ISSN 1646-7892
Nº 4 - Outubro 2008
Uma voz de arrepiar
Ortopedista / Barítono
Jaime Jardim Fernandes
Entrevista de Vida
SPOT e sociedade civil
Painel da Sinistralidade
Mensagem do Presidente
Prof. Jacinto Monteiro - Presidente da SPOT
NOVOS VENTOS QUE SOPRAM….
A saúde é uma área de referência com elevado impacto social, em contínua evolução de
conhecimento e de capacidades técnicas e tecnológicas. Sabemos e sentimos cada vez
mais, continuadas modificações dos padrões da saúde e da doença e das expectativas
com que as populações aguardam o desempenho médico e em como a abordagem dos
cuidados de saúde tem vindo a ser alvo de profundas alterações.
Director: Jacinto Monteiro
Editor-Chefe: Jorge Seabra
Editor-Executivo: Bruno Pires
Fotografia: Bruno Pires; Agência Zero (pág. 3) & Hélder Santos (págs 14-15 e 17 )
Projecto Gráfico: Bruno Pires & Bürocratik
ISSN: 1646-7892
Depósito Legal: 278422/08
Propriedade: SPOT
Impressão: Litografia Coimbra, SA
Zona Industrial da Pedrulha, Apartado 8041, 3020-997 Coimbra, Portugal
Tiragem: 1500 ex.
Despacho autorização: DE04332008GSCLN
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O primado do indivíduo na relação médico doente passou
para a comunidade, a atenção dos cuidados desloca-se cada
vez mais para a prevenção, para os continuados, a atitude
paternalista da relação médica transformou-se na procura
responsável da partilha da tomada de decisão com o doente
e / ou a sua família.
Este é o actual paradigma da prática médica a que
nós ortopedistas não estamos imunes naturalmente,
consequência das novas esperanças médias de vida e dos
renovados e apregoados diferentes estilos de vida.
Claro está que para nós esta continuada mutação exige-nos
que sejamos necessariamente dinâmicos, interagindo com
a nova realidade social de uma forma mais preparada, mais
conhecedora e mais responsabilizadora.
A formação médica continuada e actualizada apresenta-se
como uma necessidade incontornável de que não podemos
nem devemos abdicar nem desviar o que quer que seja, numa
época de grandes constrangimentos a que estamos sujeitos
e que se relacionam com o exercício da nossa actividade
profissional. E este problema é transversal tanto ao sector
público como ao privado.
A realização de mais um Congresso Nacional de Ortopedia
deve representar da nossa parte, a vontade e necessidade que
sentimos e queremos em nos actualizar, partilhar experiências
e contribuir para a melhoria das nossas práticas.
Há que assumi-lo sem rodeios ou reservas, apesar dos novos
ventos que sopram e que nos querem convencer que nós só
existimos para fazer consultas e muitas, para operar doentes
e quanto mais melhor, e para fazer urgências as necessárias,
numa lógica de meros assalariados do poder politico e / ou
do capital !
Sem corporativismos estéreis, assumamos uma postura
construtiva e cooperante sem no entanto abdicarmos
da nossa condição de ortopedistas responsáveis que se
querem sentir profissionais respeitados e reconhecidos pela
sociedade.
Uma voz
Painel da
Sinistralidade
arrepiar
de
Págs. 18-21
Pág. 08
Págs. 26-27
Págs. 12-15
Págs. 28-31
Págs. 32-33
Págs. 10-11
Págs. 22-25
DESTAQUE
Engenharia e Ortopedia
OPINIÃO
Directiva Tempo de Trabalho
por Ciro Costa
ENTREVISTA DE VIDA
Dr. Jaime Jardim Fernandes
SPOT 2007
Revisão dos Estatutos
DESTAQUE
Formação da AEPOT
HOSPITAIS COM HISTÓRIA
Hospital do Outão
Em Janeiro último realizou-se em
Coimbra o 1º Encontro de OrtopediaEngenharia que contou com uma forte
participação, quer de ortopedistas
quer de engenheiros. O balanço
desse encontro foi muito positivo
tendo sido lançadas as bases para
uma intensificação do diálogo e
colaboração entre ortopedistas e
engenheiros. Um diálogo fundamental
para que a engenharia portuguesa
possa dar resposta à necessidade
de inovação que frequentemente o
ortopedista encontra na sua prática
clínica.
A revisão da Directiva que gere o tempo de trabalho na União Europeia tem
ocupado a agenda das organizações
médicas e sindicais europeias desde
há 4 ou 5 anos bem como do Parlamento Europeu, Comissão Europeia e
Conselho de Ministros Europeus.
Os desenvolvimentos desta problemática podem vir a influenciar significativamente o exercício profissional
dos médicos, pelo que será assunto
de discussão na Comissão Socioprofissional da SPOT.
Voo rasante sobre um percurso
singular de um ortopedista que
trocou a carreira académica pelo
“chamamento das origens”.
Da ilha da Madeira, Jaime Jardim
Fernandes conta-nos a história da
sua vida profissional.
Um médico, um legado ético e
humanista.
Três presidentes, uma direcção. Este é um dos pontos
dos Estatutos da SPOT que os
ortopedistas portugueses vão ser
chamados a discutir. O calendário eleitoral e a duração dos
mandatos são os outros temas
num debate que pode ter efeitos
na estrutura das futuras direcções da Sociedade.
Testemunhos dos três presidentes imediatos: o anterior, Jorge
Seabra, o actual, Jacinto Monteiro, e o futuro, José Neves.
A Associação dos Enfermeiros Portugueses de Ortopedia e Traumatologia (AEPOT), fundada há pouco mais
de um ano, tem com missão representar os enfermeiros portugueses
de ortopedia e traumatologia a nível
nacional e internacional, propondo e
defendendo de forma responsável o
seu exercício profissional.
Se o edifício fosse um país, teria
vivido uma revolução permanente.
O improvável trajecto até se fazer
hospital foi longo. Muito longo.
Os usos diversos fizeram de toda a
imponente edificação um camaleão
de funcionalidades.
Por ora, é um hospital.
Até quando?...
Foto-Reportagem
Antiga torre de vigia na fortaleza do Hospital do Outão.
Setúbal, 16 de Setembro de 2008. Fotografia de Bruno Pires.
Ortopedia - Engenharia
II Encontro Nacional Ortopedia Engenharia
Instituto Superior Técnico - 13 de Dezembro de 2008
Em Janeiro último realizou-se em Coimbra o 1º Encontro
de Ortopedia-Engenharia que contou com uma forte
participação, quer de ortopedistas quer de engenheiros.
O balanço desse encontro foi muito positivo tendo sido
lançadas as bases para uma intensificação do diálogo e
colaboração entre ortopedistas e engenheiros. Este diálogo
é fundamental para que a engenharia portuguesa possa dar
resposta à necessidade de inovação que frequentemente
o ortopedista encontra na sua prática clínica. Consciente
da importância destes encontros, a Sociedade Portuguesa
de Ortopedia (SPOT) em colaboração com a Sociedade
Portuguesa de Biomecânica (SPB) organiza este segundo
encontro com o objectivo de promover a partilha de
conhecimento entre ortopedistas e engenheiros.
Assim, e dando seguimento a esta iniciativa da SPOT,
realiza-se a 13 de Dezembro de 2008 no Instituto Superior
Técnico em Lisboa, a segunda reunião entre ortopedistas e
engenheiros. Neste segundo encontro houve a preocupação
de alargar a participação a diversas áreas da Engenharia,
desde a Mecânica e Materiais à Química e Física, divulgar
8
projectos de colaboração em curso e dar a conhecer
meios laboratoriais que possam ser uma mais valia para a
investigação e desenvolvimento na área da ortopedia.
São também patrocinadores desta segunda reunião científica
o Instituto Superior Técnico, a Apmtac — Associação
Portuguesa De Mecânica Teórica, Aplicada e Computacional
e a Apaet — Associação Portuguesa De Análise Experimental
De Tensões.
Destacam-se entre os temas a discutir, controvérsias
ligadas às Artroplastias do Ombro e Joelho, Dinâmica e
Estática do Tecido Ósseo, adaptação de imagem em tempo
real para cirurgia artroscópica assistida por computador,
desenvolvimentos Recentes na Biomecânica Ortopédica
e avanços da Imagem de Ressonância Magnética em
Ortopedia.
Para além destes temas, haverá decerto tempo para a
discussão de novas ideias e novos desafios no campo
desta colaboração interdisciplinar entre ortopedistas e
engenheiros.
Outubro 2008
Destaque
Apresentação da AEPOT
Este ano realizar-se-á o 1º Dia de Enfermagem, que decorrerá em simultâneo com o
XXVIII Congresso Nacional de Ortopedia e Traumatologia, e onde será apresentada
formalmente a AEPOT e debatidas as competências necessárias a um enfermeiro de
ortopedia e traumatologia nas diversas vertentes assistenciais. Na agenda está a firme
intenção de criar interacções com a SPOT.
A Associação dos Enfermeiros Portugueses de Ortopedia e
Traumatologia (AEPOT), fundada há pouco mais de um ano,
tem com missão representar os enfermeiros portugueses de
ortopedia e traumatologia a nível nacional e internacional,
propondo e defendendo de forma responsável o seu exercício profissional.
“A falta de formação dos enfermeiros na área da ortopedia
e traumatologia”, afirma Maria do Rosário Louzada que preside à AEPOT, “assim como a indefinição das competências
necessárias para um enfermeiro desta área são as questões
basilares para um grupo de enfermeiros de Lisboa e Coimbra”, que impulsionados pelos ortopedistas Cassiano Neves
e José Portela, decidiram fundar a associação.
A concretização de uma definição clara dos pressupostos
do exercício da enfermagem na área da Ortopedia assenta
é reforçada por Maria do Rosário Louzada, nomeadamente
ao nível da dotação de competências específicas. “Contribuir
para a mudança do conceito de enfermagem ortopédica e
traumatológica a nível nacional, definir as competências
necessárias ao enfermeiro de ortopedia e traumatologia e
assumir-se como vector da formação nas diversas vertentes,
são neste momento as prioridades da AEPOT”, reitera a sua
presidente.
“A AEPOT quer contribuir para a melhoria das práticas de
enfermagem ortopédica e traumatológica, partilhar as experiências, sentimentos e motivações dos seus membros,
assim como pretende incentivar os colegas europeus a formarem as suas próprias associações e num futuro próximo
fundar uma federação europeia de enfermeiros de ortope-
Outubro 2008
dia e traumatologia”, conclui. O projecto de uma estrutura
internacional que federe os enfermeiros da área já está em
marcha, tendo a AEPOT assumido a realização de vários contactos no sentido de operacionalizar uma estrutura deste
tipo.
