_______________________________________________________________________________ CAPÍTULO 4 USO DO SOLO E COBERTURA VEGETAL Por Edgar Shinzato, Patrícia Duringer Jacques e Ari Délcio Cavedon 4.1 Aspectos Gerais A área de estudo é atravessada na direção oesteleste pelos rios João de Tiba, Buranhém, dos Frades e Caraíva ao sul. É servida por várias rodovias de tráfego permanente, como a BR-101, BR-367 e BA001. Fisiograficamente, compreende três paisagens distintas: uma correspondente à faixa litorânea representada pelas falésias e planícies fluviomarinhas; os tabuleiros costeiros do Terciário; e a superfície pré-litorânea com a colinas remanescentes do cristalino. Os municípios de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália possuem uma paisagem bastante diversificada, especialmente determinada pelas características do relevo, apresentando fortes contrastes: escarpas elevadas à beira-mar; colinas e vales, restingas e praias planas; florestas tropicais e a área de tabuleiros costeiros, que ocupa a maior parte das terras. O ponto mais elevado da região é o monte Pascoal, localizado ao sul, próximo à cidade de Itamaraju. A área próxima ao litoral é caracterizada por um clima quente e úmido. Para oeste, a umidade diminui sensivelmente e esboça-se o regime pluviométrico de uma estação seca. Entre as atividades agrossilvipastoris, destacamse silviculturas de eucalipto e seringueira, pecuárias bovina e bubalina, fruticultura de mamão, culturas de café e cana-de-açúcar e pequenas produções de culturas anuais, como milho, feijão e mandioca. O turismo é a principal atividade da região, tendo sempre o litoral como o eixo de crescimento. Para o interior, destaca-se a silvicultura de eucalipto. Em 1975, a Ceplac realizou vários estudos para o Diagnóstico Sócio Econômico da Região Cacaueira, sendo um deles Dinâmica do Uso da Terra. Esse trabalho teve como base imagens de radar, fotos aéreas e etapa de campo, em que foi possível realizar um mapeamento na escala 1:750.000. Em 1976, a Ceplab publicou o Atlas do Estado da Bahia: A Bahia nos Séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, na escala 1:2.500.000, contendo vários cartogramas com os principais uso das terras do estado. A Cei (1994) publicou o mapa de Uso Atual das Terras: Centro Sul, Sul e Extremo Sul da Bahia, englobando a presente área de estudo, utilizando para tanto imagens orbitais em escala 1:100.000 e imagens em preto-e-branco na escala 1:500.000. Este levantamento vem complementar os trabalhos citados no sentido de promover um maior conhecimento da região em estudo, além de propiciar uma análise temporal da ocupação das terras desses municípios. 4.2 Metodologia Para o reconhecimento dos padrões de uso e cobertura utilizaram-se, principalmente, as imagens orbitais do satélite Landsat-5TM e fotografias aéreas na escala 1:108.000. Também foram consultadas ortofotocartas, escala 1:15.000, para eventuais áreas duvidosas no estabelecimento da classe. Constou também de duas etapas de campo, para verificação dos padrões fotointerpretados, e coleta de dados para a análise estatística. O pré-processamento consistiu no georreferenciamento e mosaico das cenas. Na etapa de correção geométrica, utilizou-se o método de interpolação do vizinho mais próximo. Esse método, segundo Crosta (1992), é aquele que mais preserva o valor do nível de cinza dos pixels que compõem a imagem, tornando-a adequada quando se processa a classificação automática na imagem previamente corrigida. Após detalhada análise das imagens, optou-se por realçá-las, para facilitar o discernimento entre os alvos. Foram utilizadas algumas técnicas de processamento de imagens, dentre as quais: NDVI, Análise dos Principais Componentes (APC) e transformação IHS. Dentre estas, a que melhor mostrou resultado para todo o estado foi a APC, que destacou as bandas 7, 4 e 3 como tendo maior variabilidade entre si. Dessa forma, foi feita a composição colorida nas bandas 7 no canal vermelho, 4 no canal verde e 3 no canal azul. Sobre a imagem com essa combinação foram selecionadas 67 as áreas de treinamento (trainning sites) para cada classe. É importante salientar que, apesar de as áreas de treinamento terem sido coletadas nas imagens com tratamento, esse método de classificação digital foi aplicado nas imagens originais, apenas georreferenciadas. Iniciou-se, então, a classificação supervisionada pelo método da máxima verossimilhança. Com o objetivo de eliminar ruídos inerentes ao processo automático, representados por pixels isolados ou pequenos grupos de pixels, as imagens classificadas foram submetidas a um filtro de média, utilizando-se uma máscara de dimensão de 3 x 3 pixels. Paralelamente aos trabalhos de escritório, foram realizadas duas campanhas de campo. Em função disso, os 250 pontos visitados se concentraram nas regiões específicas de dúvida ou erro. Com base nas observações feitas durante as campanhas de campo, foram feitos ajustes e edições que resultaram no mapa final de uso do solo e cobertura vegetal. 4.3 Classes de Uso do Solo e Cobertura Vegetal Através da classificação supervisionada e dos trabalhos de campo, puderam ser discriminadas as seguintes classes: Floresta Primária, Floresta Secundária (estágio avançado de regeneração), Floresta Secundária (estágio intermediário de regeneração), Floresta Secundária (estágio inicial de regeneração), Mata de Galeria, Mata Cabruca (Cacau), Florestas Hidrófilas e Higrófilas de Várzea, Campos Hidrófilos e Higrófilos de Várzea, Área Urbana, Pasto Limpo, Pasto Sujo, Associação Pasto Limpo e Pasto Sujo, Associação Pasto Sujo e Floresta Secundária (estágio inicial de regeneração), Silvicultura de Eucalipto, Silvicultura de Seringueira, Fruticultura (coco, banana, laranja, maracujá, abacaxi, pinha e graviola), Culturas Perenes (urucum, mamona, cravo-da-índia e pimenta-do-reino), Cultura de Cana-de-Açúcar, Cultura de Café, Cultura de Mamão, Culturas Anuais (abóbora, pepino, feijão, milho e mandioca), Associação Solo Exposto e Praias e Afloramentos de Rocha, Vegetação de Restinga, Campos Naturais, Mangue e Corpos d’Água. A área ocupada pelas diversas classes, calculada com base nos cartogramas digitais, encontra-se discriminada no Quadro 4.1. 