A MATEMÁTICA NOS PROGRAMAS OFICIAIS PARA OS GRUPOS
ESCOLARES NO ESTADO DO PARANÁ NAS PRIMEIRAS DÉCADAS
DO SÉCULO XX
Mariliza Simonete Portela1 - UNESPAR
Catiane Machado Carneiro 2 - UNESPAR
Pamela Rosa Pereira 3 - UNESPAR
Grupo de Trabalho – Educação Matemática
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
O presente trabalho é fruto de pesquisa em desenvolvimento em um grupo de estudos
realizado na Universidade Estadual do Paraná, com graduandos e egressos do curso de
Pedagogia, sobre a matemática escolar primária, que tem como fontes, documentos históricos
das primeiras décadas do século XX, arquivados em instituições escolares, biblioteca pública,
arquivo público físico e virtual. O estudo fundamenta-se em bibliografia pertinente ao tema de
acordo com pesquisas até o momento desenvolvidas no estado do Paraná e buscou
compreender a matemática escolar inscrita nas finalidades da escola baseando-se nos estudos
de Chervel (1990). Para esta escrita, foram investigadas as propostas de ensino da matemática
para a escola primária contida em documentos oficiais paranaenses. Dentre as fontes
documentais estão: Regulamento da Instrução Pública; Código do Ensino do Estado do
Paraná; Relatório do Diretor Geral da Instrução Pública; Programa dos Grupos Escolares do
Estado do Paraná; Bases Educativas para a organização da Nova Escola Normal Paranaense e
Regimento Interno e Programa para Grupos Escolares. Partindo da análise da matemática
escolar do ensino primário nos documentos oficiais do estado do Paraná das primeiras
décadas do século XX, e dos estudos já publicados de pesquisadores dessa temática, o estudo
apontou em primeiro lugar para a importância da formação de grupos de graduandos e
egressos para trabalho de pesquisa, em segundo, para a importância da constituição de fontes
históricas como objeto de análise para expandir o conhecimento da história das disciplinas
escolares na formação de professores dos anos iniciais para alimentar sua prática de ensino.
Palavras-chave: Ensino Primário. Grupos Escolares. Matemática.
1
Doutora em Educação pela PUCPR: Professora Titular da Universidade Estadual do Paraná. E-mail:
[email protected].
2
Graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Paraná. E-mail: [email protected].
3
Graduada
em
Pedagogia
pela
Universidade
Estadual
do
Paraná.
E-mail:
pamela.rosa.pereira@[email protected].
ISSN 2176-1396
38217
Introdução
A formação de grupos de estudo no âmbito universitário tem como objetivo a inserção
dos graduandos na pesquisa e continuidade da prática da investigação de alunos egressos. A
realização desse trabalho teve como motivação as discussões apresentadas em sala de aula
sobre as dificuldades apresentadas pelos alunos, a aversão de muitos ao estudo da disciplina
Matemática e até mesmo sobre a evasão escolar que essas dificuldades provocam. Embora se
reconheça que a matemática faz parte do cotidiano e está inserida em todos os ramos de
atividades, e se estude na escola seus conceitos e sua história enquanto ciência, pouco se
discute a história da matemática enquanto disciplina escolar, sobretudo para os anos iniciais.
Segundo Pinto (2014, p.125) “A história das disciplinas escolares, uma das
mais recentes ramificações da história da educação, vem proporcionando um novo olhar ao
ensino dos conteúdos escolares”. Desse modo consideramos que conhecer as propostas para o
ensino da matemática que sucederam as práticas escolares atuais pode ser uma forma de
motivar alunos e professores a olhar para essa disciplina sem medo ou distanciamento.
A aproximação com algumas pesquisas que tem como foco a matemática dos anos
iniciais nos conduziu à leitura de documentos oficiais que determinavam como e quais
conteúdos deveriam ser ensinados pelos professores. Desta forma, com a intenção de
conhecer um pouco sobre como o ensino da matemática da escola primária foi proposto no
estado do Paraná escolhemos documentos oficiais de décadas iniciais do século XX.