Objectivos
A realização de sessões científicas, congressos e reuniões
de trabalho a nível nacional e internacional visando o aperfeiçoamento técnico profissional dos enfermeiros de ortopedia e traumatologia, a realização de um congresso anual,
publicar trimestralmente uma revista e fomentar o intercâmbio técnico profissional entre enfermeiros dos diversos
países, editando e difundindo estudos científicos são algumas das metas de curto prazo.
Todavia, Maria do Rosário Louzada volta a sublinhar a importância da formação “para o progresso do ensino na área
da enfermagem ortopédica e traumatológica” e o papel da
AEPOT “desenvolvendo acções que possam fomentar a realização de uma pós graduação na área da enfermagem ortopédica e traumatológica”.
As acções nesta área estão estruturadas de modo a culminarem num objectivo claro para a presidente da AEPOT – “tendo
em conta os desenvolvimentos em curso para a constituição
do novo modelo de desenvolvimento profissional, temos
como meta a pós graduação em enfermagem ortopédica e
traumatológica.”
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Entrevista de Vida
"Nunca me arrependi de
ter escolhido a Ortopedia"
Voo rasante sobre um percurso singular de um ortopedista que trocou
a carreira académica pelo “chamamento das origens”.
Um médico, um legado ético e humanista.
Jaime Jardim Fernandes, terminado o ensino secundário, em
1951, no Liceu Jaime Moniz, no Funchal, achou-se destinado
a outras ciências. “Nessa altura, como tinha mais facilidade
nas disciplinas de Matemática e Físico-Química, pensei que o
melhor Curso para mim, por essas razões, seria a Engenharia.
E segui para Coimbra com essa ideia”, recorda.
Todavia, e como a nota final do Liceu lhe permitiu dispensar
a realização do “exame de admissão, inscrevi-me em Medicina e não em Engenharia, não me tendo arrependido até hoje
dessa decisão, pois gostei muito da profissão que segui”, sublinha.
Apesar da intensa vida cultural, porque “logo no 1.º ano
de Faculdade inscrevi-me no Orfeão Académico de Coimbra, tendo desde essa altura ficado como efectivo, pelo que
– além da semana de Páscoa, em que o Orfeão saía todos
os anos, e dos espectáculos em todo o País (continental e
ultramarino) – fui a Espanha, França, e até ao Brasil numa digressão que durou quatro semanas”. Jardim Fernandes fez o
curso de uma assentada, terminando-o em 1957 com média
de 16 valores.
“Após o estágio, que concluí em 1958, fui para Lisboa onde
fiz concurso para o Internato Geral. Fui colocado no Hospital
de Santa Maria. Uma vez colocado, o meu amigo José Maria Vieira apresentou-me ao Senhor Professor Doutor Jorge
Mineiro (pai) que era, à data, o Director do Serviço de Ortopedia e que me aceitou como estagiário”, relembra Jaime
Jardim Fernandes.
Nas horas de folga do Internato Geral, recupera a imagem,
“comecei a frequentar o Serviço de Ortopedia e a ajudar nas
consultas privadas do Prof. Doutor Jorge Mineiro, colhendo
as histórias clínicas dos doentes privados, e também nas consultas dos doentes do Serviço. Assistia às consultas do Prof.
Mineiro, e toda essa actividade voluntária foi muito útil para
mim que me iniciava na actividade ortopédica.”
Após o Internato Geral, seguiu-se o concurso para o Internato Complementar de Ortopedia, tendo continuado no Serviço de Ortopedia do Hospital de Santa Maria.
“Terminado o Internato Complementar”, prossegue, “fiz
concurso para Especialista, tendo ficado colocado no mesmo Hospital onde trabalhei como Especialista, durante mais
dois anos. Ao fim destes dois anos, o Senhor Professor Jorge
Mineiro conseguiu uma bolsa para eu fazer um estágio em
Londres com a ideia de eu poder posteriormente fazer um
doutoramento.”
Simultaneamente, o Hospital Distrital do Funchal decidiu
abrir um Serviço de Ortopedia, o que originou o lançamento
de um concurso para Especialista.
“O chamamento das origens levou-me a abdicar de uma
carreira académica para concorrer à vaga de Especialista do
Hospital do Funchal.
Concorri e, tendo ganho o concurso, montei o serviço, tendo
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sido nomeado Director, lugar que ocupei durante 30 anos,
até à minha reforma”, recorda.
A Ortopedia
“Após o estágio, terminado em 1958, fui para Lisboa com a
ideia de fazer uma especialização em Otorrinolaringologia
ou Ortopedia. Ao chegar a Lisboa, não tendo conhecimento do meio médico da capital, encontrei-me com um amigo
de longa data, oriundo de São Vicente, na Madeira, que é a
freguesia mais próxima do Seixal, onde nasci, para que me
pudesse ajudar a orientar em Lisboa. Esse amigo de sempre
é o Prof. Doutor José Maria Vieira, que me disse ter mais facilidade em ajudar-me se quisesse seguir a Ortopedia, visto
que era a especialidade que estava a fazer. Aceitei a sugestão
"Esperamos que o futuro
continue a progressão técnica,
técnicas minimamente
invasivas, cirurgias robóticas,
etc, que resolvam as patologias
com o mínimo de agressividade
e com melhores e mais rápidas
recuperações funcionais."
e nunca me arrependi dessa decisão”, assevera Jaime Jardim
Fernandes.
A afirmação da Ortopedia e a sua emancipação foram tarefas empreendidas pelo médico ortopedista. “Quando iniciei
o Internato e a Especialidade, muita da patologia ortopédica,
principalmente a traumatológica, era executada e feita pelos
Cirurgiões Gerais. Foi um período de conquista e de grande
afirmação da Especialidade de Ortopedia que foi sendo aceite, com esforço e principalmente pela qualidade conseguida
nos resultados.”
O desenvolvimento e o aparecimento de novas técnicas e
materiais impuseram a obrigatoriedade de o tratamento das
patologias ortopédicas e traumatológicas ser feito por quem
tinha preparação específica. Isto deu visibilidade à especialidade e à necessidade crescente do número de especialistas.
Essa dualidade de crescer e desenvolver levou à investigação,
resultando no aparecimento de novas técnicas, novos mate-
Outubro 2008
riais de implante e novos meios de diagnóstico, nomeadamente o da Imagiologia.
“Hoje”, afirma Jardim Fernandes, “comparativamente aos
tempos da minha iniciação na Especialidade, existem respostas mais adequadas sob o ponto de vista técnico. Esperamos
que o futuro continue a progressão técnica, técnicas minimamente invasivas, cirurgias robóticas, etc, que resolvam as
patologias com o mínimo de agressividade e com melhores e
mais rápidas recuperações funcionais. As subespecializações
também têm como objectivo tratar melhor e recuperar mais
rápido.”
O papel da Ciência e da Medicina está definido para Jardim
Fernandes. “O envelhecimento da população, expondo-a
mais tempo às doenças degenerativas e a diversos estímulos
patológicos, obriga a que a investigação e o desenvolvimento
tecnológico continuem e tragam mais esperança às pessoas.”
O dever cumprido
“Haveria muitos episódios e histórias a descrever, mas o espaço seria exíguo. Houve um acontecimento que me marcou muito, pela responsabilidade que nos foi imposta pelos
acontecimentos.”
Em 1976, um acidente de aviação, no Aeroporto do Funchal,
resultou num grande número de politraumatizados. Os meios
Outubro 2008
humanos do Serviço de Ortopedia eram muito restritos (dois
elementos) “e durante uma semana não tivemos tempo de
dormir em casa. No intervalo das intervenções cirúrgicas, das
visitas aos doentes não operados e operados, aproveitávamos para descansar um pouco, fazendo pequenos períodos
de sono, situação que se manteve até todos os doentes terem sido operados e ultrapassarem o período de complicações pós-operatórias”, recorda Jardim Fernandes.
Outra situação que relembra com intensidade foi a manutenção de um regime de Urgência, de chamada, durante cerca de dois anos – “sendo eu o único elemento com formação
ortopédica em toda a Ilha da Madeira, sem outra compensação que não fosse o dever cumprido.”
E para o futuro?
“Faço votos para que os colegas, especialmente as novas gerações, procurem sempre uma boa formação clínica e técnica
cirúrgica, actualizando-se constantemente, frequentando
estágios, cursos, em serviços mais evoluídos, no país ou no
estrangeiro, não desmerecendo a formação Ética e Humana,
para, cada vez com mais eficiência e eficácia, prestarem melhores cuidados aos doentes ortopédicos, que, com o envelhecimento da população, serão sempre cada vez em maior
número.”
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Factos & Números
Ossos do Ofício
Após concurso de provas públicas no passado dia 22
de Julho, o Prof. Jacinto Monteiro foi aprovado como
Professor Catedrático da Faculdade de Medicina de
Lisboa. Após este concurso o Prof. Jacinto Monteiro fica
a ser o único Catedrático de Ortopedia em exercício
do País.
Jornada da Secção de
Tumores em Coimbra
Realizou-se no dia 27 de Setembro, no Auditório
do Hospital Pediátrico de Coimbra, mais uma das
reuniões informais da Secção de Tumores (ST) da
SPOT, orientadas pelo actual coordenador Dr. António
Laranjo e Dr. Gabriel Matos, futuro coordenador da
Secção e anfitrião desta jornada. Foram apresentados
casos complexos de tumores agressivos ósseos e das
partes moles, com a participação de cerca de duas
dezenas de ortopedistas vindos do IPO do Porto, Sto.
António, HUC, Hospital de Leiria, Viseu e HPC.
A discussão e apresentação de casos contou com
o contributo de colegas especializados nesta área,
nomeadamente o Dr. Pedro Cardoso, Dr. José Portela,
Dr. Pedro Lima e Prof. José Casanova, seguida de um
almoço-convívio.
Durante esta jornada, foi também discutida e preparada
a sessão clínica ligada aos tumores para o XXVIII
Congresso da SPOT.
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Jornadas da SEOI 2008
Vila Nova de Gaia
Nos dias 8 e 9 de Maio decorreram, no Centro de
Congressos do Hotel Meliá Gaia, as XIV Jornadas
Nacionais de Ortopedia Infantil, organizadas pela
Secção de Estudos de Ortopedia Infantil (SEOI) da
Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia
(SPOT) em colaboração com a Unidade de Ortopedia
Infantil do Serviço de Ortopedia do Centro Hospitalar
de Vila Nova de Gaia / Espinho (Director Dr. José
Neves).
