RAÇA E RELIGIÃO Reginaldo Prandi RESUMO O Brasil conta com rico patrimônio de religiões de origem africana. Em que medida as populações negras são seguidoras destas religiões e em que medida estão presentes nas religiões de origem européia e norte-americana? Como a população branca adere às chamadas religiões negras? São as perguntas centrais deste artigo. Na busca de sentido sociológico para a temática da cor e das religiões, são discutidas questões sobre identidade, sincretismo religioso e integração do negro na sociedade nacional, no curso histórico que viu o nascimento e as transformações das religiões afro-brasileiras, e a prosperidade de suas principais rivais, as religiões pentecostais. Palavras-chave: raça e religião; cor e religião; religiões negras; movimentos negros; sincretismo; religiões no Brasil. SUMMARY Religions of African origin provide a rich heritage for Brazil. To what extent do Brazilian blacks take part in these religions, and to what extent are they involved in religions of European and American origins? In what ways do whites join the so-called black religions? These are the central issues discussed in the article. In seeking a sociological meaning for the questions of color and religion, the author discusses identity, religious sincretism and the integration of blacks in national society, in a historical perspective covering the birth and transformations of AfroBrazilian religions as well as the prosperity of their main rivais, the Pentecostal cults. Keywords: Afro-Brazilian religions; Pentecostalism; sincretism; blacks in Brazil. Ser negro no Brasil O Brasil está longe de ser uma democracia racial, em que brancos, negros e gentes de outras origens pudessem ter as mesmas oportunidades sociais, embora goste de se ver e mostrar como país sem preconceito e sem discriminação racial (Fernandes, 1965; Hasenbalg & Silva, 1993). Como a imensa maioria dos negros está imersa na maioria pobre da população, confunde-se negritude com pobreza, quando não se justifica a condição de pobre como decorrência da própria condição negra. Vive-se uma "cultura de miscigenação", em que as múltiplas modalidades de classificação racial ou de cor têm contornos frouxos e sutis, às vezes flexíveis. Brancos, claros, morenos, pardos, pretos, mestiços, negros, cafuzos, escuros, nnnnnnnn JULHO DE 1995 113 RAÇA E RELIGIÃO mulatos, numa pluralidade racial, em que também se inserem os amarelos orientais e os índios e caboclos, e todos o seus diminutivos, podendo-se escurecer e embranquecer os indivíduos em função de posições sociais alcançadas por eles ou em virtude de sua origem familiar. Ser negro no Brasil depende certamente da herança genética africana, mas a expressão da base biológica, por assim dizer, é reconhecida e diferentemente classificada a partir de uma série de circunstâncias sociais, culturais e regionais. Se, de um lado, isto demonstra o caráter elástico das formas de discriminação racial no Brasil, de outro, revela um mecanismo de disfarce que vale tanto para mudar a categoria classificatória de um indivíduo em função de sua posição social, quanto para camuflar o preconceito e a discriminação e seus operadores sociais. A flexibilidade classificatória dificulta de certa forma a construção de identidades e o alcance de consciência que permita enxergar as questões raciais de uma perspectiva coletiva capaz de negar a armadilha da percepção da diferença de cor como questão individual: difícil saber quem é o quê; difícil assumir-se como grupo com dificuldades, interesses e possibilidades comuns. O quadro se complica quando outros vetores, na origem claramente cruzados com o problema da raça, emergem no panorama do preconceito na forma de preconceito de origem regional, que é o preconceito contra os baianos, os nortistas, os nordestinos vistos no Sudeste. Estes, em boa medida são, igualmente, de alguma origem africana, isto é, pertencem a alguma modalidade da escorregadia escala brasileira de negritude, e são portadores, ipso facto, daquilo que a cultura branca dominante segue imaginando serem os característicos raciais atávicos e perversos dos descendentes de negros africanos escravizados, como pensava a ciência erudita do final do século XIX e começo deste1 (Schwarcz, 1993). Ao que se junta o preconceito contra as religiões afrobrasileiras, que tanto pode ser preconceito do branco como do negro, preconceito tão elaborado que, no próprio interior dos cultos de origem negra, no seio da sociedade urbana e industrial em formação e certamente por causa dela, instituíramse mecanismos de apagamento de traços rituais reveladores da origem africana (Ortiz, 1978). Décadas mais tarde, o preconceito contra religiões afro-brasileiras entraria para a receita do sucesso de religiões evangélicas formadas no Brasil, que se propagam por muitos países do mundo, e que usam deuses, santos e entidades das religiões nascidas negras para publicizar a presença do demônio, enxovalhá-lo e enxotá-lo, no exercício exorcista da vitória do bem sobre o mal. Mal que se manifesta, segundo este neopentecostalismo, na experiência religiosa da herança africana e que só a religião do bem pode afastar. Ainda que seja difícil estabelecer com precisão alguma fronteira entre quem é o branco e quem é o negro no Brasil, descrever um negro, segundo o sentimento inscrito nos estereótipos raciais do nosso dia-a-dia, é fácil: negros são preguiçosos, sujos, fedorentos, metidos, despudorados, ignorantes, macumbeiros. Migrantes, são ainda beberrões, malandros e bandidos, cafetões e prostitutas. São as domésticas que se entregam à luxúria dos meninos de família. Gente desbocada e interessada no prazer, na dança maliciosa dos salões, avenidas, sambódromos e candomblés. Gente que gasta o dinheiro da difícil sobrevivência "pra fazer a fantasia", que faz de tudo para manter o luxo de seus deuses africanos, reiterando uma predisposição de ostentação e mau gosto. E mentem, sempre. Pobres porque preguiçosos e ignorantes, amontoam-se nas favelas e nos cortiços, vivendo do tráfico de drogas, do jogo do bicho, do pequeno e do grande crime. Personagens de uma tragédia social, que em grande parte é absolutamente real, nós poderíamos descrevê-los nestes versos de "O rancho da goiabada" de João Bosco e Aldir Blanc: "[...] são paisn 114 NOVOS ESTUDOS N.° 42 (1) Em 1889, o médico Nina Rodrigues, num artigo conclusivo sobre a inadequação racial do negro baiano frente à civilização branca, proclamava que "os estados de santo dos áfrico-baianos não são mais do que manifestações do sonambulismo histérico. [...] Continuar a afirmar [...] que os negros baianos são católicos e que tem êxito no Brasil a tentativa de conversão, é, portanto, alimentar uma ilusão que pode ser cara aos bons intuitos de quem tinha interesse de que as coisas se tivessem passado assim" (Rodrigues, 1935, p. 199). REGINALDO PRANDI de-santo, paus-de-arara, são passistas/ são flagelados, são pingentes, balconistas/ palhaços, marcianos, canibais, lírios pirados/ dançando dormindo de olhos abertos à sombra da alegoria/ dos faraós embalsamados". O branco pobre poderá também ser quase tudo isso, mas o será pelo fato de ser pobre. O negro pobre já assim é pelo fato de ser negro. A distinção que se faz no Brasil entre negros e brancos depende mais da presença de traços fenotípicos que da origem racial propriamente, dando-se aqui o que Oracy Nogueira chamou de preconceito de marca, em contraposição com o preconceito de origem, como nos Estados Unidos, onde, ao contrário da pluralidade racial brasileira, formou-se uma cultura segregacionista bi-racial (Skidmore, 1992). Aqui, um degrau acima na escala de mobilidade social pode ser suficiente para apagar essas "marcas", num processo de "branqueamento" social que os brasileiros conhecem bem. Como esta possibilidade do branqueamento pela ascensão social se processa individualmente, os movimentos de afirmação racial e identidade negra de caráter coletivo