Vol. 40, n.º 2 Março / Abril 2009 EDITORIAL EDITORIAL António Gomes ARTIGOS ORIGINAIS CARÊNCIA DE VITAMINA D: UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA NÃO RECONHECIDO E FREQUENTE NO GRANDE PORTO? Tojal Monteiro XIX 49 INTERACÇÃO MÃE-BEBÉ PREMATURO NUMA UNIDADE DE CUIDADOS INTENSIVOS NEONATAIS Ana Paula Forte Camarneiro, Catarina Alexandra das Neves Alves, Ana Patrícia Castro Ferreira, Ana Isabel Ferreira Gomes 53 AVALIAÇÃO DO RISCO DE CÁRIE EM ODONTOPEDIATRIA: A SUA UTILIDADE COMO MEIO DE PREVENÇÃO Elsa Paiva, Luís Pedro Ferreira 59 CASUÍSTICA INTERNAMENTO POR MALÁRIA IMPORTADA EM CRIANÇAS, EM DOIS HOSPITAIS DA GRANDE LISBOA Sílvia Freira, Catarina Luís, Maria João Brito, Cláudia Santos, Maria Helena Carreiro, Gonçalo Cordeiro Ferreira, Luís Varandas 65 CASOS CLINICOS “BAÇO ERRANTE”, UMA CAUSA RARA DE ABDOMEN AGUDO Jorge França Santos, Dina Carvalho, Ana Calheno, José Lima, Manuel Almeida e Silva, José A. Guedes Marques 69 ENCEFALOCELO OCCIPITAL: A CIÊNCIA E A ÉTICA Susana Martins, Margarida Albuquerque, José Miguens, João Costa, Antonieta Melo 72 ARTIGOS DE ACTUALIZAÇÃO A RESSONÂNCIA MAGNÉTICA FETAL NAS LESÕES DESTRUTIVAS DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL Carla Conceição, Constança Jordão 77 EDUCAÇÃO MÉDICA A LEITURA CRÍTICA DE UM ARTIGO MÉDICO (2ª PARTE) Daniel Virella 93 HISTÓRIA DA MEDICINA EFEMÉRIDES DA PEDIATRIA PORTUGUESA Henrique Carmona da Mota 99 NOTÍCIAS XXI NORMAS DE PUBLICAÇÃO XXIV ISSN 0873-9781 ACTA PEDIÁTRICA PORTUGUESA Vol 40 Nº 2 Março – Abril 2009 (Orgão Oficial da Sociedade Portuguesa de Pediatria) www.spp.pt [email protected] Fundador Carlos Salazar de Sousa CONSELHO EDITORIAL Director João M. Videira Amaral - Lisboa Editores Associados Daniel Virella - Lisboa Luís Pereira-da-Silva - Lisboa Jorge Amil Dias - Porto Guiomar Oliveira - Coimbra Coordenador de Edição António Gomes - Almada Secretariado Maria Júlia Brito - SPP Conselho Científico Aguinaldo Cabral Alexandra Seabra Diniz Ana Cadete Ana Medeira Ana Xavier Caldas Afonso Carlos Figueiredo Guiomar Oliveira José A. Oliveira Santos José Cabral José Luís Fonseca João Gomes-Pedro José Frias Bulhosa Laura Marques Libério Ribeiro Lucília Norton Manuel Fontoura Maria José Vieira Miguel Coutinho Olavo Gonçalves Óscar Tellechea Paolo Casella Rui Anjos Teresa Tomé (Sociedade Portuguesa de D. Metabólicas) (Secção de Cuidados Intensivos) (Secção de Reabilitação Pediátrica da SPMFR) (Sociedade Portuguesa de Genética Humana) (Grupo Port. de Oftalmologia Ped. e Estrabismo) (Secção de Nefrologia) (Secção de Medicina do Adolescente) (Secção de Pediatria do Desenvolvimento) (Secção de Pneumologia) (Secção de Gastrenterologia e Nutrição) (Secção de Pediatria Ambulatória) (Secção de Educação Médica) (Ordem dos Médicos Dentistas) (Secção de Infecciologia) (Secção de Imuno-Alergologia) (Secção de Hematologia e Oncologia) (Secção de Endocrinologia) (Secção de Reumatologia) (Subcomissão de ORL Pediátrica da SPORL) (Sociedade Portuguesa de Neuropediatria) (Sociedade Port. de Dermatologia e Venereologia) (Sociedade Portuguesa de Cirurgia Pediátrica) (Secção de Cardiologia Pediátrica) (Secção de Neonatologia) Editores Correspondentes (Países de Língua Oficial Portuguesa) Luís Bernardino - Angola Paula Vaz - Moçambique Renato Procianoy - Brasil Directores ex-officio (Revista Portuguesa de Pediatria e Puericultura, Revista Portuguesa de Pediatria e Acta Pediátrica Portuguesa) Carlos Salazar de Sousa Jaime Salazar de Sousa Mário Cordeiro António Marques Valido Maria de Lourdes Levy João Gomes-Pedro Presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria Luís Januário Missão da APP: A APP, sucessora da Revista Portuguesa de Pediatria, é uma revista científica funcionando na modalidade de revisão prévia dos textos submetidos ao corpo editorial por colegas peritos em anonimato mútuo (peer review). É dirigida essencialmente a pediatras (vertentes médico-cirúrgica) e a médicos em formação pós-graduada para obtenção das respectivas especialidades no pressuposto de que os conteúdos interessam a outros médicos e profissionais interessados na saúde da criança e adolescente inseridos no respectivo meio familiar e social. A APP pretende abarcar um vasto leque de questões sobre investigação, educação médica, pediatria social, prática clínica, temas