4.3.1 Floresta Primária A Floresta Primária propriamente dita é raramente encontrada, salvo em pequenas áreas cujo mapeamento é incompatível com a escala de trabalho (1:100.000). Esses núcleos residuais encontram-se embutidos na Floresta Secundária, formando verdadeiros mosaicos. Neste trabalho, considerou-se como Floresta Primária, principalmente, as reservas e parques florestais que ainda guardam uma certa conformação que se assemelha bastante à Floresta Primária original. A vegetação primária, conforme resolução Conama nº 05/94 (Brasil, 1990), é aquela com grande diversidade biológica, com mínimo de influência antrópica de tal forma a não afetar significativamente suas características originais de estrutura de espécies. Segundo tese defendida por alguns pesquisadores, essa vegetação deveria ser classificada como Floresta Secundária, mas isso englobaria todas as florestas num só grupo, o que dificultaria o próprio planejamento de uso dessas áreas. Na composição florística, dominam as espécies arbóreas. As espécies pioneiras e secundárias tardias podem ocorrem em graus de freqüência e densidade que variam segundo o tamanho da área de tombamento ou morte dos indivíduos, formando pequenos mosaicos de regeneração. Essas áreas de Floresta Primária correspondem em sua totalidade à Mata Atlântica, que, por sua vez, corresponde à Floresta Ombrófila Densa (Foto 4.1). Caracteriza-se por um habitat ou bioma bem definido, com no mínimo 200mm de média pluviométrica anual, suficiente para o desenvolvimento dos indivíduos componentes da floresta. Supõe-se que somente em alguns pontos foi realizada a extração de árvores do pau-brasil (Caesalpinia echinata Lam.) e do jacarandá-da-baía (Dalbergia higra). A Floresta Primária ocupa tanto as áreas situadas sobre os tabuleiros costeiros quanto as suas encostas, formando as florestas de galerias, que não foram mapeadas nessa escala de trabalho. Segundo os levantamentos executados pela Veracel na Estação Vera Cruz, as florestas sobre os platôs possuem dossel superior com altura média maior que 35m, apresentando vários estratos e uma grande camada de serrapilheira com espécies típicas compreendendo: pau-brasil (Caesalpinia echinata Lam.), jacarandá-da-baía (Dalbergia higra), jussara (Euterpe edullis Mart.), paraju (Manilkara longifolia), massaranduba (Manilkara brasiliensis Miq.), bombad’água (Hidrogaster trinerve Klulman), arapati (Arapatiella psilophyla Cowam), gindiba (Slonea gaudichaudii Trécul), imbiruçu (Bombax macophyllum K & Schum), bicuíba (Virola bicuhyba Schot), jureanavermelha (Parkia pendula Benth.), mangue-da-mata (Tovomita guyanensis Aubl.), uruçuca (Vochysia sp.), jatobá (Hymenaea rubriflora Ducke), óleocorumbá (Macrolobium latifolium Vog.), ingá (Inga spp.), araçá (Psidium spp.), licurana (Alchornea iricurana Casar) e tararanga (Pouroma mollis Aubl). 68 km2 321,58 (%) 13,46 Santa Cruz Cabrália km2 (%) 76,21 4,92 6,58 0,28 12,12 0,79 Floresta Secundária (Estágio Intermediário de Regeneração) 285,24 12,03 395,96 25,60 Floresta Secundária (Estágio Inicial de Regeneração) 119,50 5,00 126,84 8,20 Mata de Galeria 220,77 10,03 77,24 5,00 Mata Cabruca (Cacau) 17,02 0,71 Floresta Hidrófilas e Higrófilas de Várzea 27,01 1,13 12,42 0,80 Campos Hidrófilos e Higrófilos de Várzea 61,65 2,58 16,83 1,09 Área Urbana 26,61 1,11 20,27 1,31 Pasto Limpo 548,99 22,18 162,25 10,49 Pasto Sujo 13,57 0,57 16,20 1,05 Pasto Limpo e Pasto Sujo 292,16 12,22 115,94 7,49 Pasto Sujo e Floresta Secundária (Estágio Inicial de Regeneração) 169,13 7,08 91,35 5,90 Silvivultura de Eucalipto 89,62 3,75 319,32 20,65 Silvicultura de Seringueira 12,07 0,51 0,75 0,05 Fruticultura (Coco, Banana, Laranja, Maracujá, Abacaxi, Pinha e Graviola) 5,50 0,23 8,14 0,53 Culturas Perenes ( Urucum, Mamona, Cravo-daÍndia, Pimenta-do-Reino) 0,94 0,04 1,13 0,07 43,98 2,85 Classe de Uso e Cobertura Vegetal Floresta Primária Floresta Secundária (Estágio Avançado de Regeneração) Porto Seguro Cultura de Cana-de-Açúcar Cultura de Café 7,70 0,23 0,83 0,05 Cultura de Mamão 30,58 1,28 4,52 0,29 Culturas Anuais (Abóbora, Pepino, Feijão, Milho e Mandioca) 0,79 0,03 2,58 0,17 Solo Exposto e Praias e Afloramentos de Rocha 13,05 0,55 0,88 0,06 Vegetação de Restinga 56,61 2,37 13,06 0,85 Campos Naturais 53,81 2,25 22,84 1,48 Mangue 8,01 0,34 5,05 0,33 Corpos d´Água 1,43 0,06 Quadro 4.1 – Distribuição das classes de uso do solo e cobertura vegetal. 69 4.3.2 Floresta Secundária (Estágio Avançado de Regeneração) 4.3.3 Floresta Secundária (Estágio Intermediário de Regeneração) A Floresta Secundária ocorre pela eliminação total ou parcial da Floresta Primária por exploração de produtos florestais ou desmatamento para implantação de atividades agropecuárias. Essa tipologia tem duas origens: a exploração seletiva não-intensiva e desordenada e a exploração extrativista predatória. De acordo com resolução do Conama 05/94 (Brasil, 1990), o estágio avançado de regeneração da Floresta Secundária compreende um dossel fechado e uniforme, com fisionomia arbórea dominante, podendo apresentar árvores de porte elevado, com altura média superior a 12m (Floresta Ombrófila Densa). São áreas que, de alguma forma, sofreram inferência antrópica, como a retirada de madeiras nobres, provocando grande desuniformidade de altura no dossel superior e alterando as características originais da composição florística, não sendo mais classificadas como Floresta Primária. Essa formação é caracterizada também pela presença de um número elevado de epífitas, distribuição diamétrica de grande amplitude (superior a 18cm para Floresta Ombrófila Densa), trepadeiras geralmente lenhosas, serrapilheira abundante e considerável diversidade biológica devido à complexidade estrutural, apresentando fisionomia bastante semelhante à da Floresta Primária (Veracel, 1996). É encontrada, principalmente, nas proximidades de Santa Cruz Cabrália (Foto 4.2).e do rio Jequitinhonha, parte norte, e também ao centro, próximo a Porto