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O BRASIL É O “PAÍS DO FUTEBOL”: O FUTEBOL E SUAS RELAÇÕES DE
PODER ATRAVÉS DA POLÍTICA
Ana Tereza Tomiko Vicente Hidaka
Hortência Keize dos Santos Araújo
Paulo Sérgio de Souza Araújo
(graduandos pela UFPA)
Resumo: O futebol tem uma importância significativa na sociedade brasileira,
tanto que o Brasil é conhecido como o “país do futebol”, e é levando em
consideração essa importância que vamos discutir a interligação existente entre
política e futebol tentaremos mostrar de que forma os políticos usam o futebol
para a construção de uma boa imagem do país. E levando essa discussão para
o âmbito regional, tentaremos analisar como os políticos paraenses se utilizam
do futebol como uma estratégia para exercerem poder político, para
conseguirem votos e assim terem a sua inserção no cenário político paraense
nos últimos 20 anos, tomando como análise o que fora produzido pela imprensa
paraense nesse período.
Palavras-chave: futebol, política, relações de poder, torcedores, paixão.
A paixão do paraense
Não senhores, não estamos apresentando aqui neste artigo nem o
açaí, nem o tacacá, degustações típicas de nossa região que aguçam o nosso
paladar, falaremos aqui de futebol, vício ligado a paixão que desperta emoções
e esperanças na vida de todos bom torcedor alvi-azul ou azulino1. Não há quem
fique indiferente a uma simples discussão de beira de esquina, ainda mais se o
tema em questão for o novo rebaixamento do Paysandu, agora da série C, ou
as agruras do Remo na série B.
1
Chamamos Alvi-azul os torcedores do Payssandu e os azulinos são os torcedores do Remo.
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Qualquer conversa sempre fica mais animada se a ela for adicionada
uma pitada de comentários futebolísticos. Assim é o paraense, povo mais
fissurado por futebol nesta parte de cima do mapa.
Seguindo todo o forte sentimento por este esporte, serão discutidas
questões que envolvem futebol, paixão, política e relações de poder.
No caso brasileiro, particularmente, a compreensão dos jogos da
Copa do Mundo e todo envolvimento político que este evento acarreta e
também como ele é de fundamental importância para que os governantes
apresentem para o exterior a imagem de um “país de glórias”, perfeito e em
ascensão, aspectos como esse ganham relevância, uma vez que ele é o
principal esporte do país e origina importantes influências no campo político,
segundo Roberto DaMatta, “o futebol constitui-se em veículo para uma série de
dramatizações e representações da sociedade brasileira, permitindo a expressão
e vivência de problemas nacionais”.
Outro ponto será, no âmbito regional, tentar analisar como os
políticos paraenses se apropriam da discussão futebolística para produzir uma
imagem de aproximação com o povo. Embora, a principio verificamos que esses
políticos se utilizam da possível ingenuidade do povo, observamos na verdade
que esses eleitores-torcedores desejam que as glórias obtidas nos campos
sejam refletidas na política para trazer benefícios à sociedade.
Por fim, demonstraremos a forte ligação dos paraenses com o
futebol, focalizando os torcedores de Remo e Paysandu que se envolvem em
uma acirrada disputa. Considerando que a paixão pelo futebol condiciona o
crescimento
ou
o
interesse
por
determinado
produto
no
mercado,
principalmente quando o mesmo contribui para aumentar ou patrocinar o clube
do coração. A partir desta idéia é que podemos perceber que o torcedor tem o
papel fundamental para o crescimento e sustentação de seu clube. Dirigentes e
jogadores, imprensa e o comércio ajudaram a difundir a responsabilidade dos
amantes do futebol de maneira que estes são na verdade “torcedor-
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patrocinadores” que de alguma forma colaboram com o pagamento das dívidas
do clube – como folha de pagamento, dívidas trabalhistas, empréstimos e
outros – além de promover em alguns casos a ascensão política de indivíduos
ligados ao esporte.
