ORGANIZAÇÃO Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva, Denise de Oliveira AUTORES Ana Patrícia da Silva Beatriz Boclin Cláudia Sena Denise de Oliveira Ilma Doher João José Bignetti Bechara José Aires Trigo Kátia Busson de Jesús Marco Aurélio Kistemann Jr. Mauro Fernando El Chaer Paula Cid Lopes Paula Soffiati Rafael Camilo R. da Costa Taís Silva Vanda Mendes L. Zidan UNIABEU 2005 Escolas Democráticas e de Resistência E 74 Escolas democráticas e de resistência / Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva, Denise de Oliveira, organizadoras – Rio de Janeiro: Ed. Associação Brasileira de Ensino Universitário UNIABEU, 1 ed. 2005. 159 p. 1 CD-ROM: color; 12 cm. ISBN 85-98716-02-2 1. Educação Especial. 2. História da Educação. 3. Escolas democráticas. 4. Educação inclusiva. I Farias, Iara Rosa. II. Silva, Ana Patrícia da. III. Oliveira, Denise de. IV. Título. CDD 371.9 Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 2 Escolas Democráticas e de Resistência ________________________________CRÉDITOS ORGANIZAÇÃO Iara Rosa Farias Ana Patrícia da Silva Denise de Oliveira COORDENAÇÃO Prof. Doutor Reuber Gerbassi Scofano COMISSÃO EDITORIAL Prof. Doutor Luigi Bordin Profª. Doutora Maria Helena Wyllie Lacerda Rodrigues Profª. Doutora Sperança França da Mata ACESSORIA CIENTÍFICA Profª. Doutora Lena Vânia Ribeiro Pinheiro ACESSORIA BIBLIOGRÁFICA Viviane de Melo Silva REVISÃO ORTOGRÁFICA E GRAMATICAL Prof. José Venícius Marinho Frias Profª. Flávia de Oliveira Souto AUTORES Ana Patrícia da Silva Beatriz Boclin Cláudia Sena Denise de Oliveira Ilma Doher João José Bignetti Bechara José Aires Trigo Kátia Busson de Jesús Marco Aurélio Kistemann Jr. Mauro Fernando El Chaer Paula Cid Lopes Paula Soffiati Rafael Camilo R. da Costa Taís Silva Vanda Mendes L. Zidan Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 3 Escolas Democráticas e de Resistência _______________AGRADECIMENTOS A todas as pessoas comprometidas, de alguma forma, com a busca de alternativas educacionais, que nos fazem continuar acreditando que é possível alcançar uma formação crítica e reflexiva. Em especial: À UNIABEU – Centro Universitário ao Reitor Valdir Vilela e Vice-Reitor Acadêmico José Venícius Marinho Frias por apoiar o projeto Escolas Democráticas e de Resistência. Aos professores que ofereceram suas horas para as leituras e correções dos trabalhos, e todos participantes e colaboradores do “Escolas Democráticas e de Resistência” todo o nosso carinho e o apreço. Autores e organizadoras. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 4 Escolas Democráticas e de Resistência ________________________SUMÁRIO Prefácio 1. Tolstoi – Kátia Busson de Jesus 06 08 2. Uma Proposta de Pedagogia Socialista: O Modelo Makarenko - Marco Aurélio Kistemann Jr 19 3. Janusz Korczak: Que bom conhecê-lo - Ana Patrícia da Silva, Mauro Fernando El Chaer, Vanda Mendes L. Zidan 51 4. Summerhill - Beatriz Boclin, Paula Cid Lopes 76 5. Sudbury Valley School: Uma experiência que deu certo - Paula Soffiati 99 6. Desmitificação da escola: Desescolarização da sociedade - José Aires Trigo, Rafael Camillo R. da Costa 113 7. Escola da Ponte: Dos objetivos mínimos às expectativas máximas - João José Bignetti Bechara 128 8. Por uma Educação mais Humana: Contribuições da Pedagogia Waldorf - Cláudia Sena, Denise de Oliveira, Ilma Doher, Taís Silva 136 Posfácio Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 158 5 Escolas Democráticas e de Resistência ________________________PREFÁCIO Este trabalho é a conclusão da disciplina oferecida no mestrado em Educação da UFRJ. Este curso teve como enfoque principal algumas das mais importantes experiências da Educação democrática e de resistência. A idéia me ocorreu a partir da leitura do livro da professora Helena Singer intitulado República das crianças. Neste livro a Educadora faz um mapeamento das grandes experiências em educação de resistência dede Tolstoi e sua experiência em Yasnaia-Poliana, passando pelo lar das crianças de Janusz Korczak e por Summerhill até chegar à experiência de Sudbury Valley School a autora apresenta um panorama do que significaram e ainda significam essas escolas democráticas. A partir da idéia estimulada por esta obra, propus ao Mestrado uma disciplina que tratasse não só dessas experiências mas que de alguma forma ampliasse a proposta do livro de Helena Singer estudando algumas outras tentativas de escola alternativa. Entre elas propusemos a Colônia Gorki de Makarenko, a proposta de sociedade sem escolas de Ivan Iliich, a Escola da Ponte em Portugal e as experiências brasileiras da Escola Lumiar e Escola Waldorf. O teor dos artigos demonstra a competência e o entusiasmo com que os mestrandos se debruçaram sobre tema tão palpitante. As apresentações em seminários foram as mais criativas possíveis. Algumas lançaram mão de recursos multimídia enquanto outras apoiaram-se em recursos mais simples. Vale ressaltar que uma das apresentações esquecíveis foi aquela que teve como o tema a sociedade sem escolas de Ivan Illich, apresentação esta feita a beira da Praia Vermelha e sem a menor sombra de institucionalidade. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 6 Escolas Democráticas e de Resistência Recomendo que não só leiam este trabalho como também o divulguem, pois trata-se de um material bastante útil para a discussão de novos rumos para a escola. Prof. Doutor Reuber Gerbassi Scofano - FE/UFRJ. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 7 Escolas Democráticas e de Resistência 1 - Tolstoi Kátia Busson de Jesus1 Vida e obra de Leon Tolstoi Leon Nikolayevich Tolstoi foi um dos maiores escritores de sua época, conhecido mundialmente. Em seus romances, retrata com maestria assuntos como morte e traição, capturando a vastidão da paisagem da Rússia e a complexidade de seu povo, resgatando a brilhante Corte Imperial, os bailes nos palácios, os belos oficias, os duelos, os cossacos e seus servos. O que muitos não sabem é que esse famoso escritor foi também um educador nato. Através da sua experiência com a Escola Iasnaia Poliana podemos observar sua preocupação com a instrução das crianças e sua formação como seres humanos, tendo como princípio a liberdade e a construção da autonomia. Nascido em 1828, na propriedade de sua família em Iasnaia Poliana, situada próxima a Moscovo, morreu aos 82 anos, deixando uma vasta obra entre romances, novelas e peças. Rico herdeiro de uma família de aristocratas, tornou-se órfão de mãe aos 2 anos e de pai aos 9, sendo criado com todo conforto. Pós Graduada em Docência do Ensino Superior pela Universidade Cândido Mendes, Graduada em Fonoaudiologia pela Escola Superior de Ensino Helena Antipoff (Pestalozzi) e Graduanda em Pedagogia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1 Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 8 Escolas Democráticas e de Resistência Dentre seus trabalhos mais famosos estão Ana Karenina e Guerra e paz. Sua vida pessoal, como podemos perceber em seus diários, foi sempre atormentada por dúvidas, incertezas e conflitos. Foi criado por uma tia até sua entrada na Universidade de Kazan, onde iniciou seus estudos em Línguas Orientais e Direito, sem finalizar nenhum, por não suportar o tédio dos métodos lentos e rotineiros de instrução. Porém, mesmo fora da Universidade, aprendeu a falar fluentemente o francês, dominava o grego clássico, o alemão, o italiano e o inglês. Depois de levar uma vida de bebedeiras, dedicada ao jogo e às mulheres, começou a transparecer através das primeiras anotações conhecidas de seus diários, que ocupam quatorze dos 90 volumes de sua obra, sua má consciência e seu arrependimento. Ao falar de seu diário, Tolstoi dizia: “Eles são eu!” (apud Schnaiderman, 1983, p. 8). Para fugir dessa vida desregrada, alistou-se como soldado no Cáucaso e na Guerra da Criméia, na linha de frente de batalha (1853-1856). Suas experiências nos campos de batalha serviram, dez anos mais tarde, de base para seu romance Guerra e paz e muitos outros. Durante sua permanência nas forças armadas entregou-se continuamente à escrita e a leitura. Foi nessa época Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 9 Escolas Democráticas e de Resistência que escreveu a novela “Infância”, publicada na revista Sovriemiênik, altamente modificada pela censura, o que o revoltou profundamente. Enviou também “Adolescência” e “Juventude” à mesma revista. Já aqui pode-se perceber seu interesse pela formação da criança, seu desenvolvimento cognitivo e moral. Após pedir baixa do Exército, teve contatos seguidos com os meios literários e foi saudado como a grande promessa da literatura russa, embora nem todos os seus contos e novelas tivessem total aceitação. Aos trinta e quatro anos, considerando-se velho e feio, pediu em casamento à jovem de dezoito anos Sofia Andréievna Behrs, de personalidade forte e destituída de ambições, que o ajudou por quarenta e oito anos. Ela era quem copiava os manuscritos quase ilegíveis do marido, tendo que reescrevê-los a cada modificação, que não eram poucas – conservam-se num arquivo soviético trinta e três manuscritos do conto “O Que faz viver os homens”. Juntos tiveram 13 filhos. Ao engajar-se na idéia de ajudar os camponeses na formação de seus filhos, fundou uma escola na qual desenvolveu as teorias mais evoluídas sobre educação da época. Porém, ofendeu profundamente os diretores da instrução pública com suas Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 10 Escolas Democráticas e de Resistência publicações polêmicas, que lhe fizeram fechar as portas da escola, o que fez sem resistir. Muitos de seus escritos eram proibidos pela censura, circulando somente em cópias clandestinas e traduzidos no exterior. Ele era considerado a grande voz pacifista da época, passando a ser encarado mundialmente como a voz da consciência moral do povo russo, por recusar toda forma de governo e poder. Perseguido e excomungado pela Igreja, seus últimos anos são de engajamento social. Seus escritos filosóficos influenciaram o aparecimento de comunidades e inspiraram fortemente um dos mais importantes pacifistas modernos: Gandhi com quem chegou a manter correspondência. Tolstoi acreditava que a educação deveria ser para todos e decidiu dedicar-se entre 1857 e 1860 a uma escola para filhos de camponeses pobres da região. Fundou-a em sua propriedade, Iasnaia Poliana, preocupado com a precariedade da educação no meio rural. Por criticar o formalismo e os chavões na educação e no ensino tradicional, sua escola, aparentemente desorganizada, ministrava um ensino de alta qualidade, cujos métodos anteciparam a educação progressiva moderna próxima das experiências da Escola Moderna. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 11 Escolas Democráticas e de Resistência A grande inspiração de Tolstoi para a construção de sua filosofia pedagógica foi à obra de Rousseau, que articula a autonomia com a soberania popular no plano político (Singer, 1997, p. 68). Como Rousseau, Tolstoi valorizava o aprendizado por meio da experiência, tendo a sala de aula como um laboratório e preconizava a liberdade como única forma de se atingir a perfeição de um sistema educativo. Baseando-se na idéia rousseaniana, Tolstoi concluiu que a concepção errada da natureza humana forjou uma educação desnecessariamente baseada na violência, por não conhecer realmente a criança. Segundo Tolstoi (1988, p. 235), existem duas normas a serem seguidas pelo educador para que a educação aconteça: não só viver bem, mas aperfeiçoar-se constantemente e não esconder nada das crianças. Para se conseguir prender a atenção de seus alunos sem lançar mão de castigos ou recompensas, o professor deve ser dotado da chamada criatividade pedagógica, percebendo a cada momento as situações e possibilidades de aprendizado de cada aluno. A educação, para ele, é centrada no aluno e deve ser baseada no desenvolvimento de hábitos conforme a natureza da própria criança. Para Tolstoi, é impossível transmitir ao aluno conhecimentos impostos contra a sua vontade. O aluno deve manifestar o desejo de conhecer, que surge na base da sua livre Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 12 Escolas Democráticas e de Resistência vontade, para então, adquirir esses conhecimentos. Por isso, a liberdade da escola e da educação é um princípio para o autor. Estas idéias eram completamente contrárias ao método utilizado na época, onde o professor era o detentor do conhecimento e os alunos eram obrigados a recebê-lo. Sua visão de aprendizagem baseia-se na idéia de que a criança é por natureza perfeita, que é um ser ainda não estragado pela pseudo-educação. Para Tolstoi (1988, p. 235), a dificuldade da educação está no fato de os pais não corrigirem nem assumirem seus próprios defeitos por não querer ver nas crianças esses defeitos. As crianças são moralmente mais perspicazes que os adultos e percebem essa hipocrisia, deixando de respeitá-los. Tolstoi colocou com força a questão do respeito pela criança, da relação amigável com ela, da estimulação multilateral da sua atividade e criatividade, reconhecendo sua personalidade. A educação livre, para Tolstoi, contribuía para o desenvolvimento dos instintos naturais da criança, ajudando-lhe a criar, com suas forças, convicções morais (Comentários do tradutor, Tolstoi, 1988, p. 250). Para ele, o ensino ideal é aquele que as pessoas vão buscar, motivadas espontaneamente, não sendo exercida nenhum tipo de coerção para tal. Como Rousseau, Tolstoi acreditava que a vida Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 13 Escolas Democráticas e de Resistência ensinava, não era preciso castigar. Para ele os castigos e as recompensas eram incumbências da família. Quanto à escola, era dever deixar os alunos em liberdade para aprender e criar suas próprias regras. Imaginou a escola sem notas, sem diferenciação de classe, lições de casa ou castigos, e assim o fez, tendo pessoalmente escrito os livros usados nas salas de aula. Os alunos não eram castigados nem por sua conduta nem por seu desempenho. O que diferenciava Iasnaia Poliana das outras escolas era o fato de aproveitar as experiências vividas pelos alunos fora da escola para construir o seu conhecimento, suas habilidades e suas atitudes. Tinha em torno de quarenta alunos em Iasnaia Poliana, era aberta para ambos os sexos, mas o números de meninas era muito pequeno. A idade variava entre sete e treze anos, havendo às vezes alunos adultos, que tentavam ampliar seus conhecimentos, mas que dificilmente se readaptavam ao ambiente escolar, por terem tido diferentes experiências educacionais. As regras escolares foram sendo elaboradas aos poucos, livremente, de acordo com as necessidades dos alunos, que organizavam o tempo, as matérias e até a disciplina dos mais novos. As notas chegaram a fazer parte do cotidiano escolar, Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 14 Escolas Democráticas e de Resistência porém foram caindo em desuso e a avaliação se dava através de conversas entre os alunos e os professores. Os alunos se sentavam onde queriam e assistiam às aulas que lhe interessavam. As aulas aconteciam pela manhã, e seu número dependia do interesse dos alunos, podendo variar entre duas a sete. As tardes eram reservadas para as conversas sobre o que foi aprendido durante o dia e à noite, os alunos se dedicavam ao canto, à leitura, às experiências de física – que somente os alunos maiores podiam participar - e aos deveres escritos. Essas aulas eram ministradas de forma livre, como conversas entre professor e alunos. Além das aulas dentro da escola, fazia parte do cotidiano escolar passeios pelos bosques das redondezas, que resultavam em conversas mais pessoais entre o educador e seus alunos. Aos maiores era ensinado matemática, física, história, leitura mecânica, desenho geométrico, gramática, ciências naturais e instrução religiosa. As classes iniciantes liam, resolviam problemas relativos às três primeiras regras de aritmética e aprendiam a história sagrada. A liberdade era tal, que acontecia de uma ou duas vezes na semana os alunos, espontaneamente, decidirem ir embora no meio do dia – fato nunca recriminado - ou prolongar-se uma aula por sete horas seguidas, dependendo do interesse dos alunos. O que se Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 15 Escolas Democráticas e de Resistência observava era uma articulação entre a liberdade e a responsabilidade. Tolstoi dava enorme atenção aos escritos das crianças e fundou uma Revista própria da escola, chamada Iasnaia Poliana, onde publicava artigos de Pedagogia escritos por ele, por outros professores que tivessem como ocupação exclusiva o ensinar, e o Livrinho de Iasnaia, onde publicava artigos escritos pelas crianças. O objetivo dessa revista era descobrir novos métodos de aprendizagem, apresentando novas formas de organização do processo educativo e experiências extracurriculares. Sua função era publicar os trabalhos de modo que se tornassem objeto de investigação de experiências da atividade educacional livre e de identificação dos elementos essenciais do processo de aprendizagem. Na revista, o escritor publicou vários artigos fundamentais para a Pedagogia, tais como Sobre a Instrução Popular, Quem ensina a escrever a quem?, Progresso e Definição de instrução, e muitos outros. Além dessa Revista, Tolstoi elaborou também um manual de leitura para criança menores, chamado de Abecedário, que consistia de um conjunto de materiais didáticos, contendo uma cartilha, Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 16 Escolas Democráticas e de Resistência textos para ensino primário, textos eslavos, materiais para ensinar a contar e recomendações para o professor. Seu conteúdo foi elaborado ao longo de muito tempo, assim como sua estrutura lógica. Seu lançamento provocou opiniões diversas e debates acalorados entre os especialistas, pois muitos consideravam que o estudo dos problemas da educação de crianças pequenas não era um trabalho digno do talento de um escritor mundialmente famoso. Seu caráter inovador não foi compreendido nem valorizado imediatamente. Na aprendizagem da escrita, utilizava o método fonético, onde se apresenta ao aluno um som correspondente à letra. Tal método se diferenciava do método ortográfico, comumente utilizado, que apresenta a letra como símbolo do som. Mesmo assim, três anos mais tarde, Tolstoi publicou o Novo Abecedário, com uma nova série de materiais didático, mais universal que o primeiro, o que permitiu que o Ministério da Educação o utilizasse nas escolas. Conclusão Sem dúvida, Tolstoi foi um dos grandes educadores de seu tempo. Suas idéias revolucionárias podem, ainda hoje, servir de exemplo Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 17 Escolas Democráticas e de Resistência para educadores e pais em relação à formação da autonomia e responsabilidade de seus alunos e filhos. Ao apoiar uma educação baseada na liberdade, pode-se estar contribuindo para a formação de um indivíduo responsável por suas experiências e moral, permitindo-lhe um desenvolvimento global. Como Tolstoi, deve-se pensar a escola no sentido mais amplo, levando em conta as experiências exteriores a essa instituição que os alunos trazem, já que as crianças aprendem através do que vivenciam. “Em uma escola que se desenvolve normalmente e sem violência, quanto mais instruídos são os discípulos, mais capazes da ordem tornam-se eles e, mais sentem neles mesmos a necessidade dela, e mais se estabelece a autoridade do professor” (Singer, 1997, apud Tolstoi, 1978, p. 73). Bibliografia EGOROV, Semion Filippovich. León Nikolaievich Tolstoi. Perspectivas: revista trimestral de educación comparada, Paris: Unesco, vol 18, n 3, p. 663-675,1988. SINGER, Helena. República de Crianças Experiências Escolares de Resistência - São HUCITEC: FAPESP, 1997. Sobre Paulo: SCHNAIDERMAN, Boris. Leão Tolstoi: Antiarte e Rebeldia. Coleção Encanto Radical. São Paulo: Brasiliense, 1983. TOLSTÓI, Leon N. Obras Pedagógicas. Moscou: Edições Progresso. 1988. TOLSTOI, Leon N. La Escuela de Yásnaia-Polïana, Barcelona: Biblioteca Jucar de Ciências Humanas, 1978. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 18 Escolas Democráticas e de Resistência 2 - Uma Proposta de Pedagogia Socialista: O Modelo Makarenko Marco Aurélio Kistemann Jr2 Introdução O fim do século XIX e início do século XX, na Rússia, era marcado pela presença no poder do Império Tsarista, que conduzia a política da ausência de direitos. A população não tinha voz e a miséria se espalhava rapidamente. O quadro era desanimador, visto que a maioria da população russa se encontrava em péssimas condições sociais, tendo no analfabetismo seu máximo expoente negativo. Documentos do censo realizado em 1897, colocavam a Rússia entre os países mais atrasados do mundo no setor educacional; apenas 13% dos homens e 29% das mulheres detentores de conhecimento da leitura e da escrita, além do maior agravante representado por 80% das crianças que não freqüentavam a escola. As escolas russas, até a Revolução de 1917, eram instituições isoladas, dirigidas por critérios feudais. A maioria das escolas era de propriedade de alguns setores da burguesia, nas áreas urbanas, assim como dos latifundiários, no campo; somente uma pequena 2 Mestrando da Faculdade de Educação da UFRJ. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 19 Escolas Democráticas e de Resistência parte era do Estado. A Igreja, além de controlar maciçamente a instrução popular, era também proprietária de um significativo número de estabelecimentos educacionais. O programa, uniformizado e dogmático, apesar da heterogeneidade do povo russo, continha noções de escrita, de leitura, aritmética básica, canto religioso e gramática russa, tudo isso sem grandes variações de uma região para outra. O ensino perfazia, excepcionalmente, seis anos. Até o fim do Império Tsarista, as escolas paroquiais foram o principal meio de ensino e doutrinamento do povo russo, constituindo-se como instituições educacionais deficientes que limitavam totalmente qualquer mobilidade social. Muitos grupos progressistas da pré-revolução russa, lutaram durante muitas décadas pela criação de escolas leigas e públicas. Constantin Uchinski foi o primeiro pedagogo russo que levantou a questão do ensino público que pretendesse libertar o povo russo das amarras estatais. Sua proposta para uma reforma democrática no ensino visava não somente à criação de um grande sistema público de instrução, como também procurava normalizar a formação de quadros pedagógicos capazes de continuar as suas teorias de uma antropologia pedagógica. Para Uchinski, era necessário optar por uma educação baseada na cultura popular e Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 20 Escolas Democráticas e de Resistência nas tradições regionais russas, ministradas na língua materna de cada povo. A iminência de mudanças já se fazia presente em toda a região russa, diante de um quadro desumano e deplorável. Com a revolução socialista de outubro de 1917 várias transformações sociais ocorreram: (1) mudanças radicais na organização da instrução pública, com o fim das escolas privadas e surgimento de um sistema escolar de caráter democrático; (2) desenvolvimento das culturas soviéticas nas escolas e (3) transformações econômicas que propiciariam sensível melhora das relações sociais. Entretanto, a mais ousada das inovações foi a criação do Comissariado do Povo para a Instrução Pública (1917 1929). A meta principal do Comissariado era alfabetizar na sua totalidade o povo russo, em termos de alfabetização geral (Decreto de Lênin) e também propiciar conhecimentos de política, pois a sustentabilidade do governo dependia da conscientização popular. A intenção era colocar todos na escola, pois se acreditava que um povo livre só poderia ,de fato, usufruir a democracia socialista se estivesse cultural e politicamente alfabetizado. Para todos que estudavam, a jornada de trabalho seria reduzida em duas horas diárias, com a manutenção do salário integral. As Casas do Povo, as igrejas, os clubes, as casas particulares e outros locais como Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 21 Escolas Democráticas e de Resistência fábricas, empresas e repartições soviéticas eram aproveitadas para instruir a população. Foi nesse clima de euforia do ensino público, democrático e popular por excelência que surgiu o jovem pedagogo Anton Semiónovitch Makarenko. Apenas três anos após a revolução de outubro, ele se dispôs a fixar os parâmetros que revelariam uma nova relação, entre a teoria e a prática, na dialética do processo pedagógico. Além de ser um dos primeiros a ter preocupações didáticas no campo da interação entre a família e a escola. Assim, sob seu ponto de vista, a escola passou a ser uma coletividade total e única, na qual tinham de estar organizados todos os processos educativos, e cada membro dessa coletividade deveria sentir forçosamente sua dependência em relação a ela. Para Makarenko, o coletivo passa a ser um organismo social vivo e, por isso mesmo, envolvendo organicidade, atribuições, responsabilidades, correlações e interdependência entre as partes. Se há falta desses atributos, não há coletivo, mas uma simples multidão, ajuntamento ou concentração de indivíduos. Essa visão inédita do universo social, diretamente ligada à reestruturação cultural proposta pela revolução socialista, levou muitos dos marxistas russos, e entre eles o próprio Lênin, a considerar inicialmente que a escola era também uma superestrutura que refletia a sociedade burguesa e, por isso mesmo, destinada a desaparecer, pelo menos como era conhecida. Com a Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 22 Escolas Democráticas e de Resistência transformação da sociedade burguesa em sociedade socialista, os mais radicais levantaram a hipótese da "morte da escola", do mesmo modo que, na visão de Engels, existiria o desaparecimento gradual do Estado depois da expropriação dos bens da burguesia. Sob esse ponto de vista, a função escolar representava uma função natural da comunidade de trabalho, de modo que a escola e a fábrica acabariam por encerrar a sua própria existência. Com o triunfo da Revolução de Outubro, o dever dos pedagogos era criar uma nova metodologia da docência, dedicada a instruir o “homem soviético novo”. Os soviéticos não somente tinham libertado a classe operária, mas também um grande contingente de sábios e intelectuais que até então trabalhavam em condições desumanas. Particularmente, nas áreas da lingüística e da pedagogia, o campo de atuação que se apresentava com a mudança era amplo: os educadores teriam que alfabetizar dezenas de milhões de pessoas e instruí-las de acordo com as exigências políticas do socialismo. “Raio-X” de Makarenko Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 23 Escolas Democráticas e de Resistência Anton Semiónovitch Makarenko, segundo filho de uma família operária, nasceu em 13 de março de 1888 numa pequena cidade russa, Bielopolie, próximo de Kharkov, numa época em que a Igreja exercia pleno domínio sobre o povo russo. Carregou ao longo de sua vida uma saúde debilitada e vulnerável. Devido a seu porte miúdo e frágil sempre evitava o contato físico dos jogos. Era um garoto curioso, perguntando sempre sobre as causas dos fenômenos que observava, tornando-se um enciclopedista nato aos 5 anos, quando já sabia ler. Ao longo de sua carreira escolar, sempre se destacou como o melhor aluno de suas turmas. Makarenko era freqüente nos concertos públicos, tendo se tornado um exímio violinista. Na escola, estudou Russo, Aritmética, Geografia, História, Ciências naturais e Física, além de ter noções de Desenho Linear e Artístico, Canto, Ginástica e Catecismo. Tinha hábito apurado de leitura, tendo como autores prediletos: Gógol, Tchekhov e Máximo Górki, com o qual ficará amigo e manterá até seus últimos dias uma relação de muita importância para execução de suas ambições pedagógicas. Uma das colônias dirigidas por Makarenko levava o nome de Górki. A proposta fundamental que Makarenko amadureceria através de seus estudos era a de que na nova Rússia seria necessário construir Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 24 Escolas Democráticas e de Resistência e consolidar propostas socialistas através de uma ciência dialética chamada Pedagogia, constituída como parte integrante de um coletivo de produção social. Em 1900 seu pai, pintor por profissão e operário da indústria ferroviária, foi transferido para a cidade de Kriúkov, onde Makarenko veio concluir com êxito seus estudos. Em 1905 estreou como professor de Russo na Escola primária Ferroviária de Kriúkov, fazendo desde o início amizade com seus alunos. Tinha nessa época apenas dezessete anos, mas carisma e facilidade de comunicação. É também nessa época que começou a se intensificar sua atividade política. Em 1907, após um desagradável incidente com um de seus alunos, Makarenko resolveu repensar seu método de instrução, até então baseado em transmissão de informações. No entanto, suas propostas de modificação da estrutura pedagógica foram barradas pela direção da instituição. Suas denúncias sobre as desigualdades sociais e os constantes atritos com a direção da instituição de Kriúkov, provocaram, em 1911, sua transferência para a Estação Ferroviária Dolinskaia, onde foi nomeado inspetor de instrução pública (antigo cargo ocupado pelo pai de Lênin), onde trabalhou com mais liberdade, introduzindo cultura àquela comunidade ferroviária (teatro, banda Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 25 Escolas Democráticas e de Resistência de música, bailes típicos e festas escolares). Em Dolinskaia, começou a perceber o valor e a importância da interação família escola. O seu relacionamento com os educandos era marcado pela busca do equilíbrio "entre o cognitivo e o emocional". Também nessa época começou a cultivar sua inclinação literária. Em 1914 foi inaugurado, em Poltava, um instituto pedagógico para formação de professores do secundário, no qual Makarenko ingressou imediatamente para prosseguir sua formação como educador. Assim, demitiu-se do cargo que ocupava em Dolinskaia, encerrando uma carreira de nove anos dedicados à docência infantil. Com uma breve interrupção por causa do serviço militar, para o qual acaba sendo dispensado devido ao seu alto grau de miopia, graduou-se em 1917. Com a crise do Governo provisório (outono de 1917), eclodiu a revolução socialista com a liderança de Lênin. Os jornais divulgavam as propostas de paz e de Reforma Agrária e Reforma Educacional. Até 1920 Makarenko atuou novamente em Kriúkov, de onde acompanhou as mudanças, e posteriormente, assumiu o cargo de diretor do departamento de Instrução Primária de Poltava, onde, apesar das mais diversas dificuldades, conseguiu superá-las com imaginação e criatividade. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 26 Escolas Democráticas e de Resistência Com o triunfo da Revolução de Outubro, aos pedagogos foi atribuída a responsabilidade de criar uma nova metodologia da docência que possibilitasse a instrução do novo homem russo. Os educadores teriam que alfabetizar milhões de pessoas e instruí-las de acordo com as exigências políticas do Socialismo. Segundo Makarenko (Poema Pedagógico, 1987) , "a Revolução abriu subitamente (para mim), um enorme campo de trabalho; comecei a ampliar minha proposta sobre uma educação nova, partindo do coletivo para poder formar uma personalidade humana livre, sem a escravidão econômica". Em 1920, Máximo Górki, ainda sem conhecer Makarenko, enviou a Lênin uma carta sugerindo a possibilidade de se criar um sistema educacional que ajudasse "os pivetes". Em setembro do mesmo ano, Makarenko foi convidado a dirigir uma colônia experimental que teria os moldes não de um reformatório, mas de uma escola de trabalho e educação social; a idéia era lutar contra a delinquência infantil. Uma oportunidade que Makarenko tanto havia esperado para pôr em prática as suas teorias sobre desenvolvimento de uma nova ação docente. Segundo Makarenko, "todo educador deve saber exatamente o que é que ele quer e de que maneira obtê-lo. A correta educação soviética deve estar organizada mediante a criação de coletividades únicas, fortes e influentes. A escola tem que ser uma coletividade, Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 27 Escolas Democráticas e de Resistência deve sentir sua dependência com relação à mesma" (Problemas da educação escolar, 1982, p. 32). Makarenko e a experiência das colônias coletivas A proposta de criação de uma colônia educacional, após a Revolução de Outubro, visava a solucionar o problema da crescente delinqüência entre as crianças e jovens, que se espalhava por todo o território soviético.O escritor Máximo Górki , numa carta enviada a Lênin, adverte-o sobre a rapidez com que a delinqüência progredia. Na Rússia pré-revolucionária, todos os reformatórios infanto juvenis eram verdadeiras considerados prisões, onde estabelecimentos os menores correcionais, infratores eram simplesmente isolados do convívio social, gerando efeito contrário ao desejado, pois provocava o agravamento do grau de revolta de cada infrator. A idéia proposta por Górki e corroborada por Lênin foi criar uma colônia de reabilitação e readaptação das crianças e dos jovens, com a finalidade de formar cidadãos perfeitamente integrados na produção social russa. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 28 Escolas Democráticas e de Resistência A decisão de Lênin buscava transferir o sistema correcional do âmbito da justiça comum para o setor da educação, autorizando, imediatamente, a criação de uma colônia para acolhimento dos bezprizornies (pivetes). Em setembro de 1920, Makarenko foi convidado a dirigir como docente a primeira colônia educativa em Kharkov, nessa época, capital do território soviético. Makarenko aceitou o desafio e descreveu suas impressões iniciais nas primeiras páginas de seu principal livro, Poema Pedagógico. Sua obra narra a grande aventura educativa de lidar com menores criminosos, socialmente desajustados e famintos. A proposta pedagógica makarenkiana buscava pôr em prática suas teorias sobre o desenvolvimento de uma nova ação docente, pautada na interligação do coletivo geral com o coletivo dos educandos e o coletivo dos educadores. A primeira colônia soviética, com fins de reabilitação e reajustamento das crianças e jovens marginalizados, ainda que em condições precárias, abriu suas portas no dia 4 de dezembro de 1920, com apenas seis educandos, rapazes de 16 a 18 anos, todos delinqüentes acusados de graves delitos. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 29 Escolas Democráticas e de Resistência As primeiras e incipientes tentativas de Makarenko, e sua equipe, foram marcadas pelas frustração, visto que, não desejando aplicar punições, mas conquistar os educandos através de instruções disciplinares, estes últimos ainda se considerando reclusos e indesejáveis pela sociedade, ignoravam as instruções dadas e respondiam com atos indisciplinares. Inicialmente, estes atos de indisciplina deflagraram em Makarenko sua visão de uma aplicação dialética e revolucionária em educação, priorizando a práxis em detrimento da teoria. O resultado dessa nova postura refletiu em um tempo relativamente curto, havendo gradativa melhora entre as relações educador-educando, fortalecendo a atuação do coletivo docente que se conscientizou da necessidade de se utilizar uma metodologia que privilegiasse não a individualização de cada interno, mas o coletivo do grupo, possibilitando a melhora da qualidade do convívio social. Deslocando o foco da educação individualizada para a valorização da coletividade, Makarenko percebeu que o conflito existente em cada interno resultava da rejeição sofrida por cada um deles tanto de sua família quanto da sociedade, transformando-os em figuras revoltadas e amarguradas. Optando pela valorização da coletividade, Makarenko decidiu que a “Perspectiva Necessária” seria salvar a colônia de sua autodestruição, através da Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 30 Escolas Democráticas e de Resistência incorporação do trabalho socialmente útil aos fundamentos de sua proposta educativa. A grande virada aconteceu com a organização da colônia mediante um sistema de interligação coletiva, que valorizava cada educando, respeitando-o e incutindo nele a ideologia de que cada componente era fundamental para o todo coletivo. Descartando o cultivo da passividade discente, Makarenko estabeleceu uma rígida disciplina, colocando a condução dos principais programas sob a responsabilidade dos educandos. A intenção era afastar a idéia de uma colônia como soma mecânica de indivíduos em prol da assimilação gradativa de um complexo social único , na busca da solidariedade. Com o aumento de educandos, observou-se a tomada de consciência da situação, propiciando um sentimento mínimo de responsabilidade na defesa da metodologia e do patrimônio coletivo. O trabalho manual foi, definitivamente, incorporado como meio de convívio social no programa de bases socialistas que ambicionava, antes de tudo, a unidade de exigências, o auto serviço, a emulação e a autogestão. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 31 Escolas Democráticas e de Resistência O valor intrínseco da pedagogia proposta por Makarenko está na introdução da organização coletiva no cotidiano da colônia. Ele escreveu: “Somente o coletivo como um todo pode ser objeto da educação soviética, apenas quando educamos o coletivo podemos contar com uma forma de organização em que a personalidade individual possua, simultaneamente, a disciplina adequada e a mais ampla liberdade” (Poema Pedagógico, 1987, p. 15). Dimensionando a educação através do processo dialético, Makarenko defendeu uma teoria educacional como ciência com objetivos práticos, priorizando não educar um homem, mas sobretudo educar a coletividade dos homens, tendo clareza dos objetivos políticos intrínsecos ao processo educativo. A organização do coletivo estudantil acreditada como de grande importância para a “formação política do cidadão para a consolidação do socialismo” possibilitou a adoção de uma metodologia nova, facilitando aos educadores a tarefa de interferência ativa e incremento da responsabilidade em cada membro componente da coletividade. Com isso, fica claro o papel do educador como referência aos educandos e a confirmação de que, para o contexto soviético, “a escola tem que ser uma coletividade única, na qual todos possam estar incluídos nos processos educativos, Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 32 Escolas Democráticas e de Resistência engendrando a responsabilidade de cada um em relação à mesma” (Makarenko, 1987, introdução). Os resultados satisfatórios obtidos na colônia , superaram as expectativas de seus educadores e, principalmente, de Makarenko, levando-o a sistematizar a experiência num documento com o objetivo de transmiti-la ao Comissariado da Instrução Pública e a seus colegas de ensino. Nesse documento, ele expunha a necessidade de se resolver com urgência a codificação da nova ciência pedagógica através de propostas relevantes para o desenvolvimento da educação socialista, tais como: (1) elaboração de um método científico de investigação pedagógica, onde o foco principal fosse a análise do fenômeno pedagógico; (2) aprofundamento e prontidão em relação à coletividade infantil; (3) renúncia à idéia de que a existência de uma boa escola está intrinsecamente relacionada à aplicação de métodos eficientes e consagrados; (4) negação da idéia da psicologia como fundamento da pedagogia, constituindo-se sim a primeira como continuação desta última; (5) a escola russa de trabalho deve enfatizar a teoria “trabalho-preocupação”, pois assim a escola terá uma função econômica, tornando-a socialista. Visualmente a colônia era um vergel limpo e organizado que em nada recordava a colônia dos bezprizronies , possuindo vida cultural Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 33 Escolas Democráticas e de Resistência multifacetada, com diversos círculos artísticos e esportivos, teatro, banda de música e festejos do folclore russo. O estudo e o trabalho se completavam, sem contradições, numa considerável harmonia. Para chegar a esse nível de organização e disciplina, Makarenko solicitou a participação do KOMSOMOL, organização leninista juvenil que auxiliava na luta contra o analfabetismo, para colaborar na formação política dos educandos. As teses de Makarenko para a consolidação de uma educação socialista , em muitos pontos coincidiam com as teses de Lênin, isto é: a) elaboração de um Método Científico de Investigação Pedagógica, b) aprofundamento da atenção em relação à coletividade (psicologia do trabalho escolar), c) escola que agregasse trabalho-educação, suporte material e conscientização política dos educandos, d) incentivo da autogestão e e) preparo contínuo de docentes, imbuídos dos ideais socialistas. Segundo Makarenko "A pessoa que começa uma vida independente deve ter alguma experiência no controle de sua poupança, calcular seu orçamento e saber como gastar o que ganha. Não se deve entrar na vida sem saber o que é e qual o valor do dinheiro ganho com o trabalho." (Fala de Makarenko ao oficializar os salários aos educandos). Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 34 Escolas Democráticas e de Resistência O tempo passou e a Colônia Górki começou a viver as contradições dialéticas do método makarenkiano, isto é, com o aumento gradativo do contingente de educandos, queda do bem estar e institucionalização, ainda que discreta da burocracia. Makarenko solicitou ao Comissariado do Povo um novo local para a colônia, na qual pudesse manter a metodologia e a autogestão estabelecida em Górki, pelo coletivo. Makarenko escreve às autoridades: "Aqui já fizemos tudo o que tínhamos a fazer; se continuarmos neste lugar, dentro de seis meses estaremos com os nervos destroçados. Queremos ficar com a cabeça cheia de trabalho e estamos perdendo tempo. Os senhores têm as condições materiais para que isso aconteça. Não fiquem somente com os princípios teóricos (1926).” Em 1926, Makarenko foi atendido e a Colônia Górki mudou de situação. Os 120 educandos que nela se encontravam passaram à responsabilidade de outra escola, Kuriázh, a poucos quilômetros de Kharkov, capital ucraniana, que contava com cerca de 200 crianças e cujo estado organizacional e pedagógico era lamentável. Em pouco tempo, através de um regime de mutirão, proposto por Makarenko, esta nova colônia estaria nos moldes da Colônia Górki, organizando-se monoliticamente tanto pelo ensino Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 35 Escolas Democráticas e de Resistência makarenkiano, quanto pela disciplina política do KOMSOMOL. Em apenas dois anos, a colônia deu um grande passo e se superou. Em meados de 1927, Galina Salkó numa inspeção à colônia conheceu e se apaixonou por Makarenko. Casaram-se em seguida. Pedagogicamente, dessa união saiu uma obra conjunta que posteriormente transformou-se em livro intitulado O Livro dos Pais. Nem tudo era perfeito. O êxito, que ao mesmo tempo abria a Makarenko algumas portas, por outro gerava problemas com a classe docente. Constantemente ele tinha atritos com seus colegas da capital, que não aceitavam sua metodologia. Limitado por discussões burocráticas era obrigado a ir a Kharkov, freqüentemente, para esclarecer denúncias contra suas iniciativas. Makarenko decidiu, então, renunciar ao posto da Direção das Colônias Infantis, que ele mesmo ajudou a criar. O que acontecia, na verdade, era que Makarenko, baseando-se nas idéias marxistas sobre a educação, encontrava grande resistência entre educadores nacionalistas ucranianos, cuja pedagogia era hostil ao sistema soviético. Apesar de renunciar à vida em Kuriázh, continuou suas conquistas. Depois da banda de música, Makarenko obteve um projetor de filmes com o qual organizou um clube de cinema. O Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 36 Escolas Democráticas e de Resistência trabalho cultural era dinâmico e o ciclo primário da escola tinha seis anos. A biblioteca era o centro nevrálgico de conhecimentos e comunicação. A obra de Makarenko era plural, multifacetada, possuidora de qualidades únicas na história da Pedagogia. Numa palavra: Revolucionária. O estabelecimento da dialética do processo pedagógico foi estabelecido por Makarenko através de dois princípios: 1) a ambição de metas e 2) a dialética dos meios educativos. Com o primeiro princípio, a ambição de metas, Makarenko introduz na pedagogia os objetivos políticos da sociedade. Para Makarenko, um trabalho educativo que não visasse a uma meta minuciosa e clara seria um trabalho educativo apolítico. No segundo princípio, Makarenko pressupôs a organização pela práxis dos elementos que compõem o processo educacional coletivo. No verão de 1927, Makarenko foi encarregado da direção de outra coletividade infanto-juvenil, situada também em Kharkov: a Comuna Dzerzhinski. Nela aplicou diretamente os métodos educativos, que de forma muito pragmática foi descoberta e exercitada na instituição anterior. Makarenko se superou e teve diante de si a primeira escola pública em regime de autogestão econômica; produziam, com apoio estatal instrumentos, com tecnologia de ponta (ferros e máquinas elétricas e câmeras Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 37 Escolas Democráticas e de Resistência fotográficas). Durante esses anos, Makarenko desenvolveu uma intensa atividade literária. Entre 1930 e 1932, escreveu dois livros sobre a experiência na Comuna Dzerzhinski: La marcha del año 30 (traduzido apenas para o espanhol), em forma de reportagens, e FD-1, em forma de romance. Em 1933, redigiu a peça teatral Tono mayor. E em 1935, conclui a terceira e última parte de sua principal obra, Poema Pedagógico, na qual narra sua experiência na Colônia Górki. Em setembro de 1935 foi nomeado para o Negociado de Comunas de Trabalho da República da Ucrânia, em Kiev; apesar disso não rompeu completamente sua relação com a Comuna Dzerzhinski. Um traço destacável da pedagogia makarenkiana é, precisamente, a forma como foi sendo elaborada, a partir de sua própria prática, por tentativas e erros e sem se apoiar em teorias que, embora conhecesse bem, achava que pouco tinham a ver com o contexto e a realidade das crianças que tentava educar. Numa das passagens de sua principal obra, Poema Pedagógico, ele relatou que a produção pedagógica da colônia nunca se baseou na lógica da técnica, mas sim na lógica da pregação moral, faltando-lhes todas as seções importantes da produção, o processo tecnológico, as operações seqüenciais, as normas e o controle. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 38 Escolas Democráticas e de Resistência Para Makarenko, a finalidade do procedimento educativo era clara, o modelo de homem que era preciso formar (a personalidade comunista) era proporcionado diretamente pelo marco ideológico de sua pedagogia. Suas ambições não buscavam a formação só de sujeitos hábeis e talentosos numa dada arte, mas também, prioritariamente, formar personalidades integrais. Para tal, em todas as colônias, os educandos trabalhavam e produziam. A dedicação ao trabalho produtivo era cerca de quatro horas enquanto que ao trabalho escolar eram dedicados cinco horas, além de se incumbirem de todos os serviços internos da colônia. É flagrante a ênfase dada por Makarenko à constituição ideal do corpo e da mente, não havendo exceções aos educandos. Em agrupamentos de dez a quinze educandos, cada qual com seu chefe, constituía-se a coletividade primária, a partir da qual se organizava a vida do coletivo completo da colônia, que tinha como órgão máximo o “conselho de chefes”. Não havia separação por faixas etárias, tampouco por sexo. A mesclagem visava a propiciar aos maiores a atenção à educação dos menores e viceversa. Com relação ao trabalho, Makarenko se demarcou do princípio socialista clássico da necessidade de relacionar a aprendizagem escolar com o trabalho produtivo. O pragmatismo makarenkiano Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 39 Escolas Democráticas e de Resistência levou-o a execrar essa idéia e, além do mais, a ironizá-la : “(...) como quebramos a cabeça pensando nesse maldito problema. As crianças faziam um banco e tínhamos de encontrar uma forma de relacionar aquilo com geometria e com as leis da física .Ficava irritado quando vinha uma comissão e não encontrava correspondência entre o banco feito e a língua russa. Até que decidi mandar tudo isso para o inferno e comecei a afirmar sem mais contemplações que não tinha de haver, obrigatoriamente, relação nenhuma” (Poema Pedagógico, 1987, p. 132). O aspecto militarista presente em suas instituições, valorizando a coletividade, a cooperação, foi também sua marca pedagógica, assim como o importante papel que nelas ocupavam as atividades artísticas (música, teatro, literatura), e o sentido formativo que atribuía a tudo isso. Sua concepção de disciplina era tida não como meio educativo, mas como resultado da educação recebida. Para Makarenko, a “maestria pedagógica” baseava-se não na eloqüência das habilidades, mas no que se podia ensinar, aprender, treinar, isto é, no savoir-faire do educador, caso buscasse interagir com seus educandos, tentando equacionar conveniência e oportunidade da experiência, expressar sentimentos, ter sensibilidade de olhar o adulto e enxergar nele a criança viva. Bases da Proposta Pedagógica Socialista: Idéias e Princípios Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 40 Escolas Democráticas e de Resistência Makarenko foi, sem dúvida, o pedagogo soviético por excelência e o mais conhecido que os regimes comunistas chegaram a produzir. O desmantelamento do sistema político que acolheu e deu lugar à pedagogia de Makarenko poderia levar a pensar que hoje ela constitui apenas um episódio mais ou menos relevante na história da Pedagogia, mas, de todo modo, exclusivamente circunscrito a um contexto histórico e ideológico muito determinado. Desse modo, Makarenko é um clássico da Pedagogia do século XX cuja leitura e conhecimento de sua obra continuam tendo um valor intrínseco, que vai muito além da pura erudição historiográfica. Makarenko narra no Poema Pedagógico: "O meu princípio fundamental tem sido sempre exigir o máximo do educando e, ao mesmo tempo, tratá-lo com o maior respeito possível” (p.62). Num outro trecho esclarece a importância do coletivo: "(...) nenhum método pode ser elaborado à base do par professor aluno, mas só à base da idéia geral da organização da escola e do coletivo” (p.67). Para Makarenko, não se pode imaginar o coletivo como a simples soma de pessoas isoladas, ele é um organismo social vivo e por isso mesmo, possui órgãos, atribuições, responsabilidades, Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 41 Escolas Democráticas e de Resistência correlações e interdependência entre as partes. Se tudo isso não existir, não há coletivo, mas um amontoado de pessoas. Expressava de forma muito clara, sem concessões, sua oposição ao discurso naturalista e muitas vezes bucólico e ingênuo da tradição rousseauniana. Quem ler as obras máximas de Makarenko (Poema Pedagógico e Banderas en las torres), perceberá que por todos os lados desses relatos quase romanceados, pulsa uma teoria educativa, que existe uma sabedoria pedagógica de grande força, embora nesses livros não se expresse de forma sistemática. Há pelo menos dois conceitos fundamentais que é preciso destacar, pois são os que caracterizam mais claramente sua pedagogia: coletividade e trabalho. Poder-se-ia dizer que, para Makarenko, a coletividade se constitui ao mesmo tempo em um fim e em um meio. A coletividade chega inclusive até o exagero, como às vezes parece predominar sobre o indivíduo, mas quem o lê com atenção também descobre nele um conhecimento primoroso e um respeito essencial à personalidade de cada educando. De qualquer modo, para Makarenko é o aluno que cria e organiza a coletividade, mas é esta que, efetivamente, educa os indivíduos. Nisso reside uma das grandes idéias-força do pedagogo soviético: o educador não apenas age relacionando-se diretamente com o Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 42 Escolas Democráticas e de Resistência aluno, mas também, e talvez sobretudo, organizando o meio social no qual ele se desenvolve. Assim, Makarenko criou um coletivo forte, coeso, bem organizado, com metas claras e exigentes, em que imperava uma disciplina conscientemente assumida por todos e que fosse capaz de se reconhecer em uma tradição própria e de gerar sua própria história. Makarenko relata: "Nas minhas pesquisas cheguei a mais uma conclusão: não imagino como se poderia educar um coletivo, se não houver um coletivo também de pedagogos. Não restam dúvidas de que não se poderá fazê-lo, se cada um dos pedagogos de uma escola realiza, separadamente, o seu trabalho educativo seguindo seu próprio entendimento e desejo. O coletivo dos professores e o coletivo das crianças não são dois coletivos distintos, mas sim o mesmo coletivo pedagógico” (Problemas da educação escolar, p. 45). Sobre a dialética existente entre a direção e a autogestão das colônias, Makarenko relatou que a subestimação da autogestão, a ausência da coletividade e de uma opinião social progressista, conduzia, também, a um fortalecimento do poder administrativo, o que seria prejudicial, pois transforma a coletividade num meio de pressão sobre o indivíduo. Por sua vez, o enfraquecimento do centro da coletividade e de sua direção está diretamente ligado com a ativação das tendências anarquistas, as quais levam a serem destruídos todos os contatos coletivistas, fazendo com que ‘apodreça’ o organismo coletivo. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 43 Escolas Democráticas e de Resistência Makarenko defendia o princípio do comando único na direção da coletividade escolar. Assinalava que somente o diretor pode ter todos os poderes para dirigir uma escola e que todos os outros pedagogos devem desempenhar “funções iguais e manter relações iguais". Desta maneira, as funções administrativas ficam nas mãos de uma única pessoa, o que libera as outras, neste caso os professores, para se dedicarem exclusivamente ao trabalho pedagógico, estimulando as iniciativas e a interdependência dos próprios alunos, para que estes possam se incorporar o mais rápido possível ao processo ativo da direção da coletividade e aos processos da educação própria e da autogestão. Quanto aos aspectos lúdicos, desde o início de sua primeira colônia, Makarenko mostrava-se a favor, defendendo o direito da criança brincar e, desse modo admitindo como essencial, a presença do jogo na educação. Segundo Makarenko, a fase infantil deve contar com muitos jogos, não justificando que o trabalho tenha que ser intercalado por diversão, mas porque o trabalho da criança depende da maneira como ela brinca. Embora tenham ocorrido alguns atritos com o Comissariado da Instrução Pública, não se pode negar que, em termos de disciplina, Makarenko conseguiu o que muitos achavam improvável, isto é, Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 44 Escolas Democráticas e de Resistência transformar num curto espaço de tempo jovens marginalizados em homens em formação. Segundo Makarenko, os fracassos pedagógicos de muitas instituições ocorriam devido à fragilidade das propostas inicialmente formuladas. Apesar de todo o aparato tecnológico existente na instituição, não havia clareza, por parte dos educadores, sobre qual a melhor metodologia que propiciaria a realização do trabalho e aquisição da disciplina com aquele agrupamento distante de uma coletividade. Através de reflexões e análises da Coletividade, Makarenko definiu-a como uma microestrutura social, onde se reproduziria um tipo de relação característico para todo o conjunto da sociedade. Nesse ponto ele estabeleceu diferenças claras para os conceitos de “sociedade” e de “coletividade”, sendo a principal diferença a unidade de contatos, isto é, os membros da coletividade estão ligados mutuamente por relações e dependências diretas. Atualidade da Proposta: Tempos Voláteis, Lições Perpétuas O que aconteceria se Makarenko estivesse ainda aqui? Como suas idéias de coletividade, de trabalho e de estudo seriam assimiladas? Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 45 Escolas Democráticas e de Resistência Difícil de imaginar a resposta? Makarenko foi o pedagogo soviético por antonomásia, inclusive declaradamente stalinista, e a história recente arrasou o regime comunista. Manifestadamente antinaturalista, sua pedagogia foi extremamente exigente no que diz respeito, particularmente ao educando. Não havia lugar para tolerâncias que descaracterizassem seus conceitos fundamentais de coletividade, não se podia tolerar o laisser faire inerentes a outras pedagogias progressistas. Uma pedagogia hipercoletivista e inclusive militarista, que, previsivelmente, não se adequaria à visão utilitarista e egocêntrica do homem pós-moderno. Como colocá-la em prática numa sociedade onde o desemprego e exclusão social se fazem tão evidentes da política de globalização? Makarenko sempre marcou posição no que tange à valorização da criança como ser delicado e livre para experimentar junto à natureza. Se voltava contra o puerilogismo, o que pensaria do psicologismo reinante em nossa época? Em resumo, tudo depõe contra suas idéias na atual conjuntura sócio-neoliberal. Por outro lado, sua pedagogia não pode ser abandonada, nem tampouco diminuída. Makarenko deve permanecer nas cabeceiras de todos aqueles que professam o ato de educar, pois, o que dizer da real importância de seus conceitos, tão escassos em nossas escolas, de cooperação e coletividade? Numa sociedade onde o Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 46 Escolas Democráticas e de Resistência individualismo se tornou uma lei para atingir o topo social, sem regras morais muito rígidas, suas idéias permanecem vivas e alertam sobre a real importância da escola na formação do caráter de seus educando. É preciso lembrar que Makarenko estabeleceu-se como exímio amigo e educador de seus educandos. Uma figura dotada de diversos recursos e talentos: carisma, paciência, perseverança no próximo e capacidade de criar um meio agradável e educativo. Transformou a nata da marginalidade, verdadeiros renegados pela sociedade, em homens, cidadãos e propagadores das idéias socialistas, utilizando-se para isso, entre outras coisas, de instituições que tornaram viáves um modelo de autogestão na época. Muitos responderiam ou desconfiariam, tais quais os homens do Comissariado do Povo, que havia algo de errado, mas na verdade não havia nada de escuso ou falacioso nas palavras e ações de Makarenko. Ele apenas seguiu sua índole de educador e amou, sem restrições os seus educandos. Makarenko dedicou trinta anos de sua vida à atividade pedagógica, convivendo ao longo desse tempo com mais de três mil crianças Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 47 Escolas Democráticas e de Resistência que poderiam ter sido esquecidas e condenadas à marginalização completa. Pedagogo marxista, buscou através de seus pensamentos e ações condenar o idealismo e a metafísica no atuar pedagógico, elaborando idéias a partir dos pensamentos que nasceram com os teóricos da Revolução de Outubro. Ao longo de toda a sua obra, teórica e prática, procurou enfatizar quais eram as bases da educação soviética, salientando que a formação do coletivo humano deve estar perfeitamente agregada ao coletivo social. Sua obra pedagógica inculca uma alta confiança nas possibilidades humanas, ligadas, por outro lado, a uma permanente exigência de cada pessoa. Cada um dos meios da educação foi encarado por Makarenko não de maneira isolada ou independente, mas vinculado a todo o sistema geral de educação, como também a seus objetivos e tarefas concretas. Quando atacado com afirmações de que a exacerbação da sociedade sobre o indivíduo “despersonalizava” este indivíduo, Makarenko reagia com aspereza e respondia que somente crer no “coletivo perfeito”, onde o indivíduo receberia uma “instrução plena” , desenvolvendo-se em todas as direções, poderia ser concebido na sociedade russa em construção. Inovador em temas ainda complexos no meio escolar, como a disciplina, Makarenko acreditava que a disciplina soviética resultava de um trabalho árduo no setor educacional, constituindo-se numa luta voltada para a superação das dificuldades impostas pelos objetivos Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 48 Escolas Democráticas e de Resistência do coletivo, através da exigência da participação atuante de todos, particularmente do empenho do pedagogo na totalidade do processo educativo, sentindo-se como o membro responsável do coletivo. Makarenko, depois de uma saga longa na educação, partiu para o céu dos educadores no dia 1º de abril de 1939, vítima de um ataque cardíaco. O coração que tanto usara para educar havia resolvido descansar. Antón Semionovich Makarenko não foi apenas um educador em evidência na Rússia pós-revolução, como também um destacado pedagogo. Sua maneira de criar pedagogia deve servir, ainda nos dias atuais, de inspiração, bem como também sua luta contra lugares-comuns e preconceitos existentes. Referências Abbagnano, N.; Visalberghi. História da Pegagogia. Lisboa: Horizonte Pedagógico, 1981, 4v. Caprilés, R. M. O Nascimento da Pedagogia Socialista. São Paulo: Scipione, 1989. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 49 Escolas Democráticas e de Resistência Górki, M. Recuerdos acerca de Makarenko. Moscou: Progresso, 1974. Lênin, V. A Revolução Russa. Moscou: Ed. Mir, 1980. Makarenko, A. S. O Livro dos Pais. 2. ed. Lisboa: Horizonte Pedagógico, 1981, 2v. ________ Poema Pedagógico. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987, 3v. Pavlov, I. Reflexos condicionados e inibições. Rio de Janeiro: Zahar, 1972. Uchinski, C. Obras Escolhidas. Moscou: Progresso, 1975. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 50 Escolas Democráticas e de Resistência 3 - Janusz Korczak: Que bom conhecê-lo Ana Patrícia da Silva3 Mauro Fernando El Chaer 4 Vanda Mendes L. Zidan5 “E o seu ideal era a criança – aquele frágil e delicado ser, que sofre sempre com a eterna ditadura dos adultos “. ABRAHAM Introdução Apesar de ser pouco conhecido em nosso continente, Janusz Korczak é uma figura lendária, na realidade fascinante. Falar de Korczak, apesar de motivador, não nos parece nada fácil, tamanha a responsabilidade de descrever o mito, a personalidade excepcional do Velho Doutor. Definir sua obra em poucas palavras é no mínimo frustrante. Assim sendo, nos deteremos apenas em alguns traços, os quais nos despertaram maior atenção. É importante destacar o contexto em que ele viveu para melhor entendermos a vanguarda de seu trabalho. O mundo vivia um tempo de sucessões de calamidades, tais como guerras, crise econômica, regimes totalitários e genocídio - a “Era da Mestranda em Educação pela UFRJ, licenciada em Educação Física. Graduado em Medicina, especializado em Pediatria, mestrando em Educação - UFRJ. 5 Licenciada em História, especializada em Educação a Distância, mestranda em Educação UFRJ. 3 4 Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 51 Escolas Democráticas e de Resistência catástrofe6” -quando ocorreu a primeira revolução socialista7, que pretendia construir uma sociedade radicalmente nova, muito diferente da capitalista. A década de 30 foi marcada por uma crise econômica de alcance mundial que abalou as economias mais fortes8 Junto à questão econômica, a maior parte da Europa abandonou a democracia e buscou a solução para a crise nos regimes ditatoriais9. O autoritarismo também estava presente nas relações familiares, principalmente entre pais e filhos. Crianças eram criadas com muita disciplina e seus gostos e sentimentos não eram considerados. Na escola, a disciplina também era muito rígida, onde até os castigos físicos - não só a tradicional palmatória, mas até tapas, puxões de orelhas e punições humilhantes - eram aplicados indiscriminadamente. Vale lembrar que não havia nenhum órgão ou legislação criada para proteger ou garantir os direitos das crianças. Buscando despertar a curiosidade dos leitores para que possam conhecer um pouco mais sobre Janusz Korczak, nos deteremos em três tópicos centrais: uma breve biografia, sua pedagogia e a experiência do Lar das Crianças. Foi assim denominado o período de 1914- 1945 por Eric Hobsbawm. Revolução russa de 1917. 8 Crise econômica iniciada nos EUA em 1929. 9 Regimes Fascista e Nazista. 6 7 Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 52 Escolas Democráticas e de Resistência Biografia de Janusz Korczak (1878 - 1942) Janusz Korczak, cujo nome verdadeiro era Henryk Goldszmid, nasceu em Varsóvia, Polônia, em 1878. Filho de pais ricos, judeus assimilados, recebeu uma educação de qualidade para os moldes da época. Entretanto não foi bom aluno. Com a idade de treze anos10 foi tomado por uma fúria de ler. O mundo desaparecia dos seus olhos, só os livros existiam para ele. Korczak se interesó también por la naturaleza y se convirtió en un lector apasionado: la poesía de Adam Mickiewicz y las novelas de J. I. Kraszewski lo marcaron profundamente, En 1891, es decir, a los trece años, empezó a escribir un diario. Con el tiempo, los diversos generos literarios se convirtieron en él en un hábito arraigado.(LEWOWICKI 1994:38) Atendendo a um pedido do seu pai, matriculou-se na faculdade de medicina, contra sua vontade. Sem muito entusiasmo, ele assistia às aulas. Ao invés de dissecar, ficava parado junto ao cadáver, pensativo, e olhava com maior atenção para os corpinhos das crianças mortas. Durante longas horas ali ficava ele, estático, entregue aos seus pensamentos. Como estudante, longe dos seus pais, era independente; queria ganhar para seu sustento e dava aulas na casa de uma família Existe controvérsia em a relação à idade de Korczak, quando falamos das suas leituras alguns autores dizem 15 outros 13 anos. 10 Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 53 Escolas Democráticas e de Resistência muito rica. Quando, certa vez, uma família pobre se queixou de que não tinha possibilidades de dar instrução aos seus filhos, Korczak imediatamente se ofereceu para ensinar-lhes e mudou-se para a casa dessa família. Experiências como essa contribuíram para subsidiar sua obra. Korczak sofreu grande influência familiar a respeito dos problemas sociais e principalmente do seu professor de grego. Contudo tinha uma ligação muito forte com a pátria, como nos relata Lewowicki (1994: 37). Janusz Korczak se sentía íntimamente ligado a su patria, sojuzgada por un poder extranjero desde tantos años. Se sentía comprometido con el destino de los polacos y con los grupos sociales que luchaban por conseguir la independencia de Polonia. Se relacionó así con los núcleos sociales progresistas y con numerosas personalidades revolucionarias, periodistas, profesores, escritores, médicos y estudiantes. Como a maioria dos estudantes, Korczak também nutria idéias revolucionárias. Junto com seus amigos criou um grupo denominado “Livre Pensamento”, onde se discutia sobretudo a respeito do nacionalismo e do socialismo. Em determinado momento, dirigindo-se ao grupo, Korczak disse: “A juventude Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 54 Escolas Democráticas e de Resistência zomba, revolta-se e quer mudar tudo... eu estive sempre pronto a enfrentar tumulto em nome da justiça”. (ABRAHAM, 1986:25) Aos vinte anos, foi estudar em Zurique onde conheceu Stefa Wczilynska11 Influenciado por ela, começou a freqüentar a faculdade de pedagogia onde teve o primeiro contato com os grandes pensadores da Escola Nova12, mas não se identificou totalmente com esta corrente. Após a morte de seu pai, retornou a Viena para cuidar de sua mãe e concluir o curso de medicina. Sendo convocado para servir no exército, participou da guerra da Rússia - Japão, voltando de lá com muito entusiasmo e fé no futuro, e dedicando-se então ao seu trabalho. Novamente voltou a praticar medicina, mas não aceitando pagamento pelas consultas e, mais ainda, dando medicamentos para as mães mais necessitadas e muitas vezes até mesmo dinheiro para comprar o leite para seus filhos doentes. Em Varsóvia, trabalhou como médico num orfanato criado pela pedagoga Stefa Wczilynska, o que ocasionou vários encontros e a decisão da construção de uma nova casa para abrigar órfãos. Filha de família aristocrática judia de Varsóvia. Escola onde a educação era baseada no conceito de permanente mudança, buscando formar um aluno autônomo independente, questionador. O conhecimento vem de uma forma de ação, de aprender diretamente com a própria vida. 11 12 Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 55 Escolas Democráticas e de Resistência O ano de 1912 foi consagrado à realização do seu sonho: deixando o hospital, onde trabalhou durante sete anos, abriu, em Varsóvia, na rua Krochmalna 92, com a ajuda de Stefa Wczilynska, o Lar das Crianças13, concebido e organizado por ele, sendo inaugurado festivamente em 191414. Vale a pena ressaltar o importante papel de Stefa no Lar das Crianças: ela doou toda a sua herança para o orfanato e de corpo e alma se dedicou aos pequeninos. Korczak participou da Primeira Guerra Mundial15 e ao voltar do front, retomou a direção do Lar das Crianças e tornando-se, além disso, conselheiro pedagógico, a partir de 1919, de um orfanato católico - a “Nossa Casa” – que dirigiu durante 17 anos com a colaboração de Maryna Falska. Com a ascensão do nazismo na Alemanha em 1933, Korczak começou a sofrer moralmente com a política pró-nazista16 adotada pelo governo da Polônia. Casa do Órfão também chamada Lar das Crianças Existe uma controvérsia entre os autores a respeito do ano de inauguração do Lar das Crianças. As datas variam entre 1914 e 1916. 15 Nas trincheiras da guerra de 1914 - 1918 , mesmo longe das crianças, Korczak não as esquecia, escreveu o livro “Como Amar uma Criança.” 16 Sofria com a perseguição exercida sobre o povo judeu. 13 14 Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 56 Escolas Democráticas e de Resistência Após a morte do Marechal Pilsudski17, em 1935, a situação dos judeus na Polônia piorava, a pobreza entre estes crescia dia-a-dia e os estudantes judeus eram expulsos das universidades, pois o país já estava sobre a influência da Alemanha de Hitler. Em 1936, Korczak viajou para Erestz-Israel e ficou em Ein-Harod durante 20 dias. Entusiasmou-se muito com tudo o que viu, principalmente com a compreensão e o trato dado à criança, que lá observou. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a situação na Polônia tornou-se crítica e Korczak novamente começou a pensar seriamente sobre a possibilidade de transferir o orfanato para Erestz-Israel, mas a falta de recursos materiais não lhe possibilitou realizar seus planos. Em 1939, ele já tinha mais de sessenta anos e era major do exército polonês. Um pouco velho para ser mobilizado, encorajou a resistência contra os invasores e entrou na luta para a defesa civil de Varsóvia. Um golpe rude para Korczak foi a ordem da Gestapo para desocupar a casa do Orfanato da rua Krochmalna 92, no prazo de 17 Bem Abraham, Janusz Korczak – Coletânea de Pensamentos, p. 65. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 57 Escolas Democráticas e de Resistência 24 horas. Não adiantaram argumentos, pedidos, nem lágrimas. Todos os apelos de Korczak para terem consideração pelas crianças provocaram risos cínicos nos homens da Gestapo. O nazismo estava destruindo os sonhos e a vida do protetor das crianças. Na noite trágica do despejo, Korczak desejava dar às crianças a alegria de reencontrar a natureza. Ele conseguiu organizar uma colônia de verão, que seria a última em suas vidas, assim se expressando: esta talvez seja a última oportunidade das crianças de recrear-se na floresta, respirar o ar dos campos, colher ervas frescas [...] Este é talvez o nosso último verão[...] (ABRAHAM,1986:72) Em 10 de novembro de 1940, 500 mil judeus foram encarcerados no gueto de Varsóvia. Centenas de pessoas morriam diariamente em conseqüência das epidemias, falta de higiene, de alimentos e frio. As condições do orfanato tornaram-se um inferno; as crianças morreram ali de miséria, de fome, de doenças. Korczak, aos 64 anos, doente e muito debilitado, escreve: É um trabalho penoso descer da calçada e depois deixar a rua para escalar a calçada. Um pedestre me empurra. Cambaleio e me apóio no muro. Não é um enfraquecimento. Eu levantei facilmente um escolar, trinta quilos de peso vivo. Não são as forças que me faltam, é a vontade. (ABRAHAM,1986:76) Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 58 Escolas Democráticas e de Resistência No pátio do orfanato, Korczak organizava de vez em quando umas apresentações teatrais ou concertos musicais para centenas de crianças, animando-as. O concerto era realizado no meio do pátio sujo e nos rostinhos tristes das crianças estava estampado o medo da morte. Korczak, esfarrapado, maltrapilho, emagrecido e barbudo, igual a um mendigo, parado no meio da multidão de crianças esqueléticas, regia o concerto, composto de músicas e canto (ABRAHAM,1986:81). Entre um número musical e outro , ele se aproximava das crianças doentes, examinava-lhes o pulso e, entre afagos, oferecia-lhes um parco pedaço de pão ou às vezes simplesmente uma balinha. Em 18 de junho de 1942, os alunos de Korczak apresentaram a peça “O Correio”, de Rabinadrath Tagore. Ao escolher essa peça, Korczak deixa clara a mensagem: a morte não é terrível, ela é apenas uma mudança de forma de existência, a passagem de uma realidade a outra, mais feliz.