PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL Paulo Henrique Leal Soares O DILEMA ENTRE A COMUNICAÇÃO INTERNA GLOBAL E LOCAL: o desafio de entender realidades distintas em multinacionais Belo Horizonte 2014 Paulo Henrique Leal Soares O DILEMA ENTRE A COMUNICAÇÃO INTERNA GLOBAL E LOCAL: o desafio de entender realidades distintas em multinacionais Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de mestre em comunicação. Orientadora: Prof. Dra. Ana Luisa de Castro Almeida Belo Horizonte 2014 FICHA CATALOGRÁFICA Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais S676d Soares, Paulo Henrique Leal O dilema entre a comunicação interna global e local: o desafio de entender realidades distintas em multinacionais / Paulo Henrique Leal Soares. Belo Horizonte, 2014. 167 f.: il. Orientadora: Ana Luisa de Castro Almeida Dissertação (Mestrado)- Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. 1. Comunicação nas organizações. 2. Empresas multinacionais. 3. Interação social. 4. Cultura organizacional. 5. Odebrecht S.A. 6. International Business Machines Corporation. I. Almeida, Ana Luisa de Castro. II. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. III. Título. CDU: 658.012.45 Paulo Henrique Leal Soares O DILEMA ENTRE A COMUNICAÇÃO INTERNA GLOBAL E LOCAL: o desafio de entender realidades distintas em multinacionais Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de mestre em comunicação. __________________________________________________________ Prof. Dr. Ana Luisa de Castro Almeida (Orientadora) – PUC Minas __________________________________________________________ Prof. Dr. Paulo Nassar – USP __________________________________________________________ Prof. Dr. Rudimar Baldissera – UFRGS __________________________________________________________ Prof. Dr. Ivone de Lourdes Oliveira – PUC Minas Belo Horizonte, 17 de março de 2014. Dedico essas reflexões à minha amada esposa, Fabiane; aos meus filhos, Paula, Mateus e Lara; aos meus pais, Vera e José Lúcio; e ao meu irmão, Júnior. Sempre família. AGRADECIMENTOS Depois de uma longa caminhada acadêmica, deveria ser reservado pelo menos um capítulo apenas para os agradecimentos. Nenhuma jornada como essa pode ser alcançada sem o apoio incondicional de familiares, amigos, colegas do mestrado e do trabalho. São horas de ausência, reclusão, dedicação e solidão. Agradeço a Deus a força para cumprir mais uma importante etapa na minha vida. À minha esposa, Fabiane, a paciência e compreensão pelos meus compromissos acadêmicos. Agradeço..... Aos meus filhos, Paula, Mateus e Lara, a inspiração diária. Paula, obrigado pela sua preocupação e por perguntar todos os dias: “Pai, quantas páginas ainda faltam para você terminar?”. Hoje, posso afirmar que, “para esta dissertação, nenhuma”. Aos meus pais o suporte e incentivo constante. Vocês me ensinaram, desde cedo, que os estudos são fundamentais para o nosso crescimento. À minha amiga e orientadora, Professora Ana Luisa de Castro Almeida, a jornada conjunta, as horas de debate sobre um tema apaixonante, a sua dedicação e a crença neste projeto. Aos professores do mestrado da PUC-Minas, em especial profa. Dra. Ivone de Lourdes Oliveira, também integrante da banca de qualificação, e Maria Angela Mattos (Dede), as contribuições para esta pesquisa. Aos membros da banca de qualificação, Prof. Dr. Paulo Nassar (USP) e Prof. Dr. Rudimar Baldissera (UFRGS), que muito contribuíram para a melhoria desta pesquisa. Suas considerações foram fundamentais para o resultado final desta dissertação. Aos colegas do mestrado, em especial à turma da VG (Velha Guarda), Isaura, Bruno e Gislene, as conversas, aconselhamentos, troca de ideias e suporte durante esses dois anos. A duas grandes profissionais da nossa área, professoras e especialmente amigas, Rozália Del Gáudio e Maria Aparecida de Paula, nossa querida Cida, o suporte acadêmico e a parceria ao longo dessa jornada. Vocês foram fundamentais para o resultado deste trabalho. Agradecimentos mais do que especiais às equipes de Comunicação da Odebrecht, em especial ao Márcio Polidoro, Sérgio Bourroul, Karolina Gutiez, Thais Reiss e, da IBM, Mauro Segura, Flávia Apocalypse, Jennifer McTighe e Vera Dias, a abertura, paciência e principalmente desejo de contribuir para este projeto de pesquisa. Obrigado pela confiança. Não poderia deixar de agradecer a cada um dos 42 entrevistados que dedicaram o tempo deles para compartilhar ideias, percepções e impressões sobre suas organizações, sobre o processo de comunicação interna e suas rotinas de trabalho. Aproveito também para agradecer à equipe de Comunicação Interna da Vale a paciência de escutarem as minhas dúvidas, questionamentos e inquietações durante essa minha fase no mestrado da PUC Minas. Agradecimentos especiais ao Sérgio Giacomo por apoiar o meu desejo em realizar este mestrado e por compreender a minha ausência temporária para cumprir os créditos e realizar atividades acadêmicas. Sete pessoas foram fontes inesgotáveis de informação, textos acadêmicos, relatórios, referências e sugestões de leituras. Meus agradecimentos ao Jean Felipe Rossato, mestrando da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); à Raquel Barreto, do Reputation Institute; à Gisele Souza, do Centro de Memória da Aberje; à Emiliana Pomarico, também da Aberje e mestranda da Universidade do Estado de São Paulo (USP); à Tatiana Bar Newell, da área de comunicação da Vale; ao prof. Dr. Guido Berens, da Erasmus University em Roterdã (Holanda) e à prof. Dra. Marlene Marchiori, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Agradecimentos especiais também à Rachel Almeida, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), a sua disponibilidade, atenção e orientação na parte metodológica e nos aspectos das relações no ambiente do trabalho. Suas considerações e contribuições foram fundamentais para o resultado deste trabalho. Aos professores do mestrado de Administração da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Betania Tanure e Sérgio Rezende as orientações, sugestões e referências. E, finalmente, muito obrigado à Shirley Ribeiro e à Katherine White pelas mais de 21 horas de transcrições das entrevistas. Sem a dedicação e profissionalismo de vocês, não conseguiria chegar a lugar nenhum. “Conhecer e pensar não é chegar a uma verdade absolutamente certa, mas dialogar com a incerteza.” (MORIN, 2010, p. 59). RESUMO Esta dissertação tem como objetivo investigar a comunicação direcionada aos empregados em organizações multinacionais, buscando compreender como se dá a adaptação para as realidades locais considerando as diferenças socioculturais e comunicacionais. Para alcançar o objetivo proposto, buscou-se analisar as relações entre matriz e subsidiária em organizações multinacionais no âmbito da comunicação interna, compreender a percepção e avaliação dos empregados da matriz e da subsidiária com relação ao processo de comunicação interna, e também verificar a percepção dos empregados da matriz e da subsidiária sobre a reputação de suas organizações. Dois estudos de caso foram realizados em empresas multinacionais: Odebrecht e IBM. Os estudos foram concentrados na matriz da Odebrecht no Brasil e sua subsidiária nos Estados Unidos (Coral Gables – Flórida), e na matriz da IBM nos Estados Unidos (Nova Iorque) e sua a subsidiária no Brasil (São Paulo, Hortolândia/SP e Rio de Janeiro). Cultura organizacional e cultura do país são fatores que influenciam o processo de produção da comunicação interna, a relação entre as áreas de comunicação das organizações, e também a percepção dos empregados da reputação das organizações onde trabalham. A liderança organizacional desempenha um papel importante no processo de relacionamento com o público interno. Uma comunicação livre e aberta, em que o diálogo é utilizado para reduzir tensões e criar sentido coletivo, pode ser a alternativa para as relações estabelecidas no cenário contemporâneo. Palavras-chave: Comunicação organizacional. Comunicação interna. Relação matrizsubsidiária. Odebrecht. IBM. ABSTRACT This dissertation aims to investigate the communication directed at employees in multinational organizations seeking to understand how internal communication is adapt to local realities taking into account the socio-cultural and communicative differences. To achieve the proposed objective, we analyzed the relationship between headquarters and subsidiaries in multinational organizations in the field of internal communication, understanding the perception and evaluation of employees of headquarters and subsidiaries concerning the internal communication process, and verify their perception based on the reputation of their organizations. Two case studies were conducted in multinational companies: Odebrecht and IBM. The studies were concentrated in the Odebrecht’s headquarters in Brazil and its U.S. subsidiary (Coral Gables - Florida) and in the IBM’s headquarters in the United States (New York) and its subsidiary in Brazil (São Paulo, Hortolândia / SP and Rio de Janeiro). Organizational culture and culture of the country are factors that influence the production process of internal communications, the relationship between the areas of communication of the organizations, and also the employee´s perception of the reputation of the organizations where they work. Organizational leadership plays an important role in the relationship process with employees. A free and open communication, where dialogue is used to reduce tensions and create a collective sense, may be the alternative to the established relations in the contemporary scenario. Keywords: Organizational communication. Internal communication. Headquarter-subsidiary relationship. Odebrecht . IBM. LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Número de entrevistas realizadas entre outubro de 2012 e dezembro de 2013. .... 93 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Abertura para a participação ............................................................................... 27 Quadro 2 – Articulação entre os conceitos............................................................................ 52 Quadro 3 – Quadro de distância CAGE ................................................................................ 84 Quadro 4 – Estratégia e estrutura em multinacionais: um quadro organizativo ...................... 86 Quadro 5 – Relação das localidades dos entrevistados.......................................................... 91 Quadro 6 – Grupos de entrevistados e objetivos esperados ................................................... 94 Quadro 7 – Análise da comunicação interna na Odebrecht e IBM ...................................... 143 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Modelo de pesquisa ............................................................................................. 54 Figura 2 – Organograma da área de comunicação da matriz da Odebrecht .......................... 108 Figura 3 – Organograma da área de comunicação da subsidiária da Odebrecht em Coral Gables (Flórida) nos Estados Unidos .................................................................................. 109 Figura 4 – Esboço da estrutura de comunicação interna da IBM ......................................... 129 Figura 5 - Organograma da área de comunicação interna da subsidiária da IBM no Brasil.. 132 LISTA DE SIGLAS CTR - Computing-Tabulating-Recording Company GMU - Growth Market Unit IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBM - International Business Machines Company NCR - National Cash Register Company TDCI – Tecnologias digitais de comunicação e informação TEO – Tecnologia Empresarial Odebrecht TMC - Tabulating Machine Company SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 16 2 COMUNICAÇÃO INTERNA NO CONTEXTO ORGANIZACIONAL ..................... 23 2.1 Comunicação organizacional ....................................................................................... 23 2.1.1 Abordagens e conceitos .............................................................................................. 25 2.1.2 Visões sobre organizações .......................................................................................... 29 2.2 Área de comunicação interna como função mediadora .............................................. 32 2.2.1 Comunicação interna ................................................................................................. 32 2.2.2 Disputa de sentidos em circulação .............................................................................. 38 2.2.3 Mediação e midiatização nos processos de comunicação interna............................... 40 2.2.4 Relações no ambiente digital ...................................................................................... 45 2.3 Os impactos dos empregados na reputação organizacional ....................................... 49 3 RELAÇÕES INTERNAS NAS ORGANIZAÇÕES MULTINACIONAIS EM UM CONTEXTO CONTEMPORÂNEO ............................................................................. 59 3.1 Relações internas .......................................................................................................... 59 3.1.1 O empregado e as relações organizacionais ............................................................... 61 3.1.2 Flexibilidade dos empregados .................................................................................... 64 3.1.3 O fracasso em um contexto ambíguo e contemporâneo ............................................. 67 3.1.4 Terceirização .............................................................................................................. 69 3.2 Desafios de organizações multinacionais em contextos socioculturais e comunicacionais diversos........................................................................................... 71 3.2.1 Cultura organizacional............................................................................................... 76 3.2.2 Impacto da distância................................................................................................... 83 3.2.3 Relações entre matriz e subsidiárias ........................................................................... 86 4 ODEBRECHT E IBM: DOIS UNIVERSOS COMPLEXOS, DISTINTOS E DESAFIADORES........................................................................................................... 90 4.1 Percurso metodológico ................................................................................................. 90 4.2 Área de comunicação interna em empresas multinacionais ....................................... 99 4.3 Odebrecht – uma organização com uma cultura determinante ................................. 99 4.3.1 Tecnologia Empresarial Odebrecht - TEO ............................................................... 102 4.3.2 O processo de comunicação interna ......................................................................... 107 4.3.3 Relações entre as áreas de comunicação da matriz e da subsidiária ........................ 113 4.3.4 Percepção dos empregados e ex-empregados da matriz e da subsidiária sobre a comunicação interna................................................................................................ 115 4.3.5 Percepção dos empregados e ex-empregados da matriz e da subsidiária sobre a reputação da Odebrecht (grau de estima, admiração, respeito e confiança) ............ 118 4.3.6 Tensionamentos nas relações na modernidade ........................................................ 120 4.4 IBM – uma empresa em constante transformação ................................................... 123 4.4.1 A cultura da IBM ..................................................................................................... 125 4.4.2 O processo de comunicação interna ......................................................................... 127 4.4.3 Relações entre as áreas de comunicação da matriz e da subsidiária ........................ 132 4.4.4 Percepção dos empregados e ex-empregados da matriz e subsidiária sobre a comunicação interna................................................................................................ 137 4.4.5 Percepção dos empregados e ex-empregados da matriz e da subsidiária sobre a reputação da IBM (grau de estima, admiração, respeito e confiança) ..................... 138 4.4.6 Tensionamentos nas relações na modernidade ........................................................ 139 4.5 Resumo da análise da comunicação interna na Odebrecht e IBM ........................... 142 5 PRINCIPAIS CONSIDERAÇÕES E APONTAMENTOS FUTUROS ...................... 146 REFERÊNCIAS ............................................................................................................... 154 APÊNDICES .................................................................................................................... 164 16 1 INTRODUÇÃO As organizações estão inseridas em um cenário cada vez mais competitivo e direcionado para resultados imediatos. Acompanhamos nos últimos anos movimentos de fusões e aquisições que tornaram o mercado mais concentrado e possibilitaram o surgimento de um maior número de empresas operando em diferentes partes do mundo. Em um momento cada vez mais competitivo, as organizações estão em constante transformação. Para algumas empresas, a internacionalização de produtos e serviços passa a fazer parte da estratégia de crescimento das organizações, com o objetivo de aumentar os ganhos financeiros, ampliar o mercado de atuação e também diminuir a dependência de um único mercado nos seus negócios, ou até mesmo buscando sobreviver em um mercado globalizado. Uma alteração no território de atuação de uma organização, com mudanças no cenário sociocultural, poderá impactar os processos de comunicação, em especial os direcionados para o público interno. O contexto em que as experiências são vivenciadas, as relações são experimentadas e o conhecimento é formado passa a ter uma importância para a compreensão da realidade. Só podemos compreender a partir de um contexto em que a palavra que, por natureza é polissêmica, só precisa ser inserida em um texto para adquirir sentido e os acontecimentos precisam ser contextualizados para serem inteligíveis (MORIN, 2007). Os desafios apresentados em um contexto moderno e complexo são duplos: trabalhar a incerteza e também o processo de religação. O contexto complexo em que vivemos necessita ser compreendido como um ambiente de incertezas, porém relativizado e sempre interagindo com as certezas postas, objetivando uma maior segurança e compreensão dos acontecimentos. E o que antes era considerado como isolado, precisa ser apresentado, analisado e proposto como uma realidade mais conectada e interdependente, facilitando assim as interações e a convivência (MORIN, 2007). As organizações enfrentam desafios para se relacionar com seus interlocutores. Existe uma interdependência entre as organizações e os seus interlocutores. As frequentes mudanças nos cenários influenciam também a organização. As organizações estão sempre em busca de novas abordagens para desenvolver relacionamentos sólidos e manter os seus interlocutores devidamente informados sobre as suas atividades. Dentro desse contexto, os desafios postos aos profissionais de comunicação são também ampliados, já que cabe a esses profissionais contribuírem com orientações e suporte para as estratégias organizacionais e aos gestores dentro de um ambiente incerto e em constante ressignificação (SOARES; DEL GAÚDIO, 2012). 17 Dentro do contexto organizacional, a comunicação deve ser identificada como um processo que possibilita à organização desenvolver relacionamentos com os seus interlocutores, relacionamentos que por sua natureza são complexos (ALMEIDA; BERTUCCI, 2010) e providos de disputa de sentido (BALDISSERA, 2008a). Existem expectativas, por parte dos interlocutores, de receberem informações acerca das organizações de modo a atender às suas expectativas (ALMEIDA; BERTUCCI, 2010). Não há como refutar a necessidade de manter relações com a sociedade e de fornecer informações, por meio de um fluxo constante, a partir das demandas de indivíduos ou grupos. Diante desse cenário, uma comunicação consistente se faz necessária para que seja possível se relacionar com uma audiência diversa e em crescimento acelerado, tendo que permanecer relevante para todos esses grupos de interlocução (ARGENTI; HOWELL; BECK, 2005). Para fins deste estudo, está sendo considerada a utilização do termo “comunicação no contexto organizacional”, para designar o processo de comunicação que ocorre no contexto das organizações com os diversos interlocutores, sendo a organização um desses integrantes e parte da sociedade. Esta pesquisa busca a investigação da comunicação interna como mediadora das relações com os empregados. Uma relação complexa por natureza, em que a disputa dos sentidos acontece na circulação da comunicação no ambiente interno. Assim a comunicação interna no contexto das organizações tem a função de mediar estas relações, dar suporte e orientação à direção com o objetivo de promover os fluxos informacionais e os relacionais (SOARES; DEL GAÚDIO, 2013). A comunicação interna é definida como sendo complexa, multidimensional e de fundamental importância para o desenvolvimento das organizações (MARCHIORI, 2008c). Este estudo tem como objetivo investigar a comunicação direcionada aos empregados em organizações multinacionais buscando compreender como se dá a adaptação para as realidades locais considerando as diferenças socioculturais e comunicacionais. Para alcançar o objetivo proposto, buscou-se analisar as relações entre matriz e subsidiária em organizações multinacionais, baseado no modelo de Birkinshaw (1994), no âmbito da comunicação interna, compreender a percepção e avaliação dos empregados da matriz e da subsidiária com relação ao processo de comunicação interna e também verificar a percepção dos empregados da matriz e da subsidiária sobre a reputação das organizações. Durante o processo de pesquisa de campo, percebeu-se a necessidade de incluir um grupo de contraposição, formado por ex-empregados, integrantes das equipes de comunicação das organizações pesquisadas. 18 No capítulo 2 foram abordadas as questões referentes à comunicação organizacional, as abordagens e considerações de autores como Lima (2008), Deetz (1996, 2010), Nassar (2008b), Krone, Jablin e Putman (1987), Fombrun e Riel (2007), França (2007a), Marchiori (2008a), Oliveira e Soares (2008); Kunsch (2012), Oliveira e Paula (2010a, 2010b), Baldissera (2010); Almeida e Souza (2014) entre outros. Também foram destacadas as principais características do processo de comunicação interna no contexto organizacional, os desafios postos na contemporaneidade, além do processo de disputa de sentido em circulação segundo Baldissera (2003, 2008a). Os processos de comunicação interna foram articulados na visão mediadora e midiatizada, segundo Braga (2006, 2012), Fausto Neto (2012), Fragoso (2012) e Ferrara (2003). Fechando o capítulo, foram discutidas as relações no ambiente digital, tendo como base Nassar (2008b), Di Felice (2008), Oliveira e Marchiori (2012) e Baldissera (2013). A complexidade se apresenta como parte do contexto que as organizações precisam vivenciar. Uma das características dessa complexidade é a existência de multimeios e multicanais, agora acessível a todos, com um baixo custo e rapidez, o que gera na atualidade uma sociedade inter-relacionada, conectada, emissora, publicadora e articuladora. A sociedade ganha espaço em um ambiente mais participativo e com possibilidades de expressão e articulação (SOARES; DEL GAUDIO, 2013). Baseado no modelo de interação comunicacional dialógica desenvolvido por Oliveira (2002) existe um espaço comum de partilha e relacionamento entre aquele que emite e aquele que recebe as mensagens, deixando seu papel apenas unilateral, para tornarem-se interlocutores, com experiência nas relações dialógicas e negociais (OLIVEIRA; PAULA, 2006). Algumas destas interações migraram para as redes sociais, em que publicações alcançam um público ilimitado, sem fronteira e definição, além de ser um processo ágil, replicável, democrático, acessível e de baixo custo. A existência de uma tecnologia avançada e as redes sociais abrem oportunidades para que os indivíduos expressem suas expectativas, façam cobrança, questionem e busquem a interação social, muito além da vigilância passiva (OLIVEIRA; PAULA, 2010a). Os empregados de uma organização não podem ser considerados um grupo homogêneo. São formados por diferentes indivíduos, com históricos, perfil, aspirações e desejos diferenciados. Este grupo é formado por trabalhadores operacionais, técnicos, gestores e executivos (THEAKER, 2001, p. 132). Cada um desenvolvendo um papel dentro das organizações em constante interação, troca e circulação de sentidos. A comunicação pode contribuir para atingir os objetivos das organizações (THEAKER, 2001), mas os empregados, 19 protagonistas do processo de implementação das estratégias, possuem interesses e objetivos individuais que podem ser divergentes do seu local de trabalho. Existe uma divisão clássica entre interlocutores internos e externos à organização. Já é amplamente discutido, inclusive na academia, que o público externo é formado por um agrupamento, que podem ser categorizados, segundo suas características e interesses (clientes, fornecedores, imprensa, governo, comunidade, apenas para citar alguns). Públicos internos e externos estão conectados, transitam, relacionam-se em rede. Não é mais possível desenhar programas de comunicação sem levar em consideração a correlação entre esses dois universos. As tecnologias e o livre e constante acesso às redes sociais contribuíram para o repensar do processo de comunicação nas organizações. Hatch e Schultz (2008) também alertam para o fim das fronteiras internas e externas, com impactos na cultura organizacional, na identidade e também na imagem e reputação das organizações. Além da inexistência de barreiras entre interno e externo, muito reforçada em função da possibilidade de conexão e expressão nas redes sociais, o desafio é a compreensão das características desse público interno em um novo contexto. Os empregados estão cada vez mais qualificados, mais críticos, mais móveis, porém menos vinculados e menos afetos às intermediações, buscam formas de interagir e conectar com as organizações, em uma abordagem mais dialógica e menos polarizada, com possibilidades de se posicionarem de forma mais aberta, desde que não haja nenhum tipo de punição (SOARES; DEL GAÚDIO, 2012). Sua fonte de informação primordial deixa de ser apenas a organização. A pesquisa em sites e o contato via redes sociais possibilita a busca de informações com outras fontes. Os empregados estão em busca de novas oportunidades de vida, de trabalho e também de se expressar. Sendo o empregado o ponto central da cultura organizacional, aquele que reforça, representa e reproduz os artefatos e o simbolismo da identidade, podemos concluir que imagem e reputação são diretamente influenciadas pelo comportamento dos trabalhadores de uma organização. Foram analisadas as relações internas nas organizações multinacionais na contemporaneidade, considerando os referenciais analisados no capítulo 2 como bases para compreensão das principais características e dos desafios postos em um contexto sociocultural e comunicacional diverso. É dada uma ênfase à identificação de desafios enfrentados pelos empregados em organizações multinacionais na relação com as lideranças no ambiente organizacional e às barreiras decorrentes de experiências fragmentadas, ambíguas e de alta competitividade vivenciadas por esses atores. 20 O público interno está mais envolvido nas questões relativas ao negócio das organizações em que trabalha e mais atento aos impactos que o mercado tem na sua atividade e como consequência, na sua vida. Mudanças podem ser percebidas nas organizações nos últimos 30 anos, em função de alterações estruturais e na reorganização internacional do capital e do trabalho, tornando os cenários mais fluidos e instáveis, além de um mercado consumidor e empregador mais exigente (CÉSAR, 2008). Na ausência de fronteiras entre os públicos internos e externos, as organizações passam a desenvolver programas de comunicação integrados percebendo que o atingimento de objetivos externos (vendas, relacionamentos, reputação) só poderá ocorrer quando, e se houver, um trabalho direcionado para o público interno (CHENEY; CHRISTENSEN, 2001). O processo de comunicação interna é mediador nas relações entre a organização e seu público interno, funcionando como um dispositivo de mediação de interesses, informações e de orientações. A comunicação no contexto organizacional direcionada aos empregados não se resume aos processos estabelecidos pela área de comunicação interna. Existem fluxos que vão além das responsabilidades e abrangência dos profissionais de comunicação. Cabe ao processo de comunicação interna, representar a organização e se fazer representado com os empregados, possibilitando trocas simbólicas. As relações internas às organizações, na sua maior parte, são baseadas em produtos midiatizados, que além de colocarem em circulação as informações, possibilitam uma troca e uma inter-relação com aqueles que produzem e circulam as informações. “A circulação própria do sistema de resposta não é aquela que faz chegar o produto da mídia ao indivíduo, e sim aquela que se inicia após o consumo; a circulação é diferida e difusa, após a recepção, e sem necessariamente passar por grupos organizados e instituições.” (BRAGA, 2006a). As relações internas propostas nas organizações estão baseadas em um agir midiático. São utilizados meios midiatizados para a interação da organização com os seus interlocutores. As mesmas ações comunicacionais direcionadas para o consumo de produtos e serviços também são utilizadas para promover as relações internas com os empregados. Materiais impressos, eletrônicos e digitais são hoje desenvolvidos pelas equipes de comunicação, em um papel mediador entre a organização e seus interlocutores internos, os empregados. São raros, quase inexistentes os estudos focados no processo de comunicação interna em organizacionais multinacionais. Os estudos da área de negócios internacionais abordam as características do processo de internacionalização das organizações, bem como as relações 21 entre matriz-subsidiárias acabam abordando questões de comunicação interna, mas de forma superficial e com o prisma da administração (KALLA, 2006). As relações internas no contexto em organizações multinacionais em um contexto contemporâneo foi objeto do capítulo 3. Serão abordadas as relações internas, os conflitos inerentes ao ambientes e as mudanças na contemporaneidade que vêm impactando o trabalho dos empregados nas organizações: a flexibilidade, a fragmentação, as mudanças, o sentimento de fracasso e a terceirização (SENNETT, 2009). Nesse capítulo, também serão abordados os desafios enfrentados pelas multinacionais em contextos socioculturais e comunicacionais diversos dando um enfoque especial às questões da cultura organizacional e da cultura dos países, além do impacto da distância econômica, geográfica, administrativa e cultural, segundo proposto por Ghemawat (2001). No capítulo 4, situamos as duas organizações pesquisadas, Odebrecht e IBM, seu histórico, processo de comunicação interna e as principais características relevantes sobre a cultura organizacional. Foram pesquisados os processos de comunicação interna da Odebrecht e da IBM e nas suas subsidiárias nos EUA e Brasil, respectivamente. Ambas as organizações possuem uma comunicação corporativa estruturada na qual a comunicação interna está integrada as políticas, normas e diretrizes da empresa. São organizações impactadas pelas diferenças socioculturais e comunicacionais, pois têm operações em vários países. Um grande contingente de empregados aumenta a complexidade do desenvolvimento de estratégias de comunicação, outra característica presente nas duas organizações. Foram realizados dois estudos de casos da inter-relação da comunicação direcionada aos empregados de organizações multinacionais, no caso Odebrecht e IBM, por meio da análise da percepção do público interno e do caráter mediador que essa comunicação se propõe na relação empresaempregado. Entrevistas em profundidade foram conduzidas com os profissionais de comunicação (instância da produção) e empregados (instância da percepção) nas matrizes (no caso da Odebrecht, no Brasil, e da IBM, nos Estados Unidos) e nas subsidiárias da IBM no Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo e Hortolândia) e da Odebrecht nos Estados Unidos (Coral Gables – Flórida). Para análise desta pesquisa, foram considerados três eixos norteadores. O primeiro eixo focou-se na análise das relações entre a matriz e as suas subsidiárias, o nível de independência, orientação e controle, no âmbito da comunicação interna. No segundo momento, o foco foi direcionado para a percepção dos empregados das organizações que trabalham na matriz e nas subsidiárias a respeito do processo de comunicação interna. E, 22 finalizando, no terceiro eixo, o objetivo foi compreender a percepção dos empregados sobre a reputação organizacional e o seu grau de estima, respeito, confiança e admiração. Toda esta análise foi realizada buscando também compreender os tensionamentos existentes no contexto organizacional. E, finalmente, no capítulo 5, foram apresentadas as principais conclusões do trabalho e realizados alguns apontamentos futuros. Espera-se que esses apontamentos possam contribuir para o avanço dos estudos de comunicação interna no contexto organizacional, especialmente no caso de multinacionais que enfrentam desafios ampliados em função das diferenças no contexto sociocultural e comunicacional. 23 2 COMUNICAÇÃO INTERNA NO CONTEXTO ORGANIZACIONAL 2.1 Comunicação organizacional O campo da comunicação organizacional abrange as interações comunicacionais no contexto das organizações públicas, privadas, do terceiro setor ou não governamentais constituindo um ambiente privilegiado de pesquisa e análise das interações comunicativas na sociedade, dada a relevância das organizações na contemporaneidade. Na área acadêmica, a partir da primeira década do século 21, os estudos sobre a comunicação organizacional têm avançado ao enfatizarem uma perspectiva de análise sob a ótica da comunicação nas suas interfaces não apenas com a administração, mas com outros campos como os estudos da linguagem, a política e a sociologia, entre outros (LIMA, 2008). Essas perspectivas têm possibilitado abordagens que problematizam as análises sobre a comunicação no contexto das organizações1, suas interdependências e tensionamentos em face da complexidade do cenário contemporâneo (BALDISSERA, 2008a; 2008b; 2012; OLIVEIRA; SOARES, 2008). A compreensão da comunicação no contexto das organizações enfatiza a importância da troca mútua e do envolvimento de todos interlocutores2 no processo comunicacional, considerando as organizações para além dos seus limites físicos ou internos, ao abranger o ambiente no qual estão inseridas, apresentando múltiplas afetações. Os fenômenos que acontecem no contexto organizacional carregam uma complexidade e inúmeras interfaces com outros campos do conhecimento que precisam ser contempladas nas análises e abordagens teóricas da área. Trata-se de um ambiente complexo, polifônico, denso, de múltiplas relações em rede, que constituem realidades comunicacionais específicas, conforme Fausto Neto (2008) e demanda a consideração nas interações que ocorrem (FAUSTO NETO, 2008; SENNETT; 2009). Portanto, observa-se que uma conexão com teorias, conceitos e métodos de outras áreas do saber, em uma visão transversal e transdisciplinar, pode contribuir para o processo do pensar comunicacional no contexto das organizações (MATTOS, 2008). Oliveira e Soares (2008) destacam que a abordagem da comunicação neste contexto foi historicamente negligenciada pelos estudos na área da 1 Denominação utilizada pelos integrantes do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, docentes e acadêmicos (SCROFERNEKER, 2011). Esta abordagem é embasada no paradigma relacional, proposto por Vera Veiga França com base na bilateralidade entre interlocutores (LIMA; BASTOS, 2012), e no modelo de interação comunicacional dialógica, desenvolvido por Ivone de Lourdes Oliveira em sua tese de doutorado em 2002 (OLIVEIRA; PAULA, 2007). 2 Nessa abordagem, um grupo de indivíduos que se relacionam com as organizações é denominado de interlocutores (OLIVEIRA, 2012). Outros autores, com outras abordagens, utilizam termos como: públicos, públicos de interesses, grupos de relacionamento, parte interessada ou stakeholders. 24 administração, bem como pelas teorias da comunicação, e reforçam a relevância de abordagens com foco no campo comunicacional para fazer avançar o conhecimento dessa realidade. Há vários tipos de organizações, que podem variar de acordo com o porte, os objetivos, área de atuação. Essas características impactam a sua estrutura organizacional, os seus processos produtivos, a sua forma de trabalho e seus fluxos comunicacionais, estes passíveis de observação e estudo. São múltiplas as variáveis consideradas nos estudos da comunicação no contexto organizacional, como as características dos interlocutores, a determinação do tipo de atividade, o histórico da organização 3 nas suas redes de relacionamento, que estão em constante modificação e as especificidades das interações em que aí se processam em função do cenário contemporâneo. Estudar as relações internas nesse ambiente complexo, denso e mutante, é dedicar uma reflexão a um fenômeno atual e de extrema importância para os empregados4, as lideranças5, as organizações como um todo e a sociedade. Deetz (1996) aponta uma demanda para que os pesquisadores desenvolvam conceitos e estudos sobre a comunicação organizacional em face das mudanças constantes da contemporaneidade. Isso porque essas mudanças influenciam o comportamento dos diversos interlocutores e a própria organização, que se apresenta como um desses interlocutores. As relações internas no ambiente organizacional também são fortemente modificadas no contexto contemporâneo. Dificilmente uma organização conseguirá concretizar os seus objetivos na ausência de uma compreensão de seus valores pelos interlocutores. Como lembra Nassar (2008), por meio da comunicação as organizações buscam legitimar suas ações perante a sociedade e o mercado em que atuam. 3 O termo organização é utilizado para denominar todo o tipo e modelo de grupos, empresas privadas, órgãos públicos, organizações não governamentais, associações, etc. 4 Empregado será utilizado como sinônimo de público interno da organização. Também denominado como funcionário, colaborador ou força de trabalho. Faz-se aqui uma diferença entre os empregados e a liderança das organizações, também designados de gestores. 5 Liderança será o termo utilizado para designar o grupo de empregados da organização, responsável por definir as macro-estratégias, a condução e o gerenciamento das organizações. Também podem ser denominados de gestores, gerentes ou supervisores. 25 2.1.1 Abordagens e conceitos Oliveira destaca que [...] vários estudiosos das organizações reconhecem a importância da comunicação, entretanto a tratam sob um ponto de vista meramente instrumental, esquecendo-se de que ela é inerente aos processos de interação e, portanto, elemento constituinte da realidade organizacional. (OLIVEIRA, 2008, p. 93). Apesar de um avanço na pesquisa sobre a área a partir da década de 1990, a comunicação organizacional ainda pode ser identificada em vários estudos acadêmicos e em muitas práticas do mercado como um conjunto de ferramentas a serviço da estratégia das organizações, em uma visão meramente instrumental (OLIVEIRA; SOARES, 2008; CURVELLO, 2009; DEETZ, 2010; KUNSCH, 2012). A comunicação precisa ser percebida para além de uma ferramenta de gestão, mas sim “[...] como ponto central para análise da produção e reprodução organizacionais.” (DEETZ, 2010, p. 84). Oliveira (2008) busca respaldo no paradigma relacional ao refletir sobre o processo de comunicação no contexto organizacional e propõe o modelo de interação dialógica. Aprofundando a reflexão sobre as experiências no contexto organizacional, no paradigma relacional, baseado nos estudos de George H. Mead, existem três dimensões a serem analisadas de forma conjunta e circular, segundo França (2007a): interacional (a relação dos interlocutores), a simbólica (discurso e produção de sentido) e a contextual (situação sociocultural). Apesar de a comunicação não ter ocupado a centralidade nos estudos de Mead, constituiu o eixo explicativo na superação das dualidades entre o indivíduo e a sociedade, o interior e o exterior e entre a mente e a conduta, conforme França (2007a). A autora vai caracterizar o processo interativo em uma perspectiva global, “[...] o que indica a dificuldade e insuficiência de toda tentativa de isolar e analisar uma única fase.” (FRANÇA, 2007a, p. 12). Trata-se de uma análise com o foco no todo, das interações, sendo a comunicação de natureza composta e articulada, “[...] pura interação com destaque para a reflexividade, [...] cada parte atua sobre a outra, e passado e futuro são acionados pela ação no presente.” (FRANÇA, 2007a, p. 16). A autora ressalta que o desafio posto é analisar o processo comunicacional em movimento, em constante interação, reconstrução e ressignificação, o que ultrapassa a visão de processos interacionais materializados nas produções de veículos e ações comunicativas. 26 Em outra concepção, baseada nos estudos de Luhmann, a comunicação compreendida como sistema, considera as relações um processo cognitivo, também em constante construção e reconstrução (CURVELLO, 2009). A construção de significado nas relações passa a fazer parte do contexto em que a comunicação está inserida nas organizações, nos ambientes interno e externo. O contexto é importante para a compreensão dos fenômenos comunicacionais, já que estes são, na sua essência, processos de interação entre indivíduos e/ou grupos, dotados de prerrogativas, experiências passadas e desejos presentes e expectativas futuras. Deetz (1996) conceitua a comunicação organizacional a partir de três abordagens. A primeira abordagem apresentada pelo autor é da comunicação como uma área ou um departamento dentro de uma organização. Na segunda, a comunicação é vista como um fenômeno que acontece dentro das organizações. E na terceira abordagem, como uma forma de descrever e explicar as organizações. O autor destaca que a comunicação também pode ser pensada como um modo distinto de análise e compreensão das organizações, ressaltando que “a recursividade dessa posição significa que a produção de campo como uma unidade acadêmica e a comunicação organizacional como um fenômeno distinto são realidades discursivas.6” (DEETZ, 2001, p. 6, tradução nossa). As três perspectivas apresentadas respaldam a reflexão proposta nesta pesquisa e são consideradas ao longo do trabalho. A abordagem da complexidade dos contextos socioculturais e comunicacionais distintos é importante para melhor compreender as relações entre as organizações e os seus empregados e entre a matriz e as subsidiárias no âmbito da comunicação de organizações multinacionais7. Deetz (2010) aponta duas abordagens para análise da comunicação, a primeira com o foco na produção de sentidos e a segunda nos diferentes níveis de inclusão dos interlocutores nos processos interativos. A partir dessas concepções, o autor apresenta um modelo de análise considerando quatro variáveis determinantes da comunicação nas organizações: o controle estratégico, a reciprocidade, a centralidade no indivíduo e o construtivismo-relacional. O modelo denominado de abertura para a participação, que descreve as características dessas variáveis, é apresentado no quadro abaixo. 6 “The recursiveness of this position means that the production of the field as an academic unit and organizational communication as a distinct phenomenon are themselves discursive accomplishments.”. 7 Multinacionais são organizações que atuam em mais um país através de subsidiárias com representação de vendas de produtos ou serviços ou na produção direta. No capítulo 2.4, este conceito será melhor discutido. 27 Quadro 1 - Abertura para a participação Concepção de Controle estratégico Reciprocidade significado Centrado na Comunicação estratégica Democracia liberal Principais interesses: distribuição de Principais interesses: liberdade de expressão, informação, persuasão, influência, e ganho deliberação, negociação representação, de complacência. aplicação dos direitos legais. Melhores exemplos vistos em: campanhas, Melhores exemplos vistos em: reuniões de relações públicas, propagandas. prefeituras, processos legislativos e judiciais. Construtivista- Administração da cultura Democracia participativa relacional Principais interesses: mudança nos Principais interesses: garantir que todas as significados dominantes, integração, posições relevantes sejam ouvidas; formação de controle imperceptível, e gerenciamento significado livre e aberta; manutenção do de corações, mentes e almas. pluralismo e diferença. Melhores exemplos vistos em: indústrias Melhores exemplos vistos em: processos de culturais; gerenciamento de cultura resolução de conflitos com vantagens para corporativa. todos, e colaborações comunitárias. pessoa Fonte: DEETZ (2010, p. 88) Para Deetz (2010), as organizações orientadas pela visão da comunicação estratégica têm o seu foco nos processos de distribuição de informação e buscam a influência e a persuasão dos seus interlocutores. A comunicação é centrada no indivíduo e no controle do que é dito, como e quando as mensagens são veiculadas. Trata-se de uma visão mecanicista da comunicação, que enfatiza sua função informacional, como apresentado por Krone, Jablin e Putman (1987). As interações, quando realizadas, são meramente funcionais, com o propósito de legitimar os processos organizacionais e/ou de persuadir os interlocutores com o intuito de obter maior adesão aos seus objetivos estratégicos. Por sua vez, na comunicação baseada na administração da cultura, o controle é quase imperceptível - está presente, mas sua abrangência é coletiva e o seu foco está no processo construtivista-relacional que possibilita a influência nas percepções, em que a mudança nos significados é dominante. A busca de mudança nos significados é dominante nesta abordagem, as organizações são compreendidas como criadoras de significado e a comunicação ocupa o centro desse processo. As relações são fortes e tendem a ser conduzidas de forma que a persuasão não seja percebida. Já no quadrante da reciprocidade, Deetz (2010) ressalta que o processo de comunicação flui com maior liberdade, pautado em uma negociação representativa centrada no indivíduo denominada de democracia liberal. Quando a comunicação é reciproca e apresenta uma perspectiva construtivista-relacional, em que todas 28 as partes têm oportunidade de expressão e o pluralismo é valorizado, o autor denomina esse quadrante de democracia participativa. Baldissera contribui de forma relevante para o avanço das concepções da área ao postular que “[...] comunicação organizacional, antes de tudo, é comunicação, e por comunicação organizacional compreende-se o processo de construção e disputa de sentidos no âmbito das relações organizacionais.” (BALDISSERA, 2009a, p. 59). O autor ressalta que as organizações são locais de encontro entre competências individuais, com possibilidade de convergência de interesses e de objetivos, mas também de conflitos, de divergências e do exercício de forças simbólicas. As organizações (sistemas vivos) são compreendidas como resultados dinâmicos de relações entre sujeitos que se realizam como forças em diálogo, selecionando, circulando, transacionando e construindo significação por meio de processos comunicacionais. Pela comunicação os significados que constituem a cultura organizacional são postos em circulação, disputados, construídos e transformados para, novamente, experimentarem certa estabilidade como significados organizados / organizadores. Complexus de diálogos e significação, permanentemente (re)tecidas pelos diferentes sujeitos - seus imaginários e suas subjetividades -, as organizações são/estão tensionadas ao entorno sociocultural, perturbando-o e sendo perturbadas por ele. (BALDISSERA, 2010, p. 61). Em outra direção, Krone, Jablin e Putman (1987) afirmam que a comunicação considera que a comunicação organizacional pode ser analisada a partir de quatro perspectivas: mecanicista, psicológica, interpretativa-simbólica e sistemas de interação. A perspectiva mecanicista pressupõe a comunicação em um processo informacional, no qual canais são utilizados para transmitir mensagens, sempre em uma relação linear entre os envolvidos e o ruído pode ser evitado para assegurar a fidelidade na transmissão de informações. Na perspectiva psicológica, os indivíduos e suas características são relevantes para o processo comunicacional. Seus valores, crenças, motivadores e experiências interferem na compreensão das mensagens e no relacionamento entre emissor e receptor. Nesse processo, estão presentes “filtros conceituais” baseados nas características individuais. Já na perspectiva interpretativa-simbólica, a ênfase se volta para o entendimento e o significado comum existente entre os envolvidos no processo comunicacional, considerando também questões culturais. A interação social é apresentada com resultado deste processo e o “filtro conceitual” é substituído pela experiência compartilhada. Na quarta perspectiva, sistema de interação, a análise enfatiza os comportamentos externos de grupo e não mais baseada nos “filtros conceituais” individuais ou nas interpretações compartilhadas (KRONE; JABLIN; PUTMAN, 1987). Na quarta perspectiva, sistemas de interação, Marchiori (2008d) 29 considera a comunicação como um ato onde todos indivíduos são parte integrante do processo. 