujeito que,
no texto escrito, passa a ser uma personagem. O narrador dá, para esse
protagonista, o nome verdadeiro da personalidade histórica ou apelidos
e outras formas pelas quais a pessoa real era conhecida. Como não há
identidade entre narrador e personagem, o biografado fala por seus atos,
que vêm a lume através de depoimentos, documentos, entre demais
recursos de escrita e pesquisa. O biógrafo normalmente destaca aspectos
culturais, morais, sociais, políticos etc.
Na definição do conceito de biografia, ainda se faz necessário
mostrar que, entre seus vários tipos, existem duas modalidades
fundamentais: analítica, que se desenvolve sob forma ensaística,
interpretativa, na qual, a rigor, não há um elenco de fatos centrados no
desenvolvimento de uma existência ao longo do tempo; b) narrativa, na
qual os fatos marcantes e inclusive desvios a determinada normalidade
dizem respeito à história de uma vida revelada por atos narrativos
sobretudo, embora possa haver amparo em cartas, fotografias etc.
Para levar a cabo a realização de uma biografia que seja, no mínimo,
satisfatória, o autor necessita de abundante material sobre a vida do ser
histórico a ser biografado. Dessa maneira, é possível “conjeturar se uma
grande biografia depende de haver muitas outras antes, assim como
depende da acumulação de um acervo especializado, afora uma tradição
de pesquisa de arquivo, da preservação de originais, de rascunhos, de
apontamentos, que a nova disciplina da genética mais tarde privilegiaria”
(GALVÃO, 2005, p.118).
Precisamos entender também que biografia não é sinônimo de
“biografismo”, o qual consiste na contaminação do discurso artístico,
filosófico, literário etc. por traços genéricos do gênero biográfico
em outro discurso. Espécies discursivas biografistas não podem ser
174
Letras
EAD
Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
confundidas com formas híbridas, nas quais dois ou mais discursos ficam
marcados em suas especiais peculiaridades, como o “romance biográfico”,
caracterizado pela importância dada ao tempo, que se refere, de alguma
ou de outra forma, ao mundo real.
Nesse subgênero romanesco, a vida biográfica deve ser colocada
dentro de uma época determinada, geralmente, abrangendo longos
períodos. Não se valoriza tanto o que é imediato, nem os breves instantes:
O surgimento do tempo biográfico é uma peculiaridade
essencial do romance biográfico. Diferentemente do tempo
aventuresco e lendário, o tempo biográfico é plenamente
real, todos os momentos estão vinculados ao conjunto do
processo vital, caracterizam esse processo como limitado,
singular e irreversível. Cada acontecimento está localizado
na totalidade desse processo vital e por isso deixa de ser
aventura. Os instantes, o dia, a noite, a contiguidade imediata
de breves instantes quase perdem inteiramente o seu
significado no romance biográfico, que opera com longos
períodos, com partes restritas da totalidade vital (idades,
etc.). Evidentemente, no fundo desse tempo fundamental
do romance biográfico constrói-se a representação de
acontecimentos particulares e aventuras em plano grande,
mas os instantes, as horas e os dias desse grande plano são
de natureza não aventuresca mas subordinados ao tempo
biográfico, estão imersos nele e nele são completados pela
realidade (BAKHTIN, 2003, p. 214).
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Um romance biográfico não se equipara a uma biografia, nem é
avaliado pelos mesmos critérios aplicados a esse gênero, no qual deve
haver grande semelhança entre a personagem da narrativa e a pessoa
biografada, quer dizer, o sujeito histórico, pertencente a um espaço real
e tempo reais. Devedores a Philippe Lejeune (2008), propomos então
a ideia de “pacto biográfico”, que em nível de uma conexão entre o
narrador, autor, personagem e modelos extratextual, singularmente ao
desenvolvimento do pacto autobiográfico: a) o emprego de títulos e/
ou subtítulos (Biografia; O caso, História de; Vida de etc.); b) a seção
inicial do texto, na qual o narrador se compromete a escrever sobre um
sujeito que já não mais é o empírico, mas também não é ficcional; c) o
nome dado à personagem na narração, devendo coincidir com o nome
175
Literatura, Imaginário, História e Cultura
do modelo, o que leva, necessariamente, ou ao nome, ou aos indicadores
pelos quais era conhecido o ser real, em sua existência pública ou privada.
3 PACTO AUTOBIOGRÁFICO, AUTOBIOGRAFIA, AUTOBIOGRAFISMO
Segundo Philippe Lejeune (2008), em texto publicado no ano de
1975, que integra uma coletânea recentemente traduzida ao português,
o pacto autobiográfico é estabelecido com o leitor, possibilitando
identificar uma relação de semelhança entre o autor, o narrador e a
personagem das narrativas autobiográficas, primeiramente, através dos
títulos e/ou subtítulos que as identificam. Além disso, já no início do
texto, o narrador, que se identifica com o autor, afirma escrever sobre o
sujeito que não é empírico nem ficcional.
Esse autor-narrador relata a própria existência, sua história de
vida, realçando aspectos de ordem privada, ao contrário do gênero das
memórias, o qual destaca elementos da esfera pública, compondo uma
espécie de mural artístico, econômico, político, social, da época narrada.
A identidade autor-narrador-personagem é o ponto de partida de todas as
escritas autobiográficas, nem tão somente, do gênero autobiográfico. De
tal modo, assim como a biografia, a autobiografia consiste num gênero
que faz parte do espaço biográfico, sendo uma narrativa retrospectiva em
prosa que uma pessoa real elabora acerca da própria existência, na qual
enfatiza sua vida individual, em particular, a história da sua personalidade
(Cf. LEJEUNE, 2008).
Num texto autobiográfico, torna-se fundamental a estruturação
do tempo, a articulação da perspectiva narrativa e a expressão da
subjetividade. O narrador interfere subjetivamente na configuração,
selecionando eventos e os interpretando de maneira conveniente. O
conhecimento dos fatos passados pode contribuir à construção de uma
imagem favorável, pois o autor se vale da focalização onisciente sob a
própria vida. Ao conhecer o desfecho da história, terá todas as chances
de reforçá-la ou de alterá-la.
Uma autobiografia então deve ter sentido e coerência, não se limitando
176
Letras
EAD
Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
a ser apenas uma simples narração de lembranças. Para haver o pacto
autobiográfico, é necessário haver reciprocidade. As duas partes se
comprometem mutuamente: o autor declara e tenta estabelecer sua
identidade com o narrador e a personagem ao longo da narrativa, ao
passo que o leitor deverá firmar com ele um “contrato de leitura”, a
fim de orientar sua reação, concordando com as informações lidas ou
as contestando.
Logo no começo de seus artigos, e em itálico, Lejeune (2008) dispõe
sua definição de autobiografia, que pode ser encontrada em qualquer
dicionário. Acreditando que pode melhorar a compreensão do gênero
autobiográfico, e bastante crítico até consigo mesmo, o teórico revê
seu pensamento em alguns pontos:
Unidade
8
Em um texto posterior (‘O pacto autobiográfico (bis)’,
Moi aussi, de 1986), retifiquei algumas asserções do ‘Pacto’
que continuavam sendo normativas demais – mas, em
alguns pontos, hoje, tenho quase vontade de retificar essas
retificações: não tenho mais certeza de que estava tão
enganado assim! Por exemplo, explico friamente, em ‘Le
pacte autobiographique’, que a identidade é uma questão
de tudo ou nada: uma identidade existe ou não existe. Em
‘O pacto autobiográfico (bis), amenizo as coisas, mostro
as ambiguidades e transições que podem existir... Mas, será
que a emissão e a recepção funcionam da mesma maneira?
Quem recebe uma mensagem ambígua não pode ficar em
cima do muro! Quase todas as autoficções são lidas como
autobiografias. Quando eu disse ‘uma identidade existe ou
não existe’, estava adotando, muito sabiamente, o ponto de
vista do leitor... Essa é, aliás, a posição que assumo no início
de ‘Le pacte autobiographique’: todas as análises são feitas a
partir da recepção (LEJEUNE, 2008, p. 81).
Textos e textualidades (auto)biográficos, assim como suas
hibridizações em outros discursos, ocupam um espaço grandemente
destinado à veiculação do superficial e do popularesco (crônicas sociais,
programas de auditório, tabloides sensacionalistas etc.) que, alienando,
legitimam o poder das elites. Agindo dentro da indústria cultural, para
contestá-la, o discurso (auto)biográfico, ele mesmo ou diluído em
(auto)biografismo e formas híbridas, pode diminuir a fronteira entre as
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Módulo 6 I
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177
Literatura, Imaginário, História e Cultura
culturas de elite e popular, num panorama em que a ideologia das classes
dominantes restringe a ação da cultura popular, confundindo-a com o
popularesco.
Muitos exemplares (auto)biográficos e híbridos, por exemplo,
da biografia com o gênero romanesco, reagem com padrão estético à
acusação de arte “culinária” que algumas vezes lhes é imposta. O fato de
se tornarem populares, de serem consumidos, adaptados, reendereçados,
relidos, bem recebidos pelo público, pode não lhes retirar a qualidade. A
existência de trabalhos menores abarcados pelo espaço biográfico não o
desclassifica como tal, pois isso equivaleria a dizer que o romance seria
um gênero menor porque entre seus pares há best-sellers, como os de
Sidney Sheldon, cujas banalidade e precariedade literária contribuem
para emprestar ao termo o sentido pejorativo do qual se reveste.
Considerando essas instâncias de recepção, mais especificamente,
a posição do leitor, e tendo em vista o melhor entendimento do gênero
autobiográfico, Andréa Battistini (2007) alerta para não confundirmos
o gênero em si da autobiografia com o “autobiografismo”, ou seja, com
as marcas genéricas do discurso autobiográfico utilizadas em outros
discursos. É isso exatamente o que vamos encontrar no “Sermão pelo
bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda”. Ao produzilo, padre Antônio Vieira participava da história colonial do Brasil,
recorrendo à ajuda divina para resolver a questão da presença holandesa
em nosso território, como já veremos.
4 AUTOBIOGRAFISMO
EM
UM
SERMÃO
DO
PADRE
ANTÔNIO VIEIRA
Pertencendo tanto à literatura brasileira quanto à portuguesa, o
padre Antônio Vieira caracteriza-se como o sermonista mais expressivo
do Barroco e o primeiro intelecto literário internacional de nossas letras.
Suas obras seguiam os moldes e os processos tradicionais da predicação,
segundo feita pelos padres no período medieval. Houve muitos oradores
sacros na civilização portuguesa, mas Vieira usou pela primeira vez a
tribuna católica para defender ideologias, mostrando suas preocupações,
178
Letras
EAD
Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
Para conhecer
Antônio Vieira (1608-1697): nasceu a 06 de fevereiro de 1608,
em Lisboa, sendo filho de Cristóvão Ravasco e Maria de Azevedo.
Com seis anos, foi morar na Bahia, em 1614, onde seu pai
exerceu a função de secretário da Governação. Estudou no Brasil,
entrando para a Companhia de Jesus em 1623. Ordenado padre,
pregou sermões em igrejas brasileiras, italianas e portuguesas.
Preso em Coimbra, no ano de 1665, teve a palavra cassada e foi
submetido a pena de reclusão pelo braço inquisicional português,
mas seria liberto três anos mais tarde. Depois de estudar filosofia,
passou a lecionar nos colégios da Companhia de Jesus em Olinda
e Salvador: “Apesar do extremado zelo que devotava à sua
Província Brasil, ninguém foi mais português do que o destemido
jesuíta, a quem os nossos indígenas expressivamente tratavam
por ‘Paiaçu’ (Padre Grande)” (GOMES, 1968, p. 6). Em 1669,
Vieira partiu a Roma onde conseguiu que o papa suspendesse
FIGURA 98 - Padre Vieira, autor
desconhecido.
FONTE: <http://www.
anovieirino.com/wp-content/
uploads/2011/07/avieir.jpg>.
o Tribunal do Santo Oficio, o qual retornaria posteriormente,
mas enfraquecido. O padre aliou-se ao poder econômico da burguesia mercantil, constituída pelos
cristãos-novos e, por defender Dom João IV, seu grande amigo, acabou contrariando a Companhia
de Jesus. Para não sair dessa ordem, partiu como missionário ao Maranhão. Nas correspondências
maranhenses, tentava acabar com as oposições aos jesuítas, combater a matança de índios e o
escravismo dos colonos portugueses, sendo por tal motivo expulso da província em 1661. Autor de
aproximadamente 200 sermões e mais de meio milhar de cartas, muitas editadas postumamente,
seu pensamento aparece mais nessas do que nos primeiros. Voltando a Salvador na década de
1680, Vieira aí faleceria com quase 90 anos, em 1697.
Para saber mais assista:
O filme Palavra e utopia, dirigido por Manoel de Oliveira (2000, 133 min).
A reportagem Padre Antonio Vieira – De lá para cá, disponível em <http://www.youtube.com/
watch?v=t_zkEx0cLYc> (parte I); <http://www.youtube.com/watch?v=PJULu921M2E&feature=rel
mfu> (parte II) e < http://www.youtube.com/watch?v=BhL9kzRAiLQ&feature=relmfu> (parte III).
