CONSEQÜÊNCIAS ADVINDAS DAS REVOLUÇÕES INDUSTRIAL, TECNOLÓGICA E DA INFORMAÇÃO NA ATIVIDADE PRODUTIVA DO HOMEM Marcelo L.R. L. Luz¹, Maria Quitéria L. de Sousa², Mário V. Amorim³ e Ana Célia C. F. Campos4 UFRN¹ UFRN² UFRN³ UFRN4 Programa de Pós-graduação Programa de Pós-graduação Programa de Pós-graduação Programa de Pós-graduação de Engenharia de Produção de Engenharia de Produção – de Engenharia de Produção – de Engenharia de Produção – – Campus Universitário – Campus Universitário – Campus Universitário – Campus Universitário – Lagoa Nova 59078-900 – Lagoa Nova 59078-900 – Lagoa Nova 59078-900 – Lagoa Nova 59078-900 – Natal - RN. Natal - RN. Natal – RN Natal – RN [email protected] [email protected] [email protected] [email protected] Resumo. O presente artigo desenvolve uma revisão teórica da inserção do homem na atividade produtiva, desde a revolução industrial até os dias de hoje Ao longo desse período, são considerados aspectos relativos à revolução tecnológica que inclui a administração clássica, o sistema sócio-técnico e a gestão da qualidade. São abordados, também, a revolução da informação e seus reflexos na sociedade. São discutidas as transformações que ocorreram no modo de vida das pessoas em função da Revolução Industrial, face à ruptura na forma de trabalhar. Ao final, é comentada a evolução das relações de trabalho numa sociedade em desenvolvimento tecnológico, delineando alguns de seus contornos que se articulam com as concepções do movimento sóciotécnico, da gestão da qualidade e da revolução da informação. Palavras-chave: Revolução Industrial, Revolução Tecnológica, Gestão, Qualidade. EQC - 1 1. INTRODUÇÃO Neste artigo estão comentadas as visões de alguns autores sobre os acontecimentos decorrentes das Revoluções Industrial, Tecnológica e da Informação e seus reflexos na sociedade. Inicialmente, são realizadas considerações sobre as profundas transformações que ocorreram no modo de vida das pessoas em função da Revolução Industrial, que promoveu alterações relevantes nos costumes das pessoas, face à ruptura na forma de trabalhar, pois, nesta fase da história, a força humana perdeu relevância para a força motriz na produção de bens. Na seqüência, é abordada a evolução das relações de trabalho numa sociedade em desenvolvimento tecnológico, onde se procura delinear suas interfaces sociais, assim como se estudam quais foram as inovações advindas com as novas relações de trabalho. Certamente, que a adição de tecnologias mais avançadas contribuíram para melhorar a qualidade de vida das pessoas, inclusive com uma ampliação da longevidade humana. A sociedade pós-industrial está caracterizada por inúmeros fatos, dentre eles localiza-se a revolução que as tecnologias de informação estão promovendo nas relações interpessoais. O meio digital eliminou as barreiras geográficas, as distâncias e está permitindo ao homem manter-se instantaneamente sintonizado com as mais diferentes partes do mundo, realizando diversas operações necessárias para sua vida. Desta forma, a pretensão deste trabalho limita-se a reflexão teórica sobre esses movimentos que promoveram alterações na forma de vida das pessoas e na produção de bens e serviços. 2. A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL As transformações ocorridas na Europa, no período 1780-1914, representaram a Revolução Industrial, no entendimento de Willian [7]. Esta revolução foi uma das mais significativas transformações da história. Em torno de cem anos, a Europa do artesão e do rendeiro mostrou-se como um continente composto de cidades industrializadas, onde os utensílios manuais transformaram-se em máquinas e a lojinha do artesão foi substituída pela fábrica. Para Phyllis [5] o início da industrialização que se inaugurou na Grã-Bretanha na segunda metade do século XVIII, promoveu um movimento prolongado de aumento de rendas reais e ocasionou alterações na estrutura e organização da economia. Aduz ainda o autor, que os primórdios dessas alterações podem ser localizados em séculos anteriores. No entanto, no período compreendido entre 1750 e 1850 ocorreram as transformações decisivas. A localização precisa, no tempo, da Revolução Industrial, é motivo de controvérsias. Existem aqueles estudiosos que entendem que ela advém dos primórdios da indústria