2.1.2 Visões sobre organizações Para a compreensão da comunicação no contexto organizacional, é relevante situar a visão de diferentes autores sobre a organização. Fombrun e Riel (2007) consideram que as organizações são caracterizadas como um ambiente formado por pessoas que se comunicam. Os autores afirmam que em todas as organizações a comunicação pode acontecer em todos os sentidos: vertical, horizontal, interno e externo. Não é possível afirmar que toda a comunicação que ocorre nas organizações é relacionada ou esteja alinhada aos seus objetivos estratégicos, mas “[...] toda comunicação, entretanto, influencia, até certo ponto, a percepção dos participantes e dos observadores sobre a organização e suas atividades, e nesse sentido impacta a imagem, marca e reputação da organização.” (FOMBRUN; RIEL 2007, p. 13, tradução nossa) 8 . Marchiori corrobora com essa visão ao afirmar que “uma empresa é comunicação”, uma vez que comunicação e a organização estão relacionadas, sendo a primeira essencial para a compreensão da segunda, e é por meio da comunicação que se pode criar “[...] uma ponte de significados que cria compreensão mútua e confiança.” (MARCHIORI, 2008a, p. 26). Marchiori (2008a) e Deetz (1996) compartilham a mesma visão da comunicação, como sendo central nas organizações e vital para a sua descrição e explicação do seu contexto e atuação. Outros autores acrescentam às concepções sobre organizações a dinâmica de sentidos, como Pinto, para quem a organização deve ser considerada como “[...] rede dinâmica de sentidos em constante produção, em que uma padronização rígida de procedimentos, ideias e dispositivos pode levar à vida vegetativa de um agrupamento social assentado em um movimento inercial de significados fixos.” (PINTO, 2013, p. 45). Baldissera (2009b), considerando essa dinâmica, propõe três dimensões para a compreensão das organizações a partir da comunicação, que se apresentam tensionadas e interdependentes, na visão dos autores: a organização comunicada, a organização comunicante e a organização falada. A organização comunicada pressupõe a comunicação formal, autorizada e produzida pela organização, direcionada aos seus interlocutores, o que é selecionado pela organização para ser comunicado com o objetivo de dar maior visibilidade as 8 “All communications, however, influence to some extent the perceptions of participants and observes about the organization and its activities, and so affect the organization´s image, brand, and reputation.”. 30 suas atitudes; a organização comunicante engloba a comunicação formal e os fluxos informais presentes nas relações diretas da organização com os seus interlocutores, é quando qualquer sujeito estabelece relações com as organizações; e a organização falada abrange os processos comunicacionais indiretos cujo tema central é a organização: “[...] além de serem falas sobre a organização, não acontecem através dela - ocorrem fora do âmbito das suas relações diretas, em diferentes contextos, de modo indireto”. (BALDISSERA; BATISTA 2010, p. 7). Essa abordagem é importante para compreender a percepção dos empregados do processo de comunicação interna bem como das suas organizações. A compreensão da influência dos contextos nas mudanças ocorridas nas organizações é fundamental para uma interpretação das questões políticas, culturais, sociais e econômicas que marcam a contemporaneidade e que compõem o ambiente das organizações (OLIVEIRA; PAULA, 2010a). Reforça-se assim a relevância das interfaces da comunicação com outros campos do conhecimento para a análise do processo comunicacional no contexto das organizações: “[...] As interfaces devem ser tomadas como uma possibilidade de diálogo, visto que permitem melhor entendimento do objeto comunicacional em si e da sua relação com a complexidade das organizações e da sociedade contemporânea.” (OLIVEIRA, 2008, p. 95). A partir dessa abordagem é possível compreender como se dão as relações nesse contexto complexo, quais as suas influências e seus desdobramentos. É essencial que a dinâmica das relações que produz o diálogo, a circulação de significados e por consequência suas ressignificações sejam consideradas com centralidade no ambiente das organizações (BALDISSERA, 2010). Importante destacar ainda que, nestas relações, organizações e interlocutores são mutuamente afetados em uma complexa troca simbólica (OLIVEIRA; PAULA, 2006). A ausência de uma centralidade da organização como único polo emissor de comunicação torna mais complexo, porém rico, o cenário de inter-relação entre os empregados e as organizações. Cada vez mais, a hegemonia das organizações no processo de interação é substituída e dependente dos repertórios interpretativos dos empregados nos processos comunicacionais, já que o sentido é formado no ato da recepção (OLIVEIRA; PAULA, 2008; NASSAR, 2009) e posto em circulação. O embate por parte das organizações é na tentativa de fazer prevalecer um discurso institucional em “[...] uma arena em que a transparência e a opacidade de vozes se articulam na construção de sentidos que vão se legitimando pela força do reconhecimento das vozes que se articulam e se somam.” (ALMEIDA; SOUZA, 2014). A posição central até então ocupada pelas organizações estava 31 muito embasada nessa capacidade de articulação e de produção de informações de massa e direcionada (campanhas, anúncios, comunicados via imprensa). Faz-se necessário compreender como esta recepção se dá no âmbito interno, pois ela é fonte para outras mensagens, em todas as relações organizacionais. “[...] A circularidade da comunicação faz com que, a todo momento, os diversos atores com os quais a organização interage assumam a posição de sujeitos do discurso, contribuindo para o delineamento do que é a organização, sua identidade, e imagem perante a sociedade.” (ALMEIDA; SOUZA, 2014). As organizações são atores sociais presentes no cotidiano da sociedade, compartilhando espaço e se relacionando com grupos específicos de indivíduos, além de serem dotadas de características próprias (valores, princípios, objetivos) (OLIVEIRA; PAULA, 2009, 2010a). No contexto organizacional, se por um lado ainda vigora a racionalidade, com ênfase na produção e no controle, revestidos de novas abordagens, por outro lado as organizações são compelidas a lidar com a complexidade e a considerar demandas sociais e políticas. Instauram-se também outras formas de comportamentos e manifestações, que extrapolam o cumprimento de normas e padrões estabelecidos. (OLIVEIRA; PAULA, 2010a, p. 39). As relações no contexto organizacional também são marcadas por uma noção de interação, de troca, de compartilhamento, entre gestores e empregados, entre a área de comunicação e entre os empregados. Para que a interação seja compreendida na sua plenitude, faz-se necessária uma análise levando em consideração seus aspectos compartilhados, de construção conjunta de sentido, de circulação e trocas simbólicas. É necessária uma análise além das questões funcionais do processo de comunicação direcionada aos empregados. Como definido por França (2007a, p. 5), “[...] a comunicação não compreende apenas um processo de estímulo-resposta através de gestos, mas decorre da natureza desses gestos, ou da potencialidade de certos organismos para produzir gestos dotados de significação (os gestos simbólicos).”. Compreender esse contexto de interações torna-se importante para o entendimento das relações entre as organizações e seu público interno. Como parte do processo comunicacional no contexto das organizações pode-se compreender a comunicação interna, levando em consideração o papel mediador que a área de comunicação desempenha na relação entre a organização e o empregado, a partir da produção e da disponibilização de informações por meio de veículos e campanhas, e de fóruns de relacionamento e de eventos internos, bem como do suporte à liderança na comunicação face a face. A análise desse papel da área de comunicação interna requer a consideração de características da contemporaneidade como a incerteza, a complexidade, a ambivalência, as 32 experiências fragmentadas (MORIN, 2007, 2011; BAUMAN, 1999b; SENNETT, 2009), e dos impactos provocados nas relações internas das organizações. Essas questões são objeto da abordagem no capítulo 3. 2.2 Área de comunicação interna como função mediadora A área de comunicação interna desempenha um papel de mediação entre as organizações e os seus empregados, a partir do momento em que são delegados à área de comunicação papéis de representar e portar a voz da organização junto aos empregados e de promover oportunidades de relacionamento neste ambiente. São processos de comunicação baseados ou não em um suporte de veículos internos ou direcionados para o contato direto entre liderança e suas equipes. Nem toda a comunicação no contexto organizacional é mediada e produzida pela área de comunicação, os fluxos comunicacionais são amplos e a área de comunicação, na sua função mediadora, apresenta obstáculos e limitações. 2.2.1 Comunicação interna São muitos os conceitos e abordagens de comunicação interna, mas constata-se que é a área de maior crescimento na comunicação organizacional. Para Vercic, Vercic e Sriramesh (2012), isso ocorre especialmente em função da alternância de ciclos econômicos de crescimento e de crise, da globalização e das constantes mudanças estruturais influenciadas ou não pelas fusões e aquisições, a partir da segunda metade do século 20 e acentuada no início do século 21. Os autores destacam que a comunicação interna é parte integrante da comunicação organizacional, sendo os empregados identificados como interlocutores inseridos no contexto interno às organizações. Por sua vez, Kalla (2005) aponta uma correlação entre o resultado empresarial e a qualidade e efetividade no processo de relacionamento com os empregados. A comunicação é parte estruturante das relações interpessoais, bem como das relações das organizações e de seus integrantes. Independentemente do tipo de organização, estrutura, porte, ou setor de atividade, todas as organizações interagem com os empregados (RIEL; FOMBRUN, 2007; BALDISSERA, 2003). A interação entre empregados e a liderança e entre empregados e seus pares independe do desejo da organização, e inerente ao ambiente, mesmo quando ela opta por não estabelecer uma interlocução formal com esses atores. Mesmo na ausência de uma estrutura formal de comunicação, ocorrem trocas simbólicas nesse ambiente. 33 Baldissera (2008a) enfatiza que essa questão ao afirmar que a comunicação é o espaço em que as relações se materializam em constante transformação. “Isso exige reconhecer que a comunicação constitui-se em lugar e fluxo privilegiados para a materialização das interrelações/interações culturais e identitárias, de modo que, dialógica e recursivamente, construam-se/transformem-se mutuamente.” (BALDISSERA, 2008a, p. 36). Essa perspectiva evidencia que a comunicação com os empregados em uma organização não é apenas o que é produzido e veiculado pela área de comunicação, concepção reforçada por Marchiori (2008b, p. 213-2014) ao mostrar que se trata de um processo que: [...] oportuniza a troca de informações via comunicação, contribuindo para a construção do conhecimento, o qual é expresso nas atitudes das pessoas. É fundamentalmente um processo que engloba a comunicação administrativa, fluxos, barreiras, veículos, redes formais e informais. Promove, portanto, a interação social e fomenta a credibilidade, agindo no sentido de manter viva a identidade de uma organização. O público interno de uma organização é formado pelas lideranças, empregados, estagiários, contratados temporários ou permanentes, porém cada grupo possui características, qualificações e rotina laborais diferenciadas. No entanto, não existem em isolamento, estão em relação de comunicação e conectados em redes (MONGE; CONTRACTOR apud MONGE, 2012). As lideranças formais, constituídas pela direção, gerências e chefias de todos os níveis, têm grande influência no processo de comunicação da organização com os empregados e são apontadas por Gioia e Chittipeddi (1991) como arquitetos, assimiladores e facilitadores das estratégicas de mudança durante o desenvolvimento de ações de pertencimento e interpretação das mudanças buscando criar o envolvimento do público interno. As lideranças têm um papel importante nas respostas emocionais e na construção de significados organizacionais. A habilidade de um funcionário em contribuir é fortalecida não só pela comunicação efetiva dos valores e missão, mas por vários outros aspectos. A habilidade em criar é estimulada pela organização que é aberta ao diálogo para encorajar o aprendizado. Em função de a comunicação ocorrer como um fenômeno discursivo, é preciso olhar nas propriedades da linguagem que brotam quando o diálogo surge. (MARCHIORI, 2008d, p. 145). As lideranças das organizações a representam formal ou informalmente nas suas relações com os empregados, bem como com os demais interlocutores da sociedade. Existe uma relação de interdependência entre liderança e empregados (liderados), sendo o líder a materialização de organização da sua equipe. Essas interações, em determinado momento, 34 poderão influenciar os demais interlocutores externos das organizações, ou seja, os empregados influenciam o modo de agir, de construir relações e de efetivar negócios. Destaca-se que os empregados assumem papéis que vão além do ambiente interno organizacional (NASSAR, 2009). A comunicação conduzida pelas lideranças tem um reconhecimento maior, torna-se mais relevante na visão dos empregados do que as ações realizadas pela área de comunicação interna (LARKIN, 1996), em função dos fatores pessoal e relacional próprios desta troca de informações. A relevância do papel das lideranças nas relações organizacionais evidencia que a comunicação interna não é somente aquela produzida pela organização e direcionada aos empregados, abrange também as articulações internas desempenhadas pela liderança e as interações entre os diversos empregados, em uma visão da comunicação falada (BALDISSERA, 2009b; BALDISSERA; BATISTA, 2010). A complexidade na contemporaneidade impacta diretamente a estrutura das organizações e como elas se relacionam com os seus diversos interlocutores. A comunicação, como processo inerente às organizações, também é impactada nesse contexto. Comunicação e organização são interdependentes, em que a primeira possibilita as interações e a estruturação das atividades, dando sentido e criando referências (MARCHIORI, 2008c). As organizações estão passando por mudanças significativas na sociedade contemporânea e relações com os seus interlocutores também sofrem alterações de ordem conceitual, prática e ideológica (OLIVEIRA; PAULA, 2008; KUNSCH, 2012). Porém, na prática das organizações, a comunicação interna ainda se apresenta preponderantemente focada em padronizações na disseminação das informações, porém em alguns casos se limita à busca de adesão e aperfeiçoamento da estratégia por parte da organização (DEETZ, 2010). Já Riel (2012) identifica, no processo de comunicação interna, uma importante oportunidade para promover a construção do alinhamento interno 9 entre os objetivos das organizações e dos seus empregados, além dos demais grupos de interlocutores. Essa realidade demanda questionamentos e vem sendo objeto de reflexões na produção acadêmica, que aponta contradições no discurso organizacional focado em “[...] humanização, qualidade de vida no trabalho e as apologias da valorização das pessoas, da gestão de talentos, de Comunicação interna participativa etc.” (KUNSCH, 2012, p. 272). Enquanto se faz uma apologia ao trabalho conjunto e participativo, afirma a autora, vivencia- 9 Do inglês: internal alignment. 35 se um cenário de conflito e incertezas, situação que impacta diretamente os empregados, seus sentimentos, reações e suas percepções sobre as organizações. O desenvolvimento de um trabalho de comunicação direcionado ao público interno extrapola a produção de ferramentas e veículos, pois, somente esta abordagem não possibilita a compreensão na plenitude dos papéis organizacionais e da interação entre organização e os empregados. É preciso buscar de fato a produção de conexões e sentidos. Em cenários de competitividade e em ambientes onde a informação é considerada um dos principais ativos da empresa, como parte essencial do capital intelectual, é preciso pensar em processos de comunicação que considerem o desafio da pluralidade existente em organizações. (CÉSAR, 2008, p. 125). Kunsch (2003, p. 159) ressalta também que “o público interno é um público multiplicador. Na sua família e no seu convívio profissional e social, o empregado será um porta-voz da organização, de forma positiva ou negativa.”. Compreender essa influência é importante para que as organizações valorizem as suas relações internas, pois são fundamentais para determinar a prosperidade dos negócios. Os empregados compartilham e utilizam símbolos para se comunicar, sendo responsáveis por criar sentido dentro das organizações nessas interfaces (HATCH; SCHULTZ, 2008). A comunicação interna passa por adaptações diante desse cenário de complexidade da sociedade contemporânea na qual as relações de trabalho foram modificadas e sofrem influência da articulação dos atores em rede (OLIVEIRA; PAULA, 2010b). Almeida identifica os desafios da relação com os empregados, destacando a ausência de fronteiras entre o ambiente interno e externo. [...] dessa forma, múltiplos papéis dos membros da organização fazem com que estes sejam ao mesmo tempo empregados (insiders10) e ajam também como consumidores, membros da comunidade, membros de associações nãogovernamentais, de grupos de interesse, etc. (outsiders11). (ALMEIDA, 2008, p. 37). A ausência de limites entre quem está na organização e aqueles que interagem no ambiente externo acarreta em desafios consideráveis além de demandar a compreensão de tensionamentos existentes entre os vários grupos no contexto organizacional. O enfraquecimento dos vínculos entre organizações e empregados, em um cenário de velocidade acelerada e crescente da circulação de informações, é oriundo de demandas imediatistas por resultado de parte das organizações e levam a análises superficiais e uma necessidade de 10 11 Do inglês, indivíduos que estão dentro das organizações. Do inglês, indivíduos que estão fora das organizações. 36 acompanhamento constante dos resultados. A cobrança por resultados individuais e de grupo gera uma maior competitividade e acirra a luta por sobrevivência no ambiente de trabalho. Os vínculos entre organizações e empregados, que já estão mais enfraquecidos, acabam por impactar o processo de relacionamento mediado pela área de comunicação. Empregados estão com suas relações com as organizações fragilizadas em função das constantes mudanças e crescente demandas por resultados financeiros por parte das organizações (SENNETT, 2009). Por sua vez, pouca atenção é data as características subjetivas e comportamentais da comunicação voltada para um foco funcionalista, sem considerar as intenções e expectativas dos interlocutores envolvidos no processo (BALDISSERA, 2009b). Na perspectiva funcionalista, o foco maior está na emissão de informações, não considerando a construção de um relacionamento mútuo. Os processos de comunicação interna no contexto organizacional podem ser readequados, em uma busca por experiências dialógicas e participativas, levandose em consideração as diferenças e a assimetria na relação entre as lideranças, empregados, acionistas e a organização como um todo. Não só as questões internas às organizações influenciam as relações entre empregado e organização, mas também o contexto externo. A realidade geopolítica, econômica e cultural afeta diretamente o comportamento das organizações e dos seus líderes, bem como a realidade dos empregados. Em um contexto de abundância de oferta de empregos, por exemplo, os empregados sentem-se menos vulneráveis as pressões impostas pela organização na sua gestão diária, podendo inclusive buscar oportunidades em outros ambientes. Esse movimento torna-se menos perceptivo quando há existência de restrições de oferta de trabalho e de crise no cenário político econômico. Nas organizações, a comunicação com os empregados é considerada um processo composto por iniciativas de informação e relacionamento com os trabalhadores, suas funções e características são variáveis, de acordo com cada realidade e contexto. Outros papéis são atribuídos à comunicação interna além da mediação. Likely (2008) indica cinco funções deste processo: comunicadora (reportar, facilitar e democratizar); educadora (treinar e orientar); agente de mudança; consultora de comunicação (orientador); e estrategista organizacional (relacionamento). O autor mostra que a função comunicadora abrange o estabelecimento dos fluxos, a escolha dos canais e o detalhamento das mensagens. A função educadora refere-se ao papel do profissional de comunicação interna de capacitar e desenvolver competências das lideranças e representantes da organização para as suas relações internas com empregados em seus vários níveis, promovendo a comunicação face a 37 face e o desdobramento de mensagens estabelecidas pela organização. Na função de agente de mudança, a comunicação interna está focada em contribuir para as mudanças que ocorrem dentro da organização, liderando questões relativas aos fluxos internos de comunicação e informação e de relacionamento entre empregados e lideranças. A função consultora envolve orientações sobre a comunicação interna repassadas com o objetivo de aprimorar o processo. Na última função, de estrategista, o profissional que responde pela comunicação interna contribui para desenvolver uma visão mais ampla do processo e do conjunto da comunicação, focando em contribuir para a estratégia da organização. A abordagem apresentada por Likely (2008) é baseada numa concepção unilateral da comunicação, com o foco na visão da organização para os empregados, sem considerar as interações e os posicionamentos dos seus interlocutores internos. Outra abordagem é proposta por Kalla (2005), contemplando quatro domínios ou instâncias para compreensão da comunicação interna: comunicação empresarial, gerencial, corporativa e organizacional. O domínio da comunicação empresarial enfatiza as competências de comunicação dos empregados e o da comunicação gerencial se volta para a capacidade e a habilidade de comunicação das lideranças. Já o domínio da comunicação corporativa abrange os fluxos de comunicação formal, e o da comunicação organizacional se relaciona a questões filosóficas e teóricas do processo comunicacional no ambiente interno das organizações. Para a autora, os empregados compreendem as estratégias organizacionais quando há acesso múltiplo a todas essas instâncias o que requer fornecimento de fontes variadas de comunicação para um balanceamento das expectativas dos empregados. (KALLA, 2005). Oliveira e Paula (2009) também reforçam a necessidade da gestão dos relacionamentos com os empregados no ambiente organizacional, por meio da estruturação de uma comunicação interna coerente e consistente (OLIVEIRA; PAULA, 2009). A visão proposta por Kalla (2005) também destaca uma visão funcionalista da comunicação, em que uma maior importância é dada aos fluxos e volume de informações disponibilizadas para os empregados. Na análise da autora, pouco destaque é dado às características dos empregados, seus dilemas, conflitos, ansiedades, expectativas no âmbito das relações internas. Em outra direção, é possível avançar na análise da comunicação interna ao se considerar as três dimensões propostas por Baldissera (2009b) para a compreensão das organizações a partir da comunicação, que se apresentam tensionadas e interdependentes, conforme os autores: a organização comunicada, a organização comunicante e a organização falada. Apropriando-se do conceito de Baldissera (2009b), sugere-se que a comunicação 38 interna se estabelece a partir das três dimensões. No processo de produção da comunicação da empresa para os seus empregados (formal e autorizada), executa uma função comunicada, quando os empregados são agentes do processo no ambiente organizacional, produzida/reproduzida, significada e ressignificada, está representando uma dimensão da organização comunicante e quando as falas parecem estar distantes, sem relevância, são apenas comentários sobre as organizações, representa a dimensão falada. Dimensões importantes nas relações entre empregados e as organizações no contexto interno. 2.2.2 Disputa de sentidos em circulação A abordagem contemplada neste capítulo evidencia que os interlocutores estão em constante interação, na qual as trocas simbólicas têm uma centralidade e, como ressalta Baldissera (2008a, p. 41), “[...] a comunicação atualiza-se como lugar organizativo dos sentidos postos em circulação”. Nesse sentido, as relações entre os interlocutores e as organizações apresentam uma circularidade de sentidos, num processo dialógico (OLIVEIRA; PAULA, 2007), cuja compreensão é importante para a estruturação da comunicação em uma organização. Essa concepção reforça as relações no contexto organizacional como fator determinante para o processo comunicacional. As relações pressupõem o reconhecimento de que o sentido é formado “no outro”, e que no momento de troca, tanto os representantes da organização quanto seus interlocutores geram novos significados e sentidos. Quando as trocas simbólicas acontecem, sentidos são postos em circulação (BALDISSERA, 2003). A “[...] comunicação é relação, assim como organização é relação.” (BALDISSERA, 2008a, p. 42). As relações humanas têm em sua centralidade as interações entre os indivíduos tendo como reconhecimento o princípio da alteridade, da compreensão e do entendimento entre os seres sociais, que se relacionam por meio de trocas simbólicas, da interação subjetiva e da intersubjetividade. A linguagem e a cultura são elementos constitutivos das relações entre os indivíduos. Interação social é fruto das relações comunicativas, que não podem ser resumidas apenas ao processo interpretativo (ANTUNES, 2001). É óbvio que a comunicação – processo social básico de produção e partilhamento do sentido através da materialização de formas simbólicas – existiu desde sempre na história dos homens, e não foi inventada pela imprensa, tv ou internet. A modernidade não descobriu a comunicação, apenas a problematizou e complexificou seu desenvolvimento, promovendo o surgimento de múltiplas formas e modulações na sua realidade. (FRANÇA, 2007b, p. 41). 39 A comunicação é um processo social básico em que existe a produção e compartilhamento de sentidos, baseados em questões simbólicas e problematizado perante suas múltiplas formas e complexidade na contemporaneidade (FRANÇA, 2001; FRANÇA 2007b). A comunicação é relacional e está presente nos processos interpessoais, organizacionais e sociais baseadas na produção, na circulação e na troca de significados (MARCHIORI, 2008d). No contexto organizacional, conforme Baldissera (2010), pressupõe a construção e a disputa de sentidos. As experiências culturais e históricas dos indivíduos influenciam e provocam conflitos e interpretações na disputa de sentidos e significação das mensagens postas em circulação (BALDISSERA, 2008a), seja nas relações pessoais, seja nos processos midiatizados. Não existe construção de sentido sem tensionamento, sem ambiguidade e sem relação entre indivíduos ou grupos. Os sentidos postos em circulação no ambiente interno das organizações são essenciais no contexto das relações internas, uma vez que, sem esta troca simbólica, não há interação. Os paradigmas que estão postos na contemporaneidade apresentam desafios para relações entre os atores socais, e mostram particularidades nas relações entre os trabalhadores e as organizações. Os indivíduos estão se deslocando dos seus referenciais normativos, na ausência de modelos identificatórios e simbólicos causando uma mudança no modo de produção antes econômico para um modelo baseado em fonte de significados. “Convivemos com as possibilidades, a construção e desconstrução dos sentidos, os textos e hipertextos, o presente determinado pela antecipação do futuro, as representações e simulacros.” (ALMEIDA, 2008, p. 33). As lideranças são, em determinado momento, as suas organizações, representando-as de forma consciente ou não diante dos empregados, e os empregados, por sua vez também representam as suas organizações nas interações com outros interlocutores. Trocas simbólicas são constantes, entre todos os níveis, em todos os sentidos, sem restrições. Nas interações entre a liderança, representando as organizações, e os empregados, a disputa de sentidos está presente e faz parte das interações diárias nas tarefas laborais, bem como do processo de comunicação direcionada aos empregados, nessas mensagens motivacionais, institucionais ou orientadoras. A compreensão dos processos de construção e de disputa de sentidos torna-se fundamental para que a área de comunicação interna tenha efetivamente um papel de mediação das relações entre a organização e os interlocutores internos e externos. Este papel 40 de mediação se materializa por meio da criação de oportunidades de interações e da produção de conteúdos comunicacionais pela área de comunicação. Já a circulação de mensagens é o espaço de reconhecimento, da troca, das ocorrências interacionais (BRAGA, 2012). 2.2.3 Mediação e midiatização nos processos de comunicação interna A ênfase da interação nos processos comunicacionais na contemporaneidade reforça seu aspecto compartilhado (FRANÇA, 2007b) e está presente no contexto das organizações. Quando a interação se apresenta como processo mediado e também midiatizado no contexto organizacional, a análise torna-se mais complexa, pois às questões midiáticas, soma-se a complexidade própria deste ambiente. De uma forma mais ampla, pode-se afirmar, com base em Braga (2012), que a mediação é um processo no qual existe um elemento intercalado entre sujeitos e/ou ações diversas, desenvolvendo um papel de organização das relações, o que permite concluir que as relações são sempre mediadas, não existindo então uma experiência direta com o “real”, pois o “[...] nosso relacionamento com o ´real´ é sempre intermediado por um ´estar na realidade´ em modo situacionado, por um ponto de vista – que é social, cultural, psicológico.” (BRAGA, 2012, p. 32). Braga (2012) ressalta que o processo de midiatização não se restringe aos meios ou dispositivos tecnológicos de comunicação, nem a uma visão de supremacia dos mesmos sobre os indivíduos ou sociedade. Trata-se sim de uma reflexão da sociedade na busca de uma reordenação a partir das interações midiatizadas em sua maioria ou não. (BRAGA, 2012). O processo de midiatização ultrapassa as oportunidades de consumo das produções em que há a presença de um suporte midiático. Abrange também os impactos gerados pelas relações internas e pelo processo de coparticipação dos sujeitos como consumidores de informações. No âmbito interno das organizações, os empregados, mesmo que em alguns casos, ainda com interações tímidas e restritas. Em função das relações de trabalho e poder existentes entre liderança e empregados, não há liberdade e isenção para que as trocas e relação existam quando os empregados consumem de informações no âmbito interno às organizações. Consumo de informação produzida e mediada pelas áreas de comunicação interna. A circulação da informação e as interações entre os sujeitos contribuem para a produção de sentido. “Interagir em sociedade envolve, crescentemente, interações com o acervo dinâmico da rede informatizada e gera processos referenciais a este acervo.” (BRAGA, 2006b, p. 8). As interações sempre existiram e não são produtos dos meios de comunicação, são transformadas 41 e influenciadas pelos meios. Tornam-se midiatizadas quando são mediadas por meios impressos, eletrônicos ou digitais. Fausto Neto mostra também que “os processos de midiatização ensejam também a emergência de novas discursividades que se manifestam em ´zonas de contatos´, nas quais mensagens possibilitam encontro entre produtores e receptores.”. (FAUSTO NETO, 2012, p. 314). A abrangência da mídia moderna vai além dos universos especializados, aproximandoos de uma realidade social, sendo esta responsável pela constituição do tecido social (BRAGA, 2006b). Essa análise, relativa às mídias na sociedade se aplica ao ambiente interno das organizações, considerando os empregados o público de relacionamento, de consumo midiático, da comunicação oral e de interação nesse ambiente. O processo de midiatização12 indica o desaparecimento entre campos de significação sendo identificado como um processo de reorganização dos campos de construção de sentido. No estágio atual da mediatização, algumas características podem então ser percebidas como derivações de lógicas anteriores de interação, outras, como desenvolvimento de lógicas próprias. Não se demarcam apenas como modos de organizar e transmitir mensagens e de produzir/transportar significados; mas também e sobretudo como modos segundo os quais a sociedade se constrói. São padrões para ‘ver as coisas’, para ‘articular pessoas’ e mais ainda, relacionar subuniversos na sociedade e – por isso mesmo – modos de fazer as coisas através das interações que propiciam. (BRAGA, 2006b, p. 7). A midiatização é um processo que está na sua incompletude (BRAGA, 2006b), pois, apesar de presente e ser dominante em processos múltiplos transmissivos e interacionais, não conseguiu endereçar as questões de plausibilidade e de articulação. É nítida a dificuldade de percepção dos papéis sociais, além de não haver articulações de subsunção claramente definidas e, articulação entre as interações presenciais e midiatizadas. “A incompletude, além de estrutural, é relacionada a riscos de deformação da realidade constituída por seus processos.” (BRAGA, 2006b, p. 9). O autor reforça que a incompletude da midiatização está na identificação dos papéis sociais. Pode ser decorrentes de adaptações de antigos papéis sociais em outro contexto, ou mesmo de mudanças sucessivas em busca de adaptações. A sociedade midiatizada tem nos meios de comunicação a sua centralidade, mas esses deixam de ser apenas um instrumento propagador de informações para ser um articulador social, com capacidades de influenciar e alterar o status atual. No ambiente organizacional, dois desafios são postos, perante a midiatização: a transformação da lógica da visibilidade e a 12 Braga (2006) utiliza o termo mediatização como sinônimo de midiatização. A nomenclatura adotada no presente trabalho é midiatização. 42 alteração dos fluxos comunicacionais em função das características da comunicação em rede. “A midiatização manifesta-se em um cenário de heterogeneidades trazidas, em sua maioria, pelos avanços tecnológicos, nos quais a natureza da organização social não é, de modo algum, linear e homogênea, mas descontínua.” (BARICHELLO; STASIAK; KEGLER, 2007, p.69). A midiatização pode ser considerada como a principal mediação dos processos sociais contemporâneos, já que “[...] na sociedade em midiatização, não são ´os meios´, ou ´as tecnologias´, ou ´as indústrias culturais´ que produzem os processos – mas sim todos os participantes sociais, grupos ad-hoc, sujeitos e instituições que acionam tais processos e conforme os acionam.” (BRAGA, 2012, p. 50). São três os momentos tecno-midiáticos proposto por Braga (2006b): a criação de algum dispositivo tecnológico a partir de uma demanda prévia; a utilização de algum aparato tecnológico em outra área, em um deslocamento da sua função inicial; e um terceiro momento em que o sistema se torna autopoiético, ou seja, as dinâmicas anteriores não são mais necessárias para o surgimento de proposições tecno-midiáticas. Transportados para o universo interno das organizações, é possível compreender esses três momentos tecno-midiático, durante a identificação de dispositivos tecnológicos para ampliar a interação entre as organizações e seus públicos internos (primeiro momento); durante a utilização da intranet que a princípio foi elaborada para a interface entre organização e empregados passam a desempenhar um importante papel na inter-relação entre os próprios empregados (segundo momento); e quando finalmente o surgimento de interação é proposto pelos próprios empregados na busca de uma troca, sem o incentivo da liderança da organização ou interferência da área de comunicação (terceiro momento). Os momentos tecno-midiáticos (BRAGA, 2006b) aplicados ao contexto interno às organizações comprova a ausência de fronteira entre as questões organizacionais e o universo externo. As práticas de consumo midiático são replicadas e ressignificadas no universo organizacional, quase que simultaneamente às realidades externas. A comunicação no contexto organizacional tem o desafio de se adaptar à realidade da comunicação em rede e aos novos aparatos tecnológicos disponíveis e que estão por vir. Com essa mudança tecnológica e somada ao deslocamento da centralidade das organizações, na contemporaneidade, suas relações demandam reavaliações. Fragoso (2012), afirma que o autor Martín-Barbero, já no final da década de 1990, o autor propunha uma mudança na abordagem dos estudos da comunicação. 43 [...] A partir desse deslocamento, desenvolveu a noção de mediação, que diz respeito justamente ao contexto em que os meios e as mensagens são vividos e experimentados pelas pessoas. Essa ideia converge produtivamente com a percepção da importância do espaço vivido [...] para a contextualização das interações sociais – mediadas pela internet ou não. (FRAGOSO, 2012, p. 76). Os conceitos de midiatização e de mediação são relevantes para a compreensão da comunicação no contexto das organizações. Ferrara (2003, p. 63) destaca que as relações comunicativas têm seu foco de estudo nos “[...] processos sociais que ocorrem por meio de signos, códigos, suportes, sistemas que, estruturados, são significativos”. Os estudos da área também indicam uma relação comunicativa em que as relações sociais acontecem por meio de “mediações”, tema também discutido por Martín-Barbero. Sabe-se que a temática das relações atravessa as ciências exatas, biológicas e humanas, da filosofia à sociologia, à antropologia, à geografia, à história etc. Mas o que ou como se transformaria em relação comunicativa? Essa transformação se opera exatamente no caráter mediativo que, superando a rigidez do código, tecnológico ou não, investe sobre as relações que se estabelecem entre um emissor que, interagindo com o receptor, utiliza determinadas características de um veículo para emitir e/ou produzir informações. (FERRARA, 2003, p. 63). Nas organizações as interações presenciais (empregado e líder, empregado e empregado) e midiatizadas (veículos internos, campanhas, vídeos, sites) são frequentes, em alguns casos dissonantes e divergentes, por falta de alinhamento entre a comunicação interpessoal (entre líderes e empregados) e o que é produzido pela área de comunicação, em uma tentativa de mediação das relações internas. O processo de comunicação realizado diretamente pela liderança tem maior aceitação e compreensão por parte dos empregados do que os veículos internos (LARKIN, 1996), porém demanda maior investimento e preparação, já que depende não de um aparato comunicacional e/ou tecnológico, mas sim humano, passível e possível de erros e fragilidade. É um processo relacional de impossível edição précirculação, uma vez que acontece de forma direta, muitas vezes verbal e perpassado pelas subjetividades e emoções dos envolvidos. São empregados e empregados nas suas relações laterais, liderança e empregados nas suas relações assimétricas em constante construção e disputa de sentidos. As trocas internas também estão presentes em um contexto midiatizado, pois, na maioria dos casos, é por meio dos produtos midiatizados, mediados pela comunicação no contexto organizacional, que as interações organização e empregado se concretizam; em que também acontecem as interações e construção conjunta dos processos comunicacionais, dos sentidos postos em circulação. No ambiente interno das organizações, as trocas são intensas e 44 complexas. Constantemente a liderança interage com os empregados para abordar questões de ordem laboral e também mensagens institucionais a respeito da organização. As trocas simbólicas presentes nessa interação são complexas, pois estão inseridas em um contexto em que não há simetria nas relações. As interações entre interlocutores e as organizações são afetadas pelas transformações no ambiente da midiatização, pelas diversas mídias e pelo surgimento de novas plataformas de circulação e produção, advertindo que “[...] na perspectiva de um foco teórico funcional, a atividade comunicacional aí experimentada produz-se em torno de interações assimétricas e incongruentes.” (FAUSTO NETO, 2008, p. 46). As interações comunicacionais midiatizadas na atualidade são, assim, fundamentais para a compreensão da comunicação no contexto organizacional. Quando as organizações passam por processo de crescimento, em especial em um processo de internacionalização, as interações e processos midiatizados podem ser mais impactados, pois diferenças de cultura dos países e da organização determinam diretamente a percepção por parte dos empregados, além da área de comunicação se apresenta como mediadora desses processos, em alguns casos. A complexidade de conteúdos é fruto de questões que podem interferir nas relações internas às organizações, como diferentes crenças religiosas, visões sobre o trabalho e experiências vivenciadas nos ambientes organizacionais, entre outras. Mudanças no fluxo, estrutura, conteúdo e clima da comunicação também impactam a percepção dos empregados (RIEL; BERENS; DIJKSTRA, 2005; RIEL, 2012). Questões socioculturais e comunicacionais diversas são influenciadoras e determinantes para caracterizar o funcionamento das organizações. As trocas simbólicas e centralidade dos relacionamentos na comunicação são afetadas pelo modelo de gestão das organizações e pelo contexto em que essas estão inseridas. As mídias internas utilizadas pelas organizações desempenham até certo ponto o papel das mídias tradicionais, levando informações em forma de matérias jornalísticas como o foco nos empregados, porém sem as algumas das características estruturais do jornalismo, uma vez que existe uma relação de poder e intencionalidade na produção desses veículos internos. O processo de produção destas informações é caracterizado pela presença de um dispositivomediador, apontado por Fausto Neto (2012). Esse dispositivo-mediador é responsável por pensar, produzir, direcionar e concretizar os fatos, com um olhar na produção e na sua circulação, buscando, de forma intencional, transformar os atos ocorridos no universo das organizações, em matérias a serem veiculadas aos empregados, como se fossem 45 acontecimentos “normais”, sem nenhum tipo de preparo ou orientação. É transportar a linguagem jornalística, e o seu papel como mediador dos acontecimentos com a sociedade para a comunicação interna, como mediadora com os empregados. Trata-se de uma captura de atos, que produzem outros sentidos e que estão revestidos de uma função simbólica previamente planejada (FAUSTO NETO, 2013). Na maioria dos casos, os fatos reportados no processo de comunicação com os empregados são intencionalmente estruturados e formatados para veiculação interna, criando e recriando sentidos. Sentidos são colocados em circulação, o processo de recepção, compreensão e reprodução pode ser influenciado, mas dificilmente garantido ou gerenciado. É com essa incerteza que são conduzidas as reflexões deste trabalho sobre a comunicação interna no contexto organizacional. 