Entre os documentos analisados para compreender a condução do ensino da
matemática, tomamos o Código do Ensino do Estado do Paraná datado de 1917. Nele constam
orientações para conduzir o ensino no estado, a organização dos ensinos, maternal, jardim de
infância e primário, os programas de ensino e distribuição de tempo para sua execução,
incluindo as modalidades de escola para o atendimento da população, entre elas, os grupos
escolares.
Outro documento que nos permitiu conhecer a proposta de ensino de matemática para
os grupos escolares, modalidade de escola seriada que reunia em um mesmo espaço pelos
menos quatro séries, foi o programa proposto para os grupos escolares do estado do Paraná
em 1921. Este, diferente do Código do Ensino (1917) detalhava os conteúdos que deveriam
ser ensinados nas quatro primeiras séries.
No sentido de estabelecer como limite, a década de 1930, para o período sobre o qual
se debruçou esta escrita, foi analisado o documento elaborado pela Diretoria Geral da
38218
Instrução Pública de 1932, que estabeleceu o regimento e o programa a ser cumprido nos
grupos escolares do estado do Paraná.
Os Grupos Escolares no estado do Paraná: nova modalidade de ensino
No início do século XX, as modalidades de escolas que haviam eram escolas isoladas
urbanas e rurais denominadas simples. O documento que regia o ensino era o Regulamento da
Instrução Pública do Estado do Paraná de 1901 e a obrigatoriedade do ensino, de acordo com
ele, estava definida para os meninos em idade de sete a quatorze anos e para meninas, de sete
a doze anos. Entre as matérias de ensino estava: a aritmética compreendendo as quatro
operações sobre todas as espécies de números. Ainda segundo o documento, uma das escolas
primárias seria designada para ficar anexa à escola normal constituindo-se escola modelo para
as práticas pedagógicas. Nela o método adotado seria intuitivo e em seu programa constaria
de lições de coisas4, conversação familiar, cato, desenho, leitura, rudimentos de cálculos,
recitação, exercícios manuais, mentais e físicos.
No Regulamento do Ensino Público do Estado do Paraná de 1909, documento que
mantinha o caráter do ensino como intuitivo, preconizava para o ensino da aritmética: a
prática das quatro operações sobre números inteiros e fracionários, noções sobre sistemas de
números e sistemas de numerações. A novidade deste documento é que outra modalidade
escola que vem compor o regulamento, o grupo escolar. Enquanto as escolas isoladas eram
organizadas em uma sala agrupando diferentes séries, os grupos escolares tinham uma sala
para cada série, ou seja, o ensino era seriado.
No estado do Paraná a implantação dos grupos escolares se deu no início do século
XX e seguiu o modelo de ensino do grupo escolar paulista, estado que era o disseminador das
ideias modernistas para diversos estados brasileiros. O primeiro grupo escolar recebeu o
Grupo Escolar Xavier da Silva, homenagem à Francisco Xavier da Silva que atuou como
presidente do estado de 1900 à 1904, e foi inaugurado em Curitiba em 1903. O grupo contava
com seis salas de aula para atender às quatro séries primárias em seções separadas para
meninos e meninas.
4
O método de ensino intuitivo, também conhecido como Lições de Coisas, foi estudado por Valdemarin (2004)
ao analisar o Manual Primeira Lição de Coisas, de Norman Allison Calkins. Tal método foi entendido por seus
propositores europeus e americanos, em meados do século XIX, como um instrumento pedagógico capaz de
combater a ineficiência do ensino escolar (PORTELA, 2014).
38219
De acordo com o Código do Ensino do Estado do Paraná (1917), o ensino primário se
dividia em quatro series e nestas, os alunos deveriam aprender as noções básicas tanto da
leitura e escrita quanto da aritmética.
O documento aponta ainda que cada escola deveria apresentar a frequência média, que
as notas deveriam ser registradas pelo professor diariamente, os documentos que a escola
possuísse deveriam ser anexados em livros que ao seu termino deveriam ser enviados para a
Secretaria do Estado, do Interior, Justiça e Instrução Pública, denominação dada ao órgão
responsável naquele período e tinha como secretário Enéas Marques dos Santos.