manufatureira organizada, enquanto outros afirmam que a Revolução ainda não terminou, mesmo em países industrializados como a Grã-Bretanha. Já Claphan e Schumpeter estão convencidos de que esta fase industrial revolucionária situa-se, de modo mais convincente, no segundo quartel do século XIX do que no final do século XVIII, conforme ensina Ref. [5]. Entretanto é sabido que as alterações promovidas pela Revolução Industrial, fizeram com que os aldeões tivessem suas atividades laborais substituídas, migrassem para as minas e para as cidades industrializadas, transformando-os na nova classe operária, enquanto florescia uma classe empresarial de empreiteiros, engenheiros, cientistas e inventores. É conveniente evidenciar que esta Revolução não se materializou apenas numa operação, ocorrendo em diversas fases. A revolução do carvão e do ferro, entre 1780-1850 e a revolução do aço e da eletricidade entre 1850-1814, ocorreram em épocas distintas. Outro aspecto a considerar é que esta Revolução ocorreu em épocas e ritmos diferentes nos países do continente europeu, Ref. [7]. 2.1. Percepções sobre a revolução industrial De acordo com Eric [1] a Revolução Industrial foi vista pelos autores que estudaram o assunto como uma série de contas aritméticas de somar e subtrair. A preocupação era comprar num mercado mais barato e vender num mais caro, entre o custo de produção e o preço de venda, entre o investimento e o retorno. No entendimento de Jeremy Bentham e seus seguidores Ref. [1], os maiores defensores desse modelo industrial, até a moral e a política ancoravam-se nestes cálculos. Informa Ref.[1] que: A felicidade era o objetivo das políticas de governo. O prazer de cada homem podia ser expresso (pelo menos na teoria) como uma quantidade, da mesma forma que seu sofrimento. Deduzindo-se do prazer o sofrimento, o resultado líquido seria a sua felicidade. Somando-se a felicidade de todos os homens e deduzindo-se a infelicidade, o melhor governo seria o que garantisse a felicidade máxima do maior número de pessoas. A contabilidade da humanidade produziria saldos de débitos e crédito, como nos negócios. Os aspectos da mobilidade social decorrentes da Revolução Industrial ainda são questionados por diversos estudiosos do tema. Ela deixou a população em melhores ou piores condições? E essa melhoria ou piora foi até que ponto? As pessoas afetadas pela Revolução Industrial passaram a ter maior poder aquisitivo, que lhes proporcionaram maiores condições para comprar bens que lhes trouxesse conforto? Procurar entender se a Revolução Industrial trouxe para a maioria dos ingleses mais e melhor alimentação, habitação, vestuário é assunto que interessa a todos aqueles que estudam o tema. No entanto, é conveniente entender que a Revolução Industrial não simbolizou uma simples operação de somar ou subtrair. Ela representou profundas transformações sociais. Alterou hábitos predominantes na época e os homens não sabiam como proceder diante desta nova fase. Muitos deles ficaram irreconhecíveis. EQC - 2 A Revolução Industrial foi provedora de conforto e transformações sociais para aquelas classes onde ocorreram as menores alterações na sua forma de vida. Paralelamente, elas receberam os maiores benefícios materiais decorrentes desse processo. Esta classe social, tampouco percebeu que estava perturbando a classe operária com este novo modo de produção. Ensina Ref. [1] que a classe média e os que aspiravam esta condição social ficaram satisfeitas com as transformações ocorridas. Para aqueles que eram pobres, a Revolução Industrial destruiu hábitos de vida sem que fosse oferecida uma nova condição social. Foi à própria desagregação social. Era o nascimento de uma sociedade industrial, onde a maioria tinha como única fonte de renda, o salário. Diferentemente, a sociedade pré-industrial detinha suas terras e oficinas artesanais, que de algum modo, suplementava a renda obtida no trabalho fabril. 