2.2.4 Relações no ambiente digital Os desafios enfrentados pelas organizações no ambiente digital são proporcionais à amplitude e ao alcance das redes sociais. As organizações estão passando por constantes modificações e as evoluções tecnológicas no âmbito do universo virtual e especialmente das redes socais têm modificado a forma de relacionamento com os interlocutores na sociedade. O comportamento dos interlocutores, atuando nas redes, tem se modificado. As redes sociais modificaram as tradicionais práticas de comunicação no contexto organizacional “[...] pois sua lógica está ancorada nas relações interacionais e modifica a articulação entre organizações e sociedade, redimensionando relações de poder, níveis e estratégias de visibilidade, circulação de informações [...].” (OLIVEIRA; MARCHIORI, 2012, p. 15). Todos, independentemente de função, formação e objetivos, são potenciais produtores ativos de comunicação, encontrando espaço nas redes sociais digitais para manifestarem suas opiniões, discordar, se articular e até mesmo se contraporem aos posicionamentos das organizações. Nesse cenário, as organizações enfrentam o desafio de modificar suas estratégias de comunicação, já que as tradicionalmente utilizadas passam a ser consideradas ineficazes. “Na rede de relacionamentos organizacionais, mais importante do que identificar públicos é (fundamental) identificar as mensagens, sejam boas ou ruins, criadoras ou destruidoras de valor, que envolvem as organizações.” (NASSAR, 2008b, p. 198). A ampla utilização das redes sociais, dando voz a outros interlocutores além das organizações, somada à facilidade de acesso aos dados via internet, enfraqueceu o papel quase hegemônico dos veículos empresariais, reforçando a consequente ausência de centralidade das organizações 46 (NASSAR, 2008b). A perda de espaço no âmbito do discurso é ampliada pelo aumento do uso das redes sociais, em que os diversos interlocutores têm espaço para interagir, contestar, questionar, provocar e principalmente construir de forma ágil, atemporal, com baixo custo e com possibilidade de ampla cobertura dos seus discursos e seus posicionamentos. Di Felice (2008) indica a existência de uma quarta revolução comunicativa, a revolução das tecnologias digitais, além das três outras apontadas por Baldini, o surgimento da escrita no século V a.C., a invenção da impressão por Johannes Gutenberg no século 15 e a cultura de massa e difusão de informação pelos meios eletrônicos entre os séculos 19 e 20. Na revolução das tecnologias digitais, [...] além da expansão do elemento comunicativo, que passará a permitir o alcance das informações a um público ilimitado e a transmissão em tempo real de uma quantidade infinita de mensagens, é o próprio processo e o próprio significado do ato de comunicar a serem radicalmente transformados. (DI FELICE, 2008, p. 2223). A transformação é baseada nas características tecnológicas, de facilidade de acesso e agilidade de uma plataforma disponível para um maior número de pessoas. O lugar de emissor é ampliado para um público ilimitado e sem nenhum tipo de filtro ou processo prévio de verificação. Todos podem se expressar pelos meios digitais e tudo pode ser publicado sem limite. Essas são características que estão impactando a gestão da comunicação no contexto organizacional. Historicamente o acesso livre à informação pela sociedade é vista de forma crítica (DI FELICE, 2008), como se esses não devessem ser autorizados a ter acesso à informação o que poderia levar o questionamento por parte da elite dominante. Esta noção de limitação de acesso é desconstruída na revolução das tecnologias digitais. A interação nas redes está aberta para todos aqueles que têm acesso e interesse de constituir um processo de troca simbólica a partir de aparatos tecnológicos. As trocas são constantes e em velocidade porém “[...] há nas redes digitais um devir interativo transorgânico do sujeito e, ao mesmo tempo, um processo de comunicação que se define na interação fluida e criativa entre informações, circuitos e inteligências.” (DI FELICE, 2008, p. 46). Baldissera (2013) considera que as organizações são responsáveis e também condutores do desenvolvimento tecnológico além de protagonistas na sua apropriação e emprego. O autor também pontua que “os sentidos postos em circulação pela comunicação das organizações tendem a desorganizar as redes simbólicas (culturas) dos grupos que constituem a sociedade de modo que, por terem sido perturbadas, necessitem reorganizar-se.” 47 (BALDISSERA, 2012, p. 2). As disputas e o potencial de visibilidade do que está sendo exposto e dos seus autores são ampliados a partir das tecnologias digitais da comunicação e informação, aqui denominadas de TDCIs. Na mesma proporação que as TDCIs ampliam as possibilidades de trocas simbólicas, expressão de opiniões e críticas, além de funcionarem como fonte inesgotável de informações, elas também aumentam as possibilidades de vigilância, por parte das organizações e também dos indivíduos, vigilância mútua (BALDISSERA, 2012). As TDCIs ampliam também as possibilidades de consultas e vigilância por parte da sociedade, que passa a ter acesso a um banco de dados e a informações ilimitados sobre as organizações, podendo inclusive fazer pesquisas, cruzamento de dados e confrontamento de informações. Os indivíduos, por meio das suas interações virtuais, constituem o universo digital uma vez que [...] a encenação midiática dos sujeitos comuns nas redes sociais, por sua vez, é resultado da ocupação das interfaces intuitivas que oferecem espaços e comados simplificados para que se tornem interlocutores e alimentem as conversações online. A colocação de cada um nessas fachadas corresponde a uma expressão de si que, em uma perspectiva pragmática, participa da construção dos sujeitos que se enunciam [...]. (BRETAS, 2012, p. 58). A autora (2012, p. 63) destaca que a utilização das redes sociais tem grande potencial na comunicação organizacional, podendo inclusive representar “[...] ambientes de expressão que oferecem condições ao diálogo, permitindo a construção de estruturas horizontalizadas favoráveis à colaboração.”. Monge (2012, p. 44) mostra que a comunicação organizacional também precisa evoluir para acompanhar os avanços nas relações virtuais “[...] para compreender os processos de comunicação dentro das organizações individuais, dentro das populações de organizações e entre a coleção de populações que abrangem as comunidades organizacionais humanas.” Oliveira e Marchiori (2012, p. 17) também destacam as mudanças ocorridas com o surgimento das TDCIs ampliando a interação e ressaltando as negociações e articulações entre os grupos envolvidos, inclusive com modificações de papéis. “O polo emissor não é mais o condutor e o delineador de processos, podendo tanto criar sentidos como contrassentidos.”. Di Felice (2012) também reconhece a existência de múltiplas vozes nas mídias sociais e reforça que essas inovações não são apenas questões de tecnologias, mas sim uma ampla modificação no âmbito das relações dos indivíduos em sociedade e do contexto organizacional. Existe, segundo o autor, uma “impossibilidade técnica do monopólio e do direito exclusivo da produção das informações, que limitam o papel dos mediadores.” (DI FELICE, 2012, p. 147). Em uma visão mais crítica, Baldissera (2013) alerta para a possível 48 utilização dos ambientes digitais e as TDCIs apenas como um ambiente de controle e vigilância. O autor, como Bretas (2012), Di Felice (2012) e Oliveira e Marchiori (2013), reconhece o impacto causado pelos TDCIs no universo organizacional e nos seus processos interacionais, em especial. Baldissera (2013) reforça que, mesmo os indivíduos sendo livres para expressar suas opiniões, quando estão inseridos em um ambiente corporativo, como é o caso dos empregados, existe algum nível de desconfiança e interesses conflituosos. As limitações apontadas por Di Felice (2012) da impossibilidade do controle e centralidade dos mediadores não impedem uma ação de controle por parte das organizações nas suas relações internas. As TDCIs podem ser utilizadas como mais um ambiente de controle do que de livre troca simbólica, de interação e de diálogo. [...] organizações e sujeitos (neste caso os empregados) são forças em relação que não podem ser subestimadas. Por um lado, considerando-se que os sujeitos em processo de comunicação disputam sentidos, evidencia-se que apesar de as organizações desejarem impor uma dada linha interpretativa (como se disse), não significa que isso realmente ocorra. Por outro, é provável que as organizações, focadas em seus objetivos, procurem conhecer os códigos culturais de seus públicos (em algum nível) para construir e oferecer que, de alguma forma, possam neutralizar as resistências e gerar simpatia. (BALDISSERA, 2012, p. 8). Essa apropriação das TDCIs para o universo interno das organizações pode ser avaliada como uma mudança no âmbito pessoal e profissional, no nível do indivíduo, do grupo e da sociedade, uma vez que “se a tais concepções acrescentarmos a transformação da mídia pessoal em mídia móvel, [...] o indivíduo, a sua psique e sua relação com o mundo, passa a ser construídas colaborativamente junto às tecnologias informativas digitais.” (DI FELICE, 2008, p. 47). Agora é necessário acompanhar o comportamento das organizações e a utilização das TDCIs nas suas estratégias de relacionamento e comunicação, em especial com os empregados, que não possuem um distanciamento físico, psicológico e financeiro das organizações em que estão inseridos. “[...] Trata-se de gerar discursivamente algo como um espelhamento dos valores dos públicos para que, ao reconhecerem seus (os empregados) próprios valores na fala organizacional, tendam a se identificar com ela.” (BALDISSERA, 2012, p. 9). A dependência e a relação de poder ainda são fatores norteadores e determinantes da relação empresa-empregado. Ao sujeito, é dada uma liberdade de manifestação nas redes sociais, mas, quando esse sujeito mantém uma relação de trabalho com uma organização, suas manifestações, nas redes sociais externas e internas ao ambiente de trabalho, passam a ser passíveis de monitoramento, reorientação e repressão em função de interesses conflitantes com as organizações em que mantém vínculo de trabalho. A sua liberdade de expressão acaba 49 no momento que a sua relação de trabalho é identificada, o que foi denominado por Baldissera (2013) como “liberdade condicionada e vigiada”. Atualmente a utilização das TDCIs é intensa e serve de fonte inesgotável de informação para os indivíduos formarem opinião sobre as organizações. Como fonte de informação, verdadeiras ou não, são utilizadas como pesquisa pelos interlocutores das organizações. As informações são produzidas, compartilhadas e replicadas em uma velocidade acelerada, e tudo isso servirá de fonte de informação para a formação da percepção dos indivíduos com relação a serviços e produtos oferecidos pelas organizações. Os empregados também alimentam e são alimentados pelas informações disponíveis nas TDCIs. As organizações tentam gerenciar essas trocas, as informações e interações também no ambiente virtual. 2.3 Os impactos dos empregados na reputação organizacional A identidade individual é um conceito importante para a compreensão das relações dos empregados no ambiente organizacional. A preocupação com o conceito de identidade é antiga e fez parte das reflexões dos grandes pensadores da antiguidade. Segundo Gioia (1998), a identidade pode ser definida como a essência do “ser” e também aquilo que o torna diferente e único. A existência de uma identidade não significa que exista a unicidade no/do indivíduo, havendo inclusive várias facetas dessa identidade, muitas vezes até contraditórias e ambíguas (GIOIA, 1998). “[...] O conceito de identidade, que é tão apropriado para se entender o que significa o ser humano, também é central para a conceituação de uma das mais complexas e fascinantes criações humanas, a organização do trabalho.” (GIOIA, 1998, p. 1). As organizações são formadas por pessoas, elas compõem os seus diversos espaços, são trabalhadores, recebem em troca benefícios financeiros e também psicológicos. Estabelecem relacionamentos com e nas organizações. E, por consequência, acabam transferindo suas características pessoais para as organizações que formam. Para compreender as organizações, é necessária a compreensão dos indivíduos. A identidade dos indivíduos está na base da compreensão do conceito de identidade das organizações. Da mesma forma que os indivíduos apresentam as suas divergências e possuem várias facetas, o mesmo pode acontecer com as organizações que são consideradas entidades complexas e que estão inseridas em um contexto determinado e determinante. “Como indivíduos, as organizações podem ser vistas como agrupando multiplicidade de identidades, cada uma das quais é apropriada para um dado contexto ou audiência.” (GIOIA, 1998, p. 4). O autor aborda três 50 óticas para a compreensão da identidade organizacional: a funcionalista, interpretativa e pósmodernista. Na ótica funcionalista, os constructos da identidade são relativamente estáveis e a posição dos pesquisadores é distante do objeto evitando qualquer tipo de interferência. Na ótica interpretativa, a tônica está na subjetividade, a identidade é baseada nas experiências, sendo o papel do pesquisador o de interpretar a representação dos entrevistados. Já, na ótica pós-modernista, há um questionamento da existência de uma identidade racional e coerente, em que os pesquisadores indicam que a identidade organizacional é mera manifestação linguística e quando apresentada, é uma ficção construída pelas partes dominantes (GIOIA, 1998). A identidade organizacional sofre influência dos empregados e dos demais interlocutores. Almeida (2008, p. 34-35) define identidade organizacional como sendo “[...] o que é considerado pela maioria dos empregados como a essência da organização; o que faz a organização se distinguir de outras e o que é percebido como estável ao longo do tempo, ou seja, o que faz a ligação entre o presente e o passado e, provavelmente, o futuro.”. A identidade organização possui três características como base, a centralidade, a distintividade e a permanência. “A identidade organizacional é o que é considerado pela maioria dos empregados como a essência da organização; o que faz a organização se distinguir de outras e o que é percebido como estável ao longo do tempo, ou seja, o que faz a ligação entre o presente e o passado e, provavelmente, o futuro.” (ALBERT; WHETTEN apud ALMEIDA, 2008, p. 34-35). As bases da identidade organizacional são apresentadas a partir do momento que é destacado pelos empregados o que é mais importante, a essência da organização, ou seja, a sua “centralidade”, a distintividade é delineada quando se identifica as diferenças, quando comparada com outras organizações e a permanência é o que é duradouro, aquilo que esteve presente no passado, faz parte do presente e tem grandes possibilidades de ser uma característica marcante e definidora da identidade organizacional no futuro. O conhecimento do processo de construção da identidade organizacional pode ser um diferencial e criar uma vantagem competitiva para as organizações. A identidade organizacional influencia as relações internas, o comportamento dos empregados e o modo pelo qual eles se relacionam com a organização. Isso porque existe uma correlação entre o gerenciamento da identidade, a imagem e a reputação organizacional. “A identidade exerce forte papel na diferenciação e posicionamento da organização através do uso adequado de seu processo de comunicação [...].” (ALMEIDA, 2008, p. 36). 51 Cultura e identidade têm uma correlação, porém a cultura proporciona as bases para que a identidade seja definida, construída e consolidada, estando em constante inter-relação. Só é possível aprofundar no debate sobre os impactos da percepção dos empregados na reputação a partir de uma análise da cultura e da identidade organizacionais pois reputação está diretamente ligada a aspectos da cultura e da identidade. Partindo da identidade do indivíduo, ampliando para a identidade organizacional, destacando as interfaces com cultura e tendo como base o alinhamento dos empregados aos objetivos da organização, ressalta-se a importância dos trabalhadores e sua influência na construção e percepção da imagem e reputação organizacionais. Almeida (2008) reúne, no quadro 2, as inter-relações entre cultura, identidade, imagem e reputação a partir da articulação de três abordagens sobre cultura organizacional realizadas por Hatch e Schultz (2000) e Rindova e Fombrum (1998), em que os conceitos são interrelacionados. Na primeira abordagem, cultura organizacional fornece o universo simbólico para a construção de sentidos, sendo a identidade a percepção dos atributos singulares da organização pela maioria dos empregados. É a percepção do público interno daquilo que considera central, distintivo e permanente. A imagem é formada pelos interlocutores externos e a reputação refere-se à forma como os interlocutores demonstram suas expectativas em relação à organização. Nessa primeira abordagem, a identidade formada pelos empregados sofre influência da imagem e reputação. Na segunda abordagem, a cultura é considerada um padrão de crenças e pressupostos semi-compartilhados entre os integrantes e os “não integrantes” da organização, sendo a identidade uma auto-apresentação da própria organização e a imagem o que os outros percebem e interpretam a respeito. Nesse sentido, a reputação seria mais positiva para as organizações que conseguem expor sua identidade à interpretação externa. Porém não é possível separar o que a empresa é de como ela é percebida. Na terceira abordagem, a cultura é produto das interações cotidianas, construídas e reconstruídas no contexto organizacional, influenciando a identidade no âmbito simbólico e dos artefatos. As imagens são múltiplas e o importante está na percepção e não nas realidades diversas existentes. A reputação, nesta última abordagem, é criada a partir das múltiplas experiências acumuladas pelos públicos nas interações com a organização, porém a percepção (grau de estima, orgulho, respeito e confiança) dos interlocutores determina a reputação. No capítulo 3, o tema cultura será aprofundado. 52 Cultura Quadro 2 – Articulação entre os conceitos Identidade Imagem Reputação Fornece universo simbólico sobre o qual ocorre a construção de sentidos Formada pela percepção da maioria dos empregados do que é central, distintivo e permanente Formada pelos públicos externos Cultura como padrão de crenças e pressupostos mais ou menos compartilhados entre membros e não membros da organização Cultura como produto da construção de sentido das atividades do dia a dia Identidade como autoapresentação de si mesma Imagem como percepção e intepretação de outros Identidade corporativa envolve uso de símbolos em sua comunicação, artefatos como logotipo, nome, slogan, estilo, histórias Imagens múltiplas. A representação de uma realidade ou de um simulacro da organização. Não importa quão “real” seja, o valor está na percepção Reputação empresarial é um processo social de construção por meio do qual observadores externalizam suas expectativas sobre a organização Organizações que conseguem deixar sua identidade mais clara geralmente têm melhor reputação Reputação se cria ao longo do tempo, como resultado de repetidas interações e experiências acumuladas Entendendo as inter-relações Identidade formada pelo público interno, mas sofre interferência das imagens e da reputação “Quem somos” não pode ser separado da percepção de “como os outros nos veem” e de nossa percepção sobre o “olhar de outros” Múltiplas imagens referem-se a uma mesma organização. As imagens cumulativas dos diversos stakeholders, ao longo do tempo, determinam a reputação Fonte: ALMEIDA (2008, p. 42) Como os empregados são importantes influenciadores da identidade e cultura organizacionais, pode-se também sugerir que eles têm influência na construção da imagem e da reputação da organização da qual fazem parte. Para que os empregados participem das 53 questões relativas às organizações, é necessário que haja um alinhamento de objetivos individuais e organizacionais. As vantagens competitivas só podem ser estabelecidas quando há compreensão e participação por parte dos empregados (RIEL, 2012) sendo necessário que haja uma sinergia entre os interesses das organizações e dos interesses individuais dos empregados. Alinhamento interno é definido como o grau pelo qual os empregados compreendem, apoiam e são capazes de executar as iniciativas estratégicas da organização (RIEL; BERENS; DIJKSTRA, 2005; RIEL, 2012). Segundo os autores, compreender as estratégias da organização é o primeiro passo para que os empregados possam desempenhar suas atividades de forma a apoiarem e, especialmente, selecionarem as ações que podem impactar positivamente as estratégias organizacionais. As organizações dependem dos seus empregados para atingir os seus objetivos estratégicos (RIEL; BERENS; DIJKSTRA, 2005; RIEL, 2012). Sem o envolvimento e o comprometimento dos empregados, não há como implementar nenhum avanço no ambiente organizacional. Os autores destacam que a organização é totalmente dependente dos empregados em todos os níveis que a compõem. O comportamento dos empregados será determinante para o sucesso das organizações. Essa correlação é parte importante do ambiente interno organizacional, porém a satisfação no ambiente de trabalho pelo trabalhador é um fator importante, mas não determinante no desempenho organizacional. O ponto central, conforme ressaltam Riel, Berens e Dijkstra (2005) e Riel (2012), é se os empregados estão agindo de acordo e alinhados às iniciativas estratégicas da organização. Os autores defendem que, por meio do alinhamento dos empregados (e também dos interlocutores externos), os objetivos organizacionais podem ser mais facilmente atingidos, trazendo benefícios mútuos para os envolvidos. A disputa de sentidos está presente nessas interações, entre o grupo de empregados e a liderança das organizações representando os acionistas. São momentos de troca, de interação e de busca de uma sintonia para a execução de atividades ligadas aos objetivos estratégicos organizacionais. A comunicação interna se apresenta como portadora e tradutora dos objetivos da liderança de forma a permitir que os empregados tenham acesso e conheçam os objetivos organizacionais. A partir da revisão de pesquisas realizadas por Downs e Hazen (1977), Greenbaum, Clampitt e Willihnganz (1988) Riel; Berens; Dijkstra (2005) definiram que três dimensões comuns ao alinhamento estratégico do público interno com os objetivos organizacionais: o fluxo e a estrutura; o clima e o conteúdo da comunicação (RIEL; BERENS; DIJKSTRA, 2005). Conforme os autores, o fluxo refere-se ao volume e ao sentido de informação 54 veiculado nos canais internos e a estrutura, à forma como esses canais são utilizados. Compõem esta dimensão do fluxo e da estrutura a comunicação gerencial, as mídias internas e a comunicação entre os departamentos. A dimensão do clima da comunicação refere-se aos objetivos organizacionais intencionais e percebidos que poderão afetar o processo comunicacional e a dimensão conteúdo abrange todas as mensagens pessoais e corporativas (RIEL; BERENS; DIJKSTRA, 2005). A figura 1 mostra essas dimensões e suas correlações. Figura 1 – Modelo de pesquisa Fluxo Comunicação gerencial Mídia interna Atitudes direcionadas às iniciativas estratégicas Conteúdo Comunicação entre áreas Comunicação pessoal Mensagens corporativas Clima da comunicação Comportamento estrategicamente alinhado Fonte: RIEL; BERENS; DIJKSTRA, 2005, p. 28, tradução nossa. Um estudo sobre a influência da comunicação interna no processo de alinhamento estratégico, realizado por Riel, Berens e Dijkstra (2005), em duas empresas multinacionais, sendo uma de serviços e a outra de manufatura, sobre a influência da comunicação interna no processo de alinhamento estratégico, concluiu-se que estratégias de comunicação das organizações com os empregados de alta qualidade são determinantes para o alinhamento interno. Quando os empregados percebem o fluxo e a estrutura, o conteúdo e o clima de comunicação adequados, é possível que se mantenham informados sobre as iniciativas estratégicas da organização. Os estudos, apesar de iniciais, também comprovam que a comunicação da liderança, a quantidade de informações veiculadas sobre as questões estratégicas e o clima em que estas informações são compartilhadas têm um alto impacto no comportamento dos empregados diante das iniciativas estratégicas da organização. É importante também destacar que os estudos demonstram que a comunicação via liderança tem um impacto maior que a comunicação produzida e veiculadas nas mídias internas (RIEL; BERENS; DIJKSTRA, 2005), mesma conclusão apontada por Larkin (1996). 55 Na visão de Riel (2012), a comunicação contribui para o alinhamento interno dos empregados aos objetivos estratégicos da organização. A definição de alinhamento, segundo o autor, não está relacionada a uma noção de ordenação e de colocação de todos os indivíduos em “fila única e/ou em uma direção singela”, mas sim a concepção de um benefício mútuo baseado em relações entre os empregados e as organizações, buscando que haja uma sinergia de objetivos comuns, para que ambos possam obter benefícios mútuos. Mesmo quando existe uma relação assimétrica entre empregados e a liderança que representa a organização. As relações no contexto organizacional tendem a coexistir por necessidade mútua, mas apresentam na sua essência relações assimétricas e em muitos casos posições divergentes. A relação entre a liderança e os acionistas também pode ser classificada como assimétrica. São posições diferentes, de natureza conflituosa na sua essência, mas que podem apresentar oportunidades de coexistência. “Mesmo em estruturas empresariais despidas de formalismo rígido, o subordinado mantém ante seus superiores um temor reverencial ambivalente, o medo funda-se na agressividade e na sedução, excluindo a neutralidade afetiva.” (TRAGTENBERG, 1980, p. 20, destaque no original). A existência de uma assimetria nas relações não é impedimento, embora possa ser um dificultador, para que haja uma troca de experiências e busca de objetivos comuns. Uma postura dialógica por parte de quem tem maior poder na relação pode contribuir para a melhoria das interações entre esses grupos. É desejável que os empregados conheçam e compreendam os objetivos das organizações, alinhando-se a esses, ou seja, conhecer, compreender e agir de forma a contribuir para os objetivos estratégicos das organizações, sempre em uma relação mútua de ganhos (RIEL, 2012). Baldissera (2013, p. 6) identifica a existência de objetivos comuns na constituição de uma organização, “a ideia de organização pressupõe associação de sujeitos que, coordenadamente, combinam esforços (habilidades e competências) para a consecução dos objetivos da entidade organizacional, de modo geral objetivos comuns”, mas muitas vezes os objetivos são divergentes, dificilmente cabendo à organização a flexibilização dos seus objetivos em prol de outros objetivos de um determinado grupo de interlocutores. Esse movimento é comumente observado nos trabalhadores que percebem “[...] a organização como possibilidade de atingirem seus próprios objetivos e, nessa direção, tendem a agir para que os objetivos organizacionais sejam atingidos, pois isso significa também ampliar as possibilidade de atingir os próprios objetivos.” (BALDISSERA, 2013, p. 6). A esse movimento, Riel (2012) denominou de alinhamento estratégico interno incluindo a existência 56 de benefícios mútuos nas relações, por sua vez, Baldissera (2012) questiona se é possível uma relação simétrica entre empresa e liderança, diante do status de assimetria nas relações. O alinhamento interno dos empregados contribui diretamente para o fortalecimento da reputação organizacional. Empregados que conhecem, compreendem, contribuem e agem de acordo com objetivos comuns, claramente identificados, possibilitam que suas percepções com relação ao seu local de trabalho sejam mais positivas. Segundo Riel e Fombrun (2007), as percepções dos interlocutores a respeito das organizações são formadas a partir das suas relações em todos os níveis, no momento do consumo de um produto ou serviço, impactando a marca e a reputação. Para os autores, reputação é a capacidade de as organizações satisfazerem as expectativas dos seus interlocutores (RIEL; FOMBRUN, 2004). Já reputação corporativa é “uma representação coletiva das ações e resultados da organização, por meio da qual descreve-se a habilidade da organização em gerar valor para múltiplos stakeholders ao longo dos anos.” (FROMBRUM; RINDOVA, 1998, p. 204). Baldissera (2003, 2008b) apresenta o termo imagem-conceito fazendo contraponto a visão Fombrum e Rindova (1998), Riel e Fombrun (2007), Almeida (2008) e Riel (2012) sobre a percepção dos indivíduos ante as organizações. Baldissera (2003, p. 2) define que “[...] imagem-conceito implica em estratégias de seleção, de disputa e de construção de sentidos; implica em capacidade semiótica, isto é, aquela capacidade que o ser humano tem de ler o mundo.”. Ou seja, imagem-conceito teria a sua formação no que “parece ser”, de origem simbólica e fundada nos processos de significação. A reputação organizacional influencia e é influenciada pelo clima interno e pelo ambiente de trabalho. Uma organização com reputação forte tem menor dificuldade de atrair e reter seus empregados, sendo também um diferencial importante no seu relacionamento comercial e institucional com os demais interlocutores (FOMBRUN; RIEL, 2004). Atração e retenção de empregados é uma questão de interesse das organizações, pois impacta diretamente nos custos de mão de obra (formação e desenvolvimento) e também é determinante ao processo produtivo (qualidade de serviços prestados e produtos comercializados). Os empregados acabam tendo mais orgulho, admiração, confiança e respeito pelas organizações que já têm uma reputação forte. Empresas que passam por crises na sua reputação muitas vezes apresentam problemas de baixa autoestima dos seus empregados, dificultando a retenção e atração de trabalhadores. Compreende-se reputação, para fins neste estudo, como o grau de estima, admiração, respeito e confiança que os diversos 57 interlocutores expressam por uma determinada organização também aplicável para os seus empregados. A segunda razão que explica a importância da comunicação com o público interno é seu papel na disseminação de informação sobre a organização e de formador de opinião com os demais interlocutores. O “[...] empregado da empresa é empregado, é formador de opinião, é consumidor e assim por diante, nos seus múltiplos papéis.” (NASSAR, 2009, p. 140). Ao atuarem como formadores de opinião sobre a organização em que trabalham, os empregados podem contribuir positivamente para a reputação organizacional. O envolvimento dos empregados é fator diferencial de competitividade das organizações, “[...] para garantir coisas como a qualidade e segurança de produtos e processos, além de boa reputação e posição de mercado.” (NASSAR, 2009, p. 175). Sartain e Schumann (2006) defendem que a construção de um processo de gestão de marca passa a ser determinante quando se inicia com o público interno. Quando há o envolvimento dos empregados, a gestão da marca passa a ser realizada dos níveis hierárquicos mais básicos para o alto escalão das organizações. Essa preocupação é determinante para melhores resultados, maior aderência da prática ao planejado e soluções mais criativas e participativas por parte dos empregados (HATCH; SCHULTZ, 2008). As organizações devem se empenhar em buscar que seus integrantes recebam, entendam e aceitem as suas diretrizes e objetivos, que só podem ser atingidas a partir de uma comunicação efetiva (RODRÍGUEZ; OPAZO; RÍOS, 2008). Nessa abordagem de Rodríguez, Opazo e Ríos (2008), o processo de comunicação é posto em uma visão mecanicista, com o objetivo único de atingir os objetivos estabelecidos pela organização. No entanto, cabe problematizar essas concepções considerando as assimetrias, contradições e forças simbólicas em disputa nas interações no contexto das organizações (BALDISSERA, 2010; FAUSTO NETO, 2008). Empregados alinhados aos objetivos estratégicos tendem a compreender e desempenhar melhor suas atividades, traduzindo seus comportamentos em lucratividade e desempenho (RIEL, 2012). Segundo o autor, as organizações só podem propor a realização de objetivos caso tenham um suporte dos empregados para executá-los, e essa inter-relação entre os objetivos individuais dos empregados e os objetivos organizacionais que há uma necessidade de alinhamento de interesses, buscando resultados mútuos. E o desafio está na existência de diferentes interesses e objetivos entre vários grupos que convivem no ambiente organizacional como os empregados, a liderança e os acionistas. O conflito em uma visão pragmática e a disputa de sentido baseado na visão de Baldissera (2008a) são inerentes aos 58 desejos dos atores organizacionais, sendo parte integrante da realidade e dos cenários interno e externo das organizações. O alinhamento proposto por Riel (2012) traz uma perspectiva de benefício mútuo para os interlocutores envolvidos nas relações, sendo uma possibilidade de ampliar os resultados propostos pelas organizações. A comunicação da estratégia não está baseada apenas em uma visão informacional, uma vez que são quatro as características da comunicação com os empregados: a estrutura (canais formais e informais de comunicação que as mensagens são veiculadas), o fluxo (a forma que a comunicação se movimenta na organização, vertical, horizontal ou lateral), o clima (o ambiente emocional da organização, que irá definir o nível de abertura) e conteúdo (as mensagens em si, o conteúdo delas) (RIEL, 2012). Esse posicionamento de Riel (2012) se contrapõe à visão de Deetz (2010), quando mostra que a comunicação da estratégia é baseada nos processos informacionais com o interesse apenas na disseminação de informações, na persuasão e na a influência dos empregados, no caso, com o objetivo de ganho de complacência e reações de acordo com o interesse das organizações. Riel (2012) defende o alinhamento dos empregados às estratégias das organizações em uma visão de benefício mútuo o que seria importante para a melhoria dos objetivos organizacionais sendo necessário o posicionamento da comunicação a serviço desse alinhamento. Na visão de Deetz (2010), esse movimento seria uma ação mecanicista da comunicação, de controle e distribuição e informações. Na abordagem deste trabalho, o conceito de alinhamento estratégico proposto por Riel (2012) é utilizado sem, no entanto, refutar a existência de relações assimétricas no contexto organizacional. Destaca-se ainda que o alinhamento com benefícios mútuos é perpassado por uma relação assimétrica de poder entre liderança e empregados e entre acionistas e liderança. Sendo o empregado o ponto central da cultura organizacional, aquele que reforça, representa e reproduz os artefatos e o simbolismo da identidade, podemos concluir que imagem e reputação são diretamente influenciadas pelo comportamento dos trabalhadores de uma organização. A seguir são analisadas as relações internas nas organizações multinacionais na contemporaneidade, considerando os referenciais analisados neste capítulo 2 como bases para compreensão das principais características e dos desafios postos em um contexto sociocultural e comunicacional diverso. É dada uma ênfase à identificação de desafios enfrentados pelos empregados em organizações multinacionais na relação com as lideranças no ambiente organizacional e às barreiras decorrentes de experiências fragmentadas, ambíguas e de alta competitividade vivenciadas por esses atores. 59 3 RELAÇÕES INTERNAS NAS ORGANIZAÇÕES MULTINACIONAIS EM UM CONTEXTO CONTEMPORÂNEO As relações internas das organizações passam por adaptações e reafirmações em função de um cenário contemporâneo. As relações entre os trabalhadores e as organizações são de natureza conflituosa diante da relação naturalmente assimétrica porém “o indivíduo só pode recuperar seu poder social, elaborar seu ´eu´ social, em uma relação de conflito com outras classes; caso contrário, há uma regressão do psíquico ao somático, a expressão psicológica dos conflitos é a imaturidade no nível político.” (TRAGTENBERG, 1980, p. 30). A visão de trabalho tem sido modificada ao longo do tempo, sendo vista como uma atividade inalienável do ser humano, com duas visões distintas: uma visão sublime, como emancipação da sociedade, e outra visão pejorativa, relacionada à nossa subsistência (POCHMANN, 2014). O desenvolvimento dos distintos estratos sociais é também fruto da inserção no mundo do trabalho e é por meio dessa relação com o trabalho que os empregados interagem e formam as suas redes de conexão e representação. “A diversidade de estruturas sociais vigentes no início do século 21 reflete o curso da divisão internacional do trabalho. Quanto mais acelerada for a dinâmica econômica, maior tende a ser a força das mudanças sociais cujo peso da ocupação e renda ganha destaque.” (POCHMANN, 2013, p. 155). A estrutura de trabalho é central da nossa sociedade, servindo de base econômica e também relacional. Em um ambiente complexo, as relações entre os diversos interlocutores são centrais e determinantes para o crescimento organizacional. As relações internas serão abordadas a seguir como um dos aspectos em que influencia e é influenciada pela comunicação interna. 3.1 Relações internas O indivíduo é único, mesmo que represente diferentes papéis na sociedade, não pode ser tratado apenas na sua parte. Ele desempenha vários papéis ao longo da sua vida e, em um determinado momento da sua carreira profissional, pode vir a integrar uma organização, independentemente da sua formação, atividade profissional ou aptidões laborais. Quando o faz, passa a se relacionar com os seus pares e liderança, em momentos de relacionamento interno e também de representação organizacional. Essa organização também pode variar de acordo com o porte ou finalidade social. Baseado na análise realizada por Sennett (2009), em que são apresentados os principais impactos que os trabalhadores sofrem nas suas relações com as organizações, o 60 autor propõe abordar três situações da contemporaneidade que impactam as relações internas de trabalho: a flexibilidade-fragmentada em constante mudança, o sentimento de fracasso e a terceirização. A flexibilidade na jornada de trabalho, mudanças constantes e contínuas, associadas com experiências fragmentadas do processo produtivo são experimentadas por trabalhadores em todas as organizações em vários países e contextos culturais. As mudanças organizacionais já fazem parte da rotina dos trabalhadores, seja no modelo produtivo, nas suas subordinações, seja na estrutura de trabalho. Os empregados acabam por experimentar também perdas e fracassos, demissões pessoais ou de colegas de trabalho, além de críticas severas aos resultados da sua produção. Essa situação, muitas vezes, leva os trabalhadores a buscarem novas posições de trabalho com o intuito de satisfação pessoal e financeira em outras organizações. Finalizando o cenário apresentado por Sennett (2009), apresenta-se a política de terceirização e das relações com os empregados próprios e liderança das organizações. Os objetivos dos sujeitos que compõem a organização são individuais e próprios e há uma tendência de que cada um aja na busca dos seus próprios objetivos. Os sujeitos se alinham aos interesses organizacionais na expectativa de que seus objetivos próprios também sejam alcançados (BALDISSERA 2010, 2013), existindo três questões importantes nessas relações de trabalho (BALDISSERA, 2010). A primeira questão é referente ao simbolismo da “noção do trabalho” em especial na perspectiva judaico-cristã, em que o tipo de trabalho caracteriza o indivíduo dentro da sociedade, influenciando o seu “status”. A segunda questão reforça o papel do trabalho nas relações sociais, sendo esse importante no dia a dia do indivíduo e nas suas relações familiares e dentro da sociedade. O trabalho é o principal fundamento nessas relações. E a terceira questão diz respeito à ausência do trabalho, à possibilidade do desemprego como realidade e frustração (BALDISSERA, 2010). Pochmann (2010, p.1) também reconhece os impactos gerados pelo desemprego no bem-estar dos indivíduos, “as consequências sociais decorrentes da presente crise difundem-se rapidamente, tendo o desemprego e a precarização dos postos de trabalho a maior centralidade do bem-estar humano”, além dos impactos gerados na sociedade em função das taxas de desemprego. Os sujeitos experimentam esses conflitos e tensões de força de forma paradoxal (BALDISSERA, 2010; KUNSCH, 2012). 61 3.1.1 O empregado e as relações organizacionais A possibilidade de realização e satisfação no trabalho está sempre acompanhada pela necessidade de pertencimento e participação no ambiente das organizações. A existência de uma relação de poder entre organização e empregado impacta diretamente no convívio interno. Mesmo sabendo que a disputa de sentido entre indivíduos é inerente às relações humanas, o conflito entre esses pode ser encarado como uma questão negativa. Mas é a partir do conflito e da diferença que podemos identificar oportunidades de crescimento e melhorias. No ambiente organizacional, pouco espaço está sendo dado a manifestação dos sujeitos e principalmente a escuta dos empregados (SOARES, DEL GÁUDIO, 2013). As organizações desenvolvem um maior número de oportunidades para emitir mensagens para os seus trabalhadores, seja por meio dos veículos internos, seja por meio da liderança. O volume de informações comunicado é superior às oportunidades criadas de escuta e interação dialógica com os empregados. No desenvolvimento de relações dialógicas, as organizações podem estabelecer oportunidades concretas de interação com os empregados. A base para uma aproximação entre grupos é a escuta, a disposição para trocas simbólicas e busca de objetivos com ganhos compartilhados. Em alguns casos, as manifestações dos empregados não são compreendidas como diálogo, mas sim como uma exposição das falhas de gestão sendo classificadas apenas como críticas. O diálogo interno organizacional requer criar mecanismos de escuta e interação com os empregados. Os níveis de tolerância à submissão parecem ser elasticamente esticados. Diante desse quadro, é provável que haja pouco lugar formal para a manifestação dos diferentes sujeitos/subjetividades (o que não significa que tais subjetividades não encontrem espaços para se realizar). À organização não parece se importar muito com o que esses sujeitos pensam e como se sentem, de modo que há pouco ou nenhum interesse na escuta. (BALDISSERA, 2010, p. 67). As expectativas dos indivíduos interno e externo às organizações são similares, “[...] assim como o ‘homem social’, o indivíduo da organização também necessita atribuir um sentido para seu mundo, trabalhar para sobreviver, relacionar-se com outros, formar identidade, administrar emoções, engajar-se em outras culturas.” (MARCHIORI, 2008d, p. 144). Os empregados precisam de tempo para desenvolver relações e narrativas coerentes nas suas experiências internas com as organizações, mas em um mundo onde o futuro já é depois de amanhã, em um ambiente fragmentado, focado na execução de projetos e na flexibilidade, dos empregados não é permitido o desenvolvimento de sólidas relações (SENNETT, 2009). A 62 organização não é mais um ambiente estável e seguro refletindo uma sociedade contemporânea como um novo modo social, em que as relações de trabalho são alteradas (OLIVEIRA; PAULA, 2009). Empregados de diferentes níveis hierárquicos e de instrução se relacionam de forma específica com as organizações. Os empregados são um coletivo, porém sem unidade e uniformidade. Existem subgrupos que compõem o universo dos trabalhadores de uma organização. Idade, escolaridade, sexo, nível hierárquico, atividade profissional e também características individuais da personalidade dos indivíduos são variáveis que impactam as relações entre organização e empregado. Um empregado operacional mantém vínculos diferenciados com as organizações, em diferente posição estão os empregados que trabalham em funções administrativas ou estão em cargos de liderança. Realizações pessoais e profissionais são balanceadas de acordo com as características dos indivíduos, seus anseios, expectativas e desejos. Cultura e religião também são fatores que impactam as relações dos empregados com as organizações, dos empregados com suas lideranças e entre os empregados e por consequência também influenciam a forma de percepção, circulação e formação de sentido a partir da comunicação direcionada a eles. A relação de trabalho, em um ambiente em transformação, é conflituosa, representando um ambiente de realizações pessoais, profissionais e também de ganhos financeiros. Um aumento no ritmo de trabalho (devido à racionalização e à automação de processos, à descentralização de algumas atividades e à concentração de outras, à extinção e à fusão de áreas e funções) e o recrudescimento das tensões e das ameaças levam os empregados a modificarem o modo de ver o seu cotidiano de trabalho e a sua formação profissional. (OLIVEIRA; PAULA, 2009, p. 21). A segurança do local de trabalho, do emprego e da carreira em uma única organização é substituída pela empregabilidade, ou seja, a necessidade de o indivíduo estar sempre pronto para assumir novas posições, outras atividades, em uma ou mais organizações, de acordo com a realidade do mercado e sem considerar seus desejos próprios. De certa forma, a ideia de coletividade presente nas organizações é substituída por um individualismo e pela constante busca de conquista dos projetos pessoais (OLIVEIRA; PAULA, 2009), o que corrobora com uma tendência dos indivíduos procurarem nas organizações somente os seus objetivos individuais, em que o alinhamento às estratégias da organização poderá acontecer em uma sincronia de objetivos, dos indivíduos e das organizações (BALDISSERA, 2010, 2013), mas não se apresenta como uma situação natural. A necessidade de buscar um alinhamento entre objetivos dos empregados e da organização para concretizar as estratégias empresariais (RIEL, 2012) pode encontrar resistência por parte dos trabalhadores. 63 O trabalhador precisa ter sentimentos de pertença, e eles só têm espaço em um local de trabalho que reconheça a cooperação e a autonomia como indispensáveis. Para isso, o contato direto e a capacidade de a organização considerar e respeitar a perspectiva dos atores internos tornam-se fundamentais. (OLIVEIRA; PAULA, 2007, p. 57-58). A estrutura da sociedade vem sofrendo alterações no decorrer das últimas décadas. O surgimento de novas tecnologias, além das mudanças ocorridas nos processos produtivos, vai impactar a necessidade e qualificação da mão de obra disponível para o trabalho. A classe operária tradicional sofre diminuição ao longo dos últimos anos e foi substituída por uma classe subproletária muito em função do trabalho precário, processos de terceirização, subcontratação e também da imposição de horários parciais e flexíveis (ANTUNES, 2001). Este cenário leva o indivíduo a alterar a sua relação com o trabalho, maior dependência, melhor controle do seu destino, o que Antunes (2001) irá definir como “classe-que-vive-dotrabalho”. O impacto do fim da classe proletária tradicional e o surgimento de uma classeque-vive-do-trabalho vai muito além da mudança das relações internas às organizações, bem como no processo produtivo, os danos são maiores na consciência e na subjetividade dos trabalhadores e de como se apresentam, representam e são representados (ANTUNES, 2001). Como anteriormente citado, o alinhamento dos empregados aos objetivos estratégicos da organização é apontado como sendo fator de diferenciação nas relações internas. As organizações não poderão atingir os seus objetivos se os seus empregados não conhecerem, compreenderem e estiverem alinhados às suas estratégias (RIEL, 2012). Os resultados consistentes e de longo prazo almejados pela direção das organizações também dependem de um alinhamento dos empregados aos objetivos e participação nos processos de melhoria. Mas para que o alinhamento aos objetivos das organizações seja possível, os empregados precisam compreender as mudanças que estão ocorrendo nas organizações. Uma âncora mental e emocional é importante para que os empregados possam avaliar se as mudanças na contemporaneidade e nas relações de trabalho são também positivas para si, além dos benefícios econômicos para as organizações (SENNETT, 2006). Sem um envolvimento completo dos empregados nas mudanças não é possível criar um ambiente propício para qualquer tipo de alteração. As organizações estão em busca de uma melhor produtividade, ou seja, uma equação de produzir mais, com o menor custo, no menor tempo, com o menor número de pessoas e ampliando constantemente a qualidade. “[...] Ele (o capital) deve aumentar a utilização e a produtividade do trabalho de modo a intensificar as formas de extração do sobretrabalho em tempo cada vez mais reduzido.” (ANTUNES, 2001, p. 218). A presença da competitividade e 64 busca de melhoria da produtividade nas organizações irá demandar um empregado mais qualificado, mais disponível e preparado para compreender o ambiente e agir de acordo com as necessidades organizacionais. “[...] Os apelos comportamentais da animação, do envolvimento, da liderança, da criatividade, da inovação e da responsabilidade social estão dirigidos de forma abrangente para todos os pontos da hierarquia.” (NASSAR, 2010, p. 321). Sendo, por consequência, exigidos da área de comunicação, atividades alinhadas a essas ações. Os movimentos ocorridos na sociedade impactam as organizações, seu funcionamento, suas relações internas e externas e por consequência os processos comunicacionais também serão modificados nesse contexto. Existe a necessidade de uma intermediação para possibilitar que seja mantida uma relação mínima entre os empregados e a liderança representando as suas organizações, especialmente em momentos de mudança. Na contemporaneidade, aos empregados são solicitados uma postura muito mais flexível com relação ao trabalho diante de experiências também fragmentadas. 