8
defendendo a missão apostólica. Barroco por identidade e formação,
sempre polêmico, envolveu-se na história de Portugal, como metrópole
colonizadora e nação católica:
Unidade
Em todas as invectivas retóricas marcadas sempre pelo
traço inconfundível da eloquência barroca, da agressividade
e do ataque sistemáticos a tudo o que lembrasse Reforma
e Renascença, Vieira pautou uma linguagem erudita, alta,
notoriamente persuasiva, como instrumento para ‘ganhar’ o
interlocutor, fosse este leitor ou ouvinte. Nos sermões ou
nas cartas, essa faceta de polemista em Vieira está manifesta
(ARAÚJO, 1996).
Padre Vieira desempenhava-se melhor nos sermões em que
combatia, acusava, investia, denunciava os inimigos da fé católica
ou os opressores do homem em seu tempo. Sua técnica de criação,
UESC
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
[...] parece-nos dosada em instinto e reflexão temperada
em ritmo simples e recorrente alternância de frases curtas
e longas, paralelismos, sinuosidade, antíteses. Vieira,
assim, seria fiel representante da ordem a que servia, pois
se municiava continuamente de uma tática peculiar ao
jesuitismo. Socorria-se com relevância da memória, da
declamação do paradoxo, emitindo símbolos, analogias,
dúvidas e conflitos ao auditório (ARAÚJO, 1996).
Fiel ao estilo barroco, o sermonista utilizava o mito e a
metáfora em seus escritos, filiando-se, assim, “à convenção barroca do
conceitismo, o conteúdo primando sobre a forma, especialmente a forma
cultista, ornamental, de linguagem artificiosa, abominada pelo pregador”
(ARAÚJO, 1996). No século XVII peninsular, representava três figuras:
“a do orador sacro, a do profeta do rei e a do missionário no Novo
Mundo” (MENDES, 1996). Partindo sempre da realidade para aquilo
que estava nas profecias bíblicas, valeu-se da história e da geografia em
suas missões, valorizando o trabalho dos pregadores missionários, do
qual fazia parte, no sentido de levar a catequese aos povos indígenas.
O jesuíta considerava o Brasil como segunda pátria, destacandose como o primeiro a se posicionar contra a escravidão indígena.
Contraditoriamente, entretanto, defendeu a mão de obra africana,
posicionamento que mostra nos sermões que, trabalhados de maneira
tradicional para convencer as pessoas da época, até hoje são modelares,
por sua propriedade vocabular, pela clareza, economia de adjetivos,
constante elegância, certa força de sedução e simplicidade no perfil,
assim como pelo o ritmo nervoso e contido. Todas essas características
se mostram em sua prosa inconfundível.
Ao utilizar textos bíblicos para realçar seu estilo, geralmente, o
padre usava palavras em latim e, em seguida, as traduzia. Em sua trajetória
religiosa e política, valeu-se de tal recurso até mesmo para recriminar o
Deus do Velho Testamento, por abandonar seu povo à sanha dos inimigos,
como no “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da
Holanda” (VIEIRA, 1969). Nessa brilhante peça de oratória, “o estilo de
Vieira é arrebatado, passional, ousado, quase profano” (ARAÚJO, 1996).
Seu discurso “voltado ao eu e à pátria” temia a vitória dos holandeses,
a seu ver, prejudicial não só à colônia, mas também à igreja católica e,
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Letras
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
consequentemente, a seu trabalho como jesuíta.
A mesma projeção autobiográfica – do ser histórico Vieira no
referido sermão – pode ser observada em outros escritores do século
XVII, como Ambrósio Fernandes Brandão, Francisco Manuel de Melo
e vários autores do Século de Ouro espanhol, a exemplo dos ficcionistas
Francisco de Quevedo e Miguel de Cervantes. Por já misturarem o (auto)
biográfico, o ficcional e o histórico, seus textos adentram ao espaço
biográfico.
O “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as
da Holanda”, pregado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na cidade
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Unidade
8
da Bahia, no ano de 1640, como outros sermões de Vieira, tem caráter
persuasivo, segue a doutrina da fé católica e seu gênero já pode ser
identificado no título, a princípio, afastando a hipótese de constituir outra
espécie de texto, por exemplo, uma autobiografia. A peça oratória parece
dirigida contra Deus quando, na verdade, o pregador queria reanimar os
baianos/brasileiros ao combate por seu território ameaçado pela invasão
holandesa ao Brasil, que se desenrolou entre as décadas de 1620 e 1650.
Nesse período, a Companhia das Índias Ocidentais obteve do
governo holandês o monopólio do comércio com a América e a África.
As boas negociações comerciais mantidas entre Portugal e Holanda, nos
tempos que antecederam a chamada União Ibérica, terminaram quando
a Espanha capturou navios holandeses no comércio marítimo. A nação
espanhola, que vinha guerreando com os Países Baixos desde 1568,
passava a dominar o reino português e suas relações político-econômicas.
Os holandeses tomaram em 1624 a cidade da Bahia, imediatamente
abandonada por seus moradores. Quando os soldados inimigos aí
chegaram, só puderam encontrar o governador-geral Diogo de Mendonça
Furtado “disposto a morrer de espada em punho” (BUENO, 2003, p.
90), que acabaria sendo preso e enviado aos Países Baixos, juntamente
com 3.900 caixas de açúcar e muito pau-brasil.
A ocupação deu prejuízo à Holanda, que lucrava com nosso açúcar,
por isso, durou apenas um ano. A 22 de março de 1625, os espanhóis
enviaram 52 navios com doze mil homens prontos para o combate. Com
esse reforço, os holandeses foram expulsos, mas logo retornariam mais
equipados. Em 1628, a Companhia das Índias Ocidentais capturou a
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
frota anual da prata espanhola e conseguiu 14 milhões de florins. Com
toda essa riqueza, pôde se organizar e voltar, desta vez, chegando pela
capitania de Pernambuco, de propriedade particular e não real. No dia
15 de fevereiro de 1630, uma armada chegou a Marim (Olinda), no mês
de março, os combatentes holandeses invadiram Recife, onde ficariam
até sua expulsão. Durante 24 anos, eles dominaram sete das dezenove
capitanias existentes na colônia. Em meio a lutas, traições, acordos
secretos e disputas pela segurança, poder político e dinheiro, a invasão
holandesa se prolongaria até 1654.
Esse contexto é referenciado no sermão juntamente com o apelo a
textos bíblicos. No uso retórico da palavra como gesto e ação, o sacerdote
emprega certo vigor patriótico para combater os “hereges” e “infiéis”.
Ele usa palavras de David, no Salmo 43, adequando “o emblema religioso
à situação brasileira, à pátria, que ameaçava ruir, humilhada aos pés da
heresia” (ARAÚJO, 1999, p. 157). Utilizando outros textos bíblicos,
Vieira lembra que Moisés também questionou a ira de Deus no caso da
idolatria ao bezerro de ouro, convencendo-o a não dirigir o castigo da
morte aos idólatras. Ao pedir o mesmo, “já que o Deus é o mesmo”,
mostra suas habilidades e o talento performático da oratória. Ele não
implora, mas protesta, de maneira que quase pode ser considerada uma
heresia: “Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando,
pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor senão
justiça” (p. 20).
A primeira pessoa do singular junta-se à exibição pública do
enunciador para indicar que autor e narrador mantêm a identidade
no sermão mais tarde publicado. No entanto, o dono da palavra não
constrói uma narrativa a respeito de si mesmo, não elabora um discurso
autobiográfico, prendendo-se às particularidades características de um
sermão. Tal evidência não impede que acentue elementos de sua vida
individual na demonstração de um partidarismo ideológico que ocorre
através do fervor místico e da indignação, somados ao sentimento
político e histórico.
Isso pode ser demonstrado no sermão em estudo, pronunciado
no momento em que a Bahia se apavorava com a iminente ameaça de
vitória da Holanda:
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Letras
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
Quando em 1640 os holandeses apertaram o cerco à cidade
da Bahia, ameaçando invadi-la pela segunda vez, em todos os
templos, no decorrer de quinze dias, fizeram-se contínuas
prédicas, sendo esse sermão o último pregado, a 10 ou 11
de maio [...] Enquanto pairava no ar a ameaça inimiga, era
verdadeiramente dramática a expectativa da população
insegura e alarmada. Às notícias que chegavam confusamente
do recôncavo, onde os flamengos levavam tudo a ferro e
fogo, assolando os campos e destruindo os engenhos de
açúcar, juntara-se a da presença da armada holandesa em
águas de Itaparica. De alguns pontos mais altos da velha urbe
deviam ser avistados os navios inimigos que se aprestavam a
distância para lhe atacar os flancos. Apesar do grande ímpeto
com que, em seguida, investiram contra a cidade, que já
tinham ocupado como dominadores, os holandeses foram
rechaçados, e por fim desistiram de reconquistar a Bahia
(GOMES, 1968, p. 13).
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O sermonista chama os holandeses de “hereges” e “infiéis” e
zomba deles, questionando: “diga o herege que Deus está holandês?”
(p. 24). Fala dos ventos e tempestades que destroem o povo e a moral
das tropas que, caso estivessem do lado oposto, garantiriam a vitória
portuguesa. A expressão da subjetividade também aparece quando pede
a Deus pela vitória, para deixar claro que a fé divina pertence à Igreja
Católica Apostólica Romana, “só ela a verdadeira e a vossa” (p. 25).
Vieira seleciona os eventos de seu discurso, ao questionar a
situação da catequese ao índio, pois tudo se perderia se os holandeses
vencessem. “Que dirá o índio inconstante, a quem falta a pia e a atenção
da nossa fé? Que dirá o etíope boçal, que apenas foi molhado com a água
do batismo, sem mais doutrina? Não há dúvida que todos estes, como
não têm capacidade para sondar o profundo de vossos juízos, beberão
o erro pelos olhos” (p. 25). Visando alterar a história, o padre critica a
saída de cristãos novos ou novos convertidos que, ficando na religião
vencedora, confirmariam o apoio divino a sua causa.
Sua voz marca certo distanciamento de Deus – “Porque vos
esqueceis de tão religiosas misérias, de tão católicas tribulações” (p. 26)
– com o fim de agir sobre os fatos históricos. A seu ver, Deus defenderia
uma raça de desafetos, não sendo possível que se pusesse contras os
servos fiéis, leia-se portugueses, e favorecesse os excomungados:
183
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto? Que a mim,
que sou vosso servo, me oprimais e aflijais, e aos ímpios, aos
inimigos vossos, os favoreçais e ajudais? Parece-vos bem
que sejam eles os prosperados e assistidos de vossa mão; nós
os esquecidos de vossa memória; nós o exemplo de vossos
rigores; nós o despojo de vossa ira? Tão pouco é desterrarnos por vós e deixar tudo? Tão pouco é padecer trabalhos,
pobrezas e os desprezos que elas trazem consigo, por vosso
amor? Já a fé não tem merecimento? Já a piedade não tem
valor? Já a perseverança não vós agrada? Pois se há tanta
diferença entre nós, ainda que maus, e aqueles pérfidos, por
que os ajudais a eles e nos desfavoreceis a nós? Nunquid
bonum tibi videturi a vós, que sois a mesma bondade, parecevos bem isto? (p. 27).
A pregação discorre sobre o que poderia acontecer se os
protestantes vencessem, contando entre as consequências da derrota, o
fato de Portugal perder suas terras conquistadas à Holanda reformada:
“Considerai, Deus meu e perdoai-me se falo inconsideradamente –
considerai a quem tirais as terras do Brasil e a quem as dais” (p. 27). A
voz do eu, no entanto, se mistura ao texto de São Paulo, para reivindicar
a Deus que não tire dos portugueses aquilo que lhes deu, principalmente
porque esses seriam os “conquistadores da vossa Fé e a quem destes por
armas como insígnia e divisa singular vossas próprias chagas” (p. 28).
Padre Vieira protesta contra a ingratidão de um Deus que poderia
tirar as terras brasileiras de Portugal, como já fizera com as terras do
Oriente, reprovando decisão não menos infeliz do que injusta: “Que a
larga mão com que nos destes tantos domínios e reinos não foram mercês
de vossa liberdade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui
fora e longe de nossa pátria nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes
de todo” (p. 28).
O pregador chega a afirmar que nunca deveriam ter conquistado
o território colonial, já que poderiam perdê-lo por tão pouca ética: “Oh
quanto melhor nos fora nunca conseguir, nem intentar tais empresas!”
(p. 29). Se a colônia terminaria nas mãos da Holanda, então que o Todo
Poderoso tivesse entregado estas terras desde o começo, quando ainda
eram selvagens e desabitadas de seu cultivo e seu enriquecimento: “Assim
se hão de lograr os hereges e inimigos da Fé dos trabalhos portugueses e
184
Letras
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
dos suores católicos?” (p. 30). O talento performático da oratória alcança
momento alto na seguinte passagem:
Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias,
entregai-lhes as Espanhas (que não são menos perigosas
as consequências do Brasil perdido), entregai-lhes quanto
temos e possuímos (como já lhes entregastes tanta parte);
ponde em suas mãos o mundo: e a nós, aos portugueses e
espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabainos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que
estes mesmos que agora desfavoreceis e lançai de vós, pode
ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais (p. 30).
