Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Rede BR163+Xingu Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Coordenador: Nilfo Wandscheer Associados: Associação dos Parceleiros do Projeto de Assentamento Califórnia Associação dos Produtores rurais da Gleba Entre Rios Cooperagrepa - Cooperativa de Produtores Ecológicos do Portal da Amazônia EcoCachimbo - Instituto de Ecologia e Pesquiza do Complexo Serra do Cachimbo Gapa - Grupo Agroflorestal e Proteção Ambiental Instituto Centro de Vida Instituto Ouro Verde Instituto Socioambiental Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lucas do Rio Verde Esta Rede faz parte da Campanha Y Ikatu Xingu www.yikatuxingu.org.br Ficha técnica Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Pesquisa e redação Adriana Gomes Nascimento Coordenação editorial Gisele Souza Neuls ÍNDICE Apresentação 07 Diagnóstico Participativo: ferramenta de mobilização e organização comunitária 09 Carlinda semeia projetos e colhe sustentabilidade 11 Intercâmbio – Troca de experiências que favorece a todos 14 Recuperação de pastagens – alternativa necessária 16 Nova Guarita recupera seu futuro 18 Apicultura: uma doce possibilidade 20 Em Vera o fogo sai para entrarem as flores 25 Viveiros e sementes: o começo da recuperação floresta 27 Cláudia – mata ciliar cultivada em viveiro 32 Sistemas Agroflorestais: produção de alimentos e restauração florestal 35 Água Boa: entre o novo e o tradicional na floresta 39 Projeto gráfico e Editoração eletrônica Elenor Cecon Júnior - EGM Editora Fotos As publicadas nas páginas 12, 14, 16, 18 e 19 foram cedidas pelo fotógrafo Rafael Castanheira. As demais fotos utilizadas nessa publicação foram cedidas pelos associados da Rede BR163+Xingu. Apoio Subprograma de Projetos Demonstrativos do Ministério do Meio Ambiente Edição Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lucas do Rio Verde Rua Girua, 1196e - Cidade Nova Lucas do Rio Verde – MT – CEP 78.455-000 http://strlrv.blogspot.com [email protected] (65) 3549 1819 Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 07 Apresentação Um modelo de agricultura: inclusivo, que respeita o ambiente e as populações e gera renda para as comunidades A Rede BR163 + Xingu tem proporcionado aos agricultores e técnicos da região oportunidades de experiências muito ricas visando a produção da agricultura familiar casada com a conscientização e educação ambiental dessas pessoas. Tudo isso é possível graças ao trabalho de anos de estruturação e fortalecimento de entidades através da formação de representantes e lideranças. A articulação dessas entidades resultou na Rede BR163+Xingu, e a Rede também resultou em mais articulação. O nome da Rede vem do debate que já existe há anos, entre as entidades do movimento social, sobre a participação social nas obras de infra-estrutura que devem acompanhar a pavimentação da BR163 no trecho Cuiabá – Santarém. Esse envolvimento se somou à Campanha Y Ikatu Xingu, abraçada por agricultores familiares, indígenas, poder público, organizações sociais e fazendeiros em direção ao objetivo comum que é a preservação das águas na bacia do Rio Xingu. Com isso aconteceram intercâmbios de conhecimentos em manejo racional de pastagens, apicultura e restauração florestal. Todos estavam visitando experiências semelhantes às das suas comunidades, assim, de forma indireta estavam aprendendo sobre organização social e gestão participativa. O conhecimento, as metodologias, as técnicas foram construídas de forma participativa e, esta experiência serve de modelo para várias comunidades da região e até do Estado. É importante que o Estado e financiadores olhem para esta experiência com carinho e usem este aprendizado no momento de construir o modelo de desenvolvimento que queremos. O STR, com esta cartilha pretende contribuir com um novo modelo de agricultura, inclusivo, respeitando o ambiente, as populações e gerando renda para as comunidades. Acreditamos ter atingido nosso objetivo, mas o trabalho continua, há comunidades que não foram beneficiadas e as já contempladas serão inseridas num processo de fortalecimento da comercialização solidária envolvendo mais parceiros, setor público, terceiro setor e comércio. Boa leitura! Nilfo Wandscheer - presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lucas do Rio Verde Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 08 Mudança Cultural: objetivo maior dos projetos piloto da Campanha Y Ikatu Xingu Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 09 Diagnóstico participativo: ferramenta de mobilização e organização comunitária Aos nove projetos piloto da Rede BR-163 + Xingu, financiados pelo PDA-PADEQ, somam-se outros tantos, apoiados por outras fontes de financiamento, distribuídos por diversos municípios da A mobilização e organização comunitária é a chave para mudar a tradição de soluções mágicas região das cabeceiras do Rio Xingu e adjacências. Todos eles incluem componentes para a proteção para as dificuldades da agricultura familiar que vêm de cima pra baixo. Uma comunidade bem e recuperação de nascentes e matas ciliares, e somam esforços para a concretização dos objetivos organizada, que sabe o que quer e onde quer chegar, não será facilmente enganada por projetos da Campanha Y Ikatu Xingu. milagrosos que resultam e grandes elefantes brancos. Esses projetos, por si só, são insuficientes para promover a recuperação de toda extensão de matas Mas como se dá esse processo? Antes de pensar em como mudar uma realidade é preciso conhecer a ciliares já degradadas na região. Porém, eles vêm desempenhando funções essenciais. Antes de comunidade, e mais: que a comunidade se conheça profundamente. Para isso, o diagnóstico parti- mais nada, eles estão trazendo um aporte de mais de cinco milhões de reais, em três anos, para o cipativo é uma das primeiras ferramentas de trabalho, tanto para técnicos quanto para as próprias conjunto desses municípios, aos cuidados das diversas organizações locais que são suas lideranças das comunidades. executoras. Os primeiros passos são visitas e entrevistas de campo, em que no contato com cada morador da Além disso, os projetos estão possibilitando a formação e fixação, na região, de técnicos comunidade abre caminho para compreender a dinâmica da comunidade. Nessas visitas é impor- especializados, que ajudam a desenvolver técnicas de baixo custo para restauração florestal, que tante apresentar a proposta de trabalho, ouvir as pessoas envolvidas, perguntar o que elas preci- permitirão aos produtores e administradores públicos interessados desenvolver tantas outras sam e o que querem mudar na sua comunidade. O Diagnóstico Participativo, que vamos abreviar experiências similares que sejam necessárias e possíveis. Ajudam a agrupar importantes como DP, deve envolver as pessoas da comunidade em todas as etapas do processo, desde a elabora- instituições locais em ações conjuntas, que podem compartilhar as suas experiências e enfrentar ção dos questionários ou roteiros de diagnósticos, até as entrevistas e análises dos dados. Este DP as suas dificuldades comuns. Por exemplo, já vêm possibilitando a constituição de um incipiente vai permitir saber mercado local de sementes de espécies nativas, que eram antes consideradas inúteis, mas que com mais fidelidade e agora estão sendo valorizadas, inclusive como um fator de geração de renda para os seus coletores. amplitude o que toda ou quase toda a Considerando que os projetos piloto, como é da sua essência, estão abertos à visitação e à comunidade anseia, aprendizagem de todos os interessados, inclusive o público escolar, e que os seus resultados, ou seja, qual seu mesmo iniciais, vêm sendo divulgados e compartilhados amplamente, eles estão se problema em comum. transformando num verdadeiro elemento de transformação cultural para toda a população. E assim, a região vai encontrando Para poderem aplicar o seu caminho e o seu lugar nesses tempos em que milhões de esse DP, os pesquisa- pessoas, em todo o mundo, buscam enfrentar os desafios que estão dores comunitários diante da nossa civilização, em busca da sustentabilidade e de um passam por oficinas futuro melhor e mais sadio para as futuras gerações. que os ajudam a entender e manejar Márcio Santilli - Coordenador da Campanha Y Ikatu Xingu esse recurso, abordando aspectos como Liderança Comunitária; Comunicação e Técnicas de coletas de dados. Após a capacitação, os participantes apontam quais serão as pessoas que comporão um grupo que percorrerá a região coletando dados e problemas da comunidade para que se estabeleçam prioridades e se pense em soluções coletivas. Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 10 A partir desses dados coletados, a comunidade traça um mapa dos próprios problemas e começa a dos resultados encontrados. É listar propostas de soluções. Nessa fase de discriminação de tarefas é importante não esquecer a importante que o roteiro questão de gênero para garantir que todos os aspectos de um mesmo problema possam ser lembra- aplicado seja o mesmo para dos e avaliados de forma geral. todos, pois isso facilita agru- 11 par as respostas e fazer Com a elaboração e análise do seu diagnóstico, a comunidade começa a ver problemas comuns e análises comparativas. possibilidades de soluções coletivas – o que sem dúvida fortalece os laços comunitários. O objetivo do DP, além de funcionar como uma fotografia da comunidade, é fortalecer o grupo de tal forma * De posse dessa aná- que, a partir do conhecimento das ferramentas de organização e diagnóstico que aprenderam, no lise, a comunidade deve futuro encontrem seus próprios meios de, em conjunto, chegar a soluções viáveis para os proble- estabelecer um cronograma mas comuns a todos. de reuniões para priorizar os problemas que devem ser É comum que entidades como sindicatos e organizações não-governamentais darem a partida enfrentados e debater quais as nesse processo, levando para a comunidade escolhida para determinado projeto o auxílio de melhores formas de fazer isso técnicos e especialistas. E o papel dessas entidades deve ser facilitar o processo de organização e coletivamente. fortalecimento das comunidades Porém, o DP é uma ferramenta simples que a própria comunidade pode organizar e implementar. * A cada etapa cumprida a comunidade deve se reunir para avaliar acertos e dificuldades. A avaliação constante e participativa permite corrigir rumos, acertar detalhes e fortalece a iniciativa. Passo-a-passo do Diagnóstico Participativo Organizar um grupo gestor, um comitê que vai ser responsável por fazer o DP funcionar. O ideal é que esse comitê seja composto metade por homens e metade por mulheres, incluindo jovens. Oferecer ou buscar capacitações para a comunidade compreender o que é o DP e quais suas vantagens e possibilidades de utilização. * Montar o roteiro do diagnóstico, com as questões que se quer identificar na comunidade (ex.: número de famílias, grau de escolaridade, renda e produção familiar, principais dificuldades enfrentadas etc). É importante que esse roteiro seja montado em uma reunião com a comunidade, para que contenha o maior número de questões que a comunidade ache importante de serem trabalhados. * Escolher um grupo de pessoas da comunidade que será encarregado de fazer o diagnóstico conforme o método escolhido. Pode-se deixar questionários para as famílias responderem, fazer entrevistas individuais, entrevistas com grupos familiares, enfim, de várias formas. A escolha do método depende do tamanho da comunidade e sua capacidade de levar o diagnóstico adiante. * Depois de todas as entrevistas feitas, o próprio grupo de pesquisadores ou um grupo maior deve se encarregar de analisar os dados e fazer o relatório do diagnóstico, com a descrição Por fim, é importante saber que esse não é um processo rápido e cada comunidade tem um ritmo que deve ser respeitado. O tempo pode variar de dois meses até mesmo um ano. Devemos lembrar que o que importa é obter resultados consistentes, além do amadurecimento e fortalecimento da comunidade – coisas que não acontecem do dia para a noite. Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar “ Carlinda semeia projetos e colhe sustentabilidade Seis comunidades do município de Carlinda, região e da falta de estudo de mercado para distante 762 km de Cuiabá, já colhem frutos da comercializar o que se produzisse. 13 Gerenciamento certo - Na discussão sobre “ Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 12 Participar de uma experiência Conselho Gestor resolveu investir em como esta, em algumas 1.400 quilos de fungo (Metarhizium palavras, é 'show de anisopliae) para o controle biológico da bola'. É muito gratificante ver as coisas decolarem sua forte mobilização e organização comunitá- gerência dos recursos do projeto, o cigarrinha. Das mais de 70 propriedades que passaram a controlar a cigarrinha, foram selecionadas nove para monitoramento dos resultados. Assim, três monitores, que foram escolhidos pelas seis rias. Mas chegar ao nível em que se encontra Em 2005, quando o projeto Gestar Portal da hoje não foi fácil. Embora estejam só começan- Amazônia chegou em Carlinda através do IOV , do, muita coisa já mudou. As comunidades em parceria com o ICV , as comunidades Monte vinham de um histórico de programas falhos Sinai, Nazaré, Rio Jordão e Palestina começa- que diversas instituições e governos tentaram ram um processo de mobilização e organização implantar na região com idéias prontas que que se tornou referência na região. A comuni- Comunitário de Gestão Ambiental Integrada, outras nove propriedades que não aplicaram o não eram preparadas ao calor do que a comu- dade se fortaleceu, percebeu que unida poderia local que representa fisicamente as comunida- agente biocontrolador para poder comparar os nidade queria e necessitava. resolver de forma um pouco mais fácil seus des. Desde sua criação o local funciona como efeitos. E os resultados não poderiam ser problemas em comum e hoje administra um um concentrador de idéias e informações melhores. O número de cigarrinhas tem dimi- Até 2004, contam os moradores, era a lei do resfriador coletivo de leite, entre outras inicia- ambientais e presta assessoria aos moradores nuído até nos pastos que não foram pulveriza- 'cada um por si e por seus problemas' já que tivas comunitárias. A união resultou inclusive nas mais diversas dúvidas. duas outras comu- dos. Isso acontece porque as cigarrinhas estavam sem paciência para mais projetos na aprovação do projeto junto ao PDA/Padeq – nidades foram incorporadas ao trabalho, parasitadas de uma propriedade levam o fungo 'milagrosos'. Segundo eles, volta e meia apare- projeto escrito em conjunto pela comunidade e envolvendo assim todo um setor dentro do para outros locais, ajudando na sua dissemina- ciam projetos de plantações IOV. município de Carlinda. ção. Ao todo o PDA/Padeq tem A eficiência é tanta que o Centro pode ser Isso demonstra que há um ganho ambiental dois anos para ser realiza- considerado uma referência ambiental, tama- mesmo para os proprietários que ainda não do. No primeiro ano foram nha é a procura por seus serviços. A média de acordaram esta solução ecológica. O que dá realizadas visitas a todos atendimentos é de 100 pessoas/mês não só do muita satisfação, conforme os monitores, é ver os moradores e a oferta de universo de 200 famílias que com que, junto com o meio ambiente a mentalidade oficinas de liderança e PDA/Padeq de Carlinda, comunicação, controle bio- mas também de quem não lógico, manejo de pasta- participa do projeto. E a gens e recuperação de tendência de procura pelo matas ciliares. Um grupo Centro é de crescimento. da própria comunidade Hoje, só não atendem mais elaborou o Diagnóstico porque o número de moni- Participativo, que identifi- tores ainda é reduzido cou os problemas das frente as atividades desen- comunidades e a busca de volvidas na região - são salvação da lavoura', e assim por diante. Mas o soluções comuns como: Manejo de Pastagem e o quatro monitores, sendo resultado era sempre o mesmo: o fracasso, Controle Biológico da Cigarrinha. Também dois homens e duas mulhe- resultado da inadequação dos projetos para a houve a estruturação física do Centro res. dias, estas propriedades para verificar a eficiência do fungo em relação à cigarrinha. Além disso também são visitadas põem o “ Trabalhar em Rede é muito bom! Isso porque se “ que seriam 'a comunidades percorrem, a cada quinze Antonio Francimar, representante da comunidade Nazaré. aprende mais com as reuniões e intercâmbios e as idéias surgem, com mais facilidade. Não se fica isolado. Um ensina o outro ao mesmo tempo em que se aprende com todos. Acho que esta é a grande sacada dessa experiência Alexandre Olival, coordenador do Instituto Ouro Verde. Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar dos proprietários também começa a mudar. atividades. Assim outros projetos extras que “Antes tinha um proprietário que dizia que não estavam prevists no PDA/Padeq puderam cigarrinha só se combatia com fogo. Agora ele é acontecer neste primeiro ano paralelamente um dos que procuram pulverizar o fungo”, diz aos previstos. São eles: o cultivo, em pequena o monitor Antonio Francimar. Em agosto de escala de NIM (Azadirachta indica) – uma 2007, quando começa o segundo ano do proje- planta de origemasiática utilizada como repe- to, serão implantadas 20 unidades demonstra- lente; a criação de Horta Agroecológica, cujos tivas que vão receber piquetes para o manejo recursos de venda é darão suporte à sustentabi- ecológico de pastagem. lidade do Centro Comunitário de Gestão Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar “ 15 A troca de experiências semelhantes é muito positiva, realizada de projeto para projeto de organização pra organização, de produtor pra produtor. Amplia-se a quantidade de “ 14 informações relacionadas, bem como outras complementares aos projetos. Em alguns casos, é possível uma cooperação entre projetos diminuindo custos. E a socialização das informações e dos resultados dos projetos é muito enriquecedora, e permite um melhor desenvolvimento das ações, onde podemos errar menos, ou seja aprender também com os erros dos outros. Nestes casos sempre amplia as oportunidades Ambiental Integrada e a elaboração do jornal “A Frutos colhidos - Mas vale frisar que nada Semente”, criado pelos participantes do projeto disso aconteceria em Carlinda se o Conselho como forma de disseminar informações às Gestor não optasse por trabalhar desde o comunidades para fomentar a participação princípio com contrapartidas das comunida- coletiva nesta empreitada e a recuperação de 25 os projetos da Rede. A primeira é de que juntan- envolvidas em diferentes projetos visitam-se des beneficiadas. Com o bom gerenciamento nascentes consideradas prioritárias para todo o do recursos e pessoas se faz mais e melhor do uns aos outros para verem o desenvolvimento dos recursos e a constribuição dos moradores setor. que cada iniciativa em separado. A segunda é a de atividades por diferentes ângulos. houve sobra de recursos desde o início das Jean Carlo Corrêa Figueira, ICV. idéia de que agricultor ensina agricultor de Intercâmbio – Troca de experiências que favorece a todos uma forma muito mais completa e eficiente. As visitas de intercâmbio, visitas técnicas, Assim, ao longo do primeiro ano de atividades reuniões e dias de campo são as ferramentas da Rede BR163+Xingu, foram realizados que oferecem a oportunidade de ver em campo intercâmbios e seminários técnicos reunindo o desenvolvimento de iniciativas similares a todos os projetos para aprenderem e comparti- que se está desenvolvendo, perceber diferentes A troca, embora seja uma das práticas mais BR163+Xingu, a troca de conhecimentos e lharem aquilo que eles têm em comum, concen- momentos do processo de desenvolvimento dos antigas do ser humano, foi, com o incremento saberes tem sido uma prática constante. trando os esforços e ampliando os horizontes do projetos e das comunidades, além de aprender do capitalismo, sendo esquecida. E a maior Intercambiar conhecimento começa com o aprendizado. com as dificuldades e acertos dos outros, pois perda não foi a da troca de produtos conhecida levantamento das necessidades de uma comu- como escambo, mas a de saberes entre as nidade em termos de informações e técnicas, Há três formas básicas de intercâmbio: aquela pessoas. Mas nas comunidades da Rede para em seguida localizar pessoas e iniciativas que reúne pessoas envolvidas em diferentes que possam contribuir com a projetos em um mesmo local para aprender e comunidade levando seus trocar idéias sobre uma conhecimentos. técnica específica, como permite observar como diferentes comunida- Duas chaves são importantes apicultura, por exemplo; para compreender as ativi- a que reúne as pessoas e dades de intercâmbio entre as leva para conhecerem um projeto ou iniciativa que está dando certo, para ver de perto a Atividades de intercâmbio levam agricultores para ver a aplicação de conceitos e técnicas em campo mesma experiência em um nível mais avançado de desenvolvimento; e aquela em que pessoas “ Esta é uma experiência que nunca vou esquecer. A mudança “ manejo de pastagens e des lidam com os mesmos problemas. é visível. O pasto está muito melhor. Bem diferente do que quando eu usava o fogo. Se tiver condições eu vou estar sempre atrás de novas técnicas. Mas se vier um projeto que dê continuidade a este ou vá nesta direção, será bem vindo Vilmar, agricultor que participa do projeto em Nova Guarita com seu pai, Sr. Olívio 16 Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 17 alimento de qualidade para o gado. A técnica consiste, resumidamente, em: - Divisão das pastagens em piquetes. O número de piquetes e tamanho dos mesmos depende do tamanho da propriedade e do rebanho. O ideal é que o gado leve 30 dias para voltar Recuperação de pastagens – alternativa necessária - Diversificação das pastagens (gramíneas e leguminosas), que melhoram a alimentação do gado; - Arborização das pastagens, de preferência com espécies nativas – elas oferecem sombra e O pastoreio contínuo, sistema em que o gado fica sobre uma mesma área de pastagem um período conforto para o gado; prolongado de tempo ou permanentemente, é o grande inimigo da qualidade dos pastos. Isso - Abandono do uso de adubos químicos, herbicidas, roçadas sistemáticas e fogo. porque o gado, mantido sem troca de pasto por um tempo indefinido, após alguns dias de perma- - Orienta-se adotar a cerca elétrica para manejo dos piquetes, pois diminui os custos com nência passa a consumir o capim antes que ele complete o seu desenvolvimento. Isso acaba impe- madeira e arame. dindo que as plantas refaçam suas reservas energéticas. Desse modo, a pastagem fica fraca, pouco nutritiva, o que diminui progressivamente a produtividade e vigor do gado. Além disso, o pastoreio contínuo tem reflexos também na cobertura do solo, que fica desprotegido e, conseqüentemente, mais suscetível aos efeitos da erosão. Com a continuidade deste sistema, em alguns anos a pastagem se degrada. Assim, é preciso uma reforma para que ela recupere sua capacidade produtiva e o problema seja revertido. A redução da produtividade das pastagens pela degradação acaba aumentando a demanda por novas áreas de pasto. Assim, ocorrem novos desmatamentos que seriam desnecessários se os devidos cuidados e precauções fossem tomados para manter os pastos saudáveis e nutritivos. Manejo Ecológico de Pastagens A pastagem ecológica, como o engenheiro-agrônomo e especialista no tema Jurandir Melado chama a técnica, pode ser obtida em poucos anos, a partir de uma pastagem qualquer já formada. A aplicação criteriosa do Sistema de Pastoreio Racional Voisin, um sistema proposto pelo francês André Voisin em 1957, permite um equilíbrio positivo de três fatores: Solo, Pasto e Gado, com cada fator tendo um efeito positivo sobre os outros dois. Neste sistema, a utilização da pastagem é feita através de uma rotação racional, que proporciona o melhor aproveitamento possível das forrageiras, resultando num nível de produtividade que chega a três vezes a alcançada pelo sistema extensivo, na mesma pastagem. Na prática, quando mais tempo o gado leva para voltar a um piquete, mais o pasto tem condição de crescer e fornecer * A Europa tem a atual tendência de adquirir apenas carne rastreada e produzida à pasto, não necessariamente orgânica, mas que não contenha resíduos de anabolizantes, determinados vermífugos e antibióticos, que não utilize herbicidas, que respeite os animais (reses, cavalos, etc.) e que utilize níveis decrescentes de uréia no sal. 18 Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Nova Guarita recupera seu futuro Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 19 Quando soube do projeto que iria ser desenvol- atrás de capacitação para expandir sempre e vido pelo ICV, Schneider resolveu fazer parte, dar exemplo a outros agricultores. “Com todo o mesmo que um pouco receoso. Como a intenção trabalho que implantamos vemos que destruir principal era a melhoria do pasto, ele começou é fácil, reconstruir é que é difícil, e leva tempo. aumentando o número de piquetes de cinco Mas o bom é que tem jeito”, disse. Nova Guarita, cidade localizada a 697 km de pouco alimento natural para os animais. Já seu Olívio dos Santos, além Cuiabá, é uma das duas cidades onde o ICV Muitos já desmataram mais de 50% da proprie- de ter implantado piquetes, desenvolve o projeto intitulado Apoio à práti- dade, não tendo mais como ampliar a produção também ajuda na recuperação da cas alternativas à agricultura familiar, em ou melhorar a produtividade dos pastos exis- terra e, consequentemente, na parceria com duas cooperativas locais: tentes. alimentação do gado e qualidade do leite e carne, com a plantação Coopernova e Cooperagrepa. O projeto busca atender as necessidades de um grupo de 20 Dos 18 sócios da Associação dos Pequenos em seu pasto de leguminosas, agricultores de Nova Guarita e de Terra Nova Produtores da Comunidade União, de Nova frutíferas e outras árvores do Norte, associados das duas cooperativas, Guarita, dez estão no projeto. Isso porque a nativas – as duas primeiras para com a troca do pastoreio contínuo pelo manejo maioria não quer mais a derrubada de floresta e alimento e as nativas para busca caminhos sustentáveis sombreamento, o que também para permanecer na terra. Hoje ajuda no aumento da produção os participantes não só já pen- de leite. sam em novos rumos como Associação – O presidente da copiam e buscam modelos de sustentabilidade numa clara para 24 e implantando a cerca elétrica. Assim, Associação, Valmor Antônio Verdana, explica demonstração de que sua visão logo no primeiro ano do projeto, conseguiu que ainda há uma cisma de alguns produtres está mudada. aumentar a capacidade de produção de seu que não entenderam a importância do projeto. gado leiteiro em 20%. Com o recurso, conta Por isso nem todos os associados aderiram. Nélson Rodolfo Schneider é um orgulhoso, conseguiu não só aumentar a casa, Segundo ele, se por um lado, o projeto chegou dos produtores que participam. mas também ganhou conhecimento e experiên- tarde, pois não se