3.1.2 Flexibilidade dos empregados Os indivíduos precisam de virtudes estáveis como confiança, comprometimento, lealdade e uma relação de ajuda mútua para a construção e o desenvolvimento do caráter. O desenvolvimento do caráter do empregado na sua relação com a organização está diretamente ligado a um sentimento de confiança e comprometimento mútuo entre ele e seu líder, representante da organização. Mas, em um mundo contemporâneo organizacional, fragmentado e baseado em objetivos em curto prazo, em que a relação organização e empregado não é mais duradoura, sem comprometimento, as relações de confiança são alteradas, levando a uma corrosão do caráter (SENNETT, 2009). É dentro desse cenário de complexidade, mudança das relações internas, aliado com a presença em vários territórios ou países, que as organizações hoje enfrentam o desafio de construção dos seus processos de relação com os empregados. Aos empregados é solicitado que estejam à disposição, mais envolvidos, abertos às mudanças e de forma mais ágil, que assumam mais responsabilidades, em jornadas flexíveis (SENNETT, 2009). A complexidade está diretamente ligada à incerteza, à desordem, mas presentes em sistemas devidamente organizados para um fim de controle. Diferentemente de uma visão antagônica da desordem à ordem, a complexidade apresenta uma sinergia entre esses dois estágios. 65 A complexidade está, pois, ligada a certa mistura de ordem e desordem, mistura íntima, ao contrário da ordem/desordem estatística, onde a ordem (pobre e estática) reina no nível das grandes populações e a desordem (pobre, porque pura indeterminação) reina no nível das unidades elementares. (MORIN, 2011, p. 35). O modelo atual de gestão das organizações apresenta um elemento comum, a mudança. Mudanças constantes das/nas organizações exigirão dos empregados uma maior flexibilidade, para aceitá-las e principalmente para se adaptar às novas realidades postas. Jornada e estruturas flexíveis, muitas vezes baseadas em projetos, sem um vínculo formal com as organizações, são comuns na atualidade. Contratação temporária, subcontratação e terceirização são rotinas organizacionais. Um ambiente que aparenta dar mais liberdade ao indivíduo, acaba impactando a relação do empregado com a organização. O que parece ser um processo de maior liberdade e oportunidade para os trabalhadores, acaba gerando uma intranquilidade e tensão. A incerteza e insegurança na relação com as organizações impactam diretamente o caráter pessoal dos empregados. “Caráter são os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros nos valorizem.” (SENNETT, 2009, p. 10). A ausência de uma visão em longo prazo, gera um desconforto profissional e pessoal, porém esta situação, “[...] é um princípio que corrói a confiança, a lealdade e o compromisso mútuo.” (SENNETT, 2009, p. 24). Dentro do contexto contemporâneo, temos um conflito entre caráter e a experiência nas organizações, em uma referência de tempo fragmentado que impossibilita as pessoas de transformarem suas experiências em uma narrativa sustentável. Apesar desse cenário, de desconforto, de insatisfação individual e, em alguns casos, até mesmo de forma coletiva, as práticas cotidianas assimilaram as caraterísticas do vigoroso capitalismo, com pouco enfrentamento e apenas alguns surtos de questionamentos (SENNETT, 2009). O sistema de flexibilidade na modernidade apresenta três elementos: reinvenção descontínua das instituições, especialização flexível de produção e concentração de poder sem centralização. A reinvenção descontínua das instituições é caracterizada pela indicação da necessidade contínua de mudança nas organizações, mesmo que sem comprovação de melhorias, trata-se da mudança pelo simples fato de ser necessário mudar. A especialização flexível de produto é o ato contínuo de inserção de novos produtos no mercado, antítese do sistema fordista de produção. E a concentração de poder sem centralização trata-se da descentralização das atividades e das decisões e da criação de mecanismo paralelo e controle sem que haja a centralização do trabalho (SENNETT, 2009). 66 A especialização flexível da produção indica que as organizações estão alterando suas estruturas, passando de uma hierarquia piramidal para uma estrutura mais horizontal, na expectativa de que um sistema mais fragmentado possa contribuir para intervenções. As mudanças constantes acabam trazendo outros problemas, mudanças que muitas vezes são realizadas a qualquer custo, na busca imediata de resultados (SENNETT, 2009). Mudanças precisam de tempo para serem consolidadas e os resultados, a partir dessas mudanças, alcançados. Na especialização flexível, apresenta-se um aumento do volume de oferta de produtos variados de forma frenética na busca de aumento de vendas e lucro, sendo esta uma “[...] antítese do sistema de produção incorporado no fordismo.” (SENNETT, 2009, p. 59). Na descrição da concentração sem centralização, as estruturas são formadas em rede, o que aparenta uma maior flexibilidade e descentralização do poder, mas nesta estrutura, com as mudanças na produção, no mercado e também nas redes, levam as organizações a praticar um controle sem necessariamente ter o poder centralizado. Muito do poder foi distribuído nos vários níveis organizacionais o que poderá também gerar impactos nas relações internas (SENNETT, 2009). A flexibilidade em muitos casos acaba gerando desordem, o que não deixa de acarretar limitações e se transforma em uma importante forma de poder. As características do mundo flexível (reinvenção descontínua das instituições, especialização flexível de produção e concentração sem centralização) geram impacto nas relações pessoais (SENNETT, 2009). A presença da tecnologia, que muito veio a contribuir com as condições de trabalho, acaba também por alienar o trabalhador, que não mais tem o domínio completo do processo, tornando-se facilmente substituível. “Nesse local de trabalho high-tech, flexível, onde tudo é fácil de usar, os empregados se sentem pessoalmente degradados pela maneira como trabalham. [...] Operacionalmente, tudo é muito claro; emocionalmente, muito ilegível.” (SENNETT, 2009, p. 79). Não existe mais legitimidade por parte dos empregados em compreender o que estão fazendo, tudo muito tecnológico, fragmentado, flexível, porém desprovido de emoção. Trabalho ao mesmo tempo bem definido e claro, porém com um alto requinte de obscuridade (SENNETT, 2009). A fragmentação do trabalho também é acompanhada de uma elevação do grau de instrução e de qualificação. Estudo e trabalho passam a estar diretamente relacionados, de forma imbricada. “Na sociedade pós-industrial, o conhecimento torna-se estratégico na inserção e configuração das novas trajetórias ocupacionais portadoras de maior articulação da vida com o estudo e trabalho.” (POCHMANN, 2012, p. 2). 67 A dominação cresce nos modelos flexíveis, em que o trabalho é dividido em equipes, o conteúdo é passado de forma superficial e o confronto evitado. Líderes também são parte do sistema, perdem muitas vezes o poder, diante do sistema complexo e fragmentado das organizações. A liderança muitas vezes também é vítima do sistema, das relações, em escalas e níveis de intensidades diferenciados. Não detém mais o poder pleno da gestão da sua equipe. O empregado motivado é substituído pelo empregado irônico que acaba se posicionando de forma politicamente correta com o objetivo de sobrevivência no contexto organizacional (SENNETT, 2009). Sendo assim, não há como esperar um resultado de relações simétricas dentro das organizações. O empregado estará sempre em uma posição de desvantagem nas suas negociações e interações com as organizações. Mesmo que seja o desejo dos empregados em estabelecer uma relação de maior simetria, baseada na confiança, deve partir das organizações a busca da construção de um ambiente mais dialógico e menos destrutivo mesmo na existência das diferenças. 3.1.3 O fracasso em um contexto ambíguo e contemporâneo As experiências nas organizações podem gerar diversos níveis de sofrimentos, podendo haver algum benefício nessa relação, mas o indivíduo pode se tornar dependente do trabalho (BALDISSERA, 2010). As constantes mudanças e a incerteza sobre o futuro, aliadas a uma visão em curto prazo desestabilizaram a relação e confiança antes existente entre os empregados e as organizações. Adicionada à incerteza, experiência constante na modernidade, a ambivalência também faz parte das relações dos indivíduos no ambiente organizacional. A ambivalência nos leva a experimentar a desordem, a falta da nossa capacidade em prever o resultado a partir de experiências já conhecidas, o aprendizado e a memorização nos levaria a manutenção da ordem no mundo, mas, no contexto, a ambivalência nos leva a duvidar das consequências dos nossos atos (BAUMAN, 1999b). “A função nomeadora/classificadora da linguagem tem, de modo ostensivo, a prevenção da ambivalência como seu propósito.” (BAUMAN, 1999b, p. 10). A maneira para nortear nossas ações e relações é por meio da linguagem, da interação. A linguagem é função norteadora das nossas experiências e contribui para as interações organizacionais. Ela é o eixo condutor pelo qual as trocas simbólicas acabam acontecendo. Tentamos classificar o mundo na busca de estruturar as nossas relações, manipulando as probabilidades, diminuindo a ambivalência, um processo de inclusão e 68 exclusão (BAUMAN, 1999b). “A luta contra a ambivalência é, portanto, tanto autodestrutiva quanto autopropulsora.” (BAUMAN, 1999b, p. 11). Este constante movimento na busca da certeza e eliminação da ambiguidade também pode ser observado no contexto organizacional, o que agrava a experiência do empregado que, além de lidar com a incerteza, também passa experimentar a ambiguidade, em que é impossível prever os resultados a partir dos seus próprios atos. Segundo Bauman (1999b, p. 18), “a modernidade é o que é – uma obsessiva marcha adiante – não porque sempre queira mais, mas porque nunca consegue o bastante; não porque se torne mais ambiciosa e aventureira, mas porque suas aventuras são mais amargas e suas ambições frustradas”. O autor destaca ainda que a modernidade se bifurca entre ordem e caos, em um movimento constante e frenético, na busca constante para eliminar a ambivalência, a incerteza que estamos inseridos, vivendo, muitas vezes sem possibilidade de crítica ou reação. Podemos dizer que a existência é moderna na medida em que é produzida e sustentada pelo projeto, manipulação, administração, planejamento. A existência é moderna na medida em que é administrada por agentes capazes (isto é, que possuem conhecimento, habilidade e tecnologia) e soberanos. Os agentes são soberanos na medida em que reivindicam e defendem com sucesso o direito de gerenciar e administrar a existência: o direito de definir a ordem e, por conseguinte, pôr de lado o caos como refugo que escapa à definição. (BAUMAN, 1999b, p. 15, destaque no original). O fracasso pode ser visto como um tabu enfrentado pelos trabalhadores. No contexto contemporâneo, o imperativo do sucesso econômico, do desenvolvimento e crescimento das organizações busca empregados mais maleáveis, experimentando realidades fragmentadas, tendo que estar sempre aberto a novas possibilidades, incertas, em que existe muito pouco espaço para a construção de uma carreira e quando a relação entre empresa e empregado é desfeita, não há inclusive espaço para tratar a dor do fracasso. O fracasso é visto e indicado, muitas vezes, como apenas mais um incidente de percurso (SENNETT, 2009). “Exige-se um senso maior de comunidade, e um senso mais pleno de caráter, do crescente número de pessoas que, no capitalismo moderno, estão condenadas a fracassar.” (SENNETT, 2009, p. 162). Somada à ambivalência, também temos a incerteza, que faz parte das nossas experiências na contemporaneidade. “Aquisição da incerteza é uma das maiores conquistas da consciência, porque a aventura humana, desde seu começo, sempre foi desconhecida.” (MORIN, 2007, p. 99). É na existência de um ambiente mais fluido, ambíguo com várias rupturas e necessidades de novas leituras, que as relações internas às organizações estão sendo reestabelecidas. “O ambiente organizacional, na contemporaneidade, caracteriza-se por 69 mudanças que determinam novos cenários; novas bases nas relações sociais; a coexistência de mundos distintos, complexos, ambíguos e fluidos, significando rupturas, novas leituras e linguagens.” (ALMEIDA, 2008, p. 33). É nesse ambiente complexo e difuso que os empregados buscam sobreviver, inclusive nos momentos de fracasso pessoal e profissional. A sobrevivência está inserida nas relações entre empregados e organizações, que hoje também fazem uso de um subterfúgio na busca da diminuição dos custos e facilitação da sua gestão da mão de obra: a terceirização. 3.1.4 Terceirização As relações de trabalho apontam para uma transformação do tecido produtivo, caracterizado por uma diminuição das interfaces entre organizações e seus empregados a partir do aumento da terceirização. Subcontratações e delegação de atividades específicas têm sido uma alternativa para aumentar a lucratividade das organizações, mas que também têm causado uma alteração nas relações internas (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2002). Organizações hoje são compostas de empregados próprios e terceiros, vivenciado experiências similares, dentro do mesmo contexto e ambiente, mas com situações trabalhistas diferenciadas, inclusive salários, benefícios, carga horária, responsabilidades e reconhecimento. A terceirização é ampliada não apenas para melhorar a qualidade dos serviços prestados, mas muito para garantir um modelo de crescimento econômico e financeiro por parte das organizações que utilizam a terceirização para facilitar demissões e alterações nas funções dos trabalhadores. “O antigo movimento de estruturação do mercado de trabalho deu lugar a trajetórias do desemprego, emprego parcial entre outras formas de trabalho precário.” (POCHMANN, 2013, p. 159). No quadro de mudanças ocorridas no ambiente interno, identificam-se mudanças aceleradas a partir da década de 1980, em que mais responsabilidades são delegadas aos empregados da base da organização, uma proliferação de programas participativos, de intercâmbio e troca, bem como um investimento maior na qualificação do empregado (formação permanente), possibilitando uma ampliação do escopo de trabalho (polivalência). (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2002). A flexibilidade é exigida dos empregados, que sofrem com mudanças constantes em relações fragmentadas e dualizadas. Salários, horários, benefícios são apresentados de forma diferenciadas e variáveis, tornando possível a mudança de acordo com o cenário econômico e empresarial. Trabalhadores menos qualificados são naturalmente contratados nas empresas terceirizadas, sofrendo os primeiros impactos quando 70 há necessidade de corte de custos. São facilmente descartados e recontratados, se necessário, acompanhando o movimento do mercado. Empregos temporários, contratações por tempo determinado ou variável são comuns no cenário atual. Uma maior carga de trabalho, além das estabelecidas pelas legislações trabalhistas, também é aplicada aos empregados em uma cooptação para aqueles que precisam e dependem dos ganhos financeiros e têm pouca ou quase nenhuma opção de trabalho. Existe um processo de seleção/exclusão, em que nas relações com as organizações, naturalmente são excluídos os menos qualificados, os menos preparados, os menos maleáveis e até mesmo os mais frágeis física e psiquicamente. Trata-se de um processo de “seleção natural” dos trabalhadores que se encaixam de forma mais adequadas ao regime imposto pelas organizações na modernidade (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2002). O trabalhador precisa apresentar características para atender à demanda das organizações diante de um mercado mais competitivo, que busca maiores lucros e menores gastos, em um universo de relações fragmentadas, ambíguas, incertas e complexas. Os empregados e a liderança buscam se adaptar nessas novas relações diante desse cenário, sofrendo influência de como as relações aconteciam, como acontecem e como podem vir a acontecer. Em um ambiente de alta competitividade, os empregados são levados a competir por espaço, demonstrando resultados constantes (produtividade) e um alinhamento organizacional no modo de agir e de pensar. As relações internas à organização, entre líderes e subordinados, bem como entre pares, são complexas e divergentes, muitas vezes de competição e sobrevivência. Nesse cenário posto, os empregados fazem uma análise mais crítica de como a liderança está interagindo e comunicando, questionando a postura da organização e o seu alinhamento ao discurso organizacional (ARGENTI, 2006). São indivíduos mais bem preparados, informados, com possibilidades de acesso e conexão, mas que continuam a experimentar um universo tensionado nas relações entre capital e trabalho dentro de um contexto de disputa de poder, disputa ampliada de sentido muitas vezes tensionadas no seu limite. De forma sintética, “[...] houve desproletarização do trabalho manual, industrial e fabril; heterogeneização, subproletarização e precarização do trabalho. Diminuição do operariado tradicional e aumento da classe-que-vive-do-trabalho [...].” (ANTUNES, 2001, p. 211). A incerteza, a complexidade, aliadas à ambivalência, além do fracasso e das experiências fragmentadas, em ambientes competitivos e ameaçados pela terceirização e “seleção natural” compõem um cenário complexo que quando da análise das experiências relacionais dos empregados nas organizações, deve-se considerar (MORIN, 2007, 2011; 71 BAUMAN, 1999b; SENNETT, 2009; BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2002). Experiências essas que vão impactar diretamente a condução das relações internas e de como as organizações propõem o estabelecimento do fluxo de comunicação com os empregados. Além do contexto, é importante observar e destacar o impacto sofrido pelos empregados, como indivíduos, diante dessas relações. O foco da análise da comunicação não pode ser apenas o processo instrumental ou as mídias em que estas relações se materializam, mas sim o contexto e a situação que os indivíduos encontram nessa relação. Avançamos para uma análise dos desafios enfrentados pelas empresas multinacionais em contextos socioculturais e comunicacionais diversos, em que, além da complexidade iminente da modernidade das relações organizacionais, soma-se ao contexto as diversidades culturais e sociais que impactam diretamente os aspectos comunicacionais. A análise das relações entre matriz e subsidiárias será fundamental para compreender o processo de orientação e troca no desenvolvimento da comunicação direcionada aos empregados em organizações multinacionais. 3.2 Desafios de organizações comunicacionais diversos multinacionais em contextos socioculturais e Há anos as organizações têm ampliado o seu horizonte territorial de atuação, passando inclusive a atuar além do seu país de origem. As organizações que passaram por esse processo de expansão além do seu país de origem são denominadas multinacionais (KOGUT; ZANDER, 1993). Não existe uma unicidade entre os autores para se descrever uma organização multinacional. Na literatura da área de Administração, as multinacionais são frequentemente identificadas como MNC (Multinational Company13) ou MNE (Multinational Enterprise14), ambas utilizadas com o mesmo significado e de forma indiscriminada. No caso deste estudo, optou-se pela utilização da denominação “organização multinacional”, sem o uso de abreviações. David Lilienthal (1960) (apud AHARONI; BROCK, 2009) foi o primeiro a utilizar o termo multinacional e o definiu como sendo uma organização oriunda de um país e que opera e está sob as leis e questões alfandegárias de outros países. Já para J. H. Dunning (1971) (apud AHARONI; BROCK, 2009), as multinacionais são empresas que detêm ou controlam operações produtivas em mais de um país. Na definição de Vernon (1971) (apud AHARONI; 13 14 Do inglês – Companhia Multinacional. Do inglês – Empresa Multinacional. 72 BROCK, 2009), uma multinacional é uma empresa que tem sua matriz controlando outras corporações em vários países, existindo uma unicidade e oportunidade de otimização de recursos humanos e financeiros dentro do grupo. As diferentes definições existem, pois os pesquisadores utilizaram óticas distintas para definirem seus objetos de estudo, causando variações conceituais e de nomenclatura. Multinacionais são organizações econômicas que evoluem, em expansão territorial, de suas origens nacionais para além das suas fronteiras, transformando-se em comunidades sociais presentes em mais de um país em que as vantagens competitivas estão no conhecimento produtivo compartilhado existente entre os diversos países onde a organização está presente (KOGUT; ZANDER, 1993). Esse é o conceito de multinacional utilizado neste estudo. São duas questões que determinam a área de crescimento das organizações no processo de constituição de uma multinacional. A primeira questão é a existência de vantagens competitivas durante o comércio entre empresas e países e a segunda questão refere-se à internalização do mercado, ou seja, o risco ou o custo de se creditar nas necessidades do mercado o processo de internalização do comércio e transações dentro das empresas (KOGUT; ZANDER, 1993). O modelo de crescimento, para além das fronteiras do país de origem, adotado pelas organizações, é um fator decisivo no sucesso do empreendimento. As opções de crescimento tendem a variar de acordo com a realidade de cada organização, modelo de gestão, histórico, experiências anteriores além de condições financeiras. O desenvolvimento organizacional em um movimento de internacionalização é determinado pelo investimento direto e pelo crescimento das suas vantagens comparativas (KOGUT; ZANDER, 1993). As condições gerais macroeconômicas (diante das quais o mercado internacional é impactado pela estabilidade, crescimento ou declínio da economia em determinado período), o grau de receptividade a empresas estrangeiras, o grau de liberalização de capitais, a flexibilidade no movimento do capital entre fronteiras e o grau de protecionismo comercial são fatores que influenciam tendências em longo prazo no desenvolvimento de negócios internacionais. Esses fatores são externos à organização e refletem as características dos países que recebem as empresas estrangeiras. Fatores não econômicos também devem fazer parte da análise pois impactam a mão de obra local, bem com o mercado consumidor de produtos e serviços (JONES, 1996). Características como cultura, religião, idioma, experiências anteriores, regime político podem também influenciar o mercado de trabalho e 73 consumidor, por consequência determinam as condições no momento de crescimento internacional das organizações. A ordem de crescimento e expansão em um mundo globalizado tem sido alterada ao longo dos anos. Os recursos disponíveis (financeiro, material e humano) apresentam sinais de esgotamento ou desaceleração (SANTOS, 2006). Variações nos mercados impactam diretamente o processo de expansão das empresas multinacionais, ao mesmo tempo que a presença em diversos países acaba protegendo o negócio quando a desaceleração da economia ou crise está circunscrita a uma região do globo. Neste início do século XXI, o desafio da globalização está em mudança. A corrida para penetrar nos mercados mundiais tem sido substituída pela corrida para aprender com o mundo. Com o desenvolvimento da economia global do conhecimento, começa a se esgotar a tradicional fonte de vantagem estratégica das empresas multinacionais. Ao mesmo tempo, a possibilidade de mover capitais, mercadorias, componentes, produtos acabados, pessoas e informação eficientemente pelo mundo torna-se apenas uma chave de paridade no jogo global. (SANTOS, 2006, p. 63). A maior barreira diante da mudança encontrada nas organizações em via de internacionalização está ligada a aspectos culturais dos países. Como é o caso de gestores expatriados, que são geralmente produtos das suas culturas empresariais e nacionais, a escolha correta dos executivos para realizar as mudanças necessárias e a administração adequada em empresas multinacionais é um fator de sucesso para as organizações operando em diversos países (GHOSHAL; BARTLETT, 1998). As diferenças culturais podem ser barreiras significativas na relação de um empregado com a organização em um país estrangeiro. Compreender as diferenças, aceitá-las e passar a trabalhar e viver em um ambiente culturalmente diferente impacta a vida de qualquer indivíduo. Essas diferenças são frequentemente vivenciadas pelos empregados e seus familiares que trabalham em empresas multinacionais. Em função das mudanças recentes na sociedade contemporânea, e também do aumento das atividades de empresas multinacionais, uma das questões a ser gerenciar é uma força de trabalho diversa e com experiências pessoais distintas. Às características das empresas multinacionais acrescentam-se outras variáveis complexas, como diversidade cultural, idiomas, tradições, religião, por exemplo. Para melhor compreender essas características e os seus impactos nas empresas multinacionais, outras áreas do conhecimento como antropologia, sociologia, história, entre outras, podem contribuir para os estudos sobre as organizações. Esse cenário contemporâneo levanta questões referentes às teorias da comunicação na natureza, na objetividade e generalidade. Os mesmos desafios apresentados em um contexto 74 contemporâneo também podem ser observado nas práticas de comunicação em organizações com um contexto multicultural (STOHL, 2001). “Organizações multinacionais estão na interseção das práticas comunicativas, culturais e sociais diversas. Por definição, elas transcendem a perspectiva estreita que trata as organizações como isoladas dos padrões da sociedade caracterizada por um padrão cultural mais amplo.15” (STOHL, 2001, p. 325, tradução nossa). A amplitude e a diversidade cultural podem impactar a forma de gestão das organizações multinacionais, especialmente nas relações existentes entre matriz e subsidiárias. O mesmo contexto sociocultural diverso apontado por Aharoni e Brock (2009), Kogut e Zander (1993), Ghoshal e Bartlett (1998) e Santos (2006) como sendo o ponto central da complexidade enfrentada pelas organizações multinacionais também pode ser observado nos estudos comunicacionais de França (2001). As três dinâmicas básicas do processo comunicacional segundo a autora são: o quadro relacional, a produção de sentido e a situação sociocultural. Na primeira dinâmica, destacam-se as relações entre os interlocutores, como essas relações se dão, baseadas em que princípios e motivadores. Na segunda dinâmica, a produção de sentidos é baseada nas práticas discursivas e, na terceira dinâmica, o foco da situação sociocultural é o contexto (FRANÇA, 2001). Considerar o contexto e compreender as relações e interações comunicativas é fundamental na condução da comunicação no contexto organizacional, uma vez que, a partir das interações, os significados são produzidos, reproduzidos em constante negociação e circulação (MARCHIORI, 2008). Organizações empresariais que atuam globalmente (e, portanto, com agentes dispersos geograficamente, culturalmente distintos, vivenciando realidades temporalmente diferentes) são, naturalmente exemplos de espaços transformados pelos novos modos de interlocução, constituindo-se em contextos política e informacionalmente complexos, culturalmente plurais, multiagenciados e multimidiáticos. (OLIVEIRA; PAULA, 2010a, p. 40). A legibilidade e articulação nas relações no mundo globalizado como um objetivo precisa ser perseguido, pois “o significado mais profundo transmitido pela ideia da globalização é o do caráter indeterminado, indisciplinado e de autopropulsão dos assuntos mundiais; a ausência de um centro, de um painel de controle, de uma comissão diretora, de um gabinete administrativo.” (BAUMAN, 1999a, p. 67). O desafio apresentado em um contexto de complexidade é a inter-relação existente entre os vários níveis: local, regional e global. Qualquer acontecimento global impactará os demais níveis (local e regional) em um 15 “Multinational organizations are at the intersection of diverse communicative, cultural, and social practices. By definition they transcend the narrow perspective that treats organizations as isolated from the wider cultural patterns characterizing society.”. 75 processo também de retroalimentação, em que os níveis locais e regionais também impactarão questões globais, são níveis interconectados e interdependentes (MORIN, 2007). O desafio está em compreender essas correlações e construir os processos de relacionamento interno com os empregados nas organizações multinacionais, respeitando as questões locais e fazendo uma transposição para os níveis regionais e globais. No universo em que as organizações emplacam um ritmo acelerado de produção para o lucro (denominado de “crescimento econômico”), o consumidor é despertado para o consumo constante, na produção de atrações e tentações, mas que, no final, o desejo nunca vai sobreviver à satisfação (BAUMAN, 1999a). São consumidores em constante movimento sem que seus desejos de consumo sejam plenamente saciados. A mesma lógica também é utilizada nas relações internas com os empregados, porém acrescida de uma relação e dependência de poder entre as organizações e os seus empregados, pois “[...] a sociedade moderna tem pouca necessidade de mão de obra industrial em massa e de exércitos recrutados, precisa engajar seus membros pela condição de consumidores.” (BAUMAN, 1999a, p. 88). Consumidores dos produtos e serviços, consumidores das informações, consumidores de um jeito de ser, pensar e agir, o que pode culminar em uma representação dessas relações. Os empregados são protagonistas das organizações, vão além de uma mão de obra para verdadeiros influenciadores da reputação da organização (RIEL, 2012), além de consumidores em potencial. O desafio posto está no processo de crescimento, baseado em estruturas flexíveis (temporal e organizacional), em que há um limite do amadurecimento da confiança entre empregados e organizações (SENNETT, 2009) e da necessidade de manter o público interno, envolvido, engajado, comprometido e contribuindo para o processo de crescimento e internacionalização. Somada a essas dificuldades, a diferença cultural poderá impactar o sucesso das organizações em processo de crescimento global. Como se podem buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações sociais duráveis? Como pode um ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de episódios e fragmentos? (SENNETT, 2009, p. 27). Além dos desafios apontados por Sennet (2009), os estudos realizados por Vercic, Vercic e Sriramesh (2012) também indicam impactos da globalização e das diferenças culturais nos processos comunicacionais. A modernidade, diante de um mundo globalizado e interligado, redefiniu as fronteiras da organização, além dos países e traços culturais únicos. O 76 processo comunicacional tornou-se mais complexo, o que tem elevado a importância do processo de comunicação interna no ambiente organizacional (VERCIC; VERCIC; SRIRAMESH, 2012). Organizações que operam em diversos países devem lidar com as diferenças culturais e considerá-las no processo da comunicação interna, diante das realidades locais. “Com a transnacionalização, as empresas passaram a operar fisicamente em diferentes países, incorporando pessoas com tradições culturais, étnicas, ideológicas e religiosas distintas no seu interior.” (BARBOSA, 2009, p. 40-41). Essas diferenças na cultura do país são determinantes e importantes na formação dos indivíduos que compõem essa cultura. Se a cultura influencia a formação dos indivíduos, ela também tem um impacto direto no processo de percepção da realidade e suas interações com as organizações e o seu local de trabalho. O impacto da cultura do país é um fator importante nas relações, interações, interpretações e ressignificações dos indivíduos. A cultura do país tem impacto direto nos processos comunicacionais. A gestão das organizações deve ser adaptada, levando-se em consideração as diferenças culturais, étnicas, ideológicas e religiosas. Quando a gestão é adaptada, a comunicação também sofre alterações, muito além de simples tradução para o idioma local. Segundo Woodward (2004, p. 16), “na arena global, por exemplo, existem preocupações com as identidades nacionais e com as identidades étnicas; em que um contexto mais ‘local’, existem preocupações com a identidade pessoal [...]”. Esta preocupação e atenção às diferenças culturais é um importante fator de sobrevivência e sucesso dos negócios internacionais, são preocupações no nível da cultura país e da cultura organizacional, e em especial de como essas culturas se interagem e como elas impactam as organizações e os indivíduos que as compõem. 3.2.1 Cultura organizacional O termo cultura deixou as suas especificidades antropológicas e integrou de forma diversa o cotidiano das pessoas, passando a designar uma multiplicidade de fenômenos, incluindo hábitos pessoais, que muitas vezes não têm uma conexão direta com o termo utilizado pela maioria dos antropólogos (BARBOSA, 2013). Morin (2007) defende a fundamentação da cultura da humanidade na história, filosofia, literatura, artes e na poesia, sendo responsável pela transmissão para uma abertura e contextualização das experiências. “Além disso, (a cultura das humanidades) favorecia a capacidade de refletir, de meditar sobre o saber e, eventualmente, integrá-lo em sua própria vida para melhor esclarecer sua conduta e 77 o conhecimento de si.” (MORIN, 2007, p. 59). Foi Edward Tylor que, em 1871, primeiro definiu o termo cultura, que é considerado central para os estudos antropológicos, porém não consensual (BARBOSA, 2013). Tylor definiu cultura como sendo “aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade.” (LARAIA, 2006). Barbosa (2013) faz uma diferença entre cultura e culturas. “Cultura, no sentido antropológico do termo diz respeito à dimensão simbólica da realidade” e “culturas, por outro lado, são as múltiplas possibilidades de conteúdo que esse conjunto de processos formais e cognitivos de atribuição de sentido adquire concretamente por meio de sociedades ou grupos sociais específicos.” (BARBOSA, 2013, p. 65). Seria na primeira afirmação uma oposição entre cultura e não cultura, já na segunda definição uma oposição entre as culturas em si. A cultura nacional e organizacional tem influenciado diretamente o desempenho das organizações, em especial as que passam por mudanças estratégicas, de liderança, crescimento, fusões e aquisições. Para discutir as questões culturais em empresas multinacionais, será abordada a cultura de país (ou cultura nacional), destacando a visão de alguns autores como Hofstede (1991), Trompenaars (1994), Tanure e Duarte (2006) e, em seguida, serão abordadas questões culturais no contexto organizacional, ou cultura organizacional, que são discutidas a partir de autores, como Schein (1996), Geertz (2008), Barbosa (2013), Marchiori (2008d), Baldissera (2009a), Guedes (2008) e Nassar (2008a). É relevante a observação das diferenças culturais entre países, pois em um processo de internacionalização, o crescimento da organização em um território além das suas fronteiras de origem, pode vir a ser impactado. “Cultura nacional, portanto, é o conjunto de valores, premissas e sentimentos adquiridos desde a infância pela população, nas fronteiras da nação, e serve de base para que essa população se organize, estabeleça regras e para que os indivíduos interajam”. (TANURE; DUARTE, 2006, p. 195). Na visão de Hofstede, [...] cultura é aprendida, e não herdada, ou seja, constitui um processo de aprendizagem desde o início da vida do indivíduo. A cultura está implícita na maneira de agir e de pensar, no juízo do que é considerado certo ou errado, bom ou mau, bem como na compreensão do que motiva as atitudes das outras pessoas. (HOFSTEDE, 1994, p. 5). Hofstede (1980) identificou em seus estudos cinco dimensões que vão caracterizar as culturas nacionais. A primeira dimensão é a distância hierárquica ou distância do poder, ou seja, o quanto as pessoas identificam que o poder e o status estão distribuídos de forma desigual e também o seu nível de aceitação desta situação. A segunda dimensão é a 78 necessidade de controle de incerteza, ou o quanto os integrantes de uma determinada cultura se sentem ameaçados por questões desconhecidas, o verdadeiro receio ou não do desconhecido. A terceira dimensão dos estudos de Hofstede é o individualismo/coletivismo, ou seja, como os indivíduos de um determinado grupo se relacionam entre si, e como são os laços destas ligações. A quarta dimensão é referente a masculinidade/feminilidade, as diferenças existentes, dentro da cultura, dos papéis do homem e da mulher. Nas sociedades tipicamente masculinas, será encontrado um índice maior de competitividade e agressividade, características naturalmente ligadas aos homens. Nas culturas mais femininas, não há tanta diferença no papel desempenhado pelo homem ou pela mulher. A orientação em longo prazo versus orientações em curto prazo é a última dimensão dos estudos de Hofstede, em que ele identifica as relações dos grupos com o passado, presente e o futuro (HOFSTEDE, 1991, 1994; TANURE; DUARTE, 2006). Outra corrente nos estudos da cultura nacional apresenta abordagens diferentes, como o defendido por Trompenaars (1994). O autor define cinco dimensões de como nos relacionamos com outras pessoas baseado em nossas origens e pelas características de onde nascemos, crescemos e interagimos. Universalismo versus particularismo (regras versus relacionamentos), coletivismo versus individualismo (o grupo versus o indivíduo), neutro versus emocional (a variedade de sentimentos expressos), difuso versus específico (a variedade de envolvimentos), conquista versus atribuição (como se confere status) são as dimensões apresentadas por Trompenaars (1994). Este modelo é aplicado aos estudos de culturas nacionais e seus impactos nas organizações. As pesquisas e análises das culturas segundo Trompenaars (1994) e também Hofstede (1991) são utilizadas para a melhor compreensão das diferenças entre as culturas nacionais e como elas podem impactar as relações internas e os resultados das organizações, diante das diferenças existentes entre a cultura dos países, em uma visão basicamente funcionalista. O gerenciamento da cultura, em muitos casos, pode gerar resultados mais efetivos do que o simples processo de comunicação informacional (HATCH; SCHULTZ, 2008). Importante destacar que um país pode não ter uma cultura única, existindo diferenciações por regiões, e que quando não consideradas, podem muitas vezes levar a suposições generalistas e sem um aprofundamento devido. A região, cidade, país e setor de atuação das organizações influenciam a sua imagem e reputação (ALMEIDA, 2008). Estudos realizados com empregados de empresas multinacionais apontam a falta de conhecimentos linguísticos e as diferenças culturais como as duas principais barreiras no 79 processo de comunicação intercultural (PELTOKORPI; CLAUSEN, 2009). Nos estudos realizados pelos autores, a questão do idioma muitas vezes não é levada em consideração, em que se assume que o conhecimento do inglês já seja suficiente para a compreensão dos empregados trabalhando em países distintos. Idioma e valores culturais têm três consequências distintas na comunicação intercultural: um idioma comum não significa que haja uma ausência de erros, já que a compreensão e a interpretação do discurso têm como base as questões culturais; as habilidades individuais em um segundo idioma é determinante para a compreensão plena das mensagens e até mesmo o nível de participação ativa nas interações; e a questão do idioma é mais forte do que os valores culturais por causa das barreiras funcionais e psicológicas que são impostas na interação social. O conceito de cultura tem evoluído nas últimas décadas possibilitando o surgimento da concepção da cultura organizacional, não podendo ser identificado com características isoladas, mas sim um todo inter-relacionado, sempre inserido dentro de um contexto. As várias definições de cultura e suas evoluções “[...] trazem componentes como ideias, ideologias, valores, atitudes, objetivos, normas, comportamentos aprendidos, símbolos, ritos, rituais, costumes, mitos, hábitos, artefatos, entre tantos outros conteúdos”, porém o significado conceitual é dado de acordo com o enfoque e a abordagem (MARCHIORI, 2008d, p. 74). Cultura organizacional também pode ser definida como um subsistema da cultura, sendo ao mesmo tempo parte e o todo (BALDISSERA, 2009a). “Os estudos culturais não apenas negam que a cultura é uma coisa entre muitas em organizações, a classificação omite as coisas importantes que os pesquisadores etnográficos afirmaram sobre estruturas de organizações e atividades como os canais e as relações inter-pessoais. 16” (DEETZ, 2001, p. 7, tradução nossa, destaque no original). Na visão de Baldissera (2013, p. 9), os empregados são portadores da cultura organizacional, estando “imbuídos de suas prescrições e proscrições de modo que tenderão a observá-las quando de suas manifestações [...].”. Para Marchiori (2008d, p. 77) “[...] culturas são dificilmente planejadas ou presumíveis; elas são produtos naturais da interação social.”. A cultura influencia e é influenciada pela sociedade em um movimento contínuo e constante. “A cultura emerge ‘na’ e ‘da’ organização, através da interação diária dos membros que a compõem.” (GUEDES, 2008, p. 3). Conhecer profundamente a cultura organizacional é compreender parte do funcionamento e o contexto que estão inseridos os empregados. A cultura vai além da 16 “Not only do cultural studies deny that culture is one thing among many in organizations, the classification buries the important things that ethnographic researchers said about organizations´ structures and activities like channels and interpersonal relations.”. 80 expressão da organização, ela também pode ser um papel de guia, demonstrando as formas de sentir, reagir, pensar e expressar da organização (GUEDES, 2008). A cultura organizacional pode ser fundamental para que os empregados compreendam melhor as mudanças frequentes ocorridas no ambiente interno das organizações, servindo como uma âncora mental e emocional que ajudará os indivíduos a compreender, avaliar e reagir de forma mais adequada (SENNETT, 2006). Existe também uma correlação entre cultura e comunicação já que comunicação é uma manifestação cultural, estando inserida nela e também é o seu local de manifestação (BALDISSERA, 2009a). Porém, segundo Schein (1996), estudiosos não têm prestado a devida atenção ao sistema social interno das organizações, o que tem levado a uma subestimação do impacto que as questões relativas à cultura (normas, valores e suposições) têm nas organizações. Para que os estudos e a compreensão sobre cultura possam avançar, é necessário que haja uma observação, e não apenas uma mensuração da cultura das organizações. Podemos afirmar que além da cultura, as organizações são orientadas pelos seus valores, identidade, missão e visão, parte constituinte do ideário organizacional (NASSAR, 2008a). Cultura e liderança estão diretamente ligadas, como dois lados da mesma moeda, não sendo possível compreendê-las se não em conjunto e interação (SCHEIN, 2009). Essa posição reforça a importância da liderança nas relações internas com os empregados. Podemos afirmar que todos integrantes da organização acabam expressando a cultura organizacional no seu comportamento e no dia a dia da suas interações, sendo que é por meio dos processos comunicacionais que as organizações demonstram a sua “forma de ser e de se conduzir” (NASSAR, 2008a). Tanto a cultura nacional quanto a cultura da organização são fatores importantes e determinantes no processo de comunicação com os empregados. No momento da presença internacional de uma organização, as diferenças culturais do país e da própria organização, devem ser consideradas com a formulação das estratégias de relacionamento e comunicação com todos os interlocutores, em especial com os empregados. Já na visão de Geertz (2008), o conceito de cultura é mais delimitado e menos funcionalista do que os conceitos defendidos por outros teóricos. O autor defende um conceito semiótico de cultura, baseado nas reflexões de Max Weber, onde “[...] o homem é um animal amarrado a teias de significação que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não com uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado.” (GEERTZ, 2008, p.4). Dentro dessa lógica, a “[...] a cultura é uma caixa preta na qual se depositam fracassos sem muitas análises 81 e explicações, uma variável a mais, no contexto das demais, e não um contexto no interior dos quais as coisas se tornam inteligíveis.” (BARBOSA, 2013, p. 63). Segundo Geertz (2008), temos a capacidade de experimentar diversas vidas e somos os únicos dotados de uma cultura particular e específica que vai nos acompanhar durante nossas experiências. Como identificado por Geertz (2008), a análise do impacto da cultura deve passar pela análise das teias de significados que compõem as relações, em uma abordagem semiótica, como é compreendida, interpretada e ressignificada pelos indivíduos em uma visão de uma ciência interpretativa e não experimental e na busca de leis e postulados. Existem diferentes níveis de tensão entre o sujeito e a cultura, tratando-se de uma permanente relação de poder, relação individual ou entre sujeitos tensionados no processo de (re)tecer a cultura (BALDISSERA, 2009a). Cultura organizacional é parte determinante e resultante das características e comportamento das organizações. Compreender a cultura interna poderá contribuir para o entendimento das relações e para a caracterização da comunicação interna de uma organização. Faz-se necessário a compreensão da cultura organizacional, bem como da cultura do país em que a organização está inserida, no caso de multinacionais, para uma análise mais aprofundada das relações dos empregados com os seus pares e das relações com a liderança organizacional. Os hábitos de interação dos trabalhadores com os processos comunicacionais também são influenciados pela cultura organizacional. É na construção de significado/comunicação que a cultura é formada nas organizações. As organizações são reflexo das características centrais do ambiente, do contexto. “Ela (a cultura) é essencialmente experimentada por seus membros de maneira conjunta, o que, sem sombra de dúvida, afeta a realidade organizacional e a forma com que os grupos se comportam e validam as relações internas (MARCHIORI, 2008d, p. 94). Cultura organizacional pode ser considerada um fenômeno interativo, já que é nessas relações que a cultura se forma e transforma no contexto organizacional (MARCHIORI, 2008d). Na visão de Schein, cultura organizacional é definida como [...] o conjunto de pressupostos básicos que um determinado grupo inventou, descobriu ou desenvolveu ao aprender a lidar com os problemas de adaptação externa e de integração interna, e que funcionou bem o bastante para serem considerados válidos e ensinados aos novos membros com a forma correta de perceber, pensar e sentir em relação a esses problemas17. (SCHEIN, 1984, p. 3, tradução nossa). 