Saneas SUMÁRIO ISSN 1806-4779 4 APRESENTAÇÃO Saneas é uma publicação técnica quadrimestral da Associação dos Engenheiros da Sabesp AESABESP DIRETORIA EXECUTIVA Eliana Kazue Irie Kitahara / Presidente Amauri Pollachi / Vice-Presidente Cecília Takahashi Votta / 1ª. Secretária Aram Kemechian / 2º. Secretário Choji Ohara / 1º. Tesoureiro Emiliano Stanislau de Mendonça / 2º. Tesoureiro DIRETORIA ADJUNTA Carlos Alberto de Carvalho / Diretor de Marketing Gilberto Alves Martins / Diretor Técnico Cultural Ivan Norberto Borghi / Diretor de Esportes Ivo Nicolielo Antunes Junior / Diretor de Pólos Hiroshi Ietsugu / Diretor de Pólos da RMSP Viviana Marli N. Aquino Borges / Diretora Social CONSELHO DELIBERATIVO Alípio Teixeira dos Santos Neto, Cid Barbosa Lima Jr., Getúlio Martins, Gilberto Alves Martins, Ivo Nicolielo Antunes Jr., José Márcio Carioca, Luiz Yukishigue Narimatsu, Magali Scarpelini Mendes Pereira, Milton Oliveira, Nelson Luiz Stábile, Nizar Qbar, Reynaldo Eduardo Young Ribeiro, Viviana Marli N. Aquino Borges, Yazid Naked CONSELHO FISCAL Benedito Felipe Oliveira Costa, Luciomar Santos Werneck, Luis Henrique Werebe FUNDO EDITORIAL Equipe responsável pela Saneas: Getúlio Martins (Coordenador) Ana Lúcia Silva, Armando Flores, Cláudia Nakamura, Corina Ribeiro, Darcy Brega Filho, Jairo Tardelli Filho, José Antônio Oliveira de Jesus, Luiz Carlos Helou, Paulo Ernesto Marques da Silva e Sílvio Leifert. Odair Marcos Faria (fotógrafo colaborador) JORNALISTA RESPONSÁVEL: Ana Holanda Mtb 26.775 ARTE E PRODUÇÃO GRÁFICA: Formato Artes Gráficas ([email protected]) IMPRESSÃO: Editora Parma TIRAGEM: 2.500 exemplares AESABESP Associação dos Engenheiros da Sabesp Rua 13 de maio, 1.642 – casa 1 01327-002 - São Paulo, SP Fone (11) 3284 6420 – 3263 0484 Fax (11) 3141 9041 www.aesabesp.com.br [email protected] 5 EDITORIAL 6 CARTAS PONTO DE VISTA 7 Desenvolvimento e sustentabilidade em contradição 8 O Brasil que queremos P&D 10 Ecologia industrial e o reúso da água MATÉRIA DE CAPA 14 Desenvolvimento sustentável: um ideal possível e necessário ARTIGOS TÉCNICOS 20 Implantação do sistema de informações geográficas na Sabesp 26 O mosquito das águas poluídas MEIO AMBIENTE 32 Sistema de gestão ambiental em estações de tratamento de esgoto: o caso da ETE Remédios ENTREVISTA 36 Simone Ramounoulou EMPREENDIMENTO E GESTÃO 38 Desenvolvimento sustentável: algumas contradições, muitas esperanças CONEXÃO INTERNACIONAL 41 O Japão e seu meio ambiente INOVAÇÃO 42 Padronização do ramal predial de água como elemento de controle de perdas reais HISTÓRIA DO SANEAMENTO 45 Arqueologia da água (parte 1) COMUNIDADE 47 Sustentabilidade do planeta 50 Cada um por si e todos pelo Macacos! Foto-montagem a partir de fotos de Odair Faria 51 AESABESP Saneas / dezembro 2004 – 3 apresentação A chave de um futuro melhor N esta quarta edição de 2004 continuamos com a proposta de provocar nossos leitores, propondo temas que nem sempre estão incluídos na agenda do setor saneamento básico, mas que precisam ser considerados, como é o caso da sustentabilidade planetária. Em face do enorme benefício que nossas atividades propiciam à saúde das pessoas e do Reunião do Fundo Editorial da AESABESP: Corina, Tonico, Ana, Cláudia, Darcy, Jairo, Getúlio, Carlos e Ana Lúcia (sentada). meio ambiente, precisamos participar dessa discussão e propor alternativas para o desenvolvimento, que inclua as dimensões social e ambiental, além da econômica que se mantém hegemônica desde o enfraquecimento do modelo socialista frente às opções neoliberais. O Editorial da nossa Presidenta e os Pontos de Vista de Leonardo Boff e Mário Humberg, respectivamente, teólogo e empresário, dão bem o tom e mostram o nível em que queremos discutir essa questão. Na seção P&D, Giannetti e col. mostram analogias entre os processos industriais e os ecossistemas, enfatizando a importância do reúso da água. Os artigos técnicos, que foram reduzidos para dois, tratam com profundidade os impactos da implantação do Sistema de Informações Geográficas (GIS) na Sabesp e o risco de expansão da encefalite provocada pelo Vírus do Nilo Ocidental, disseminada pelo Culex, um tipo de mosquito que se prolifera nas águas estagnadas e poluídas, como são as dos nossos rios represados pelo lixo e poluídos pelos esgotos. Na seção Meio Ambiente, apresentamos os 4 – Saneas / dezembro 2004 benefícios auferidos pela implantação do Sistema de Gestão Ambiental (SGA) na Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) Remédios, no município de Salesópolis, região de mananciais próxima à Região Metropolitana de São Paulo. Independente do processo de tratamento escolhido e da certificação ISO 14001, o SGA é uma importante ferramenta que pode ser estendida às demais ETE do país. Tayra e col. mostram contradições e esperanças em relação ao desenvolvimento sustentável, na seção Empreendimento e Gestão, contribuindo com fundamentos importantes para a discussão proposta na matéria de capa. O leitor vai perceber, também, que procuramos enfocar, na seção Comunidade, a sustentabilidade segundo uma visão global apresentada pela Monja Coen, que associa preservação do Planeta a um dos pilares da Cultura de Paz. Por outro lado, Makray relata o que vem sendo feito na Antiga Fazenda da Conceição, em Lorena, no estado de São Paulo, para recuperação da mata ciliar e cultivo de agricultura e pecuária orgânicas. No contexto de uso racional com vistas à sustentabilidade, em Inovação, Chama Neto e col. discorrem sobre a padronização de ramais prediais de água como elemento de controle de perdas reais. Para a História do Saneamento convidamos Dalmo e Filo para contar a primeira parte da evolução tecnológica do abastecimento de água na cidade de São Paulo, do século 16 ao 19. Não deixe de ler. Desde a edição anterior, nossa revista conta com o registro no cadastro internacional de periódicos, o International Standard Serial Number (ISSN). Essa iniciativa valoriza a Saneas e representa um passo inicial para futura indexação da publicação em conceituadas bases de dados. A partir desta edição, coerente com os conceitos de sustentabilidade, a impressão será feita sobre papel reciclado. Os artigos recebidos e não publicados foram incluídos em um banco de futuras edições. Finalmente, um abraço fraternal no aguardo das sugestões e críticas para melhorar sempre. Desejamos a todos um Natal muito feliz e um bom Ano Novo. Esperamos ter contribuído para a geração de novas idéias em sua mente, neste ano que termina. Não esqueça. “Uma mente ampliada com essas novas idéias, jamais retorna ao tamanho inicial” 1. 1 Há dúvidas sobre o autor dessa frase, se Albert Einstein ou Oliver Wendel Holmes. editorial Desenvolvimento sustentável Eng. Eliana Kazue I. Kitahara Presidenta da AESABESP O lançamento desta edição da Revista Saneas mais uma vez é motivo de orgulho para nossa Associação, pela importância, qualidade e diversidade dos assuntos publicados. A matéria de capa trata das condições para a sustentabilidade do Planeta. Os demais artigos apresentam diferentes visões sobre esse tema de fundamental importância para a sobrevivência da espécie homo sapiens sapiens. O nosso Planeta, de 15 bilhões de anos, já suportou muitas transformações pela sua capacidade de auto-produção, ao contrário da diversidade biológica que, há 3,5 bilhões de anos, se renova a cada grande catástrofe planetária. Frágil é a nossa espécie. Assim sendo, há que se cuidar dela. Isso só é possível em um ambiente de desenvolvimento que inclua os diversos segmentos sociais, que seja sustentável do ponto de vista ambiental, seguro economicamente, com democracia estável e ética respeitada por todos, conforme Mário Humberg sugere na seção Ponto de Vista e Henrique Ratner enfatiza ao se referir ao enorme contingente de excluídos. Condição essencial para que isso aconteça é compreender a capacidade de auto-recuperação dos ecossistemas, a fim de se possibilitar sempre a recuperação dos recursos naturais. Por outro lado, a revisão de valores, incluindo os hábitos de consumo, é fundamental para a abertura do funil formado por duas exponenciais: a redução dos recursos naturais e o aumento da demanda. Ambos pressionados pelo crescimento populacional e pela globalização dos costumes imposta pelos países hegemônicos. O saneamento básico, nosso setor de atividade, representa um dos instrumentos mais poderosos de fomento ao desenvolvimento sustentável. Leva benefícios às pessoas de todas as camadas sociais, alguns talvez nunca chegassem à maioria da população, como o flúor para a prevenção de cáries em pessoas de todas as idades, conforme mostrado na edição anterior desta Revista. Quando os pescadores de Anhembi, município do Estado de São Paulo, puderam retornar à pesca no rio Tietê, não faziam idéia do trabalho que estava sendo feito a montante do rio, para diminuir a degradação da água e conseqüente recuo da mancha de esgotos formada na Região Metropolitana de São Paulo. Na outra ponta, talvez nossos engenheiros também não soubessem dos enormes benefícios que estavam proporcionando aos pescadores de Anhembi. Causa e efeito nem sempre estão próximos como mostra esse exemplo dado pelo Engenheiro Vanzo, entrevistado da matéria de capa. É assim na natureza. As coisas estão interligadas, “como o sangue que corre em nossas veias”, conforme expressão do Chefe Seattle. A partir da publicação da “Última Primavera” de Rachel Carson, em 1962, foi tomando corpo, na opinião pública, a consciência do cuidado que se precisa ter com o nosso Planeta, apesar da hegemonia do pensamento econômico que visa o crescimento exponencial em todos os setores de atividades, principalmente o industrial, convergindo para o interesse exclusivo da espécie homo em detrimento das demais, rompendo o equilíbrio necessário para a conservação da biosfera. Em 1972 discutiu-se a necessidade do Controle da Poluição, em Estocolmo. Na década seguinte, foi a vez do Planejamento Ambiental. Em 1992, no Rio de Janeiro, já se falava em Desenvolvimento Sustentável. Somente há dois anos, em Joanesburgo, o ser humano foi incluído na agenda, ao se tratar da redução da pobreza, além do Desenvolvimento Sustentável. No ambiente corporativo, atualmente, dois pilares sustentam a estratégia das empresas: a responsabilidade social corporativa e a ecoeficiência. Já está provado que a sobrevivência da corporação depende do seu relacionamento transparente e cooperativo com: colaboradores, fornecedores, comunidades e poder público, além dos acionistas. A ecoeficiência, por sua vez, pressupõe gestão empresarial associada à ambiental. Exemplo disso é o Índice de Sustentabilidade que considera esses fatores na cotação das ações das empresas, nas Bolsas de Valores, do mundo todo. Por fim, agradecendo à equipe do Fundo Editorial e aos colaboradores da Saneas, esperamos contribuir para a reflexão dos nossos leitores e levar à construção de um mundo melhor, agora e no futuro. Saneas / dezembro 2004 – 5 Cartas ■ Agradeço o envio da última edição da revista Saneas. Fiquei contente com a qualidade dos artigos e o formato da revista que possibilita um número maior de informações em função do tamanho dos mesmos. Aproveito para cumprimentar a todos que a tornam possível, em especial o meu amigo Tonico. José Manoel de Moraes Junior ■ Estou concluindo curso de pós-graduação, nível mestrado, com o tema uso racional e eficiente de energia elétrica em obras de saneamento, e para tanto gostaria de publicar um resumo do meu trabalho. Peço que oriente como devo proceder para tal. Grato. Fernando Carvalho A orientação para os artigos podem ser obtidas no endereço: www.aesabesp.com.br. ■ Parabéns à equipe editorial da Revista Saneas. Os artigos são “bárbaros”!!! Rosana Maria Henrique Agradecemos a manifestação. ■ A Biblioteca Campus Norte da UNIP, que no começo deste ano passou à atender aos alunos e professores dos cursos de arquitetura, enfermagem, fisioterapia, educação física e farmácia, gostaria de receber desta Instituição a Revista Saneas em doação. Desde já, deixo claro que o material será de grande utilidade para os nossos usuários. Edileuza Basilio Myoshi Bibliotecária Setorial UNIP Campus Norte Seu exemplar será enviado. ■ Aqui no Unesco-IHE Institute for Water Education, localizado em Delf, na Holanda, há um grupo trabalhando para colher informações de todos os meios de comunicação especializados em água, no mundo. Gostaria que me mandasse os dados da Saneas e de outras revistas como a BIO, da ABES, para que eu mande a esse grupo para cadastro. Obrigada, um grande abraço. Mara Ramos A Revista Saneas será enviada para o endereço indicado. Comunicaremos sua solicitação para a BIO. Ponha seu produto em destaque, anuncie na revista Saneas Saneas As solicitações de assinatura da revista SANEAS deverão ser encaminhadas para a Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESABESP) no endereço [email protected]. Deverão constar nome, e-mail, endereço, CEP, cidade e estado do assinante. Valor: R$ 90,00 por 6 edições. Envie seus comentários, críticas ou sugestões para o Fundo Editorial da AESABESP pelo endereço [email protected] AGRADECIMENTOS Henrique Ratner Fernando Almeida Giovanni Barontini Tânia Gassi Ricardo Young Ricardo Prata Camargos Israel Klabin Rubens Born Paulo Nogueira-Neto José Everaldo Vanzo Simone Ramounoulou ERRATA: No número anterior a foto da capa é da represa Cachoeira da Graça, pertencente ao sistema Alto Cotia e não da represa Pedro Beicht, como foi publicado. Ainda no número anterior, faltaram os créditos das resenhas, na página 48 que são de Luiz Carlos Helou e, na página 49, que é de Marcelo Kenji Miki. 6 – Saneas / dezembro 2004 OPINIÃO PONTO DE VISTA Desenvolvimento e sustentabilidade em contradição Leonardo Boff A trás da expressão desenvolvimento sustentável se escondem oportunidades e também equívocos perigosos. Não podemos falhar com respeito ao tema, pois suas conseqüências podem ser desastrosas para o futuro da Terra e da Humanidade. Podemos abordar a questão em dois níveis. Um estritamente teórico-conceptual, construindo o conceito. Essa diligência não é sem sentido pois orienta as práticas e evita Leonardo Boff é teólogo e mal-entendidos. escritor, autor de vários livros Outra, é uma abordagem ligados à ecologia integral como prática, partindo do processo Ecologia: grito da Terra, grito dos real daquilo que chamamos, pobres (Sextante, Rio 2004). usualmente, desenvolvimento. Na linguagem política das empresas e dos governos, desenvolvimento é entendido como aumento do Produto Interno Bruto (PIB), crescimento econômico, modernização industrial, progresso tecnológico, aumento da renda das empresas e das pessoas. Ai da empresa e do país que não mostrem taxas positivas de crescimento anuais. Entram em estagnação, crise, falência e suscitam a ameaça de desestabilização social. Avancemos já agora algumas observações críticas. O que mais chama a atenção é a perspectiva quantitativa e antropocêntrica. Não toma em consideração os demais seres vivos com os quais somos interdependentes, formando a biosfera. Por isso este tipo de desenvolvimento, dificilmente pode ser sustentável. Diria mais, ele representa uma contradição, um equívoco e uma ilusão. Ele encarna uma contradição, pois os dois termos desenvolvimento e sustentável – se negam mutuamente. A categoria desenvolvimento provém da área da economia dominante, que é capitalista. Obedece à lógica férrea da maximização dos benefícios com a minimização dos custos e o encurtamento maior possível do tempo empregado. Procura-se extrair da Terra, literalmente, tudo o que é consumível, sendo apropriado privadamente. O resultado é uma produção fantástica de bens materiais e serviços, mas distribuídos sem equilíbrio, sem justiça social mundial. A categoria sustentabilidade provém do âmbito da biologia e da ecologia. Ela traduz a tendência dos ecossistemas ao equilíbrio dinâmico, à cooperação e à co-evolução e responde pelas interdependências de todos com todos, garantindo a inclusão de cada ser, até dos mais fracos. Se esta é a compreensão, então unir esse conceito de sustentabilidade com o de desenvolvimento configura uma contradição nos próprios termos. Eles têm lógicas que se auto-negam: uma privilegia o indivíduo e a outra o coletivo; uma enfatiza a competição e a outra a cooperação; uma a evolução do mais apto e a outra a coevolução de todos juntos e inter-relacionados. Além disso o desenvolvimento sustentável, dentro do modo de produção capitalista, representa um equívoco. Sim, pois, aduz como causa aquilo que é efeito. Diz-se que a pobreza é a causa da degradação ecológica. Portanto, quanto menos pobreza e mais desenvolvimento menos degradação. Analisando criticamente, porém, as causas reais da pobreza e da degradação, vê-se que resultam exatamente do tipo de desenvolvimento praticado. Ele é que produz degradação, pois dilapida a natureza em seus recursos, é consumista e explora a força de trabalho, gerando pobreza e exclusão social. É por esta razão que a utilização política da expressão desenvolvimento sustentável representa uma armadilha do sistema imperante: assume os termos da ecologia (sustentabilidade) para esvaziá-los e assume o ideal da economia (o desenvolvimento) mascarando, porém, a pobreza que ele mesmo produz. Por fim, a fórmula desenvolvimento sustentável no quadro da economia dominante capitalista significa uma ilusão. Postula-se um desenvolvimento que se move entre dois infinitos: o infinito dos recursos da Terra e o infinito do futuro. Ora, os dois infinitos são ilusórios: os recursos da Terra são finitos e o futuro humano é limitado, por não poder ser generalizado para toda a humanidade. Se a Índia quisesse ser como a Inglaterra, precisaria de duas Terras para explorar, como já dizia ironicamente Gandhi, por volta de 1950. Entender tal equívoco é entender o porquê Saneas / dezembro 2004 – 7 Ponto de Vista das desigualdades mundiais. A categoria mestra deve ser sustentabilidade, livre de seu condicionamento capitalista e não desenvolvimento considerado em si mesmo. A sustentabilidade deve ser garantida, primeiramente, à Terra, à humanidade como um todo, à sociedade e a cada pessoa. Essa é a pré-condição sem a qual não há o desenvolvimento sustentável. A consciência crítica se expressou mundialmente em 1972 com os resultados do Clube de Roma sobre o estado da Terra. Aí ficou claro o lado destrutivo do tipo de desenvolvimento dominante. Para corrigilo, acrescentaram-se ao desenvolvimento os adjetivos: humano, social, integral, sustentável. Esse adjetivo sustentável é o acertado, não obstante as contradições que seu uso político encerra. A declaração da ONU sobre o Direito dos Povos ao Desenvolvimento, de 1993, nos ajuda a entender a sustentabilidade, pois entende o desenvolvimento numa perspectiva integral: “e o processo econômico, social, cul- tural e político abrangente, que visa ao constante melhoramento do bemestar de toda a população e de cada indivíduo, na base da sua participação ativa, livre e significativa no desenvolvimento e na justa distribuição dos benefícios resultantes dele”. Nós acrescentaríamos ainda as dimensões psicológica e espiritual. Aqui, se supera visão de quantidade e se visa a qualidade. Devemos agora distinguir crescimento de desenvolvimento. Crescimento obedece à estratégia das células cancerígenas que, desligadas do sistema global do organismo, vão conquistando autonomia até predominar e assim levar o paciente à morte. Desenvolvimento obedece à estratégia do embrião: ele também cresce, mas dentro do todo, colocando cada órgão no seu lugar, na devida quantidade de energia e hormônios e no seu devido tempo. Esse desenvolvimento é naturalmente sustentável porque acontece em equilíbrio com todos os fatores. Uma sociedade é sustentável quando consegue atender às suas necessidades, mantendo o capital natural com sua capacidade de reposição e ainda garantindo as condições para que as gerações futuras possam também atender a suas demandas. Somente este tipo de desenvolvimento pode ser considerado sustentável. Para isso ele postula uma superação histórica do capitalismo e da ideologia política do neo-liberalismo. Ao permanecerem hegemônicas estas duas realidades sociais, entrega-se a Terra e a Humanidade a um destino precário e a um futuro duvidoso e perigoso. Poderemos ir ao encontro do pior. A questão agora não é mais de desenvolvimento, mas de política: buscar caminhos que vão criando alternativas mais benfazejas para a Terra e para a Humanidade, quer dizer, mais sustentáveis. Por fim, o ideal é chegarmos a um modo sustentável de vida, bom para nós e para toda a cadeia da vida, desde os microorganismos, passando pelos vegetais e animais, até os mais complexos, que somos nós mesmos. ■ O Brasil que queremos Mário Ernesto Humberg A 1º Coordenador Geral do PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais), presidente da CL-A Comunicações e autor do livro “Ética na política e na empresa” 8 – Saneas / dezembro 2004 necessária transformação do país que temos no país que queremos exige uma visão de longo prazo, baseada em princípios e valores gerais, que possibilitem a definição de metas claras, dos meios necessários, de cronogramas de execução e formas de acompanhamento, para atingir resultados eficazes. Foi o que fizeram outros países que alcançaram êxito em seu desenvolvimento, entre os quais Coréia do Sul, Taiwan, Portugal, Espanha e Irlanda. Com esse objetivo, o PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais), lançou em 2003, o projeto brasil 2022, tendo como horizonte o aniversário de 200 anos de nossa Independência e, como visão, chegar lá como um país socialmente justo, economicamente forte, ambientalmente sustentável, democraticamente estável e eticamente respeitável. É um objetivo ambicioso, mas certamente possível, se houver mobilização da sociedade para que as transformações de fato ocorram. Além de comporem a visão de futuro do Projeto Brasil 2022, esses cinco focos se constituem em linhas gerais para pautar as ações de gover- Pesquisa & Desenvolvimento nos, empresas, entidades, sociedade e pessoas individualmente. Assim, em todas as áreas em que é preciso atuar para transformar o Brasil que Temos no Brasil que Queremos, é preciso sempre perguntar antes de qualquer projeto ou iniciativa: trata-se de uma decisão que nos levará a uma sociedade socialmente justa; ajuda no desenvolvimento econômico; é ambientalmente sustentável; reforça nosso sistema democrático; colabora para uma postura ética? O Projeto Brasil 2022 dividiu em oito macro áreas os campos de atuação para a mudança e está propondo que a sociedade civil, por meio de suas associações, promova a criação de grupos de trabalho para identificar com clareza a situação atual, os objetivos a atingir e como se pode efetuar a transformação, com o