A MATEMÁTICA NOS PROGRAMAS OFICIAIS PARA OS GRUPOS ESCOLARES NO ESTADO DO PARANÁ NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX Mariliza Simonete Portela1 - UNESPAR Catiane Machado Carneiro 2 - UNESPAR Pamela Rosa Pereira 3 - UNESPAR Grupo de Trabalho – Educação Matemática Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo O presente trabalho é fruto de pesquisa em desenvolvimento em um grupo de estudos realizado na Universidade Estadual do Paraná, com graduandos e egressos do curso de Pedagogia, sobre a matemática escolar primária, que tem como fontes, documentos históricos das primeiras décadas do século XX, arquivados em instituições escolares, biblioteca pública, arquivo público físico e virtual. O estudo fundamenta-se em bibliografia pertinente ao tema de acordo com pesquisas até o momento desenvolvidas no estado do Paraná e buscou compreender a matemática escolar inscrita nas finalidades da escola baseando-se nos estudos de Chervel (1990). Para esta escrita, foram investigadas as propostas de ensino da matemática para a escola primária contida em documentos oficiais paranaenses. Dentre as fontes documentais estão: Regulamento da Instrução Pública; Código do Ensino do Estado do Paraná; Relatório do Diretor Geral da Instrução Pública; Programa dos Grupos Escolares do Estado do Paraná; Bases Educativas para a organização da Nova Escola Normal Paranaense e Regimento Interno e Programa para Grupos Escolares. Partindo da análise da matemática escolar do ensino primário nos documentos oficiais do estado do Paraná das primeiras décadas do século XX, e dos estudos já publicados de pesquisadores dessa temática, o estudo apontou em primeiro lugar para a importância da formação de grupos de graduandos e egressos para trabalho de pesquisa, em segundo, para a importância da constituição de fontes históricas como objeto de análise para expandir o conhecimento da história das disciplinas escolares na formação de professores dos anos iniciais para alimentar sua prática de ensino. Palavras-chave: Ensino Primário. Grupos Escolares. Matemática. 1 Doutora em Educação pela PUCPR: Professora Titular da Universidade Estadual do Paraná. E-mail: [email protected]. 2 Graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Paraná. E-mail: [email protected]. 3 Graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Paraná. E-mail: pamela.rosa.pereira@[email protected]. ISSN 2176-1396 38217 Introdução A formação de grupos de estudo no âmbito universitário tem como objetivo a inserção dos graduandos na pesquisa e continuidade da prática da investigação de alunos egressos. A realização desse trabalho teve como motivação as discussões apresentadas em sala de aula sobre as dificuldades apresentadas pelos alunos, a aversão de muitos ao estudo da disciplina Matemática e até mesmo sobre a evasão escolar que essas dificuldades provocam. Embora se reconheça que a matemática faz parte do cotidiano e está inserida em todos os ramos de atividades, e se estude na escola seus conceitos e sua história enquanto ciência, pouco se discute a história da matemática enquanto disciplina escolar, sobretudo para os anos iniciais. Segundo Pinto (2014, p.125) “A história das disciplinas escolares, uma das mais recentes ramificações da história da educação, vem proporcionando um novo olhar ao ensino dos conteúdos escolares”. Desse modo consideramos que conhecer as propostas para o ensino da matemática que sucederam as práticas escolares atuais pode ser uma forma de motivar alunos e professores a olhar para essa disciplina sem medo ou distanciamento. A aproximação com algumas pesquisas que tem como foco a matemática dos anos iniciais nos conduziu à leitura de documentos oficiais que determinavam como e quais conteúdos deveriam ser ensinados pelos professores. Desta forma, com a intenção de conhecer um pouco sobre como o ensino da matemática da escola primária foi proposto no estado do Paraná escolhemos documentos oficiais de décadas iniciais do século XX. Entre os documentos analisados para compreender a condução do ensino da matemática, tomamos o Código do Ensino do Estado do Paraná datado de 1917. Nele constam orientações para conduzir o ensino no estado, a organização dos ensinos, maternal, jardim de infância e primário, os programas de ensino e distribuição de tempo para sua execução, incluindo as modalidades de escola para o atendimento da população, entre elas, os grupos escolares. Outro documento que nos permitiu conhecer a