tinha mais o que preservar, Tem 26 alqueires e sempre cias que nem sonhava que existiam. por outro, veio em boa hora para socorrer quem já desistia da terra. “Quando a gente precisa, pensou em recuperar a pastagem, mas nunca tinha feito por A boa experiência e resultados positivos é o que acha que tudo é demorado. Mas os resultados, de pastagens através do piqueteamento e a não contar com a assistência técnica. Ele conta fazem o agricultor Schneider pensar no futuro. mesmo que ocorrendo devagar, agradam, com implantação de cercas elétricas. que, logo que chegou a Nova Guarita para Quando este projeto terminar, ele diz que não certeza, a todos”, revela Verdana, animado com tomar posse de sua terra a ordem era derrubar vai esperar que outro caia em suas mãos, vai os resultados. O coordenador do projeto pelo ICV, Jean Carlo para ganhar o local que tivesse 'tomado posse'. Correa Figueira, conta que no início o cenário Após a derrubada, queimou para criar seu encontrado era de uma comunidade de peque- pasto. No entanto, hoje sabe o quanto de nutri- nos produtores rurais, com um bom nível de entes o solo perdeu com essa prática. Com o organização, mas com pastos já muito degra- tempo a terra foi mostrando cansaço e logo dados, em alguns com cerca de 20 anos de uso. começou a faltar um bom capim. Isso gerou Por isso, estavam com um baixo rendimento baixa produtividade no leite e pouca qualidade dos pastos, que já estavam degradados e na carne do gado. sentindo drasticamente o período da seca, com Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 20 Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 21 passem a introduzir no mel o princípio ativo desses tipos de plantas. Esta característica pode ser um diferencial do produto oferecido. Apicultura: uma doce possibilidade Captura de colméia e manutenção do apiário: * Devidamente paramentado, com a roupa adequada (macacão com proteção de rosto, luvas Para quem pensa nessa possibilidade de trabalho, é preciso saber que são necessários certos e botas) localizar a colméia, que pode estar pendurada ou no oco de alguma árvore. cuidados na hora de produzir um bom mel. Um exemplo destas medidas é não implantar o apiário * Fazer fumaça com o fumegador com fogo sempre de material orgânico como sabugo de próximo a plantações que usem inseticidas, pois isso comprometerá a pureza do produto final. E milho, capim limão ou serragem. A fumaça nunca pode ser produzida por materiais que irritam ou também planejar variar seu pasto apícola (conjunto de espécies de plantas que dão flores próximas molestem as abelhas, como óleo de qualquer natureza, querosene, gasolina e produtos que des- ao apiário para que as abelhas tenham ingredientes para produzir o mel) para garantir o produto prendam odor forte ou mau cheiro. Nunca direcionada diretamente a colméia e não muito intensa, durante todo o ano. para que as abelhas apenas se afastem e não fujam. * Quando a colméia está no oco é necessário abrí-la com machado. Feito isto, é preciso Uma vantagem de se constituir um apiário é que não há restrições a ninguém para se trabalhar capturar a rainha – cuja característica principal é ser maior do que as demais e ter sempre, atrás de com apicultura. As únicas recomendações é que não tenha medo nem alergia de abelhas, e seja si, um grande número de abelhas. A rainha fica localizada sempre no centro da colméia. paciente no trato com elas. O trabalho, da captura à comercialização, é relativamente simples e não exige dedicação em tempo integral. * Colocar a abelha-rainha numa caixa-isca próxima, com melgueiras (quadros de madeira, que acondicionam os favos da colméia) com cera alveolada nova (cuja característica é a cor branca), devidamente preparada com a proteção contra animais e insetos (ver preparação da caixa). Um ano em média, dependendo da região, é o tempo que demora para se produzir a primeira leva * Deixar a caixa no local de captura a 1,50 m ou 2 m da colméia, e a cerca de um metro de de mel. A média nacional de produção é de 20 quilos de mel por caixa. Para um melhor planejamen- altura, sem mexer, por dois ou três dias, até que as abelhas sigam naturalmente a rainha e entrem to, no entanto, é interessante que se faça desde o princípio o mapeamento da florada de seu pasto na caixa. A altura da caixa nos cavaletes (1 m) é para que a colméia não seja atacada por outros apícola, ou seja, se tenha anotado e organizado a época em que cada espécie de planta do apiário dá animais e insetos e facilitar a manutenção. suas flores. Dessa forma é possível identificar os meses de cada uma, o que facilita o manejo na hora da previsão da produção. * Ocorrida a entrada de todas as abelhas na caixa, leva-se esta para o apiário. No início quinzenalmente e com o tempo, mensalmente, com a roupa adequada, deve-se olhar se a rainha colocou ovos. Isso significa que o Características, cuidados e manutenção de pasto apícola trabalho começou na colméia-caixa. Com o tempo, essa inspeção periódi- Deve ser: ca também serve para saber se é * Em local de reflorestamento ou de capoeira com diversidade de plantas preciso fornecer alimento nos * Distância mínima de 500 metros da estrada e distante de cavalos, porque odores fortes períodos de carência, verificar a espantam as abelhas * Longe de crianças, para que não ocorram acidentes * Em local que possua certo sombreamento, mas não seja muito fechado conformação dos favos e a posturas da rainha, etc. * Este trabalho de revisão deve * Direcionado para o sol nascente ser feito pelo apicultor devidamente * Próximo de um curso d'água trajado, em dias quentes e ensolara- * Localizado onde bata menos vento dos e, preferencialmente, com a * Com a caixas-isca colocadas em cima de cavaletes. Estes cavaletes devem estar prote- ajuda de alguém. Neste tipo de gidos por metades de garrafas plásticas para evitar ataque de formigas (veja fotos) atividade, o uso do fumegador é obrigatório e o trabalho deve ser Deve ter: feito de forma rápida, em movimen- * Floradas variadas para garantir mel durante todo o ano tos tranqüilos, delicados, porém * Plantas medicinais, caso a intenção seja incrementar a produção. Isso para que as abelhas decididos. Gestos ou ações bruscas Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 22 podem provocar a irada reação das abelhas. 23 Equipamento necessário * Para realizar o trabalho de inspeção ou revisão, aproxime-se sempre pelo lado de trás da caixa. Nunca interrompa, com o corpo, a linha de vôo das abelhas, que entram e saem da caixa em * Caixa busca de alimentos. * Macacão: deve ser constituído de * Quando o apiário estiver estabelecido a cera deve ser trocada de tempos em tempos. O ideal é usar um quadro de cera alveolada por mês até que a própria abelha produza sua cera. uma única peça e largo, folgado o suficiente para não criar resistência junto ao corpo, o que * Favos escuros, retorcidos ou danificados devem ser substituídos por favos com cera nova permitiria a ferroada da abelha, de tecido alveolada. Os favos, principalmente os do centro do ninho onde se desenvolve a família na col- resistente para defender o corpo de ferroadas. méia, devem ser examinados para constatar a presença de larvas e ovos. É uma operação delicada Caso seja feito pelo próprio produtor uma dica e que requer atenção visual, pois os ovos são pequenos. A ocorrência de favos com pequeno núme- é o brim, que é bastante utilizado e oferece ro de crias ou de ovos depositados é sinal de que a rainha está fraca e deve ser substituída. uma boa proteção. * Se os favos da caixa estão todos ocupados, com crias ou com alimento - mel e pólen –, o * Máscara: o melhor tipo é o de pano, apicultor deve providenciar mais espaço para a família, ou seja, uma caixa extra. Um indício de com visor de tela metálica, pintada com tinta que a caixa está superpovoada é a formação daquilo que os apicultores denominam de "barba" de preta e fosca, que permite melhor visibilidade. abelhas: quando nos dias quentes * Luvas: devem ser finas o suficiente para que o apicultor não perca totalmente o tato – um grande numero de abelhas fator de grande importância na manipulação das abelhas. As luvas de couro fino, brancas, são as ficam na entrada das colméia, em mais indicadas, as de plástico nem sempre são resistentes às ferroadas, além de suarem muito, o forma de cacho. que dificulta os trabalhos e cujo odor pode irritar as abelhas. * Verificar se há presença * Formão (pá): ferramenta utilizada para abrir o teto da colméia, que normalmente é de larvas mortas nos favos e de soldado à caixa pelas abelhas com a própolis. Serve também para separar a desgrudar as peças da abelhas mortas no assoalho da colméia. caixa. Isto é indício de ocorrência de doença na família. Uma colméia sadia é sempre limpa e higiênica. * Na entressafra, ou seja, nos períodos em que não há florada, principalmente durante o inverno ou nas estações de muita chuva, verifique se a família tem alimento suficiente. Caso contrário, você deve fornecer alimentação artificial à colônia (mel e não açúcar). * Para evitar que