17 “Organizational culture is the pattern of basic assumptions that a given group has invented, discovered, or developed in learning to cope with its problems of external adaptation and internal integration, and that have worked well enough to be considered valid, and, therefore, to be taughl to new members as the correct way to perceive, think and fell in relation to those problems.”. 82 Baldissera (2009a) descreve que, quando um novo empregado inicia suas atividades em uma organização, ele enfrenta um ambiente desconhecido e, aos poucos, começa a compreender suas características. A interface com a nova cultura organizacional é um marco nas atividades profissionais. São experiências tensionadas pelo conflito inerente das diferenças e também da disputa de sentidos. O novo empregado pode apresentar uma identificação imediata pela cultura organizacional, aceitando-a e reforçando-a. Ele pode ser cooptado, apesar de não reconhecer (total ou parcialmente) essa nova cultura, a fazer parte do ambiente por justificativas diversas (necessidade de trabalho, benefícios financeiros, situação de desemprego, etc.) e, após um período, acaba sendo impregnado pelas teias simbólicas. Outra situação é a representação, quando o novo empregado, apesar de ter divergências significativas diante da cultura, opta por simular um aceite para garantir a sua sobrevivência. O empregado inclusive aprende sobre a “gramática cultural” para representar nas suas relações internas. Um outro momento é o do enfrentamento, quando o empregado não se reconhece na organização e opta por criar momentos de embate, não se sujeitando as mudanças ante as pressões organizacionais (BALDISSERA, 2009a). São quatro possíveis estágios apresentados pelo autor nas interações dos empregados em uma nova cultura organizacional: a identificação, a cooptação, a representação e o enfrentamento. Esses estágios também estão presentes em empresas multinacionais, que além de sofrerem uma influência das diferenças da cultura organizacional, também estão entrelaçados na cultura de seu país de origem e de onde estão atuando. A cultura organizacional das empresas com atividades internacionais influencia como essa se comporta e gerencia os seus processos, estando sensíveis aos fatores culturais. “Como nas negociações internacionais, é intenso o processo de interação entre pessoas e culturas nacionais e organizacionais distintas, as diferenças culturais podem ser particularmente relevantes para o resultado do processo.” (TANURE; DUARTE, 2006, p. 208). A relação entre matriz e subsidiária de empresas multinacionais também são influenciadas pela cultura nacional, a diferença entre culturas não só causa conclusões generalizadas mas também impactam como as orientações são percebidas e analisadas pelos empregados (PATERSON; BROOK, 2002). Quando maior a diferença cultural entre os empregados, maiores são os desafios para equalizar as relações em uma base comum de entendimento e compreensão. Um importante fator é a distância (cultural, administrativa, 83 geográfica e econômica) existente entre o país de origem da organização e de suas subsidiárias. 3.2.2 Impacto da distância O fator distância (cultural, administrativa, geográfica e econômica) impacta as operações das organizações, seja nos processos produtivos e de logística de produtos e serviços, seja nas relações entre as diferentes unidades que a compõem. Baseados nos estudos de Ghemawat (2001) sobre o impacto da distância nas relações entre países e no hábito de consumo, identificam-se quatro fatores que influenciam e determinam os negócios em organizações multinacionais: fatores culturais (religião, raça, normas culturais, idioma); fatores administrativos (histórico de colonização, moeda, acordos de comércio); fatores econômicos (qualidade da rede de distribuição, produto interno bruto); e a distância geográfica. Fatos tecnológicos e psíquicos também podem impactar essas relações e o estabelecimento de multinacionais em outros países. O comportamento dos empregados, seus hábitos de trabalho e suas relações com as organizações também podem ser analisados de acordo com o fator distância (entre o país de origem da empresa e o país onde atua). Empregados que trabalham em ambientes multiculturais também são impactados pelo fator distância. Levando-se em consideração o fator distância (cultural, administrativo, geográfico e econômico) é possível identificar as características que favorecem ou dificultam a realização de negócios internacionais. O quadro de distância CAGE (sigla em inglês para Cultural, Administrativo, Geográfico e Econômico) possibilita uma visualização dos negócios mais impactados em função das suas características, bem como dos itens a serem observados em cada dimensão. 84 Quadro 3 – Quadro de distância CAGE Atributos criando distância Distância cultural Distância administrativa Distância geográfica Distância econômica - Idiomas diferentes - Ausência de passado - Distância remota - Diferença de renda - Diferenças étnicas, falta histórico comum - Falta de fronteira - Diferença no custo e de conexão étnica, as - Falta de moedas comum qualidade de: recursos relações sociais - Políticas - Falta de acesso ao naturais, recursos - Religiões diferentes governamentais mar ou ao rio financeiros, recursos - Normas sociais diferentes - Tamanho do país humanos, infraestrutura, diferentes - Fraquezas institucionais - Fraqueza de dados intermediários, transporte ou conexão informação e de comunicação conhecimento Setores indústrias ou produtos afetados pela distância - Diferença no clima - Produtos com alto - Envolvimento do - Produtos com o - A demanda varia de índice de questões governo em setores valor associado ao acordo com o nível linguísticas (ex.: TV) como: bens de primeira peso (ex.: cimento) financeiro (ex.: carros) - Produtos afetados por necessidade (ex.: - Produtos que são - Economia de escala é questões culturais ou energia); grande frágeis ou perecíveis importante (ex.: identidade nacional (ex.: empregadores (ex.: (ex.: frutas e vidro) celulares) alimentos) agricultura); - Produtos em que - Custo da mão de obra é - Produtos com variáveis fornecedores do governo comunicações e importante (ex.: de tamanho (ex.: carros), (ex.: transporte público); conectividade são vestuário) padrões (ex.: eletrônicos) atividades envolvendo importantes (ex.: - Distribuição e sistema e embalagem questões nacionais (ex.: serviços financeiros) de negócios são - Produtos com aeroespacial); áreas de - Supervisão e diferentes (ex.: seguro) identidade associada a importância para a operações locais são - Companhias precisam país (ex.: vinho) segurança nacional (ex.: necessários ser responsáveis no pós- telecomunicações); venda (ex.: produtos para recursos naturais (ex.: casa) óleo e mineração) e altamente dispendiosos (ex.: infraestrutura) Fonte: GERMAWAT, 2001, p. 5, tradução nossa. Nos aspectos culturais, a diferença linguística talvez seja a mais visível, bem como as diferenças étnicas e religiosas, mas as diferenças nas normas sociais, que muitas vezes só são compreendidas durante o convívio em um determinado país, também precisam ser levadas em consideração. No caso da distância administrativa, um aspecto importante a ser observado é a relação histórica entre os países, colonizador e colonizado. Estudos indicam que esta relação aumenta em 900% as relações comerciais entre os países que possuem passado histórico de 85 colonização (GHEMAWAT, 2001), o que justifica a existência de um maior número de empresas multinacionais de origem portuguesa, por exemplo, em países que foram colonizados por Portugal. Políticas governamentais e a existência de uma estrutura institucional forte também fazem parte do composto administrativo. A distância geográfica é facilmente percebida e compõe esse grupo de análise o tempo de deslocamento, o tamanho do país, e a existência de infraestrutura de transporte e acesso. As análises do clima e do tipo de terreno também fazem parte dessa dimensão. O tipo de moeda, modelo econômico, além dos custos e qualidade da mão de obra, fazem parte dos itens a serem analisados na dimensão econômica. Diferentes tipos de setores apresentam distintos tipos de impacto quando se analisam os fatores descritos. Produtos alimentícios sofrem impactos em todas as dimensões, porém com intensidades e formas diferentes dos serviços de consultoria, de tecnologia ou do setor da construção civil. O fator distância também impacta os custos de operação de organizações multinacionais (KOGUT; ZANDER, 1993). Como destacado, a distância cultural, a administrativa, a geográfica e a econômica são fatores que impactam os negócios de empresas multinacionais e, além de reconhecer a existência das diferenças entre nações/povos, é importante analisar os impactos que essas distâncias exercem sobre os processos comunicacionais direcionados aos empregados. As traduções de comunicados, adaptações em função de questões religiosas, conhecimento das relações internas e do contexto são importantes no desenvolvimento da comunicação direcionada aos empregados. Na relação entre matriz e subsidiária, esses fatores também são vitais para estabelecer fluxos de orientações e trabalho. Com isso, os processos comunicacionais também precisam ser concebidos e operacionalizados à luz dessas diferenças influenciados pelas distâncias culturais, administrativas, geográficas e econômicas existente entre as diversas nações e regiões do mundo. As relações entre matriz e subsidiárias de uma mesma organização são impactadas pelos fatores descritos e o grau de distância (cultural, administrativa, geográfica e econômica) existente entre os países. Essas relações podem ser facilitadas pela proximidade cultural, por exemplo, ou pelas características econômicas entre os países de origem da matriz e das suas subsidiárias. Diferentes subsidiárias apresentam relações em grau distinto com a matriz da organização. Essas diferenças podem ser oriundas da distância cultura, administrativa, geográfica ou econômica entre os países de origem da matriz e das subsidiárias. Uma 86 subsidiária de uma empresa brasileira no Peru apresenta um quadro de distância menor que uma subsidiária em Omã, por exemplo. 3.2.3 Relações entre matriz e subsidiárias Os estudos de estratégias internacionais, ou internacionalização das organizações, podem ser divididos em análises econômicas, comportamentais e no modelo de redes (KOGUT; ZANDER, 1993). Nesta pesquisa, não é o foco de análise os motivadores do processo de internacionalização das organizações ou seus modelos. Parte-se do pressuposto que as organizações consideradas já possuem um modelo de internacionalização definido, cabendo uma análise das relações entre a matriz e suas subsidiárias, uma vez que essas relações são um fator determinante no processo de comunicação com os empregados. As multinacionais são de análise complexa e apresentam desafios para estudos acadêmicos em função do seu tamanho, disposição geográfica, além de várias facetas existentes dentro de um único ambiente. As reorganizações são recorrentes no processo evolutivo das multinacionais o que leva a impactar os seus estudos sobre o tema (BIRKINSHAW, 1994). No processo de análise das relações entre matriz-subsidiárias, segundo Birkinshaw (1994), um modelo de duas dimensões é apresentado: todo ou parte e hierarquia ou heterarquia (sistema matricial de relação entre as áreas da organização com ênfase no relacionamento intersubsidiárias) formando quatro possíveis quadrantes em que as organizações são classificadas de acordo com o nível de hierarquia (versus heterarquia) e o envolvimento total (ou parcial) nas relações. Quadro 4 – Estratégia e estrutura em multinacionais: um quadro organizativo Hierarquia A B Estratégia-estrutura Relacionamento matriz-subsidiária Heterarquia C D Processual Papel Subsidiária Total Parte Fonte: BIRKINSHAW, 1994, p. 113, tradução nossa. A análise dessas dimensões possibilita quatro perspectivas que são correntes de estudo na área de negócios internacionais, apresentados no quadro 4: estratégia-estrutura (A); relacionamento matriz-subsidiária (B); processual (C) e papel subsidiária (D). Na análise 87 estratégia-estrutura (A), a teoria de base é a contingencial em que o tamanho organizacional é um aspecto importante, sendo o ambiente o principal fator de impacto. Este modelo é baseado nas experiências das organizações americanas em que existe uma equipe dedicada às transações globais, sendo a relação entre matriz e subsidiária baseada em uma estrutura funcional. O modelo prevê a visão do todo organizacional em um ambiente hierarquizado. No caso do relacionamento matriz-subsidiária (B), a matriz é o centro das análises e o único relacionamento relevante que uma subsidiária pode ter é com a sua própria matriz. As subsidiárias estão em uma posição de inferioridade e têm pouco espaço para opinar, discutir e propor soluções conjuntas ou até mesmo para a sua própria área de atuação. As partes que compõem as organizações são identificadas, mas a relação hierárquica é mantida. Já, no modelo processual (C), a ênfase está na estrutura organizacional dos processos, em que existe uma liberdade de ação das subsidiárias, em face da ausência de conhecimento e domínio do mercado, processos e consumos em todas as localidades, e a visão continua sendo da totalidade da organização. Na análise do papel da subsidiária (D), a ênfase dos estudos está nas relações entre matriz e subsidiária, levando-se em consideração o papel que a subsidiária desempenha no contexto organizacional. Destaca-se a existência de relacionamentos locais (fornecedores, clientes, governos, entidades) desenvolvidos pelas subsidiárias e também a ampliação do seu escopo original, com autorização para produção comercialização de bens e prestação de serviços além das suas fronteiras de origem. As subsidiárias podem desempenhar o papel de centro de excelência e também estabelecer a interface com outras subsidiárias, modelo até então não concebido nas demais perspectivas (A, B e C). As partes são identificadas (subsidiárias) com base na visão das suas importâncias individuais. A hierarquia, nesse modelo, é substituída por um modelo mais matricial de relação entre matriz e suas subsidiárias. (BIRKINSHAW, 1994). O modelo do papel da subsidiária destaca uma liberdade de atuação maior para as subsidiárias que os demais modelos apresentados. A matriz perde a sua centralidade, passando a fazer parte da organização, e avaliando os potenciais competitivos das subsidiárias e como essas podem contribuir como desenvolvimento da organização como um todo, inclusive assumindo atividades até então tipicamente das matrizes. O crescimento das subsidiárias inclusive pode acontecer sem o apoio da matriz. O desenvolvimento das subsidiárias pode ser explicado segundo três possíveis fatores: relacionados à matriz, questões referentes à própria subsidiária ou fatores relativos ao contexto em que essa se encontra (PATERSON; BROCK, 88 2002). No modelo apresentado por Birkinshaw (1994), um ou mais desses fatores serão determinantes para o desenvolvimento das atividades no nível da subsidiária. O desenvolvimento das subsidiárias é baseado em três pilares que poderão impactar a velocidade, formato e os resultados do processo. O primeiro pilar é o próprio processo de internacionalização, que inclui todas as questões referentes a mudanças, disponibilidade de recursos, competição global, bem como reestruturações de setores e áreas. O segundo pilar é a escolha de gestão das subsidiárias que inclui o nível de autonomia e as relações de subordinação. O terceiro pilar é o ambiente local em que são destacadas as oportunidades e as restrições de atuação das subsidiárias. Quando as subsidiárias têm orientações claras do formato da sua atuação, os resultados são superiores aos das organizações sem um direcionamento estratégico. Neste modelo de autonomia das subsidiárias, é comum acontecer o desenvolvimento sem um sincronismo entre as várias unidades, em função das oportunidades, cenários locais, bem como pelo potencial local (PATERSON; BROCK, 2002). O modelo de estratégia e estrutura utilizado pelas organizações no processo de internacionalização e as relações entre matriz e subsidiárias impactarão diretamente os processos de comunicação, em especial os relativos aos empregados. A cultura organizacional e do país são importantes fatores que influenciam a forma de condução da comunicação com os empregados. As características da cultura do país, bem como da cultura organizacional, podem ser fatores de sucesso ou impeditivos para as organizações em processo de internacionalização. Como já mencionado, as relações entre matriz e subsidiárias também são impactadas pelos fatores culturais organizacionais e do país de origem e país de atuação. No momento de planejamento e avaliação dos processos de comunicação interna de organizações multinacionais, o modelo de gestão dos negócios adotado nas relações entre matriz-subsidiária (estratégia-estrutura, relacionamento matriz-subsidiária, processo ou papel subsidiária) é determinante para as relações entre a matriz da área de comunicação e suas atividades nas subsidiárias. Centralização de decisões, liberdade de adaptação, maior controle ou até mesmo acompanhamento do desempenho das atividades de comunicação serão baseados no modelo adotado pela organização. Como os processos comunicacionais são baseados nas relações entre pessoas e são dotados de variáveis subjetivas em que as características de quem produz e as expectativas a quem essa comunicação se destina, nota-se que qualquer alteração no contexto será suficiente para influenciar as trocas simbólicas. O contexto sociocultural e comunicacional nas 89 multinacionais é um ambiente rico para os estudos e observações dessas trocas simbólicas, além de ser dotado de uma riqueza nos conflitos em função das diferenças culturais. 90 4 ODEBRECHT E IBM: DOIS UNIVERSOS COMPLEXOS, DISTINTOS E DESAFIADORES 4.1 Percurso metodológico Este estudo é uma pesquisa exploratória que tem como objetivo investigar a comunicação direcionada aos empregados em organizações multinacionais buscando compreender como se dá a adaptação dos processos comunicacionais para as realidades locais considerando as diferenças socioculturais e comunicacionais. Estudos de comunicação interna em empresas multinacionais são limitados (KALLA, 2005) e geralmente fazem parte de estudos na área da administração com enfoque nos negócios, sendo que as interações comunicacionais não são o objetivo principal de análise (PATERSON; BROCK, 2002). Para atingir os objetivos de investigação da comunicação interna em organizações multinacionais, foi necessário analisar este processo em diferentes ambientes (matriz e subsidiárias em países diferentes), buscando compreender os tensionamentos existentes nas relações entre matriz e subsidiária em organizações multinacionais no âmbito da comunicação interna. Fez-se necessário também compreender a percepção e avaliação dos empregados da matriz e da subsidiária com relação ao processo de comunicação interna, além de verificar a percepção dos empregados (da matriz e da subsidiária) sobre a reputação (grau de estima, admiração, respeito e confiança) das organizações. A análise de conteúdo será utilizada para a interpretação das entrevistas. Foram realizados dois estudos de caso nas empresas IBM e Odebrecht com o intuito de entender como são realizados os processos de comunicação interna direcionados aos empregados das duas organizações. O foco de análise concentrou-se na relação das áreas de comunicação da matriz e das subsidiárias, buscando compreender o nível de autonomia da subsidiária em relação às orientações da matriz, a adequação/reconstrução da linguagem para atender a demandas regionais e a percepção dos empregados, da matriz e das subsidiárias, em relação à qualidade da comunicação direcionada a eles. Esta pesquisa teve caráter exploratório, pois, além de focar em um objeto de estudo, a comunicação interna, área ainda pouco estudada no âmbito da comunicação organizacional (KALLA, 2005; VERCIC; VERCIC; SRIRAMESH, 2012), o contexto proposto (de empresas multinacionais) acrescenta variáveis de alta complexidade, além das já existentes nas organizações na contemporaneidade (fragmentação, incerteza, complexidade, ambivalência e fracasso). As características locais da organização, a diversidade do público interno e a 91 segmentação da produção de comunicação dentro de um contexto diverso e múltiplo são possíveis influências no processo comunicacional direcionada aos empregados. O Grupo Odebrecht e a empresa de tecnologia IBM são organizações multinacionais com processos de comunicação interna consolidados, baseados em diretrizes corporativas e com um número significativo de empregados presentes em vários países. As duas organizações possuem os requisitos para que seja possível uma análise das interações comunicacionais em contextos socioculturais e comunicacionais distintos, diversos e complexo. IBM é uma multinacional com sede nos Estados Unidos e presente em todos os continentes, inclusive no Brasil, e a Odebrecht tem sede no Brasil e possui atividades em diversos países, com uma operação nos Estados Unidos desde a década de 1990. Ambas as empresas possuem uma comunicação estruturada no nível da matriz e das subsidiárias, com equipe de profissionais de comunicação dedicados, recursos financeiros destinados à área de comunicação e incentivo à participação da liderança nos processos comunicacionais. A existência de bibliografia e estudos publicados sobre as organizações também foi um fator importante na escolha das empresas. Outro aspecto determinante para a escolha das organizações foi a aceitação e abertura por parte das áreas de comunicação para que a pesquisa empírica fosse realizada, sendo disponibilizados dados e informações sobre a organização, além do que é de domínio público e também o acesso aos empregados para a realização das entrevistas. A pesquisa foi concentrada em dois países, Brasil e Estados Unidos. Na Odebrecht, foram entrevistados empregados na matriz em São Paulo e Rio de Janeiro e na subsidiária da empresa em Coral Gabes (Flórida) nos Estados Unidos. No caso da IBM, foram entrevistados empregados na matriz em Nova Iorque e na subsidiária no Brasil, nas cidades de Hortolândia (SP) e São Paulo e no Rio de Janeiro. Foi possível, assim, comparar a diferença cultural da gestão da comunicação interna de uma empresa brasileira com a de uma empresa americana e suas relações com os empregados nas subsidiárias nos mesmos países segundo o quadro 5. Empresa Quadro 5 – Relação das localidades dos entrevistados Odebrecht IBM Matriz São Paulo / Rio de Janeiro (Brasil) Nova Iorque (EUA) Subsidiária Coral Gables (Flórida – EUA) Hortolândia (SP) / São Paulo / Rio de Janeiro Fonte: Pesquisador 92 A pesquisa foi realizada considerando três eixos norteadores de análise. No primeiro eixo, buscou-se analisar as relações entre matriz e subsidiária no âmbito do processo de comunicação interna. No segundo eixo, focou-se na compreensão do processo de percepção e avaliação dos empregados da matriz e da subsidiária com relação à comunicação interna. No terceiro e último eixo, intencionou-se verificar a percepção dos empregados da matriz e da subsidiária sobre a reputação das organizações, ou seja, o grau de estima, admiração, respeito e confiança. O foco das entrevistas dos empregados e das equipes de comunicação nas matrizes e nas subsidiárias das organizações permitiu que fosse feito uma comparação entre as percepções dos profissionais envolvidos no processo de produção a comunicação interna (equipes de comunicação) e também na instância da percepção do processo de comunicação destinado aos trabalhadores, bem como a percepção a reputação das organizações pelos seus trabalhadores (grupo de empregados). Para a construção do corpus desta pesquisa qualitativa, optou-se por criar, em princípio, dois grupos de entrevistados por organização, os empregados de nível não gerencial (com o objetivo de avaliar o nível de recepção e percepção) e a equipe de comunicação, gestores e analistas (com o objetivo de analisar o nível de produção da comunicação interna). Dessa forma, estaria sendo coberta as instâncias de produção da comunicação interna e também a percepção da comunicação direcionada aos empregados, bem como a percepção sobre a reputação organizacional. Os entrevistados foram indicados pelas áreas de comunicação das organizações, a partir de orientações repassadas pelo pesquisador (tempo de casa, sexo, área de trabalho, cargo, função) sendo a amostra intencional. Um misto entre homens e mulheres, empregados recém-contratados, com um tempo intermediário na organização e também empregados com um maior tempo de trabalho. Os empregados indicados foram entrevistados no local de trabalho durante o seu expediente laboral. No caso da equipe de comunicação, foram entrevistados todos os envolvidos no processo, de nível gerencial e não gerencial. Após a realização das primeiras entrevistas com estes dois grupos nas duas empresas, percebeu-se a necessidade da criação de um terceiro grupo, para confronto dos dados coletados nas entrevistas até então realizadas somente com empregados. Como os dois grupos de entrevistados (empregados e equipe de comunicação) eram formados apenas por atuais empregados das organizações, onde inclusive existe uma relação de submissão e de dependência de trabalho, uma relação assimétrica, além de serem os produtores da comunicação interna nas duas organizações, optou-se pela formação de um terceiro grupo. 93 Ex-empregados integrantes das áreas de comunicação das duas organizações foram também entrevistados com o intuito de formar um grupo de “contraposição”, em que as informações relatadas pelos empregados e pela equipe de comunicação pudessem ser confrontadas. Denominaremos esses entrevistados de “grupo de contraposição”, pois esse foi o seu objetivo primário na sua constituição e no momento da análise de dados. No intuito de analisar a instância da produção da comunicação interna, foram entrevistados 15 integrantes das equipes de comunicação (gestores e analistas) na matriz e na subsidiária da IBM e Odebrecht, com o objetivo de compreender as instâncias de produção da comunicação nos dois níveis (matriz e subsidiária) e também estabelecer o grau de autonomia entre esses dois grupos. Para contrapor a posição desses entrevistados, nove ex-integrantes das equipes de comunicação da IBM e Odebrecht também foram incluídos no corpus. Estes profissionais não fazem parte mais das estruturas organizacionais das empresas e têm uma visão mais crítica das suas experiências e não possuem vínculos direto de trabalho com a IBM ou com a Odebrecht. Esses entrevistados estão em uma posição de maior distanciamento e têm a possibilidade de exercer uma postura mais crítica em face dos fatos, além de terem outras experiências atuais após suas passagens pelas duas organizações. Para analisar as relações entre matriz e subsidiária, a compreensão da percepção e avaliação dos empregados com relação à comunicação interna e a verificação da percepção dos empregados sobre a reputação das organizações foram realizadas 42 entrevistas em profundidade nas duas organizações segundo tabela 1. Tabela 1 – Número de entrevistas realizadas entre outubro de 2012 e dezembro de 2013. Empregados – Equipe de comunicação Contraposição instância da – instância da produção (ex-empregados) Organização Total percepção Matriz Subsidiária Matriz Subsidiária Matriz/Subsidiária IBM (EUA/Brasil) 2 6 4 4 6 22 Odebrecht (Brasil/EUA) 4 6 3 4 3 20 Total 6 12 7 8 9 42 Fonte: Pesquisador Com o objetivo de compreender a percepção da comunicação interna e da reputação organizacional, 18 empregados, a maioria exercendo função não gerencial, sendo seis nas matrizes e 12 nas subsidiárias, compõem o grupo entrevistado com os objetivos de avaliar a percepção do processo de comunicação interna e também medir o grau de admiração, estima, 94 respeito e confiança nas organizações, ou seja, a percepção da reputação por parte dos empregados nas duas empresas. O quadro 6 resume os grupos de entrevistados e os objetivos esperados. Quadro 6 – Grupos de entrevistados e objetivos esperados Grupo Descrição Objetivos esperados Equipe de Comunicação Profissionais da área de Analisar as relações entre a comunicação interna, de matriz e a subsidiária, nível gerencial ou não, compreendo o grau de responsáveis pela orientação autonomia de ação da e produção da comunicação subsidiária em relação à direcionada aos empregados, matriz e liberdade de na matriz e na subsidiária. adaptação e soluções de comunicação. Empregados Empregados de cargos não Compreensão da percepção e gerenciais, com tempo de avaliação do processo de experiência nas empresas comunicação interna e variados que trabalhem na percepção sobre o grau de matriz e na subsidiária. admiração, respeito, estima e confiança nas empresas, ou seja, a percepção da reputação organizacional. Ex-empregados Ex-empregados das áreas de Grupo com o olhar de quem comunicação das empresas vivenciou a comunicação no âmbito da matriz ou da interna nas duas regional. organizações e hoje está em uma posição de distanciamento, possibilitando inclusive um nível crítico maior. Fonte: Pesquisador Com o objetivo de responder às questões centrais deste estudo foram criadas quatro categorias de análise: a) Relações entre as áreas de comunicação da matriz e da subsidiária (adequações de soluções de comunicação e linguagem em contextos socioculturais e comunicacionais distintos); b) Percepções dos empregados e de ex-empregados da matriz e da subsidiária sobre a comunicação interna; 95 c) Percepções dos empregados e de ex-empregados da matriz e da subsidiária sobre a reputação das organizações (grau de estima, admiração, confiança e respeito); d) Tensionamentos nas relações na modernidade. Nos objetivos desta pesquisa, estão inseridos os questionamentos de “como” se dão as relações entre matriz e subsidiárias no âmbito da comunicação interna além de “como” se dão os processos de percepção e avaliação dos empregados com relação ao processo de comunicação interna. Entender “por que” os empregados confiam, admiram e respeitam as organizações contribui para compreender a percepção dos empregados da matriz e da subsidiária sobre a reputação organizacional. A técnica utilizada para a realização da pesquisa foi um estudo de caso de duas organizações de diferentes setores, ambas com estruturas definidas de comunicação interna. O estudo de caso pode ser definido como “[...] uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e contexto não estão claramente definidos.” (YIN, 2005, p. 32). O estudo de caso pode ser utilizado quando o pesquisador tem o interesse nos fenômenos contemporâneos inseridos em um contexto do cotidiano e quando o questionamento está no “como” e no “por que”, além de um cenário de ausência de controle dos acontecimentos por parte do condutor dos estudos (YIN, 2005). No estudo de caso, é importante que o pesquisador realize uma observação direta dos acontecimentos que são foco da sua pesquisa além de realizar entrevistas com os envolvidos no processo. O estudo de caso pode ser caracterizado como uma estratégia de pesquisa abrangente, que envolve um processo de planejamento, técnicas específicas de coleta de dados e de análise específicas (YIN, 2005). Por natureza, os estudos de caso são baseados em múltiplas fontes de dados e evidências. São identificados por Yin (2005) seis fontes de coleta de dados nos estudos de caso: documentação, registros, entrevistas, observação direta, observação participativa e artefatos físicos. Sendo essas fontes suficientes para alimentar as informações necessárias para a condução da pesquisa de campo. São princípios importantes no processo de coleta de dados a existência de várias fontes com a atenção que haja uma convergência para os objetivos da pesquisa, um banco de dados que suporte a análise das informações e também um encadeamento de evidências, ou seja, relação entre os questionamentos propostos, os dados coletados e as conclusões do projeto de pesquisa (YIN, 2005). 96 Somado ao estudo de caso, para os objetivos de pesquisa propostos, realizou-se uma revisão bibliográfica, buscando um levantamento de conceitos e estudos já realizados na área de comunicação no contexto organizacional com foco na comunicação direcionada ao público interno. A bibliografia disponível sobre o tema é restrita em especial em organizações multinacionais (KALLA, 2005). A partir dessa revisão bibliográfica foi possível caracterizar o processo de comunicação interna em organizações multinacionais na atualidade. Para analisar os objetos empíricos, foram pesquisadas publicações na área de comunicação que tenham como fonte e referência os modelos de comunicação interna das duas organizações, por meio de estudos de casos ou artigos publicados pelos gestores de comunicação da IBM e Odebrecht. Estas publicações (ODEBRECHT, 2010, 2001a, 2011b; 2011c; POLIDORO, 2010; BELOCH; FAGUNDES, 1997) contribuíram para uma melhor compreensão das relações internas, do histórico e também do posicionamento oficial das organizações diante de temas de interesse e correlatos a esse estudo como: cultura organizacional, produção de veículos internos, comunicação da liderança e também outros temas secundários como exportação, mudança de estratégia de negócio, séries históricas e também as relações institucionais e governamentais. Como instrumento de coleta de dados, optou-se pela utilização de entrevistas semiestruturadas em profundidade. As entrevistas possibilitam a compreensão das relações entre os atores sociais e seus universos, nos quais é possível estabelecer um processo social, uma interação entre o objeto e o pesquisador, sendo as falas as interpretações das realidades vivenciadas pelos entrevistados (GASKELL, 2002). Com essa abordagem, foi possível uma imersão na percepção dos empregados e também dos gerentes de comunicação das organizações sobre temas relevantes para o estudo. Estas conversas possibilitaram uma interação com o objeto de pesquisa a partir da interpretação destes dois grupos distintos e importantes para a compreensão das realidades organizacionais. Foram também realizadas entrevistas semi-estruturadas em profundidade com os diretores de comunicação e responsáveis pelo processo de comunicação interna nas matrizes e subsidiária da Odebrecht e da IBM. As entrevistas na Odebrecht aconteceram na matriz em São Paulo e Rio de Janeiro e na subsidiária da empresa em Coral Gables (Flórida) nos Estados Unidos. Na IBM, as entrevistas ocorreram na matriz em Nova Iorque nos Estados Unidos e nas subsidiárias do Brasil em Hortolândia (São Paulo), São Paulo e Rio de Janeiro. A entrevista em profundidade possibilita destacar as representações e os significados que o entrevistado julgam serem importantes, a partir da sua própria história, em sua 97 constante relação com outros indivíduos, em um processo de socialização (LALANDA, 1998). As entrevistas em profundidade podem ser divididas em três grupos: testemunho história de vida e narrativa (LALANDA, 1998), sendo o testemunho a modalidade utilizada nesta pesquisa. Os entrevistados foram estimulados a testemunhar as suas experiências nas empresas que trabalham centrados nas questões de comunicação interna. Este tipo de entrevista tem importância na pesquisa pois nos levam a uma dimensão testemunhal e a enunciação de um eu social (CHANFRAULT-DUCHET apud LALANDA, 1998). As diversas falas dos entrevistados são comparadas possibilitando confrontar experiências e observar vivências distintas e similares. O depoimento é individual, mas o pesquisador não deve centrar-se na particularidade, fala única, mas sim focar na interseção entre os relatos possibilitando assim compreender “[...] como os indivíduos vivenciam o seu quotidiano, em particular determinados acontecimentos ou mudanças, durante a sua vida.” (LALANDA, 1998, p. 887). As perguntas devem ser preparadas de modo a ter interesse não apenas para o pesquisador, mas em especial para o entrevistado, que deve se sentir motivado a contribuir e respondê-las na sua plenitude (SANMARTÍN, 2000). Durante a realização de uma entrevista, o momento deve ser conduzido como um diálogo, uma “conversa intencionada” em que existe um contrato entre o entrevistado e o pesquisador. Este contrato é narrativo, pois é solicitado ao entrevistado um relato; é autobiográfico, já que a narrativa é focada na vida e experiência do entrevistado; e é interpessoal, pois existe uma relação em que o pesquisador também se apresenta com um projeto definido, em construção (CHANFRAULT-DUCHET apud LALANDA, 1998). No momento das entrevistas, o roteiro deve ser utilizado como um norteador da conversa. Em alguns casos, os assuntos abordados foram além do que estava préestabelecido pelo pesquisador, mas apresentou-se de profunda riqueza no processo de análise dos dados. A atenção deve estar focada no entrevistado, pois é esta atitude que causará empatia e permitirá que o entrevistador se coloque no lugar no entrevistado (SANMARTÍN, 2000). Não há dúvida que a entrevista é uma das ferramentas mais importantes para a pesquisa de campo, é uma oportunidade de interação humana, e é por isso que a postura do pesquisador tem um alto impacto no processo, sendo fundamental a disposição de ouvir e expor perguntas realmente relevantes para os entrevistados (SANMARTÍN, 2000). A escolha do local e horário das entrevistas, bem como a definição da duração, foi estabelecida previamente com o entrevistado objetivando que houvesse uma total confiança na relação durante a entrevista. Na condução desta pesquisa, houve o conhecimento e consentimento por parte da empresa, por 98 meio da sua área de comunicação, para que os empregados fossem entrevistados durante o horário e no local de trabalho, entre outubro de 2012 e dezembro de 2013. A análise de conteúdo deve partir de uma ordenação. Segundo Bardin (2002), na análise de conteúdo, faz-se necessário a codificação dos resultados, a análise do material e a categorização. As informações devem estar de forma organizada para possibilitar uma correta análise. A análise de conteúdo é ao mesmo tempo temática, baseada em frequência, transversal e também quantitativa. “As diferentes fases da análise de conteúdo, tal como o inquérito sociológico ou a experimentação, organizam-se em torno de três polos cronológicos: a pré-análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados, a inferências e a interpretação.” (BARDIN, 2002, p. 95). Maia e França (2003) afirmam que, sendo a comunicação formada por elementos múltiplos e dinâmicos, para uma correta abordagem de estudo, é necessária a escolha de uma metodologia plural, que consiga apreender o movimento e considere a interseção dos elementos contidos no processo. O contexto sócio-histórico das organizações e dos interlocutores é importante, pois, a comunicação se dá na interação, compartilhando sentidos, em uma perspectiva relacional (BALDISSERA, 2008b). Além desse contexto sócio-histórico leva-se em consideração também os largos avanços tecnológicos ocorridos nos últimos anos que estão a impactar as relações nas/das organizações. Por isso, a opção da utilização de uma metodologia que contempla todos estes aspectos de importante relevância. O objeto da teoria da comunicação seria a princípio todos os fenômenos comunicativos. Porém uma vez que a sociedade só existe “no” e “pelos” atos comunicativos, pois é a partir deles que se cria, se estabelece e se mantém o vínculo social, a comunicação se mostra como um “meio”, um “através de”, o que torna extremamente complexa a tarefa de circunscrevê-la para estudá-la. Como congelar um objeto tão escorregadio, que só existe em processo, em movimento, e só aparece num entre-lugar, na medida em que se revela como aquele que une elementos? Por isso, é compreensível o fato dos pesquisadores se debruçarem sobre os elementos que constituem o ato comunicativo. (VEIGA, 2005, p. 7). Entrevistas com os gestores e produtores de comunicação interna das organizações, seguidas de uma análise dos materiais produzidos e disponibilizados, poderiam limitar o propósito desta pesquisa. O objetivo deste estudo não se limita ao olhar da produção e veiculação. Trata-se de uma análise de como o público interno é impactado por essas mensagens e como ele percebe o processo de mediação do discurso organizacional global em um contexto local. Como destacado por Baldissera (2008a) ambos, produtor e receptor se modificam, interagem ao disputar sentidos, na circularidade, nas relações. Por isso, a ênfase na entrevista em profundidade com os empregados para melhor compreender as suas relações 99 com a organização, o processo de comunicação interna (como usuários, consumidores de informações e coprodutores) e suas percepções sobre as organizações que atuam. 4.2 Área de comunicação interna em empresas multinacionais Apresentamos as duas organizações que são objetos de estudo com suas características, estruturas, áreas de atuação e informações relevantes para a pesquisa. Também são descritas informações básicas sobre as estruturas de comunicação interna e suas relações entre matriz e subsidiárias, tendo como fonte de análise as publicações sobre a comunicação da Odebrecht e IBM pesquisadas e informações obtidas por meio das entrevistas em profundidade. Após essa contextualização, serão analisados os resultados das entrevistas em profundidade realizadas nas duas organizações no período de outubro de 2012 a dezembro de 2013, totalizando 42 entrevistas, sendo 20, na Odebrecht, e 22, na IBM, que contribuíram para compreender as relações entre as áreas de comunicação da matriz e das subsidiárias, a percepção dos empregados a respeito da comunicação interna e da reputação da organização. Para garantir o sigilo e preservação das fontes entrevistadas, as citações serão identificadas apenas com o grupo que o entrevistado pertence (empregado, equipe comunicação ou exempregado), seu local de trabalho (matriz ou subsidiária) e a organização a que pertence (Odebrecht ou IBM). Todos os ex-empregados entrevistados foram das áreas de comunicação, alguns da matriz outros da subsidiária. 4.3 Odebrecht – uma organização com uma cultura determinante A Odebrecht S.A., criada em 1981, é a holding que controla uma diversidade de empresas próprias e participação acionária em outras organizações com operações em quatro segmentos distintos: engenharia e construção, investimento em infraestrutura e energia, indústria e instituições auxiliares. Atualmente os negócios da Odebrecht S.A. estão focados em vários segmentos do mercado indo muito além da construção civil, origem do grupo com a criação da Construtora Norberto Odebrecht S.A. em 1944. Foi anterior a este período que a família Odebrecht, originária da Alemanha, iniciou as suas atividades na área da construção civil. O bisavô de Norberto Odebrecht, fundador da Odebrecht S.A., Emil Odebrecht foi quem emigrou para o Brasil e começou a atuar na área de demarcação de terras na região de Santa Catarina no ano de 1856. Emílio Odebrecht (neto de Emil Odebrecht e pai de Norberto 100 Odebrecht) fundou a construtora Isaac Gondim e Odebrecht Ltda e, em 1923, criou outra empresa no mesmo ramo, a Emílio Odebrecht & Cia. Em 1941, Norberto, filho de Emílio, assumiu os negócios do pai na região de Salvador (Bahia) e depois de três anos, em 1944, ele fundou a Construtora Norberto Odebrecht S.A., que seria o início e a base das atividades das empresas do grupo (ODEBRECHT, 2013). O processo de internacionalização da Odebrecht começou no fim da década de 1970 no Peru e no Chile e, logo em seguida, expandiu sua atuação para outros países na América Latina, África e Ásia. Foi por meio de aquisições que a empresa chegou até a Europa, durante a compra da construtora portuguesa José Bento Pedroso & Filhos em 1988. A atuação internacional ainda é marcada pela atuação na área de Engenharia e Construção, mas também já desenvolve atividades na área de Infraestrutura e Energia além da área Industrial. Uma das suas empresas, a Braskem, do setor de petroquímicos, tem presença na Alemanha e Estados Unidos (ODEBRECHT, 2013). Identifica-se no início do processo de internacionalização da Odebrecht uma escolha por países com uma menor distância geográfica (países no mesmo continente) e distância cultural (origem latina, proximidade dos idiomas), além de uma menor distância administrativa (laços coloniais) e econômica (nível de desenvolvimento) da sede da matriz da empresa no Brasil. A Odebrecht está presente em 25 países e possui um quadro de aproximadamente 180 mil empregados (ODEBRECHT, 2013). A Odebrecht tem uma cultura orientadora para a unicidade do comportamento dos seus empregados e possui registro em livros e documentos internos dos seus princípios fundamentais, conceitos essenciais, critérios gerais e responsabilidade empresarial. Para orientar os seus empregados, a organização desenvolve há mais de 65 anos a Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO) que foi concebida pelo fundador, Norberto Odebrecht, e está em constante revisão e atualização. Esta tecnologia empresarial está baseada na educação e no trabalho, sendo definida como uma filosofia de vida que “[...] valoriza a disposição para servir, a capacidade e o desejo de evoluir e a vontade de superar resultados. Prevê ainda um processo de delegação planejada, baseada na confiança e parceria entre Líderes e Liderados.” (ODEBRECHT, 2013). A cultura organizacional é definida na Odebrecht como sendo práticas empresariais baseadas em princípios similares independentemente da posição, cargo, local ou atividade desenvolvida pelo integrante18, muito referenciada pela comunicação existente entre líder e liderado em uma perspectiva pedagógica. À área de comunicação foi delegado um papel de 18 Integrante é a nomenclatura para designar os empregados que trabalham na Odebrecht. 101 educador da cultura organizacional. O processo de comunicação estaria a serviço da construção e difusão da cultura organizacional da Odebrecht principalmente por meio de exemplos e práticas, buscando reconhecer e valorizar os comportamentos que estão de acordo com a TEO e também demostrar, por intermédio dos registros comunicacionais (matérias nos veículos internos, entrevistas com a liderança e empregados que reforçam a cultura organizacional, eventos de reconhecimento), os exemplos julgados apropriados e reforçar o caminho comportamental que a organização deve seguir. Aos profissionais de Comunicação foi delegada, portanto, a missão de exercer o papel de educador. Entendendo-se educação como a prática de influência positiva sobre o outro, do comunicador-educador passou-se a exigir não apenas a capacidade de intermediar as relações institucionais entre empresa e comunidade – diretamente ou mediante os instrumentos de que esta dispõe (entidades organizadas, formadores de opinião e imprensa) -, mas, e principalmente, a competência para enriquecer o repertório dos líderes da empresa e de todos os que estes lideram para que possam compreender os fenômenos comunicacionais contemporâneos e manejá-los com eficácia. (POLIDORO, 2010, p. 332). Os integrantes da Odebrecht percebem o papel da comunicação como disseminador da cultura da empresa. Quando indagados se a comunicação contribui para a percepção da empresa e da cultura da Odebrecht, reforçam a proposta apresentada pela equipe de comunicação da matriz. “Sim, contribui pelo menos indiretamente, pela comunicação que acontece internamente, com o objetivo de ser parte da organização, uma organização que é realmente uma grande família.19” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). A Odebrecht iniciou suas operações nos Estados Unidos no ano de 1990, considerado o mercado mais competitivo no setor da construção civil. A expansão para atividades nos Estados Unidos foi possível em função da confiança dos seus integrantes e parceiros locais, baseados na sua filosofia de trabalho. Segundo relato do presidente da Odebrecht nos Estados Unidos, a receptividade ao modelo de gestão da empresa brasileira foi importante para o sucesso e continuidade dos negócios no país. “Todos na equipe da Odebrecht (nos Estados Unidos) se sentiram conectados com o espírito de servir.20” (ODEBRECHT, 2010, p. 1, tradução nossa). Sendo esse o ponto central da TEO. Muito dos contratados localmente nos Estados Unidos tiveram a oportunidade de assumir posições gerenciais em outros projetos da empresa no exterior. Profissionais de mais de 20 diferentes nacionalidades compõem a equipe 19 “It does at least indirectly, because of the communications that happen internally on that basis of being part of an organization that´s really a large family.”