são frágeis entre nós2. Essa face maldefinida, às vezes definida num disfarce, que se mostra na complexidade dos mecanismos de identidade racial, ou de cor, não se limita ao plano dos indivíduos. Está também em instituições, modela-as e as faz, por vezes, se reconstruírem, construindo para uma cultura brasileira, genérica e racialmente descolorida, instituições universalizadas, isto é, de todos, sem limites de raça, cor, geografia, extração social. Se uma instituição, como uma religião de orixás, ou a escola de samba, o próprio samba, tem uma origem negra necessária, essa origem há muito deixou de caracterizar necessariamente para seus participantes, produtores e consumidores a marca da cor, que pode, em determinadas circunstâncias, ser rememorada como fonte de legitimidade pela origem. O que não significa querer voltar a esta origem tal como ela era então. As religiões negras e o sincretismo como identidade brasileira A presença do negro na formação social do Brasil foi decisiva para dotar a cultura brasileira dum patrimônio mágico-religioso, desdobrado em inúmeras instituições e dimensões materiais e simbólicas, sagradas e profanas, de enorme importância para a identidade do país e de sua civilização. No que diz respeito à religião especificamente, os cultos trazidos pelos africanos deram origem a uma variedade de manifestações que aqui encontraram conformação específica, através de uma multiplicidade sincrética resultante do contato das religiões dos negros com o catolicismo do branco, mediado ou propiciado pelas relações sociais assimétricas existentes entre eles, também com as religiões indígenas e bem mais tarde, mas não menos significativamente, com o espiritismo kardecista. Desde sua formação em solo brasileiro, as religiões de origem negra têm sido tributárias do catolicismo. Embora o negro, escravo ou liberto, tenha sido capaz de manter no Brasil dos séculos XVIII e XIX, e até hoje, muito de suas tradições religiosas, é fato que sua religião enfrentou-se desde logo com uma séria contradição: as próprias estruturas social e familiar às quais a religião dava sentido aqui nunca se reproduziram. As religiões dos bantos, iorubás e fons são religiões de culto aos ancestrais, que se fundam nas famílias e suas linhagens. O tecido social do negro escravo nada tinha a ver com família, grupos e estratos sociais dos africanos nas suas origens. Assim, a religião negra só parcialnnnn JULHO DE 1995 115 (2) "O preconceito de cor ou de marca racial, em contradistinção ao preconceito racial de origem, implica a idéia de preterição e, portanto, por definição, na possibilidade de serem os seus efeitos atenuados, contrabalançados ou agravados pela presença ou ausência de outros característicos pessoais ou sociais." (Nogueira, 1955, p. 546) RAÇA E RELIGIÃO mente pôde se reproduzir aqui. A parte ritual da religião original mais importante para a vida cotidiana, constituída no culto aos antepassados familiares e da aldeia, pouco se refez, pois a família se perdeu, a tribo se perdeu. Na África, era o ancestral do povoado (egungum) que cuidava da ordem do grupo, resolvendo os conflitos e punindo os transgressores que punham em risco o equilíbrio coletivo. Quando as estruturas sociais foram dissolvidas pela escravidão, os antepassados perderam seu lugar privilegiado no culto. Sobreviveram marginalmente no novo contexto social e ritual. As divindades mais diretamente ligadas às forças da natureza, mais diretamente envolvidas na manipulação mágica do mundo, mais presentes na construção da identidade da pessoa, os orixás, divindades de culto genérico, estas sim vieram a ocupar o centro da nova religião negra em território brasileiro. Pois que sentido poderia fazer o controle da vida social para o negro escravo? Fora de suas assembléias religiosas, era o catolicismo do senhor a única fonte possível de ligação com o mundo coletivo projetado para fora do trabalho escravo e da senzala. Se a religião negra, ainda que em sua reconstrução fragmentada, era capaz de dotar o negro de uma identidade negra, africana, de origem, que recuperava ritualmente a família, a tribo e a cidade perdidas para sempre na diáspora, era através do catolicismo, contudo, que ele podia se encontrar e se mover no mundo real do dia-a-dia, na sociedade dos brancos dominadores, responsável pela garantia da sua existência, não importa em que condições de privação e dor. Qualquer tentativa de superação da condição escrava, como realidade ou como herança histórica, implicava primeiro a necessária inclusão no mundo branco. E logo passava a significar o imperativo de ser, sentir-se e parecer brasileiro. Nunca puderam ser brasileiros sem ser católicos. Podiam preservar suas crenças no estrito limite dos grupos familiares, muitas vezes reproduzindo simbolicamente a família e os laços familiares através da congregação religiosa, daí a origem dos terreiros e das famílias-de-santo. Mas a inserção no espaço maior exigia uma identidade nacional, por assim dizer, uma identidade que refletisse o conjunto geral da sociedade católica em expansão. O fim da escravidão, a formação da sociedade nacional, o extravasamento das populações pelas amplitudes geográficas, com a criação de possibilidades as mais diferentes, tudo isso só fez reforçar a importância do catolicismo para as populações negras. O próprio catolicismo, como cultura de inclusão, hegemônica, não fez oposições, que não pudessem ser vencidas, ao fato de o negro manter uma dupla ligação religiosa. Pois em São Luís, talvez o mais vivo e denso centro cultural dos sincretismos afro-católicos, não são apenas os devotos das religiões negras que são também católicos; católicas também são consideradas pelos seus fiéis as próprias divindades trazidas da África (Ferretti, 1995). As religiões afro-brasileiras, em suas origens, sempre foram devedoras e dependentes do catolicismo, ideológica e ritualmente. Só muito recentemente — quando a sociedade brasileira não precisa mais do catolicismo como a grande e única fonte de transcendência que possa legitimá-la e fornecer os controles valorativos da vida social —, as religiões de origem negra começaram a se desligar do catolicismo. Mas isto é um projeto de mudança de identidade que mal começou e que exige, antes, outras experiência de situar-se no mundo com mais liberdade e direitos de pertencimento. Desobrigadas, desde o nascimento, das questões referentes à administração da justiça que pressupõe princípios universalistas e pactos coletivos acima dos desejos individuais, dado que isto era domínio exclusivo da religião geral da sociedade geral, isto é, o catolicismo; desinteressadas de conteúdos formadores da pessoa para o mundo profano, porque o modelo aqui é branco; alimentando o culto nn 116 NOVOS ESTUDOS N.