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Ao perceber que exagerou em suas queixas, o orador compara seu
discurso com o texto bíblico para amenizar no gesto e tom de voz: “Não
me atrevera a falar assim se não tirara as palavras da boca de Jó, que como
tão lastimado não é muito entre muitas vezes nesta tragédia” (p. 31). Ele
também oferece a seus ouvintes a parábola do Banquete: “Os convidados
fomos nós, a quem primeiro chamaste para estas terras e nelas nos
pusestes a mesa, tão franca e abundante como de vossa grandeza se podia
esperar. Os cegos e mancos são os Luteranos e calvinistas, cegos sem fé
e mancos sem obras” (p. 32).
O sermão tem destino, já que o padre considera apocalípticas e
aterrorizadoras as possíveis consequências da entrada holandesa na Bahia.
Símbolos e cultos católicos desapareceriam, nasceria “erva nas igrejas
como campos; não haverá quem entre nelas” (p. 37). Ao final, Vieira
pede a Deus que perdoe os pecados e termine com os castigos, sofridos
durante 12 anos de guerra. Através de signos astrológicos e místicos, ele
demonstra os próprios desejos: “Deixai parar o signo rigoroso de Leão
e daí um passo ao signo de Virgem, signo propicio e benéfico. Recebei
influências humanas de quem recebestes a humanidade” (p. 46).
O sermonista ainda apela ao amor da Virgem Mãe, solicitando
perdão, já que assim os homens também se perdoariam uns aos outros,
por amor de Deus. Além das metáforas utilizadas, ele se vale de situações
vividas por personagens bíblicos, não se esquecendo de usar interrogações,
invectivas e exclamações conceitistas. Neste “Sermão pelo bom sucesso
das armas de Portugal contra as de Holanda”, chega inclusive a falar da
185
Literatura, Imaginário, História e Cultura
ameaça de extermínio na guerra contra os protestantes holandeses.
Hábil orador, Antônio Vieira produziu essa obra quase ao final da
invasão holandesa. Ele mostrava claramente sua defesa aos portugueses e
seu repúdio aos holandeses, contaminando-a com posições individuais e
aspectos de sua vida privada. A defesa da pátria, associada à tentativa de
salvar a Igreja Católica Romana da investida dos católicos reformados,
ou seja, dos protestantes holandeses, não deixa de encerrar em si o amor
à terra de adoção, no caso, a Bahia. Isso confirma que o sermão em análise
se apresenta como uma obra que, além de ser ao mesmo tempo histórica
e literária, se marca pelo autobiografismo.
Antônio Vieira acentua elementos de sua vida individual, privada,
como o declarado amor à Bahia, além de demonstrar partidarismo
ideológico, o que ocorre através do fervor místico e da indignação,
somados ao sentimento político. O sacerdote expressa claramente sua
posição, defendendo os portugueses, por serem católicos como ele. A
peça oratória é marcada por tons subjetivos, pela seleção de eventos a
serem tratados em seu discurso, pelo autobiografismo, num discurso que
é também histórico e literário.
No entanto, a defesa da colônia soma-se à tentativa de salvar a
Igreja Católica Apostólica Romana da investida dos católicos reformados,
ou seja, dos protestantes holandeses. Visando alterar a história, o
pregador critica a saída de cristãos novos ou novos convertidos que, caso
ficassem do lado português, confirmariam o apoio divino a sua causa.
A focalização objetiva reforçar sua visão histórica, não se mostrando
suficiente para estabelecer o pacto autobiográfico, segundo teorizado por
Philippe Lejeune. Do contrário, o receptor sabe que vai ouvir, e depois
ler, um sermão. Sendo uma espécie de contrato estabelecido com o leitor,
o pacto em destaque possibilita identificar uma identidade entre autor,
narrador e personagem, primeiro, através dos títulos e/ou subtítulos que
as identificam. Posteriormente, a seção inicial e o decorrer da narrativa
devem confirmar qualquer tipo de narrativa que se julgue autobiográfica.
Isso não se verifica no “Sermão pelo bom sucesso das armas
de Portugal contra as da Holanda” que, mesmo inclassificável como
autobiografia, permite a expressão da subjetividade. O autor-narrador
realça aspectos de ordem privada, defendendo seu posicionamento
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
como jesuíta e usando a palavra como gesto e ação. A perspectiva do
texto é restrita e o retrospecto, pequeno, mas o pregador o elabora
com fatos ou circunstâncias da própria existência. Desse modo, instala
o autobiografismo em sua composição, a partir da qual, conhecemos
o romance de João Felício dos Santos: Major Calabar. Apresentando
diferentes visões quanto ao mesmo fato histórico, esses textos dialogam,
embora distanciados por quatro séculos: o primeiro, elaborado em 1640,
no mesmo período em que se deu o episódio abordado; o segundo, no
ano de 1960.
Para conhecer
João Felício dos Santos (1911-1989): Romancista brasileiro, nasceu na comarca de Mendes,
estado do Rio de Janeiro. Jornalista por mais de 40 anos, sendo também publicitário e funcionário
público federal e topógrafo de profissão, servindo ao Ministério dos Transportes. Inicia sua carreira
de escritor com a publicação de Palmeira Real (poesias) em 1934. Consagrado por seus romances
históricos e biográficos, neles retrata fases importantes e personalidades polêmicos da história
brasileira. Seu primeiro romance, O pântano também reflete estrelas (1949), aborda a política do
café no início do século XX. Em João Abade (1958), trata da saga de Canudos, e em Major Calabar
(1960), discorre sobre a invasão holandesa no Brasil. Entre suas obras literárias mais conhecidas
estão Ganga Zumba (1962) – tendo por foco o Grande Senhor, primeiro líder dos Palmares, que
governou o quilombo entre 1670 e 1678. A publicação ilustrada por Caribé também inclui um
glossário com palavras de origem africana. Premiado pela Academia Brasileira de Letras, é adaptado
ao cinema em 1964 por Cacá Diegues, do mesmo modo que Xica da Silva, em 1976. Já A guerrilheira
(1979), que enfoca a figura de Anita Garibaldi, poderia tem argumentos muito superiores ao texto
de mesma temática que originou a minissérie televisiva A casa das sete mulheres. Sem tornar-se
conhecido como escritor, falece a 13 de junho de 1989, no Rio de Janeiro, deixando mulher, filha e
um romance inédito: Rotas de além-mar.
Para saber mais sobre o autor, visite sua página, disponível em <http://www.joaofeliciodossantos.
com.br>.
João Felício dos Santos teve uma importante atuação no cinema, participando como roteirista,
argumentista e também como ator. Para saber mais, assista:
Ganga Zumba. Direção de Cacá Diegues, 1964, 100 min.
8
Cristo de Lama. Direção de Wilson Silva, 1968, 90 min.
Xica da Silva. Direção de Cacá Diegues, 1976, 107 min.
Unidade
Parceiros da aventura. Direção de José Medeiros, 1980, 91 min.
Quilombo. Direção de Cacá Diegues, 1984, 114 min.
Carlota Joaquina, Princesa do Brazil. Direção de Carla Camurati, 1995, 100 min.
5O MAJOR CALABAR DE JOÃO FELÍCIO: UM ROMANCE
BIOGRÁFICO
João Felício dos Santos é antecedido por um considerável elenco
de ficcionistas biográficos que escreveram suas obras literárias na
primeira metade do século XX ou ainda um pouco antes. Dessa forma,
Virgílio Várzea (1863-1941) tinha ousado com o protagonista de seu
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Volume 3
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
romance George Marcial (1894) e Francisco de Assis Cintra (1887-1953)
havia reunido suas crônicas biográfico-ficcionais em Os escândalos de
Carlota Joaquina (1928) e As amantes do Imperador (1933). Juntamente
com os romances históricos que integram o Ciclo dos Bandeirantes,
Paulo Setúbal (1893-1937) produziu os seguintes romances biográficos:
A Marquesa de Santos (1925); As maluquices do Imperador (1927); O
Príncipe de Nassau (1928). Quase ao mesmo tempo em que o intelectual
baiano Pedro Calmon (1902-1985) focava Dom Pedro I em seu romance
biográfico O Rei Cavaleiro (1933), Alfredo Ellis Jr. (1896-1974)
reelaborava ficcionalmente Amador Bueno, o rei de São Paulo (1937).
Por fim, Agripa Vasconcelos (1896-1969) é redescoberto pela
cultura de massa com A vida em flor de Dona Beja (1957), romance
adaptado para telenovela. Em Chica que manda (1966), volta o foco para a
escrava alforriada Francisca da Silva de Oliveira cujos desejos e caprichos
eram satisfeitos pelo comendador João Fernandes de Oliveira, e em
Gongo Soco (1966), sobre o ciclo do ouro de Minas Gerais, centralizado
na figura simultaneamente generosa e mesquinha do Barão de Catas
Altas, hospedeiro de Dom Pedro I. Vasconcelos também é autor de
Chico-rei (1966), retrato nu e cru de um soberano africano que, feito
escravo, logrou alforriar-se e revolucionar a antiga Vila Rica das Gerais.
As identidades que figuram em vários desses romances biográficos
desafiam a homogeneização identitária e a exclusão que marcam o cânone
literário nacional. Não se afastam muito das lutas empreendidas desde o
início do século XX pelas assim denominadas minorias, que
já vinham usando e abusando dos recursos a movimentos
e fóruns internacionais como tática de legitimação e
defesa de seus interesses locais. Nesse sentido, cito dois
exemplos já clássicos: o recurso ao Pan-americanismo para
a implementação das lutas feministas no Brasil no início
do século e a consolidação do movimento feminista e do
movimento negro nos anos 60, através de fortes articulações
internacionais. Historicamente, os setores marginalizados
sempre procuraram um espaço de reconhecimento e
identificação fora das fronteiras locais o que mostra que,
na realidade, a articulação internacional nestes casos parece
ter sido uma forma de deslocamento tático de proteção à
fragilidade gerada pela invisibilidade local destes grupos
(HOLLANDA, 2000).
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
Entre os responsáveis por auxiliarem na perda do sentido político
dos Estudos Culturais na América Latina, André Mattelart e Erik Neveu
(2004, p. 155) sublinham: “a ausência de perspectiva histórica, que
explica notadamente a adesão precoce e acrítica à noção de globalização;
o desconhecimento das análises formuladas pela economia política das
indústrias culturais e das indústrias informacionais; a hesitação em se
interrogar sobre as lógicas dos sistemas técnicos”. Aliados a esses fatores,
ainda se destacam uma crescente defasagem frente às novas dinâmicas
do movimento social, menos operário e mais setorizado, além de uma
notória dificuldade para problematizar o “novo estatuto do saber e dos
Unidade
8
intelectuais no capitalismo contemporâneo, caracterizado pelo duplo
movimento de subsunção do trabalho intelectual e de intelectualização
geral do trabalho e do consumo a partir da expansão, em todos os setores
da vida, das tecnologias da informação e da comunicação” (MATTELART;
NEVEU, 2004, p. 156).
Se a história foi mesmo deixada de lado pelos Estudos Culturais
sobre a cultura de massa, retorna com força (ainda que como farsa) por
intermédio de perspectivas das quais se valem alguns dos romancistas
anteriormente elencados e, assim, oferecem munição a uma nova geração
de estudiosos sobre a cultura que, no âmbito literário, não deixam de
repensar a condição dos “subalternos”, questionando os imaginários
oficiais das histórias e das identidades nacionais. Pelo viés literário, João
Felício trata da história brasileira de forma complexa, mas sem perder a
capacidade de emocionar e produzir encantamento. Ao longo dos mais
de 20 livros, pouco lidos e pouco avaliados, mas tidos como estrelas do
universo literário brasileiro:
Jogava com as palavras como o malabarista faz com seus
objetos, numa precisão única sem nunca deixar cair uma
peça. Escolhi escrever sobre João Felício não somente por
ter sido seu amigo particular, mas por tê-lo em conta como
um dos mais ricos escritores brasileiros, por sua linguagem,
pelo seu estilo e por sua técnica em amalgamar tipos que
existiram em verdade, e outros por ele criados, fazendo-os
passearem no tempo e no espaço de modo a cumprirem seu
destino (HOLANDA, 2004, p. 1).
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189
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Em Major Calabar, onde o autor transforma ficcionalmente a
invasão holandesa ao Nordeste brasileiro, sem esquecer de que, mesmo
em momentos difíceis, acontecem encontros e desencontros amorosos. A
citada obra literária parece encaixar-se no “romance biográfico”, segundo
definido pelo teórico russo Mikhail Bakhtin (2003). Dessa maneira,
pode ser estudada segundo os padrões do espaço biográfico que tomam
impulso em 1970, quando surgem livros baseados em pesquisas sobre
personalidades históricas ou celebridades, tais como artistas, cantores,
ídolos do futebol, políticos, dentre outros. Composta por formas (auto)
biográficas em si, (auto)biografistas ou híbridas, no Brasil, essa tendência
tem uma origem específica, apesar de transbordar
posteriormente desse estreito vale: o resgate da saga da
esquerda, durante reprimida pela ditadura militar que se
implantou por golpe em 1964. Depois se ramificaria em
várias direções; afora a biografia, na literatura, no romance,
na reportagem, no tratado histórico. E em cinema, no filme
de ficção, no documentário longo, no documentário curto
para tevê, no docudrama (GALVÃO, 2005, p. 98).