controversos, debate de opiniões, normas de actuação, actualização de temas, etc. São adoptadas diversas modalidades de divulgação: editoriais, espaços de discussão, artigos originais, artigos sobre avanços em pediatria, resumos de estudos divulgados em eventos científicos, notícias sobre eventos científicos e organismos estatais e não estatais devotados à criança e adolescente. A revista científica Acta Pediátrica Portuguesa (APP) (ISSN 0873-9781) é propriedade da Sociedade Portuguesa de Pediatria, com responsabilidade administrativa da respectiva Direcção. A publicação é bimestral com todos os direitos reservados. A coordenação dos conteúdos científicos é da responsabilidade do corpo editorial da APP (Director e Director Adjunto, Editores Associados, Coordenador de Edição e Conselho Editorial). A responsabilidade dos textos científicos publicados pertence aos respectivos autores, não reflectindo necessariamente a política da SPP. 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Interacção mãe-bebé prematuro numa Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais Ana Paula Forte Camarneiro, Catarina Alexandra das Neves Alves, Ana Patrícia Castro Ferreira, Ana Isabel Ferreira Gomes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Avaliação do risco de cárie em Odontopediatria: A sua utilidade como meio de prevenção Elsa Paiva, Luís Pedro Ferreira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . CASUÍSTICA Internamento por malária importada em crianças, em dois hospitais da Grande Lisboa Sílvia Freira, Catarina Luís, Maria João Brito, Cláudia Santos, Maria Helena Carreiro, Gonçalo Cordeiro Ferreira, Luís Varandas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . CASOS CLINICOS “Baço errante”, uma causa rara de abdomen agudo Jorge França Santos, Dina Carvalho, Ana Calheno, José Lima, Manuel Almeida e Silva, José A. Guedes Marques . . . . . . . . Encefalocelo occipital: a ciência e a ética Susana Martins, Margarida Albuquerque, José Miguens, João Costa, Antonieta Melo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XIX 49 53 59 65 69 72 ARTIGOS DE ACTUALIZAÇÃO A Ressonância Magnénita fetal nas lesões destrutivas do Sistema Nervoso Central Carla Conceição, Constança Jordão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77 EDUCAÇÃO MÉDICA A leitura crítica de um artigo médico (2ª parte) Daniel Virella . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 HISTÓRIA DA MEDICINA Efemérides da Pediatria portuguesa Henrique Carmona da Mota . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99 NOTICIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XXI NORMAS DE PUBLICAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XXIV XVII CONTENTS ACTA PEDIÁTRICA PORTUGUESA EDITORIAL Editorial António Gomes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ORIGINAL ARTICLES Caries risk test in Paediatric Dentistry - its usefulness as a prevention method Tojal Monteiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Mother-Premature Baby Interaction in Neonatal Intensive Care Ana Paula Forte Camarneiro, Catarina Alexandra das Neves Alves, Ana Patrícia Castro Ferreira, Ana Isabel Ferreira Gomes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caries risk test in Paediatric Dentistry - its usefulness as a prevention method Elsa Paiva, Luís Pedro Ferreira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . CASE SERIES Admission for imported malaria in children, in two hospitals of Lisbon urban area Sílvia Freira, Catarina Luís, Maria João Brito, Cláudia Santos, Maria Helena Carreiro, Gonçalo Cordeiro Ferreira, Luís Varandas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . CASES REPORTS Wandering spleen, a rare cause of acute abdomen Jorge França Santos, Dina Carvalho, Ana Calheno, José Lima, Manuel Almeida e Silva, José A. Guedes Marques . . . . . . . . Occipital encephalocele: science and ethics Susana Martins, Margarida Albuquerque, José Miguens, João Costa, Antonieta Melo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XIX 49 53 59 65 69 72 REVIEW ARTICLES Fetal Magnetic Resonance in Central Nervous System destructive lesions Carla Conceição, Constança Jordão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77 MEDICAL EDUCATION Reading a medical paper with a critical view (part 2) Daniel Virella . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 HISTORY OF MEDICINE Ephemerides of Portuguese Paediatrics Henrique Carmona da Mota . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99 NEWS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XXI GUIDELINES FOR THE AUTHORS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XXIV XVIII 0873-9781/09/40-2/XIX Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria A deficiência de vitamina D tem sido descrita nos últimos anos como uma condição muito prevalente em lactentes, crianças e adolescentes em todo o mundo1. Há muito que a deficiência de vitamina D é associada a raquitismo, explicável pela carência no regime alimentar e/ou por ausência de exposição cutânea directa à radiação solar, chamando-se ultimamente cada vez mais a atenção para a importância do referido défice na patogénese de patologias muito diversas na idade adulta, como doenças auto imunes, cardiovasculares, doenças malignas e possivelmente distúrbios psiquiátricos1,2. No presente número da APP publica-se um artigo de Tojal Monteiro3, que trazendo para a nossa realidade a questão da deficiência de vitamina D, se apresenta desafiante, potencialmente polémico e até intrigante. São claras e fortes as limitações e debilidades metodológicas apresentadas pelo estudo, tal como é justamente referido pelo autor, o que, no entanto, não impede o mérito que lhe está associado e que é o de chamar a atenção para um potencial problema de saúde pública, com enorme relevância em termos pediátricos, e que tal como acontece um pouco por todo o mundo, parece estar a verificar-se entre nós. Como afirma o autor, outros estudos “bem mais estruturados e elaborados” são necessários para podermos efectivamente perceber se a carência/deficiência de vitamina D é, de facto, um problema em Portugal. Mas a confirmar-se que tal acontece não deixa de ser curioso e perturbador. Porque se poderá verificar um aparecimento de deficiência de vitamina D num país tão abundante de sol? A vitamina D é o produto da síntese cutânea por acção solar (raios ultra violeta), e num país histórica (e por vezes bacocamente) orgulhoso do seu sol, que é uma das suas EDITORIAL imagens de marca e motor de uma das suas mais importantes actividades económicas, como se poderá explicar a insuficiência de vitamina D? Seguramente que hoje não é um problema apenas português, já que a deficiência de vitamina D tem sido descrita como muito prevalente entre lactentes, crianças e adolescentes e até adultos de todo o mundo, mesmo em países igualmente conhecidos pela grande quantidade do sol como é o caso da Austrália4,5. Será que, já como foi afirmado6, a recomendação para evitar a exposição directa ao sol por causa do risco de cancro da pele resultou numa pandemia global de deficiência de vitamina D? Em termos imediatos esta possível deficiência de vitamina D levanta duas questões importantes: 1) O o que devem os pediatras fazer na sua prática clínica, o que devem aconselhar? 2) Como estamos a criar as nossas crianças, como as estamos a deixá-las crescer? Privadas de sol? Privadas de sol por excesso de zelo quanto aos perigos da exposição solar, por demasiado tempo passado nas escolas e nos afazeres escolares, por excesso de tempo em lazer dentro de portas a jogar no computador ou a ver televisão? Pela (ausência de) qualidade do urbanismo das nossas aldeias, vilas e cidades? Finalmente, pela conjugação de todas estas causas, contribuindo, todas ela, para uma vida privada de exposição regular e moderada ao sol, pela diminuição de vida ao ar livre? Outras questões se colocam, como considerações geográficas, questionando se os resultados encontrados poderão Correspondência: António Gomes, [email protected] XIX Acta Pediatr Port 2009:40(2):XIX-XX corresponder apenas a uma realidade local ou regional: será assim só no Porto, só no Norte ou em todo o país? Trata-se, pois dum tema oportuno e importante, que acarreta consigo o desafio para mais investigação (atenção às bolsas da SPP para estudos em Nutrição), com implicações para a prática diária dos pediatras e doutros médicos e profissionais de saúde que requer um maior conhecimento e focalização nas suas causas reais e nas soluções possíveis. Talvez seja um bom motivo para se criar um fórum de discussão em Portugal envolvendo, entre outros especialistas, pediatras, peritos em saúde pública, dermatologistas e pediatras da áreas das ciências metabólicas para um trabalho que, com bom senso e clarividência, permita um melhor entendimento do tema. Para já, todos os contributos científicos e de experiência dos leitores são bem vindos por poderem contribuir, em obediência a uma das missões da nossa revista, para um melhor serviço à comunidade. Gomes A al – Editorial 2. Misra M, Pacaud D, Petryk A, Collett-Solberg PF, Kappy M. Drug and Therapeutics Committee of the Lawson Wilkins Pediatric Endocrine Society. Vitamin D deficiency in children and its management: review of current knowledge and recommendations. Pediatrics 2008; 122: 398-417 3. Monteiro T. Carência de viatmina D: um problema de saúde pública não reconhecido e frequente no Grande Porto? Acta Pediatr Port 2009; 40: 49-52 4. Robinson PD, Högler W, Craig ME, Verge CF, Walker JL, Piper AC, et al. The re-emerging burden of rickets: a decade of experience from Sydney. Arch Dis Child 2006; 91: 564-8 5. Munns C, Zacharin MR, Rodda CP, Batch JA, Morley R, Cranswick NE et al. Prevention and treatment of infant and childhood vitamin D deficiency in Australia and New Zealand: a consensus statement. Med J Aust 2006;185:268-72. 6. Howe WR, Dellavalle R. Vitamin D deficiency [author reply]. N Engl J Med 2007; 357:1981 Referências: 1. Huh SY, Gordon CM. Vitamin D deficiency in children and adolescents: Epidemiology, impact and treatment. Rev Endocr Metabol Disord 2008; 9: 161-70 António Gomes (Coordenador de Edição da APP) ERRATA No número anterior da Acta Pediátrica Portuguesa (Volume 40, número 2) verificaram-se algumas gralhas e erros ortográficos desagradáveis e facilmente identificáveis pelos leitores. No entanto, a mais relevante aconteceu no índice, onde uma carta do Colégio da Especialidade de Pediatria (na altura demissionário) era, erradamente, atribuída ao Professor Carmona da Mota, a quem solicitamos as nossas desculpas, assim como aos leitores. XX António Gomes 0873-9781/09/40-2/49 Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria ARTIGO ORIGINAL Carência de vitamina D: um problema de saúde pública não reconhecido e frequente no Grande Porto? Tojal Monteiro1 1 - Pediatra Resumo Introdução: Tem-se vindo a chamar a atenção para outras funções e necessidades da vitamina D, que não apenas a relacionada com a saúde óssea. Encontraram-se receptores para a vitamina D noutras células como linfócitos T e B, queratinócitos, neurónios, células da mama, próstata, cólon, pâncreas, miocárdio e pulmões. Os níveis de vitamina D necessários para estimular estes receptores são mais elevados que os referidos classicamente, os que frenando a acção da paratormona, impedem a destruição óssea. Como a vida se faz cada vez mais ao abrigo da luz solar, incluindo a generalização de filtros solares que diminuem a síntese, será de esperar carência de vitamina D, com consequências para além da saúde óssea, como neoplasias, diabetes, doenças imunológicas, asma, doenças inflamatórias intestinais, esquizofrenia e depressão, cardiovasculares, periondontais e psoríase. Objectivos: Determinar níveis de vitamina D (25-Hidroxi D3) numa amostra de crianças acompanhadas numa clínica privada do Grande Porto. Métodos: Foi avaliada uma amostra por conveniência de 45 crianças, 33 (73 %) raparigas, entre dois e meio e 16 anos, residentes no Grande Porto, de classes sociais média/alta, aparentemente saudáveis, no Inverno e Primavera de 2007/2008, recrutadas em consultas de saúde e depois de se explicar à família o objectivo do estudo e obter o seu acordo. Nenhuma criança recebeu suplemento farmacológico de vitamina D depois do primeiro ano de vida. Não foi possível quantificar a exposição média solar no Verão anterior. Consideraram-se quatro níveis de vitamina D: ideal> 100 nmol/L; suficiência 75-100 nmol/L; insuficiência relativa 50-74 nmol/L e deficiência <50 nmol/L. Resultados: Das 45 crianças, nove (20%) tinham um nível ideal, 24 (53%) suficiente, seis (13%) insuficiência relativa e seis (13%) deficiência. Conclusão: Foi encontrada carência de vitamina D em 26% Recebido: Aceite: 10.03.2008 19.05.2009 da população estudada, nos meses com menos sol, no Grande Porto, não atingindo níveis ideais 80%. Esta constatação necessita de ser confirmada com outros estudos. A confirmar-se os resultados obtidos, a carência de vitamina D constituirá também no Grande Porto, pelo menos no tipo de população estudada, um importante problema de saúde pública não reconhecido e frequente. Palavras-chave: Níveis de vitamina D, crianças, Grande Porto. Acta Pediatr Port 2009;40(2):49-52 Hypovitaminosis D: an unrecognized and frequent health problem in the Metropolitan City of Oporto, Portugal? Abstract Background: Beyond bone health, vitamin D has others functions. There are now evidence of vitamin D receptors able to be stimulated in many cells as lymphocytes T and B, myocardium, breast, prostate, colon, pancreas and lungs. To be stimulated, these receptors need higher levels of vitamin D, than de classical inhibition level necessary for reducing the parathyroid hormone and so impeding bone destruction for maintaining the calcium homeostasis. As we live mostly the day indoors and even in summer, people protects from solar radiation using filters that impedes vitamin D synthesis, it is possible a generalized hypovitaminosis D implicating several diseases like cancers, diabetes, immunological disorders, intestinal inflammatory bowel disease, schizophrenia and depression, cardiovascular disease, asthma, periodontal disease and psoriasis. Objective: To evaluate vitamin D status in children at a private clinic in the City of Oporto, Portugal. Methods: We evaluate 45 healthy children, 33 female (73%) aging 2.5 to 16 years, of medium/high social classes, during Correspondência: José Manuel de Carvalho Tojal Monteiro Rua António Cândido 223 4200-007 Porto E-mail: [email protected] 49 Acta Pediatr Port 2009:40(2):49-52 winter and spring of 2007/2008, attending a private clinic, selected, after information and family agreement about study objective. No children received pharmacologic vitamin D supplement, after the first year of life. It was not possible to quantify the solar exposition during last summer. Four levels of vitamin D (25-hydroxyvitamin) were considered: optimal >100 nmol/L; sufficient 75-100 nmol/L; relative insufficiency 50-74 nmol/L and deficiency <50 nmol/L. Results: Nine children (20%) had optimal levels, 24 (53%) sufficient, six (13%), relative insufficiency and six (13%) deficiency. Conclusion: Twenty six percent of children had hypovitaminosis D during winter and spring, and 80% don’t attended optimal levels. These results must be confirmed with other studies and if they agree, we can conclude that hypovitaminosis D is really an unrecognized and frequent health problem in this type of population, in the Metropolitan City of Oporto, Portugal. Key Words: levels of vitamin D, children, Metropolitan City of Oporto, Portugal. Acta Pediatr Port 2009;40(2):49-52 Introdução Habitualmente a vitamina D tem sido relacionada com o metabolismo fosfo-cálcico e pouco mais, sendo o raquitismo a principal consequência. O livro de texto, Nelson, Textbook of Pediatrics 1, a mais nada se refere. Como há muitos anos que não encontramos raquitismo, poderíamos supor que esta doença estaria “erradicada”. Mas não: o raquitismo está de volta 2-5. O modo de actuação da vitamina D na saúde óssea está fora do âmbito deste estudo. Contudo cabe apenas referir que não é uma vitamina, antes uma hormona, actuando em células que dispõem de receptores, classicamente enterócitos, células tubulares renais e osteoblastos. O nível sérico normal tem sido considerado entre 50 a 75nmol/L, pois com este nível atingem-se calcémias que levam à frenação da paratormona, impedindo-se a mobilização do cálcio ósseo e a consequente destruição óssea e as doenças inerentes, raquitismo, osteomalácia ou osteoporeose 6. Ultimamente tem vindo a ser imputada à hormona vitamina D outras acções biológicas que não a óssea. De facto, têm sido encontrados receptores para a sua forma hormonal, a 1,25dihidroxivitamina D, noutras células como promielócitos, linfócitos T e D, queratinócitos, células beta pancreáticas, da paratiróide, da hipófise, do cólon, do ovário, da mama, da próstata, do coração dos pulmões e neurónio. Sabe-se que os receptores destas células são estimulados com valores séricos mais elevados dos que o que asseguram a saúde óssea. Admite-se que a falta de estimulação destes receptores contribua para a génese de uma plêiade de doenças: diabetes tipo 17, asma 8-10, esclerose múltipla 11, artrite reumatóide e doença inflamatória intestinal 12, por afectação dos efeitos imuno-modeladores; hipertensão e doenças cardiovasculares, pelos cardiovasculares 13; neoplasias do cólon, próstata, ovário e mama pelos efeitos sobre o crescimento e diferenciação celulares 14-16; relaciona-se também com 50 Monteiro T – Carência de vitamina D depressão e esquizofrenia, pelos efeitos neuronais 17. De um modo ainda mais amplo, a suplementação com vitamina D poderá diminuir a mortalidade global 18. Estudos epidemiológicos recentes têm vindo a revelar uma carência de vitamina D, tanto em crianças 19-25 como em adultos, estimando-se que mais de mil milhões de pessoas tenham insuficiência ou deficiência 17. Apontam-se como razões, uma menor síntese cutânea e sequestração no excessivo tecido adiposo dos obesos. A menor síntese cutânea deve-se à reduzida exposição solar resultante da vida cada vez mais ao abrigo do sol, à redução da síntese nos meses de menor radiação solar em latitudes abaixo ou acima dos 37º, nos de Verão, pelo uso de filtros solares, e todo o ano pelo excesso de vestuário e pele mais pigmentada 14. Foi objectivo deste estudo verificar o estado nutricional em vitamina D em crianças residentes no Grande Porto. Métodos Para analisar o estado nutricional em vitamina D, foram estudadas 45 crianças, caucasianas, observadas regularmente numa clínica privada do Porto, recrutadas em consultas de saúde, entre aquelas cujas famílias (e, conforme a idade, as crianças) deram o seu consentimento, depois de se explicar o objectivo do estudo. Tinham idades compreendidas entre os dois e meio e os 16 anos, mediana nove anos, sendo 33 (73%) raparigas. Pertenciam a um estado social médio/alto e residiam no Grande Porto. Eram crianças habitualmente saudáveis e receberam suplemento de vitamina D apenas no primeiro ano de vida. Não foi possível quantificar a exposição média solar no Verão anterior. As colheitas foram feitas no Inverno e Primavera de 2007/2008 e as amostras analisadas em diferentes laboratórios. Para além do doseamento da vitamina D, na forma 25-Hidroxi, determinaram-se o cálcio, fósforo e fosfatase alcalina séricos. Consideraram-se os seguintes níveis de vitamina D: ideal> 100 nmol/L; suficiência 75-100 nmol/L; insuficiência relativa 50-74 nmol/L e deficiência <50 nmol/L 17, 26. Resultados Os valores obtidos estão indicados no Quadro. Tendo em conta toda a amostra, os valores variaram entre 39 a 157 nmol/L, com uma mediana de 78, quartil 1, 70 e quartil 3, 90. Estes valores são diferentes tendo em conta o género, mas dado o reduzido número de rapazes não é possível inferir, nem é de esperar, a menos por estilos de vida diferentes, que os rapazes tenham mais carência. Distribuindo os resultados obtidos por intervalos de referência, verificou-se que nove crianças (20%) tinham um valor> 100 nmol/L, ideal; 24 (53,3%), suficiente; seis (13,3%), insuficiência relativa e seis (13.3%), deficiência. Não se registaram alterações nos outros parâmetros laboratoriais avaliados. Acta Pediatr Port 2009:40(2):49-52 Monteiro T – Carência de vitamina D Quadro – Distribuição dos resultados (valores séricos da 25Hidroxi-D3 em nmol/L) Variável Limites Mediana Quartil 1 Quartil 3 Todos 45 (100%) 39-157 78 71 90 Raparigas 33 (73%) 34-157 80 73 106 Rapazes 12 (27%) 33-84 73,5 58,75 80,25 Discussão No presente estudo, 26 % das crianças tinham carência de vitamina D nos meses de Inverno e Primavera. Os valores diferentes conforme o género não podem ser valorizados dada a assimetria da casuística (73% de raparigas). Nem será de esperar diferenças conforme o género, pois a síntese da vitamina não se relaciona com esta variável. Estilos de vida diferentes, raparigas com menos roupa e menos tempo dentro de casa? Esta variável não foi investigada, nem parece provável acontecer. Se exigirmos um nível ideal, necessário, supõe-se, para um óptimo funcionamento biológico uma vez que os receptores celulares recentemente descritos respondem a valores séricos de vitamina D mais elevados, verifica-se que 80% das crianças não atingiam este nível. Outros estudos bem mais elaborados e estruturados revelaram igualmente carência em vitamina D. Willis 19 e colaboradores verificaram em raparigas pré púberes, vivendo no sudoeste dos Estados Unidos que 75% tinham valores inferiores a 80 nmol/L, registando-se os valores mais baixos nas de raça negra, mais velhas e com maior índice de gordura. Gordon 20 e colaboradores avaliaram 307 crianças atendidas num hospital, em Boston. Verificaram que 24% tinham valores inferiores a 37,5 nmol/L e 42% inferior a 50nmol/L. Concluíram que a prevalência era maior nos adolescentes negros e no Inverno. Em Pequim, num universo de 1248 raparigas com idades compreendidas entre os 12-14 anos, 45%, no Inverno e 6,7%, no Verão, tinham valores inferiores a 12,5 nmol/L 21. Na Turquia, Olmez 22 e colaboradores encontraram em 64 raparigas adolescentes, insuficiência de vitamina D, (<37,5 nmol/L) no fim do Inverno, entre 15 e 60%, e no fim do Verão entre 15 e 25%, conforme as regiões. Em Manchester, em 51 raparigas de múltiplas etnias e de idades compreendidas entre os 14 e os 16 anos, 73% tinham deficiência (<30 nmol/L) e 17% deficiência severa (<12,5 nmol/L) 23. O presente estudo tem limitações. Não foi possível quantificar a exposição média solar, nem factores que a possam confundir como o uso e tipo de filtros solares no Verão anterior. O doseamento foi efectuado em diferentes laboratórios e assim os métodos de doseamento podem variar. As crianças estudadas pertenciam a estratos sociais médios altos e residiam em áreas eminentemente urbanas. Assim, crianças de condições sociais mais baixas poderão ter ainda mais carência, a menos que vivendo em áreas mais rurais possam ter maior exposição solar. Não foi tido em conta o índice de massa corporal e a consequente sequestração da vitamina D no tecido adiposo. Há necessidade de estudos mais alargados e estruturados que confirmem ou não os dados deste estudo. A confirmar-se os resultados obtidos, a carência de vitamina D constituirá também entre nós, pelo menos no tipo de população estudada, um problema de saúde pública que, para além de não reconhecido e frequente, é muito importante se tivermos em conta os recentes conhecimentos sobre a fisiologia da hormona vitamina D e as graves consequências da sua carência a curto, médio e longo prazos, muitas com carácter irreversível e morbilidade e mortalidade elevadas. Estaremos assim perante uma carência alimentar crónica, silenciosa, com efeitos nefastos e que urge esclarecer. Referências 1. Greenbaum LA. Rickets and Hypervitaminosis D. In: Behrman RE, Kliegmann RM, Jenson HB, Stanton B F. Nelson Textbook of Pediatrics. 18 th ed. Philadelphia, PA: Saunders Elsevier; 2007:253-63. 2. Harris RJ. Nutrition in the 21 st century: what is going wrong? Arch Dis Child 2004; 89:154-8. 3. Pettifor J M. Nutritional rickets: deficiency of vitamin D, calcium or both? Am J Clin Nutr 2004; 80 (6 suppl):1725S-9S. 4. Robinson PD, Hogler W, Craig M E, Verge CF, Walker JL, Piper AC, et al. The re-emerging burden of rickets: a decade of experience from Sydney. Arch Dis Child 2006; 91:564-8. 5. Wharton B, Bishop N. Rickets. Lancet 2003; 362:1389-1400. 6. De Luca H F. Overview of general physiologic features and functions of vitamin D. Am J Clin Nutr 2004; 80 (6 suppl):1689S-96S. 7. Hypponem E, Laara E, Reunanen A, Jarvelin M-J, Virtanen SM. 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A prospective analysis of plasma 25-hydroxyvitamin D concentrations in white and black prepubertal females in the southeaster United States. Am J Clin Nutr 2007;85:124-30. 20. Gordon C M, DePeter K C, Feldman H A, Grace E, Emans S J. Prevalence of vitamin D deficiency among healthy adolescents. Arch Pediatr Adolesc Med. 2004; 158:531-37. 21. Du X, Greenfield H, Fraser D R, Ge K, Trube A, Wang Y. Vitamin D deficiency and associated factors in adolescent girls in Beijing. Am J Clin Nutr 2001; 74:494-500. 22. Olmez D, Bober E, Buyukgebiz A, Cimrin D.The Frequency of vitamin D insufficienty in healthy female adolescents. Acta Paediatr. 2006; 95:1266-9. 23. Das G, Crocombe S, McGrath M, Berry J L, Mughal MZ. 52 Monteiro T – Carência de vitamina D Hypovitaminosis D among healthy adolescent girls attending an inner city school. Arch Dis Child 2006; 91:569-72. 24. Callaghan A L, Moy RJ, Booth I W, Debelle G, Shaw NJ. Incidence of symptomatic vitamin D deficiency. 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Resumo Os recém-nascidos prematuros, internados em Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN), ficam afastados da mãe devido às intervenções clínicas a que estão sujeitos, podendo quebrar-se a ligação que vinham estabelecendo desde a gravidez. Nesta situação, os pais e, particularmente, a mãe ao verem-se impedidos de interagir continuamente com o filho e de o cuidar conforme tinham imaginado podem desencadear reacções emocionais de culpabilidade e medo face a um bebé diferente, alterando a qualidade das interacções diádicas. Os objectivos deste estudo visam conhecer a qualidade do comportamento interactivo que se estabelece entre a mãe e o bebé prematuro nas situações face-a-face e alimentar e identificar os factores que influenciam essa interacção. É um estudo observacional, de natureza quantitativa, descritivo e correlacional, cuja amostra é constituída por 30 díades mãe-filho prematuro internado em UCIN. Aplicaram-se as Interaction Rating Scales (IRS) na versão portuguesa, que propõem a observação e avaliação da qualidade da interacção na situação face-a-face (Face-to-face Interactions) e na situação alimentar (Feeding Interactions). Verificou-se que as díades estabelecem interacções positivas e adequadas; a mãe é quem mais contribui para a interacção na situação face-a-face; existe relação positiva e significativa entre os comportamentos interactivos da mãe e do filho; os comportamentos interactivos do bebé prematuro com a mãe aumentam com a idade materna, com o nível sócio-económico da mãe e com o tempo de internamento. Conclui-se que a parceria de cuidados com a família é benéfica no estabelecimento da interacção precoce o que trará vantagens ao desenvolvimento do prematuro. Palavras-chave: Interacção mãe-bebé prematuro; Prematuridade Acta Pediatr Port 2009;40(2):53-57 Recebido: Aceite: 21.04.2008 11.03.2009 Mother-Premature Baby Neonatal Intensive Care Interaction in Abstract Background: Premature newborns, admitted to Neonatal Intensive Care Units, are kept apart from their mothers since they are subject to clinical interventions. Thus, the bond that they had been creating since pregnancy may be broken. In this case, parents, especially the mother, seeing themselves incapable of continuously interacting and taking care of their baby as they had imagined, may develop feelings of guilt and fear towards a different baby, changing the quality of the dyadic interactions. This study aims to understand the quality of the interactive behaviour between mother and the premature baby in face-to-face and food-related situations, as well as identify the factors that influence this interaction. It is an observational study, quantitative, descriptive and correlational in nature, whose sample is composed of 30 mother-premature baby dyads admitted to a neonatal intensive care unit. The Portuguese version of the Interaction Rating Scales (IRS) was applied. They suggest the observation and assessment of the quality of the interaction in the face-to-face situation (Face-to-face Interactions) and in the food-related situation (Feeding Interactions). The following aspects were observed: the dyads establish positive and adequate interactions; the mother contributes most to the interaction in the face-to-face situation; there is a positive and significant relation between the interactive behaviours of the mother and the baby; the interactive behaviours between the premature baby and the mother increase with the mother's age, her socioeconomic status and the period of hospitalisation. We conclude that the partnership of care with the family contributes to the establishment of the early parent-child interaction, which will bring advantages to the development of the premature baby. Correspondência: Ana Paula Camarneiro Escola Superior de Enfermagem de Coimbra Avenida Bissaia Barreto, 3000-075 COIMBRA [email protected] 53 Acta Pediatr Port 2009:40(2):53-57 Key-words: Mother-premature baby interaction; prematurity Acta Pediatr Port 2009;40(2):54-57 Introdução A interacção entre a mãe e o filho, entendida como “diálogo comportamental”1 ou “conversa”2 tem como objectivo comunicarem e partilharem o prazer de estar juntos3,4. É um processo ao longo do qual a mãe dirige algumas mensagens ao bebé através do toque ou da voz suave e este lhe responde com recurso aos seus próprios meios, sorrindo e vocalizando5. