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A
universidade é para os apaixonados. Pelo menos,
esta era. Surgindo acima das árvores em seu pedestal na colina, a Dexter College era tão incrivelmente bonita e, ao mesmo tempo, tão acadêmica, que ficava
deslocada em seu ambiente rural quase tanto quanto alguns
alunos. O campus era fortificado de todos os lados por bosques de antigas coníferas, bétulas altas e bordos copados, de
modo que só o cume altivo e branco da capela da universidade era visível da cidade. A avenida Homeward, que, vindo da Interestadual 95, levava ao campus, continuava descendo até a cidade “se-piscar-não-vê” de Home, no Maine,
que consistia em um Walmart, uma Shop’n Save, um hotel
Rod and the Gun Club, além de algumas lojas familiares frequentadas somente pelos locais.
Se pudesse, Shipley Gilbert teria disparado a pé colina
acima até o campus, mas, como a Mercedes de sua família estava carregada das coisas básicas de caloura para um
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semestre, ela precisava ir de carro. Pelo menos a mãe não a
acompanhara. Shipley insistira nisso.
Ela manobrou o carro para uma das vagas temporárias
do estacionamento, em frente a um imponente prédio de
tijolos, com a palavra “Coke” gravada em mármore no alto
de suas portas pretas duplas. O estacionamento estava movimentado. Estudantes carregavam suas malas de rodinhas
e caixas de papelão, pais puxavam cães em coleiras, irmãs
mais novas giravam as saias, irmãos mais novos fingiam
atirar nos passarinhos com os dedos, mães se abanavam no
ar úmido. O céu era azul; a grama, verde e recém-aparada;
e os tijolos, aparentes, vermelhos e limpos. Um grupo de
meninos de camiseta em batique jogava Hacky Sack* no
imenso gramado. Um lindo e jovem professor de literatura
inglesa estava sentado de pernas cruzadas, lendo em voz
alta Folhas de relva, de Walt Withman, tentando inspirar
sede por algo além de cerveja no semicírculo de calouros
que se remexiam, sentados em volta dele. Três meninas de
idênticos uniformes cor-de-rosa corriam para o ginásio de
esportes.
A Dexter College era exatamente como se anunciava.
Shipley saiu do carro, liberando o cheiro de cigarros Camel e do chiclete Juicy Fruit no ar ensolarado. Jamais foi
de fumar ou mascar chicletes, mas decidiu cultivar os dois
hábitos no caminho até a universidade. Um vento de final
de agosto farfalhava as folhas dos bordos que ficavam entre
o carro e o pátio, naquele longo trecho de gramado no meio
do campus da Dexter. Do outro lado, prédios de tijolinhos
* Um tipo de futebol jogado com uma pequena bola de pano.
(N. do T.)
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vermelhos com imensas colunas brancas competiam entre
si por atenção. A imaculada capela branca de madeira se
destacava no alto da colina, em uma das extremidades do
pátio, e o novo prédio rosa de estuque e vidro do grêmio
estudantil ficava do outro lado, uma justaposição perfeita de
tradição e modernidade.
“Tradição e Modernidade” era o mais recente lema da
universidade, doutrinado durante a inauguração do grêmio, em junho. A livraria da Dexter College até vendia um
par de sinos de vento com a palavra “tradição” impressa
em um dos sinos grosso de bronze e “modernidade” em
seu parceiro de aço inox fino. É claro que o papel timbrado
da Dexter College ainda trazia seu lema original em latim
— Inveni te ipsum (Conhece-te a ti mesmo) —, mas pouquíssimos alunos sabiam ou se preocupavam em descobrir
o que significava.
Shipley respirou o ar puro do campo e imaginou-se chutando folhas de bordo neste outono, quando estivessem vermelhas e crespas, e cobrissem o chão. Vestida em seu suéter
creme de tricô preferido, ela andaria pelas calçadas de pedra
com um grupo de novos amigos bebendo café aromatizado com avelã do Starbucks, discutindo poesia, arte e esqui
cross-country, ou o que as pessoas conversassem no Maine.
Ansiosa para se enturmar, abriu a mala do carro e pegou as
alças de sua maior bolsa de viagem.
— Quer ajuda? — Dois meninos apareceram a seu lado,
abrindo sorrisos ansiosos e prestativos.