O futebol como válvula de escape da política brasileira
Sabemos perfeitamente que os pioneiros na prática do futebol foram
os ingleses, mas é o Brasil que ostenta o título de “país do futebol”, pois apesar
de não sermos o pioneiro na prática deste esporte, o Brasil é conhecido,
sobretudo, por sua habilidade com a bola nos pés e pelos jogadores da seleção
canarinho que assinam contratos milionários com times de fora do país. Porém
um outro motivo nos leva a dar o título de país do futebol ao Brasil, visto que
percebemos que muitas vezes eventos e momentos políticos estejam
interligados com a boa ou má atuação do escrete nacional em campo.
Quando o futebol começou a ser praticado em solo brasileiro, ao
contrário do acontece hoje, esse esporte era uma prática elitista e estava
restrito aos clubes elegante, mas logo passou a ser jogados em terrenos
baldios, em times de fábricas e bairros pobres, transformando-se em paixão
nacional de tão popular que se tornou.
Em virtude da popularização do futebol, alguns intelectuais o
condenaram de forma veemente, o escritor Lima Barreto, por exemplo, foi um
dos organizadores da Liga contra o Futebol. Mais tarde, o romancista Graciliano
Ramos também questionou o esporte bretão dizendo que o futebol não iria
conquistar o sertão.
Em contrapartida, outros intelectuais não ficaram indiferentes ao
fenômeno esportivo, como o sociólogo Gilberto Freyre, com seus escritos sobre
o “foot-ball mulato”, o jornalista Mário Filho e o escritor José Luís de Rego
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passaram a apontar o futebol como um elemento importante da nossa
identidade cultural.
Apesar das divergências entre os intelectuais a respeito do futebol, o
fato é que o esporte de origem inglesa, considerado como um lazer dos ricos se
transformou na grande paixão brasileira e caiu definitivamente no gosto da
população e aproveitando essa popularidade, não demorou muito para que o
Estado percebesse a relação existente entre o futebol e o povo brasileiro, e a
partir daí outra relação começou a ser produzida. Uma relação estabelecida
pelos governantes sob o povo, para uma aproximação desses políticos com a
população, por esse motivo, em diferentes momentos da história, o futebol
ajudou os governantes a construir uma imagem positiva do Brasil, dentro e fora
do país, sendo que o sucesso nos gramados é de fundamental importância para
a construção de uma identidade nacional e serve como estratégia para a
política externa. Segundo Nelson Rodrigues, a seleção brasileira de futebol é “ a
pátria em calções e chuteiras, a dar botinadas e a receber botinadas”2.
Existem muitos comentários de que na época da ditadura militar os
políticos começaram a ver no futebol um aliado forte para a realização de seus
projetos, na verdade, futebol e política já jogavam no mesmo time desde a Era
Vagas, refletindo assim os embates políticos do país.
Em 1930, quando ocorreu a I Copa do Mundo, a seleção contou com
o apoio de Vargas. Em 1950, segundo Gisella de Araújo em O Rio corre para o
Maracanã, o Campeonato Mundial foi disputado no Brasil, a euforia tomou
conta do povo, a construção do Maracanã, a participação e as vitórias da
seleção eram um momento importante para a construção de uma imagem do
país empreendedor, vitorioso e bem-sucedido, o evento iria reforçar a
identidade brasileira e atuar como elemento da união de todos o país em torno
de um objetivo comum e reafirmariam ainda o papel do Rio de Janeiro como
2
SANTORO, Maurício & ALMEIDA, João Daniel Lima de. A diplomacia dos gramados. In: Revista
de História da Biblioteca nacional. Rio de Janeiro: Ano 1, nº 7, Janeiro 2006, p. 38.
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cidade capital, vitrine do Brasil, além de reforçar o papel das torcida carioca
como espelho do povo brasileiro.
Os preparativos para esta Copa, contou com aliados muito
importantes, um deles era o compositor Ary Barroso, que na época era
vereador no Rio de Janeiro, contudo o Brasil terminou na derrota pelo Uruguai.
