1 O futebol e o surgimento dos mitos: a mídia e a análise dos discursos Mariana Melo1 Resumo Este artigo tem por objetivo analisar e discutir como são construídos os mitos no futebol brasileiro, para isso estudamos o conceito de mito. Percebemos que a cobertura esportiva contribui constantemente para essas criações. Como metodologia, trata-se de um estudo exploratório e descritivo, cujo delineamento é a pesquisa bibliográfica e documental. O estudo ainda faz um passeio pela história do futebol no Brasil e no mundo e também explica a importância desta modalidade para o país, pois esta atividade esportiva é tida como preferência nacional. Palavras-chave: Futebol; Mito; Análise. 1 INTRODUÇÃO A partir de uma rápida leitura da realidade podemos afirmar que o futebol do Brasil é uma referência mundial e também que é a principal manifestação esportiva do País. Não por acaso, os jogadores brasileiros são os mais valiosos. O maior jogador da história é Pelé e só a seleção brasileira é pentacampeã mundial da modalidade. Em função disso, este artigo faz uma análise do discurso pelos meios de comunicação de massas especificamente o jornalismo especializado. O tema de estudo foi escolhido devido a afinidade das autoras dessa pesquisa com o assunto e com gênero narrativo esportivo. 1 Formada em Jornalismo pela Faculdade Estácio de Sá de Vitória, no Espírito Santo e repórter da editoria de Esportes do jornal A Tribuna, o mais vendido no Espírito Santo. Artigo inspirado no trabalho de conclusão de curso: Construção de mitos pela mídia: a idealização do tetracampeão Bebeto, que a autora preparou para se formar em dezembro de 2007, com o auxilio do orientador Renato Heitor Moreira e da Co-orientadora Mirella Bravo de Souza Bonella, formada em Jornalismo pela Faesa/ES; pósgraduada em Estratégias de Comunicação Organizacional pela Faculdade Cândido Mendes de Vitória/ES; MBA Liderança e Gestão de Pessoas,pelo Centro Universitário Vila Velha/ES; mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense/RJ; professora do curso de Comunicação Social da Faculdade Estácio de Sá de Vitória/ES. 2 Nosso objetivo é entender qual o papel da mídia na construção de mitos nesta modalidade e compreender, por meio das análises esportivas, quais características são acionadas para fazer de um jogador um mito. Acreditamos que o trabalho poderá servir para mostrar como o jornalismo é um "instrumento" de criação e estabelecimento de mitos. 2 FUTEBOL DIVERSÃO E ALEGRIA Podemos afirmar que o Brasil é considerado o País do futebol, para compreender esta idolatria, basta perceber como o País pára a cada quatro anos, quando são realizadas as Copas do Mundo, para acompanhar e torcer pela seleção. Os brasileiros mudam suas rotinas e entram em campo com o time canarinho. Mas, apesar de ser referência mundial em futebol, este fenômeno não acontece só por aqui. Ronaldo Helal em seu livro O que é Sociologia do Esporte, (1990, p.12) afirma que: [...] A Fédération Internationale de Football Association (FIFA) reúne um número maior de nações afiliadas do que a Organização das Nações Unidas (ONU). Em quase todas essas nações, o esporte desponta como meta importante dos programas governamentais e, não raras vezes, as vitórias e derrotas no esporte têm servido como metáforas para os sucessos e fracassos de sistemas econômicos sociais. Alguns historiadores dizem que o futebol começou 2500 anos Antes de Cristo, inventado pelo imperador chinês Huang-ti. O chinês inventou o jogo, apenas para treinar seus soldados para as guerras, como uma forma de prepará-los em corpo e espírito para as batalhas guerreiras2. Victor Andrade de Melo (2000), em Futebol: Paixão e Política, afirma que realmente foi na Inglaterra que o futebol surgiu. [...] Foi naquele País, que as antigas práticas da população (erroneamente chamadas de pré-esportivas) começaram a se organizar enquanto um campo relativamente autônomo, com uma lógica interna específica, um calendário próprio, um corpo de técnicos especializados, gerando um mercado de consumo com sentido completamente diferente das práticas anteriores (MELO, 2000, p.14). 2 Disponível em: http://almanaque.folha.uol.com.br/esporte_12ago1974.htm Acesso em 04 de setembro de 2007. 