— Meu nome é Sebastian. — O mais alto estendeu a mão
para a bolsa e se abaixou para pegar outra no carro. — Todo
mundo me chama de Sea Bass. — Ele atirou a segunda bolsa
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ao amigo, cuja cabeleira densa só podia ser descrita como
afro-grega. — Este é Damascus.
Damascus segurou a bolsa de viagem contra o peito volumoso. Os nós dos seus dedos eram carnudos e bronzeados.
— Somos totalmente inofensivos — garantiu-lhe com um
sorriso malicioso.
Shipley hesitou.
— Vou para o terceiro andar. Quarto 304. Será que é uma
subida puxada?
— Que máximo! — exclamou Sea Bass, os cantos da
boca subindo tanto que quase tocaram as pontas das costeletas cuidadosamente aparadas. — Bem do lado da gente! — Ele largou a bolsa de Shipley no chão e lançou os
braços ao redor dela, abraçando-a com tanta força que a
ergueu do chão. — Bem-vinda ao primeiro dia do resto de
sua vida!
Shipley recuou, sobressaltada, e colocou o cabelo louro e
comprido para trás das orelhas, corando intensamente. Não
estava acostumada a ser abraçada por meninos simpáticos
e impetuosos. Ela fora aluna de uma escola para meninas,
a Greenwich Academy, desde o jardim de infância. Havia
uma escola correspondente para meninos, a Brunswick, e
ela cantava no coral deles e até tinha um parceiro de laboratório no curso de química avançada. Mas como o pai era
do tipo ausente na maior parte do tempo e o irmão mais
velho era estranho e distante e estudava em internatos desde
que ela se entendia por gente, Shipley continuava sem saber
como se comportar perto de homens. Ela contornou o carro
e abriu a porta do banco traseiro, onde colocara o travesseiro de penas de ganso e o CD player portátil, imaginando se
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levaria essa confraternização com os homens com a mesma
facilidade com que estava fumando e mascando chicletes.
— Tudo bem. — Ela enfiou o travesseiro debaixo do braço e bateu a porta. — Estou pronta.
— E aí, por que escolheu a Dexter? — perguntou Sea Bass
enquanto Shipley o seguia pela escada escura e sinuosa do
Coke.
Shipley deu de ombros.
— Sei lá — respondeu vagamente. — Meu irmão era
daqui. — Ela parou. — E eu não consegui entrar para a
Dartmouth.
— Nem eu — acrescentou Damascus atrás dela. — Acho
que foi por isso que viemos parar aqui, né?
Shipley seguiu Sea Bass pelo corredor. Havia um quadro
branco na porta de cada quarto para que os alunos pudessem trocar recados. Na véspera, os funcionários da Sub-reitoria de Alojamentos e Vida Acadêmica tinham escrito nos
quadros os nomes dos alunos que ocupariam cada quarto.
Os nomes “Eliza Cheney” e “Shipley Gilbert” estavam escritos numa letra cursiva e trabalhada no quadro do lado de
fora do 304.
O quarto era pequeno e simples, com duas camas de solteiro encostadas às paredes brancas. Uma mesa larga de madeira ficava diante da única janela, com uma cadeira de cada
lado e uma luminária no meio. Do outro lado da mesa havia
um gaveteiro embutido com um grande espelho retangular
e uma tomada para secador de cabelos ou chapinha na parede acima. As gavetas eram emolduradas por dois espaços
estreitos e retangulares com suporte de madeira para pendurar roupas. As paredes brancas estavam recém-pintadas,
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mas os móveis de madeira e o piso de linóleo laranja estavam arranhados e sujos de marcas de caneta, dando ao
quarto um toque institucional deprimente.
Shipley se sentou, ocupando a cama mais próxima da
porta. Sea Bass e Damascus pararam na soleira.
— Quer uma cerveja? — perguntou Sea Bass. — Nós encomendamos um barril.
— E tem funil! — Damascus uivou.
No corredor, Shipley ouvia pais em suas derradeiras despedidas.
— Não temos que ir logo para a orientação? — perguntou
ela.
A orientação de calouros era uma tradição da Dexter. Os
alunos recém-chegados passavam uma noite acampados no
bosque, com o companheiro de quarto, e cinco ou seis outros calouros, sob a orientação de um dos professores.