Seguro. Compreende a Floresta Ombrófila Densa, onde se destaca a ocorrência de espécies como: jureana-vermelha (Parkia pendula Benth.), pequi (Cryocar edule), bomba-d’água (Hidrogaster trinerve Klulman), óleo-de-copaíba (Copaifera lucens), pau-paraíba (Simarouba amara Aubl.), conduru (Brosimum spp.), pau-jangada (Apeia tibour), oiti (Couepia rufa), ingá (Inga spp.), putumuju (Centrolobium tomentosum), arapati (Arapatiella psilophyla Cowam), jussara (Euterpe edullis Mart.), óleo-corumbá (Macrolobium latifolium Vog.), araçá (Psidium spp.), licurana (Alchornea iricurana Casar), murta (Myrcia sp.), pimenteira (Xylopia frutescens Aubl), dentre outras (Veracel, 1996). A piaçadeira (Attalea funífera), espécie endêmica da região, oferece vários produtos e permite uma atividade rentável, constituindo-se em uma das espécies responsáveis pela manutenção da floresta na área. Difere da Floresta Secundária (estágio avançado de regeneração) por apresentar modificações na altura média do dossel superior e da composição florística típica (Foto 4.3). Predomina a fisionomia arbóreo-arbustiva sobre o estrato herbáceo, podendo constituir estratos diferenciados com altura média entre 5 e 12m para Floresta Ombrófila Densa e distribuição diamétrica com diâmetro à altura do peito (DAP) variando entre 8 a 18cm, de acordo com resolução do Conama de 1994. De acordo com os trabalhos desenvolvidos pela Veracel na Estação Vera Cruz, destacam-se as seguintes espécies: pequi-de-capoeira (Miconia multiflora (bompl.) DC.), murici (Byrsonima sericea DC.), aderninho (Astronium concinnum (Engl)), pau-paraíba (Simarouba amara Aubl.), ingá (Inga sp.), pau-pombo (Tapinira guianensis Aubl.), milhotorrado (Licania kunthiana Hook), pindaíba (Guatteria sp.), mundururu-branco (Miconia dodecandra (Desr.) Congn.), tararanga (Pouroma mollis Aubl.), matataúba (Schefflera morotodoni (Aubl.) Decne. & Planche), velame (Croton florisbundus Spreng) e murta (Myrcia sp.). 4.3.4 Floresta Secundária (Estágio Inicial de Regeneração) Segundo resolução do Conama 90/94 (Brasil, 1990), para Floresta Ombrófila Densa, a Floresta Secundária (estágio inicial de regeneração) apresenta fisionomia herbáceo-arbustiva de porte baixo, com altura média inferior a 5m e pequena amplitude diamétrica com DAP inferior a 8cm (Foto 4.4). A camada de serrapilheira é fina, pode apresentar trepadeiras, muitas espécies pioneiras e ausência de sub-bosque. São áreas ditas “capoeiras”, com pequena diversidade vegetal, onde foram totalmente desmatadas ou destruídas pelo fogo, estando em processo inicial de colonização por espécies florestais. Compreende a vegetação típica de vales abandonados, pastos sem manutenção, geralmente com solos de baixa fertilidade e degradados; entretanto, permite o retorno do processo de regeneração florestal (Foto 4.5). Como principais representantes, podemos citar: murici (Bursonima sericea DC.), pau-pombo (T. guianensis Aubl.), embaúba (Cecropia palmata Wild.), copiã (Vismia ferruginea H.B.K.), velame (Croton florisbundus Spreng), (Miconia multiflora (bompl.) DC.)), quaresmeira (Tibouchina sp.), gurindiba (Trema micrantia (L.) Blume) e pororoca (Rapanea ferruginea Aubl.) (Veracel, 1996). 70 Distribuem-se por toda a área, principalmente nos vales a sudoeste próximos à cidade de Itabela, onde dominam os pastos sobre as colinas do cristalino. 4.3.5 Mata de Galeria Compreende as formações florestais típicas dos vales que entrecortam os tabuleiros e as colinas, margeando os cursos d´água. Dentre essas formações estão as Florestas Primárias e as Secundárias em estágios avançado, intermediário e inicial de regeneração. A Mata de Galeria apresenta vários estratos e, dessa forma, possui um número de plantas epífitas superior ao dos tabuleiros. Destacam-se como espécies típicas o jatobá (Hymenaea rubriflora Ducke), jussara (Euterpe edullis Mart.), óleo-corumbá (Macrolobiu latifolium Vog.), ingá (Inga spp.), araçá (Psidium spp.), arapati (Arapatiella psilophylla Cowam) e licurana (Alchornea iricurana Casar) (Veracel, 1996). 4.3.6 Mata Cabruca (Cacau) O cacau (Teobroma cacao) é originário da Amazônia, tendo sido introduzido no litoral sul da Bahia por volta de 1870, numa região praticamente ocupada com vegetação primária. Na fase inicial de ocupação para o plantio dos cacaueiros, elevadas porções do território eram completamente desmatadas; posteriormente, passou-se a utilizar processos de retirada seletiva da floresta. Com a intensificação dos cultivos de cacau, ocuparam-se os vales, encostas e em, muitos lugares, o topo dos morros, não sendo o relevo um fator limitante para o avanço da cultura. O sistema cacau-cabruca é definido como aquele que elimina o sub-bosque, deixando o estrato dominante e co-dominante da floresta, promovendo, em alguns casos, um raleamento no dossel superior para proporcionar uma melhor condição de luz e aeração, benéficos para a cultura do cacau. Ambientalmente, é um sistema ecológico de cultivo agroflorestal, composto basicamente por áreas de cacaueiro e fragmentos florestais primários e secundários. Atualmente, esse sistema é encontrado apenas na região do vale do rio do Peixe/Buranhém e, ao sul, sobre as colinas do cristalino, nas proximidades de monte Pascoal. Mesmo assim, são áreas praticamente abandonadas e infestadas pela “vassoura-de-bruxa”, enfermidade essa que é uma das grandes responsáveis pelo abandono da cultura do cacau na região. 4.3.7 Florestas Hidrófilas e Higrófilas de Várzea É a formação florestal típica das várzeas assentados sobre solos hidromórficos e/ou aluviais, com predomínio do estrato arbóreo sobre o herbáceo. São áreas que se encontram sempre inundadas (hidrófilas) ou com inundações freqüentes (higrófilas) (Foto 4.10). São formadas por espécies vegetais emergentes e flutuantes, tendo como espécie típica a sinfonia (Symphonia globulífera). Estão englobadas nessa tipologia pequenas porções de florestas aluviais remanescentes e que, por questões de escala, não foram individualizadas. Ocorrem nas planícies aluviais dos rios João de Tiba, do Peixe/Buranhém, dos Frades e Caraíva. 