3 Já no início de sua existência, a modalidade teve um importante papel na Inglaterra. “O esporte foi introduzido “[...] com o principal objetivo de controlar os impulsos dos jovens daquela época, criando valores e preparando futuros líderes para o Império Britânico” (MELO, 2000). Isso ocorreu por volta de 1863, ano em que foi fundada a Football Association, e também criadas as primeiras regras da modalidade, as quais sofreram algumas pequenas modificações, mas são respeitadas até hoje. O futebol rapidamente dominou espaço pela sua facilidade de aprender a jogar. Existe uma grande discussão sobre o surgimento do futebol no Brasil, mas a principal tese é de que a modalidade chegou às terras brasileiras por meio de Charles Willian Miller, um paulista, filho de ingleses, nascido no bairro do Brás, e que aos nove anos de idade viajou para a Inglaterra para estudar. Miller permaneceu por dez anos na nação européia e lá se envolveu com o futebol na escola, onde era comum a prática nos momentos de lazer. Jovens pobres, ricos, negros, brancos, todos já podiam jogar futebol, bastava ter talento. A modalidade aos poucos deixara de ser um esporte de classe, no qual só os “bemnascidos” tinham acesso a ele. Mesmo se difundindo, os clubes demoraram a contratar jogadores negros. O primeiro clube a fazer contratação de negros foi o Fluminense, um dos clubes mais nobres da época no Rio de Janeiro. Mas havia uma condição. Os novatos tinham que disfarçar a cor da pele com pó branco, desde então o clube é conhecido como “pó de arroz”. E é neste sentido que Roberto DaMatta (2001)3, antropólogo que estuda o futebol como fenômeno cultural brasileiro, afirma que nos estádios e nos ginásios, as multidões urbanas podem deleitar-se com as emoções de um cenário onde atores e espectadores estão separados, mas no qual se estabelece entre eles elos sociais e simbólicos fundamentais. 3 Roberto DaMatta é um importante antropólogo brasileiro. Possui graduação e licenciatura em História pela Universidade Federal Fluminense. Curso de especialização em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestrado doutorado pela Universidade Harvard. Foi Chefe do Departamento de Antropologia do Museu Nacional e Coordenador do seu Programa de PósGraduação em Antropologia Social. É Professor Emérito da Universidade de Notre Dame, USA, onde ocupou a Cátedra Rev. Edmund Joyce, c.s.c., de Antropologia de 1987 a 2004. Atualmente é professor associado da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense. 4 São momentos em que a paixão pelo esporte é passada de pai para filho, uma herança fácil de manter no Brasil constatada a ênfase dada ao esporte pelos meios de comunicação. É comum acompanharmos o futebol no dia-a-dia. Basta ligar a televisão no horário de almoço e assistir os gols da rodada, ou então se posicionar no sofá da sala e esperar o final do capítulo de quarta-feira, da novela “das oito”, para acompanhar o jogo do seu time em horário nobre e apreciar as jogadas dos seus craques preferidos. Esses ídolos fazem com que muitas crianças e adolescentes vejam no futebol a oportunidade de vencer na vida e de, ao mesmo tempo, serem ídolos do Brasil e do mundo. Essa possibilidade faz com que se dediquem cada vez mais às “peladas” de rua, imaginando um dia, jogar em um grande time e estar no Maracanã e ser aplaudido por até 92 mil torcedores (capacidade máxima do estádio). Mas muitos desses futuros jogadores não têm condições de se dedicar apenas ao esporte. A maioria precisa trabalhar para ajudar em casa, deixando a paixão pelo esporte em segundo plano, em vários casos, também os estudos. Além disso, essas crianças não possuem dinheiro para viajar até clubes e participar de “peneiras” (seleções para as divisões de bases nos times brasileiros) fazendo com que o talento permaneça desconhecido. O futebol como preferência nacional representa patriotismo e transmite felicidade aos brasileiros, além disso, mantém um importante papel na sociedade de, assim como a educação, tentar de todas as formas implantar melhorias no Brasil. “O primeiro passo para uma compreensão sociológica do esporte no mundo moderno é encará-lo como um fato social, isto é, como algo socialmente construído” (HELAL, 1990, p.13). Mas o interesse pelo futebol vai muito além de uma simples paixão ou uma forma de entretenimento e diversão, o futebol é um forte instrumento de alienação das massas, pois serve de “pretexto” para que assuntos importantes sejam deixados de lado em épocas de competição. Existem políticos e governantes muito inteligentes e estratégicos, que conhecem a força do futebol e por isso, abusam da paixão dos brasileiros pela modalidade. Dar visibilidade a estes eventos, é uma maneira de maquiar a realidade, acalmar os ânimos e desviar a atenção do povo para as mazelas da sociedade, assim como fazia o imperador César, de Roma com a política do “Pão e Circo”. 