proposta de ensino de matemática para os grupos escolares, modalidade de escola seriada que reunia em um mesmo espaço pelos menos quatro séries, foi o programa proposto para os grupos escolares do estado do Paraná em 1921. Este, diferente do Código do Ensino (1917) detalhava os conteúdos que deveriam ser ensinados nas quatro primeiras séries. No sentido de estabelecer como limite, a década de 1930, para o período sobre o qual se debruçou esta escrita, foi analisado o documento elaborado pela Diretoria Geral da 38218 Instrução Pública de 1932, que estabeleceu o regimento e o programa a ser cumprido nos grupos escolares do estado do Paraná. Os Grupos Escolares no estado do Paraná: nova modalidade de ensino No início do século XX, as modalidades de escolas que haviam eram escolas isoladas urbanas e rurais denominadas simples. O documento que regia o ensino era o Regulamento da Instrução Pública do Estado do Paraná de 1901 e a obrigatoriedade do ensino, de acordo com ele, estava definida para os meninos em idade de sete a quatorze anos e para meninas, de sete a doze anos. Entre as matérias de ensino estava: a aritmética compreendendo as quatro operações sobre todas as espécies de números. Ainda segundo o documento, uma das escolas primárias seria designada para ficar anexa à escola normal constituindo-se escola modelo para as práticas pedagógicas. Nela o método adotado seria intuitivo e em seu programa constaria de lições de coisas4, conversação familiar, cato, desenho, leitura, rudimentos de cálculos, recitação, exercícios manuais, mentais e físicos. No Regulamento do Ensino Público do Estado do Paraná de 1909, documento que mantinha o caráter do ensino como intuitivo, preconizava para o ensino da aritmética: a prática das quatro operações sobre números inteiros e fracionários, noções sobre sistemas de números e sistemas de numerações. A novidade deste documento é que outra modalidade escola que vem compor o regulamento, o grupo escolar. Enquanto as escolas isoladas eram organizadas em uma sala agrupando diferentes séries, os grupos escolares tinham uma sala para cada série, ou seja, o ensino era seriado. No estado do Paraná a implantação dos grupos escolares se deu no início do século XX e seguiu o modelo de ensino do grupo escolar paulista, estado que era o disseminador das ideias modernistas para diversos estados brasileiros. O primeiro grupo escolar recebeu o Grupo Escolar Xavier da Silva, homenagem à Francisco Xavier da Silva que atuou como presidente do estado de 1900 à 1904, e foi inaugurado em Curitiba em 1903. O grupo contava com seis salas de aula para atender às quatro séries primárias em seções separadas para meninos e meninas. 4 O método de ensino intuitivo, também conhecido como Lições de Coisas, foi estudado por Valdemarin (2004) ao analisar o Manual Primeira Lição de Coisas, de Norman Allison Calkins. Tal método foi entendido por seus propositores europeus e americanos, em meados do século XIX, como um instrumento pedagógico capaz de combater a ineficiência do ensino escolar (PORTELA, 2014). 38219 De acordo com o Código do Ensino do Estado do Paraná (1917), o ensino primário se dividia em quatro series e nestas, os alunos deveriam aprender as noções básicas tanto da leitura e escrita quanto da aritmética. O documento aponta ainda que cada escola deveria apresentar a frequência média, que as notas deveriam ser registradas pelo professor diariamente, os documentos que a escola possuísse deveriam ser anexados em livros que ao seu termino deveriam ser enviados para a Secretaria do Estado, do Interior, Justiça e Instrução Pública, denominação dada ao órgão responsável naquele período e tinha como secretário Enéas Marques dos Santos. Quando da sua instituição, os grupos escolares deveriam funcionar em dois períodos, sendo divididas as classes de meninos e de meninas, sendo regidos respectivamente por professores e professoras. Não poderiam ultrapassar sessenta alunos no caso de meninos e meninas em escola adjuntas, não era permitido que o professor descrimina-se os alunos devidos seus trajes. Ao longo do tempo as características dos grupos escolares foram, se modificando, mantendo, porém a seriação. Para os alunos eram exigidos que mantivessem boa conduta em relação aos professores, colegas e a casa escolar, devendo disciplinar-se segundo as ordens do professor e o mesmo só poderia repreender os alunos caso presenciasse algo inadequado. Os alunos só poderiam ser expulsos dos grupos