Em 1958, o Brasil ganha o seu I Campeonato Mundial ao mesmo tempo em que
a economia crescia “cinqüenta anos em cinco”, no governo JK. No ano do
Bicampeonato em 1962, o país estava mobilizado pelas reformas de base. Em
1970, a economia crescia 10% ao ano. Em 1994, o Brasil tetra-campeão
adotava o real e abandonava uma década de hiperinflação.
Mesmo não havendo teses que comprovem que as vitórias e/ou
derrotas da seleção brasileira estejam interligadas ao momento político do país,
percebemos que a história do Brasil muitas vezes se mistura à história da bola,
à história de um esporte que é a verdadeira paixão dos brasileiros.
A política e suas influências no futebol paraense (de 1985 a 2007)
O futebol paraense está envolto de grandes paixões, rivalidades e
interesses políticos que despertam emoções e esperanças, além de relações de
forças, onde cada grupo seja ele, torcedores-eleitores com seu poder de voto
de um lado, e políticos e/ou dirigentes que objetivam a candidatura de outro,
estando todos atravessados por relações de poder.
Durante a construção deste artigo, periódicos regionais nos anos de
1985 a 2007, focalizando as etapas eleitorais, foram pesquisadas para oferecer
respaldo necessário objetivando a confirmação de que muitos dirigentes eleitos
procuraram se apropriar do prestígio que o esporte oferece, aproveitando-se da
fama que equipes e jogadores conquistaram em campo.
No primeiro momento de nossas pesquisas nos deparamos com
diversas notas no periódico A Província do Pará, no mês de maio de 1984 (por
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mais que este ano não esteja estipulado em nossa meta de estudo, achamos
este caso relevante para a compreensão de nosso trabalho), que relata um
grande evento realizado no Mangueirão, (principal estádio do Pará) em
homenagem ao “dia do Trabalho”. Porém, muitos militantes políticos
planejavam uma grande passeata no centro da cidade em protesto pelas
condições precárias que muitos trabalhadores estavam submetidos. O resultado
desta data foi uma relevante campanha da prefeitura (tendo como prefeito da
cidade de Belém, Almir Gabriel) para prestigiar o clássico Remo e Paysandu,
fazendo com que os espectadores esquecessem dos problemas e deixassem se
envolver pela expectativa do que foi anunciado, possuindo significativa
participação operária, prevalecendo à conhecida e velha “Política do Pão e
Circo”.
Em 1986, são constatados diversos personagens futebolísticos
almejando a candidatura, tendo como exemplo principal José Dutra dos Santos,
atuante técnico dos principais times paraenses, que - filiou se ao PMDB e
desejava concorrer às eleições de 86 a uma cadeira na Assembléia Legislativa,
alegando através do jornal A Província do Pará, Sábado, 13 de abril de 1986,
que tinha certeza de que poderia fazer muito mais pelo Pará, não só no futebol
e na parte esportiva em geral, como também nas outras áreas de atuação
política.
Já nesses dois exemplos citados, podemos relacioná-los ao aporte
teórico de Foucault, que rompe com as concepções clássicas do termo poder,
não podendo ser localizado em uma instituição ou no Estado. Onde o poder não
é considerado como algo que o indivíduo cede a um soberano, mas sim como
uma relação de forças. Ao ser relação, o poder está em, todas as partes. Desta
forma muitos políticos ao apropriarem-se da discussão futebolística, não só
tentam produzir uma imagem de aproximação com o povo, como ao
associarem suas atuações sobre este esporte que é tão importante para os
paraenses, utilizando como foco a trajetória esportiva vitoriosa na expectativa
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de mostrar que assim será na vida política. E cabe ao povo, não somente com o
seu poder de voto, a busca de seus próprios interesses, sejam eles acreditando
que o futuro eleito possa originar maiores vitórias para o seu time e/ou
acreditar que o seu candidato mesmo não sendo possuidor da competência
necessária para administrar uma sociedade, será capaz de surpreender lutando
pela melhoria da população.