Gêneros (auto)biográficos estabelecidos, bem como formas
híbridas ou (auto)biografistas tentam primeiramente retomar questões
e temas reprimidos com a ditadura militar de 1964, mas depois tomam
várias direções. Ao se apresentarem tanto em obras originais quanto
em textos adaptados, longe estão do esgotamento; do contrário, vêm
alimentando a escrita histórica, a produção ficcional, a teoria literária e
a indústria cultural. Portanto, Major Calabar transita pelos caminhos do
espaço biográfico quando reconta a invasão holandesa a estas terras.
Em seu início, esse romance biográfico destaca um sacerdote
espanhol, Estevão das Santas Dores, que seria o oposto de Antônio
Vieira, por detestar a colônia. O autor do romance usa estilo ousado
e quase profano, é crítico, em certas situações, usa palavras vulgares,
lembrando Vieira: “O padre se rebelou ao lembrar o exemplo dos mais
velhos, evocado aos pedaços: - Como pensar em suavidades celestes
infinitas se tudo o que cerca um homem na terra maldita pela conquista é
o presente, eterno e bárbaro, penetrando pelos cinco sentidos?” (p. 19).
190
Letras
EAD
Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
A vida privada do padre Estevão, que se apaixona pela adolescente
Maria Rita, filha de Pedro Saavedra, demonstra certo predomínio do
plano individual sobre o público, logo no começo da narrativa:
E quando uma vida dessas é salva dos acasos do mar é para
ficar enredada para sempre nos destinos de uma terra bruta.
Santas Dores regressava à casinha escoteira todo roído nas
fressuras. Trinta e dois anos de sacrifícios e renuncias, de
obediências estúpidas, e esforços sem cabimento, a segurar
em nada uma crença cada vez mais fugidia. Já não tinha onde
buscar lenhas para custodiar a fogueira perdulária da fé (p.
19).
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
Unidade
8
O narrador concentra-se nos episódios pernambucanos da “guerra
do açúcar”, mostrando os dois lados inimigos através de Calabar. Para
montar essa personagem, busca as lembranças do ser histórico no qual se
inspira, desde os tempos da escola jesuíta. A compreensão de alguns fatos
históricos permite entender melhor o protagonista da obra ficcional,
sendo necessário esclarecer que o governador da capitania pernambucana,
Matias de Albuquerque, criou o Arraial do Bom Jesus para ser o local das
organizações contra os invasores. Mesmo assim, o Recife foi tomado em
1630 e, devido à ajuda de alguns nativos, os portugueses conseguiriam
vencer a guerra contra os Países Baixos.
Havia pelotões chefiados por luso-brasileiros, como Fernandes
Vieira e Vidal de Negreiros, mas a vitória somente se faria possível
com a ajuda de um batalhão indígena, comandado pelo potiguar Felipe
Camarão, e de outro, composto por negros, sob o comando de Henrique
Dias. Alguns nativos ajudaram os holandeses, que também contaram
com “Domingos Calabar: Guerrilheiro mulato, lutou ao lado de Matias
de Albuquerque, mas passou para o lado dos holandeses em abril de
1632. Deu muito trabalho aos brasileiros. Capturado em julho de 1634,
foi torturado, enforcado e esquartejado. Destino similar ao dos caciques
Janduí, Poti e Paraupaba, que haviam ajudado os invasores” (BUENO,
2003, p. 97).
Na obra literária, após a chegada de Calabar a Pernambuco,
muitos fogem, mas aqueles que ficam veem os invasores de outra forma.
Percebem que, depois de ocuparem uma área, esses a reconstroem e
191
Literatura, Imaginário, História e Cultura
não cobram tantos impostos dos trabalhadores, como faziam espanhóis
e portugueses: “Verdade mesmo é que os castelhanos só gripavam na
ousadia para exigir mais impostos e castigar os nativos por isso mais
aquilo. Se os holandeses não tivessem vindo, ninguém tinha precisão
daquela guerra danada de demorada, mas também nada teria mudado em
Pernambuco” (p. 104).
O autor também lembra que os negros, escravos de portugueses,
espanhóis e seus descendentes, eram tratados como brancos pelos
holandeses. O preconceito é talvez um dos motivos para a “traição” de
Calabar: “Humilhação danada! Nem na sala do comandante-geral tinha
entrada! – Negro! A passagem para a força de Waerdenburch... Foi daí
que surgiram os ódios e as incompreensões dos que não entendiam seu
desejo largo de uma nação diferente... De um Pernambuco bom!” (p.
207-208).
João Felício mostra que os defensores dos portugueses e dos
espanhóis repudiam quem troca de lado. Nem as prostitutas os querem,
pois até se relacionam sexualmente com holandeses, mas nunca com um
traidor. “Não, Domingos. Aqui entra gente da terra e entra Holanda,
querendo... Tudo entra sem hora de chegada. Eu ganho dos gostos
do povo. Vosmecê já não é uma coisa nem outra. Não é – a mulata se
entristeceu. – Vosmecê se passou... o Domingos do meu tempo de moça
morreu que nem meu pai” (p. 164).
O escritor carioca também muda determinados fatos históricos
para dar mais emoção a seu romance. Desse modo, Calabar separa-se de
Bárbara no começo da guerra, pois deveria lutar e não teria condições de
ficar com a amada, que se encontra grávida. A filha morre logo após o
nascimento. De acordo com pesquisas históricas, o casal teve um filho,
batizado na Igreja Reformada do Recife. Há registros desse batizado
que, além de provarem a existência do menino, comprovam que Calabar
mudou de religião quando ao defender os holandeses.
Bárbara teria viuvado, em vez de cometer suicídio após a morte
da filha, segundo consta na obra ficcional. Aqui, como em outros
momentos, a ficcionalização dos acontecimentos reais atinge o plano das
existências privadas. O restante da narrativa em análise, embora se afaste
da historiografia oficial brasileira, concorda com estudos mais recentes,
192
Letras
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
como os realizados por Eduardo Bueno e Júlio Chiavenatto. Esses
pesquisadores afirmam que a traição era comum tanto no lado holandês
quanto no luso-brasileiro, por interesses diversos. Também que, uma
vez arrasada a capitania de Olinda, o governador Matias de Albuquerque
voltou à Europa em 1637 e as tropas portuguesas ganharam o comando de
um espanhol chamado Rojas e Borjas. Quando esse morreu em batalha, o
general italiano Bagnuolo assumiu a liderança, usando táticas da “guerra
brasílica”, formas de luta dos negros e índios: a guerrilha.
A guerra fixou ainda mais o domínio português no Brasil,
enquanto índios e negros lutaram durante toda sua duração, mas não
lucraram nada:
É comum a historiografia oficial afirmar que a luta contra
os holandeses criou o sentimento nativista no Brasil: como
índios (Camarão), negros (Henrique Dias) e brancos (Vidal
de Negreiros) defenderam a ‘pátria’, três raças em comum
amor por sua terra, ‘brotou no coração’ dos brasileiros o
desejo de libertar o país de qualquer jugo (CHIAVENATO,
1992, p. 16).
UESC
Módulo 6 I
Volume 3
Unidade
8
Nesses tempos, Johann Mauritius van Nassau foi para o Recife,
onde atuou como governador, capitão e almirante-general das terras
conquistadas ou por conquistar no território brasileiro. Houve um
renascimento econômico-cultural e mais liberdade religiosa que, no
entanto, excluía os judeus. O domínio holandês na colônia portuguesa
foi marcado pelos sete anos conhecidos como o “tempo de Nassau” 1637 a 1644 – quando se originou a crença de que o mundo colonial
seria mais nobre caso o projeto da Companhia das Índias Ocidentais se
mantivesse.
O “sentimento patriótico”, surgido a partir da guerra, fez com
que, no ano de 1641, o povo quisesse a independência nacional e um rei
brasileiro. As ruas gritavam por Amador Bueno, mas esse não aceitou,
defendendo dom João VI e que o Brasil continuasse pertencendo
a Portugal. Desde o mês de junho, havia certa paz, já que Portugal e
Holanda tinham feito aliança depois que os portugueses recuperaram a
independência, separando-se da Espanha em 1640.
A invasão holandesa foi uma grande “luta que envolveu milhares
de pessoas e deixou outros milhares de mortos” (CHIAVENATO, 1992,
193
Literatura, Imaginário, História e Cultura
p. 16). Nassau reconstruiu o que foi destruído com a guerra e promoveu
notável crescimento ao Nordeste brasileiro:
Tolerante, competente, dedicado e ágil, Nassau fez um
governo brilhante. Primeiro, tomou Porto Calvo, último foco
da resistência aos invasores. Depois, atraiu os plantadores
luso-brasileiros concedendo-lhes empréstimos para reerguer
seus engenhos – e os defendeu da agiotagem dos negociantes
holandeses e judeus, limitando os juros a 18% ao ano. Deu
liberdade de culto, tratou bem os nativos, aumentou a
produção de açúcar, urbanizou o Recife, protegeu os artistas,
apaziguou a colônia. Foi um príncipe (BUENO, 2003, p. 92).
João Maurício de Nassau contribuiu muito para a arte e a cultura
coloniais, promoveu peças de teatro, trouxe consigo a Pernambuco os
pintores Albert Eckhout e Frans Post. Como sabemos, os dois artistas
retrataram a paisagem, as plantas, os animais e os indígenas brasileiros.
Naturalista, o último tinha um estilo individual e detalhista, enquanto
o primeiro deixou-se fascinar pela luminosidade do Novo Mundo. O
líder holandês inaugurou a maior ponte do continente americano naquela
época, com 318 metros de comprimento. Ele prometeu que, numa noite
de março de 1644, daria grande festa no Recife, momento em que, por
certo, faria um boi voar.
Mantida a promessa, Nassau fez voar “um couro de boi cheio
de palha preso por fios que a noite escondia” (BUENO, 2003, p. 88).
Pouco tempo mais tarde, a seis de maio de 1644, renunciou ao governo
do Brasil holandês, em função de sérias divergências com os dirigentes
da Companhia das Índias Ocidentais. Sem a sua presença, os grandes
senhores de engenho rebelaram-se contra a empresa, com a qual tinham
muitas dívidas. O capitão foi embora e, com ele, o sonho de ver uma
colônia holandesa no Nordeste da América do Sul.
A 19 de abril de 1648, os exércitos se defrontaram nos montes
Guararapes, arredores do Recife. Nessa batalha, o tenente-general
alemão Siegmundt von Schokoppe comandava 4.500 holandeses que,
mesmo superiores em número, foram derrotados por cerca de 2.500
luso-brasileiros. Quase um ano depois, houve outra batalha no mesmo
lugar, onde morreu Henrique Dias. Durando mais de 20 anos, a ocupação
194
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
de Pernambuco se estendeu a outras sete capitanias brasileiras. Em
19 de fevereiro de 1649, houve a pior batalha para os holandeses. Seu
exército teve de bater em retirada, morreram todos os comandantes.
Embora sitiados no Recife, os invasores resistiram até 26 de janeiro
de 1654, quando ocorreria sua expulsão. “Três séculos e meio depois, a
experiência holandesa no Brasil continua associada ao tempo de Nassau”
(BUENO, 2003, p. 92). Vencida na guerra do açúcar, depois de receber
uma compensação de quatro milhões de cruzados em 1661, a Holanda
desistiria oficialmente do Nordeste da colônia portuguesa.
Em narração retrospectiva, de perspectiva ampla e em terceira
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Módulo 6 I
Volume 3
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pessoa, o romancista carioca traz a revisão desses fatos históricos e uma
personagem bastante polêmica. Quando a historiografia tradicional
critica o jovem Calabar pela traição a seus superiores, João Felício faz
dele um herói. Muitos combatentes mudaram de lado, mas nenhum
teve a mesma importância desse mestiço, devido a seu conhecimento
do local onde nasceu e guerreou. Provando fidelidade aos holandeses,
o sujeito histórico vem-se associando à imaginação de como seria um
Brasil holandês. Talvez essa a razão justifique o sucesso que alcança no
reino ficcional.
João Felício dos Santos estrutura seu romance Major Calabar por
meio da narração retrospectiva, em terceira pessoa, e sob uma perspectiva
ampla. O tempo narrado retroage a muitos anos, abarcando a infância, as
primeiras experiências, a educação a juventude, dentre outros momentos
afastados temporalmente, na vida do protagonista. O narrador deixa suas
marcas na personagem central, apresentada gradualmente, em diferentes
etapas. Respeitando a ordem cronológica, própria dos discursos histórico
e biográfico, o autor seleciona momentos a serem narrados. Também
despreza alguns acontecimentos, a seu ver, irrelevantes à história do
ser histórico que, no texto escrito, passa a ser uma personagem, a qual
recebe o nome verdadeiro da personalidade histórica, no caso, Domingos
Calabar, destacando-se como exemplo social e político, pois deseja um
Pernambuco melhor, ama sua terra.