parte da colônia enxameie, ou seja, que abandone a colméia, verifique se a família está formando realeiras nos favos. As realeiras (cápsulas destinadas à criação de rainhas), são formadas normalmente, nas extremidades dos quadros, apresentando a forma de um casulo * Fumegador: serve para defender o apicultor das ferroadas. Sua fumaça diminui a agressividade das abelhas. * Botas: as melhores são as de borracha branca, de cano médio ou longo, sobre o qual é ajustada a bainha do macacão. * Espanador: empregado para remover as abelhas dos quadros da colméia sem ferí-las. Normalmente, é feito de crina animal. Alguns apicultores utilizam penas de aves como espanador. * Facas e garfos desoperculadores: são instrumentos utilizados para destampar os alvéolos dos favos, liberando, assim, o mel armazenado. * Centrífuga: equipamento destinado à extração de mel que não provoca danos aos favos, permitindo reaproveitá-los. * Decantador * Cera alveolada: com o tempo ela é feita pela própria abelha na nova casa da rainha. No entanto, no início, para acelerar a produção de mel, a compra da cera é recomendada. parecido com uma casca de amendoim. Elimine, se for o caso, estas cápsulas para não perder a colônia. É Importante que itens que ficam em contato direto com o mel, como o formão e a centrífuga, sejam de inox para que o mel não pegue cheiro de plástico. Como identificar a idade da rainha? As abelhas são sensíveis às tonalidades escuras, especialmente ao preto e ao marrom. Elas têm A longevidade da colméia-caixa pode ser medida pela idade da rainha. Mas como identificar? verdadeira aversão a estas cores, que provocam seu ataque. Por isso, toda a indumentária do Fácil! A rainha nova tem como característica colocar ovos (pontinhos de cerca de 2 mm e brancos) apicultor deve ser de cor clara. As mais indicadas são o branco, o amarelo e o azul- claro. um ao lado do outro. Já a rainha velha coloca ovos em qualquer lugar da colméia. Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 24 25 A quantidade de caixas de cada apiário varia de acordo com a quantidade de florada e de abelhas Em Vera o fogo sai para entrarem as flores! que se tem na propriedade. Mas um número superior a 20 não é recomendado. Um doce futuro é o que esperam os Como fazer a retirada do agricultores do Projeto de Assentamen- mel das caixas: to Califórnia, da cidade de Vera, distante 480 km de Cuiabá. Lá o Projeto de apoio ao desenvolvimento de alternati- * Pegar uma melgueira da vas econômicas e recuperação ambien- colméia tal, realizado pela Associação dos * Desopercular. Opercular é Parceleiros do Projeto de Assentamento o trabalho de vedação dos favos lam, isto é, "fecham" os favos com da Fazenda Califórnia, começa a ser Pasto Apícola no PA Califórnia mel maduro ou cria (larvas) madura. Na retirada do mel quebra-se este opérculo. * Deixar escorrer o mel na centrífuga * Centrifugar o mel de acordo com a capacidade da máquina * Peneirar no decantador * Deixar no decantador de 2 a 3 dias para que as impurezas subam e o mel puro possa ser separado para a venda. construído com a implantação da apicultura. Ironi Antonio Zanati, secretário da Diretoria da Associação do PA Califórnia conta que as coisas não foram para frente em seu sítio ainda porque, ra. Depois conseguiu as terras no P.A., onde não desde que foi para lá, não teve quase nenhuma encontrou nenhuma estrutura nem avançou. A orientação de órgãos federais. Ele conta que vantagem que vê agora com o projeto é poder nasceu e se criou na roça e sabia o que o pai reavivar a experiência que teve com o pai num sabia, ou seja, plantar e colher com técnicas curso que fez em 1979. Zanati diz que renovou antigas. Um tempo depois foi para a zona este aprendizado com a aula prática de campo urbana, onde trabalhou dez anos em madeirei- dada pelo consultor Wemerson Ballester. Para ele a vinda da apicultura ao local trará grandes “ benefícios, principalmente porque vem agre- “ pelas abelhas. As abelhas opercu- Trabalhar em Rede é a saída. Quem é pequeno agricultor e está fora está gada com a fruticultura e o interesse em reflorestar. “O projeto nos traz benefícios porque pesquisa perdendo uma mercado e a qualidade do mel que será consoli- oportunidade dada com a abertura da Casa do Mel”, comenta. de mercado A expectativa é que no final de três anos a Nélson Ganzer, agricultor PA Califórnia comunidade já esteja coletando e comercializando cinco mil quilos de mel. Ao todo participam 18 famílias neste projeto num total de 76 pessoas envolvidas. Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 26 O coordenador do projeto e presidente da Meus planos agora são evitar o fogo e plantar Associação, Argeu Medeiros, está satisfeito flores”. Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 27 com a nova empreitada. Vivendo há oito anos no assentamento, ele plantou arroz até 2005 João Boaventura de 55 anos trabalhou até os 15 mas parou porque não tinha rentabilidade. Na com o pai na roça. Depois com madeireira até Associação ele conta que queria encontrar 2002. parceria para implantar novas alternativas ao Viveiros e sementes: o começo da recuperação florestal Dizem que temos três obrigações ao passar pela vida: ter um filho, escrever um livro e plantar uma fogo, muito utilizado na região para preparar o Com desemprego na região e baixa nos cortes de árvore. Se repararmos, todas estas ações têm a intenção de fazer com que o ser humano deixe uma solo. Encontrou esta parceira com o Sindicato madeira, conseguiu o sítio no Califórnia e foi contribuição para o planeta. Destas três 'obrigações', talvez plantar uma árvore seja a que mais é dos Trabalhadores Rurais plantar ao invés de cortar árvores. Plantou deixada em segundo plano: parece que tem sido mais fácil cortar do que plantar. de Lucas do Rio Verde, com o qual se envolveu desde o projeto. “ A ocupação das terras no Brasil carac- “ Projeto Proteger até chegar ao atual terizou-se pela falta de planejamento e Trabalhar em Rede é gratificante. Ele também já tinha noção de apicultura, mas nunca tinha trabalhado com a atividade. Com o projeto de apicultura sendo implantado, Medeiros conta que aprendeu o que é organização para um trabalho, a busca de parceria e, numa A gente se integra com ser influenciadas pela sociedade. naturais, particularmente das flores- outra instituição e tas. Neste panorama, as matas de beira aprende e repassa de rios, córregos e nascentes não escaparam da destruição, um triste o que se sabe numa cenário comum em toda a região da BR- troca constante ampliação de horizonte, o que são políticas públicas e como elas podem conseqüente destruição dos recursos Argeu Medeiros, coordenador do Padeq em Vera e presidente da Associação dos Parceleiros do Projeto de Assentamento da Fazenda Califórnia Outro que adentra a apicultura é o 163 e Bacia do Xingu. Mas recuperar essas áreas não é difícil nem mesmo impossível. É preciso um bom planejamento e um pouco de orientação. Tudo pode começar com a coleta de sementes e o planejamento de um viveiro de mudas. agricultor Nélson Ganzer. Natural da região Sul ele veio para Mato Grosso em 1999 arroz e milho, mas o investimento não rendeu e O processo de degradação das matas ciliares, além de desrespeitar a legislação, que torna obriga- em busca de terra, mas como não conseguiu, ele quebrou. Agora quer ser apicultor, trabalho tória a preservação das mesmas, resulta em vários problemas ambientais. As matas ciliares foi trabalhar em Lucas do Rio Verde na cons- que nunca fez, mas começou a se interessar funcionam como filtros, retendo parte dos agrotóxicos, poluentes e sedimentos que seriam trans- trução civil. Só dois anos depois foi para o porque a venda é garantida e a perda é portados para os cursos d'água, afetando diretamente a quantidade e a qualidade da água e conse- assentamento. Ganzer confessa que este é o perto de 0%. qüentemente o número de peixes e a população humana. São importantes também como corredo- primeiro projeto do qual participa onde pode res ecológicos, ligando fragmentos florestais e, portanto, facilitam o deslocamento da fauna e o ter renda. “É uma experiência nova e fácil pois Para o futuro só quer, assim como Deus promete fluxo de espécies entre as populações animais e vegetais. Em outras regiões não planas, exercem a trabalhamos conforme orientações de técnicos na Bíblia, uma vida de leite e mel. Para isso tem proteção do solo contra a erosão – processo que precisa ser revertido sempre. A implantação de especializados”, diz. Com a orientação ele a intenção de buscar novos financiamentos e viveiros para recuperação de matas ciliares é o começo dessa conversa: além de servir para repro- aprendeu todo o manejo da abelha, captura e orientações de outras fontes. “Sei que tenho que dução de espécies nativas que serão usadas na restauração das matas de beira de rio e nascentes, alimentação e ganhou poucas ferroadas, para tentar várias coisas porque a lavoura sem ainda serve para produção de mudas de valor econômico. sua surpresa. Depois do projeto, ele pensa na maquinário como os grandes latifundiários, fruticultura e no reflorestamento como ações não rende. Por isso aposto agora na abelhas e que vão ser aliadas e complementos da apicul- mais tarde na fruticultura e no reflorestamen- tura que vai implantar. “Tudo o que conseguir to, atividades que darão suporte a apicultura”, de forma ambientalmente correta, eu quero! acrescenta. A Coleta de Sementes A escolha das sementes que serão reproduzidas para a restauração das matas ciliares e nascentes 28 Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 29 segue três critérios: qualidade das sementes, variedade das espécies e preferência por espécies germinam. Quando se começa é necessário realizar testes ou se informar com quem já organizou existentes na região. viveiros, sobre o processo de germinação de cada espécie. Transferência para saquinhos: quando as mudas chegam ao tamanho adequado para transporte Antes de mais nada, é importante escolher uma boa matriz, que é a árvore-mãe da qual se coletam e plantio para local definitivo, são liberadas do viveiro. É legal fazer a muda passar por um proces- as sementes: deve ser uma planta sadia, bonita e produtiva. Logo após a coleta, as sementes devem so de rustificação quando ela estiver pronta para ir pro campo. Esse processo consiste em colocá- passar por um beneficiamento, que consiste em: limpeza, retirada da polpa, seleção e exclusão de las no sol e diminuir as regas, pois no campo elas não terão mais os cuidados do viveiro e sofrerão sementes inviáveis. menos se forem preparadas para essas condições. Existem diferentes tipos de espécies e sementes, e portanto diferentes modos de coleta também. O local do viveiro deve ser: Para sementes miúdas que caem e são difíceis de coletar no chão, uma lona em baixo do pé ajuda. - Plano; Outras como Ipê, que são sementes dispersadas pelo vento exigem a coleta na árvore, subindo nela - Aberto, sem sombreamento; antes de abrirem. - Com fácil acesso à água; - Com boa drenagem do solo; Quebra de dormência Para que as sementes germinem, a maior parte delas precisa ter sua dormência quebrada. Na natureza isso acontece quando os animais comem as frutas e regurgitam ou defecam as sementes. Os métodos de quebra de dormência tentam imitar essas condições - Raspagem: é o método mais usado nas sementes mais duras. Consiste em raspar a semente em uma superfície áspera ou com facão antes de plantar, mas cuide para não atingir o miolo dela. É adequado para sementes como jatobá e pinho cuiabano. -Choque de temperatura: neste caso as sementes sofrem a alternância de temperaturas, de aproximadamente 20ºC, em períodos de 8 a 12 horas. Consiste em dar banhos em água morna e em segui da banhos de água fria nas sementes. O método é bom para sementes mais sensíveis. - Ter um quebra-vento na direção dos ventos mais fortes; -De fácil acesso de pessoas e veículos. Infraestrutura: - Um galpão, para guardar os equipamentos e insumos, e executar tarefas como o encher saquinhos; - Reservatório de água na parte mais alta do terreno (facilita as regas); - Espaço aberto e sombreado, especial para estocar terra, areia e fertilizantes orgânicos. O berçário Uma sementeira, ou berçário, é essencial para a maior parte das espécies, especialmente as de sementes pequenas. Facilita muito o trabalho e economiza recursos, pois somente será preciso transferir para os saquinhos as plantas que nascerem. Para a maior parte do ano, basta construir uma sementeira (ou berçário) coberta com tela plástica ou sombrite, para proteger contra sol forte e do ataque de insetos. Esta proteção será desnecessária se os saquinhos ficarem sob a sombra natural de árvores. Com poucos recursos O Viveiro - Delimitar uma área de 10m x 1m com tábuas ou tijolos; - Preencher o fundo da área com uma camada de brita grossa e, sobre ela, outra de brita fina (garan- Fases da semente no viveiro te boa drenagem) Semeadura: no caso das sementes miúdas, é usual semeá-las em berçários, isto é, grandes caixas - Preencher com substrato composto por areia (90%) e húmus (10%). cheias de areia misturada com composto orgânico. Para sementes maiores, o plantio é feito diretamente em saquinhos. Mas cada espécie pode exigir um cuidado específico, valendo à pena consul- Canteiros tar alguém que já conheça o manejo das espécies que se deseja plantar. O ideal é que cada canteiro (espaço delimitado para abrigar os saquinhos com mudas) tenha um Germinação: algumas espécies germinam em poucos dias, mas outras demoram meses. Algumas metro de largura por dez metros de comprimento. Mas tudo depende da área que se tem disponível necessitam de sombra para se desenvolver, outras de muito sol. Nem sempre todas sementes para este fim. Para delimitá-lo, coloque em cada canto uma pequena estaca de madeira e ligue estas 30 Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 31 estacas com um barbante, formando um retângulo. Deixe sempre corredores de aproximadamen- ser feito de forma a obter um ângulo de uns 45º com o solo, isso permite que a seiva e os hormônios te um metro de largura entre os canteiros, para facilitar as atividades rotineiras. Uma dica é que estimularão o enraizamento tenham uma maior superfície de contato com a terra. construí-los no sentido leste-oeste o que garante melhor insolação. Cuidados nos canteiros Como transferir do berçário para os saquinhos A rotina de trabalho, para que as mudas se desenvolvam adequadamente, deve ser: Quando as mudas atingem de 10 a 12 cm, deve ocorrer a repicagem, ou seja, a transferência para - irrigar diariamente; saquinhos, com cuidado especial, para a raiz manter-se reta, pois se enrolar a ponta, a planta pode - trocar os saquinhos de lugar, quando as raízes começam a pegar na terra; não se desenvolver. - proteger as mudas do sol, usando tela ou equivalente logo após a repicagem (até a muda firmar), 1- Preparo dos saquinhos: escolha os de um ou dois litros (pode-se reaproveitar sacos de leite, ou permanentemente para determinadas espécies, como a peroba; desde que eles tenham sido muito bem lavados, para que não haja fungos prejudiciais), enchendo- - trocar de saquinhos, quando estes começam a rachar. os até quase a borda com substrato (60% de terra, 20% de esterco curtido e 20% de bagaço de cana curtido – Preparo: Misturar bem e passar por uma peneira de tela grossa (vãos de 2 cm de diâme- O Plantio tro, aproximadamente) para eliminar torrões. As mudas produzidas neste processo 2 – Transferência para os saquinhos: repita o procedimento com cada mudinha, sem esquecer de estão prontas quando atingem 70 cm molhar bem a sementeira antes, para ficar fácil tirá-las: no saquinho, faça com o dedo um buraco de altura. no substrato de mais ou menos 1 cm de diâmetro, onde a mudinha será colocada. Arranque com muito cuidado uma mudinha do berçário, para a raiz não quebrar. Coloque a muda no saquinho, Cuidados necessários com atenção para para que a raiz entre reta. - O local de plantio deve ser adequado Complete o espaço vazio com o substrato. para a planta. - A cova pode ser feita com tamanho Estacas aos invés de sementes entre 40 e 60 centímetros de diâmetro e Para algumas espécies, como amora e pata de igual profundidade. vaca, é possível usar estacas em vez de semen- - Para preparar a terra é preciso mistu- tes para fazer mudas. Assim, elas podem ser rar a terra que se retirou ao fazer a plantadas diretamente no local, sem precisar cova na medida de duas partes de terra passar pelo viveiro. para uma parte de composto orgânico. Reservar. A coleta destas estacas pode ser feita de duas - Para o plantio da muda rasgue o saquinho onde ela está (caso contrário, a raiz não se desenvolve). formas: com uma tesoura de poda, utilizando - Retire-a com o torrão de terra, sem quebrar o torrão. galhos de 20 a 25 cm de comprimento; ou com facão, com galhos de 50 cm. As estacas devem ser coletadas preferencialmente no início da manhã, Preparo da cova quando sua seiva está subindo (assim ela terá mais reservas e hormônios). Verifique com um - Coloque metade da mistura de terra e composto de volta na cova. viveirista que tipo de ramo se transforma numa boa estaca, pois isso varia de espécie para espécie. - Para plantar, introduza a muda com o torrão na cova e preencha o resto do buraco com a mesma Há quem recomende fazer este processo na Lua Nova, para garantir o enraizamento e brotação. mistura. Deve-se ter cuidado para o torrão não ficar acima no nível do solo (seca as raízes), nem muito embaixo (pode apodrecer a base da muda). Para o plantio dessas mudas, coloque uma estaca por saquinho, já com o substrato. Inicialmente, - Para finalizar, pressione um pouco o chão do local plantado para deixar a muda firme, mas não deixe os saquinhos à meia sombra (cobertos com tela plástica, ou na sombra de uma árvore) para aperte muito para não compactar o solo. No local da cova, o terreno deve ficar uns dois centímetros impedir o sol direto. Após a formação da raiz e brotação, os saquinhos com mudas podem ser abaixo do nível do solo. Isso facilita regas. A primeira rega, já pode ocorrer logo após o plantio. colocados a pleno sol, recebendo os mesmos cuidados que as outras mudas, até atingirem o tamanho ideal para a transferência para o local definitivo. Cuidados finais - Cobrir o solo com folhas secas, o que ajuda a manter a umidade da terra. No caso de se plantar a muda já no seu local definitivo em vez do viveiro, o plantio da estaca deve - Quando não chove, deve-se regar de uma a duas vezes ao dia, no início da manhã ou fim de tarde. Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar O plantio das mudas do viveiro é um Cláudia – mata ciliar cultivada em viveiro dos modos dos produtores recuperarem a mata ciliar. Alem da mata ciliar será implantado em cada propriedade uma pequena área de sistema agroflorestal – Em Cláudia, a 606 km de Cuiabá, o Projeto Hoje tudo se desencadeia num só ritmo em prol SAF's. O método escolhido também Loreta: proteção de matas ciliares na do bem comum. O pó de serragem transforma- vem dando ânimo aos agricultores Amazônia Mato-grossense, implantado pelo do em adubo orgânico é utilizado na produção numa forma de não precisar Gapa - Grupo Agroflorestal e Proteção das mudas do viveiro para os 15 km de matas explorar ao máximo sua área até a Ambiental, está em fase final de estruturação, ciliares que conservarão o córrego Loreta. beira dos rios e córregos. Com o 33 “ Se não fosse o trabalho em Rede eu estava no zero. Acredito que o assunto 'meio ambiente' é muito importante atualmente e interessante “ Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 32 que seja acessado por quem lida com a terra, porque mexer nela, mexe com o clima e, preparando seu viveiro para produzir 50 mil sistema eles podem, não só conse- conseqüentemente, mudas, em três anos, de espécies guir frutas diversificadas para seu com nosso futuro florestais e frutíferas. O projeto dá consumo com também para seu continuidade ao trabalho que o Gapa já sustento. O maracujá, a graviola, o desenvolvia na região com a recupera- cupuaçu e abacaxi são algumas das ção do córrego Loreta, que começou a alternativas dadas agora pelo projeto a quem Participante do projeto, ela diz que já pode ser recuperado em 1999. A nascente participa. Isso porque só gado e a lavoura não comprovar a olhos vistos a melhoria em sua quase foi perdida com o fogo que sustentam mais as propriedades. terra. “Antes a gente sofria com as enxurradas, Luiz Lazarin, agricultor erosões e muito pó de serra se espalhando ao assolava a região e o Gapa trabalhou por sua recuperação e preservação A proprietária rural Maria Salete Perinotto não longo do córrego. Toda vida fazia força para com ajuda do poder público municipal nega sua participação no processo de degrada- meu marido ir à prefeitura para reclamar, mas e a população local. ção e conta que passou pelos problemas ambi- ninguém dava bola, só prometiam. Minha entais causados pela destruição da mata ciliar. vontade era de ir embora daqui. Quando Cláudia já perdeu sete nascentes antes compramos a terra não víamos a do Córrego Leda ser salvo com a hora de derrubar a mata ciliar para reserva municipal que o o gado beber água e aí, vimos que a protege. qualidade não estava boa porque “ nossa parte do córrego ficava entre duas propriedades que não respei- Acho importante trabalhar com intercambio porque assim conhecemos tavam a mata ciliar. Fui a favor do outros locais, como estão indo e o que estão fazendo e os projeto de recuperação porque nos “ convencemos de que estamos resultados obtidos ajudam poupar tempo quando plantando para o futuro e teremos aplicarmos métodos semelhantes em nossa região. árvores e água de qualidade daqui A troca de conhecimentos obtida com os intercâmbios a cinco ou dez anos. Agora a vonta- que a Rede proporciona tem sido muito de de vender a terra passou”, importante para o Projeto Loreta argumenta. Com a orientação do Brigitte Frick, coordenadora do Gapa para o Padeq Loreta Gapa ela conta que plantou em sua proprieArmin Beh mostra em franca recuperação Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 34 dade mudas de mescla, cedro-rosa, ipê- córrego. Como providências tiraram o gado de amarelo, ingá, maracujá, cedrinho, seringa, perto do córrego e, em dois anos, a água voltou a jatobá, pequi e cacau. As frutas, além de correr. Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 35 Sistemas Agroflorestais: alimentarem a família, servem para os passa- produção de alimentos e restauração florestal rinhos alegrarem o dia e ajudarem a reflorestar “Tinha bastante coisa que sabíamos que pode- a área. Ao todo ela já plantou 250 mudas e não ríamos deixar para depois, mas vimos que pensa em parar. Também colocou cerca em precisávamos preservar agora para não ver volta do rio para que os bezerros não cheguem mais degradação, como a nascente que deixei Recuperar florestas pode ser tão simples quanto o processo criado pela própria natureza, sem no mais lá. secar”, lamenta. Em 1986 sua propriedade entanto significar perda de renda dos agricultores e agricultoras. Uma técnica que permite isso é o queimou toda por causa de fogo causado por Sistema Agroflorestal (SAF), que nos leva a observar como a natureza se recupera sozinha e como Sérgio Dalmaso Pereira, também proprietário vizinhos. Por isso ele acha importante trabalhar podemos dar uma ajuda neste processo incluindo espécies que nos interessam economicamente. de terra onde o Loreta passa diz que a água em conjunto para juntar esforços e recursos. chegou a secar na nascente da propriedade, Dessa forma aprende-se mais e repassa-se mais O método mais simples consiste em misturar as mais diferentes sementes – de hortaliças a árvores forçando a família a pegar água de outro em sua opinião. – e semear diretamente no solo, numa mesma cova. Nesse processo, deve ser levado em conta os ciclos de vida das plantas e a quantidade de sementes por espécie a ser colocada no coquetel. As O Luiz Lazarin e seu filho sementes não devem ser enterradas em profundidade e devem ser homogeneamente distribuídas. Leomar, outros proprietá- Uma boa recomendação é que se misture terra e água no coquetel – isso torna a mistura mais rios rurais participantes homogênea e evita que as sementes do projeto, contam que pequenas fiquem no fundo do reci- sua água e a produção piente. estavam prejudicadas por causa do desmatamento. O método, além de simples é econômi- Agora, com a preservação, co, cabendo perfeitamente no bolso do só melhoram a renda. pequeno agricultor. Isso porque a agrofloresta reúne as culturas agrícolas e florestais, usando a dinâmica de sucessão de espécies nativas, colocando lado a lado as espécies que agregam benefícios para o solo e aquelas que Viveiro do projeto do Gapa, em Cláudia oferecem produtos para o agricultor. O segredo é consorciar espécies de diferentes estágios da sucessão natural, assim elas se complementam ajudando umas as outras até formar uma floresta madura. Os SAFs são a reprodução no espaço e no tempo da sucessão ecológica verificada naturalmente na colonização de áreas novas ou deterioradas. Não é a reconstrução da mata original porque inclui plantas de interesse econômico desde as primeiras fases, permitindo colheitas sucessivas de produtos diferentes ao longo do tempo. O plantio conjunto de espécies pode ser em linhas ou ainda melhor, nas mesmas covas. Há que se observar no entanto, nesta técnica, que algumas sementes nascem rápido como a do ingá e do cacau falso. Como a mata precisa, em geral, de 20 anos para se recuperar, nesse tempo o Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 36 agricultor pode aproveitar sua agrofloresta para colher frutas para sua subsistência ou geração de duzir novas plantas mais exigentes, renda. imitando a sucessão natural, que 37 existe na natureza. Aos poucos as plantas dão os frutos que nutrirão o agricultor. Enquanto isso, as árvores ajudam a A observar formar a agrofloresta. - Na mistura deve-se conhecer as espécies que se desenvolvem melhor Manejo do sistema quando plantadas juntas. É o caso do Capina seletiva: apenas as plantas pioneiras nativas ou plantadas são cortadas ou arrancadas milho e feijão, que os índios já reuni- quando maduras. Isso poupa as que têm uma posição mais avançada na sucessão, ou seja, aquelas am em suas roças. que ainda estão crescendo. Desta forma o manejo dá dinamismo ao processo acelerando seu - Já o café gosta de sombra. É amigo desenvolvimento. Este manejo, sempre que possível deve ser realizado no período das chuvas. A de árvores como a manga, tamburiu, hora da colheita também é propícia ao manejo. Isso porque pode-se espalhar matéria orgânica pelo samaúma, jequitibá. Com a bananeira solo e introduzir novas sementes onde há falhas. só conviverá bem por poucos meses. Poda: importante porque concede a entrada da luz para as plantas que estão abaixo das maiores. - Onde há bananal, pode-se introduzir Para saber qual indivíduo podar, basta observar se o mesmo apresenta ataque de doenças ou o abacate, que tem ciclo de vida mais pragas, se a planta está em condições de estresse relacionadas ao solo e à luminosidade. Também longo