HISTÓRIA NA SALA DE AULA: COMUNIDADES QUILOMBOLAS Rosana Andréa Cipriani Giarola1 Resumo Repensar o papel do ensino de História na Educação Básica, é apontar para a necessidade de se redirecionar a educação para a construção de instrumentos de análise e ação sobre a produção do conhecimento histórico. A Lei 10.639/2003 estabeleceu a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira e africana em todos os níveis da Educação Básica do país. É nesse sentido que surge o interesse de se trabalhar com memória em um estudo de campo envolvendo as comunidades quilombolas denominadas Palmital e Jaguara em Minas Gerais. Conhecer a historicidade dessas duas comunidades por meio de narrativas possibilita um aprendizado mais significativo, tanto para os alunos do Ensino Médio quanto para os bolsistas do PIBID, no que diz respeito ao ensino de História. A metodologia inclui visitas nas comunidades com a proposta de recolher depoimentos espontâneos, entrevistas, registros em fotos e vídeos. O resultado desse trabalho de campo será editado como material didático para uso em sala de aula e nas Comunidades. A previsão para conclusão final do trabalho é para o ano de 2015. Palavras-chave: Ensino de História; memória, cultura e identidade. Agências financiadoras: CAPES / UFSJ. Abstract HISTORIA EN EL AULA: COMUNIDADES QUILOMBOLAS Repensando el papel de la enseñanza de la historia en la Educación Primaria se apunta a la necesidad de reorientar la educación para la construcción de hierramientas y acciones de análisis en el conocimiento histórico de producción. Ley 10.639 / 2003 establece la enseñanza obligatoria de la cultura afro-brasileña y africana en todos los niveles de la educación básica en el país. En este sentido, surgió el interés de la memoria del trabajo en un estudio de campo que involucra comunidades cimarronas llamadas Palmital y Jaguara en Minas Gerais. Conocer la historicidad de estas dos comunidades a través de las narraciones permite un aprendizaje más significativo, tanto para los estudiantes de secundaria, y para esos tipos PIBID, en lo que respecta a la enseñanza de historia. La metodología incluye visitas en las comunidades con la propuesta de recoger testimonios espontáneos, entrevistas, registros de fotos y videos. El resultado del trabajo de campo será publicado como material didáctico para su uso en la sala de clase y en las Comunidades. El pronóstico para la finalización tardía de la obra es para el año 2015. Palabras clave: Enseñanza de la Historia; la memoria, la cultura y la identidad. Los organismos de financiación: CAPES / UF 1 Graduada em Filosofia e História pela Fundação de Ensino Superior de São João del-Rei , Especialista em Educação Empreendedora pela UFSJ; Professora de História da Escola Estadual Dr. Garcia de Lima, São João del-Rei MG; Professora supervisora PIBID / História / UFSJ, sob coordenação do Prof. Dr. Orlando José de Almeida Filho Doutor em Educação:História, Política, Sociedade pela PUC- SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) – 2008 INTRODUÇÃO Repensar o papel do ensino de História na Educação Básica, é apontar para a necessidade de se redirecionar a educação para a construção de instrumentos de análise e ação sobre a produção do conhecimento histórico, sobre a realidade do país, para uma aprendizagem que seja considerada pelos jovens como significativa e que possa Foto: Joice da Silva – aluna 3ºano Ensino Médio lhes proporcionar uma compreensão mais identidade e seu papel na formação da profunda das ações humanas, ampliando identidade o debate sobre “para que serve aprender descendentes. O pouco material didático História”. A Lei 10.639/2003 estabeleceu que dialogue com uma linguagem mais a obrigatoriedade do ensino da cultura próxima afro-brasileira e africana em todos os cumprimento da Lei que acabam por níveis da Educação Básica do país, tendo fortalecer visões distorcidas e estereótipos como em relação aos africanos e aos seus objetivo o reconhecimento valorização de sua história, e cultura e das da comunidade realidade afro- dificulta o descendentes. O Ensino Médio, enquanto etapa final da Educação Básica, deve conter os elementos indispensáveis ao exercício da cidadania e não apenas no sentido político de uma cidadania formal, mas também na perspectiva de uma cidadania social, extensiva às relações de trabalho, dentre outras relações sociais, sem perder de vista a dimensão histórica. Nessa etapa que se desperta o cidadão crítico, os futuros professores de História e possíveis historiadores, é, “Contribuir notavelmente para o crescimento e autonomia da ação crítica de quem vive a história, de quem investiga, de quem a ensina, de quem a aprende – em um processo contínuo de tomada de consciência de sua própria historicidade.”