Tudo isso caracterizaria o gênero biográfico, mas João Felício
modifica fatos que dizem respeito às histórias individuais de Bárbara e
Calabar, evidenciado a ficcionalização de sua narrativa que, assim, não
195
Literatura, Imaginário, História e Cultura
pode ser puramente biográfica. Embora centrado na dinâmica de uma
vida, seu livro focaliza um sujeito mestiço que se tornou importante
numa época durante a qual as pessoas de sua raça eram desprezadas,
escravizadas e maltratadas. O romance em análise ganha importância
histórica e, sendo biográfico, não deixa de ser histórico. O tempo
biográfico leva, de alguma ou de outra forma, ao mundo real.
Muitos fatos narrados na obra literária conduzem à história,
situando-se num período determinado, quer dizer, durante a invasão
holandesa ao Nordeste brasileiro. Longos períodos se intercalam a breves
instantes, e o tempo imediato, dos dias, das manhãs, das horas, se amplia
ao tempo histórico nas narrações dos acontecimentos significativos à
compreensão do momento representado. Outras notações culturais
que tratam da invasão holandesa e do século XVII na Bahia são o drama
alegórico-biográfico de Chico Buarque e Ruy Guerra - Calabar, elogio
da traição - e o romance biográfico de autoria da escritora cearense Ana
Miranda: Boca do Inferno.
Saiba mais!
Calabar, elogio da traição (1973): Texto dramático escrito por Chico Buarque e Ruy Guerra
entre os anos 1972 e 1973, é um drama histórico que se passa na época das invasões holandesas
em Pernambuco, no século XVII, mas opera como alegoria do período ditatorial em que é escrita.
O texto foca a lealdade e a traição, gerando um debate ideológico, posto que suas personagens
irônicas e caricaturais polemizam esses conceitos, assim como os de herói e vilão. Traindo-se
entre si, as personagens traem ideias, princípios e a si mesmas. A realidade cênica se entrecruza
com a histórica na emergência de uma realidade ficcional que interpreta o mundo histórico e as
personalidades empíricas que dele fizeram parte. A montagem da peça teatral em 1973, uma das
mais caras da época, sob a direção de Fernando Peixoto, não é aprovada pela censura, frustrando
as mais de 80 pessoas envolvidas no projeto, o qual só será retomado seis anos mais tarde.
Ana Maria de Nóbrega Miranda (1951-): Nascida no Ceará, a escritora se consagra pelos
romances históricos em que associa ficção e rigorosa pesquisa documental. Entre suas principais
obras literárias, destacam-se: Boca do Inferno (1989), A última quimera (1995), Desmundo (1996),
Amrik (1998), Dias & Dias (2002), Yuxin (2009).
Boca do Inferno, Prêmio Jabuti de Revelação em 1990, se passa no século XVII, durante o governo
tirânico de Antônio de Souza Menezes, o “Braço de Prata”. A ação se desenvolve em Salvador e
recria turbulenta luta pelo poder entre esse governador militar e a oposição, da qual participar as
personagens inspiradas nas seguintes personalidades históricas: o poeta Gregório de Matos e o
padre Antônio Vieira.
Para saber mais sobre a obra e vida da artista, assista Autor por autor: vida e obra da
escritora Ana Miranda, disponível em http://youtu.be/55wbh7mBsjs (parte I), http://youtu.be/
TbxQz9gNbok (parte II), http://youtu.be/Pj1A3Ilj_Xo (parte III), http://youtu.be/0odTRYzFRF0
(parte IV).
Sua obra foi adaptada para o Cinema, assista ao filme Desmundo, direção de Alain Fresnot, 2002,
101 min).
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
Fazendo cada um sua parte, João Felício e Antônio Vieira se
apresentam como escritores cujas obras podem ser colocadas em nível
de igualdade. No romance em foco, o primeiro se vale do estilo profano
e ousado do padre, mas é bem mais crítico quanto aos problemas vividos
pela sociedade nordestina naquele contexto. O posicionamento explícito
do sacerdote, a favor dos portugueses, tem seu contraponto na simpatia do
romancista pelos holandeses que, contudo, ele quase neutraliza, tentando
mostrar pontos negativos e positivos nos dois lados em combate.
Situado no espaço biográfico, e carregado de autobiografismo, o
“Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda”
defende o poder religioso e político. Por outro lado, João Felício
representa o tempo de Vieira no interior do romance biográfico, uma
forma híbrida dos gêneros romanesco e biográfico. Major Calabar
denuncia o preconceito racial, ainda existente em nosso país. Provando
que emissão e recepção não funcionam do mesmo jeito, os textos em
análise fazem do mesmo fato histórico uma narrativa plural: duas invasões
holandesas, muito bem diferenciadas.
6 FLORA TRISTÁN, PAUL GAUGUIN: CULTURAS À BUSCA
DO PARAÍSO
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Volume 3
Unidade
8
Na América Latina, fatos e personalidades históricos dão motivo
a muitos romances (auto)biografistas ou (auto)biográficos, tais como
El reino de este mundo (1949), El arpa y la sombra (1979), de Alejo
Carpentier; La guerra del fin del mundo (1981), de Mario Vargas Llosa;
Yo el supremo (1974), de Augusto Roa Bastos. Prontamente, o fenômeno
da hibridação observado no romance histórico e na narrativa ficcional em
geral (amálgama de gêneros, de discursos e de técnicas narrativas) é um
dos componentes mais discutidos da literatura da atualidade.
Destacamos então as problemáticas que, trazidas pelos Estudos
Culturais, possam convergir quanto a questões que gravitam em torno
de etnia, identidade e raça, gênero e sexualidade, por exemplo. Porém,
em sua origem, como vimos, os então Cultural Studies britânicos
preocupavam-se com o estabelecimento de uma prática na cultura que
197
Literatura, Imaginário, História e Cultura
os distinguisse. Tal diretriz precisa ser considerada, num momento em
que ocorre a “transformação de um modo de intervenção política em
um modo de acumulação de conhecimento, testado em provas e exames
acadêmicos” (CEVASCO, 2003, p. 135).
Nesse sentido, uma das grandes contribuições do Culturalismo,
desde os posicionamentos da New Left Review e do Centro de Estudos da
Cultura Contemporânea de Birmingham, tem sido a visão da cultura como
instrumento de descoberta, interpretação e luta social, expresso, entre
outras coisas, por meio do enfraquecimento das fronteiras impostas entre
a cultura de massas e a alta cultura, sendo essa representada sobretudo
pela “arte literária”. Sob tal perspectiva, e dentro de um panorama de
revigoramento, os estudos de literatura passam a se ocupar de notações
culturais ao gosto do grande público, como novelas de detetive, romances
cor-de-rosa, autobiografias e biografias.
Se isso ocorre na teoria, não pode ser muito diferente no lado da
prática, ou seja, da produção textual, contemporaneamente assinalada,
em sua forma romanesca, pela reiterada incidência da transformação
de figuras históricas famosas em personagens de ficção, assemelhandose a, ou simulando, narrativas autobiográficas e/ou biográficas. No
“romance histórico” cujo molde aprimorado encontra-se em Walter
Scott, predominavam os aspectos externos e públicos assim como as
personagens-tipo e o evento que guiava a história central.
Por sua vez, o subgênero romanesco do qual agora estamos a tratar,
ou seja, o romance biográfico em sua formatação contemporânea, não se
preocupa com a semelhança de modo demasiadamente estrito. Assim,
pode mudar nomes de personalidades históricas (que se transformam em
personagens no seu interior), alterar ações, espaços, situações, além de
dar mais ênfase ao interno, ao privado, ao indivíduo e ao invento.
É sob essa ótica que são apresentados e representados a feminista
Flora Tristán e seu neto, o pintor Paul Gauguin, na obra literária de
Mario Vargas Llosa (2003) que se intitula O paraíso na outra esquina.
Mesmo nominadas, em correspondência aos seres de real existência que
as originam, as personagens em evidência já seguem à lógica da ficção ao
adentrarem no texto ficcional, norteando-se, pois, por uma questão de
estatuto. Não se trata, portanto, de checar os acontecimentos narrados
198
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
com aqueles cujos eventuais documentos possam atestar sua ocorrência
real, mas de examinar qual modo de leitura nos é proposto pelo autor e
pelos editores da obra em questão.
Para conhecer
Flora Tristán (1803-1844): Escritora e pensadora francesa de
ascendência peruana, reconhecida como uma das fundadoras do
feminismo moderno. Seu pai, um aristocrata peruano radicado em
Paris, morre precocemente. Para fugir da miséria, casa-se aos 17 anos
e tem três filhos, uma delas, Aline, será a futura mãe do pintor Paul
Gauguin. Decepcionada com o casamento devido aos maus-tratos a
que estava submetida, passa a trabalhar como empregada e inicia uma
árdua batalha pela guarda dos filhos. Vai ao Peru tentar recuperar a
herança que lhe corresponde e, ao ver as desigualdades naquele país,
inicia sua luta pelos direitos e pela liberdade da classe operária e das
mulheres. Retorna à França e viaja por todo o país para dar apoio aos
trabalhadores, sendo a criadora do slogan: “Proletários do mundo, univos”, convertendo-se na primeira mulher a falar de socialismo e da luta
proletária. Vítima do tifo, falece aos 41 anos deixando registradas suas
ideias e vivências em diversos textos, como: Peregrinações de uma
FIGURA 99 - Flora
Tristán
FONTE: <http://
encontrarte.aporrea.org/
imagenes/108/flora-2.
jpg>.
pária (1838), Passeios em Londres (1840), A união operária (1843) e A emancipação da mulher
(1845-46).
Para saber mais, assista:
à reportagem Sucedió en el Perú – Flora Tristán, disponível em: <http://www.youtube.com/
watch?v=hedxHqEv5D4>.
ao documentário-ensaio Flora (2011, 27 min.) dirigido por Lorena Stricker, trailer disponível em: <
http://www.youtube.com/watch?v=m_qejaCwm-Q>
Conheça também o Centro da Mulher Peruana – Flora Tristán, acessando a web da instituição:
< http://www.flora.org.pe/web2/>.
Paul Gauguin (1848-1903): Órfão de pai desde muito pequeno,
passou a infância entre as cidade de Paris e Lima, de onde
procedia parte da sua família materna. Em 1865, desistiu de
estudar e embarcou para o Rio de Janeiro, iniciando assim uma
vida de viajante que o permitiria conhecer muitos lugares. Por
um período, trabalhou em Paris como agente de câmbio mas,
depois da crise de 1882, já casado e com quatro filhos, decidiu
Gogh: Theo era seu marchand, Vincent convidou-o a compartilhar
experiências artísticas em Arles no ano de 1888. Seu interesse
pelo primitivismo levou-o ao Taiti, lugar onde realizou as suas
principais obras pictóricas.
Para saber mais, assista:
FIGURA 100 - Autorretrato de
Paul Gauguin, óleo sobre tela,
1889.
FONTE: <http://4.bp.blogspot.
com/-9w8cq-x21xI/
T_7qDq2trFI/AAAAAAAALOM/4RPR9K10a0/s1600/SelfPortrait+by+Paul+Gaugain-1889.
jpg>.
Unidade
passando ao Simbolismo. Teve intenso contato com os irmão Van
8
dedicar-se inteiramente à pintura. Iniciou-se no Impressionismo,
Paul Gauguin. Direção de Alain Resnais, 1950, 12 min.
Paul Gauguin, um lobo atrás da porta (Wolf at the door). Direção de Hennig Carlsen, 1986,
102 min.
Rumo ao paraíso (Paradise found). Direção de Mario Andreacchio, 2003, 89 min.
Impressionistas – Paul Gauguin, disponível em <http://tvescola.mec.gov.br/index.php?option=com_
zoo&view=item&item_id=1932>.
Leia os textos sobre a obra e vida do pintor, disponíveis em <http://mestres.folha.com.br/
pintores/10/>.
O romance A lua e cinco tostões, de William Somerset Maugham (1919), está baseado na vida do
pintor.
Visite os sites <http://oikabumrio.org.br/paulgauguin/> e < http://www.paul-gauguin.net/> para
visualizar suas obras pictóricas.
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Módulo 6 I
Volume 3
199
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Saiba mais!
Mario Vargas Llosa (1936-): Escritor nascido
no Peru, radicado na Espanha, é um dos mais
importantes romancistas e ensaístas de língua
espanhola. Ganhou inúmeros prêmios pela sua
obra, entre eles o Prêmio Nobel de Literatura
em 2010. Defensor de ideias neoliberais, foi
candidato à presidência do Peru em 1990.
Graduado
em
Literatura
pela
Universidad
Nacional Mayor de San Marcos (Lima, 1958),
no ano seguinte, o escritor recebeu bolsa de
estudos para cursar doutorado em Filosofia e
Letras na Universidad Complutense de Madrid.
Defendeu a tese de doutoramento em 1971. (Cf.
FIGURA 101 - Mario Vargas Llosa
FONTE: <http://lavozdelamemoria.files.wordpress.
com/2010/12/mario-vargas-llosa1.jpg>.