° 42 REGINALDO PRANDI de deuses que se exteriorizam e se expressam especialmente através da forma; não é sem razão que as religiões afro-brasileiras desenvolveram um enorme senso ritual presidido por inigualável senso estético, capaz de transbordar os limites do sagrado para se impregnar nas expressões mais profanas que modelam a identidade nacional. Ser brasileiro agora é ser do samba, do "camarão ensopadinho com chuchu", do carnaval de avenida — que é tudo afro-brasileiro e nada absolutamente religioso. Os elementos da religião tradicional, ao serem assimilados pela cultura nacional deixam de ser religiosos para serem simplesmente exóticos. E mesmo quando conteúdos religiosos, nessas circunstâncias, são mantidos por seus cultores, como o ebó para Exu que abre o desfile da grande escola de samba de prestígio universal, isto não tem nenhuma importância para a sociedade. Este ebó, certamente, é privativo de um grupo que busca firmar sua identidade religiosa singular, não se publiciza a não ser como ingrediente estético. As religiões negras no mundo dos brancos De modo bastante resumido, podemos identificar duas matrizes africanas básicas que jogaram papel decisivo na formação das religiões negras no Brasil: sudaneses e bantos. Ambas as tradições, cada uma contemplando uma multiplicidade de variantes, têm em comum princípios fundantes bem definidos: o politeísmo e a concepção de que os deuses são privativos de indivíduos e grupos, os deuses como mediação das forças da natureza, o contato com a divindade através do transe, a decifração do destino pelo oráculo, o culto à ancestralidade e o favorecimento dos deuses pelo sacrifício ritual. Dos povos sudaneses, a herança mais importante veio dos grupos de fala iorubá, cujos deuses, denominados orixás, são bastante referidos na cultura brasileira contemporânea, mesmo profana, oferecendo artifícios de expressão muito consumidos. Formas rituais, concepções míticas e o panteão iorubano, ou nagô, tornaram-se absolutamente predominantes no Brasil e no conjunto das religiões negras. Os ewê-fons (ou jejes), povos vizinhos dos iorubás, com os quais estes, já na África, encontravam-se em contato cultural de influências recíprocas, trouxeram a religião dos voduns, divindades pouco conhecidas hoje no Brasil como um todo, mas que sobreviveram minoritariamente na Bahia e se mantêm muito significativas no Maranhão. O culto dos voduns (jejes) mesclou-se com o dos orixás (nagôs), sendo responsável por decisiva contribuição no âmbito da organização ritual da religião que aqui foi se fundindo. A religião dos orixás foi originalmente chamada candomblé na Bahia, xangô no Recife e Alagoas, tambor de mina nagô no Maranhão e Pará, batuque no Rio Grande do Sul. A partir dos anos 60, o termo candomblé generalizou-se. As etnias de origem banto, para cá trazidas muito antes dos nagôs e dos jejes, também trouxeram sua religião, mas perderam seus deuses, os inquices, divindades que no Brasil não lograram romper sua ligação com o solo geográfico africano, onde estão fixados. O único inquice que sobreviveu em solo brasileiro é chamado Tempo e é associado à noção de tempo cronológico e atmosférico, contínuo e cíclico. Mas os negros bantos recriaram um panteão próprio em terras brasileiras, adotando como objeto de culto os assim considerados ancestrais desta Terra de Santa Cruz, os índios, os primeiros senhores do lugar, os antepassados verdadeiros, pois. Nasceu daí, na Bahia, o candomblé de caboclo, que mais tarde foi incorporado nn JULHO DE 1995 117 RAÇA E RELIGIÃO inclusive à maioria das variantes dos candomblés iorubanos, tendo o caboclo adquirido também enorme importância no tambor de mina do Maranhão, onde seu status de entidade religiosa praticamente está num patamar equivalente ao do vodum africano. Os candomblés bantos, contudo, não cultuam apenas os caboclos: eles adotaram também os orixás dos iorubás. Por volta dos anos 30, incorporaram o oráculo de dezesseis búzios e outras fórmulas rituais nagôs, embora tenham mantido uma língua ritual própria, de origem banto, sobretudo das etnias quicongo e quimbundo, hoje tão intraduzível como as línguas rituais que se originaram do iorubá e do ewê-fon. Este culto a orixás que são invocados com nomes de inquices é hoje referido e auto-referido como candomblé angola. Muito expressivamente, os caboclos ganharam como língua ritual o português; numa espécie de protoumbanda3. Por muito tempo as religiões negras estiveram restritas a grupos negros e mestiços, quase que confinadas naquelas regiões do País onde só tardiamente o desenvolvimento da sociedade de classe diluiu, escondeu ou apagou o sentido da identidade racial, desarticulando a especificidade dos grupos de cor, sobretudo em vista de sua integração no mercado de trabalho nacional4. Junto aos candomblés, o catolicismo do senhor branco era e continua sendo vivido como a face branca, nem antagônica nem contraditória, da religião dos antigos africanos. Um simples porém eficaz sistema de equivalências e justaposições entre as religiões negras e o catolicismo ibérico de preferências devocionais a uma infinidade de santos quase heveméricos na concepção popular (o que o protestantismo, fosse o caso, não propiciaria) logo se formou. Apesar da intransigência e perseguição do branco aos candomblés, perseguição violenta até há poucos anos, o negro pôde por muito tempo ter seus próprios deuses, sendo assim africano, e ser católico, sendo assim brasileiro. O negros que se incorporaram ao movimento de formação das religiões afrobrasileiras, ao longo do tempo, foram sempre minoria, contudo. A maior parte dos descendentes dos antigos escravos deixou os velhos deuses africanos para trás, aderindo à sociedade do branco, munida unicamente da religião do branco. Nas primeiras décadas deste século, as novas grandes cidades do Sudeste se formaram com o surgimento de grandes contingentes de um proletariado pobre, sendo o negro pouco a pouco incorporado ao mercado de trabalho livre, ainda que em condições de inferioridade em relação ao branco recém-chegado da Europa para as ocupações industriais que se desenhavam. O negro empregado, em geral, nas ocupações mais ligadas aos setores de serviço pessoal ou às atividades manuais não qualificadas, freqüentemente em posição formalmente marginal nos bolsões informais associados ao mercado de força de trabalho (Prandi, 1977). Estas cidades em profunda transformação viram também nascer, crescer e se espalhar pelo Brasil todo uma nova religião, a umbanda. Os anos que vão de 1920 a 1950 definem o período em que se gestou a feição moderna do que viria a ser o Brasil que conhecemos hoje. O desfecho do processso de integração e exclusão que marca a história do negro no Brasil, e depois do neto do europeu que sonhou com a América, foi se delineando neste período. A sociedade de classes estava em formação, a população era intensivamente redistribuída através do País, novos centros de hegemonia econômica iam se formando, o Estado buscava de toda maneira encontrar um modelo de eficiência burocrática, ampliando seus limites de atuação para substituir antigos mecanismos patrimoniais de bem-estar por instituições impessoais. O Brasil ia deixando de ser uma economia agrária para se nnnnnnnnn 118 NOVOS ESTUDOS N.° 42 (3) Em outro trabalho (Prandi, 1991) ofereço com pormenor uma melhor reconstituição deste processo, as variantes étnicas de sua formação, suas metamorfoses e minha interpretação sociológica do processo. A meu ver, uma bibliografia bastante suficiente sobre essas religiões pode ser encontrada neste livro. (4) Além das formas afro-brasileiras mais conhecidas, há um grupo de religiões de caráter muito regional que parecem mais associadas a religiões indígenas, das quais herdaram o uso ritual do tabaco e a forma cabocla das entidades, mas que se constituíram sobretudo com base em estruturas e componentes rituais africanos, com traços católicos e espíritas, como é o caso da jurema, catimbó, pajelança, cura, babaçuê. (Prandi, 1991; Ferretti, 1994). REGINALDO PRANDI industrializar; a sociedade rural, rústica, tradicional se preparava para a modernidade. A diferença que segregava, que marginalizava, devia ceder lugar a categorias diferenciadas que pudessem compor um todo orgânico. O singular precisava universalizar-se para sobreviver. Esse processo, que transformava o negro em pobre, juntou o pobre negro com o pobre branco numa mesma categoria. No espaço sem identidade da grande cidade que então apenas se desenhava, aglomerava-se uma população cujas referências originais tinham sido estilhaçadas pelas mudanças em curso, fossem eles negros ou brancos, ou fossem ainda "misturados", como os têm sonhado as ideologias brasileiras dos morenismos e do branqueamento da raça. Nesta inflexão estrutural da sociedade brasileira, a umbanda surgiu como uma redefinição de origens, símbolos e desideratos. Suas fontes estão na confluência dos candomblés de caboclo e de angola, via pela qual herdou os orixás como cabeças de falanges de espíritos desencarnados de velhos índios e antigos escravos, com o kardecismo, com o qual aprendeu não só a lidar