Outro episódio que demonstra a atuação política sob o futebol
paraense, foi no período de outubro de 1990 em que o Paysandu encontrava-se
na Terceira Divisão do Campeonato Brasileiro, mas o até então governador do
Pará, Jader Barbalho interveio na difícil situação bicolor, resultando na não
permanência do time na Série C do campeonato. A família Barbalho é
possuidora de diversos representantes na política estadual. Atualmente, Helder
Barbalho foi eleito sob a tutela do pai em Ananindeua, uma cidade com 370 mil
habitantes na região metropolitana de Belém. Daniel Piza em seu artigo
“Observatório da Imprensa - Mídia e Oligarquia”, explica que o Ananindeua
Esporte Clube é um dos núcleos políticos de Helder, ajudando o time a retornar
para a Segunda Divisão e sendo possuidor do poder de contratar jogadores que
atuaram nos clubes mais tradicionais, Paysandu e Remo, para levar o
Ananindeua Esporte Clube para a Primeira Divisão.
Na história política paraense, verificamos que no período estipulado
para este artigo, praticamente em todas as eleições a presença de candidatos
futebolísticos de Remo e Paysandu foram marcantes.
Pelas nossas pesquisas, a candidatura de jogadores e dirigentes
foram mais expressivas a partir de 2002, período em que o Paysandu
encontrava-se
em
ótimas
participações,
destacando-se
regional
e
nacionalmente, evolução esta que atingiria um patamar jamais imaginado pelos
rivais azulinos, participando do Campeonato Libertadores da América. Fazendo
das eleições “um prato cheio” para demonstrar ao povo, que aqueles que
estavam pedindo o voto da população, eram pessoas capazes de trazer
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felicidade para o povo, tanto nos gramados, quanto nas boas administrações
que alegaram serem aptos.
Encontramos no jornal O Liberal, Domingo, 24 de outubro de 2004,
um importante exemplo de que o futebol é um meio de obter projeção política
e é também uma forma de aproximar o homem público das comunidades
locais. Estando na figura do ex-jogador alvi-azul Vandick, que atuou com a
aliança entre o trabalho social, iniciado com a assistência a menina Géssica,
portadora de leucemia; e a sua boa atuação no time do Paysandu, garantindo
votação expressiva que conduziu o ex-jogador a Câmara Municipal de Belém.
Sendo o Décimo candidato mais votado.
Assim segue a política e o futebol paraense, lado a lado, esperando o
momento certo para convencer os seus eleitores que todos podem ficar unidos
em prol da população paraense. Esperando o momento certo também está esta
população, para demonstrar que seu voto, muitas vezes depende das ações dos
candidatos, o que eles realmente acarretaram e podem gerar como bons frutos
para seus times e para seus interesses políticos e econômicos.
Paixão e sustentação do futebol paraense
A participação de torcedores na vida dos clubes se fortalece sempre
que as glórias dos times são associadas ao incentivo vindo das arquibancadas.
Comumente relacionamos a conquista do Paysandu na Copa dos Campeões à
atuação da “Fiel bicolor”, impulsionando o clube. Assim como, no Campeonato
Brasileiro da série C, quando o Remo sagrou-se Campeão o “Fenômeno azul”
ou “Onda azul” era tida como o 12° jogador3. A relação dos torcedores com o
clube do coração não são sempre amistosas. Numa pesquisa feita pelas
Organizações Rômulo Maiorana de 07 a 10 de agosto de 2007 via Internet mais
3
A torcida do Paysandu é chamada de fiel bicolor, enquanto que fenômeno azul ou onda azul é
como se denomina a torcida do clube do Remo.