Quando da sua instituição, os grupos escolares deveriam funcionar em dois períodos,
sendo divididas as classes de meninos e de meninas, sendo regidos respectivamente por
professores e professoras. Não poderiam ultrapassar sessenta alunos no caso de meninos e
meninas em escola adjuntas, não era permitido que o professor descrimina-se os alunos
devidos seus trajes. Ao longo do tempo as características dos grupos escolares foram, se
modificando, mantendo, porém a seriação.
Para os alunos eram exigidos que mantivessem boa conduta em relação aos
professores, colegas e a casa escolar, devendo disciplinar-se segundo as ordens do professor e
o mesmo só poderia repreender os alunos caso presenciasse algo inadequado. Os alunos só
poderiam ser expulsos dos grupos escolares se de fato fossem perversos ou se comportassem
de modo imoral para com seus colegas e professor.
Quanto aos conteúdos componentes das matérias de ensino (denominação dada aos
conteúdos escolares), o documento não apresenta detalhes, apenas nomeia as matérias.
Entretanto, aponta que o ensino primário deveria começar com os passos iniciais da leitura, da
escrita, da Aritmética e da Geografia, cultivando a memória e devendo dar uma feição
educativa à escola atendendo as necessidades do meio paranaense. Orientações mais
detalhadas para a condução do ensino primário encontradas em documentos oficiais do
estado, são observadas a partir de 1920, tanto no que se referia à metodologia a ser utilizada
como na formação de professores para esse nível de ensino.
Na década de 1920, o estado do Paraná contou o Professor César Prieto Martinez 5
como Diretor Geral da Instrução Pública. Vindo do estado de São Paulo e atuando como
diretor da Escola Normal de Pirassununga, Martinez reunia as qualidade necessárias para
conduzir o ensino. Segundo o relatório por ele enviado ao Secretario Geral do Estado (1920,
5
Prieto Martinez assumiu o cargo em abril de 1920 e em dezembro elabora um relatório que envia ao Secretário
Geral do Estado no qual destaca seu conhecimento e desejo de inovar a escola pública paranaense, criticando o
modelo vigente que foge da missão de educar e formar.
38220
p. 14), havia uma preocupação com o andamento dos grupos escolares e escolas isoladas. Os
primeiros seguiam um programa oficial que orientava quais os conteúdos deveriam ser
ensinados e como os professores deveriam ensinar já as escolas isoladas, especialmente
aquelas de lugares mais distantes, o controle não era tão rigoroso, pela dificuldade de acesso
ou pelo reduzido número de inspetores de ensino 6, e os professores ensinavam a matéria como
“achavam melhor”. Assim, Martinez com a intenção de uniformizar o ensino, cercava-se de
cuidados para que as informações e materiais pedagógicos chegassem às escolas, mesmo
distantes.
De acordo com Martinez, a escola tinha por responsabilidade não só ler, escrever e a
contar, mas também instruir e a educar, pois nessa época, segundo o diretor geral da Instrução
Pública, o importante não era ensinar muito, mas sim ensinar bem.
O Professor Cesar Prieto Martinez, descreveu no Relatório de 34 páginas sua intenção
de fazer do ensino público do Paraná um aparelho escolar remodelado que pudesse trazer
prosperidade material ao Paraná e ao Brasil. Aponta a formação e responsabilidade dos
professores como elemento central do sucesso das escolas. Apresentou palestras pedagógicas
reunindo professores e diretores de grupos escolares para que os métodos de ensino fossem
difundidos, organizou programas de ensino e apontou a necessidade de investir na educação
de alunos que ainda não sabiam ainda ler, preocupado com o grande número de crianças
analfabetas.
De acordo com os estudos de Portela (2014),
Na década de 1920, o maior número de grupos escolares encontrava-se em Curitiba
e no litoral, podendo ser explicado por dois fatores: a expansão do Paraná se dá do
litoral para o interior e a maior concentração populacional está nessa região. Em
Paranaguá estava situado o Porto, razão pela qual, entre as cidades com o maior
número de escolas isoladas, além da capital, estão, Morretes e Antonina, localizadas
nas circunvizinhanças do Porto. A proposta de remodelação do aparelho escolar
existente estava atrelada ao desenvolvimento do Estado (PORTELA, 2014).