PNBE colaborando na metodologia e na articulação para que esse trabalho ocorra. Essas oito macro áreas, em que são necessárias mudanças, são: 1. Necessidades básicas: educação, saúde, saneamento, habitação, alimentação, mobilidade, aposentadoria, proteção social 2. Necessidades para construir o futuro: ciência, tecnologia, preservação ambiental, biodiversidade 3. Geração de emprego e renda: setores industrial, agrícola, comercial, financeiro, serviços, turismo, logística, infra-estrutura 4. Estrutura pública: organização política, estrutura e papel do estado, tributos e serviços públicos, privatização, regulação 5. Estrutura legal e comportamental: legislação, sua aplicação e justiça, ética 6. Informações e lazer: mídia, cultura, arte, musica, literatura, lazer, esporte 7. Atenção especial: infância, juventude, minorias, equilíbrio regional 8. Inserção internacional: cultural, econômica, acordos. Algumas metas para as mudanças são relativamente fáceis de definir e esse foi um dos primeiros trabalhos do PNBE, ao lado de buscar a cooperação de outras entidades da sociedade civil, ouvir personalidades que possam trazer idéias e buscar a criação de uma infra-estrutura para reunir sugestões. Por exemplo, fixou-se como uma das metas ter toda a população nascida depois de 2000 com pelo menos 12 anos de escolaridade ao completar 21 anos, a partir de 2022. Isso significa que, em 2007, é preciso que todas as crianças de seis anos estejam matriculadas na pré-escola e que tenham condições de nela permanecer até completar os 11 anos, correspondentes ao 1º e 2º graus. Atingir essa meta depende exclusivamente da pressão da sociedade e da mídia sobre os governantes, a partir de agora, uma vez que já existe a maior parte da infra-estrutura necessária. Na área ambiental, o grupo de trabalho formado já sugeriu algumas metas, como em 2022 termos 80% do esgoto e dos resíduos sólidos coletados e tratados, o fornecimento de água potável a 100% das residências, a regularização dos cursos d´água, a reciclagem e reúso da maior parte da água industrial, a total despoluição dos rios. São metas que atendem ao desejo de sustentabilidade, mas que também contribuirão de maneira efetiva para a melhoria social pela redução de doenças, e que vão gerar empregos e renda. O mais importante é que são factíveis, se definirmos logo o modelo institucional do setor, fixando as responsabilidades e competências dos três níveis de governo, das empresas privadas e a forma de fiscalização e controle pela sociedade. Já temos uma boa base tecnológica e organizacional, com 96% da população de São Paulo e 83% da brasileira abastecida com rede de água, embora apenas 46% do esgoto seja coletado, e só parte deste volume tratado. Certamente juntos podemos efetuar as transformações necessárias, passando o índice de desenvolvimento humano dos 0,777 atuais para 0,900 (o de Portugal), que já é superado em vários municípios, transformando nossa péssima distribuição de renda, medida em 65 pelo Índice de Gini para 30 (o da Itália), reduzindo à metade o nível de mortalidade infantil, criando uma Justiça mais rápida e acessível, uma representação política mais barata, correta e próxima do eleitor, gerando trabalho e renda que reduzam a informalidade e o desemprego, e atingindo outros objetivos necessários ao desenvolvimento sustentável do Brasil, já alcançados por países, que nos anos 50, estavam em situação muito mais precária do que nós. Essa é proposta, para a qual contamos com a adesão da sociedade brasileira, trazendo idéias, sugestões, indicadores, cronogramas e formas de criar até 2022 o país que queremos. ■ Saneas / dezembro 2004 – 9 PESQUISA & DESENVOLVIMENTO Ecologia industrial e o reúso da água Biagio Fernando Giannetti , Devanil Borges Júnior e Cecília M. Villas Boas de Almeida A A partir da esquerda: Biagio, Devanil e Cecília s atividades humanas são as maiores responsáveis pela dispersão de substâncias tóxicas no meio ambiente, tornando-se urgente e necessário promover mudanças na forma de tratar os problemas ambientais. Remediar e controlar os poluentes tornou-se insuficiente, sendo necessário direcionar os esforços no sentido de reduzir e, principalmente, prevenir o descarte de substâncias nocivas no ambiente. Nas últimas décadas, conceitos foram desenvolvidos como resposta a pressões exercidas tanto pelo próprio meio ambiente como pela sociedade. Produção Mais Limpa (P+L) e Ecoeficiência (EE) são conceitos fortemente ligados, no sentido de gerar benefícios tanto para a empresa, como para o ambiente. Na EE há uma ligação direta entre o desempenho ambiental e o desempenho financeiro, sendo o principal objetivo utilizar as reservas naturais de forma eficiente. Já a P+L tende a centralizar o foco na maior eficiência no uso de materiais, energia, processos e serviços. Dessa forma, o consumo de reservas naturais é minimizado, assim como a poluição e a quantidade de resíduos, trazendo, como conseqüência, benefícios econômicos e ambientais. Esse enfoque preventivo mostrou que se pode obter benefício econômico e, ao mesmo tempo, minimizar a poluição. As práticas de P+L e EE já estão disseminadas em várias empresas e têm como principal característica a avaliação detalhada de todas as etapas de um processo, a fim de otimizá-lo. As ações para categorizar todas as operações de uma indústria e acompanhar todos os passos de fabricação de um produto acabam, inevitavelmente, levando a um conhecimento profundo de cada sistema, permitindo, principalmente, a análise das interações do produtor com outras partes interessadas, sejam elas fornecedores, consumidores de subprodutos ou consumidores finais, ou seja, o Metabolismo Industrial. Nesse contexto, a analogia entre sistemas industriais e ecossistemas vem ganhando força e levando a considerações sobre as interações do sistema com o meio ambiente, por meio da Ecologia Industrial (EI) (Fig. 1). A analogia com os ecossistemas permite um passo além: fechar os ciclos de materiais e energia com a formação de uma ecorrede (Fig. 2) que “imita” os ciclos biológicos fechados. A EI propõe, portanto, fechar os ciclos, considerando que o sistema industrial não apenas interage com o ambiente, mas que é parte dele e dele depende. A EI é uma nova abordagem que, com menos de três décadas, já se encontra amplamente reconhecida pela forma sistêmica com que analisa a antroposfera, seus produtos, resíduos e a interação destes com o meio ambiente. Nesse sentido, o sistema industrial e o de serviços serão planejados e deverão operar como um sistema biológico dependente do sistema natural. O desenvolvimento da EI pretende oferecer um quadro conceitual para interpretar e adaptar a compreensão do sistema natural e aplicar essa compreensão aos sistemas antropogênicos. Busca assim alcançar um padrão de desenvolvimento que seja não só mais eficiente, mas também intrinsecamente ajustado às tolerâncias e características do sistema natural. Essa abordagem envolve (Allenby, 1999): • A criação de ecossistemas industriais, com ênfase na ciclagem do material no sistema, na otimização do consumo de energia, na minimização do resíduo gerado e na reavaliação dos resíduos como matérias-primas, Professor titular do ICET e do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Paulista – UNIP. Coordenador do LaFTA (Laboratório de Físico-Química Teórica e Aplicada). E-mail: [email protected]. Pesquisador do LaFTA (Laboratório de Físico-Química Teórica e Aplicada). E-mail: [email protected]. Professora titular do ICET e do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Paulista – UNIP. Pesquisadora do LaFTA. E-mail: [email protected]. 10 – Saneas / dezembro 2004 • • • • • que seriam utilizadas, se possível, dentro do próprio sistema. Controle dos materiais retirados da natureza e dos resíduos descartados no ambiente, preservando as reservas naturais e eliminando o despejo de substâncias tóxicas. Desmaterialização dos produtos e diminuição do consumo de energia. Simplificação dos processos industriais, se possível, imitando os processos naturais, altamente eficientes. Promoção do desenvolvimento de novas fontes de energia, amigáveis ao meio ambiente e provenientes de reservas renováveis. Promoção da integração entre empresas, regiões e países para desenvolver programas de caráter ambiental . Na EI, o objeto de estudo é a inter-relação entre empresas, entre seus produtos e processos em escala local, regional e global (Fig. 2). Porém, mais importante, é o estudo das interações entre os sistemas industrial e ecológico e, conseqüentemente, os efeitos ambientais que estas empresas causam tanto nos componentes bióticos, como nos abióticos da ecosfera. Analisando as empresas individuais como subsistemas de uma ecorrede, observa-se que os limites de cada empresa aumentam, passam pelo ambiente e pelos serviços necessários para seu funcionamento. O objetivo da EI neste contexto é estabelecer o total uso/reúso de reservas para que o sistema não descarte nenhum resíduo, ou seja, emissão-zero. Utilizando a análise sistêmica proposta pela EI, pode-se utilizar algumas ferramentas poderosas como o primeiro princípio da termodinâmica, que possibilita o balanço de materiais e energia dos sistemas. Outra implicação é que os materiais extraídos do ambiente natural para a produção de bens e serviços devem, certamente, retornar ao ambiente de forma degradada. Muitas das ferramentas desenvolvidas para avaliação de manufaturas e produtos podem ser adaptadas para qualquer tipo de sistema de produção ou serviços. Entre essas ferramentas, podemos citar a avaliação de ciclo de vida e o projeto para o meio ambiente (Graedel e Allenby, 1995). Ferramentas desenvolvidas inicialmente para avaliar os sistemas naturais, como a análise emergética, também, podem ser adaptadas com grande sucesso (Odum, 1996). Esta metodologia oferece grandes vantagens: (i) permite contabilizar recursos naturais (renováveis e não-renováveis) e ECOLOGIA INDUSTRIAL metabolismo industrial produção mais limpa - ecoeficiência prevenção à poluição reciclagem tratamento S U S T E N TA B I L I D A D E Pesquisa & Desenvolvimento descarte reativo proativo aqueles provenientes da economia com a mesma unidade (seJ, joules de energia solar) e (ii) a obtenção de indicadores quantitativos, que permitem a comparação entre os mais variados sistemas. Avaliação do reúso de água sob a ótica da EI Para ilustrar a relação entre a EI e a utilização da água, pode-se citar o exemplo da lavagem de veículos de transporte coletivo. Este serviço, apesar de simples, consome grandes quantidades de água, um recurso natural. Nos processos convencionais de lavagem de ônibus, a água utilizada provém da rede pública ou de poços artesianos e é descartada após utilização em corpos d' água (Fig. 3a). Uma das empresas, porém, utiliza um sistema de captação de águas pluviais. A água captada é armazenada em um reservatório, sendo utilizada juntamente com a água retirada do poço artesiano na lavagem dos ônibus. Toda a água, depois de utilizada, é enviada para uma estação de tratamento de efluentes (ETE), para então ser novamente reutilizada na lavagem dos ôni- Figura 1 Estratégias para reduzir os impactos ambientais. Figura 2 Representação de uma ecorrede, mostrando a otimização dos fluxos de materiais/ energia devido à formação da rede. Os fluxos de produto não estão representados, somente aqueles que caracterizam uma ecorrede. Saneas / dezembro 2004 – 11 Pesquisa & Desenvolvimento Figura 3 Diagramas de energia do processo de lavagem de veículos urbanos: (a) sistema convencional e (b) sistema com captação de água de chuva e reúso de água. (a) (b) bus, fazendo com que o sistema se aproxime de um ciclo fechado (Fig. 3b). A empresa que utiliza este processo de lavagem alternativo economiza no consumo de água e no pagamento da taxa de esgoto, tornando-se, assim, mais competitiva no mercado, apesar do investimento em obras civis, compra de equipamentos, monitoração da qualidade da água e manutenção do sistema. A análise emergética permite verificar se a empresa faz captação de águas pluviais e o reúso da água, além de contribuir para a diminuição do desperdício da água doce, também contribui efetivamente para a sustentabilidade do meio ambiente. O principal objetivo da EI é transformar o caráter linear do sistema industrial em um sistema cíclico, no qual matérias-primas, energia e resíduos sejam sempre reutilizados. A criação de ecossistemas industriais, com ênfase na ciclagem do material no sistema, pode ser associada às práticas de P+L e é essencial no caminho da EI. Entretanto, mais importante é a possibilidade de se avaliar quantitativamente os resultados obtidos. Os índices emergéticos calculados para os processos de lavagem (a) e (b) são mostrados na tabela 1 e permitem avaliar quantitativaÍndices emergéticos Rendimento emergético Investimento emergético Carga ambiental Sustentabilidade EYR = Y = R + N + F F F F EIR = N+R ELR = SI = N+F R EYR = ELR Y F N +F R mente a relação entre os recursos empregados, direta ou indiretamente, para a implantação do processo e sua operação. Os índices calculados mostram que o processo (b) que capta água de chuva e reúsa a água de lavagem apresenta rendimento emergético três vezes maior que do processo convencional, indicando que a exploração de recursos em relação ao investimento econômico é eficiente. A mesma observação pode ser feita com relação aos valores de investimento emergético. O índice de carga ambiental mostra que o impacto do processo (b) no ambiente é menor que o do processo (a), mostrando quantitativamente que o processo (b) é 500 vezes mais nocivo ao ambiente. O índice de sustentabilidade (SI) faz uma relação entre a carga ambiental relativa ao processo e o rendimento emergético do processo. Quanto maior o rendimento e menor a carga ambiental, maior será sua sustentabilidade. Em geral, processos com SI maior que cinco são considerados sustentáveis em longo prazo e não-sustentáveis os processos com SI menor que um, (Brown e Ulgiati, 1998). Na tabela 1, pode-se observar a situação dos dois processos estudados. Se há intenção de se alcançar a sustentabilidade, devem ser incluídas as interações com o ambiente por períodos maiores de tempo e também Processo (a) Processo (b) Processo (a1) 1,16 3,30 1,02 6,16 0,43 0,52 228,23 0,46 232,88 0,01 7,18 0,00 Tabela 1 - Índices emergéticos do processo de lavagem de veículos urbanos: (a) sistema convencional e (b) sistema com captação de água de chuva e reúso de água. R, recursos renováveis; N, recursos não-renováveis; F, recursos da economia. 12 – Saneas / dezembro 2004 Pesquisa & Desenvolvimento considerar um espaço mais abrangente, para além das vizinhanças da empresa. Ou seja, deve-se levar em conta não só o processo em si, mas também sua interação com o ambiente. Na figura 3, pode-se observar um fluxo, que deixa os processos e retorna ao ambiente. No caso do processo convencional (a), o fluxo é o efluente do processo de lavagem, composto por água, poeira, xampu e óleos. No caso da empresa (b), considera-se o fluxo tratado livre de xampu e óleos. Considerando apenas o xampu utilizado, pode-se calcular a demanda teórica de oxigênio (DToO), ou seja, a quantidade de oxigênio do ambiente necessária para oxidar o xampu presente no efluente, o dodecil benzeno sulfonato de trietanolamina. A equação da reação de oxidação neste caso é: C24H45O6SN.H2O + 46 O2 24 CO2 + 47/2 H2O + SO2 + NO2 (1) Conhecendo-se a massa molar dos reagentes, pode-se calcular que são necessários 46 mols (1472 g) de oxigênio para oxidar 1 mol de xampu (493 g). A DToO será portanto: DToO = (1472/496) . 1000 = 2.3 g. L-1 Como o volume anual de xampu é de 7,76 103 L ano-1, para a lavagem dos ônibus da empresa (a), serão necessários 1,80 104 g de oxigênio do ambiente para oxidar o efluente. A variação dos índices emergéticos pode ser observada na tabela 1 (processo a1). Nota-se que, com a inclusão dos serviços do ambiente, o rendimento emergético e o SI caem, enquanto os índices de carga ambiental e investimento emergético aumentam. A empresa (b) apresenta-se sustentável em longo prazo, com alto rendimento na exploração de recursos naturais e com baixa carga ambiental, pois segue preceitos da EI: • A imitação de um ecossistema, enfatizando a ciclagem, a minimização do resíduo gerado e a reutilização dos resíduos como matériaprima utilizada no próprio sistema (água). • Controle dos materiais retirados da natureza e dos resíduos descartados no ambiente, preservando as reservas naturais e eliminando o despejo de substâncias que necessitam dos serviços do ambiente para sua absorção. Comentários finais A EI considera os sistemas industriais e de serviços como subsistemas da biosfera, isto é, uma organização particular de fluxos de matéria, energia e informação. Sua evolução deve ser compatí- vel com o funcionamento de outros ecossistemas. Parte-se do princípio de que é possível organizar todo o fluxo de matéria e de energia que circula no sistema, de maneira a torná-lo um circuito quase inteiramente fechado. Nesse contexto, uma abordagem sistêmica é necessária, a fim de visualizar as conexões entre o sistema antropológico, o biológico e o ambiente. Práticas de P+L e prevenção à poluição devem melhorar o desempenho do processo. Entretanto, avaliações sistêmicas permitem conhecer profundamente todas as etapas de um processo e suas interações com o meio ambiente. A partir do detalhamento do processo, surge a oportunidade de utilizar as abordagens mais sofisticadas que estão sendo desenvolvidas nas últimas décadas, como a EI. Sendo a EI uma abordagem relativamente nova, torna-se necessário o desenvolvimento de rigorosa fundamentação científica, que sustente as decisões dos projetos e a aplicação de tecnologias voltadas para o meio ambiente. Os avanços nessa área vão depender do desenvolvimento teórico, de modelos quantitativos, pesquisa empírica e experimentos de campo. O foco da ação pode ser dividido por várias esferas, como a ambiental, a econômica e a sócio-cultural para que se possa desenvolver uma cultura de cooperação. A complexidade dos problemas ambientais, aliada à necessidade de comunicação entre os vários setores envolvidos, requer a participação de especialistas em diversos campos(legislação, economia, saúde pública, ecologia e engenharia), que possam contribuir para o desenvolvimento da EI. Além dos projetos com aplicação de tecnologias apropriadas, serão necessárias mudanças nas leis e nas políticas públicas, no comportamento individual dos membros da sociedade para que se possa lidar com os problemas ambientais de forma adequada. Dessa forma, a abordagem sistêmica e a multidisciplinaridade poderão contribuir para o desenvolvimento do sistema produtivo em direção ao desenvolvimento sustentável. Referências Bibliográficas Allenby, B. R. - Industrial Ecology: Policy Framework and Implementation, Prentice Hall, New Jersey, 1999. Ulgiati S., Brown M. T. - Monitoring patterns of sustainability in natural and man-made ecosystems. Ecol. Modell.1998 (108): 23-36. Graedel, T.E., Allenby, B. R. - Industrial Ecology, Prentice Hall, New Jersey, 1995. Odum, H. T. - Environmental Accounting – Emergy and Environmental Decision Making. Ed. John Wiley & Sons Ltd. 1996; 370 Saneas / dezembro 2004 – 13 MATÉRIA DE CAPA Há pouco mais de uma década, o termo responsabilidade social e ambiental saiu das esferas acadêmicas e ganhou destaque na mídia. E os ambientalistas avisam: o debate precisa fazer parte dos processos de gestão nas empresas e ganhar status de prioridade diária na sociedade. Mais do que um modismo, o tema é uma tendência de mercado e de consumo. Tudo em prol da qualidade de vida de cada um de nós. Desenvolvimento sustentável: Desen suste um um ideal possível e necessário “O sistema de produção, de mercado, que valoriza o consumo, leva à exclusão de milhões de pessoas. E do ponto de vista ambiental e social não podemos continuar desse jeito.” A declaração é de Henrique Ratner, professor aposentado da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas. A preocupação se justifica: as pessoas estão consumindo recursos naturais em um passo mais rápido do que a capacidade da Terra de renová-los. A informação faz parte do relatório “Planeta Vivo 2004”, lançado em outubro último, pela Organização 14 – Saneas / dezembro 2004 Não Governamental (ONG) WWF (Fundo Mundial para a Natureza). De acordo com a organização, o déficit chega a 20%. Dados como este dão respaldo para o que ambientalistas têm discursado há, pelo menos, duas décadas. E mostra que, mais do que uma tendência, o desenvolvimento sustentável é uma necessidade. E este movimento passa pelas diferentes esferas do governo, empresas públicas e privadas e consumidores. “A correta gestão dos recursos naturais é uma radical mudança de cultura em todos os segmentos da sociedade. É transformar, por exemplo, rejeito em nova matéria-prima, é reaproveitar água Matéria de Capa e energia, é evitar desperdícios”, explica Fernando Almeida, presidente executivo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e autor do livro “O Bom Negócio da Sustentabilidade” (editora Nova Fronteira). E muitas empresas já têm percebido que ter uma gestão voltada para o equilíbrio social e ambiental é também um modo de sobreviver em um mercado cada vez mais acirrado. Os conceitos de sustentabilidade estão alterando valores arraigados nas empresas e, nas últimas décadas, a valorização de uma companhia passou a depender tanto de fatores tangíveis (bens contábeis) quanto de intangíveis (imagem, marca, reputação). Antigamente, o valor acionário de uma indústria ou banco era relacionado à posse de capital físico: ao trabalho, aos funcionários, à infra-estrutura. Mais recentemente, se verificou que existe uma dicotomia entre o valor de mercado e o contábil. “Os ativos intangíveis chegam a ser até 15 vezes superior aos ativos tangíveis”, compara Giovanni Barontini, vice-presidente da Fábrica Éthica Brasil, consultoria em sustentabilidade. Um bom exemplo disso aconteceu recentemente, quando a empresa de cosméticos e produtos de perfumaria Natura lançou suas ações na Bolsa de Valores do estado de São Paulo (Bovespa). Em um único dia, essas ações valorizaram cerca de 30%. “Isso é mostra de que a reputação e a credibilidade se traduzem numa confiança maior pelo investidor”, acredita Barontini. Para o vice-presidente da Fábrica Éthica, o investidor, cada vez mais, prefere aplicar seu capital em empresas geridas de uma forma mais responsável, mais ética. E, atualmente, a marca, a reputação, a capacidade de estabelecer parcerias e diálogos com diferentes grupos de interesse definem de 75% a 90% do valor de uma empresa. Em razão disso, para analistas da área de gestão empresarial e meio ambiente, as companhias que não se sintonizarem