com a concepção do karma de herança hindu, mas também com uma concepção ética da expressão religiosa cristã e com a idéia de progresso (material, intelectual e espiritual) alcançável pela experiência religiosa porém racional (Camargo, 1961; Prandi, 1991). Os pontos básicos fundantes da umbanda poderiam assim ser enumerados: interesse pela ética cristã; constituição de um panteão africano e ameríndio; concepção de mundo mágico porém salvacionista; valorização do outro desconhecido através da prática da caridade; idealização do código escrito como testemunho do valor do exercício intelectual. A estes itens depois se agregaram conteúdos esotéricos, uma mitologia de origem e a concepção (já kardecista) de religião também como serviço mágico-religioso, que ensejou a constituição da categoria dos clientes distinta da categoria dos fiéis. Ampliou-se também o espectro "racial" e "nacional" do panteão. A partir deste núcleo, o resto são variações: com dança ou sem dança, com atabaque ou sem atabaque, com sacrifício de sangue ou sem sacrifício de sangue. O Brasil se converteu nestes anos 50 e desde então. A umbanda é a religião brasileira — agora sim somos todos iguais, sem distinção de origem, sem distinção de marca. Somos europeus, africanos, indígenas, turcos, ciganos. Somos cristãos e espíritas. Acreditamos nos santos católicos e nos orixás. Atendemos aos sacramentos da Igreja e nos consultamos com os caboclos. Somos instruídos, porque agora sim lemos e escrevemos muito sobre a religião, e não nos importamos em deixar um outro ego apropriar-se temporariamente de nossa consciência na vivência do transe. Na luta pela vida, construímos uma religião que nos dará sempre o impulso para vencer a contenda do dia-a-dia, o apelo constante à vitória e o alento permanente à realização pessoal. Não é só: com a magia legitimada por sua institucionalização religiosa pode-se avançar mais e mais. A umbanda guardou do candomblé quase tudo, embora escondesse alguma coisa. Ela não é, contudo, uma religião negra nem uma religião de negros. É uma religião de pobres e de indivíduos das classes médias baixas, brancos e negros. A umbanda é uma religião voltada para a maioria, enfim. Chega de segregação. Mas a maioria negra, que faz parte da maioria pobre, continua católica. Parte dela, desacreditada do catolicismo, vai encontrar outras alternativas para o sentido da vida. As denominações pentecostais proliferam a olhos vistos: para brancos e para negros, não importa; o que importa é que seja para os pobres. Para o brasileiro que busca uma religião, o leque de possibilidades vai se ampliando. Mesmo o antigo candomblé, durante tanto tempo uma religião de nnnnnnn JULHO DE 1995 119 RAÇA E RELIGIÃO preservação de patrimônio cultural específico do negro, foi se constituindo em religião para todos, buscando agora se espalhar pelas grandes metrópoles do país, conquistando espaço no Sudeste, onde, antes dos anos 60, era apenas uma referência cultural para quem voltava os olhos curiosos na direção da Bahia. Este candomblé reforça a africanidade de segmentos da umbanda, impõe-se, a partir dos anos 60, como o traço cultural brasileiro ao qual a criatividade pode recorrer sempre, quer se trate da novela nobre da televisão, da música de bom tom das escolarizadas classes médias, do cinema de arte, da obra de arte que aspira à eternidade. Como traço cultural, se dispõe para o brasileiro como chave para o bem e para o mal. Quando estas religiões de origem africana, mesmo em se tratando das mais "branqueadas" modalidades da umbanda, são encaradas pelo outro como fonte do mal, expressão do indesejável, veículo da perdição, aí então sim a referência à origem negra é imediata. Diz o preconceito que tudo que é do negro não presta, ainda mais quando se trata de uma religião, de uma falsa religião, dirão eles, de magia, macumba e magia negra. Algumas denominações pentecostais de origem muito recente e grande sucesso junto às massas, como a Igreja Universal do Reino de Deus, Deus é Amor e A Casa da Benção, atraem boa parte de sua clientela pregando contra a umbanda e o candomblé, identificados como fontes do mal. Para esse pentecostalismo, o contraponto com as religiões afro-brasileiras chega a ser constitutivo. Na própria história recente do pentecostalismo no Brasil é possível identificar três "etapas": as primeiras igrejas tiveram sua ênfase no dom de se falar em línguas estranhas (glossolalia), que revive o episódio bíblico do Pentecostes, quando Deus apareceu aos apóstolos em línguas de fogo; surgem depois as igrejas que enfatizam o dom da cura; e numa etapa mais recente, as igrejas que pregam um nova teologia que redime religiosamente o dinheiro e centra o foco ritual no exorcismo dos demônios, identificados e nomeados como as divindades e entidades afro-brasileiras: orixás, caboclos, pombagiras, exus. O conflito entre pentecostais e afro-brasileiros é aberto e mesmo incentivado por lideranças pentecostais. Em seus templos e através de seus programas na televisão, pode-se ver, através de incorporações no transe, orixás e caboclo mostrados como manifestações do diabo; transe afro-brasileiro que é metamorfoseado no transe pentecostal do Espírito Santo, a presença de Deus (Mariano, 1995). As religiões e a cor de seus fiéis A partir de dados amostrais de âmbito nacional, coletados pelo Datafolha por ocasião da campanha eleitoral para a Presidência da República em 1994, podemos traçar um quadro bastante esclarecedor sobre a composição por cor dos vários segmentos religiosos no País e que corroboram muitas das afirmações aqui apresentadas5. O universo desta pesquisa é constituído do colégio eleitoral brasileiro, não incluindo, portanto, menores de dezesseis anos, indivíduos de dezesseis a dezoito anos que optaram por não se inscrever como eleitores, e analfabetos e septuagenários que também preferiram não se inscrever. Contudo, a obrigatoriedade do voto para a grande maioria da população e a valorização do título de eleitor em nossa sociedade fazem com que praticamente 90% de toda a população para quem o voto é obrigatório ou facultativo estejam inscritos no colégio eleitoral, fazendo com que nossa amostra se aproxime bastante adequadannn 120 NOVOS ESTUDOS N.° 42 (5) Agradeço a Antônio Manuel Teixeira Mendes, diretor do Datafolha, por ter aceito entusiasticamente minha idéia de inserir questões sobre religião e cor em pesquisas eleitorais de 1994, propiciando a produção dos dados aqui trabalhados. REGINALDO PRANDI mente daquela que seria uma amostra da população jovem e adulta do País, que é o que interessa quando se trata de medir filiação religiosa (Berquó & Alencastro). Para efeito de organização dos dados estou considerando os seguintes grupos religiosos: católicos, evangélicos, espíritas kardecistas, afro-brasileiros, além de outras religiões não incluídas nas categorias precedentes e do grupo formado por aqueles que se declaram sem religião. Vejamos inicialmente as principais denominações e ramos que compõem estes grupos e seu alcance demográfico traduzido em número de fiéis6. A religião católica sempre foi majoritária e hegemônica no Brasil. Reúne ainda hoje três quartos da população adulta pesquisada (74,9%). Dentre os católicos, a maioria ainda é constituída daqueles que aqui vamos chamar de católicos tradicionais, reunindo tanto os que freqüentam a igreja esporadicamente como os que têm freqüência regular mas não se envolvem em movimentos de renovação ou agremiações de enquadramento que propõem diferentes modelos de reavivamento da vida católica. Representam 6l,4% do total. O Nordeste ainda é a região mais católica do país. Lá eles ultrapassam os 80%. A segunda região mais católica é o Sul, com 78,4%, o que não deixa de surpreender, visto que a presença do protestantismo de imigração no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina e o dinamismo do pentecostalismo evangélico no Paraná faziam supor "descatolicização" mais