Saneas
SUMÁRIO
ISSN 1806-4779
4 APRESENTAÇÃO
Saneas é uma publicação técnica quadrimestral
da Associação dos Engenheiros da Sabesp
AESABESP
DIRETORIA EXECUTIVA
Eliana Kazue Irie Kitahara / Presidente
Amauri Pollachi / Vice-Presidente
Cecília Takahashi Votta / 1ª. Secretária
Aram Kemechian / 2º. Secretário
Choji Ohara / 1º. Tesoureiro
Emiliano Stanislau de Mendonça / 2º. Tesoureiro
DIRETORIA ADJUNTA
Carlos Alberto de Carvalho / Diretor de Marketing
Gilberto Alves Martins / Diretor Técnico Cultural
Ivan Norberto Borghi / Diretor de Esportes
Ivo Nicolielo Antunes Junior / Diretor de Pólos
Hiroshi Ietsugu / Diretor de Pólos da RMSP
Viviana Marli N. Aquino Borges / Diretora Social
CONSELHO DELIBERATIVO
Alípio Teixeira dos Santos Neto, Cid Barbosa Lima Jr.,
Getúlio Martins, Gilberto Alves Martins, Ivo Nicolielo Antunes
Jr., José Márcio Carioca, Luiz Yukishigue Narimatsu,
Magali Scarpelini Mendes Pereira, Milton Oliveira,
Nelson Luiz Stábile, Nizar Qbar, Reynaldo Eduardo Young
Ribeiro, Viviana Marli N. Aquino Borges, Yazid Naked
CONSELHO FISCAL
Benedito Felipe Oliveira Costa, Luciomar Santos Werneck,
Luis Henrique Werebe
FUNDO EDITORIAL
Equipe responsável pela Saneas:
Getúlio Martins (Coordenador)
Ana Lúcia Silva, Armando Flores, Cláudia Nakamura,
Corina Ribeiro, Darcy Brega Filho, Jairo Tardelli Filho,
José Antônio Oliveira de Jesus, Luiz Carlos Helou,
Paulo Ernesto Marques da Silva e Sílvio Leifert.
Odair Marcos Faria (fotógrafo colaborador)
JORNALISTA RESPONSÁVEL: Ana Holanda Mtb 26.775
ARTE E PRODUÇÃO GRÁFICA:
Formato Artes Gráficas ([email protected])
IMPRESSÃO: Editora Parma
TIRAGEM: 2.500 exemplares
AESABESP
Associação dos Engenheiros da Sabesp
Rua 13 de maio, 1.642 – casa 1
01327-002 - São Paulo, SP
Fone (11) 3284 6420 – 3263 0484
Fax (11) 3141 9041
www.aesabesp.com.br
[email protected]
5 EDITORIAL
6 CARTAS
PONTO DE VISTA
7 Desenvolvimento e sustentabilidade em contradição
8 O Brasil que queremos
P&D
10 Ecologia industrial e o reúso da água
MATÉRIA DE CAPA
14 Desenvolvimento sustentável:
um ideal possível e necessário
ARTIGOS TÉCNICOS
20 Implantação do sistema de informações geográficas
na Sabesp
26 O mosquito das águas poluídas
MEIO AMBIENTE
32 Sistema de gestão ambiental em estações de
tratamento de esgoto: o caso da ETE Remédios
ENTREVISTA
36 Simone Ramounoulou
EMPREENDIMENTO E GESTÃO
38 Desenvolvimento sustentável:
algumas contradições, muitas esperanças
CONEXÃO INTERNACIONAL
41 O Japão e seu meio ambiente
INOVAÇÃO
42 Padronização do ramal predial de água como
elemento de controle de perdas reais
HISTÓRIA DO SANEAMENTO
45 Arqueologia da água (parte 1)
COMUNIDADE
47 Sustentabilidade do planeta
50 Cada um por si e todos pelo Macacos!
Foto-montagem
a partir de fotos
de Odair Faria
51 AESABESP
Saneas / dezembro 2004 – 3
apresentação
A chave de um
futuro melhor
N
esta quarta edição de 2004 continuamos com a proposta de provocar
nossos leitores, propondo temas que
nem sempre estão incluídos na agenda do
setor saneamento básico, mas que precisam
ser considerados, como é o caso da sustentabilidade planetária.
Em face do enorme benefício que nossas
atividades propiciam à saúde das pessoas e do
Reunião do
Fundo Editorial
da AESABESP:
Corina, Tonico,
Ana, Cláudia,
Darcy, Jairo,
Getúlio, Carlos
e Ana Lúcia
(sentada).
meio ambiente, precisamos participar dessa
discussão e propor alternativas para o desenvolvimento, que inclua as dimensões social e
ambiental, além da econômica que se mantém
hegemônica desde o enfraquecimento do modelo socialista frente às opções neoliberais.
O Editorial da nossa Presidenta e os Pontos
de Vista de Leonardo Boff e Mário Humberg,
respectivamente, teólogo e empresário, dão
bem o tom e mostram o nível em que queremos discutir essa questão.
Na seção P&D, Giannetti e col. mostram
analogias entre os processos industriais e os
ecossistemas, enfatizando a importância do reúso da água.
Os artigos técnicos, que foram reduzidos
para dois, tratam com profundidade os impactos da implantação do Sistema de Informações
Geográficas (GIS) na Sabesp e o risco de expansão da encefalite provocada pelo Vírus do Nilo
Ocidental, disseminada pelo Culex, um tipo de
mosquito que se prolifera nas águas estagnadas
e poluídas, como são as dos nossos rios represados pelo lixo e poluídos pelos esgotos.
Na seção Meio Ambiente, apresentamos os
4 – Saneas / dezembro 2004
benefícios auferidos pela implantação do Sistema de Gestão Ambiental (SGA) na Estação
de Tratamento de Esgotos (ETE) Remédios, no
município de Salesópolis, região de mananciais
próxima à Região Metropolitana de São Paulo.
Independente do processo de tratamento escolhido e da certificação ISO 14001, o SGA é uma
importante ferramenta que pode ser estendida
às demais ETE do país.
Tayra e col. mostram contradições e esperanças em relação ao desenvolvimento sustentável, na seção Empreendimento e Gestão, contribuindo com fundamentos importantes para
a discussão proposta na matéria de capa.
O leitor vai perceber, também, que procuramos enfocar, na seção Comunidade, a sustentabilidade segundo uma visão global apresentada pela Monja Coen, que associa preservação
do Planeta a um dos pilares da Cultura de Paz.
Por outro lado, Makray relata o que vem sendo
feito na Antiga Fazenda da Conceição, em Lorena, no estado de São Paulo, para recuperação
da mata ciliar e cultivo de agricultura e pecuária orgânicas.
No contexto de uso racional com vistas à
sustentabilidade, em Inovação, Chama Neto e
col. discorrem sobre a padronização de ramais
prediais de água como elemento de controle
de perdas reais. Para a História do Saneamento convidamos Dalmo e Filo para contar a primeira parte da evolução tecnológica do abastecimento de água na cidade de São Paulo, do
século 16 ao 19. Não deixe de ler.
Desde a edição anterior, nossa revista conta
com o registro no cadastro internacional de periódicos, o International Standard Serial Number (ISSN). Essa iniciativa valoriza a Saneas e
representa um passo inicial para futura indexação da publicação em conceituadas bases de
dados. A partir desta edição, coerente com os
conceitos de sustentabilidade, a impressão será
feita sobre papel reciclado.
Os artigos recebidos e não publicados foram
incluídos em um banco de futuras edições.
Finalmente, um abraço fraternal no aguardo
das sugestões e críticas para melhorar sempre.
Desejamos a todos um Natal muito feliz e
um bom Ano Novo. Esperamos ter contribuído para a geração de novas idéias em sua mente, neste ano que termina. Não esqueça. “Uma
mente ampliada com essas novas idéias, jamais
retorna ao tamanho inicial” 1.
1 Há dúvidas sobre o autor dessa frase, se Albert Einstein
ou Oliver Wendel Holmes.
editorial
Desenvolvimento
sustentável
Eng. Eliana Kazue I. Kitahara
Presidenta da AESABESP
O
lançamento desta edição da Revista Saneas mais uma vez é motivo de orgulho
para nossa Associação, pela importância, qualidade e diversidade dos assuntos publicados. A matéria de capa trata das condições
para a sustentabilidade do Planeta. Os demais
artigos apresentam diferentes visões sobre esse
tema de fundamental importância para a sobrevivência da
espécie homo sapiens sapiens.
O nosso Planeta, de 15 bilhões de anos, já suportou muitas transformações pela sua capacidade de auto-produção, ao
contrário da diversidade biológica que, há 3,5 bilhões de
anos, se renova a cada grande catástrofe planetária. Frágil
é a nossa espécie. Assim sendo, há que se cuidar dela. Isso
só é possível em um ambiente
de desenvolvimento que inclua os diversos segmentos sociais, que seja sustentável do ponto de
vista ambiental, seguro economicamente, com
democracia estável e ética respeitada por todos,
conforme Mário Humberg sugere na seção Ponto de Vista e Henrique Ratner enfatiza ao se referir ao enorme contingente de excluídos.
Condição essencial para que isso aconteça é
compreender a capacidade de auto-recuperação
dos ecossistemas, a fim de se possibilitar sempre
a recuperação dos recursos naturais. Por outro
lado, a revisão de valores, incluindo os hábitos
de consumo, é fundamental para a abertura do
funil formado por duas exponenciais: a redução
dos recursos naturais e o aumento da demanda.
Ambos pressionados pelo crescimento populacional e pela globalização dos costumes imposta
pelos países hegemônicos.
O saneamento básico, nosso setor de atividade, representa um dos instrumentos mais
poderosos de fomento ao desenvolvimento
sustentável. Leva benefícios às pessoas de todas
as camadas sociais, alguns talvez nunca chegassem à maioria da população, como o flúor
para a prevenção de cáries em pessoas de todas
as idades, conforme mostrado na edição anterior desta Revista.
Quando os pescadores de Anhembi, município do Estado de São Paulo, puderam retornar à
pesca no rio Tietê, não faziam idéia do trabalho
que estava sendo feito a montante do rio, para
diminuir a degradação da água e conseqüente
recuo da mancha de esgotos formada na Região
Metropolitana de São Paulo. Na outra ponta, talvez nossos engenheiros também não soubessem
dos enormes benefícios que estavam proporcionando aos pescadores de Anhembi. Causa e
efeito nem sempre estão próximos como mostra
esse exemplo dado pelo Engenheiro Vanzo, entrevistado da matéria de capa. É assim na natureza. As coisas estão interligadas, “como o sangue que corre em nossas veias”, conforme expressão do Chefe Seattle.
A partir da publicação da “Última Primavera” de Rachel Carson, em 1962, foi tomando corpo, na opinião pública, a consciência do
cuidado que se precisa ter com o nosso Planeta, apesar da hegemonia do pensamento econômico que visa o crescimento exponencial em
todos os setores de atividades, principalmente
o industrial, convergindo para o interesse exclusivo da espécie homo em detrimento das demais, rompendo o equilíbrio necessário para a
conservação da biosfera.
Em 1972 discutiu-se a necessidade do Controle da Poluição, em Estocolmo. Na década
seguinte, foi a vez do Planejamento Ambiental. Em 1992, no Rio de Janeiro, já se falava em
Desenvolvimento Sustentável. Somente há dois
anos, em Joanesburgo, o ser humano foi incluído na agenda, ao se tratar da redução da pobreza, além do Desenvolvimento Sustentável.
No ambiente corporativo, atualmente, dois
pilares sustentam a estratégia das empresas: a
responsabilidade social corporativa e a ecoeficiência. Já está provado que a sobrevivência
da corporação depende do seu relacionamento transparente e cooperativo com: colaboradores, fornecedores, comunidades e poder público, além dos acionistas. A ecoeficiência, por
sua vez, pressupõe gestão empresarial associada à ambiental. Exemplo disso é o Índice de
Sustentabilidade que considera esses fatores na
cotação das ações das empresas, nas Bolsas de
Valores, do mundo todo.
Por fim, agradecendo à equipe do Fundo
Editorial e aos colaboradores da Saneas, esperamos contribuir para a reflexão dos nossos
leitores e levar à construção de um mundo melhor, agora e no futuro.
Saneas / dezembro 2004 – 5
Cartas
■ Agradeço o envio da última edição da revista
Saneas. Fiquei contente com a qualidade dos artigos e o formato da revista que possibilita um número maior de informações em função do tamanho dos mesmos. Aproveito para cumprimentar a
todos que a tornam possível, em especial o meu
amigo Tonico.
José Manoel de Moraes Junior
■ Estou concluindo curso de pós-graduação, nível mestrado, com o tema uso racional e eficiente
de energia elétrica em obras de saneamento, e para
tanto gostaria de publicar um resumo do meu trabalho. Peço que oriente como devo proceder para
tal. Grato.
Fernando Carvalho
A orientação para os artigos podem ser obtidas no
endereço: www.aesabesp.com.br.
■ Parabéns à equipe editorial da Revista Saneas.
Os artigos são “bárbaros”!!!
Rosana Maria Henrique
Agradecemos a manifestação.
■
A Biblioteca Campus Norte da UNIP, que no
começo deste ano passou à atender aos alunos e
professores dos cursos de arquitetura, enfermagem,
fisioterapia, educação física e farmácia, gostaria de
receber desta Instituição a Revista Saneas em doação. Desde já, deixo claro que o material será de
grande utilidade para os nossos usuários.
Edileuza Basilio Myoshi
Bibliotecária Setorial
UNIP Campus Norte
Seu exemplar será enviado.
■
Aqui no Unesco-IHE Institute for Water Education, localizado em Delf, na Holanda, há um grupo
trabalhando para colher informações de todos os
meios de comunicação especializados em água, no
mundo. Gostaria que me mandasse os dados da
Saneas e de outras revistas como a BIO, da ABES,
para que eu mande a esse grupo para cadastro.
Obrigada, um grande abraço.
Mara Ramos
A Revista Saneas será enviada para o endereço indicado. Comunicaremos sua solicitação para a BIO.
Ponha seu produto em destaque, anuncie na revista Saneas
Saneas
As solicitações de assinatura da revista SANEAS deverão ser
encaminhadas para a Associação dos Engenheiros da Sabesp
(AESABESP) no endereço [email protected].
Deverão constar nome, e-mail, endereço, CEP, cidade
e estado do assinante. Valor: R$ 90,00 por 6 edições.
Envie seus comentários, críticas ou sugestões para o Fundo
Editorial da AESABESP pelo endereço [email protected]
AGRADECIMENTOS
Henrique Ratner
Fernando Almeida
Giovanni Barontini
Tânia Gassi
Ricardo Young
Ricardo Prata Camargos
Israel Klabin
Rubens Born
Paulo Nogueira-Neto
José Everaldo Vanzo
Simone Ramounoulou
ERRATA: No número anterior a foto da capa é da represa Cachoeira da Graça, pertencente ao sistema Alto
Cotia e não da represa Pedro Beicht, como foi publicado. Ainda no número anterior, faltaram os créditos das
resenhas, na página 48 que são de Luiz Carlos Helou e, na página 49, que é de Marcelo Kenji Miki.
6 – Saneas / dezembro 2004
OPINIÃO
PONTO DE VISTA
Desenvolvimento
e sustentabilidade
em contradição
Leonardo Boff A
trás da expressão desenvolvimento sustentável
se escondem oportunidades
e também equívocos perigosos. Não podemos falhar com
respeito ao tema, pois suas
conseqüências podem ser desastrosas para o futuro da Terra e da Humanidade.
Podemos abordar a questão em dois níveis. Um estritamente teórico-conceptual,
construindo o conceito. Essa
diligência não é sem sentido
pois orienta as práticas e evita
Leonardo Boff é teólogo e
mal-entendidos.
escritor, autor de vários livros
Outra, é uma abordagem
ligados à ecologia integral como
prática,
partindo do processo
Ecologia: grito da Terra, grito dos
real daquilo que chamamos,
pobres (Sextante, Rio 2004).
usualmente, desenvolvimento.
Na linguagem política das empresas e dos
governos, desenvolvimento é entendido como
aumento do Produto Interno Bruto (PIB), crescimento econômico, modernização industrial,
progresso tecnológico, aumento da renda das
empresas e das pessoas.
Ai da empresa e do país que não mostrem
taxas positivas de crescimento anuais. Entram em estagnação, crise, falência e suscitam
a ameaça de desestabilização social.
Avancemos já agora algumas observações
críticas. O que mais chama a atenção é a perspectiva quantitativa e antropocêntrica. Não
toma em consideração os demais seres vivos
com os quais somos interdependentes, formando a biosfera. Por isso este tipo de desenvolvimento, dificilmente pode ser sustentável.
Diria mais, ele representa uma contradição,
um equívoco e uma ilusão.
Ele encarna uma contradição, pois os dois
termos desenvolvimento e sustentável – se negam mutuamente. A categoria desenvolvimento
provém da área da economia dominante, que
é capitalista. Obedece à lógica férrea da maximização dos benefícios com a minimização
dos custos e o encurtamento maior possível do
tempo empregado. Procura-se extrair da Terra,
literalmente, tudo o que é consumível, sendo
apropriado privadamente. O resultado é uma
produção fantástica de bens materiais e serviços, mas distribuídos sem equilíbrio, sem justiça social mundial.
A categoria sustentabilidade provém do âmbito da biologia e da ecologia. Ela traduz a tendência dos ecossistemas ao equilíbrio dinâmico, à cooperação e à co-evolução e responde pelas interdependências de todos com todos, garantindo a
inclusão de cada ser, até dos mais fracos.
Se esta é a compreensão, então unir esse conceito de sustentabilidade com o de desenvolvimento configura uma contradição nos próprios
termos. Eles têm lógicas que se auto-negam:
uma privilegia o indivíduo e a outra o coletivo;
uma enfatiza a competição e a outra a cooperação; uma a evolução do mais apto e a outra a coevolução de todos juntos e inter-relacionados.
Além disso o desenvolvimento sustentável,
dentro do modo de produção capitalista, representa um equívoco. Sim, pois, aduz como
causa aquilo que é efeito. Diz-se que a pobreza é a causa da degradação ecológica. Portanto,
quanto menos pobreza e mais desenvolvimento menos degradação.
Analisando criticamente, porém, as causas
reais da pobreza e da degradação, vê-se que resultam exatamente do tipo de desenvolvimento praticado. Ele é que produz degradação, pois
dilapida a natureza em seus recursos, é consumista e explora a força de trabalho, gerando
pobreza e exclusão social.
É por esta razão que a utilização política da
expressão desenvolvimento sustentável representa uma armadilha do sistema imperante: assume os termos da ecologia (sustentabilidade)
para esvaziá-los e assume o ideal da economia
(o desenvolvimento) mascarando, porém, a
pobreza que ele mesmo produz.
Por fim, a fórmula desenvolvimento sustentável no quadro da economia dominante capitalista significa uma ilusão. Postula-se um desenvolvimento que se move entre dois infinitos: o infinito dos recursos da Terra e o infinito
do futuro. Ora, os dois infinitos são ilusórios:
os recursos da Terra são finitos e o futuro humano é limitado, por não poder ser generalizado para toda a humanidade. Se a Índia quisesse
ser como a Inglaterra, precisaria de duas Terras para explorar, como já dizia ironicamente
Gandhi, por volta de 1950.
Entender tal equívoco é entender o porquê
Saneas / dezembro 2004 – 7
Ponto de Vista
das desigualdades mundiais. A categoria mestra deve ser sustentabilidade, livre de seu condicionamento capitalista e não desenvolvimento considerado em si mesmo. A sustentabilidade deve ser garantida,
primeiramente, à Terra, à humanidade como um todo, à sociedade e
a cada pessoa. Essa é a pré-condição sem a qual não há o desenvolvimento sustentável.
A consciência crítica se expressou mundialmente em 1972 com os
resultados do Clube de Roma sobre
o estado da Terra. Aí ficou claro o
lado destrutivo do tipo de desenvolvimento dominante. Para corrigilo, acrescentaram-se ao desenvolvimento os adjetivos: humano, social,
integral, sustentável.
Esse adjetivo sustentável é o acertado, não obstante as contradições
que seu uso político encerra. A declaração da ONU sobre o Direito
dos Povos ao Desenvolvimento, de
1993, nos ajuda a entender a sustentabilidade, pois entende o desenvolvimento numa perspectiva integral:
“e o processo econômico, social, cul-
tural e político abrangente, que visa
ao constante melhoramento do bemestar de toda a população e de cada
indivíduo, na base da sua participação ativa, livre e significativa no desenvolvimento e na justa distribuição dos benefícios resultantes dele”.
Nós acrescentaríamos ainda as dimensões psicológica e espiritual.
Aqui, se supera visão de quantidade e se visa a qualidade. Devemos
agora distinguir crescimento de desenvolvimento. Crescimento obedece à estratégia das células cancerígenas que, desligadas do sistema global do organismo, vão conquistando autonomia até predominar e assim levar o paciente à morte. Desenvolvimento obedece à estratégia do
embrião: ele também cresce, mas
dentro do todo, colocando cada órgão no seu lugar, na devida quantidade de energia e hormônios e no
seu devido tempo.
Esse desenvolvimento é naturalmente sustentável porque acontece em equilíbrio com todos os fatores. Uma sociedade é sustentável
quando consegue atender às suas
necessidades, mantendo o capital
natural com sua capacidade de reposição e ainda garantindo as condições para que as gerações futuras
possam também atender a suas demandas. Somente este tipo de desenvolvimento pode ser considerado sustentável. Para isso ele postula uma superação histórica do capitalismo e da ideologia política do
neo-liberalismo. Ao permanecerem
hegemônicas estas duas realidades
sociais, entrega-se a Terra e a Humanidade a um destino precário e a
um futuro duvidoso e perigoso. Poderemos ir ao encontro do pior.
A questão agora não é mais de
desenvolvimento, mas de política:
buscar caminhos que vão criando
alternativas mais benfazejas para a
Terra e para a Humanidade, quer
dizer, mais sustentáveis.
Por fim, o ideal é chegarmos a
um modo sustentável de vida, bom
para nós e para toda a cadeia da
vida, desde os microorganismos,
passando pelos vegetais e animais,
até os mais complexos, que somos
nós mesmos. ■
O Brasil que queremos
Mário Ernesto Humberg A
1º Coordenador Geral do PNBE
(Pensamento Nacional das Bases
Empresariais), presidente da CL-A
Comunicações e autor do livro
“Ética na política e na empresa”
8 – Saneas / dezembro 2004
necessária transformação
do país que temos no
país que queremos exige uma
visão de longo prazo, baseada
em princípios e valores gerais,
que possibilitem a definição
de metas claras, dos meios
necessários, de cronogramas de execução e formas de
acompanhamento, para atingir resultados eficazes. Foi o
que fizeram outros países que
alcançaram êxito em seu desenvolvimento, entre os quais
Coréia do Sul, Taiwan, Portugal, Espanha e Irlanda.