No Relatório da Prefeitura Municipal de Morretes, município próximo ao porto de
Paranaguá, apresentado por Pacifico Frederico Zatar, Prefeito do município, relativos ao
período de 1º de Setembro a 31 de Dezembro de 1932 e ao ano de 1933, ao Interventor
Federal no Paraná, foi construído naquela localidade o primeiro grupo escolar à rua Coronel
Modesto. Denominado Grupo Escolar Miguel Schleder. Nele atuavam nove professoras
6
Os Inspetores de ensino eram nomeados pelo governador do estado e tinha como função fiscalizar o
funcionamento técnico escolar, escrituração, matriculas espaço físico e também o trabalho pedagógico. O
inspetor em suas visitas inquiria os alunos para constatar se o que estava no programa de ensino era ensinado e
se os alunos haviam aprendido.
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sendo, três normalistas e seis efetivas. Os alunos matriculados na instituição era um total de
duzentos e quarenta, destes, cento e vinte e seis eram meninos e cento e quatorze meninas. A
maioria deles era filho de agricultores e operários, profissão dos pais nesse período havendo
uma preocupação em atender a demanda de escolas nas regiões agrícolas.
A formação dos professores era outra preocupação do estado e em 1923 a Escola
Normal que funcionava anexa ao Ginásio Paranaense recebeu prédio próprio e seu currículo
foi reestruturado por Lysímaco Ferreira da Costa7. O documento denominado Bases
Educativas para Organização da Nova Escola Normal Secundária foi aprovado em janeiro de
1923 com o seguinte propósito:
Formar o professor primário senhor absoluto da technica da didática,perfeito
conhecedor dos programmas de ensino que vae ministrar, capaz de compreender em
pouco tempo a alma da creança e ornado das mais completas qualidades moraes é o
fim capital da Escola Normal. Si o realizar será o maior padrão de gloria do Paraná.
(LYSÍMACO, 1923, p. 7).
No entendimento do autor, ao conhecer o programa de ensino seria o professor
também conhecedor dos métodos a serem utilizados na sua prática e quanto mais amplo o
conhecimento do normalista, mais apto estaria para exercer as suas funções frente à escola. A
ampliação de sua intelectualidade seria uma condição essencial para que se fizesse respeitar
por sua cultura.
A matemática indicada nos documentos de 1921 e de 1932
O Programa dos Grupos Escolares do Estado do Paraná, publicação da Inspetoria
Geral do Ensino (1921), assinado por Cesar Prieto Martinez, era rico em detalhes em
conteúdo e na orientação dada ao professor. Previa para o ensino da matemática (Aritmética
como era denominada no período) no 1º ano: rudimento das primeiras operações com
números concretos servindo-se de materiais auxiliares como tornos, semente, bolinhas;
conhecimento de grupos de 2, 3, 4, 5, etc pela observação, sem fazer a contagem; a soma
direta de objetos por agrupamento, 1 em 1, 2 em 2, 3 em 3, etc; a leitura e compreensão dos
sinais praticados nas quatro operações (+, -, x, ÷); exercícios orais e escritos utilizando as
7
Lysímaco (1883-1941), filho e neto de professores do estado do Paraná, foi um dos educadores paranaenses de
efetiva participação na educação do Estado. Ingressou no Ginásio Paranaense em 1896, atuou como professor de
Matemática, Física e Química. Em 1906, ocupou a Cátedra de Física do Ginásio Paranaense, exercendo também
a função de diretor do mesmo Ginásio (1920 a 1928), da Escola Normal e da Escola Agronômica do Paraná
(PORTELA, 2009).
38222
Cartas de Parker8, incluindo exercícios sobre as frações; o estudo das quatro operações; o
conhecimento dos algarismos romanos; do relógio e o conhecimento prático do metro, litro e
quilo.