4.3.8 Campos Hidrófilos e Higrófilos de Várzea São comunidades que também se desenvolvem em áreas permanente ou periodicamente alagadas e em associações com a unidade anterior, sendo típicas das áreas de várzeas (Foto 4.11). Dominam as espécies vegetais submersas, emergentes e flutuantes, compreendendo o domínio de plantas herbáceas, como as ciperáceas, gramíneas e espécies de famílias como nymphaeaceae, alismataceae, melostomaceae, salviniaceae e potenderiaceae. É comum a ocorrência de taboa (Typha dominguensis) e golfo-aquático (Nymphaea amazonum), que se desenvolvem na lâmina d’água, e de várias pteridófitas, como o Pteridium aquilinum (Brito, 1999). São também chamadas de brejos e ocorrem, principalmente, na planície aluvial dos rios do Peixe/Buranhém, João de Tiba, Santo Antônio, dos Frades, Caraíva e também na parte litorânea, nas proximidades de Santo André e Santa Cruz Cabrália. 4.3.9 Área Urbana Essa classe compreende áreas ocupadas pelas edificações e pelo sistema viário. Engloba todo o sistema urbano das cidades, municípios, distritos, vilas e vias pavimentadas. Vale ressaltar que a detecção das áreas urbanas foi limitada pela resolução espacial das imagens (30m). Portanto, pequenas cidades ou vilas não foram detectadas na classificação. A maior concentração urbana localiza-se na região litorânea, principalmente nas cidades de Porto Seguro (Foto 4.26), Arraial D’Ajuda, Santa Cruz Cabrália e Coroa Vermelha. Existe um pequeno eixo populacional no trajeto de Porto Seguro para o interior em direção à cidade de Eunápolis, compreendendo os distritos de Vera Cruz e Pindorama. 71 4.3.10 Pasto Limpo Essa classe compreende pastagens bem cuidadas, com pequena porcentagem de invasoras. Periodicamente, a pastagem é replantada, para obterse um melhor rendimento de produção. A pecuária é uma das principais atividades econômicas da região sul da Bahia. A implantação de pastagem plantada para o suporte da pecuária deu-se a partir da década de 1920, ocupando as áreas de florestas, capoeiras, mata cabruca e de outros usos. Na região de Porto Seguro, principalmente ao sul e a oeste, desenvolvem-se grandes áreas com pecuária sobre pastagem plantada (Foto 4.7). São geralmente utilizadas com as brachiárias (Brachiarias decumbens, Brachiarias humidicola) nos terrenos mais movimentados, e brachiarão (Brachiaria brizanta) nos solos de relevo mais plano e com maior disponibilidade de água. As brachiárias desenvolvem-se bem em solos ácidos e de baixa fertilidade natural. Observa-se, também, o uso de capim-colonião, sempre-verde e bengo. Até 1970, a produção regional era orientada quase que exclusivamente para gado de corte, assumindo, a partir de então, o desenvolvimento da pecuária leiteira. A criação de búfalos na região, apesar de ser bastante pequena em relação ao bovino, contribui para o incremento do rebanho do município, aumentando a opção de ocupação dos terrenos mais problemáticos, como é o caso dos solos tiomórficos das planícies aluviais do rio dos Frades (Foto 4.8). 4.3.11 Pasto Sujo A classe Pasto Sujo refere-se às áreas cobertas por gramíneas (capim-colonião, gordura, brachiária, entre outras). São pastos naturais e/ou abandonados, que estão geralmente associados aos Pastos Limpos. Encontram-se com porcentagens significativas de invasoras, como araçá-mirim, assa-peixe e pequenos bolsões de arbustos esparsados na área (Foto 4.6). Corresponde aos primeiros processos de regeneração vegetal da Floresta Secundária (estágio inicial de regeneração). Admitem-se também áreas em processo de regeneração natural e que, além da infestação com espécies herbáceas, apresentam espécies lenhosas, caracterizando o que se denomina “capoeirinha” e “capoeira rala”. Localizam-se tanto nas partes altas do relevo como também nas áreas de baixada sujeitas a inundações. 4.3.12 Pasto Limpo e Pasto Sujo Corresponde à associação das áreas com Pasto Limpo e Pasto Sujo, descritas anteriormente e que, por motivo de escala, não puderam ser individualizadas. Incluem-se áreas transicionais entre as pastagens plantadas e os pastos abandonados ou sem maiores cuidados de manejo. Como as áreas de encosta são sempre mais problemáticas quanto ao manejo da pastagem, são, muitas vezes, deixadas em segundo plano pelo produtor. Esse fato, somado ao processo de formação de terracetes, promove uma degradação da pastagem e do solo de tal forma que se origina, aí, um mosaico de áreas expostas, configurando também esse padrão transicional. 4.3.13 Pasto Sujo e Floresta Secundária (Estágio Inicial de Regeneração) Compreende a associação da classe Pasto Sujo e Floresta Secundária (estágio inicial de regeneração), que não foi individualizada por motivo de escala de trabalho. Admitem-se, também, áreas em processo de regeneração natural e que, além da infestação com espécies herbáceas, apresentam espécies lenhosas, caracterizando o que se denomina “capoeirinha” e “capoeira rala”. As áreas transicionais entre essas classes são aquelas que não apresentam investimentos de formação ou de manejo da pastagem durante um longo período, possibilitando a intensa infestação de invasoras e formação de arbustos em porcentagens significativas. 4.3.14 Silvicultura de Eucalipto Compreende a cultura do eucalipto de propriedade da Veracruz Celulose S.A., representada por plantios clonais de eucaliptos (Eucaliptus grandis). São grandes manchas distribuídas em toda a região sul da Bahia, ocupando principalmente as partes altas e mais planas dos tabuleiros costeiros. Os terrenos de interflúvios amplos são prefenciais para essa cultura, pois facilita o processo de mecanização e manejo do eucalipto. Estão distribuídos em talhões, que se diferenciam por tempo de corte, isto é, por idade de plantio, possuindo grande uniformidade do dossel arbóreo com altura e diâmetro bastante homogêneos entre os indivíduos (Foto 4.18). 