com os demais grupos sociais, que estão à sua volta, desaparecerão do mercado, mais cedo ou mais tarde. Pesquisa feita pelo Banco Mundial e pela IFC (International Finance Corporation) revelou que, nos últimos cinco anos, os executivos das empresas globais dedicam 68% a mais do seu tempo com questões de responsabilidade social corporativa e direcionam 72% a mais do orçamento para esta área. “Isso indica uma tendência do setor empresarial, já que estamos falando de um processo conduzido por em- nvolvimento ntável, m ideal possível e necessário presas que são líderes de mercado e que, por isso, têm forte influência em toda a cadeia produtiva”, acredita Fernando Almeida. Essa mudança de rumo do setor empresarial também foi constatada em trabalhos desenvolvidos no setor Poder Público. Em São Paulo, foi criada a ‘Mesa Redonda Paulista de Produção mais Limpa’, que reúne setores governamentais, iniciativa privada e ONG. De acordo com Tânia Gassi, secretária dessa entidade e assessora da Diretoria de Engenharia, Tecnologia e Qualidade Ambiental da CETESB, em vez das empresas considerarem os aspectos ambientais apenas depois da geração dos poluentes, a produção mais limpa busca melhorias no processo produtivo para obter maior eficiência na conversão de matérias primas em produtos e minimizar, assim, a geração de resíduos, efluentes e emissões gasosas. Dessa forma, é possível economizar recursos naturais, evitar a poluição e fazer investimentos ambientais inteligentes, pois as melhorias no processo industrial permitem retorno dos investimentos. “A produção mais limpa prevê a melhoria contínua e a minimização de impactos ao longo do ciclo de vida dos produtos, e pode ser empregada por empresas industriais, comerciais e prestadoras de serviços. As estratégias incluem instalações governamentais, comunidades e residências”, diz Tânia Gassi. O movimento de Produção maisLimpa ganhou importância a ponto do governo federal ter realizado vários eventos regionais no ano de 2004 com o objetivo de levantar subsídios para implementação de uma política nacional. As micro e pequenas empresas que participam da rede têm obtido ganhos surpreendentes. Para cada real investido, o ganho econômico é, em média, quatro vezes maior. O setor representa 98% das 4,1 milhões de empresas registradas no país, responde por 20% do Produto Interno Bruto (PIB) e emprega 45% da força de trabalho. Modelos brasileiros Está previsto para o primeiro semestre de 2005, o lançamento do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), pela Bovespa. O Índice irá reunir ações de até 40 empresas, selecionadas a partir de critérios em que pesem a liquidez dos papéis, o porcentual de ações em circulação em mercado e as repostas a um questionário sobre as relações da companhia com funcionários, acionistas, meio ambiente e comunidade. O ISE é mais um exemplo do peso Saneas / dezembro 2004 – 15 Matéria de Capa Foto: Marcelo Guena das ações sociais e ambientais nas relações de mercado. No mundo, fundos de investimentos de empresas com este tipo de preocupação movimentam cerca de US$ 2,7 trilhões em ativos. Acredita-se que empresas socialmente responsáveis e com valores ambientais arraigados terão maior facilidade para buscar financiamentos junto a bancos estrangeiros, lançar ações e negociar no mercado internacional. Como é o caso da Companhia Vale do Rio Doce, que atua na exploração de minério e hoje é líder mundial na exploração Monitoramento de árvores para exploração sustentável de florestas de minério de ferro. A abertura aos mercados externos não se deve apenas ao patrimônio da empresa, mas também aos investimentos feitos nos últimos anos em preservação ambiental e projetos sociais. Só para se ter uma idéia, a Vale do Rio Doce contribuiu para a preservação de uma área de cerca de 1,2 milhão de hectares de florestas tropicais e é a maior parceira privada do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). “O princípio é abolir a prática da exploração pura e simples e substituí-la pela extração ecoeficiente”, diz Fernando Almeida, do CEBDS. O modelo brasileiro do Índice de Sustentabilidade Empresarial seguirá os mesmos moldes de algo similar, nos EUA, o Índice de Sustentabilidade Dow Jones – as empresas que fazem parte deste índice tiveram ganho acumulado de 96,72%, enquanto as do Índice Geral Dow Jones se valorizaram 70,45%. Apenas três 16 – Saneas / dezembro 2004 empresas brasileiras – de um total de 318, em 24 países –, consideradas socialmente responsáveis pelos critérios americanos, fazem parte do seleto grupo do Índice de Sustentabilidade Dow Jones: Cemig, Itaú Holding e Itaúsa. A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) foi convidada para fazer parte deste índice desde 1999. Para Ricardo Prata Camargos, analista de meio ambiente da Cemig, o convite americano é resultado de uma série de ações que a empresa mineira tem desenvolvido nos últimos 50 anos. “As questões sociais e ambientais são levadas em conta na elaboração do planejamento estratégico e cada um tem suas metas. Cada funcionário deve conhecer os impactos ambientais de suas ações e deve ser responsável por isso”, exemplifica Ricardo Prata. Atualmente, cerca de 60% dos quase 10 mil empregados da Cemig passam por programas de capacitação em sistemas de gestão ambiental. Além disso, a companhia energética mineira desenvolve uma série de programas sociais e de educação ambiental. Desde 98, toda lâmpada de iluminação pública, quando trocada, é reciclada –trocam-se cerca de 300 mil lâmpadas por ano. O retorno disso não diz respeito apenas à boa imagem da empresa para o público externo. A eficiência de programas de sustentabilidade é medida também pela satisfação dos colaboradores da empresa. “Mas para isso, o profissional precisa ser capacitado e conscientizado sobre seu papel”, acredita Ricardo Prata. Quando isso acontece, as relações de trabalho só tendem a melhorar. Para Fernando Almeida, do CEBDS, a adoção de políticas de responsabilidade social corporativa motiva o funcionário, que se transforma em um parceiro. E Giovanni Barontini lembra que este contexto envolve também políticas trabalhistas, políticas de saúde e de segurança e governança corporativa. “É um leque de iniciativas”, resume. Uma das formas pelas quais as empresas têm demonstrado suas ações sociais para o mercado financeiro e também para a sociedade é por meio de seu balanço social. Em seu último balanço, o Itaú listou diversas ações que demonstraram o uso racional de água, Matéria de Capa energia elétrica e descarte de resíduos sólidos pela empresa, além de colaborar com uma série de ações nesta área. Fora isso, o banco exige de seus fornecedores esta mesma atitude responsável. E o Banco Itaú Holding Financeira, por meio do Banco Itaú-BBA, possui uma política de gestão ambiental relacionada à concessão de crédito às empresas clientes, que estimulem o desenvolvimento sustentável, tanto no âmbito industrial, quanto junto às comunidades onde atuam. comuns, bem como a execução de obras e serviços de engenharia. A Sabesp faz parte deste grupo de discussão. Para analistas em sustentabilidade, as mudanças de consciência e padrões partem mais das pessoas e das empresas do que do governo. O poder da sociedade está nas práticas de consumo. Nos Estados Unidos, uma pesquisa feita pela Universidade de Harvard mostrou que 76% dos americanos preferem adquirir produtos feitos por empresas que tenham preocupação ambiental e social. No Brasil, o estudo intitulado “O consumidor brasileiro e a construção do futuro”, organizado pelo Instituto Aka- Saneas / dezembro 2004 – 17 Foto: Carlos Guena Desenvolvimento e preservação Os exemplos relacionados às práticas de desenvolvimento sustentável não podem e nem devem se restringir às esferas das grandes empresas. Imagine uma cooperativa de pescadores que sobreviva da pesca de camarão numa determinada lagoa. Se a comunidade não se preocupar em preservar a lagoa – cuidando do ciclo de reprodução das espécies, do despejo de esgoto sem tratamento no espelho d’água – um dia, o camarão vai desaparecer, a cooperativa vai fechar e os pescadores ficarão sem trabalho e sem sustento. No Rio de Janeiro, aconteceu algo parecido, que foi a pesca predatória da sar- O poder do consumidor: cada vez mais valoriza empresas socialmente responsáveis dinha. A espécie desapareceu da região, as empresas localizadas na Baía de tu, ONG que trabalha em prol do consumo Guanabara, que industrializavam o pescado, consciente, mostrou que 69% da população se fecharam e um contingente enorme de traba- preocupa em levar para casa produtos de emlhadores ficou sem emprego. Isso mostra que presas que sejam socialmente responsáveis. E, em breve, o consumidor terá um parâmea relação entre desenvolvimento sustentável e tro a mais para definir o que adquire ou não. Está conservação ambiental é inseparável. em debate a criação da ISO de Responsabilidade A legislação brasileira, por sua vez, está Social. Essa nova norma vem compor o trio de atenta às questões relacionadas à sustentabilinormas da sustentabilidade formado pela ISO dade. Existem várias leis de proteção ambien9000 de gestão da qualidade, ISO 14000 de gestal e também na área da governança corporatão ambiental e a futura ISO que atenderá à gestiva. Um exemplo disso foi dado pelo govertão da responsabilidade social. Para a sociedano do estado de São Paulo, que instituiu, no de, será um selo de garantia de que a produção final do primeiro semestre de 2004, um Grude determinado bem de consumo não prejudica po Técnico de Trabalho para definição de direo meio ambiente ou traz prejuízos à comunidatrizes para compras públicas sustentáveis (licide no entorno da indústria. Israel Klabin, presitação sustentável). São as chamadas ‘compras dente da Fundação Brasileira para o Desenvolverdes’. Na prática, este grupo irá propor diretrizes, normas e procedimentos voltados a fo- vimento Sustentável, está otimista em relação às mentar a adoção de sustentabilidade ambien- mudanças internas no país. “As empresas brasital nas contratações que tenham por objetivo leiras têm demonstrado interesse em abraçar o a aquisição de bens e a prestação de serviços compromisso com o desenvolvimento susten- Matéria de Capa tável. Para tanto, elas têm procurado incorporar as dimensões ambiental e social à sua visão de negócios, implantando uma sustentabilidade corporativa”, diz. A vez do saneamento Uma das metas dos “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, aprovada durante a Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, estabelece que devemos dobrar o número de habitantes com direito a água tratada até 2015. “O investimento em saneamento tem um alcance social e ambiental imprescindível para quem defende o desenvolvimento sustentável como forma de garantir a sobrevivência das futuras gerações do planeta”, acredita Fernando Almeida. Fora os investimentos necessários na área para atingir a universalização da distribuição de água potável, existe também um outro desafio: o uso racional deste bem pela sociedade e pelas empresas, dentro de casa ou nos processos industriais. Durante décadas, a água foi Na trilha da história Paulo Nogueira-Neto: uma vida dedicada à preservação ambiental 18 – Saneas / dezembro 2004 É percebida pela sociedade como bem descartável. Mas o desmatamento desenfreado e a urbanização afetaram a qualidade e também a quantidade de água disponível. “A conseqüência disso é que a renovabilidade do sistema está sendo afetada”, alerta Rubens Born, coordenador do Instituto Vitae Civilis, ONG que trabalha em prol do desenvolvimento sustentável e do meio ambiente. O tratamento do esgoto é apontado por Born como uma maneira de reduzir o impacto no ambiente. Para ele, da mesma maneira que pessoas e empresas já incorporaram conceitos como o da reciclagem do lixo, deve-se avaliar a importância do uso deste esgoto antes de descartá-lo como resíduo. Outro ponto: a capacidade dos mananciais em suprir as necessidades das metrópoles está reduzindo. “Em vez de se pensar em buscar água cada vez mais longe, que tal pensar em reaproveitar esta água cada vez mais?”, indaga Born. Uma sugestão do especialista em meio ambiente é que as edificações sejam idealizadas não apenas para con- sempre estimulante conversar com alguém que conheça tanto a história da evolução das questões ambientais no país –e também no mundo– como o ecologista Paulo Nogueira-Neto, de 82 anos. Formado em Ciência Jurídicas e Sociais, bacharel em História Natural, doutor em Ciências e professor titular aposentado de Ecologia Geral do Instituto de Biociências da USP, Paulo Nogueira-Neto participou das principais reuniões em que se definiram estratégias e rumos para um desenvolvimento sustentável possível. Ele foi o primeiro secretário da Secretaria Especial do Meio Ambiente (1974 a 1986), do extinto Ministério do Interior, e um dos principais articuladores da Política Nacional do Meio Ambiente, que criou o Conama, dando a ele poderes regulamentadores. Nos anos 80, Nogueira-Neto foi um dos membros da chamada Comissão Brundtland, das Nações Unidas, que propôs o conceito de desenvolvimento sustentável –aquele que é ecologicamente correto, economi- camente viável e socialmente justo para assegurar as necessidades do presente sem comprometer as gerações futuras. Após esta reunião, este conceito ganhou força a partir da Conferência Mundial de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, e, dez anos depois, na conferência de mesmo tema em Johannesburgo. Aqui, Paulo Nogueira-Neto conta um pouco dos infindáveis fatos relacionados à história da gestão ambiental: Como surgiu o interesse pelas questões ambientais? Tive a felicidade de fazer a coisa que eu gosto, que é lutar pela natureza e pelo meio ambiente. Quando comecei, em 1956, os ambientalistas de São Paulo caberiam dentro de uma Kombi. A expressão meio ambiente não era algo a considerar, nem pelo governo, nem pelas pessoas. Então fundamos, eu e mais dois amigos –João Travassos Filho e José Carlos Reis Magalhães– uma asso- Matéria de Capa duzir cabos de tevê, mas construídas também dentro dos conceitos de reúso da água –tanto em indústrias quanto em residências. “Existem esforços nesta linha, mas ainda são insuficientes. A sociedade ainda não tem consciência de que o saneamento é algo importante e talvez o primeiro passo para isso seja por meio da transformação cultural, da sensibilização”, afirma Rubens Born. Atualmente, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), trata o esgoto de 160 comunidades, em média, entre os 368 municípios que atende. “A Sabesp tem todo um programa de planejamento na linha de tratamento de esgoto, pensado para a redução do impacto deste esgoto in natura no meio ambiente”, diz José Everaldo Vanzo, diretor de Tecnologia e Planejamento da empresa. E para viabilizar este programa a companhia conseguiu financiamento com o banco japonês Japan Bank International Cooperation (JBIC). A idéia é coletar e tratar o esgoto dos nove municípios que compõem a região da Baixada Santista, no lito- ral paulista. “E o financiamento só foi possível porque o projeto tem finalidade de desenvolvimento sustentável”, afirma Vanzo. Outro exemplo dos esforços desenvolvidos pela Sabesp é o Programa de Saneamento Ambiental para Despoluição do rio Tietê. O programa, que teve início em 1992, tem investimento de US$ 1,4 bilhão. Nesses anos de trabalho para restaurar aquilo que foi destruído está o recuo de 140km da mancha de esgoto do rio Tietê, próxima a cidade de Barra Bonita (SP). O trabalho envolve, entre outras ações, 400 mil novas ligações de esgoto. Por conta disso, a cidade de Anhembi, às margens do rio, retomou a indústria pesqueira. “Essa é uma expressão de desenvolvimento sustentável”, resume Vanzo. Investir na conservação do meio ambiente faz parte de um novo conceito: o da valorização do capital ambiental. O que é preciso disseminar é a manutenção dos recursos provenientes do meio ambiente. E o grande desafio destas próximas décadas é criar mecanismos que dêem perenidade a esses recursos da natureza. ■ ciação de defesa da flora e da fauna para salvar o Pontal do Paranapanema. A coisa começou aí. E hoje a associação se chama Associação do Meio Ambiente, que é ligada, até hoje, à Universidade de São Paulo. as cidades paulistas do ABC (Santo André, São Bernardo e São Caetano) se uniram para formar a primeira entidade oficial para controlar a poluição, o que depois deu origem a CETESB. Por que os senhores começaram com esse movimento? E depois disso, quais foram os grandes marcos para a história? Porque já naquele tempo nos dava aflição ver o desinteresse geral por esta questão. Durante a guerra, foi cortado o suprimento de petróleo para o Brasil, que não produzia nada de petróleo. E o pouco que havia era destinado para os caminhões. Então os carros passaram a ser movidos por gasogênio (carvão vegetal). E isso produzia muito monóxido de carbono, que é um gás terrivelmente tóxico. Mas era o que havia. Lembro que subir a avenida Rebouças com um automóvel movido a gasogênio não era fácil. O porta-malas ficava cheio desses tubos. O uso do carvão vegetal liquidou com as florestas no estado de São Paulo. E a cidade já tinha uma poluição tremenda. Nessa época, Houve a Conferência de Estocolmo, em 1972. E isso foi um marco na história do meio ambiente, porque representantes de todo o mundo sentaram para debater esta questão. No Brasil, em 1974, se instalou a Secretaria Especial do Meio Ambiente, onde fiquei por 12 anos e meio. E depois fiquei mais dois anos organizando e chefiando o órgão, no Distrito Federal, como Secretário do Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia de Brasília. Tenho um diário, que comecei no primeiro dia, como Secretário Especial do Meio Ambiente, e onde escrevo todos os dias até hoje. Já tenho mais de 60 cadernos. Não é algo que quero publicar, mas, sim, deixar na biblioteca da Universidade de São Paulo e da Universida- de de Brasília, porque ali tem a história do meio ambiente no país. O senhor acredita que, atualmente, as pessoas estão mais voltadas para a questão do desenvolvimento sustentável? Existe um entendimento imensamente maior hoje do que há 30 anos. Até mesmo o uso da expressão ‘meio ambiente’ ou ‘biodiversidade’ passou a fazer parte do dia a dia das pessoas. Me considero um sobrevivente e por isso sou muito convidado para dar palestras em universidades, no Brasil e fora do país. E vejo que as novas gerações têm um conhecimento tremendo sobre o assunto. Houve uma série de dificuldades no meio do caminho, como a de conseguir assinaturas para o Protocolo de Kyoto, mas hoje as pessoas estão percebendo algumas realidades, como o aquecimento climático. E que isso vai mudar a vida do planeta se não for controlado. E só há uma maneira de controlar, que é preservar as florestas e plantar onde foi destruído. Saneas / dezembro 2004 – 19 ARTIGO TÉCNICO Implantação do Sistema de Informações Geográficas na Sabesp Silvana C. C. S. de Franco O Projeto de Despoluição do Tietê foi estabelecido pelo Governo do estado de São Paulo com o objetivo de diminuir progressiva e drasticamente a carga poluidora lançada atualmente nos rios da bacia hidrográfica do Alto Tietê, oriunda da atividade urbana na Região Metropolitana de São Paulo. Consta do escopo da 2a etapa deste projeto ações com vistas à melhoria no gerenciamento operacional das redes de distribuição de água e de coleta de esgotos, tais como: • Programa de controle de perdas; • Programa de monitoramento quali-quantitativo dos esgotos nos coletores-tronco e nos interceptores; • Programa piloto de efetivação de ligações de esgoto; • Implantação de um Sistema de Informações Geográficas (GIS) na Região Metropolitana de São Paulo. Para que o sistema de informações geográficas acima citado pudesse iniciar seu desenvolvimento, foi contratado, em 1997, um estudo, denominado Projeto Básico do GIS, que realizou um inventário dos usuários e suas necessidades, uma avaliação institucional e o Projeto Conceitual do Sistema. Em 1999, foi feita uma revisão e readequação da estratégia de implantação do Projeto GIS, a fim de que fossem consideradas as ações já disparadas isoladamente pelas unidades da empresa e as mudanças de tecnologia ocorridas na área de geoprocessamento, de forma a garantir a aderência da Doutora em Engenharia Civil nova proposta de implantapela Escola Politécnica da USP e ção com as necessidades e reGerente do Projeto GIS da Sabesp. alidades da Sabesp e com as ([email protected]). disponibilidades tecnológicas de mercado. Dessa forma 20 – Saneas / dezembro 2004 é que foi desenvolvido o Sistema de Informações Geográficas no Saneamento (SIGNOS). A Sabesp e o SIGNOS Por razões estratégicas, a Sabesp dividiu a execução do Projeto GIS em um conjunto de quatro contratações separadas, portanto perfazendo quatro processos licitatórios separados, como segue: • Prestação de serviços técnicos de gerenciamento e auditoria. Contratado: Consórcio PriceWaterhouse Coopers e Soltec Soluções Tecnológicas Ltda. • Prestação de serviços técnicos de informática e licenciamento de software. Contratado: Edinfor Soluções Informáticas Ltda. • Prestação de serviços técnicos de conversão de dados. Contratado: Consórcio JNS/Base Aerofotogrametria (Lotes 1 e 6), Soluziona Ltda. (lotes 2 e 4) e Consórcio Emissão/CSI (lotes 3 e 5) • Fornecimento e instalação de hardware e sistema operacional. Contratado: Cimcorp Comércio Internacional e Informática Ltda. Cada uma dessas contratações possui objetos diferentes e complementares entre si. No entanto, a realização deste conjunto de serviços de forma integrada e concatenada, além de com a qualidade esperada, foram a garantia da implantação do SIGNOS com as características estabelecidas inicialmente. Para entender melhor os benefícios que o SIGNOS trará à Sabesp e, conseqüentemente, à população, deve-se entender a amplitude da região englobada pela Diretoria Metropolitana da Sabesp, uma das maiores densidades populacionais e complexas do mundo. A área total compreendida é de 8,05 mil km2, sendo 2,5 a 3 mil km2 de área urbanizada contínua, 39 municípios e uma população de 19 milhões de habitantes. Uma das maiores dificuldades encontradas nessa gestão, e que será facilitada pelo SIGNOS, é a quantificação, dentro dos limites geográficos técnicos e administrativos da região, das redes de água e esgotos opera- Artigos Técnicos das pela diretoria. Também com esse sistema será possível melhorar a qualidade dos dados cadastrais dos dois grandes sistemas corporativos da empresa: o Sistema de Informações Comerciais (CSI) e o Sistema de Gerenciamento ao Atendimento Operacional (SIGAO), desenvolvidos com bases distintas e que nem sempre possuem seus dados totalmente compatíveis e sincronizados. Neste