MARIO VARGAS LLOSA, disponível em: <http:// www.mvargasllosa.com, acesso em: 02 fev. 2005)
Entre suas principais obras estão: Os chefes (1959), A cidade e os cachorros (1963), A casa verde
(1966), Conversa na catedral (1969), Pantaleão e as visitadoras (1973), Tia Júlia e o Escrevinhador
(1977), A guerra do fim do mundo (1981), Elogio da madrasta (1988), A verdade das mentiras
(1990), Lituma nos Andes (1993), Os cadernos de Dom Rigoberto (1997), Cartas a um jovem
escritor (1997), A festa do bode (2000), A linguagem da paixão (2001), Travessuras da menina
má (2006) e O sonho do celta (2010). Entre as produções críticas do intelectual, estão: Carta
de batalla por Tirant lo Blanc (1969); Historia secreta de una novela (1969); García Márquez:
historia de un deicidio (1971, tese de doutorado); La orgía perpetua: Flaubert y Madame Bovary
(1975); Entre Sartre y Camus (1981); La utopía arcaica, José María Arguedas y las ficciones del
indigenismo (1996); Cartas a un joven novelista (1997); El lenguaje de la pasión (1999); Bases
para una interpretación de Ruben Darío (2001, tese de licenciatura); La verdad de las mentiras
(2002); La tentación de lo imposible: Los Miserables de Victor Hugo (2004); Un demi-siècle avec
Borges (2004).
Alguns de seus romances foram adaptados ao cinema:
A cidade e os cachorros (La ciudad y los perros). Direção de Francisco J. Lombardi, 1985, 135
min.
Jaguar (The jaguar). Direção de Sebastián Alarcón, 1986, 90 min.
A Paixão de Júlia (Tune in tomorrow). Direção de Jon Amiel, 1990, 107 min.
Pantaleão e as visitadoras (Pantaleón y las visitadoras). Direção de Francisco J. Lombardi, 2000,
137 min.
A festa do ditador (La fiesta del chivo). Direção de Luis Llosa, 2005, 132 min.
Para saber mais sobre o autor, acesse <http://www.mvargasllosa.com/> e <http://www.clubcultura.
com/clubliteratura/clubescritores/vargasllosa/home.htm>
Podemos considerá-la como ficcional, em primeiro lugar, porque
seu paratexto assim nos indica, conforme a ficha catalográfica —
“romance peruano” (p. 04) e a epígrafe de Paul Valéry — “Que seria,
pois, de nós, sem a ajuda do que não existe?” (p. 07). O afastamento da
mera reprodução dos fatos e sujeitos históricos já começa a ser definido
nas abas do dito livro, onde Wladir Dupont afirma que estamos diante
de um romance. Esse tradutor da destacada criação do escritor peruano
para a língua portuguesa informa que “embora também baseado em fatos
comprovados, é apresentado de forma mais vagarosa, reflexiva, permeado
de voos mais literários”.
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
Localizado o estabelecimento do pacto romanesco, por meio
dos expedientes antes identificados, a economia da narrativa permite
inferir, apesar das volumosas descrições espaciais, que aí ocorre um
visível predomínio do interno sobre o externo, conforme atestam várias
incursões ao íntimo dos dois protagonistas. Tal veiculação se dá por
meio de uma mistura de discurso indireto livre com discurso dirigido ao
modelo, esse, em segunda pessoa, característico de biografias laudatórias.
Referida mescla discursiva é paralela à intercalação dos capítulos (um
centrado em Flora, outro em Paul), bem como à utilização combinada
desses nomes e dos apelidos dos protagonistas (Andaluza/Madame-laColère e Koke), denotando um jogo do narrador entre distanciamento e
aproximação às personagens.
A instância narrativa, desse modo, descreve com propriedade:
os mal-estares de Flora, suas dores de estômago e útero; a repugnância
perante o sexo com o marido; as paixões homossexuais por Olympia
Maleszewska e Eléonore Blanc; os galanteios e assédios, por parte de
vários homens com os quais não concretiza relações sentimentais; sua
comoção diante das ínfimas condições de trabalho dos operários com
quem mantém contato, em peregrinações “diaspóricas”. O despertar
da consciência da protagonista, que a leva a agir, conscientizando os
trabalhadores face às injustiças sociais, acontece na viagem a Arequipa
(Peru), quando seu navio aporta em Cabo Verde, onde se depara com as
atrocidades da escravidão.
8
Verbete
Unidade
Diáspora: Utilizamos “diáspora” em conformidade com Stuart Hall, ao tentar definir a situação e o
sentimento dos que, como ele, já não pertencem à terra de onde partiram nem ao local escolhido
para morar. Cf. HALL, Stuart. Quem precisa da identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.).
Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. p.
103-33.
Nas partes do romance que dizem respeito a Gauguin, são
frequentes as experiências sexuais desse, descritas com detalhes, assim
como seu processo criativo e reflexões sobre a arte e o fazer artístico; sua
emoção frente à morte da filha, Aline Gauguin, e ao sofrimento da mãe,
Aline Chazal, a qual chegou a padecer abusos sexuais por parte do pai.
Outros indicadores da relevância dada ao fator interno da personagem
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Módulo 6 I
Volume 3
201
Literatura, Imaginário, História e Cultura
são: seu casamento com a dinamarquesa Mette Gad; a paixão pela
bretã Madeleine Bernard; as desavenças com Vincent Van Gogh; os
envolvimentos amorosos com a javanesa Anah, as nativas taitianas Titi
Peitinhos, Pau’ura e Teha’amana, bem como com a marquesana Vaeoho;
o calvário perante as transformações ocasionadas pela sífilis, contraída
no Panamá em 1887.
Tanto em relação à vida de Gauguin quanto à de Flora, não é
verificada a construção de personagens como tipos, nem de subjetividades
unificadas, uma vez que esses protagonistas são desvelados em suas
complexidades individuais, não se constituindo monoliticamente. Para
escapar à pobreza, vivenciada após 1807, ano da prematura morte do
pai, de quem é filha bastarda, Florita vai trabalhar na oficina de gravura
e litogravura do mestre André Chazal em 1819. O casamento com o
patrão resulta em três filhos — Alexandre, Ernest-Camille e Aline — e
numa série de maus tratos, que a levam ao campo em 1825, alegando
necessidade de recuperação do primogênito, o qual morrerá em 1831.
Apesar de agredir a mulher, Chazal sempre vence processos contra ela e
pela guarda dos filhos.
Visando fugir do esposo e da justiça, a protagonista embrenhase pelo interior da França em 1832. Durante o calvário em que sua vida
se transforma, visita o primo, Dom Mariano de Goyeneche, na cidade
de Bordeaux. Na casa dele, refugia-se por quase um ano, após deixar
Aline sob os cuidados de uma senhora que se apieda de sua história.
Ficando com o pai, Ernest-Camille falecerá posteriormente. Dom
Mariano providencia a viagem da prima a Arequipa. Ela tem por objetivo
convencer Dom Pio Tristán a reconhecê-la como filha legítima do irmão
desse poderoso peruano. Planeja, com isso, aferir renda que proporcione
conforto material e espiritual a si mesma e a seus dois filhos, longe do
desequilibrado marido. Frustrada essa expectativa, a Andaluza retorna a
seu país em 1835.
Permanece na França até 1838, informando-se, participando de
encontros literários e políticos, escrevendo obras resultantes de sua
observação das sociedades que visitou. Em 1839, Flora vai a Londres,
presencia grotescos espetáculos de humilhações a meretrizes, praticados
pelos ricos da cidade, e decide entregar-se à causa revolucionária. Após
202
Letras
EAD
Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
intensa atividade em prol da conscientização dos trabalhadores, viajando
a várias cidades francesas, Madame-la-Colère falece em 1844. Segundo
a própria definição, evolui de pária a ativista feminista e socialista. Seu
posicionamento político e sua sexualidade não são dados como absolutos,
mas se vão construindo em relação com o Outro, do mesmo modo que
seus pontos de vista sobre a religião.
Por sua vez, Gauguin conhece a experiência diaspórica ao morar,
ainda criança, no Peru. Os deslocamentos espaciais se intensificam
quando ele serve por sete anos à marinha, de 1865 a 1871. Depois, trabalha
na bolsa de valores de Paris e se casa em 1873. A vida burguesa, à qual
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Unidade
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parecia se conformar, desmorona-se quando se encontra com a pintura
e parte com a família à Dinamarca em 1884, de onde retorna em 1885,
separando-se da mulher. Necessitando abrir mão da comodidade para se
habilitar à vocação, segue uma perspectiva idealista, que o leva a vivenciar
as seguintes diásporas: Panamá e Martinica (1887); Bretanha (de 1888 a
1890) e Taiti (1891-1893).
No último desses lugares, o artista busca o paraíso perdido, a
ser reencontrado entre os selvagens. Entretanto, aí havendo somente
estilhaços de um mundo livre dos preconceitos e do racionalismo
europeus, retorna à França, onde fica até 1895, quando volta ao Taiti,
de onde sai para as ilhas Marquesas em 1901. Ele crê que o arquipélago,
onde morre em 1903, abrigaria os últimos resquícios de uma vida regida
pelo prazer, a liberdade sexual e a ausência do dinheiro. Também pensa
encontrar o canibalismo e a primitiva arte da tatuagem. Igual a sua avó,
Koke está em constante movimento, em eterna procura das utopias,
que fazem valer o sentido semântico de não-lugar, do qual se reveste
tal palavra. Ademais, a experiência homossexual do artista com um taata
vahine ou mahu, quer dizer, com um homem-mulher taitiano, delata a
multiplicidade e a provisoriedade da sua identidade sexual, distanciandose dos papéis tradicionalmente definidos de homem e mulher.
No romance em análise, não ocorre uma idealização do passado,
mas tanto a natureza dos referentes quanto sua relação com o mundo
real são problematizadas. A falta de indicativos da origem dos dados
biográficos aí inseridos não estabelece a pura configuração do gênero
biográfico, a ser regido pela semelhança, devendo definir a que campos
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
do real aponta. Inicialmente, o livro é merecedor de averiguação sob
o prisma dos Estudos Culturais por se aproximar a uma notação — a
biografia — que não compõe o conjunto da “alta cultura” e vem sendo
recebida com êxito pelo público, assim como alcançando ampla difusão
pelos meios mediáticos.
Por outro lado, sua proximidade — e concomitante não
enquadramento — ao romance histórico faz com que transite por
aqueles entrelugares tão caros aos estudos pós-estruturalistas, os quais se
constituem numa das mais significativas importações teóricas realizadas
pelos Cultural Studies britânicos. A posição relativa de limiar, de locallimite, ocupada pela referida narrativa, em função de sua impureza, é
notada nesta passagem: “nem francês nem europeu, Paco. Embora minha
aparência diga o contrário, sou um tatuado, um canibal, um desses negros
lá do Taiti” (VARGAS LLOSA, 2003, p. 131).
A representação da América Latina, região outrora colonizada, bem
como a resposta às narrativas-mestras europeias, provinda de um escritor
cujo berço é uma ex-colônia, habilitam esse artefato de Vargas Llosa a certa
perspectiva pós-colonialista, evidente na visão de que a arte deve “abrir-se
ao mundo, misturar-se às demais culturas, arejar-se com outros ventos,
outras paisagens, outros valores, outras raças, outras crenças, outras formas
de vida e de moral” (VARGAS LLOSA, 2003, p. 446). Da mesma forma,
o entrecruzamento das vidas dos protagonistas opera como exercício de
literatura comparada, ao justapor: um homem e uma mulher; dois períodos
distintos (meados e fim do século XIX); diferentes sociedades (França,
Peru, Inglaterra, Taiti e ilhas Marquesas); os escritos autobiográficos de
Flora e a obra pictórica de Gauguin.
Todos os indícios pós-estruturalistas, pós-coloniais e
comparatistas, detectados, mas aqui não aprimorados, em virtude do
enfoque culturalista, servem para confirmar a existência das mencionadas
zonas de correspondência entre tais formulações críticas e as preocupações
dos Estudos Culturais. Uma vez que o romancista peruano é doutor
em Filosofia e Letras e também exerce atividades de crítico, parece
transformar em prática literária seus conhecimentos das teorias mais
proeminentes do século XX, abrindo-se a todas essas possíveis leituras,
e pondo em ação a fecunda interdisciplinaridade que passara a balizar
204
Letras
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
os Estudos Culturais na década de 1970, a partir do reconhecimento
dos limites dos estudiosos em relação a áreas afins, como a economia, a
história e a sociologia.
Dessa maneira, o autor em destaque insere, no plano de seu
romance, os três mais importantes sinais que o Culturalismo desenvolve
até os anos de 1980: o caráter interdisciplinar; a renovação dos objetos e
dos problemas da cultura; a combinação entre pesquisa e engajamento. A
recusa das hierarquias acadêmicas não passa apenas por aquela espécie de
paródia da biografia, mas igualmente pela divulgação de textos populares
e não canônicos, aproveitados na narrativa ficcional lloseana. No que se
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Unidade
8
refere à construção de Flora, destacamos os opúsculos escritos pelo ser
histórico que inspira essa personagem: A união operária; Peregrinações
de uma excluída; As peregrinações de uma pária; Sobre a necessidade de
dar uma boa acolhida às estrangeiras; Passeios por Londres. Por outra via,
as menções a Fourier, Proudhon, Robert Owen, Saint-Simon, e ao livro
A viagem por Icaria, de Étienne Cabet, provocam a recirculação desses
autores, situados à margem do “socialismo científico”.