4.3.15 Silvicultura de Seringueira A produção da seringueira na Bahia está concentrada no litoral sul e foi introduzida em Ituberá no início do século passado. Com a diminuição da produção asiática na época da Segunda Guerra Mundial, criou-se uma grande demanda da borracha no mercado externo, abrindo perspectivas para aumento da produção nacional. A 72 expansão da cultura da seringueira na década de 1960 foi contida pelo ataque de pragas e doenças ocorridas nos seringais. Mesmo com a criação do Probor em 1972, programa de incentivo à borracha, não se conseguiu alavancar a produção dessa cultura. Além disso, descobriu-se que a exploração da seringueira no sistema de monocultura era bem menos produtivo que o sistema originário da Amazônia, onde se aproveitava a diversidade da floresta amazônica. A seringueira apresenta porte arbóreo e dossel bastante homogêneo. É cultivada na parte de topo e mais plana dos tabuleiros costeiros (Foto 4.19) onde, muitas vezes, permite-se plantar outras culturas nas entrelinhas, como é o caso do café ou culturas anuais que se desenvolvem sob sombreamento. Para se alcançar um bom rendimento, a colheita da seringueira deve ser iniciada antes do nascer do sol até poucas horas depois. Necessita, portanto, de grande quantidade de mão-de-obra, o que encarece os custos de produção, tornando-a muitas vezes uma atividade pouco rentável. 4.3.16 Fruticultura (Coco, Banana, Maracujá, Laranja, Abacaxi, Pinha e Graviola) A fruticultura é uma atividade agrícola ainda pequena na região, tanto em termos de área quanto em valor da produção. À exceção da cultura do mamão, descrita mais adiante, podemos citar coco, banana, maracujá, laranja e abacaxi como as fruteiras mais desenvolvidas nessa região (Fotos 4.14 e 4.15). Outras culturas, como pinha, graviola e pitanga, também estão sendo implantadas, com uso de sistemas tecnificados de produção, como a irrigação localizada (Fotos 4.16 e 4.17). Como são produzidas em baixa escala, essas frutas são consumidas, preferencialmente, na região. Pela proximidade de grandes centros produtores de fruteiras, como Livramento do Brumado, Juazeiro e Petrolina (PE), a região pouco compete com a produção e exportação de frutas. bons preços praticados para o café nesses últimos anos. No processo de substituição, o mamão, em fase final de colheita, funciona como fornecedor de sombra, necessária ao desenvolvimento do café na sua fase inicial. O mamão somente é plantado na parte plana e de topo dos tabuleiros costeiros. Uma vez que o mamão não aceita competição por nutrientes, principalmente, com as ervas daninhas, as entrelinhas estão sempre expostas, não permitindo com isso o seu cultivo na encosta. 4.3.18 Culturas Perenes (Urucum, Mamona, Cravo-da-Índia e Pimenta-do-Reino) As culturas perenes compreendem aquelas que possuem seu ciclo reprodutivo prolongado, geralmente, superior a um ano. Depois da cana-deaçúcar e do café, os cultivos mais representativos da região correspondem ao urucum (Fotos 4.20 e mamona, cravo-da-índia e pimenta-do-reino (Foto 4.22). O cultivo de cana-de-açúcar e café será descrito mais adiante, por se tratar de culturas bastantes expressivas na região em questão. O urucum, que é utilizado na fabricação de corantes, é produzido em pequena escala. Assim como o óleo de mamona, o urucum é exportado para a região Sudeste. O cravo-da-índia e a pimenta-doreino são consumidos localmente. 4.3.19 Cultura de Cana-de-Açúcar A cana-de-açúcar compreende uma das culturas perenes mais representativas da região, principalmente para Santa Cruz Cabrália. A presença de uma usina de álcool propiciou o desenvolvimento e a manutenção dessa cultura até os dias de hoje (Foto 4.21). Essa classe encontra-se dominantemente na porção norte de Santa Cruz Cabrália; na região de Porto Seguro, apenas aparece em pequenas áreas que, pela limitação da escala, não puderam ser individualizadas. 4.3.17 Cultura de Mamão 4.3.20 Cultura de Café A fruticultura do mamão é a classe de fruteiras mais representativas da região (Foto 4.13), totalizando valores acima de mil hectares plantados só no município de Porto Seguro, segundo dados do IBGE. Atualmente, observa-se um declínio da produção devido aos baixos preços praticados no mercado interno e ao aumento da competição com outros países no mercado externo. A cultura do mamão vem sendo substituída pela do café em função da estabilidade de mercado e dos O café constitui-se numa cultura de grande importância na região, visto a estabilidade dos preços praticados no mercado nos últimos anos. Seguindo a expansão no estado do Espírito Santo, o café tem-se propagado na região sul da Bahia sobre os tabuleiros costeiros em substituição ao cultivo do mamão. A baixa dos preços do mamão e as dificuldades de manejo da cultura têm motivado essa substituição. É comum observar mamoeiros em fase final de colheita sendo substituídos pelo café ainda 73 em fase de sombreamento, propiciado pela própria cultura do mamão. As áreas de expansão do café têm-se ampliado além dos limites da área ocupada com o mamão. Isso pode ser explicado pelo aproveitamento da encosta com o cafezal, espaço não ocupado pela cultura do mamão, pois essa fruteira somente é cultivada na parte plana de topo dos tabuleiros. Essa alteração com a ocupação da encosta, até então dominada por pastagem ou florestas secundárias, poderá causar um grande impacto quanto à erosão do solo. Apesar de o café ser uma cultura perene, com pouca remoção de terra no seu manejo, as linhas de plantio sempre ficam descobertas e, dependendo da declividade, da classe de solo e da precipitação, o risco à erosão se acentua. 4.3.21 Culturas Anuais (Abóbora, Pepino, Feijão, Milho e Mandioca As culturas anuais, em geral, têm ciclo reprodutivo inferior a um ano. A mandioca é o representante de maior ciclo, podendo passar de um ano de cultivo. Atualmente, constitui o representante mais significativo dessa classe com, aproximadamente, 900ha plantados, segundo dados do IBGE para o município de Porto Seguro. O feijão assume o segundo lugar, com 120ha. Outras culturas anuais de menor expressão, como o feijão (Foto 4.23), milho, pepino e abóbora (Foto 4.25), também são cultivados na região. 