O tema destas Jornadas foi “Paralisia Cerebral –
Conceitos Actuais”, tendo sido abordada a paralisia
cerebral do ponto de vista motor, que esteve a
cargo de especialistas nacionais e estrangeiros no
campo da Neuropediatria, Pediatria, Pediatria do
Desenvolvimento, Anestesia, Medicina Física e de
Reabilitação, Ortopedia Infantil e Ortoprotesia.
O corpo científico estrangeiro foi constituído pelo Dr.
Daniel Yeprémian, pelo Sr. Michell Jarrige (Centre de
Reeducation Fonctionnelle E. Poidatz Saint Fargeau
– França), pelo Dr. Néjib Khouri (Service de chirurgie
orthopédique pédiatrique – Hôpital Trousseau – Paris),
Dr. Juan Vieira (Venezuela), Prof. Tomas Epeldegui
(Hopital Nino Jesus – Madrid) e pelo Prof. George
Felipe (Paris).
A Comissão Organizadora, dirigida pela Dra. Maria
Mafalda Santos, responsável pela Unidade de
Ortopedia Infantil do Serviço anfitrião, considerou
que as jornadas alcançaram todos os seus objectivos,
possibilitando uma actualização e aperfeiçoamento
dos ortopedistas portugueses interessados nesta área
específica das paralisias.
Prémio Literário
O último livro do Dr. Jorge Seabra, "o Cão Andaluz"
recebeu o prémio literário Fialho de Almeida.
O Prémio Fialho de Almeida, é atribuído de dois em
dois anos, pela Sociedade Portuguesa de Escritores
e Artistas Médicos, à melhor obra literária de ficção
escrita por médicos.
Outubro 2008
854
Nº de vítimas mortais em
acidentes rodoviários nas
estradas portuguesas em 2007
Jacinto Monteiro novo
Prof. Catedrático
"Há que diferenciar e classificar os vários hospitais
e as várias urgências, para que possamos ter uma rede
diferenciada para o tratamento de sinistrados."
Carlos Marques, sobre o Painel da Sinistralidade em debate no XXVIII Congresso da SPOT
161.237
Número de condutores controlados pela GNR que seguiam
em excesso de velocidade nas estradas portuguesas em 2007
51%
Outubro 2008
Redução , entre 2000 e 2007,
do número de vítimas mortais
em acidentes de viação nas
estradas portuguesas
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Para Além da Ortopedia
Uma voz
de arrepiar
“Não canto tanto como gostaria”.
A confissão é de Pedro Cardoso, assistente hospitalar graduado do Serviço de
Ortopedia do Hospital de Santo António, especializado na área da Oncologia Ortopédica. Assistente da cadeira de Ortopedia do Instituto de Ciências Biomédicas
Abel Salazar, vogal, desde 97, da Secção do Estudo dos Tumores Ósseos da SPOT
(coordenador no biénio 99/2000), e cantor nas horas restantes. Cabeça de cartaz
de uma família que apoia incondicionalmente a arte que persegue nas horas vagas, e porto de abrigo para noites em que o desempenho vocal não foi porventura
completo. A mulher e os quatro filhos são, para este ortopedista/barítono, as cinco linhas da pauta da sua vida.
“Horas vagas?! Não, porque sai-me do pêlo. Isto não é um hobby. É pesadíssimo.
Hobby é coleccionar selos.”
paga é a família, que acaba por ser o suporte da actividade
extraprofissional. Às vezes até me acompanham, e gosto bastante da companhia deles.”
Os ensaios são um dos momentos de maior dureza. “Passamos horas a trabalhar o pormenor. Mas não se pode desistir,
temos de ser persistentes – persistência é a palavra- -chave”,
enfatiza Pedro Cardoso.
Da importância de ser asmático
Como é que se escolhe a Medicina? “Olhe, - afirma sorrindo talvez o facto de ter sido asmático em pequeno… Tinha muitas crises, passava horas nos consultórios e, pequenito como
era, eu admirava os médicos que tinham o poder de curar. A
Medicina era uma coisa fantástica. E eu admirava muito essas
pessoas de bata branca e o facto de usufruir dos seus conhecimentos, da sua sabedoria”, recorda Pedro Cardoso.
Daí à Medicina foi uma decisão que tomou forma, mas a música esteve sempre presente e foi companheira de formação.
“Comecei aos 10 anos, no Conservatório do Porto, sem nenhuma tradição na família. Passei por muitos altos e baixos.
Principiei com piano, porque só comecei a cantar aos 18 anos,
já que as vagas de Canto para os rapazes só abriam nessa altura. Inscrevi-me. Fiz o curso e senti-me muito feliz. Meto-me
nas coisas para as acabar. Acabei o curso de Piano, acabei o
curso de Canto, um ano depois, e acabei o curso de Medicina,
tudo ao mesmo tempo”, relembra Pedro Cardoso.
A carreira médica iniciava-se em 88 “e pensei no que poderia
a fazer à música… Tive algumas alegrias com o piano, mas o
piano é muito exigente. Precisava de muitas horas para estudar e”, assegura, “o Canto é muito menos exigente. Um
pianista tem de estudar seis horas por dia e, como médico,
é impossível.”
“Iniciei a especialidade em 90, no Santo António. Comecei
a interessar-me pela Oncologia Ortopédica em 95. Acabei
a especialidade em 96 e tenho estado sempre ligado a esta
área.”
O jantar é música
“Uma vez, no Centro Cultural de Belém, fizemos um
concerto de fim de tarde.
O público não era muito, mas
o concerto correu muito bem.
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Espectáculo do grupo Medici Ensemble, num dos Concertos Mozart na Fundação Eng. António de Almeida (Porto, 2006)
Cantámos como se a sala estivesse cheia. Uma senhora, no
final, agradeceu-nos e disse: eu
não jantei, mas já nem vou jantar.
Não há melhor cumprimento.”
E a música?
“Durante os primeiros anos, fiz alguns concertos como freelancer, mas em 95 arranjei este grupo, os Medici Ensemble.
É uma actividade remunerada, mas não é um rendimento.
Quando corre bem, é um estado de euforia, é como se o ar tivesse champanhe, é uma sensação inebriante. Como agora se
costuma dizer: não tenho palavras… ainda que tenha, porque
sei descrever as emoções”, sublinha Pedro Cardoso.
Todavia, o preço é elevado. “O esforço, muitíssimo, porque
não há mesmo médico nenhum que não trabalhe como uma
besta. Urgências, cirurgias. Sempre a correr de um lado para
o outro. Ensaios e concertos”, refere Pedro Cardoso. “Quem
Direitos Reservados
“Actualmente, só canto nos concertos dos Medici Ensemble.
Sou eu, um pianista, que é cirurgião geral, e duas senhoras,
que são clínicas gerais. Temos feito meia dúzia de concertos
por ano. Há anos em que essa meia-dúzia são quatro. Há outros em que a meia-dúzia são dez. Já houve um ano, muito
bom, em que fizemos 13 concertos”, recorda Pedro Cardoso.
O primeiro concerto foi em Janeiro de 1995 – um concerto de
Reis. Depois de vários espectáculos, tiveram um convite da
Secretaria de Estado da Cultura para um ciclo de concertos
Outubro 2008
no norte do país, a que se somou um convite da autarquia
portuense, em 2006, para um outro ciclo de concertos no
ano Mozart dedicados ao compositor. “A ideia, de um organismo da câmara chamado Porto, Bairro a Bairro, era divulgar
a música clássica junto de estratos sociais que, habitualmente, não procuram este tipo de música. As freguesias-alvo
eram sempre as economicamente desfavorecidas. Pelo menos, dois dos concertos cumpriram na íntegra os objectivos
– e as pessoas que compareceram, e que não se incluem nas
chamadas elites, aceitaram muito bem” a música que lhes
foi proposta.
Nos treze anos de actividade, os Medici Ensenble gravaram
um disco e têm diversificado o repertório: “Händel, Mozart,
os românticos do século XX, Bernstein, Broadway, Kurt Weill.
Agora, temos um projecto com Gerswhin que poderá ser
mais acessível, porque grande parte das músicas dele foram
usadas em vários filmes, com o Fred Astaire”, recorda Pedro
Cardoso.
“Temos um concerto de Kurt Weill que também é muito
interessante, mais teatral – explica-se a sua vida: a fuga ao
nazismo, a passagem por França, por Hollywood e pela Broadway, e nós fazemos esse trajecto todo” com canções de
cada momento. “Temos um concerto de Natal giríssimo e
vamos procurando outros compositores – como, por exemplo, alguns portugueses contemporâneos. Também temos
divulgado alguns originais do nosso pianista, que é compo-
Outubro 2008
sitor”, revela Pedro Cardoso.
“Fizemos ainda dois concertos com música de Korngold,
também um fugitivo da máquina nazi e que se radicou em
Hollywood, tendo feito músicas para filmes em que entrou o
Errol Flynn, por exemplo. Temos Astor Piazzola e outros autores sul-americanos, como o Villa-Lobos. É um estilo mais
leve. É o contraste. Fazemos muito isso nos nossos concertos.”
Das actuações que passam, ficam as sensações, os êxitos, as
notas a caminho do tom ideal e o público. Sempre o público.
“Uma vez, no Centro Cultural de Belém, fizemos um concerto de fim de tarde. O público não era muito, mas o concerto
correu muito bem. Cantámos como se a sala estivesse cheia.
Uma senhora, no final, agradeceu-nos e disse: eu não jantei,
mas já nem vou jantar. Não há melhor cumprimento.”
E se a experiência dos anos pode ser determinante para
um médico, Pedro Cardoso considera que, no Canto, as
contas se fazem de forma inversa. “A idade, aqui, não é
como na Medicina onde joga a favor. A sabedoria, os conhecimentos acumulados, é tudo a somar… Aqui, não.
É a subtrair. As pessoas mudam, e é preciso um certo vigor físico para atingir como um raio quem escuta.
Um artista tem de causar emoções. Tem de arrepiar.”
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Hospitais com História
HOSPITAL ORTOPÉDICO SANT’IAGO DO OUTÃO
E fez-se um Hospital
Se o edifício fosse um país, teria vivido uma revolução permanente. O improvável trajecto
até se fazer hospital foi longo. Muito longo. Os usos diversos fizeram de toda a imponente edificação um camaleão de funcionalidades. Por ora, é um hospital. Até quando?...