acelerada da região. Já as grandes capitais do Sudeste, como São Paulo e Rio de Janeiro, vêem bem mais rarefeita a população católica, cujos totais caem para 65,2% e 59,3%, respectivamente. Número também reduzido de católicos se constata em Salvador, onde não chegam a dois terços da população (65,3%) e onde os católicos tradicionais são apenas 56,4%, pouco mais da metade. A capital brasileira menos católica hoje é o Rio; depois vem São Paulo, depois Salvador. Se a maioria católica é formada de católicos tradicionais, há por outro lado uma grande fatia de 13,5% dos brasileiros que vivem o catolicismo a partir de reorientação pessoal por uma das diferentes modalidades de internalização ou engajamento religioso. São os católicos das Comunidades Eclesiais de Base, do Movimento de Renovação Carismática, das Equipes de Nossa Senhora, dos Encontros de Casais com Cristo, dos Grupos de Jovens, da Comunhão e Liberação e um sem-número de movimentos e associações de caráter regional e local, de pastorais coletivas e de organizações de culto, como as congregações marianas e o apostolado da oração. Deste leque interessam-nos sobretudo dois movimentos. As Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs, movimento formado no curso dos anos 60 até os 70 e hoje em aparente declínio, reúnem ainda 1,8% do total, perto de dois milhões de brasileiros. Caracterizam-se por valorização da vivência religiosa que enfatiza os interesses coletivos das classes sociais desfavorecidas, a famosa "opção pelos pobres". Acreditam na participação militante dos católicos no mundo, de modo a promover a transformação material da sociedade, que consideram socialmente injusta. Atribuem por isto menos importância à esfera da vida íntima como espaço privilegiado da religião. Por sua politizada concepção de mundo, as CEBs têm estado associadas aos mais diferentes movimentos sociais de reivindicação e de construção de identidades no campo e na cidade, muito próximas dos partidos políticos de esquerda, sobretudo o PT e, em menor grau, o PC do B, tendo se mostrado eficientes na "produção de militantes", ou seja, na formação de lideranças comunitárias e partidárias de esquerda (Souza, 1994; Pierucci, 1984). Representantes mais avançados do catolicismo fundado na Teologia da Libertação, esses católicos formam contingentes eleitorais em torno de 3% em estados como Paraná, Bahia e Ceará. JULHO DE 1995 121 (6) A descrição das religiões com o dimensionamento de seu corpo de adeptos apresentada a seguir foi extraída, com cortes e modificações, de um trabalho meu e de Antônio Flávio Pierucci, intitulado "Religiões e voto: a eleição presidencial de 1994", apresentado no Encontro Anual da Anpocs de 1994. Para pormenores e esclarecimentos metodológicos da pesquisa, ver Pierucci & Prandi, 1995. RAÇA E RELIGIÃO O Movimento de Renovação Carismática Católica, nascido nos Estados Unidos no final dos anos 60 e logo transplantado para o Brasil, alcança presentemente 3,8% da população pesquisada. Os carismáticos, ao contrário das CEBs, centram a vida religiosa na esfera da intimidade, desenvolvem acentuado controle moral na esfera da família, dos costumes e da sexualidade, desinteressam-se completamente dos problemas de caráter coletivo, e, por conseguinte, da militância política. Dão grande importância aos dons do Espírito Santo, sobretudo à glossolalia — o dom de falar línguas desconhecidas, quando o Espírito Santo se manifesta nos fiéis em transes coletivos — e o dom da cura divina, o que os aproxima bastante dos evangélicos pentecostais. Marcam porém, e fortemente, sua identidade católica ao acentuarem a devoção a Nossa Senhora, o apego à Eucaristia e a fidelidade ao Papa. Os carismáticos podem ser considerados um movimento de dupla reação: para dentro do catolicismo, opõem-se frontalmente aos católicos da Teologia da Libertação; para fora, competem com os evangélicos pentecostais na disputa pelos conversos desejosos de experiência religiosa sensível, de maior imanência do sagrado (Prandi, 1992; Machado, 1994). Os evangélicos totalizam 13,3% do nosso universo, cerca de 13 milhões. São usualmente classificados em dois grandes ramos: os históricos e os pentecostais (Mendonça 1989). Os protestantes históricos são representados pelas igrejas reformadas de origem européia e norte-americana, instaladas no Brasil desde o século passado. Estão completamente enraizados entre nós, caracterizando-se hoje por baixo grau de proselitismo e reproduzindo-se tradicionalmente de geração em geração. Suas principais denominações são: Luterana, Batista, Presbiteriana, Metodista, Episcopal e Congregacional, denominações que, na prática, podem resultar em muitas outras subdivisões. Os evangélicos históricos perfazem hoje 3,3% do eleitorado, alcançando cifras maiores no Rio Grande do Sul (7,4%) e Rio de Janeiro (5,5%). Os pentecostais tiveram sua origem no reavivamento do protestantismo nos Estados Unidos, caracterizando-se por incansável exercício de conversão dos mais pobres e desamparados. Dados da pesquisa mostram que 33,3% dos pentecostais têm renda familiar mensal de até dois salários-mínimos; a taxa de desempregados entre eles está acima da média nacional, enquanto a taxa de ocupados como trabalhadores por conta própria irregulares — os que vivem de bicos e biscates, componentes da parcela marginal de trabalhadores — chega a 27,2%, quando a taxa nacional é de 19,1%. A proporção de analfabetos é bem mais alta entre os pentecostais que a média nacional. São indicadores inequívocos de condições sociais que contribuem muito para tornar homens e mulheres incapazes de organizar a própria vida, obrigando-os a buscar lideranças e instituições que se disponham a fazer isto por eles, quer como uma dádiva, com o que estiveram por tanto tempo familiarizados na sociedade brasileira tradicional, quer como aprendizado de uma disciplina de si que os capacite a melhorar de vida. Os pentecostais têm o culto bastante centrado no apelo emocional, sobretudo no dom das línguas ou glossolalia, reprodução do episódio bíblico da manifestação do Espírito Santo aos apóstolos no dia de Pentecostes, e no dom de cura. As principais denominações pentecostais de origem estrangeira são: Congregação Cristã no Brasil, Assembléia de Deus e Evangelho Quadrangular. A partir dos anos 70, o pentecostalismo deu origem a diversas denominações constituídas já em solo brasileiro, com ênfase cada vez mais forte no dom da cura, e por isso denominadas de pentecostalismo de cura divina. Mais recentemente surgiram as igrejas agora chamadas de neopentecostais (Mariano, 1995). De modo geral especializaram-se no uso da televisão, voltaram o culto para as massas, em grandes espaços, centrandonnn 122 NOVOS ESTUDOS N.° 42 REGINALDO PRANDI o enfaticamente nos exorcismos, e desenvolveram uma teologia que valoriza a prosperidade e reabilita eticamente o dinheiro e os ganhos materiais. As principais igrejas formadas em solo brasileiro são: O Brasil para Cristo, esta bastante antiga e considerada uma igreja de transição, Casa da Benção, Nova Vida, Deus é Amor, Igreja Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça Divina e Renascer em Cristo. Estas denominações maiores cindiram-se e continuam a cindir-se em um grande número de igrejas pequenas. Entre os pentecostais o mal é sempre visto como obra do demônio, adotando por isso as igrejas de formação mais recente o exercício recorrente da vexação e expulsão dos demônios, que identificam com divindades e espíritos das religiões afro-brasileiras. Os pentecostais insistem na permanência de seus adeptos longe da política, fazem propaganda contra partidos e candidatos de esquerda, mas elegem deputados pastores que procuram, pelos mais diferentes meios, ganhar espaço para o Evangelho, o que na prática significa vantagens e privilégios para as suas igrejas, que eles consideram discriminadas negativamente em um país de cultura católica (Pierucci, 1989; Mariano e Pierucci, 1992). Os