Com esse objetivo, o PNBE
(Pensamento Nacional das Bases Empresariais), lançou em
2003, o projeto brasil 2022,
tendo como horizonte o aniversário de 200 anos de nossa Independência e, como visão, chegar lá como um país
socialmente justo, economicamente forte, ambientalmente
sustentável, democraticamente estável e eticamente respeitável. É um objetivo ambicioso, mas certamente possível,
se houver mobilização da sociedade para que as transformações de fato ocorram.
Além de comporem a visão de futuro do Projeto Brasil 2022, esses cinco focos se
constituem em linhas gerais
para pautar as ações de gover-
Pesquisa & Desenvolvimento
nos, empresas, entidades, sociedade e pessoas
individualmente. Assim, em todas as áreas em
que é preciso atuar para transformar o Brasil
que Temos no Brasil que Queremos, é preciso sempre perguntar antes de qualquer projeto
ou iniciativa: trata-se de uma decisão que nos
levará a uma sociedade socialmente justa; ajuda no desenvolvimento econômico; é ambientalmente sustentável; reforça nosso sistema democrático; colabora para uma postura ética?
O Projeto Brasil 2022 dividiu em oito macro
áreas os campos de atuação para a mudança e
está propondo que a sociedade civil, por meio
de suas associações, promova a criação de grupos de trabalho para identificar com clareza
a situação atual, os objetivos a atingir e como
se pode efetuar a transformação, com o PNBE
colaborando na metodologia e na articulação
para que esse trabalho ocorra.
Essas oito macro áreas, em que são necessárias mudanças, são:
1. Necessidades básicas: educação, saúde, saneamento, habitação, alimentação, mobilidade, aposentadoria, proteção social
2. Necessidades para construir o futuro: ciência, tecnologia, preservação ambiental, biodiversidade
3. Geração de emprego e renda: setores industrial, agrícola, comercial, financeiro, serviços, turismo, logística, infra-estrutura
4. Estrutura pública: organização política, estrutura e papel do estado, tributos e serviços
públicos, privatização, regulação
5. Estrutura legal e comportamental: legislação, sua aplicação e justiça, ética
6. Informações e lazer: mídia, cultura, arte,
musica, literatura, lazer, esporte
7. Atenção especial: infância, juventude, minorias, equilíbrio regional
8. Inserção internacional: cultural, econômica, acordos.
Algumas metas para as mudanças são relativamente fáceis de definir e esse foi um dos primeiros trabalhos do PNBE, ao lado de buscar
a cooperação de outras entidades da sociedade
civil, ouvir personalidades que possam trazer
idéias e buscar a criação de uma infra-estrutura para reunir sugestões. Por exemplo, fixou-se
como uma das metas ter toda a população nascida depois de 2000 com pelo menos 12 anos
de escolaridade ao completar 21 anos, a partir
de 2022. Isso significa que, em 2007, é preciso
que todas as crianças de seis anos estejam matriculadas na pré-escola e que tenham condições de nela permanecer até completar os 11
anos, correspondentes ao 1º e 2º graus. Atingir
essa meta depende exclusivamente da pressão
da sociedade e da mídia sobre os governantes,
a partir de agora, uma vez que já existe a maior
parte da infra-estrutura necessária.
Na área ambiental, o grupo de trabalho formado já sugeriu algumas metas, como em 2022
termos 80% do esgoto e dos resíduos sólidos coletados e tratados, o fornecimento de água potável a 100% das residências, a regularização dos
cursos d´água, a reciclagem e reúso da maior
parte da água industrial, a total despoluição dos
rios. São metas que atendem ao desejo de sustentabilidade, mas que também contribuirão de
maneira efetiva para a melhoria social pela redução de doenças, e que vão gerar empregos e
renda. O mais importante é que são factíveis, se
definirmos logo o modelo institucional do setor,
fixando as responsabilidades e competências dos
três níveis de governo, das empresas privadas e
a forma de fiscalização e controle pela sociedade. Já temos uma boa base tecnológica e organizacional, com 96% da população de São Paulo e
83% da brasileira abastecida com rede de água,
embora apenas 46% do esgoto seja coletado, e
só parte deste volume tratado.
Certamente juntos podemos efetuar as
transformações necessárias, passando o índice
de desenvolvimento humano dos 0,777 atuais
para 0,900 (o de Portugal), que já é superado
em vários municípios, transformando nossa
péssima distribuição de renda, medida em 65
pelo Índice de Gini para 30 (o da Itália), reduzindo à metade o nível de mortalidade infantil, criando uma Justiça mais rápida e acessível,
uma representação política mais barata, correta e próxima do eleitor, gerando trabalho e renda que reduzam a informalidade e o desemprego, e atingindo outros objetivos necessários ao
desenvolvimento sustentável do Brasil, já alcançados por países, que nos anos 50, estavam
em situação muito mais precária do que nós.
Essa é proposta, para a qual contamos com a
adesão da sociedade brasileira, trazendo idéias,
sugestões, indicadores, cronogramas e formas
de criar até 2022 o país que queremos. ■
Saneas / dezembro 2004 – 9
PESQUISA & DESENVOLVIMENTO
Ecologia industrial
e o reúso da água
Biagio Fernando Giannetti , Devanil Borges Júnior e Cecília M. Villas Boas de Almeida A
A partir da
esquerda:
Biagio, Devanil
e Cecília
s atividades humanas são
as maiores responsáveis
pela dispersão de substâncias
tóxicas no meio ambiente,
tornando-se urgente e necessário promover mudanças na
forma de tratar os problemas
ambientais. Remediar e controlar os poluentes tornou-se
insuficiente, sendo necessário
direcionar os esforços no sentido de reduzir e, principalmente, prevenir o
descarte de substâncias nocivas no ambiente.
Nas últimas décadas, conceitos foram desenvolvidos como resposta a pressões exercidas
tanto pelo próprio meio ambiente como pela
sociedade. Produção Mais Limpa (P+L) e Ecoeficiência (EE) são conceitos fortemente ligados, no sentido de gerar benefícios tanto para a
empresa, como para o ambiente. Na EE há uma
ligação direta entre o desempenho ambiental
e o desempenho financeiro, sendo o principal
objetivo utilizar as reservas naturais de forma
eficiente. Já a P+L tende a centralizar o foco na
maior eficiência no uso de materiais, energia,
processos e serviços. Dessa forma, o consumo de reservas naturais é minimizado, assim
como a poluição e a quantidade de resíduos,
trazendo, como conseqüência, benefícios econômicos e ambientais.
Esse enfoque preventivo mostrou que se
pode obter benefício econômico e, ao mesmo tempo, minimizar a poluição. As práticas
de P+L e EE já estão disseminadas em várias
empresas e têm como principal característica
a avaliação detalhada de todas as etapas de um
processo, a fim de otimizá-lo. As ações para categorizar todas as operações de uma indústria
e acompanhar todos os passos de fabricação de
um produto acabam, inevitavelmente, levando
a um conhecimento profundo de cada sistema,
permitindo, principalmente, a análise das interações do produtor com outras partes interessadas, sejam elas fornecedores, consumidores de subprodutos ou consumidores finais, ou
seja, o Metabolismo Industrial. Nesse contexto,
a analogia entre sistemas industriais e ecossistemas vem ganhando força e levando a considerações sobre as interações do sistema com o
meio ambiente, por meio da Ecologia Industrial (EI) (Fig. 1).
A analogia com os ecossistemas permite um
passo além: fechar os ciclos de materiais e energia com a formação de uma ecorrede (Fig. 2) que
“imita” os ciclos biológicos fechados. A EI propõe, portanto, fechar os ciclos, considerando que
o sistema industrial não apenas interage com o
ambiente, mas que é parte dele e dele depende.
A EI é uma nova abordagem que, com menos de três décadas, já se encontra amplamente reconhecida pela forma sistêmica com que
analisa a antroposfera, seus produtos, resíduos e a interação destes com o meio ambiente.
Nesse sentido, o sistema industrial e o de serviços serão planejados e deverão operar como
um sistema biológico dependente do sistema
natural. O desenvolvimento da EI pretende
oferecer um quadro conceitual para interpretar e adaptar a compreensão do sistema natural
e aplicar essa compreensão aos sistemas antropogênicos. Busca assim alcançar um padrão de
desenvolvimento que seja não só mais eficiente, mas também intrinsecamente ajustado às
tolerâncias e características do sistema natural.
Essa abordagem envolve (Allenby, 1999):
• A criação de ecossistemas industriais, com
ênfase na ciclagem do material no sistema,
na otimização do consumo de energia, na
minimização do resíduo gerado e na reavaliação dos resíduos como matérias-primas,
Professor titular do ICET e do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Paulista – UNIP. Coordenador do LaFTA (Laboratório de Físico-Química Teórica e Aplicada). E-mail:
[email protected]. Pesquisador do LaFTA (Laboratório de Físico-Química Teórica e Aplicada). E-mail:
[email protected]. Professora titular do ICET e do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Paulista – UNIP. Pesquisadora do LaFTA. E-mail: [email protected].
10 – Saneas / dezembro 2004
•
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que seriam utilizadas, se possível, dentro do
próprio sistema.
Controle dos materiais retirados da natureza e dos resíduos descartados no ambiente, preservando as reservas naturais e eliminando o despejo de substâncias tóxicas.
Desmaterialização dos produtos e diminuição do consumo de energia.
Simplificação dos processos industriais, se
possível, imitando os processos naturais, altamente eficientes.
Promoção do desenvolvimento de novas fontes de energia, amigáveis ao meio ambiente e
provenientes de reservas renováveis.
Promoção da integração entre empresas, regiões e países para desenvolver programas
de caráter ambiental .
Na EI, o objeto de estudo é a inter-relação
entre empresas, entre seus produtos e processos em escala local, regional e global (Fig. 2).
Porém, mais importante, é o estudo das interações entre os sistemas industrial e ecológico
e, conseqüentemente, os efeitos ambientais que
estas empresas causam tanto nos componentes
bióticos, como nos abióticos da ecosfera. Analisando as empresas individuais como subsistemas de uma ecorrede, observa-se que os limites de cada empresa aumentam, passam pelo
ambiente e pelos serviços necessários para seu
funcionamento. O objetivo da EI neste contexto é estabelecer o total uso/reúso de reservas
para que o sistema não descarte nenhum resíduo, ou seja, emissão-zero.
Utilizando a análise sistêmica proposta pela
EI, pode-se utilizar algumas ferramentas poderosas como o primeiro princípio da termodinâmica, que possibilita o balanço de materiais e energia dos sistemas. Outra implicação
é que os materiais extraídos do ambiente natural para a produção de bens e serviços devem, certamente, retornar ao ambiente de forma degradada. Muitas das ferramentas desenvolvidas para avaliação de manufaturas e produtos podem ser adaptadas para qualquer tipo
de sistema de produção ou serviços. Entre essas ferramentas, podemos citar a avaliação de
ciclo de vida e o projeto para o meio ambiente
(Graedel e Allenby, 1995). Ferramentas desenvolvidas inicialmente para avaliar os sistemas naturais, como a análise emergética, também, podem ser adaptadas com grande sucesso (Odum, 1996). Esta metodologia oferece
grandes vantagens: (i) permite contabilizar recursos naturais (renováveis e não-renováveis) e
ECOLOGIA INDUSTRIAL
metabolismo industrial
produção mais limpa - ecoeficiência
prevenção à poluição
reciclagem
tratamento
S U S T E N TA B I L I D A D E
Pesquisa & Desenvolvimento
descarte
reativo
proativo
aqueles provenientes da economia com a mesma unidade (seJ, joules de energia solar) e (ii)
a obtenção de indicadores quantitativos, que
permitem a comparação entre os mais variados sistemas.
Avaliação do reúso de água
sob a ótica da EI
Para ilustrar a relação entre a EI e a utilização da água, pode-se citar o exemplo da lavagem de veículos de transporte coletivo. Este
serviço, apesar de simples, consome grandes
quantidades de água, um recurso natural.
Nos processos convencionais de lavagem de
ônibus, a água utilizada provém da rede pública ou de poços artesianos e é descartada após
utilização em corpos d' água (Fig. 3a). Uma das
empresas, porém, utiliza um sistema de captação de águas pluviais. A água captada é armazenada em um reservatório, sendo utilizada
juntamente com a água retirada do poço artesiano na lavagem dos ônibus. Toda a água, depois de utilizada, é enviada para uma estação
de tratamento de efluentes (ETE), para então
ser novamente reutilizada na lavagem dos ôni-
Figura 1
Estratégias
para reduzir
os impactos
ambientais.
Figura 2
Representação
de uma ecorrede,
mostrando a
otimização dos
fluxos de materiais/
energia devido
à formação da
rede. Os fluxos de
produto não estão
representados,
somente aqueles que
caracterizam uma
ecorrede.
Saneas / dezembro 2004 – 11
Pesquisa & Desenvolvimento
Figura 3
Diagramas
de energia do
processo de
lavagem de
veículos urbanos:
(a) sistema
convencional e
(b) sistema com
captação de
água de chuva e
reúso de água.
(a)
(b)
bus, fazendo com que o sistema se aproxime de
um ciclo fechado (Fig. 3b).
A empresa que utiliza este processo de lavagem alternativo economiza no consumo de
água e no pagamento da taxa de esgoto, tornando-se, assim, mais competitiva no mercado,
apesar do investimento em obras civis, compra
de equipamentos, monitoração da qualidade
da água e manutenção do sistema.
A análise emergética permite verificar se a
empresa faz captação de águas pluviais e o reúso da água, além de contribuir para a diminuição do desperdício da água doce, também contribui efetivamente para a sustentabilidade do
meio ambiente.
O principal objetivo da EI é transformar o
caráter linear do sistema industrial em um sistema cíclico, no qual matérias-primas, energia
e resíduos sejam sempre reutilizados. A criação de ecossistemas industriais, com ênfase na
ciclagem do material no sistema, pode ser associada às práticas de P+L e é essencial no caminho da EI. Entretanto, mais importante é a
possibilidade de se avaliar quantitativamente
os resultados obtidos.
Os índices emergéticos calculados para os
processos de lavagem (a) e (b) são mostrados
na tabela 1 e permitem avaliar quantitativaÍndices emergéticos
Rendimento emergético
Investimento emergético
Carga ambiental
Sustentabilidade
EYR = Y = R + N + F
F
F
F
EIR =
N+R
ELR =
SI =
N+F
R
EYR
=
ELR
Y
F
N +F
R
mente a relação entre os recursos empregados,
direta ou indiretamente, para a implantação do
processo e sua operação. Os índices calculados
mostram que o processo (b) que capta água de
chuva e reúsa a água de lavagem apresenta rendimento emergético três vezes maior que do
processo convencional, indicando que a exploração de recursos em relação ao investimento
econômico é eficiente. A mesma observação
pode ser feita com relação aos valores de investimento emergético. O índice de carga ambiental mostra que o impacto do processo (b) no
ambiente é menor que o do processo (a), mostrando quantitativamente que o processo (b) é
500 vezes mais nocivo ao ambiente.
O índice de sustentabilidade (SI) faz uma relação entre a carga ambiental relativa ao processo
e o rendimento emergético do processo. Quanto
maior o rendimento e menor a carga ambiental,
maior será sua sustentabilidade. Em geral, processos com SI maior que cinco são considerados
sustentáveis em longo prazo e não-sustentáveis
os processos com SI menor que um, (Brown e
Ulgiati, 1998). Na tabela 1, pode-se observar a
situação dos dois processos estudados.
Se há intenção de se alcançar a sustentabilidade, devem ser incluídas as interações com o ambiente por períodos maiores de tempo e também
Processo (a)
Processo (b)
Processo (a1)
1,16
3,30
1,02
6,16
0,43
0,52
228,23
0,46
232,88
0,01
7,18
0,00
Tabela 1 - Índices emergéticos do processo de lavagem de veículos urbanos: (a) sistema convencional e (b) sistema com captação de água de chuva e reúso de água. R, recursos renováveis; N, recursos não-renováveis; F, recursos da economia.
12 – Saneas / dezembro 2004
Pesquisa & Desenvolvimento
considerar um espaço mais abrangente, para além
das vizinhanças da empresa. Ou seja, deve-se levar em conta não só o processo em si, mas também sua interação com o ambiente. Na figura 3,
pode-se observar um fluxo, que deixa os processos e retorna ao ambiente. No caso do processo
convencional (a), o fluxo é o efluente do processo
de lavagem, composto por água, poeira, xampu e
óleos. No caso da empresa (b), considera-se o fluxo tratado livre de xampu e óleos.
Considerando apenas o xampu utilizado,
pode-se calcular a demanda teórica de oxigênio (DToO), ou seja, a quantidade de oxigênio
do ambiente necessária para oxidar o xampu
presente no efluente, o dodecil benzeno sulfonato de trietanolamina. A equação da reação
de oxidação neste caso é:
C24H45O6SN.H2O + 46 O2 24 CO2 + 47/2 H2O + SO2 + NO2 (1)
Conhecendo-se a massa molar dos reagentes, pode-se calcular que são necessários 46
mols (1472 g) de oxigênio para oxidar 1 mol de
xampu (493 g). A DToO será portanto:
DToO = (1472/496) . 1000 = 2.3 g. L-1
Como o volume anual de xampu é de 7,76
103 L ano-1, para a lavagem dos ônibus da empresa (a), serão necessários 1,80 104 g de oxigênio do ambiente para oxidar o efluente. A
variação dos índices emergéticos pode ser observada na tabela 1 (processo a1). Nota-se que,
com a inclusão dos serviços do ambiente, o
rendimento emergético e o SI caem, enquanto os índices de carga ambiental e investimento
emergético aumentam.
A empresa (b) apresenta-se sustentável em
longo prazo, com alto rendimento na exploração de recursos naturais e com baixa carga ambiental, pois segue preceitos da EI:
• A imitação de um ecossistema, enfatizando a
ciclagem, a minimização do resíduo gerado
e a reutilização dos resíduos como matériaprima utilizada no próprio sistema (água).
• Controle dos materiais retirados da natureza e dos resíduos descartados no ambiente,
preservando as reservas naturais e eliminando o despejo de substâncias que necessitam
dos serviços do ambiente para sua absorção.
Comentários finais
A EI considera os sistemas industriais e de serviços como subsistemas da biosfera, isto é, uma
organização particular de fluxos de matéria, energia e informação. Sua evolução deve ser compatí-
vel com o funcionamento de outros ecossistemas.
Parte-se do princípio de que é possível organizar
todo o fluxo de matéria e de energia que circula no sistema, de maneira a torná-lo um circuito
quase inteiramente fechado. Nesse contexto, uma
abordagem sistêmica é necessária, a fim de visualizar as conexões entre o sistema antropológico, o
biológico e o ambiente.
Práticas de P+L e prevenção à poluição devem melhorar o desempenho do processo. Entretanto, avaliações sistêmicas permitem conhecer profundamente todas as etapas de um
processo e suas interações com o meio ambiente. A partir do detalhamento do processo, surge
a oportunidade de utilizar as abordagens mais
sofisticadas que estão sendo desenvolvidas nas
últimas décadas, como a EI.
Sendo a EI uma abordagem relativamente
nova, torna-se necessário o desenvolvimento de
rigorosa fundamentação científica, que sustente
as decisões dos projetos e a aplicação de tecnologias voltadas para o meio ambiente. Os avanços
nessa área vão depender do desenvolvimento teórico, de modelos quantitativos, pesquisa empírica e experimentos de campo. O foco da ação
pode ser dividido por várias esferas, como a ambiental, a econômica e a sócio-cultural para que
se possa desenvolver uma cultura de cooperação. A complexidade dos problemas ambientais,
aliada à necessidade de comunicação entre os
vários setores envolvidos, requer a participação
de especialistas em diversos campos(legislação,
economia, saúde pública, ecologia e engenharia), que possam contribuir para o desenvolvimento da EI. Além dos projetos com aplicação de tecnologias apropriadas, serão necessárias mudanças nas leis e nas políticas públicas,
no comportamento individual dos membros da
sociedade para que se possa lidar com os problemas ambientais de forma adequada. Dessa
forma, a abordagem sistêmica e a multidisciplinaridade poderão contribuir para o desenvolvimento do sistema produtivo em direção ao desenvolvimento sustentável.
Referências Bibliográficas
Allenby, B. R. - Industrial Ecology: Policy Framework
and Implementation, Prentice Hall, New Jersey, 1999.
Ulgiati S., Brown M. T. - Monitoring patterns of sustainability in natural and man-made ecosystems. Ecol. Modell.1998 (108): 23-36.
Graedel, T.E., Allenby, B. R. - Industrial Ecology, Prentice Hall, New Jersey, 1995.
Odum, H. T. - Environmental Accounting – Emergy and
Environmental Decision Making. Ed. John Wiley & Sons
Ltd. 1996; 370
Saneas / dezembro 2004 – 13
MATÉRIA DE CAPA
Há pouco mais de uma década, o termo responsabilidade social e ambiental saiu
das esferas acadêmicas e ganhou destaque na mídia. E os ambientalistas avisam: o
debate precisa fazer parte dos processos de gestão nas empresas e ganhar status de
prioridade diária na sociedade. Mais do que um modismo, o tema é uma tendência
de mercado e de consumo. Tudo em prol da qualidade de vida de cada um de nós.
Desenvolvimento sustentável:
Desen
suste
um
um ideal possível e necessário
“O
sistema de produção, de mercado, que valoriza o consumo, leva
à exclusão de milhões de pessoas. E do ponto de vista ambiental e social não
podemos continuar desse jeito.” A declaração
é de Henrique Ratner, professor aposentado
da Faculdade de Economia e Administração
da Universidade de São Paulo e do Instituto
de Pesquisas Tecnológicas. A preocupação se
justifica: as pessoas estão consumindo recursos naturais em um passo mais rápido do que a
capacidade da Terra de renová-los. A informação faz parte do relatório “Planeta Vivo 2004”,
lançado em outubro último, pela Organização
14 – Saneas / dezembro 2004
Não Governamental (ONG) WWF (Fundo
Mundial para a Natureza). De acordo com a
organização, o déficit chega a 20%.