contexto, então, soma-se a implantação do SIGNOS na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), que já é uma realidade e chega com o objetivo de auxiliar as unidades da Sabesp dando um ferramental tecnológico moderno para agilizar a busca de resultados nos seus processos comerciais, operacionais, técnicos e, principalmente, melhorar, ainda mais, a capacidade de gestão das atividades da diretoria metropolitana. Como a implantação está ocorrendo em duas etapas (município de São Paulo e demais municípios), já a partir de agosto de 2004, todos os cadastros técnicos da distribuição e escritórios regionais foram treinados (em torno de 120 pessoas) e estão com o SIGNOS implantado, possibilitando, assim, realizar o processo de compatibilização e ajustes dos dados cadastrais, cartográficos e dos clientes da área geográfica implantada neste novo Sistema. Além de iniciar as análises espaciais na busca de resultados, objetivo primordial do investimento da empresa nesta tecnologia. Integração dos processos de negócio e inserção organizacional Uma vez que o SIGNOS pressupõe a criação de um banco de dados espacial, interfaces com sistemas corporativos e novas funcionalidades, esta implantação tornará possível a integração de atividades nos diversos processos de negócio priorizados, conforme figura 1 a seguir. Assim, haverá uma otimização na detecção e resolução de problemas e, consequentemente, nos resultados obtidos com estas ações. De uma maneira geral, toda a Sabesp será afetada com a implantação do SIGNOS, uma vez que foram desenvolvidas interfaces específicas para cada utilização típica, além de perfis de usuários e utilizadores do sistema. Isto ocorreu para que cada qual pudesse se utilizar do sistema de acordo com sua necessidade. Os perfis típicos de utilização do sistema e as unidades da Sabesp onde este perfil está localizado são: Provedores de Dados – responsáveis pela atualização dos dados cartográficos e cadastrais, Gerenciamento de Projetos Engenharia Cadastro Técnico Cartografia Manutenção de Redes Base de Dados SIGNOS Produção Operação de Redes Simulação Hidráulica Planejamento Fig. 1: Integração dos processos de negócios com a implantação do SIGNOS pela atualização/manutenção de dados referentes aos pontos de coleta de amostras e pela espacialização dos novos clientes (ligações) no sistema. Estes usuários pertencem aos: • Cadastros técnicos • Cartografia • Escritórios regionais • Divisões de controle sanitário Atualizadores Dinâmicos dos Dados – responsáveis pelas intervenções (manutenções) ou operações (manobras) nas redes. Estes usuários pertencem aos: • Pólos de manutenção • Divisões de operação de água Usuários Finais – são aqueles que farão visualizações, consultas, pesquisas, cálculos espaciais, proposição e acompanhamento de mapas temáticos e índices geográficos, tudo isto considerando os dados contidos no SIGNOS de maneira integrada. Também terão a possibilidade de utilizar dados externos nas suas análises ou de exportar dados do sistema para sua estação local, a fim de realizar estudos mais complexos. Estes utilizadores pertencem à várias áreas da empresa, dentre elas: Departamentos de Engenharia, Comercial, Planejamento Integrado, Serviços, Econômico-Financeiro, Produção e Manutenção. Também as Divisões de Operação de Água e Esgoto, Divisões de Controle de Perdas, Divisões de Grandes Consumidores e Divisões de Controle de Consumo possuem utilizadores do sistema neste perfil. Os perfis acima utilizam a interface SIGNOS (figura 2) que está disponível àqueles que possuem a licença Core do sistema ou acesso Saneas / dezembro 2004 – 21 Artigos Técnicos mas corporativos: comercial (CSI), operacional (SIGAO), qualidade da água (NETCONTROL), manutenção (SGM) e macromedição (SIM), que são origem de parte da informação necessária para que estas funcionalidades possam ser executadas. A seguir tem-se alguns exemplos dos módulos funcionais que foram desenvolvidos: • Integração com o CSI Depuração cadastral: Integração dos cadastros técnico e comercial, permitindo análise de situações de inconsistência cadastral - ligação só de água quando há rede coletora de esgotos na rua Figura 2 Interface SIGNOS Citrix ao mesmo. Usuários WEB: estes usuários pertencem a toda a empresa e utilizam a interface SIGNOSnet, que está disponível na Intranet Sabesp, permitindo visualizações e pesquisas mais simplificadas ou padronizadas a todos aqueles que acessam essa rede (figura 3). Figura 3 Interface SIGNOSnet Funcionalidades As funcionalidades que estão sendo disponibilizadas nesta implantação têm por objetivo viabilizar, de maneira automatizada, integrada e de fácil utilização, suporte aos vários processos de negócio citados anteriormente. Para isto, o aplicativo desenvolvido possui telas, botões, janelas, relatórios, cálculos, etc, customizados de acordo com o propósito de sua utilização. Por isso, todo um levantamento da situação atual foi feito junto às áreas clientes do SIGNOS, previamente à sua implantação. Além disto, é fundamental a integração do SIGNOS com os seguintes siste- Consulta e visualização de clientes: Integração com o Sistema Comercial (CSI) permitindo visualização automática da localização das ligações cadastradas, possibilitando consultas e pesquisas das informações correspondentes (consumo, faturamento, situação do hidrômetro, etc.) Análise comercial: Informações sobre as características comerciais de determinada área geográfica (sumário de ligações por tipo, total de consumo e faturamento, etc.) • Integração com o SIGAO Visualização de ocorrências por: tipo (vazamento, falta d´água, extravasamento, refluxo etc) ou por localização (logradouro, setor de abastecimento, bacia de esgotamento, pólo de manutenção, município, etc.) Análise de indicadores de desempenho operacional: tempo médio de solução de ocorrências, por localização ou por executante; quantidade de ocorrências por tipo de ocorrência ou por extensão de rede ou por número de ligações Apoio ao planejamento e execução de serviços: otimização dos itinerários (programação) e avaliação da produtividade das equipes de campo; levantamento dos consumidores afetados por determinada manobra na rede; distribuição geográfica dos serviços pendentes/em execução/executados, por localização/executante Apoio à execução de ações operacionais: identificação da áreas críticas em termos de ocorrências de serviços (vazamentos, água “suja”, desobstrução de coletor, etc.); identificação da área de influência de Válvulas Redutoras de 22 – Saneas / dezembro 2004 Artigos Técnicos Pressão (VRPs) e acompanhamento de ocorrências (vazamento, falta d´água) antes e depois da instalação da mesma. Além das funcionalidades descritas acima, tem-se, dentro do escopo desta implantação, os seguintes módulos funcionais: - Integração do SIGNOS com o SGM, - NETCONTROL e SIM - Carga e edição de dados (cartográficos, cadastrais e de clientes) - Funcionalidades para o site Web (SIGNOSnet) - Ferramenta para Terceiros - cadastro técnico (TecGIS) - Funcionalidades para aplicação de campo (SIGNOSmóvel) - Funcionalidades de interface com o software de simulação hidráulica (WaterCad) - Funcionalidades voltadas à gestão de projetos - Análise integrada IMPLANTAÇÃO DO SIGNOS NA SABESP Implantação de novas tecnologias Todo o trabalho intelectual nas empresas, que é realizado por uma enorme gama de profissionais especialistas como engenheiros, projetistas, administradores, executivos, entre outros, necessita de atividades de suporte para sua completa e adequada realização. Esse suporte vai desde os técnicos, que estão diretamente ligados aos especialistas (desenhistas, digitadores, pessoal de campo, etc.), até o ferramental tecnológico utilizado nessas atividades (programas de computador: Word, AutoCad, Excel, Watercad, etc.). Com a implantação de modernas técnicas de gestão, aliadas aos constantes avanços da tecnologia, é possível que estas atividades de suporte sejam incorporadas num ferramental informatizado que melhor auxilia os especialistas em suas rotinas de trabalho. No entanto, para que este ferramental possa trazer os resultados esperados, é essencial que o mesmo possua as seguintes características básicas: • ter interface amigável e poder ser facilmente incorporado às atividades das áreas • automatizar processos de negócio • aumentar a produtividade dos especialistas e das funções do negócio • otimizar a gestão Uma vez que este ferramental atenda as características anteriores e possa ser implantado nas empresas, ele promove uma série de mudanças na atuação dos especialistas e na organização interna de áreas, com os consequentes impactos : MUDANÇAS Maior dedicação dos especialistas à sua atividade fim, devido à redução de sua carga operacional Realização das atividades utilizando-se uma cadeia menor de profissionais Possibilidade de incorporação de novas tarefas às rotinas das Áreas IMPACTO Alteração do perfil profissional e da sua Capacitação Técnica Agregação de atividades na rotina dos profissionais Reorganização interna de áreas Desse modo, os resultados obtidos terão maior valor agregado devido a possibilidade que os especialistas passam a ter, que é: • analisar mais cenários em um menor tempo • realizar análise simultânea de informações • considerar nas análises informações além daquelas diretamente relacionadas às suas atividades fim. No caso da Sabesp, o ferramental tecnológico moderno e que busca resultados inovadores de maneira mais ágil é o SIGNOS. Etapas de uso do SIGNOS Para que a busca de resultados seja efetiva, a Sabesp, que está atualmente atravessando a Etapa de Uso Inicial do Sistema, está finalizando as seguintes atividades dentro dos diversos Planos de Ação – Qualidade dos Dados que tiveram início em setembro de 2004 e previsão de término em dezembro de 2004: • Compatibilização dos dados alfanuméricos entre o banco de dados espacial e os sistemas corporativos que foram integrados ao SIGNOS, como: homogeneização de logradouros, revisão de interfaces de entrada de dados, ajustes nas estruturas de dados, etc. • Compatibilização dos dados gráficos entre base cartográfica digital e o material gráfico que era utilizado pelas diversas áreas da empresa, como: plantas de setorização comercial e overlays Saneas / dezembro 2004 – 23 Artigos Técnicos • Revisão de normas e procedimentos, tais como: especificações técnicas, editais de contratação, políticas de preços, termo de responsabilidade e confidencialidade, etc. • Revisão e adequação dos procedimentos internos de áreas impactadas pelo uso do SIGNOS (cartografia, cadastros técnicos, escritórios regionais e pólos de manutenção) • Revisão e necessidade de capacitação profissional para os empregados que passarão a utilizar o SIGNOS nas suas atividades do dia-a-dia A seguir, a Sabesp entrará na Etapa de Pleno Uso do Sistema, onde serão iniciados e acompanhados os planos de ação – RESULTADOS – nas diversas áreas da Sabesp. Estes planos foram estabelecidos para prover recursos do sistema (análises espaciais, relatórios e mapas) para organizar, padronizar e sistematizar a atuação operacional (de campo) das diversas áreas da Sabesp, além de permitir o acompanhamento dos resultados assim obtidos no nível corporativo. Seu detalhamento objetiva registrar as metodologias a serem utilizadas por todos os usuários, ou seja , a descrição, passo a passo, da utilização do sistema (funcionalidades, critérios de pesquisa) e possui os seguintes tópicos: conceituação da metodologia, descrição da metodologia, acompanhamento dos resultados e mapa temático alternativo. Atualmente, as áreas comerciais já estão trabalhando na validação dos planos definidos para suas áreas, cujos temas detalhados são: • Ligações factíveis de esgotos • Identificação e cadastramento de favelas acompanhamento das ligações no seu entorno • Identificação e acompanhamento de regiões com alto índice de ocorrências de fraudes • Análise e acompanhamento de regiões com ocorrência de ligações inativas • Prospecção de novos clientes - imóveis não abastecidos pela sabesp, porém com redes de água e de esgotos próximas • Análise do cadastro de poços artesianos Impactos com o uso do SIGNOS Após a Sabesp passar pelas etapas acima citadas, é natural que haja tanto um amadurecimento dos usuários na tecnologia de geoprocessamento e na sua aplicação nas questões do saneamento, como uma readequação de diversas funções de negócios realizadas nas diversas áreas da Sabesp que foram afetadas com a implantação do SIGNOS. Desta forma, podem haver mudanças como inclusão de novas atividades nas áreas, mescla das atividades dentro das áreas ou até migração de atividades entre as áreas. Estas mudanças já estão se delineando na Sabesp, sob a ótica dos próprios usuários do SIGNOS, ocasionada pela grande alteração na sua rotina de trabalho de algumas áreas, como exemplificado na tabela abaixo. Ressaltamos que o mais importante a observar é que, nas eventuais mudanças citadas acima, o SIGNOS não é determinístico nestas reorganizações, e, sim, flexível para se adaptar às definições estratégicas e organizacionais, uma vez que seu desenvolvimento foi baseado no apoio aos processos de negócio e na utilização baseada em perfis típicos e senhas de acesso. Conclusões Os benefícios a serem obtidos com a implantação do SIGNOS deverão ser sentidos a curto prazo, uma vez que foram implementadas funcionalidades que darão apoio à processos de negócio dentro dos macroprocessos prioriza- Áreas Módulos Funcionais do SIGNOS Impactos com o uso do SIGNOS Cadastro Técnico Carga e Edição de Dados Gestão de Projetos Alteração no perfil profissional dos técnicos Maior agilidade em suas atividades de rotina Agregação de novas atividades (Projetos e Estudos) Manutenção Integração com o SIGAO Alteração no perfil profissional dos técnicos Integração entre Equipes de Manutenção (Polos de Manutenção e Áreas de Manobras) Menor tempo de execução de serviços (visualização de dados integrados) Engenharia Planejamento SIGNOSmóvel Gestão de Projetos Análise Integrada Cálculos Espaciais Integração com o WATERCAD Alteração no perfil profissional dos técnicos Menor tempo de execução de projetos e estudos Agilidade no levantamento em campo Incorporação de novas atividades Definição de Indicadores Espaciais para acompanhamento e Gestão 24 – Saneas / dezembro 2004 Artigos Técnicos dos. Podem ser citados alguns exemplos destes benefícios, como os que vêm a seguir: Aumento no conhecimento e gestão da infra-estrutrura física da Sabesp (redes, equipamentos, instalações etc), racionalizando ações de campo, preventivas e corretivas; Suporte no processo de definição de parâmetros para atuação nos seguintes segmentos: Investimento: trocas de rede, revestimentos, varreduras, substituição de hidrômetros Planejamento operacional: acompanhamento do desempenho de equipamento ou material instalado nas redes (boosters, VRPs, etc.) Serviços: priorização de áreas para a realização de manutenção corretiva e realização de sistematizada de manutenção preventiva Engenharia de operação: otimização de pressões e vazões pela interface do SIGNOS com o Watercad (modelagem hidráulica) Recuperação de receitas através da depuração cadastral, do suporte aos programas de li- gações factíveis de esgoto e combate a fraudes; Suporte ao planejamento através da realização de estudos demográficos e urbanísticos, estudos de demanda de serviços de água e esgotos e mapas temáticos; Melhoria no desempenho do controle de perdas através da identificação de trechos críticos em termos de incidência de vazamentos, altas pressões, etc . Também é esperado que haja uma melhoria crescente na qualidade dos dados disponíveis. Isso porque os mesmos passarão a ser acessados por um número maior de pessoas, que terão a possibilidade de comunicar, através da interface do sistema que é acessado via Intranet Sabesp, o SIGNOSnet, possíveis inconsistências nos mesmos. Deste modo, haverá uma manutenção constante por parte do responsável pela informação e que poderá ser acompanhada por todos os usuários do sistema. ■ PUBLICIDADE GIS para Gestão de Redes A SOLTEC – Projetos e Serviços é uma empresa de prestação de serviços de engenharia e informática fundada em 1986. Oferece sistemas GIS e serviços tecnologicamente diferenciados às organizações concessionárias de serviços públicos, visando a melhoria da qualidade e produtividade de seus processos. Atua nos mercados de saneamento, energia elétrica e telecomunicações. É a empresa brasileira líder em sua área de atuação. A SOLTEC atua com as seguintes divisões de serviços: ENGENHARIA E SISTEMAS Os principais produtos desta área são Sistemas de Informações Georeferenciados – GIS/Oracle voltados à engenharia, operação e manutenção de redes. Também elabora e executa projetos de rede, gerência, inspeção e fiscalização de projetos. Seu principal sistema de gerência de redes voltado às concessionárias de distribuição de energia elétrica é o sistema G2M – GIS to Management. Eletro.POCKET rodando em equipamento portátil iPAQ integrado a GPS FORMAÇÃO DO BANCO DE DADOS Os principais produtos desta divisão são os bancos de dados (coletados em campo ou coletados de documentos e dados cadastrais), a operacionalização de sistemas e a gestão e conversão de dados. Para os serviços em campo de elaboração de projetos, inspeção e coleta de dados, a Soltec utiliza tecnologia própria, desenvolvida especialmente para cada finalidade. Seu principal sistema de coleta de dados em campo, utilizado por diversas concessionárias e suas empreiteiras é o Eletro.POCKET apoiado em plataforma iPAQ e GPS. SOLTEC - Projetos e Serviços R. Desemb. Paulo Passalaqua, 86 Pacaembu – São Paulo, SP t. 11 3864 7511 - f. 11 3872 2145 [email protected] www.soltec.com.br CONHEÇA NOSSOS PRODUTOS, TEMOS A SOLUÇÃO ARTIGO TÉCNICO O mosquito das águas poluídas Delsio Natal , Francisco Anilton Alves Araújo , Ricardo da Silva Teixeira Vianna Luiz Eloy Pereira , Helene Mariko Ueno Lixo nas margens do rio Pinheiros: situação ideal para proliferação dos mosquitos transmissores do VNO Professor Delsio Natal em seu laboratório Introdução Diante da expansão recente do Vírus do Nilo Ocidental (VNO) nas Américas e devido à perspectiva de sua introdução no Brasil, julgou-se importante discorrer sobre esse arbovírus, focalizando-se alguns fatores que facilitarão seu estabelecimento em nosso território. A pertinência da abordagem sobre o VNO justifica-se pelo fato de esse vírus ser transmitido por mosquitos Culicidae. Dentre as espécies que poderão exercer o papel vetor nesse país, destaca-se nesse texto o Culex quinquefascitus (Culex), cujas formas imaturas desenvolvem-se em águas residuais estagnadas. Em razão das falhas no saneamento, principalmente no que tange à coleta e tratamento de efluentes, a maioria das cidades no Brasil oferece condições propícias à proliferação desse mosquito em elevadas densidades. Se a ampliação da virose se efetivar, como os especialistas predizem (Luna et al. 2003), em muitas de nossas cidades configurar-se-ão áreas de risco de infecções. Este artigo tem como propósito alertar as autoridades que atuam no amplo campo da promoção da saúde para a iminência da introdução e da disseminação do VNO no Brasil e para que tomem as necessárias medidas preventivas. Fontes de Informação Pesquisou-se a literatura científica utilizando-se das bases bibliográficas Medline e CAB Abstracts e complementou-se a busca eletrônica mediante consultas em fontes de informações na internet. As experiências dos autores foram levadas em consideração, bem como dados complementares obtidos em encontros científicos. Agente etiológico O Vírus do Nilo Ocidental (VNO) é um arbovírus do gênero Flavivirus, pertencente ao complexo antigênico da encefalite japonesa. Geneticamente, o VNO é classificado em duas variantes: o VNO 1, associado à encefalite humana, já isolado na África, Índia, Europa, Ásia e América do Norte; e o VNO 2, isolado de focos enzoóticos na África, que nunca foi obtido de casos hu- Faculdade de Saúde Pública da USP ([email protected]) Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde Instituto Adolfo Lutz – Secretaria de Estado da Saúde, São Paulo Faculdade de Saúde Pública da USP 26 – Saneas / dezembro 2004 Artigos Técnicos manos (Petersen e Roehrig 2001; CDC 1999). O diagnóstico é feito de forma direta ou indireta. O primeiro caso envolve isolamento viral, partindo-se de cultura de células do hospedeiro ou do vetor. No caso de hospedeiros humanos e eqüinos, o isolamento é possível a partir de tecido cerebral ou amostra de sangue e, no caso de aves, utilizando-se de amostras de cérebro, coração e rim, além de sangue. Em mosquitos, o vírus é isolado de macerado de vários indivíduos (pools) e evidenciado pela técnica de imunofluorescência (CDC 2001). É possível também a demonstração de antígenos virais pela técnica de imunohistoquímica, a partir de tecido cerebral de aves e humanos. Outra técnica, o RT-nested-PCR, consiste em detectar material genético viral de cérebro do hospedeiro vertebrado, bem como de pools de mosquitos (CDC 2001). É possível realizar a sorologia pela detecção de anticorpos neutralizantes contra o VNO em testes de neutralização em camundongos ou em células a partir de soro de humanos, aves e cavalos. Pode-se ainda utilizar testes de inibição de hemaglutinação ou teste imuno-enzimático (ELISA) para detecção de anticorpos das classes IgM ou IgG (CDC 2001). Recentemente, Komar et al, 2002, realizaram estudos que demonstram que, alternativamente ao tecido nervoso central, swabs orais e da cloaca das aves são úteis para se obter isolamento do vírus e mesmo o RT-nested-PCR. Distribuição no mundo O VNO provocou doença registrada pela primeira vez em Uganda, em 1937 (Araújo et al 2004a). À medida que os estudos progrediam, sua distribuição geográfica foi ampliando-se e, até o final do século XX, já havia sido registrado na África, Oriente Médio, Europa, Ásia Ocidental e Central, e na Austrália. Distribuição nas Américas O VNO foi introduzido nos EUA, em 1999. Nos anos seguintes, dispersou-se rapidamente pelos estados americanos ao Norte, ultrapassando a fronteira do Canadá, onde tem atividade em vastas áreas daquele país e, ao Sul caminha em direção a outras regiões, tendo se manifestado em grandes extensões no México e alguns países da América Central e Caribe (Araújo et al 2004b). No México, o avanço do vírus não repercutiu com o mesmo impacto verificado nos Estados Unidos, ocorrendo um número menor de casos humanos e veterinários. Esse fenômeno levou os cientistas a suporem que infecções prévias por outros flavivírus teriam provocado uma barreira de imunidade, o que impediria a manifestação clínica do agravo. Aspectos clínicos As aves, mantenedoras do ciclo do vírus, são hospedeiros naturais que apresentam ou não quadro