5 O Brasil é um país riquíssimo, com uma economia em desenvolvimento, mas com sérios problemas sociais. O número de analfabetos funcionais é enorme no país, o que facilita o processo de dominação e alienação. Diante de tanto sofrimento e desigualdade social, as pessoas encontram no futebol uma forma de ascender socialmente, vislumbrando o sucesso dos nossos jovens craques, e também de fugir um pouco da dura realidade. A política do “Pão e Circo”, data da Roma Antiga quando foi cunhada para solucionar os problemas de crescimento urbano, êxodo rural e desemprego, enfrentado pelos romanos. Com medo de que os povos se rebelassem contra seu governo, César ofereceria aos romanos alimentação e diversão para dispersá-los. Quase todos os dias ocorriam lutas de gladiadores nos estádios, onde eram distribuídos alimentos. Desta forma a população acabava esquecendo dos problemas. O cenário mudou. Os destemidos gladiadores cederam lugar para os idolatrados jogadores de futebol com seus passes milionários, suas mansões faraônicas e suas Ferraris. O futebol transformou num dos maiores instrumentos de dominação e dispersão das massas. São eventos carríssimos, que “ganham” enorme destaque nos noticiários locais, nacionais e internacionais. Basta lembrar, que a realização de uma Copa do Mundo, como a que o Brasil sediará em 2014, é capaz não apenas de aquecer a economia, como também de desviar os holofotes de assuntos tão ou mais sérios, como a CPI´s do futebol. Além de toda importância que o futebol tem no Brasil, tanto no entretenimento, quanto no social, ele também faz com que o povo brasileiro tenha realmente o orgulho de ser brasileiro. O futebol facultou a junção dos símbolos do estado-nacional: a bandeira, o hino e as cores nacionais, esses elementos que sempre foram propriedade de uma elite restrita e dos militares, a valores sociais mais profundos. Com isso, futebol nos faz ser patriotas, sem sermos basbaques e imbecis, permitindo e que amemos o Brasil sem medo da zombaria elitista que, conforme sabemos, diz que se deve gostar somente da França, da Inglaterra, ou dos Estados Unidos e jamais do nosso país (DAMATTA, 2001, p.35). 6 O autor defende ainda a idéia de que a modalidade também é um dos principais instrumentos para a integração cultural e social. O futebol é um formidável código de integração cultural. Se uma pessoa não tem assunto o futebol engendra uma boa conversa. Ela faculta a comunicação dentro de uma coletividade altamente dividida. Ademais, permite que essa coletividade se leia como capaz de ação concertada ou corporada. Trata-se de uma forma de sociabilidade rara no Brasil, um mundo cuja (sic) instituições públicas tem (sic) sido desmoralizadas pelo clientelismo, pela corrupção galopante, por um legalismo protetor dos poderosos e por incompetência (DAMATTA, 2000, p. 34). Desde o seu surgimento até hoje, o futebol evoluiu muito. Além de ganhar estádios pelo planeta, de possuir famosos campeonatos nacionais e internacionais, se transformou em uma máquina de produzir ídolos, na qual a cada ano surgem, no mundo todo, jogadores capazes de mover multidões atrás de suas jogadas, dribles e gols. Em função disso, muitas competições foram criadas, dando condições do Brasil se destacar. É o que acontece, por exemplo, na Copa América, que até 1975 era conhecida como Campeonato Sul-Americano de Seleções. O torneio, ainda em disputa, é o mais antigo de seleções do mundo e foi criado em 1916, na Argentina4. Mas, apesar de a Copa América ser a competição mais antiga no futebol, o destaque mundial de torneios fica para a Copa do Mundo, a mais famosa manifestação na modalidade. A competição foi criada pelo francês Jules Rimet, em 1928, após ter assumido o comando da FIFA. A primeira edição foi realizada no Uruguai, em 1930, e contou com a participação de apenas 16 times. O