— Que nada... — Damascus passou as mãos na barriga
gorducha. — Somos do terceiro ano. Já passamos por isso.
Só chegamos mais cedo para a festa.
Sea Bass entrou e abriu a janela o máximo possível. Empoleirou-se no peitoril, esticando as pernas compridas. Os
joelhos dos jeans estavam rasgados como recortes gigantes
de papel.
— Eles dão a todos os calouros os menores e piores quartos. O nosso parece um palácio se comparado ao seu. — Ele
observou Shipley afofar o travesseiro e atirá-lo no colchão.
— E aí, de que curso seu irmão era?
Shipley nunca pensara em como responderia a uma pergunta dessas. Quatro anos antes, ela estivera ali com os
pais para deixar Patrick em seu alojamento, um quarto de
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solteiro no primeiro andar. Ele se sentou na cama ainda de
jaqueta, a mala cuidadosamente colocada a seus pés, e se
despediu deles com um aceno animado. Dois meses depois,
a universidade ligou para reclamar que Patrick raras vezes
ia às aulas e que costumava ficar dias seguidos fora do campus. Um mês depois, ligaram para dizer que ele tinha desaparecido completamente, deixando para trás a mala ainda
intacta.
Apareceram rastros de Patrick nas contas do cartão de
crédito. Ele tinha ido a bares, hotéis e restaurantes por todo
o Maine. Depois chegaram os relatórios da polícia. Ele invadira casas desocupadas para se aquecer e dormira em estacionamentos, acampamentos ou praias. Havia roubado uma
bicicleta novinha. Depois chegaram as contas do pronto-socorro. Ele teve pneumonia, ulceração pelo frio e intoxicação
por hera venenosa.
Os pais de Shipley tentaram deixar um recado dizendo
para ele voltar para casa ou pelo menos telefonar, mas Patrick
nunca fez isso. Quando terminavam o jantar e Shipley ia para
seu quarto terminar o dever de casa, eles ficavam sentados
à mesa por muito tempo, bebendo em silêncio. Às vezes a
mãe chorava. Uma vez, o pai quebrou um prato. Por fim, eles
cancelaram o cartão de crédito de Patrick e o consideraram
perdido para sempre.
“Pelo menos temos Shipley”, diziam.
— Ele não se formou — explicava Shipley agora, abanando-se com a mão. Apesar da janela aberta, o ar no quarto
era denso e quente. — Foi embora — esclareceu ela. — Ninguém sabe realmente para onde.
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— Que bizarro — disse Damascus da porta.
— Excusez-moi? — Uma menina com cabelo preto e liso
colocou a cabeça por cima do ombro dele. — Já estão falando de mim?
— Desculpe. — Damascus entrou no quarto e tentou colocar as mãos nos bolsos. A calça de veludo cotelê marrom
era tão apertada na cintura que só coube um dedo.
A menina usava um short jeans preto tão curto que mostrava o forro branco e desfiado dos bolsos.
— Meu nome é Eliza. — Ela apontou para Shipley. — Ei,
você está na minha cama.
Shipley se colocou de pé num salto.
— Não preciso ficar com esta cama — gaguejou ela.
Eliza revirou os olhos. Estava acostumada a matar as pessoas de susto, era sua especialidade, mas se não quisesse que
a nova colega de quarto a odiasse instantaneamente, teria de
fazer um esforço para ser legal.
— Eu estava brincando. Só tentei te fazer de boba. Desculpe. Agora quem se sente boba sou eu. E eu entrei para
Harvard.
— Tá de sacanagem. — Sea Bass assobiou. — Então, o que
está fazendo aqui?
Eliza deu de ombros. Ela escolhera ir para Dexter em vez
de Harvard porque a menina que a guiara pelo campus da
Dexter estava de patins gastos e antiquados com pompons
amarelos nos cadarços e ficara o tempo todo de costas para
o grupo. Da visita, ela só se lembrava disso. Parecia-lhe que,
numa faculdade pequena, tediosa e vagamente hippie da
Nova Inglaterra como a Dexter, os excêntricos realmente se
destacavam, enquanto num lugar como a Harvard ninguém
notava a presença deles. E ela queria ser vista.