. 20 “Everyone on the Odebrecht team felt bonded by the spirit of service.”. 102 da Odebrecht nos Estados Unidos, o que já a torna uma equipe diversa e internacional, por natureza (ODEBRECHT, 2010). “Temos tantas pessoas aqui de diferentes culturas.21” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). 4.3.1 Tecnologia Empresarial Odebrecht - TEO A TEO pode ser considerada o registro da cultura organizacional da Odebrecht. Esses princípios estão sistematizados em três volumes e já estão na sua 11ª edição em português, 5ª edição em espanhol ambas de 2011 e na 4ª edição em inglês de 2005 (ODEBRECHT, 2011). Os volumes são divididos em: princípios, conceitos e critérios filosóficos nos quais se fundamenta a TEO (volume 1); formulação do programa de ação e gerenciamento de resultados em prazos e custos (volume 2); e as orientações práticas para a execução do programa de ação (volume 3). No total, são mais de 600 páginas escritas, editadas e atualizadas pelo fundador da organização e seus colaboradores em que estão registrados todos os seus pensamentos e orientações a respeito da Odebrecht e do comportamento esperado por aqueles que integram as suas empresas. Todos os novos empregados, no momento da contratação, recebem estes livros e são orientados a lê-los e praticá-los, alguns afirmam terem lido integralmente, “eu li e tem alguns pontos que são fáceis de entender.” (entrevista empregado / matriz / Odebrecht). Já outros destacam que já o fizeram, mas leram apenas uma parte. “Eu não os li (os livros da TEO) na sua totalidade, mas sim eu já li boa parte22” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). Quando um empregado americano da subsidiária é indagado sobre o trabalho em uma empresa de origem brasileira com uma cultura marcante, ele afirma que [...] tem uma cultura organizacional muito diferente. Tem uma atitude diferente direcionada às pessoas que deve ser mais uma questão Odebrecht do que uma questão brasileira. Mas eu acho que é um pouco das duas. E as relações aqui são mais pessoais do que eu experimentei trabalhando em um estilo mais americano 23. (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). Durante a sua trajetória profissional na organização, os empregados também recebem treinamento específico sobre a TEO e orientações de como devem transformar todos os 21 “We have so many people here of different cultures.”. “I haven´t read them in their entirety but, yeah, I´ve read a lot of it.”. 23 “There´s a different company culture. There´s a different attitude toward people with may be more Odebrecht than it is Brazilian. But I think it´s probably a little bit of both. Odebrecht is a family company and it feels very much like a large family. And the relationships here are more personal than what I´ve experienced working in more American style.”. 22 103 conceitos em prática. Esses programas de capacitação são formalmente difundidos em toda a organização e os empregados são encorajados pelas suas lideranças a participar e praticar. Existem módulos específicos e níveis também diferenciados de acordo com o tempo de trabalho na empresa e também o nível de conhecimento e vivência da TEO. Em uma analogia ao modelo de uma organização política, “[...] a chamada TEO é a constituição, a política é lei ordinária e a instrução é a portaria.” (entrevista equipe comunicação / matriz / Odebrecht). Já, na visão dos empregados, a TEO é considerada por alguns como uma “bíblia”, sendo o processo inicial na organização bastante complexo, até o momento em que existe a compreensão da cultura e das expectativas da liderança organizacional. Então, é meio difícil no começo para um monte de pessoas entender que alguém lhe diz que você precisa entender este livro, você precisa seguir este livro. É como uma bíblia. Isso é o que nós pensaríamos. Mas quando você começa a ler e compreender, não é realmente o que eles pensam que é, não é uma bíblia. É, basicamente, a filosofia da empresa, o que a fundação da empresa foi, e o que eles estão esperando de você.24 (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). A existência de uma cultura registrada e disseminada é considerada um ativo e diferencial da organização. “Então, a filosofia nos ajuda muito. Mesmo que você tenha a sua própria filosofia de vida, que seus pais lhes ensinaram na vida, a filosofia da empresa lhe dá uma força.”25 (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). Mas na visão da liderança brasileira que está na subsidiária dos Estados Unidos, o tempo para o aculturamento do americano nas bases da TEO foi muito longo. “Demorou muito. Eu estava aqui desde o início, eu digo que demorou mais de 15 anos.” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht). Esse tempo pode ser resultado das diferenças culturais entre os países e entre culturas organizacionais, como apontado por um empregado americano. “Há um choque de culturas quando as pessoas vêm de uma organização formal. 26” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). A diferente percepção da importância da representação da Odebrecht nos dois territórios (Brasil e Estados Unidos) também pode ser um fator que influencia o processo de aculturamento dos empregados trabalhando fora do país de origem da matriz. “Sendo um americano, eu me entusiasmo pela história do que a Odebrecht fez em Angola, na Venezuela, no México, nos Estados Unidos ou onde quer que 24 “So it’s kind of hard at the beginning for a lot of people to understand that, for someone to tell you you need to understand this book, you need to follow this book, it’s like a bible. That’s what we would think. But when you start reading into it and understanding, it’s not really what they think it is, like, a bible. It’s basically the philosophy of the company, what the foundation of the company was, and what they are expecting from you.”. 25 “So the philosophy does help a lot. Even though you have your own personal philosophy that your parents teach you in life, the philosophy of the company gives you a strength.”. 26 “There´s a clash of cultures when people come from a more formal organization.”. 104 seja. Tem muito entusiasmo para projetar em casa (no Brasil) e dizer: ‘olhem, isso é o que estamos fazendo’. E isso é bom.27” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). A TEO é um balizador para as ações e tomadas de decisão dos empregados no dia a dia da empresa. “[...] quando eu estou na dúvida do que fazer, o que decidir, é para a TEO que eu volto porque realmente ela me ajuda a parar, pensar, dar um passo para trás e pensar no que é certo.” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht). E quando confrontados com a possibilidade de mudanças na organização, um ex-integrante da área de comunicação afirma que “um dos princípios também da TEO, da cultura da organização é tudo muda dentro de uma base que nunca muda. [...] Qual é a base? É a TEO.” (entrevista ex-empregado comunicação / Odebrecht). A proposta da TEO é conseguir uma unidade de ação, pensamento e forma de trabalho nos diversos setores e localidades onde a Odebrecht atua, mesmo que exista uma diferença cultural e de experiências profissionais, é esperado dos empregados da Odebrecht que haja um comportamento baseado nos princípios da sua denominada tecnologia empresarial. “Então nós estamos de alguma forma seguindo uma cultura similar. [...] A mesma filosofia, seguimos o mesmo caminho. Apesar de você lidar com pessoas que têm experiências passadas distintas e também vivem realidades diferentes.28” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). Um ex-empregado integrante da área de comunicação também corrobora com a importância da cultura Odebrecht na busca de uma mesma forma de trabalho, apesar das diferenças culturais. “Independentemente de onde eu esteja, se eu estou na Angola, em Porto Velho ou em São Paulo, os mercados são completamente diferentes, perfil de público, enfim, a realidade da empresa é completamente diferente, mas a forma de agir dos integrantes é a mesma em qualquer lugar.” (entrevista exempregado comunicação / Odebrecht). Ao líder é designada a responsabilidade de “doutrinar” sua equipe de forma que “[...] nenhuma pessoa da organização alegue ignorância (sobre a TEO) [...]. Existe a crença em que o líder, quando assume a responsabilidade de liderança, esteja preparado para cumprir esse papel de catequese [...] é um programa de doutrinação.” (entrevista equipe comunicação / matriz / Odebrecht). Ao processo de orientação e explicação sobre os princípios da TEO, é 27 28 “As an American I see a lot of enthusiasm for a story about what Odebrecht did in Angola, in Venenzula, in Mexico or in the United States or wherever the case may be. There´s a deal of enthusiasm to project that back home and say, look, this is what we´re doing. This is great, this is good stuff.”. “So that we are somehow following a similar culture. […] The same philosophy, following the same path. Even though you are dealing with so many different backgrounds of people and realities in a sense.”. 105 dado o nome de “aculturamento”. Os integrantes são classificados de “aculturados” ou “em processo de aculturamento”, segundo o seu estágio de conhecimento sobre a cultura da Odebrecht e a capacidade de expressar publicamente os seus conhecimentos sobre o assunto. Os princípios fundamentais indicam os valores culturais éticos que devem nortear os trabalhos na empresa sendo eles: a confiança nas pessoas; a satisfação do cliente com base na qualidade, produtividade e nas questões socioambientais; o retorno ao acionista; a parceria entre os empregados; o autodesenvolvimento das pessoas com o foco na educação e na sobrevivência dos negócios e o reinvestimento dos resultados financeiros na busca da perpetuação e constante desenvolvimento dos negócios da empresa, tendo também como objetivo o crescimento das comunidades (ODEBRECHT, 2013; ODEBRECHT, 2011). Os conceitos essenciais foram desenvolvidos para estabelecer parâmetros claros das relações entre líderes e liderados. Sendo esses: a descentralização das atividades e tomadas de decisão; a delegação planejada como prática da confiança mútua; a tarefa empresarial com o foco na satisfação do cliente e o foco nos resultados indo dos clientes, primeiro e sendo transferidos para os acionistas buscando sempre uma perpetuação das atividades da organização (ODEBRECHT, 2013; ODEBRECHT, 2011). Os oito critérios gerais que definem a TEO foram estabelecidos para influenciar o modo de agir e pensar dos empregados, sendo esses: os valores da organização estão baseados no ser humano; os líderes devem ter domínio dos seus projetos e satisfazer tanto o cliente quanto ao acionista; todos devem trabalhar na educação para o trabalho; as funções de suporte aos negócios devem estar orientadas para a melhoria dos resultados e busca de oportunidades; os empregados podem partilhar os resultados que podem ser medidos, faturados e pagos pelo cliente; a liderança deve trabalhar de forma aberta para reconhecer o erro e agir na correção; a imagem ante a comunidade é mais importante, baseada na satisfação do cliente e o foco nas questões de saúde e segurança de todos os envolvidos nas operações. Os critérios gerais são detalhamentos e orientações de como os integrantes devem se comportar durante o trabalho nas empresas do grupo Odebrecht. Finalizando, na estrutura da TEO, são enumeradas as responsabilidades empresariais que todo integrante da Odebrecht deve basear o seu trabalho, sempre buscando produtividade e qualidade. As responsabilidades empresariais são: satisfação do cliente com produtos e serviços que vão contribuir para a comunidade; contribuição para o desenvolvimento socioeconômico nas localidades onde atuam; criação de oportunidades de trabalho e desenvolvimento com reinvestimento dos resultados; geração de renda para Governo e 106 sociedade com o devido recolhimento de imposto e remuneração de empregados, fornecedores e acionistas e respeito ao meio ambiente e contribuição para os projetos sociais. A TEO baliza a tomada de decisões na Odebrecht e principalmente orienta seus integrantes, líderes e liderados, no dia a dia da empresa, não dando espaço para intuição sem um conhecimento prévio da cultura organizacional (ODEBRECHT, 2011a). É atribuída à prática da TEO a responsabilidade por manter uma unicidade de atuação na Odebrecht e a existência de uma cultura única e singular, sendo essa um diferencial competitivo nos mercados e territórios de atuação da empresa. “Nesse sentido, resultados empresariais serão consequência direta de uma base cultural sólida na qual estão assentados princípios, valores, crenças, conceitos e critérios balizadores da interlocução social.” (POLIDORO, 2011, p. 331). O processo de seleção dos novos integrantes é bastante rígido e não somente baseado nas qualificações e conhecimentos técnicos. Busca-se no momento do recrutamento, a escolha de candidatos que tenham uma identificação com a cultura Odebrecht. O índice de rotatividade dos empregados da empresa é considerado baixo, são poucos os desligamentos e a tendência é de permanência nas Organizações Odebrecht durante um período longo, muitos começam no início de carreira até o momento da aposentadoria. “Quando a gente contrata sempre, contrata alguém que tenha um certo perfil adequado à equipe que você deseja montar, então, acho que é muito um processo natural [...].” (entrevista equipe comunicação / subsidiária / Odebrecht). Reforçando o posicionamento de contratação a partir do potencial que o candidato tem em se adaptar à cultura da Odebrecht, [...] a pessoa, logo quando entra, a gente está identificando realmente se essa pessoa tem esse perfil. E é importante essa identificação porque é nesse momento que a gente vai decidir se essa pessoa vai ter uma carreira grande com a gente, se vai ser feliz conosco e nós com ele. Existe essa combinação. (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht). Já um empregado local da subsidiária não acredita ser possível mudar as pessoas para elas se adaptarem a uma cultura. Na opinião desse empregado local da subsidiária existem pessoas com o perfil e cultura próximos aos da Odebrecht, o que facilita esta identificação e integração. “Eu não acho que seja possível mudar as pessoas. [...], eu acredito que as pessoas têm que ter, a moral [...] aplicada à cultura. [...] É uma pessoa Odebrecht.29” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). Para outro empregado local da subsidiária, a cultura Odebrecht é um diferencial no mercado. 29 I don´t think you can change pessoas. […] I think the person has to already have, like, those morals […] you apply them to the culture. […] It is an Odebrecht person.”. 107 Segundo a TEO, o processo de comunicação com os integrantes é responsabilidade da liderança, é delegada ao líder a comunicação direta com a sua equipe e a manutenção de um canal de diálogo permanente, na sua maioria, quando do interesse da organização. A área de comunicação é vista como suporte ao processo de diálogo interno por meio das publicações internas (impresso e digital) e ações de campanhas e eventos direcionadas aos empregados. (ODEBRECHT, 2011a). 4.3.2 O processo de comunicação interna A estrutura de comunicação interna segue os princípios da TEO de descentralização e de delegação de responsabilidade. A Diretoria de Comunicação está ligada à Vice-Presidência de Pessoas, Tecnologia da Informação, Sustentabilidade, Comunicação e Equipamentos. A equipe corporativa desenvolve diretrizes e orientações para serem consideradas pelas empresas do grupo e subsidiárias. “A orientação se faz por meio da política [...] e, nessa política, estão as macro orientações, estão os conceitos essenciais de comunicação, a filosofia que embasa todo processo de comunicação [...].” (entrevista equipe comunicação / matriz / Odebrecht). Não existe uma gestão direta ou controle das atividades de comunicação nos diversos países onde a Odebrecht atua. A Odebrecht, por ser uma organização extremamente descentralizada. Nós acreditamos que as soluções, os meios e os encaminhamentos devem estar pautados pela realidade local e é o líder local que tem que ter a sensibilidade para apreender esta realidade e a partir das orientações que ele recebe e que são macro, ele pode praticar a sua comunicação de forma eficaz e alinhada com o pensamento do grupo. (entrevista equipe comunicação / matriz / Odebrecht). Os processos de gerenciamento de crise e gestão da marca possuem uma gestão mais centralizada e com um controle maior, tendo influência e participação maior da área corporativa. Esse modelo é reconhecido pela equipe de comunicação da subsidiária, que afirma manter um relacionamento informal com o corporativo, a partir de demandas e necessidades e reforça que não possui prestações de contas estruturadas. [...] a gente não tem nada que seja estruturado [...]. É muito mais na base de troca de ideias, de informações, de saber o quê a gente está fazendo aqui, o que eles estão fazendo lá. [...] Cada estrutura em cada pequena empresa30 cria os seus processos dentro de um alinhamento mínimo que é definido. (entrevista equipe comunicação / subsidiária / Odebrecht). 30 Empresa pequena é o termo utilizado para designar as várias empresas que compõem as unidades de negócio. 108 Os produtos e processos que são concebidos, orientados e distribuídos pela área corporativa sofrem adaptações locais a partir de uma avaliação da equipe de comunicação da subsidiária. “[...] tudo que vem do Brasil de certa forma é filtrado pela gente primeiro para ver como que a gente vai adaptar a nossa realidade local.” (entrevista equipe comunicação / subsidiária / Odebrecht). A ausência de uma comunicação interna estruturada na matriz também é percebida pelos empregados, inclusive da subsidiária. “[...] por natureza nós não temos muitos canais formais de comunicação. Somos uma organização informal.31” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). Fato também reforçado por integrantes do grupo de contraposição que também identificada a qualidade da comunicação interna, como sendo o processo de relacionamento com a liderança e não somente baseado nos fluxos estruturados pela área de comunicação, “o que acontece dentro da empresa depende muito do líder.” (entrevista ex-empregado comunicação / Odebrecht). Na figura 2, o organograma da área de comunicação na matriz da Odebrecht. Figura 2 – Organograma da área de comunicação da matriz da Odebrecht Fonte: Equipe de comunicação Odebrecht (matriz) 31 “[…] by nature we don´t have a lot of internal communication channels. We are an informal organization.”. 109 Baseado no modelo apresentado por Birkinshaw (1994), a Odebrecht segue o “papel da subsidiária”, em que se nota um grau elevado de liberdade, desde que seguindo as orientações e princípios da TEO, para atuação das empresas do grupo, bem como de suas subsidiárias. As subsidiárias desenvolvem relacionamentos locais e acabam também ampliando sua atuação além do território designado, quando há oportunidade de trabalho e novos negócios. A matriz desenvolve o papel de orientadora, mas a decisão é delegada às suas subsidiárias, inclusive nas questões relativas à comunicação. Cada subsidiária tem o dever de se desenvolver, buscando ativar oportunidades de negócio e não dependem financeiramente da matriz. A TEO determina inclusive que cada subsidiária (em alguns casos denominada de “pequena empresa”) seja autossustentável, financeira e gerencialmente. A descentralização faz parte do modelo de negócio da Odebrecht, sendo depositado na liderança e no modelo de gestão da cultura o elo entre todas as unidades de negócio e seus integrantes. “A descentralização é um conceito que a Organização Odebrecht tem praticado desde as origens, para promover sua estratégia de crescimento sadio, equilibrado e continuado.” (ODEBRECHT, 2011a, p. 80). Quando as orientações são claras no modelo de autonomia das subsidiárias, os resultados de negócios são geralmente superiores (PATERSON; BROCK, 2002). Na figura 3, está o organograma da área de comunicação da subsidiária da Odebrecht nos Coral Gables (Flórida) nos Estados Unidos. Figura 3 – Organograma da área de comunicação da subsidiária da Odebrecht em Coral Gables (Flórida) nos Estados Unidos MACROESTRUTURA 2014 COMUNICAÇÃO – ODEBRECHT EUA PRESIDENTE Odebrecht EUA FINANÇAS COMUNICAÇÃO PESSOAS SUSTENTABILIDADE RELAÇÕES PÚBLICAS MARKETING Fonte: Equipe de comunicação Odebrecht (subsidiária Estados Unidos) Os profissionais de comunicação que estão nas subsidiárias recebem macro orientadores corporativos, como explícito na TEO, a responsabilidade do desenvolvimento 110 dos trabalhos é de responsabilidade do profissional que está no local. A estrutura de comunicação da matriz não desenvolve nenhum tipo de cobrança no dia a dia das atividades. As atividades são delegadas com responsabilidade, como também descrito na TEO, cabendo ao profissional que está na subsidiária buscar orientações, se necessário, e compartilhar suas atividades com a sua liderança do negócio. A área corporativa funciona como um suporte quando acionada. “A Odebrecht não é uma empresa de processos [...] definidos a partir do corporativo do Brasil. E a comunicação entre eles fluem de forma que essas duas estruturas (matriz e subsidiária) se encontrem, mas não é um procedimento, um processo bemestruturado.” (entrevista equipe comunicação / subsidiária / Odebrecht). Justificando essa forma de trabalho, uma integrante da equipe de comunicação da subsidiária argumenta sobre o nível de autonomia que possuem nas obras “até porque é tão diferente você falar das obras, essas pequenas empresas. Cada uma tem uma necessidade muito diferente, nosso papel (da área de comunicação) é apoiar [...] a necessidade de cada presidente, para a sua obra.” (entrevista equipe comunicação / subsidiária / Odebrecht). Relatando a relação entre a matriz e a subsidiária, um ex-empregado da área de comunicação explicita: [...] não existia nenhuma norma, nenhuma diretriz, eu não precisava de aprovação do corporativo, mas todo material quando estava pronto eu ia para São Paulo ou para Brasília, caso a equipe estivesse lá, e sentava com a equipe para conversar não com o objetivo de ter uma aprovação, em geral a postura da equipe nesse tempo como um todo sempre foi muito positiva, muitas vezes surgia um comentário, surgiam sugestões extremamente enriquecedoras. [Fulano] se a gente fizer isso aqui acho que pode dar uma melhorada, mas nunca era ‘fulano’ faça isso. (entrevista ex-empregado comunicação / Odebrecht). No caso específico do processo de comunicação com os empregados, não existe uma área formal na estrutura corporativa, pois é creditado ao líder da Odebrecht a função maior de comunicação com os seus liderados. Como pode ser confirmado na figura 2. “Então, não há uma estrutura de comunicação interna formal como se conhece.” (entrevista equipe comunicação / matriz / Odebrecht), segundo reforçado pelos entrevistados na matriz e subsidiária, com os empregados e equipe de comunicação, destacando o papel da liderança em realizar a comunicação com os integrantes. “[...] Alinhamentos se dão por meio do diálogo deste líder para os seus liderados [...] já que o princípio é que a comunicação, importante e válida, é a que se dá pessoa a pessoa, à base do diálogo.” (entrevista equipe comunicação / matriz / Odebrecht). Na estrutura organizacional, não existe uma área dedicada aos processos de comunicação interna, existem responsáveis por produtos editoriais direcionados ao público interno, que também desenvolvem outros produtos de comunicação para outros públicos e 111 fins. “A Revista Odebrecht Informa é prioritariamente para o ambiente interno, só que ela é muito distribuída externamente, ela vai para clientes, para autoridades, para a imprensa. [...] É o principal meio que a organização hoje tem [...] de transmitir a cultura para os integrantes.” (entrevista equipe comunicação / matriz / Odebrecht). Para a empresa, “[...] a qualidade do líder só pode ser medida pela qualidade de seus liderados.” (ODEBRECHT, 2011a, p.56). Esta posição, descrita na TEO, reforça a responsabilidade que a liderança da empresa tem na gestão da sua equipe, inclusive sendo avaliada pelo seu sucesso tendo o seu desempenho medido a partir do sucesso dos seus liderados. A TEO define a comunicação como um processo de compartilhamento de conhecimentos e informações, “comunicar é ainda criar um caminho de dupla via entre seres humanos igualmente livres, ao estimular que cada um interaja com os demais, desde que esteja disposto a influenciar e a ser influenciado, na busca de o que é o certo para todos.” (ODEBRECHT, 2011a, p. 60, destaque no original). É também responsabilidade do líder dedicar-se para que os seus liderados compreendam e sigam as orientações e princípios da TEO. Ao líder é delegada a responsabilidade da comunicação interna com os seus liderados, sendo os veículos e campanhas apenas suporte ao processo. “E eles (os líderes) fazem isso acontecer, fazem com que a informação, quando solicitadas, chegue para todos os integrantes.”32 (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). A cultura Odebrecht também destaca a existência de sistemas de comunicação e informações, dentro do seu processo de gestão, sendo responsabilidade de cada líder de projetos/empresas, a implementação de estratégias de comunicação que consiga atender às necessidades do negócio como: manter o público interno informado, criar um contato direto com o cliente, contribuir para o acompanhamento dos trabalhos e resultados (ODEBRECHT, 2011a). A área de comunicação é classificada como área de suporte e apoio aos negócios que, segundo os critérios gerais da TEO, devem prestar apoio necessário para os líderes de negócio na busca de melhores resultados e oportunidades (ODEBRECHT, 2013). Com o objetivo também de contribuir para uma linguagem única e compreensiva para a TEO e os produtos de comunicação da Odebrecht, a equipe corporativa desenvolveu um Glossário de Expressões e Palavras Usadas na Tecnologia Empresarial Odebrecht (ODEBRECHT, 1993). Esse documento é utilizado no versionamento para outros idiomas e contribui inclusive para uma melhor compreensão dos conceitos existentes na TEO e também para o processo de comunicação em diferentes culturas. Como defendido por Polidoro (2010, 32 “And they make it happen to make sure that that information, once requested, gets out there to the people.”. 112 p. 330), “quem domina a língua do interlocutor tem maior possibilidade de desvendar o universo cultural em que o outro se move. As palavras têm conotações e denotações. As traduções feitas por terceiros nem sempre fazem sentido para quem as diz, ou para quem as ouve”. Não se trata apenas de um processo de tradução, mas sim de versionamento e neste caso com orientações claras do corporativo para garantir uma unicidade nos diversos territórios e culturas onde a Odebrecht atua. Quando indagado sobre a influência da TEO nos processos de comunicação, um integrante da equipe da matriz afirma que “(a TEO) influencia totalmente. Acho que o primeiro ponto é a linguagem. Ela (a TEO) é determinante. Ela é o que norteia a nossa linguagem, a escolha do vocabulário, a escolha das palavras.” (entrevista equipe comunicação / matriz / Odebrecht). Segundo Polidoro (2011, p. 333), o desafio da comunicação da Odebrecht está na incorporação das tecnologias, hoje disponíveis, nos processos de comunicação, de forma a contribuir para o diálogo, e utilizá-las na contínua construção da cultura organizacional, cultura essa pautada por “[...] leis objetivas, impessoais, imutáveis e universais.” Os desafios apresentados para a Odebrecht são relacionados ao seu rápido crescimento e à necessidade de desenvolvimento de uma liderança alinhada à sua cultura e princípios. Como a sua comunicação interna está baseada no papel do líder, sendo a área corporativa suporte às subsidiárias que trabalham de forma descentralizada, o que une as práticas e os processos são a cultura e a política de comunicação (que tem como base a sua cultura). Para os gestores que estão nas subsidiárias, o maior desafio da comunicação interna é o alinhamento e preservação da cultura e o atendimento das expectativas dos acionistas. “[...] o desafio da comunicação interna é a forma de preservação da cultura [...] você está vendendo a empresa, você está representando a empresa, tem que ser muito em linha com que os acionistas querem [...]”. (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht). O desafio do crescimento do número de empregados também é uma oportunidade para o trabalho da comunicação interna que, na Odebrecht, tem a responsabilidade de fazer o processo de disseminação da cultura empresarial. “[...] o desafio é o crescimento, é muita gente entrando, como que a gente acultura essas pessoas para que todo mundo esteja na mesma página?” (entrevista equipe comunicação / subsidiária / Odebrecht). Os profissionais de comunicação da Odebrecht na matriz e na subsidiária vivenciam experiências e desenvolvem seus trabalhos com base nas orientações da TEO. Seguem as orientações de disseminar, reforçar e contribuir para que os integrantes da empresa vivenciem 113 a TEO no seu dia a dia, tornando-a uma referência para a cultura Odebrecht e fonte de inspiração e orientadora para os trabalhos e diretrizes de negócio. 4.3.3 Relações entre as áreas de comunicação da matriz e da subsidiária As relações entre as áreas de Comunicação da matriz e da subsidiária são baseadas nas orientações gerais da Odebrecht. Toda a empresa é descentralizada, seguindo o modelo do “Papel da Subsidiária” proposto por Birkinshaw (1994), e a área de comunicação da matriz segue as mesmas orientações nas suas relações com as subsidiárias, de forma descentralização. A área de comunicação está estruturada e direcionada a servir aos negócios e contribuir para o processo de integração entre eles, quando e se necessário. Não há uma política de controle ou fóruns periódicos de acompanhamento sistêmico com o objetivo de acompanhar o que está sendo feito e como estão sendo implementadas as diretrizes corporativas que, em número e frequência, são bastante reduzidas. Apenas uma reunião anual é realizada com o grupo de comunicação da matriz e subsidiária com o objetivo de troca de experiências e conhecimento, denominado de Comunidades de Prática de Comunicação. Este grupo teve início em outubro de 2012, durante a realização da primeira reunião na Cidade do Panamá (Panamá). Em outubro de 2013, o segundo encontro do grupo foi realizado em Lima (Peru). A Política de Comunicação, que é baseada na TEO, apenas destaca algumas questões mais técnicas referentes aos processos de comunicação. Na avaliação da equipe de comunicação na matriz da empresa, existem várias vantagens para uma gestão descentralizada. [...] essa riqueza, essa diversidade, essa troca, essa possibilidade de experiências. Não ser tudo muito engessado, amarrado, acho que isso favorece a criatividade, estimula a criatividade que é um ponto muito importante da nossa cultura que a gente estimula bastante. Acho que essa comunicação assim descentralizada permite tudo isso. (entrevista equipe comunicação / matriz / Odebrecht). Somente o processo de gestão da marca e gestão de crise tem um maior envolvimento da estrutura de comunicação na matriz. Demais ações, são de total responsabilidade dos negócios ou seja, das equipes de comunicação das subsidiárias. “A gente não pode pegar o empacotadinho do Brasil e jogar aqui. Isso está acontecendo com cada um dos ambientes. Em Angola, na Argentina. Em todos os países.” (entrevista equipe comunicação / subsidiária / Odebrecht). Essa situação também se aplica no caso de comunicação com os integrantes. Existe uma liberdade de atuação, baseada na confiança e no modelo de gestão da Odebrecht 114 como reforçado por um integrante da equipe de comunicação da subsidiária “cada um é responsável pelo seu negócio, então acho que qualquer comunicação que a gente faz, a gente nunca vai partir de uma premissa ‘vocês têm que fazer dessa forma’.” (entrevista equipe comunicação / subsidiária / Odebrecht). Não existe, por parte dos empregados entrevistados na subsidiária da Odebrecht, um sentimento de isolamento ou de limitação, há sim um empoderamento por parte dos profissionais da área e um reconhecimento de que uma liberdade para atuar gera responsabilidade e também benefícios para o resultado dos trabalhos, que sempre são focados no sucesso das operações no âmbito local, de forma descentralizada. Na relação da área de comunicação entre matriz e subsidiária na Odebrecht, a descentralização, baseada na delegação e na responsabilidade, reforça uma característica cultural, destacando que “numa estrutura descentralizada, os problemas de cada Liderado, por este, devem ser encarados como desafios e transformados em oportunidades de melhor servir e obter melhores resultados.” (ODEBRECHT, 2011a, p. 80), destaque no original. Não se trata de um modelo exclusivo da área de comunicação, mas de um modelo de gestão de toda a organização. Segundo a equipe de comunicação na matriz, após algumas experiências, na relação entre matriz e subsidiária de comunicação, notou-se a necessidade de criação de um grupo de troca de experiências e aprendizagem interno, denominado de Comunidade de Conhecimento, modelo já existente na Odebrecht, também parte integrante da TEO, em que áreas do mesmo segmento se reúnem presencial ou virtualmente para um intercâmbio de práticas focadas na gestão do conhecimento técnico dentro da empresa. Atualmente, na Odebrecht, existem 14 Comunidades de Conhecimento, e a área de Comunicação mantém uma ativa. A gestão dessas comunidades é feita pela equipe ligada a gestão da Cultura Odebrecht que é responsável em disponibilizar recursos para que os objetivos sejam alcançados (intercâmbio, troca de experiências e gestão do conhecimento), sendo delegada a um integrante da equipe de comunicação a liderança do grupo. A comunidade de prática da área de Comunicação tem como líder um profissional do negócio, hoje responsável pela comunicação no Peru, sendo essa prática mais uma comprovação do modelo descentralizado. A equipe corporativa participa da comunidade como mais um membro e não no processo de liderança do grupo. Seguindo a análise do grau de distância proposto por Germawat (2001), a matriz da Odebrecht no Brasil, em relação a sua subsidiária nos Estados Unidos, apresenta um nível de distância nas quatro dimensões relativamente baixo, ou seja, a cultura Brasileira e Americana, as questões administrativas, geográficas e econômicas são bem próximas. Um outro fator que 115 contribui para a diminuição dessa distância é a contratação de profissionais brasileiros da área de comunicação que já estejam morando no país, no caso nos Estados Unidos. A equipe de comunicação da Odebrecht na subsidiária na Flórida é formada integralmente por brasileiros, mas que já residem nos Estados Unidos por um longo período, inclusive anterior ao início dos trabalhos na empresa. Quando indagados sobre a presença de brasileiros na área de comunicação da subsidiária da empresa nos Estados Unidos, os entrevistados afirmam que ter alguém que conheça a cultura e o idioma do Brasil e esteja morando nos Estados Unidos há algum tempo facilita o intercâmbio entre as áreas e a compreensão das questões internas à empresa. O modelo de gestão de comunicação da Odebrecht, a partir da análise das entrevistas realizadas com os empregados e com as equipes produtoras e disseminadoras de comunicação na matriz e na subsidiária, está inserido em um contexto do gerenciamento cultural, segundo o modelo de análise proposto por Deetz (2010). É delegada à área de comunicação da Odebrecht a disseminação da cultura organizacional e a criação (pelo menos tentativa de criação) de uma linguagem única por toda a empresa. “As organizações, vistas dessa perspectiva, são entidade criadoras de significados que modelam maneiras específicas de entendimento; os sistemas de comunicação são o centro desse processo.” (DEETZ, 2010, p. 88). Essa delegação é percebida e reconhecida pelas áreas de comunicação, que passam a ter na sua centralidade da comunicação com os integrantes, o foco na disseminação da cultura Odebrecht. 4.3.4 Percepção dos empregados e ex-empregados da matriz e da subsidiária sobre a comunicação interna A comunicação interna direcionada ao empregado é muito bem avaliada tanto pelos empregados que trabalham na matriz quanto pelos empregados que trabalham na subsidiária. “Estão tentando deixar tudo muito mais acessível e se a gente tiver interesse a gente tem aonde buscar.” (entrevista empregado / matriz / Odebrecht). Os empregados corporativos tendem a ser um pouco mais críticos, quanto ao papel da liderança na comunicação com as equipes, indicando falhas. Quando indagados sobre a liderança, os empregados afirmam que nem sempre recebem informações de forma sistemática e frequente “[...] a gente tem menos momentos de falar dos assuntos mais estratégicos, mas ele (o líder) tenta, é uma pessoa aberta quando a gente questiona [...].” (entrevista empregado / matriz / Odebrecht). Já os empregados na subsidiária revelam ter uma proximidade maior com a liderança, inclusive 116 uma abertura para o diálogo e o questionamento. “Nós queremos encontrar e falar com o presidente da empresa o máximo possível33”. (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). Os empregados da subsidiária reforçam o desejo de receber informações e estarem informados sobre o futuro a empresa. Porque todos nós queremos saber para onde estamos indo. Todos querem saber se iremos estar aqui amanhã. E a boa coisa sobre a Odebrecht, é que eles (a liderança) levam isso em consideração. E eles fazem acontecer, ter a certeza de que quando solicitado, a informação chegue aos empregados.34 (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). A totalidade dos entrevistados (quatro da matriz e seis da subsidiária) indica e reconhece a existência de canais de comunicação formais com os integrantes nas suas versões impressa (Revista Odebrecht) e on-line (Boletim Eletrônico e Intranet). No âmbito corporativo, são poucas as produções além dos veículos regulares como campanhas e eventos internos. O espaço da comunicação com os empregados é ocupado pelas questões locais e relevantes para os integrantes. Os integrantes da Odebrecht acabam recebendo o maior volume e intensidade de informações a partir dos seus gestores diretos. Todos os entrevistados reforçam que recebem com frequência informações sobre o negócio em que atuam, sobre a organização e principalmente sobre a estratégia da Odebrecht. De modo geral, os empregados, da matriz e da subsidiária, afirmam que se sentem bem-informados sobre os acontecimentos da empresa. A comunicação entre liderança e liderado é uma marca forte da Odebrecht, sendo inclusive reforçada na TEO. Os entrevistados indicam que os seus líderes têm o hábito de compartilhar informações de forma periódica, inclusive questões estratégicas. Na subsidiária, os empregados expressam ter um acesso mais direto à liderança da empresa e os empregados na matriz apontam um distanciamento maior se comparado com o primeiro grupo. Quando indagados sobre o volume de informação recebido, os empregados, da matriz e da subsidiária se mostraram satisfeitos. Não houve ponderações sobre a falta ou excesso de informações. Confirmaram receber os canais internos da empresa, terem conhecimento e proatividade em lê-los. No caso dos integrantes que estão na subsidiária, eles conseguem reconhecer a existência de informações corporativas e também locais, colocando ambas como estratégicas e importantes. Eles se sentem mais confortáveis com as informações locais e acham os comunicados corporativos um pouco distantes das suas realidades. Quando 33 34 “We want to meet and speak with the CEO as much as we can.”. “Because everyone wants to know where we´re heading. We all want to know are we going to be here? Are we going to be there tomorrow? And the good thing about Odebrecht, that they do take that into considerantion. And they make it happen to make sure that information, once requested, gets out there to people.”. 117 indagados se consideram a existência de uma duplicidade de fluxo e também um possível excesso, afirmam que é melhor receber do que não ter a informação. Já os integrantes que estão em áreas corporativas são um pouco mais criteriosos na avaliação do volume de informações, dizendo que as recebem e estão satisfeitos. Ambos, integrantes da matriz e subsidiária, afirmam que recebem a informação, sabe onde elas são disponibilizadas (canais oficiais) e que caso não consigam lê-las de imediato, o que ocorre em alguns casos, podem recorrer ao material quando e se necessário. A avaliação da qualidade da comunicação interna na subsidiária é positiva e uma parte dos entrevistados destacou que estava satisfeita. Eu acho que provavelmente as informações que são feitas localmente são boas. Ou, pelo menos, eu não tenho conhecimento que nenhuma expectativa não esteja sendo alcançada. Mas eu diria que, em comparação das informações que vêm do Brasil, há um sentimento de distância. Há um sentimento que a informação de real valor para mim ou urgente do Brasil virá e será filtrada pelo meu presidente (nos Estados Unidos)35. (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). Os integrantes da subsidiária demonstram gostar de receber as informações corporativas, mesmo afirmando que são mais distantes das suas realidades e do seu dia a dia no trabalho, mas o fato de estarem distantes da matriz e dos demais negócios da Odebrecht, valorizam essas informações, como sendo vitais para se manter informados sobre o futuro da empresa. Eles afirmam terem interesse em continuar recebendo essas informações e valorizam o fato dessas serem disponibilizadas. Os canais existentes na Odebrecht são reconhecidos e valorizados. Receber material impresso e também virtual são aspectos destacados como positivos e são reconhecidos como complementares, ao mesmo tempo que possibilitam uma busca quando os empregados precisam de fazer algum tipo de consulta. O processo de adaptação das mensagens corporativas, em muitos casos, é feito pela equipe da subsidiária, que executa o processo de versionamento do texto, ou seja, muito além de uma tradução formal do português para o inglês. O texto é retrabalhado, readequado e, em alguns casos, é totalmente reescrito para que faça sentido ao contexto local. Isso é destacado pela equipe de comunicação da subsidiária como sendo uma prática constante. Uma responsabilidade assumida e executada para garantir a pertinência local. Os empregados da subsidiária também percebem a necessidade de uma adaptação local da comunicação, “mas eu acho que é de responsabilidade de cada [....] país, trabalhar na comunicação interna pois a 35 “I think probably the stuff that´s done locally is quite good. Or at leas I´m, I guess perhaps I´m not aware of any needs that aren´t being meet. But I would say that by comparison to the stuff that comes from Brazil, it is a little bit distant. It feels as though the information that´s of any real value or urgency from Brazil is going to be filtered through our CEO.”. 118 realidade é bem diferente para cada um.36” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). A Odebrecht não tem um programa amplo de utilização das redes sociais para o público interno. Na matriz e na subsidiária, existem intranets estruturadas e algumas funcionalidades similares às redes sociais, mas não é comum encontrar a prática das redes sociais direcionada para o público interno de forma estruturada como uma oportunidade de compartilhamento de conhecimento e criação de um ambiente de troca de experiências como fóruns ou blogs. Os empregados identificam apenas o boletim eletrônico e a intranet como plataformas digitais. 4.3.5 Percepção dos empregados e ex-empregados da matriz e da subsidiária sobre a reputação da Odebrecht (grau de estima, admiração, respeito e confiança) O grau de confiança, estima, respeito e admiração dos empregados pela Odebrecht é elevado, o mesmo ocorre com os ex-empregados. É comum encontrar ex-empregados que ainda mantêm vínculo com a organização, por meio da prestação de serviço, como foi o caso de dois dos três entrevistados para esta pesquisa. Eles deixaram a área de comunicação da Odebrecht e hoje prestam serviços para todas as empresas do grupo na área de produção editorial (revista, informativos, site) e também na produção de eventos e ações culturais. “Eu identifiquei uma oportunidade ao sair da empresa e ser uma empresa parceira e foi assim que aconteceu comigo e com mais dois ou três pessoas da área de comunicação que saíram um pouco antes e, outra, um pouco depois.” (entrevista ex-empregado comunicação / Odebrecht). Como os empregados seguem uma longa carreira dentro da organização, existe uma identificação da cultura e um senso de pertencimento bastante elevado. A relação direta com a liderança imediata também contribui para a criação de vínculos profundos e duradouros. O espaço para o diálogo (entre liderança e liderado), segundo os empregados na matriz e na subsidiária, é cultivado e mantido. São estimuladas, na Odebrecht, a ligação direta e a manutenção de um vínculo forte entre os líderes e suas equipes, o que contribui para minimizar os conflitos inerentes à organização. Esta ligação torna-se tão forte que, em alguns casos, acaba gerando grupos de trabalho, que a partir da mobilidade da liderança, acabam afetando os seus subordinados, o que um ex-integrante da equipe de comunicação denominou de “corda de caranguejo”. “O pessoal chama lá de corda de caranguejo [...] Então, quando um 36 “But I think it´s up to each [...] country to work on their internal communications because the reality is very different for everybody.”. 119 líder sai, o comentário é exatamente esse, lembra aí da corda de caranguejo, porque é comum eles levarem pessoas de confiança. Na cultura da delegação, tem que haver confiança.” (entrevista ex-empregado comunicação / Odebrecht). Ambos os empregados (subsidiária e da matriz) declaram ter um alto grau de admiração, estima, confiança e respeito pela Odebrecht. Quando indagados sobre empresas que admiram, respeitam, confiam e estimam no mercado, a maioria identifica a Odebrecht. Os empregados na subsidiária, especialmente os não brasileiros, tendem a identificar outras organizações como sendo referência em admiração, respeito, estima e confiança. “É admirável ver o tipo de liderança que temos e o tipo de cultura que nós temos como empresa37”. (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). Um alto grau de estima, confiança, respeito e admiração indicam que os empregados têm uma avaliação positiva da reputação da Odebrecht. “Eu confio na Odebrecht, eu trabalho aqui. Tem que confiar.” (entrevista empregado / matriz / Odebrecht). A admiração pela empresa está relacionada ao que ela proporciona ao empregado no seu desenvolvimento e nas suas conquistas pessoais. “Eu admiro a Odebrecht, com certeza. Porque se eu tenho alguma coisa, se eu me formei, é devido a ela. A situação que eu tenho de avanço, de cultura, ela que me deu.” (entrevista empregado / matriz / Odebrecht). O mesmo sentimento é compartilhado pelo grupo de ex-empregados. Os que abriram suas empresas e hoje estão no mercado de fornecedores de comunicação inclusive dizem que adotam nas suas empresas muito do que aprenderam na gestão e cultura da Odebrecht. “Especialmente, eu acho que essa questão do relacionamento entre líder e liderado. E um ponto que eu acho, é o respeito nas relações com os fornecedores, com as empresas.” (entrevista ex-empregado Comunicação / Odebrecht). Um ponto de atenção identificado pelos empregados e pelo grupo de contraposição foi o rápido crescimento e a diversificação dos negócios da Odebrecht nos últimos anos. “É uma empresa que cresce muito, [...] e que tem que crescer e formar o crescimento orgânico da empresa. Mas aqui eu tenho pessoas novas na empresa, então como é que você faz a comunicação interna? Você tem que trabalhar na capacitação e na cultura.” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht). Como o processo de conhecimento e assimilação da cultura é mais longo que a necessidade de formação de novos gestores na empresa, acredita-se que uma nova geração de integrantes da Odebrecht não está sendo devidamente “aculturada”. Os empregados da matriz e o grupo de contraposição também reforçam que começam a perceber a existência de líderes 37 “I think it´s admirable to see the kind of leadership that we have and the kind of culture that we have as a company.”. 120 que não seguem a cultura Odebrecht e as orientações da TEO. Para alguns empregados entrevistados no corporativo, uns integrantes inclusive fazem apenas uma encenação organizacional, mas, na prática, não vivenciam a TEO e não contribuem para que os seus liderados também o façam. Esse crescimento e diversificação dos negócios da Odebrecht, que sempre foram baseados e suportados por uma equipe alinhadas aos princípios da TEO, pode estar sendo impactado pela velocidade do crescimento. Hoje, a Odebrecht passa, entre aspas, por uma crise com relação à cultura porque cresceu demais [...], como todos os negócios estavam, vamos dizer, assim na órbita da construtora, você tinha influência muito grande ainda da cultura nesses negócios. Como se criou uma série de outras empresas e essas empresas se tornaram gigantes [...], então, criou-se uma dinâmica nova, própria e, essa dinâmica nova, é obviamente feita com novas pessoas e, a grande maioria, pessoas do mercado, que não são pessoas que se desenvolveram na Odebrecht desde o início. Isso traz uma diluição da cultura natural. (entrevista empregado / matriz / Odebrecht). A fragmentação das relações e as mudanças constantes são apontadas por Sennett (2009) do ponto de vista dos trabalhadores e do sofrimento que os indivíduos passam durante essa situação e da impossibilidade da criação de vínculos. Do ponto de vista da organização, o futuro e o crescimento podem estar comprometidos quando não há um preparo prévio para esse processo, ou seja, liderança e empregados não preparados para acompanhar o ritmo de crescimento e expansão dos negócios. Essa talvez seja a maior fragilidade enfrentada pela Odebrecht, que tem o seu crescimento baseado no alinhamento dos empregados à sua cultura organizacional, em que qualquer profissional que seja contratado no mercado precisará de um tempo para compreender e se adaptar as características da empresa. Outro aspecto importante, é a opção da Odebrecht pelo desenvolvimento dos seus líderes internamente, fazendo poucas contratações externas, o que também demanda um tempo maior. Desenvolver empregados para assumir novas posições, especialmente de liderança, demanda tempo e investimento. Muitas vezes, o crescimento organizacional é mais acelerado que o tempo necessário para a capacitação dos empregados. 4.3.6 Tensionamentos nas relações na modernidade As características da modernidade também estão presentes na Odebrecht e em alguns casos já estão incorporadas às práticas de gestão, como sendo parte integrante do modelo de trabalho da empresa. Aos seus integrantes, especialmente em posição de liderança, é exigida uma flexibilidade para atuar em negócios distintos e também em diferentes territórios. 121 Segundo entrevistas com os integrantes da empresa na matriz e na subsidiária, isso não aparenta ser um problema, muito pelo contrário no caso de um entrevistado, recém-contratado na organização e hoje trabalhando na matriz, a mobilidade é o que o atraiu para a posição na Odebrecht. “[...] Tenho certeza de que eu tomei a decisão certa, a Odebrecht lhe proporciona um crescimento, uma mobilidade muito grande, você tem certeza de que nunca vai ficar no mesmo lugar assim, então você tem essa mobilidade e é reconhecida.” (entrevista empregado / matriz / Odebrecht). É esperado dos líderes a flexibilidade de mudança a partir da necessidade da organização, sendo também imposto a eles que o seu crescimento na Odebrecht esteja atrelado a essa flexibilidade. No depoimento de um líder da comunicação na subsidiária, ele afirma: “eu vim de outros lugares. Eu fui contratado no Brasil, fui para a África, para o México, e estou aqui (nos EUA) há dois anos.” (entrevista equipe comunicação / subsidiária / Odebrecht). Para alguns, isso é visto como uma oportunidade e diferencial, especialmente para os mais jovens de idade e também de tempo de trabalho na empresa. Essa flexibilidade é importante para o desenvolvimento e manutenção do modelo de gestão da Odebrecht, uma vez que, para a disseminação da sua cultura, a alta liderança da empresa conta com líderes devidamente aculturados e que estejam prontos a assumir novos postos de trabalho e continuar trabalhando segundo os conceitos e princípios da TEO e inclusive incentivando novos integrantes a compreendê-la e segui-la. Este ponto é central na política de perpetuação da cultura Odebrecht. Sem a flexibilidade por parte dos integrantes, não seria possível movimentá-los pelas várias áreas e localidades onde a empresa opera, o que dificultaria a disseminação da cultura da empresa. Sem a movimentação desses líderes e empregados, não seria possível manter a agilidade com que a cultura organizacional é implementada em um novo negócio e/ou território. Por sua vez, alguns integrantes começam a enxergar e experimentar as dificuldades da flexibilidade nas suas vidas pessoais. Alguns relatam o excesso de viagens, outros as várias mudanças de cidade e país, acarretando problemas de ordem pessoal. Mas, para outros, essa é uma característica inerente ao momento e a opção que fizeram de trabalhar em uma organização onde a mobilidade e flexibilidade são itens que fazem parte não só da cultura, mas também da oportunidade de crescimento nas suas carreiras. Para os empregados não brasileiros que trabalham na subsidiária, esta possibilidade de crescimento profissional, atrelada a mudanças de local de trabalho, é um pouco mais remota. A eles, primeiramente, é necessário um processo de aculturamento que, em alguns casos, pode ser um pouco mais lento do que para os brasileiros que, por natureza, já estão mais próximos da cultura nacional 122 dominante na organização. Nesse ponto, existe, além da questão do idioma, uma diferença cultural marcante. Os integrantes que trabalham na subsidiária dos Estados Unidos têm total consciência que estão trabalhando para uma empresa de origem brasileira, que tem na sua maioria brasileiros como líderes e sabem que para o seu crescimento, além das fronteiras do seu país, vão precisar, além de serem aculturados na tecnologia empresarial da Odebrecht, também passarem por um processo natural de aculturamento nas tradições brasileiras. O idioma é um ponto mais clássico e de fácil percepção, mas outros itens ligados ao comportamento dos brasileiros (modo de fazer uma negociação, condução de reuniões, linguagem, modelo mental, etc.) também podem influenciar o desenvolvimento de um não brasileiro no seu crescimento na Odebrecht. Todos os entrevistados na subsidiária reconhecem que a empresa valoriza aqueles que aprendem o português, inclusive com o subsídio de aulas. “Eu estudei português durante um ano com o apoio e subsídio da empresa, o que foi muito útil. Já começou a abrir portas um pouco mais, porque você começa a se relacionar melhor com as pessoas quando você fala na língua e ter uma relação com a cultura deles.38” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). Atualmente, a maioria dos líderes nas subsidiárias são brasileiros, que começaram as suas carreiras em alguma atividade da Odebrecht no Brasil, foram devidamente aculturados e demostraram serem líderes que conhecem e praticam a TEO e o que deu a eles a oportunidade de crescimento e desenvolvimento de suas carreiras levando-os a um posto em uma das subsidiárias no exterior. Este líder é orientado para que forme um possível sucessor, alguém local que possa vir a assumir a sua posição. Não há, em nenhum documento, ou política da Odebrecht (pelo menos que o pesquisador teve acesso), a identificação que, para o seu desenvolvimento na carreira de liderança, é necessário que seja um brasileiro, mas essa é uma prática comum não só na Odebrecht, mas em boa parte das multinacionais. Como apontado por Ghoshal e Bartlett (1998), o processo de expatriação de executivos é fruto das experiências culturais da organização e nacional, sendo esse um fator de sucesso para as multinacionais. Segundo os autores, a esses líderes é delegada a responsabilidade de fazer uma gestão de acordo com as orientações e necessidades da organização, uma vez que já estão inseridos e conhecem a cultura organizacional e também do país de origem da empresa. Os expatriados são produtos das culturas empresariais e do país e, ao mesmo tempo, que o conhecimento da cultura (país e nacional) é um diferencial para a gestão das subsidiárias, o 38 “I studied some Portuguese for about a year which the company helped to subsidize which was helpful. And just being able to do that starts to open doors a little bit, because you start to relate to people better when you can speak in their language and relate to their culture.”. 123 estranhamento da cultura a ser vivenciada por esses indivíduos também pode vir a ser um dificultador de adaptação do profissional e da sua família no país. Não existe nenhum apontamento nas entrevistas de um incômodo por parte dos empregados do volume de estresse ou de trabalho. Todos identificam que dedicam horas de trabalho à empresa, mas demonstram uma certa tranquilidade e até mesmo normalidade nos seus sentimentos sobre o assunto. “Em última análise, você passa mais tempo com os seus colegas do que com a sua família 39.” (entrevista empregado / subsidiária / Odebrecht, tradução nossa). 4.4 IBM – uma empresa em constante transformação Em 1911, após uma fusão da Tabulating Machine Company (TMC) com outras duas empresas, é formada a Computing-Tabulating-Recording Company (CTR), que é considerada a origem da International Business Machines Corporation (IBM). A empresa foi fundada por Hermann Hollerith, nascido nos Estados Unidos em 1860 e filho de imigrantes alemães, e teve suas origens baseadas no desenvolvimento e fabricação de máquinas elétricas de processamento de dados. Os primeiros trabalhos da empresa estavam voltados para o processamento de dados de censos (BELOCH; FAGUNDES, 1997; IBM, 2013b). A CTR atuava em um mercado bastante competitivo e com dificuldades para se estabelecer. Nesse cenário de alta competitividade, Thomas Watson foi contratado. Watson era um experiente administrador e vendedor. Ele trouxe, da sua experiência pregressa na National Cash Register Company (NCR), suas habilidades comerciais e também a preocupação e valorização dos trabalhadores, quando isso ainda não estava na pauta das organizações. Watson tinha como princípio oferecer um ambiente estável para os empregados, com oportunidade de educação e o bem-estar social, o que já demonstrava uma tendência a adoção de políticas trabalhistas liberais. Watson assumiu a gerência-geral da CTR no início de 1914 e conseguiu implementar dois importantes avanços na gestão da empresa: investimento em pesquisa e melhoria dos produtos e uma política de gestão de pessoas baseada na experiência da NCR. Durante o início da gestão de Watson, foi possível observar uma melhoria no resultado financeiro e também em mudanças nas relações com os empregados. Ele conseguiu introduzir uma política de valorização do vendedor, um senso de “venda ofensiva” e também o desenvolvimento de um senso de orgulho e dedicação por parte dos 39 “Ultinamtely you spend more time with your colleagues than you do with your own family.”. 124 empregados. Watson administrou a empresa baseada nos lemas de “Faça Certo” e “Pense”40, expressões ainda presentes na organização (BELOCH; FAGUNDES, 1997). Porém foi apenas em 1924, após um processo de operação e crescimento da CTR no Canadá, que houve a mudança do nome da organização. Foi uma decisão do Conselho Diretor que a empresa deveria alterar o seu nome de Computer-Tabulation-Recording Company (CTR) para International Business Machines Company (IBM), em função da ampliação da sua área de atuação e também com a presença em um mercado internacional (BELOCH; FAGUNDES, 1997). A IBM chega ao Brasil em 1917, ainda como CTR, apenas seis anos após a fusão que deu origem à empresa. A CTR obteve um contrato de prestação de serviços para a Diretoria de Estatística Comercial, que daria origem, em 1938, ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A marca IBM começa ser utilizada no Brasil também 1924, mesmo ano da mudança na matriz e, no período, já havia contratos com a Light, Companhia Paulista de Estrada de Ferro, Instituto Brasileiro do Café e Banco do Brasil (BELOCH; FAGUNDES, 1997). A política de Recursos Humanos da IBM, presente desde o início da criação da empresa, atuava no bem-estar do empregado e, principalmente, para o seu desenvolvimento, por meio de programas de educação. O Departamento de Educação da IBM foi organizado em 1941, mas desde 1925, atividades educacionais já estavam presentes na gestão da empresa. “Treinamento e atualização permanentes de seus empregados, exigidos pelo uso de novas tecnologias, esteve sempre entre as prioridades da IBM do Brasil.” (BELOCH; FAGUNDES, 1997, p. 73). Os treinamentos eram oferecidos principalmente para os profissionais na área de processamento de dados. Destaca-se a necessidade de investimento nos empregados, inclusive para melhorar o desempenho operacional da IBM e obter melhores resultados financeiros e de negócios. Hoje a IBM é uma empresa de tecnologia integrada e de consultoria, com sede na cidade de Armonk, no Estado de Nova Iorque (EUA), com presença em mais de 170 países e aproximadamente 430 mil empregados. As fábricas e os laboratórios da IBM estão presentes em 15 países diferentes (Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália, Holanda, Suécia, Inglaterra, Brasil, Argentina, Colômbia, México, Canadá, Austrália e Japão) e estão estabelecidos de forma integrada. A IBM está estruturada em seis unidades de negócio de acordo com a atividade e o tipo de serviço prestado. As unidades de negócio são: serviço de 40 Do original em inglês: “Do right” e “Think”. 125 tecnologia, vendas e distribuição, serviço de consultoria, software, hardware e pesquisa. Os mercados são definidos de acordo com a geografia e agrupados segundo suas características de consumo e potencial de crescimento. Na IBM, os mercados são divididos em: América do Norte, Europa, Japão e Mercado Emergente (onde o Brasil está inserido). (IBM, 2013b). Os três valores da IBM são: a dedicação para todo o sucesso dos clientes; inovação é o que importa para a empresa e para o mundo; e confiança e responsabilidade pessoal em todas as relações. (IBM, 2013a, 2013b). Os valores da empresa foram definidos de forma colaborativa. Em 2003, a diretoria da IBM decidiu organizar uma encontro virtual colaborativo, denominado de “jam”, que pode ser traduzido do inglês como “aglomeração”. A primeira edição de um “jam” foi realizada em 2001 e, nessa edição de 2003, todos os empregados da empresa foram convidados a participar e contribuir para o estabelecimento dos valores da IBM, de forma colaborativa e virtual. O encontro durou 72 horas e aproximadamente 50 mil IBMistas41 participaram do debate sobre cultura e mais de 10 mil comentários foram feitos durante o “jam”. “Então, foi a primeira vez que a IBM fez um jam, em uma plataforma web e dentro da sua rede, mas integrando os 170 país onde ela tem operação, convidando todos os funcionários para participar, para discutir os seus valores.” (entrevista equipe comunicação / matriz / IBM). Após esse encontro, um grupo de facilitadores organizou e propôs para a direção da empresa os valores sugeridos pelos empregados. Foi a partir dos comentários e participação dos empregados que os três valores da empresa foram formatados e divulgados para toda a organização no segundo semestre de 2003. A partir dessa experiência, várias encontros virtuais colaborativos já foram realizados pela IBM, sobre assuntos diversos e com objetivos variados. Essa metodologia inclusive já faz parte do portfólio de produtos oferecidos pela IBM para os seus clientes. 4.4.1 A cultura da IBM A cultura interna da IBM é bem definida e facilmente identificada no comportamento dos seus empregados. “Eu acho uma cultura muito forte, acho que começa por dizer que o funcionário é um IBMista.” (entrevista empregado / subsidiária / IBM). A cultura da empresa está baseada nos valores expressos e são materializadas no comportamento dos seus empregados. Segundo a Presidente Mundial da IBM: 41 Do inglês IBMers. Os empregados da IBM se autodenominam IBMers ou IBMistas. Esses termos também são utilizados na estrutura organização, na denominação de áreas e também na comunicação interna. 126 O que nos torna (os empregados) essenciais aos nossos clientes não é apenas o diferencial das nossas soluções ou a integração da IBM – apesar da importância de cada uma. É a nossa capacidade de encantar e surpreender. São pequenos gestos que, quando realizados de forma consistente, deixam uma marca duradoura. (IBM, 2013c). A partir da definição colaborativa dos valores da IBM em 2003 e depois de uma demanda por uma melhor explicação de como esses valores poderiam ser aplicados na prática, a empresa divulgou em 2013 o “1-3-9”, um propósito, três valores e nove práticas que definem a IBM. As nove práticas também foram definidas de forma colaborativa em um encontro virtual colaborativo realizado em março de 2013 (IBM, 2013c). O propósito da IBM é “ser essencial”, baseado em três valores sustentados pelas nove práticas, três para cada um dos valores. Colocar o cliente em primeiro lugar, ficar atento às necessidades visualizando o futuro e o compartilhamento do conhecimento são as práticas que identificam o valor “dedicação ao sucesso de cada cliente”. A reinvenção da empresa e de si mesmo, ousadia para criar ideias originais e a valorização da criatividade são as três práticas que definem melhor o segundo valor da IBM “inovação que faz a diferença – para a nossa empresa e para o mundo”. Pensar, preparar e ensaiar, colaborar para fazer e demonstrar interesse pessoal são as três práticas finais que materializam o terceiro valor da IBM “confiança e responsabilidade pessoal em todos os relacionamentos” (IBM, 2013c). Destaca-se o processo de definição dos valores e das práticas da IBM de forma colaborativa e participativa, em que os empregados tiveram um papel importante no fornecimento de insumos para que a definição fosse feita pela liderança da empresa. Práticas colaborativas acabam facilitando a assimilação de propostas oriundas da gestão das organizações para os seus empregados, mesmo que haja uma mediação e uma arbitrariedade exercida na edição final dos materiais. Na visão dos empregados da IBM, existe sim uma cultura na empresa que tem um impacto nos resultados da organização, “eu acredito que temos uma liderança sênior que realmente valoriza a dimensão da nossa cultura e vê isso como algo positivo.42” (entrevista empregado / matriz / IBM, tradução nossa). A diferença entre culturas organizacionais e cultura de país também é percebida pelos empregados quando indagados sobre o trabalho em uma empresa global, sendo inclusive um diferencial de trabalho. “Uma das coisas que foi emocionante para mim quando vim trabalhar na IBM foi que eu poderia [...] conversar com alguém na China diariamente, conversar com alguém na Índia, ir para a França por algumas 42 “I think we have a sênior leadership that really values that dimension of our culture and sees it as a positive thing.”. 127 semanas, até mesmo para o Brasil ou qualquer lugar do mundo.43” (entrevista empregado / matriz / IBM, tradução nossa). A mesma percepção de oportunidade de trabalhar em uma empresa global é destacada pelos empregados trabalhando na subsidiária no Brasil, como sendo inclusive uma oportunidade de desenvolvimento e carreira, “[...] eu acho que isso (trabalhar em uma empresa global) é uma oportunidade para eu treinar o inglês e acho interessante.” (entrevista empregado / subsidiária / IBM). A oportunidade de identificar a cultura organizacional de forma colaborativa é um diferencial da IBM. Os empregados entrevistados fazem referência ao encontro virtual, mesmo aqueles que não estavam na empresa durante a realização do “jam” em 2003. Os empregados afirmam conhecerem e se identificarem com a cultura da empresa. 4.4.2 O processo de comunicação interna A estrutura de comunicação interna na IBM é baseada em duas variáveis: negócio e geografia. Cada estrutura de negócio tem uma estrutura de comunicação e cada geografia (região, país, continente) também possui uma estrutura de comunicação para atender às demandas de acordo com os vários negócios inseridos no território. Como função corporativa, a atividade de comunicação com os empregados é denominada de Capacitação da Força de Trabalho e Força de Vendas44. Essa denominação já demonstra uma mudança na tradicional nomenclatura da área de comunicação interna ou employee communications (do inglês). Essa foi uma alteração para valorizar a função que a comunicação interna na IBM tem de, não apenas informar, mas sim desenvolver ações de comunicação com o objetivo de tornar os empregados melhor capacitados para desempenhar as suas funções na empresa. [...] não é mais comunicação interna como era antes. [...] eles (a área corporativa) não enxergam mais a comunicação como a comunicação interna clássica de veículos internos, de jornal e campanha, aquela coisa do jornalzinho. A ideia é que a gente passe a ser uma área [...] de capacitação da força de trabalho e de vendas. Mudou consideravelmente. (entrevista equipe comunicação / subsidiária / IBM). A denominação da área indica uma visão funcionalista da atividade de comunicação interna, bem como o foco nas demandas da organização para atingir os seus objetivos estabelecidos. Geralmente, a função de capacitação, treinamento e desenvolvimento dos 43 “One of the things that was exciting to me about coming to IBM was that I could end up […] talking to somebody in China everyday, talking with people in India, going to France for a few weeks or to Brazil or wherever.”. 44 Do inglês Workforce & Field Enablement. 128 empregados é uma designação e responsabilidade da área de Recursos Humanos. “Comunicação interna ajuda a levar, a fazer com que o funcionário tenha consciência dessa transformação e que ele se antecipe [...], muito mais na formação que na informação.” (entrevista equipe comunicação / subsidiária / IBM). Segundo a diretora corporativa de comunicação interna, a mudança no nome da área foi para retirar o foco do comunicador e ressaltar o empregado e o objetivo final da área, que é manter o empregado capacitado. Porém ela afirma que essa nomenclatura já está sendo revista com possibilidades de alterações futuras (entrevista equipe comunicação / matriz / IBM). A estrutura de comunicação interna global da IBM fica sediada nos Estados Unidos. É de responsabilidade dos profissionais dessa área a orientação de todas unidades de negócio e também países onde a empresa atua. Além dessa estrutura corporativa e global, cada uma das seis unidades de negócio possui uma estrutura, também global de comunicação interna. As estruturas das cinco unidades de negócio estão sediadas nos Estados Unidos e uma delas tem a diretora de comunicação lotada no Brasil. O maior contingente dos profissionais de comunicação interna das unidades de negócio está nos Estados Unidos, mas também há representantes em alguns determinados países, de acordo com a demanda e volume de atividades. Paralelamente às estruturas corporativas e por unidade de negócios, os países/regiões também têm suas estruturas de comunicação interna, como é o caso do Brasil. No Brasil, a estrutura de comunicação interna é ligada à gerência de Comunicação e Marketing da subsidiária no Brasil, mas cada unidade de negócio da IBM também tem profissionais de comunicação no país com funções matriciais ligadas à estrutura do negócio e do território. De forma matricial, o Brasil está inserido na estrutura da América Latina com uma relação direta com a estrutura de Mercados Emergentes, sediada na China que, por sua vez, está ligada à estrutura corporativa nos Estados Unidos. Além da divisão geográfica, também existe uma divisão pelas seis principais áreas de negócios da IBM, ou seja, existe uma estrutura de comunicação corporativa de cada um desses negócios nos territórios de atuação da empresa. Na figura 4, um esboço de como funciona a estrutura de comunicação interna da IBM e na figura 5, o organograma da área de comunicação da IBM no Brasil. Segundo informações da diretora global de comunicação interna da IBM, [...] não temos um organograma organizacional. Nós utilizamos a plataforma social, Connections45, para compreender quem está conectado a quem. [...] nós operamos em um sistema de relacionamento de profissionais de comunicação, usando a nossa 45 Sistema colaborativo desenvolvido pela IBM e utilizado como plataforma de compartilhamento de informações e dados, servido à empresa como uma rede social. 129 comunidade virtual Connections para compartilhar direcionamentos e melhores práticas. Assim não focamos em uma estrutura organizacional, o nosso foco é nas relações. Ou seja, não temos um organograma global de comunicação interna46. (entrevista equipe comunicação / matriz / IBM, tradução nossa). Figura 4 – Esboço da estrutura de comunicação interna da IBM Fonte: Elaborado pelo pesquisador 46 “We don't have an organizational chart. We use our social Connections platform to understand who is connected to whom. […] we operate as a network of communications colleagues using our Connections community to share direction and best practices. So we don't focus on organizational structure but we focus on being a network. Therefore, we don't have a global org chart.”. 130 Figura 5 – Organograma da área de comunicação interna da subsidiária da IBM no Brasil Fonte: Área de comunicação IBM Brasil A estrutura matricial da IBM demonstra os desafios de relacionamento entre a matriz e as subsidiárias. O modelo matricial é complexo por natureza por cruzar responsabilidades e linhas de delegação e decisão, envolvendo um grupo maior de profissionais no processo de gestão de uma organização. Em um modelo de gestão baseado em unidades de negócio, em que cada parte da empresa tem a função de dar resultados e fazer a gestão dos seus empregados e ativos, é comum a existência de conflitos de interesse e concorrência entre essas unidades. Nessa estrutura baseada em unidades de negócio, apesar da descentralização, mantém-se uma necessidade de maior alinhamento em função de atuações dos diferentes negócios no mesmo território ou mercado. O nível de alinhamento é mais frequente e a prestação de contas ocorre de forma intensa, causando, muitas vezes, a falta de compreensão por parte dos empregados que participam desses momentos. As interações e compartilhamento de informações ocorre em todos os níveis da empresa, entre todos os 131 negócios e mercados. Um gerente de Capacitação da Força de Trabalho e Força de Vendas no Brasil tem interação com o seu diretor de Comunicação e Marketing no Brasil, tem interface também com a equipe de Comunicação das seis unidades de negócio no País, além de contato direto com a estrutura corporativa na matriz e também na sede de Mercados Emergentes que fica na China (entrevista equipe comunicação / subsidiária / IBM). A complexidade está na necessidade constante de relatar os planos de comunicação, bem como garantir um alinhamento na visão territorial, independentemente da unidade de negócio que o IBMista está inserido ou unidade de interface com clientes, fornecedores, imprensa por exemplo. Nas unidades de negócio, a visão de representação é baseada nos interesses desse segmento da empresa o que confronta com a visão única de uma empresa. Essa visão segmentada muitas vezes gera um conflito no nível relacional das organizações com os seus interlocutores. O empregado é identificado pela IBM como sendo responsável por garantir uma satisfação dos clientes e, por consequência, conseguir manter e aumentar os resultados financeiros da empresa. “[...] Essa fórmula de engajar o empregado leva a uma experiência do cliente. E uma boa experiência com o cliente, uma experiência com diferencial levará a resultados de negócio.47” (entrevista equipe comunicação / matriz / IBM, tradução nossa). A equipe de comunicação interna é responsável pela divulgação das informações e pelas estratégias de engajamento dos empregados da IBM, segundo as divisões das unidades de negócio e também o território de atuação. A equipe de comunicação interna corporativa tem como objetivo “engajar IBMistas, então eles podem fazer o melhor, então eles podem providenciar bons serviços, um serviço diferencial e uma experiência para os nossos clientes, assim eles podem atingir objetivos de negócio.48” (entrevista equipe comunicação / matriz / IBM, tradução nossa). A área corporativa de comunicação da IBM está focada em dar as diretrizes de atuação para as unidades de negócio e países de atuação, estando muito mais focada em soluções digitais e de envolvimento por meio das redes sociais. Muito pouco hoje é realizado corporativamente com base em materiais impressos. “Não fazemos mais material impresso. [...] Mas eu penso que muito do que estamos fazendo, estamos tentando fazer usando as redes sociais, e posso dizer que essas aqui são as comunidades relevantes para o empregado.49” (entrevista equipe comunicação / matriz / IBM, tradução nossa). Essa visão 47 “This formula about engaged employee drives the cliente experience. And a great client experience, a differencial client experience, will drive business results.”. 48 “[...] engage IBMers, so that they can be their best, so that they can provide great servisse, differentiatel servisse and experience to our clients, so that we can achieve business results.”. 49 “We really don´t do printed material. […] but I think a lot of what we´ve tried to do, is to do a lot more social media and to say, here are the communities that are probably relevant to you as an employee.”. 132 também é compartilhada pela equipe na subsidiária, em que a comunicação interna estaria a serviço do engajamento do empregado por intermédio das redes sociais para que haja uma relação de diálogo com a empresa “[...] até por causa dessa migração para ferramentas sociais, a gente não trabalha mais a [...] comunicação interna fazendo comunicação tradicional para publicar no mural. Não funciona mais. Você tem que engajar o funcionário, fazer com que ele converse com a companhia.” (entrevista equipe comunicação / subsidiária / IBM). 4.4.3 Relações entre as áreas de comunicação da matriz e da subsidiária Na IBM, as relações entre as áreas de comunicação da matriz e da subsidiária se dão em várias instâncias, seguindo a lógica da unidade de negócio e/ou da geografia, além disso o modelo gestão da empresa também segue o “Papel da Subsidiária” apresentado por Birkinshaw (1994). É delegada à subsidiária uma autonomia de ação seguindo as diretrizes corporativas. Na existência de seis unidades de negócio, cada uma com uma estrutura independente de comunicação, e ainda contar com uma estrutura corporativa, a subsidiária acaba sendo orientada por várias áreas. O alinhamento prévio ocorre, segundo os entrevistados das áreas de comunicação da subsidiária e da matriz, mas em alguns momentos é falho em função do volume de interfaces e de interesses diversos, por unidade de negócio. “Então essas seis áreas se reportam a mim regionalmente e eu reporto ao presidente. Cada um dos gerentes (no Brasil) tem um gerente na América Latina [...] cada um desses tem um gerente no GMU50 [...] que tem um chefe na corporação.” (entrevista equipe comunicação / subsidiária / IBM). Um integrante da equipe corporativa de comunicação da matriz identifica três níveis nas relações na área: corporativo, unidade de negócio e território. “Eu diria que são quase três níveis. [...] O corporativo compreende as prioridades das unidades de negócio e como isso se encaixa nos planos de crescimento e depois vão para o nível local51”. (entrevista equipe comunicação / matriz / IBM, tradução nossa). Os entrevistados da equipe de comunicação na subsidiária afirmam que precisam estar atentos a todas as iniciativas que ocorrem no território, na tentativa de um alinhamento e na criação de sentido para os empregados locais. Na visão da equipe de comunicação corporativa, o processo de alinhamento prévio tem melhorado ao longo dos anos, inclusive com a criação de um comitê com a participação dos responsáveis por comunicação interna e 50 51 GMU – Grouth Market Unit, sigla em inglês para Unidade de Mercados Emergentes. “I´d say it´s almost three-tiered. […] So that corporate understands the business and how it fits into the growth plays and then go to the local level.” 133 todas as linhas de negócio. Quando indagada sobre a relação entre matriz e subsidiárias, a responsável corporativa pela comunicação interna na IBM afirmou: “eu acho que está funcionando bem de várias formas, principalmente se comparado com alguns anos atrás. E o motivo pelo qual eu afirmo isso é que colocamos muita ênfase na comunidade (virtual) e no compartilhamento de ideias e boas prática52.” (entrevista equipe comunicação / matriz / IBM, tradução nossa). Na posição da equipe de comunicação da matriz, é possível perceber a existência desses conflitos (demandas simultâneas, falta de alinhamento, orientações que não são destinadas ao território) nas linhas de coordenação em função da necessidade de uma territorialidade a ser considerada. A equipe de comunicação na matriz indica que conhece e compreende a complexidade das relações e afirma que está em um processo de construção e melhoria, já, na visão da equipe da subsidiária, o processo ainda precisa ser mais bem gerenciado, em função do volume de trabalho e também pelas iniciativas das unidades de negócio. O grupo de entrevistados de ex-empregados da comunicação da IBM é mais crítico ao processo de relacionamento entre matriz e subsidiária. Todos entrevistados afirmam que as cobranças são feitas por resultado e, em alguns momentos, sem muita objetividade, em que o tempo consumido para gerar relatórios, participar de conferências telefônicas, acabava impactando a gestão diária das suas atividades e responsabilidades. Assim, era muito complicado porque fora da IBM América Latina, cada um aperta um parafuso e, na América Latina, a gente faz de tudo. Então, havia gente cobrando detalhe do detalhe do detalhe, a gente não tinha. [...] toda hora tem reunião, a gente chama de reunião de alinhamento, de cadência [...] isso era um negócio que realmente dava uma desgastada porque você acaba não fazendo as coisas, só pra reportar, reportar, reportar e, às vezes, eles querem dados que você não tem e, às vezes, você tem que empacotar uma resposta que, na verdade, não existe, por causa da pressão por receber alguma coisa. (entrevista ex-empregado equipe comunicação / IBM). O sentimento da equipe de comunicação na subsidiária de não contribuir para o processo, muitas vezes é causado, de forma involuntária, por um modelo de gestão da organização. O excesso das conferências telefônicas rotineiras e a prestação de contas com o objetivo de troca de informações, ideias, projetos e boas práticas, acabam sendo percebidos e gerando na equipe de comunicação da subsidiária, uma sensação de desgaste e frustação de não cumprimento do dever, dos projetos locais e da rotina laboral. Esse sentimento foi relatado pela totalidade dos ex-integrantes da equipe de comunicação da IBM. Segundo entrevistas, a equipe atual de comunicação da subsidiária reconhece a rotina, mas não 52 “I think that it´s running really well in many ways, particularly compared to a couple of years ago. An the reason I say that is we have put a lot of emphasis on community an sharing ideas and best practices.”. 134 demonstra o mesmo grau de desconforto. Apesar do modelo descentralizado da IBM, com base nas unidades de negócio, as entrevistas realizadas apontam uma existência em toda a organização de reuniões virtuais, na sua maioria por telefone com o objetivo de prestar contas e compartilhar as práticas e resultados dos trabalhos realizados por unidade de negócio e por território. O sentimento, indicado pela maioria dos ex-empregados da equipe de comunicação da subsidiária, é muitas vezes de atropelo e urgência constante como relatado. Milhares de reports diárias e sem um pedido prévio, então era sempre de última hora, então isso era ruim. Então, o que eu sentia, meio frustrada, no meu trabalho, era isso de não conseguir “tangibilizar” muita coisa que eu fiz porque muita coisa era report, muita coisa, muito report, muito report. Então, isso é uma necessidade mas que poderia fazer coisas mais úteis se eu tivesse mais tempo. Talvez se a forma de comunicação entre matriz fosse mais eficiente. (entrevista ex-empregado Comunicação / IBM). Apesar da tentativa corporativa de alinhar os trabalhos nas unidades e nos territórios, criando inclusive comitês de trabalho, é indicada pelas equipes de comunicação matriz e subsidiária e pelos empregados a não existência de uma coordenação única o que acarreta, em alguns casos, um certo desconforto. As demandas são recebidas por quem está na subsidiária e sem uma definição de prioridade, cabendo apenas uma análise local da relevância. A orientação de comunicação por cada negócio na IBM acaba por multiplicar por até sete vezes as demandas que são de origem corporativa (demandas corporativas somadas as demandas das seis unidades de negócio). Os empregados da matriz também identificam essa dificuldade em coordenar as demandas das várias unidades de negócio. “[...] do ponto de vista global, você tenta delinear o que o time do território faz, o que o time global faz e o que os times locais fazem. E você sabe que por melhor que você tente coordenar é difícil. 53” (entrevista empregado / matriz / IBM, tradução nossa). A equipe de comunicação da matriz tem a função dar as diretrizes e permitir que as equipes locais façam uma análise e adaptações que sejam pertinentes e necessárias. Você tem que dar a estratégia. Você tem que dizer, “essas são as nossas prioridades”. É para cá que estamos levando a nossa empresa. Mas temos profissionais incríveis e pessoas criativas nas nossas unidades de negócio e nos países. Então, eles devem agir, nós vamos capacitá-los. É o que eu digo, eu sou uma facilitadora. Iremos capacitar você com conteúdo que você pode utilizar, com ativos que você pode utilizar, com informação que ajudará você a entregar a nossa 53 “But then there are, you know, from a worldwide standpoint, you try to delineate what does the geographic team does, what the global team does and what potentially local team does. What you know, as best as possible you try to coordinate, it is hard.”. 135 estratégia. Mas vá e seja criativo54. (entrevista equipe comunicação / matriz / IBM, tradução nossa). Em alguns casos, pode ocorrer a sobreposição de demanda por ações de comunicação direcionadas ao público interno e também a existência de um volume de informação acima da capacidade dos empregados em assimilar. Essa situação foi identificada pelos entrevistados nas equipes de comunicação da subsidiária. No caso da equipe na matriz, existe a compreensão da situação, mas não existe o mesmo desconforto que existe na localidade. Na subsidiária a equipe também reconhece as melhorias nos processos internos e acaba justificando a dificuldade da relação em função de um contexto com problemas mais complexos, com a questão da velocidade das informações e também de um número maior de pessoas envolvidas para dar andamento a algum projeto e/ou conduzir uma situação crítica. “Apesar de toda essa dificuldade ou complexidade organizacional, eu acho que a gente nunca esteve com uma comunicação interna na IBM tão eficaz, tão bem-feita como agora.” (entrevista equipe comunicação / subsididária / IBM). Já o grupo de contraposição a visão da relação entre matriz e subsidiária é de pouca liberdade, seja em função do volume de reuniões de acompanhamento dos projetos, seja pela orientação de realização de ações previamente determinadas em uma visão de unicidade de mercados de atuação e de comportamento dos empregados de uma empresa multinacional. Meu nível de autonomia era muito pequeno. [...] isso é uma determinação global, então, você acaba pensando quando está numa companhia do tamanho da IBM, pensando de maneira global, para de pensar como brasileiro, como argentino ou colombiano, começa a pensar como corporação. (entrevista ex-empregado comunicação / IBM). Nessa abordagem, a crítica é para soluções únicas quando os indivíduos são diferentes, o que muitas vezes leva a criação de estereótipos ou modelos pasteurizados, sem uma conexão mínima com as questões locais. A relação de distância entre a subsidiária da IBM no Brasil e a matriz nos Estados Unidos é pequena. Existe uma proximidade entre os dois países no âmbito da cultura, questões administrativas, geografia e também políticas econômicas, segundo o modelo de Germawat (2001). As diferenças são pequenas entre os dois países o que confronta uma 54 “You have to set a strategy. You´ve got to say, these are our priorities. This is where we´re moving as a company. But then to say, there are some incredible professionals and creative people out in the geographies and in the business unit. So you guys go and, we´ll enable you. This is why I say I´m a facilitator. We´ll enable you with content that you can use, with assets you can use, with information that will help you to deliver on this strategy.”. 136 experiência reportada por uma integrante da equipe de comunicação da matriz na Ásia, onde o fator cultural gera um alto grau de diferenciação entre Japão e Índia. Cultura tem definitivamente uma grande influência. Por exemplo, se você pega um lugar como o Japão e outro lugar como a Índia. Eu fiz uma viagem há alguns anos para os dois lugares no inverno. Você vai para o Japão, as pessoas são muito caladas, culturalmente caladas. São muito respeitosos, eles não se interrompem. Eles tendem a ser diferenciais. São muito hierárquicos, no modo que tem expectativa de receber informações. Você sai de lá e vai para a Índia. Os andares são mobiliados da mesma forma. No Japão, um escritório aberto, mas muito silencioso. Na Índia, todo mundo está por todo lado. Eles falam alto, eles falam de tudo, debatem tudo. Todos sabem quando o outro está ganhando. Eles sabem tudo sobre todo mundo 55. (entrevista equipe comunicação / matriz / IBM, tradução nossa). As diferenças culturais são impactantes nas relações das áreas de comunicação entre matriz e subsidiária, considerando as diferenças de característica dos empregados e nas suas preferências de consumo de informações. Por isso, é defendido pela equipe da matriz da IBM a customização das ações no nível local em função dessas diferenças identificadas. Na percepção da equipe da matriz, as diferenças vão além da cultura do país e da cultura organizacional, o tempo de casa dos empregados foi indicado como sendo uma variável importante. Levando-se em consideração o modelo apresentado por Deetz (2010), as atividades de da área de comunicação interna podem ter como foco a comunicação estratégica que, segundo o autor, tem como objetivo principal a distribuição de algum significado. Os objetivos principais da comunicação interna estariam focados na “[...] obtenção de padronização, aquisição e distribuição de informação”, sendo a interação e abertura apenas uma oportunidade para a organização obter maiores “[...] informações úteis para o aperfeiçoamento de suas estratégias.” (DEETZ, 2010, p. 88). Os relatos da equipe de comunicação da matriz e da subsidiária indicam que as principais ações de comunicação para o empregado estão relacionadas a questões do negócio e a estratégia da organização. 55 “It (culture) definitely has a big influence. So, for example, if you take a place like Japan and a place like India. I had a trip a couple years ago where I went to both places on the winter. You go to Japan, it´s very culturally people are quiet, they´re very respectful in the way, they don’t interrupt each other. They tend to be differencial. They are very hierarchical in the way they expect to receive information. You leave there and you go to India. And the floors are set up the same way. So in Japan it´s an open office, but very quiet India, it´s all out there. They´re loud, they talk about everything, they discuss everything. Everybody knows who´s earning what.”. 137 4.4.4 Percepção dos empregados e ex-empregados da matriz e subsidiária sobre a comunicação interna Os empregados percebem, de modo geral, tanto na matriz quanto na subsidiária, que a comunicação interna da IBM tem qualidade e atende às suas demandas e expectativas. “Eu acho muito boa porque eu não me vejo perdida, isolada. Não me vejo sem saber o que está acontecendo.” (entrevista empregado / subsidiária / IBM). A mesma percepção positiva do processo de comunicação interna está presente nos empregados da matriz. “É bom que a informação flua de forma aberta, você sabe, tem muita informação correndo por aí.56” (entrevista empregado / matriz / IBM, tradução nossa). Eles conseguem identificar os veículos internos existentes, sabem a sua periodicidade e suas principais funções. A maioria da comunicação direcionada aos empregados da IBM é no formato eletrônico, já que a maioria dos empregados da empresa tem acesso aos meios digitais. Poucos veículos ou campanhas internas são impressos. A exceção seria a revista da IBM, direcionada aos empregados e que é enviada para a casa de cada um. Esta revista é um veículo local do Brasil, não faz parte da diretriz corporativa da IBM e não existe em todas as subsidiárias da empresa. Não foi identificada uma diferença entre a percepção dos empregados da matriz e da subsidiária da IBM com relação ao processo de comunicação interna. Ambos apresentam as mesmas avaliações quanto à satisfação e também nível de críticas. As diferenças são apresentadas, de forma sutil entre as diferentes áreas de atuação dos empregados, independentemente se estão na matriz ou na subsidiária e também em função da diferença de tempo de trabalho na IBM. Empregados mais jovens, de idade e de tempo de casa, tendem a ser mais críticos ao processo de comunicação e os empregados mais antigos se sentem mais integrados aos processos com um nível de crítica um pouco menor. Os IBMistas reconhecem a existência de diferentes comunicações, classificadas em corporativas e locais. No caso dos empregados que trabalham em Hortolândia (SP), por exemplo, eles conseguem identificar e perceber a comunicação que é da IBM mundial, da IBM Brasil e também as informações que específicas do seu local de trabalho. Não existe um sentimento de falta de informação e nem de excesso de volume. Os empregados que estão distantes da sede da empresa se sentem mais confortáveis sabendo que as informações são disponibilizadas nos veículos internos e quando, e se necessário, fazem o acesso direto. Quando o empregado da subsidiária foi indagado sobre a diversidade de comunicação que recebe, ele afirma conseguir fazer uma distinção do que é local e do que oriundo da matriz. 