(Rüsen, 2010). É nesse contexto, que se desenvolve essa proposta de trabalho com memória e história oral, a partir do estudo de caso de duas comunidades quilombolas, visando a formação de uma consciência histórica e suas relações entre o passado, o presente e eventualmente o futuro, no plano social e individual2 . Essa proposta surgiu no trabalho docente em um debate nas turmas de 3º ano do Ensino Médio de 2013, na E.E.Dr. Garcia de Lima, em São João Del-Rei, MG, sobre escravidão e liberdades, que tinha como objetivo analisar as contradições entre trabalho escravo, mobilidade social e resistências à escravidão na sociedade no Brasil Império, identificando a localização dos principais quilombos e seus efeitos sobre os colonos. A proximidade com comunidades quilombolas despertou o interesse em uma prática pedagógica de valorização da memória local como fonte para a construção da consciência histórica, através de pesquisa empírica num estudo sobre a escravidão e seus reflexos políticos, culturais e sociais no Brasil, em um estudo de campo envolvendo comunidades quilombolas em uma região próxima a São João Del-Rei denominadas, Palmital e Jaguara. Analisar a questão da identidade individual, local e nacional favorece a reflexão sobre a capacidade de produzir conhecimento sobre o passado, e sobre como essa capacidade difere de povo para povo, contribuindo substantivamente para a construção dos laços de identidade e consolidação da formação da cidadania. Cidadania que não se resume a um conjunto de direitos e deveres na Constituição, mas resultado da tomada de posse da própria identidade individual e coletiva. Portanto, o maior desafio do ensino de História na educação escolar não é assimilação de conteúdos, mas de como eles são transformados em conhecimentos, competências e valores a serem utilizados de maneira efetiva na sociedade. 2 Rüsen em ensaio: Como dar sentido ao passado: questões relevantes de meta-história, aborda a lógica da memória cultural e do pensamento histórico. (história da historiografia . número 02 . março . 2009) Traduzido por Valdei Araújo e Pedro S.P.Caldas. Primeiramente, dois conceitos básicos para lidar com o passado em nome do futuro são discutidos: “memória” (I) e “história” (II). A parte seguinte trata das questões do fazer história que demandam uma atenção especial nos discursos interculturais do presente: identidade e os problemas do etnocentrismo (III). Adiante se analisa as ferramentas conceituais e metodológicas para a comparação intercultural (IV). Depois disso, aborda-se o excepcional desafio das experiências históricas traumáticas (V) e, finalmente, são trazidas em consideração os novos modos de pensamento histórico como respostas a esse desafio: luto e perdão (VI). A última parte (VII) oferece um rápido panorama sobre a dimensão prática da comunicação intercultural. Em resumo, todo o texto pretende servir como um esboço dos contornos das principais questões da meta-história em uma argumentação sistemática. Em face desse contexto, essa proposta de trabalho se apresenta nos termos daquilo que nos é apresentado pelos historiadores LE GOFF, SCHIMIDT, ALBERTI, BLOCH, RÜSEN, entre outros estudiosos, que direcionam ao uso da história oral sob aspectos teóricos e metodológicos, para uma prática significativa de investigação social e histórica, viabilizando sujeitos e lugares ocultados e silenciados por processos de desarticulação e desenraizamento de modos culturais de viver, de trabalhar, de sociabilizar, trazendo novas questões para o debate sobre a escravidão no Brasil e suas conseqüências políticas e sociais. I – Dialogando com conceitos A introdução dos estudos da História