e, no extrato mais baixo, plantar taioba. pode ser feito a pode para induzir a floração (como no caso do café e do abacaxi). - A mandioca é um tipo de 'viveiro' natural, pois cresce mais rápido e acaba por dar sombra às No PA Jaraguá, o aprendizado sobre os SAF's uniu a comunidade outras espécies que estão plantadas na mesma cova e que demoram mais a brotar. Neste caso as -O mix de sementes deve ter vegetais de três grupos: de ciclo de vida curto, como feijão; médios, raízes devem ser direcionadas para o lado oposto ao da muda. como guandu, mandioca e maracujá, e de ciclo longo, como as árvores que levam anos para crescer - O milho plantado neste sistema também é importante porque, por nascer rápido, serve como e dar frutos, tipo acácia negra, pau pereira, ingazeira, tamburiu. referencial das covas. - Podem ser plantadas até dez espécies na mesma cova e cabem cerca de quatro covas em um metro -Um jeito de plantar é fazer linhas na terra, de metro em quadrado. No entanto, não há limite de junção de sementes na mesma cova. O próprio sistema metro, onde ficarão as covas com misturas de semente. selecionara os indivíduos mais fortes e o agricultor deve observar e selecionar os indivíduos que No meio disto, pode-se cultivar uma única variedade que ficarão no sistema. forneça mais biomassa (matéria orgânica) ao sistema. - Neste processo a natureza escolhe as melhores sementes, que brotam mais vigorosas, e o agricul- Em áreas degradadas, podem ser usados feijão de porco, tor pode, então, fazer sua seleção para as próximas covas. planta que ajuda a fixar o nitrogênio no solo. Após a - Nas covas aonde tem muitas sementes de frutas (que precisam de sol e matéria orgânica para se colheita do feijão, as plantas serão cortadas, mas não desenvolver), é importante a poda nas plantas que fazem sombra a estas. retiradas, tornando-se matéria orgânica para enriquecer - Como são muitas sementes juntas a cova deve ter entre 10 e 15 cm de profundidade. Também se o solo. Para completar, de oito em oito metros, dá para pode fazer linhas rasas ou círculos rasos, colocar pouca terra sobre elas e completar com mais incluir uma fila de árvores maiores, que fornecerão cobertura vegetal (folhas secas, etc). sombra e frutos no futuro, como é o caso do abacate e da - O solo tem que ficar sempre coberto de matéria orgânica para evitar que o sol esquente muito e a manga. chuva compacte o solo. Como começar Restauração florestal - Faz-se um diagnóstico da área. Acidez (pH), disponibili- Crianças do PA Jaraguá se divertem em meio às plantações dade de fósforo e nitrogênio do solo são elementos Outro processo de recuperação florestal é mais tradicional. Nele são plantadas somente árvores de fundamentais para a escolha das espécies certas para o climax (espécies que fecham a mata no final da sucessão natural) que normalmente são usadas local. para cortar depois como a seringueira, o cedro, a itaúba, o angelim saia, a mescla e a peroba. E com - À medida em que o ecossistema vai melhorando, intro- distância de três metros para cada cova. No entanto, como essas arvores são quase todas da mesma 38 Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar 39 altura, faltam as árvores no meio e em baixo desta floresta recriada. Para crescer mais rápido é interessante que sejam plantadas espécies como a embaúba, que não serve para corte, mas para mobilizar o fósforo no solo e ajudar as outras plantas a crescerem, pois oferecem sombra. Outras espécies como a mangueira e a jaqueira também podem ajudar as outras árvores com a sombra e Água Boa: entre o novo e o tradicional na floresta nutrientes no solo. Em Água Boa, projeto Agricultura e se isola uma área que já tem fontes de sementes e passarinhos. Se não existem estes itens naturais, Conservação da Mata Ciliar traba- pode-se contribuir com o processo ao jogar sementes nesta área isolada para enriquecer o lugar. lha com 30 famílias do Assenta- Para atrair passarinhos – que são semeadores da natureza – podem ser construídos poleiros mento Jaraguá, que serão os artificiais, como tocos altos no meio do plantio. multiplicadores do processo de recuperação das beiras de rios, Numa floresta nativa percebe-se uma mistura, de árvores maiores e menores. Nela há três grandes córregos e nascentes na região, grupos: pioneiras, as secundárias e as de clímax, que constituem o esquema de sucessão. Por isso, numa iniciativa coordenada pelo um bom projeto de reflorestamento com árvores nativas deve misturar árvores dos três grupos, na ISA - Instituto Socioambiental. proporção correta. “ “ Além da ajuda do homem uma recuperação florestal pode ser feita somente pela natureza quando Com esta experiência tenho certeza de que, Marlene Machado Souza e Seu quando o projeto acabar, nós já crescemos o suficiente para buscar o caminho da sustentabilidade Luzia Dias, agricultora Como são: Dorly Lima dos Santos fazem parte - Pioneiras são as que nascem primeiro. Têm como característica o rápido crescimento, mas não desse grupo. Eles estão há oito anos vivem tanto tempo, nem ficam muito grandes. Fazem sombra, dando condições para outras na terra e contam que não tinham orientação para seguir naquilo que já estavam fazendo: espécies nascerem e se desenvolverem melhor. nenhuma para manejar uma área já sem muitos recuperar a floresta em sua propriedade. - Secundárias crescem mais lentamente, porém ficam maiores. recursos naturais intocados. Para reverter a - Clímax, em geral, crescem apenas na sombra e levam mais tempo para se desenvolver. A madeira situação resolveram plantar árvores e tenta- “Com a experiência crescemos muito. Antes a é bem dura e o porte é maior. São as chamadas árvores de madeira de lei. ram preservar a nascente existente em seu lote. gente plantava banana e a galinha comia tudo. Quando o projeto chegou ao assentamento, eles Então resolvemos implantar a técnica do se engajaram e aumentaram seu conhecimento Ernest já com inovação própria”, disseram. A escolha das espécies - Para o reflorestamento de uso sustentado (aproveitamento econômico, sem destruir a floresta como um todo) deve haver um planejamento de que árvores serão plantadas para a futura exploração. - Já para a regeneração de ecossistemas deve-se procurar espécies típicas do ecossistema a ser regenerado. Na recomposição de matas ciliares (matas que beiram e preservam os rios) - as espécies devem ser adaptadas a ambientes mais úmidos. Regeneração Natural: Através da regeneração natural, as florestas apresentam capacidade de se recuperarem de distúrbios provocados pela ação do homem. A sucessão secundária depende de uma série de fatores como a presença de vegetação remanescente, o banco de sementes no solo, a rebrota de espécies arbustivo-arbóreas, a proximidade de fontes de sementes e a intensidade e a duração do distúrbio. Assim, cada área degradada apresentará uma dinâmica de sucessão específica. Em áreas onde a degradação não foi intensa, e o banco de sementes próximas, a regeneração natural pode ser suficiente para a restauração florestal. Nestes casos, torna-se imprescindível eliminar o fator de degradação, ou seja, isolar a área e não praticar qualquer atividade de cultivo. Quando Ricardo entrou no seu lote, não havia uma árvore sequer, ele começou a plantar assim que entrou e hoje, com o conhecimento de SAF, melhorou ainda mais a riqueza de seu sítio Alternativas Econômicas Sustentáveis para Agricultura Familiar Assim, rodearam as covas que ficam perto da casa com abacaxis para que as galinhas não comam, mostrando intimidade com as técnicas e princípios ensinados pelo agricultor e pesquisador Ernst Götsch. Aldenor de Souza Machado, “ “ 40 É a primeira vez que trabalho em Rede e estou achando importante conhecer outras atividades econômicas num mesmo projeto que também faz parte do Osvaldo Luís de Souza, técnico do ISA no projeto grupo, conta que ocupou seu lote no assentamento em 1999, já completamente desmatado. Neste ano viu o córrego secar e virou agente social e ouviu reclamações de pensou em fechar uma parte para recupera- muitos agricultores acerca de problemas ção. Ele e sua família conseguiram reverter a ambientais como a falta de água e a necessidade situação com a renovação do córrego na época de reflorestar a região, mas não sabia nem como das chuvas, quando cercaram as margens para começar. Com o projeto, tudo mudou. Dias recuperar a mata ciliar. Agora o volume de relata que aprendeu a recuperar as matas água está maior e o apoio técnico do projeto o ciliares, com a orientação o projeto. Hoje, ajuda a melhorar ainda mais a iniciativa. comemora os frutos desta empreitada: antes vivia só da venda da farinha produzida pelo Outro casal que comprova as benesses da casal, agora tem a opção de oferecer ao mercado recuperação florestal é Ricardo e Luzia Dias o pequi, para o qual não tem faltado comprador. Batista. Ele conta que ouve falar de refloresta- A intenção agora é plantar a seringa e o caju, mento, desde que era presidente do Sindicato com esperança de um futuro mais verde. dos Trabalhadores Rurais de Água Boa. Depois