A MÚSICA PERCUSSIVA: UMA EXPERIÊNCIA SOCIOCULTURAL DOS JOVENS DO BLOCO OFICINA TAMBOLELÊ Prof. Cláudio Emanuel dos Santos Centro Pedagógico – Escola de Educação Básica e Profissional/UFMG [email protected] O presente trabalho se propôs a discutir como que a prática de música percussiva do bloco Oficina Tambolelê tem se tornado uma experiência sociocultural para um grupo de jovens de um bairro de classe popular de Belo Horizonte. No quadro que ora se delineia na cidade e em outros âmbitos das sociedades urbanas, o campo musical tem sido um efetivo canal por onde diferentes grupos culturais da juventude expressam seus modos de ser, gestam novas formas de sociabilidade e constituem identidades coletivas. Nas periferias urbanas (vilas, favelas, bairros das camadas populares) essa é uma tônica efervescente e pulsante, em que concorrem uma diversidade de gêneros musicais, grupos, formas de compor o visual, e abre um canal para a protagonização juvenil, mediante práticas concretas de produção cultural. O presente trabalho se insere nesse contexto com a perspectiva de delinear os contornos de um grupo cultural que surge no bairro Novo Glória, região Noroeste de Belo Horizonte, em que a juventude se faz presente de maneira marcante e que vem acenando para outros modos de ser jovem nas classes populares. De que forma tal questão se tornou objeto de indagações e impulsionou uma busca por compreensão mais detalhada? Em linhas gerais, minha trajetória de imersão em atividades comunitárias, desde a adolescência, e a participação efetiva no movimento cultural da cidade foram fatores cruciais que influenciaram escolhas, olhares, lugares, pessoas, enfim, demarcaram as configurações das minhas práticas sociais e profissionais. Assim, quando no curso de Pedagogia, ocorreu a procura, de forma incisiva, explorar campos de trabalho, para além do ambiente escolar, ainda pouco procurados, valorizados e investigados. Assumi os riscos advindos desse novo campo e fiz uma imersão em 1 diferentes projetos socioeducativos – associações de bairro, creches, orfanatos, centros culturais, dentre outros – que atendiam crianças e adolescentes em diversos lugares das periferias de Belo Horizonte e da região metropolitana. Esse movimento, foi delineando um campo de trabalho instigante que, a cada momento, exigia ações mais coerentes e consistentes que propiciassem uma melhor compreensão do conjunto de experiências desses sujeitos moradores de periferias – morros, favelas, vilas, bairros –, ou seja, crianças e jovens pobres pertencentes a um espaço físico e social específico dos centros urbanos e que vivem a condição proletária na forma experienciada por seus pais ou membros da família. A proximidade e permanência com tal contexto foram revelando as inúmeras estratégias colocadas em movimento no sentido de alterar tal quadro. As manifestações culturais, por sua vez, apresentavam-se como uma fecunda via por onde as crianças e jovens com os quais trabalhava reafirmavam, mesmo diante de toda dramaticidade existencial, uma capacidade de humanização. Isso contradizia e rompia qualquer visão estigmatizante que os percebiam sempre como classe perigosa, desviante, objeto de repressão policial, presente no discurso institucional do poder público quanto na visão do senso comum, ou que já estavam fadados a ingressarem nas fileiras da criminalidade. A forma como a música percussiva os envolvia e possibilitava uma afirmação enquanto sujeitos, chamava atenção e exigia a compreensão das perspectivas que essa linguagem abria para as crianças e jovens pobres e os novos desdobramentos que assumia no interior da cidade, sobretudo a partir dos anos 90. Assim, entre confabulações, conversas, leituras e inquietações de toda ordem, gradualmente, a temática juvenil foi se delineando como o elemento a ser focalizada no interior do bloco Oficina Tambolelê. Alguns motivos concorreram para isso: inicialmente, tendo contato com a vida cotidiana do grupo, chamava a atenção às formas de comportamento, modos