À primeira vista, o caminho não é promissor. Vários camiões
resfolgam pela estrada apertada a caminho da cimenteira
do Outão. Nuvens de poeira saem de escapes enormes. O
pára-brisas vai sendo persistentemente pontilhado pela areia
projectada pelos enormes rodados.
Mais uma curva e abre-se na paisagem o enorme complexo produtor de cimento, orgia de tubos, edifícios, cisternas,
avisos. Parece impossível, mas estamos a escassa distância
do Hospital Ortopédico Sant’Iago do Outão, hoje, parte do
Centro Hospitalar de Setúbal, localizado numa das zonas esteticamente mais privilegiadas do estuário do Sado.
Passados às curvas seguintes, finalmente o Hospital, cruzamento de um edifício pleno de História com estruturas modernas que lhe permitem funcionalidades para que o velho
forte não foi moldado. E a paisagem reconcilia-se com os
visitantes…
De Neptuno à Ortopedia
A origem da Fortaleza de Santiago perde-se nos séculos. Remontarão à época romana as primeiras edificações realizadas
no local, tal como foi constatado: “Nas obras seiscentistas de
ampliação da Fortaleza foram encontrados vestígios de um
templo romano dedicado a Neptuno”.
Pelos tempos, passariam os romanos e outros povos que, entretanto, foram cruzando a Península. Formou-se o condado,
constituiu-se a nacionalidade e fez-se a Reconquista. Passaram reis, rainhas e a infame Leonor Teles, até o Outão voltar a
constar na geografia nacional. “Em 1390, D. João I, interessado na defesa das barras dos rios Tejo e Sado, mandou edificar
uma Torre para vigilância da actual entrada do rio.” A Torre
perduraria, ou, pelo menos, a sua implantação original, já que
a primeira edificação foi sofrendo algumas obras de reconstrução. Aliás, ainda hoje, os setubalenses se referem a toda a
estrutura como a Torre do Outão.
Expulsos os Filipes, D. João IV ordenou a ampliação da Forta-
Outubro 2008
leza, trabalhos que iriam durar 14 anos, até 1657. A forma do
actual conjunto de edifícios estava definida.
Uma das estruturas que foram recebendo alterações significativas foi a capela da Fortaleza, que, ainda hoje, ostenta o
revestimento azulejar que recebeu originalmente, no século
XVIII, bem como todo o trabalho de talha dourada que ornamenta o altar.
Passará um século até que o farol que já estivera colocado
no cume da serra desça a encosta e passe a integrar todo o
conjunto, já que os nevoeiros impediam que cumprisse a sua
função prejudicando-lhe a visibilidade.
Templo, fortaleza, fortaleza e farol, séculos de História virados
para o Sado. Estabilizadas as fronteiras há três dinastias, havia que repensar a utilidade da edificação. O que sempre fora
olhado como enquadramento estratégico assumia-se agora
como paisagem única, ar puríssimo e tranquilidade absoluta.
O rei D. Carlos e a rainha D. Amélia decidem transformar o
Forte em “Residência de Verão”, procedendo “ao arranjo de
aposentos no interior da Fortaleza”, ainda hoje visíveis, embora não visitáveis.
Todavia, fosse pela insensibilidade da rainha aos encantos do
Outão, fosse pela distância da capital do Reino, fosse ainda
pelo zelo com que os republicanos setubalenses se opunham
à estada dos reis, a Fortaleza nunca veria a realeza nela assentar arraiais. Das majestades previstas, sobrou a majestade
que ainda se adivinha nos aposentos dignos de um rei que,
afinal, nunca veio. Para a posteridade ficou a conta final da
estrada construída a golpes de picareta para deixar passar os
reis – 300 contos –, uma enormidade para a época e que lhe
valeria o epíteto de “estrada das pedras de ouro”.
A rainha D. Amélia decidiu, então, “oferecer o edifício para a
instalação de um sanatório”, e daí à instalação do Hospital
Ortopédico bastaram sete décadas, intervalo curto para uma
edificação que carregava séculos a olhar a serra e a mirar-se
no rio.
23
Rogério Palma Rodrigues
A formação do hospital
“O sanatório começou a funcionar a 6 de Junho de 1900 com
35 crianças do sexo feminino, provisoriamente instaladas em
salas adaptadas da antiga fortaleza”e necessariamente submetidas ao período de quarentena numa área denominada
por Lazareto. A gestão do complexo estava entregue à Assistência Nacional aos Tuberculosos, organismo criado pela
rainha.
Passada a utilidade para o culto de Neptuno como templo,
para a segurança nacional, para aposento real, sobrevinha
agora a utilidade do “clima do Outão – ventos oceânicos, estabilidade térmica, luminosidade intensa, quase ausência de
nevoeiros e regime de chuvas com predominância nocturna”.
Tudo isto conjugado torna o Outão “numa estação excelente
para a cura heliomarítima, em que a helioterapia se pode praticar todo o ano, circunstância indispensável para a eficácia
dos tratamentos nas tuberculoses óssea e ganglionar”.
Prosseguindo uma certa coerência do seu percurso histórico,
toda a edificação se vai adaptando às necessidades das suas
novas funcionalidades. Nasce um edifício de raiz que “foi
sendo sucessivamente adaptado de maneira a acompanhar
os progressos da terapêutica da tuberculose”.
Ao longo dos anos, são acrescentados “as varandas-solário, o
laboratório de análises clínicas, a radiologia, as salas de operações” e diversos serviços de apoio.
O número de doentes foi-se multiplicando, passando o sanatório a receber crianças do sexo masculino e mulheres.
O tratamento das suas doenças obrigava a longos internamentos, por vezes de anos seguidos. Assim, “foram sendo
criadas actividades de ensino, culturais e de adaptação ao
trabalho, sendo de destacar a escola ao ar livre, a ginástica
educativa e oficinas diversas”. O corpo clínico do sanatório
era constituído por um “dedicado corpo de enfermeiras re-
24
ligiosas e por uma notável equipa médica” que não só recuperava os doentes como acompanhava a sua posterior integração social.
Até ao final dos anos sessenta do século XX, “os progressos
da terapêutica levaram a uma grande diminuição da tuberculose osteoarticular”, o que libertou o sanatório para o tratamento de “outros doentes do foro ortopédico”, meio caminho para mais uma transformação.
“Em Abril de 1971, o Sanatório Marítimo do Outão, até ali
pertencente ao Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos, é integrado na organização hospitalar da DirecçãoGeral dos Hospitais e classificado como Hospital Central Especializado em Ortopedia.”
Actualmente, o hospital, “para além dos serviços de valência
ortopédica, assegura a urgência traumatológica da área de
influência do Hospital Distrital de S. Bernardo de Setúbal”,
integrando o Centro Hospitalar de Setúbal.
Qualidade certificada
A primeira impressão com que se fica é a de que gostaríamos
de morar ali. Naquele edifício feito hospital.
Passados os tempos, literalmente mais escuros da má vizinhança – em que o pó de cimento que se libertava da cimenteira do Outão insistia em acinzentar tudo e todos os
que permaneciam por perto –, todo o enquadramento do
hospital é idílico.
Acresce a forma equilibrada como tem sido recuperado e
transformado, convertido e acrescentado.
Num ambiente sugestivo, de cenário imaginário de reis a
cenário ficcional de filmes, Palma Rodrigues, director do Departamento do Aparelho Locomotor do Centro Hospitalar de
Setúbal, guia-nos através dos inúmeros corredores de todo o
edifício, numa viagem entre colunas de pedra e instrumentos
Outubro 2008
Hospital do Outão durante o pós-guerra e década de 50
cirúrgicos de vanguarda.
“Realizámos obras recentes com a preocupação de convertermos e rentabilizarmos o espaço disponível. Foi feita uma
nova entrada principal e houve uma melhoria das acessibilidades, mas sempre com a preocupação de adaptar a traça
Outubro 2008
antiga às novas funcionalidades”, salienta o ortopedista.
E sublinha: “Só a pedra e o vidro persistem, não o ferro” ao
constante fustigar da maresia. “As obras são permanentes.”
Longe vão os tempos de internamentos prolongados. Hoje,
refere Palma Rodrigues, “em virtude do escasso tempo de
internamento necessário, muito devido ao incremento da cirurgia de ambulatório, é possível fazer uma gestão mais eficaz, sendo necessárias menos camas disponíveis”. Exemplo
da forma como os recursos são geridos é a “rotatividade de
género” das enfermarias, sendo a sua capacidade rotativamente atribuída a homens ou a mulheres de acordo com o
género predominante num dado período.
Quem atravessa todo o hospital apercebe-se do grau de organização, da forma como o edifício secular se transmutou
num hospital moderno. O processo de certificação da qualidade na prestação dos cuidados de saúde, pela Health Accreditation and Quality Unit (Ex King´s Found Health Quality
Service), foi recentemente concluído, tendo sido reconhecida
a excelência do trabalho desenvolvido. A preparação do processo de certificação implicou mais uma alteração de procedimentos, de instalações e de equipamentos.
Habituado a transformações no edifício, o hospital atravessou, em 2005, a sua última alteração de estatuto, passando
a integrar o Centro Hospitalar de Setúbal nas valências de
Ortopedia e Traumatologia. Palma Rodrigues reconhece que
esta alteração se reflectiu na perda do carácter nacional da
instituição, embora mantenha uma grande influência a sul
do Tejo. O ortopedista destaca duas áreas como ex-líbris do
Hospital – o tratamento de patologias da coluna vertebral,
prevalecendo o legado científico do Dr. Jacques Resina, e a
Unidade de Ortopedia Infantil, para cuja criação foi decisivo
o denodado esforço e a dedicação persistente do Dr. Carlos
Martins, ex-Director Clínico do Hospital.
A Unidade de Coluna Vertebral Jacques Resina continua a
ser um dos serviços mais significativos desenvolvidos pelo
hospital, prosseguindo na aplicação do chamado “Método
Português de redução dinâmica e fixação das deformações
da coluna por meio de tutores metálicos elásticos ligados às
vértebras”, criado pelos seus autores, Jacques Resina e Álvaro Ferreira-Alves em 1962 e que seria alvo de inovações nos
anos 90 do século XX.