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de 400 pessoas participavam da enquete que perguntava: O futebol paraense
vive um momento de fracasso. O que fazer para tirá-lo do buraco? Cerca de
11,3% dos torcedores consultados foram enfáticos em dizer que se deviam
expulsar os atuais Presidentes de Remo e Paysandu4. No futebol brasileiro os
diretores, administradores e Presidentes dos clubes sempre utilizaram-se da
força de seus torcedores voltando para eles uma responsabilidade que se
assemelharia a dos torcedores. Na obra, O rio corre para o maracanã, da
autora Gisella de Araújo podemos perceber que cronistas, dirigentes e até
mesmo o Prefeito do Rio de Janeiro deram ao público futebolístico uma
responsabilidade que se remetia tanto na participação dos jogos na Copa do
Mundo de 1950 quanto na construção do estádio do Maracanã. Este
comprometimento era considerado como determinante para o sucesso do
selecionado brasileiro no Campeonato Mundial. Desta forma, os clubes
paraenses sempre procuraram recorrer aos que prestigiam o futebol para quitar
dívidas trabalhistas, folhas de pagamento de jogadores e impostos com a
arrecadação oriunda dos jogos dos clubes nos Campeonatos.
O sucesso alcançado no futebol pode inclusive garantir aceitação
numa possível disputa política, como foi o caso do jogador Robson mais
conhecido como Robgol, eleito Deputado Estadual nas eleições de outubro de
2006. Que também utilizou-se da popularidade nos gramados foi o ex-jogador
bicolor Vandick que tornou-se um dos dez vereadores para a Câmara Municipal
de Belém com cerca de 8630 votos. No dia 17 de outubro de 2004, o Jornal O
Liberal afirma:
“(...) Apesar do índice reduzido de renovação, os novos
vereadores constituem um grupo bem eclético, (...). É o caso
de Vandick Oliveira Lima (PMDB). Ex-jogador do Paysandu, foi
um dos heróis na inédita conquista da Copa dos Campeões,
em 2002, feito que resultou na primeira participação de um
clube paraense na Copa Libertadores da América., Vandick
4
O liberal, esportes. Falta de estrutura marca o futebol. 12 de agosto de 2007.
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ganhou o troféu ‘Rômulo Maiorana’, em 2002, por sua
atividade na área de responsabilidade social, por liderar uma
campanha em favor dos portadores de câncer, hoje atendidas
gratuitamente pelo voluntariado do Hospital Ofir Loyola”
Ao utilizarmos a perspectiva de relações de poder de Michel Foucault
que considera estar o poder em todas as esferas do cotidiano determinando
inclusive as ações dos indivíduos, podemos reconhecer que esta relação esta
presente na vida esportiva, em especial nos clubes paraenses que são
seguidamente socorridos pelos seus torcedor-patrocinadores. Um exemplo que
de alguma forma nos demonstra esta atuação dos amantes do futebol ocorreu
nas eleições para deputados estaduais, onde o presidente do Paysandu, Artur
Tourinho não conseguiu se reeleger. Naquelas eleições Artur Tourinho só
conseguiu 5.743 votos, enquanto que candidatos como Robgol (PTB) e Pio Neto
(PTB), respectivamente jogador de futebol e comentarista esportivo receberam
33.400 e 21.630 votos, respectivamente. Michel Foucault considera que “o
poder fazem circular a partir do entrelaçamento entre os indivíduos, funciona
em cadeia, transita por cada um antes de reunir-se no todo”5. No ano de 1985,
as torcidas organizadas do Paysandu realizavam sorteio para a aquisição de
instrumentos, papel picado e fogos que seriam utilizados na estréia do time no
campeonato estadual, o prêmio seria a camisa N°5 da grande estrela do clube,
Charles Guerreiro6.
Mesmo diante de tanta paixão o futebol, com diria os vários
cronistas: o futebol vive de resultados e quando a ajuda das arquibancadas não
é suficiente os torcedores se manifestam como ocorrido no jornal Amazônia do
dia 19 de Agosto de 2007, com o titulo “Queremos um Remo Vencedor”,
questionando a utilização dos vários recursos – como o patrocínio da marca
Kanxa, da venda das camisas oficiais do clube, do aluguel da área externa do
Baenão (estádio do Remo) e os recursos da ATAR (Associação dos Torcedores e
5
DOSSE, François. A história em migalhas: dos Annales à Nova História. São Paulo: ensaio;
Campinas, SP: Editora da Universidade estadual de Campinas, 1992.
6
A província do Pará, 19 de junho de 1985.