da África nos meios acadêmicos e escolares não representa apenas um acerto de contas com o passado. O estudo sobre a exploração do continente africano deve ser visto como uma continuidade das lutas e resistências do povo da África e dos africanos escravizados na América. Marc Bloch foi um dos pioneiros a se levantar contra a forma tradicional de entender a História como ciência que se ocupa em estudar o passado. Defendia que o tempo da História envolve espaço e tempo, que o presente é importante para a compreensão do passado e vice-versa. Desconstruir e reconstruir conceitos sobre a escravidão no Brasil impõe-se a partir da preservação e reconstituição da memória da história de povos que mesmo chegando a esse continente sem nenhum tipo de documento escrito, se mantém presente na formação da cultura brasileira. “é preciso diferenciar as sociedades de memória oral e as de memória escrita, seja como for, nas sociedades sem escrita a atitude de lembrar é constante, e a memória coletiva confunde História e mito. Tais sociedades possuem especialistas em memória que têm o importante papel de manter a coesão do grupo”.(Le Goff, 2010 p 553. ) Segundo Jaques Le Goff, a memória é a propriedade de conservar certas informações, propriedade que se refere a um conjunto de funções psíquicas que permite ao indivíduo atualizar informações passadas, sendo assim, a memória está nos alicerces da História, confundindo-se com o documento, com o monumento e com a oralidade. Le Goff fez parte da Escola dos Anaales3 que defende novos campos de pesquisa historiográfica que não se limitassem aos arquivos estatais, aos governantes, às conquistas heróicas. A História deveria se basear nas mentalidades das épocas passadas, a geografia, o clima, os costumes, a vida cotidiana e à memória como documento histórico. Os fundadores da revista “Annales d’histoire économique et sociale” (1929), propõem a necessidade de ampliar a noção de documento: “A história faz-se com documentos escritos, sem dúvida. Quando existem. Mas pode fazer-se, deve fazer-se sem documentos escritos, quando não existem.”( Le Goff,1994 p.466). O autor defende uma História social, usando como recurso historiográfico a história oral como possibilidade de mudança do passado, dando palavra aos esquecidos da História. Deste modo, o estudo e análise de narrativas como fontes históricas pode ser um ponto de partida do que entendemos como “o fazer histórico” na sala de aula, ajudando o aluno a desenvolver o espírito crítico. [...] A transposição didática do fazer histórico pressupõe, entre outros procedimentos, que se trabalhe a compreensão e a explicação histórica. Podem ser priorizados alguns pontos de explicação históricas para Serem transpostos para a sala de aula e compõem o que denominamos a Educação Histórica [...] A problematização histórica, ao ser transportada para o ensino, traz múltiplas possibilidades e também questionamentos [...] É preciso que se leve em consideração o fato de que a história suscita questões que ela própria não consegue responder e de que há inúmeras interpretações possíveis dos fatos históricos [...] (SCHIMIDT, 2008,p.60) 3 Na França, desde os finais dos anos vinte, crescia em influência a chamada École des Annales, liderada por um pequeno grupo de historiadores reformistas, reunidos ao redor de Marc Bloch e Lucien Febvre que, desde 1929, vinham publicando uma revista (Annales d'histoire économique et sociale), que tinha por objetivo afastar a historiografia da sua dependência para com a política, como era o gosto da corrente positivista. A oportunidade de trabalhar dentro desta proposta em comunidades quilombolas foi possível com o trabalho desenvolvido pelo PIBID - Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/ UFSJ, na Escola Estadual Dr. Garcia de Lima, que tem como um dos objetivos: elevar a qualidade da formação inicial de professores. Para isso, se faz necessário a abordagem de propostas para uma aprendizagem mais significativa, com a concepção de um professor pesquisador, como protagonista nos processos de mudança educativa e não meramente e um transmissor de saber, considerando o aluno não como receptor de conhecimento, mas parte integrante do processo de ensino aprendizagem. O primeiro contato com as comunidades se deu através do trabalho do professor da UFSJ, Dr. Manuel Jauará, em novembro de 2013, quando as comunidades receberam a certificação de Comunidades Quilombolas da Fundação Palmares. A reflexão sobre a memória tornou-se, para professores de História, bolsistas do PIBID e alunos do Ensino Médio uma oportunidade para refletir sobre a capacidade de produzir conhecimento sobre o passado, e sobre como essa capacidade difere de povo para povo, contribuindo substantivamente para a construção dos laços de identidade e consolidação da formação da cidadania. O direito à memória faz parte da cidadania cultural e revela a necessidade de debates sobre o conceito de preservação das obras humanas e a constituição do patrimônio cultural. “A historicidade empírica da realidade das sociedades e das culturas, que envolve cada de um de nós como individuo pensante e agente, é, por conseguinte, o ponto de partida para encontrar, em sua diversidade, o que nos faz iguais, livres e solidários. Ou o que nos deveria fazer iguais livres e solidários.”(Rüsen, 2010,p.8) . Tendo esta questão como ponto central do fazer pedagógico, a equipe composta por professores da UFSJ, bolsistas do PIBID, alunas do Ensino Médio e professora supervisora do PIBID/História visitaram no dia 24 de novembro de 2013 as Comunidades Quilombolas de Jaguara e Palmital, que se mostraram interessadas em participar do projeto de recuperação e documentação da memória local. Durante a visita à comunidade, foram deixadas 12 “caixas de memórias” com a proposta de recolher nelas depoimentos espontâneos das pessoas mais velhas da comunidade, foram feitos alguns registros em vídeos e entrevista. A idéia de se usar as caixas de memórias, foram extraídas do trabalho: De relicários a janelas: objetos materiais como mensageiros da investigação escolar, das pesquisadoras Gisela Marques PellizzoniI; Sonia Regina MirandaII4, baseia-se na experiência de pesquisa de forma informal, onde as famílias deixam de forma espontânea suas lembranças.5 Retornamos às comunidades em julho de 2014, para novos registros para a pesquisa e documentação da história local. A proposta pedagógica se estende para o ano letivo de 2015 devido a amplitude do projeto e possibilidades de construir conhecimentos a partir de experiências , reforçando-se diálogos entre o saber acadêmico e as práticas em sala de aula. Oferecendo condições para que o aluno possa participar do processo de “fazer história”, principalmente pela valorização dos diversos pontos de vista. O uso da História oral como metodologia de pesquisa segundo Alberti, permite ao pesquisador na produção do documento uma constante avaliação desse documento ainda durante sua constituição. “ A entrevista de história oral permite também recuperar aquilo que não encontramos em documentos de outra natureza: acontecimentos pouco esclarecidos ou evocados, experiências pessoais, impressões particulares etc.”(ALBERTI, 2005 P.22). Para compreender tais questões, foram delineados os seguintes passos: - Analisar as trajetórias familiares através de depoimentos orais, visando as suas relações entre o passado, o presente e eventualmente o futuro, no plano social e individual; - A partir da análise das narrativas, fazer da História oral uma prática significativa de investigação social e histórica sobre a escravidão no Brasil, viabilizando sujeitos e lugares ocultados e silenciados por processos de desarticulação e desenraizamento de modos culturais de viver, de trabalhar, de sociabilizar, trazendo novas questões para o debate sobre memória e história e suas mútuas relações, buscando rupturas e permanências. 