de ser dos jovens, a maneira como partilhavam os momentos vividos tanto no interior do bloco quanto em outros ambientes por onde transitávamos. Nesse sentido, era preciso averiguar como tais sujeitos atribuíam significados a uma experiência social vivida a partir da música percussiva do bloco. Outro motivo passava pelas perspectivas subjetivas como pesquisador que, embora trabalhando e convivendo 2 com o público juvenil, ainda não o tinha como uma categoria a ser investigada. Os diferentes percursos e contatos foram suscitando um interesse crescente por esse campo. Sem ter feito um estudo exaustivo sobre a temática da juventude, o presente trabalho se insere num conjunto de investigações no campo educacional que visa produzir um conhecimento mais ampliado sobre o jovem e o universo social que o cerca (CARRANO, 1999; SPOSITO, 2000; DAYRELL, 2001). A tentativa, portanto, é perceber os jovens de periferia como sujeitos que produzem e são produzidos na trama concreta da vida, através daquilo que se apresenta como perspectiva e limitações no processo de arquitetar formas dignamente humanas (MORALES, 1991; GUIMARÃES, 1997; NETO e QUEIROGA, 1998; FRADIQUE, 1999; GONÇALVES ALMEIDA, 2000; GONÇALVES, 2003; TAVARES, 2004). Outros eixos temáticos podem ser contemplados, por exemplo, as práticas de música percussiva, as quais têm possibilitado, sobretudo, a aglutinação da juventude pobre das periferias dos centros urbanos e propiciado um canal efetivo por onde se expressam desejos, vontades, modos diferenciados de ver e atuar na realidade social. O presente trabalho de mestrado apesar de falar da música percussiva e enfocar os jovens envolvidos com ela, não é um estudo na via musicológica, há um tangenciamento, sem querer entrar nos meandros da linguagem e conhecimentos necessários que fazem parte desse campo. A pretensão é averiguar os efeitos que ela produz e as implicações mais profundas na vida dos jovens envolvidos. Para tanto, foram descritas situações, opiniões, acontecimentos que compusessem o retrato de um momento específico, de formas complexas, dinâmicas e mutáveis de um grupo cultural de Belo Horizonte e seus sujeitos praticantes, inquietos e em movimento. O estudo de caso, dentre as diversas estratégias que compõe o universo da investigação qualitativa, pareceu mais adequado para o tipo de estudo focalizado. Alguns motivos corroboraram para isso: primeiro, ao iniciar a difícil tarefa de realizar uma pesquisa acadêmica, era preciso escolher um caminho que possibilitasse captar a riqueza de detalhes do objeto de estudo; segundo, que o universo investigado era uma temática nova na cena de Belo Horizonte e ainda pouco pesquisada. Nesse sentido, a observação atenta do 3 contexto e dos sujeitos e a imersão no campo se configuraram instrumentos adequados para explicitar as particularidades do grupo investigado. Nesse movimento, embora não tivesse uma experiência anterior e corresse riscos inerentes ao exercício de um instrumental complexo e originado em outra área, optei pelo enfoque etnográfico que orientou o processo de imersão feito no cotidiano do bloco, no período de junho de 2001 a fevereiro de 2003. Nesse percurso, o uso do diário de campo foi um importante instrumento na pesquisa, pois permitiu o registro da trajetória da pesquisa e de detalhes observados. A construção desse instrumento se deu a partir de leituras de pesquisadores como Malinowski (1984) e Milito e Silva (1995). Outros recursos empregados foram: a entrevista, fotografias, enquetes, croquis e desenhos, inspirados nos trabalhos de (GOMES, 2001) e (LUCAS, 1999). Dentro do presente trabalho, algumas questões merecem destaque, dentre elas, os conceitos de identidade e de juventude. A identidade, tendo em vista suas distintas relações e sua dimensão polissêmica (MARQUES, 2001), deve ser levada em conta mais em sua concretude, isto é, na forma que a pessoa procura se individualizar dentro de um quadro sociocultural1, e menos como uma categoria que ocorre de forma