Dados como este dão respaldo para o que
ambientalistas têm discursado há, pelo menos, duas décadas. E mostra que, mais do que
uma tendência, o desenvolvimento sustentável é uma necessidade. E este movimento passa
pelas diferentes esferas do governo, empresas
públicas e privadas e consumidores. “A correta gestão dos recursos naturais é uma radical
mudança de cultura em todos os segmentos da
sociedade. É transformar, por exemplo, rejeito em nova matéria-prima, é reaproveitar água
Matéria de Capa
e energia, é evitar desperdícios”, explica Fernando Almeida, presidente executivo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e autor do livro
“O Bom Negócio da Sustentabilidade” (editora
Nova Fronteira). E muitas empresas já têm percebido que ter uma gestão voltada para o equilíbrio social e ambiental é também um modo
de sobreviver em um mercado cada vez mais
acirrado.
Os conceitos de sustentabilidade estão alterando valores arraigados nas empresas e, nas
últimas décadas, a valorização de uma companhia passou a depender tanto de fatores tangíveis (bens contábeis) quanto de intangíveis
(imagem, marca, reputação). Antigamente, o
valor acionário de uma indústria ou banco era
relacionado à posse de capital físico: ao trabalho, aos funcionários, à infra-estrutura. Mais
recentemente, se verificou que existe uma dicotomia entre o valor de mercado e o contábil. “Os ativos intangíveis chegam a ser até 15
vezes superior aos ativos tangíveis”, compara
Giovanni Barontini, vice-presidente da Fábrica Éthica Brasil, consultoria em sustentabilidade. Um bom exemplo disso aconteceu recentemente, quando a empresa de cosméticos e produtos de perfumaria Natura lançou suas ações
na Bolsa de Valores do estado de São Paulo
(Bovespa). Em um único dia, essas ações valorizaram cerca de 30%. “Isso é mostra de que a
reputação e a credibilidade se traduzem numa
confiança maior pelo investidor”, acredita Barontini. Para o vice-presidente da Fábrica Éthica, o investidor, cada vez mais, prefere aplicar
seu capital em empresas geridas de uma forma
mais responsável, mais ética. E, atualmente, a
marca, a reputação, a capacidade de estabelecer parcerias e diálogos com diferentes grupos
de interesse definem de 75% a 90% do valor
de uma empresa. Em razão disso, para analistas da área de gestão empresarial e meio ambiente, as companhias que não se sintonizarem
com os demais grupos sociais, que estão à sua
volta, desaparecerão do mercado, mais cedo ou
mais tarde.
Pesquisa feita pelo Banco Mundial e pela
IFC (International Finance Corporation) revelou que, nos últimos cinco anos, os executivos das empresas globais dedicam 68% a mais
do seu tempo com questões de responsabilidade social corporativa e direcionam 72% a mais
do orçamento para esta área. “Isso indica uma
tendência do setor empresarial, já que estamos
falando de um processo conduzido por em-
nvolvimento
ntável,
m ideal possível e
necessário
presas que são líderes de mercado e que, por
isso, têm forte influência em toda a cadeia produtiva”, acredita Fernando Almeida. Essa mudança de rumo do setor empresarial também
foi constatada em trabalhos desenvolvidos no
setor Poder Público. Em São Paulo, foi criada
a ‘Mesa Redonda Paulista de Produção mais
Limpa’, que reúne setores governamentais, iniciativa privada e ONG. De acordo com Tânia
Gassi, secretária dessa entidade e assessora da
Diretoria de Engenharia, Tecnologia e Qualidade Ambiental da CETESB, em vez das empresas considerarem os aspectos ambientais
apenas depois da geração dos poluentes, a produção mais limpa busca melhorias no processo
produtivo para obter maior eficiência na conversão de matérias primas em produtos e minimizar, assim, a geração de resíduos, efluentes e
emissões gasosas. Dessa forma, é possível economizar recursos naturais, evitar a poluição
e fazer investimentos ambientais inteligentes,
pois as melhorias no processo industrial permitem retorno dos investimentos. “A produção
mais limpa prevê a melhoria contínua e a minimização de impactos ao longo do ciclo de vida
dos produtos, e pode ser empregada por empresas industriais, comerciais e prestadoras de
serviços. As estratégias incluem instalações governamentais, comunidades e residências”, diz
Tânia Gassi. O movimento de Produção maisLimpa ganhou importância a ponto do governo federal ter realizado vários eventos regionais no ano de 2004 com o objetivo de levantar
subsídios para implementação de uma política
nacional.
As micro e pequenas empresas que participam da rede têm obtido ganhos surpreendentes. Para cada real investido, o ganho econômico é, em média, quatro vezes maior. O setor representa 98% das 4,1 milhões de empresas registradas no país, responde por 20% do Produto Interno Bruto (PIB) e emprega 45% da força
de trabalho.
Modelos brasileiros
Está previsto para o primeiro semestre de
2005, o lançamento do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), pela Bovespa. O Índice
irá reunir ações de até 40 empresas, selecionadas a partir de critérios em que pesem a liquidez dos papéis, o porcentual de ações em circulação em mercado e as repostas a um questionário sobre as relações da companhia com
funcionários, acionistas, meio ambiente e comunidade. O ISE é mais um exemplo do peso
Saneas / dezembro 2004 – 15
Matéria de Capa
Foto: Marcelo Guena
das ações sociais e ambientais nas relações de
mercado. No mundo, fundos de investimentos de empresas com este tipo de preocupação
movimentam cerca de US$ 2,7 trilhões em ativos. Acredita-se que empresas socialmente responsáveis e com valores ambientais arraigados
terão maior facilidade para buscar financiamentos junto a bancos estrangeiros, lançar ações e negociar no mercado internacional.
Como é o caso da Companhia
Vale do Rio Doce, que atua na
exploração de minério e hoje
é líder mundial na exploração
Monitoramento de árvores para exploração sustentável de florestas
de minério de ferro. A abertura aos mercados
externos não se deve apenas ao patrimônio da
empresa, mas também aos investimentos feitos nos últimos anos em preservação ambiental e projetos sociais. Só para se ter uma idéia,
a Vale do Rio Doce contribuiu para a preservação de uma área de cerca de 1,2 milhão de
hectares de florestas tropicais e é a maior parceira privada do Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama). “O princípio é abolir a prática da exploração pura e simples e substituí-la pela extração ecoeficiente”, diz Fernando Almeida, do
CEBDS.
O modelo brasileiro do Índice de Sustentabilidade Empresarial seguirá os mesmos moldes de algo similar, nos EUA, o Índice de Sustentabilidade Dow Jones – as empresas que fazem parte deste índice tiveram ganho acumulado de 96,72%, enquanto as do Índice Geral
Dow Jones se valorizaram 70,45%. Apenas três
16 – Saneas / dezembro 2004
empresas brasileiras – de um total de 318, em
24 países –, consideradas socialmente responsáveis pelos critérios americanos, fazem parte
do seleto grupo do Índice de Sustentabilidade
Dow Jones: Cemig, Itaú Holding e Itaúsa.
A Companhia Energética de Minas Gerais
(Cemig) foi convidada para fazer parte deste índice desde 1999. Para Ricardo Prata Camargos, analista de meio ambiente da Cemig,
o convite americano é resultado de uma série
de ações que a empresa mineira tem desenvolvido nos últimos 50 anos. “As questões sociais
e ambientais são levadas em conta na elaboração do planejamento estratégico e cada um
tem suas metas. Cada funcionário deve conhecer os impactos ambientais de suas ações e
deve ser responsável por isso”,
exemplifica Ricardo Prata.
Atualmente, cerca de 60% dos
quase 10 mil empregados da
Cemig passam por programas
de capacitação em sistemas de
gestão ambiental. Além disso,
a companhia energética mineira desenvolve uma série de
programas sociais e de educação ambiental. Desde 98, toda
lâmpada de iluminação pública, quando trocada, é reciclada –trocam-se cerca de 300
mil lâmpadas por ano. O retorno disso não diz respeito
apenas à boa imagem da empresa para o público externo. A eficiência de
programas de sustentabilidade é medida também pela satisfação dos colaboradores da empresa. “Mas para isso, o profissional precisa ser
capacitado e conscientizado sobre seu papel”,
acredita Ricardo Prata. Quando isso acontece,
as relações de trabalho só tendem a melhorar.
Para Fernando Almeida, do CEBDS, a adoção
de políticas de responsabilidade social corporativa motiva o funcionário, que se transforma
em um parceiro. E Giovanni Barontini lembra
que este contexto envolve também políticas
trabalhistas, políticas de saúde e de segurança
e governança corporativa. “É um leque de iniciativas”, resume.
Uma das formas pelas quais as empresas
têm demonstrado suas ações sociais para o
mercado financeiro e também para a sociedade é por meio de seu balanço social. Em seu
último balanço, o Itaú listou diversas ações
que demonstraram o uso racional de água,
Matéria de Capa
energia elétrica e descarte de resíduos sólidos
pela empresa, além de colaborar com uma série de ações nesta área. Fora isso, o banco exige de seus fornecedores esta mesma atitude
responsável. E o Banco Itaú Holding Financeira, por meio do Banco Itaú-BBA, possui
uma política de gestão ambiental relacionada
à concessão de crédito às empresas clientes,
que estimulem o desenvolvimento sustentável, tanto no âmbito industrial, quanto junto
às comunidades onde atuam.
comuns, bem como a execução de obras e serviços de engenharia. A Sabesp faz parte deste
grupo de discussão.
Para analistas em sustentabilidade, as mudanças de consciência e padrões partem mais
das pessoas e das empresas do que do governo.
O poder da sociedade está nas práticas de consumo. Nos Estados Unidos, uma pesquisa feita pela Universidade de Harvard mostrou que
76% dos americanos preferem adquirir produtos feitos por empresas que tenham preocupação ambiental e social. No Brasil, o estudo intitulado “O consumidor brasileiro e a construção do futuro”, organizado pelo Instituto Aka-
Saneas / dezembro 2004 – 17
Foto: Carlos Guena
Desenvolvimento e preservação
Os exemplos relacionados às práticas de
desenvolvimento sustentável
não podem e nem devem se
restringir às esferas das grandes empresas. Imagine uma
cooperativa de pescadores que
sobreviva da pesca de camarão
numa determinada lagoa. Se a
comunidade não se preocupar
em preservar a lagoa – cuidando do ciclo de reprodução
das espécies, do despejo de esgoto sem tratamento no espelho d’água – um dia, o camarão vai desaparecer, a cooperativa vai fechar e os pescadores ficarão sem trabalho e sem
sustento. No Rio de Janeiro,
aconteceu algo parecido, que
foi a pesca predatória da sar- O poder do consumidor: cada vez mais valoriza empresas socialmente responsáveis
dinha. A espécie desapareceu
da região, as empresas localizadas na Baía de tu, ONG que trabalha em prol do consumo
Guanabara, que industrializavam o pescado, consciente, mostrou que 69% da população se
fecharam e um contingente enorme de traba- preocupa em levar para casa produtos de emlhadores ficou sem emprego. Isso mostra que presas que sejam socialmente responsáveis.
E, em breve, o consumidor terá um parâmea relação entre desenvolvimento sustentável e
tro
a mais para definir o que adquire ou não. Está
conservação ambiental é inseparável.
em
debate a criação da ISO de Responsabilidade
A legislação brasileira, por sua vez, está
Social.
Essa nova norma vem compor o trio de
atenta às questões relacionadas à sustentabilinormas
da sustentabilidade formado pela ISO
dade. Existem várias leis de proteção ambien9000
de
gestão
da qualidade, ISO 14000 de gestal e também na área da governança corporatão
ambiental
e
a futura ISO que atenderá à gestiva. Um exemplo disso foi dado pelo govertão
da
responsabilidade
social. Para a sociedano do estado de São Paulo, que instituiu, no
de,
será
um
selo
de
garantia
de que a produção
final do primeiro semestre de 2004, um Grude
determinado
bem
de
consumo
não prejudica
po Técnico de Trabalho para definição de direo
meio
ambiente
ou
traz
prejuízos
à comunidatrizes para compras públicas sustentáveis (licide
no
entorno
da
indústria.
Israel
Klabin,
presitação sustentável). São as chamadas ‘compras
dente
da
Fundação
Brasileira
para
o
Desenvolverdes’. Na prática, este grupo irá propor diretrizes, normas e procedimentos voltados a fo- vimento Sustentável, está otimista em relação às
mentar a adoção de sustentabilidade ambien- mudanças internas no país. “As empresas brasital nas contratações que tenham por objetivo leiras têm demonstrado interesse em abraçar o
a aquisição de bens e a prestação de serviços compromisso com o desenvolvimento susten-
Matéria de Capa
tável. Para tanto, elas têm procurado incorporar as dimensões ambiental e social à sua visão
de negócios, implantando uma sustentabilidade
corporativa”, diz.
A vez do saneamento
Uma das metas dos “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, aprovada durante a Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, estabelece que devemos dobrar o número de habitantes com direito a água tratada até
2015. “O investimento em saneamento tem um
alcance social e ambiental imprescindível para
quem defende o desenvolvimento sustentável
como forma de garantir a sobrevivência das futuras gerações do planeta”, acredita Fernando
Almeida.
Fora os investimentos necessários na área
para atingir a universalização da distribuição
de água potável, existe também um outro desafio: o uso racional deste bem pela sociedade
e pelas empresas, dentro de casa ou nos processos industriais. Durante décadas, a água foi
Na trilha
da história
Paulo Nogueira-Neto: uma vida
dedicada à preservação ambiental
18 – Saneas / dezembro 2004
É
percebida pela sociedade como bem descartável. Mas o desmatamento desenfreado e a urbanização afetaram a qualidade e também a
quantidade de água disponível. “A conseqüência disso é que a renovabilidade do sistema está
sendo afetada”, alerta Rubens Born, coordenador do Instituto Vitae Civilis, ONG que trabalha em prol do desenvolvimento sustentável e
do meio ambiente.
O tratamento do esgoto é apontado por
Born como uma maneira de reduzir o impacto
no ambiente. Para ele, da mesma maneira que
pessoas e empresas já incorporaram conceitos
como o da reciclagem do lixo, deve-se avaliar a
importância do uso deste esgoto antes de descartá-lo como resíduo. Outro ponto: a capacidade dos mananciais em suprir as necessidades das metrópoles está reduzindo. “Em vez de
se pensar em buscar água cada vez mais longe,
que tal pensar em reaproveitar esta água cada
vez mais?”, indaga Born. Uma sugestão do especialista em meio ambiente é que as edificações sejam idealizadas não apenas para con-
sempre estimulante conversar
com alguém que conheça tanto
a história da evolução das questões
ambientais no país –e também no
mundo– como o ecologista Paulo
Nogueira-Neto, de 82 anos. Formado em Ciência Jurídicas e Sociais,
bacharel em História Natural, doutor em Ciências e professor titular
aposentado de Ecologia Geral do
Instituto de Biociências da USP,
Paulo Nogueira-Neto participou
das principais reuniões em que se
definiram estratégias e rumos para
um desenvolvimento sustentável
possível. Ele foi o primeiro secretário da Secretaria Especial do Meio
Ambiente (1974 a 1986), do extinto Ministério do Interior, e um dos
principais articuladores da Política Nacional do Meio Ambiente,
que criou o Conama, dando a ele
poderes regulamentadores. Nos
anos 80, Nogueira-Neto foi um dos
membros da chamada Comissão
Brundtland, das Nações Unidas,
que propôs o conceito de desenvolvimento sustentável –aquele que é
ecologicamente correto, economi-
camente viável e socialmente justo
para assegurar as necessidades do
presente sem comprometer as gerações futuras. Após esta reunião,
este conceito ganhou força a partir
da Conferência Mundial de Desenvolvimento Sustentável e Meio
Ambiente, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, e, dez anos depois,
na conferência de mesmo tema em
Johannesburgo.
Aqui, Paulo Nogueira-Neto conta um pouco dos infindáveis fatos
relacionados à história da gestão
ambiental:
Como surgiu o interesse pelas questões ambientais?
Tive a felicidade de fazer a coisa que eu gosto, que é lutar pela natureza e pelo meio ambiente. Quando comecei, em 1956, os ambientalistas de São Paulo caberiam dentro
de uma Kombi. A expressão meio
ambiente não era algo a considerar,
nem pelo governo, nem pelas pessoas. Então fundamos, eu e mais dois
amigos –João Travassos Filho e José
Carlos Reis Magalhães– uma asso-
Matéria de Capa
duzir cabos de tevê, mas construídas também
dentro dos conceitos de reúso da água –tanto
em indústrias quanto em residências. “Existem
esforços nesta linha, mas ainda são insuficientes. A sociedade ainda não tem consciência de
que o saneamento é algo importante e talvez
o primeiro passo para isso seja por meio da
transformação cultural, da sensibilização”, afirma Rubens Born.
Atualmente, a Companhia de Saneamento
Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), trata o
esgoto de 160 comunidades, em média, entre os
368 municípios que atende. “A Sabesp tem todo
um programa de planejamento na linha de tratamento de esgoto, pensado para a redução do
impacto deste esgoto in natura no meio ambiente”, diz José Everaldo Vanzo, diretor de Tecnologia e Planejamento da empresa. E para viabilizar este programa a companhia conseguiu financiamento com o banco japonês Japan Bank
International Cooperation (JBIC). A idéia é coletar e tratar o esgoto dos nove municípios que
compõem a região da Baixada Santista, no lito-
ral paulista. “E o financiamento só foi possível
porque o projeto tem finalidade de desenvolvimento sustentável”, afirma Vanzo. Outro exemplo dos esforços desenvolvidos pela Sabesp é o
Programa de Saneamento Ambiental para Despoluição do rio Tietê. O programa, que teve início em 1992, tem investimento de US$ 1,4 bilhão. Nesses anos de trabalho para restaurar
aquilo que foi destruído está o recuo de 140km
da mancha de esgoto do rio Tietê, próxima a cidade de Barra Bonita (SP). O trabalho envolve,
entre outras ações, 400 mil novas ligações de esgoto. Por conta disso, a cidade de Anhembi, às
margens do rio, retomou a indústria pesqueira.
“Essa é uma expressão de desenvolvimento sustentável”, resume Vanzo.
Investir na conservação do meio ambiente
faz parte de um novo conceito: o da valorização do capital ambiental. O que é preciso disseminar é a manutenção dos recursos provenientes do meio ambiente. E o grande desafio destas
próximas décadas é criar mecanismos que dêem
perenidade a esses recursos da natureza. ■
ciação de defesa da flora e da fauna para salvar o Pontal do Paranapanema. A coisa começou aí. E hoje
a associação se chama Associação
do Meio Ambiente, que é ligada, até
hoje, à Universidade de São Paulo.
as cidades paulistas do ABC (Santo André, São Bernardo e São Caetano) se uniram para formar a primeira entidade oficial para controlar a poluição, o que depois deu origem a CETESB.
Por que os senhores começaram
com esse movimento?
E depois disso, quais foram os grandes marcos para a história?
Porque já naquele tempo nos
dava aflição ver o desinteresse geral
por esta questão. Durante a guerra, foi cortado o suprimento de petróleo para o Brasil, que não produzia nada de petróleo. E o pouco
que havia era destinado para os caminhões. Então os carros passaram
a ser movidos por gasogênio (carvão vegetal). E isso produzia muito monóxido de carbono, que é um
gás terrivelmente tóxico. Mas era o
que havia. Lembro que subir a avenida Rebouças com um automóvel
movido a gasogênio não era fácil. O
porta-malas ficava cheio desses tubos. O uso do carvão vegetal liquidou com as florestas no estado de
São Paulo. E a cidade já tinha uma
poluição tremenda. Nessa época,
Houve a Conferência de Estocolmo, em 1972. E isso foi um marco
na história do meio ambiente, porque representantes de todo o mundo
sentaram para debater esta questão.
No Brasil, em 1974, se instalou a Secretaria Especial do Meio Ambiente, onde fiquei por 12 anos e meio.
E depois fiquei mais dois anos organizando e chefiando o órgão, no
Distrito Federal, como Secretário do
Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia de Brasília. Tenho um diário, que
comecei no primeiro dia, como Secretário Especial do Meio Ambiente, e onde escrevo todos os dias até
hoje. Já tenho mais de 60 cadernos.
Não é algo que quero publicar, mas,
sim, deixar na biblioteca da Universidade de São Paulo e da Universida-
de de Brasília, porque ali tem a história do meio ambiente no país.
O senhor acredita que, atualmente, as pessoas estão mais voltadas
para a questão do desenvolvimento sustentável?
Existe um entendimento imensamente maior hoje do que há 30
anos. Até mesmo o uso da expressão ‘meio ambiente’ ou ‘biodiversidade’ passou a fazer parte do dia a
dia das pessoas. Me considero um
sobrevivente e por isso sou muito convidado para dar palestras em
universidades, no Brasil e fora do
país. E vejo que as novas gerações
têm um conhecimento tremendo
sobre o assunto. Houve uma série
de dificuldades no meio do caminho, como a de conseguir assinaturas para o Protocolo de Kyoto, mas
hoje as pessoas estão percebendo
algumas realidades, como o aquecimento climático. E que isso vai
mudar a vida do planeta se não for
controlado. E só há uma maneira de
controlar, que é preservar as florestas e plantar onde foi destruído.
Saneas / dezembro 2004 – 19
ARTIGO TÉCNICO
Implantação do Sistema de
Informações Geográficas na Sabesp
Silvana C. C. S. de Franco O
Projeto de Despoluição do Tietê foi estabelecido pelo Governo do estado de São
Paulo com o objetivo de diminuir progressiva
e drasticamente a carga poluidora lançada atualmente nos rios da bacia hidrográfica do Alto
Tietê, oriunda da atividade urbana na Região
Metropolitana de São Paulo.
Consta do escopo da 2a etapa deste projeto
ações com vistas à melhoria no gerenciamento
operacional das redes de distribuição de água e
de coleta de esgotos, tais como:
• Programa de controle de perdas;
• Programa de monitoramento quali-quantitativo dos esgotos nos coletores-tronco e
nos interceptores;
• Programa piloto de efetivação de ligações de
esgoto;
• Implantação de um Sistema de Informações
Geográficas (GIS) na Região Metropolitana
de São Paulo.
Para que o sistema de informações geográficas acima citado pudesse iniciar seu desenvolvimento, foi
contratado, em 1997, um estudo, denominado Projeto
Básico do GIS, que realizou
um inventário dos usuários e
suas necessidades, uma avaliação institucional e o Projeto Conceitual do Sistema. Em
1999, foi feita uma revisão e
readequação da estratégia de
implantação do Projeto GIS,
a fim de que fossem consideradas as ações já disparadas
isoladamente pelas unidades
da empresa e as mudanças de
tecnologia ocorridas na área
de geoprocessamento, de forma a garantir a aderência da
Doutora em Engenharia Civil
nova proposta de implantapela Escola Politécnica da USP e
ção com as necessidades e reGerente do Projeto GIS da Sabesp.
alidades da Sabesp e com as
([email protected]).
disponibilidades tecnológicas de mercado. Dessa forma
20 – Saneas / dezembro 2004
é que foi desenvolvido o Sistema de Informações Geográficas no Saneamento (SIGNOS).