Será por esta altura que a Unidade inicia “um método cirúrgico complementar de tratamento dos doentes com escolioses
graves e muito deformadoras do tórax, tendo em vista não
só a correcção do desalinhamento da coluna, mas também a
melhoria estética” proporcionada pela toracoplastia, como
sublinha Palma Rodrigues.
Hoje, das 13 Especialidades Cirúrgicas que compõem o Centro Hospitalar de Setúbal, cerca de trinta por cento do total
de intervenções são realizadas pela Ortopedia no Hospital
Ortopédico de Sant’Iago do Outão.
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Opinião
Tempo
Directiva
Ciro Costa*
de trabalho
A revisão da Directiva que gere o tempo de trabalho na União
Europeia tem ocupado a agenda das organizações médicas e
sindicais europeias desde há 4 ou 5 anos bem como do Parlamento Europeu, Comissão Europeia e Conselho de Ministros
Europeus. Trata-se de um assunto muito polémico que subiu
de patamar na ordem do dia destas organizações a partir do
momento em que a Presidência Eslovena conseguiu um acordo de princípio no Conselho de Ministros Europeu.
Os desenvolvimentos desta problemática podem vir a influenciar significativamente o exercício profissional dos
médicos, pelo que será assunto de discussão na Comissão
Socioprofissional da SPOT que terá lugar em Vilamoura no
próximo dia 29 de Outubro ao fim da tarde.
O problema
Em 2001, surgiu um problema em Valência (caso SIMAP)
com os médicos que eram obrigados a fazer urgência (“atenção continuada”) sem limite horário diário, semanal, mensal
ou anual e sem descansos estabelecidos e que não queriam
fazer mais de 48 horas por semana, de acordo com a Directiva. Esta pretensão foi recusada pelas autoridades espanholas, mas o SIMAP (sindicato médico) recorreu ao Tribunal
Europeu de Justiça que lhes deu razão. Mas ninguém ligou
muito a isso.
Na Alemanha, em 2002, um cirurgião alemão – Jaeger – esteve de serviço “on call” dentro do hospital, não tendo sido
solicitado nenhuma vez. A autarquia local que financiava o
hospital contestou o pagamento, porque o médico tinha estado a dormir num quarto com todas as condições e recusou
o pagamento. A decisão correu os tribunais alemães e chegou ao Tribunal Europeu de Justiça que reafirmou que trabalho “é todo o tempo em que o trabalhador está à disposição
do empregador independentemente de lhe ser distribuído
trabalho ou não”. A circunstância de ter um quarto com todas as condições para descansar não é a mesma coisa que
estar em casa com a família – não tem a mesma qualidade
do sono e pode ser chamado a qualquer altura. Dispor de um
local apropriado para descansar quando não são necessários
os seus serviços é bom para os doentes porque, quando forem necessários os serviços do médico, ele estará em muito
melhores condições e o risco de errar será menor.
Esta decisão e muitas outras de sentido semelhante (Pfeiffer
2004, Feuerwehr Hamburg, Dellas 2005) trouxeram o caos
à organização do trabalho médico na Europa. A questão é
que, se esse médico esteve a trabalhar, tem de abandonar
o serviço e gozar um descanso ininterrupto de 11 horas, no
mínimo. Além disso, a administração não pode permitir que
o médico que está em período de descanso faça qualquer
coisa, porque pode ter problemas legais se houver queixa do
doente em relação a algum eventual erro médico. Como consequência imediata, passou a haver falta de médicos e houve
reestruturação dos serviços, com encerramento de muitos
deles.
Estas decisões mandatórias do Tribunal Europeu de Justiça,
reconhecendo como trabalho todo o tempo passado pelos
médicos no hospital mesmo quando não estavam a fazer
nada ou mesmo a dormir, levou a que as autoridades dos
países mais atingidos reagissem. Primeiro, com expedientes
legais e jurídicos locais e, depois, como não tiveram sucesso,
com o desencadeamento de um processo de tentativa de
mudança da directiva.
Há quatro assuntos principais em causa – a definição do que
é trabalho, o descanso obrigatório a seguir ao trabalho, o opting out individual, o tempo de referência.
Resumidamente, o Conselho de Ministros Europeu acordou
em Junho na Presidência Eslovena o seguinte:
Sobre a definição do que é considerado trabalho, pretendese que haja uma “parte inactiva do tempo de trabalho” (“on
call”), que poderá não contar, ou contar parcialmente para o
horário semanal, a definir por legislação nacional ou acordo
colectivo de trabalho.
Em relação ao descanso a seguir a um período de trabalho,
a directiva actual impõe que seja imediatamente a seguir
e, na revisão, define-se a possibilidade de o tempo de descanso não ser obrigatoriamente a seguir ao trabalho correspondente, podendo ser diferido por um “período razoável”
a determinar por legislação nacional ou acordo colectivo de
trabalho.
O opting out é a possibilidade de cada médico, por sua exclusiva vontade, poder ultrapassar as 48 horas por semana.
O opting out individual, que era uma excepção, passará a ser
uma regra que os estados membros podem utilizar com algumas condições mais restritivas. A anuência do trabalhador é
Outubro 2008
feita por acordo anual renovável, o trabalhador não pode sofrer represálias se recusar, e esse eventual acordo para ultrapassar as 48 horas semanais não pode ser subscrito na altura
da assinatura do contrato de trabalho nem nas primeiras 4
semanas de trabalho. O limite semanal serão 60 horas (ou
65 horas por semana se a parte inactiva do trabalho for considerada trabalho) contados numa média de 3 meses. Este
é o chamado período de referência que actualmente é de
4 meses.
As organizações médicas Europeias (Comité Permanente dos
Médicos Europeus, União Europeia dos Médicos Especialistas, Federação Europeia dos Sindicatos Médicos, Associação
Europeia dos Médicos Hospitalares) opõem-se frontalmente
a estas alterações e querem que não seja permitido o opting
out individual aos médicos em formação.
A questão principal é a “parte inactiva do tempo de trabalho”. Se um médico está de serviço é porque existe a necessidade evidente de disponibilizar rapidamente os seus serviços. Por isso, estar disponível faz parte do seu trabalho. Não
tem liberdade de deixar o hospital, está longe da sua casa, da
sua família, do seu ambiente pessoal. Mesmo se pode dormir
durante algum tempo, não está na sua cama, o sono é perturbado pelos sons e ambiente do hospital, pelas solicitações
e, muito principalmente, pela intranquilidade da expectativa
de ser chamado a qualquer momento.
Mas os médicos não estão sós nesta contestação às alterações à directiva. A directiva é para todos os trabalhadores e
não exclusivamente para o trabalho médico, pelo que também as centrais sindicais europeias contestam estas alterações.
Se o conceito de parte inactiva do tempo de trabalho for
por diante, um bombeiro, uma telefonista ou um polícia, por
exemplo, poderão estar muitas horas de serviço “sem ter trabalhado”, por não terem sido solicitados os seus serviços!!!
O processo de decisão europeu é complicado e, para esta
directiva ser alterada e entrar em vigor, necessitará de ser
aprovada pela Comissão Europeia e pelo Parlamento Europeu. Este último tomou já diversas posições muito críticas
em relação às propostas de modificação da directiva que,
provavelmente, terá de sofrer alterações para poder ser
aprovada.
Como curiosidade, o Governo Português actual votou contra
as alterações, e um dos grandes opositores a estas alterações
é o deputado europeu português Dr. Silva Peneda, Ministro
do Emprego na altura, que liderou, na Presidência Portuguesa em 1992, a negociação da actual directiva.
* Chefe da delegação portuguesa
na União Europeia dos Médicos Especialistas
Comissão Socioprofissional da SPOT
27
Destaque
"Fazer o melhor
não basta"
O ortopedista Carlos Marques está a coordenar o lançamento de uma
discussão que visa culminar num projecto da SPOT, dada a importância do
tema e a afinidade com os ortopedistas portugueses. A sinistralidade rodoviária continua todos os anos a ser “um flagelo”, “uma vergonha” e uma
“questão nacional”, mas os números anuais continuam a remeter para a
gaveta das inutilidades campanhas de prevenção, discursos públicos, ministros e ministérios. Os ortopedistas abrem uma nova frente de discussão
e, diriam os comentadores, lançam algumas questões… fracturantes.
Por quê a opção pela discussão em torno da sinistralidade
rodoviária?
Todos sabemos que este tema é uma vergonha nacional, pese
embora a melhoria franca dos diferentes indicadores que levaram o governo português a receber um prémio europeu no
ano passado.
Embora recentemente a ‘contabilidade portuguesa’ que
originou os números premiados tenha começado a ser
questionada.
Levantam-se agora algumas dúvidas sobre como foi feita a
contabilidade dos números – se forem utilizados os mesmos
critérios da restante Europa... Não queremos entrar nessa polémica, mas consideramos que o rigor deve imperar.
Por que razão a SPOT decide participar activamente no debate da sinistralidade rodoviária?
A SPOT, pela primeira vez, vai abrir o Congresso Nacional
de Ortopedia à sociedade civil. A actual Direcção considera
que as Sociedades Científicas têm obrigação de intervir activamente na sociedade civil – é uma responsabilidade social.
Através desta iniciativa, pretende promover uma discussão
alargada de um tema que a todos toca e que faz parte da vida
quotidiana dos ortopedistas portugueses.
Como é que define esta afinidade dos ortopedistas?
Ao convívio estreito com os inúmeros problemas gravíssimos
resultantes desse flagelo, nomeadamente pessoais, familiares
e sociais, acresce o conhecimento técnico inerente à profissão,
colocando estes profissionais num patamar privilegiado para a
abordagem do tema.
De que forma podem intervir?
Não queremos ficar, apenas, pela discussão do tema. Queremos ser intervenientes activos. Queremos partilhar o nosso
conhecimento, para que, sempre que se discuta o problema,
possamos dar o nosso contributo. Queremos ser parceiros,
tanto na discussão do tema como na estratégia e nas acções
a desenvolver, quer por nós quer por outros, combatendo o
flagelo da sinistralidade rodoviária.
Esta acção pode ser entendida como um projecto de continuidade?
Não estará de todo errado chamar Projecto, pois não pretendemos ser só catalisadores deste fórum de discussão alargada
sobre o tema no nosso congresso, mas queremos também
que o tema tenha uma continuidade de discussão, quer no
nosso site quer noutros fóruns.
Mas trata-se, apenas, do lançamento de uma discussão?
Não é apenas a dialéctica mas a definição e implementação
30
de várias acções para que possamos contribuir para o combate a essa catástrofe.
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Está identificado o problema. Analisemos as causas.