2.2. O papel da “mão de obra" A Revolução Industrial estimulou a realização de movimentos de organização da classe trabalhadora européia, e como conseqüência, as condições de trabalho tiveram melhorias significativas. No entanto, se em 1914 as condições dos trabalhadores das regiões mais avançadas eram diferentes daquelas do início da Revolução Industrial, podendo ser consideradas boas, naqueles países que acabaram de se industrializar, como a Rússia, ou naqueles subdesenvolvidos como a Espanha, as condições não eram favoráveis Ref. [7]. Após o nascedouro da organização operária, nos países mais desenvolvidos da Europa, os abusos decorrentes da industrialização estavam desaparecendo. Isto de deveu à soma de esforços dos operários, governo, dos reformadores humanitários e empresários esclarecidos. Nesta fase, as crianças já não podiam ir para as fábricas e sim para as escolas. As mulheres sumiram das minas. Os homens conquistaram menos horas de trabalho, quer através de acordos ou por determinação legal. As fábricas e as minas passaram a dar atenção à segurança no trabalho, embora as doenças no trabalho ainda persistissem. De modo geral, a organização dos trabalhadores em associações que defendiam suas posições proporcionou a construção de um novo e mais adequado modelo de vida para eles. Ref. [5] argumenta que um fato novo apareceu durante a Revolução Industrial em relação ao trabalho. Foi a divisão entre capital e trabalho, derivada da indústria capitalista de grande escala. Isto alterou as relações entre o trabalhador diante do trabalho, pois foram alteradas as condições com as quais as pessoas ganhavam a vida. De um lado estavam os empresários que detinham os recursos de capital e que definiam o que ia ser produzido e a que preço e do outro lado, estavam os trabalhadores que dispunham do trabalho para produção dos bens. Esta relação era caracterizada pela remuneração do trabalho. Os trabalhadores recebiam salários e os empresários recebiam os lucros. Essa alteração no papel social e econômico da mão de obra foi uma mudança radical que resultou da Revolução Industrial. Isto porque as pessoas deixaram de lado o trabalho autônomo e o familiar e passaram a ser escravos do salário e que não obtinham lucros de suas atividades. Ref. [1] afirma que a presença de pessoas capazes e adaptáveis às mudanças é requisito fundamental para o desenvolvimento econômico bem sucedido. Entende o autor que para se processar mudanças na estrutura e na taxa de crescimento de uma nação de que se constitui uma Revolução Industrial, é necessário que ocorram alterações na quantidade e qualidades das pessoas envolvidas. Classifica ainda Ref. [1] que as determinantes do crescimento econômico estão contempladas em quatro etapas: recursos naturais, progresso técnico, acumulação de capital e aumento da oferta de mão de obra. Estes quatro fatores são fundamentais para expansão econômica. No que diz respeito à expansão dos recursos naturais tem-se como exemplo a ampliação da área agrícola, a utilização de novos recursos minerais, tornar navegáveis rios e abertura de estradas que são capazes de aumentar o fluxo de produção por unidade de mão de obra. 3. A ADMINISTRAÇÃO CLÁSSICA Em termos de produção, a Revolução Industrial foi uma grande evolução no campo tecnológico, representada pela solução de problemas fabris através da substituição da mão do homem pela máquina. Paralelo a essa Revolução tecnológica, acontece uma revolução nas relações de trabalho, passando a existir uma nítida divisão de classes: patrão e empregado. O surgimento de um novo operariado fez surgir, também, uma série de coisas que não existiam antes e o trabalho passa a ter características diferentes no novo ciclo industrial. Em conseqüência, são adotadas novas formas de administração para os negócios e para as pessoas, cujo objetivo primeiro é o do aumento da produtividade, sendo seu foco principal a tarefa a ser executada. O surgimento das empresas trás consigo a necessidade de organizá-las. Inicialmente, tudo era feito de forma empírica e improvisada, mas o crescimento acelerado e desorganizado, responsável pela crescente complexidade na administração, exigia uma abordagem científica. O panorama industrial no início do século XX tinha todas as características e elementos para inspirar uma Ciência da Administração: uma grande variedade de empresas, com tamanhos diferenciados, problemas de baixo rendimento do maquinário utilizado, desperdício, insatisfação generalizada, decisões mal formuladas etc. Além disso, a concorrência aumentava e a competição era uma realidade onde a maior eficiência e competência das organizações era fundamental para sua existência. EQC - 3 Começam, então, estudos para desenvolver melhores formas de administrar, passando a existir uma Abordagem Clássica da Administração, cujo enfoque aparece segundo duas orientações, opostas, mas complementares, desenvolvidas por Taylor e Fayol. 