mundial sempre foi realizado de quatro em quatro anos. Porém, entre 1942 e 1946, foi suspensa em função da Segunda Guerra Mundial. Em 1950, foi a vez do Brasil sediar a Copa. A seleção chegou até a final, mas perdeu o título para o Uruguai. Oito anos depois, no mundial da Suécia, em 1958, a seleção brasileira levantou a taça pela primeira vez. De lá pra cá, o fato se repetiu mais quatro vezes: em 1962, em 1970, em 1994 e em 2002. Atualmente, a seleção brasileira lidera o ranking da FIFA. É a única seleção pentacampeã. Com o sucesso, os jogadores logo são convidados para fortalecer clubes 4 Disponível em: http://www.bolanaarea.com/gal_copa_america.htm Acesso em 23 de agosto de 2007. 7 em outros continentes que, como no caso da Europa, investem altos valores nos salários dos craques. Entre eles estão Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Robinho. Para finalizar as informações sobre futebol brasileiro hoje, falta falar da seleção. Temos como técnico responsável pela atual seleção o ex-jogador Dunga, tetracampeão, e também um dos jogadores de destaque da Copa de 1994. O presidente atual da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é Ricardo Terra Teixeira, que ocupa o cargo desde 1999. 3 O MITO: CONSTRUÇÃO E IDEALIZAÇÃO Antes de discutir a relação de mito com a narrativa e o futebol, é preciso procurar a definição do seu conceito. De acordo com Eliade (2000), é difícil encontrar uma definição que seja aceita por todos os eruditos e ao mesmo tempo acessível aos nãoespecialistas. Mas apesar disto, o autor explica que mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada por meio de perspectivas múltiplas e complementares. Eliade então diz que: (...) o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma linha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser (2000, p. 11). O autor ainda explica que o mito retrata apenas aquilo que já aconteceu. Não é uma ficção, mas um relato real sobre um fato ocorrido. Para o autor, o mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. O mito é considerado uma história sagrada e, portanto, uma “história verdadeira”, porque sempre se refere a realidades. Ele diz que, “[...] O mito cosmogônico é ‘verdadeiro’ porque a existência do Mundo aí está para prová-lo; o mito da origem da morte é igualmente ‘verdadeiro’ porque é provado pela mortalidade do homem, e assim por diante” (2000, p. 12). O conceito de Mito proposto por Maria Lucia Aranha e Maria Helena Martins (2002, p. 72) se aproxima do entendimento de Eliade. De acordo com as autoras, em uma leitura mais apressada, poderíamos entender o mito como uma maneira fantasiosa de explicar a realidade não justificada pela razão. Nesse caso, “[...] os mitos seriam lendas, fabulas, 8 crendices e portanto uma forma menor de conhecimento, prestes a ser superado por explicações mais racionais” . No entanto, esclarecem elas, o mito é mais complexo e mais rico do que supõe essa visão reducionista. A consciência mítica persiste em todos os tempos e culturas como componente indissociável da maneira humana de compreender a realidade. Por isso são reais. As autoras também explicam que o mito vivo é muito mais expressivo e rico do que supomos quando apenas ouvimos relatos de lendas, desligadas do ambiente que as fez surgir. Para elas, Como processo de compreensão da realidade, o mito não é lenda, mas verdade. Quando pensamos em verdade, é comum nos referimos à coerência lógica, garantida pelo rigor da argumentação e pela apresentação de provas. A verdade do mito, porém, é intuída, e, como tal, não necessita de comprovações, porque o critério de adesão do mito é a crença, a fé. O mito é portanto uma intuição compreensiva da realidade, cujas raízes se fundam nas emoções e na afetividade. Nesse sentido antes de interpretar o mundo, o mito expressa o que desejamos ou tememos, como somos atraídos pelas coisas ou como delas nos afastamos (2002, p. 72). Temos no senso comum a crença de que se um talento for incentivado, ele pode se desenvolver. Num país pobre, muitos meninos se espelham em experiências de outros jogadores que tiveram a mesma origem para perceber como é possível o sonho de ser um grande jogador, obter sucesso e mudar a própria história. Essa é uma história mítica. Real em menos casos do que se imagina, mas pela repetição