abstrata ou dependendo somente do “indivíduo, autônomo e livre, a causalidade para suas ações” (GOFFMAM apud JACQUES, 1997, p. 42). Nesse sentido, a identidade se constrói nessa confluência entre o que é proposto pelas situações sociais e as formas como os sujeitos se posicionam para daí extraírem suas individualidades. A constituição das identidades dos jovens inseridos na prática percussiva investigada e o reconhecimento de si, enquanto membros do bloco Tambolelê, estão intimamente ligados às relações que têm com os outros e com a realidade social. Ou seja, como diz Arent (apud. JACQUES, 1997, p. 42), ao se tentar dizer “quem é”, a própria linguagem induz a dizer “o que alguém é”. Nesse sentido, a identidade se constrói a partir daquilo que os sujeitos comunicam de si e, numa relação direta e imbricada com aquilo que eles comunicam a partir do que os outros dizem deles. Nesse sentido, ocorre o jogo de 1 A constituição da individualidade está baseada “nos determinantes sociais do tempo/espaço ” experienciados pelas pessoas, e também “no trânsito dialético dos símbolos culturais”, como diz Gonçalves (2003). 4 igualdades e diferenças entre o eu e o outro: Cada igualdade se constrói em confronto direto com cada diferença (com o mundo, com o outro), cada igualdade construída é diferente da igualdade anterior, e o processo é irremediavelmente aberto. É nesse jogo de espelhamentos2 que procurei ver os jovens experienciando as práticas musicais percussivas do bloco. Percebendo os significados expressos no ato de tocar, coreografar, cantar, no modo de vestir, no estar juntos, que marcam a condição de ser um integrante do bloco Oficina Tambolelê. Como mencionado, não é um estudo exaustivo sobre a juventude. A perspectiva foi ver um segmento juvenil: determinados jovens das classes popular vivendo uma experiência sociocultural a partir da música percussiva no âmbito da cidade. Seguindo na direção de Dayrell (2001), que nos adverte da difícil tarefa de consolidar uma noção de juventude que dê conta das situações reais, procurei construir um modo de ver a juventude numa perspectiva mais totalizante que, nos termos do referido autor, seria configurar, Uma noção de juventude na ótica da diversidade, considerando o contexto de classe por meio da origem social, cuidando com os determinismos e considerando os diferentes sistemas de interações sociais e simbólicas que interferem na trajetória social dos jovens. (DAYRELL, 2001, p. 10) Outras vias poderiam ter sido trilhadas nesta pesquisa que conta momentos densos da vida de jovens de uma periferia urbana. Procurei extrair do que era vivido, fatos, acontecimentos, significados que tornassem possível um entendimento dos motivos e sentimentos que têm guiado os sujeitos investigados. Ou como perguntam Milito e Silva (1995, p. 10), procurando mapear algumas rotas do caminho e descaminhos da pesquisa e das situações sociais: “como extrair de espaços liminares límpidos conteúdos, roteiros seguros? Como andar com segurança entre escombros? Como indicar os caminhos do labirinto?” A tessitura musical percussiva do bloco Oficina Tambolelê tem se configurado uma experiência sociocultural para os jovens negros envolvidos com ela. Tem possibilitado aos 2 Segundo Marques (2001, p. 267) ao se falar do idêntico “fala-se do diferente, uma contradição que permite identificar as diferenças e semelhanças que caracteriza o processo de formação da identidade”. 