4. O SISTEMA SÓCIO-TÉCNICO Numa nova fase, surge a percepção da necessidade de uma proatividade administrativa, traduzida pela antecipação em encontrar soluções e inovações, fazendo a organização buscar integrar-se com o ambiente externo, ao invés de permanecer na passividade. É assim que surge o Modelo Sócio-técnico, contrapondo-se à idéia dos modelos existentes, já que propõe uma nova diretriz na gestão do trabalho, cuja característica básica é a otimização conjunta dos sistemas técnico e social na execução do seu projeto organizacional. Segundo Maria Ângela [4], os estudos começaram na década de 40, quando pesquisadores do Tavistock Institute of Humam Relation, localizado em Londres, orientados pelo Professor Eric L. Trist, desenvolveram estudos nos sistemas organizacionais, vigentes nas minas de carvão de Durhan, Inglaterra. O enfoque sócio-técnico visualiza a organização como um sistema aberto onde os aspectos sociais e técnicos devem ser gerenciados concomitantemente em busca da eficácia organizacional. O enfoque sócio-técnico possibilita uma interação entre os diversos setores da organização e com o ambiente, propiciando harmonia no alcance de seus objetivos. Esta visão organizacional, a partir de sua concepção, provocou transformações substanciais no entendimento sobre os modelos gerenciais da organização. Após um extenso período de conturbadas relações de trabalho, no qual o operário era tratado como material descartável, adota-se um novo enfoque, direcionando as relações para o lado humano. É um novo período em que a gestão de pessoas tem uma orientação mais social, considerando que o homem não é apenas força de trabalho. São identificadas as necessidades psicológicas e, assim, surge um campo para que os princípios da abordagem sócio-técnica possam expandir-se. As transformações ficam evidentes na comparação entre os paradigmas do trabalho da era taylorista, considerados velhos paradigmas e os da abordagem sócio-técnica: Tabela 1. Comparação entre os paradigmas VELHOS PARADIGMAS Componente tecnológico é imperativo O homem é extensão da máquina O homem é um componente descartável Divisão do trabalho, exigindo baixas habilidades Controle externo, supervisão Grande número de níveis hierárquicos e estilo autocrático Competição Consideram-se apenas os interesses da organização Descomprometimento Baixa taxa de mudança Fonte: Eric [2], p.42. 5. NOVOS PARADIGMAS Desenvolvimento conjunto dos sistemas técnico e social O homem e a máquina se completam O homem é um recurso a ser desenvolvido Trabalho em grupo e incremento das habilidades Controle interno, auto-regulação Baixo número de níveis hierárquicos e estilo participativo Cooperação no trabalho Consideram-se os interesses individuais e sociais, além dos organizacionais Comprometimento Inovações GESTÃO DA QUALIDADE TOTAL Da mesma forma que a abordagem sócio-técnica, a Gestão da Qualidade Total como é conhecida hoje, tem suas origens na necessidade de se mudar o método taylorista de administração, por perceber que o operário não podia mais ser visto como extensão da máquina e mero executor de procedimentos ditados por “especialistas”. Ao analisar-se a evolução dos termos do trabalho desde a era do artesanato até a era industrial, percebe-se uma involução do papel do operário em diversos aspectos: EQC - 4 Tabela 2. O papel do operário Conhecimento do trabalho Responsabilidade Competência e qualificação Relação com o produto Relação com o cliente Artesanato Indústria Conhecimento de toda a obra que O trabalhador passou a conhecer apenas uma faz, pois o artesão realizava o parte do trabalho, sem entender o conjunto. Ao trabalho completo, da concepção trabalhador nessa situação bastava executar o que ao acabamento. lhe era pedido, não precisava pensar muito no trabalho. O trabalhador deixou de ser o principal O artesão assume responsável pela qualidade do trabalho. Bastava responsabilidade pelo que faz, seguir aquilo que lhe era pedido, e logo a pois ele não tem a quem quantidade tornou-se