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— Sei lá. — Ela deu de ombros. — Soube que a comida é
melhor.
Sua mala verde militar, a única que tinha trazido no ônibus vindo de Erie, na Pensilvânia, bloqueava o corredor
como um cadáver. Ela a arrastou para o quarto.
— Esta parece boa — disse ela a Shipley, tentando controlar
o tom insolente enquanto se sentava na cama encostada à parede mais distante. Ela se virou para Sea Bass, ainda empoleirado
no peitoril da janela. — E você, mora onde? — perguntou, a insolência voltando. Era evidente que os meninos só estavam por
ali porque Shipley era loura e bonita. Ela também parecia estranhamente tímida, o que era bom, porque Eliza era tudo, menos
isso. Elas se entenderiam muito bem. Duas ervilhas numa fava.
Duas abóboras num canteiro. Duas galinhas num poleiro, ou
seja lá como for a merda do ditado. — Porque eu preciso muito
contar meus absorventes antes de a orientação começar.
Sea Bass se levantou rapidamente. Damascus já tinha
sumido.
— Lembre-se de que tem um barril esperando por você
quando voltar! — disse Sea Bass antes de fechar a porta.
Procurando alguma coisa para fazer, Shipley abriu a menor das duas malas e pegou seu novo jogo de cama da Ralph
Lauren. Podia sentir Eliza observando-a rasgar o plástico
e retirar o lençol da embalagem. Ela tinha passado muito
tempo escolhendo os lençóis novos na Lord & Taylor, em
Stamford. Foi a primeira coisa que comprou para si, e queria que fossem os lençóis certos. Algo na padronagem, com
o roxo-escuro, o azul-marinho e o verde-mata em espiral
parecia rebelde o bastante para dizer “universidade”, ainda
sendo Ralph Lauren.
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— Legal — comentou Eliza. — O lençol é legal de verdade
— esclareceu ela. — Sério.
— Obrigada. — Shipley não sabia se a nova colega de
quarto estava sendo inteiramente sincera. Ela esticou o
lençol sobre o colchão, enfiando-o para baixo onde estava sobrando. — Eu disse àqueles caras que não consegui
entrar para a Dartmouth, mas na verdade consegui. — O
fato de que ela e Eliza tinham escolhido a Dexter no lugar
de uma universidade da Ivy League pelo menos lhes dava
alguma coisa em comum. — Como você, eu decidi vir para
cá. — Ela alisou as rugas do lençol. O quarto já parecia
melhor.
— Como assim? — Eliza abriu o zíper da mala e puxou
para fora uma coleção de livros: A redoma de vidro, O jardim dos esquecidos, Entrevista com o vampiro; e um pé de
coelho gigantesco numa correntinha de ouro. Ajoelhandose no colchão, ela prendeu a corrente na parede com uma
tachinha de modo que o pé de coelho ficasse pendurado
sobre sua cabeceira. Voltou a se sentar e sorriu, deliciandose com sua mistura perversa de vulgaridade, brutalidade e
desespero.
Shipley sacudiu o lençol de cima. Seus pais ficaram irritados quando ela se candidatou à Dexter. Quando decidiu
ir, quase pararam de falar com ela. É claro que culpavam
a universidade por não vigiar Patrick. E onde exatamente
Shipley esperava chegar desse jeito? A Dartmouth era uma
universidade muito superior. Mas agora Shipley tinha 18
anos e estava cansada de ser a certinha à sombra do irmão
que sempre fazia tudo errado. Para ela, a Dexter representava uma espécie de guarda-roupa sem fundo, um portal para
uma vida muito mais interessante que a que tivera até agora.
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Patrick tinha vindo para cá e depois — gloriosamente —
desaparecera.
Alguém bateu à porta.
— Shipley Gilbert? Eliza Cheney?
Eliza foi abrir a porta.
— Quem quer saber?
Uma figura alta e magra de cabelo castanho espetado,
queixo quadrado, um proeminente pomo de Adão e lóbulos compridos e decorados, com dois brincos de ouro minúsculos, olhou friamente para ela. Eliza examinou a bermuda larga, a camiseta grande da Dexter e as sandálias de
tiras de camurça marrom. Homem ou mulher? Era impossível saber.