5 jovens a configuração de uma distinção social e étnica, com as quais estabelecem diferentes interações sociais. Essa tessitura sonora posta pelo bloco vem confirmando o que tem se tornado uma tendência na contemporaneidade em outros contextos: a relação entre música e identidade. Como bem assinala Rivera (1998, p. 11), situando tal fenômeno como uma problemática universal, “a conformação das identidades socioculturais tem estado entre os caribenhos indissoluvelmente vinculada ao desenvolvimento de suas formas de expressão e comunicação sonora”. Nesse movimento, o Congado tem se tornado uma importante referência na constituição de novas identidades negras na cidade de Belo Horizonte, pois suas manifestações têm sido vistas como traduzindo os “rizomas” africanos em Minas Gerais. Alguns indícios nos levam a tal afirmação: as formas de apropriação atual, no contexto de Belo Horizonte, principalmente, pelos diferentes sujeitos negros; o fato de vir sendo designado como uma prática cultural afro-mineira; ou, como tendo uma ligação com as experiências das populações africanas no Brasil: “coisa que tem tradição, que foi passado pelos escravos, veio nessa coisa de raiz”, “os ritmos que eles trazem digamos assim... da África”, conforme sugerido por Pedrinho e Wesley, membros do Bloco. Essa música, diga-se de passagem, que não é qualquer música, é a forma de expressão crucial que possibilitou a alteração de formas de pensar, de valores, de comportamentos e de representações. Isto é, levou o sujeito a uma reconfiguração profunda de todo seu ser. Essa reconfiguração não poderia passar desapercebida, em certa medida, é preciso estampá-la, mostrá-la em seu corpo com toda as nuances que carrega, com toda beleza que encerra e por todo efeito causado. Mais que discursos militantes insuflados por palavras de ordem e politicamente corretos, a performance musical – a gestualidade, o movimento, o canto, o evento sonoro – tem se tornado uma forma significativa por onde os jovens do bloco comunicam e experienciam processos reais de vida, sobretudo pela emergência de espaços propiciadores de uma vivência e afirmação da identidade “étnico/racial” (GOMES, 2001) que é negada em diversos âmbitos da sociedade. 6 Em seu depoimento, Daniel, membro do bloco, nos dá uma idéia de como essa experiência musical percussiva tem permitido uma vivência da negritude3 em outros moldes, que outros lugares e situações não têm nem trazido a baila e nem colocado em discussão: Aí tá bom... aí eu entrei pra cá... a música fez eu ficar meio doido né... meio doido assim a pensar mais na coisas (...) acho que se eu não tivesse mexido com a música do jeito que é hoje eu não fazia no cabelo4...” (Daniel, 16 anos, 19.01.2003, grifo nosso). Gilroy (2001, p. 166) analisando as formas expressivas negras da diáspora, sugere a necessidade de se colocar em evidência as “performances musicais”, pois nelas “a identidade é alusivamente experienciada das maneiras mais intensas, e às vezes reproduzidas por meio de estilo negligenciados de prática significante como a mímica, gestos, expressão corporal e vestuário”. Também Dayrell (2001) observa essa mesma questão nas configurações das identidades dos jovens de periferia com os quais fez sua pesquisa, sobretudo com aquilo proporcionado pelo estilo de vida rap: esse, além de um “espaço de ressignificação da identidade juvenil”, também tem se constituído como meio de “ressignificação como pobres e negros, elaborando valores e sentidos através dos quais, na afirmação da diferença e localismo, buscam construir identidades positivas”. Assim, a tessitura sonora elaborada pelo bloco Oficina Tambolelê encerra diversas dimensões e significados. Ela produz mudanças, propicia vínculos, permite criar outras formas de viver e ver o mundo circundante, enfim, instaura a possibilidade dos sujeitos exercerem um controle sobre suas vidas. Nesse sentido, é preciso averiguar as diferentes práticas por onde essas questões estão disseminadas e sendo vividas plenamente pelos componentes. Comecemos pela questão da repetição dos ritmos tocados nos ensaios. 3 Utilizamos tal noção como sugerida pelo Dicionário Houaiss da língua portuguesa (2001, p. 2005): “sentimento de orgulho racial e conscientização do valor e riqueza cultural dos negros”. Esse processo pode advir, como indica Gonçalves (2003, p. 292-299) no conteúdo discursivo do movimento hip hop, por “marcas da etnia: a negritude”, traduzidas nas experiências ancoradas em “ícones representativos dos interesses dos negros e descendentes, dados estatísticos, fatos históricos e símbolos afro-culturais”. No caso do bloco, essas “marcas” aparecem nos ritmos, em alguns adereços e instrumento reapropriados pelo grupo, dentre outras. 