4.3.22 Solo Exposto e Praias e Afloramentos de Rocha Os Solos Expostos correspondem às áreas desprovidas de vegetação ou de cultura, excetuandose os Afloramentos de Rocha. As áreas com culturas em estágios iniciais de desenvolvimento também se enquadram nessa classe por apresentarem um padrão bem esparso de cobertura do solo. Estão também inseridas as áreas degradadas tanto pela erosão quanto pelo uso agrícola, os aterros e as áreas em fase de preparo do solo para plantio, sendo esse último o de maior expressão geográfica (Foto 4.29). Apesar de as restingas apresentarem significativas áreas também desprovidas de vegetação, não foram consideradas nessa classe, pois foram individualizadas em uma classe distinta. As Praias compreendem depósitos de sedimentos, mais comumente arenosos, acumulados por ação de ondas que, por apresentarem mobilidade, ajustam-se às condições de ondas e maré. Representam, por essa razão, um importante elemento de proteção do litoral, ao mesmo tempo em que são amplamente usadas para o lazer. As Praias variam em forma e tamanho, diferindo-se quanto ao recuo das falésias (Foto 4.27) e ocorrência de recifes de corais e arenitos de praia. Por ocorrerem em pequena proporção, os Afloramentos de Rocha foram incluídos nessa classe. Destaca-se apenas o monte Pascoal, localizado ao sul da área de estudo. 4.3.23 Vegetação de Restinga Restingas são faixas alongadas de areia, paralelas à linha de costa, formadas, principalmente, por sedimentos arenosos transportados e empilhados pelo mar. Essas áreas compreendem ambientes diferenciados, tais como: mangues, brejos, dunas, além de lagoas temporárias e permanentes, onde se encontram associações vegetais mistas características conhecidas como “vegetação de restinga” (Brasil, 1990). A vegetação que ocorre ao longo desses cordões arenosos apresenta-se nas formas arbórea, arbustiva e herbácea, desenvolvendo-se sobre as Areias Quartzosas Marinhas e Podzóis Hidromórficos, ambos com forte influência do mar. As restingas herbáceo-arbustivas da planície situam-se próximas aos cordões litorâneos, formando moitas esparsadas com áreas mais ou menos abertas e ocorrência de árvores isoladas. Nessa região, pode-se encontrar alguns gêneros de Poaceae (Axonopus e Chloris), Cyperaceae (Cyperus e Rhynchorpora), Arecaceae (Allagoptera, attalea, Bactris), Eriocaulaceae (Paepalantus e Syngonanthus), Bromeliaceae (Aechmea, Hoenbergia e Vriesia), Fabaceae (Andira, Canavalia, Desmodium, Stylosanthes, zornia), Caesalpiniaceae (Chamaecrista, Macrolobium), Mimosaceae (Mimosa), Malphigaceae (Byrsonima, Stigmaphyllum), Polygalaceae (Polygala), Sapindaceae (Cupania, Paulinia, Serjania), Dilleniaceae (Davilla), Cactaceae (Cereus, Melocactus), Lythraceae (Cuphea), Myrtaceae (Eugênia, Myrcia e Psisium), Apocynaceae (Hancornia, Mandevilla), Asclepiadaceae (Blephorodon, Ditassa e Oxypetalum), Solanaceae (Solanum), Convovulaceae (Ipomoea), Rubiacea (Borreria, Guettarda, Mitracarpus), Asteraceae (Aspilia, Calea, Baccharis, Mikania e Veronia). As principais áreas de ocorrência dessa vegetação são os extensos cordões arenosos na porção nordeste da região, no trecho entre o limite norte da área até Santa Cruz Cabrália, Coroa Vermelha, Itaquena (Foto 4.28) e, ao sul, próximo à Ponta do Corumbau. Entre os principais processos de degradação desses ambientes está a especulação imobiliária, causada pela grande valorização dos terrenos próximos ao litoral. A rápida expansão urbana, provocada pelo intenso fluxo turístico, tem promovido uma ocupação desordenada sobre as restingas de forma não planejada, acumulando 74 grandes problemas, principalmente de saneamento básico, resultando na poluição das praias e comprometendo a própria alimentação das espécies que nelas ocorrem. 4.3.24 Campos Naturais São formações vegetais com domínio herbáceoarbustivo associadas, principalmente, ao solo Podzol Hidromórfico, que compreende solos arenosos com camada de acumulação de matéria orgânica em subsuperfície. Essas áreas recebem a denominação local de “mussunungas”. Apresenta-se como um ecossistema frágil, de fácil degradação e de difícil recuperação. Dominam os solos arenosos, que possuem estruturas pouco desenvolvidas, baixa capacidade de retenção de umidade e de nutrientes, sofrendo na época das chuvas grande influência do lençol freático. A camada orgânica subsuperficial presente nesses solos muitas vezes funciona como uma barreira impeditiva tanto ao desenvolvimento radicular quanto à passagem de água. Nessas áreas desenvolve-se uma vegetação mais raquítica, de porte baixo e médio distribuída esparsadamente pelo terreno. É comum observar-se a ocorrência de campos de Eriocaulaceae (Paepalantus) (Foto 4.25), associadas com diversas Veloziaceas, Cyperaceas e Bromeliaceas. Ocorrem em todo o litoral, principalmente sobre as partes planas dos tabuleiros costeiros e parte da faixa litorânea. Estendem-se para o interior em formas alongadas, que podem chegar a mais de 13km contínuos, a exemplo de Santo André. Em geral, faz- se necessário o uso de aterros para a locomoção sobre esses terrenos arenosos, ou então, verifica-se a constante mudança da via de acesso para novos terrenos menos degradados. 4.3.25 Mangue Compreende a vegetação litorânea que ocorre na faixa intramarés (situada entre o ponto mais baixo da maré baixa e o ponto mais alto da maré alta), apresentando alta densidade de indivíduos com pouca diversidade de espécies vegetais em comparação a outros sistemas, como as florestas. Mesmo assim, constitui um dos ecossistemas mais produtivos do mundo. É uma vegetação adaptada às variações de pH, salinidade, diferença de potencial e saturação em água e que protege os continentes da erosão, reduz a poluição e garante a continuidade da cadeia alimentar nos oceanos. O manguezal pode se apresentar de forma arbustiva e arbórea, com árvores de até 15m de altura (Foto 4.29). Na região predominam três espécies de mangue: • Rhizophora mangle (mangue-vermelho): resistente aos embates das marés; • Avicennia chaeirana (mangue-preto): resistente à salinidade; • Laguncularia racemosa (mangue-branco): suporta melhor a poluição. Essa classe pode ser encontrada em várias localidades, como nas proximidades de Porto Seguro, na desembocadura do rio do Peixe/Buranhém e no rio dos Mangues – com domínio de espécies arbóreas; na desembocadura do rio Jardim e em Santa Cruz Cabrália, nos rios João de Tiba e Santo Antônio. Constatou-se grande degradação dos manguezais em toda a área do projeto, caracterizada por desmatamento e poluição provocada pelos dejetos urbanos e aterros. Podemos destacar, ainda, as atividades de sobrepesca e a extração de madeira para construção de casas para a população de baixa renda (Foto 4.30). Nas proximidades de Porto Seguro, observa-se uma grande influência da ação antrópica sobre esse tipo de vegetação, tendo como conseqüência a degradação do mangue com construções de aterros e palafitas (Foto 4.30). 