— Sou Darren Rosen, líder da orientação. Está na hora
de irmos. Não se esqueçam: estamos no Maine. Levem algo
quente para usar à noite.
Eliza pegou o primeiro suéter que achou: com gola em
V e de lã acrílica magenta, que havia comprado na JC Penney. Magenta era como um grande e sonoro “foda-se” para o
rosa-claro, uma cor que ela odiava mortalmente. Ela embolou o suéter e o enfiou embaixo do braço, olhando Shipley
vasculhar uma pilha de suéteres bonitos até se contentar
com um cardigã de tricô creme com bolsos e amarrá-lo na
cintura. Ela parecia uma modelo num daqueles catálogos de
roupas que a mãe de Eliza sempre jogava fora porque “Penney tinha tudo”.
Elas seguiram Rosen escada abaixo, saindo do alojamento. A maioria dos outros calouros já fora para a orientação e
o estacionamento temporário estava tranquilo.
— Ah, não! — exclamou Shipley. — Meu carro! — Ela
disparou em direção a uma Mercedes preta e elegante com
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placa de Connecticut. Um ticket amarelo de estacionamento fora enfiado por baixo de um dos limpadores de parabrisa.
— Depressa! — ordenou Rosen. — O estacionamento
principal fica do outro lado da rua. Vamos esperar por você
na van.
A descrição da colega de quarto de Eliza não mencionava
que Shipley seria linda ou loura, ou que tinha uma Mercedes
preta com minúsculos limpadores nos faróis. Não falava que
as pernas magras e bronzeadas dela ficavam ótimas de short
branco, especialmente quando ela corria, o que fazia agora com a elegância tranquila de um puro-sangue. Eliza não
sabia dirigir, suas pernas eram pálidas e nada definidas, e o
único short que tinha era o jeans preto surrado que usava.
Estava cada vez mais difícil não sentir inveja de Shipley, e
mais ainda não ter ódio dela.
Rosen abriu a porta da van, uma Chevrolet marrom
amassada com o logo da Dexter contendo um único pinheiro verde. Eliza não conseguiu deixar de pensar que Harvard
provavelmente tinha toda uma frota de Mercedes.
A van cheirava a mofo e estava lotada. Rosen, que na
realidade era mulher, batia os dedos com impaciência no
volante enquanto Eliza se espremia no banco do fundo ao
lado de três meninas que usavam camisetas da Dexter rosaclaro de manga curta. Essa camiseta feminina era um novo
modelo e acabou fazendo sucesso com as recém-chegadas.
A livraria já esgotara todas.
Na segunda fila de bancos, bem em frente a Eliza, Tom
Ferguson e Nicholas Hamilton esperavam com impaciência
que a professora Rosen desse a partida no motor e ligasse o
ar-condicionado.
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— Esquisitos — murmurou Tom. Esquisitos com seus
gorros de lã e sandálias de couro. Até mesmo quem estava encarregado dessa excursão de orientação, a pessoa ao
volante com o cabelo castanho espetado e brincos de ouro.
Homem ou mulher? Ele não tinha a menor ideia.
— Por que eu tenho que ir a esse lugar, mesmo? — perguntou ele ao pai naquela manhã no carro. Os pais de Tom
lhe deram um jipe Cherokee novo de presente de formatura. O pai foi no jipe com ele enquanto a mãe os seguia no
Audi.
— Porque você deve seguir seu legado e é o melhor lugar
para você — lembrou-lhe o pai. — Olhe, não desanime, garoto. A Dexter é minha alma mater e veja o que me tornei: ge...
— Tá, pai. Eu sei, eu sei. Gerencia seu próprio negócio,
num casamento feliz com uma linda mulher, dois filhos em
boas universidades, uma casa grande em Bedford, casa de
praia no Cape.
Tom alisou o cabelo preto para trás com a mão — o
que restara dele, aliás. Queria cortar curto para o triatlo de Westchester, mas o barbeiro do pai não entendeu
e fez um corte estilo militar. Ele olhou o pai. O cabelo
grisalho e elegantemente aparado era impecável. A pele
era impecável. A camisa branca era impecável. Ele parecia uma porra de “propaganda do homem”, para citar
O grande Gatsby, o único livro obrigatório na escola de
que Tom realmente gostou e que terminou de ler. Mas ele
nem sempre fora assim. Tom vira fotos do pai na faculdade. Um hippie de pele feia, cabelo comprido e embaraçado, sorriso de doidão e espinhas por todo canto, até nas
pálpebras.