4 Está fazendo referência aos seus cabelos, que ora estão trançados ou usados na forma ouriçada do estilo Black Power. 7 No possível desvelamento do movimento cíclicos dos ritmos, o jovem Wesley comenta, que a “seqüência de ritmos pode até parecer demorar... mas à medida que o tempo da levada se estende o ritmo se torna mais gostoso de fazer e de ouvir”. Ou seja, essa maneira circular de organizar os ritmos e estender mais sua duração está indicando uma maneira alternativa de se ter o controle sobre suas ações, suas experiências cotidianas, sobre o tempo, enfim, sobre si mesmos. Diante de uma realidade atravessada pela fragmentação ou por relações em que se propõe o instantâneo, o “temporariamente pleno e” rapidamente descartável ou substituível (CANCLINI, 1998), ter o controle de uma vivência temporal se torna crucial para propor uma referência, uma direção, enfim, um ordenamento para pensar os conflitos, as oposições, as mudanças. Para que isso se efetive, criam um processo ritual na produção do evento sonoro, que lhes possibilitem, como diz Turner (citado por CANCLINI, 1998, p. 364), “viver – e observar – os processos de conflito e transição”. O momento denso da execução musical vivido e usufruído pelos jovens do bloco aponta para aquilo que Rivera (1998, p. 39) destaca como uma das potencialidades da música, que seria uma “forma em que as pessoas interagem com seu mundo; no intuito de exercer certo controle sobre sua materialidade, sobre sua biologia, resignificando coletivamente um dos elementos consubstanciais da existência”. Wesley enfatiza essa dimensão coletiva, dizendo que a “música une todos... porque não é possível fazer nenhuma levada sem pelo menos 10 pessoas tocando... é daí que surge a percussão em equipe”. Enfim, repetir, tocar desde as mais novas às mais antigas levadas, é propiciar a vivência do belo e, numa possibilidade de inventar a si mesmo, Wesley conclui: “(...) a marujada é uma das mais antigas do bloco... no entanto é uma das mais tocadas pois soa bonito e o bloco se identifica muito com esta levada.”. Seguindo essas reflexões, queremos sugerir que essa perspectiva cíclica observada no interior do bloco, pode estar indicando a reatualização de “um saber filosófico banto” presente nos festejos do Congado e outros, que segundo Martins (1997, p. 36), “para quem a força vital se recria no movimento que mantém ligado o presente e passado, o descendente e seus antepassados, num gesto sagrado que funda a própria existência da comunidade”. 8 Esse traço cíclico ainda é reforçado nos cantos que são proferidos antes da execução de algum ritmo do repertório, tanto nos ensaios quanto nas apresentações públicas do bloco na cidade. De um modo geral, os cantos seguem a estrutura em que uma pessoa canta e o grupo em coro responde, denominado de solo/coro por Lucas (1999); de canto antifonal por Martins (1997); Rivera (1998) e Gilroy (2001); de responsorial segundo o etnomusicólogo Jean Michele; e canto/resposta ou pergunta e resposta na designação de alguns jovens do bloco. Além dessas formas diferentes de nomear a estrutura em que o canto é executado, é importante destacar que todos os autores citados assinalam que esse tipo de canto é uma das marcas da música africana metaforseada na diáspora que continuam sendo referências fundamentais nas manifestações culturais das populações negras no Brasil e em outros países. Outro aspecto seria “os cantos são proferidos”, no sentido de enfatizar a presença da oralidade. Eles são quase todos falados, ou melhor, são cantos-falados que procuram enfatizar a presença central dos sujeitos, isto é, através deles os jovens do bloco se revelam, encontram-se, descobrem-se nas múltiplas “vozes” ditas. Assim, percebemos que as palavras proferidas nos cantos pelos jovens do bloco têm a mesma centralidade dos ritmos soados nos repicados dos