Existem várias causas que contribuem para este flagelo: desde
o traçado das estradas, aos materiais utilizados na sua construção e até aos mecanismos de segurança. Mas tratando--se
de pessoas, existe uma componente comportamental e cultural que não é desprezível e que é necessário corrigir, e nessa
área serão muito mais difíceis quaisquer alterações.
Todavia, esta é uma área em que as campanhas são exaustivas e numerosas.
Têm-se feito várias campanhas, mas serão suficientes? Mais
importante: são eficazes? Será que vale a pena insistir num
modelo que tem tido poucos resultados? O que pode uma
campanha de prevenção fazer, quando as campanhas publicitárias para o consumo do álcool são perfeitamente arrasadoras?
A vigilância policial, tem sido eficaz? O que é mais importante
é a punição ou a sua presença dissuasora? O que será mais
eficaz, multar ou obrigar os transgressores a prestar serviços
à comunidade, sujeitando-os a passar algumas horas dos seus
dias, durante algum tempo, em contacto com sinistrados por
automóveis, em hospitais, para que se apercebam do que a
sua inconsciência pode provocar?
E o método de licenciamento de novos condutores?
Levanta mais algumas questões. A aprendizagem necessária
para se poder ter acesso à carta de condução está adequada?
Pode ser complementada com algum tipo de aprendizagem
específica? Todas as pessoas têm capacidades/maturidade
psíquica para possuir título de autorização para a condução?
Qual pode ser o contributo dos ortopedistas?
Qual a mais-valia da sua intervenção?
Onde pensamos que podemos dar um contributo válido será
na segunda parte do Painel (Da estrada à Sala de Emergência).
Actualmente, está na ordem do dia a Discussão da Rede Nacional de Urgências. O cerne da questão é a optimização de
recursos (humanos e materiais). E, se no caso das Maternidades, parece não ser difícil de perceber que não pode haver
uma maternidade em cada cidade ou vila deste país, também
nesta área terá de ser discutida – de uma forma aberta, sem
tabus ou interesses escondidos – a questão de sabermos se
um ortopedista, em presença física ou de chamada, faz, ele
só, um centro com competência para tratamento de um politraumatizado.
Outubro 2008
Carlos Marques
A FORMAÇÃO É ADEQUADA?
Defende uma reclassificação dos serviços?
Há que diferenciar e classificar os vários hospitais e as várias
urgências, para que possamos ter uma rede diferenciada para
o tratamento de sinistrados. Assim, provavelmente evitar-seá o transporte de um sinistrado para um hospital para, passado algum tempo (horas), ser transferido para outro de onde
eventualmente terá que ser ainda transferido para um hospital fim de linha – aqui chegando passadas algumas horas,
tendo-se perdido o tempo certo para fazer alguns tratamentos e só restando outras alternativas, já secundárias.
Que critério deve ser definido?
Aqui temos um problema, a transferência para o hospital da
área de residência é o critério mais eficaz no tratamento?
Está-se a pensar no doente ou nos profissionais envolvidos,
bombeiros, técnicos de emergência, médicos, enfermeiros?
Não valerá a pena acrescentar aqui outros critérios? E quais
são? Estão definidos?
Na era em que as tecnologias tomaram conta das nossa vidas,
não se poderia utilizar as TIC, para estes sinistrados? Não deveria o CODU ter acesso, informaticamente, de uma forma fácil e actualizada aos recursos existentes nos vários hospitais?
até a outros bens de consumo. Porque não se aplica a mesma
filosofia, os mesmos conceitos, quando se trata de vidas humanas? Preconceito ou ignorância?
Será que os profissionais que transportam os sinistrados para
os hospitais estão actualizados e fazem tudo o que pode ser
feito na estrada? Farão o melhor que podem, mas isso é suficiente? Também aqui consideramos que há uma imensidão
de coisas para fazer, desde a formação a quem não a tem, ou
onde pode ser melhorada, ao estabelecimento de protocolos
de actuação, quer na estrada quer nos hospitais.
Os recursos disponíveis são suficientes?
Pensamos que, com coordenação, comunicação e organização, não será necessário reivindicar mais recursos financeiros.
Primeiro, teremos de combater os desperdícios que não trazem mais-valia para ninguém, nem para nada. E estamos convencidos de que a sinistralidade automóvel poderá melhorar,
quer a nível da mortalidade quer a nível da morbilidade.
Que papel está reservado à SPOT e aos ortopedistas portugueses?
Consideramos poder dar um contributo muito válido, se formos parceiros na discussão e na decisão das estratégias e de
planos de actuação. Todos lucraremos, como sociedade, se
houver uma partilha dos vários conhecimentos da matéria.
A estrutura pré-hospitalar está optimizada?
A logística entrou nas nossas vidas, nas mais variadas actividades, desde a aquisição e distribuição de bens alimentares
Outubro 2008
31
Revisão dos Estatutos da SPOT
Três presidentes, uma direcção. Este é um dos pontos dos Estatutos da SPOT que os ortopedistas portugueses vão ser chamados a discutir. O calendário eleitoral e a duração dos
mandatos são os outros temas num debate que pode ter efeitos na estrutura das futuras
direcções da Sociedade. Testemunhos dos três presidentes imediatos: o anterior, Jorge
Seabra, o actual, Jacinto Monteiro, e o futuro, José Neves.
Duração do mandato
Composição da direcção
Jacinto Monteiro
Em termos funcionais, o mandato de um ano é curto no que
diz respeito ao desenvolvimento de uma estratégia. As últimas direcções têm-no afirmado.
A nossa proposta é que a revisão dos estatutos contemplem
o que tínhamos anteriormente, ou seja, mandatos de dois
anos. Um mandato com esta duração permite o desenvolvimento de um programa e de uma estratégia. Um mandato de um ano, e só efectivo a partir de Março, acaba por
limitar-nos extremamente porque uma direcção inicia o seu
mandato já a vislumbrar o seu fim. É pouco tempo para tratar das questões fundamentais de uma sociedade científica e
para deixar um contributo sólido para o seu funcionamento.
Jacinto Monteiro
Esta situação de haver dois presidentes eleitos acaba por
tornar-se absurda, e a actual direcção vai comprometer-se
perante os sócios a proceder a uma grande reflexão sobre as
alterações estatutárias a propor, mas não vai propô-las já na
próxima Assembleia - Geral, porque, até lá, não é possível fazer uma reflexão madura e consubstanciada. Este processo vai
durar algum tempo para não cometermos alguns erros que se
cometeram no passado, quando se aprovaram algumas modificações que, de um ponto de vista prático e funcional, se
revelaram como não acertadas, coarctando o funcionamento da própria direcção de uma forma mais efectiva. Ninguém
pretende que, de um ponto de vista estratégico e, até, estatutário, haja uma unanimidade. Não há, e isso é saudável. Há
formas diversificadas de ver o problema, e isso é enriquecedor. A reeleição da Direcção é outro ponto a poder considerar.
Jorge Seabra
O mandato de um ano é demasiado curto. É preciso mais tempo para desenvolver e sustentar projectos inovadores e promover outras iniciativas. Para além disso, durante alguns meses (entre o Congresso, em Outubro ou Novembro, e a tomada
de posse, em Março) coexistem dois presidentes que, de certa
forma, são reconhecidos como tal. Isto causa situações dúbias
que só o senso das pessoas em causa tem permitido ultrapassar. A duração do mandato deve ser, no mínimo, de dois anos.
José Neves
Na minha opinião, o mandato deveria ter uma duração de
dois anos. Um ano é extremamente curto e há dificuldade
em encontrar candidatos á presidência, que reúnam consenso.
Com o sistema actual, em dez anos, serão dez Presidentes,
o que me parece demasiado para uma sociedade com a dimensão da SPOT. Por outro lado, um ano é insuficiente para
desenvolver um projecto.
32
Jorge Seabra
A Direcção da SPOT deve ser eleita não só pela qualidade e
prestígio dos elementos que constituem as listas propostas
(em que o lugar de Presidente assume, naturalmente, maior
proeminência), mas também pelo projecto que apresenta para
o exercício do mandato.
Cada Direcção eleita está, por isso, intimamente ligada ao
projecto eleitoral que os sócios sufragaram. E deve, também
por isso, ser composta pelos elementos que assumiram esse
compromisso.
Na composição actual, dois lugares da Direcção não se fundamentam nesta legitimidade eleitoral. O Vice-presidente é
o Presidente eleito para o mandato seguinte, eventualmente
com um programa diferente. Pode até ter sido eleito por ser
crítico à actuação da Direcção que vai integrar (como Vicepresidente). Sendo assim, como se pode exigir que seja solidário com essa Direcção, se, assumindo uma legítima discordância, foi eleito com um programa antagónico ao dela?
Um segundo lugar é preenchido por um membro da Direcção
Outubro 2008
do Colégio de Ortopedia da Ordem dos Médicos (habitualmente o seu Presidente) que tem um mandato de três anos.
Também aqui se verifica alguma promiscuidade institucional,
que não pode ser justificada com o natural interesse no estreitamento dos laços que unem as duas instituições.
A questão não só se levanta pelo desfasamento de mandatos,
mas sobretudo porque o membro da Direcção do Colégio da
Ordem dos Médicos (OM) é eleito num acto próprio, segundo
estatutos próprios de uma instituição independente da SPOT
(a OM), o que baralha o plano em que esse lugar se coloca.
Caso surjam divergências ou antagonismos nas posições da
SPOT e do Colégio da OM, a quem deve esse membro solidariedade? Esta entorse institucional deve acabar, uma vez que
contém contradições e possibilita conflitos de interesses.
Por tudo isso, defendo que todos os membros da Direcção
(Presidente, Vice-presidente, Secretário, Tesoureiro e Vogais
devem ser eleitos para um mesmo mandato em Assembleia
Eleitoral da SPOT, com base num programa, ficando responsáveis perante os sócios pela sua concretização. Só eles são
eleitos para esse mandato, só eles fazem parte da Direcção, só
eles são responsáveis perante quem os elegeu.
Sempre que a Direcção considerar útil ouvir o Presidente
Eleito para o mandato seguinte, o Presidente Cessante ou
o Presidente do Colégio da OM, pode convidá-los para as
suas reuniões. A omnipresente ideia de continuidade, embora possua vantagens, não é, por si só, sempre positiva. Se a
orientação seguida é errada, uma ruptura com essa orientação é benéfica e deve ser encarada com naturalidade. É saudável que os estatutos assegurem que isso possa acontecer.