mais importante que a responsabilizar por um trabalho qualidade. O Controle de Qualidade passou a que é somente seu. existir após o serviço realizado Com a divisão do trabalho, o conhecimento O artesão necessita ser profissional do trabalhador reduz-se de tal modo competente e qualificado, caso que ele torna-se um especialista em uma única contrário não sobreviverá e atividade, cada vez mais simples. Como perderá continuamente sua conseqüência, perde-se a motivação. referência junto aos clientes. O artesão procura sempre A indústria deixou de tentar sempre melhorar e melhorar, pois cada vez pode procurou ser mais estável, sem mudanças, fazer melhor o seu trabalho. padronizando seus produtos. A indústria deixou de se preocupar com a O artesão procura satisfazer seu satisfação dos clientes e passou a “empurrar” cliente, em contato direto, pois seus produtos padronizados em geral seu serviço é encomendado. Com a evolução da tecnologia e sua maior disponibilidade, pronta a facilitar as tarefas e aumentar o nível de qualidade da produção, a indústria começa a perceber que precisa atuar em outras áreas a fim de diferenciar-se da concorrência. A gestão da qualidade buscava claramente, no seu início, atuar de forma a atender a dois focos: necessidades do cliente e qualidade do produto. Nesse processo, chega-se à conclusão que o aspecto social do trabalho tem forte influência no desempenho das pessoas. Passa-se a entender que operários tratados como máquina, realizando um trabalho desinteressante, dificilmente produziriam algo confiável e de boa qualidade. Mesmo tendo o início de sua abordagem voltada mais para os processos de produção, a gestão da qualidade total tem hoje um dos seus focos voltado para as pessoas, entendendo que é fundamental a busca da satisfação dos trabalhadores e de sua capacitação profissional. Abandona a prática taylorista de operário “executor” e adota a postura de trabalhador responsável, considerando que o sucesso do produto final é construído por todos, a cada etapa do processo. Por suas características mais práticas, a gestão da qualidade total tem sido mais aplicada pelas organizações do que a abordagem sócio-técnica. Entretanto, é importante registrar que, tanto uma como a outra promoveram um novo enfoque na gestão de pessoas, no sentido de valorizar a figura humana como importante elo na corrente do sucesso corporativo. Aceitas ou criticadas, ambos sistemas devem ser vistos sob a ótica de sua contribuição para a melhora do sistema gerencial de pessoas, incluindo as relações e a qualidade de vida no trabalho. 6. A REVOLUÇÃO DA INFORMAÇÃO De acordo com Jean [3] a revolução informacional constitui o anúncio e a potencialidade de uma nova civilização, pós-mercantil que ultrapassa as divisões que opõe os homens. Esse autor destaca a revolução tecnológica, também chamada de "Segunda revolução industrial", "revolução científica e técnica" ou "revolução informática", tentando definí-la melhor, pois acredita que essas designações não são adequadas. Assim, diz que não se trata de uma segunda revolução industrial, que reproduziria as características daquela do século XVIII; mas também não se trata da "revolução do computador" nem, ainda, do que se entende por "automação", no sentido mais rigoroso do termo. Ainda segundo Ref. [3], a revolução informacional surge da oposição entre a revolução da máquinaferramenta, fundada na objetivação das funções manuais e a revolução da automação, baseada na objetivação de certas funções cerebrais desenvolvidas pelo maquinismo cerebral. Apesar disso, do mesmo modo que o conceito de máquinaferramenta não esgota o conceito de revolução industrial, também o conceito de automação (centrado sobre a atividade industrial) não abarca a inédita transformação operada pela revolução informacional em todas as atividades humanas, profissionais e não-profissionais. A revolução industrial foi marcada, no início, pela divisão de atividades, de funções e de homens. Na tentativa de apresentar uma abordagem sintética do termo revolução informacional, Ref. [3], apoia-se no conceito marxista de forças produtivas, que é a transformação da natureza material pelo homem. Porém, Lucien Sève apud (Ref. [3], p. 49) se pergunta se este conceito não se torna muito estreito para pensar o conjunto, em