Muitas vezes tratados como representantes do “socialismo
utópico”, sendo desprezados por sua carga de ingenuidade e bizarrice,
tais pensamentos desalojam outros “nobres” motivos de intertexto. Do
mesmo modo, a organização dos capítulos dedicados a Flora é orientada
por eventos que se desenrolam entre abril e novembro de 1844, à
maneira de um diário íntimo, outra subespécie do gênero biográfico. As
constantes viagens da memória, inseridas para recompor o passado da
protagonista, reforçam a modificação verificada no emprego dos objetos
dignos de estudo e o questionamento do cânone ocidental, literário
ou historiográfico. É o que também ocorre no segmento centrado em
Gauguin, pois todos os capítulos aí constantes são organizados em função
de telas produzidas pelo artista. Além disso, registramos a referência ao
livro que o teria inspirado a viajar ao Taiti: Le mariage de Loti ou Rarahu,
de Pierre Loti.
Por curioso que possa parecer, não são as posições liberais de
Vargas Llosa que vêm à tona quando ele combina sua pesquisa histórica,
resultante em artefato literário, com uma perspectiva engajada. Tal
engajamento se manifesta, entre outros fatos, na crítica à circulação
205
Literatura, Imaginário, História e Cultura
do sistema literário, vulnerável às repercussões ideológicas da mídia, e
representada pelas dificuldades que a imprensa impõe à venda dos livros
de Flora, por ela mesma realizada, de porta em porta. Não deixa de ser
irônica a observação de uma das mais divulgadas premissas econômicas
do liberalismo — a lei do mercado — responsável pelo pauperismo
do fim da vida de Gauguin, o qual somente após a morte alcança alta
cotação nas flutuações das bolsas de arte europeias. Essas engrenagens
mercadológicas assim nos são mostradas por Néstor Garcia Canclini:
Tanto o artista que, ao pendurar os quadros, propõe uma
ordem de leitura quanto o artesão, que articula suas peças
seguindo uma matriz única, descobrem que o mercado
os dispersa e ressemantiza ao vendê-los em países
diferentes, a consumidores heterogêneos. Ao artista
restam às vezes as cópias, ou slides, e algum dia um museu
talvez reúna esses quadros, de acordo com a reavaliação
que experimentaram, em uma mostra na qual uma ordem
nova apagará a enunciação ‘original’ do pintor. Ao artesão
resta a possibilidade de repetir peças semelhantes, ou ir
vê-las — seriadas em uma ordem e em um discurso que
não são os seus — num museu de arte popular ou em
livros para turistas” (CANCLINI, 2003, p. 330).
Todavia, a remodelação da sociedade e de suas formas artísticas
pode coincidir com as demandas dos movimentos sociais. A dimensão
histórica do romance convoca vozes reprimidas pela história, ao
elencar visões de dois seres à margem da sociedade do século XIX, em
função da etnia, da posição social, da sexualidade e do gênero. Além
de contar com Flora e Gauguin, a órbita romanesca é composta
por outras personagens off-centro: escravos, homossexuais, índios,
latino-americanos, meretrizes, mulheres, polinésios, proletários,
negros. Apenas tangenciadas, quando não excluídas, por tradicionais
compêndios de feição historicista ou positivista, as histórias de seres excêntricos são contempladas pelo narrador, entremeando-se às vidas dos
dois protagonistas.
Ilustram tal ocorrência, dentre outras, as passagens: da prostituta
encontrada por Gauguin no Panamá, conhecida por encarnar uma
versão local do mito da “vagina dentada”; das meninas vendidas pela
própria família no Taiti; da freira arequipenha que se evade do convento,
206
Letras
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
simulando a própria morte. Também compondo esse conjunto, destacase especialmente a figura feminina envolvida na atrapalhada revolução
que
começou quando, em Lima, a Convenção Nacional elegeu,
para suceder ao presidente Agustín Gamarra, que terminou
seu mandato, o grande marechal dom Luis José de Orbegoso,
em vez do general Pedro Bermúdez, protegido de Gamarra
e, sobretudo, da mulher deste, dona Francisca Zubiaga de
Gamarra, apelidada de Marechala, uma personagem cuja
auréola de aventura e lenda a fascinou desde que dela ouvira
falar pela primeira vez. Dona Pancha, a Marechala, vestida
de militar, havia combatido a cavalo ao lado de seu marido e
governado com ele. Quando Gamarra ocupou a presidência,
ela teve tanta ou mais autoridade que o marechal nos assuntos
do governo e não vacilou em puxar uma arma para impor
sua vontade, em brandir o chicote ou em esbofetear quem
não lhe obedecesse ou respeitasse, como teria feito o mais
beligerante macho (VARGAS LLOSA, 2003, p. 277). Unidade
8
A interdisciplinaridade não se firma somente com as notadas
ex-centricidades, peculiares ao Pós-modernismo, mas também com as
correntes reestruturadoras dos estudos historiográficos. Do mesmo
modo que os Estudos Culturais, essas tendências, abrigadas sob o rótulo
de “Nova História”, cobram vigor a partir da segunda metade do século
XX. Como os novos historiógrafos, Vargas Llosa valoriza a oralidade,
procedendo a frequentes reenvios, contextualizações e rememorações
de fatos contados em outros momentos da trama. Os casos lembrados
pela memória recobram importância, remetendo a essas narrativas,
transmitidas de geração a geração, de que é exemplo aquela controvertida
batalha peruana:
E se todas aquelas batalhas fossem tão disparatadas como a
que você presenciou na Cidade Branca? Um caos humano
que, depois, os historiadores, para satisfazer o patriotismo
nacional, convertiam em coerentes manifestações de
idealismo, valor, generosidade, princípios, nelas apagando
tudo que fosse medo, estupidez, avidez, egoísmo, crueldade
e ignorância da maioria, sacrificada de maneira implacável
pela ambição, pela cobiça ou pelo fanatismo da minoria. [...]
Sim, Florita: a história vivida era de um ridículo cruel, e a
escrita, um labirinto de imposturas patrioteiras (VARGAS
LLOSA, 2003, p. 307-308).
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
A recorrência a personagens localizadas na base da pirâmide
social conforma o campo da “história vista de baixo”, ângulo também
favorecido pelo pintor da obra pictórica A irmã de caridade, cuja voz é
processada pelo autor do livro O paraíso na outra esquina: “Um quadro
que mostrava a total incompatibilidade de duas culturas, de seus costumes
e religiões, a superioridade estética e moral do povo fraco e avassalado
e a inferioridade decadente e repressora do povo forte e avassalador”
(p. 480). Aos marcados intertextos com a economia e a história, somase o diálogo com a sociologia, por meio de uma perspectiva que não
ratifica as redutoras oposições binárias opressor x oprimido, dominante
x dominado, centro-periferia, ao considerar as diversas condições através
das quais se processa a hegemonia, por cujo intermédio são alocadas a
direção e a manutenção de determinada ordem social, tanto em sociedades
periféricas (América Latina, Polinésia) quanto em capitalistas centrais
(Europa).
Você sabia?
História vista de baixo: O termo provém do ensaio de Edward Thompson (1966), nomeando
abordagens alternativas à história das elites. Abre possibilidades de sínteses mais ricas do processo
histórico, proporcionando meio de reintegrá-lo aos que podiam tê-lo por perdido. SHARPE, Jim. A
história vista de baixo. In: BURKE, 1992, p. 38-62.
As ações dos grandes industriais e banqueiros europeus, das elites
locais e dos colonos do terceiro mundo, aliadas à presença das igrejas
católicas e protestantes, não são vistas como determinadas. Do contrário,
é enfatizada a criação da própria história dos oprimidos por meio de sua
luta social, a investir contra o poder financeiro e patriarcal no segmento
protagonizado por Flora e contra a moral burguesa na parte centralizada
em Gauguin. Em lugar de um posicionamento populista, que abordaria as
culturas à margem da dominante, mas continuaria a ter essa como legítima,
notamos o relevo dado às estruturas de sentimento, responsáveis, junto
a outros fatores, pelas diferenças entre as identidades nacionais, étnicas,
sexuais ou regionais. A observação mais próxima das interações sociais no
cotidiano e dos significados e valores culturais das diferentes sociedades
revela um quadro em que a sombria Europa se descortina tão ou mais
miserável do que a América Latina e a Polinésia. Essas duas regiões são
narradas com sol e colorido, ainda que não seja omitido o enorme abismo
208
Letras
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
entre suas classes, nem obliteradas as circunstâncias e estruturas de suas
pobrezas.
A presença de uma cultura dominante (branca europeia) assegura
comunicação imediata entre todos os seus membros, radicados na
própria matriz ou em outros continentes, contribuindo à desmobilização
das classes dominadas (índios, escravos, proletários europeus etc.). A
ordem estabelecida é legitimada através da hierarquização, de maneira
que as culturas dominadas se definem por sua distância em relação à
dominante. A hierarquia se estabelece, fundamentalmente, por meio
do poder simbólico do jornal, do romance e do cristianismo, seja ele
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católico ou protestante. As culturas locais ou regionais, contrapostas
a essa forma de dominação, dão sinais de resistência, como nas festas
taitianas onde os nativos usufruem a liberdade sexual, nas celebrações
religiosas dos indígenas peruanos, nas crenças e superstições desses
povos, na manutenção das línguas quíchua no Peru e maori na Polinésia.
Por sua vez, Flora e Gauguin resultam do consenso entre
culturas em choque, mesmo que se oponham à cultura dominante. Eles
capitalizam simbolicamente os frutos dessa oposição e de suas inclinações
às culturas subalternas, transferindo-os à ação política e artística, que os
torna reconhecidos nessas áreas, embora tardiamente. Contra a vontade
de ambos, a extrema-unção recebida pela feminista e o enterro do pintor
em cemitério católico são sintomáticos do poder simbólico, “uma forma
transformada, quer dizer, irreconhecível, transfigurada e legitimada, das
outras formas de poder” (BOURDIEU, 2004, p. 15).
A força dos símbolos hegemônicos, a advogar uma identidade
constituída na negação do Outro, transparece nos mundos sociais
do século XIX. A representação dessas sociedades, alicerçadas sob a
bandeira da construção de nacionalidades homogêneas, faz com que
aflorem questões correspondentes à virada etnográfica sofrida pelos
Estudos Culturais a partir da década de 80 do século XX. Assim,
Madame-la-Colère e Koke fazem parte de um manifesto processo de
degradação dos limites que moldam tanto suas identidades individuais
quanto as culturas nacionais do Peru, Taiti e ilhas Marquesas, de França
e Inglaterra. Os protagonistas são definidos através de suas situações
relativas a diversas coordenadas (classe, etnia, gênero, nação), não se
209
Literatura, Imaginário, História e Cultura
reduzindo a uma delas. Estreitamente vinculando-se a isso, são levados
em conta os fluxos migratórios, ocorridos massivamente nos anos de
1800, e a homogeneização/diferenciação, presentes em tal época, ainda
que só tivessem se agravado no final do século XX, pondo em risco a
organização do Estado-nação, da cultura e da política nacional:
No mundo contemporâneo, essas ‘comunidades imaginadas’
estão sendo contestadas e reconstituídas. A idéia de uma
identidade européia, por exemplo, defendida por partidos
políticos de extrema direita, surgiu, recentemente, como
uma reação à suposta ameaça do ‘Outro’. Esse ‘Outro’
muito freqüentemente se refere a trabalhadores da África
do Norte (Marrocos, Tunísia e Argélia), os quais são
representados como uma ameaça cuja origem estaria no seu
suposto fundamentalismo islâmico. Essa atitude é, cada vez
mais, encontrada nas políticas oficiais de imigração da União
Européia (King, 1995). Podemos vê-la como a projeção de
uma nova forma daquilo que Edward Said (1978) chamou de
‘orientalismo’ — a tendência da cultura ocidental a produzir
um conjunto de pressupostos e representações sobre o
‘Oriente’ que o constrói como uma fonte de fascinação
e perigo, como exótico e, ao mesmo tempo, ameaçador
(WOODWARD, 2000, p. 24).
Ainda sob o prisma da reconfiguração dos Estudos Culturais, as lutas
verificadas no romance dão-se no terreno dos movimentos sociais, como
provam a insuflação dos marquesanos contra os impostos, realizada por
Koke, e as pregações da Andaluza, visando à união dos operários franceses,
independentemente de agremiações partidárias. Outra importante marca da
virada etnográfica é o desvendamento dos mecanismos de codificação/
decodificação, relacionado à ativa receptividade dos produtos da mídia,
principalmente, da televisiva. A aferição dessa incidência numa obra
literária torna-se um pouco dificultada, em virtude da indisponibilidade
dos meios interativos de que a televisão se utiliza, muitos deles, financiados
por merchandising, campanhas governamentais, anúncios publicitários etc.