As Cartas de Parker, sobretudo a primeira delas, orientava o professor a fazer uma
sondagem do conhecimento do aluno sobre as quantidades com materiais diversos que
pudesse ser colocado à disposição dos alunos como palitos, lápis, canetas, entre outros.
Salientava que a criança deveria conhecer bem um número, sem conhecer seu nome. O
reconhecimento das quantidades e as propriedades dos números bem como as operações com
eles, eram ensinadas na medida em que a criança tinha o domínio necessário para avançar no
aprendizado.
Para o 2º ano, o programa orientava o ensino da numeração oral e escrita deveria
estender-se ao milhar. A formação de dezenas, centenas e milhares. Continuaram sendo
indicadas as Cartas de Parker, exercícios práticos, estudos das frações, algarismos romanos e
o conhecimento de unidades de superfície, capacidade e peso. Incluía o estudo da moeda
brasileira.
Para o 3º ano, as indicações eram: o estudo completo da numeração decimal; as quatro
operações com números inteiros; a leitura e a escrita de decimais; frações decimais; emprego
da vírgula, as quatro operações com decimais e os múltiplos e submúltiplos das unidades
métricas com aplicações práticas.
As orientações para o estudo da matemática no 4º ano eram: revisão dos estudos do 3º
ano; frações ordinárias próprias, homogêneas e heterogêneas; redução do número misto à
fração ordinária; estudo da divisibilidade; divisor comum; redução a um mesmo
denominador; e simplificação; sistema métrico apontando novamente exercícios práticos.
Incluía-se o estudo de juros simples.
As orientações detalhadas aos professores para todas as materias de ensino, incluia um
calendário de horários para cada atividade, entrada, distribuição das matérias durante as aulas,
intervalo e organização para a saídas dos alunos. Ao professor cabia além de ensinar as
matérias, manter a disciplina dentro e fora da sala, educando para o civismo e o patriotismo.
8
Cartas de Parker também conhecidas como Mapas de Parker, segundo Portela (2014, p.13) era um instrumento
gráfico que tinha como objetivo guiar o trabalho com a aritmética da escola primária no início do século XX. As
Cartas de Parker eram usadas por diversos estados, entre eles o estado do Paraná, e serviam para que se fosse
ensinado às quantidades, os números e cálculos nos ensinos primários. Ainda segundo a autora, as Cartas foram
escritas por um professor norte americano chamado Francis Wayland Parker.
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Na década de 1930, em razão da queda na produção de erva-mate que fica restrita ao
litoral e ao primeiro planalto, o estado do Paraná dá mostras de expansão na direção norte,
oeste e sudoeste. O Paraná se mostra um estado em franco crescimento, com economia
baseada principalmente em erva mate, café, algodão, madeira e gado, destacando a construção
e a ampliação de estradas de rodagem, estradas férreas e expansão do porto de Paranaguá para
escoamento dos produtos. Começam a formar-se novas cidades aumentando também a
demanda por escolas primárias exigindo nova organização do ensino sendo elaborado um
novo documento norteador para a Instrução Pública. Nesse período o Paraná, teve como
governador, o Interventor Manoel Ribas, nomeado pelo Presidente Getúlio Vargas.
Manoel Ribas governou de 1932 à 1945 e no início de seu governo foi elaborado o
Regimento Interno e Programa para Grupos Escolares do estado do Paraná, publicado em 29
de julho de 1932. Nos 49 municípios existentes no Estado nesse período havia 71 Grupos
Escolares com 618 classes; 34 escolas complementares com 36 classes, 26 jardins de infância
com 30 classes; 1288 escolas isoladas; 254 escolas municipais e 107 escolas particulares.
O documento de 40 páginas, distribuído em XX capítulos mais o programa de ensino
com uma média de 6 páginas para as orientações de cada série, continha as orientações para o
funcionamento dos grupos escolares que poderiam integrar até 45 alunos por turmas, ficando
a cargo do diretor as matrículas que eram realizadas três dias antes do início das aulas. Era
considerado proibido que o professor morasse mais de três quilômetros de distância da
instituição escolar, os alunos não poderiam levar livros para casa e os professores deveriam
ensinar a boa moral, o amor ao próximo e também à pontualidade aos alunos.