escolares se de fato fossem perversos ou se comportassem de modo imoral para com seus colegas e professor. Quanto aos conteúdos componentes das matérias de ensino (denominação dada aos conteúdos escolares), o documento não apresenta detalhes, apenas nomeia as matérias. Entretanto, aponta que o ensino primário deveria começar com os passos iniciais da leitura, da escrita, da Aritmética e da Geografia, cultivando a memória e devendo dar uma feição educativa à escola atendendo as necessidades do meio paranaense. Orientações mais detalhadas para a condução do ensino primário encontradas em documentos oficiais do estado, são observadas a partir de 1920, tanto no que se referia à metodologia a ser utilizada como na formação de professores para esse nível de ensino. Na década de 1920, o estado do Paraná contou o Professor César Prieto Martinez 5 como Diretor Geral da Instrução Pública. Vindo do estado de São Paulo e atuando como diretor da Escola Normal de Pirassununga, Martinez reunia as qualidade necessárias para conduzir o ensino. Segundo o relatório por ele enviado ao Secretario Geral do Estado (1920, 5 Prieto Martinez assumiu o cargo em abril de 1920 e em dezembro elabora um relatório que envia ao Secretário Geral do Estado no qual destaca seu conhecimento e desejo de inovar a escola pública paranaense, criticando o modelo vigente que foge da missão de educar e formar. 38220 p. 14), havia uma preocupação com o andamento dos grupos escolares e escolas isoladas. Os primeiros seguiam um programa oficial que orientava quais os conteúdos deveriam ser ensinados e como os professores deveriam ensinar já as escolas isoladas, especialmente aquelas de lugares mais distantes, o controle não era tão rigoroso, pela dificuldade de acesso ou pelo reduzido número de inspetores de ensino 6, e os professores ensinavam a matéria como “achavam melhor”. Assim, Martinez com a intenção de uniformizar o ensino, cercava-se de cuidados para que as informações e materiais pedagógicos chegassem às escolas, mesmo distantes. De acordo com Martinez, a escola tinha por responsabilidade não só ler, escrever e a contar, mas também instruir e a educar, pois nessa época, segundo o diretor geral da Instrução Pública, o importante não era ensinar muito, mas sim ensinar bem. O Professor Cesar Prieto Martinez, descreveu no Relatório de 34 páginas sua intenção de fazer do ensino público do Paraná um aparelho escolar remodelado que pudesse trazer prosperidade material ao Paraná e ao Brasil. Aponta a formação e responsabilidade dos professores como elemento central do sucesso das escolas. Apresentou palestras pedagógicas reunindo professores e diretores de grupos escolares para que os métodos de ensino fossem difundidos, organizou programas de ensino e apontou a necessidade de investir na educação de alunos que ainda não sabiam ainda ler, preocupado com o grande número de crianças analfabetas. De acordo com os estudos de Portela (2014), Na década de 1920, o maior número de grupos escolares encontrava-se em Curitiba e no litoral, podendo ser explicado por dois fatores: a expansão do Paraná se dá do litoral para o interior e a maior concentração populacional está nessa região. Em Paranaguá estava situado o Porto, razão pela qual, entre as cidades com o maior número de escolas isoladas, além da capital, estão, Morretes e Antonina, localizadas nas circunvizinhanças do Porto. A proposta de remodelação do aparelho escolar existente estava atrelada ao desenvolvimento do Estado (PORTELA, 2014). No Relatório da Prefeitura Municipal de Morretes, município próximo ao porto de Paranaguá, apresentado por Pacifico Frederico Zatar, Prefeito do município, relativos ao período de 1º de Setembro a 31 de Dezembro de 1932 e ao ano de 1933, ao Interventor Federal no Paraná, foi construído naquela localidade o primeiro grupo escolar à rua Coronel Modesto. Denominado Grupo Escolar Miguel Schleder. Nele atuavam nove professoras 6 Os Inspetores de ensino eram nomeados pelo governador do estado e tinha como função fiscalizar o funcionamento técnico escolar, escrituração, matriculas espaço físico e também o trabalho pedagógico. O inspetor em suas visitas inquiria os alunos para constatar se o que estava no programa de ensino era ensinado e se os alunos haviam aprendido. 