4 IMestre em Educação pela UFJF, professora da Escola Municipal José Calil Ahouagi (Rede pública municipal de Juiz de Fora, MG). II Doutora em Educação pela Unicamp, professora da área de Teoria de Metodologia do Ensino de História da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFJF. 5 Essa metodologia foi usada pelo PIBID/História na E.e.Dr.Garcia de Lima, em 2011 para um estudo da História do Bairro das Fábricas e trouxe resultados significativos como caminho investigativo e pedagógico escolar atravessando e redimensionando os elos entre escola e família. - Elaboração de um material didático que possibilite, tanto para os bolsistas do PIBID como para os alunos secundaristas e integrantes das comunidades, a percepção do conhecimento da própria formação histórica e política em que normalmente permanecem a desvalorização da memória, manutenção de preconceitos raciais entre outros. II – O trabalho de campo: a percepção das permanências e das mudanças. Para direcionar a produção do material pedagógico foram analisadas, a princípio, nove (09) entrevistas de pessoas das comunidades na faixa etária entre 50 a 88 anos. Desse grupo, oito (08) nasceram nas comunidades e um (01) em Nazareno, cidade mais próxima e onde se encontram os registros (certidões de nascimento, casamentos e óbitos) de documentos das comunidades. Cinco deles (05) são analfabetos e quatro (04) estudaram até a 3ª série do Ensino Fundamental. Todos relataram que a escola não funcionava direito por falta de fiscalização da Secretaria de Educação, que as professoras não tinham formação superior e não lecionavam o tempo correto da carga horária, "Ficavam chupando laranja, andando pela comunidade, levavam verduras para casa" (morador 67 anos). Há dez anos a escola foi fechada e as crianças da comunidade passaram a frequentar as escolas da cidade de Nazareno. As comunidades estão em uma região onde haviam grandes fazendas de criação de gado leiteiro. Segundo relatos dos moradores, as terras onde se encontra a comunidade da Jaguara, juntamente com duas regiões próximas, foram doadas por três fazendeiras solteiras, sem descendentes, onde foram construídas três capelas de pedra em homenagem à Nossa Senhora do Carmo. Na comunidade Palmital, não se sabe ao certo a origem do povoado, e este nunca teve ligação com a Jaguara, no entanto há fortes laços de parentesco entre as comunidades. No relato de uma senhora de 88 anos (nascida em 1926) é possível analisar o surgimento da Jaguara. Ela diz que os pais trabalhavam nas fazendas ao entorno da comunidade, que vieram morar na Jaguara em 1933, onde só havia 3 casas de pau a pique. A casa onde morava chegou a abrigar 14 pessoas e que antes moravam em uma fazenda numa casa de mais de cem anos. Ela relata que: " O povoado foi aumentando na medida que as pessoas foram comprando lotes da Igreja", no entanto, não há registro de escrituras dos terrenos, como essa narrativa se repete em outros indivíduos, essa informação sinaliza que houve uma "tutela" da Igreja Católica no assentamento da população afrodescendente na região, e, que a princípio, não foi um quilombo formado por escravos fujões, o que merece um estudo mais aprofundado mediante fontes documentais. Sobre a vida na comunidade, os relatos são de pouca comida, produziam as próprias roupas, cultivo de subsistência, ausência do poder público. Até os dias atuais, não tem posto de saúde, um médico atende uma vez por mês na casa paroquial, falta saneamento básico principalmente na comunidade de Palmital. A energia elétrica foi implantada em 1983. Nunca houve nenhum tipo de produção artesanal, haviam algumas benzedeiras. A Igreja Católica é predominante nos traços culturais das comunidades, as festas são direcionadas à Nossa Senhora do Carmo, na Jaguara e São Sebastião em Palmital. Há cinco anos começaram a fazer um festa em novembro para comemorar o dia da Consciência Negra. Quanto às condições de trabalho, as narrativas são mais carregadas de detalhes e emoção, onde a memória coletiva deste grupo, possibilita um diálogo com o livro didático, que , segundo Rüsen " O cotidiano e as experiências dos afetados por cada acontecimento concreto não representam um âmbito próprio da experiência, mas pertencem a um entendimento mais amplo de cultura" (2010, p.121). Foi comum o relato de trabalho infantil, maus tratos, surras, doação de crianças, principalmente meninas para o trabalho doméstico, falta de registro e cumprimento das leis trabalhistas. "Trabalhava de manhã para comer de tarde, era tipo de escravidão, os patrões pagavam quando queria"( morador de 74 anos). Essas narrativas propiciam o debate em sala de aula sobre rupturas e permanências na História do Brasil. Desse modo, o conceito de tempo é um dos principais que precisa