A Sabesp e o SIGNOS
Por razões estratégicas, a Sabesp dividiu a
execução do Projeto GIS em um conjunto de
quatro contratações separadas, portanto perfazendo quatro processos licitatórios separados,
como segue:
• Prestação de serviços técnicos de gerenciamento e auditoria. Contratado: Consórcio
PriceWaterhouse Coopers e Soltec Soluções
Tecnológicas Ltda.
• Prestação de serviços técnicos de informática e licenciamento de software. Contratado:
Edinfor Soluções Informáticas Ltda.
• Prestação de serviços técnicos de conversão
de dados. Contratado: Consórcio JNS/Base
Aerofotogrametria (Lotes 1 e 6), Soluziona
Ltda. (lotes 2 e 4) e Consórcio Emissão/CSI
(lotes 3 e 5)
• Fornecimento e instalação de hardware e
sistema operacional. Contratado: Cimcorp
Comércio Internacional e Informática Ltda.
Cada uma dessas contratações possui objetos diferentes e complementares entre si. No
entanto, a realização deste conjunto de serviços de forma integrada e concatenada, além de
com a qualidade esperada, foram a garantia da
implantação do SIGNOS com as características estabelecidas inicialmente.
Para entender melhor os benefícios que o
SIGNOS trará à Sabesp e, conseqüentemente, à população, deve-se entender a amplitude
da região englobada pela Diretoria Metropolitana da Sabesp, uma das maiores densidades
populacionais e complexas do mundo. A área
total compreendida é de 8,05 mil km2, sendo
2,5 a 3 mil km2 de área urbanizada contínua,
39 municípios e uma população de 19 milhões
de habitantes. Uma das maiores dificuldades
encontradas nessa gestão, e que será facilitada pelo SIGNOS, é a quantificação, dentro dos
limites geográficos técnicos e administrativos
da região, das redes de água e esgotos opera-
Artigos Técnicos
das pela diretoria. Também com esse sistema
será possível melhorar a qualidade dos dados
cadastrais dos dois grandes sistemas corporativos da empresa: o Sistema de Informações Comerciais (CSI) e o Sistema de Gerenciamento
ao Atendimento Operacional (SIGAO), desenvolvidos com bases distintas e que nem sempre
possuem seus dados totalmente compatíveis e
sincronizados.
Neste contexto, então, soma-se a implantação do SIGNOS na Região Metropolitana de
São Paulo (RMSP), que já é uma realidade e
chega com o objetivo de auxiliar as unidades
da Sabesp dando um ferramental tecnológico
moderno para agilizar a busca de resultados
nos seus processos comerciais, operacionais,
técnicos e, principalmente, melhorar, ainda
mais, a capacidade de gestão das atividades da
diretoria metropolitana. Como a implantação
está ocorrendo em duas etapas (município de
São Paulo e demais municípios), já a partir de
agosto de 2004, todos os cadastros técnicos da
distribuição e escritórios regionais foram treinados (em torno de 120 pessoas) e estão com o
SIGNOS implantado, possibilitando, assim, realizar o processo de compatibilização e ajustes
dos dados cadastrais, cartográficos e dos clientes da área geográfica implantada neste novo
Sistema. Além de iniciar as análises espaciais
na busca de resultados, objetivo primordial do
investimento da empresa nesta tecnologia.
Integração dos processos de negócio e
inserção organizacional
Uma vez que o SIGNOS pressupõe a criação
de um banco de dados espacial, interfaces com
sistemas corporativos e novas funcionalidades,
esta implantação tornará possível a integração
de atividades nos diversos processos de negócio priorizados, conforme figura 1 a seguir. Assim, haverá uma otimização na detecção e resolução de problemas e, consequentemente,
nos resultados obtidos com estas ações.
De uma maneira geral, toda a Sabesp será
afetada com a implantação do SIGNOS, uma
vez que foram desenvolvidas interfaces específicas para cada utilização típica, além de perfis de
usuários e utilizadores do sistema. Isto ocorreu
para que cada qual pudesse se utilizar do sistema de acordo com sua necessidade. Os perfis típicos de utilização do sistema e as unidades da
Sabesp onde este perfil está localizado são:
Provedores de Dados – responsáveis pela atualização dos dados cartográficos e cadastrais,
Gerenciamento
de Projetos
Engenharia
Cadastro Técnico
Cartografia
Manutenção
de Redes
Base
de Dados
SIGNOS
Produção
Operação
de Redes
Simulação
Hidráulica
Planejamento
Fig. 1: Integração dos processos de negócios com a implantação do SIGNOS
pela atualização/manutenção de dados referentes aos pontos de coleta de amostras e pela
espacialização dos novos clientes (ligações) no
sistema. Estes usuários pertencem aos:
• Cadastros técnicos
• Cartografia
• Escritórios regionais
• Divisões de controle sanitário
Atualizadores Dinâmicos dos Dados – responsáveis pelas intervenções (manutenções) ou
operações (manobras) nas redes. Estes usuários pertencem aos:
• Pólos de manutenção
• Divisões de operação de água
Usuários Finais – são aqueles que farão visualizações, consultas, pesquisas, cálculos espaciais,
proposição e acompanhamento de mapas temáticos e índices geográficos, tudo isto considerando os dados contidos no SIGNOS de maneira integrada. Também terão a possibilidade
de utilizar dados externos nas suas análises ou
de exportar dados do sistema para sua estação
local, a fim de realizar estudos mais complexos.
Estes utilizadores pertencem à várias áreas da
empresa, dentre elas: Departamentos de Engenharia, Comercial, Planejamento Integrado,
Serviços, Econômico-Financeiro, Produção e
Manutenção. Também as Divisões de Operação de Água e Esgoto, Divisões de Controle de
Perdas, Divisões de Grandes Consumidores e
Divisões de Controle de Consumo possuem
utilizadores do sistema neste perfil.
Os perfis acima utilizam a interface SIGNOS (figura 2) que está disponível àqueles que
possuem a licença Core do sistema ou acesso
Saneas / dezembro 2004 – 21
Artigos Técnicos
mas corporativos: comercial (CSI), operacional (SIGAO), qualidade da água (NETCONTROL), manutenção (SGM) e macromedição
(SIM), que são origem de parte da informação necessária para que estas funcionalidades
possam ser executadas.
A seguir tem-se alguns exemplos dos módulos funcionais que foram desenvolvidos:
• Integração com o CSI
Depuração cadastral: Integração dos cadastros técnico e comercial, permitindo análise
de situações de inconsistência cadastral - ligação só de água quando há rede coletora de
esgotos na rua
Figura 2
Interface SIGNOS
Citrix ao mesmo.
Usuários WEB: estes usuários pertencem a toda
a empresa e utilizam a interface SIGNOSnet,
que está disponível na Intranet Sabesp, permitindo visualizações e pesquisas mais simplificadas ou padronizadas a todos aqueles que
acessam essa rede (figura 3).
Figura 3
Interface
SIGNOSnet
Funcionalidades
As funcionalidades que estão sendo disponibilizadas nesta implantação têm por objetivo
viabilizar, de maneira automatizada, integrada
e de fácil utilização, suporte aos vários processos de negócio citados anteriormente.
Para isto, o aplicativo desenvolvido possui telas, botões, janelas, relatórios, cálculos,
etc, customizados de acordo com o propósito de sua utilização. Por isso, todo um levantamento da situação atual foi feito junto às
áreas clientes do SIGNOS, previamente à sua
implantação. Além disto, é fundamental a integração do SIGNOS com os seguintes siste-
Consulta e visualização de clientes: Integração
com o Sistema Comercial (CSI) permitindo
visualização automática da localização das ligações cadastradas, possibilitando consultas
e pesquisas das informações correspondentes
(consumo, faturamento, situação do hidrômetro, etc.)
Análise comercial: Informações sobre as características comerciais de determinada área geográfica (sumário de ligações por tipo, total de
consumo e faturamento, etc.)
• Integração com o SIGAO
Visualização de ocorrências por: tipo (vazamento, falta d´água, extravasamento, refluxo
etc) ou por localização (logradouro, setor de
abastecimento, bacia de esgotamento, pólo de
manutenção, município, etc.)
Análise de indicadores de desempenho operacional: tempo médio de solução de ocorrências,
por localização ou por executante; quantidade
de ocorrências por tipo de ocorrência ou por
extensão de rede ou por número de ligações
Apoio ao planejamento e execução de serviços:
otimização dos itinerários (programação) e avaliação da produtividade das equipes de campo;
levantamento dos consumidores afetados por
determinada manobra na rede; distribuição
geográfica dos serviços pendentes/em execução/executados, por localização/executante
Apoio à execução de ações operacionais: identificação da áreas críticas em termos de ocorrências de serviços (vazamentos, água “suja”,
desobstrução de coletor, etc.); identificação da
área de influência de Válvulas Redutoras de
22 – Saneas / dezembro 2004
Artigos Técnicos
Pressão (VRPs) e acompanhamento de ocorrências (vazamento, falta d´água) antes e depois da instalação da mesma.
Além das funcionalidades descritas acima,
tem-se, dentro do escopo desta implantação,
os seguintes módulos funcionais:
- Integração do SIGNOS com o SGM,
- NETCONTROL e SIM
- Carga e edição de dados (cartográficos, cadastrais e de clientes)
- Funcionalidades para o site Web (SIGNOSnet)
- Ferramenta para Terceiros - cadastro técnico (TecGIS)
- Funcionalidades para aplicação de campo
(SIGNOSmóvel)
- Funcionalidades de interface com o software de simulação hidráulica (WaterCad)
- Funcionalidades voltadas à gestão de projetos
- Análise integrada
IMPLANTAÇÃO DO SIGNOS NA SABESP
Implantação de novas tecnologias
Todo o trabalho intelectual nas empresas,
que é realizado por uma enorme gama de profissionais especialistas como engenheiros, projetistas, administradores, executivos, entre outros, necessita de atividades de suporte para
sua completa e adequada realização. Esse suporte vai desde os técnicos, que estão diretamente ligados aos especialistas (desenhistas,
digitadores, pessoal de campo, etc.), até o ferramental tecnológico utilizado nessas atividades (programas de computador: Word, AutoCad, Excel, Watercad, etc.).
Com a implantação de modernas técnicas
de gestão, aliadas aos constantes avanços da
tecnologia, é possível que estas atividades de
suporte sejam incorporadas num ferramental
informatizado que melhor auxilia os especialistas em suas rotinas de trabalho.
No entanto, para que este ferramental possa trazer os resultados esperados, é essencial
que o mesmo possua as seguintes características básicas:
• ter interface amigável e poder ser facilmente
incorporado às atividades das áreas
• automatizar processos de negócio
• aumentar a produtividade dos especialistas
e das funções do negócio
• otimizar a gestão
Uma vez que este ferramental atenda as características anteriores e possa ser implantado
nas empresas, ele promove uma série de mudanças na atuação dos especialistas e na organização interna de áreas, com os consequentes
impactos :
MUDANÇAS
Maior dedicação dos
especialistas à sua
atividade fim, devido
à redução de sua
carga operacional
Realização das atividades utilizando-se
uma cadeia menor
de profissionais
Possibilidade de
incorporação de
novas tarefas às
rotinas das Áreas
IMPACTO
Alteração do perfil
profissional e da sua
Capacitação Técnica
Agregação de atividades na rotina dos
profissionais
Reorganização
interna de áreas
Desse modo, os resultados obtidos terão
maior valor agregado devido a possibilidade
que os especialistas passam a ter, que é:
• analisar mais cenários em um menor tempo
• realizar análise simultânea de informações
• considerar nas análises informações além
daquelas diretamente relacionadas às suas
atividades fim.
No caso da Sabesp, o ferramental tecnológico moderno e que busca resultados inovadores
de maneira mais ágil é o SIGNOS.
Etapas de uso do SIGNOS
Para que a busca de resultados seja efetiva,
a Sabesp, que está atualmente atravessando a
Etapa de Uso Inicial do Sistema, está finalizando as seguintes atividades dentro dos diversos Planos de Ação – Qualidade dos Dados que
tiveram início em setembro de 2004 e previsão
de término em dezembro de 2004:
• Compatibilização dos dados alfanuméricos entre o banco de dados espacial e os
sistemas corporativos que foram integrados ao SIGNOS, como: homogeneização
de logradouros, revisão de interfaces de
entrada de dados, ajustes nas estruturas
de dados, etc.
• Compatibilização dos dados gráficos entre
base cartográfica digital e o material gráfico
que era utilizado pelas diversas áreas da empresa, como: plantas de setorização comercial e overlays
Saneas / dezembro 2004 – 23
Artigos Técnicos
• Revisão de normas e procedimentos, tais
como: especificações técnicas, editais de
contratação, políticas de preços, termo de
responsabilidade e confidencialidade, etc.
• Revisão e adequação dos procedimentos internos de áreas impactadas pelo uso do SIGNOS (cartografia, cadastros técnicos, escritórios regionais e pólos de manutenção)
• Revisão e necessidade de capacitação profissional para os empregados que passarão
a utilizar o SIGNOS nas suas atividades do
dia-a-dia
A seguir, a Sabesp entrará na Etapa de Pleno Uso do Sistema, onde serão iniciados e
acompanhados os planos de ação – RESULTADOS – nas diversas áreas da Sabesp. Estes planos foram estabelecidos para prover recursos
do sistema (análises espaciais, relatórios e mapas) para organizar, padronizar e sistematizar
a atuação operacional (de campo) das diversas
áreas da Sabesp, além de permitir o acompanhamento dos resultados assim obtidos no nível corporativo. Seu detalhamento objetiva registrar as metodologias a serem utilizadas por
todos os usuários, ou seja , a descrição, passo a
passo, da utilização do sistema (funcionalidades, critérios de pesquisa) e possui os seguintes tópicos: conceituação da metodologia, descrição da metodologia, acompanhamento dos
resultados e mapa temático alternativo. Atualmente, as áreas comerciais já estão trabalhando na validação dos planos definidos para suas
áreas, cujos temas detalhados são:
• Ligações factíveis de esgotos
• Identificação e cadastramento de favelas acompanhamento das ligações no seu entorno
• Identificação e acompanhamento de regiões
com alto índice de ocorrências de fraudes
• Análise e acompanhamento de regiões com
ocorrência de ligações inativas
• Prospecção de novos clientes - imóveis não
abastecidos pela sabesp, porém com redes
de água e de esgotos próximas
• Análise do cadastro de poços artesianos
Impactos com o uso do SIGNOS
Após a Sabesp passar pelas etapas acima citadas, é natural que haja tanto um amadurecimento dos usuários na tecnologia de geoprocessamento e na sua aplicação nas questões do
saneamento, como uma readequação de diversas funções de negócios realizadas nas diversas
áreas da Sabesp que foram afetadas com a implantação do SIGNOS.
Desta forma, podem haver mudanças como
inclusão de novas atividades nas áreas, mescla das atividades dentro das áreas ou até migração de atividades entre as áreas. Estas mudanças já estão se delineando na Sabesp, sob a
ótica dos próprios usuários do SIGNOS, ocasionada pela grande alteração na sua rotina de
trabalho de algumas áreas, como exemplificado na tabela abaixo.
Ressaltamos que o mais importante a observar é que, nas eventuais mudanças citadas acima, o SIGNOS não é determinístico nestas reorganizações, e, sim, flexível para se adaptar às
definições estratégicas e organizacionais, uma
vez que seu desenvolvimento foi baseado no
apoio aos processos de negócio e na utilização
baseada em perfis típicos e senhas de acesso.
Conclusões
Os benefícios a serem obtidos com a implantação do SIGNOS deverão ser sentidos a curto
prazo, uma vez que foram implementadas funcionalidades que darão apoio à processos de
negócio dentro dos macroprocessos prioriza-
Áreas
Módulos Funcionais do SIGNOS
Impactos com o uso do SIGNOS
Cadastro
Técnico
Carga e Edição de Dados
Gestão de Projetos
Alteração no perfil profissional dos técnicos
Maior agilidade em suas atividades de rotina
Agregação de novas atividades (Projetos e Estudos)
Manutenção
Integração com o SIGAO
Alteração no perfil profissional dos técnicos
Integração entre Equipes de Manutenção (Polos de Manutenção e
Áreas de Manobras)
Menor tempo de execução de serviços (visualização de dados integrados)
Engenharia
Planejamento
SIGNOSmóvel
Gestão de Projetos
Análise Integrada
Cálculos Espaciais
Integração com o WATERCAD
Alteração no perfil profissional dos técnicos
Menor tempo de execução de projetos e estudos
Agilidade no levantamento em campo
Incorporação de novas atividades
Definição de Indicadores Espaciais para acompanhamento e Gestão
24 – Saneas / dezembro 2004
Artigos Técnicos
dos. Podem ser citados alguns exemplos destes
benefícios, como os que vêm a seguir:
Aumento no conhecimento e gestão da infra-estrutrura física da Sabesp (redes, equipamentos, instalações etc), racionalizando ações
de campo, preventivas e corretivas;
Suporte no processo de definição de parâmetros para atuação nos seguintes segmentos:
Investimento: trocas de rede, revestimentos,
varreduras, substituição de hidrômetros
Planejamento operacional: acompanhamento do desempenho de equipamento ou material
instalado nas redes (boosters, VRPs, etc.)
Serviços: priorização de áreas para a realização de manutenção corretiva e realização de
sistematizada de manutenção preventiva
Engenharia de operação: otimização de pressões e vazões pela interface do SIGNOS com o
Watercad (modelagem hidráulica)
Recuperação de receitas através da depuração cadastral, do suporte aos programas de li-
gações factíveis de esgoto e combate a fraudes;
Suporte ao planejamento através da realização de estudos demográficos e urbanísticos,
estudos de demanda de serviços de água e esgotos e mapas temáticos;
Melhoria no desempenho do controle de
perdas através da identificação de trechos críticos em termos de incidência de vazamentos,
altas pressões, etc .
Também é esperado que haja uma melhoria crescente na qualidade dos dados disponíveis. Isso porque os mesmos passarão a ser
acessados por um número maior de pessoas,
que terão a possibilidade de comunicar, através da interface do sistema que é acessado
via Intranet Sabesp, o SIGNOSnet, possíveis
inconsistências nos mesmos. Deste modo,
haverá uma manutenção constante por parte do responsável pela informação e que poderá ser acompanhada por todos os usuários
do sistema. ■
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ARTIGO TÉCNICO
O mosquito das águas poluídas
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Luiz Eloy Pereira , Helene Mariko Ueno Lixo nas margens do rio Pinheiros: situação ideal para proliferação dos mosquitos transmissores do VNO
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Delsio Natal
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laboratório
Introdução
Diante da expansão recente do Vírus do
Nilo Ocidental (VNO) nas Américas e devido
à perspectiva de sua introdução no Brasil, julgou-se importante discorrer sobre esse arbovírus, focalizando-se alguns fatores que facilitarão seu estabelecimento em nosso território.
A pertinência da abordagem sobre o VNO
justifica-se pelo fato de esse vírus ser transmitido por mosquitos Culicidae. Dentre as espécies
que poderão exercer o papel vetor nesse país,
destaca-se nesse texto o Culex quinquefascitus
(Culex), cujas formas imaturas desenvolvem-se
em águas residuais estagnadas.
Em razão das falhas no saneamento, principalmente no que tange à coleta e tratamento de
efluentes, a maioria das cidades no Brasil oferece condições propícias à
proliferação desse mosquito em elevadas densidades.
Se a ampliação da virose se
efetivar, como os especialistas predizem (Luna et al.
2003), em muitas de nossas
cidades configurar-se-ão
áreas de risco de infecções.
Este artigo tem como propósito alertar as
autoridades que atuam no amplo campo da
promoção da saúde para a iminência da introdução e da disseminação do VNO no Brasil e para que tomem as necessárias medidas
preventivas.
Fontes de Informação
Pesquisou-se a literatura científica utilizando-se das bases bibliográficas Medline e CAB
Abstracts e complementou-se a busca eletrônica mediante consultas em fontes de informações na internet. As experiências dos autores foram levadas em consideração, bem como
dados complementares obtidos em encontros
científicos.
Agente etiológico
O Vírus do Nilo Ocidental (VNO) é um arbovírus do gênero Flavivirus, pertencente ao complexo antigênico da encefalite japonesa. Geneticamente, o VNO é classificado em duas variantes: o VNO 1, associado à encefalite humana, já
isolado na África, Índia, Europa, Ásia e América
do Norte; e o VNO 2, isolado de focos enzoóticos na África, que nunca foi obtido de casos hu-
Faculdade de Saúde Pública da USP ([email protected])
Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde
Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde
Instituto Adolfo Lutz – Secretaria de Estado da Saúde, São Paulo
Faculdade de Saúde Pública da USP
26 – Saneas / dezembro 2004
Artigos Técnicos
manos (Petersen e Roehrig 2001; CDC 1999).
O diagnóstico é feito de forma direta ou indireta. O primeiro caso envolve isolamento viral, partindo-se de cultura de células do hospedeiro ou do vetor. No caso de hospedeiros
humanos e eqüinos, o isolamento é possível a
partir de tecido cerebral ou amostra de sangue
e, no caso de aves, utilizando-se de amostras
de cérebro, coração e rim, além de sangue. Em
mosquitos, o vírus é isolado de macerado de
vários indivíduos (pools) e evidenciado pela
técnica de imunofluorescência (CDC 2001).
É possível também a demonstração de antígenos virais pela técnica de imunohistoquímica, a partir de tecido cerebral de aves e humanos. Outra técnica, o RT-nested-PCR, consiste
em detectar material genético viral de cérebro
do hospedeiro vertebrado, bem como de pools
de mosquitos (CDC 2001).
É possível realizar a sorologia pela detecção
de anticorpos neutralizantes contra o VNO em
testes de neutralização em camundongos ou
em células a partir de soro de humanos, aves
e cavalos. Pode-se ainda utilizar testes de inibição de hemaglutinação ou teste imuno-enzimático (ELISA) para detecção de anticorpos
das classes IgM ou IgG (CDC 2001).
Recentemente, Komar et al, 2002, realizaram estudos que demonstram que, alternativamente ao tecido nervoso central, swabs orais e
da cloaca das aves são úteis para se obter isolamento do vírus e mesmo o RT-nested-PCR.