56 “It´s good that the information flows are open, you know, there´s a lot of information flowing around.”. 138 “Isso é muito claro, pelo menos para mim. A gente tem a Revista IBMista, que a gente recebe na nossa casa. A revista IBMista tem um caráter mais familiar, ela não visa atender só os IBMistas, e sim a família. Então, a linguagem dela é totalmente nada técnico.” (entrevista empregado / subsidiária / IBM). Mas, quando indagado sobre a comunicação corporativa, de origem na matriz, os empregados da subsidiária são um pouco mais críticos, “eu acho que tem uma falha nesse tipo de informação que é mais ou menos isso que eu falei, como elas não vêm tão mastigadas, tão detalhadas, às vezes, a gente não sabe de que área especificamente estão falando.” (entrevista empregado / subsidiária / IBM). Da mesma forma que as equipes de comunicação interna são acionadas de acordo com a unidade de negócio e o território onde atuam, os empregos da IBM também recebem informação de acordo com o local de trabalho e a unidade de negócio que estão atuando. Os empregados da área corporativa identificam que, em alguns casos, existem informações em excesso e, de forma duplicada, uma vez que a estrutura da empresa acaba colocando vários grupos acompanhando um mesmo projeto/tema. Quando há necessidade de um esforço de comunicação sobre o projeto/tema, os esforços de comunicação acabam sendo duplicados. “Há muito controle porque não temos apenas uma pessoa sentada no topo e dando direções. Temos várias partes da IBM que estão tentando levar informações para os vendedores, por exemplo. E eu acho que isso é uma situação57.” (entrevista empregado / matriz / IBM, tradução nossa). A comunicação interna da IBM já é desenvolvida com base em plataformas de compartilhamentos e em redes. A empresa disponibiliza diversas ferramentas para os empregados utilizarem e criarem comunidades, grupos de trabalho, blogs entre outros para as suas relações internas. Os empregados da IBM, tanto na matriz quanto na subsidiária, já percebem esta tendência e inclusive indicam a preferência de buscarem nas redes sociais internas os comunicados e informações úteis para o trabalho e também para o desenvolvimento na empresa. 4.4.5 Percepção dos empregados e ex-empregados da matriz e da subsidiária sobre a reputação da IBM (grau de estima, admiração, respeito e confiança) Os empregados da matriz e da subsidiária demonstram ter um alto grau de admiração, estima, respeito e confiança na IBM. Existe, porém, uma diferença de percepção da reputação 57 “There´s only so much control because it´s not like you have one person sitting on top and directing. Because there´s so many different parts of IBM that are trying to get messages to maybe the sellers. And I think that that´s probably an issue.”. 139 entre esses dois grupos de empregados e também o grupo formado por ex-empregados. Colocando em uma escala de percepção da reputação da IBM, a partir das entrevistas realizadas, pode-se afirmar que os ex-empregados da IBM têm uma percepção da reputação da IBM menor que os atuais empregados da subsidiária, que também apontam um grau de percepção da reputação menor que os empregados que estão hoje na matriz. Ou seja, os empregados da matriz da IBM apontam uma maior de admiração, confiança, respeito e estima. Os empregados da subsidiária no Brasil apontam outras empresas como sendo referência de admiração. Quando o empregado da subsidiária no Brasil foi solicitado a indicar uma empresa que ele admira, afirmou: “No ramo da IBM de tecnologia, talvez a Apple. Por ela ter uma linguagem, uma proximidade maior com esse público jovem. A IBM eu vejo mais conservadora.” (entrevista empregado / subsidiária / IBM). Outro empregado na subsidiária aponta a IBM como sendo a que mais confia pelos valores organizacionais. “Eu acho que tem relação com a segurança, com respeito ao indivíduo, a gente prega muito os três valores da IBM, então, eu acho que é uma empresa de valor, uma empresa sólida, uma empresa bem-vista no mercado. Então, ela acaba lhe trazendo uma certa segurança.” (entrevista empregado / subsidiária / IBM). Os ex-empregados têm indicações de outras empresas que admiram, confiam, estimam e respeitam, mas a sua minoria inclui a IBM nas suas indicações. “Uma empresa em que eu confio? Na Volkswagen, na Vale. Um empresa que eu admiro? Eu continuo sendo um admirador da IBM (exempregado comunicação / IBM). 4.4.6 Tensionamentos nas relações na modernidade A opção de escolher o local de trabalho é uma prática IBM. Os empregados têm a flexibilidade de trabalhar em casa ou em outro escritório da empresa que não seja o seu local original de trabalho, basta que estejam conectados. Para muitos empregados, esta prática é um benefício e é considerada como um diferencial do empregador. Ter a oportunidade de trabalhar em casa, especialmente para as mulheres com filhos pequenos, é tido como um diferencial grande na relação do trabalho. Porém, como apontado por Sennett (2009), esta flexibilidade dá a sensação de mais liberdade, quando, na realidade, levam os empregados a uma jornada de trabalho, muitas vezes, mais longa do que se estivessem trabalhando no escritório. “[...] trabalhar em casa eu acho que é um ganho para os dois, tanto para a IBM quanto para mim, porque isso aconteceu comigo depois que tive filho. Eu vejo que eu trabalho 140 muito mais em casa porque você não tem hora para entrar nem hora para sair.” (entrevista empregado / subsidiária / IBM). Já para outro empregado da empresa a flexibilidade é um diferencial para quem está na empresa. “Estou há 14 anos aqui e não tenho vontade de sair. Não tenho. [...] tem muito trabalho tem, [...] mas os programas de flexibilidade da IBM para mim são um diferencial em relação ao mercado. Principalmente para mulher.” (entrevista empregado / subsidiária / IBM). As longas jornadas de trabalho para quem está conectado em casa aparentemente parecem compensar a flexibilidade no horário, no local de trabalho e na oportunidade de poder acompanhar e/ou desenvolver atividades em casa durante o horário administrativo de trabalho. A flexibilidade no local de trabalho também contribui para quem trabalha com equipes espalhadas em diversos países onde as atividades podem ser desenvolvidas remotamente por computador ou via conferências telefônicas. “Se você trabalha globalmente, não faz tanta diferença. [...] eu tenho um cargo América Latina, então, eu interajo com gente do mundo inteiro, gerencio projeto para a América Latina, projetos globais de TI. Então, não importa muito onde eu esteja fisicamente.” (entrevista empregado / subsidiária / IBM). Os estudos de Sennett (2009) foram baseados em entrevistas com executivos e exexecutivos da IBM. Os executivos entrevistados pelo autor passaram por ciclos de mudança na organização e alguns foram desligados. Segundo relatos de Sennett (2009), os executivos da IBM passaram por momentos de profunda tristeza, raiva e sentimento de traição quando eram demitidos. Alguns tentavam ainda manter a calma no intuito de conseguir obter da IBM o maior número de compensações pelo seu processo de demissão. O sentimento inicial dos recém-demitidos é de “traição” da IBM como se tivessem sido enganados, trapaceados pela empresa durante anos. “Ser trapaceado ou traído significa que uma tragédia dificilmente é culpa nossa (dos empregados).” (SENNETT, 2009, p. 149). Uma integrante da equipe de comunicação da matriz relata ter tido contato com a esposa de um empregado demitido e identifica que apesar do desconforto, quando existe uma razão (no caso o desempenho financeiro da IBM no período foi ruim e noticiado pela mídia) e o processo tenha sido feito de forma respeitosa, a compreensão é mais fácil. Foi interessante conversar com alguém que o marido foi impactado. Eu já falei com pessoas que foram impactadas. Ela pareceu compreender, eu quero dizer, ela viu na imprensa, o resultado do quartil foi ruim. E eles tiveram que fazer os cortes [...] Embora isso doa, você tem que respeitar58. (entrevista equipe comunicação / matriz / IBM, tradução nossa). 58 “And it was intersting to talk to somebody whose spouse was impacted. I mean, I´ve talked to people who have 141 Mais uma vez, são depositadas nos empregados as responsabilidades pelos resultados organizacionais, cabendo a eles também sofrer as consequências de um cenário que vai além de suas responsabilidades. O fracasso enfrentado no processo demissional é apresentado como responsabilidade do trabalhador, frente a um contexto que ele pouco pode agir ou interferir. Segundo os estudos realizados por Sennett, os ex-empregados da IBM tentavam resumir as suas relações com a empresa focando em três histórias. Todas as três versões giram em torno de um ponto crucial; na primeira, o ponto ocorre quando a administração existente começa a trair os profissionais, na segunda, quando intrusos chegam à cena; na terceira, no momento em que os programadores deixam de sair na hora certa. Nenhuma assume a forma de uma história em que a trajetória é de lenta e longa gestação, da época de Thomas Watson Sr. em diante. (SENNETT, 2009, p. 157). São tentativas de conforto e explicação das relações nas organizações na contemporaneidade. A flexibilidade em muitos casos, acaba gerando desordem, o que não deixa de acarretar limitações e sendo transformada em uma importante forma de poder. As características do mundo flexível (reinvenção da burocracia, especialização flexível de produção, concentração sem centralização) impactam diretamente nas relações pessoais e na maneira como os empregados se relacionam com as organizações. No caso da IBM, não há indícios de incômodos em relação à flexibilidade por parte dos empregados que estão trabalhando na organização, seja na matriz, seja na subsidiária. Já o grupo de ex-empregados, aponta alguns incômodos em relação às longas jornadas de trabalhos e à dedicação à organização, inclusive em contextos culturais diferenciados, mas sempre relativizando que essa é uma situação das organizações e não especificamente da IBM. “Havia dias em que eu chegava às 9h da manhã, começava a fazer um call, ia até as 6h da tarde. [...] Eu tinha um call com a matriz, como eles são americanos, falávamos em inglês. Como nós estamos na América Latina, nós falávamos espanhol.” (entrevista ex-empregado comunicação / IBM). Um exempregado relata a sua chegada à IBM. “Você chega à IBM, você ganha um notebook, um fone de ouvido, porque você fica no telefone muito [...], faz muita call internacional. Você ganha o fone de ouvido e o computador, isso é a sua vida. Você pode trabalhar com isso onde tiver rede.” (entrevista ex-empregado comunicação / IBM). Na tentativa de evitar o isolamento e o distanciamento causado pelo trabalho em casa ou em jornadas flexíveis, alguns been impacted. And she really understood. She understood, I mean, you saw it in the press. The quarter was bad. […] so while it hurts, you still had respect.”. 142 empregados já estão retornando ao escritório com uma certa regularidade na busca da interação com outros colegas de trabalho. “Às vezes, eu tenho o hábito de vir pelo menos uma ou duas vezes na semana porque eu acho que também a gente pode perder esse network59 com as pessoas, com o gerente. Para que as pessoas vejam onde você está, virem o que você está fazendo [...] senão você fica esquecido”. (entrevista empregado / subsidiária / IBM). Um integrante da equipe corporativa de comunicação na matriz relata que sua equipe é formada por 15 profissionais em sete países, Estados Unidos, Brasil, Austrália, Malásia, Polônia, Filipinas e Costa Rica, e que quatro desses profissionais ele não conhece pessoalmente, apenas por conferência telefônica. As relações virtuais estão se tornando cada vez mais intensas e substituindo os contatos diretos. O desenvolvimento das relações humanas está sendo também mediado por aparatos tecnológicos. Outro impacto nas relações internas são as constantes mudanças que, muitas vezes, são apontadas com normalidade. “A IBM é uma empresa de muita mudança. Ela muda constantemente e, às vezes, pelo menos eu não entendo a mudança antiga e já está mudando de novo. Mas essa é a estratégia da companhia há muito tempo.” (entrevista empregado / subsidiária / IBM). Aos empregados não são explicados os motivos das mudanças e não é dado tempo para que as mudanças conduzidas possam gerar resultados para as organizações. 4.5 Resumo da análise da comunicação interna na Odebrecht e IBM Odebrecht e IBM apresentam características bastante diferentes, na sua área de atuação, na sua história e também nos seus processos comunicacionais. O quadro 7 foi elaborado com o objetivo de resumir e organizar as principais informações sobre as empresas. Além das informações institucionais, um resumo da análise dos processos de comunicação interna de ambas organizações também estão inseridos. O resumo da análise aponta os principais objetivos elaborados neste estudo: compreender as relações entre as áreas de comunicação da matriz e da subsidiária em um contexto sociocultural e comunicacional distinto, capturar as percepções dos empregados e ex-empregados da matriz e da subsidiária sobre a comunicação interna, identificar as percepções dos empregados e ex-empregados da matriz e da subsidiária sobre a reputação das organizações, ou seja: o grau de estima, admiração, confiança e respeito e, finalmente, apontar os tensionamentos nas relações existentes nos contextos de ambas organizações. 59 Contato/relação no ambiente de trabalho. 143 Quadro 7 – Análise da comunicação interna na Odebrecht e IBM Item de análise Odebrecht IBM Informações gerais Fundada em 1944. Presente em 25 países. 180 mil empregados. Fundada em 1911. Presente em 170 países. 430 mil empregados. Atividades / área de atuação Engenharia e construção, infraestrutura e energia, indústria e instituições auxiliares aos negócios principais. Tecnologia e prestação de serviços. País de origem da empresa Brasil (Bahia). Estados Unidos (Nova Iorque). Subsidiária pesquisada Estados Unidos (Flórida). Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo e Hortolândia). Influência da cultura de país na gestão da empresa? Sim. Não. Modelo americano é considerado o padrão global. Cultura organizacional (na visão e análise da liderança organizacional) Definida, identificada e determinante. Definida, identificada e determinante. Percebida pelos interlocutores, vivenciada pelos empregados, registrada, utilizada como parâmetro para os processos de comunicação. Foi definida em 2003 com a participação colaborativa dos empregados. Relação matriz-subsidiária segundo modelo de Birkinshaw (1994) Papel subsidiária. Papel subsidiária. Estrutura de comunicação Existente, com recursos humanos e financeiros. Existente, com recursos humanos e financeiros. Está em fase de consolidação por meio de um projeto de explicitação dos É sistematicamente difundida comportamentos esperados. e atua como balizador para o Base da cultura é o “1-3-9”, desenvolvimento dos um propósito, três valores e empregados. Mesmo os nove práticas que definem a novos empregados já estão IBM. impregnados com a cultura da empresa. Os estrangeiros também se identificam com a cultura organizacional. 144 Estrutura de comunicação interna Inexistente na área corporativa. Presente nas subsidiárias. Existente e bem estruturado na matriz, nas subsidiárias e também nas unidades de negócio. Denominação dos empregados Integrantes. IBMista. Processos de comunicação interna Bem estabelecidos e bem avaliados pelos empregados na matriz e na subsidiária. O volume de processos corporativos é inferior aos regionais. Bem estabelecidos e bem avaliados pelos empregados na matriz e na subsidiária. O volume de ações corporativas é adequado e sofre adaptações locais de acordo com as realidades do território e da unidade de negócio. Modelo de comunicação (Deetz 2010) Administração da cultura. Comunicação estratégica. Relação matrizsubsidiárias no âmbito da comunicação interna Estrutura descentralizada. Poucas diretrizes corporativas e acompanhamento quase inexistente. Apenas um fórum anual de troca de experiências e conhecimento. Estrutura descentralizada e matricial. Interfaces complexas entre território e unidades de negócio. Sistema estruturado de acompanhamento e integração por meio de conferências telefônicas e documentos internos. Subsidiárias são convidadas a participar do processo de planejamento no âmbito das ações globais. Percepção dos exempregados (grupo de contraposição) sobre a relação matrizsubsidiárias no âmbito da comunicação interna Relatam conforto nas relações quando estavam na organização, reforçando as características de descentralização e autonomia. Relatam certo desconforto no formato de acompanhamento dos trabalhos e relatórios de projetos. Julgam existir um certo excesso de conferências telefônicas. Percepção dos empregados da matriz sobre a comunicação interna Avaliação positiva. Reconhecem o esforço de manter os empregados informados. Avaliação positiva. Em alguns momentos percebem a existência de um volume excessivo em função das várias linhas de negócio e atuação em diversos territórios. Percepção dos empregados da Avaliação positiva. Satisfeitos por receberem informações Avaliação positiva. Satisfeitos por receberem informações 145 subsidiária sobre a comunicação interna corporativas. Não há percepção corporativas. Indicam saber de excesso de informações. onde buscarem as informações necessárias para o seu trabalho e crescimento profissional. Percepção dos empregados da matriz sobre a reputação da empresa Admiração, orgulho, confiança e respeito em alto grau. Empregados mais antigos tendem a ter uma percepção mais favorável. Admiração, orgulho, confiança e respeito em alto grau. O porte e a presença global são diferenciais da empresa, influenciando os atributos de reputação. Admiração pelo tamanho e importância da organização no contexto mundial. Percepção dos empregados da subsidiária sobre a reputação da empresa Admiração, orgulho, confiança e respeito em alto grau. Empregados locais com menor tempo de casa têm uma admiração moderada. Os empregados locais não demonstram um grau elevado de orgulho da empresa. Admiração, orgulho, confiança e respeito em uma posição moderada. Têm orgulho e confiam na IBM, mas demonstram ter uma maior admiração e respeito por outras organizações. Percepção dos exempregados da comunicação sobre a reputação da empresa Admiração, orgulho, confiança e respeito em alto grau. Mantêm o mesmo nível de admiração, orgulho, respeito e confiança que os atuais empregados da matriz. Demonstram admirar, ter orgulho, confiança e respeito por outras organizações. A IBM é citada em alguns casos como preferência nos atributos acima, mas diferentemente dos empregados da matriz, a empresa não é unanimidade. Papel da liderança no processo de comunicação interna Delegação incondicional aos líderes para desempenhar a relação de comunicação interna com os empregados. Os líderes são reconhecidos pelos empregados como responsáveis por mantê-los informados. Ações baseadas na sistematização da cultura da empresa. Desenvolvem o papel com os empregados quando e se necessário. São reconhecidos pelos empregados, mas não existe uma unicidade e consenso desse papel determinante nas relações de comunicação interna. Fonte: Elaborado pelo pesquisador 146 5 PRINCIPAIS CONSIDERAÇÕES E APONTAMENTOS FUTUROS A comunicação interna precisa evoluir de um processo meramente instrumental para considerar a complexidade das relações e do contexto em que a organização e seus empregados estão inseridos, se relacionam em constante processo de mudanças e interferências mútuas nas relações entre empregado e organização. O empregado é parte da cultura e identidade das organizações, fatores que influenciam diretamente a percepção dos demais interlocutores na construção da imagem e da reputação das organizações. Neste capítulo, são apresentadas as principais considerações deste trabalho de pesquisa, levando-se em consideração as análises das entrevistas em profundidade realizadas com os empregados, equipe atual de comunicação e ex-empregados da área de comunicação da Odebrecht e IBM. Não se pode pensar em comunicação sem considerar os aspectos da cultura, cultura organizacional e cultura de país. O processo comunicacional é baseado na relação e nas trocas simbólicas entre os envolvidos. Como indivíduos, somos dotados de filtros, características, preferências e experiências passadas. Todo esse contexto influencia os processos comunicacionais nas trocas simbólicas e na disputa de sentido. Questões referentes à cultura de país tornam os indivíduos pertencentes a um mesmo grupo (hegemônico ou não) a apresentarem traços de comportamento comuns. As características culturais impactam a forma com que eles se relacionam com as organizações, entre si, e também como interagem nos processos comunicacionais. A cultura organizacional também é determinante nas relações internas. Os empregados são representações das suas organizações e acabam, de forma deliberada ou não, assimilando as características culturais organizacionais. Os empregados são portadores da cultura organizacional, da mesma forma que portam características das suas origens culturais (região e país). Odebrecht e IBM são empresas complexas, estão inseridas em um contexto global e suas características de multinacionais tornam qualquer tipo de análise um desafio para os pesquisadores. Acrescidos às variáveis tradicionais de uma análise organizacional (contexto, estrutura, histórico, fluxos de comunicação), apresentam-se fatores ligados às diferentes culturas nacionais, às relações entre matriz e subsidiárias e à presença de interlocutores diferentes de acordo com o território de atuação das empresas. Odebrecht e IBM não atuam no mesmo segmento de mercado, suas origens são bastante distintas e apesar de estarem ambas atuando no mercado global, possuem modelos distintos de interação entre matriz e subsidiárias. Odebrecht tem sua origem familiar e uma forte ligação com o seu fundador, já a 147 IBM é uma empresa de mercado, com uma pulverização maior de acionista e mas também apresenta ligações significativas com a sua origem e história. Odebrecht e IBM possuem estrutura de comunicação com equipe responsável pelo processo, com políticas e escopo de atuação definidos. As estruturas de comunicação, em ambas as empresas, estão presentes no nível corporativo (da matriz) e também no âmbito das suas subsidiárias, seja nas linhas de negócio, seja por divisão geográfica (por pais, região ou continente). As estruturas de comunicação são formais, dotadas de um quadro de pessoal dedicado às funções de comunicação, com orçamento estipulado para o desenvolvimento das estratégias definidas a cada ciclo de planejamento. Ambas as empresas estão presentes em um grande número de países, IBM está presente em 170 países e Odebrecht em 25, além de possuírem um quantitativo elevado de trabalhadores, IBM com 430 mil e Odebrecht com 180 mil empregados. A IBM está no mercado há 102 anos e a Odebrecht completou 69 anos em 2013 (ODEBRECHT, 2013) (IBM, 2013). As estruturas de comunicação das duas empresas apresentam diferenças, no número de profissionais, nas divisões de atuação e na descrição de suas atividades. A comunicação da IBM e Odebrecht apresenta fluxos de relacionamento formais e estruturados entre as equipes da matriz e da subsidiária embora sejam de intensidades e propósitos diferentes. Na matriz da Odebrecht, não existe uma estrutura formal de comunicação interna, com profissionais dedicados ao processo. Nas subsidiárias, há profissionais dedicados à comunicação interna que também são responsáveis por outros processos de comunicação (assessoria de imprensa, gestão de marca, eventos). Não há profissionais dedicados exclusivamente ao processo de comunicação interna. As ações são desenvolvidas de acordo com as suas características processuais. No âmbito da matriz, os veículos internos são produzidos pela mesma estrutura que produz os demais veículos direcionados a outros públicos. De forma conceitual, é delegado a cada líder a responsabilidade pela comunicação com a sua equipe, reforçando a cultura da empresa. No caso da IBM, a estrutura de comunicação interna na matriz e nas subsidiárias é formal e responsável pela condução da comunicação com os empregados, cabendo ao líder também participar do processo. Pelo modelo de gestão empresarial da Odebrecht, baseado na delegação de responsabilidades e de descentralização, o papel da área de comunicação da matriz é dar suporte às subsidiárias, sem ter um processo sistematizado e um controle rígido. O relacionamento entre as equipes de comunicação da matriz e das subsidiárias ocorre, mas não pode ser considerado como estruturado ou frequente. O contato e a troca acontecem, quando e 148 se necessário, muito mais baseado nas necessidades das subsidiárias do que da matriz. O nível de interferência da matriz nos processos de comunicação da subsidiária pode ser considerado baixo. Em relação à IBM, existe uma delegação para atuação de cada área de negócio. O fluxo de troca entre as equipes de comunicação da matriz e das subsidiárias da IBM é mais intenso. As orientações da matriz são mais constantes, são encaminhadas para uma análise prévia das equipes de comunicação das subsidiárias para uma possível adaptação e, em alguns casos, essas equipes são convidadas a desenvolver um planejamento de comunicação integrado inclusive com possibilidade de sugestões e de interferência nas ações de comunicação no nível corporativo. O nível de interferência nas atividades diárias das subsidiárias também pode ser considerado baixo, mas o volume de reuniões para acompanhamento e as atividades de nivelamento realizadas, frequentemente, por conferência telefônicas, é bem mais intenso. Apesar de existir uma delegação para atuação no nível das subsidiárias, nota-se que na IBM a matriz desenvolve um papel de controle maior, confirmado pelos contatos periódicos, envio de relatórios e realizações frequentes de conferências telefônicas de alinhamento com um caráter de prestação de contas, de trocas e aprendizagens. Uma análise mais detalhada das atividades de comunicação direcionadas aos empregados aponta para uma diferença importante entre as duas empresas. A IBM possui uma estrutura formal de comunicação com os empregados, denominada Capacitação da Força de Trabalho e Força de Vendas, tanto na matriz quanto nas subsidiárias. O volume de meios e as ações de comunicação direcionados aos empregados da IBM podem ser considerados elevados (em número e conteúdo), fazem parte da estratégia da empresa e são percebidos e bem avaliados pelos empregados, tanto da matriz quanto da subsidiária. Ambos os grupos de empregados (matriz e subsidiária) conseguem identificar o processo de comunicação direcionado a eles e reconhecem sua importância e destacam a necessidade de receber as informações para que possam desempenhar as suas atividades. A comunicação com os empregados são frequentes, existem canais estruturados e complementares e há uso de diversas mídias (impressa, on-line e audiovisuais). Na percepção dos empregados da IBM, existe um volume significativo de informações, embora não seja caracterizado como excessivo, já que estes reconhecem que o importante é que a informação seja disponibilizada, cabendo a cada um definir o grau de relevância e consumir de acordo com a necessidade. Os empregados da subsidiária da IBM inclusive percebem a relevância de ter informações sobre a matriz, mesmo que disponibilizada em outro idioma (no caso em inglês), pois assim sabem 149 que podem encontrar informações que julgam importantes sobre o negócio e futuro da empresa. Receber informações sobre a matriz na subsidiária também é desejado pelos empregados da Odebrecht. A distância física da matriz indica a necessidade de estarem alinhados ao que está acontecendo em outras unidades, podendo inclusive apresentar oportunidades de carreira e desenvolvimento. Para os integrantes da Odebrecht na subsidiária, o grande volume de informações disponibilizado não aparenta ser problema. Para os empregados, é melhor ter acesso às informações do que não serem informados. Os empregados da Odebrecht são muito mais impactados pelas mensagens locais, já que o volume e o fluxo de comunicação corporativo é bem menos intenso do que no caso da IBM. Na realidade da Odebrecht, os canais de comunicação interna são bem estabelecidos, existindo canais de comunicação virtuais, como intranet e boletins eletrônicos. Na IBM, também existem espaços virtuais de informação disponível para os empregados no âmbito global e local (intranets e portais), possuem um boletim eletrônico quinzenal (newsletter) e uma revista imprensa também está disponível para os empregados no Brasil (subsidiária). O volume de ações (campanha e eventos internos) de comunicação interna é bem menor se comparado com o da IBM, mas os empregados, tanto da matriz quanto da subsidiária, sentemse bem informados, avaliando o volume e também a qualidade. Além dos espaços virtuais (intranet, sites e ambientes de redes sociais), não existe na IBM nenhum veículo com periodicidade direcionado aos empregados no âmbito corporativo, apenas por unidade de negócio ou território. No caso do Brasil, existe uma revista direcionada aos trabalhadores, que é entregue diretamente na casa de cada empregado. O que faz com que os processos comunicacionais com os empregados da IBM e da Odebrecht tenham características comuns e, ao mesmo tempo, sejam singulares? O objetivo deste estudo foi investigar como se dá a adaptação do processo de comunicação interna para as realidades locais considerando as diferenças socioculturais ecomunicacionais. O processo de comunicação interna de ambas as empresas permite que haja adaptações às realidades locais. No caso da IBM, o envolvimento das subsidiárias no processo de planejamento é maior do que o identificado na Odebrecht, que segue o modelo de gestão baseado na descentralização e na delegação do poder de decisão e de responsabilidade. Os fluxos de troca entre as áreas de comunicação da matriz e das subsidiárias é mais intenso e estruturado na IBM, inclusive com uma percepção de ser um pouco excessivo. Apesar do discurso da descentralização e da delegação de responsabilidade, existe na IBM um maior controle e 150 acompanhamento do que está sendo desenvolvido nas diversas unidades e territórios onde a empresa atua. O controle na Odebrecht se apresenta no imperativo da cultura organizacional. A organização e seus integrantes se apresentam envolvidos com as determinações de uma cultura identificada, determinante e disseminada, onde tudo deve acontecer segundo as diretrizes estabelecidas por um dos seus fundadores. Nesse caso, o controle pode até parecer invisível, mas ele se faz muito mais presente do que pode ser facilmente identificado. IBM e Odebrecht são empresas com culturas organizacionais bem definidas e bem identificadas. Em ambos os casos, é possível perceber a existência de uma cultura organizacional determinante nos processos de comunicação. Mas, no caso da Odebrecht, além de ser determinante, percebida e definida, a cultura empresarial é registrada (no caso em livros publicados pelo fundador e também em documentos internos), é utilizada como parâmetro para o processo de contratação de novos empregados, é vivenciada diariamente pelos empregados, nas suas falas nos seus comportamentos e serve como base para a tomada de decisões, é sistematicamente difundida por meio de capacitações e treinamentos de novos empregados e também no processo de reciclagem dos que já estão na organização há mais tempo e principalmente é uma cultura que serve como base para o processo de crescimento do integrante dentro da Odebrecht. Os empregados que assumem cargos de liderança são aqueles que demonstram nas suas falas e também ações conhecer e dominar os ensinamentos da TEO. Aos integrantes só restam um único caminho, seguir as orientações da TEO e se encaixarem na cultura organizacional, seja por vontade própria, por identificação, por necessidade ou até mesmo por falta de uma opção. Os integrantes na Odebrecht, para sobreviver na organização e também crescer, precisam demonstrar que acreditam na cultura a eles apresentado. Aos lideres é delegado o aculturamento das suas equipes e aos liderados existe apenas duas opções, seguir seus lideres ou não fazer mais parte da organização. Um ponto de diferença marcante entre as duas organizações é a disseminação sistemática da cultura Odebrecht para os seus empregados, com intencionalidade e propósitos definidos. Na experiência da IBM, os empregados participaram de forma virtual e intensa da definição dos principais traços culturais que definem a empresa em julho de 2003. Nesse momento, a empresa está reforçando os comportamentos que são esperados dos empregados para cada um dos traços culturais. Em ambas as empresas, o líder é apontado como o principal responsável pelo processo de comunicação com os empregados. Observa-se também que ambas as equipes de comunicação reconhecem esse papel e responsabilidade e identificam que a comunicação interna contribui para o processo não podendo ser totalmente responsável, pois os produtos de 151 comunicação direcionados a eles são apenas uma das possíveis fontes de informação. Além de fontes externas, do contato com outros empregados, a liderança exerce uma função importante na ambientação e desenvolvimento das suas equipes. Como a cultura organizacional pode impactar os processos de comunicação com os empregados? A cultura organizacional é subsídio para a identidade organizacional, questão fundamental no comportamento dos empregados da organização, que é determinante na percepção da imagem e reputação. Nisso, talvez, esteja o ponto central da diferença entre as duas organizações. A equipe de comunicação interna da IBM na matriz delega às equipes da subsidiárias a responsabilidade de comunicação com os empregados. Existe um fluxo de trocas e apesar da delegação, o processo de controle e reporte é bem intenso, sendo que os canais e campanhas direcionadas aos empregados são bem avaliados por quem os consome e pode ser considerados em um volume também adequado. Não há percepção dos empregados de uma ausência ou falta de informação. Já no caso da Odebrecht, a delegação da comunicação interna pela matriz é maior, sem existir fóruns formais de acompanhamento e/ou controle, o processo de troca é mais por demanda, seguindo as orientações de gestão da empresa. O volume de materiais e canais disponibilizados pelos empregados é menor (se comparado ao da IBM), porém mantém o grau de satisfação quando avaliado pelos empregados (tanto da matriz quanto da subsidiária), destacando que, no caso da Odebrecht, não há uma estrutura de comunicação interna específica na matriz. Onde está a diferença entre o processo de comunicação interna entre as duas empresas? A análise das entrevistas realizadas em ambas organizações, somada a uma avaliação diante das teorias articuladas neste estudo, possibilita o apontamento de um caminho que nos leva a possíveis estudos futuros na área. Não são dados conclusivos que podem se esgotar aqui, mas apenas apontamentos para futuros estudos. A Odebrecht demonstra ter uma liderança mais consciente do seu papel de responsável pela comunicação com seus liderados. Além de realizar esse papel de forma determinante no seu processo de gestão. Segundo relato dos empregados entrevistados na matriz e na subsidiária, há um registro no modelo de gestão da empresa, que o líder é responsável pelo sucesso da sua equipe, dos seus liderados. Fica claro para o gestor que o seu sucesso e desenvolvimento na empresa passa pela sua capacidade de gestão dos empregados. A ausência de uma estrutura formal de comunicação (além de soluções mais elaboradas seja do ponto de vista de conteúdo, formato ou questões tecnológicas) na comunicação interna da Odebrecht está sendo suprida pelo papel da liderança, ou será que a existência de uma liderança mais presente e consciente 152 do seu papel de gestão da equipe, inclusive como porta-voz da empresa perante os empregados, “limita/inibe” a necessidade de uma área de comunicação mais robusta na empresa? A interação pessoal entre líder e liderado é bem mais intensa e profunda do que os processos comunicacionais baseados em soluções de comunicação (impressas, on-line ou audiovisuais). As análises das entrevistas realizadas nas duas empresas apontam para uma diferença significativa que pode levar a futuras investigações nessa área. Como uma organização do porte e características da Odebrecht consegue manter seus empregados informados e com um grau de satisfação elevado? Talvez a resposta esteja no papel da liderança. A partir do momento em que a cultura Odebrecht formaliza, orienta e cobra da liderança o seu papel de responsável pela interação com o público interno, pode estar suprindo a ausência de uma estrutura formal de comunicação interna na matriz e de soluções mais elaboradas com as identificadas na IBM. Na IBM, a liderança exerce a sua função de relacionamento com os empregados no mesmo grau de intencionalidade que as demais organizações do mesmo porte e com características similares, não representando assim um diferencial. Os empregados entrevistados não indicam que os seus líderes executem ações para mantê-los informados além da normalidade. Ficam alguns questionamentos para futuros estudos. Seria possível uma organização cumprir os seus objetivos sem uma estrutura e processos formais produzidos e mediados pela área de comunicação interna? Qual o grau de interferência, positiva ou negativa, que a liderança de uma organização tem na satisfação dos seus empregados com relação aos processos de comunicação interna? Seria possível manter os empregados beminformados apenas via a comunicação face a face com as suas lideranças? Qual o nível de interferência que a liderança exerce sobre a percepção do empregado sobre as organizações? As características da cultura organizacional também devem ser consideradas um diferencial no processo de comunicação com os empregados? E, concluindo, uma comunicação livre e aberta, em que o diálogo é utilizado para reduzir tensões e criar sentido comunitário, pode ser a alternativa para as relações estabelecidas no cenário contemporâneo, com mudanças rápidas, posicionamentos plurais e uma interdependência entre os interlocutores cada vez mais perceptíveis. Na busca de uma relação mais livre e aberta, existem duas prerrogativas: uma abertura para a interação sem tentativas de controle e imposições ou propostas que alterem as preconcepções existentes no processo interacional presente. O foco é na melhoria nas formas existentes e já praticadas de conversação aberta, diálogo e colaboração. Contribuir para uma prática e com teorias mais 153 democráticas e participativas deve ser um dos principais papéis dos estudos da comunicação organizacional (DEETZ, 2010). Essas abordagens propostas pelo autor trazem oportunidades de reflexão das responsabilidades, deveres e desafios que as estruturas de comunicação nas organizações enfrentam na condução dos seus trabalhos. São oportunidades que apontam escolhas e caminhos, mas também relativizam o papel mediador que a comunicação pode desempenhar no contexto organizacional. Pontos importantes são destacados no momento do ato de se comunicar e nas trocas simbólicas que se concretizam entre os diversos interlocutores na sociedade, por exemplo, no consumo de produtos e serviços, durante a necessidade de envolvimento da sociedade para alguma causa social ou durante o início de um novo empreendimento com alto impacto na comunidade. As redes sociais trazem novos desafios para o contexto organizacional. Os empregados também experimentam as oportunidades de trocas, colaboração, pesquisa e interação sem limite e controle hoje presente nos ambientes virtuais externos às organizações onde trabalham. Almeida, Del Gáudio e Soares (no prelo) destacam três pontos importantes para as organizações que já utilizam ou cogitam a utilização as redes sociais nas suas relações internas: as redes sociais são desterritorializadas, em uma ausência de limites físicos e presença de múltiplas vozes; o compartilhamento de informações nas redes sociais é geralmente realizado por meio de relatos e histórias pessoais e existem riscos de coerência e responsabilidades atreladas ao uso das redes sociais direcionadas para os trabalhadores. . A coerência refere-se à adequação entre o discurso e a realidade, entre o dizer e o fazer. [...] A responsabilidade, por sua vez, refere-se ao reconhecimento pela organização de seu papel como um ator social importante e que, portanto, será cobrado pelas suas ações, postura e discurso. (ALMEIDA; DEL GÁUDIO; SOARES, no prelo). Mudanças precisam ser consideradas nas análises das organizações, que não são entidades estáticas, estão em constante mutação e transformação, gerando ressignificação. Os empregados também estão em mudança, passando por um processo de questionamento e interface na busca dos seus objetivos pessoais. Este é o contexto em que a comunicação e as relações entre os diversos interlocutores se materializam: são momentos de trocas simbólicas constantes e frequentes interações. 154 REFERÊNCIAS AHARONI, Yair; BROCK, David. International business research: looking back and looking forward. Journal of International Management. Fox School of Business, Temple University: Elsevier. v. 16, n. 1, p. 5-15, 2010. ALMEIDA, Ana Luisa de Castro. A construção de sentido sobre “quem somos” e “como somos” percebidos. In: MARCHIORI, Marlene (Org.). Faces da cultura e da comunicação Organizacional. 2. ed. São Paulo: Editora Difusão, 2008. p. 31-50. ALMEIDA, Ana Luisa de Castro; BERTUCCI, Janete Lara de Oliveira. 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And what are the main challanges in the company´s Internal Communications? O que a liderança espera da Comunicação Interna? / What do the leaders expect from the Internal Communications department? O que os empregados esperam da Comunicação Interna? / What do the employees expect from the Internal Communications department? Quais são as principais demandas / expectativas? / What are the main demands? Quais são as principais dificuldades? Entraves? / What are the main difficulties or problems you have to face? Quais são os pontos positivos da Comunicação Interna da empresa? / What are the positive aspects at the company´s Internal Communications? Quais são os pontos negativos da Comunicação Interna da empresa? What are the negative points at the company´s Internal Communications? Como você recebe orientações para o planejamento de suas ações? / How do you receive orientation to plan your actions? Como é a relação entre a estrutura de Comunicação da matriz e das subsidiárias? / What is the relation between the Communication department at the headquarter and the subsidiaries? Qual o seu nível de autonomia? Como são feitos os controles? Como é o sistema de aprovação? / What is your authonomy? How do you report to the corporate area? What is the approval process? Como se dão os fluxos de informação (comunicação interna) da matriz para as subsidiárias? / What is the information flow in Internal Communications from corporate to the subsidiaries? Quais os veículos corporativos e locais? / What are the corporate and local internal vehicles/channels? Quais são as campanhas corporativas e locais? / What are the corporate and local internal campaigns? Quais são os eventos internos corporativos e locais? / What are the corporate and local internal events? Quais são os suportes à liderança para comunicação direta corporativos e locais? / What are the support to the leadership to face to face communications in a corporative and local level? 165 23) Qual a sua avaliação da percepção dos empregados da subsidiária com relação à comunicação produzida na matriz? Pertinência? Relevância? / What is your opinion on the employees` perception of the communications produced in the corporate area? And the importancy? And the relevancy? 24) Qual a sua avaliação da percepção dos empregados da subsidiária com relação à comunicação produzida na subsidiária? Pertinência? Relevância? What is your opinion on the employees` perception of the communications produced in the subsidiary? And the importancy? And the relevancy? 25) Qual o grau de admiração que os empregados têm pela empresa? Por quê? / What is the degree of admiration the company´s employees have? Why? 26) Qual o grau de respeito que os empregados têm pela Odebrecht? Por quê? 27) Qual o grau de confiança que os empregados têm na Odebrecht? Por quê? 28) Qual o grau de admiração que os empregados têm pela Odebrecht? Por quê? 29) Quais os pontos vulneráveis da Odebrecht? Por quê? 30) E os pontos fortes da Odebrecht? Por quê? 31) Como a TEO (Tecnologia Empresarial Odebrecht) é percebida pelos empregados? 32) Como a TEO (Tecnologia Empresarial Odebrecht) interfere no processo de Comunicação interna da empresa? 166 APÊNDICE B – Roteiro de Entrevista Empregados (português/inglês) 1) Nome completo / Full name 2) Qual a sua formação? / What is your background? 3) Há quanto tempo trabalha na área? E há quanto tempo trabalha na empresa? / How long have your worked in the área? And how long have your worked in the company? 4) Quais as suas principais atividades (job description)? / What are your main activities? What is your job description? 5) A quem você se reporta? / Who do you report to? 6) Você se sente bem-informado com relação às informações direcionadas aos empregados? / Do you feel you ar 7) Como você se mantém informado? Quais os canais? 8) Como você prefere receber informações da empresa? How do you prefer to receive information from the company? 9) Que tipo de informação você geralmente recebe (negócio, administrativas, RH, estratégia, diversos)? What type of information do you receive from the company (business, HR, estrategy, diverse) 10) Como você avalia a comunicação interna da empresa? How do you evaluate the interna communication in the company? Vamos conversar sobre dois tipos de informações? Informações corporativas e informações locais. We will talk now about two types of communciations, corporative and local. 11) O que você acha sobre as informações corporativas que você recebe? São pertinentes? São compreensíveis? What do you think about corporate communication you receive? Are they important? Can you understand them? Do they make sense? 12) Essas informações são importantes para o seu trabalho? Are these information importante for your job? 13) Quais são os pontos positivos da Comunicação Interna da Odebrecht? What are the positive aspects of the Internal Communication of Odebrecht? 14) Quais são os pontos negativos da Comunicação Interna da Odebrecht? What are the negative points of the Internal Communciation of Odebrecht? 15) Qual empresa você mais admira? Por quê? What companies do you admire? Why? 16) Por qual empresa você mais tem respeito? Por quê? What companies do you respect? Why? 17) Em qual empresa você mais confia? Por quê? What companies do you trust? Why? 18) Qual o grau de admiração que os empregados têm pela Odebrecht? Por quê? What is the degree of adminiration Odebrecht´s employees have for the company? Why? 19) Qual o grau de respeito que os empregados têm pela Odebrecht? Por quê? What is the degree of respect Odebrecht employees have for the company? Why? 20) Qual o grau de confiança que os empregados têm na Odebrecht? Por quê? What degree of trust Odebrecht´s employees have for the company? Why? 21) Quais os pontos vulneráveis da Odebrecht? Por quê? What are the funerable points at Odebrecht? Why? 167 22) E os pontos fortes da Odebrecht? Por quê? What are the strenghts of Odebrecht? 23) Como você percebe a TEO (Tecnologia Empresarial Odebrecht)? Por quê? How do you feel about the Odebrecht Business Tecnology? Why?