espíritas seguem a religião de Alan Kardec, introduzida no Brasil no final do século passado e que desde então tem exercido grande fascínio sobre camadas médias urbanas. Representam hoje um considerável contingente de 3,5%. Cerca de três milhões de brasileiros são espíritas de mesa branca. Valorizam o progresso espiritual e intelectual do indivíduo, estimulando a mobilidade social através da escolarização. Dão grande importância ao trabalho assistencial aos desvalidos de toda sorte. Mostram grande capacidade de organização burocrática e forte apego a um tipo de literatura religiosa amplamente produzida, através da psicografia, pelos espíritos de mortos ilustrados. Nos estratos mais altos de escolaridade, os kardecistas se destacam dentre todos os grupos religiosos: 35,3% de seus adeptos têm segundo grau e nada menos que 25% têm curso superior. Suas mais altas concentrações estatísticas verificam-se na cidade de São Paulo (8,0%) e Rio de Janeiro (7,5%). Mais da metade dos kardecistas, aliás, encontra-se nas capitais e Regiões Metropolitanas (52,6%), com outros 35,8% em cidades grandes e médias. Apenas 11,6 % residem em cidades pequenas do interior, que entretanto somam 33,5% do eleitorado brasileiro, o que reforça, por contraste, suas características de religião de urbanitas. Outras tantas religiões tipicamente urbanas, melhor dizendo, metropolitanas, são as afro-brasileiras. Mais de dois terços de seus adeptos (70,6%) são residentes das capitais e Regiões Metropolitanas. O candomblé é ainda mais marcadamente metropolitano do que a umbanda (73,7% contra 69,2). As religiões afro-brasileiras representam apenas 1,3% do universo brasileiro; mas chegam à proporção de 4,9% na cidade do Rio de Janeiro e de 3,7% na cidade de São Paulo, mostrando-se bastante expressivas e especialmente visíveis nestes dois cenários particularmente importantes da vida pública brasileira. As religiões afro-brasileiras, abrangendo menos de um milhão e meio de pessoas, são formadas primeiro pelas religiões tradicionais de origem africana, com 0,4% do universo, as quais recebem nomes regionais: candomblé na Bahia, no Rio de Janeiro e agora em São Paulo e demais regiões do País por onde tem se disseminado nos últimos vinte anos; xangô em Pernambuco e estados vizinhos, tambor de mina no Maranhão e estados da Amazônia; batuque ou nação no Sul do país; além do omolocô, religião de origem recente, mas que segue os modelos litúrgicos tradicionais, sobretudo no Rio de Janeiro e Minas Gerais. Até os anos 60, as religiões tradicionais afro-brasileiras estavam circunscritas às populações negras nnn JULHO DE 1995 123 RAÇA E RELIGIÃO como religiões étnicas, perdendo aos poucos este caráter para se constituírem em religiões universais, abertas a todos, desde os mais pobres até segmentos das classes médias e altas urbanas. Abertas a todos, sobretudo aos metropolitanos de todo tipo e classe. Conforme era esperado, a taxa de 2,1% para os seguidores do candomblé em Salvador é a mais elevada. O outro grande ramo das religiões afro-brasileiras é a umbanda, nascida no Sudeste nos anos 30, resultante do contato entre o espiritismo kardecista e o candomblé. Rapidamente espalhada por todo o país, hoje reunindo 0,9% dos brasileiros jovens e adultos, a umbanda guarda características de suas religiões fundantes, sendo desde logo uma religião que mantém em torno de si vasta clientela que a procura para soluções de problemas de saúde, emprego, família, vida afetiva etc., soluções que são buscadas através de oferendas propiciatórias às divindades. As religiões afro-brasileiras, de ritual bastante complexo, desenvolveram pouco ou nada uma orientação para o comportamento baseada num código de ética, em que a medida de justiça, de bem e de mal esteja em conformidade com critérios universalistas e de bem-estar geral da coletividade. Ao contrário, as noções de certo e errado pautam-se pelas relações entre cada fiel e a divindade que o protege, e o mundo é entendido como um campo de conflitos e enfrentamentos no qual o fiel deve procurar sua realização pessoal (Prandi, 1991 e 1995). Enquanto o kardecismo toma como ideal de sabedoria o indivíduo que logrou desenvolver-se intelectualmente através da escola, alcançando posto elevado na escala das profissões liberais, artes e ciências, as religiões afro-brasileiras valorizam sobremaneira a sabedoria que decorre da própria vivência, glorificando a senioridade dos que vencem por esforço próprio a partir da experiência concreta da vida e que se destacam na luta pela realização dos sonhos inerentes a todos os que partilham a existência terrena. As religiões afro-brasileiras valorizam o bravo, o experiente, o realizador, o vencedor, mas ainda sofrem o peso de sua herança da sociedade escravista-patriarcal, fazendo com que a valorização da dádiva e o apego ao clientelismo mostrem-se ainda presentes e fortes. Restam 2,0% formados por adeptos de um conjunto muito grande de religiões que não se classificam nos grandes grupos acima enumerados: judaísmo, budismo, adventista, Testemunhas de Jeová, Mórmons, Seicho-No-Iê, Perfeita Liberdade, Igreja Messiânica, Santo Daime, seitas de práticas esotéricas e várias outras. O grupo dos "sem religião" representa, por sua vez, 4,9% da população estudada, cerca de quatro milhões e meio de indivíduos, os quais estão mais presentes nas grandes cidades. Vejamos agora como se dá a composição racial dos devotos que seguem estes diferentes credos. A Tabela 1 fornece a distribuição por cor para cada um destes grupos. Ela nos informa sobre a participação relativa de brancos, pardos, pretos e amarelos nos contingentes de seguidores dos grupos de religião7. A religião com a maior presença de brancos é o kardecismo (73,6%), seguido pelo ramo carismático do catolicismo (65,5%) e pelas denominações evangélicas históricas (63,1%). São reconhecidamente, com algumas exceções no ramo evangélico, religiões de classe média. Os negros marcam maior presença nas religiões afro-brasileiras, onde somam, entre pardos e pretos, 42,7%. Sua presença relativa sobe ainda mais no candomblé, originariamente a grande fonte de identidade negra, em que chegam a 56,8% — a única modalidade religiosa em que o negro é a maioria dos fiéis. Mas há muitos brancos nas afro-brasileiras (51,2%) e mesmo no candomblé, em que representam 39,9%. Assim como há um contingente muito grande de negros nas nnnn 124 NOVOS ESTUDOS N.° 42 (7) Na pesquisa que fornece estes resultados, em metade da amostra a cor do entrevistado foi anotada de acordo com a classificação feita pelo entrevistador. Na outra metade registrou-se a autoclassificação do entrevistado, em resposta à questão "Você se classifica como branco, pardo, preto ou amarelo?". Ao comparar os dois critérios, notou-se um pequeno aumento na proporção de brancos na sub-amostra em que se usou a autoclassificação. Ao se compararem os perfis sócio-econômicos destes dois grupos, verificou-se, contudo, serem as distribuições estatisticamente aderentes, mostrando-se ambos os critérios adequados para os objetivos em questão (Pierucci & Prandi, 1995). REGINALDO PRANDI religiões evangélicas, chegando a proporção de pardos entre os pentecostais a 34,3%, número que é maior que todos os observados para as demais religiões. Entre as denominações evangélicas históricas, mais brancas que suas irmãs pentecostais, há uma porcentagem de adeptos pardos de 34,3%, que é a mesma taxa de pardos encontrada entre o total dos afro-brasileiros e próxima daquelas vistas para os católicos tradicionais (32,6%), católicos das comunidades de base (34,1%) e para os sem religião (33,1%). Os pretos representam um quarto dos seguidores do candomblé (23,9%), 15,2% dos umbandistas, 5,9% do conjunto afro-brasileiro. Sua presença entre os pentecostais é de 11,1%. Nos demais grupos sua taxa é sempre menor que 11%. Tabela 1 Composição das religiões por cor dos fiéis — Brasil, 1994 sem TOTAL RELIGIÃO brancos pardos pretos