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O pai olhou pela janela e assentiu com aquela irritante
mistura paterna de sagacidade e nostalgia.
— A Dexter vai surpreendê-lo.
— Como vai me surpreender? — perguntou rispidamente Tom, pisando no acelerador. Ele pensou que talvez o pai
fosse lhe contar sobre uma sociedade secreta clandestina da
Dexter, onde os homens eram trazidos à tona nos meninos
e as mulheres só queriam uma coisa.
Mas o pai se limitou a lhe dar um tapinha no ombro e
sorrir enigmaticamente.
— Não faço ideia.
As janelas da van estavam abertas. Tom olhou os gramados verdejantes, tão verdes que doíam, e ouviu os passarinhos cantando a plenos pulmões. Sempre reparava nessas coisas; o ambiente onde se encontrava. Ele se deixava
envolver. Virou-se para o garoto sentado ao lado, seu novo
colega de quarto. Haviam se encontrado brevemente no
quarto antes dele e dos pais saírem para almoçar qualquer
coisa.
— Nicholas? — Tom se voltou para o esquisito-usandogorro-de-lã. — É assim que prefere ser chamado?
O cara tirou os fones dos ouvidos. Cachos de cabelo louro-escuro caíam sobre a gola do blusão bordado e bege de
gente estranha. Na verdade, mais parecia uma túnica, uma
vez que descia quase até os joelhos.
— Prefiro Nick.
Tom remexeu as pernas, irritado. Se Nicholas queria ser
chamado de “Nick”, por que não colocou simplesmente
“Nick” nos formulários de matrícula, como Tom tinha colocado “Tom” nos dele? Ninguém o chamava de “Thomas”;
nem mesmo sua bisavó.
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— Ei, professor — chamou ele, se dirigindo à figura ao
volante. — Alguma chance de a gente partir logo, cara? Essa
van podia ter um pouco de circulação de ar.
— Ele é ela — cochichou Nick. — Professora Darren Rosen. Ela dá uma matéria no último ano chamada androginia. Li sobre ela em um dos guias da universidade.
— Meu Deus. — Tom se perguntou se era tarde demais
para pedir transferência para uma universidade com menos
esquisitos. Olhou pela janela, observando a vasta paisagem
de bosques sombrios, fazendas lamacentas e cidades deprimentes de merda em volta da colina em que se empoleirava
a universidade. — Lama, mato e árvores... Lama, mato e árvores... — murmurou ele.
Uma das meninas atrás dele deu um chute no encosto de
seu banco.
— Fala sério, cara. Estamos em Maine... A terra das férias,
sabe? As pessoas vêm para cá por causa da paisagem. Você
devia se sentir honrado.
Tom se virou para encarar a menina de cabelo escuro e
curto e uma expressão permanente de mau humor.
— Vá se foder você também — acrescentou Eliza, reconhecendo aquele olhar.
— Eu estava pensando em acampar nos arredores do
campus. Sabe, enquanto o tempo ainda está quente. Quem
sabe construir um iurte? — Nick refletia em voz alta, sem
perceber a pequena troca de insultos entre Tom e Eliza.
Nick era uma dessas pessoas felizes, Eliza percebeu. Usava o uniforme hippie padrão de internato, e o sorriso permanente devia ser induzido por maconha, mas ela apostava
que ele sorria assim mesmo quando não estava chapado.
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Um cara tão feliz que a deixava louca. Ela queria devorá-lo
ou maltratá-lo, ou as duas coisas.
Nick recolocou os fones nos ouvidos. Eliza tinha razão:
ele era feliz. E mais feliz do que nunca quando ouvia um de
seus discos preferidos: The Concert in Central Park, de Simon and Garfunkel. A mãe o levara a um show deles quando ele tinha 7 anos; só os dois. Ela dividiu um baseado com
as pessoas que dançavam na grama perto deles e até o deixou dar um tapa, só por diversão.