formidável expansão, de meios objetivos requeridos pelas atividades humanas a partir do patamar em que produção de coisas e produção de homens EQC - 5 se interpenetram de modo crescente. A interpenetração apresentada entre material e informacional não é o mesmo que fusão nem substituição. Para se pensar as relações entre o material e o informacional, o autor supracitado oferece as definições das forças produtivas segundo Marx apud (Ref. [3], p. 54): a força produtiva material é a força física que o homem põe em movimento para modificar a natureza, a fim de incorporar matérias dando uma forma útil à sua vida, isto é um valor de uso. Para tanto o homem se utiliza a intenção, ou seja, do ideal que move a vontade humana. Os limites da análise das forças produtivas feita por Marx, conforme Ref. [3], dizem respeito a dois elementos do complexo das forças produtivas não estudados nessa análise, a saber: 1) organização estrutural da empresa - divisão das funções, relações de poder - conectada à revolução dos meios de comunicação (telemática); 2) novas relações dentro e fora da empresa, entre trabalhadores da produção e trabalhadores da informação. Ref. [3] cita três grandes características tanto da revolução industrial quanto da revolução informacional. Quanto a primeira tem-se: - a especialização; - a estandardização; - a reprodução rígida (continuidade da cadeia). Tais características referem-se não só ao princípio da continuidade mecânica (máquinas-ferramentas especializadas; produtos estandardizados e seqüências rígidas) como também ao modo de organização dos homens com a divisão e parcelização do trabalho; oposição entre as funções de concepção-gestão e de fabricação; estandardização de tarefas humanas (simples órgãos "intelectuais" da máquina); e hierarquia rígida. Já a revolução informacional tem como maiores características: - a verdadeira polivalência, que o Ref. [3] chama de polifuncionalidade, para distingui-la da polivalência "tapa-buracos" da mecanização; - a flexibilidade (variedade de uso das máquinas informacionais); e a estrutura em redes descentralizadas. As oposições dispostas pelo autor são resumidas na tabela 3, disposta a seguir. Tabela 3 - Oposições entre a Revolução Industrial e a Revolução Informacional. Revolução Industrial FPM 1 - instrumento de trabalho isolado de seu objeto Máquina operatriz Máquina ferramenta Objetivação da mão Substituição do homem pela máquina Objeto de trabalho: ferro + carvão FPM 2 - formas produtivas materiais combinadas socialmente na unidade de trabalho, no nível de espaço da empresa. Sistema de máquinas automáticas especializadas Continuidade, rigidez, estandardização. Princípio mecânico FPM 3 - combinação social dos meios de trabalho no nível do espaço nacional e internacional Meios de circulação materiais centralizados e segregados FPH 1 - processo de trabalho abstrato homem-meio de trabalho Vigilância inespecífica, homem apêndice da máquina. FPH 2 - combinação social dos homens no nível da unidade de trabalho Divisão dos trabalhadores produtivos/improdutivos (monopolizando a concepção) Oposição ciência/produção FPH 3 - combinação social dos homens no nível do espaço nacional e internacional Domínio das atividades industriais Papel dinâmico da indústria metalúrgica Divisão proletariado industrial/empregados dos serviços Segregação urbana Revolução Informacional Máquina-auto-regulada Objetivação de funções cerebrais abstratas (direção-regulação da máquina) Máquina-prótese Silício, supercondutores. Sistema flexível, auto-regulado, de máquinas polifuncionais. Princípio orgânico Meios de circulação materiais e imateriais (informacionais) descentralizados e interativos (telemática em rede) Otimização, polivalência vertical (concepção + produção). Interpenetração trabalhadores produtivos/improdutivos, mesclagem e gradação de funções produtivas/improdutivas. Inter-relações ciência/produção Cooperação serviços-indústrias Papel dinâmico da metatrônica Cooperação professores/ pesquisadores/assalariados da indústria Integração urbana de funções em rede FPM: Forças Produtivas Materiais; FPH: Forças Produtivas Humanas. Fonte: Ref. [3], p. 79. EQC - 6 Segundo Willian et al [6], assim como o extremo melhoramento da produção foi o ponto central da revolução industrial, na