4.3.26 Corpos d’Água Os Corpos d’Água são representados pelos rios e oceano. Tendo em vista a limitação na resolução espacial das imagens de satélite (30m), somente foram mapeados os de expressiva extensão, como os rios do Peixe/Buranhém (Foto 4.31), João de Tiba, dos Frades e o oceano Atlântico. 4.4 Conclusão A utilização de técnicas de sensoriamento remoto na confecção do mapa de Uso do Solo e Cobertura Vegetal referente ao Projeto Porto Seguro demonstrou, para a escala adotada, resultados satisfatórios, obtendo-se a individualização de 26 classes (Quadro 4.1). As classes: Vegetação de Restinga, Solo Exposto e Praias e Afloramentos de Rocha, Florestas Hidrófilas e Higrófilas de Várzea, Mangue e Corpos d’Água foram de fácil discriminação, pois apresentam características singulares nas imagens de satélite (seja pelo padrão, ou pelas bandas utilizadas). As classes Fruticultura, Cultura de Mamão, Culturas Perenes, Cultura de Cana-de-Açúcar, Cultura de Café, Culturas Anuais, Floresta Secundária, Pasto Limpo e Pasto Sujo e Área Urbana foram mais difíceis de serem identificadas, devido aos seguintes fatores: 75 • Heterogeneidade: As classes relacionadas à agricultura, por exemplo, dependendo da cultura e do ciclo de cultivo, apresentam diferentes respostas espectrais. • Similaridade de assinaturas espectrais: Determinados alvos foram erroneamente classificados por apresentarem níveis de cinza próximos aos de outras classes. Como, por exemplo, áreas de Floresta Secundária sendo classificadas como Mangue. • Defasagem temporal: Certas classes, como as relacionadas à agricultura, sofreram notáveis alterações entre a data de aquisição das imagens (1996) e as conferências realizadas nas duas campanhas de campo (1999). • Dimensão dos alvos: Alguns alvos de pequenas dimensões, sobretudo em relevo acidentado, não foram detectados. Essa limitação é notável, principalmente, nos pequenos cultivos localizados. Algumas classes, geralmente de pequenas dimensões, foram agrupadas em uma única, por limitação da escala, complexidade de individualização ou ainda pela pouca expressão na área. Vale ressaltar que as classes mapeadas representam grandes domínios, os quais incluem outras classes (terras indígenas, assentamentos rurais, pedreiras, malha viária). Entretanto, devido à escala utilizada, não foram espacializadas. A atividade agrícola da região é pouco desenvolvida, levando-se em conta o seu potencial, tanto no sentido de áreas aptas como de proximidade de mercado. A silvicultura do eucalipto ocupa grandes extensões nos dois municípios estudados e se expande com uma grande velocidade. Cerca de 80% do uso urbano localiza-se na região litorânea, tendo como conseqüência a degradação ambiental da região. A classe Pasto Limpo e Pasto Sujo ocupa mais da metade da área do projeto, enquanto a classe Floresta Primária ocupa menos de um quarto. A ocupação das terras do Projeto Porto Seguro, na forma em que ocorreu, resultou de um processo histórico onde as queimadas, o desmatamento e as atividades antrópicas em geral sucederam a uma ocupação e exploração sem maior planejamento, no que diz respeito à aptidão das terras e ao seu uso. 4.5 Recomendações • preservar os remanescentes de Mata Atlântica e, se possível, desenvolver programas de recuperação de áreas degradadas; • promover o desenvolvimento da atividade agrícola com o intuito, principalmente, de criar opções de trabalho para a população local; • estimular a fruticultura, seguindo os passos das culturas irrigadas de pinha e graviola, de alta rentabilidade e que se adaptaram bem a essa região; • realizar trabalhos em escalas maiores para o estabelecimento de medidas mais invasivas quanto ao planejamento do uso e ocupação das terras do Projeto Porto Seguro; • estabelecer campanhas de conscientização da sociedade quanto ao uso e preservação das encostas como forma de se prevenir os principais processos erosivos da região. 76 4.6 Bibliografia BRASIL. Ministério das Minas e Energia. Departamento Nacional da Produção Mineral. Projeto RADAMBRASIL. Folha SD.24/Salvador : geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação e uso potencial da terra. Rio de Janeiro : DNPM, 1991.il. ____. IBAMA. Resoluções do CONAMA 1984/90. Brasília, 1990. 232p. BRITO, I.C. Projeto Porto Seguro-Santa Cruz Cabrália: caracterização fitogeográfica. Salvador: CPRM, 1999. Convênio CPRM/ Prefeituras de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália. Programa Informações para Gestão Territorial – GATE. CAVEDON, A.D. & SHINZATO, E. Projeto Porto Seguro-Santa Cruz Cabrália: Levantamento de reconhecimento de solos. Salvador: CPRM, 1999. v. 4, 49p. Convênio CPRM/Prefeituras de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália. Programa Informações para Gestão Territorial – GATE. _____. Projeto Porto Seguro-Santa Cruz Cabrália: Capacidade de uso do solo. Salvador: CPRM, 1999. v. 4, 12p. Convênio CPRM/Prefeituras de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália. Programa Informações para Gestão Territorial – GATE. CEI – Centro de Estatística e Informações. Uso atual das terras: centro sul, sul e extremo sul da Bahia. Salvador, 1994. 