Distribuição no mundo
O VNO provocou doença registrada pela
primeira vez em Uganda, em 1937 (Araújo et al
2004a). À medida que os estudos progrediam,
sua distribuição geográfica foi ampliando-se e,
até o final do século XX, já havia sido registrado na África, Oriente Médio, Europa, Ásia
Ocidental e Central, e na Austrália.
Distribuição nas Américas
O VNO foi introduzido nos EUA, em 1999.
Nos anos seguintes, dispersou-se rapidamente
pelos estados americanos ao Norte, ultrapassando a fronteira do Canadá, onde tem atividade em vastas áreas daquele país e, ao Sul caminha em direção a outras regiões, tendo se
manifestado em grandes extensões no México e alguns países da América Central e Caribe
(Araújo et al 2004b).
No México, o avanço do vírus não repercutiu com o mesmo impacto verificado nos Estados Unidos, ocorrendo um número menor
de casos humanos e veterinários. Esse fenômeno levou os cientistas a suporem que infecções
prévias por outros flavivírus teriam provocado
uma barreira de imunidade, o que impediria a
manifestação clínica do agravo.
Aspectos clínicos
As aves, mantenedoras do ciclo do vírus, são
hospedeiros naturais que apresentam ou não
quadro clínico e morte pela doença. Humanos
e cavalos são considerados hospedeiros terminais, pois não desenvolvem viremia suficiente
para infectar o vetor.
Nos cavalos, provoca ataxia, debilidade das
extremidades, contrações musculares repentinas e febre. O quadro agrava-se para óbito em
percentual aproximado de 24%, ao somaremse os animais falecidos e sacrificados.
Nos Estados Unidos, há vacina para cavalos
em duas doses com intervalos de três a seis semanas e um reforço anual. Nos animais vacinados os anticorpos neutralizantes IgM surgirão
no sangue logo após a segunda dose.
No homem, o período de incubação da Febre do Nilo Ocidental é de três a 15 dias. A
maioria das infecções em humanos é inaparente, por volta de 80%. Na forma clássica, que representa cerca de 20% das infecções, a manifestação clínica guarda semelhança à dengue,
ao apresentar febre, dor de cabeça, erupção na
pele, linfadenopatia, entre outras. Na forma severa, que representa cerca de 1% das infecções
e 37% dos casos clínicos, manifesta-se como
encefalite, meningite, meningoencefalite, com
debilidade muscular, havendo casos de paralisia flácida aguda, e, raramente, como hepatite, pancreatite e miocardite. As encefalites são
mais comuns em pessoas com mais de 50 anos,
cuja letalidade é por volta de 10%.
Não há tratamento específico nem vacina
disponível aos humanos. Há tentativa de elaboração de vacina, porém ainda em fase experimental (Tesh et al 2002).
Para os casos severos a internação é obrigatória, devido à necessidade de terapia intensiva, reposição de líquido intravenoso, manejo
das vias aéreas, prevenção de infecções secundárias, entre outras medidas.
Aspectos ecológicos
O VNO possui ampla valência ecológica ao
infectar os mais variados vetores e animais de
diferentes táxons (Bernard et al 2000). Dispersa-se, principalmente, por meio de aves
em suas rotas migratórias. Os mosquitos do
Saneas / dezembro 2004 – 27
Artigos Técnicos
gênero Culex estão entre os vetores mais eficientes desse arbovírus.
Afastado da presença humana, o vírus circula no ambiente natural, entre aves silvestres, ao ser transmitido principalmente por
mosquitos ornitofílicos. Em áreas modificadas
pode infectar o homem e hospedeiros domésticos como aves e cavalos. Nessas circunstâncias, o vírus é veiculado por mosquitos adaptados a esses ambientes antrópicos.
Alguns autores admitem a existência de vetores intermediários que, adaptados aos ambientes de transição entre os naturais e os antrópicos, funcionariam como “vetores- pontes”
ao trazerem o VNO dos ciclos silvestres para as
áreas mais habitadas (Sardelis et al 2002; Kutz
et al 2003). Tais mosquitos apresentariam comportamento eclético em relação ao ambiente onde vivem e, conseqüentemente, às fontes
para repasto sangüíneo.
Aspectos epidemiológicos
Provoca epizootias em aves e eqüinos e surtos epidêmicos em humanos.
Nas zonas temperada e subtropical, a maioria dos casos humanos ocorre no verão e início do outono. Na faixa tropical, a incidência
deve ser maior durante a estação chuvosa, época em que os mosquitos são mais abundantes.
Porém para essa região, os trabalhos são escassos (Campbell et al 2002).
A transmissão principal do vírus, tanto entre os animais, como no homem, faz-se via vetor biológico, sendo os mosquitos os principais
veiculadores. Há suspeitas do envolvimento de
algumas espécies de carrapatos.
Em humanos, embora sejam eventos mais raros, constataram-se outras vias de contaminação, entre elas: transplantes de rins, pulmões e
coração; transfusão de componentes sangüíneos;
aleitamento materno; passagem transplacentária,
por contigüidade durante o parto, entre outras.
Vetores
Para que uma determinada espécie de mosquito atue como vetor do VNO há alguns requisitos, como: i) abundância – há necessidade da
presença intensa de exemplares adultos no ambiente, o que permitirá que indivíduos da população sejam infectados em uma fonte, representada por um vertebrado virêmico; ii) competência – o agente viral ser dotado de afinidade
pelo organismo do vetor. Esse, ao praticar a hematofagia, infecta-se em um vertebrado virêmico, o agente replica com eficiência em seus teci28 – Saneas / dezembro 2004
dos até contaminar as células das glândulas salivares e poder transmitir o patógeno via saliva a
outro organismo. Nos Estados Unidos, tem sido
dada ênfase aos estudos de competência (Sardelis et al 2001; Goddard et al 2002); iii) longevidade – o mosquito deve sobreviver o suficiente
para processar vários repastos sangüíneos durante sua existência, fato que garante o contato com diversos hospedeiros, aumentando-se as
chances de transmissão, caso esteja infectado;
iv) zoofilia – o mosquito terá que ter afinidade
pelas aves na manutenção de ciclos silvestres e
por mamíferos, nas transmissões acidentais ao
cavalo e ao homem.
Muitos mosquitos já foram encontrados albergando o VNO (Nasci et al 2001). Aqueles
dos gêneros Ochlerotatus, Aedes e Culex têm
tido relação com o vírus em diversas áreas nas
Américas, onde a arbovirose se manifestou. Entre outras possibilidades, no Brasil, Ochlerotatus
scapularis, Aedes albopictus e Culex quinquefasciatus são as espécies que, em certas situações,
preencheriam os requisitos de um vetor eficiente de VNO, caso o vírus seja introduzido.
Ochlerotatus scapularis possui hábitos predominantemente rurais e tem filia por animais
domésticos de grande porte, inclusive o cavalo
(Forattini et al 1989; 1995; Gomes et al 2003).
Poderá, portanto, ser responsável por epizootias em cavalos e aproximar o vírus ao homem.
Ademais, essa mesma espécie de mosquito demonstrou competência para transmitir o vírus
Rocio (Mitchell e Forattini 1984), agente classificado como flavivírus, como o VNO.
Quanto ao Aedes albopictus, em experimentos conduzidos nos Estados Unidos foi demonstrada sua competência na transmissão
do VNO (Turell et al 2001; Sardelis et al 2002).
Além dessa evidência, nessa mesma espécie
coletada no campo, detectaram-se “pools” positivos para antígenos de VNO, o que demonstra ter havido infecção natural de exemplares
da espécie (Holick et al 2002). No Brasil, esse
mosquito exótico dispersou-se rapidamente a
partir de sua área original de introdução, estando distribuído em praticamente todos os
estados. Com ampla valência ecológica, ocorre
nos ambientes urbano, rural e silvestre, e, assim, poderá transferir o vírus do ciclo natural
para áreas mais alteradas e de maiores densidades humanas. Nesse sentido, Kutz et al (2003)
já alertaram que as fêmeas adultas desse culicídeo são oportunistas em relação aos hospedeiros e se alimentam tanto em aves quanto em
mamíferos. Para esses autores, essas particula-
Artigos Técnicos
ridades seriam suficientes para caracterizar a
espécie como potencial “vetor ponte”.
A espécie Culex quinquefasciatus é reconhecidamente associada às águas poluídas, ricas
em matéria orgânica. Manifesta elevadas densidades em aglomerados humanos em que há
descuido quanto ao tratamento de resíduos de
esgoto. Uma área altamente infestada por esse
mosquito foi estudada no município de Santana de Parnaíba (SP), onde era causa de incômodo à população humana (Natal et al 1991). O rio
Pinheiros, na capital paulista, compõe extenso
foco de proliferação desse culicídeo, que provoca incômodo aos habitantes de seu entorno. Devido à sua elevada antropofilia, terá potencial de
produzir infecções de VNO em humanos.
Perspectivas de introdução no Brasil
Especialistas em virologia e epidemiologia no Brasil temem a introdução de mais esse
agravo à saúde.
Acredita-se que as aves migratórias, provenientes de países já afetados do Norte, representariam a maneira mais viável de introdução do VNO. Nesse sentido, há relato alertando para essa possibilidade, ao indicar as principais espécies de aves e seus pontos de passagem
pelo território nacional (Luna et al 2003).
O Ministério da Saúde (MS), em conjunto com o Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento, tem realizado inquéritos sorológicos em aves migratórias provenientes de áreas
de ocorrência do vírus, objetivando detectar precocemente possíveis portas de entrada do vírus
e assim conter a provável disseminação do mesmo no território brasileiro. Foram realizados trabalhos dessa natureza no Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Maranhão, Amapá e Amazonas, onde, até o momento,
o vírus não foi isolado (Araújo et al 2004a,b).
Vigilância
A base da vigilância do VNO é complexa,
naturalmente devido à ampla valência ecológica desse agente. Preconiza-se a organização de
uma rede que envolve obtenção de dados sobre a atividade viral nos seguintes organismos:
em humanos, em cavalos, em aves e em vetores
(Hadler et al., 2001).
A vigilância em humanos deve ser passiva até
que surja o primeiro caso. A partir desse evento,
implanta-se a vigilância ativa, que envolve a procura das ocorrências. Essa é útil para documentar o impacto na Saúde Pública, mas não serve
como modo de prevenção, pois ao se detectar os
casos, o episódio já está em curso.
Na Argentina, segundo dados do Instituto Nacional de Enfermidades Virais Humanas (INEVH), com o objetivo de investigar se
o vírus já havia atingido o homem, analisou-se
soro de pacientes, cujos quadros foram diagnosticados como síndrome febril inespecífica,
ocorridos entre 1977 e 1999. Porém, as amostras que foram positivas para flavivírus, enviadas para o CDC nos EUA, foram testadas para
VNO e os resultados foram negativos.
No Brasil, a vigilância das meningites virais
terá um novo componente ao se introduzir o
diagnóstico diferencial do VNO, que será levado a efeito em pacientes com quadro característico, que tenham idade acima de 50 anos
e história de viagem para as áreas de risco nos
últimos 15 dias. Além dessa iniciativa, portos e
aeroportos internacionais, onde o fluxo de passageiros provenientes de áreas de risco seja intenso, permanecerão com as atividades de vigilância em estado de alerta.
A estratégia da vigilância em cavalos é muito similar à humana. Na epidemia de Nova
York (EUA), casos em eqüinos precederam casos humanos, mas na Flórida (EUA), o mesmo
não se sucedeu e, logicamente, esses padrões
variam segundo o ambiente.
Na Argentina, segundo o INVEH, a entrada
de animais importados no país é admitida, desde que não tenham sido registradas ocorrências
de circulação viral no local de origem, nos últimos 30 dias. Admite-se, também, a importação
de animais com sorologia IgM negativa feita no
país de procedência, antes da viagem. Entre os
eqüinos que ingressaram no país, estudos indicaram a inexistência de animais em fase aguda
que pudessem servir de fonte de VNO.
A vigilância da doença em cavalos no Brasil
será realizada a partir de animais que adoecerem e morrerem suspeitos de encefalite rábica e que sejam laboratorialmente negativos. O
material coletado será encaminhado para diagnóstico das encefalites eqüinas e, caso também
tenham resultado negativo, serão encaminhados para estudo de verificação de VNO.
Nas aves, a atividade principal recai sobre a
educação, estimulando-se a população a participar. Nesse sentido, as aves encontradas mortas devem ser encaminhadas a um laboratório
para diagnóstico. Outra perspectiva é o emprego de aves sentinelas para detecção da atividade viral, sendo vista como excelente indicador
de transmissão e avaliação de risco. O importante nesses estudos é a avaliação da soroconSaneas / dezembro 2004 – 29
Artigos Técnicos
Bióloga Sumire
Hibi do CCZ,
PMSP, procede
coleta de
imaturos de
mosquitos no
canal do rio
Pinheiros.
versão. O animal mais utilizado na vigilância nos
Estados Unidos é a galinha (Blackmore et al
2003).
Em países como os
da América
do Sul, para
onde o vírus ainda não se expandiu, há preocupação com o fluxo migratório de aves. Assim,
no Brasil, o MS delimitou os principais pontos de passagem de aves, onde elegeram locais
estratégicos para vigilância. As aves são aprisionadas com rede, das quais se extraem amostras para encaminhamento da pesquisa virológica (Araújo et al 2004 a,b). Não foi detectada a
presença de anticorpos de VNO em um grande número e diversidade de espécies analisadas, porém foram identificados outros vírus de
importância epidemiológica.
A vigilância de aves em implantação no Brasil
dar-se-á a partir de indivíduos mortos encontrados em zoológicos, parques e praças das cidades.
Essa estratégia contará com os Centros de Controle de Zoonoses (CCZ) como bases operacionais para o desenvolvimento das atividades.
Em relação aos vetores, a vigilância deverá
concentrar-se na identificação de espécies com
potencial de transmissão, bem como na detecção de mosquitos infectados com o VNO. Há
a necessidade de monitoramento da população
de mosquitos, elegendo-se pontos de captura,
mediante o uso de armadilhas automáticas, coletas em animais envolvidos na cadeia epidemiológica, entre outras alternativas.
No Brasil, o combate aos vetores será realizado de forma integrada com os programas
de controle de Aedes (dengue) e de Anopheles
(malária) e contará com o apoio dos laboratórios de entomologia das Secretarias Estaduais
de Saúde. Essa é vista como uma maneira de
otimizar os recursos já existentes.
O MS já organizou e implementou uma rede
de vigilância em pontos vulneráveis do território, associados naturalmente a ecossistemas
utilizados nas rotas de aves procedentes das
América do Norte e Central.
Em reuniões, o MS tem repassado a preocupação aos estados e tem também provocado estímulos para que sejam implementadas ações
30 – Saneas / dezembro 2004
de vigilâncias em áreas específicas favoráveis
à instalação da arbovirose em seus territórios.
Alerta-se que há condições de transmissão urbana e que cidades com situação econômica e
de infra-estrutura precárias e aquelas desprovidas de sistema de vigilância de arbovírus e sem
programas de controle de vetores, são particularmente vulneráveis (Campbell et al 2001).
Cargas poluidoras
e Culex quinquefasciatus
Os mosquitos do gênero Culex e principalmente a espécie Culex quinquefasciatus são
vistos como potenciais vetores e, caso o vírus
chegue ao país, priorizar-se-ia o controle desses culicídeos. Nesse sentido, o MS está organizando diretrizes de orientação de controle, especificamente voltadas para a espécie em
pauta, para que sejam rapidamente distribuídas aos CCZ das prefeituras do país. Ressaltase que Culex quinquefasciatus é uma espécie de
mosquito altamente adaptada a desenvolver as
fases imaturas em águas comprometidas pelas
cargas poluidoras, com elevadas concentrações
de matéria orgânica.
O rio Pinheiros e numerosos córregos da cidade de São Paulo constituem criadouros férteis
desse mosquito e representam enorme desafio
ao CCZ da prefeitura local. A maioria das cidades brasileiras sofre de problema semelhante,
decorrente de deficiências no saneamento. Há
a expectativa da chegada do vírus que poderia
facilmente circular nas imediações desses criadouros, fato que levaria a eventos epidêmicos de
grande impacto. Em outra circunstância, a presença em elevadas densidades desse hematófago
é um grave fator de incômodo.
Em São Paulo, o controle do Culex quinquefasciatus tem sido feito com base em inseticidas químicos e agentes biológicos, em um
programa estabelecido pelo CCZ, porém sem
surtir os efeitos desejáveis. Assim, a população
humana, ano a ano, em períodos favoráveis aos
mosquitos, continua sendo incomodada pela
elevada densidade desse culicídeo.
No rio Pinheiros, a alta concentração de
matéria orgânica, a presença de descartes sólidos na superfície e a proliferação de macrófitas flutuantes e de borda são alguns fatores
que inviabilizam os esforços do controle. Torna-se necessário investir no saneamento do
canal e de seus afluentes, com vistas a restabelecer a qualidade ambiental. Alcançada essa
meta, haverá o retorno do equilíbrio ecológico e o restabelecimento natural da cadeia de
Artigos Técnicos
Visão
panorâmica
do canal do rio
Pinheiros
predação, fato que facilitará quaisquer intervenções de controle.
A Faculdade de Saúde Pública da USP e a Sabesp, com o apoio de outras instituições, estão
articulando a formação de um grupo de pesquisadores e técnicos com interesse em desenvolver
e testar novas tecnologias no controle do Culex
quinquefasciatus. Todavia, para a implementação de projetos de pesquisa, serão necessários
esforços na busca de suporte financeiro.
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Saneas / dezembro 2004 – 31
MEIO AMBIENTE
Sistema de gestão ambiental em
estações de tratamento de esgoto:
o caso da ETE Remédios
Andréia Guaracho Ramos João Sérgio Cordeiro Figura 1 - Valas de infiltração da Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) Remédios.
O
saneamento ambiental é reconhecido
hoje, como fundamental e imprescindível
para o desenvolvimento econômico e social;
para manutenção da saúde humana e para proteção e melhoria da qualidade ambiental. Os
progressos obtidos nessa área, associados às
conquistas científicas, especialmente na área
de saúde possibilitaram a quase erradicação
das epidemias de diversas doenças de veiculação hídrica, aumentando a expectativa de vida
da população e melhorando muito o nível de
conforto das comunidades.
De acordo com Cordeiro (2001), o saneamento ambiental exige ações com visão abrangente e integrada das ações de: abastecimento
de água; coleta e destinação adequada de resíduos sólidos e líquidos; águas pluviais e gerenciamento ambiental integrado ao uso e ocupação do solo. Essas ações somente poderão ter
sucesso se desenvolvidas com objetivos co-
muns e trabalhadas conjuntamente, o que significa mudança efetiva nos padrões de gestão
do setor.
Os visíveis comprometimentos do meio ambiente levaram as autoridades políticas, a comunidade e os responsáveis pelas organizações
produtivas a refletirem de forma integrada
com vistas à mudança de postura e conscientização global.
O resultado é a elaboração e o desenvolvimento contínuo de um conjunto de normas
que contribue, como instrumento de planejamento e gestão. Fornece, também, diretrizes
para o controle, o uso e a disposição final dos
resíduos.
Assim, a redobrada atenção ao desenvolvimento de instrumentos de gestão ambiental,
que possibilitem promover o manejo adequado do pós-uso da água, pressupõe a identificação de ações que busquem a sustentabilida-
Bacharel em Química e mestra em Engenharia Urbana pela Universidade Federal de São Carlos
(UFSCar). Coordenadora da Qualidade da Unidade de Negócio Leste – Sabesp.
([email protected])
Engenheiro Civil e Doutor em Hidráulica e Saneamento pela Universidade Federal de
São Carlos (UFSCar). Professor do Departamento de Engenharia Civil da UFSCar.
32 – Saneas / dezembro 2004
Meio Ambiente
de ambiental. O projeto e a implantação de
novas unidades de tratamento de esgotos devem contemplar o reúso dos resíduos sólidos,
líquidos e gasosos.
Contudo, o estado atual do gerenciamento
das Estações de Tratamento de Esgotos (ETE),
enfrenta problemas, como: entraves burocráticos com conseqüente morosidade nas decisões; descontinuidades das ações, provocadas
pelas freqüentes mudanças políticas nas organizações públicas; cultura de gestão antiquada
baseada em apenas cumprir leis; visão de investimentos baseados em resultados imediatos; recursos humanos não comprometidos
em assegurar um posicionamento que reflita
o compromisso do saneamento com o desenvolvimento voltado para a proteção do meio
ambiente, bem como as comunidades não
atuantes, por falta de treinamento em educação ambiental.
A adoção do Sistema de Gestão Ambiental (SGA), fundamentada na Norma NBR ISO
14001 (1996), garante a qualidade ambiental
e conduz para a consecução dos pressupostos
do desenvolvimento sustentável, que busca suprir as necessidades da atual e futuras gerações,
melhorando sua condição de vida e assegurando sua efetiva participação nos processos decisórios.
Objetivo
O objetivo desse trabalho é desenvolver as
linhas iniciais para a implantação de um SGA,
baseado na Norma NBR ISO 14001, e apresentar os benefícios da certificação na ETE Vila
dos Remédios.
O sistema de gestão ambiental
da ETE Remédios
Localizada no Município de Salesópolis,
local estratégico para o abastecimento público
da Região Metropolitana de São Paulo com as
Áreas de Proteção aos Mananciais, contendo
em seu território a nascente do rio Tietê e as
Represas Ponte Nova e Paraitinga (em construção) pertencentes ao sistema Produtor do
Alto Tietê; a ETE da Vila dos Remédios possui um tratamento que combina lagoa facultativa, seguida de valas de evaporação e infiltração do efluente tratado no solo, única da
América Latina.
Neste caso, como Salesópolis tem um papel importante no planejamento estratégico
dos recursos hídricos, optou-se por preservar
os corpos d’água e utilizar um tratamento que
dispensa o lançamento dos efluentes tratados
em rios ou córregos.
A ETE Remédios trata hoje cerca de 2L/s,
mas no fim de plano (2015) terá capacidade
para tratar cerca de 4L/s de esgoto sanitário.
É constituída por uma lagoa facultativa, onde
ocorre o tratamento biológico convencional,
cujo tempo de detenção do efluente é de 18
Política Ambiental
da ETE Remédios
(abril de 2004)
“Contribuir para a preservação
do meio ambiente reduzindo
a poluição das águas no
Município de Salesópolis,
visando a melhoria contínua”.
dias. Após esse período, o efluente já tratado,
é encaminhado para a área de infiltração, onde
ocorre também a evaporação. Essa área é composta por 14 módulos drenantes, com cinco
drenos de 30m de extensão cada um, que são
responsáveis pela infiltração do efluente tratado, no solo.