e ênfase dadas pelos meios serve como referência para muitos, ultrapassando o tempo e renascendo sempre com um novo nome, personalidade, cor de pele como a mesma história. Para Aranha e Martins (2002), o mito é o ponto de partida para a compreensão do ser. Nesse caso podemos dizer que tudo o que pensamos e queremos se situa inicialmente no horizonte da imaginação, nos pressupostos míticos, cujo sentido existencial serve de base para todo trabalho posterior da razão. A função fabuladora persiste não só nos contos populares, no folclore, como também na vida diária, quando proferimos certas palavras ricas de ressonâncias míticas: casa, lar, amor, pai, mãe, paz, liberdade, morte, cuja definição objetiva não esgota os significados que ultrapassam os limites da própria subjetividade. Essas palavras nos remetem a valores arquetípicos, modelos universais existentes na natureza inconsciente e primitiva de todos nós. Não por acaso, os psicanalistas aproveitam a riqueza do mito e descobrem nele raízes do desejo humano (2002, p. 75). Como pensamento, conforme diz Eliade (2000), o mito pode ultrapassar e rejeitar algumas de suas expressões anteriores, pode torná-las obsoletas ou adaptar-se às novas 9 condições sociais e às novas modas da cultura. A questão é que não pode ser extirpado. Com o jogador é assim. Nem todos terão as mesmas características ressaltadas, nem todos serão mitos. Mas aqueles que serão, terão qualidades que parecem ser únicas, mas que apenas reafirmam valores e fábulas existentes no senso comum e em tantos outros mitos já registrados. Mas além de se encaixar no perfil mítico tão relembrado pela mídia quando o assunto são craques do nosso futebol, a característica ganha fôlego quando o personagem investe em um instituto que tenta contribuir para um futuro melhor de muitas crianças do país. O mito nesse caso, reforça a própria história mítica, fazendo ressurgir a história primordial, a origem, a narrativa de uma “criação” que diz como algo começou a ser, conforme afiram Eliade (2000). Isso porque o mito é uma narrativa cíclica, que se repete e se reafirma de tempos em tempos em novos personagens. Para Roland Barthes “[...] a função do mito é evacuar o real: literalmente, o mito é um escoamento incessante, uma hemorragia, ou, se prefere, uma evaporação; em suma, uma ausência sensível” (1993, p. 132). Desta forma podemos afirmar que o mito esta presente em nós e nos nossos pensamentos por trazer para o nosso mundo aquilo que muitas vezes não podemos ter. O pequeno menino que sonha em ser jogador de futebol vê nos jogadores de sucesso a chance de se tornar um deles, e faz acreditar que apesar de ser difícil o sonho pode se tornar real. Joseph Campbell (2004) defende a idéia de que mitos são histórias de nossa busca da verdade, de sentindo, de significação, através dos tempos. O autor ainda explica que nós, seres humanos, precisamos contar e compreender a nossa própria história. Que todos nós também precisamos compreender a morte e enfrentá-la, e que precisamos de ajuda em nossa passagem do nascimento à vida e depois à morte. Precisamos que a vida tenha significação, precisamos tocar o eterno, compreender o misterioso, descobrir o que somos e o mito adianta essa explicação do que podemos ser se seguirmos alguns passos. O mito ajuda a colocar a sua mente em contato com essa experiência de estar vivo. Ele lhe diz o que a experiência é. Casamento, por exemplo. O que é casamento? O mito lhe dirá o que é o casamento. É a reunião da díade separada. Originariamente, vocês eram um. Vocês agora são dois, no mundo, mas o casamento não é senão o reconhecimento da identidade espiritual. É diferente de um caso de amor, não tem nada a ver com isso. É outro plano mitológico de experiência (CAMPBELL,2004, p.06). 10 São pessoas vivendo os mesmos personagens: jovens pobres que acreditaram no sonho, conquistaram espaço e atingiram o auge da carreira, que é vestir a camisa amarela que fez batizar a Seleção Brasileira de futebol de seleção canarinho. Está formado o mito do jogador. 