clínico e morte pela doença. Humanos e cavalos são considerados hospedeiros terminais, pois não desenvolvem viremia suficiente para infectar o vetor. Nos cavalos, provoca ataxia, debilidade das extremidades, contrações musculares repentinas e febre. O quadro agrava-se para óbito em percentual aproximado de 24%, ao somaremse os animais falecidos e sacrificados. Nos Estados Unidos, há vacina para cavalos em duas doses com intervalos de três a seis semanas e um reforço anual. Nos animais vacinados os anticorpos neutralizantes IgM surgirão no sangue logo após a segunda dose. No homem, o período de incubação da Febre do Nilo Ocidental é de três a 15 dias. A maioria das infecções em humanos é inaparente, por volta de 80%. Na forma clássica, que representa cerca de 20% das infecções, a manifestação clínica guarda semelhança à dengue, ao apresentar febre, dor de cabeça, erupção na pele, linfadenopatia, entre outras. Na forma severa, que representa cerca de 1% das infecções e 37% dos casos clínicos, manifesta-se como encefalite, meningite, meningoencefalite, com debilidade muscular, havendo casos de paralisia flácida aguda, e, raramente, como hepatite, pancreatite e miocardite. As encefalites são mais comuns em pessoas com mais de 50 anos, cuja letalidade é por volta de 10%. Não há tratamento específico nem vacina disponível aos humanos. Há tentativa de elaboração de vacina, porém ainda em fase experimental (Tesh et al 2002). Para os casos severos a internação é obrigatória, devido à necessidade de terapia intensiva, reposição de líquido intravenoso, manejo das vias aéreas, prevenção de infecções secundárias, entre outras medidas. Aspectos ecológicos O VNO possui ampla valência ecológica ao infectar os mais variados vetores e animais de diferentes táxons (Bernard et al 2000). Dispersa-se, principalmente, por meio de aves em suas rotas migratórias. Os mosquitos do Saneas / dezembro 2004 – 27 Artigos Técnicos gênero Culex estão entre os vetores mais eficientes desse arbovírus. Afastado da presença humana, o vírus circula no ambiente natural, entre aves silvestres, ao ser transmitido principalmente por mosquitos ornitofílicos. Em áreas modificadas pode infectar o homem e hospedeiros domésticos como aves e cavalos. Nessas circunstâncias, o vírus é veiculado por mosquitos adaptados a esses ambientes antrópicos. Alguns autores admitem a existência de vetores intermediários que, adaptados aos ambientes de transição entre os naturais e os antrópicos, funcionariam como “vetores- pontes” ao trazerem o VNO dos ciclos silvestres para as áreas mais habitadas (Sardelis et al 2002; Kutz et al 2003). Tais mosquitos apresentariam comportamento eclético em relação ao ambiente onde vivem e, conseqüentemente, às fontes para repasto sangüíneo. Aspectos epidemiológicos Provoca epizootias em aves e eqüinos e surtos epidêmicos em humanos. Nas zonas temperada e subtropical, a maioria dos casos humanos ocorre no verão e início do outono. Na faixa tropical, a incidência deve ser maior durante a estação chuvosa, época em que os mosquitos são mais abundantes. Porém para essa região, os trabalhos são escassos (Campbell et al 2002). A transmissão principal do vírus, tanto entre os animais, como no homem, faz-se via vetor biológico, sendo os mosquitos os principais veiculadores. Há suspeitas do envolvimento de algumas espécies de carrapatos. Em humanos, embora sejam eventos mais raros, constataram-se outras vias de contaminação, entre elas: transplantes de rins, pulmões e coração; transfusão de componentes sangüíneos; aleitamento materno; passagem transplacentária, por contigüidade durante o parto, entre outras. Vetores Para que uma determinada espécie de mosquito atue como vetor do VNO há alguns requisitos, como: i) abundância – há necessidade da presença intensa de exemplares adultos no ambiente, o que permitirá que indivíduos da população sejam infectados em uma fonte, representada por um vertebrado virêmico; ii) competência – o agente viral ser dotado de afinidade pelo organismo do vetor. Esse, ao praticar a hematofagia, infecta-se em um vertebrado virêmico, o agente replica com eficiência em seus teci28 – Saneas / dezembro 2004 dos até contaminar as células das glândulas salivares e poder transmitir o patógeno via saliva a outro organismo. Nos Estados Unidos, tem sido dada ênfase aos estudos de competência (Sardelis et al 2001; Goddard et al 2002); iii) longevidade – o mosquito deve sobreviver o suficiente para processar vários repastos sangüíneos durante sua existência, fato que garante o contato com diversos hospedeiros, aumentando-se as chances de transmissão, caso esteja infectado; iv) zoofilia – o mosquito terá que ter afinidade pelas aves na manutenção de ciclos silvestres e por mamíferos, nas transmissões acidentais ao cavalo e ao homem. Muitos mosquitos já foram encontrados albergando o VNO (Nasci et al 2001). Aqueles dos gêneros Ochlerotatus, Aedes e Culex têm tido relação com o vírus em diversas áreas nas Américas, onde a arbovirose se manifestou. Entre outras possibilidades, no Brasil, Ochlerotatus scapularis, Aedes albopictus e Culex quinquefasciatus são as espécies que, em certas situações, preencheriam os requisitos de um vetor eficiente de VNO, caso o vírus seja introduzido. Ochlerotatus scapularis possui hábitos predominantemente rurais e tem filia por animais domésticos de grande porte, inclusive o cavalo (Forattini et al 1989; 1995; Gomes et al 2003). Poderá, portanto, ser responsável por epizootias em cavalos e aproximar o vírus ao homem. Ademais, essa mesma espécie de mosquito demonstrou competência para transmitir o vírus Rocio (Mitchell e Forattini 1984), agente classificado como flavivírus, como o VNO. Quanto ao Aedes albopictus, em experimentos conduzidos nos Estados Unidos foi demonstrada sua competência na transmissão do VNO (Turell et al 2001; Sardelis et al 2002). Além dessa evidência, nessa mesma espécie coletada no campo, detectaram-se “pools” positivos para antígenos de VNO, o que demonstra ter havido infecção natural de exemplares da espécie (Holick et al 2002). No Brasil, esse mosquito exótico dispersou-se rapidamente a partir de sua área original de introdução, estando distribuído em praticamente todos os estados. Com ampla valência ecológica, ocorre nos ambientes urbano, rural e silvestre, e, assim, poderá transferir o vírus do ciclo natural para áreas mais alteradas e de maiores densidades humanas. Nesse sentido, Kutz et al (2003) já alertaram que as fêmeas adultas desse culicídeo são oportunistas em relação aos hospedeiros e se alimentam tanto em aves quanto em mamíferos. Para esses autores, essas particula- Artigos Técnicos ridades seriam suficientes para caracterizar a espécie como potencial “vetor ponte”. A espécie Culex quinquefasciatus é reconhecidamente associada às águas poluídas, ricas em matéria orgânica. Manifesta elevadas densidades em aglomerados humanos em que há descuido quanto ao tratamento de resíduos de esgoto. Uma área altamente infestada por esse mosquito foi estudada no município de Santana de Parnaíba (SP), onde era causa de incômodo à população humana (Natal et al 1991). O rio Pinheiros, na capital paulista, compõe extenso foco de proliferação desse culicídeo, que provoca incômodo aos habitantes de seu entorno. Devido à sua elevada antropofilia, terá potencial de produzir infecções de VNO em humanos. Perspectivas de introdução no Brasil Especialistas em virologia e epidemiologia no Brasil temem a introdução de mais esse agravo à saúde. Acredita-se que as aves migratórias, provenientes de países já afetados do Norte, representariam a maneira mais viável de introdução do VNO. Nesse sentido, há relato alertando para essa possibilidade, ao indicar as principais espécies de aves e seus pontos de passagem pelo território nacional (Luna et al 2003). O Ministério da Saúde (MS), em conjunto com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, tem realizado inquéritos sorológicos em aves migratórias provenientes de áreas de ocorrência do vírus, objetivando detectar precocemente possíveis portas de entrada do vírus e assim conter a provável disseminação do mesmo no território brasileiro. Foram realizados trabalhos dessa natureza no Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Maranhão, Amapá e Amazonas, onde, até o momento, o vírus não foi isolado (Araújo et al 2004a,b). Vigilância A base da vigilância do VNO é complexa, naturalmente devido à ampla valência ecológica desse agente. Preconiza-se a organização de uma rede que envolve obtenção de dados sobre a atividade viral nos seguintes organismos: em humanos, em cavalos, em aves e em vetores (Hadler et al., 2001). A vigilância em humanos deve ser passiva até que surja o primeiro caso. A partir desse evento, implanta-se a vigilância ativa, que envolve a procura das ocorrências. Essa é útil para documentar o impacto na Saúde Pública, mas não serve como modo de prevenção, pois ao se detectar os casos, o episódio já está em curso. Na Argentina, segundo dados do Instituto Nacional de Enfermidades Virais Humanas (INEVH), com o objetivo de investigar se o vírus já havia atingido o homem, analisou-se soro de pacientes, cujos quadros foram diagnosticados como síndrome febril inespecífica, ocorridos entre 1977 e 1999. Porém, as amostras que foram positivas para flavivírus, enviadas para o CDC nos EUA, foram testadas para VNO e os resultados foram negativos. No Brasil, a vigilância das meningites virais terá um novo componente ao se introduzir o diagnóstico diferencial do VNO, que será levado a efeito em pacientes com quadro característico, que tenham idade acima de 50 anos e história de viagem para as áreas de risco nos últimos 15 dias. Além dessa iniciativa, portos e aeroportos internacionais, onde o fluxo de passageiros provenientes de áreas de risco seja intenso, permanecerão com as atividades de vigilância em estado de alerta. A estratégia da vigilância em cavalos é muito similar à humana. Na epidemia de Nova York (EUA), casos em eqüinos precederam casos humanos, mas na Flórida (EUA), o mesmo não se sucedeu e, logicamente, esses padrões variam segundo o ambiente. Na Argentina, segundo o INVEH, a entrada de animais importados no país é admitida, desde que não tenham sido registradas ocorrências de circulação viral no local de origem, nos últimos 30 dias. Admite-se, também, a importação de animais com sorologia IgM negativa feita no país de procedência, antes da viagem. Entre os eqüinos que ingressaram no país, estudos indicaram a inexistência de animais em fase aguda que pudessem servir de fonte de VNO. A vigilância da doença em cavalos no Brasil será realizada a partir de animais que adoecerem e morrerem suspeitos de encefalite rábica e que sejam laboratorialmente negativos. O material coletado será encaminhado para diagnóstico das encefalites eqüinas e, caso também tenham resultado negativo, serão encaminhados para estudo de verificação de VNO. Nas aves, a atividade principal recai sobre a educação, estimulando-se a população a participar. Nesse sentido, as aves encontradas mortas devem ser encaminhadas a um laboratório para diagnóstico. Outra perspectiva é o emprego de aves sentinelas para detecção da atividade viral, sendo vista como excelente indicador de transmissão e avaliação de risco. O importante nesses estudos é a avaliação da soroconSaneas / dezembro 2004 – 29 Artigos Técnicos Bióloga Sumire Hibi do CCZ, PMSP, procede coleta de imaturos de mosquitos no canal do rio Pinheiros. versão. O animal mais utilizado na vigilância nos Estados Unidos é a galinha (Blackmore et al 2003). Em países como os da América do Sul, para onde o vírus ainda não se expandiu, há preocupação com o fluxo migratório de aves. Assim, no Brasil, o MS delimitou os principais pontos de passagem de aves, onde elegeram locais estratégicos para vigilância. As aves são aprisionadas com rede, das quais se extraem amostras para encaminhamento da pesquisa virológica (Araújo et al 2004 a,b). Não foi detectada a presença de anticorpos de VNO em um grande número e diversidade de espécies analisadas, porém foram identificados outros vírus de importância epidemiológica. A vigilância de aves em implantação no Brasil dar-se-á a partir de indivíduos mortos encontrados em zoológicos, parques e praças das cidades. Essa estratégia contará com os Centros de Controle de Zoonoses (CCZ) como bases operacionais para o desenvolvimento das atividades. Em relação aos vetores, a vigilância deverá concentrar-se na identificação de espécies com potencial de transmissão, bem como na detecção de mosquitos infectados com o VNO. Há a necessidade de monitoramento da população de mosquitos, elegendo-se pontos de captura, mediante o uso de armadilhas automáticas, coletas em animais envolvidos na cadeia epidemiológica, entre outras alternativas. No Brasil, o combate aos vetores será realizado de forma integrada com os programas de controle de Aedes (dengue) e de Anopheles (malária) e contará com o apoio dos laboratórios de entomologia das Secretarias Estaduais de Saúde. Essa é vista como uma maneira de otimizar os recursos já existentes. O MS já organizou e implementou uma rede de vigilância em pontos vulneráveis do território, associados naturalmente a ecossistemas utilizados nas rotas de aves procedentes das América do Norte e Central. Em reuniões, o MS tem repassado a preocupação aos estados e tem também provocado estímulos para que sejam implementadas ações 30 – Saneas / dezembro 2004 de vigilâncias em áreas específicas favoráveis à instalação da arbovirose em seus territórios. Alerta-se que há condições de transmissão urbana e que cidades com situação econômica e de infra-estrutura precárias e aquelas desprovidas de sistema de vigilância de arbovírus e sem programas de controle de vetores, são particularmente vulneráveis (Campbell et al 2001). Cargas poluidoras e Culex quinquefasciatus Os mosquitos do gênero Culex e principalmente a espécie Culex quinquefasciatus são vistos como potenciais vetores e, caso o vírus chegue ao país, priorizar-se-ia o controle desses culicídeos. Nesse sentido, o MS está organizando diretrizes de orientação de controle, especificamente voltadas para a espécie em pauta, para que sejam rapidamente distribuídas aos CCZ das prefeituras do país. Ressaltase que Culex quinquefasciatus é uma espécie de mosquito altamente adaptada a desenvolver as fases imaturas em águas comprometidas pelas cargas poluidoras, com elevadas concentrações de matéria orgânica. O rio Pinheiros e numerosos córregos da cidade de São Paulo constituem criadouros férteis desse mosquito e representam enorme desafio ao CCZ da prefeitura local. A maioria das cidades brasileiras sofre de problema semelhante, decorrente de deficiências no saneamento. Há a expectativa da chegada do vírus que poderia facilmente circular nas imediações desses criadouros, fato que levaria a eventos epidêmicos de grande impacto. Em outra circunstância, a presença em elevadas densidades desse hematófago é um grave fator de incômodo. Em São Paulo, o controle do Culex quinquefasciatus tem sido feito com base em inseticidas químicos e agentes biológicos, em um programa estabelecido pelo CCZ, porém sem surtir os efeitos desejáveis. Assim, a população humana, ano a ano, em períodos favoráveis aos mosquitos, continua sendo incomodada pela elevada densidade desse culicídeo. No rio Pinheiros, a alta concentração de matéria orgânica, a presença de descartes sólidos na superfície e a proliferação de macrófitas flutuantes e de borda são alguns fatores que inviabilizam os esforços do controle. Torna-se necessário investir no saneamento do canal e de seus afluentes, com vistas a restabelecer a qualidade ambiental. Alcançada essa meta, haverá o retorno do equilíbrio ecológico e o restabelecimento natural da cadeia de Artigos Técnicos Visão panorâmica do canal do rio Pinheiros predação, fato que facilitará quaisquer intervenções de controle. A Faculdade de Saúde Pública da USP e a Sabesp, com o apoio de outras instituições, estão articulando a formação de um grupo de pesquisadores e técnicos com interesse em desenvolver e testar novas tecnologias no controle do Culex quinquefasciatus. Todavia, para a implementação de projetos de pesquisa, serão necessários esforços na busca de suporte financeiro. Referências Araújo FAA,.Vianna RST, Wada MY, Silva EV, Doretto L. Inquérito sorológico em aves migratórias e residentes de Galinhos/RN para detecção do vírus da febre do Nilo Ocidental e outros vírus. Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde, Bol Eletron Epidemiol, ano 4, No. 2, 19/02/2004 (www.saude.gov.br/svs) (a) Araújo, FAA, Vianna RST, Andrade-Filho GV, Melhado DL, Todeschini B, Cavalcante GC, Fedrizzi CE, Magalhães VS, Scherer A, Almeida MAB, Portella AS, Santos E, Scherer SB, Doretto L, Martins LC, Rodrigues SG, Vasconcelos PFC. Segundo inquérito sorológico em aves migratórias e residentes do Parque Nacional da Lagoa do Peixe/RS para detecção do vírus da Febre do Nilo Ocidental e outros vírus. Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde, Bol Eletron Epidemiol, ano 4, No. 5, 21/06/2004 (www.saude.gov.br/svs) (b). Bernard KA, Maffei JG, Jones SA, Kauffman EB, Ebel GD, Dupuis AP, Ngo KA, Nicholas DC, Young DM, Shi PY, Kulasekera VL, Eidson ME, White DJ, Stone WB, Kramer L. West Nile Virus infection in birds and mosquitoes, New York State, 2000. Emerg Infect Dis 2001; 7(4): 679-85. Blackmore CGM, Stark LM, Jeter WC, Oliveri RL, Brooks RG, Conti LA, Wiersma ST. Surveillance results from the first West Nile Virus transmission in Florida, 2001. Am J Trop Med Hyg 2003; 69(2): 141-50. Campbell GL, Ceianu CS, Savage HM. Epidemic West Nile encephalitis in Romania: waiting for history to repeat itself. Ann N Y Acad 2001; 951-101. Campbell GL, Marfin AA, Lanciotti RS, Gubler D. West Nile Virus. Lancet Infect Dis 2002; vol.2, September. http://infection.thelancet.com. CDC. Epidemic/epizootic West Nile Virus in the United States: revised guidelines for surveillance, prevention and control; CDC, Atlanta, 2001. 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O saneamento ambiental é reconhecido hoje, como fundamental e imprescindível para o desenvolvimento econômico e social; para manutenção da saúde humana e para proteção e melhoria da qualidade ambiental. Os progressos obtidos nessa área, associados às conquistas científicas, especialmente na área de saúde possibilitaram a quase erradicação das epidemias de diversas doenças de veiculação hídrica, aumentando a expectativa de vida da população e melhorando muito o nível de conforto das comunidades. De acordo com Cordeiro (2001), o saneamento ambiental exige ações com visão abrangente e integrada das ações de: abastecimento de água; coleta e destinação adequada de resíduos sólidos e líquidos; águas pluviais e gerenciamento ambiental integrado ao uso e ocupação do solo. Essas ações somente poderão ter sucesso se desenvolvidas com objetivos co- muns e trabalhadas conjuntamente, o que significa mudança efetiva nos padrões de gestão do setor. Os visíveis comprometimentos do meio ambiente levaram as autoridades políticas, a comunidade e os responsáveis pelas organizações produtivas a refletirem de forma integrada com vistas à mudança de postura e conscientização global. O resultado é a elaboração e o desenvolvimento contínuo de um conjunto de normas que contribue, como instrumento de planejamento e gestão. Fornece, também, diretrizes para o controle, o uso e a disposição final dos resíduos. Assim, a redobrada atenção ao desenvolvimento de instrumentos de gestão ambiental, que possibilitem promover o manejo adequado do pós-uso da água, pressupõe a identificação de ações que busquem a sustentabilida- Bacharel em Química e mestra em Engenharia Urbana pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Coordenadora da Qualidade da Unidade de Negócio Leste – Sabesp. ([email protected]) Engenheiro Civil e Doutor em Hidráulica e Saneamento pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Professor do Departamento de Engenharia Civil da UFSCar. 