Todos esses fatores levaram essa ETE, em
setembro de 2002, a possuir um SGA certificado pela ISO 14001.
A implantação do SGA iniciou-se com a definição da política ambiental, que expôs as intenções e princípios em relação ao desempenho ambiental procurando minimizar impactos ambientais provenientes das atividades da
ETE e assim favorecer para a garantia de recursos hídricos em quantidade e qualidade.
Em seguida foram levantados os aspectos e
impactos ambientais importantes por meio de
uma lista de prioridades. Com isso, foram traçados os objetivos e metas, que são monitorados pelo SGA.
A implantação e operação desse sistema foram estabelecidas por meio de procedimentos e instruções de trabalho que incluem os
processos de treinamento e conscientização,
comunicação social, controle de documentos, controle operacional, preparação e atenSaneas / dezembro 2004 – 33
Meio Ambiente
Melhoria
contínua
VERIFICAÇÃO E
AÇÃO CORRETIVA
IMPLEMENTAÇÃO
E OPERAÇÃO
POLÍTICA
AMBIENTAL
PLANEJAMENTO
ANÁLISE
CRÍTICA PELA
ADMINISTRAÇÃO
Figura 2: Modelo de SGA proposto pela NBR ISO 14001. Fonte: ABNT (1996)
dimento a emergências, monitoramento e
medição, não-conformidade, ação corretiva e
preventiva e auditorias.
A Figura 2 apresenta a base de abordagem
da ISO 14001. Pode-se perceber que são cinco os pontos fundamentais no processo de elaboração do SGA, que culminam na melhoria
contínua.
Segundo Lissenden (1999), a ISO 14001 fornece uma estrutura de SGA que possibilita à
empresa equilibrar as demandas dos cliente e,
ao mesmo tempo, melhorar a eficácia interna,
reduzir as perdas e se adaptar às regras de sustentabilidade.
De acordo com Ferreira (1999), o modelo de
SGA proposto é semelhante ao método de gestão denominado Ciclo PDCA (Plan, Do, Check, Action), isto é, “Planejar, Fazer, Controlar
e Agir”, comumente aplicados para gerenciamento de sistemas de qualidade.
Resultados
A análise comparativa dos períodos anterior e posterior à implantação do SGA, mostrado na Tabela 1, pode evidenciar os ganhos
que esse sistema apresenta.
Tendo em vista os resultados extremamente positivos alcançados na aplicação desse modelo de gestão ambiental, presume-se que este
pode tornar-se um excelente instrumento para
iniciar o caminho em busca da conformidade
com a legislação ambiental e melhoria da per34 – Saneas / dezembro 2004
formance ambiental das Estações de Tratamento de Esgotos.
Além disso, tornou-se uma ferramenta para
autodeclaração do SGA da ETE, visando demonstrar às partes interessadas o comprometimento com as questões ambientais inerentes
à sua atividade, de acordo com a premissa da
NBR ISO 14001.
Conclusões
Mesmo sendo uma atividade nitidamente
de proteção ambiental, a ETE, que é parte integrante do ciclo do saneamento básico, possue um alto potencial poluidor, devendo ser
reconhecida como tal e ser corretamente gerenciada pelas empresas de saneamento básico, públicas ou privadas.
Ao longo deste trabalho, pôde-se observar
a importância crescente da questão ambiental
no dia-a-dia das pessoas e o envolvimento da
empresa neste processo. Através do estudo de
caso, constatou-se que a certificação ambiental
adquirida pela ETE Remédios proporcionou os
seguintes benefícios:
• Controle e redução dos recursos utilizados
nos processos produtivos;
• Identificação e controle dos aspectos e impactos ambientais relevantes à ETE;
• Possibilidade de atingir sua política ambien-
Meio Ambiente
Tabela 1: Comparação dos itens de controle antes e após a implantação do SGA
Itens analisados
Antes da implantação do SGA
Após a implantação do SGA
Alta administração
Pouco comprometida, visão operacional; falta de metodologia para alocar
as informações
Totalmente comprometida; visão de melhoria ambiental;
análise crítica do sistema; critérios para alocação de recursos
Política ambiental
Diretriz corporativa muito genérica de
difícil compreensão
Definida a política ambiental da ETE a qual direciona todas
as ações para melhoria do SGA implantado
Planejamento
Incipiente e sem gerenciamento;
não havia mitigação/minimização dos
impactos ambientais; alto número de
reclamações da comunidade; teoria
gera a prática
Atividades em conformidade com o SGA implantado;
adoção de ações corretivas e preventivas para mitigar/minimizar os impactos ambientais; pesquisa de satisfação da
comunidade e tratamento das reclamações; prática da
gestão gera a teoria
Requisitos legais
Controlado pela escolha do cumprimento do licenciamento; freqüências
de monitoramento pouco significativas
Baseado no levantamento dos aspectos e impactos ambientais; procedimento específico para acompanhamento das
alterações legais; freqüências de coletas definidas com
critérios; diminuição de ações do Ministério Público e do
número de sansões legais; maior facilidade para obtenção
das licenças ambientais
Gestão de pessoas
Fraca ou nenhuma atuação; treinamentos sem programas; falta de
entrosamento e relações pessoais
entre os níveis da organização
Gestão de “competências”; matriz de capacitação/ treinamento atrelada às atividades específicas; fluidez das
relações pessoais entre todos os níveis hierárquicos da
organização
tal, seus objetivos e metas incluindo o cumprimento da legislação ambiental;
• Definição de uma série básica de princípios que guiem a abordagem da ETE em
relação às suas futuras responsabilidades
ambientais;
• Estabelecimento de metas de curto, médio
e longo prazo para o desempenho ambiental, assegurando o equilíbrio de custos e
benefícios;
• Melhoria da imagem.
É importante relatar que o SGA da ETE
Remédios forneceu um processo estruturado
para a melhoria contínua, cujo ritmo é determinado pela empresa, em função de várias circunstâncias, inclusive econômicas, sendo uma
ferramenta que permite à ETE alcançar e sistematicamente controlar o nível de desempenho
ambiental que ela mesma estabelece.
Tal experiência é de extrema importância,
pois um SGA pressupõe uma visão ampla de
todo o sistema de gerenciamento ambiental,
desde a entrada das águas residuárias, aplicação
de insumos, tratamento, emissão do efluente e
geração de resíduos sólidos e gasosos.
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VON SPERLING, M. (1996) Lagoas de estabilização. Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da
UFMG.
Saneas / dezembro 2004 – 35
P&D
ENTREVISTA
SIMONE RAMOUNOULOU
Em prol de uma
humanidade mais justa
H
á 12 anos, a administradora de empresas e humanista Simone Ramounoulou abriu as portas da Willis Harman House, uma simpática casa no bairro de Jardim América, em São Paulo. O espaço é um local para reunir pessoas
que buscam caminhos para uma sociedade mais justa. Para isso, a Willis Harman House representa, no Brasil, três grandes grupos: World Business Academy,
academia de empresários e consultores interessados, desde 1996, em desenvolver e expandir o papel do empresário e suas organizações, tornando-as agentes
de transformação social; o Institute of Noetic Sciences, instituição fundada, em
1973, com o propósito de expandir conhecimentos adjacentes à natureza e potencial da mente humana em prol de um mundo mais sustentável; e The Club
of Budapeste, organização de líderes internacionais, educadores, artistas humanistas, cujas atividades norteiam os ajustes necessários aos desafios ecológicos,
educacionais e ambientais. Por aqui, a Willis Harman House, comandada por
Simone, também representa o The Natural Step, organização de consultoria e pesquisa internacional, que trabalha com usuários dos recursos do planeta, gerando soluções, modelos e
ferramentas com foco na sustentabilidade. Com voz tranqüila e um amistoso sorriso no rosto,
Simone Ramounoulou recebeu a reportagem de Saneas para falar sobre seu trabalho na Willis
Harman House e como é possível promover a mudança de consciência e de paradigmas vigentes. O objetivo? Um relacionamento humano mais correto para todos.
O que é a Willis Harman House?
O nome por si só é uma homenagem à Willis Harman, mestre em
física e Ph.D. em engenharia elétrica, que foi o precursor do potencial
da mente humana. Um de seus objetivos foi a divulgação de conhecimento sobre a natureza e o bem estar da humanidade e do planeta. E
a Willis Harman House é uma casa,
onde reunimos pessoas, com aspiração de fazer diferença no mundo em que vivemos e, também, encontrar maneiras de fazer esta mudança. Por isso que chamamos este
lugar de uma iniciativa de convergência e síntese. Nós damos a oportunidade para que vários enfoques
possam ser vistos e vários valores
possam vir à tona. Os valores são os
que nós escolhemos: a cooperação,
a responsabilidade, a transparência e a alegria. Acolhemos todos os
movimentos e valores que possam
36 – Saneas / dezembro 2004
ajudar nessa ação de consciência.
Nós partimos do princípio de que
quem faz a mudança é o ser humano e, como conseqüência, isso se estende para as organizações. A mudança no nível de consciência – não
no sentido moralista, mas no sentido amplo, de conhecimento, percepção ampla do que é o universo
em que vivemos – leva a uma percepção mais sutíl das coisas.
Como isso funciona na prática?
Cada um desses grupos (World
Business Academy, Institute of Noetics Sciences e The Club of Budapeste) agrega um certo número de
pessoas. Juntamos empresários,
consultores, pesquisadores, médicos, cientistas, pesquisadores, educadores, artistas, humanistas. São
grupos que criam atividades, ferramentas, para que as pessoas que
buscam um conhecimento dife-
rente possam nos conhecer e participar deste diálogo. Temos encontros específicos, como, por exemplo, o da World Business Academy,
com empresários que têm, na Willis
Harman House, a possibilidade de
compartilhar e pôr em dúvida suas
questões. Alguns participantes são
membros e outros são convidados.
Em geral, acolhemos pessoas que já
pensam e já sentem como nós. Mas
também estamos abertos a pessoas
que vem nos fazer perguntas. Isso é
feito por meio de eventos e atividades na casa, mas também vamos a
universidades, empresas e comunidades. São grupos de diálogo, porque o diálogo abre oportunidades
para ambos os lados e sempre se
chega num consenso. E se não se
chega num consenso, as pessoas,
mesmo assim, ficam satisfeitas porque exauriram a possibilidade de se
expressar.
Entrevista
A sociedade e os gestores das empresas estão atentos as questões
relacionadas a responsabilidade
social e ambiental?
Na minha opinião, isso ainda
está aquém da percepção dos grupos sociais ou empresariais. É ainda uma questão de cultura nacional.
Estamos falando, há algum tempo,
de responsabilidade social mas para
a responsabilidade ambiental ainda há um grande passo a ser dado.
Precisamos investir em educação.
Todos os nossos projetos da Willis
Harman House, por exemplo, têm
fundamento em educação, não no
sentido acadêmico mas no sentido amplo, de mudança de mentalidade, de percepção mais ampla,
de compreensão dos processos nos
quais todos nós, como seres humanos, estamos envolvidos. A World
Business Academy conscientiza os
empresários sobre esta necessidade
de nova consciência; a Redepaz e o
Elos falam de educação e liderança
consciente; e, certamente, o The Natural Step é o programa mais amplo
e abrangente nos processos de sustentabilidade, ecologia, responsabilidade social e ambiental.
A Willis Harman House acabou de
criar um novo programa, o Elos. A
senhora poderia falar um pouco sobre isso?
O Elos é o jovem promissor que
surgiu exatamente das nossas experiências. Na apresentação do Elos
colocamos a pergunta ‘como seria
uma escola de negócios ou de lideranças vista pelo Willis Harman?’.
Então nós criamos o Elos com essa
finalidade: uma escola de negócios,
de líderes, vista por todos esses valores que desenvolvemos. No momento, estamos criando a maneira
de compartilhar e de ajudar as pessoas a compreender e a sentir aquilo
que nós vivemos, nos últimos anos.
O Elos tem todo o frescor da juventude, mas estamos crescendo junto
com ele, como uma criança. Trabalhamos grupos e compartilhamos
as nossas experiências para criar
este caminho. Temos um grupo de
pessoas que se inscreveram para fazer esta formação de líder, dentro
da consciência de um mundo mais
correto. O Elos surgiu de uma aspiração. Tudo o que fazemos aqui é
muito novo.
É difícil trabalhar com o novo e com
processos de mudança de consciência?
Difícil, não. Mas precisa de muito cuidado. É como uma criança que precisa ser educada. E uma
criança tem sua própria personalidade e perfil. E ao mesmo tempo
tem que estar preparada para um
contexto que já existe e dar a ela
a oportunidade de criar seu novo
contexto. Por isso trabalhamos
com pessoas. Porque as organizações não têm um perfil, mas, sim,
o perfil das pessoas que estão nela.
Essa é a grande diferença. A gente
fala, por uma questão cultural e até
acadêmica, em empresas e organizações. Mas o que é uma empresa
se não a somatória das características de todas as pessoas que estão
dentro dela?
Como as pessoas reagem a estes
novos conceitos?
As pessoas que se aproximam da
casa estão buscando algo, mas não
sabem nem o quê. Percebem que
os processos precisam ser feitos
de um jeito diferente, mas não sabem como pode ser diferente. Em
geral, elas se perguntam: ‘será que
estou imaginando e que é impossível’, ‘será que existe uma maneira de
fazer as coisas diferente’, ‘há como
focar nos valores, no ser humano
e sair desse contexto árido, que é
a organização em si’. A casa oferece este ‘o quê’ e o ‘como’, que são as
nossas ferramentas. E, muitas ve-
zes, oferecemos o ‘onde’, porque as
pessoas já têm aquilo que elas buscam, mas não sabem onde aplicar
ou com quem compartilhar. As pessoas chegam e ficam. Aqui, os modelos mentais aos que as pessoas estão habitualmente acostumadas não
se aplicam. O que se aplica, aqui, é
algo diferente, muito mais sutil. No
Club of Budapeste, temos uma citação, que é do (Albert) Einstein, que
diz: ‘a gente nunca pode encontrar
a solução usando os mesmos recursos que criou o problema’. Essa
passagem é muito sútil e essa sutileza muitas vezes faz a diferença, é
o catalisador. É preciso vir, perceber
esse novo e ter uma sutileza interna para trabalhar a si própria e, assim, fazer com que esta modificação
aconteça. E isso, às vezes, acontece
num momento de grande alegria
e, às vezes, de grande desafios, que
traz algum sofrimento. Você sabe
que quanto mais a gente enxerga,
mais miudezas se vê. Ouço as pessoas dizerem: entrei num caminho
espiritual, numa filosofia de vida
diferente e as coisas em vez de ficarem melhores, ficaram piores. Mas
é assim: quanto mais luz você põe
numa casa quando se faz a limpeza, mais se vê a sujeira. E isso cria
um desafio maior. Portanto, precisa ter uma certa coragem para isso.
E ter coragem é agir com o coração
e com coerência. Por que se a pessoa descobre que precisa fazer uma
modificação interna, precisa ter a
coragem de ser coerente naquele
momento. Isso é bem sutíl, mas não
é filosófico. Por isso, a ação é importante, porque senão fica só no
intelecto, na palavra. E aqui damos
a oportunidade das pessoas colocarem todos esse valores, tudo aquilo
que sentem e buscam. E é concreto.
Não é só nas palavras. ■
Para saber mais
A Willis Harman House tem grupos de diálogos e troca de experiências todas as semanas. www.willisharmanhouse.com.br
[email protected] - Tel. 11 3064-4630
Saneas / dezembro 2004 – 37
EMPREENDIMENTO E GESTÃO
Desenvolvimento sustentável: algumas
contradições, muitas esperanças
Flávio Tayra Helena Ribeiro L
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op rno
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ançado em 1987, o conceito do desenvolvimento sustentável deve ter sido um dos
mais utilizados e repetidos durante a década de
1990 e princípio do século XXI. Geral e bemintencionado, ele encontra, porém, grandes dificuldades de aplicação prática, sendo marcado
por múltiplas interpretações e consensos apenas pontuais.
O Relatório Nosso Futuro Comum (WCED,
1991) veio atentar para a necessidade de um
novo tipo de desenvolvimento capaz de manter
o progresso em todo o planeta e, no longo prazo, ser alcançado tanto pelos países em desenvolvimento como pelos desenvolvidos. Desta
forma, o desenvolvimento sustentável engloba a idéia de compatibilidade do crescimento
econômico, com desenvolvimento humano e
qualidade ambiental. Preconiza que as sociedades atendam às necessidades humanas em
dois sentidos: aumentando o potencial de produção e assegurando a todas as pessoas as mesmas oportunidades (gerações presentes e futuras). Nessa visão, o desenvolvimento
Diagrama dos
sustentável não é um estado permafundamentos do
nente de equilíbrio, mas, sim, de
desenvolvimento
mudanças quanto ao acesso aos
sustentável
recursos e quanto à distribuição
de custos e benefícios.
As análises que acentuam
suas qualidades positivas
destacam seu caráter inovador, como uma nova
filosofia de desenvolEconomia
vimento econômico,
que pretende subsMeio
ambiente Sociedade
tituir e superar
um modelo que
já se mostra
Recurso
esgotado, e
Integração
que tem
Pesquisa
se mos-
trado gerador de profundas dissensões socioeconômicas. Além disso, traz em sua concepção
uma visão de longo prazo, sintonizada com os
ciclos biofísicos e com as gerações futuras.
Objetivos e contradições
O economista espanhol José Manuel Naredo
(1996, ps. 530-31) coloca que a maior parte da
indefinição acerca do propósito e viabilidade do
desenvolvimento sustentável reside na dificuldade de conciliar as diferentes racionalidades da
economia (baseada nos agregados monetários
homogêneos de produção) e da sustentabilidade (que recai sobre processos físicos singulares
e heterogêneos). Com efeito, a idéia de crescimento econômico com que trabalha os economistas encontra-se desvinculada do mundo físico e não tem outro significado concreto e suscetível de medir se não com os agregados monetários, que por definição fazem abstração da natureza física heterogênea dos processos que os
geram. Por negligenciar tal contradição, alguns
ambientalistas se queixam de que o seu conceito de desenvolvimento sustentável estaria sendo
distorcido e reinterpretado como uma estratégia
de expansão do mercado e do lucro, quando, ao
menos em tese, reivindica mudanças essenciais
na estrutura de produção e consumo, uma nova
ética comportamental e o resgate dos interesses
sociais coletivos (Herculano, 1992).
A despeito de tais contradições, o Relatório
Brundtland propôs que a possibilidade de um
estilo de desenvolvimento sustentável está intrinsecamente ligada à eliminação da pobreza, à
satisfação das necessidades básicas de alimentação, saúde e habitação, aliado à alteração da matriz energética e ao processo de inovação tecnológica. Segundo Sachs (1986), numa análise que
foi corroborada pelas conclusões do Relatório
Brundtland, se a degradação ambiental agrava
as condições de vida dos mais pobres, a pobreza
Economista, doutor em Ciências Sociais e pós-doutorando em Saúde Ambiental, na Faculdade de
Saúde Pública (FSP/USP).
Geógrafa, Mestre pela Universidade da Califórnia, Doutora em Geografia Física pela USP, Livre-
docente em Saúde Pública, Professora titular da FSP/USP.
38 – Saneas / dezembro 2004
Empreendimento e Gestão
destes conduz a uma exploração predatória dos
recursos naturais, fechando um ciclo perverso
de prejuízos sócio-ambientais. Uma possível solução para amenizar tal estado de coisas seria o
acesso ao mercado de trabalho, porém, a impossibilidade ou a dificuldade de que isso ocorra já
demonstra de forma mais aprofundada o problema que realmente se apresenta, dado o desemprego tecnológico crescente.
Segundo dados da PNUD, a situação da pobreza no mundo piorou nos últimos 50 anos, tanto em termos absolutos como relativos. Há pouco mais de cinqüenta anos, em 1947, o número
de pobres era de 400 milhões, o que equivalia a
17,4% da população mundial. Em 1997, o número de pobres era de 1,3 bilhões, o que representava 22,8% da população mundial. Ou seja, nos
últimos cinqüenta anos a quantidade de pobres
aumentou em 900 milhões, e em termos relativos
quase alcançou 1/4 da população mundial.
Reverter tal situação é um dos grandes desafios da atualidade, embora já se saiba, desde a década de 1970 – quando da publicação
do relatório Meadows (1978) –, que se todos
os pobres do mundo um dia chegarem a atingir o padrão de consumo dos cidadãos dos países ricos (ao menos ao nível da tecnologia atual disponível), o planeta entrará rapidamente em colapso devido à exaustão dos recursos
naturais. Ou seja, para se atingir uma sociedade mais sustentável, além de aumentar a renda
dos pobres, cabe também mudar o comportamento do padrão do consumo dos países desenvolvidos, altamente demandante de recursos naturais. No entanto, verificam-se sinais
de que a nossa sociedade parece estar cada vez
mais orientada a uma uniformização deste tipo
de consumo. A popularização do conceito de
“globalização dos mercados”, na última década,
é uma demonstração clara disso.
Um desenvolvimento sustentável seria
incompatível com o mercado?
A forma de organização econômica capitalista encontrou sua forma de expansão na contínua criação de novas necessidades, o que demanda maior consumo e que na outra ponta
imprime maior ritmo de atividade e crescimento econômico, índice desejado por todos, que
fomenta ainda maior consumo, o círculo virtuoso do capital. A luta por maiores parcelas desse
consumo, pelas partes ofertantes, estimula ainda mais o seu desenvolvimento, e por decorrência, uma maior utilização dos recursos naturais.
Os limites para expansão de tal lógica parecem
ser os limites físicos do meio ambiente.
Atentar para esse aspecto constitui-se num
dos maiores desafios do nosso tempo. Como
inserir no sistema econômico uma variável
de preocupação intra e inter gerações e com
o meio ambiente? Como impor limites à “máquina do crescimento” e ainda assim prover as
necessidades dos consumidores?
As dificuldades para sua efetivação parecem
decorrer de dois fatores primordiais: o primeiro
se refere ao predomínio da visão de curto prazo, uma vez que o sistema de economia de mercado que fomenta a exploração de recursos, na
busca por uma maior eficiência, estimula uma
formação dos preços no mercado caracterizada por uma concepção que negligencia o longo
prazo e deposita uma fé desmesurada nos possíveis impactos positivos de um desenvolvimento tecnológico implicitamente estimulado; o segundo aspecto (na outra ponta) é o desejo individual, cada vez mais estimulado de consumir,
em particular, nas nações mais industrializadas,
mas que vem progressivamente sendo adotado
em países em desenvolvimento. Porém, ao mesmo tempo em que se verifica a necessidade de
uma redução do consumo nos países mais desenvolvidos, a fome progride nos países pobres
(evidenciando a existência de um consumo reprimido) e o desemprego atinge vários milhões
de habitantes do planeta (inclusive dos países ricos), decorrendo, daí, problemas ambientais específicos, como a invasão das cidades, que culminam, por exemplo, na ocupação desordenada
das suas periferias e na exploração predatória de
recursos naturais por parte das populações rurais pobres, que refletem e acabam por reforçar
mecanismos de exclusão social. A receita usual
para o tratamento do problema: crescimento
econômico.