tambores. Nesse sentido, podem ter uma semelhança, guardadas as devidas diferenças de contexto e situação ritual, com o que Lucas (1999) percebeu nos Congados pesquisados, a saber: em que “a palavra emitida pelo congadeiro está, assim, investida de força, o que exige dele grande responsabilidade para que seu uso esteja apropriado ao espaço/tempo”. Nessa mesma direção, Leite citado pela mesma autora, observa que: A palavra, nas civilizações da oralidade, ganha singular importância. De fato, uma das manifestações da ‘força’ do pré-existente é dada pela palavra, forma condensada de energia universal que aflora no homem. É por isso que palavra humana é dotada de ‘força’, devendo ser utilizada adequadamente: uma vez emitida, não volta à pessoa, uma de suas porções desprende-se e integra-se na natureza (LEITE apud LUCAS, 1999, p. 85). Os jovens do bloco dotados dessa ‘força’, proferida na antifonia – chamada e resposta ou solo/coro – indica, segundo Wesley, uma dimensão essencial para eles do que é cantar, tocar tambor, celebrar coletivamente um modo próprio de ser jovem na periferia de Belo Horizonte: “sem mesmo estar tocando... mas sim cantando um refrão com o bloco vem a 9 alegria de estar compartilhando uma união agradável”. Sua fala parece remontar a uma experiência originada na escravidão, em que, Os diálogos intensos e muitas vezes amargos que acionavam o movimento das artes negras oferecem um pequeno lembrete de que há um momento democrático, comunitário, sacralizado no uso das antífonas que simboliza e antecipa (mas não garante) relações sociais novas, de não-dominação (GILROY, 2001, p. 168). De acordo com essas falas e por experiência própria, não basta ficar só na constatação do fenômeno sonoro, é preciso vê-lo, senti-lo de perto. Agora, que sensações são essas vividas e de difícil explicação, manifestadas no contato com a energia emanada dos tambores? Vejamos como que alguns fragmentos de depoimentos dos jovens tentam exprimi-las e nomeá-las: “Cheguei lá comecei ouvi lá... meu braço começou a arrepiar assim..”. (Elias, 16 anos, 07.02.2003) “Tipo uma energia sabe assim... aquela coisa assim sabe... aquela energia que vai fluindo... que agita... (...) eu num sei porque... quando cê tá tocando um tambor... assim... muda tudo assim sabe...” (Aline, 18 anos, 11.02.2003, ênfase da depoente) Esse dia assim tô lá bem tocando... tocando tambor né.... aí vejo o surdo assim... aí vejo os surdos desanimado pra caramba... aí vi surdo dançando... olhava pro pessoal assim o pessoal todo desanimado... aí não vou ficar perto desse pessoal... vou lá juntar com aquele pessoal que tocando tambor com a alma mesmo... tocando com o coração... tambor cê não pode lá tocar ficar lá parado assim... com a cara de lerdo lá... tocando... tem que colocar tudo pra fora... animar... sorrir... não ficar a cara feia não... tem que botar.... coração tocando também... a batida do surdo você pode considerar... a batida do tambor como uma batida do coração cê sentir na alma mesmo...” (Daniel, 16 anos, 19.01.2003, ênfase do depoente). O processo começa e as sensações corporais são desencadeadas, através de arrepios ou uma agradável excitação, um agito. Essas sensações confirmam que o universo musical tem uma função orgânica, tanto nas “práticas religiosas de diversas culturas tradicionais” como também nas práticas culturais juvenis na cidade, “não sendo simples elemento ornamental e complementar” (LUCAS, 1999, p. 5). 