42p. CEPLAB – Centro de Planejamento da Bahia. A Bahia nos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. In: Atlas do Estado da Bahia, Salvador, 1976. CEPLAC – Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira. Diagnóstico sócio econômico da região cacaueira. Reconhecimento climatológico. Ilhéus, 1975. v. 4. _____. Diagnóstico sócio econômico da região cacaueira. Dinâmica do uso da terra. Ilhéus, 1975. CROSTA, A.P. Processamento digital de imagens de sensoriamento remoto. Ed. rev. Campinas, 1992. 170p. FEEMA – Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente. Conceitos básicos de meio ambiente. Rio de Janeiro, 1990. 246p. IBGE – Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Manual técnico da vegetação brasileira. Manuais Técnicos em Geociências nº 1. Rio de Janeiro, 1992. _____. Recursos naturais e meio ambiente – uma visão do Brasil. Rio de Janeiro, 1993. _____. Produção agrícola municipal (PAM). Bahia, 1998. LEÃO, A.C. & GOUVÊA, J.B.S. Uso atual das terras da região cacaueira do estado da Bahia. Folhas Itabuna, Una, Potiraguá, Mascote e Canavieiras. Itabuna, 1977. (Bol.Técnico nº 8). SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA BAHIA. Uso da terra e cobertura vegetal: litoral sul da Bahia. Salvador : SEI, 1998. 104p. il. 2 mapas. (Série Estudos e Pesquisa, 34). VERACEL. Plano de manejo II. Eunápolis, 1996. p. 27-33. 77 4.7 Glossário Ação antrópica – relativa à ação do homem sobre os recursos naturais. Apicum – termo regional do Brasil; usado para os terrenos de brejo na zona costeira. Bioma – conjunto de seres vivos de uma determinada área. Cabeceiras – lugar onde nasce um curso d’água; parte superior de um rio, próximo a sua nascente. Cabruca – plantio de cacaueiros sob mata raleada, através da ação seletiva do homem, conservando as espécies florestais que apresentam melhor conformação de copa e porte e que não sejam prejudiciais ao cacaueiro. Capoeira – denominação dada às formações vegetais correspondentes aos estágios iniciais de regeneração florestal; são as formações em fase arbustiva de sucessão vegetal. Cultura anual – cultura com ciclo reprodutivo menor que um ano. Cultura perene – cultura com ciclo reprodutivo superior a um ano; as culturas com ciclos próximos de um ano são, às vezes, classificadas como semiperenes. Diâmetro à Altura do Peito (DAP) – diâmetro do tronco medido a 1,30m do solo; a unidade é utilizada em centímetros. Estação ecológica – são áreas representativas de ecossistemas brasileiros, destinadas à realização de pesquisas básicas e aplicadas à ecologia. Estádio – fase, período, etapa de desenvolvimento ou de crescimento. Fertilidade do solo – capacidade de produção do solo devido à disponibilidade equilibrada de elementos químicos, como potássio, nitrogênio, sódio, ferro, magnésio e da conjunção de alguns fatores, como água, luz, ar, temperatura e da estrutura física. Floresta higrófila – formação vegetal arbórea adaptada as condições de umidade. Floresta ombrófila – formação vegetal onde a maioria das espécies que a compõem suportam e/ou necessitam de sombra numa fase do seu desenvolvimento. Floresta primária – formação vegetal pouco ou não antropizada, geralmente localizada em locais de difícil acesso, ou é protegida por lei. Floresta secundária – formação vegetal que sofreu interferências antrópicas significativas o bastante para descaracterizá-la como primária. Lençol freático – lençol de água subterrâneo que se encontra em pressão normal e que se formou em profundidade relativamente pequena. Mangue – vegetação halófita tropical, arbórea ou arbustiva, com pouca diversidade de espécies, que se desenvolvem na vaza marítima da costa ou nos estuários dos rios. Planície de inundação – terras planas, próximas ao fundo do vale de um rio, inundadas quando o escoamento do curso d’água excede a capacidade normal do canal. Restinga – acumulações arenosas litorâneas, de formas geralmente alongadas e paralelas à linha de costa, produzidas pelo empilhamento de sedimentos transportados pelo mar. Rupestre – gravado, traçado ou desenvolvido sobre a rocha; vegetal que cresce normalmente sobre as rochas. Salinidade – medida de concentração de sais mineirais dissolvidos na água. Vaza – depósito argiloso, de partículas muito finas, de coloração cinza-escura, com acentuado odor fétido devido ao gás sulfídrico. Vertente – planos de declives variados, que divergem das cristas ou dos interflúvios, enquadrando o vale. 78 Foto 4.1 – Floresta Primária (Mata Atlântica) – Parque Nacional do Monte Pascoal. 79 Foto 4.2 – Floresta Secundária (estágio avançado de regeneração). Foto 4.3 – Floresta Secundária (estágio intermediário de regeneração). 80 Foto 4.4 – Floresta Secundária (estágio inicial de regeneração) – Capoeira. Foto 4.5 – Pasto Sujo associado à formação de capoeiras arbustivas. 81 Foto 4.6 – Pasto Sujo com invasoras. Foto 4.7 – Pasto limpo com brachiária e prática de pecuária de corte. 82 Foto 4.8 – Pasto limpo sobre solos tiomórficos com criação de búfalos –Várzea do rio dos Frades. Foto 4.9 – Solo exposto em conseqüência do desmatamento de cabeceiras com fragmento de Floresta Secundária (estágio intermediário de regeneração). 83 Foto 4.10 – Florestas Hidrófilas e Higrófilas de Várzea. Foto 4.11 – Campos Hidrófilos e Higrófilos de Várzea (rio Caraíva). 84 Foto 4.12 – Mata de galeria – rio do Peixe/Buranhém. Foto 4.13 – Fruticultura de mamão (papaya). 85 Foto 4.14 – Cultura de maracujá. Foto 4.15 – Fruticultura de cítrus (laranja). 86 Foto 4.16 – Fruticultura de pinha com sistema de irrigação localizada. Foto 4.17 – Fruticultura de graviola com sistema de irrigação localizada. 87 Foto 4.18 – Silvicultura de eucalipto (E. grandis). Foto 4.19 – Silvicultura de seringueira. 88 Foto 4.20 – Cultura perene – urucum. Foto 4.21 – Cultura de cana-de-açúcar. 89 Foto 4.22 – Cultura de pimenta-do-reino. Foto 4.23 – Cultura anual – feijão. 90 Foto 4.24 – Cultura anual – abóbora. Foto 4.25 – Campos Naturais – (Paepalantus). 91 Foto 4.26 – Uso Urbano – Porto Seguro, aeroporto e manguezal. Foto 4.27 – Praia e falésias (Outeiro das Brisas). 92 Foto 4.28 – Restinga com vegetação arbustivo-arbórea. Foto 4.29 – Vegetação de Mangue. 93 Foto 4.30 – Detalhe da ocupação sobre o manguezal. Foto 4.31 – Corpos d’Água – Canalização na várzea do rio do Peixe/Buranhém. 94