38221 sendo, três normalistas e seis efetivas. Os alunos matriculados na instituição era um total de duzentos e quarenta, destes, cento e vinte e seis eram meninos e cento e quatorze meninas. A maioria deles era filho de agricultores e operários, profissão dos pais nesse período havendo uma preocupação em atender a demanda de escolas nas regiões agrícolas. A formação dos professores era outra preocupação do estado e em 1923 a Escola Normal que funcionava anexa ao Ginásio Paranaense recebeu prédio próprio e seu currículo foi reestruturado por Lysímaco Ferreira da Costa7. O documento denominado Bases Educativas para Organização da Nova Escola Normal Secundária foi aprovado em janeiro de 1923 com o seguinte propósito: Formar o professor primário senhor absoluto da technica da didática,perfeito conhecedor dos programmas de ensino que vae ministrar, capaz de compreender em pouco tempo a alma da creança e ornado das mais completas qualidades moraes é o fim capital da Escola Normal. Si o realizar será o maior padrão de gloria do Paraná. (LYSÍMACO, 1923, p. 7). No entendimento do autor, ao conhecer o programa de ensino seria o professor também conhecedor dos métodos a serem utilizados na sua prática e quanto mais amplo o conhecimento do normalista, mais apto estaria para exercer as suas funções frente à escola. A ampliação de sua intelectualidade seria uma condição essencial para que se fizesse respeitar por sua cultura. A matemática indicada nos documentos de 1921 e de 1932 O Programa dos Grupos Escolares do Estado do Paraná, publicação da Inspetoria Geral do Ensino (1921), assinado por Cesar Prieto Martinez, era rico em detalhes em conteúdo e na orientação dada ao professor. Previa para o ensino da matemática (Aritmética como era denominada no período) no 1º ano: rudimento das primeiras operações com números concretos servindo-se de materiais auxiliares como tornos, semente, bolinhas; conhecimento de grupos de 2, 3, 4, 5, etc pela observação, sem fazer a contagem; a soma direta de objetos por agrupamento, 1 em 1, 2 em 2, 3 em 3, etc; a leitura e compreensão dos sinais praticados nas quatro operações (+, -, x, ÷); exercícios orais e escritos utilizando as 7 Lysímaco (1883-1941), filho e neto de professores do estado do Paraná, foi um dos educadores paranaenses de efetiva participação na educação do Estado. Ingressou no Ginásio Paranaense em 1896, atuou como professor de Matemática, Física e Química. Em 1906, ocupou a Cátedra de Física do Ginásio Paranaense, exercendo também a função de diretor do mesmo Ginásio (1920 a 1928), da Escola Normal e da Escola Agronômica do Paraná (PORTELA, 2009). 38222 Cartas de Parker8, incluindo exercícios sobre as frações; o estudo das quatro operações; o conhecimento dos algarismos romanos; do relógio e o conhecimento prático do metro, litro e quilo. As Cartas de Parker, sobretudo a primeira delas, orientava o professor a fazer uma sondagem do conhecimento do aluno sobre as quantidades com materiais diversos que pudesse ser colocado à disposição dos alunos como palitos, lápis, canetas, entre outros. Salientava que a criança deveria conhecer bem um número, sem conhecer seu nome. O reconhecimento das quantidades e as propriedades dos números bem como as operações com eles, eram ensinadas na medida em que a criança tinha o domínio necessário para avançar no aprendizado. Para o 2º ano, o programa orientava o ensino da numeração oral e escrita deveria estender-se ao milhar. A formação de dezenas, centenas e milhares. Continuaram sendo indicadas as Cartas de Parker, exercícios práticos, estudos das frações, algarismos romanos e o conhecimento de unidades de superfície, capacidade e peso. Incluía o estudo da moeda brasileira. Para o 3º ano, as indicações eram: o estudo completo da numeração decimal; as quatro operações com números inteiros; a leitura e a escrita de decimais; frações decimais; emprego da vírgula, as quatro operações com decimais e os múltiplos e submúltiplos das unidades métricas com aplicações práticas. As orientações para o estudo da matemática no 4º ano eram: revisão dos estudos do 3º ano; frações ordinárias próprias, homogêneas e heterogêneas; redução do número misto à fração ordinária; estudo da divisibilidade; divisor comum; redução a um mesmo denominador; e simplificação; sistema métrico apontando novamente exercícios práticos. Incluía-se o estudo de juros simples. As orientações detalhadas aos professores para todas as materias de ensino, incluia um calendário de horários para cada atividade, entrada, distribuição das matérias durante as aulas, intervalo e organização para a saídas dos alunos. Ao professor cabia além de ensinar as matérias, manter a disciplina dentro e fora da sala, educando para o civismo e o patriotismo. 