10 Último depoimento coloca questões relevantes, aprofundando a percepção: uma primeira inferência, seria da imbricada relação entre música/instrumento e o corpo/sujeitos, como observa Gilroy (2001). Um primeiro indício disso acontece quando o jovem ao falar do ânimo das pessoas que tocavam o surdo, não fala delas, mas mostra que o surdo dança, ou seja, não há uma relação de antinomia entre sujeitos e instrumentos, mas sim uma conjunção, ou melhor, uma interseção, onde um é continuidade do outro. Outro dado se destaca, quando compara o som do surdo com o coração. Com isso, ele acentua a perspectiva vital que o tambor tem tanto no processo de execução quanto para suas vidas, como algo único e emocionalmente denso. Ao destacar a alma, é possível instaurar um momento de transcendência, ou seja, vive-se uma experiência temporal/espacial diferente da corriqueira. Lucas (1999), utilizando uma análise de John Blacking, afirma que a música tem o poder de “nos envolver em outras sensações temporais”. Além disso, citando Stokes, enfatiza que: O evento musical, desde as danças coletivas até o ato de colocar uma fita cassete ou um CD num aparelho, evoca e organiza memórias coletivas e proporciona experiências de localidade com uma intensidade, uma força e uma simplicidade inigualáveis a nenhuma outra atividade social. Os lugares construídos através da música envolvem noções de diferenciação e fronteiras sociais. (STOKES apud LUCAS, 1999, p. 77). Essa é outra dimensão muito significativa para os jovens, que acontece de uma forma integrada ao canto e de maneira magistral, concomitantemente, quando se tocam os instrumentos. Dançar e tocar ao mesmo tempo são uma condição subjacente à forma de música que o bloco faz, pois o ritmo é o elemento que se estabelece como forma protagônica, é ele que guia e preenche toda a performance musical. Esse mesmo entrelaçamento tem certa correspondência com o que Lucas observou do comportamento musical do tocador de caixa na guarda de Congo, onde o elemento rítmico também é algo central, No corpo do caixeiro do Congo está a síntese dos movimentos organizadores dos pulsos. Em seu corpo concentram-se os gestos que simultaneamente produzem os sons das caixas, definem sua dança, e seu deslocamento, e emitem os sons articulados de seu canto, tudo sob o comando do seu senso rítmico (LUCAS, 1999, p. 198). Os movimentos, de certa forma, organizam-se num diálogo (pergunta/resposta) constante com padrões rítmicos produzidos. Quanto maior vigor e empolgação na forma de tocar, 11 maior será o vigor com que serão realizados os movimentos coreográficos, os quais quase sempre são realizados de forma coletiva. Em Belo Horizonte diferentes grupos culturais continuam dando voz aos tambores. Sua canção que até bem pouco tempo ficava, tenazmente, guardada para o universo sagrado dos Congados, espalhados por toda Minas Gerais, passa a ecoar em novos espaços periféricos da cidade. Seus cantos passam a ser ouvido dos morros, favelas, vilas, ruas, becos tomando, ou melhor, invadindo a paisagem urbana que teima em ser excludente e homogênea. Os “periferozes da periferia”, ardilosamente contrários a essa paisagem, fazem do tambor uma arma poderosa, que possibilita fazer seu “protesto virar samba, capoeira e alegria”5. Talvez, desse modo, estejam retomando o sentido da experiência musical vivida no Atlântico negro, em que o tambor com “suas síncopes características ainda animam os desejos básicos – serem livres e serem eles mesmos – revelados nesta conjunção única de corpo e música da contracultura”. (GILROY, 2001, p. 165) Enfim, o bloco Oficina Tambolelê surge tramando a cidade a partir de uma produção sonora específica, que vai traduzindo modos próprios de convivência, outros olhares sobre si mesmos e sobre o mundo circundante. Também a cidade os trama, os marca, e exige posicionamentos, formas estratégicas de agir e os provoca na procura incessante de serem eles mesmos sujeitos socioculturais. Essa procura enseja outras questões, uma delas seria a força que as práticas de música percussiva vêm ganhando no contexto de Belo Horizonte. Essa tem mobilizado diferentes grupos e conseguido aglutinar jovens oriundos das periferias, vilas e favelas de diferentes pontos da cidade. O fazer percussivo – sem desconsiderar a presença marcante do rap e do funk com grande poder agregador nesses contextos – tem possibilitado outro modo de ser jovem nas classes populares, sendo espaço onde se vive e se elabora a cultura jovem com outras questões e onde são colocados, na ordem do dia possíveis discussões e/ou alternativas para as incertezas e problemas que os afligem e à sociedade como um todo. O fazer percussivo do bloco traz à tona outros o desafio de inventar a si mesmo como um grupo étnico/racial, revisita as manifestações rituais do Congado mineiro, que, no 5 Trecho da música Periferozes do grupo musical Berimbrown de Belo Horizonte. 