32 – Saneas / dezembro 2004 Meio Ambiente de ambiental. O projeto e a implantação de novas unidades de tratamento de esgotos devem contemplar o reúso dos resíduos sólidos, líquidos e gasosos. Contudo, o estado atual do gerenciamento das Estações de Tratamento de Esgotos (ETE), enfrenta problemas, como: entraves burocráticos com conseqüente morosidade nas decisões; descontinuidades das ações, provocadas pelas freqüentes mudanças políticas nas organizações públicas; cultura de gestão antiquada baseada em apenas cumprir leis; visão de investimentos baseados em resultados imediatos; recursos humanos não comprometidos em assegurar um posicionamento que reflita o compromisso do saneamento com o desenvolvimento voltado para a proteção do meio ambiente, bem como as comunidades não atuantes, por falta de treinamento em educação ambiental. A adoção do Sistema de Gestão Ambiental (SGA), fundamentada na Norma NBR ISO 14001 (1996), garante a qualidade ambiental e conduz para a consecução dos pressupostos do desenvolvimento sustentável, que busca suprir as necessidades da atual e futuras gerações, melhorando sua condição de vida e assegurando sua efetiva participação nos processos decisórios. Objetivo O objetivo desse trabalho é desenvolver as linhas iniciais para a implantação de um SGA, baseado na Norma NBR ISO 14001, e apresentar os benefícios da certificação na ETE Vila dos Remédios. O sistema de gestão ambiental da ETE Remédios Localizada no Município de Salesópolis, local estratégico para o abastecimento público da Região Metropolitana de São Paulo com as Áreas de Proteção aos Mananciais, contendo em seu território a nascente do rio Tietê e as Represas Ponte Nova e Paraitinga (em construção) pertencentes ao sistema Produtor do Alto Tietê; a ETE da Vila dos Remédios possui um tratamento que combina lagoa facultativa, seguida de valas de evaporação e infiltração do efluente tratado no solo, única da América Latina. Neste caso, como Salesópolis tem um papel importante no planejamento estratégico dos recursos hídricos, optou-se por preservar os corpos d’água e utilizar um tratamento que dispensa o lançamento dos efluentes tratados em rios ou córregos. A ETE Remédios trata hoje cerca de 2L/s, mas no fim de plano (2015) terá capacidade para tratar cerca de 4L/s de esgoto sanitário. É constituída por uma lagoa facultativa, onde ocorre o tratamento biológico convencional, cujo tempo de detenção do efluente é de 18 Política Ambiental da ETE Remédios (abril de 2004) “Contribuir para a preservação do meio ambiente reduzindo a poluição das águas no Município de Salesópolis, visando a melhoria contínua”. dias. Após esse período, o efluente já tratado, é encaminhado para a área de infiltração, onde ocorre também a evaporação. Essa área é composta por 14 módulos drenantes, com cinco drenos de 30m de extensão cada um, que são responsáveis pela infiltração do efluente tratado, no solo. Todos esses fatores levaram essa ETE, em setembro de 2002, a possuir um SGA certificado pela ISO 14001. A implantação do SGA iniciou-se com a definição da política ambiental, que expôs as intenções e princípios em relação ao desempenho ambiental procurando minimizar impactos ambientais provenientes das atividades da ETE e assim favorecer para a garantia de recursos hídricos em quantidade e qualidade. Em seguida foram levantados os aspectos e impactos ambientais importantes por meio de uma lista de prioridades. Com isso, foram traçados os objetivos e metas, que são monitorados pelo SGA. A implantação e operação desse sistema foram estabelecidas por meio de procedimentos e instruções de trabalho que incluem os processos de treinamento e conscientização, comunicação social, controle de documentos, controle operacional, preparação e atenSaneas / dezembro 2004 – 33 Meio Ambiente Melhoria contínua VERIFICAÇÃO E AÇÃO CORRETIVA IMPLEMENTAÇÃO E OPERAÇÃO POLÍTICA AMBIENTAL PLANEJAMENTO ANÁLISE CRÍTICA PELA ADMINISTRAÇÃO Figura 2: Modelo de SGA proposto pela NBR ISO 14001. Fonte: ABNT (1996) dimento a emergências, monitoramento e medição, não-conformidade, ação corretiva e preventiva e auditorias. A Figura 2 apresenta a base de abordagem da ISO 14001. Pode-se perceber que são cinco os pontos fundamentais no processo de elaboração do SGA, que culminam na melhoria contínua. Segundo Lissenden (1999), a ISO 14001 fornece uma estrutura de SGA que possibilita à empresa equilibrar as demandas dos cliente e, ao mesmo tempo, melhorar a eficácia interna, reduzir as perdas e se adaptar às regras de sustentabilidade. De acordo com Ferreira (1999), o modelo de SGA proposto é semelhante ao método de gestão denominado Ciclo PDCA (Plan, Do, Check, Action), isto é, “Planejar, Fazer, Controlar e Agir”, comumente aplicados para gerenciamento de sistemas de qualidade. Resultados A análise comparativa dos períodos anterior e posterior à implantação do SGA, mostrado na Tabela 1, pode evidenciar os ganhos que esse sistema apresenta. Tendo em vista os resultados extremamente positivos alcançados na aplicação desse modelo de gestão ambiental, presume-se que este pode tornar-se um excelente instrumento para iniciar o caminho em busca da conformidade com a legislação ambiental e melhoria da per34 – Saneas / dezembro 2004 formance ambiental das Estações de Tratamento de Esgotos. Além disso, tornou-se uma ferramenta para autodeclaração do SGA da ETE, visando demonstrar às partes interessadas o comprometimento com as questões ambientais inerentes à sua atividade, de acordo com a premissa da NBR ISO 14001. Conclusões Mesmo sendo uma atividade nitidamente de proteção ambiental, a ETE, que é parte integrante do ciclo do saneamento básico, possue um alto potencial poluidor, devendo ser reconhecida como tal e ser corretamente gerenciada pelas empresas de saneamento básico, públicas ou privadas. Ao longo deste trabalho, pôde-se observar a importância crescente da questão ambiental no dia-a-dia das pessoas e o envolvimento da empresa neste processo. Através do estudo de caso, constatou-se que a certificação ambiental adquirida pela ETE Remédios proporcionou os seguintes benefícios: • Controle e redução dos recursos utilizados nos processos produtivos; • Identificação e controle dos aspectos e impactos ambientais relevantes à ETE; • Possibilidade de atingir sua política ambien- Meio Ambiente Tabela 1: Comparação dos itens de controle antes e após a implantação do SGA Itens analisados Antes da implantação do SGA Após a implantação do SGA Alta administração Pouco comprometida, visão operacional; falta de metodologia para alocar as informações Totalmente comprometida; visão de melhoria ambiental; análise crítica do sistema; critérios para alocação de recursos Política ambiental Diretriz corporativa muito genérica de difícil compreensão Definida a política ambiental da ETE a qual direciona todas as ações para melhoria do SGA implantado Planejamento Incipiente e sem gerenciamento; não havia mitigação/minimização dos impactos ambientais; alto número de reclamações da comunidade; teoria gera a prática Atividades em conformidade com o SGA implantado; adoção de ações corretivas e preventivas para mitigar/minimizar os impactos ambientais; pesquisa de satisfação da comunidade e tratamento das reclamações; prática da gestão gera a teoria Requisitos legais Controlado pela escolha do cumprimento do licenciamento; freqüências de monitoramento pouco significativas Baseado no levantamento dos aspectos e impactos ambientais; procedimento específico para acompanhamento das alterações legais; freqüências de coletas definidas com critérios; diminuição de ações do Ministério Público e do número de sansões legais; maior facilidade para obtenção das licenças ambientais Gestão de pessoas Fraca ou nenhuma atuação; treinamentos sem programas; falta de entrosamento e relações pessoais entre os níveis da organização Gestão de “competências”; matriz de capacitação/ treinamento atrelada às atividades específicas; fluidez das relações pessoais entre todos os níveis hierárquicos da organização tal, seus objetivos e metas incluindo o cumprimento da legislação ambiental; • Definição de uma série básica de princípios que guiem a abordagem da ETE em relação às suas futuras responsabilidades ambientais; • Estabelecimento de metas de curto, médio e longo prazo para o desempenho ambiental, assegurando o equilíbrio de custos e benefícios; • Melhoria da imagem. É importante relatar que o SGA da ETE Remédios forneceu um processo estruturado para a melhoria contínua, cujo ritmo é determinado pela empresa, em função de várias circunstâncias, inclusive econômicas, sendo uma ferramenta que permite à ETE alcançar e sistematicamente controlar o nível de desempenho ambiental que ela mesma estabelece. Tal experiência é de extrema importância, pois um SGA pressupõe uma visão ampla de todo o sistema de gerenciamento ambiental, desde a entrada das águas residuárias, aplicação de insumos, tratamento, emissão do efluente e geração de resíduos sólidos e gasosos. Referências bibliográficas ABNT (1996) NBR ISO 14001 – Sistemas de gestão ambiental – especificações e diretrizes para uso. Rio de Janeiro. CORDEIRO, J.S. (2001) Processamento de lodo de ETA´s. Relatório Técnico. São Carlos. UFSCar/DECiv. Projeto PROSAB. FERREIRA, R.A. R. (1999). Uma avaliação da certificação ambiental pela Norma NBR ISO 14001 e a garantia da qualidade ambiental. São Carlos. 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Saneas / dezembro 2004 – 35 P&D ENTREVISTA SIMONE RAMOUNOULOU Em prol de uma humanidade mais justa H á 12 anos, a administradora de empresas e humanista Simone Ramounoulou abriu as portas da Willis Harman House, uma simpática casa no bairro de Jardim América, em São Paulo. O espaço é um local para reunir pessoas que buscam caminhos para uma sociedade mais justa. Para isso, a Willis Harman House representa, no Brasil, três grandes grupos: World Business Academy, academia de empresários e consultores interessados, desde 1996, em desenvolver e expandir o papel do empresário e suas organizações, tornando-as agentes de transformação social; o Institute of Noetic Sciences, instituição fundada, em 1973, com o propósito de expandir conhecimentos adjacentes à natureza e potencial da mente humana em prol de um mundo mais sustentável; e The Club of Budapeste, organização de líderes internacionais, educadores, artistas humanistas, cujas atividades norteiam os ajustes necessários aos desafios ecológicos, educacionais e ambientais. Por aqui, a Willis Harman House, comandada por Simone, também representa o The Natural Step, organização de consultoria e pesquisa internacional, que trabalha com usuários dos recursos do planeta, gerando soluções, modelos e ferramentas com foco na sustentabilidade. Com voz tranqüila e um amistoso sorriso no rosto, Simone Ramounoulou recebeu a reportagem de Saneas para falar sobre seu trabalho na Willis Harman House e como é possível promover a mudança de consciência e de paradigmas vigentes. O objetivo? Um relacionamento humano mais correto para todos. O que é a Willis Harman House? O nome por si só é uma homenagem à Willis Harman, mestre em física e Ph.D. em engenharia elétrica, que foi o precursor do potencial da mente humana. Um de seus objetivos foi a divulgação de conhecimento sobre a natureza e o bem estar da humanidade e do planeta. E a Willis Harman House é uma casa, onde reunimos pessoas, com aspiração de fazer diferença no mundo em que vivemos e, também, encontrar maneiras de fazer esta mudança. Por isso que chamamos este lugar de uma iniciativa de convergência e síntese. Nós damos a oportunidade para que vários enfoques possam ser vistos e vários valores possam vir à tona. Os valores são os que nós escolhemos: a cooperação, a responsabilidade, a transparência e a alegria. Acolhemos todos os movimentos e valores que possam 36 – Saneas / dezembro 2004 ajudar nessa ação de consciência. Nós partimos do princípio de que quem faz a mudança é o ser humano e, como conseqüência, isso se estende para as organizações. A mudança no nível de consciência – não no sentido moralista, mas no sentido amplo, de conhecimento, percepção ampla do que é o universo em que vivemos – leva a uma percepção mais sutíl das coisas. Como isso funciona na prática? Cada um desses grupos (World Business Academy, Institute of Noetics Sciences e The Club of Budapeste) agrega um certo número de pessoas. Juntamos empresários, consultores, pesquisadores, médicos, cientistas, pesquisadores, educadores, artistas, humanistas. São grupos que criam atividades, ferramentas, para que as pessoas que buscam um conhecimento dife- rente possam nos conhecer e participar deste diálogo. Temos encontros específicos, como, por exemplo, o da World Business Academy, com empresários que têm, na Willis Harman House, a possibilidade de compartilhar e pôr em dúvida suas questões. Alguns participantes são membros e outros são convidados. Em geral, acolhemos pessoas que já pensam e já sentem como nós. Mas também estamos abertos a pessoas que vem nos fazer perguntas. Isso é feito por meio de eventos e atividades na casa, mas também vamos a universidades, empresas e comunidades. São grupos de diálogo, porque o diálogo abre oportunidades para ambos os lados e sempre se chega num consenso. E se não se chega num consenso, as pessoas, mesmo assim, ficam satisfeitas porque exauriram a possibilidade de se expressar. Entrevista A sociedade e os gestores das empresas estão atentos as questões relacionadas a responsabilidade social e ambiental? Na minha opinião, isso ainda está aquém da percepção dos grupos sociais ou empresariais. É ainda uma questão de cultura nacional. Estamos falando, há algum tempo, de responsabilidade social mas para a responsabilidade ambiental ainda há um grande passo a ser dado. Precisamos investir em educação. Todos os nossos projetos da Willis Harman House, por exemplo, têm fundamento em educação, não no sentido acadêmico mas no sentido amplo, de mudança de mentalidade, de percepção mais ampla, de compreensão dos processos nos quais todos nós, como seres humanos, estamos envolvidos. A World Business Academy conscientiza os empresários sobre esta necessidade de nova consciência; a Redepaz e o Elos falam de educação e liderança consciente; e, certamente, o The Natural Step é o programa mais amplo e abrangente nos processos de sustentabilidade, ecologia, responsabilidade social e ambiental. A Willis Harman House acabou de criar um novo programa, o Elos. A senhora poderia falar um pouco sobre isso? O Elos é o jovem promissor que surgiu exatamente das nossas experiências. Na apresentação do Elos colocamos a pergunta ‘como seria uma escola de negócios ou de lideranças vista pelo Willis Harman?’. Então nós criamos o Elos com essa finalidade: uma escola de negócios, de líderes, vista por todos esses valores que desenvolvemos. No momento, estamos criando a maneira de compartilhar e de ajudar as pessoas a compreender e a sentir aquilo que nós vivemos, nos últimos anos. O Elos tem todo o frescor da juventude, mas estamos crescendo junto com ele, como uma criança. Trabalhamos grupos e compartilhamos as nossas experiências para criar este caminho. Temos um grupo de pessoas que se inscreveram para fazer esta formação de líder, dentro da consciência de um mundo mais correto. O Elos surgiu de uma aspiração. Tudo o que fazemos aqui é muito novo. É difícil trabalhar com o novo e com processos de mudança de consciência? Difícil, não. Mas precisa de muito cuidado. É como uma criança que precisa ser educada. E uma criança tem sua própria personalidade e perfil. E ao mesmo tempo tem que estar preparada para um contexto que já existe e dar a ela a oportunidade de criar seu novo contexto. Por isso trabalhamos com pessoas. Porque as organizações não têm um perfil, mas, sim, o perfil das pessoas que estão nela. Essa é a grande diferença. A gente fala, por uma questão cultural e até acadêmica, em empresas e organizações. Mas o que é uma empresa se não a somatória das características de todas as pessoas que estão dentro dela? Como as pessoas reagem a estes novos conceitos? As pessoas que se aproximam da casa estão buscando algo, mas não sabem nem o quê. Percebem que os processos precisam ser feitos de um jeito diferente, mas não sabem como pode ser diferente. Em geral, elas se perguntam: ‘será que estou imaginando e que é impossível’, ‘será que existe uma maneira de fazer as coisas diferente’, ‘há como focar nos valores, no ser humano e sair desse contexto árido, que é a organização em si’. A casa oferece este ‘o quê’ e o ‘como’, que são as nossas ferramentas. E, muitas ve- zes, oferecemos o ‘onde’, porque as pessoas já têm aquilo que elas buscam, mas não sabem onde aplicar ou com quem compartilhar. As pessoas chegam e ficam. Aqui, os modelos mentais aos que as pessoas estão habitualmente acostumadas não se aplicam. O que se aplica, aqui, é algo diferente, muito mais sutil. No Club of Budapeste, temos uma citação, que é do (Albert) Einstein, que diz: ‘a gente nunca pode encontrar a solução usando os mesmos recursos que criou o problema’. Essa passagem é muito sútil e essa sutileza muitas vezes faz a diferença, é o catalisador. É preciso vir, perceber esse novo e ter uma sutileza interna para trabalhar a si própria e, assim, fazer com que esta modificação aconteça. E isso, às vezes, acontece num momento de grande alegria e, às vezes, de grande desafios, que traz algum sofrimento. Você sabe que quanto mais a gente enxerga, mais miudezas se vê. Ouço as pessoas dizerem: entrei num caminho espiritual, numa filosofia de vida diferente e as coisas em vez de ficarem melhores, ficaram piores. Mas é assim: quanto mais luz você põe numa casa quando se faz a limpeza, mais se vê a sujeira. E isso cria um desafio maior. Portanto, precisa ter uma certa coragem para isso. E ter coragem é agir com o coração e com coerência. Por que se a pessoa descobre que precisa fazer uma modificação interna, precisa ter a coragem de ser coerente naquele momento. Isso é bem sutíl, mas não é filosófico. Por isso, a ação é importante, porque senão fica só no intelecto, na palavra. E aqui damos a oportunidade das pessoas colocarem todos esse valores, tudo aquilo que sentem e buscam. E é concreto. Não é só nas palavras. ■ Para saber mais A Willis Harman House tem grupos de diálogos e troca de experiências todas as semanas. www.willisharmanhouse.com.br [email protected] - Tel. 11 3064-4630 Saneas / dezembro 2004 – 37 EMPREENDIMENTO E GESTÃO Desenvolvimento sustentável: algumas contradições, muitas esperanças Flávio Tayra Helena Ribeiro L Ed u Co caçã Co nfian o mu ç nid a ad e Co ão raç pe ação Su r e op rno ve Go ançado em 1987, o conceito do desenvolvimento sustentável deve ter sido um dos mais utilizados e repetidos durante a década de 1990 e princípio do século XXI. Geral e bemintencionado, ele encontra, porém, grandes dificuldades de aplicação prática, sendo marcado por múltiplas interpretações e consensos apenas pontuais. O Relatório Nosso Futuro Comum (WCED, 1991) veio atentar para a necessidade de um novo tipo de desenvolvimento capaz de manter o progresso em todo o planeta e, no longo prazo, ser alcançado tanto pelos países em desenvolvimento como pelos desenvolvidos. Desta forma, o desenvolvimento sustentável engloba a idéia de compatibilidade do crescimento econômico, com desenvolvimento humano e qualidade ambiental. Preconiza que as sociedades atendam às necessidades humanas em dois sentidos: aumentando o potencial de produção e assegurando a todas as pessoas as mesmas oportunidades (gerações presentes e futuras). Nessa visão, o desenvolvimento Diagrama dos sustentável não é um estado permafundamentos do nente de equilíbrio, mas, sim, de desenvolvimento mudanças quanto ao acesso aos sustentável recursos e quanto à distribuição de custos e benefícios. As análises que acentuam suas qualidades positivas destacam seu caráter inovador, como uma nova filosofia de desenvolEconomia vimento econômico, que pretende subsMeio ambiente Sociedade tituir e superar um modelo que já se mostra Recurso esgotado, e Integração que tem Pesquisa se mos- trado gerador de profundas dissensões socioeconômicas. Além disso, traz em sua concepção uma visão de longo prazo, sintonizada com os ciclos biofísicos e com as gerações futuras. Objetivos e contradições O economista espanhol José Manuel Naredo (1996, ps. 530-31) coloca que a maior parte da indefinição acerca do propósito e viabilidade do desenvolvimento sustentável reside na dificuldade de conciliar as diferentes racionalidades da economia (baseada nos agregados monetários homogêneos de produção) e da sustentabilidade (que recai sobre processos físicos singulares e heterogêneos). Com efeito, a idéia de crescimento econômico com que trabalha os economistas encontra-se desvinculada do mundo físico e não tem outro significado concreto e suscetível de medir se não com os agregados monetários, que por definição fazem abstração da natureza física heterogênea dos processos que os geram. Por negligenciar tal contradição, alguns ambientalistas se queixam de que o seu conceito de desenvolvimento sustentável estaria sendo distorcido e reinterpretado como uma estratégia de expansão do mercado e do lucro, quando, ao menos em tese, reivindica mudanças essenciais na estrutura de produção e consumo, uma nova ética comportamental e o resgate dos interesses sociais coletivos (Herculano, 1992). A despeito de tais contradições, o Relatório Brundtland propôs que a possibilidade de um estilo de desenvolvimento sustentável está intrinsecamente ligada à eliminação da pobreza, à satisfação das necessidades básicas de alimentação, saúde e habitação, aliado à alteração da matriz energética e ao processo de inovação tecnológica. Segundo Sachs (1986), numa análise que foi corroborada pelas conclusões do Relatório Brundtland, se a degradação ambiental agrava as condições de vida dos mais pobres, a pobreza Economista, doutor em Ciências Sociais e pós-doutorando em Saúde Ambiental, na Faculdade de Saúde Pública (FSP/USP). Geógrafa, Mestre pela Universidade da Califórnia, Doutora em Geografia Física pela USP, Livre- docente em Saúde Pública, Professora titular da FSP/USP. 38 – Saneas / dezembro 2004 Empreendimento e Gestão destes conduz a uma exploração predatória dos recursos naturais, fechando um ciclo perverso de prejuízos sócio-ambientais. Uma possível solução para amenizar tal estado de coisas seria o acesso ao mercado de trabalho, porém, a impossibilidade ou a dificuldade de que isso ocorra já demonstra de forma mais aprofundada o problema que realmente se apresenta, dado o desemprego tecnológico crescente. Segundo dados da PNUD, a situação da pobreza no mundo piorou nos últimos 50 anos, tanto em termos absolutos como relativos. Há pouco mais de cinqüenta anos, em 1947, o número de pobres era de 400 milhões, o que equivalia a 17,4% da população mundial. Em 1997, o número de pobres era de 1,3 bilhões, o que representava 22,8% da população mundial. Ou seja, nos últimos cinqüenta anos a quantidade de pobres aumentou em 900 milhões, e em termos relativos quase alcançou 1/4 da população mundial. Reverter tal situação é um dos grandes desafios da atualidade, embora já se saiba, desde a década de 1970 – quando da publicação do relatório Meadows (1978) –, que se todos os pobres do mundo um dia chegarem a atingir o padrão de consumo dos cidadãos dos países ricos (ao menos ao nível da tecnologia atual disponível), o planeta entrará rapidamente em colapso devido à exaustão dos recursos naturais. Ou seja, para se atingir uma sociedade mais sustentável, além de aumentar a renda dos pobres, cabe também mudar o comportamento do padrão do consumo dos países desenvolvidos, altamente demandante de recursos naturais. No entanto, verificam-se sinais de que a nossa sociedade parece estar cada vez mais orientada a uma uniformização deste tipo de consumo. A popularização do conceito de “globalização dos mercados”, na última década, é uma demonstração clara disso. Um desenvolvimento sustentável seria incompatível com o mercado? A forma de organização econômica capitalista encontrou sua forma de expansão na contínua criação de novas necessidades, o que demanda maior consumo e que na outra ponta imprime maior ritmo de atividade e crescimento econômico, índice desejado por todos, que fomenta ainda maior consumo, o círculo virtuoso do capital. A luta por maiores parcelas desse consumo, pelas partes ofertantes, estimula ainda mais o seu desenvolvimento, e por decorrência, uma maior utilização dos recursos naturais. Os limites para expansão de tal lógica parecem ser os limites físicos do meio ambiente. Atentar para esse aspecto constitui-se num dos maiores desafios do nosso tempo. Como inserir no sistema econômico uma variável de preocupação intra e inter gerações e com o meio ambiente? Como impor limites à “máquina do crescimento” e ainda assim prover as necessidades dos consumidores? As dificuldades para sua efetivação parecem decorrer de dois fatores primordiais: o primeiro se refere ao predomínio da visão de curto prazo, uma vez que o sistema de economia de mercado que fomenta a exploração de recursos, na busca por uma maior eficiência, estimula uma formação dos preços no mercado caracterizada por uma concepção que negligencia o longo prazo e deposita uma fé desmesurada nos possíveis impactos positivos de um desenvolvimento tecnológico implicitamente estimulado; o segundo aspecto (na outra ponta) é o desejo individual, cada vez mais estimulado de consumir, em