(ABRAHAM,1986:82) Quase sempre a maior atração era Korczak; ele contava uma estória sobre um menino brincalhão e deste jeito provocava risadas alegres nas crianças. De boca aberta, elas ouviam a história contada pelo seu “pai” querido, que desta maneira, conseguia Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 59 Escolas Democráticas e de Resistência distrair a multidão de crianças no ambiente de terror, de morte, levando-as à terra dos sonhos, esperança e luz... Já não era mais segredo para ninguém o fato de que os judeus – crianças e adultos - eram levados nos trens de carregar gado, em vagões cobertos de cal, para territórios do leste europeu, sem que nenhuma notícia de seu paradeiro chegasse – eram os corredores da morte. A miséria no orfanato do gueto tornou-se insuportável e cada vez era mais difícil sobreviver em tais condições. O frio intenso levou o a queimar alguns utensílios de madeira da casa para aquecer os quartos. De acordo com Abraham Korczak recebeu da Gestapo um convite para trabalhar no hospital militar. Esta proposta lhe foi apresentada por um médico alemão que ouvira falar sobre seus métodos de educação. Ele rejeitou, dizendo que não podia abandonar as suas crianças que precisavam dele. O movimento subterrâneo polonês apresentou a Korczak uma oportunidade para que ele se salvasse escapando do gueto, utilizando documentos arianos que lhe seriam fornecidos. Mas ele recusou, respondendo que só sairia do gueto com uma condição: levar junto todas as crianças do orfanato. Caso contrário, não queria ouvir nenhuma proposta para salvar-se. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 60 Escolas Democráticas e de Resistência Com tal decisão ele reafirmava, mais do que sua fidelidade para com as crianças, seu amor incondicional por elas. Em agosto de 1942 Janusz Korczak, aos 69 anos, acompanhou suas 200 crianças até o último instante – até o último suspiro na câmara de gás em Treblinka. Pedagogia de Janusz Korczak É difícil – dizia ele – separar a função do educador da alma da do educador do corpo da criança, assim como separar a função do pedagogo da do médico. (ABRAHAM;1986:53) Iniciou suas primeiras experiências pedagógicas ainda como estudante de medicina, segundo LEWOWICKI (1994:42) Las primeras actividades pedagógicas de Korczak se desarrollaron en su época de studiante de medicina, cuando trabajaba en las colonias de vacaciones para niños. En 1904 lo hizo en las colonias para niños judíos de Michalowka, distrito de Ostrów Mazowiecki. Ya en quella época aplicó algunas de sus ideas sobre la organización de la vida de una comunidad infantil: tareas especiales, sistema de autocontrol, plebiscitos. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 61 Escolas Democráticas e de Resistência Korczak escreveu durante toda a sua vida, e ainda como estudante, iniciou seus trabalhos literários, continuando com esta atividade até sua morte. Seus escritos pedagógicos foram traduzidos em várias línguas estrangeiras, sendo sua produção intelectual muito vasta. Toda a sua obra, incluindo a literatura infantil, tem grande valor pedagógico. Suas idéias foram divulgadas sob as mais variadas formas, através de artigos, estudos, palestras, recitais, ensaios, folhetins, novelas, livros de romances ou contos fantásticos para crianças, jornais, programas de rádio. Publicou dissertações destinadas aos educadores e pais, podendo se citar como exemplos: “Como amar uma criança” e “O direito da criança ao respeito18”. Usava a forma romanceada de escrever para levantar problemas pedagógicos, sendo típicos desta característica os livros: “A criança do salão”, “As confissões de uma borboleta“ e “Quando voltarei a ser pequeno”. Nos romances para crianças, trabalhou idéias filosóficas que se dirigiam também aos adultos, propondo um modelo de vida no mundo da justiça onde a criança está em igualdade com estes (“A glória” ; “O rei Macius I”; “O rei Macius numa ilha deserta”; “A falência do pequeno Jack”; “Cássio o feiticeiro”). Introduziu na pedagogia o método de observação da medicina. Consolidou a O seu livro “O direito da criança ao Respeito” foi aproveitado pela UNESCO para a elaboração do “Estatuto da criança”. 18 Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 62 Escolas Democráticas e de Resistência abolição do autoritarismo com a disciplina, sempre com o eixo de atitudes e pensamentos centrado no direito e na felicidade da criança. Korczak aboliu o autoritarismo, introduzindo a autogestão. Sua prática pedagógica deu início a uma revisão de métodos referentes à estrutura da escola, à relação aluno-professor e também entre pais e filhos. Como educador e como médico, não conhecia coisas sem importância, observava tudo e tudo era importante. Lecionou no Instituto Nacional de Pedagogia Especial de Varsóvia, ensinando sua prática pedagógica. O importante na educação da criança era, para ele, o princípio de que o educador não deve colocar-se acima da criança – e esse mesmo princípio ele observava nos seus colaboradores de trabalho. Ao selecionar professores para trabalhar no Lar das Crianças, a escolha sempre era feita em favor dos que conheciam menos o assunto a ser ensinado, pois Korczak considerava que esses professores iriam se esforçar mais para aprender e ensinar suas crianças. Para ele, existia uma diferença entre o bom e o mau educador, mas considerava que ambos cometiam injustiças e falhas, a Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 63 Escolas Democráticas e de Resistência diferença estava apenas na quantidade de erros cometidos. O mau educador atribui a culpa dos seus erros às crianças, o bom educador sabe que deve avaliar as ações positivas, porque nelas se escondem, muitas vezes, as decifrações que não podem ser ignoradas. O maior avanço da sua pedagogia era a auto-educação. De acordo com Abraham, Conciliando com Sócrates, o papel de educador como parteiro, que ajuda no nascimento, a caminhada até a verdade e os valores humanos e não o de mestre e mentor: “observe e não exija nada... não o que deveria ser, mas o que pode ser...”. .(1986:36) Para consolidar esse pensamento, Korczak dizia de acordo com Abraham, Posso criar uma tradição de verdade, trabalho, honestidade, mas não farei da criança outra coisa além do que ela é. A bétula permanecerá bétula; o carvalho é carvalho; bardana é bardana. Posso despertar o que dorme na alma não posso criar nada.(1986:36) Ele era um homem com idéias avançadas para a sua época e se esforçava para formar futuros cidadãos, homens livres e responsáveis. No fim do séc. XIX e no começo do séc. XX, a Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 64 Escolas Democráticas e de Resistência iniciativa de criar um sistema escolar fundado sobre a escola obrigatória, gratuita e leiga foi percebida em numerosos países. A extensão da escola e o desenvolvimento da psicologia favoreciam a eclosão de doutrinas e experiências pedagógicas novas. Sua obra inscreve-se num contexto pedagógico internacional particularmente rico. Muito culto, tinha conhecimento de tais inovações pedagógicas pelas suas viagens à França, Inglaterra e Suíça e por suas leituras, notadamente de Freu e Pestalozzi aos quais se refere em “Como amar uma criança”. Suas idéias se aliaram a novas correntes pedagógicas, propostas por Neill /Grã-Bretanha, Makarenko / URSS, Célestine Freinet / França, Decroly / Bélgica, Montessori / Itália, Dewey / EUA, Frobel e diversas escolas na Alemanha. Apesar das divergências existentes entre todas essas correntes, o que importava para Korczak era o AMOR e o RESPEITO pelas crianças. O período entre as duas guerras mundiais foi um dos mais importantes para Korczak, pois seu nome ficou conhecido em toda a Polônia. Em todos os ambientes, independente de classes sociais, nos círculos governamentais, nas universidades, no teatro, nos cafés e nos encontros sociais, todos comentavam sobre o Lar das Crianças. Seu criador era visto com admiração e comentava-se sobre o seu idealismo e trabalho. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 65 Escolas Democráticas e de Resistência Com todo o reconhecimento destinado a Korczak, o Lar das Crianças tornou-se um estabelecimento mundialmente conhecido, sendo visitado por muitos educadores conceituados na história da educação mundial. Segundo Abraham (1986:40), dentre as muitas visitas destacaram-se as de: Henri Pestalozzi, pedagogo suíço (1746 1827), fundador da escola popular. Frederico Fröbel, (1796-1862), pedagogo alemão discípulo de Pestalozzi. Augusto Aic (1878-1949), aluno de Freud que se ocupou de jovens órfãos em Viena nos anos 20. Maria Montessori (1878-1957) pedagoga italiana, fundadora da “casa das crianças” em Roma. Ovídio Decroly (1871-1932) pedagogo belga, fundador de uma escola nova em Bruxelas. Frantisek Bakule (1880-1957), pedagogo tcheco que fundou a escola para crianças pobres, criou uma pedagogia de vida pela vida. Alexandre S. Neill, educador inglês que no internato de Sumerhill põe em prática a autogestão _ pedagógica e a escola libertária. Celestino Freinet (1896-1966), educador francês que deseja “assegurar a libertação pedagógica da criança” e quer, como Korczak, atribuir grande importância ao jornal escolar e ao texto livre. Francisco Ferrer Garcia (1858-1909), fundador em Barcelona da escola moderna. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 66 Escolas Democráticas e de Resistência Educava de maneira totalmente desinteressada, não se detinha à religião, nação, estado ou política, mas unicamente ao bem da própria criança. A fonte inspiradora de Korczak eram as crianças e ele sempre procurava novos contatos com a criança e com a juventude, aproximava-se de meninos de rua, que logo se tornavam seus amigos. Ele os encontrava vagando pelas ruas nos cafés e estes lhe contavam sobre sua vida de pobreza, sobre as madrastas e outros sofrimentos. Korczak procurava ajudá-los e consolá-los, comia e bebia com eles e depois, ao voltar para casa, anotava todas as injustiças cometidas com relação à criança. Preparava, assim, suas acusações contra a sociedade. No entanto, tinha consciência de que somente acusar não adiantaria nada. Seria necessário que se fizesse algo em benefício das crianças, para evitar todas aquelas injustiças. De tanto refletir sobre esse problema, para ele muito doloroso, no seu pensamento nascia um novo sistema educacional - “O contato e a aproximação com a criança” – bandeira pela qual lutou todos os anos da sua vida, uma educação embasada no AMOR. Seu sonho representava uma espécie de missão na vida: libertar a criança da ditadura do adulto. Seus maiores colaboradores não eram os educadores, mas sim as crianças, que o adoravam e o cercavam de amor. Ele significava Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 67 Escolas Democráticas e de Resistência para elas um amigo, um colega mais velho, um pai; as crianças sentiam isso e davam valor. Convidado pelo jornal popular Nasz Przeglad para escrever uma edição para crianças, criou o jornalzinho Maly Przeglad (Pequeno Retrospecto), de quatro páginas, onde somente crianças escreviam. De todos os cantos da Polônia chegavam milhares de cartas para a redação, e os artigos escolhidos eram pagos por Korczak com parte de seus próprios honorários. Com o mesmo entusiasmo, as crianças ouviam seu programa de rádio chamado “A palavra do Velho Doutor”. Eram histórias contadas com muito humor, como só ele sabia fazer. Korczak procurou trabalhar com as crianças o senso de responsabilidade e a livre expressão. Para isso, elas podiam expressar-se publicamente, no quadro mural ou no tribunal; aqueles que preferissem podiam dirigir-se por meio de cartas aos educadores, pois havia uma caixa de cartas. Ele valorizava a educação integral, atribuindo valor aos jogos, ao teatro, às reuniões e debates. Em 1926, ele mesmo fundou a “Pequena Revista”, a primeira no mundo que viria a ser escrita por crianças e para crianças. Korczak sonhava com a escola que serviria à humanidade inteira e que educasse para a vida. Os alunos não aprenderiam ali letras mortas sobre um mataborrão morto; aprenderiam Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 68 Escolas Democráticas e de Resistência como vivem as pessoas, por que vivem assim, como se pode viver de outro modo, com a plenitude da alma livre. Uma escola desprovida de rigor ou tédio, diferente daquela que ele conhecia, sobre a qual escreveu quarenta anos mais tarde. (ABRAHAM, 1986:44) O sistema de educação de Korczak procurava o apoio da criança e dessa maneira, pretendia transformá-la em seu ajudante, valorizando-a. A criança também tem o seu amor próprio e personalidade, que não se pode negar ou suprimir. Negar a personalidade da criança prejudica a formação de seu caráter, a deprime e magoa, porque ela é um ser muito sensível. Korczak exigia o máximo de respeito e compreensão pelo amor próprio das crianças, pois viu muitas injustiças e brutalidade de adultos em relação a elas. Em suma, ele nunca emitiu teorias pedagógicas, mas viveu uma pedagogia baseada no coração, construiu o seu sistema educacional fundamentado no amor e no respeito à criança. O Lar das Crianças Se reunisse todos os sorrisos de crianças, os sorrisos das flores e os pássaros, o sorriso do poeta e do doutor, comporse- ia um poema Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 69 Escolas Democráticas e de Resistência sobre Janusz Korczak. Um poema sobre um homem que na hora das trevas, num mundo louco de ódio, conservou um coração puro e um pensamento lúdico, um poema sobre um homem que adorou as crianças. (Stefania Ney , As crianças do gueto, Varsóvia, 1949, citado por Abraham, 1986: 27) Focar a experiência realizada por Korczak no Lar das Crianças não significa menosprezar outras tantas atividades vividas por ele como conselheiro, professor e médico em outras instituições para crianças pobres, mas sim ressaltar a especificidade dessa obra. A originalidade de seu trabalho está na forma como foi planejado: tal qual a mãe se prepara durante a gestação para receber um filho querido. Cuidadosamente organizou o local onde abrigaria as crianças; no requinte dos detalhes da construção, transparecia o amor incondicional que dedicaria àquelas que por ali passassem. A ele não bastava o grande amor que sentia por elas, mas sim como seria esse amor: amor gratuito, que gera vida e faz crescer o ser amado, ou aquele que oprime e submete? Defendia o amor que não vê o ser amado como propriedade. Em visitas a orfanatos de outros países, observava as crianças e as instituições definindo, com clareza, as ações que não pretendia repetir no Lar das Crianças, sem fórmulas ou métodos eficazes para educá-las, mas com o firme propósito de aprender com elas como proceder. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 70 Escolas Democráticas e de Resistência Com uma arquitetura própria e adequada às necessidades que consideravam fundamentais para atender as crianças carentes em um ambiente no qual pudessem ser felizes, Korczak e Stefa construíram o Lar das Crianças, que funcionou como uma verdadeira República. De acordo com Korczak, em vez de dar ordens à criança, era preciso oferecer-lhe a oportunidade de se convencer sobre o que deveria ser feito, com base em suas próprias experiências, em uma atmosfera de confiança, como explica Helena Singer (1997:88). Korczak não implantou em seu orfanato uma proposta rígida, mas valeu-se da observação e da reflexão para fundamentar sua prática. O cotidiano das crianças era observado e por ele anotado; aberto ao diálogo, sem preconceitos e tampouco verdades intocáveis. Nas palavras de Korczak sem uma infância serena e completa, toda vida posterior fica mutilada. Fica evidente o valor que dava a esta etapa da vida, daí sua disposição de sempre ouvir as crianças e acreditar que eram capazes de fazer escolhas e ter discernimento para julgar as mais variadas situações em que estivessem envolvidas. Sabia ouvir e também reconhecer seus próprios erros como educador e suas fraquezas humanas. Korczak afirmava que a criança deve ter a liberdade de errar, a vontade de melhorar e corrigir seus erros. E esse modo de pensar exige do educador muita tolerância. Colocava-se no lugar da criança e como tal, Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 71 Escolas Democráticas e de Resistência refletia sobre seus sentimentos e angústias, buscando nelas pautar suas ações que, segundo ele, deveriam contribuir para a criança progredir e frutificar. Estimulava a colaboração entre as crianças e os adultos, fosse nos serviços domésticos ou mesmo na organização e na administração do orfanato. Com isso, aos poucos, adquiriam autoconfiança para gerir suas próprias escolhas. Partindo do princípio de que tal colaboração seria sempre conflitante, criou mecanismos para diminuir as situações que pudessem gerar conflitos e que fossem negativas para a convivência no Lar: o Tribunal e o Parlamento. O tribunal tinha como objetivo o perdão, que pressupunha uma mudança de atitude por parte do réu. Korczak deu um caráter educativo ao tribunal, ao admitir que todos os que viviam no Lar eram passíveis de erros, inclusive ele próprio19. A confiança na capacidade de autogestão das crianças, com base em suas próprias experiências, levou-o a criar o Plebiscito e os jornais escritos pelas crianças, a fim de exercitá-las e igualmente os educadores no espírito da participação e da responsabilidade. Dessa maneira, aprendiam o valor da crítica construtiva e desenvolviam o espírito de cidadania. Por três vezes Korczak foi levado ao tribunal, por suspeitar de uma menina, por beliscar um aluno e por ameaçar um aluno de jogá-lo aos cachorros. 19 Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 72 Escolas Democráticas e de Resistência Apesar das experiências vividas no orfanato, Korczak não elaborou nenhuma teoria nem listas de recomendações, tampouco receitas prontas para serem aplicadas ao gosto do leitor. O dinamismo de sua prática torna seu legado atemporal. Soube transmitir interrogações, inquietações e questionamentos pessoais, levando todos aqueles que lidam com crianças e adolescentes a repensar suas práticas e atitudes diante da complexa e instigante tarefa de educá-los. Conclusão Os escritos pedagógicos, o jornalzinho e a prática educacional de Korczak atraíram enorme atenção durante sua vida até a atualidade. Seus textos foram traduzidos em várias línguas, seus princípios pedagógicos e a sua aplicação possuem reconhecimento mundial. O Lar das Crianças ou Lar dos Órfãos, em Varsóvia, tornou-se uma instituição modelo, muito familiar para os poloneses e visitada por vários estrangeiros. Suas idéias ainda despertam o interesse de sucessivas gerações de professores e educadores. O movimento korczakiano, dedicado à aplicação de seus princípios, está cheio de vida. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 73 Escolas Democráticas e de Resistência Os livros do “Velho Doutor” ainda hoje estão sendo publicados. Seus livros infantis são lidos por crianças de muitos países, já seus escritos educacionais continuam norteando os anseios de adultos, que buscam tornar a educação útil e agradável para as crianças. Korczak dedicou a sua vida a colocar sorrisos nas faces das crianças e fazendo com que elas se tornassem pessoas melhores. Seu nome está gravado entre os mártires judeus de Varsóvia, sendo um dos milhões de irmãos massacrados pelos nazistas. Ao escolher a morte pelo holocausto, consagrou sua vida com coragem à luta pelos direitos da criança, à procura da justiça nas suas relações com os adultos. Em suma, a pedagogia de vanguarda de Korczak tem seu ápice na prática educativa democrática e de resistência aos preconceitos tão evidentes na sua época. Como educador foi inovador, conseguindo colocar em prática suas idéias revolucionárias, implantando de vez o respeito e o amor, como componentes fundamentais na formação do indivíduo. Referências ABRAHAM, B. Janusz Korczak - Coletânea de Pensamentos. 6 ed. São Paulo : A.J.K.B.,1986. KORCZAK, Janusz. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 74 Escolas Democráticas e de Resistência http://www.edicoesgil.com.Br/educador/janusz.html . Acesso em 02 set. 2003. KORCZAK, Janusz; Como Amar uma Criança, 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. KORCZAK, Janusz, Quando eu voltar a ser criança; São Paulo: Summus. 1981. LEWOWICKI ,Tadeusz. JANUSZ KORCZAK (1878-1942), Perspectivas: revista trimestral de educación comparad, París, v. 24,, n. 1-2, p.37-48, 1994. SERVIÇO AES-SP. Disponível em: <http://www.sp.org.br> . Acesso em 02 set. 2003. SINGER, Helena; República das crianças: sobre experiências escolares de resistência, São Paulo, HUCITEC - FAPESP, 1997. UNESCO.http://www.ibe.unesco.org/international/publications /thinkerspdf/korczakk s.pdf . Acesso em 02 set. 2003. Universidade Federal de São Paulo. Disponível em: <<http://www.usp.br/jorusp/arquivo/1998/jusp454/manchet/r ep_res/rep_int/box5 > Acesso em 02 set. 2003 Universidade Federal de São Paulo. Disponível em: http://www.usp.br/jorusp/arquivo/1998/jusp454/manchet/rep _res/rep_int/cultu > Acesso em 02 set. 2003. WASSERTZUG, Zalman. Janusz Korczak. Mestre e Mártir. São Paulo: 1983. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 75 Escolas Democráticas e de Resistência 4- Summerhill Beatriz Boclin Paula Cid Lopes20 Introdução A Escola Summerhill foi fundada em 1921 por Alexander S. Neill (1883-1973) na aldeia de Leiston, Suffolk, Inglaterra (aproximadamente 160 km de Londres). A compra desse terreno aconteceu com a publicação de seu livro The Problem Child, um sucesso de vendas que permitiu não apenas a divulgação de suas idéias como o capital necessário para a expansão da Escola. Neill lançou mais oito livros, sendo o mais conhecido Summerhill: A Radical Approach to Child Rearing, em 1960. No Brasil as idéias de A S. Neill ficaram conhecidas nas décadas de 60/70 com a publicação de seu livro Liberdade Sem Medo (1965). A idéia inicial de Summerhill era fazer com que a escola se adaptasse às crianças, desse a elas a liberdade de ser elas próprias: Com esse objetivo, tivemos que renunciar a toda disciplina, toda instrução moral. Temos sido chamados de bravos, mas tal intento não requeria coragem. Tudo o que foi requisitado era o que tínhamos, uma completa crença na criança como um ser bom, não um diabo. Por mais de quarenta anos, a crença na bondade da 20 Mestrandas em Educação/UFRJ. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 76 Escolas Democráticas e de Resistência criança nunca esmoreceu: bem ao contrário, tornou-se uma fé definitiva (Singer, 2000, p.57 ). A escola começou como experimental. Com o passar do tempo, Neill passou a chamá-la uma escola de demonstração, pois demonstra que a liberdade funciona. Para Neill, o sucesso de Summerhill se deve, em parte, ao fato de permitir que as crianças se sintam tratadas todas da mesma maneira e com muito respeito, já que o trabalho essencial dessa escola “não é reformar a sociedade, mas dar felicidade a algumas, a poucas crianças” (NEILL, 1965, p. 21). O sucesso para Neill é a “capacidade de trabalhar alegremente e de viver positivamente” (Ibid., p. 27) e sob este ponto de vista, os alunos de Summerhill terminam por ter sucesso na vida. Alexander Neill foi influenciado pelo trabalho do psicanalista americano Homer Lane que dirigia um reformatório em Dorsetshire (Inglaterra) desde 1913. Lane trabalhava com o método de autogestão, onde as decisões eram tomadas pela comunidade. Neill visitou esse reformatório em 1917 e registrou a importância da psicologia, usada no processo educativo, destacando as experiências infantis e os problemas ligados a causas psíquicas. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 77 Escolas Democráticas e de Resistência Neill estudou psicanálise com Lane, até que este deixasse o país em 1918. Além de Lane, exerceu forte influência nas teorias de Neill o psicanalista Wilhelm Reich, seu amigo por mais de 20 anos. A idéia central de Reich, que influenciou Neill, foi a de afastar a criança da família “burguesa”, optando por uma educação coletivista e comunitária. As teorias de Neill compõem um conjunto de idéias que marcaram o início do século XX, cujo foco estava na crítica à escola tradicional , em especial à escola do modelo vitoriano. A característica deste movimento era a defesa de uma pedagogia antiautoritária, que afirmava a liberdade como princípio da educação. Sigmund Freud (1856-1939) foi um grande inspirador desse movimento, que apresentava teorias educacionais vinculadas a elementos da psicanálise. Alexander Neill construiu sua teoria educacional, a partir da influência de Rousseau - com a idéia da pureza da criança: o homem é bom em essência e a sociedade o corrompe - de Sigmund Freud e de Wilhelm Reich. Segundo Neill, “a religião diz: sê bom e serás feliz. Mas o inverso é mais certo: sê feliz e serás bom” (GADOTTI, 1999, p. 175). Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 78 Escolas Democráticas e de Resistência As idéias de Neill usadas para construir Summerhill baseavam-se na confiança de que a natureza da criança é boa e duas premissas guiavam o cotidiano da escola: o autogoverno/autogestão e a auto-regulação da aprendizagem. O professor deveria “estimular o pensamento e não injetar doutrinas” (GADOTTI, 1999, p. 176). Neill buscou também um rompimento com a engrenagem capitalista. Não acreditava na educação voltada para atender ao capitalismo, na qual cada indivíduo é “uma parte de vasta máquina de produção organizada” (NEILL, 1965, p. 18). Princípios de Alexander Neill para a Educação Os critérios essenciais para a educação em Summerhill estavam na alegria, sinceridade, equilíbrio e sociabilidade e não no conhecimento acadêmico, ou seja, nos conteúdos propriamente ditos. Preocupava-se com o contato com a natureza e com a liberdade para fazer suas escolhas de maneira fiel aos seus talentos ou tendências íntimas, através do entendimento de que “nosso sistema floresce, quando uma criança deseja educação acadêmica” (NEILL, 1965, p. 82). Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 79 Escolas Democráticas e de Resistência A sinceridade, já citada no parágrafo anterior, era entendida por Neill como “a coisa mais vital deste mundo” (Ibid., p. 104). Para ele, quando se tem sinceridade, todas as outras coisas vêm. Além disto, a felicidade deve ser o objetivo, o alvo da vida. O mal da vida, segundo este autor, é tudo quanto limita ou destrói a felicidade. Summerhill não nos oferece nenhuma proposta nova de ensino, mas no que diz respeito à aprendizagem, valoriza a liberdade para a criança querer aprender. “A idéia de não interferência com o crescimento da criança e de nenhuma pressão sobre a criança é que fez da escola o que ela chegou a ser” (Ibid., p. 85), reforçando a idéia fundamental de Summerhill de deixar que a criança expanda seus interesses naturais . Pedagogia A sala do corpo docente de Summerhill era um lugar feliz porque, em liberdade, os docentes conquistavam, como os alunos, a felicidade e a boa vontade. Numa época em o professor era o centro do processo educativo, ou melhor, o centro da aprendizagem, já que esta não era vista como um processo e sim como um produto, capaz de atender às necessidades do mercado Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 80 Escolas Democráticas e de Resistência de trabalho capitalista marcado por homens “máquinas” que pouco precisavam pensar, apenas fazer funcionar as engrenagens da fábrica. A preocupação de Neill não estava em educar crianças para se adaptarem à sociedade e sim para serem felizes, valorizando seus sentimentos interiores e não suas obtenções materiais, ou seja , valorizava o ser e não o ter. Em Summerhill, as crianças tornavam-se o centro do processo de aprendizagem, vivendo em comunidade e aprendendo a auto-gerir suas vidas. Neill submetia a visão intelectual do mundo à compreensão artística e emocional. Seus valores educacionais estavam em aliar a educação a um trabalho terapêutico, cuja preocupação não está propriamente em educar, mas em curar a infelicidade e educar para a felicidade. Para Neill, a felicidade depende de um mínimo de repressão, para que cada um possa sentir suas próprias necessidades e naturalmente conhecer-se em seus desejos, características pessoais e no afeto. A ausência de uma ação moralizadora, assim como o direcionamento para a autonomia das crianças, não significava licenciosidade, uma vez que as crianças deveriam conhecer seus direitos, mas também respeitar o direito dos outros. A educação para a liberdade não significava ausência de regras. A mudança estava na forma como eram aplicadas essas regras. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 81 Escolas Democráticas e de Resistência Trabalhando com a filosofia rousseauniana e com a psicanálise, Neill construiu sua escola sem preocupar-se com métodos de ensino, pois partia do princípio de que a criança, primeiramente, precisava querer aprender. Depois que isso acontecesse, em seu íntimo, aprenderia com qualquer método. Neill acreditava que a sociedade, para ser transformada, precisava da educação: “As pessoas estão sempre me dizendo: Mas como você vai libertar as crianças de adaptarem-se à servidão da vida? Eu espero que estas crianças livres sejam as pioneiras na abolição da servidão da vida”. (Neill apud SINGER, 2000, p. 114) As disciplinas oferecidas em Summerhill incluem: Ciência, Biologia, Física, Química e Matemática; Línguas: Inglês, Francês, Japonês, Chinês; além de Marcenaria, Desenho , Arte, Fotografia, Música, História e Geografia. Neill criticava o fato da educação tradicional formar as crianças para saber e não para sentir, dizendo faltar aos estudantes “o poder de subordinar o pensamento ao sentimento” (NEILL, 1965, p. 24). Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 82 Escolas Democráticas e de Resistência A crítica de Neill está centrada numa sociedade que valoriza muito o intelecto. As atividades ligadas ao corpo, como exercícios físicos, assim como as atividades artísticas, são pouco valorizadas, pois o currículo positivista que caracterizou a formação escolar da maioria dos países nos séculos XIX e XX destacava a importância do caráter científico das disciplinas e encaminhava os jovens para as profissões tradicionais, de cunho científico ou para o serviço técnico associado às máquinas das indústrias em desenvolvimento. Essa sociedade coercitiva deixava poucas opções para os jovens desenvolverem suas potencialidades. A noção de sucesso, associada a uma profissão tecnicista, encontrava em Neill uma oposição. Em Summerhill aconteceram as chamadas Lições Particulares (LPs), que eram práticas freqüentes e consistiam em conversas sem formalidade para crianças com comportamento agressivo ou anti-social. Na verdade era uma terapia, a psicologia educacional, atuando na educação e apresentando sua importância no processo aprendizagem. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 83 Escolas Democráticas e de Resistência Neill foi abandonando as LPs por acreditar no trabalho criador, trabalho manual, danças etc... As LPs eram apenas para desabafos emocionais e não para problemas de aprendizagem, como dificuldade de leitura ou de entender matemática. Alunos A influência da educação militar, que caracterizou todo o século XIX , deixou um resquício de que regras e normas para conduzir a disciplina são impostas e jamais discutidas. Para a educação dar conta das massas, foi usado o sistema militar de disciplina, a fim de facilitar a convivência, nem sempre sadia, entre um grande número de pessoas numa mesma escola. O uso de recompensas e punições acabou por criar ódios e sentimentos de inferioridade reprimidos e expressos no íntimo da convivência doméstica. Para Neill, as crianças que chegavam à escola traziam resquícios destas dificuldades, estampadas em desvios de comportamento . Os alunos de Summerhill têm de 5 a 16 anos e são divididos em três grupos etários: o grupo inicial é formado pelos alunos que tenham dos cinco aos sete anos; o grupo intermediário, alunos de 8 a 10 anos; o grupo dos mais velhos, alunos de 11 a 16 anos. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 84 Escolas Democráticas e de Resistência Geralmente, há presença de alunos estrangeiros. Quase sempre a escola atendia vinte e cinco rapazes e vinte meninas. Em sua maioria, a escola acolhe crianças das classes mais favorecidas economicamente, devido ao equilíbrio necessário para o orçamento, o que, para Neill, “é uma pena isso, pois temos de resumir nossos estudos apenas aos filhos da classe média e às vezes é difícil ver a natureza da criança, quando escondida atrás de muito dinheiro e de roupas despendiosas” (NEILL, 1965, p. 16). Nessa escola, os alunos possuem facilidade para a convivência, porque são livres e sentem-se aceitos e aprovados. Desta forma, é quase certo que não serão arrogantes, pois não haverá nenhum prazer em levar qualquer outro a perder a calma. Pais Neill criticou a educação extremamente severa da Inglaterra vitoriana, ainda presente nas relações entre pais e filhos. Para ele, os pais ideais eram os que diziam: “Summerhill é o lugar para os nossos garotos. Nenhuma outra escola serviria”. Acomodações Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 85 Escolas Democráticas e de Resistência O grupo dos alunos menores é dividido em subgrupos, e recebe uma “mãe da casa” cada um. O grupo intermediário é acomodado no “edifício de pedras” e o grupo dos mais velhos, em cabanas. Os rapazes e moças ficavam em duplas ou em grupos de quatro. Em algumas situações, ocorreu de um ou outro aluno ficar alojado sozinho. Os alunos ficam em liberdade. Não há inspeção dos quartos e ninguém apanha o que eles deixam fora do lugar. Em Summerhill, os alunos usam a roupa que querem usar. Conflitos As discussões ocorrem nas “Assembléias Gerais”, onde são expostas as queixas dos adultos e das crianças. No entanto, não é desencadeada uma hostilidade pessoal e também não há sentimentos “amargos” de uns com os outros. Isto porque “o conflito mantém Summerhill muito animado. Há sempre alguma coisa acontecendo, e durante todo o ano nem um só dia se passa insipidamente” (Ibid., p. 17). Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 86 Escolas Democráticas e de Resistência O uso e estrago de material em Summerhill eram processo natural para ser discutido na Assembléia Geral, assim como todas as questões relativas à convivência coletiva. São as regras comunitárias que regem o dia-a-dia da escola. Neill destacava a importância da liberdade contra os ódios e castigos, mas ressalta que “liberdade não significa anulação do bom senso” (Ibid., p. 19), procurando deixar que a prática das assembléias crie valores de cidadania, como entender os direitos do outro, os deveres de cada um, os problemas trazidos pelo egoísmo e pela falta de solidariedade e desenvolver a noção do respeito nos relacionamentos interpessoais. Funcionamento de Summerhill As informações abaixo foram pesquisadas no livro Liberdade sem medo (1965) e em site da escola Sumerhill na internet : Programação diária: 8h às 9h: 1ª refeição 9h 30min : camas feitas e início das lições (nenhum aluno é forçado a freqüentar as aulas. Os alunos mais antigos não Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 87 Escolas Democráticas e de Resistência costumam faltar a elas. Os alunos novos durante alguns meses se afastam desse compromisso.) 12h 30min/ 13h 30 min: almoço Tarde livre 16h: chá 17h: novas atividades, como leitura para os pequenos, sala de arte/pintura para os intermediários, cerâmica e oficinas de carpintaria e metalurgia para os mais velhos . 18h: jantar 21h 30min: lanche noturno Programação semanal: 2ª feira: à noite, cinema na cidade 3ª feira: livre para os menores. Os mais velhos escutam palestra de Neill sobre psicologia. 4ª feira: noite de dança para todos 5ª feira: livre 6ª feira: ensaios de peças de teatro (sempre criadas na escola pelos alunos) Sábado: Assembléia Geral da Escola: todas as regras escolares são votadas. Cada aluno e cada membro do corpo docente tem um Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 88 Escolas Democráticas e de Resistência voto (o voto de uma criança de seis anos conta tanto quanto o de Neill) Domingo: teatro, totalmente produzido pelos alunos, sendo as peças criadas na própria escola. Autonomia e Democracia: A função da autonomia em Summerhill não significou apenas fazer leis, mas também discutir os fatos sociais da comunidade. O princípio democrático que imperou, em Summerhill, colocava a criança como centro de todo o processo de aprendizagem, vista não apenas pela aquisição de conteúdos teóricos, mas de práticas sociais e valores humanitários. Os princípios de democracia e autonomia se manifestavam nas assembléias semanais onde todos, possuindo o direito de voto, desenvolviam não apenas a retórica e a argumentação, aprendendo a falar em público sem constrangimento, mas o sentimento de cidadania, conscientizando-se de seus direitos e deveres, responsabilidades, autonomia para tomar decisões, Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 89 Escolas Democráticas e de Resistência espírito crítico e poder de avaliação e reflexão sobre as diferentes situações de um cotidiano comunitário: Tudo o que se relaciona com a sociedade, o grupo, a vida, inclusive as punições pelas transgressões sociais, é resolvido por votação nas assembléias gerais da Escola, nas noites de Sábado (...) em cada assembléia há um presidente nomeado pelo presidente anterior e o trabalho da secretaria é entregue a um voluntário (...) os que fiscalizam a hora de recolher dificilmente estão de serviço mais do que alguma semanas... (NEILL, 1965, p. 42). O princípio de liberdade ficou expresso na atuação das assembléias, quando é clara a participação em pé de igualdade entre os jovens e os adultos. Neill acreditava que a geração de jovens pouco críticos ou muito conformistas, sem vontade própria, era resultado de uma educação super protetora no sentido de uma excessiva interferência dos pais na vida dos filhos. O espírito democrático em Summerhill se manifestou pelas leis criadas e votadas nas assembléias ao mesmo tempo que os fatos cotidianos, como comportamento e relacionamento social, entre outros, eram discutidos e resolvidos na comunidade. Já os problemas de ordem psicológica eram resolvidos nas LPs. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 90 Escolas Democráticas e de Resistência Nem todos os aspectos funcionavam sob o regime de autonomia. O planejamento dos cardápios, o pagamento das contas, a nomeação de professores e o pedido de retirada destes são exemplos de aspectos resolvidos exclusivamente por Neill e sua esposa, que também trabalhava em Summerhill. Atividades Gerais As brincadeiras criativas eram estimuladas, seguindo o princípio de que a infância é um período de brincadeiras. O teatro era também estimulado com peças escritas pelos próprios alunos , sempre originais para não cair na reprodução ou imitação. Segundo Neill (1965, p. 65), “representar é um método de se adquirir auto-confiança. Representação espontânea é o lado criador de um teatro-escola , o lado vital”. As aulas de Educação Física, obrigatórias no currículo como temos hoje, não existiam e os exercícios eram feitos através de jogos, brincadeiras , danças, natação e passeio de bicicleta e não Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 91 Escolas Democráticas e de Resistência era obrigatória a participação em nenhuma atividade. Os alunos gostavam também de xadrez, cartas e tênis de mesa. Os alunos trabalhavam também com confecção, costura, escultura, consertos em geral, canto, piano, bandas de música, jornais, revista em quadrinhos etc. Relatório do Ministério da Educação da Grã-Bretanha em Summerhill Consideramos de importância destacar alguns aspectos do relatório de inspetores do Ministério da Educação da GrãBretanha em visita a Summerhill: As crianças são alimentadas com cuidado e fartura; O princípio fundamental na direção da escola é a liberdade, com leis relativas à segurança da vida e à integridade física, criadas pelas crianças; As crianças não são obrigadas a assistir às lições, mas freqüentam nas com regularidade; Não há anarquismo. As leis são feitas por um parlamento escolar que se reúne todo sábado sob a presidência de uma criança com poderes de decisão e legislação. Geralmente o parlamento ou Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 92 Escolas Democráticas e de Resistência assembléia se preocupa com problemas cotidianos da vida em comunidade; Ausência de instituição religiosa; As classes ou aulas são de 40 minutos durante cinco manhãs por semana, semelhante às nossas escolas comuns, mas sem obrigatoriedade de presença; Não há quartos individuais e nem salas separadas para estudo; Encorajados à responsabilidade e integridade de valores; Trabalho essencial está baseado no interesse da criança e os estudos não são direcionados à cobrança ou exigências dos exames. Segundo Neill (1965, p. 56), o motivo que leva Summerhill a receber tão bons relatórios está no fato de que, ao terminarem o período escolar, como jovens adultos, os rapazes e moças “estão capacitados para enfrentar as realidades da vida sem qualquer nostalgia inconsciente em relação aos jogos da infância”. A escola jamais teve dificuldade com o Ministério, visto que todas as visitas eram recebidas com cortesia e em clima amistoso. Summerhill Hoje Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 93 Escolas Democráticas e de Resistência Summerhill é dirigida, nos dias de hoje, pela filha de Neill, Zoe. Funciona desde 1921 com as mesmas características da época de Alexander Neill. O sucesso de Summerhill, embora este nunca tenha sido a meta de seu fundador, está em promover o autoconhecimento, tornando as crianças em homens e mulheres realizados, conforme a idéia de Neill de que a escola deveria ajudar as pessoas na função de escolher sua própria vida, seus próprios valores e não se importar com a vida que seus pais desejariam para eles. Summerhill ainda não se preocupa em discutir métodos e práticas de ensino, investindo no desejo do aluno em aprender, como meta principal. Ultimamente Summerhill tem enfrentado a luta com o governo britânico que ameaça destruir a filosofia de Neill e fechar a escola. O apoio recebido de todas as partes do mundo tem permitido a continuação da escola e de sua filosofia educacional, segundo as palavras do próprio Neill: “uma escola livre”. Summerhill se destaca nos dias de hoje por dois aspectos primordiais: O primeiro é que todas as aulas são opcionais, professores e salas estão disponíveis, mas as crianças decidem se Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 94 Escolas Democráticas e de Resistência querem ou não assistir às aulas. Isso dá a elas liberdade e significa que as crianças que assistem às aulas estão interessadas. É comum as pessoas pensarem que as crianças não assistem às aulas, mas hoje, como ontem, é raro uma criança não comparecer a uma aula , nem que seja porque esgotou sua capacidade de liberdade. O segundo aspecto típico das teorias de Neill é o encontro de toda a comunidade escolar nas assembléias semanais , onde as leis são feitas , ou seja, toda a conduta e a vida na comunidade é regida por essas regras. Ainda hoje as críticas como aquelas que dizem : “escola onde as crianças fazem o que querem” são ouvidas como antes, mas Summerhill continua sendo uma comunidade com aproximadamente 70 crianças que estudam e aprendem a viver em comunidade e com liberdade pessoal. A política financeira de Summerhill sempre foi de contar mais com a participação dos alunos e não depender de contratos com firmas ou de políticas públicas. No entanto, está cada vez mais difícil receber ajuda financeira das famílias, como acontecia em outros tempos (amigos e familiares enviavam ajuda financeira). De ano para ano os custos aumentam e há necessidade maior de ajuda financeira. Para tentar solucionar esse problema existe uma página na internet onde é possível mandar donativos para projetos específicos, como patrocinar uma criança, programas assistenciais, Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 95 Escolas Democráticas e de Resistência cursos de treinamento de professores, materiais de ensino sobre direitos das crianças, entre outros. Conclusão Summerhill representa até os dias de hoje, um local onde a valorização humana é praticada acima de tudo. Isto acontece porque lá acredita-se que a vida, por si só, já apresenta dificuldades inúmeras, o que dispensa totalmente a necessidade de que a escola prepare suas problemáticas artificiais. À escola, esta ou qualquer outra, não cabe dificultar, mas “fazer da vida da criança um brinquedo” porque de uma forma ou de outra, a vida da criança não será um “caminho de rosas” (NEILL, 1965, p. 107). Nessa escola todos se sentem parceiros, porque às crianças e jovens é dado amor e aprovação. O fato de crianças e jovens serem diferentes dos adultos não retira destes ou daqueles o direito de serem tratados com igualdade e respeitados em sua total plenitude, que envolve personalidade e individualidade. De acordo com o fundador de Summerhill, “se as escolas e as famílias oferecessem ambiente onde reinam amor e aprovação, Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 96 Escolas Democráticas e de Resistência sem uma disciplina paternalista, boa parte dos problemas da infância seriam resolvidos e jamais a maldade, o ódio e a tendência destruidora apareceriam” (NEILL, 1965, p. 150). A educação proposta por Neill implica autoconhecimento, em respeito ao outro, em limitar-se à obediência somente em caso de riscos ao coletivo, em desenvolver o amor e buscar a felicidade. Ele acreditava que o ódio era fruto de uma educação coercitiva, intervencionista, que impossibilitava a expansão das tendências e valores do indivíduo que, reprimido, reagia violentamente ou através de transgressões que refletiam sua angústia pela infelicidade e pela falta de compreensão. Neill submetia a visão intelectual do mundo à compreensão artística e emocional. Seus valores educacionais estavam em aliar a educação a um trabalho terapêutico, cuja preocupação não está propriamente em educar, mas em curar a infelicidade e educar para a felicidade. Para Neill a felicidade depende de um mínimo de repressão para que cada um possa sentir suas próprias necessidades e naturalmente conhecer-se em seus desejos , características pessoais e no afeto. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 97 Escolas Democráticas e de Resistência A preocupação em tornar o ambiente escolar um lugar feliz não era comum naquela época e talvez que nem mesmo hoje, em alguns estabelecimentos de ensino, assim como o respeito absoluto às crianças, tratadas com dignidade com os mesmos direitos dos adultos. A grande novidade no sistema proposto por Neill pode estar na valorização do pensamento e da imaginação infantil, tratando-se assim de um olhar respeitoso para o mundo da criança, que efetivamente passa a existir nessa conjuntura. Summerhill poderia, talvez, ser melhor entendida como uma clínica de aprendizagem, uma vez que os problemas de ordem psicológica e o foco do ensino se encontram num processo de expansão das características pessoais dos jovens alunos. Referências NEILL, A . S. Liberdade sem medo. São Paulo: IBRASA, 1965. GADOTTI, M. História das idéias pedagógicas. São Paulo: Editora Ática, 1999. SINGER, H. República de crianças. São Paulo: FAPESP, 2000. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 98 Escolas Democráticas e de Resistência 5 - Sudbury Valley School: Uma experiência que deu certo Paula Soffiati21 A parte triste da história é que as crianças que vêm de escolas públicas e têm um temperamento questionador, que realmente não se preocupam com a escola, não prestam atenção ao que seus professores estão dizendo e não toleram o vazio das salas de aula são rotuladas de problemáticas enquanto aquelas crianças que aceitam tudo sem questionar, são as tratadas como “normais”. Daniel Greenberg Introdução A década de 60 foi um período marcado por inúmeras transformações políticas e sociais no mundo. De uma forma geral, foi um período caracterizado por movimentos populares predominantemente juvenis, onde se questionava o modelo econômico capitalista de prosperidade e o regime político vigente. Nos Estados Unidos, a década de 60 foi um período conturbado principalmente pelas conseqüências da guerra do Vietnã, onde milhares de soldados americanos morreram, contribuindo para uma insatisfação popular geral contra o governo americano. Nesse contexto, muitos jovens que se recusaram a ir lutar no Vietnã aderiram ao movimento hippie, questionando toda a ordem política vigente e buscando uma revolução de valores e de cultura. Um outro movimento marcante na história americana foram os 21 Mestranda em Educação na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 99 Escolas Democráticas e de Resistência “Panteras Negras”, uma organização que surge para reivindicar o direito dos negros ao mesmo modelo democrático americano dos brancos. Essa organização se fortalece a partir do assassinato de Martin Luther King, em Abril de 1968 quando eclodem em todos os Estados Unidos inúmeros movimentos populares em protesto a esse acontecimento. Nesse contexto de profundo questionamento e busca da real democracia, surgem inúmeras propostas educacionais alternativas; escolas que buscavam modificar o modelo político-econômico vigente, a partir de sua própria estrutura e pedagogia. A Sudbury Valley School surge neste cenário o objetivo de oferecer uma educação segundo um modelo democrático tanto na teoria quanto na prática. Sudbury Valley School A escola Sudbury foi fundada em 1968, no estado de Massachussets, a partir de um grupo de professores liderados por Daniel Greenberg, que buscavam uma proposta educativa diferente das escolas formais. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 100 Escolas Democráticas e de Resistência Localizada em uma mansão do século XIX, em uma área de 10.000 hectares de bosques e lagos, Sudbury parece um lar em vez de uma escola. Em vez de salas de aula com quadro e carteiras, as salas são decoradas de forma a parecer com um lar e não com uma escola. Apresenta uma filosofia democrática e participativa em essência: as crianças e jovens são livres para fazer aquilo que desejarem com ou sem as outras crianças ou os professores. E tudo é decidido em conjunto: professores e alunos de todas as idades que discutem e opinam sobre todas as questões da escola com direitos iguais a voto. Política pedagógica A política pedagógica de Sudbury é baseada em 4 premissas: 1) Considerar que todas as crianças são curiosas por natureza; 2) Considerar que a mais profunda e duradoura aprendizagem começa, quando o próprio aprendiz deseja aprender, ou seja, a partir de sua própria vontade e não da vontade da escola; 3) Considerar que todas as pessoas são criativas e se a elas for permitido desenvolver seus talentos cada uma terá um dom especial e uma particularidade; 4) Considerar que a mistura de idade entre os estudantes só contribui para o crescimento de todos os membros do grupo. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 101 Escolas Democráticas e de Resistência Na prática, todos estes princípios significam que os estudantes iniciam suas próprias atividades e criam seus próprios ambientes no momento em que tiverem o interesse e o desejo de aprender. A escola oferece um ambiente no qual os estudantes são independentes e tratados como se fossem adultos responsáveis. Segundo Daniel Greenberg, fundador da escola, a criança de quatro anos já é capaz de fazer julgamentos, ou seja, já é capaz de escolher o que quer fazer,se vai dormir ou brincar. No momento em que ela já é capaz de julgar, de avaliar situações e tomar decisões ela está pronta para viver como um adulto e ser respeitada como tal. O mecanismo mental para fazer um julgamento é o mesmo na criança e no adulto: o que diferencia as decisões de um adulto das decisões de uma criança é o grau de complexidade com que são analisadas as informações e as variáveis que são levadas em conta durante todo o processo decisório. Mas o processo de julgamento é o mesmo em uma criança de 4 anos, em um jovem de 15 ou em um idoso de 60. Por isso as crianças devem ser ouvidas e respeitadas, devem ser tratadas com a mesma consideração e responsabilidade de um adulto. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 102 Escolas Democráticas e de Resistência Dia a dia em Sudbury Valley Segundo depoimento de pais e professores, a atmosfera da escola é de movimento e dinamismo. O barulho, as vozes, os sons indicam completo envolvimento dos alunos nas atividades e refletem o pleno exercício da autoconfiança de estudantes que estão buscando atingir seus objetivos; estabelecidos por eles mesmos. A qualquer momento do dia, os estudantes em Sudbury estão fazendo o que eles desejam, com intensidade e concentração. A maioria não está preocupada com o seu aprendizado em si, ou quando ele acontece. Segundo Daniel, “fazer o que eles desejam é o básico; a aprendizagem é conseqüência”. Adultos e crianças se misturam ; existem inúmeras atividades diárias em Sudbury: laboratório de informática, aula de dança, oficina de madeiras, oficina de música, francês, matemática,biologia ou jogos de xadrez e RPG (Role Playing Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 103 Escolas Democráticas e de Resistência Game)22 Os alunos podem optar ainda por atuar na área administrativa da escola ou simplesmente conversar com outros alunos e professores. “Em Sudbury sempre é possível encontrar pessoas brincando felizes e ocupadas, dentro da casa ou fora dela, em qualquer estação do ano e com qualquer temperatura. Sempre temos grupos conversando e pessoas mais quietas lendo por toda parte.” (Declaração no site oficial da Escola) Conteúdo Os estudantes escolhem tudo o que querem fazer em Sudbury, mas não significa necessariamente que estarão escolhendo as atividades mais fáceis. Um olhar mais detalhado mostra que os estudantes se desafiam, escolhendo atividades para as quais não têm todo o conhecimento prático ou teórico. Eles têm consciência – desde o menor deles até o mais velho – que são os únicos responsáveis por sua educação. E sabem, 22 Role Playing Game: jogo interativo onde o jogador assume o papel de um personagem com pontos fortes e fracos e precisa, através do processo de tomada de decisões, enfrentar desafios e cumprir uma missão pré definida. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 104 Escolas Democráticas e de Resistência sentem que a eles foi dado em grande voto de confiança para se desenvolverem da melhor maneira que acharem. De acordo com artigos publicados por Daniel, é possível observar ao longo dos anos, que muitas crianças buscam justamente atividades desafiadoras para aprender: ou porque têm autoconfiança para experimentar e amadurecer ou porque querem curar traumas vividos em escolas ou experiências anteriores. Dessa maneira, deixá-las completamente livres não significa que não irão se desenvolver ou amadurecer; as crianças sabem desde o primeiro momento que em Sudbury elas são responsáveis por seu próprio aprendizado. Embora a escola não tenha um currículo formal como as outras, os estudantes desenvolvem habilidades e ferramentas que serão extremamente úteis para suas vidas quando adultos: Aprendem como se concentrar; Como ponderar questões de ordem ética; Aprendem a pedir o que querem e a se mobilizar para conseguir; Aprendem a experimentar e ser bem sucedidos.. A experimentar e fracassar e daí tentar novamente. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 105 Escolas Democráticas e de Resistência Estrutura da escola A escola é governada segundo um modelo de comunidade democrática e participativa. Os estudantes são totalmente responsáveis pelo andamento operacional da escola e pela qualidade de vida dela. A estrutura administrativa da escola é composta pela Assembléia, pelo Encontro Escolar e pelo Comitê Judicial. A Assembléia é formada pelos alunos, pais e professores. Os pais têm forte papel na definição das políticas da escola. Legalmente, a escola é uma organização sem fins lucrativos e cada pai torna-se um membro participante de assembléia com direito a voto. Essa assembléia acontece, pelo menos uma vez ao ano, para decidir políticas e questões estratégicas. As tarefas e problemas diários da escola são tratados no Encontro Escolar (School Meeting) onde participam todos os estudantes e o staff (funcionários e professores) todos com direito a voto. Todos os assuntos relativos às atividades operacionais da escola são tratados nesse encontros que acontecem uma vez por semana. Por exemplo:as regras de comportamento, contratação/demissão de Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 106 Escolas Democráticas e de Resistência funcionários, gastos, enfim todas as rotinas que acontecem na instituição são determinadas através de debate e voto. O comitê judicial trata de questões relacionadas ao respeito às regras da escola. Tem autonomia para investigar a queixa, julgar e atribuir a pena. Em casos mais graves, o Comitê submete o infrator a julgamento. O Encontro Escolar é uma reunião semanal onde participam alunos e professores para decidir questões operacionais do dia-a dia da escola: contratar e demitir funcionários, reformas, biblioteca, entre outros. Não existe um processo formal de avaliação como nas escolas formais. Em Sudbury, a avaliação final para a formatura do aluno é a defesa de uma tese mediante a Assembléia, onde o aluno responde a duas horas de perguntas e ao final, é aprovado ou não. Quando sai de Sudbury, o aluno recebe um diploma que é reconhecido formalmente no modelo educacional americano. A escola é filiada à Associação de Escolas Alternativas de Massachussets e por isso seu diploma é reconhecido. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 107 Escolas Democráticas e de Resistência As admissões são feitas em qualquer período do ano, bastando para isso que o aluno tenha 4 anos ou mais e tenha condições mentais e físicas plenas para atuar em uma escola. A escola não leva em conta o passado do aluno em outras escolas ou sua origem étnica. Não é uma escola pública, existe uma mensalidade anual que varia de 3000 a 5000 dólares por ano. Quando o aluno tem interesse em se matricular em Sudbury ele fica na escola por uma semana , o chamado período de adaptação. Reflexões Greenberg levanta algumas questões interessantes para reflexão, tentando explicitar as principais dificuldades das crianças que ingressam na escola. Ele enumera 4 fatores que contribuem decisivamente para o desenvolvimento saudável da criança: habilidade de comunicação, o papel dos pais, o poder para as crianças e o conflito da criação das crianças vs. a sua natureza humana. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 108 Escolas Democráticas e de Resistência Segundo ele, algumas crianças que chegam à Sudburry não conseguem se comunicar. Elas permanecem a maior parte do tempo caladas e de uma certa maneira a atmosfera comunicativa e enérgica da escola as intimida. Essas crianças já apresentam um histórico de baixa ou nenhuma autoconfiança devido ao tratamento diferenciado que recebem na sociedade de uma forma geral. Em nossa sociedade, a criança não deve participar de determinados assuntos, não deve falar a não ser que seja solicitada e muitas vezes sua opinião é vista com descrédito. Simplesmente porque são crianças. Em função disso, as crianças não desenvolveram sua habilidade de comunicação e se não conseguirem superar esta dificuldade, não conseguirão se adaptar à escola. Por isso, Sudbury não é uma escola para todas as crianças. Um outro fator decisivo, é o papel dos pais. Segundo Daniel Greenberg, os pais são outra fonte potencial de danos à criança. Ele destaca um perfil de pais no qual educam seus filhos para sempre agradá-los. Essas crianças não desenvolvem o discernimento e tampouco sua capacidade de refletir e decidir, porque sempre buscam agradar a seus pais. Greenberg destaca uma situação especialmente delicada onde o pai concorda com a política da escola, mas a mãe está receosa que seu filho freqüente a escola. Neste caso, a criança já vivência um conflito e ansiedade porque simplesmente não pode agradar aos pais . Este conflito compromete muito seu desenvolvimento cognitivo e afetivo. Uma Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 109 Escolas Democráticas e de Resistência outra situação, citada por Greenberg, são as famílias onde um filho não se adaptou à escola formal e por isso foi matriculado em Sudbury. A criança já chega à escola com o sentimento de fracasso, ciente de que se “fosse realmente competente” estaria na escola formal com seus irmãos. Isso também pode comprometer definitivamente o amadurecimento desta criança. Um outro fator igualmente importante é a prática da democracia, incluindo as crianças e os jovens. Greenberg costuma repetir a frase: “todo poder às crianças e aos jovens” como uma maneira simples de compreender o que significa estudar em uma escola democrática. A maioria das crianças que chegam, já sofreram, em algum momento de suas vidas, situações de falta de respeito à sua pessoa ou a suas idéias. Em nossa sociedade, de uma forma geral, a criança não é respeitada, porque se acredita que ela ainda não é um adulto e por isso deve se comportar e não se envolver em determinados assuntos. Para essas crianças é muito difícil participar ativamente das questões da escola, posicionar-se, expressar sua opinião. De alguma forma, elas sempre esperam a hora em que um adulto irá intervir e lembrá-la de seu lugar na escola. Segundo Greenberg, é possível verificar essa situação no Encontro Escolar. Embora se tenha uma presença significativa de Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 110 Escolas Democráticas e de Resistência jovens, aqueles que apresentam falta de autoconfiança dificilmente se posicionam e votam. E o último fator é a sobreposição da criação à natureza humana. Segundo Greenberg, a forma de fazer uma criança aprender é deixa-la solta, livre, para que inicie seu aprendizado no tempo em que desejar. Desta maneira, ele questiona: que sentido tem em quebrar o dia da criança em tempos e em cada um tratar de um assunto diferente? Dessa maneira, ela adquire conhecimento, mas não aprendizado. De acordo com a filosofia da escola, somente através da liberdade e democracia, a criança terá condições de exercer de fato sua autonomia e seu poder de decisão e com isso aprender. Conclusão Pesquisar sobre a experiência de uma escola democrática é uma tarefa empolgante. Não somente pela proposta revolucionária de educação, mas pela coragem de se propor e vivenciar uma situação democrática. Ao longo da pesquisa e da leitura dos artigos de seus fundadores, é possível perceber que o que a escola representa hoje foi resultado de anos de dedicação e de luta constante, a favor de um ideal maior de democracia e igualdade. No início de sua vida, a Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 111 Escolas Democráticas e de Resistência escola passou por vários momentos de crise: a esperada acolhida calorosa da sociedade não aconteceu, como menciona Greenberg em um de seus artigos; o sentimento de frustração e de fracasso por muitas vezes esteve presente nas reuniões principalmente na primeira década de vida da escola. Depois, com o passar dos anos, quando a comunidade foi capaz de perceber os frutos que a escola poderia prover, esta situação começou a se inverter. Hoje Sudbury é referência pedagógica e por que não dizer filosófica de inúmeras escolas. Oficialmente são 31 escolas no mundo que seguem esse modelo. Sudbury Valley School contribui enormemente para uma visão de escola viável, de escola transformadora e formadora do caráter das crianças e dos jovens. Enquanto vemos escolas formais apresentando projetos pedagógicos belíssimos, a prática muitas vezes se distancia da teoria e o que vemos são escolas que reproduzem o modelo social e econômico vigente. Vemos que a inspiração dessa escola tem pontos em comum com a corrente de uma educação libertadora e conscientizadora. Possibilitar a aprendizagem em um ambiente propício ao questionamento, a compreensão de sua situação e de seu papel na sociedade e na comunidade é fator decisivo para a prática da democracia. O indivíduo só é capaz de criticar e aprimorar Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 112 Escolas Democráticas e de Resistência conceitos e experiências, se ele está consciente de sua individualidade e seu lugar no mundo. Desta maneira, Sudbury permite a prática de uma pedagogia libertadora, a partir do exercício diário da democracia. Essa escola tem uma proposta diferente: ser ela própria o modelo de sociedade que gostaria de ver acontecer. Enquanto ela não tem muitas características formais, seus alunos aprendem a ter uma atitude digna e íntegra para a vida inteira, sendo realmente capazes de levar para a sociedade a experiência positiva de democracia vivida na escola. Segundo Daniel Greenberg, na era da informação, o jovem deve desenvolver determinadas características para atuar nesta nova sociedade: habilidade de comunicação, criatividade, discernimento, consciência social, solidariedade, espírito de equipe, enfim diversos aspectos que contribuem decisivamente para uma sociedade mais justa e menos sectária. E todas estas características só podem ser desenvolvidas, se existe um ambiente propício, democrático e ao mesmo tempo acolhedor. Fica então a pergunta para reflexão: se a sociedade atual busca um ser humano consciente, autônomo e criativo, como as nossas escolas de hoje podem contribuir para formar tal pessoa, se estão preocupadas com a formação acadêmica e não a formação para a Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 113 Escolas Democráticas e de Resistência vida? A resposta de Daniel Greenberg a este questionamento é simples: “As crianças devem estar no poder”. Referências SINGER, H. República das Crianças: Sobre Experiências Escolares. São Paulo: Hucitec, 1998. FREIRE, P. A Pedagogia Do Oprimido. 27. Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1987. GREENBERG, D. Diretor de Sudbury Valley School. Disponível Em: <Http://WWW.SUDVAL.ORG.BR> Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 114 Escolas Democráticas e de Resistência 6 - Desmitificação da escola: Desescolarização da sociedade José Aires Trigo23 Rafael Camillo R. da Costa24 “... as escolas são fundamentalmente semelhantes em todos os países, sejam fascistas, democráticos ou socialistas, pequenos ou grandes, ricos ou pobres. Esta identidade do sistema escolar nos força a reconhecer a profunda identidade universal do mito, o modo de produção e o método de controle social, apesar da grande variedade de mitologias em que o mito é expresso”. (Illich,1977, p.126) A Força do Mito Muito antes de o mundo vislumbrar os primeiros raios do alvorecer da cultura clássica, os homens já se valiam dos mitos para explicar e compreender as complexas relações que os uniam à natureza, ao universo, a Deus e aos outros homens. Ainda hoje, não somente nas sociedades tribais, mas também no seio das mais avançadas culturas da atualidade, o mito permanece presente: não para explicar e compreender a realidade das coisas; mas, talvez, para conduzir os espíritos humanos, conforme os “interesses” das instituições. A força do mito nas culturas humanas assume proporções inimagináveis em razão de sua própria natureza irracional, não cartesiana, não-linear, não-metodológica, atemporal, intercultural, Bacharel em Ciências Econômicas, licenciado em Matemática, especialista em Educação Matemática, mestrando em Educação UFRJ. 24 Bacharel em Letras, mestrando em Educação UFRJ. 23 Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 115 Escolas Democráticas e de Resistência pancultural, fantástica (porque o mito é o fantástico, o maravilhoso). Talvez esta sua última qualidade seja a principal, a primordial, pois o espírito do homem pós-moderno é carente do elemento mágico que reveste o mito; daí a supervalorização do religioso nas culturas humanas de todos os tempos, porque a religião tem por base elementar o mito, seja ela a judaico-cristã, mulçumana, budista ou druida. É através dele que o indivíduo busca os meios necessários para abrandar “as dores” de sua condição humana. Graças a esse caráter, o mito é um dos canais mais adequados para se introduzir um elemento de controle e manipulação no espírito humano, pois o homem carece de algo que lhe dê, em certa conta, a expectativa de estar-se entregando a uma “força” socialmente cultuada, a qual trará “certezas”. O mito, em síntese, retira sua força da necessidade do homem de acreditar, de ter fé em algo maior, incompreensível, mas aceito por todos. A Escola tornou-se um mito universal por conta do esforço feito em disseminar a idéia de que ela é a única instituição capaz de mudar o destino do homem: tirá-lo de uma condição de ignorância, desprestígio social, de fragilidade moral, de ausência de perspectivas/expectativas emancipatórias na luta contra a desigualdade social. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 116 Escolas Democráticas e de Resistência Se por um lado a Escola arrogou-se o direito de dar rumo ao destino do homem na Terra, tal qual as religiões fazem com o destino dos homens no pós-vida; por outro, buscou sustentar-se, durante todos esses séculos, na incontestabilidade do parecer científico e na credibilidade das instituições que a mantêm. Apesar de cada sociedade manifestar o Mito Escola de maneiras diversas, este conserva suas características básicas: a incontestabilidade e a credibilidade. Destruindo o Mito A Escola tornou-se a religião universal do proletariado modernizado, e faz promessas férteis de salvação aos pobres da era tecnológica. (Illich,1977, p.35). As críticas dirigidas à Escola, ao modelo escolar e à maneira como se dão as relações entre os indivíduos e a Escola não constituem novidade na cultura ocidental. Rousseau, no Século das Luzes, já questionava e propunha alternativas que substituíssem a instrução formal ministrada na época por novas práticas que valorizassem o Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 117 Escolas Democráticas e de Resistência indivíduo em detrimento da própria sociedade e de suas instituições. A partir da Escola Nova de Dewey, Montessori, Anísio Teixeira, já havia um movimento organizado de renovação cultural que primava pela transformação da Escola e de suas relações com o indivíduo. Tal movimento visava, sobretudo, a adequar a Escola às novas demandas sociais que se impunham no século XX. Após a segunda metade desse século, a Escola, concebida nos padrões formais aos quais estamos habituados, sofre importantes críticas que dão azo à criação e à implementação de modelos escolares alternativos, os quais se prestam a valorizar a liberdade do indivíduo diante das escolhas oferecidas pela vida e a busca pela felicidade. Ainda hoje, algumas dessas “escolas” alternativas se mantêm, mesmo sendo vistas com maus olhos pela comunidade acadêmica, pelo Estado e pela sociedade, como os únicos e últimos esforços despendidos no sentido oposto ao da educação formal representada pela Escola. Neste sentido, é preciso citar como exemplos desta resistência: SummerHill e a Escola da Ponte. Apesar de se criticar e de se pensar em soluções alternativas para Escola e paraeducação formal, há vários séculos, ninguém foi tão ousado quanto Illich, ao propor a desescolarização da sociedade, ou melhor, a destruição do Mito Escola. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 118 Escolas Democráticas e de Resistência Para ele, a Escola é antes de tudo um eficaz instrumento de dominação e de inculcação ideológica que visa, atualmente, a dar suporte a um sistema econômico globalizado baseado na polarização social e, principalmente, na criação de vínculos de dependência entre os indivíduos e as instituições. Nesta concepção, a Escola é também um produto que se vende e do qual se fazem campanhas publicitárias que pretendem aumentar sua margem de penetração no imaginário social dos indivíduos, aumentando, desse modo, seu valor. Sendo assim, A escola nos inicia também no Mito do Consumo Interminável. Este mito moderno se fundamenta na crença de que o processo produz, inevitavelmente, algo de valor e, por isso, a produção cria necessariamente a demanda. (Illich,1977, p. 75) Concebendo a Escola como um processo de produção que gera uma demanda, o pensador chega à seguinte conclusão: a escola nos ensina que a instrução produz aprendizagem. A existência de escolas produz a dependência pela escolarização. E finda por justificá-la, dizendo: “uma vez que aprendemos a necessitar da escola, todas as nossas atividades vão assumir a forma de relações de clientes com outras instituições especializadas”, instalando-se, deste modo, “o hábito do consumo dos bens e dos serviços, o qual nega a expressão individual, que aliena, que leva a reconhecer Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 119 Escolas Democráticas e de Resistência as classes e as hierarquias impostas pelas instituições” (Illich, 1974, p. 9). Além destas críticas, Illich (1974) faz severas censuras ao currículo, aos professores e às práticas pedagógicas empregadas na Escola as quais geram desigualdades, sonegando ao aluno o direito de aprender aquilo verdadeiramente relevante para si, no momento adequado, com mestres escolhidos, não impostos por uma instituição, e ao lado de quem compartilha das mesmas aptidões e necessidades. Segundo Illich, citado por GONÇALVES, F. M. D.; NUNES, A. M. R.; SILVA, C. S. R. (2003): Os alunos estão sujeitos a currículos extensos e repetitivos, dados de forma demasiado rápida e superficial. Os professores, já habituados a esta rotina, não dão a possibilidade de aprofundar um ou outro tema que mais interesse aos alunos, nem são capazes de atender às necessidades específicas de cada aluno. A escola passa assim a ser um local de desigualdades e de conflitos, uma vez que alguns se adaptarão melhor do que outros Para Illich, o fato de a escolaridade ser obrigatória só agrava essa situação, pois aqueles que não conseguem se adaptar aos Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 120 Escolas Democráticas e de Resistência currículos obrigatórios e aos métodos de ensino praticados, arrastam-se durante anos na escola, sem nada terem aprendido de válido, perdendo a sua auto-estima. Quando finalmente deixam a escola, esses alunos não estão preparados para ingressar no mundo do trabalho. Por esta razão, não é raro nos depararmos com jovens desanimados, desapontados e sem grandes perspectivas de futuro. Entretanto, os alunos que decidem abandonar a escola, antes de terminarem a escolaridade obrigatória, enfrentarão problemas ainda mais graves, porque: se com a escolaridade obrigatória ainda há a possibilidade de inserção no mercado de trabalho; sem ela, esta possibilidade torna-se bastante remota. Illich defende que, apesar de já haver a consciência da ineficácia e da injustiça contidas no sistema educacional moderno, não somos ainda capazes de aceitar alternativas para a Escola, nem de conceber uma sociedade sem escolas. Por essa razão, é necessário "criar entre o homem e aquilo que o rodeia novas relações que sejam fontes de educação, modificando simultaneamente as nossas reações, a idéia que fazemos do desenvolvimento, os utensílios Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 121 Escolas Democráticas e de Resistência necessários para a educação e o estilo da vida quotidiana” (Illich, 1974, p. 6). As Redes e seus Propósitos A Escola é ineficiente no ensino de habilidades, principalmente, porque é curricular. (Illich, 1977, p. 44) Crítico feroz da Escola e das instituições públicas e privadas existentes, Illich sustenta a hipótese de que o seu aparecimento está relacionado às necessidades da própria sociedade. Em virtude disso, é bem provável que a sua criação origine problemas e novas necessidades, às quais a sociedade responde com a criação de mais instituições. Cria-se, assim, um círculo vicioso que se encontra bastante evidente, sobretudo, na Educação. A afirmação de Illich de que os indivíduos escolarizados “trocaram a esperança pela expectativa”, é agravada pela universalização das expectativas, ou seja, as que estão incutidas nos ideais de um jovem de classe alta de um país de primeiro mundo são as mesmas de um jovem de classe baixa de um país subdesenvolvido. A nova alienação do mundo está baseada em um currículo escolar “rígido”, que não leva em consideração as Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 122 Escolas Democráticas e de Resistência nuanças socioeconômicas, agravando cada vez mais o abismo entre esses mundos. O espaço escolar, que deveria ter como objetivo final o desenvolvimento do ser humano, acaba por dar mais valor à escolarização do que à construção do conhecimento. Assim, ficamos com uma “escola” cada vez mais excludente e alienante. Em virtude dessas “constatações”, Illich propõe a criação de redes de aprendizagem capazes de dar conta da Educação dos indivíduos sem a necessidade da Escola e que, ao mesmo tempo, respeitem e garantam a liberdade dos indivíduos para buscar os conhecimentos e as informações que desejam, independentemente de idade, sexo, credo, raça, direitos autorais ou intelectuais e, principalmente, de pré-requisitos, tais como: nível de escolarização, diplomas etc. Além disso, em virtude do monopólio dos “objetos educativos”, quer pela Escola, quer pela iniciativa privada, Illich defende a idéia de que qualquer bem-de-consumo deve estar à disposição de todos que dele desejem retirar alguma experiência educativa. Em resumo, Illich aponta a existência de quatro espécies de recursos ou Redes, que estarão à disposição de todos, nas quais a educação sem escolas se baseia e a partir das quais se estabelece a função das novas instituições educativas: um serviço de consulta a Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 123 Escolas Democráticas e de Resistência objetos educacionais, isto é, os instrumentos, as máquinas e os aparelhos utilizados para a educação formal; um intercâmbio de habilidades, que seria baseado em uma lista atualizada de pessoas desejosas de dividir o seu conhecimento, mencionando as condições em que gostariam de fazê-lo; o encontro de pares, uma verdadeira rede de comunicações, que registraria a lista das pretensões em matéria de educação daqueles que se lhe dirigissem para encontrar um “par” de trabalho ou de pesquisa e um serviço de consulta a educadores que permitiria estabelecer uma espécie de catálogo onde se encontrariam os endereços dessas pessoas, profissionais ou amadores. Em linhas gerais, a defesa do direito de livre acesso aos instrumentos de ensino e de partilhar conhecimentos e crenças com outros pressupõe uma revolução educativa que: torne livre o acesso às coisas, abolindo o controle que as entidades particulares e as instituições exercem sobre o seu valor educativo; torne livre a partilha das aptidões, garantindo o direito de ensiná las ou de demonstrá-las a pedido; torne livres os recursos criadores e críticos dos seres humanos, restituindo a todo indivíduo o poder de convocar reuniões ou de participar nelas e liberte o indivíduo da obrigação de limitar as suas esperanças de acordo com os serviços que podem oferecer-lhe as profissões estabelecidas. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 124 Escolas Democráticas e de Resistência Conclusão Em um mundo onde as premissas das grandes instituições dominam a sociedade e o que está fora dos padrões não merece atenção, raramente temos a oportunidade de ter contato com as idéias de um crítico como Ivan Illich. Seus comentários, não raro incômodos, nos fazem refletir sobre uma série de verdades ditas “absolutas”, tais como a inquestionabilidade da demanda de escolarização e das certificações emitidas pelas Escolas. Romper completamente com a Escola é uma coisa que nos intimida, pois, após anos de formação escolar, não nos apercebemos de que ensino e aprendizagem não são a mesma coisa e que apesar de cada vez mais despendermos tempo na formação do indivíduo, muitas vezes os aprendizados mais importantes e prazerosos se dão fora da Escola. A remodelação dos valores concernentes ao processo de construção do conhecimento, no que se refere à escolarização, não só tem justificado a Escola mas também vem referenciando o mito da sua necessidade, além de criar uma nova classe social: os não-escolarizados. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 125 Escolas Democráticas e de Resistência A educação oferecida pelas Escolas tende a satisfazer aos objetivos de inserção do indivíduo na sociedade de consumo. A complexidade dos processos produtivos aliada a uma educação dissociada das verdadeiras necessidades das pessoas, finda por acelerar um processo de alienação do Homem, facilitando a opressão das classes menos abastadas. As idéias de Ivan Illich são atualíssimas. A Escola vem perdendo cada vez mais em qualidade enquanto as informações e a possibilidade de adquirir conhecimento estão cada vez mais acessíveis. Na contra-mão do aprendizado por vias não normais, está a necessidade crescente de certificados que atestem “conhecimento”, o que alimenta o mito da escolarização apesar da falência do sistema vigente. Assim, mesmo que ainda seja muito difícil enxergar uma sociedade sem Escolas, devemos ao menos repensar o modelo atual. Referências CAMBI, Franco. História Da Educação. Tradução: Álvaro Lorencini. São Paulo: Unesp,1999. GONÇALVES, F. M. D.; NUNES, A. M. R.; SILVA, C. S. R. Ivan Illich. Lisboa, 2003.Trabalho apresentado na Disciplina De Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 126 Escolas Democráticas e de Resistência História E Filosofia da Educação: Faculdade de Educação, Universidade De Lisboa. Disponível Em: <http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/illich> Acesso Em: Set. 2003. ILLICH, I. Sociedade sem Escolas. 4. Ed. Tradução: Lúcia Mathilde Endlich Orth. Petrópolis: Vozes, 1977. MORIN, E. Os Sete Saberes Necessários À Educação do Futuro. 8. Ed. São Paulo: Cortez, 2003. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 127 Escolas Democráticas e de Resistência 7 - Escola da Ponte: Dos Objetivos Mínimos às Expectativas Máximas João José Bignetti Bechara25 "Educar é mais do que preparar alunos para fazer exames, mais do que fazer decorar a tabuada, mais do que saber papaguear ou aplicar fórmulas matemáticas. É ajudar as crianças a entender o mundo, a realizarem-se como pessoas, muito para além do tempo da escolarização." In Projecto Educativo "Fazer a Ponte" Introdução Em suas palestras, Rubem Alves conta que seu primeiro contato com a Escola da Ponte foi realmente marcante. Ao chegar à escola, em Vila das Aves, ao norte de Portugal, foi recebido por uma menina de uns dez anos que a pedido do coordenador, iniciou uma “visita guiada” dizendo: “...se tu queres entender a nossa escola, esqueças tudo o que sabes sobre escolas”. Esta primeira explicação tinha por objetivo, imaginou, amenizar a surpresa. E a menina continuou. “Nós não temos [...] salas de aulas. Não temos classes separadas, 1º ano, 2º ano, 3º ano... Também não temos aulas, em que um professor ensina a matéria” (ALVES, 2001, p. 41). Fundada em 1976, a Escola da Ponte já é uma referência internacional de experiência democrática. Mestrando em Educação [email protected] 25 na Universidade Federal do Rio de Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira Janeiro; 128 Escolas Democráticas e de Resistência As escolas democráticas Pode-se dizer que existem dois elementos que qualificam uma escola como democrática: (i) as aulas são opcionais e (ii) os alunos votam nas regras que regem a instituição. Atualmente, existem em torno de 200 escolas ditas democráticas no mundo. Mais de 50 delas estão nos Estados Unidos, inclusive em estados considerados conservadores, como Texas e Nebraska. A mais importante experiência democrática norte americana é a Sudbury Valley, de Massachusetts, fundada em 1968 (YURI, 2001, p. 28). Summerhill, fundada em 1921 pelo jornalista e escritor escocês A. S. Neill, é reconhecida como a pioneira e é a estrela da Europa. Já Sudbury Valley orgulha-se de ser a mais radical. Lá não existem cursos programados pelos professores; as aulas só acontecem por iniciativa dos próprios estudantes, que decidem quando e que disciplina será abordada (YURI, 2001, p. 28). Principais características da Ponte A primeira característica que diferencia a Escola da Ponte das demais experiências democráticas é que, enquanto a maioria delas é composta por escolas privadas, esta é uma escola pública. Os Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 129 Escolas Democráticas e de Resistência alunos não pagam nada para freqüentá-la e seus professores são pagos pelo Ministério da Educação português. Sua dinâmica de aprendizagem está baseada na organização de pequenos grupos com cerca de seis alunos cada e que, em torno de um tema de interesse comum, estabelecem um plano de trabalho, com a duração prevista para duas semanas. A critério do grupo, os alunos recebem orientação de um especialista sobre o assunto, de como pesquisar nos livros, utilizando-se bastante a Internet. Depois desse tempo, o grupo realiza uma reunião para avaliar o que foi aprendido. Ou seja, a avaliação ocorre, quando a proposta de trabalho foi dada como encerrada. Nesta abordagem, não faz qualquer sentido se falar em testes, notas ou boletins escolares. Na Escola da Ponte, dentro de cada grupo de alunos, a gestão dos tempos e dos espaços educativos permite diversas modalidades de trabalho: participação coletiva, pequenos grupos, "ensino mútuo" e momentos de trabalho individual. Cada criança atua como participante de um projeto, aprendendo a ser “autônoma com os outros”. A criança “não é educada apenas para a autonomia, mas Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 130 Escolas Democráticas e de Resistência através dela, nas margens de uma liberdade matizada pela exigência da responsabilidade” (PACHECO, 1998). Na Escola da Ponte existem três espaços, que correspondem ao estado de desenvolvimento das crianças e não estão relacionados à sua faixa etária ou às séries escolares tradicionais. Os alunos começam suas atividades num espaço chamado de Iniciação. Nele, as crianças aprendem os rudimentos de leitura e escrita, numa abordagem de método natural por totalidades. Aprendem a efetuar cálculos elementares, a trabalhar em grupo, a ser pessoas solidárias. Alunos elaboram conjuntamente com um professor um plano, que é negociado entre todos. O estágio seguinte é chamado de transição. Nele, a ênfase é para o trabalho de grupo e para a pesquisa. Aqui também os alunos aprendem a elaborar seu plano individual. O terceiro espaço representa um estágio onde as crianças já são capazes de trabalhar em grupo e de fazer pesquisas. Já fazem também autoplanificação e auto-avaliação e dominam vários objetivos nas diferentes áreas do currículo. Nesse estágio, passam a gerir autonomamente os seus tempos e espaços de Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 131 Escolas Democráticas e de Resistência aprendizagem naquilo que os alunos designam por "trabalhar em liberdade e com categoria". E quando a questão dos conteúdos é levantada, José Pacheco, coordenador da escola, explica que na Ponte não há objetivos mínimos e sim expectativas máximas. Segundo José Pacheco, o que se quer é que cada criança vá tão longe quanto possa (depoimento pessoal do coordenador). Alguns instrumentos pedagógicos As crianças estabelecem suas regras de convivência através dos seus “Direitos e Deveres”, listados num quadro que se encontra pendurado numa das paredes da escola. Ali encontramos, por exemplo, a necessidade do silêncio, do trabalho não perturbado, e o direito de se ouvir música clássica enquanto se trabalha. Desta maneira, as crianças aprendem as regras da convivência democrática, sem que elas constem em um programa. Sobre esse tema, vale o registro de uma das mais interessantes experiências de aprendizado da própria escola. Inicialmente, as questões de quebra ou recusa à obediência das regras eram tratadas por um tribunal de crianças. O esforço em melhorar o Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 132 Escolas Democráticas e de Resistência método levou, com o tempo, à implantação de um novo modelo: a comissão de ajuda. Esta comissão é formada por crianças e jovens, que agem como “fadas”, nas palavras de Pacheco, e buscam ajudar o colega a melhorar seu comportamento. Também penduradas numa parede da escola, encontram-se duas listas. Numa delas, onde se lê o cabeçalho “EU JÁ SEI”, cada aluno preenche seu nome, o objetivo de aprendizagem obtido e indica a data na qual aprendeu. Na outra lista, com o cabeçalho “PRECISO DE AJUDA EM”, o aluno com dificuldade em algum objetivo especifico registra a sua necessidade. Estes instrumentos propiciam a criação de um ambiente onde todos se ajudam, onde a competição dá lugar à cooperação. Depois de cruzar a ponte E ao sair da escola, os alunos têm dificuldade em acompanhar o ensino tradicional? Pesquisas apontam que não. Os alunos que saem da escola da Ponte e rumam a outras escolas têm tido, normalmente, melhores classificações que os colegas de outras escolas. “Não sei se isso é bom, fico dividido. É preocupante saber que nossos ex-alunos tiram boas notas nas escolas Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 133 Escolas Democráticas e de Resistência tradicionais”, comenta Pacheco em tom de brincadeira (depoimento pessoal do coordenador). Na realidade, os professores da Ponte têm o cuidado de auxiliar o aluno na “passagem” para o ensino tradicional, onde eles têm que “estar sentados a ouvir o professor, não trabalhar em grupo, só ter o manual como auxiliar, terem que decorar a matéria toda para um teste, as notas etc...” (PONTE, 2003). Conclusão A multiplicidade de circunstâncias que se uniram para dar origem à história única da Ponte, sugere que essa escola não deva ser considerada como um modelo a ser reproduzido em outro local, mas sim uma “inspiração”. Devemos, desta forma, conhecer e refletir sobre os princípios que guiaram a dinâmica em Vila das Aves. Estes, porém, podem não ter qualquer significado cultural em outro local. “O importante é assumir a característica de "profissional reflexivo" que, consoante às características da comunidade onde se insere, poderá delinear outras estratégias” (EDUCARE.PT, 2001). Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 134 Escolas Democráticas e de Resistência Pacheco lembra que a Ponte representa a realização de um sonho coletivo "entre românticos e conspiradores". E também adverte que a tendência de se querer implantar uma escola idêntica em outro local é equivocada. A Ponte não pode ser “clonada”, diz o professor, "cada experiência é única." Referências ALVES, R. A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. Campinas, SP: Papirus, 2001. EDUCARE.PT. O exemplo de Vila das Aves. 2001. Disponível em http://www.educare.pt/noticia_novo.asp?fich=NOT_20010509_ 1687 . Acesso em: 20 jun. 2003. PACHECO, J. Fazer a Ponte. 1998. Disponível http://www.iie.min-edu.pt/proj/boa-esperanca/praticas-98 99/fazer_a_ponte.htm . Acesso em: 20 jun. 2003. em ESCOLA DA PONTE. Site oficial. Disponível em: http://www.eb1-ponten1.rcts.pt/html2/portug/projecto/faq.htm . Acesso em: 01 dez. 2003. YURI, D. Todo poder às crianças. Folha de São Paulo, São Paulo, 25 nov. 2001. Revista da Folha, p.28-33. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 135 Escolas Democráticas e de Resistência 8 - Por uma Educação mais humana: Contribuições da Pedagogia Waldorf. Cláudia Sena26 Denise de Oliveira27 Ilma Doher28 Taís Silva29 Introdução O século XX caminhava em direção aos novos rumos que a ciência e os homens buscavam para solucionar questões relativas à humanidade e seus problemas mais graves. Em meio à efervescência intelectual e científica do início do século, o filósofo Rudolf Steiner, em 1919, na cidade de Stuttgart, Alemanha, procurado pelo dono de uma fábrica, em conjunto com a comunidade local decide criar um espaço destinado a ocupar o tempo ocioso dos filhos desses operários. Devido ao apoio dado pela fábrica ao projeto de Steiner e, principalmente, pela vontade das crianças, a escola que surgira ali fora denominada: Escola Waldorf que, distinguiu-se, desde o princípio, Professora, Mestranda em Educação-UFRJ. Professora, Pedagoga, Mestranda em Educação/UFRJ. Contato: [email protected] 28 Assistente Social, Especialista em Saúde Coletiva e Mestranda em Educação/UFRJ. Contato: [email protected] 29 Professora, Psicopedagoga e Mestranda em Educação/UFRJ. Contato: [email protected] 26 27 Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 136 Escolas Democráticas e de Resistência por possuir ideais pedagógicos revolucionários que incluíam até o desenvolvimento espiritual completo do aluno e a sua integração cósmica com o universo. A Pedagogia Waldorf baseando-se na Antroposofia, ciência espiritual fundada por Steiner, cresceu de forma exorbitante e hoje possui mais de 800 unidades espalhadas por todos os continentes da Terra. Iniciada no Brasil em 1956 por Rudolf Lanz, húngaro, Doutor em Direito, que fixou residência no Brasil em 1939, a Pedagogia Waldorf tem como pilar a Escola Waldorf Rudolf Steiner. Foi primeira a ser fundada em nosso país, em São Paulo, e abriu o caminho para o surgimento de outras escolas. Segundo fontes da Federação das Escolas Waldorf no Brasil, hoje somam 20 unidades escolares (4 oferecem a Educação Básica; 12, Educação Infantil e Ensino Fundamental e 4, a modalidade de Educação Especial). Rudolf Steiner: o mentor da pedagogia Waldorf Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 137 Escolas Democráticas e de Resistência Nascido em 27 de janeiro de 1861, na cidade de Kraljevec (hoje pertencente à Croácia), já se interessava por assuntos espirituais desde a infância. Proveniente de uma família humilde, recebeu as primeiras instruções dadas pelo próprio pai – servindo de estímulo a tornar-se autodidata desde cedo. Sua dedicação à vida acadêmica resultou em seu doutoramento (1891), no qual defendeu a tese intitulada “Verdade e Ciência”. Por volta dos oitos anos de idade começou a perceber que era portador do dom da clarividência e de forma surpreendente provou para si mesmo que sua paranormalidade não era fruto da imaginação. Tal percepção foi confirmada na escola, a partir de seu encantamento com a geometria, como afirma Arantes (2003): A existência puramente espiritual dos entes geométricos o deixou literalmente encantado [...] A indiscutível existência dos entes geométricos ofereceu-lhe, indiretamente, esta prova. Com essa experiência, o menino teve absoluta certeza de que o mundo sensorial não era diferente do mundo espiritual. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 138 Escolas Democráticas e de Resistência Desde cedo se interessou por Kant e mais tarde por Fichte, Hegel, Schelling e Goethe, na busca incessante em atingir sua meta que era: [...] religar a ciência e a espiritualidade, reintroduzir Deus na ciência e a natureza na religião, e, a partir disso, fecundar de novo a vida e a arte” (id., grifo nosso). Considerando-se o materialismo europeu característico do século XIX, não foi fácil propagar suas idéias mas, confiante em seu trabalho, não desistiu. A Antroposofia, ciência criada por ele e que será abordada no próximo item deste artigo, traz à tona a necessidade de substituir a educação linear e racional por uma educação que seja capaz de mergulhar no íntimo do ser, a fim de provocar o despertar da consciência humana, ou nas palavras de Lanz (1979, p.178): “O futuro sadio da humanidade depende do espírito de iniciativa, de fantasia criadora e de senso de responsabilidade.” Steiner viveu até os 64 anos de idade e em 30 de março de 1925, nos termos da filosofia que seguiu, deixou o mundo sensorial. Sua dedicação em prol de uma educação espiritualizada inaugurou um Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 139 Escolas Democráticas e de Resistência novo modelo pedagógico e suas idéias permanecem vivas na contemporaneidade. Antroposofia: a filosofia da Educação Waldorf A Antroposofia é apresentada sob forma de conceitos que se dirigem à capacidade de pensar e à sede de conhecimento e compreensão do ser humano. Podemos caracterizá-la como um método de conhecimento da natureza do ser humano e do universo, que amplia o intelecto obtido pelo método científico convencional. Para a Antroposofia, a ciência moderna procura explicar o ser humano apenas por fatos e fenômenos dos reinos inferiores: o mineral, o vegetal e o animal, e isso ocorre, em decorrência do enquadramento deste nas leis de química, física, biologia e psicologia. Na busca pela compreensão acerca da entidade humana, a Antroposofia apresenta a idéia de que o corpo é composto por substâncias ou elementos químicos que formam o homem e o mundo ao seu redor. Essas substâncias formariam os reinos: mineral (que se difere dos outros por não possuir vida), vegetal, animal e humano. Enquanto os seres vivos evoluem no tempo, Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 140 Escolas Democráticas e de Resistência precisam e recebem influências exteriores e têm uma existência limitada, os minerais são "auto-suficientes", pois existem e duram por si, não necessitando destas influências exteriores para existir. De acordo com a Antroposofia, os seres orgânicos possuem um segundo corpo não físico, que seria um conjunto de forças que dão "vida" ao ser. Esse conjunto de forcas vitais que permeia o corpo físico, foi chamado por Steiner de corpo plasmado ou corpo etérico. A ciência espiritual de Steiner também faz uma diferenciação entre as plantas e os animais, considerando que as primeiras são entregues ao mundo e se realizam no tempo, à medida que suas partes surgem gradativamente. Ao contrário da planta, o animal já nasce pronto, completo, com um mundo próprio de reações, instintos e atitudes que lhe dão um lugar isolado dentro da natureza. Deste modo, considera existir um veículo nos animais que lhes permite ter sensações, reflexos e instintos, o que inexiste nas plantas. Esse veículo dos sentimentos e sensações apareceria como um corpo mais refinado e sutil do que o corpo etérico, podendo ser chamado de corpo de sentimentos ou de corpo astral. No homem, ele seria o responsável pelo sentir. Assim sendo, além do corpo físico e do corpo etérico, o animal e o homem possuem esse corpo astral. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 141 Escolas Democráticas e de Resistência Steiner em suas considerações antroposóficas destaca que tanto o homem quanto o animal possuem consciência. No animal há uma alma de grupo que se manifesta através dos corpos astrais de todos os seres da mesma espécie, trazendo impulsos, reações e características específicas ao grupo. O mesmo não acontece com os homens, pois cada um é um ser individualizado, diferente de todos os outros seres humanos, capaz de ter consciência de si próprio e em relação ao mundo. Com isso, o homem é o único ser capaz de pensar abstratamente, de ter sentimentos e sensações sem uma causa natural e de lembrar experiências vividas anteriormente. Dessas três características, surge a capacidade de dominar-se, de refletir sobre acontecimentos passados e de esquivar-se das influências do meio. Como resultado, somente o homem tem liberdade de escolha. Por essa autonomia, além do corpo físico, etérico e astral, o homem possui um quarto elemento que constitui a sua personalidade: o Eu (Ego). É como se estes três corpos servissem apenas de "base ou envoltório" ao Eu, que é quem dá personalidade ao homem, trazendo-lhe a capacidade de pensar, sentir e desejar através dos corpos inferiores. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 142 Escolas Democráticas e de Resistência O elemento que faz a ligação entre o Eu e o mundo é a alma. Esta se divide em três: a alma da sensação, através da qual o homem vivencia o mundo; a alma do intelecto, que tem como resultado a abstração e o pensar conceitual, e a alma da consciência, que traz ao homem a consciência de sua própria individualidade e o choque entre o seu Ego e o mundo (LANZ, 1979, p. 23). O homem deve restabelecer a ligação entre a parcela espiritual do seu Eu e a espiritualidade universal. Através de uma espiritualização consciente dos corpos inferiores, o Eu poderá criar novas camadas de ser humano, levando ao desenvolvimento da humanidade (id.). Cabe comentar que a Antroposofia considera que do mesmo modo que existem reinos menos completos abaixo do homem, existem acima, seres mais complexos, com qualidades e estados de consciência que desconhecemos. Estes não possuem um corpo físico e nem são perceptíveis aos sentidos físicos comuns. São seres espirituais hierarquicamente ordenados que interferem nos processos da natureza. As leis da natureza, desse modo, seriam apenas a “faceta visível, traduzida em termos de causalidade mecânica, da atuação espiritual desses seres” (id.). Desse modo, as leis da natureza apenas traduzem, visivelmente, os efeitos designados por esses seres (LANZ, 1979). Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 143 Escolas Democráticas e de Resistência Na visão antroposófica, todos os seres encontram-se num processo evolutivo. As conquistas dos estados de moralidade e de desenvolvimento mental constituiriam a meta da existência humana, dependendo do próprio homem as escolhas realizadas através do seu livre-arbítrio. A pesquisa espiritual da Antroposofia confirmaria a existência da reencarnação. Para cada Eu humano existiria uma seqüência de vidas terrestres que lhe permitiria progredir moralmente e atingir um estado final de perfeição e harmonia. O livre arbítrio, no entanto, traz a possibilidade de falhar, de regredir e não atingir tal meta. Em cada vida, o indivíduo experimentaria situações, problemas e encontros que considera acaso, enquanto na verdade estes formam um destino, um desafio, uma pergunta que resulta da vida anterior. Desta forma, esse destino (karma) é preparado pelo próprio Eu na existência espiritual anterior, através das suas escolhas e ações. Ou seja, todos os fatos e circunstâncias de uma vida são resultado de algo passado que vai produzir efeitos em outras vidas. Os seres espirituais superiores intimamente ligados à existência humana, também ajudam nesse processo. Além dos quatro elementos constitutivos do homem, Steiner contribuiu com a idéia de que as principais atividades anímicas do Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 144 Escolas Democráticas e de Resistência homem podem ser reduzidas ao pensar, ao sentir e ao querer, o que teria um reflexo na constituição física e nos graus de consciência da mente humana. Steiner parte da idéia de que, não por acaso, o corpo humano é dividido em três partes, sendo composto pela cabeça, tórax e abdome, onde se ligam os membros. Relaciona a primeira (cabeça) ao sistema neuro sensorial, local onde se concentra a maior parte dos órgãos de percepção, identificando-a então como a parte referente à percepção e ao pensamento. Na parte abdominal, estaria o metabolismo, onde os movimentos são inconscientes e os processos de transformação visam a incorporar o mundo material ao organismo através da alimentação e de todos os processos correlatos, como digestão, secreção etc. (LANZ, 1979, p.28). Para os que praticam a Antroposofia, tanto os sentidos quanto às funções metabólicas que existem no corpo inteiro, são locais de concentração, em que se destacam, respectivamente, a cabeça e o abdome. Intermediário a esses dois estaria o sentir. Considerando que apesar de se difundirem por todo o corpo, o processo rítmico tem Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 145 Escolas Democráticas e de Resistência origem no tórax, o sentir estaria ligado ao coração, a circulação do sangue e a respiração. É importante dizer que estes três "sistemas" se interpenetram apesar de cada um deles ter o seu centro. Mais importante ainda é a idéia de que as três atividades anímicas e sua projeção no corpo refletem características no campo espiritual. Segundo Steiner, somente os processos neuro-sensoriais são totalmente conscientes, enquanto os processos de metabolismo permanecem na inconsciência (a não ser em caso de dor) e os rítmicos e circulatórios constituem uma semiconsciência. Para a Antroposofia, constitui-se a partir daí, um dos principais fundamentos do conceito do ser humano: o homem é tripartido. O pensar relaciona-se ao intelecto e à plena consciência, o sentir ao sentimento e a semiconsciência e o querer, ao metabolismo, aos movimentos e à inconsciência. Retomando as idéias presentes neste texto, destacamos que a Antroposofia indica os meios que permitem a verificação dos fenômenos descritos por ela. É possível pensar que somente um vidente poderia observar e interpretar fatos supra-sensíveis, no entanto não há impedimentos de que qualquer indivíduo dotado Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 146 Escolas Democráticas e de Resistência de inteligência e bom senso possa compreender essas observações e interpretações. Nesse contexto, Lanz (1997) pondera que essa atitude permitiria constatar que os fatos supra-sensíveis formam um todo coerente, que eles não se opõem ou discordam de fatos da ciência comum, ao contrário, explicam inúmeros fenômenos que a ciência comum é incapaz de explicar e que tais fatos já foram afirmados em épocas passadas. No que se refere à iniciação antroposófica, podemos dizer que o que a caracteriza é o fato de procurar obter o despertar dos órgãos de percepção supra-sensível por um caminho inteiramente consciente, onde nada permaneceria inconsciente ou semiconsciente. Para se iniciar, não é necessário pertencer a grupos específicos. A partir de exercícios espirituais, o indivíduo pode, sozinho e com plena consciência, elevar-se à clarividência. O movimento antroposófico é organizado a partir da Sociedade Antroposófica Universal, com sede no Goetheanum, na Suíça. Existem sedes locais (conhecidas como ramos da sociedade antroposófica) em muitos países, nos quais os indivíduos reúnem se para praticar atividades antroposóficas. Qualquer pessoa pode tornar-se membro da sociedade antroposófica, desde que se afine às idéias de Steiner. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 147 Escolas Democráticas e de Resistência Os Setênios Waldorf: uma forma diferente de contar o tempo. A Pedagogia Waldorf divide a vida do homem em períodos de sete anos, os setênios. Steiner afirmou que: “A vida do homem não ocorre de forma linear, mas em períodos de 7 anos [...]” (LANZ, 1998, p.38) Os Setênios Waldorf organizam a pedagogia utilizada nas escolas de acordo com as concepções da Antroposofia. Esta pressupõe que o homem possui quatro nascimentos ocorridos hierarquicamente durante os 3 setênios de sua existência. Com a ruptura do cordão umbilical do indivíduo com a mãe, nasce o corpo físico. Até o final dos primeiros sete anos com a expulsão da primeira dentição da criança, estará formado o que Steiner denominou corpo etérico e, só então, a criança terá maturidade escolar para iniciar um processo mais objetivo de aprendizagem. O primeiro setênio descrito por Steiner tem como base a construção do ser humano e considera os primeiros sete anos de vida como sendo o período mais importante na construção do homem enquanto cidadão. Na afirmação de Johann Paul Friedrich Richter (1763-1825): “Em seus primeiros três anos Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 148 Escolas Democráticas e de Resistência de vida o homem aprende mais do que em todos os seus estudos acadêmicos[...]”(LANZ,1998, p.44). O segundo setênio começa aos 7 anos de idade quando, segundo a Antroposofia, ocorre a formação do corpo astral. É o momento de exploração da individualidade, do reconhecimento dos sentimentos e do desabrochar das emoções que surgem de forma acelerada. Este setênio culmina com a puberdade, que traz uma profunda transformação psíquica e mental. É o setênio que possui um dos momentos mais importantes na vida do jovem: o despertar da sexualidade humana. O exercício constante do senso crítico, a formação do “Eu” (quarto e último corpo a se formar) e um turbilhão de escolhas profissionais e sentimentais anunciam a chegada do terceiro setênio Waldorf. È neste período que o indivíduo se reconhecerá enquanto cidadão e fixará suas bases através de escolhas que o seguirão por toda a vida. Tarefa docente: muito mais que ensinar! O Corpo Docente de uma Escola Waldorf tem como meta conduzir os assuntos sobre sua classe aos pais, ao médico escolar, Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 149 Escolas Democráticas e de Resistência aos terapeutas e demais professores. Devido ao fato de, em muitos casos, um professor do segundo setênio ficar até sete anos com a mesma turma, a interação e o carinho entre discente e docente são visíveis. O professor de uma Escola Waldorf passa a ser parte da vida do aluno e, por isso, tem seu respeito, admiração e se torna digno da mais pura confiança. Mas o que é ser um professor, uma professora Waldorf? Quais devem ser suas características? Pode-se responder a estas perguntas com palavras proferidas por Steiner, em uma palestra ministrada em Oxford, 1922, onde definiu as “três regras de ouro” para aquele(a) que pretende dedicar-se à arte de educar: Receber a criança em agradecimento ao mundo de onde ela vem; educar a criança com amor; conduzir a criança através da verdadeira liberdade que pertence ao Homem. Diante do exposto acima, percebe-se a grande responsabilidade desse profissional: “[...] a meta de seu trabalho deve ser a de integrar o ser humano na vida social, não de uma forma qualquer, mas corretamente” (LANZ, 1979, p.73). Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 150 Escolas Democráticas e de Resistência Sua ação deve ser peculiar em cada setênio. No primeiro setênio, deve educar através do exemplo, sua maneira de ser e de agir são fundamentais, considerando-se que a criança encontra-se na fase da imitação. A autoridade - permeada de carinho, amor e atenção – é a ação inerente ao segundo setênio. Já no terceiro sua ação deve ser baseada em seus princípios intelectuais e morais, proporcionando maior responsabilidade e liberdade aos seus alunos. Como conseqüência das ações anteriores, a vida adulta é caracterizada pela ampla liberdade e responsabilidade. Devido à sua tarefa, o professor deve ser um crítico de si mesmo, buscando dentro de si as respostas para as turbulências de seu trabalho, no sentido de aperfeiçoar constantemente sua ação pedagógica. A observação criteriosa de cada aluno pode ser um instrumento valioso para este fim. Para que o professor possa desempenhar seu trabalho à luz da Pedagogia Waldorf, exige-se que tenha formação em nível superior, além de freqüentar um curso de dois a três anos de duração, específico para este fim. Atualmente existe o Centro de Formação de Professores Waldorf, em São Paulo. Um curso reconhecido e que habilita ao exercício da docência da Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental, em nível nacional, não se restringindo apenas às escolas Waldorf. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 151 Escolas Democráticas e de Resistência Conhecer o ser humano, os princípios da Antroposofia e o desenvolvimento dos setênios são temas que fazem parte do currículo desse curso, além das Áreas de Conhecimento comuns para esse tipo de formação. Um aspecto marcante é a preocupação no desenvolvimento do senso artístico do futuro professor, contribuindo sobremaneira na ação criativa tão necessária ao dia a-dia da sala de aula. Referendando a idéia de que a formação perpassa toda a vida profissional, os(as) professores(as) semanalmente das chamadas: Waldorf, participam Conferências Pedagógicas. Nesses encontros, discute-se a situação de turmas e alunos específicos, traçando-se a situação pedagógica da escola, além de ser um momento valioso de troca e de integração do corpo docente. A classe é o elemento fundamental da Pedagogia Waldorf. É através do grupo que o aprendizado e as relações humanas se intensificam. As turmas não devem ter poucos alunos, pois um dos objetivos buscados pela Antroposofia é a interação entre diferentes seres em prol de um bem comum. A diversidade em sala de aula gera a multiplicidade de valores e situações que tendem a enriquecer o cotidiano escolar. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 152 Escolas Democráticas e de Resistência Disciplinas, nunca antes mencionadas em qualquer currículo escolar, surgem de forma inovadora no currículo das Escolas Waldorf. A eurritmia, arte que procura tornar a fala e a música visíveis por meio de movimentos de todo o corpo, é uma das disciplinas que mais se destaca neste currículo. Cosmogonia, astronomia, mineralogia e artes plásticas (pintura, modelagem e entalhe em madeira) são algumas das muitas disciplinas utilizadas na prática Waldorf que procuram, juntamente com as bases do currículo habitual, integrar o homem às necessidades da vida cotidiana. Desta forma, a tarefa docente no cotidiano da Pedagogia Waldorf, não é uma mera improvisação ou repasse de conteúdos. Ao contrário, exige dedicação e acima de tudo conhecimento. Educar pressupõe desenvolver na criança e no adolescente as potencialidades necessárias à formação integral, ao desenvolvimento do “Eu”, tendo como princípio o amor. Alguns princípios peculiares à Pedagogia de Steiner O livre arbítrio é um dos princípios da Pedagogia Waldorf, mas ao contrário do que se possa imaginar necessita de um longo Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 153 Escolas Democráticas e de Resistência processo de aprendizagem. Deve existir uma direção externa, uma condução a qual podemos chamar de “liberdade vigiada” no período da infância e da adolescência no sentido de garantir que na idade adulta a liberdade não seja sinônima de frustração e revolta, mas sim de algo que leve o indivíduo a escolhas próprias, à autodeterminação. Tal princípio evidencia que a permissividade na infância é perniciosa, não desenvolvendo na criança a segurança imprescindível para o exercício da autonomia e a consciência de que liberdade pressupõe responsabilidade. A formação do homem livre é possível, por ser a liberdade um dos pilares da educação Waldorf, uma escola que adote esta linha pedagógica deve diferenciar-se das demais justamente pelos traços de autonomia, pois nas palavras de Lanz (1979, p. 163): “se fossem dominadas por princípios alheios ou manipulados de fora, deixariam de ser Waldorf.” Neste sentido não devem sofrer influência de qualquer sistema oficial de ensino. Embora o currículo tenha marcas oficiais, as escolas Waldorf fazem as adaptações necessárias, determinando o melhor período para desenvolver as áreas de conhecimento, além de incluir outras que considerem importantes, priorizando as essenciais para o desenvolvimento dos educandos. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 154 Escolas Democráticas e de Resistência Um outro aspecto a ser destacado está relacionado à natureza criadora da criança. No trabalho pedagógico proposto por Steiner a escola deve proporcionar meios para que a criatividade e a imaginação sejam cultivadas, o que difere da escola tradicional que prioriza o lado racional do cérebro em detrimento do lado emocional, intuitivo. Neste sentido adota o brincar como uma atividade séria que trará enormes benefícios às crianças. Embora faça uma advertência quanto ao tipo de brinquedo a ser manuseado, este deve ser estimulador, aguçando a capacidade imaginativa ao contrário dos brinquedos eletrônicos e sofisticados que só colaboram para uma atrofia intelectual. Ainda preocupada com a formação do ser criativo e harmônico, a Pedagogia Waldorf alerta sobre os efeitos maléficos que a televisão pode causar na formação da criança. O “vício” pela TV compromete os sentidos e a saúde mental, impedindo uma maior aproximação com o mundo real. O que dizer então dos recursos audiovisuais utilizados nas escolas? A resposta está implícita nas abordagens acima, ou seja, toda e qualquer iniciativa que possa comprometer a natureza infantil deve ser abolida. Destaca-se na educação Waldorf o respeito às etapas das crianças, o pensamento abstrato não é imposto, é desenvolvido gradativamente, a partir de atividades lúdicas e criativas. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 155 Escolas Democráticas e de Resistência Os princípios aqui expostos, dentre outros delineados por Steiner, são a base para a formação integral do ser, levando-o a assumir a direção de seu próprio destino. Considerações Finais No decorrer desta exposição, tentou-se descrever de forma resumida o que representa esta prática pedagógica. Como muitas pedagogias, a Waldorf se mostra irredutível com relação às suas bases filosóficas. Pode-se inferir que a Antroposofia não é ensinada nas Escolas Waldorf de forma ditatorial, ou seja, não há imposições quanto ao ensino desta ciência, embora não restem dúvidas de que esta tenha, inicialmente, dado direção à revolucionária pedagogia alemã: a Pedagogia Waldorf. Os conceitos utilizados na elaboração dos currículos Waldorf não são novos, mas inovadores e, por este motivo, tentam criar uma forma mais generosa e cativante para mediar a desgastada relação professor-aluno. Relacionamentos humanos bem sucedidos em sala e fora dela têm proporcionado a esta pedagogia grande êxito em diversas partes do mundo. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 156 Escolas Democráticas e de Resistência Assim sendo, cabe parafrasear Rudolf Steiner, que em poucas palavras explicita o diferencial da Pedagogia Waldorf que tenta, a cada dia, formar indivíduos capazes e emocionalmente ativos em uma sociedade que deturpa as mentes e os corações humanos: “A Pedagogia Waldorf forma, a Pedagogia Tradicional informa [...]” (STEINER, apud LANZ, 1979, p. 85). Referências: ARANTES, J. T. O jovem Steiner. Disponível em: <http://www.sab.org.br/steiner/jovem-steiner.htm> Acesso em: 23 nov. 2003. COLÉGIO WALDORF MICAEL DE SÃO PAULO. Disponível em: <http://www.micael.com.br/q7> Acesso em: 14 nov. 2003. FEDERAÇÃO DAS ESCOLAS WALDORF. Fontes, históricos e princípios da pedagogia Waldorf. Disponível em: <http://www.sab.org.br/fewb/pw1.htm> Acesso em: 14 nov. 2003. LANZ, R. A Pedagogia Waldorf: caminho para um ensino mais humano. 3. ed. São Paulo: Summus, 1979. _____. Noções Básicas de Antroposofia. 4. ed. rev. São Paulo: Antroposófica, 1997. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 157 Escolas Democráticas e de Resistência _________________________POSFÁCIO ESCOLAS KOAN Em crônica presente no livro A escola que eu sempre sonhei e nunca pensei que pudesse existir intitulada KOAN, Rubem Alves faz uma comparação entre a existência zen budista do koan e a experiência que teve ao conhecer a Escola da Ponte. Os mestres zen são educadores bastante diferentes. Não têm a finalidade de ensinar coisa alguma. Na verdade o que desejam é “desensinar”. A pedagogia zen desarticula a linguagem exatamente com o artifício do koan. Koans são respostas que colocam em cheque todo o pensamento e linguagem formal de nosso cotidiano. Após o impacto do nonsense causado pela resposta obtida, o discípulo passa a relativizar tudo que vivenciou até então e abre o caminho para a experiência da Iluminação. Desenvolve como que um terceiro olho e passa a ver as coisas de um modo diferente. Rubem Alves diz que ao vivenciar a experiência da Escola da Ponte sentiu o impacto de um koan em forma de prática educativa e passou a ver as coisas de modo diferente, ficou iluminado. Isso também aconteceu comigo e com os meus alunos do Mestrado em Educação da UFRJ em um curso em que estudamos algumas das experiências mais democráticas e radicais de escola desde o século XIX até o atual. O sentimento de todos que conheceram essas práticas foi o da iluminação alvesiana. E os responsáveis por isso foram os criadores de Yasnaia-Poliana, Lar das crianças, Summerhill, Colônia Gorki, Sudbury Valley School, Waldorff e sociedade sem escolas de Ivan Illitch. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 158 Escolas Democráticas e de Resistência Desaprendemos um modelo esgotado de escolas e passamos a vislumbrar novas práticas educacionais apesar das dificuldades que tais inovações enfrentam. Positivamente não somos mais os mesmos professores. Prof. Doutor Reuber Gerbassi Scofano - FE/UFRJ. Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 159 Escolas Democráticas e de Resistência ISBN 85-98716-02-2 Organização: Iara Rosa Farias, Ana Patrícia da Silva e Denise de Oliveira 160