4 MÍDIAS: OS DISCURSOS NA CONSTRUÇÃO DO MITO Podemos afirmar que a análise do discurso francesa é caracterizada pela ênfase no assujeitamento do emissor do discurso, que se expressaria mediante a incorporação de discurso sociais já instituídos como, por exemplo, o religioso, o científico, o filosófico, o mitológico, o poético, o jornalístico entre outras. A técnica basicamente consiste em desmontar o discurso, analisa-lo, para saber como foi montado. “[...] Esse procedimento resulta na identificação dos discursos já instituídos que foram incorporados pelo sujeito” (DUARTE e BARROS,2006). Para saber se realmente a mídia é construtora de mitos no futebol, precisamos compreender como a cobertura esportiva prepara esses discursos e até mesmo narrativas para seus leitores. Podemos afirmar que a função do jornalismo esportivo é informar ao público tudo o que ocorre no meio esportivo diariamente, e apesar de, lidar diretamente com o entretenimento mais do que algumas outras editorias, essa cobertura jornalística também trabalha com a checagem da informação, seriedade e ética. A cobertura jornalística surgiu praticamente ao mesmo tempo que o futebol no Brasil. É o que confirma o jornalista Paulo Vinicius Coelho5, em seu livro Jornalismo Esportivo. Em São Paulo, no ano de 1910, quando as partidas da modalidade já eram constantes, havia páginas de divulgação esportiva no jornal Fanfulha. E, na mesma época, no Rio de Janeiro, os jornais dedicavam também cada dia mais espaço ao tema. Foi lá que nos 5 Paulo Vinícius Coelho, também conhecido como PVC, formou-se em jornalismo em 1990, pela Universidade Metodista de São Bernardo do Campo. Começou a carreira como repórter do Diário do Grande ABC, em 1990, depois de trabalhar em pequenos jornais em São Bernado do Campo. Em 1991, ingressou na editora Abril, primeiro como estagiário da revista Ação, depois como repórter da revista Placar. Ganhou os prêmios Abril de 1993, 1995 e 1997 pela melhor matéria de esportes da editora. Em 1997, mudou-se para o jornal LANCE!, como repórter-especial, colunista e, mais tarde, editor-executivo. Desde 2000, é comentarista da ESPN BRASIL, emissora da qual se tornou um dos maiores símbolos. Em 2002, passou a acumular a função de chefe de reportagem. 11 anos 30 criou-se o Jornal dos Esportes, o primeiro exclusivamente dedicado ao esporte no país. Como já foi citado a modalidade é preferência nacional no Brasil, e por isso muitos jogadores vivem em evidência e são caracterizados como mitos. Apesar de não ser padrão no jornalismo, o adjetivo é uma característica comum na cobertura esportiva, e talvez seja um dos requisitos que faz com que a mídia esportiva seja criadora de mitos. Um adjetivo pode transformar uma atuação, um passe ou um gol em atos ou fatos marcantes e importantes para a conquista de uma vitória ou de um título. Alguns adjetivos na narrativa esportiva já são bastante comuns, como por exemplo, goleador e matador. Com o tempo, ao serem constantes, tornam-se características marcantes de muitos atletas. Mas não seria leviano afirmar que é preciso ser cauteloso no uso de adjetivo, pois sua função é acompanhar o substantivo determinando-o ou qualificando-o. “Há armadilhas a serem evitadas: do adjetivo inútil, que nada informa, e do adjetivo impreciso, enganador, que passa ao leitor mensagem diferente daquela imaginada pelo autor” (GARCIA, 2001, p. 30). Encontramos na mídia os dois lados da moeda, onde alguns jogadores são caracterizados positivamente e outros com algumas denominações mais severas, mas que não os atrapalham na intitulação de mito. Isso porque mesmo que o comportamento de um atleta seja observado muitas vezes dentro e fora dos campos, os torcedores vão sempre admirá-los pelas conquistas, dribles e gols, pois são esses fatos que eles desejam ver durante os jogos de seus times, ou da seleção brasileira. Podemos citar como exemplo o jogador Romário, ele é um atleta bastante popular e por muito tempo a mídia o intitulou de “marrento”, pois o jogador não gostava de treinar e porque sempre foi polêmico, mas suas más atitudes sempre ficavam em segundo plano quando ele marcava algum gol decisivo. Romário durante a sua carreira sempre estampou as manchetes esportivas e mesmo mantendo um comportamento “marrento” é tido como mito e ídolo até hoje. Outro famoso exemplo é o jogador Edmundo. Conhecido por ser violento nos campos, os meios de comunicação de massa passaram a caracterizá-lo como “Animal”, mas a torcida quando vai aos estádios assistir o a uma boa atuação do jogador grita por seu 12 nome e o exalta como um mito. Roberto