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Amigos do Clube do Remo) – que deveriam retirar o clube do meio das diversas
dividas em que está mergulhado. Embora se reconheça a capacidade de
mobilizar as torcidas, os dirigentes se encontram em dificuldades quando
recorrem ao apoio do 12° jogador, mas não conseguem fazer a sua parte.
Outra campanha que os clubes recorrem aos amantes do futebol
refere-se às tarifas de energia elétrica cobradas na contas dos torcedores por
meio do projeto “seu time é sua energia” com o intuito de tornar-se uma nova
fonte de recursos para os clubes paraenses7.
As manifestações de amor à camisa se remetem também no
cotidiano dos paraenses, nos momentos de lazer ajudam a engrandecer a
rivalidade nos gramados do futebol profissional8, em 01 de junho de 1985, no
jornal ‘A Província do Pará’ anunciava:
“Neste domingo, no campo do coqueiro, um interessante
‘pega’ envolvendo às equipes internas da Importadora de
ferragens, denominadas de Menudos do Leão e de Veteranos
do Papão. A disputa vai colocar em jogo várias grades de loura
gelada, daí o esforço dos craques em conseguir a vitória.”
Desta forma, a rivalidade é alimentada com uma satisfação de ver o
clube rival em má situação, derrotado, endividado, eliminado e rebaixado é
uma alegria comparada à vitória do time do coração. Os azulinos relembram o
fato do maior rival não ter conseguido passar para a próxima fase do
Campeonato Brasileiro da série C9. Por outro lado exaltar o herói do clube e
descaracterizar o adversário é típico da rivalidade, como provocou Luis Moura
furtado, torcedor bicolor:
7
Site da concessionária Rede Celpa: www.gruporede.com.br.
Para saber mais, vide: LOPES, J. S. L. A vitória do futebol que incorporou a pelada. In: Revista
USP, n. 22 (Dossiê Futebol), jun./jul./ago. São Paulo: USP, 1994a.
9
Silva, Haroldo Gomes da. O grito da galera. O Liberal, 12 de Agosto de 2007, cita as gozações
dos torcedores no caso de perda de titulo do rival mesmo quando o próprio time não está em
boa situação.
8
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Esse ataque remista comandado pelo Landu, francamente não
mete o menor medo. Não sei como a torcida lá do outro lado
pode ter como ídolo um atacante que não sabe o que é fazer
gol em clássico 10.
Considerando o fervor existente entre o leão azul e o papão é que
durante o ano de 2006. O jornal o ‘Diário do Pará’, realizou uma promoção
referente a
aquisição da assinatura do mesmo e o torcedor ganharia um
colchão de mola com a marca do clube. E no ano de 2005, a diretoria azulina
colocou a venda camisas douradas em comemoração ao centenário do clube e
sorteou no jogo do dia 20 de agosto ’16 camisas douradas alusivas aos 100anos
do clube do Remo’, além da taxa já mencionada que traria fixada na tarifa de
energia elétrica. Mas apesar de todos estes apelos os torcedores não se deixam
convencer é necessário apresentar algo mais para se ganhar seu apoio e
confiança.
Para se elegerem, Robson (Deputado Estadual) e Vandick (Vereador),
estiveram ligados á imagem que os aproximaram do povo e que expressavam
uma paixão pelo clube por onde passaram. A ação social empenhada por
Vandick em defesa das crianças portadores de câncer que teve na menina
Géssica o exemplo de luta contra a doença. Está ligação do futebol com os
problemas sociais é fruto de um antigo debate, sobre a contribuição do esporte
para civilizar os seus adeptos11. Por outro lado, Robson foi a ‘vitima’ da
descriminação que tanto o nortista conhece. Segundo ele no jogo pela quinta
rodada do brasileiro o zagueiro Antônio Carlos o ofendeu lhe chamando de
índio12.
10
Crônica enviada pelo torcedor bicolor, Luis Moura Furtado a edição do Jornal O Liberal, em 22
de Abril de 2007.