Entretanto, não deixa de ser conveniente a averiguação da maneira pela
qual o livro, como produto cultural, tem sua recepção orientada, não por
profissionais das letras, mas pelos representantes da grande imprensa.
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
No caso da edição brasileira d’O paraíso na outra esquina, isso é
atestado por sua contracapa, onde cintilam três releases apreciativos de
talhe impressionista, extraídos dos jornais O Estado de São Paulo, Folha
de São Paulo e O Globo, todos do centro do país. Na discussão do circuito
de produção-circulação-recepção dos artefatos literários, também não
poderíamos passar ao largo de um fato que nos vem provocando, desde a
primeira leitura do romance em apreciação: a simpatia do autor por suas
personagens revolucionárias e libertárias. Isso poderia ser tomado como
estratégia de marketing e se vincular a uma abordagem de economia
política da mídia e da cultura, viés um pouco esquecido pelos Estudos
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Culturais desde os anos de 1980, com a despolitização e marginalização
dos “pais fundadores” (Hoggart, Thompson, Williams, Hall), em
benefício de autores catalogados como pós-modernos.
Então, reconhecendo seu público-alvo naqueles que poderiam
comungar com suas discussões teóricas sobre a literatura, será que
Vargas Llosa estaria submetendo suas concepções ideológicas direitistas
ao raciocínio econômico da rentabilidade em curto prazo e se orientando
em função dos horizontes de expectativas de seus virtuais leitores? Caso
essa hipótese pudesse ser confirmada, não teria sido mais fácil associarse à moda da relativização e da desconstrução indiscriminadas? No
entanto, o escritor peruano conserva a perspectiva do embate, da prática
construtora dos espaços de negociação e transformação, aliando-se às
questões com as quais se defrontam os Estudos de Cultura nos anos de
1970 e que devem ser retomadas, não seria demais repetir.
O estatuto do cultural, a observação das conexões interdisciplinares
produtivas e o modo como o engajamento pode mover o trabalho
intelectual são trazidos à luz pelo romance em tela, cuja ambientação
no século XIX parece sinalizar para as mudanças na economia global.
Nesta fase do sistema econômico mundial, a que Frederic Jameson
chama de “capitalismo tardio” (JAMESON, 1996), as lutas passam a
ser fragmentadas, agrupando-se majoritariamente em torno de entraves
sofridos por grupos que, em muitos casos, já não são minoritários.
As necessidades de entrada no mercado de trabalho, reconhecimento
dos direitos civis, livre orientação sexual ou mesmo de um visto de
permanência revelam-se mais urgentes do que os dogmas revolucionários.
211
Literatura, Imaginário, História e Cultura
As condições objetivas e subjetivas de uma radical
transformação da ordem vigente veem-se obstaculizadas
em virtude da dispersão do proletariado, cujos patrões
estão, a cada dia, mais distantes e inacessíveis, em função
da internacionalização do capital. Em tal cenário, ganham
importância a volta da história no domínio da literatura, a
ênfase na recepção e a atenção aos estudos pós-coloniais,
juntamente com a rejeição aos binarismos rígidos ao redor
da cultura de massa e da alta cultura. Como os Estudos
Culturais se constituem numa formação discursiva, não têm
origem única, abarcam discursos múltiplos e se recusam
a ser uma grande narrativa, resultam proveitosas suas
interdisciplinaridades.
Desse modo, a prática analítica mostra-se frutífera
ao considerar as políticas culturais da diferença, de lutas
em torno do diferente, da produção de novas identidades
e da entrada de novos sujeitos na cena política e cultural,
como bem observa Stuart Hall (2003, p. 25-50). É assim
que a estruturação d’O paraíso na outra esquina oxigena o
dominante gênero romanesco (WATT, 1990, p. 261-262),
valendo-se de estratégias da biografia que, por sua vez, se
constitui em expressão de uma cultura residual, a termos
em vista sua gênese e expressividade no Ocidente do século
XVIII, a pequena utilização posterior e a revitalização por
que passa no final do século XX.
Configura-se então uma tradição emergente,
geralmente associada a posicionamentos em torno da
revitalização do passado discursivo e de novas identidades,
até então marginalizadas pelo discurso literário hegemônico,
mas que passam a compor o cenário sociocultural da Pósmodernidade. Exemplar dessa emergência, o romance
em exame mostra que os pluricentros geográficos nele
representados correlacionam-se às multidimensionalidades
dos sujeitos nele envolvidos. Narrador e personagens
indicam que o paraíso das utopias pode estar sempre mais
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
adiante, mas o engajamento não foi abolido, nem substancialmente
modificado ao se hibridizar na “atuação” de Canclini ou na “agência” de
Homi Bhabha.
Você sabia?
Atuação: Mais do que ações, as práticas culturais são atuações. Representam, simulam as ações
sociais, mas só às vezes operam como ação. Talvez o maior interesse para a política de considerar
a problemática simbólica não resida na eficácia pontual de certos bens ou mensagens, mas em que
os aspectos teatrais e rituais do social evidenciam o oblíquo, o simulado e o distinto em qualquer
interação. Ver: CANCLINI, 2003, p. 350.
Agência: A agência pós-colonial é a ação que subverte o discurso imperialista. Os elementos de
consciência social imperativos para a agência (ação deliberativa, individuada e especificidade de
análise) podem ser pensados agora como externos à epistemologia que insiste no sujeito anterior
ao social ou no saber do social negando a diferença particular na homogeneidade transcendente do
geral. Cf. BHABHA, 2003, p. 239-274.
Unidade
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Mudam, sim, as arenas onde os combates são travados, de modo que
um livro, uma disciplina acadêmica, um trabalho crítico se desincumbem
da ilusória pretensão de sozinhos desafiarem as estruturas de um poderio
multipolar que se solidifica vertiginosamente neste terceiro milênio.
Entretanto, ao revelarem os mecanismos de fixação e manutenção da
hegemonia, e ao oferecerem meios de expressão às culturas subalternas,
operam como locais de combate, cuja eficácia fica comprometida caso se
desalojem de práticas sociais correspondentes e mutuamente implicadas
às renovações da esfera teórica. Já que o romance aqui analisado se desvia
das posições conservadoras publicamente assumidas por seu autor, restanos torcer para que o fracasso do político liberal continue a ceder espaço
ao sucesso do romancista engajado, num tempo em que, tal como no
filme italiano A classe operária vai ao paraíso, esquerda e direita também
esbarram em problemas de identidade.
Atenção!
Referimo-nos ao filme A classe operária vai ao paraíso (1971), no qual um operário-modelo
defronta-se com a tensão entre a descoberta da consciência de classe e os sonhos de consumo da
classe média.
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
7 ATIVIDADES
1. Qual o conceito de espaço biográfico? Discuta-o no chat.
2. Em que se aproximam e diferem autobiografia, autobiografismo,
biografia e biografismo? Encaminhe suas respostas ao tutor.
3. Indicamos os seguintes textos para leitura, a serem divididos entre a
turma: CINTRA, ASSIS. As amantes do Imperador. Disponível em:
<http://www.visionvox.com.br/biblioteca/a/as-amantes-do-imperador.
pdf>. CINTRA, ASSIS. Os escândalos de Carlota Joaquina. Disponível
em: <http://www.miniweb.com.br/historia/Artigos/i_contemporanea/
PDF/carlota.pdf>. SETÚBAL, Paulo. A Marquesa de Santos.
Disponível em: <http://www.superdownloads.com.br/download/115/
marquesa-de-santos-paulo-setubal/redir.html>.
VÁRZEA, Virgílio. George Marcial. Disponível em: <http://www.
literaturabrasileira.ufsc.br/_documents/georgemarcial-virgilio.
htm#Duas_palavras>.
Resuma, critique, analise essas obras literárias, de acordo com o que você
aprendeu na presente aula. Compartilhe suas respostas na Plataforma
Moodle. A partir das postagens de seus colegas, compare os textos entre
si.
4. Assista ao primeiro capítulo da telenovela Dona Beija, disponível
em: <http://www.youtube.com/watch?v=dOrlJCOVpmc>. Em quais
aspectos essa produção mediática se aproxima aos livros anteriormente
lidos? Como aí aparecem tópicos já estudados sobre cultura de massa e
indústria cultural? Discuta essas questões no chat.
5. Escute o samba-enredo “Xica da Silva”, apresentado em 1963 pelo
G.R.E.S Acadêmicos do Salgueiro e preste atenção na letra, disponível
em < http://letras.mus.br/salgueiro-rj/683008/>. Em que aspecto
esse samba-enredo assemelha-se aos textos analisados neste capítulo?
Como os autores da canção apresentam a personagem homenageada?
Para aprofundar sua reflexão, relacione a letra do samba com outras
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Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
informações sobre a protagonista: leia o romance Xica da Silva (1976)
de João Felício dos Santos, assista ao filme homônimo dirigido por Cacá
Diegues (1976, 107 min) e à telenovela produzida pela extinta Rede
Manchete (1996-1997), disponível por capítulos em: <http://www.
dailymotion.com/relevance/search/xica+da+silva/1>. Encaminhe seu
trabalho ao tutor.
6. Recomendamos a trilha sonora da peça Chico Canta, composta para
a montagem da peça Calabar, elogio da traição em 1973, na qual se
destacam:
“Cala a boca Bárbara” (disponível em <http://www.youtube.com/
watch?v=MT-BxQ98CWA&feature=related>.
“Fado Tropical”, disponível em <http://youtu.be/CYkodkdpo1Y>.
“Vence na vida quem diz sim”, disponível em: <http://youtu.
be/8WFb9vwWFMg>.
8
“Não existe pecado ao sul do Equador”, disponível em: <http://www.
youtube.com/watch?v=mH4yZRRPc8M>. Escute essas canções, atente
a suas letras. Você reconhece alguns dos nomes nelas citados? Com qual
notação literária aqui estudada as personagens e situações se relacionam?
Desenvolva seu raciocínio na Plataforma Moodle.
Unidade
8 RESUMINDO
Apesar de encontrarem variados desdobramentos na
contemporaneidade, múltiplos gêneros e espécies (auto)biográficos
comungam da característica de veicularem “narrativas do eu”, quer dizer,
de contarem, embora de diferentes maneiras, uma história ou experiência
de vida. A narrativa biográfica se identifica pela narração retrospectiva,
em terceira pessoa e sob uma perspectiva ampla. O gênero biográfico
difere de outros gêneros que compõem o espaço biográfico, como a
autobiografia, o diário íntimo, as memórias e o romance autobiográfico,
porque o narrador não fala dele próprio, mas de um outro, deixando suas
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Módulo 6 I
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Literatura, Imaginário, História e Cultura
impressões no sujeito do enunciado.
Num texto autobiográfico, torna-se fundamental a estruturação
do tempo, a articulação da perspectiva narrativa e a expressão da
subjetividade. O narrador interfere subjetivamente na configuração,
selecionando eventos e os interpretando de maneira conveniente. O
conhecimento dos fatos passados pode contribuir à construção de uma
imagem favorável, pois o autor se vale da focalização onisciente sob a
própria vida. Ao conhecer o desfecho da história, terá todas as chances
de reforçá-la ou de alterá-la.
Hábil orador, o padre Antônio Vieira produziu o “Sermão pelo
bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda” (1640) quase
ao final da invasão holandesa. Ele mostrava claramente sua defesa aos
portugueses e seu repúdio aos holandeses, contaminando-a com posições
individuais e aspectos de sua vida privada. Isso confirma que o sermão
analisado se apresenta como uma obra que, além de ser ao mesmo tempo
histórica e literária, se marca pelo autobiografismo.
João Felício dos Santos, em seu romance Major Calabar (1960),
realiza uma hibridização - dos gêneros biográfico e romanesco - mistura
da qual resulta um romance biográfico que recorre à história, recontando
reconta a invasão holandesa a estas terras. Embora centrado na dinâmica
de uma vida, seu livro focaliza o sujeito mestiço que se tornou importante
numa época durante a qual as pessoas de sua raça eram desprezadas,
escravizadas e maltratadas.
Do mesmo modo que Major Calabar, encontramos um romance
biográfico na obra literária de Mario Vargas Llosa (2003) intitulada O
paraíso na outra esquina. Nesse, porém, temos duas histórias de vida que
se cruzam por tempos diferenciados, embora um dia se encontrem, e
um maior predomínio do interno sobre o externo, do privado sobre o
público, do indivíduo sobre o tipo e do invento sobre o evento.
As análises dos dois romances permitem notar o retorno da
história aos domínios da literatura, a ênfase na recepção, as questões
identitárias e a rejeição aos binarismos rígidos em torno da cultura
de massa e da alta cultura. Como os Estudos Culturais se constituem
numa formação discursiva, não têm origem única, abarcam discursos
múltiplos e se recusam a ser uma grande narrativa, resultam proveitosas
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Letras
EAD
Espaço Biográfico: Consumo, História, Cultura
suas interdisciplinaridades. E assim vamos chegando a nossa última aula.
Passou rapidinho, viu?
9 REFERÊNCIAS
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Ugo Tucci. Itália: Euro International Film, 1971. 01 videocassete.
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Volume 3
221
Literatura, Imaginário, História e Cultura
Suas anotações
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