Qual seria a alternativa a esse círculo que se
pretende virtuoso? Uma superação da lógica
do crescimento econômico não parece ser uma
medida de tão fácil execução. A crise econômica geral – a partir dos anos 80 do século XX –
mostrou que a questão requer uma análise mais
acurada. Nesse contexto, o crescente desemprego faz com que as pessoas clamem, com cada
vez maior ardor, por maiores taxas de crescimento econômico. O mesmo crescimento econômico que, pela visão tradicional dos economistas, pode ser obtido por meio do grande desenvolvimento tecnológico, que as formas competitivas de mercado estimulam. Por outro lado,
a manutenção de tal lógica pode levar ao ocaso
do próprio sistema, dado que a sua expansão – a
Saneas / dezembro 2004 – 39
Empreendimento e Gestão
extensão deste padrão de crescimento e consumo aos mercados ditos emergentes – tende a levar os recursos naturais do planeta à exaustão,
como alertam os ecologistas.
Como fica o desenvolvimento sustentável
nesse cenário? Antes de tudo, é preciso reconhecer que as discussões sobre o que venha
(ou pode vir) a ser o desenvolvimento sustentável incitaram um grande debate que conseguiu mostrar todas as suas contradições (sobre
o conceito em si e sobre seu foco de atuação);
e esse é apenas um de seus lados positivos. É
interessante perceber também que, ainda que
preocupadas exclusivamente com sua imagem
comercial, muitas empresas e companhias passaram a dar maior importância à questão ambiental, melhorando muitos de seus indicadores ambientais. O problema é que, ao mesmo
tempo em que melhoram seus indicadores, tais
empresas continuam a atuar dentro de uma lógica de crescimento econômico que fomenta
cada vez mais produção (que na outra ponta se
traduz em maior consumo de recursos), para
fornecer mais e mais produtos a serem consumidos, que se traduzirá em maiores ganhos
monetários, principais objetivos. Observa-se
desta forma, que ainda que exista tal preocupação amplamente disseminada, os objetivos
do desenvolvimento sustentável parecem ainda distantes de seus objetivos iniciais de propagar um consumo sustentável.
Algumas considerações
Um grande número de economistas deposita uma especial fé na tecnologia para superar
os impasses ambientais, assim como acredita que a liberdade do mercado tende a formatar a melhor divisão e configuração de rendas
no mercado. Entretanto, como vimos, a grande revolução tecnológica das últimas décadas
(a despeito de todas as vantagens que trouxe
embutida), traduzida em linguagem econômica num grande aumento de competitividade, torna ainda mais difícil a geração de postos de trabalho, contribuindo para um aumento da taxa de desemprego. Ao mesmo tempo,
alguns países, alijados ainda mais do mundo
da economia competitiva, mergulham cada
vez mais na pobreza, e no mais das vezes, na
fome. Simultaneamente, nos países mais ricos
(ou em vias de se tornarem), parcelas expressivas de suas populações despendem seus recursos econômicos em um padrão de consumo
altamente demandante de recursos naturais.
Numa busca de maior equilíbrio, defende-se
40 – Saneas / dezembro 2004
que o atendimento das necessidades mais básicas dos pobres daria um sopro de continuidade ao processo econômico, gerando empregos e renda para essa parcela da população. No
entanto, esse aumento de consumo dos pobres
teria de ser compensado nos países mais ricos
por uma diminuição do consumo, que absorve
um grande teor energético. No mais das vezes,
esse consumo supérfluo gera produção para
ser desperdiçada e para aumentar o volume de
resíduos sólidos, o que por si só já representa
grave problema ambiental. Numa escala mais
ampla, o que é consumido em excesso é que
conduz à insustentabilidade do sistema.
A adoção de um consumo sustentável dificilmente se dará de forma voluntária. Para se atingir este ponto são necessárias políticas específicas, direcionadas, mais precisamente políticas tributárias, que consigam arrecadar, alocar
e induzir a utilização dos recursos numa direção mais sustentável, que consigam equilibrar a
relação de desigualdade no acesso aos recursos
naturais. Para se formular este tipo de política é
necessário, no entanto, um maior conhecimento
sobre o problema, numa análise que não se limite a um ou outro viés disciplinar ou ideológico,
sob pena de se estabelecer políticas meramente
autoritárias. Aspecto ainda mais importante é a
necessidade de se desenvolver um conhecimento científico que escore tal nível de proposições
e assegure grau significativo de sustentabilidade
econômica às atividades produtivas. Ainda estamos apenas no começo do caminho.
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WCED (1987) Our common Future. Oxford, Oxford
University Press, 1987
CONEXÃO
OPINIÃO INTERNACIONAL
O Japão e seu meio ambiente
Ana Lúcia Silva O
Japão é o segundo país
mais rico do mundo, uma
invejável posição alcançada em
menos de 50 anos, apesar de
ter sido alvo de eventos devastadores decorridos de sucessivas guerras com outros países.
Atribui-se, como fatores que
ajudaram o Japão a se tornar
a segunda maior economia do
planeta, os esforços das indústrias e do governo, uma forte
ética no trabalho, o completo
domínio da tecnologia e os gastos com defesa proporcionalmente pequenos (cerca de 1%
Ana Lúcia no Memorial Minamata.
do PIB). Uma das caracterísEsteve em Osaka, Japão, em 2004,
ticas da economia do país é o
no curso “Controle de metais
perfeito relacionamento entre
pesados e substâncias perigosas
fabricantes, fornecedores e disno meio ambiente”
tribuidores, chamado “keiretsu”.
Por muito tempo, também se destacou o emprego vitalício, privilégio que vem sendo eliminado
pelas empresas.
O país teve, entre 1955 e 1975, um crescimento econômico espetacular, assim como um
crescimento populacional sem precedentes, em
uma época em que o conhecimento sobre meio
ambiente estava no seu início. Tudo isto favoreceu para que o Japão registrasse ao longo de
sua história algumas tragédias ambientais que
marcaram muito o povo japonês, mas que por
outro lado ampliaram em muito sua consciência com relação à importância da proteção e da
preservação do meio ambiente, e para a necessidade de buscar meios sustentáveis de desenvolvimento econômico.
Entre os graves acidentes ambientais ocorridos no Japão, cabe citar o Mal de Minamata,
na década de 50, com milhares de pessoas contaminadas por mercúrio. A companhia Chisso
despejou cerca de 200 toneladas de mercúrio
na baía de Minamata e os efeitos desse crime se
manifestam até hoje, em alguns sobreviventes
e nos seus descendentes. Até 1997, era proibido o consumo de pescados na região.
No entanto o Japão parece ter aprendido a
transformar, segundo palavras do Dr. Masahisa
Nakamura, diretor do Instituto de Pesquisas do
Lago Biwa, “crises em oportunidades”. Ou seja, a
partir de situações caóticas ocorridas ao longo de
sua história, o povo japonês sempre buscou medidas que remediassem e evitassem novos desastres, objetivando sempre um meio ambiente mais
saudável e uma melhor qualidade de vida.
Observam-se várias conquistas importantíssimas obtidas principalmente a partir da ação
da população em cobrança aos órgãos governamentais, como, por exemplo, a eliminação
do uso de fósforo na formulação de detergentes e sabões, trabalho de vanguarda na década
de 1970 das donas de casa japonesas, em socorro ao Lago Biwa, a principal fonte de água do
país. Estas fantásticas mulheres conseguiram
mudar a constituição do país, e fazer com que
governo e empresários buscassem novas soluções para diminuir as emissões de poluição; o
envolvimento do governo com as questões ambientais, em resposta à cobrança da sociedade;
a capacidade técnica e científica das agências
ambientais e de suas equipes; etc.
Sobre o assunto do momento, disruptores endócrinos, muito se é falado e informado
aos habitantes, objetivando-se uma parceria de
ações na busca por soluções. Atualmente, foram identificados 67 tipos de disruptores endócrinos na água potável. Segundo os especialistas japoneses, apesar do tratamento avançado existente em todas as estações de tratamento
de água1, eles reconhecem que a ozonização e
a aplicação de carvão ativado em pó ainda não
são barreiras totalmente eficientes para este
tipo de poluição – ainda é possível encontrar
traços destas substâncias na água final. Também reconhecem que pouco se sabe sobre sua
ação na saúde humana, o que tem sido motivo
de grande preocupação, não só da comunidade
científica, mas da população em geral.
O Japão tem ainda pela frente vários desacontinua na página 44
1 O processo avançado de tratamento de água inclui
ozonização e carvão ativado em pó. Algumas estações
menores (estações piloto) operam com membranas e
osmose reversa.
Engenheira química, mestre em Recursos Hídricos pela Poli-USP, trabalha na divisão
de Controle de Qualidade da Sabesp
Saneas / dezembro 2004 – 41
INOVAÇÃO
Padronização do ramal predial
de água como elemento
de controle de perdas reais
Pedro Jorge Chama Neto , Eric Cerqueira Carozzi , Edson Almeida Torre U
m dos grandes problemas que atualmente
enfrentam as companhias de Saneamento
é a alta incidência de vazamentos que ocorrem
nas redes, cavaletes e, principalmente, nos ramais prediais de água, devido à má qualidade
dos materiais utilizados e a falhas na execução,
com conseqüentes custos de manutenção e
perdas de água.
Numa conjuntura em que o número de
ocorrências de vazamentos, pelos ramais prediais de água, alcançou parcela muito significativa do total de perdas reais observadas nos
sistemas de abastecimento de água, optou-se
por desenvolver projetos tendo como principal
objetivo o aprimoramento dos ramais prediais
de água em Polietileno (PEAD), considerados
como sistemas e não apenas como simples instalação de tubos de PEAD.
O presente trabalho apresenta o procedimento implantado na Companhia de Saneamento
Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), para
padronização do ramal predial de água, a partir
do estudo detalhado das falhas que ocorrem nos
mesmos, desde a tomada d’água até o cavalete.
O procedimento implantado teve como
base inicial o cadastro das falhas e suas classificações, segundo critérios específicos para monitoramento e análise contínua, de forma que
fosse possível detectar as anomalias que comprometem o desempenho do ramal predial de
água, e possibilitasse a adoção das medidas
corretivas necessárias para mitigar o problema
por meio da padronização do mesmo.
Metodologia
A metodologia de desenvolvimento do trabalho consistiu da elaboração de um Sistema
Informatizado de Registro de Falhas (SRF),
que permitiu a geração de um banco de dados,
com informações obtidas a partir de uma planilha de campo, em que foram registradas todas as falhas verificadas nos tubos de PEAD
e conexões pertencentes ao ramal predial de
água. Esta planilha acompanhou em alguns casos todas as solicitações de serviços de reparo
e, em outras, apenas 20% das ocorrências, porque esta amostragem foi considerada estatisticamente adequada e suficiente para que fosse
atingido o objetivo de levantamento de falhas.
As falhas passíveis de cadastro foram estabelecidas a partir de uma caracterização das falhas mais comuns, de maneira que fosse possível identificar um panorama das ocorrências,
indicando sobre quais tipos de falhas deveriam
ser dedicados os esforços para a atenuação ou
eliminação da ocorrência da falha.
No trabalho, além da elaboração do SRF e a
respectiva análise de consistência e teste piloto,
foi realizada a implantação do SRF em várias
Unidades de Negócio da Sabesp, tanto da capital, como do litoral e interior, com o objetivo
de conhecer o problema de forma abrangente.
A implantação contemplou visita às unidades escolhidas, onde foi feita uma apresentação formal do sistema para as equipes técnicas,
com debates e esclarecimentos gerais.
Na seqüência foi procedida a instalação do
sistema e o devido treinamento dos operadores.
Também foram repassadas as instruções fundamentais para que os responsáveis pela instalação,
manutenção e reparos dos ramais prediais estivessem devidamente preparados para o correto
preenchimento das folhas de campo do sistema.
Posteriormente, a partir do conhecimento
das falhas que ocorrem nos ramais, definiu-se
o padrão do ramal predial de água, tendo como
elementos fundamentais:
• Utilização do SRF como ferramenta para le-
Engenheiro Civil, mestre em Engenharia pela EPUSP(2002), Engenheiro Especialista na
Superintendência de Gestão de Empreendimentos de Sistemas Regionais da Sabesp.
Engenheiro Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1991). Gerente do Departa-
mento de Controle de Perdas e Planejamento Operacional da Diretoria de Sistemas Regionais da Sabesp.
Engenheiro Civil pela Universidade de Mogi das Cruzes, Engenheiro do Departamento de Planejamento
Integrado da Superintendência de Planejamento e Apoio da Metropolitana da Sabesp.
42 – Saneas / dezembro 2004
Inovação
Pareto das falhas
25%
20%
15%
10%
5%
vantamento, acompanhamento, monitoramento e correção das falhas e apoio às decisões gerenciais;
• Elaboração de especificações técnicas Sabesp, visando adequar tecnicamente os materiais as necessidades da Sabesp e garantir a
qualidade dos materiais a serem adquiridos
e aplicados, e
• Programa de treinamento dos funcionários,
tanto da Sabesp como das contratadas, responsáveis pela instalação e reparo dos ramais
prediais de água, conforme padrão definido.
RESULTADOS
O SRF do ramal predial foi implantado em
várias unidades da Sabesp, permitindo um conhecimento abrangente da situação das falhas
nas cidades ou regiões onde se utiliza o ramal
predial em PEAD.
Conforme previsto na metodologia, da implantação do sistema nas cidades participantes
obteve-se, no período de abrangência do trabalho, um conjunto de dados que foram enviados para análise e incluídos no sistema pelas
próprias regionais da companhia. Isso permitiu avaliar o nível e a tipologia de falhas, que
vêm ocorrendo em cada cidade.
A figura acima apresenta um gráfico de “Pareto”, que sintetiza uma média dos resultados
das falhas ocorridas e as respectivas incidências percentuais registradas nas cidades onde
foi implantado o sistema.
Tendo como base o conhecimento das fa-
lhas, que ocorrem nos ramais
prediais de água, as principais
variáveis (qualidade dos materiais e fatos vinculados a execução) responsáveis por estas falhas e adotando-se como
premissas básicas para definição das peças a serem utilizadas no padrão do ramal predial de água: diminuição do
número de juntas; realização
de verificações e ensaios em
materiais, visando checar o
atendimento às normas existentes; elaboração de Normas
Técnicas Sabesp, para adequação dos materiais às exigências Sabesp e para possibilitar o uso de materiais para os
quais não existia Norma Brasileira; e facilidade para implantação de programa de
treinamento, visando qualificar a mão de obra responsável
pela execução e manutenção
dos ramais prediais de água,
decidiu-se pela padronização do ramal predial de água,
conforme apresentado nas fotos ao lado e descrito a seguir:
• Utilização de Tê de serviço
integrado, para execução
do ramal predial de água
Vazamento
na Haste
Deslocamento
Lateral
Outrasfalhas
colar
Trinca na
conexão
Desengate
Adaptador
Vazamento
na J.Rosq.
Vazamento
na J.Mec.
Outras falhas
adaptador
Outras falhas
registro
Outras falhas
tubos
Quebra
do Colar
Corte na
Extremidade
Trinca no
Adaptador
Trinca no
Registro
Furo no Tubo
0%
Padronização adotada para os
ramais prediais de água
Saneas / dezembro 2004 – 43
Inovação
em PEAD de diâmetros 20mm e 32mm,
derivado de rede de PVC com diâmetros
50mm e 75mm,
• Utilização de colar de tomada em polipropileno, registro macho e cotovelo adaptador para
execução do ramal predial de água em PEAD
de diâmetros 20mm e 32mm, derivado de rede
de PVC com diâmetro de 100mm, e
• Utilização de colar de tomada em ferro fundido, registro macho e cotovelo adaptador
para execução do ramal predial de água em
PEAD de diâmetros 20mm e 32mm, derivado de rede de ferro fundido, PVC, DEFOFO
e cimento amianto, em qualquer diâmetro.
Conclusão
Avaliando-se os resultados iniciais da implantação da padronização dos ramais prediais de água, pode-se comentar que houve
um grande avanço no conhecimento das falhas
ocorrentes nos ramais prediais de água, em todas as áreas de atuação da Sabesp, e que o sistema contribuiu para que fosse possível direcionar os esforços de melhoria com maior precisão, visto que as falhas e sua freqüência de
recorrência são indicadores importantes dos
pontos a serem corrigidos.
Por outro lado, a utilização de materiais de
melhor qualidade e os treinamentos ministrados inicialmente já apresentam os primeiros
resultados, observando-se até a presente data
uma redução da ocorrência de vazamentos nos
ramais executados, segundo o novo modelo.
Assim, conclui-se que o conjunto de resultados obtidos é uma fonte importante de informações para solucionar as falhas, que se tornaram endêmicas em algumas regionais, como,
por exemplo, falhas de “furo no tubo” e “trinca
no adaptador”, responsáveis por aproximadamente quase 80% das ocorrências.
Por outro lado, a implantação definitiva do
sistema de registro de falhas como ferramenta de apoio gerencial, visando acompanhar os
resultados das modificações introduzidas com
o novo padrão, possibilita avaliar os resultados
e fazer as correções de curso necessárias, imediatamente após a detecção do problema.
Bibliografia
BARRETO, DOUGLAS. O consumo de água em
aparelhos sanitários. 17o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental -Natal/RN(1993).
ROCHA A.L. e BARRETO DOUGLAS. Perfil do
consumo de água de uma habitação unifamiliar 19º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental –
Rio de Janeiro/RJ (1999).
BARRETO, DOUGLAS E ROCHA. A.L. Caracterização do consumo de água de aparelhos sanitários economizadores de água. 19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental – Rio de Janeiro/RJ(1999).
Cover, Trish Johnson & Rose, Tammy. Water Audits
and Water Use Analysis in the Regional Municipality of
Ottawa-Carleton; 1996; Conf Proc; AWWA;
BORBA Jr., E. F. Programa Especial de Redução de
Perdas 198/83 na Região Metropolitana de São Paulo. Revista DAE, 119, p. 88-96. 1978.
BORGES, P. R. Indicadores de Desempenho para Controle de Perdas em Sistemas de Abastecimento de Água. In:
15º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, Bilena, Pará. Anais. Vol 2, Tomo I. 1989.
BORGES, P. R.; ONOFRE, R.M.S. Setores de Abastecimento e o Controle de Perdas de Água na Região Metropolitana de São Paulo. In: 17º CONGRESSO BRASILEI
RO DE ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL,
Natal, R.N. Anais. Vol. 2. Tomo II. Setembro, 1993.
COELHO, A. C. Medição de Água e Controle de Perdas. Rio de Janeiro. Associação Brasileira de Engenharia
Sanitária e Ambiental. 1983. 339p.
Continuação de O Japão e seu meio ambiente de Ana Lúcia Silva - pag. 41
fios, como por exemplo as ilhas de calor, depósitos de lixo clandestino, problemas de contaminação com metais pesados e outras substâncias em rios próximos à área urbana, florações algais de cianobactérias em corpos de
água doce e intensa formação de marés vermelhas nas baías de Osaka, etc. Quanto ao tratamento terciário em estações de tratamento de
esgoto (ETE), este é efetuado em 20% do total de ETEs existentes no país, devido aos altos
custos envolvidos e às dificuldades do processo. Portanto, no país, visa-se principalmente a
diminuição das principais fontes de poluição,
como é o caso do fósforo citado anteriormente,
às barreiras no tratamento.
44 – Saneas / dezembro 2004
Em suma, o Japão tem uma história maculada por tragédias e pautada por vitórias, e o desafio de atingir um meio ambiente adequado e
crescer com sustentabilidade continua. No entanto, as expectativas são promissoras, haja visto a capacidade desta gente em se superar a cada
desafio e sua força em levar para frente e fazer
acontecer tudo aquilo em que acreditam. ■
Alguns sites interessantes, sobre
tecnologia japonesa voltada para o
meio ambiente:
www.unep.or.jp
www.mhlw.go.jp/english
HISTÓRIA
OPINIÃO DO SANEAMENTO
Arqueologia da água – parte I
A evolução tecnológica no abastecimento
da cidade de São Paulo, do século XVI ao XIX
Dalmo Dippold Vilar Filomena Pugliese Fonseca Desenho de Landseer (1826): vista da cidade de São Paulo, tomada presumivelmente do Paredão do Piques.
Em primeiro plano o Vale do Anhangabaú. Os vultos das igrejas paulistanas destacam-se entre o casario baixo.
Tinham chafarizes as igrejas da Misericórdia, Carmo e São Francisco. in Toledo B.L. de, Anhangabahú p. 27.
“A luta pela água só a compreende quem lhe
sente a falta”.
A facilidade com que hoje a água chega às
nossas torneiras e escapa através das tubulações esconde no subsolo urbano toda uma luta
tecnológica de saneamento, cujo resgate é fundamental para conscientizar e mobilizar a população sobre a importância da conservação
e do uso racional da água, fatores primordiais
para sustentabilidade das políticas públicas.
O início de uma saga
“Um planalto suavemente ondulado, com
campos e clareira aprazíveis, boas águas e clima
sadio”1. A frase é de um religioso da missão jesuítica ao se deparar com uma colina estratégi-
ca entre os rios Tamanduateí e o Anhangabaú,
espécie de acrópole, escolhida para a fundação
do Colégio dos Jesuítas ou de Santo Ignácio,
onde em 25 de Janeiro de 1554 foi celebrada a
primeira missa pelo padre Manoel de Paiva.
A escolha teve como fator preponderante os
eixos fluviais ao longo do Rio Tietê e seus principais afluentes, que representavam importantes
fatores defensivos, meios de comunicação, fontes de abastecimento e reserva de alimentos.
Desde que foi fundada, a vila de São Pau1 ARQUIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Memória
Urbana: a Grande São Paulo até 1940, Imprensa Oficial,
SP, 2001, p.13.
Doutorando em Arqueologia (USP), professor do Instituto Mairiporã de Ensino Superior.
Advogada, Mestre em Ciências (USP), doutoranda em Arqueologia (USP).