DaMatta (2000, p.31) em seu artigo “O significado do esporte na sociedade moderna e do futebol no Brasil” afirmou: Na América, parece-me, o herói é o modelo que segue e reforça a igualdade revelando que a excepcionalidade, para ser legitima, tem que estar presa e contida aos valores igualitários sendo sua expressão. No Brasil, pelo contrário e a julgar pelos comentaristas dessas ultimas olimpíadas, o herói é a celebridade especial que não ganha porque não quer e não porque o adversário não deixa. É o sujeito superior que se comporta como aristocrata e assim rompe com as normais igualitárias e triviais de conduta, tornando-se uma entidade excepcional. Daí, sem duvida o caráter semi-marginal dos nossos heróis-celebridades e a sua aversão ao comportamento comum. Isso quando não se transformam em criminosos (caso do Romário e do Edmundo, significativamente chamado pela mídia de “Animal”). Alguns jogadores também são reconhecidos e tidos como mito, pela boa imagem formada pela mídia, mas isso não quer dizer que o atleta não é aquilo que a mídia expõe. A questão é que quando a cobertura esportiva enfatiza um lado mais positivo ou negativo de um jogador, ele passa a ser sempre lembrado daquela forma. Neste caso poderíamos citar como exemplo o jogador Kaká. Ele possui uma imagem de bom moço e bom jogador, além de valorizar a religião e família. Sempre que é citado seja na televisão, no rádio ou no jornalismo impresso o jogador é tido como o bom garoto. Além disso, é também considerado o queridinho das torcedoras. Cláudia Nandi Formentin é Mestre em Ciências da Linguagem, e em sua dissertação sobre o mito do jogador Kaká afirmou o seguinte: Na Retrospectiva 2002, exibida pela Rede Globo no dia 27 de dezembro de 2002, Pedro Bial comenta: “Que atuação! Elas adoraram. Kaká fez tanto sucesso que quase não escapa da marcação. Foi de parar o shopping. Em campo balançou redes e corações. Foi reconhecido como novo ídolo”. Neste discurso, é possível ver indícios de como a imprensa pode levar um jogador em início de carreira de carreira, que se destaca nos campos, a se transformar em ídolo de uma geração (FORMENTIN, 2006, p. 75) Percebemos então que a mídia, mais precisamente neste caso a cobertura esportiva, atua como instrumento na construção de mitos no futebol. Foi feita uma análise da realidade e chegou-se a conclusão de que um atleta pode ser caracterizado como mito não só pela sua atuação em campo, mas também pela forma que esta atuação é passada até os receptores. Levando-se em consideração esses aspectos, percebemos que a midia também envia uma mensagem de que os mitos são construídos e veiculados pela cobertura jornalistica 13 em questão por meio da escrita e imagem, e, desta forma, influenciando assim a opinião pública. 5 CONCLUSÃO Ao longo deste artigo procuramos evidenciar a hipótese de que a mídia pode ser construtora de jogadores-mito na sociedade brasileira, por meio da narrativa do jornalismo esportivo, especialmente no futebol. Entendemos que o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como uma realidade passou a existir. É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. Um atleta quando ganha destaque no time onde atua passa a ser ídolo e herói, tendo o comportamento analisado dentro e fora de campo. Ele passa a ser observado por seus fãs e admiradores no dia-a-dia. O jogador tem sua vida exposta, assim como uma celebridade do meio artístico, seja um ator famoso ou até mesmo o cantor da moda. Em função disso, o ídolo ou mito acaba tendo algumas responsabilidades que, talvez, não fossem obrigatórias se ele fosse desconhecido. Ele passa a ser formador de opinião, até mesmo de cidadãos que podem ou não seguir o seu exemplo, dentro e fora dos campos. Este trabalho trouxe como contribuição para a sociedade, após esta breve análise, o entendimento de que é possível identificar que certas atitudes do jornalismo esportivo realmente contribuem para a construção do mito no futebol. REFERÊNCIAS ARANHA, Maria Lucia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 2º ed. São Paulo: Moderna, 2002. BARTHES, Roland. Mitologias. 9º ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993. 14 CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 2005. CARRANO, P. C. R. (Org). 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