Depois de quatro anos de internato, Nick deveria ter se
acostumado a ficar separado da mãe e da irmã mais nova,
mas já estava com saudades de casa. Passara o verão todo na
cidade com elas, ouvindo música e fazendo piqueniques no
parque. A viagem de ônibus até Dexter fora muito solitária.
Ele até abrira mão de um sanduíche do Subway com Tom
e os pais dele para poder ligar para casa. A mãe estava no
trabalho e Dee Dee na creche, mas tinha sido bom ouvir a
voz das duas na secretária eletrônica.
— E o que é um... Como você chamou mesmo? Um iurte?
— perguntou Tom a ele.
— Hein? — Nick manteve os fones nos ouvidos, tentando
se desligar do fato de que o novo colega de quarto iria matálo e devorá-lo antes que as aulas começassem.
— Um iurte. — Tom levantou a voz. — Que diabos é isso?
Nick se iluminou. Talvez Tom se animasse se recebesse
boas vibrações.
— Ah, é tipo uma barraca grande e permanente. Vou perguntar à faculdade se posso construir uma e dormir nela de
vez em quando. Sabe como é... para entrar em comunhão
com a natureza.
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Laird Castle, aluno do último ano do colégio interno de
Nick quando ele estava no primeiro, construiu um iurte
atrás do prédio de ciências e morou nele até se formar. Ele
deveria ter ido para a Dexter, mas a viga mestra da barraca
fora atingida por um raio durante uma excursão de acampamento nas Berkshire Mountains, matando-o instantaneamente. Na verdade, Nick não conhecia Laird, apenas admirava sua coleção de gorros com tapa-orelhas tricotados à
mão, o adesivo “Carne é assassinato” no para-choque de seu
Subaru amassado e a nuvem constante de fumaça de maconha que emanava dos buracos de ventilação do iurte. Mas
ele assumira a tarefa de levar o legado de Laird para Dexter. Gostava de pensar em Laird como Yoda, o mestre Jedi
manco e verde de séculos de idade de Guerra nas Estrelas, e
em si como o jovem Luke Skywalker. Para dominar a força,
um cavaleiro Jedi em treinamento precisava de um refúgio
seguro onde praticar e aperfeiçoar suas habilidades. O iurte
seria esse lugar.
Nick espirrou violentamente e enxugou o nariz com as
costas da mão. Depois espirrou novamente.
— Meu Deus, cara! — exclamou Tom, enojado.
— Desculpe — disse Nick. — Alergias.
— Saúde — murmurou Eliza lá atrás.
Tom afrouxou um pouco o cinto amarelo-canário e se
afastou de Nick. Obviamente, seu novo e alérgico colega de
quarto estava louco para convidá-lo a acampar. Eles podiam
ter uma velha curtição gay na barraca, iurte ou o que fosse,
bebendo Toddy quente, enxugando o nariz um do outro e
apoiando-se um nas costas do outro. Mas que droga, por
que a faculdade não podia começar logo para ele acabar de
uma vez esses quatro anos e começar a trabalhar para o pai?
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Ele não precisava de nenhuma orientação idiota. Já estava
mais do que orientado, e todas as bússolas apontavam para
quatro longos anos de uma merda de sofrimento, a começar
por um ano inteiro dividindo o quarto com essa bichinha
alérgica de Manhattan.
A professora Rosen deu a partida no motor.
— Lá vem nossa última passageira... Até que enfim. Cheguem para lá, meninos.
Shipley fumara outro cigarro enquanto procurava uma
vaga. Nem tinha certeza de que estava fumando direito, mas
sentia um entusiasmo singular só de imaginar o que a mãe
pensaria se visse o cinzeiro do carro abarrotado de guimbas
velhas.
— Não tinha mais vaga, então precisei estacionar na grama
— disse ela à professora. — Espero que não tenha problema.
— Shipley colocou o cabelo para trás da orelha e pensou em
onde se sentaria. Eliza estava bem no fundo, espremida entre
três meninas que vestiam camisetas cor-de-rosa iguais.
— Sente aqui! — Dois meninos se afastaram um do outro, abrindo um espaço mais do que suficiente para ela. Um
deles tinha a mesma bata J. Crew cor de aveia que ela havia
comprado como saída de praia no verão anterior. As abas
do gorro de lã mal cobriam os fones do walkman. O outro
menino estava de bermuda tactel azul e tinha de se abaixar
para não bater a cabeça quase raspada no teto da van.