época atual, é o processamento da informação que exerce o papel de fonte de força mais importante. O computador de 1945, do tamanho de um armazém, pode ser encontrado hoje em um chip de silício do tamanho de uma unha de bebê, dentro de um relógio digital. Esses autores citam Denos C. Gazis, do centro de pesquisa da IBM, que relata que seu próprio computador pessoal é capaz de armazenar mais dados e tem mais poder do que todo o laboratório da IBM em 1961. Este ritmo incrível de mudança é sem precedentes na história e tem um efeito fundamental e permanente tanto nas indústrias quanto nas pessoas que nelas trabalham. Dessa forma, a atual revolução da informação é tão radical e extensa quanto a revolução industrial. Sua influência já é sentida em todos os escritórios das empresas em todo o planeta. Também de acordo com Ref. [6], a vitória final da revolução da informação será o uso de um tipo de informações que se convertem instantaneamente em ações sofisticadas. A empresa precisa dominar, integrar e utilizar eficazmente os novos tipos de informação para definir a sua capacidade. Além disso, a área das ciências da informação e da comunicação - computadores, armazenagem em massa, software e telecomunicações é a que traz grandes mudanças que ocorrem a cada poucos anos, provocando assim a necessidade de a empresa obter grandes volumes de armazenagem de informações a baixo custo e transmitir essas informações de modo rápido e econômico ao mundo inteiro. De acordo com o nível das mudanças, acontecem grandes transformações para a humanidade. No caso da revolução da informação, essas modificações são bastante amplas e afetam todos os setores em todos os lugares, afinal a informação sempre está presente em qualquer atividade. Este fato revela a profundidade dos acontecimentos e suas influências que se manifestam em uma cadeia interdependente formada de informações de todas as partes do mundo, interligando várias áreas do conhecimento e das práticas humanas. 7. CONCLUSÃO Desde a revolução industrial até os dias de hoje, o relacionamento entre patrão e empregado tem importância significativa no resultado da produção. À época daquela revolução, a visão do homem como trabalhador era bastante diferente da que se tem atualmente, quando sua participação nos resultados corporativos é muito reconhecida. Por isso, o que se tem hoje em muitas empresas, é um tratamento mais social do que antes. A abordagem exclusivamente técnica foi abandonada e vive-se uma era na qual trata-se ambos aspectos, social e técnico, com a mesma importância; entende-se que não é possível o sucesso com ênfase em apenas um deles. A abordagem da qualidade, inicialmente em busca da melhora do produto, descobriu, também, que sem o enfoque humano da produção, não seria possível alcançar o seu intento. As transformações que motivaram a revolução atual têm como núcleo a informação que é de extrema relevância para todas as atividades humanas, inclusive as organizacionais. Estas, por sua vez, estão cada vez mais dependentes da qualidade do fluxo de informações. Também vale ressaltar que as mudanças que acontecem em qualquer parte do mundo podem influenciar direta ou indiretamente tanto o comportamento como a produtividade das pessoas, trazendo a perspectiva de que todos estão de alguma forma interligados e interdependentes, seja dentro da empresa ou fora dela. 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1]. Eric J. Hobsbawm. Da Revolução Industrial Inglesa ao imperialismo. 4. ed. Rio de Janeiro: ForenseUniversitária, 1986. Eric L. Trist. The Evolution of social-technical systems. Occasional paper. nº 02, Ontario Quality of Working Life Center. Ontario, 1981. Jean. Lojkine, A revolução informacional. São Paulo: Cortez, 1995. Maria Ângela de Melo Campelo, O processo de planejamento e as inovações tecnológicas e sociais: uma perspectiva sócio-ecológica. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica, 1997. Phyllis Deane. A Revolução Industrial. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. Willian H. Davidow & Michael S. Malone, A corporação virtual: estruturação e revitalização da corporação para o século 21. São Paulo: Pioneira, 1993. Willian Henderson. A Revolução Industrial. Lisboa: Editorial Verbo, 1993. [2]. [3]. [4]. [5]. [6]. [7]. EQC - 7