amarelos infor- % mação (n) Pesquisa de campo: Datafolha (16 de agosto a 5 de setembro de 1994) O fato de o candomblé conter tão emblematicamente a marca africana tem motivado o movimento negro a buscar uma aliança com os terreiros para uma nnnnn JULHO DE 1995 125 RAÇA E RELIGIÃO militância conjunta, ao que mães e pais-de-santo resistem fortemente, pois eles, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde boa parte dos sacerdotes é de brancos, não desejam repor fronteiras raciais que a religião tem abandonado nas últimas décadas (Prandi, 1991; Amaral & Silva, 1993). Numa pesquisa recente, tivemos oportunidade de entrevistar líderes e dirigentes de entidades que compõem o movimento negro em todo o País, reunidos no Primeiro Encontro Nacional de Entidades Negras, acontecido em São Paulo, de 14 a 17 de novembro de 1991, que contou com 540 delegados vindos de quase todos os estados, representando cerca de uma centena de entidades negras, podendo-se assim dispor de alguns dados sobre a questão da identidade racial e da religião8. Perguntados se a condição de classe social afetaria mais a vida do negro do que a condição de cor, 64,7% dos delegados de todo o país afirmaram que a condição de cor afeta muito mais a vida do negro, ao passo que 20,8% indicaram a condição de classe social como o fator influente mais forte. Do ponto de vista das preocupações com o passado cultural de origem africana, 66,7% indicaram que sempre deve haver um cuidado do movimento negro no sentido de recuperar o passado e as raízes, incluindo-se a cultura e a religião original do negro, mas que esta postura deve contemplar também a questão do mundo atual. É importante recuperar raízes para reconstruir a identidade negra, mas é preciso, simultaneamente, preocupar-se com as questões referidas às condições sociais e culturais de hoje que afetam diretamente as condições de vida do negro. Suas opções religiosas revelaram-se bem diferentes daquelas da população que procuram representar, conforme dados mostrados neste trabalho. Sua adesão ao catolicismo é baixa, com 47,6%, enquanto 75% dos negros de todo o país se declaram católicos. São evangélicos em proporção muito menor (1,1%) que os 14,5% conhecidos para a população negra. Optam mais freqüentemente por não ter religião (23,0% contra os 5,2% para todos negros). Seguem as religiões afrobrasileiras 10,8% dos delegados, optando 4,9% deles pelo candomblé e 5,9% pela umbanda. Assim, embora a filiação à religião negra seja de apenas 10,8%, este número representa, na verdade, quase sete vezes a taxa de adeptos dos cultos afrobrasileiros encontrada na população negra do país. É um número comparativamente muito grande; um indicador importante de que a religião negra funciona minimamente como uma marca de consciência e identidade racial em grupos mobilizados. Não significa, contudo, que, para a maioria da população negra, não engajada nos movimentos negros, a religião de origem africana possa oferecer alguma vantagem na sua luta diária para escapar de uma herança histórica marginalizadora, sobretudo em face do preconceito religioso. Interessa-me aqui chamar a atenção para a importância atribuída às questões de origem cultural, de raiz, em que a religião parece estar incluída, minimamente como símbolo de recuperação da origem. No conjunto da sociedade, pode ocorrer movimento inverso: as religiões afro-brasileiras vão cada vez mais incorporando o branco em suas fileiras, quando não se transformam elas mesmas com o intuito de apagar exatamente aqueles traços que mais evidenciam a origem africana, como o sacrifício e a língua ritual de origem africana. Enquanto isso, os negros engrossam cada vez mais as fileiras das religiões não negras, da quais algumas mais agressivas modelam sua identidade mostrando-se numa guerra santa contra a religiosidade um dia trazida da África. Quando se trata dos amarelos, chama a atenção o fato de que sua maior participação está no grupo das outras religiões, que inclui as religiões orientais nnnnnn 126 NOVOS ESTUDOS N.° 42 (8) Antes do Encontro, o Grupo de Consciência Negra da USP, um dos organizadores, propôs que se fizesse uma pesquisa entre os delegados, de modo a se definir seu perfil e se conhecerem algumas posições acerca do movimento. Fiquei encarregado do planejamento e análise do material, cabendo ao grupo da USP aplicar os questionários sob minha supervisão, o que foi feito. Os resultados encontram-se numa comunicação escrita por André Gambier Campos, Kelly Adriano de Oliveira, então meus orientandos de iniciação científica, e por mim (Campos, Oliveira & Prandi, 1993). REFERÊNCIAS Amaral, Rita de Cássia & Silva, Vagner Gonçalves da (1993). A cor do axé: brancos e negros no candomblé de São Paulo. Estudos Afro-Asiáticos, Rio de Janeiro, nº 25, dezembro, pp. 99-124. Berquó, Elza & Alencastro, Luiz Felipe de (1992). A emergência do voto negro. Novos Estudos, São Paulo, n° 33, junho, pp. 7788. Camargo, Cândido Procópio Ferreira de (1961). Kardecismo e umbanda. São Paulo: Pioneira. ——. et alii (1973). Católicos, protestantes, espíritas. Petrópolis: Vozes. Campos, André Gambier; Oliveira, Kelly Adriano de & Prandi, Reginaldo (1993). Lideranças negras no Brasil. Trabalho apresentado no I Simpósio de Iniciação Científica da Universidade de São Paulo. São Paulo: USP, mimeo. Fernandes, Florestan (1965). A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Dominus e Edusp. Ferretti, Mundicarmo (1994). Terra de caboclo. São Luís: Plano Editorial/SECMA. Ferretti, Sérgio (1995). Repensando o sincretismo: Estudo sobre a Casa das Minas. São Paulo: Edusp. REGINALDO PRANDI modernas e tradicionais, indício provável de ligações étnicas com a religião ainda preservadas por uma população muito apegada às suas tradições de origem. A Tabela 2 reafirma estes achados, mas nos permite identificar as taxas de adesão religiosa a partir de cada grupo de cor. Machado, Maria das Dores Campos (1994). Adesão religiosa e seus efeitos na esfera privada: Um estudo comparativo dos carismáticos e pentecostais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IUPERJ, tese de doutorado em Sociologia. Tabela 2 Religião segundo cada grupo de cor — Brasil, 1994 RELIGIÃO brancos pardos pretos Hasenbalg, Carlos A. & Silva, Nelson do Valle (1993). "Notas sobre desigualdade racial e política no Brasil", Estudos AfroAsiáticos, Rio de Janeiro, nº 25, dezembro, pp. 141-60. amarelos Mariano, Ricardo (1995). Neopentecostalismo: Os pentecostais estão mudando. São Paulo: USP, dissertação de mestrado em sociologia. ——. & Pierucci, Antônio Flá- vio (1992). "O envolvimento dos pentecostais na eleição de Collor". Novos Estudas, São Paulo, nº 34, novembro, pp. 92106. Mendonça, Antônio Gouvêa (1989). Um panorama do protestantismo atual. In: Landim, Leilah, org. Sinais dos tempos: Tradições religiosas no Brasil. Rio de Janeiro: ISER. Negrão, Lísias Nogueira (1964). "Umbanda: Entre a cruz e a encruzilhada". Tempo social — revista de sociologia da USP. São Paulo, vol. 5, nº 1 e 2, pp. 113-22. Nogueira, Oracy (1955). "Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem". In: Bastide, Roger & Fernandes, Florestan, orgs. Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. São Paulo: Anhembi e Unesco. Pesquisa de campo: Datafolha (16 de agosto a 5 de setembro de 1994) Todos são majoritariamente católicos; somente os pretos têm uma participação pouco menor (70%) que o 75% dos outros grupos de cor. Para os brancos, a segunda opção são os cultos evangélicos (12,6%), depois a opção por não ter religião (4,9%), seguida pelo kardecismo (4,4%), outras religiões (2%) e, por fim, as afro-brasileiras (1,1%). Esta ordem não se altera muito nos outros grupos de cor, mas os números são expressivamente diferentes. Os pardos não católicos são primeiro evangélicos (13,9%) e depois sem religião (5,2%), kardecistas (2,1%), de outras religiões (1,9%) e afro-brasileiros (1,2%). Os pretos, que já destoam na taxa de adesão ao catolicismo, têm como segunda escolha as religiões evangélicas (16,8%), depois a opção por não ter religião (5,7%), as religiões afro-brasileiras (3,0%), o kardecismo (2,7%) e as outras (1,7%). Amarelos não católicos buscam as outras religiões (10%) e depois as evangélicas (8,3%), nenhuma religião (3,8%), o kardecismo (2,7%) e as afro-brasileiras (0,2%). Na adesão aos cultos evangélicos e particularmente aos pentecostais, assim como na escolha de religião afro-brasileira, tanto no caso da umbanda como do candomblé, observa-se que as porcentagens dos negros são maiores que as dos pardos e dos brancos, nesta ordem. Os pretos, mais que os pardos, e mais que os brancos, estão mais distanciados da hegemonia católica, por assim dizer. Esparramam-se mais pelos ramos religiosos que parecem mais afinados com as condições de pobreza e marginalidade social. n JULHO DE 1995 127 Ortiz, Renato (1978). A morte branca do feiticeiro negro. Petrópolis: Vozes. Pereira, João Baptista Borges (1982a). "Aspectos do comportamento político do negro em São Paulo". Ciência e Cultura, São Paulo, vol. 34, nº 10, pp. 1286-94. ——. (1982-b). "Parâmetros ideológicos de projeto político de negros em São Paulo". Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, nº 24, pp. 53-61. Pierucci, Antônio Flávio (1984). Democracia, igreja e voto: O envolvimento dos padres de paróquia na eleição de 1982. São Paulo: USP, tese de doutorado em Sociologia. ——. (1989). "Representantes de Deus em Brasília: A bancada evangélica na Constituinte". In: Ciências sociais boje, 1989. São Paulo: Vértice e Anpocs. RAÇA E RELIGIÃO A marca demográfica negra nas religiões afro-brasileiras é acentuada, como se esperaria, mostrando-se mais branca na vertente umbandista, conquanto contemplem uma metade que é branca. Por outro lado, os negros estão presentes no catolicismo tanto quanto os brancos e os amarelos, embora a participação dos pretos seja levemente reduzida. Os pardos, por sua vez, contribuem numericamente em primeiro lugar com o pentecostalismo e o catolicismo das comunidades de base. Pode-se dizer que o candomblé é a religião com a maior participação de pretos, mas é para o pentecostalismo que eles convergem em maior número. Para concluir, vale a pena enfatizar que adesão de brancos e negros a esta ou aquela religião — num quadro de possibilidades em que se pode distinguir, de um lado, as religiões de origem européia e norte-americana, isto é, religiões marcadamente brancas, e de outro, aquelas constituídas a partir de tradições africanas, as religiões negras — só pode ser compreendida a partir da dinâmica que as religiões mantêm com o processo de constituição e mudança social da sociedade brasileira. Assim, a formação da umbanda, no Rio de Janeiro e em São Paulo dos anos 30 e 40, já significava a possibilidade da adesão indiscriminada dos brancos a uma nova religião afro-brasileira, numa época em que o espiritismo kardecista, introduzido no Brasil no final do século passado, já conquistara significativa fatia de conversos e simpatizantes de origem católica. Ao assimilar muitos traços do espiritismo de mesa branca, a umbanda ganhava também feição assemelhada com uma religião de prestígio na sociedade brasileira, uma religião que apostava numa certa racionalidade e na eficácia da organização burocrática, que enfatizava a importância da educação e do progresso intelectual e que se publicizava muito positivamente através de suas instituições de caridade que cuidavam de toda sorte de desvalidos e desamparados, numa época em que a presença do Estado na esfera do bem-estar social era pífia. Nos seus primórdios, a umbanda se autodenominava espiritismo de umbanda, e se ela nunca logrou reproduzir completamente esses traços tão caros ao kardecismo, no mínimo sua preocupação em valorizar o modelo muito contribuiu para arrefecer em parte o preconceito contra religiões de origem negra e assim atrair mais facilmente boa parte de seu contingente de adeptos brancos. Parece que ela sempre ficou a meio caminho entre suas matrizes negras e kardecista, às vezes assumindo posições doutrinárias dúbias, especialmente na esfera ética, em que nunca alcançou o compromisso com uma noção universal de justiça, encontrando-se freqüentemente numa posição ética que a situa "entre a cruz e a encruzilhada", para usarmos a feliz expressão de Lísias Negrão (Negrão, 1993). Só mais tarde, a partir dos anos 60, quando a umbanda já era religião inteiramente consolidada como universal, isto é, sem barreiras de cor, os brancos passaram a aderir também ao candomblé, que não conheceu, contudo, o fenômeno do autobranqueamento que caracteriza a umbanda, pois o candomblé já contava com um processo de valorização crescente das raízes formadoras da sociedade brasileira, quase um movimento que se fez presente em todas as áreas das artes cultas e populares de massa, processo que levou o candomblé, inclusive, a voltar à África a procura de tradições perdidas na diáspora, num movimento que chamei de africanização do candomblé brasileiro (Prandi, 1991). Mas os católicos, brancos e negros, descontentes com sua religião cada vez mais envolvida pelo processo de secularização da sociedade, cada vez mais deixando de lado seu papel na orientação da conduta (Prandi, 1975), certamente tão importante para os segmentos pobres e ainda dependentes das amarras de uma cultura patriarcal-patrimonialista agora diluída na sociedade de classes e que, por isso mesmo, têm muita dificuldade de administrar a própria vida, esses católicos nnnnn 128 NOVOS ESTUDOS N.° 42 ——. & Prandi, (1995). "Religiões eleição presidencial Opinião pública, vol. 3, nº 1. Reginaldo e voto: A de 1994". Campinas, Prandi, Reginaldo. (1975). Catolicismo e família: Transformação de uma ideologia. São Paulo: Brasiliense e Cebrap. ——. (1977). O trabalhador por conta própria sob o capital. São Paulo: Símbolo. ——. (1991). Os candomblés de São Paulo: A velha magia na metrópole nova. São Paulo: Hucitec e Edusp. ——. (1992). "Perto da magia, longe da política". 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Ainda que estas religiões sofram também forte preconceito, sobretudo o pentecostalismo, o ramo mais exuberante delas, a ponto de muitos de seus líderes reclamarem da visão negativa tal como a sociedade as vê, especialmente através da mídia, o preconceito de que padecem nunca é de cor. Mas se elas não sofrem preconceito de cor por parte dos outros, o incorporam na sua disputa constitutiva com os cultos afro-brasileiros. Negras ou brancas em suas origens, as grandes religiões no Brasil estão hoje longe de apresentar barreiras étnicas, de cor ou de origem, mesmo no caso do candomblé, com contornos de uma origem racial muito marcados. Embora as religiões diversas possam atrair preferencialmente certos grupos de cor, o que pode até lhes emprestar uma face marcada racialmente, o fato é que elas se mostram abertas para todos. Mas a escolha por uma dessas religiões não é o fim da trilha. Quantos ex-católicos não estão voltando às igrejas e salões paroquiais para experimentar os dons da Renovação Carismática Católica? Outros tantos pentecostais se convertem ou reconvertem diariamente às religiões dos orixás e encantados, enquanto outros mais abandonam seus caboclos para experimentar a vivência dos dons pentecostais. O trânsito entre uma religião e outra é intenso e, nesse movimento, a cor da pele do transeunte religioso, para não se falar de sua raça, é incapaz de identificar, para o observador, a religião abandonada ou a nova crença adotada. Agora somos todos iguais, a ponto de cada um poder adotar a religião que melhor resposta der às suas aflições, ou não adotar religião alguma. JULHO DE 1995 129 Recebido para publicação em abril de 1995. Reginaldo Prandi é professor titular de Sociologia da USP e pesquisador do CNPq. Já publicou nesta revista "Perto da magia, longe da política" (Nº 34). Novos Estudos CEBRAP N.° 42, julho 1995 pp. 113-129