11
Géssica morreu aos quinze anos de idade, no dia 17 de outubro de 2006. Ela foi a torcedora
símbolo do Paysandu em 2002 na conquista da Copa dos Campeões.
12
O Liberal, 17 de setembro de 2005. Nos jornais do dia seguinte fazem referencia aos dois
gols marcados por Robson e sua comemoração: fazendo gestos que com as mãos como se
estivesse “usando arco e flecha” e atirando para o auto.
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Portanto, o futebol ajuda no processo de formação, os atletas
incorporam o conjunto de normas, regras e formas de relações sociais
estabelecidas no clube. Neste sentido, o futebol é um agente civilizador, pois
permite a aprendizagem de maneiras de agir dentro e fora dos campos, implica
a construção de novas condutas sociais13.
O desejo do torcedor é que a competência esteja presente na
administração dos clubes e que as preocupações com o social sejam também
lembradas pelos que foram eleitos pelo povo:
(...) queria fazer um apelo aos eleitos em relação a políticas
públicas voltadas ao esporte e lazer (...). Guardo a lembrança
da história de Rogerinho, do papão, que foi par o Remo graças
ao trabalho desenvolvido pelo projeto de inclusão social Riacho
doce, da Universidade Federal do Pará. Imagine quantos
Rogerinhos poderiam surgir se projetos como estes tivessem
um apoio político maior14.
O que procuramos ressaltar é que sem o apoio das arquibancadas,
em vários momentos os clubes não teriam como pagar jogadores e
funcionários, e mesmo períodos de dificuldade este socorro se manifesta, mas
as cobranças dos torcedores existem, seus desejos e expectativas em torno do
esporte são claros. E, é neste sentido que utilizando o conceito de relações de
poder de Foucault que observamos o meio futebolístico, e como os torcedores
são chamados atuar em defesa de sua equipe, porém esperam que dirigentes e
jogadores também “façam sua parte”. Dirigentes considerados incompetentes
não conseguem o apoio popular como caso de Arthur Tourinho que não
consegui se reeleger a deputado estadual.
13
Rodrigues, Francisco Xavier Freire. Modernidade, disciplina e futebol: uma análise sociológica
da produção social do jogador de futebol no Brasil. Sociologias, Jun 2004, no. 11, p.260-299.
ISSN 1517-4522.
14
Texto enviado pela torcedora do Paysandu Paula Almeida no dia 14 de Outubro de 2006 com
o titulo Política e Esporte.
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Se o futebol orienta o individuo a seguir uma serie de regras,
comportamento e leva a um caminho mais civilizado estes mesmos preceitos
são cobrados dos dirigentes. As campanhas somente sustentam as pretensões
dos clubes se os torcedores se sentirem confiantes no crescimento de suas
equipes.
REFERÊNCIAS
PERIÓDICOS
A Província do Pará, maio de 1984.
A Província do Pará, 1985 à 1998.15
O Liberal, de 2000 à 2006.16
Amazônia Jornal, de 2007.
BIBLIOGRAFIA
BARRETO, Túlio Velho. A copa do Mundo no jogo do poder. In: Nossa História.
São Paulo: Editora Vera Cruz, Ano 3, nº 32, Junho 2006.
CAPRARO, André Mendes. Do football ao futebol. In: Nossa História. São Paulo:
Editora Vera Cruz, Ano 3, nº 32, Junho 2006.
COSTA, Ferreira da. Enciclopédia do Futebol Paraense. Belém/PA: IV Edição,
2007.
DAMATTA, Roberto. Universo do Futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de
Janeiro: Pinakotheke, 1982.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 16ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 2001
FRANZINI, Fábio. Corações na ponta da chuteira: capítulos iniciais da história
do futebol brasileiro (1919-1938). DP & A, 2003.
15
Durante esse período pesquisamos somente os anos de eleições estaduais e municipais,
sobretudo os meses de outubro.
16
Idem.
14
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8 a 11 de outubro de 2007
Universidade Estadual do Maranhão
São Luís/MA
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“PAÍS DO FUTEBOL”: o futebol e suas relações de