Os exames eram aplicados pelo diretor caso o inspetor de ensino não aparecesse na
instituição. O aluno que obtivesse a nota abaixo de 3,5 estava reprovado sem direito a exame.
Os exames poderiam ser de forma escrita ou oral nas diversas disciplinas escolares.
Para o 1º ano eram previstos: contagem por meio de tornos, palitos, taboinhas, etc. de
1 a 10; conhecimento concreto dos grupos, 2, 3, 4 e 5 etc. até 10; contagem direta de objetos
de 1 em 1, 2 em 2, 3 em 3, etc. até 10; quatro operações de 1 a 10, feitas por meio de tornos,
palitos, etc.; leituras e escrita dos algarismos de 1 a 10.
No programa também constavam as indicações de que o ensino da matemática deveria
ser intuitivo, pratico e o mais concretizado possível. O mapa de Parker continua a ser citado e
deveria ter constante aplicação ao ensino dos diversos pontos desta matéria.
Para o estudo da Aritmética no 2º ano, o programa previa: estudo prático da formação
de unidades, dezenas, centenas e milhares; continuação do estudo dos algarismos romanos até
38224
100; organização da tabuada de multiplicar e dividir até 100 pelo mapa de Parker; estudo
completo das quatro operações – problemas, conhecimento prático do metro, litro e gramo.
No 3º ano, o estudo completo da numeração romana e das quatro operações; números
primos e múltiplos; divisibilidade; máximo divisor comum; mínimo múltiplo comum; sistema
de medidas, múltiplos e submúltiplos; conhecimento prático das medidas polegadas, palmos,
vara, jarda, braça, milha, légua, arroba, alqueire, quarta.
Deveria, o professor, organizar o tempo, escrever corretamente e dar um ou dois
problemas diários como lição a ser resolvida em casa.
No 4º ano o programa prevê a recapitulação de alguns itens do 3º ano; continuidade do
estudo de frações; dízimas periódicas simples e compostas; sistema métrico; medidas de
superfície e volume com seus múltiplos e submúltiplos; sistema monetário com problemas e
exercícios; conhecimento elementar de razões e proporções; regra de três simples e composta;
juros simples e câmbio.
O Regimento Interno e Programa para os Grupos Escolares de 1932, também
apresentava um calendário para a organização do tempo e indica que os professores deveriam
dar problemas diários a serem resolvidos pelos alunos em suas casas e que a correção destes
deveria ser feita em classe no quadro negro. Observava ainda que, por tratar-se de uma
disciplina bastante útil na vida prática, o professor tornasse o ensino essencialmente concreto
e experimental de modo que a aplicação fosse de real vantagem e utilidade na vida.
As finalidades da escola primária estavam claras no Art 62º (p.33): “não somente a
instrução mas o desenvolvimento das qualidades morais da criança [...] despertar-lhes os
sentimentos de sociabilidade”. Ações como estas são possíveis de serem compreendidas
considerando que segundo Chervel (1990), se o papel da escola é o de ensinar e educar, a
noção de disciplina escolar comportava não somente as práticas docentes, mas as finalidades
que presidiam sua constituição.
Considerações Finais
Embora se trate de um estudo em continuidade, na análise realizada se pode perceber
uma diferença clara entre os dois primeiros documentos, o Regulamento da Instrução Pública
de 1901 e o Código do Ensino de 1917 e os dois outros documentos, O programa dos Grupos
Escolares do Estado do Paraná de 1921 e o Regimento Interno e Programa para os Grupos
Escolares de 1932.
38225
Nos dois primeiros, tanto o Regulamento quanto o Código do Ensino não há
detalhamento das matérias de ensino, sendo estas citadas de maneira superficial, atendo-se à
estrutura administrativa das escolas, a clareza da função de cada membro e as obrigações para
com o estado. No período em o Professor Cesar Prieto Martinez assume o cargo de Diretor
Geral da Instrução Pública, novos documentos foram elaborados e com riqueza de detalhes
são publicados e divulgados, por meio de palestras pedagógicas e também por documentos
específicos orientadores das ações dos professores.
O documento de 1921, que leva a assinatura de Martinez, apresenta para cada uma das
quatro séries as matérias de ensino e para cada uma delas há indicações de condução. No
ensino da Matemática há uma sequência na apresentação e orientação dos conteúdos para os
professores que, ao que nos parece, pretende dar a maior clareza possível ao professor.
O documento de 1932, período em que o Interventor Federal no estado do Paraná foi
Manoel Ribas, nos parece similar ao de 1921, no que se refere ao ensino da matemática.
Apresenta a mesma sequencia e reforça a necessidade do professor trabalhar a matemática
bem próxima dos problemas da vida, uma matemática prática que tivesse valor utilitário.
Porém a referência ao disciplinamento era mais incisiva e a formação cívica evidenciada.
Como no estado do Paraná o crescimento se dá para o interior com o desbravamento
de terras para a agricultura, criação de gado, abertura de estradas e comercialização dos
produtos da terra, incluindo a erva-mate e a madeira, entendemos que o sentido utilitário da
matemática possa estar relacionado ao preparo do homem para o trabalho.
Nos programas de Aritmética, a proposição de noções de quantidades, rudimentos de
cálculo e medidas de terras, a leitura e a escrita assumiam um elevado grau de importância
quando voltadas por exemplo à agricultura. Já, os estudos de cálculo em perspectivas mais
avançadas, incluindo números decimais, juros e porcentagens, estariam voltados para o
desenvolvimento do comércio.
Estando o porto situado no município de Paranaguá e na sua vizinhança estejam as
cidades de Morretes e Antonina também compreendemos que nessas localidades houvesse
uma concentração de famílias em função do trabalho portuário e houvesse uma preocupação
em oferecer escolas para as crianças da região.
O estudo em questão, ao observar o contexto em que se inseria a escola primária e
seus ensinamentos tem se mostrado propício para alargar o olhar sobre o objeto de estudo, no
caso a matemática escolar. Partindo da análise do objeto nos documentos oficiais do estado
do Paraná das primeiras décadas do século XX, o estudo apontou, sobretudo, a importância da
38226
investigação, da organização e da constituição de arquivos de documentos disponibilizandoos como fontes históricas com o objeto de análise em grupos de estudos com potencial para
expandir o conhecimento de graduandos e egressos sobre a história das disciplinas escolares
para alimentar sua prática de ensino.
REFERÊNCIAS
BRASIL, Regimento Interno e Programa para Grupos Escolares. Decreto nº 1874 de 29
de Julho de 1932, 1932.
PARANÁ. Relatório do Prefeito Municipal de Morretes Pacífico Frederico Zatar. 1932.
PARANÁ. Relatório do Inspetor Geral da Instrução Pública. Cesar Prieto Martinez.
Curitiba: Typ. da Penitenciária do Estado, 1920.
CHERVEL, André. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de
pesquisa. Teoria & Educação. Porto Alegre, n. 2, 1990, p. 177-229.
PARANÁ. Bases Educativas para Organização da Nova Escola Normal Secundária do
Paraná. 1923.
PARANÁ, Código do Ensino do Estado do Paraná. 1917.
PARANÁ, Programma dos Grupos Escolares do Estado do Paraná. 1921.
PARANÁ, Regulamento da Instrução Pública do Estado do Paraná. 1901.
PARANÁ, Regulamento Orgânico do Ensino Público do Estado do Paraná. 1909.
PINTO, Neuza Bertoni. História das disciplinas escolares: reflexão sobre aspectos teóricometodológicos de uma prática historiográfica. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, v. 14,
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PORTELA, Mariliza Simonete. Práticas de ensino da Matemática Moderna na formação
de normalistas no Instituto de Educação do Paraná. Dissertação (Mestrado em Educação).
Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2009.
PORTELA, Mariliza Simonete. As Cartas de Parker na matemática da Escola Primária
Parananense na Primeira Metade do Século XX: a apropriação de um dispositivo didático.
2014. 191 fls. Tese (Doutorado). Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2014.
Download

a matemática nos programas oficiais para os grupos escolares no