12 momento, têm se tornado “aquele algo no meio” que traduz as marcas de origem africana produzidas na cultura brasileira. Nesse sentido, vasculham tal universo, capturando e retraduzindo ritmos, instrumentos, valores e buscando criar uma “voz” sonora própria com aspectos da contemporaneidade. É com essa “voz” que o grupo e os seus membros passam a ser distinguidos como pertencentes a um grupo étnico/racial específico – aqui em destaque o negro –, com suas formas expressivas. Essa distinção não traz somente o reconhecimento – são percebidos e as pessoas sabem da sua existência –, mas, no contexto de uma sociedade pautada por relações sociais e raciais desiguais, a distintividade construída e posta nas interações sociais pelo bloco e seus membros suscita, também, reações constantes de hesitação, críticas de cunho depreciativo, deboches ou gozações de toda ordem, embates. Enfim, traz à tona idéias e sentimentos que os inferiorizam, por estamparem no corpo e expressarem na sua forma de fazer música marcas de uma negritude. Os jovens do bloco, sobretudo os negros e mestiços, a partir dessa prática vão alterando suas formas de pensar, de agir, de vestir, e passam a sentir e experienciar, concretamente, a possibilidade de se tornarem negros, enfrentando os embates do cotidiano. Daí, passo a passo, constroem um processo afirmativo que pode vir a alterar questões mais amplas presentes na sociedade. A convivência no espaço do bloco que tem propiciado tanto a construção de uma identidade juvenil quanto à estruturação de uma perspectiva positiva de jovens pobres e negros. Dessa forma, a prática de música percussiva, do bloco Oficina Tambolelê, tem propiciado uma experiência sociocultural para os jovens que ali estão inseridos. Essa experiência os marca e os toca profundamente, pois é vivida de forma emocionalmente densa em diversas circunstâncias, no bloco ou nas trocas intensas estabelecidas nas redes de relações. Ela é traduzida: na forma como tocam os tambores; na energia e na vibração que deles pulsam e penetram no corpo dos componentes possibilitando a vivência de uma dimensão temporal/espacial distinta da vida cotidiana; na centralidade que o corpo ganha nas danças coreografadas e saboreadas coletivamente; na fórmula repetitiva dos ritmos e dos cantos proferidos, que buscam instaurar um momento democrático, em que tocante e público 13 interagem, compactuando o que está sendo vivido e sentido em momentos únicos e irrepetíveis. Esses são alguns dos aspectos da ordem do vivido dos jovens do bloco que foram captados neste trabalho, sei que outros tão importantes quantos os aqui foram descritos mereciam o mesmo trato. Bem sei que delineei parte de um modo vida de extrema complexidade e dinâmica, mas o que aqui foi traduzido pode ajudar a abrir novos estudos no sentido de melhor compreender os jovens das periferias urbanas nos seus embates cotidianos e suas práticas culturais que traduzem modos de vida, olhares, percepções, perspectivas estéticas... Referências bibliográficas CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da Modernidade. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998. CARRANO, Paulo César Rodrigues. Angra de tanto reis: práticas educativas e jovens tra(n)çados na cidade. Rio de Janeiro: Universidade Federal Fluminense, 1999, Tese de Doutoramento. DAYRELL, Juarez. A música entra em cena: o rap e o funk na socialização da juventude em Belo Horizonte. São Paulo: Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2001, Tese de Doutoramento. FRADIQUE, Tereza. Nas margens... do rio: retóricas e performances do rap em Portugal. 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