8 Cartas de Parker também conhecidas como Mapas de Parker, segundo Portela (2014, p.13) era um instrumento gráfico que tinha como objetivo guiar o trabalho com a aritmética da escola primária no início do século XX. As Cartas de Parker eram usadas por diversos estados, entre eles o estado do Paraná, e serviam para que se fosse ensinado às quantidades, os números e cálculos nos ensinos primários. Ainda segundo a autora, as Cartas foram escritas por um professor norte americano chamado Francis Wayland Parker. 38223 Na década de 1930, em razão da queda na produção de erva-mate que fica restrita ao litoral e ao primeiro planalto, o estado do Paraná dá mostras de expansão na direção norte, oeste e sudoeste. O Paraná se mostra um estado em franco crescimento, com economia baseada principalmente em erva mate, café, algodão, madeira e gado, destacando a construção e a ampliação de estradas de rodagem, estradas férreas e expansão do porto de Paranaguá para escoamento dos produtos. Começam a formar-se novas cidades aumentando também a demanda por escolas primárias exigindo nova organização do ensino sendo elaborado um novo documento norteador para a Instrução Pública. Nesse período o Paraná, teve como governador, o Interventor Manoel Ribas, nomeado pelo Presidente Getúlio Vargas. Manoel Ribas governou de 1932 à 1945 e no início de seu governo foi elaborado o Regimento Interno e Programa para Grupos Escolares do estado do Paraná, publicado em 29 de julho de 1932. Nos 49 municípios existentes no Estado nesse período havia 71 Grupos Escolares com 618 classes; 34 escolas complementares com 36 classes, 26 jardins de infância com 30 classes; 1288 escolas isoladas; 254 escolas municipais e 107 escolas particulares. O documento de 40 páginas, distribuído em XX capítulos mais o programa de ensino com uma média de 6 páginas para as orientações de cada série, continha as orientações para o funcionamento dos grupos escolares que poderiam integrar até 45 alunos por turmas, ficando a cargo do diretor as matrículas que eram realizadas três dias antes do início das aulas. Era considerado proibido que o professor morasse mais de três quilômetros de distância da instituição escolar, os alunos não poderiam levar livros para casa e os professores deveriam ensinar a boa moral, o amor ao próximo e também à pontualidade aos alunos. Os exames eram aplicados pelo diretor caso o inspetor de ensino não aparecesse na instituição. O aluno que obtivesse a nota abaixo de 3,5 estava reprovado sem direito a exame. Os exames poderiam ser de forma escrita ou oral nas diversas disciplinas escolares. Para o 1º ano eram previstos: contagem por meio de tornos, palitos, taboinhas, etc. de 1 a 10; conhecimento concreto dos grupos, 2, 3, 4 e 5 etc. até 10; contagem direta de objetos de 1 em 1, 2 em 2, 3 em 3, etc. até 10; quatro operações de 1 a 10, feitas por meio de tornos, palitos, etc.; leituras e escrita dos algarismos de 1 a 10. No programa também constavam as indicações de que o ensino da matemática deveria ser intuitivo, pratico e o mais concretizado possível. O mapa de Parker continua a ser citado e deveria ter constante aplicação ao ensino dos diversos pontos desta matéria. Para o estudo da Aritmética no 2º ano, o programa previa: estudo prático da formação de unidades, dezenas, centenas e milhares; continuação do estudo dos algarismos romanos até 38224 100; organização da tabuada de multiplicar e dividir até 100 pelo mapa de Parker; estudo completo das quatro operações – problemas, conhecimento prático do metro, litro e gramo. No 3º ano, o estudo completo da numeração romana e das quatro operações; números primos e múltiplos; divisibilidade; máximo divisor comum; mínimo múltiplo comum; sistema de medidas, múltiplos e submúltiplos; conhecimento prático das medidas polegadas, palmos, vara, jarda, braça, milha, légua, arroba, alqueire, quarta. Deveria, o professor, organizar o tempo, escrever corretamente e dar um ou dois problemas diários como lição a ser resolvida em casa. No 4º ano o programa prevê a recapitulação de alguns itens do 3º ano; continuidade do estudo de frações; dízimas periódicas simples e compostas; sistema métrico; medidas de superfície e volume com seus múltiplos e submúltiplos; sistema monetário com problemas e exercícios; conhecimento elementar de razões e proporções; regra de três simples e composta; juros simples e câmbio. O Regimento