particular, nas nações mais industrializadas, mas que vem progressivamente sendo adotado em países em desenvolvimento. Porém, ao mesmo tempo em que se verifica a necessidade de uma redução do consumo nos países mais desenvolvidos, a fome progride nos países pobres (evidenciando a existência de um consumo reprimido) e o desemprego atinge vários milhões de habitantes do planeta (inclusive dos países ricos), decorrendo, daí, problemas ambientais específicos, como a invasão das cidades, que culminam, por exemplo, na ocupação desordenada das suas periferias e na exploração predatória de recursos naturais por parte das populações rurais pobres, que refletem e acabam por reforçar mecanismos de exclusão social. A receita usual para o tratamento do problema: crescimento econômico. Qual seria a alternativa a esse círculo que se pretende virtuoso? Uma superação da lógica do crescimento econômico não parece ser uma medida de tão fácil execução. A crise econômica geral – a partir dos anos 80 do século XX – mostrou que a questão requer uma análise mais acurada. Nesse contexto, o crescente desemprego faz com que as pessoas clamem, com cada vez maior ardor, por maiores taxas de crescimento econômico. O mesmo crescimento econômico que, pela visão tradicional dos economistas, pode ser obtido por meio do grande desenvolvimento tecnológico, que as formas competitivas de mercado estimulam. Por outro lado, a manutenção de tal lógica pode levar ao ocaso do próprio sistema, dado que a sua expansão – a Saneas / dezembro 2004 – 39 Empreendimento e Gestão extensão deste padrão de crescimento e consumo aos mercados ditos emergentes – tende a levar os recursos naturais do planeta à exaustão, como alertam os ecologistas. Como fica o desenvolvimento sustentável nesse cenário? Antes de tudo, é preciso reconhecer que as discussões sobre o que venha (ou pode vir) a ser o desenvolvimento sustentável incitaram um grande debate que conseguiu mostrar todas as suas contradições (sobre o conceito em si e sobre seu foco de atuação); e esse é apenas um de seus lados positivos. É interessante perceber também que, ainda que preocupadas exclusivamente com sua imagem comercial, muitas empresas e companhias passaram a dar maior importância à questão ambiental, melhorando muitos de seus indicadores ambientais. O problema é que, ao mesmo tempo em que melhoram seus indicadores, tais empresas continuam a atuar dentro de uma lógica de crescimento econômico que fomenta cada vez mais produção (que na outra ponta se traduz em maior consumo de recursos), para fornecer mais e mais produtos a serem consumidos, que se traduzirá em maiores ganhos monetários, principais objetivos. Observa-se desta forma, que ainda que exista tal preocupação amplamente disseminada, os objetivos do desenvolvimento sustentável parecem ainda distantes de seus objetivos iniciais de propagar um consumo sustentável. Algumas considerações Um grande número de economistas deposita uma especial fé na tecnologia para superar os impasses ambientais, assim como acredita que a liberdade do mercado tende a formatar a melhor divisão e configuração de rendas no mercado. Entretanto, como vimos, a grande revolução tecnológica das últimas décadas (a despeito de todas as vantagens que trouxe embutida), traduzida em linguagem econômica num grande aumento de competitividade, torna ainda mais difícil a geração de postos de trabalho, contribuindo para um aumento da taxa de desemprego. Ao mesmo tempo, alguns países, alijados ainda mais do mundo da economia competitiva, mergulham cada vez mais na pobreza, e no mais das vezes, na fome. Simultaneamente, nos países mais ricos (ou em vias de se tornarem), parcelas expressivas de suas populações despendem seus recursos econômicos em um padrão de consumo altamente demandante de recursos naturais. Numa busca de maior equilíbrio, defende-se 40 – Saneas / dezembro 2004 que o atendimento das necessidades mais básicas dos pobres daria um sopro de continuidade ao processo econômico, gerando empregos e renda para essa parcela da população. No entanto, esse aumento de consumo dos pobres teria de ser compensado nos países mais ricos por uma diminuição do consumo, que absorve um grande teor energético. No mais das vezes, esse consumo supérfluo gera produção para ser desperdiçada e para aumentar o volume de resíduos sólidos, o que por si só já representa grave problema ambiental. Numa escala mais ampla, o que é consumido em excesso é que conduz à insustentabilidade do sistema. A adoção de um consumo sustentável dificilmente se dará de forma voluntária. Para se atingir este ponto são necessárias políticas específicas, direcionadas, mais precisamente políticas tributárias, que consigam arrecadar, alocar e induzir a utilização dos recursos numa direção mais sustentável, que consigam equilibrar a relação de desigualdade no acesso aos recursos naturais. Para se formular este tipo de política é necessário, no entanto, um maior conhecimento sobre o problema, numa análise que não se limite a um ou outro viés disciplinar ou ideológico, sob pena de se estabelecer políticas meramente autoritárias. Aspecto ainda mais importante é a necessidade de se desenvolver um conhecimento científico que escore tal nível de proposições e assegure grau significativo de sustentabilidade econômica às atividades produtivas. Ainda estamos apenas no começo do caminho. Bibliografia GEORGESCU-ROEGEN, N. (1971) The entropy law and the economic process. Cambridge (MA), Harvard University Press. HERCULANO, S. C. (1992) Do desenvolvimento (in) suportável à sociedade feliz.. In GOLDENBERG, M. (org.) Ecologia, ciência e política. Rio de Janeiro, Revan. MEADOWS, D. L., MEADOWS, D. H., RANDERS, J. & BEHRENS, W.W. (1978) Limites do crescimento, um relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o dilema da humanidade. São Paulo, Ed. Perspectiva. NAREDO, J.M. (1996) La economia en evolución: historia y perspectivas de las categorias básicas del pensamiento económico. Madri, Siglo Ventiuno de España Editores. RIBEIRO, G.L. (1991) Ambientalismo e Desenvolvimento Sustentado, nova ideologia/utopia do desenvolvimento. Revista de Antropologia, São Paulo/USP, nº 34, ps. 59-101. SACHS, I. (1986) Ecodesenvolvimento, crescer sem destruir. São Paulo, Vértice WCED (1987) Our common Future. Oxford, Oxford University Press, 1987 CONEXÃO OPINIÃO INTERNACIONAL O Japão e seu meio ambiente Ana Lúcia Silva O Japão é o segundo país mais rico do mundo, uma invejável posição alcançada em menos de 50 anos, apesar de ter sido alvo de eventos devastadores decorridos de sucessivas guerras com outros países. Atribui-se, como fatores que ajudaram o Japão a se tornar a segunda maior economia do planeta, os esforços das indústrias e do governo, uma forte ética no trabalho, o completo domínio da tecnologia e os gastos com defesa proporcionalmente pequenos (cerca de 1% Ana Lúcia no Memorial Minamata. do PIB). Uma das caracterísEsteve em Osaka, Japão, em 2004, ticas da economia do país é o no curso “Controle de metais perfeito relacionamento entre pesados e substâncias perigosas fabricantes, fornecedores e disno meio ambiente” tribuidores, chamado “keiretsu”. Por muito tempo, também se destacou o emprego vitalício, privilégio que vem sendo eliminado pelas empresas. O país teve, entre 1955 e 1975, um crescimento econômico espetacular, assim como um crescimento populacional sem precedentes, em uma época em que o conhecimento sobre meio ambiente estava no seu início. Tudo isto favoreceu para que o Japão registrasse ao longo de sua história algumas tragédias ambientais que marcaram muito o povo japonês, mas que por outro lado ampliaram em muito sua consciência com relação à importância da proteção e da preservação do meio ambiente, e para a necessidade de buscar meios sustentáveis de desenvolvimento econômico. Entre os graves acidentes ambientais ocorridos no Japão, cabe citar o Mal de Minamata, na década de 50, com milhares de pessoas contaminadas por mercúrio. A companhia Chisso despejou cerca de 200 toneladas de mercúrio na baía de Minamata e os efeitos desse crime se manifestam até hoje, em alguns sobreviventes e nos seus descendentes. Até 1997, era proibido o consumo de pescados na região. No entanto o Japão parece ter aprendido a transformar, segundo palavras do Dr. Masahisa Nakamura, diretor do Instituto de Pesquisas do Lago Biwa, “crises em oportunidades”. Ou seja, a partir de situações caóticas ocorridas ao longo de sua história, o povo japonês sempre buscou medidas que remediassem e evitassem novos desastres, objetivando sempre um meio ambiente mais saudável e uma melhor qualidade de vida. Observam-se várias conquistas importantíssimas obtidas principalmente a partir da ação da população em cobrança aos órgãos governamentais, como, por exemplo, a eliminação do uso de fósforo na formulação de detergentes e sabões, trabalho de vanguarda na década de 1970 das donas de casa japonesas, em socorro ao Lago Biwa, a principal fonte de água do país. Estas fantásticas mulheres conseguiram mudar a constituição do país, e fazer com que governo e empresários buscassem novas soluções para diminuir as emissões de poluição; o envolvimento do governo com as questões ambientais, em resposta à cobrança da sociedade; a capacidade técnica e científica das agências ambientais e de suas equipes; etc. Sobre o assunto do momento, disruptores endócrinos, muito se é falado e informado aos habitantes, objetivando-se uma parceria de ações na busca por soluções. Atualmente, foram identificados 67 tipos de disruptores endócrinos na água potável. Segundo os especialistas japoneses, apesar do tratamento avançado existente em todas as estações de tratamento de água1, eles reconhecem que a ozonização e a aplicação de carvão ativado em pó ainda não são barreiras totalmente eficientes para este tipo de poluição – ainda é possível encontrar traços destas substâncias na água final. Também reconhecem que pouco se sabe sobre sua ação na saúde humana, o que tem sido motivo de grande preocupação, não só da comunidade científica, mas da população em geral. O Japão tem ainda pela frente vários desacontinua na página 44 1 O processo avançado de tratamento de água inclui ozonização e carvão ativado em pó. Algumas estações menores (estações piloto) operam com membranas e osmose reversa. Engenheira química, mestre em Recursos Hídricos pela Poli-USP, trabalha na divisão de Controle de Qualidade da Sabesp Saneas / dezembro 2004 – 41 INOVAÇÃO Padronização do ramal predial de água como elemento de controle de perdas reais Pedro Jorge Chama Neto , Eric Cerqueira Carozzi , Edson Almeida Torre U m dos grandes problemas que atualmente enfrentam as companhias de Saneamento é a alta incidência de vazamentos que ocorrem nas redes, cavaletes e, principalmente, nos ramais prediais de água, devido à má qualidade dos materiais utilizados e a falhas na execução, com conseqüentes custos de manutenção e perdas de água. Numa conjuntura em que o número de ocorrências de vazamentos, pelos ramais prediais de água, alcançou parcela muito significativa do total de perdas reais observadas nos sistemas de abastecimento de água, optou-se por desenvolver projetos tendo como principal objetivo o aprimoramento dos ramais prediais de água em Polietileno (PEAD), considerados como sistemas e não apenas como simples instalação de tubos de PEAD. O presente trabalho apresenta o procedimento implantado na Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), para padronização do ramal predial de água, a partir do estudo detalhado das falhas que ocorrem nos mesmos, desde a tomada d’água até o cavalete. O procedimento implantado teve como base inicial o cadastro das falhas e suas classificações, segundo critérios específicos para monitoramento e análise contínua, de forma que fosse possível detectar as anomalias que comprometem o desempenho do ramal predial de água, e possibilitasse a adoção das medidas corretivas necessárias para mitigar o problema por meio da padronização do mesmo. Metodologia A metodologia de desenvolvimento do trabalho consistiu da elaboração de um Sistema Informatizado de Registro de Falhas (SRF), que permitiu a geração de um banco de dados, com informações obtidas a partir de uma planilha de campo, em que foram registradas todas as falhas verificadas nos tubos de PEAD e conexões pertencentes ao ramal predial de água. Esta planilha acompanhou em alguns casos todas as solicitações de serviços de reparo e, em outras, apenas 20% das ocorrências, porque esta amostragem foi considerada estatisticamente adequada e suficiente para que fosse atingido o objetivo de levantamento de falhas. As falhas passíveis de cadastro foram estabelecidas a partir de uma caracterização das falhas mais comuns, de maneira que fosse possível identificar um panorama das ocorrências, indicando sobre quais tipos de falhas deveriam ser dedicados os esforços para a atenuação ou eliminação da ocorrência da falha. No trabalho, além da elaboração do SRF e a respectiva análise de consistência e teste piloto, foi realizada a implantação do SRF em várias Unidades de Negócio da Sabesp, tanto da capital, como do litoral e interior, com o objetivo de conhecer o problema de forma abrangente. A implantação contemplou visita às unidades escolhidas, onde foi feita uma apresentação formal do sistema para as equipes técnicas, com debates e esclarecimentos gerais. Na seqüência foi procedida a instalação do sistema e o devido treinamento dos operadores. Também foram repassadas as instruções fundamentais para que os responsáveis pela instalação, manutenção e reparos dos ramais prediais estivessem devidamente preparados para o correto preenchimento das folhas de campo do sistema. Posteriormente, a partir do conhecimento das falhas que ocorrem nos ramais, definiu-se o padrão do ramal predial de água, tendo como elementos fundamentais: • Utilização do SRF como ferramenta para le- Engenheiro Civil, mestre em Engenharia pela EPUSP(2002), Engenheiro Especialista na Superintendência de Gestão de Empreendimentos de Sistemas Regionais da Sabesp. Engenheiro Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1991). Gerente do Departa- mento de Controle de Perdas e Planejamento Operacional da Diretoria de Sistemas Regionais da Sabesp. Engenheiro Civil pela Universidade de Mogi das Cruzes, Engenheiro do Departamento de Planejamento Integrado da Superintendência de Planejamento e Apoio da Metropolitana da Sabesp. 42 – Saneas / dezembro 2004 Inovação Pareto das falhas 25% 20% 15% 10% 5% vantamento, acompanhamento, monitoramento e correção das falhas e apoio às decisões gerenciais; • Elaboração de especificações técnicas Sabesp, visando adequar tecnicamente os materiais as necessidades da Sabesp e garantir a qualidade dos materiais a serem adquiridos e aplicados, e • Programa de treinamento dos funcionários, tanto da Sabesp como das contratadas, responsáveis pela instalação e reparo dos ramais prediais de água, conforme padrão definido. RESULTADOS O SRF do ramal predial foi implantado em várias unidades da Sabesp, permitindo um conhecimento abrangente da situação das falhas nas cidades ou regiões onde se utiliza o ramal predial em PEAD. Conforme previsto na metodologia, da implantação do sistema nas cidades participantes obteve-se, no período de abrangência do trabalho, um conjunto de dados que foram enviados para análise e incluídos no sistema pelas próprias regionais da companhia. Isso permitiu avaliar o nível e a tipologia de falhas, que vêm ocorrendo em cada cidade. A figura acima apresenta um gráfico de “Pareto”, que sintetiza uma média dos resultados das falhas ocorridas e as respectivas incidências percentuais registradas nas cidades onde foi implantado o sistema. Tendo como base o conhecimento das fa- lhas, que ocorrem nos ramais prediais de água, as principais variáveis (qualidade dos materiais e fatos vinculados a execução) responsáveis por estas falhas e adotando-se como premissas básicas para definição das peças a serem utilizadas no padrão do ramal predial de água: diminuição do número de juntas; realização de verificações e ensaios em materiais, visando checar o atendimento às normas existentes; elaboração de Normas Técnicas Sabesp, para adequação dos materiais às exigências Sabesp e para possibilitar o uso de materiais para os quais não existia Norma Brasileira; e facilidade para implantação de programa de treinamento, visando qualificar a mão de obra responsável pela execução e manutenção dos ramais prediais de água, decidiu-se pela padronização do ramal predial de água, conforme apresentado nas fotos ao lado e descrito a seguir: • Utilização de Tê de serviço integrado, para execução do ramal predial de água Vazamento na Haste Deslocamento Lateral Outrasfalhas colar Trinca na conexão Desengate Adaptador Vazamento na J.Rosq. Vazamento na J.Mec. Outras falhas adaptador Outras falhas registro Outras falhas tubos Quebra do Colar Corte na Extremidade Trinca no Adaptador Trinca no Registro Furo no Tubo 0% Padronização adotada para os ramais prediais de água Saneas / dezembro 2004 – 43 Inovação em PEAD de diâmetros 20mm e 32mm, derivado de rede de PVC com diâmetros 50mm e 75mm, • Utilização de colar de tomada em polipropileno, registro macho e cotovelo adaptador para execução do ramal predial de água em PEAD de diâmetros 20mm e 32mm, derivado de rede de PVC com diâmetro de 100mm, e • Utilização de colar de tomada em ferro fundido, registro macho e cotovelo adaptador para execução do ramal predial de água em PEAD de diâmetros 20mm e 32mm, derivado de rede de ferro fundido, PVC, DEFOFO e cimento amianto, em qualquer diâmetro. Conclusão Avaliando-se os resultados iniciais da implantação da padronização dos ramais prediais de água, pode-se comentar que houve um grande avanço no conhecimento das falhas ocorrentes nos ramais prediais de água, em todas as áreas de atuação da Sabesp, e que o sistema contribuiu para que fosse possível direcionar os esforços de melhoria com maior precisão, visto que as falhas e sua freqüência de recorrência são indicadores importantes dos pontos a serem corrigidos. Por outro lado, a utilização de materiais de melhor qualidade e os treinamentos ministrados inicialmente já apresentam os primeiros resultados, observando-se até a presente data uma redução da ocorrência de vazamentos nos ramais executados, segundo o novo modelo. Assim, conclui-se que o conjunto de resultados obtidos é uma fonte importante de informações para solucionar as falhas, que se tornaram endêmicas em algumas regionais, como, por exemplo, falhas de “furo no tubo” e “trinca no adaptador”, responsáveis por aproximadamente quase 80% das ocorrências. Por outro lado, a implantação definitiva do sistema de registro de falhas como ferramenta de apoio gerencial, visando acompanhar os resultados das modificações introduzidas com o novo padrão, possibilita avaliar os resultados e fazer as correções de curso necessárias, imediatamente após a detecção do problema. Bibliografia BARRETO, DOUGLAS. O consumo de água em aparelhos sanitários. 17o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental -Natal/RN(1993). ROCHA A.L. e BARRETO DOUGLAS. Perfil do consumo de água de uma habitação unifamiliar 19º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental – Rio de Janeiro/RJ (1999). BARRETO, DOUGLAS E ROCHA. A.L. Caracterização do consumo de água de aparelhos sanitários economizadores de água. 19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental – Rio de Janeiro/RJ(1999). Cover, Trish Johnson & Rose, Tammy. Water Audits and Water Use Analysis in the Regional Municipality of Ottawa-Carleton; 1996; Conf Proc; AWWA; BORBA Jr., E. F. Programa Especial de Redução de Perdas 198/83 na Região Metropolitana de São Paulo. Revista DAE, 119, p. 88-96. 1978. BORGES, P. R. Indicadores de Desempenho para Controle de Perdas em Sistemas de Abastecimento de Água. In: 15º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, Bilena, Pará. Anais. Vol 2, Tomo I. 1989. BORGES, P. R.; ONOFRE, R.M.S. Setores de Abastecimento e o Controle de Perdas de Água na Região Metropolitana de São Paulo. In: 17º CONGRESSO BRASILEI RO DE ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL, Natal, R.N. Anais. Vol. 2. Tomo II. Setembro, 1993. COELHO, A. C. Medição de Água e Controle de Perdas. Rio de Janeiro. Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental. 1983. 339p. Continuação de O Japão e seu meio ambiente de Ana Lúcia Silva - pag. 41 fios, como por exemplo as ilhas de calor, depósitos de lixo clandestino, problemas de contaminação com metais pesados e outras substâncias em rios próximos à área urbana, florações algais de cianobactérias em corpos de água doce e intensa formação de marés vermelhas nas baías de Osaka, etc. Quanto ao tratamento terciário em estações de tratamento de esgoto (ETE), este é efetuado em 20% do total de ETEs existentes no país, devido aos altos custos envolvidos e às dificuldades do processo. Portanto, no país, visa-se principalmente a diminuição das principais fontes de poluição, como é o caso do fósforo citado anteriormente, às barreiras no tratamento. 