Shipley afundou no banco enquanto a van saía do estacionamento e descia a colina em direção à cidade. O vento
quente e forte entrava pelas janelas abertas, soprando seu
cabelo louro para trás.
— Essa brisa é tão boa! — exclamou uma das meninas no
banco de trás.
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— Incrível! — concordou a amiga.
— Demais! — completou a terceira.
— Olhe, meu nome é Tom. — O mauricinho grandalhão
estendeu a mão direita para Shipley. — De Bedford — acrescentou ele, pressupondo que Shipley saberia do que ele estava falando. E ela sabia. Bedford, Nova York, era o primo de
segundo grau de Greenwich, em Connecticut. Era terra de caçadas, cavalos e cães farejadores. Shipley cavalgara em Bedford quase todo fim de semana enquanto seu velho pônei
ainda era saudável. — E este aqui é o Nick. — Tom olhou
para o outro menino. — Nem tente chamá-lo de Nicholas.
Eu fiz isso e ele quase me deu uma dentada no saco.
— Ei! — gritou a professora Rosen do volante.
Eliza bufou e chutou o encosto do banco de Shipley. Nick
soltou um riso forçado.
— Sou Nick — disse em voz alta. Ele tirou os fones e se
inclinou para Shipley. Tinha certo cheiro de manjericão. —
Sabe a pessoa que está dirigindo, nossa escrupulosa liderança? — cochichou ele.
Shipley riu.
— O que tem ele?
— Ele é ela — cochichou Tom no outro ouvido. — Mas
parece uma sapata.
— O nome dela é professora Darren Rosen — continuou
Nick. — Tenho certeza absoluta de que ensina inglês no primeiro ano.
Eliza olhou pela janela enquanto entreouvia a conversa. Na verdade, vira Tom e Nick se empertigarem quando
Shipley entrou na van. Eles congelaram, como cães de caça
excitadinhos. O pai dela tivera dois springer spaniels que
usava para caçar patos. Ela reconhecia o comportamento.
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A van parou num sinal e um corredor pálido e magrelo
passou por eles, a camiseta de basquete marrom da Dexter batendo frouxa nas pernas. Tom se lembrou da famosa
pintura de Salvador Dalí de relógios pingando. Ele estava
correndo há tanto tempo que derretia.
— Atenção, pessoal! — anunciou a professora Rosen. —
Estamos prestes a atravessar o rio Kennebec. Nosso acampamento fica três quilômetros rio abaixo. Se alguém quiser
fazer xixi, ache um lugar longe do rio. Vamos ter Miojo no
jantar. Vocês vão comer muito Miojo neste inverno, então,
por que não começar a se acostumar agora?
— Ai. Eca! — gemeram as três meninas de camiseta corde-rosa num coro desanimado no banco traseiro.
Passou uma fazenda. Um trailer. Um celeiro destruído.
Mais trevos, mais margaridas, mais abelhas zumbindo. Vacas imóveis piscaram para a van, os insetos pairando em nuvens sobre suas cabeças.
— Caramba. Viu aquilo? Toda essa região é deprimente
como o inferno — queixou-se Tom.
— Ei, cara — replicou Nick. — Pessoas moram aqui. E
eles devem nos odiar, sabia? Garotos ricos da cidade indo
para a faculdade na cidade deles? Jogando lixo em suas fazendas? Aumentando o preço do bacon, do café e sei lá do
que mais.
Nick podia sentir os lóbulos das orelhas corarem em
um tom de rosa-escuro. Puxou as abas do gorro para baixo e olhou constrangido para Shipley, que estava ocupada
fingindo olhar sonhadoramente pela janela enquanto, secretamente, admirava os tríceps volumosos de Tom. Eliza
continuava a encarar o crânio volumoso de Tom, ao passo
que Tom se maravilhava ao ver o sol refletido nos pelinhos
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louros no alto das coxas de Shipley, fazendo-os cintilar. A
van pegou uma antiga estrada de cascalho que levava diretamente para o bosque. Passou em alta velocidade por um
buraco, movimentando os passageiros enquanto as árvores
os envolviam.
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Auniversidade é para os apaixonados. Pelo menos