Interno e Programa para os Grupos Escolares de 1932, também apresentava um calendário para a organização do tempo e indica que os professores deveriam dar problemas diários a serem resolvidos pelos alunos em suas casas e que a correção destes deveria ser feita em classe no quadro negro. Observava ainda que, por tratar-se de uma disciplina bastante útil na vida prática, o professor tornasse o ensino essencialmente concreto e experimental de modo que a aplicação fosse de real vantagem e utilidade na vida. As finalidades da escola primária estavam claras no Art 62º (p.33): “não somente a instrução mas o desenvolvimento das qualidades morais da criança [...] despertar-lhes os sentimentos de sociabilidade”. Ações como estas são possíveis de serem compreendidas considerando que segundo Chervel (1990), se o papel da escola é o de ensinar e educar, a noção de disciplina escolar comportava não somente as práticas docentes, mas as finalidades que presidiam sua constituição. Considerações Finais Embora se trate de um estudo em continuidade, na análise realizada se pode perceber uma diferença clara entre os dois primeiros documentos, o Regulamento da Instrução Pública de 1901 e o Código do Ensino de 1917 e os dois outros documentos, O programa dos Grupos Escolares do Estado do Paraná de 1921 e o Regimento Interno e Programa para os Grupos Escolares de 1932. 38225 Nos dois primeiros, tanto o Regulamento quanto o Código do Ensino não há detalhamento das matérias de ensino, sendo estas citadas de maneira superficial, atendo-se à estrutura administrativa das escolas, a clareza da função de cada membro e as obrigações para com o estado. No período em o Professor Cesar Prieto Martinez assume o cargo de Diretor Geral da Instrução Pública, novos documentos foram elaborados e com riqueza de detalhes são publicados e divulgados, por meio de palestras pedagógicas e também por documentos específicos orientadores das ações dos professores. O documento de 1921, que leva a assinatura de Martinez, apresenta para cada uma das quatro séries as matérias de ensino e para cada uma delas há indicações de condução. No ensino da Matemática há uma sequência na apresentação e orientação dos conteúdos para os professores que, ao que nos parece, pretende dar a maior clareza possível ao professor. O documento de 1932, período em que o Interventor Federal no estado do Paraná foi Manoel Ribas, nos parece similar ao de 1921, no que se refere ao ensino da matemática. Apresenta a mesma sequencia e reforça a necessidade do professor trabalhar a matemática bem próxima dos problemas da vida, uma matemática prática que tivesse valor utilitário. Porém a referência ao disciplinamento era mais incisiva e a formação cívica evidenciada. Como no estado do Paraná o crescimento se dá para o interior com o desbravamento de terras para a agricultura, criação de gado, abertura de estradas e comercialização dos produtos da terra, incluindo a erva-mate e a madeira, entendemos que o sentido utilitário da matemática possa estar relacionado ao preparo do homem para o trabalho. Nos programas de Aritmética, a proposição de noções de quantidades, rudimentos de cálculo e medidas de terras, a leitura e a escrita assumiam um elevado grau de importância quando voltadas por exemplo à agricultura. Já, os estudos de cálculo em perspectivas mais avançadas, incluindo números decimais, juros e porcentagens, estariam voltados para o desenvolvimento do comércio. Estando o porto situado no município de Paranaguá e na sua vizinhança estejam as cidades de Morretes e Antonina também compreendemos que nessas localidades houvesse uma concentração de famílias em função do trabalho portuário e houvesse uma preocupação em oferecer escolas para as crianças da região. O estudo em questão, ao observar o contexto em que se inseria a escola primária e seus ensinamentos tem se mostrado propício para alargar o olhar sobre o objeto de estudo, no caso a matemática escolar. Partindo da análise do objeto nos documentos oficiais do estado do Paraná das primeiras décadas do século XX, o estudo apontou, sobretudo, a importância da 38226 investigação, da organização e da constituição de arquivos de documentos disponibilizandoos como fontes históricas com o objeto de análise em grupos de estudos com potencial para expandir o conhecimento de graduandos e egressos sobre a história das disciplinas escolares para alimentar sua prática de ensino. 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