José Neves
Entendo que só equipas pequenas e coesas, podem ser funcionantes. Concordo que a Direcção inclua o Presidente anterior e o futuro. Também a presença do Presidente do Colégio
de Ortopedia, me parece útil, pela articulação com a Ordem
dos Médicos.
Calendário eleitoral
Jacinto Monteiro
É outro aspecto que não foi suficientemente contemplado
e que temos de rever e optimizar. Há um trabalho de fundo
relacionado com a revisão estatutária e a sua própria fundamentação e que esta direcção se propõe fazer ainda durante a
sua vigência, propondo alterações a uma próxima Assembleia
- Geral. Vamos fazer uma reflexão sobre os aspectos estatutários que são mais bloqueadores e restritivos em termos de
evolução da Sociedade. E este é um dos pontos que têm de
ser beneficiados. De momento, estamos numa fase de cimentação do Congresso, mas pensamos que uma análise desta
Outubro 2008
natureza tem de ser feita fora do Congresso, em ambiente de
tranquilidade e fora de pressões. Propômo-lo fazer em breve !
Jorge Seabra
- Faz sentido que se eleja, em 2008, uma Direcção para 2011
(que, caso o actual processo se mantenha, só tomará posse
em Março de 2012)?
- Faz sentido elaborar um programa eleitoral com três anos
de antecedência? Ou será apenas um exercício de futurologia
cheio de ideias gerais e abstractas que podem vir a estar completamente desfasadas da realidade na altura do mandato?
- Faz sentido que, durante quase meio ano (entre a eleição,
no Congresso, e a tomada de posse, em Março), possa existir
um presidente efectivo e três presidentes eleitos? Essa pletora
presidencial de quatro variedades de presidente é prestigiante para o cargo e para a SPOT?
- Faz sentido que o terceiro presidente eleito passe um ano
sem funções atribuídas? Então para quê a sua eleição com
tanta antecedência?
- Faz sentido que uma direcção não se possa recandidatar a
novo mandato?
A verdade é que, se, por exemplo, a Direcção de 2010 se quisesse recandidatar para 2011, teria de o fazer agora, em 2008,
dois anos antes de ter exercido o seu mandato! Como o poderia fazer, e como poderiam os sócios avaliar essa recandidatura, antes ainda de concretizado o primeiro mandato para que
essa Direcção foi eleita?
Proponho, pois, que se sigam regras simples e habitualmente
adoptadas. A Direcção (Presidente, Vice-presidente, Secretário, Tesoureiro e Vogais) e órgãos dirigentes da SPOT devem ser eleitos para um mandato de dois anos. A sua eleição
deve ser feita na Assembleia Eleitoral que antecede o fim do
mandato anterior. Assim, os corpos dirigentes para o biénio
2011-2012 devem ser eleitos na Assembleia do Congresso de
2010. Dessa forma, as listas concorrentes poderão apresentar
um programa vivo e actualizado, e a Direcção cessante poderá recandidatar-se, se o quiser. Haverá, entre o momento da
eleição da nova Direcção e a sua tomada de posse, o tempo
necessário para a passagem do testemunho.
Dessa forma, ficam resolvidos todos estes problemas.
José Neves
O calendário eleitoral deverá ser mantido. É da responsabilidade do Presidente em exercício, fazer as diligências necessárias, para encontrar um candidato credível, á presidência. Em
França, por exemplo, é a Direcção que indigita o Presidente, o
qual depois é submetido á aprovação pela Assembleia Geral.
Se bem que o princípio eleitoral seja correcto, existe sempre o
risco de num universo de 900 associados, as Direcções serem
sufragadas por escasso número de votantes.
33
Ortopedia em Português
Um ano depois do nascimento simbólico
da Sociedade de Ortopedia de Língua Portuguesa (SOLP), durante o XXVII Congresso da SPOT em Vilamoura, o Presidente da
Comissão Instaladora da SOLP, Dr. Carlos
Vieira Ramos, fala-nos sobre esta Sociedade e a actividade entretanto por ela desenvolvida.
Como vê a SOLP?
Uma organização como a SOLP, que pretende ligar estreitamente os ortopedistas através desse laço que é a língua portuguesa, tem, naturalmente, grandes ambições para o futuro.
Na verdade, a língua e toda a afectividade que rodeia os nossos povos e países, apesar de períodos conturbados do passado, constitui um precioso capital que pode e deve ser utilizado
na nossa profissão, não só pela facilidade com que comunicamos entre nós, médicos, como também porque podemos falar
e compreender, sem esforço, o que os doentes nos querem
transmitir, em qualquer das nossas terras ou países.
“Se falamos a mesma língua, estamos em casa”, como um dia
disse alguém de Cabo Verde, de S. Vicente, uma ilha de escritores onde vivo. E é verdade.
Cabe-nos, a todos nós – os que sentem esse pulsar de abertura ao mundo, os que, de alguma forma, já conhecem e deixaram um bocadinho de si nalgum dos países ou territórios da
lusofonia – ou aos que têm o gosto e a curiosidade de conhecer outras realidades e outras culturas, construir esse futuro.
Um futuro que é feito de solidariedade e, talvez, na redescoberta da importância dos nossos conhecimentos, dos nossos
gestos – por vezes desvalorizados na rotina dos grandes centros – manifestada num brilho de agradecimento espelhado
nos olhos dos doentes ou na surpresa do quanto podemos
aprender com o saber dos outros.
34
A SOLP tem conseguido crescer e afirmar-se
neste primeiro ano de vida?
Julgo que demos alguns passos positivos. A SOLP passou a ter
existência legal, com o registo notarial; desencadearam-se
acções de formação e de participação científica; realizámos
a primeira reunião de Direcção no Mindelo. No XXVIII Congresso da SPOT, teremos, a nosso cargo, uma sessão científica
com comunicações de Angola, Cabo Verde e Moçambique.
Esperamos também que os colegas do Brasil nela participem.
Temos também uma Assembleia Geral, para rectificar alguns
pontos dos Estatutos e a adesão de novos sócios, e estamos a
preparar o I Congresso da SOLP que se vai realizar no próximo
ano, no Mindelo, em Cabo Verde, focado nos temas “fracturas” e “infecções”. Mas talvez o mais entusiasmante seja
ver a concretização de alguns pequenos passos que, embora possam parecer tímidos, representam bem o espírito e os
benefícios da SOLP. Falo do projecto de tratamento de pés
botos pelo método de Ponseti, que se iniciou em Cabo Verde
e Angola. Todas as partes sentiram o seu benefício, mas, em
primeiro lugar, as crianças que não sofrerão dessa deformidade e cuja vida será diferente, será melhor.
Quer deixar alguma mensagem aos membros da SPOT?
Tivemos grande receptividade com a adesão de novos sócios.
Esperamos, aliás, a continuação dessa crescente adesão durante o XXVIII Congresso ou através do “site” da SPOT.
Gostaria de deixar um vivo apelo para que continuem a apoiar
a SOLP que ajudaram a criar.
Outubro 2008
Tito Rodrigues
Pés botos numa ilha
Entre o azul do mar soprado pelos ventos alísios e as montanhas desérticas mas de impressiva beleza telúrica da ilha de
S. Vicente, a cidade do Mindelo, talvez a mais europeia das
povoações cabo-verdianas, cerca a baía de onde emerge o
Monte Cara, o seu ex-líbris, recortando no céu um perfil de
silhueta humana que lhe inspirou o nome.
As ilhas têm patologias específicas, misturando características rácicas e de consanguinidade, e os pé botos afectam mais
crianças que em Portugal, talvez três vezes mais, se atendermos a estatísticas afins da África Ocidental.
A cura da deformidade, tratada pelos métodos conservadores tradicionais, fracassava com frequência, exigindo cirurgia
especializada, não existente ali e difícil de transferir de forma
consistente para a ilha.
O método de Ponseti, utilizando também gessos sucessivos
mas mudando o conceito e a prática da manobra de redução da deformidade, veio alterar esse paradigma. A técnica é
simples, fácil de aplicar, evita em mais de 95% intervenções
cirúrgicas especializadas e foi testada com êxito nos Estados
Unidos e na Europa, mas também em países muito menos desenvolvidos do que Cabo Verde, como o Uganda e o Malawi.
Tito Lívio Rodrigues é um jovem ortopedista, formado em Itália, que regressa a Cabo Verde e ao Serviço de Ortopedia do
Hospital Baptista de Sousa (HBS) no Mindelo, instituição que
acaba de atravessar um ano difícil. Sem os dois ortopedistas
Outubro 2008
que preenchiam o seu quadro, o HBS tinha aguentado esse
tempo com o apoio voluntário de ortopedistas portugueses.
Tito Rodrigues toma conhecimento do método de Ponseti durante a formação da Sociedade Ortopédica de Língua Portuguesa (SOLP), no Congresso da SPOT em 2007, e treina-o no
Hospital Pediátrico de Coimbra, numa curta estadia.
Quando Tito Lívio Rodrigues volta a avistar o Monte Cara, traz
consigo, também, a determinação de o utilizar nas crianças
que nasçam com pé boto em S. Vicente.
A experiência é coroada de êxito e, depois de meia dúzia de
casos bem-sucedidos, utiliza-o também numa criança com
seis anos de idade, cuja marcha, apoiada no dorso dos pés
totalmente invertidos, causa volumosas bolsas serosas.
Porque não?
O resultado foi espectacular. A deformidade é corrigida,
numa idade em que poucos acreditariam. Os pés recuperam
o apoio plantígrado. Há ainda o problema de uma possível
recorrência, claro, as talas não se sabe se serão úteis neste
caso, mas tudo será mais fácil agora, e o resultado conseguido
já causa espanto.
Os pais das crianças que agora nascem com pés botos no Mindelo já estão mais seguros de que elas poderão usar chuteiras
ou sapatilhas normais, quando jogarem futebol, na marginal,
com o Monte Cara a assistir.
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Informação
Formas de organização da SPOT
Esclarecimento e opinião
Jorge F. Seabra
A actual versão dos Estatutos da SPOT foi projectada e estudada por uma espécie de “task force”,
procurando encontrar o maior consenso sobre os seus traços gerais de forma rápida e eficaz. Em
Janeiro de 2006, ainda no mandato do Dr. Manuel Cassiano Neves e por sua iniciativa, reuniu-se
um grupo de trabalho com dirigentes de vários mandatos para definir as traves mestras da revisão
dos estatutos.