Saneas / dezembro 2004 – 45
História do saneamento
baú, que nascia no morro do Caaguaçu, próximo a atual rua do Paraíso, para dois chafarizes,
o de São Francisco (1744) e do Tebas, Largo
da Misericórdia (1792). Essas telhas, como o
próprio nome indica, eram fabricadas manualmente tendo como molde a própria coxa do
telheiro, que em geral imprimia sua marca em
todas elas, eram do tipo capa-canal, formando
um verdadeiro duto.
Com o passar do tempo,
essas águas passaram a correr em regos, pequenos canais
artificiais, agora com avanço
tecnológico: cobertos com lajes de pedra no cruzamento
das ruas principais! Represadas em dois tanques, o primeiro chamado de Municipal, na
atual rua João Julião e o segundo de Santa Tereza, um pouco
mais abaixo, na rua Santa Madalena de hoje, atendiam aos
clamores da população sedenta que exigia das autoridades
providências enérgicas para
O melhor registro da primeira etapa do Largo da Memória devemos ao pintor Miguel
Arcanjo Benício da Anunciação Dutra, o Miguelzinho, como era conhecido. A esse artista
solucionar o grave problema
devemos, certamente, o mais completo desenho conhecido do local até o advento da
do abastecimento e o tipo de
fotografia em São Paulo. in Toledo B.L. de, Anhangabahú p.27.
água consumida.
Nessa época não havia qualquer preocupacentro do hoje largo do Paissandú e das biquinhas, como então se chamavam genericamen- ção com a higiene e a qualidade das águas e
te, por exemplo, as duas situadas na rua Taba- as que vinham do tanque Municipal, em grantingüera, a do Gaio e a de Santa Luzia, esta fa- de parte de seu trajeto passavam por vala descoberta que atravessava um arrabalde escuso,
mosa por suas qualidades oftálmicas.
Nos séculos XVI e XVII, a atividade econô- chamado rua do Rego, cujo ar era fétido e o
mica da nascente vila era a produção de cha- chão juncado de caveiras de boi, sabugos, chipéus de feltro grosso, desaparecida desde que fre, ossos e de outros resíduos imundos, pora criação de ovelhas deixou de ser praticada. que os moradores eram quitandeiros de miuAliada a essa indústria existia a fabricação de dezas do matadouro.
A primeira notícia que se tem em São Paulo
doces caseiros, como os de marmelo, abundante nos quintais paulistanos o que não im- de uma análise de água para consumo público
pedia que os produtores adicionassem chuchu foi feita pelo químico Bento Sanches D’Orta,
na pasta para aumento do peso, originando-se em 1791, a pedido do então Governador da Capitania, porém, não se levou em conta o seu redaí a famosa expressão “marmelada”.
No século XVIII, com o ciclo do ouro, São sultado, que apontava a péssima qualidade das
Paulo experimenta um surto de desenvolvimen- águas, e nenhuma providência de saneamento
to econômico com uma agricultura mais volta- foi tomada, deixando a população a mercê da
da para abastecer as regiões mineradoras, provo- própria sorte.
Ainda em 1858, um dos fiscais da Municicando um aumento populacional na antiga vila
de Piratinga. Por via de conseqüência, a demanda palidade denunciava que a água da biquinha
do Acu, situada entre a atual rua do Seminário
pela água torna-se fator de comoção social.
As autoridades tomam as primeiras provi- com a brigadeiro Tobias, apresentava um sabor
dências no abastecimento público construindo pavoroso, devido a uma latrina que existia junaquedutos feitos de telhas de coxa, apenas im- to ao canal de abastecimento.
bricadas umas nas outras que correndo a céu
aberto conduziam as águas do rio Anhangacontinua na próxima edição
lo não tinha um sistema de fornecimento e
distribuição de água. O problema era a dificuldade de captação e transporte do precioso
líquido, abundante nos, então, puros e cristalinos rios e nas numerosas nascentes das encostas do planalto.
Ao longo dos primeiros duzentos anos, os
habitantes serviam-se das águas do Yacuba, no
46 – Saneas / dezembro 2004
COMUNIDADE
Sustentabilidade
do planeta
Monja Coen Q
uando Wangari Maathai recebe o Prêmio Nobel da Paz
pelo cinturão verde criado na África, utilizando o trabalho de mulheres na plantação de 30 milhões de
árvores, está sendo premiada uma
mulher africana que age plena de
cuidado com a vida, ciente das considerações sobre a sustentabilidade
do planeta. Pensar, organizar e agir
considerando o social, o econômico, o ambiental. Incluindo força de
trabalho excluída para melhorar o
meio ambiente, Maathai demonstra
possuir a visão integrada capaz de
desenvolver na Terra uma nova cultura, a da Paz.
É dessa maneira que precisamos
cuidar de nossa casa, nossa rua, nosso bairro, nossa cidade, nosso estado,
nosso país, nosso hemisfério, nosso
planeta e o sistema solar no qual se
insere, na Via Láctea, no Universo.
Cada um de nós é responsável
pela situação em que está o mundo
no presente e por sua transformação
constante. O futuro depende do que
façamos agora. Esta é a Lei da Causalidade – um dos ensinamentos de
Buda. Esse sábio da Índia, há mais de
2600 anos também dizia que o tempo é circular, que o bem que criamos
agora pode mover e influenciar passado, futuro e presente. Interconectados não só em espaço, mas também no tempo.
A premiação de Maathai do Quênia é significativa pela inclusão da
mulher africana (consideradas as
pessoas mais excluídas e discriminadas do planeta) e por demonstrar
que cuidar do meio ambiente através de uma rede integrada de benefícios sociais-políticos-econômicos
é o mesmo que promover a Paz. É
criar causas e condições benéficas
para todos os seres.
Em setembro, mais de 1500 pessoas se reuniram para varrer a Avenida Paulista (SP). A Sabesp nos deu
água pura para beber, sustentando
o projeto da Zeladoria do Planeta. É um projeto simples, o de zelar
pelo planeta, baseado no conceito de
“quem limpa, não suja.”
Idéia interessante que se for levada às escolas públicas, desde o
jardim da infância até a Universidade, contribuirá para a sensibilização
de cuidarmos do local em que vivemos, inclusive promovendo noções
básicas de saneamento e respeito à
vida. Educar é transmitir a visão integrada – e não fragmentada – da
vida na Terra.
Há outros projetos simples, que
podemos aprender do Japão, por
exemplo, onde as crianças, em turnos, limpam a escola todos os dias.
Varrem salas de aula e corredores,
passam o pano, limpam banheiros
e jardins. Não jogam lixo no chão.
Separam papéis e plásticos, reciclam lixo, dobram tudo com cuidado para que os resíduos sejam os
menores possíveis.
A varrição da Paulista começou
com um grupo de empresários japoneses que veio ao Brasil com o objetivo de limpar os banheiros públicos
dos parques (como o do Ibirapuera).
O projeto ganhou adeptos e a formação da Zeladoria do Planeta Brasil,
que promove todos os anos Varrer
a Paulista. Não é um protesto à Prefeitura e aos garis. É um manifesto
à população que joga lixo nas ruas.
Cigarros, chicletes grudados nas calçadas, garrafas, panos, papéis. Há de
tudo nas ruas e nos bueiros, entupindo, causando enchentes.
Entretanto, gostamos de dizer que
a culpa é de algum governo, administração, como se nós estivéssemos
isentos de qualquer responsabilidade. Nós todos causamos os problemas de nossa casa, nossa cidade e do
mundo– por ação ou por omissão.
Um monge japonês, fundador de
uma das várias comunidades Zen
Budista nos Estados Unidos, Dainin
Katagiri, comentava com seus alunos
que as armas nucleares não foram
feitas por políticos nem por cientistas: “Foram criadas pela mente humana. Foram feitas por todos nós.
Criamos causas e condições para a
fabricação de armas nucleares.”
A responsabilidade é nossa. Muito além das dualidades sobre armamento ou desarmamento, plantar
ou devastar, criar ou destruir, precisamos penetrar a essência da vida,
da nossa própria sabedoria, da compreensão de que Intersomos.
Interser
Uma folha de papel é feita de elementos não folha de papel. O monge vietnamita, Thich Nath Hahn,
cria uma nova palavra importante:
Interser.
Não somos, mas intersomos. Es-
Missionária da tradição Soto Zen do Budismo japonês para o Brasil, Primaz
Fundadora da Comunidade Zen Budista, com sede em São Paulo.
Saneas / dezembro 2004 – 47
Comunidade
tamos todos interligados, interconectados.
A folha de papel é feita de nuvem, de céu, de estrelas. A folha de
papel é feita de água, de terra, de
vento, de ar. A folha de papel é feita de árvore, de folhas, de insetos e
pássaros. A folha de papel é feita de
tudo que não é folha de papel.
Nós já sabemos disso, já entendemos. Entretanto, ainda são poucos que vivem a coerência dessa
compreensão. Cada projeto, cada
empresa, cada gesto, cada pensamento, cada palavra precisa partir
da compreensão do Interser.
No século VIII, na China, havia um pescador, muito simples,
que todas as manhãs saía com seu
pai no pequeno barco. Numa dessas madrugadas, o tempo fechou e
seu pai caiu nas águas tumultuadas.
Ele tentou segurá-lo com o arpão.
Mas as mãos do pai idoso se cansaram, as águas revoltas o engoliram,
e o jovem se viu só e vazio. Triste
e fraco. Quanto tempo ficara sentado? A tempestade passou. As águas
se acalmaram, e a lua cheia brilhou
no céu. A lua cheia brilhou no mar.
“A mente deve ser capaz de tudo
refletir, tal qual é, assim como um
lago de águas tranqüilas”, lembrouse o jovem pescador da frase de um
monge amigo.
Decidiu voltar à praia, deixar seu
barco e entrar para a vida monástica. Anos mais tarde, foi nomeado Abade Superior. Pessoas de toda
China Antiga vinham conhecê-lo e
consultá-lo.
“Qual a essência de seus ensinamentos?” perguntavam.
E ele respondia: “Tudo é uma jóia
arredondada. Não há dentro nem
fora. Não viemos de fora e nem iremos para fora. Somos a vida dessa
jóia, em constante transformação”.
Como poderia Gensha Shibi, nos
idos dos anos 700, saber que somos
todos um só corpo e uma só vida?
Como pode saber que nada se cria
e nada se destrói, mas que tudo se
transforma? Como puderam sábios
do passado, sem as aparelhagens e
48 – Saneas / dezembro 2004
conhecimentos recentes, acessar à
compreensão do que hoje cientistas
afirmam ser a verdade? “Todos são
seres iluminados. Mas, sem a prática não há a compreensão” (Xaquiamuni Buda, século VI a.C).
A habil idade de sus tentar
O que impede o ser humano de
viver a coerência da verdade do interser? Podemos simplificar com os
três venenos que nos adoecem e nos
podem matar, individual e coletivamente: a ganância, a raiva e a ignorância.
Ganância e raiva são crias da ignorância. Ignorância é o afastamento do verdadeiro. A lei verdadeira é
que intersomos, todos interligados,
interconectados. Quando levantamos uma rede, levantamos também
seus espaços vazios. Quando tocamos um fio de uma teia, toda a teia
se move.
Ignorar a realidade é pensar que
a compleição, a felicidade é possível sem os outros, sem harmonizar
com outras formas de vida.
Dependemos, inter dependemos. Nossa sobrevivência depende
da sobrevivência de inúmeras outras espécies e todas dependemos
das águas, das terras, dos ares.
Saúde e saneamento básico
Faço parte de um grupo inter religioso chamado United Religions
Initiative (URI), que tem o propósito de criar Culturas de Paz, Justiça e
Cura da Terra.
Curar a Terra de seus males atuais, resultado de causas e condições
naturais, se nos incluirmos desse
natural.
De certa forma, tudo que nós
humanos possamos fazer é natural,
pois somos a natureza. Com erros
e acertos, com ganâncias e doações,
com ódios, rancores, vinganças e
amores, ternuras, compaixão, com
ignorância e com sabedoria. Somos essa mistura de emoções e sentimentos, capacidades de conexões
nervosas incríveis que nos levam a
criar e destruir civilizações.
E agora nos vemos numa bifurcação. Ou cuidamos da saúde física e mental dos seres humanos – e
logo do meio ambiente –, ou estaremos implodindo esta civilização na
qual estamos inseridos.
Saneamento básico precisa ser
ensinado em massa. Mais do que alfabetizar é preciso precaver contra
doenças causadas pela sujeira, pela
falta de educação ambiental.
Deveria ser feita uma campanha
nacional. Cartazes, rádios, televisões, novelas, filmes, espetáculos
teatrais, artistas e autores, educadores e políticos, deveríamos todos
nos unir na criação de uma rede firme e segura sobre a vida humana,
inserida no contexto do meio ambiente e meio social.
Saneamento básico também é
educar para a diversidade, para a
não discriminação, a aceitação do
diferente, a inclusão do mais fraco
(que talvez seja o mais forte, talvez
com maior capacidade de adaptação e sobrevivência).
Nossas cabeças estão repletas de
conceitos e pré-conceitos.
Julgamos antes de conhecer. Impregnados por uma educação de
violência, onde a História é marcada por guerras e holocaustos. Onde
foram os acordos de paz? As intermediações, o papel da ONU?
É possível negociar o bem comum.
É possível dialogar e compreender.
É possível respeitar povos e países,
culturas indígenas, tradições espirituais diversas.
Poluição não é apenas de rios, de
açudes, de águas paradas. Nossas
águas internas também estão poluídas e todas as moléculas de água se
comunicam, se alegram e se entristecem, se purificam ou se maculam.
Discriminações e cultura de paz
Quando um movimento anti-judeu se instala, em qualquer parte
do mundo, nós também somos responsáveis. Será que não tivemos um
único pensamento de nos acharmos
melhores ou piores?
Quando mulheres são conde-
Comunidade
nadas à morte por apedrejamento
porque tiveram filhos fora do casamento, será que todos nós não somos responsáveis?
Não podemos impor nossos valores como únicos, mas podemos
ouvir para compreender, podemos
dialogar ao invés de discutir, podemos ter um consumo responsável e
podemos nos tornar seres que manifestam a capacidade de criar culturas de paz e harmonia.
Na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo existe um Conselho Parlamentar pela Cultura de
Paz. É uma idéia pioneira surgida
da compreensão de que é necessário
mudar uma cultura de violência para
uma cultura de não violência ativa.
Isso inclui toda a maneira de pensar
e de ser, de nos comunicarmos. Todo
o sistema educacional de valores éticos. O sistema de atendimento hospitalar que ignora o ser humano e só
vê a doença isolada, o sistema judiciário moroso que violenta quem espera, o patriarcalismo que nega toda
possibilidade ao feminino, a hierarquização que impede os relacionamentos circulares e compartilhados.
Precisamos perceber e interferir
por meio de ações ternas, reivindicações sem ódios nem rancores, mas
plenas de sabedoria e compaixão.
Certa vez o XIV Dalai Lama perguntou a um de seus monges que
fora preso e torturado: “o que foi
mais difícil para você?” E ele respondeu: “por um instante, por um breve
instante, quase deixei de sentir compaixão por quem me torturava”.
Se perdermos a capacidade de
compreender aqueles que ainda não
despertaram, se não formos capazes de acolher em nossos corações
aqueles que precisam ser despertos,
se agirmos, pensarmos e falarmos
de maneira violenta e rude, estaremos apenas perpetuando uma cultura de exclusão e violência.
Podemos criar um novo mundo a
partir deste que se parte. Um mundo de seres que compreenderam e
logo sustentam a teia do Interser.
Seres capazes de auxiliar e respei-
tar, compartilhando das águas purificadas pela ternura e pelo cuidado amoroso. A água será sempre a
maior de todas as riquezas.
Desde tempos antigos, grandes
disputas foram feitas por causa das
fontes e das águas puras. Vivemos
num planeta cuja atmosfera é úmida. Nossos corpos são mais de sessenta por cento feitos de água. Pesquisas recentes comprovam que
nossas moléculas de água ficam belíssimas, parecendo cristais quando próximas de fontes cristalinas,
e também quando são feitas preces
e meditações, palavras amorosas e
ternas. O oposto também é verdadeiro. Nas poluições tanto ambientais como auditivas e de agressividades humanas, as mesmas moléculas se tornam lamacentas.
Há, em cada um de nós, uma fonte incessante e cristalina jorrando
constantemente sabedoria suprema. Entretanto a fonte pura se auto
protege e esconde. Só pode ser encontrada quando estivermos purificados das ganâncias e das raivas, da
ignorância da dualidade. Sabendo
de sua existência iniciamos a procura. Nessa caminhada, para chegar
até ela somos banhados e purificados pelas próprias águas pelas quais
passamos e nos transformam. O caminhar é o caminho. Transformar é
a transformação. Só quando purificados, integrados ao todo, acessamos à fonte original. Dela podemos
beber a contento, compartilhar e saciar a sede da humanidade.
“Estudar o Caminho de Buda
é estudar a Si mesmo. Estudar a Si
mesmo é esquecer-se de si mesmo.
Esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo que existe. Nenhum
traço de iluminação permanece e
essa iluminação é colocada à disposição de todos os seres.”(Mestre Zen
Eihei Dogen – 1200-1253).
Sustentabilidade vem de sustentar, dar apoio, manter, auxiliar. Somos seres gregários, uma espécie
que vive em bandos, grupos, cidades, estados países, continentes,
planeta.
Fazemos parte, somos a vida do
planeta e podemos auxiliar, sustentar a vida nos colocando á disposição de servir a todos os seres.
Alguém escreveu que o maior altruísta é o maior egoísta, pois percebeu que ao fazer o bem aos outros
está se beneficiando.
Cada pessoa deve, precisa sustentar, manter, divulgar, ensinar, transmitir os valores éticos de respeito à
vida e a diversidade, o cuidado e a
compaixão, a continuidade da vida
e da melhor qualidade da vida.
Desta ética global emerge o renascimento da humanidade num planeta sem poluição sonora, auditiva, visual, mental e ambiental. Nossas moléculas de água em sintonia cristalina
com as nascentes limpas e puras.
É possível sim. Basta querer forte. A querência que permite transformar nossos processos, nossos
modelos mentais de gananciosos e
ego centrados, ao retorno à Verdade da inter conectividade da Vida
na Terra.
Zelando o Planeta. Varrendo a
Avenida. Caminhando Paz. Compartilhando e cuidando. Reconstruindo incessantemente com sabedoria e tato a semente sagrada.
A sustentabilidade do planeta depende da mente humana. Depende de nossas pequenas ações diárias, nossas palavras comuns, nossos
pensamentos perenes. “Que os méritos de nossa prática se espalhem a
todos os seres e que possamos todos
nos tornar o Caminho Iluminado”.
Mãos em prece. ■
Símbolo da cultura de paz
Saneas / dezembro 2004 – 49
Comunidade
Cada um por si e
todos pelo Macacos!
Governos, empresas e comunidades unidos pelo
bem-estar rural - Projeto Revitalização
do Ribeirão dos Macacos
Almos Makray A
o circular pela área de 40 km2
da Microbacia do Ribeirão dos
Macacos, em Guaratinguetá e Lorena, sudeste de SP, a cerca de 200 km
da capital, o visitante vai encontrar
os sinais comuns às terras do Vale do
Paraíba: muito pasto e pouca flora e
fauna (por falta de habitat natural),
solo exaurido, com sinais de erosão.
Nesse quadro bastante desolador,
sobrevivem famílias sem muitos
recursos e sem futuro promissor,
Horta orgânica da Antiga Fazenda da
Conceição em Lorena - SP
José Roberto, João Marcelino
(superintendente do Instituto Oikos),
Ana Maria e Tamas Makray (proprietário
da Antiga Fazenda da Conceição)
Mata ciliar recuperada na margem esquerda do ribeirão dos Macacos
dedicadas a uma agropecuária convencional e decadente.
“Queremos revitalizar a área da
Microbacia com projetos de geração
de renda sustentável e recuperar a biodiversidade”, diz o engenheiro Tamas
Makray, 73, fundador do Instituto Oikos de Agroecologia, uma associação
civil sem fins lucrativos, sediada em
Lorena. Proprietário de uma fazenda
banhada pelas águas, hoje poluídas,
do Ribeirão dos Macacos, Tamas lembra que há 35 anos, seu pai pescava e
seus filhos nadavam no local: “desde
que aqui cheguei, procurei reflorestar
as terras para atrair de volta os pássaros e animais e, há dois anos, começamos a implantar um sistema agroecológico de produção, com a formação
de agroflorestas, a prática de horticultura natural, certificada pela Associação de Produtores de Agricultura Natural (APAN). Temos também uma
pequena produção de mel e estamos
avançados na produção de leite orgânico, também certificado.”
Tudo isto para demonstrar que
uma atividade rural diversificada e
com menor consumo e gasto com
fertilizantes, pesticidas e medicamentos na pecuária, além de gerar
maior renda e alimentos saudáveis e
nutritivos para todos, contribui para
fixar o homem no campo, ao invés
de torná-lo desempregado na cidade. Uma vez feita a sua parte, Tamas
contatou o Movimento Nascentes do
Paraíba do Sul, liderado pelo prof.
Lázaro Tadeu Ferreira da Silva, também em Lorena, que compartilha o
mesmo ideal e tem capacidade mobilizadora junto à sociedade civil.
Juntos, Tamas e Lázaro organizaram duas expedições ambientais
para localizar e avaliar as condições
das nascentes do Ribeirão. Delas
participaram representantes de instituições relacionadas à proteção e
fiscalização ambientais, educadores,
alunos de colégios locais, além de representantes de Centros de Estudos,
Universidades e empresas. Seguiuse uma reunião de planejamento na
sede de uma empresa, com participação ativa de instituições governamentais (CBH-Paraíba do Sul, IBAMA-Lorena, Sabesp-Lorena, Secretaria de Agricultura, INPE, DAEETaubaté, UNESP e UNISAL entre
outros) e não-governamentais, e um
encontro com proprietários rurais
da Microbacia, com apoio do Sindicato Rural de Lorena e Piquete.
Atualmente, a equipe de coordenação já trabalha nas etapas seguintes do Plano de Ação: mapear a realidade econômica e socioambiental da
comunidade rural; identificar as atividades geradoras de renda e iniciativas em saúde, educação e saneamento compatíveis e desejadas na Microbacia; estabelecer metas e indicadores de desempenho na implantação
das iniciativas e atividades; definir
custos e meios dos programas de capacitação necessários; e identificar
fontes, parcerias e contrapartidas de
financiamento.
Tamas e todos os participantes sabem que ainda há muito chão
pela frente e convidam os leitores a
apoiarem, com seus talentos e capacidades, esta iniciativa participativa
e replicável. ■
Almos Makray é Administrador de Empresas e Sócio Proprietário da antiga Fazenda Conceição - [email protected]
50 – Saneas / dezembro 2004
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