44 – Saneas / dezembro 2004 Em suma, o Japão tem uma história maculada por tragédias e pautada por vitórias, e o desafio de atingir um meio ambiente adequado e crescer com sustentabilidade continua. No entanto, as expectativas são promissoras, haja visto a capacidade desta gente em se superar a cada desafio e sua força em levar para frente e fazer acontecer tudo aquilo em que acreditam. ■ Alguns sites interessantes, sobre tecnologia japonesa voltada para o meio ambiente: www.unep.or.jp www.mhlw.go.jp/english HISTÓRIA OPINIÃO DO SANEAMENTO Arqueologia da água – parte I A evolução tecnológica no abastecimento da cidade de São Paulo, do século XVI ao XIX Dalmo Dippold Vilar Filomena Pugliese Fonseca Desenho de Landseer (1826): vista da cidade de São Paulo, tomada presumivelmente do Paredão do Piques. Em primeiro plano o Vale do Anhangabaú. Os vultos das igrejas paulistanas destacam-se entre o casario baixo. Tinham chafarizes as igrejas da Misericórdia, Carmo e São Francisco. in Toledo B.L. de, Anhangabahú p. 27. “A luta pela água só a compreende quem lhe sente a falta”. A facilidade com que hoje a água chega às nossas torneiras e escapa através das tubulações esconde no subsolo urbano toda uma luta tecnológica de saneamento, cujo resgate é fundamental para conscientizar e mobilizar a população sobre a importância da conservação e do uso racional da água, fatores primordiais para sustentabilidade das políticas públicas. O início de uma saga “Um planalto suavemente ondulado, com campos e clareira aprazíveis, boas águas e clima sadio”1. A frase é de um religioso da missão jesuítica ao se deparar com uma colina estratégi- ca entre os rios Tamanduateí e o Anhangabaú, espécie de acrópole, escolhida para a fundação do Colégio dos Jesuítas ou de Santo Ignácio, onde em 25 de Janeiro de 1554 foi celebrada a primeira missa pelo padre Manoel de Paiva. A escolha teve como fator preponderante os eixos fluviais ao longo do Rio Tietê e seus principais afluentes, que representavam importantes fatores defensivos, meios de comunicação, fontes de abastecimento e reserva de alimentos. Desde que foi fundada, a vila de São Pau1 ARQUIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Memória Urbana: a Grande São Paulo até 1940, Imprensa Oficial, SP, 2001, p.13. Doutorando em Arqueologia (USP), professor do Instituto Mairiporã de Ensino Superior. Advogada, Mestre em Ciências (USP), doutoranda em Arqueologia (USP). Saneas / dezembro 2004 – 45 História do saneamento baú, que nascia no morro do Caaguaçu, próximo a atual rua do Paraíso, para dois chafarizes, o de São Francisco (1744) e do Tebas, Largo da Misericórdia (1792). Essas telhas, como o próprio nome indica, eram fabricadas manualmente tendo como molde a própria coxa do telheiro, que em geral imprimia sua marca em todas elas, eram do tipo capa-canal, formando um verdadeiro duto. Com o passar do tempo, essas águas passaram a correr em regos, pequenos canais artificiais, agora com avanço tecnológico: cobertos com lajes de pedra no cruzamento das ruas principais! Represadas em dois tanques, o primeiro chamado de Municipal, na atual rua João Julião e o segundo de Santa Tereza, um pouco mais abaixo, na rua Santa Madalena de hoje, atendiam aos clamores da população sedenta que exigia das autoridades providências enérgicas para O melhor registro da primeira etapa do Largo da Memória devemos ao pintor Miguel Arcanjo Benício da Anunciação Dutra, o Miguelzinho, como era conhecido. A esse artista solucionar o grave problema devemos, certamente, o mais completo desenho conhecido do local até o advento da do abastecimento e o tipo de fotografia em São Paulo. in Toledo B.L. de, Anhangabahú p.27. água consumida. Nessa época não havia qualquer preocupacentro do hoje largo do Paissandú e das biquinhas, como então se chamavam genericamen- ção com a higiene e a qualidade das águas e te, por exemplo, as duas situadas na rua Taba- as que vinham do tanque Municipal, em grantingüera, a do Gaio e a de Santa Luzia, esta fa- de parte de seu trajeto passavam por vala descoberta que atravessava um arrabalde escuso, mosa por suas qualidades oftálmicas. Nos séculos XVI e XVII, a atividade econô- chamado rua do Rego, cujo ar era fétido e o mica da nascente vila era a produção de cha- chão juncado de caveiras de boi, sabugos, chipéus de feltro grosso, desaparecida desde que fre, ossos e de outros resíduos imundos, pora criação de ovelhas deixou de ser praticada. que os moradores eram quitandeiros de miuAliada a essa indústria existia a fabricação de dezas do matadouro. A primeira notícia que se tem em São Paulo doces caseiros, como os de marmelo, abundante nos quintais paulistanos o que não im- de uma análise de água para consumo público pedia que os produtores adicionassem chuchu foi feita pelo químico Bento Sanches D’Orta, na pasta para aumento do peso, originando-se em 1791, a pedido do então Governador da Capitania, porém, não se levou em conta o seu redaí a famosa expressão “marmelada”. No século XVIII, com o ciclo do ouro, São sultado, que apontava a péssima qualidade das Paulo experimenta um surto de desenvolvimen- águas, e nenhuma providência de saneamento to econômico com uma agricultura mais volta- foi tomada, deixando a população a mercê da da para abastecer as regiões mineradoras, provo- própria sorte. Ainda em 1858, um dos fiscais da Municicando um aumento populacional na antiga vila de Piratinga. Por via de conseqüência, a demanda palidade denunciava que a água da biquinha do Acu, situada entre a atual rua do Seminário pela água torna-se fator de comoção social. As autoridades tomam as primeiras provi- com a brigadeiro Tobias, apresentava um sabor dências no abastecimento público construindo pavoroso, devido a uma latrina que existia junaquedutos feitos de telhas de coxa, apenas im- to ao canal de abastecimento. bricadas umas nas outras que correndo a céu aberto conduziam as águas do rio Anhangacontinua na próxima edição lo não tinha um sistema de fornecimento e distribuição de água. O problema era a dificuldade de captação e transporte do precioso líquido, abundante nos, então, puros e cristalinos rios e nas numerosas nascentes das encostas do planalto. Ao longo dos primeiros duzentos anos, os habitantes serviam-se das águas do Yacuba, no 46 – Saneas / dezembro 2004 COMUNIDADE Sustentabilidade do planeta Monja Coen Q uando Wangari Maathai recebe o Prêmio Nobel da Paz pelo cinturão verde criado na África, utilizando o trabalho de mulheres na plantação de 30 milhões de árvores, está sendo premiada uma mulher africana que age plena de cuidado com a vida, ciente das considerações sobre a sustentabilidade do planeta. Pensar, organizar e agir considerando o social, o econômico, o ambiental. Incluindo força de trabalho excluída para melhorar o meio ambiente, Maathai demonstra possuir a visão integrada capaz de desenvolver na Terra uma nova cultura, a da Paz. É dessa maneira que precisamos cuidar de nossa casa, nossa rua, nosso bairro, nossa cidade, nosso estado, nosso país, nosso hemisfério, nosso planeta e o sistema solar no qual se insere, na Via Láctea, no Universo. Cada um de nós é responsável pela situação em que está o mundo no presente e por sua transformação constante. O futuro depende do que façamos agora. Esta é a Lei da Causalidade – um dos ensinamentos de Buda. Esse sábio da Índia, há mais de 2600 anos também dizia que o tempo é circular, que o bem que criamos agora pode mover e influenciar passado, futuro e presente. Interconectados não só em espaço, mas também no tempo. A premiação de Maathai do Quênia é significativa pela inclusão da mulher africana (consideradas as pessoas mais excluídas e discriminadas do planeta) e por demonstrar que cuidar do meio ambiente através de uma rede integrada de benefícios sociais-políticos-econômicos é o mesmo que promover a Paz. É criar causas e condições benéficas para todos os seres. Em setembro, mais de 1500 pessoas se reuniram para varrer a Avenida Paulista (SP). A Sabesp nos deu água pura para beber, sustentando o projeto da Zeladoria do Planeta. É um projeto simples, o de zelar pelo planeta, baseado no conceito de “quem limpa, não suja.” Idéia interessante que se for levada às escolas públicas, desde o jardim da infância até a Universidade, contribuirá para a sensibilização de cuidarmos do local em que vivemos, inclusive promovendo noções básicas de saneamento e respeito à vida. Educar é transmitir a visão integrada – e não fragmentada – da vida na Terra. Há outros projetos simples, que podemos aprender do Japão, por exemplo, onde as crianças, em turnos, limpam a escola todos os dias. Varrem salas de aula e corredores, passam o pano, limpam banheiros e jardins. Não jogam lixo no chão. Separam papéis e plásticos, reciclam lixo, dobram tudo com cuidado para que os resíduos sejam os menores possíveis. A varrição da Paulista começou com um grupo de empresários japoneses que veio ao Brasil com o objetivo de limpar os banheiros públicos dos parques (como o do Ibirapuera). O projeto ganhou adeptos e a formação da Zeladoria do Planeta Brasil, que promove todos os anos Varrer a Paulista. Não é um protesto à Prefeitura e aos garis. É um manifesto à população que joga lixo nas ruas. Cigarros, chicletes grudados nas calçadas, garrafas, panos, papéis. Há de tudo nas ruas e nos bueiros, entupindo, causando enchentes. Entretanto, gostamos de dizer que a culpa é de algum governo, administração, como se nós estivéssemos isentos de qualquer responsabilidade. Nós todos causamos os problemas de nossa casa, nossa cidade e do mundo– por ação ou por omissão. Um monge japonês, fundador de uma das várias comunidades Zen Budista nos Estados Unidos, Dainin Katagiri, comentava com seus alunos que as armas nucleares não foram feitas por políticos nem por cientistas: “Foram criadas pela mente humana. Foram feitas por todos nós. Criamos causas e condições para a fabricação de armas nucleares.” A responsabilidade é nossa. Muito além das dualidades sobre armamento ou desarmamento, plantar ou devastar, criar ou destruir, precisamos penetrar a essência da vida, da nossa própria sabedoria, da compreensão de que Intersomos. Interser Uma folha de papel é feita de elementos não folha de papel. O monge vietnamita, Thich Nath Hahn, cria uma nova palavra importante: Interser. Não somos, mas intersomos. Es- Missionária da tradição Soto Zen do Budismo japonês para o Brasil, Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista, com sede em São Paulo. Saneas / dezembro 2004 – 47 Comunidade tamos todos interligados, interconectados. A folha de papel é feita de nuvem, de céu, de estrelas. A folha de papel é feita de água, de terra, de vento, de ar. A folha de papel é feita de árvore, de folhas, de insetos e pássaros. A folha de papel é feita de tudo que não é folha de papel. Nós já sabemos disso, já entendemos. Entretanto, ainda são poucos que vivem a coerência dessa compreensão. Cada projeto, cada empresa, cada gesto, cada pensamento, cada palavra precisa partir da compreensão do Interser. No século VIII, na China, havia um pescador, muito simples, que todas as manhãs saía com seu pai no pequeno barco. Numa dessas madrugadas, o tempo fechou e seu pai caiu nas águas tumultuadas. Ele tentou segurá-lo com o arpão. Mas as mãos do pai idoso se cansaram, as águas revoltas o engoliram, e o jovem se viu só e vazio. Triste e fraco. Quanto tempo ficara sentado? A tempestade passou. As águas se acalmaram, e a lua cheia brilhou no céu. A lua cheia brilhou no mar. “A mente deve ser capaz de tudo refletir, tal qual é, assim como um lago de águas tranqüilas”, lembrouse o jovem pescador da frase de um monge amigo. Decidiu voltar à praia, deixar seu barco e entrar para a vida monástica. Anos mais tarde, foi nomeado Abade Superior. Pessoas de toda China Antiga vinham conhecê-lo e consultá-lo. “Qual a essência de seus ensinamentos?” perguntavam. E ele respondia: “Tudo é uma jóia arredondada. Não há dentro nem fora. Não viemos de fora e nem iremos para fora. Somos a vida dessa jóia, em constante transformação”. Como poderia Gensha Shibi, nos idos dos anos 700, saber que somos todos um só corpo e uma só vida? Como pode saber que nada se cria e nada se destrói, mas que tudo se transforma? Como puderam sábios do passado, sem as aparelhagens e 48 – Saneas / dezembro 2004 conhecimentos recentes, acessar à compreensão do que hoje cientistas afirmam ser a verdade? “Todos são seres iluminados. Mas, sem a prática não há a compreensão” (Xaquiamuni Buda, século VI a.C). A habil idade de sus tentar O que impede o ser humano de viver a coerência da verdade do interser? Podemos simplificar com os três venenos que nos adoecem e nos podem matar, individual e coletivamente: a ganância, a raiva e a ignorância. Ganância e raiva são crias da ignorância. Ignorância é o afastamento do verdadeiro. A lei verdadeira é que intersomos, todos interligados, interconectados. Quando levantamos uma rede, levantamos também seus espaços vazios. Quando tocamos um fio de uma teia, toda a teia se move. Ignorar a realidade é pensar que a compleição, a felicidade é possível sem os outros, sem harmonizar com outras formas de vida. Dependemos, inter dependemos. Nossa sobrevivência depende da sobrevivência de inúmeras outras espécies e todas dependemos das águas, das terras, dos ares. Saúde e saneamento básico Faço parte de um grupo inter religioso chamado United Religions Initiative (URI), que tem o propósito de criar Culturas de Paz, Justiça e Cura da Terra. Curar a Terra de seus males atuais, resultado de causas e condições naturais, se nos incluirmos desse natural. De certa forma, tudo que nós humanos possamos fazer é natural, pois somos a natureza. Com erros e acertos, com ganâncias e doações, com ódios, rancores, vinganças e amores, ternuras, compaixão, com ignorância e com sabedoria. Somos essa mistura de emoções e sentimentos, capacidades de conexões nervosas incríveis que nos levam a criar e destruir civilizações. E agora nos vemos numa bifurcação. Ou cuidamos da saúde física e mental dos seres humanos – e logo do meio ambiente –, ou estaremos implodindo esta civilização na qual estamos inseridos. Saneamento básico precisa ser ensinado em massa. Mais do que alfabetizar é preciso precaver contra doenças causadas pela sujeira, pela falta de educação ambiental. Deveria ser feita uma campanha nacional. Cartazes, rádios, televisões, novelas, filmes, espetáculos teatrais, artistas e autores, educadores e políticos, deveríamos todos nos unir na criação de uma rede firme e segura sobre a vida humana, inserida no contexto do meio ambiente e meio social. Saneamento básico também é educar para a diversidade, para a não discriminação, a aceitação do diferente, a inclusão do mais fraco (que talvez seja o mais forte, talvez com maior capacidade de adaptação e sobrevivência). Nossas cabeças estão repletas de conceitos e pré-conceitos. Julgamos antes de conhecer. Impregnados por uma educação de violência, onde a História é marcada por guerras e holocaustos. Onde foram os acordos de paz? As intermediações, o papel da ONU? É possível negociar o bem comum. É possível dialogar e compreender. É possível respeitar povos e países, culturas indígenas, tradições espirituais diversas. Poluição não é apenas de rios, de açudes, de águas paradas. Nossas águas internas também estão poluídas e todas as moléculas de água se comunicam, se alegram e se entristecem, se purificam ou se maculam. Discriminações e cultura de paz Quando um movimento anti-judeu se instala, em qualquer parte do mundo, nós também somos responsáveis. Será que não tivemos um único pensamento de nos acharmos melhores ou piores? Quando mulheres são conde- Comunidade nadas à morte por apedrejamento porque tiveram filhos fora do casamento, será que todos nós não somos responsáveis? Não podemos impor nossos valores como únicos, mas podemos ouvir para compreender, podemos dialogar ao invés de discutir, podemos ter um consumo responsável e podemos nos tornar seres que manifestam a capacidade de criar culturas de paz e harmonia. Na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo existe um Conselho Parlamentar pela Cultura de Paz. É uma idéia pioneira surgida da compreensão de que é necessário mudar uma cultura de violência para uma cultura de não violência ativa. Isso inclui toda a maneira de pensar e de ser, de nos comunicarmos. Todo o sistema educacional de valores éticos. O sistema de atendimento hospitalar que ignora o ser humano e só vê a doença isolada, o sistema judiciário moroso que violenta quem espera, o patriarcalismo que nega toda possibilidade ao feminino, a hierarquização que impede os relacionamentos circulares e compartilhados. Precisamos perceber e interferir por meio de ações ternas, reivindicações sem ódios nem rancores, mas plenas de sabedoria e compaixão. Certa vez o XIV Dalai Lama perguntou a um de seus monges que fora preso e torturado: “o que foi mais difícil para você?” E ele respondeu: “por um instante, por um breve instante, quase deixei de sentir compaixão por quem me torturava”. Se perdermos a capacidade de compreender aqueles que ainda não despertaram, se não formos capazes de acolher em nossos corações aqueles que precisam ser despertos, se agirmos, pensarmos e falarmos de maneira violenta e rude, estaremos apenas perpetuando uma cultura de exclusão e violência. Podemos criar um novo mundo a partir deste que se parte. Um mundo de seres que compreenderam e logo sustentam a teia do Interser. Seres capazes de auxiliar e respei- tar, compartilhando das águas purificadas pela ternura e pelo cuidado amoroso. A água será sempre a maior de todas as riquezas. Desde tempos antigos, grandes disputas foram feitas por causa das fontes e das águas puras. Vivemos num planeta cuja atmosfera é úmida. Nossos corpos são mais de sessenta por cento feitos de água. Pesquisas recentes comprovam que nossas moléculas de água ficam belíssimas, parecendo cristais quando próximas de fontes cristalinas, e também quando são feitas preces e meditações, palavras amorosas e ternas. O oposto também é verdadeiro. Nas poluições tanto ambientais como auditivas e de agressividades humanas, as mesmas moléculas se tornam lamacentas. Há, em cada um de nós, uma fonte incessante e cristalina jorrando constantemente sabedoria suprema. Entretanto a fonte pura se auto protege e esconde. Só pode ser encontrada quando estivermos purificados das ganâncias e das raivas, da ignorância da dualidade. Sabendo de sua existência iniciamos a procura. Nessa caminhada, para chegar até ela somos banhados e purificados pelas próprias águas pelas quais passamos e nos transformam. O caminhar é o caminho. Transformar é a transformação. Só quando purificados, integrados ao todo, acessamos à fonte original. Dela podemos beber a contento, compartilhar e saciar a sede da humanidade. “Estudar o Caminho de Buda é estudar a Si mesmo. Estudar a Si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo que existe. Nenhum traço de iluminação permanece e essa iluminação é colocada à disposição de todos os seres.”(Mestre Zen Eihei Dogen – 1200-1253). Sustentabilidade vem de sustentar, dar apoio, manter, auxiliar. Somos seres gregários, uma espécie que vive em bandos, grupos, cidades, estados países, continentes, planeta. Fazemos parte, somos a vida do planeta e podemos auxiliar, sustentar a vida nos colocando á disposição de servir a todos os seres. Alguém escreveu que o maior altruísta é o maior egoísta, pois percebeu que ao fazer o bem aos outros está se beneficiando. Cada pessoa deve, precisa sustentar, manter, divulgar, ensinar, transmitir os valores éticos de respeito à vida e a diversidade, o cuidado e a compaixão, a continuidade da vida e da melhor qualidade da vida. Desta ética global emerge o renascimento da humanidade num planeta sem poluição sonora, auditiva, visual, mental e ambiental. Nossas moléculas de água em sintonia cristalina com as nascentes limpas e puras. É possível sim. Basta querer forte. A querência que permite transformar nossos processos, nossos modelos mentais de gananciosos e ego centrados, ao retorno à Verdade da inter conectividade da Vida na Terra. Zelando o Planeta. Varrendo a Avenida. Caminhando Paz. Compartilhando e cuidando. Reconstruindo incessantemente com sabedoria e tato a semente sagrada. A sustentabilidade do planeta depende da mente humana. Depende de nossas pequenas ações diárias, nossas palavras comuns, nossos pensamentos perenes. “Que os méritos de nossa prática se espalhem a todos os seres e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado”. Mãos em prece. ■ Símbolo da cultura de paz Saneas / dezembro 2004 – 49 Comunidade Cada um por si e todos pelo Macacos! Governos, empresas e comunidades unidos pelo bem-estar rural - Projeto Revitalização do Ribeirão dos Macacos Almos Makray A o circular pela área de 40 km2 da Microbacia do Ribeirão dos Macacos, em Guaratinguetá e Lorena, sudeste de SP, a cerca de 200 km da capital, o visitante vai encontrar os sinais comuns às terras do Vale do Paraíba: muito pasto e pouca flora e fauna (por falta de habitat natural), solo exaurido, com sinais de erosão. Nesse quadro bastante desolador, sobrevivem famílias sem muitos recursos e sem futuro promissor, Horta orgânica da Antiga Fazenda da Conceição em Lorena - SP José Roberto, João Marcelino (superintendente do Instituto Oikos), Ana Maria e Tamas Makray (proprietário da Antiga Fazenda da Conceição) Mata ciliar recuperada na margem esquerda do ribeirão dos Macacos dedicadas a uma agropecuária convencional e decadente. “Queremos revitalizar a área da Microbacia com projetos de geração de renda sustentável e recuperar a biodiversidade”, diz o engenheiro Tamas Makray, 73, fundador do Instituto Oikos de Agroecologia, uma associação civil sem fins lucrativos, sediada em Lorena. Proprietário de uma fazenda banhada pelas águas, hoje poluídas, do Ribeirão dos Macacos, Tamas lembra que há 35 anos, seu pai pescava e seus filhos nadavam no local: “desde que aqui cheguei, procurei reflorestar as terras para atrair de volta os pássaros e animais e, há dois anos, começamos a implantar um sistema agroecológico de produção, com a formação de agroflorestas, a prática de horticultura natural, certificada pela Associação de Produtores de Agricultura Natural (APAN). Temos também uma pequena produção de mel e estamos avançados na produção de leite orgânico, também certificado.” Tudo isto para demonstrar que uma atividade rural diversificada e com menor consumo e gasto com fertilizantes, pesticidas e medicamentos na pecuária, além de gerar maior renda e alimentos saudáveis e nutritivos para todos, contribui para fixar o homem no campo, ao invés de torná-lo desempregado na cidade. Uma vez feita a sua parte, Tamas contatou o Movimento Nascentes do Paraíba do Sul, liderado pelo prof. Lázaro Tadeu Ferreira da Silva, também em Lorena, que compartilha o mesmo ideal e tem capacidade mobilizadora junto à sociedade civil. Juntos, Tamas e Lázaro organizaram duas expedições ambientais para localizar e avaliar as condições das nascentes do Ribeirão. Delas participaram representantes de instituições relacionadas à proteção e fiscalização ambientais, educadores, alunos de colégios locais, além de representantes de Centros de Estudos, Universidades e empresas. Seguiuse uma reunião de planejamento na sede de uma empresa, com participação ativa de instituições governamentais (CBH-Paraíba do Sul, IBAMA-Lorena, Sabesp-Lorena, Secretaria de Agricultura, INPE, DAEETaubaté, UNESP e UNISAL entre outros) e não-governamentais, e um encontro com proprietários rurais da Microbacia, com apoio do Sindicato Rural de Lorena e Piquete. Atualmente, a equipe de coordenação já trabalha nas etapas seguintes do Plano de Ação: mapear a realidade econômica e socioambiental da comunidade rural; identificar as atividades geradoras de renda e iniciativas em saúde, educação e saneamento compatíveis e desejadas na Microbacia; estabelecer metas e indicadores de desempenho na implantação das iniciativas e atividades; definir custos e meios dos programas de capacitação necessários; e identificar fontes, parcerias e contrapartidas de financiamento. Tamas e todos os participantes sabem que ainda há muito chão pela frente e convidam os leitores a apoiarem, com seus talentos e capacidades, esta iniciativa participativa e replicável. ■ Almos Makray é Administrador de Empresas e Sócio Proprietário da antiga Fazenda Conceição - [email protected] 50 – Saneas / dezembro 2004