Um dos pontos que marcaram esse debate foi o reconhecimento da necessidade de adaptar a SPOT
às novas realidades, nomeadamente ao aparecimento de outras Sociedades totalmente independentes, mas também ligadas à patologia do aparelho locomotor (por exemplo: sociedades dedicadas ao pé, ao joelho, à coluna).
O aparecimento dessas sociedades – tendo como sócios titulares não só ortopedistas, mas também médicos e técnicos de outras especialidades integrando os seus corpos dirigentes – reflectia a
crescente multidisciplinaridade do tratamento da patologia do aparelho locomotor, mas foi inicialmente olhado, por muitos, como tendo uma lógica de concorrência ou hostilidade à SPOT.
Um dos aspectos positivos dessa revisão dos estatutos foi o de
compreender que essa forma de encarar as novas Sociedades
exteriores à SPOT estava errada. A ideia de reagir a essa realidade, cerrando fileiras à volta de um núcleo duro muralhado
pelo prestígio SPOT e daí disparando ataques contra as essas
novas Sociedades, era contraproducente e não levava a nada
de positivo. Pelo contrário, essa orientação apenas aumentava a crispação entre alguns proeminentes membros da nossa
Sociedade e acabaria por, paradoxalmente, diminuir o papel
unificador e centralizador da SPOT como sociedade científica
representativa da ortopedia portuguesa.
Compreendendo isso, traçaram-se orientações para os novos
estatutos. Assim, criou-se a possibilidade de se formarem,
dentro da própria SPOT, não só grupos de estudo e secções,
mas também sociedades com total autonomia funcional e
científica – Sociedades Afiliadas – dando- -lhes, por inerência, uma maior dignidade.
Por outro lado, procurou-se estabelecer uma nova forma de
36
relacionamento com as Sociedades independentes já existentes ou que se viessem a formar, prevendo um estatuto de associação baseado no mútuo interesse, criando-se uma outra
fórmula – a das Sociedades Agregadas. Estas são sociedades
totalmente fora do âmbito estatutário da SPOT, mas que com
ela estabelecem uma parceria por vontade mútua.
Julgo, contudo, que poderemos, assim, compreender as diversas formas de organização da SPOT numa escala de progressiva importância e autonomia:
A - Grupos de Estudo – Constituem o primeiro degrau e a
forma mais embrionária de organização. Podem ser constituídos por simples decisão da Direcção da SPOT, desenvolvendo as suas actividades em estreita colaboração com ela, sem
ainda terem qualquer autonomia funcional ou científica. Se
um Grupo de Estudo se desenvolve, pode ser proposta a sua
passagem a Secção. Se, pelo contrário, começar a definhar,
pode ser extinto.
B – Secções – São formas de organização mais consolidadas
Outubro 2008
(podendo partir de um grupo de estudo ou não), constituídas
em Assembleia Geral da SPOT. Têm já uma maior autonomia,
possuindo uma direcção eleita, mas estão ainda dependentes,
total ou parcialmente, para a realização das suas actividades,
do apoio (administrativo e financeiro) da SPOT.
C – Sociedades Afiliadas – São as formas organizativas mais
evoluídas dentro da SPOT (partindo, em regra, do desenvolvimento de uma Secção). Constituídas em Assembleia Geral
da SPOT, têm corpos gerentes eleitos (direcção, assembleia
geral e conselho fiscal) e uma completa autonomia funcional
e financeira. As Sociedades Afiliadas (como todas as formas
de organização da SPOT) são exclusivamente constituídas por
sócios da SPOT. A sua presidência só pode ser exercida por um
sócio titular, e os restantes órgãos directivos são maioritariamente constituídos por sócios titulares da SPOT (embora sócios extraordinários e agregados também os possam integrar,
mas sempre em minoria).
A passagem de uma Secção a Sociedade Afiliada deve fundamentar-se numa situação objectiva de autonomia funcional
e científica, e não na simples vontade dos seus membros. Se,
por exemplo, uma Secção, apesar de ter grande actividade
científica, necessita, para organizar as suas jornadas, do apoio
do Secretariado da SPOT (para “mailing”, distribuição de cartazes, secretariado local), ela não tem condições para assumir
o estatuto de Sociedade Afiliada.
Mas, então, uma Sociedade Afiliada nunca pode contar como
o apoio funcional ou científico da SPOT? Pode. Se, eventualmente, uma Sociedade Afiliada atravessar um pontual período de dificuldades, ou se tiver um projecto com um alcance
mais vasto (como, por exemplo, a organização de umas Jornadas Europeias), poderá contar com o apoio da Direcção e do
Secretariado da SPOT que deverá integrar essa iniciativa no
quadro dos objectivos do seu mandato.
Eventualmente, Secções ou Sociedades Afiliadas podem criar,
com o acordo da Direcção e no âmbito da sua actividade, Grupos de Estudo dedicados a áreas específicas e limitadas do
campo científico a que se dedicam. Mas não poderá existir,
simultaneamente, uma Secção e uma Sociedade Afilidada na
mesma área científica (como seria o caso de uma Secção do
Joelho e uma outra Sociedade Afiliada do Joelho) – nem isso
faria qualquer sentido. Quando uma Secção se desenvolve e
se transforma em Sociedade Afiliada, auto-extingue-se como
Secção.
Para além deste quadro organizativo, a SPOT tem possibilidade de formar Comissões permanentes ou “ad hoc” para o
estudo e resolução de problemas específicos ligados à prática
da Ortopedia em Portugal (Comissão Socio-profissional, Comissão dos Internos, Comissão de Ensino, por exemplo).
Outubro 2008
RELAÇÕES EXTERNAS DA SPOT
Sociedades Agregadas
São sociedades que se constituíram à margem da SPOT e que
têm estatutos e órgãos dirigentes próprios, tendo como sócios os que os seus estatutos permitem ou determinam, mas
que também se dedicam, directa ou indirectamente, à patologia do aparelho locomotor.
Podem ser sociedades médicas (Sociedade Portuguesa do
Pé) ou não (e.g., uma Sociedade de Engenharia Biomecânica).
São sociedades que institucionalmente nada têm a ver com a
SPOT, mas que a ela se associam de livre vontade, num acordo de parceria aprovado por ambas as partes.
Relacionamento e posicionamento
dos diversos níveis e tipos de organização
Tem havido alguma confusão, acentuadas por contadições
e omissões dos actuais estatutos sobre o significado destes
dois tipos de Sociedades. Contudo, elas situam-se em planos
muito diferenciados.
Enquanto uma Sociedade Afiliada é uma forma de organização
da SPOT, constituída no seu seio e aprovada em Assembleia
Geral da SPOT, sendo os seus membros todos sócios (titulares, extraordinários ou agregados) da SPOT, uma Sociedade
Agregada é uma sociedade à parte, independente, formada à
luz da Constituição da República, totalmente fora do âmbito
da SPOT, a quem não tem de prestar contas. Uma Sociedade
Agregada tem estatutos próprios, podendo ser presidida e dirigida por médicos ou técnicos que não sejam ortopedistas.
Mas, se houver uma Sociedade Agregada dedicada a um certo
tipo de patologia, a SPOT deverá deixar de ter, no seu seio,
um Grupo de Estudo, Secção ou Sociedade Afiliada dedicados
à mesma área?
Não. Não faria sentido que, por exemplo, a SPOT não tivesse
uma posição cientificamente definida por uma organização
dos seus membros (ortopedistas) mais diferenciados nessa
área e que fosse uma outra Sociedade (Agregada), eventualmente presidida e dirigida por médicos ou técnicos de outras
especialidades, a definirem a posição ortopédica sobre o assunto.
A transposição destes princípios para o texto definitivo com
formatação jurídica levantou dúvidas e mesmo contradições,
o que veio tornar menos claros os princíos que enformram o
dabete inicial.
A próxima revisão dos estatutos deverá ter em conta as
contradições existentes, corrigindo e aperfeiçoando o texto
actual dentro das bases acima apresentadas, ou assumindo,
eventualmente, outras opções. Ainda há, certamente, muito
trabalho a fazer.
37
Agenda
Eleições da SPOT para 2011
No passado período eleitoral, estatutariamente
definido para a eleição dos órgãos dirigentes da SPOT
para o mandato de 2011, não foi recebida qualquer
candidatura. Esse facto não causa uma ruptura imediata
ou perda de continuidade na estrutura organizativa da
SPOT, uma vez que estão já eleitos os corpos directivos
para os mandatos de 2009 e 2010.
Assim os próximos mandatos estão assegurados,
tendo como presidentes da Direcção os Drs. José
Neves e Manuel Leão, respectivamente. O assunto será
analisado pelo Conselho Consultivo da SPOT numa
próxima reunião .
A situação criada deverá ser também avaliada no
quadro da próxima revisão estatutária já prevista que
abordará, entre outros pontos, o tempo de mandato e
o calendário eleitoral.
Eventos
7 — 8 Novembro
XIV Seminario Internacional de Ortopedia Infantil
Madrid
[email protected]
10-13 Novembro
83ème Réunion Annuelle de la SOFCOT
Palais de Congrès, Paris
[email protected]
12-15 Novembro
40º Congresso da SBOT
Cto. de Convenções da Fiergs, Porto Alegre, Brasil
www.sbot.org.br
20 — 22 Novembro
International Symposium “Arthroscopy and
minimally invasive surgery of the upper limb”
Larisa, Grécia
[email protected]
10 — 13 Dezembro
CCJR Winter – Current Concepts in Joint Replacement
Orlando, Florida, EUA
www.ccjr.com
13 Dezembro
2º Encontro Nacional Ortopedia-Engenharia
Instituto Superior Técnico
[email protected]
Concurso
1º Ciclo de Estudos Especiais de Ortopedia Infantil
O Serviço de Ortopedia do Hospital Pediátrico de Coimbra
vai abrir vagas para o I Ciclo de Estudos Especiais de Ortopedia Infantil (CEEOI) que terá início em 2009.
O CEEOI tem a duração de dois anos e possibilita, pela primeira vez, a aquisição, por especialistas em Ortopedia, de
uma diferenciação legalmente reconhecida na área da pato-
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logia do aparelho locomotor em crescimento.
Para além da publicitação, pelos meios legais, do concurso
de candidatura ao preenchimento das vagas, os interessados
poderão obter mais informações contactando o Serviço de
Ortopedia do HPC ( [email protected]).
Outubro 2008
Outubro 2008
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www.spot.pt
Outubro 2008
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Nº 4 do Osteófito - Sociedade Portuguesa de Ortopedia e