ser desenvolvido no estudo e compreensão da História. A temporalidade deve ser tratada visando a compreensão passado/presente através da interpretação de diferentes documentos e fontes. Quando a pesquisa direciona-se ao conhecimento sobre a África e do desejo saber sobre seus antepassados, três(03) não querem conhecer nada sobre sua origem africana, um (01) quer saber só coisas boas, quatro (04) tem interesse "Quando for possível, para saber deles, de onde vieram"(morador de 74 anos) e um (01) disse que sabe que na África tem animais diferentes daqui e disse que : "_ Era grande e tinha muitos crioulos, e que lá não era bom não"( morador de 73 anos). E sabia que os escravos vinham para o Brasil de navio e amarrados. Esses dados demonstram a ausência de informações e uma negação à origem devido a um processo de construção de identidade que confronta uma passado traumático e um futuro que pretende ser o contrário desse passado. Diante desses dados, foram produzidas aulas/oficinas que através de interpretação de imagens, documentos, músicas, produções artísticas, estimulando o debate sobre os conceitos de etnocentrismo, escravidão, trabalho, leis, resistências, cultura, religião, exclusão social, cidadania. Esse material será disponibilizado aos professores da rede, através da Secretaria Regional de Ensino de São João Del- Rei, trabalhado nas comunidades quilombolas e nas escolas onde estudam as crianças de lá. CONSIDERAÇÕES GERAIS Trazer para prática em sala de aula a narrativa histórica, é trabalhar com a diversidade cultural não só no discurso de igualdade entre todas as culturas, mas pela compreensão de que não há superioridade cultural entre os povos, que segundo Rüsen, a consciência história está ligada a forma de como o sujeito se posiciona diante do presente. O depoimento de pessoas com mais de 80 anos nas comunidades possibilita um estudo de acontecimentos e/ou conjunturas em um espaço temporal importante que avaliados junto a documentos já existentes podem assumir o caráter de fontes em potencial. O resgate da memória através das " caixas de memórias" proporciona o encontro de gerações nas comunidades, proporcionando a transmissão de conhecimento sobre a História daquela gente. A história oral permite encontrarmos aquilo que não foi documentado, esclarecer fatos que não foram evocados e/ou omitidos na historiografia. Também a análise da história oral de outros grupos em idades cronológicas diferentes poderá delinear, através da memória individual e coletiva, pela evocação do passado no presente, uma perspectiva temporal da comunidade que deve ser compreendida e alcançada pela consciência histórica. A memória social e histórica é, portanto, uma ferramenta para os diferentes tipos de sociedades, de suas relações com a memória coletiva e suas possibilidades de investigar a presença de determinados conceitos históricos como a escravidão no Brasil e seus desdobramentos políticos e sociais. [...] "o estudo da memória social é um dos meios fundamentais de abordar os problemas do tempo e da história, relativamente aos quais a memória está ora em retraimento, ora em transbordamento." (LE GOFF, 2003. P 422). Ainda há muito o que pesquisar e trabalhar nas comunidades para a produção de um material que documente a História local a ser deixado como contrapartida de nosso trabalho, a cada visita novas informações são colidas, como também perdas são computadas, são memórias que se apagam. Trazer esta experiência para a prática docente no que se refere aos bolsistas do PIBID e o fazer histórico aos alunos secundaristas, é oportunizar um estudo de História e uma análise sobre a escravidão no Brasil de forma mais crítica, fazendo do debate uma ferramenta para a percepção da diversidade sociocultural da passagem do tempo e a sua contagem como construção cultural. Estimular o debate e incorporar a importância do estudo de História para a formação de uma memória social sem exclusões e discriminações é uma abordagem necessária a ser realizada, constitui excelente oportunidade para o desenvolvimento de uma aprendizagem significativa. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS • ALBERTI, Verena. 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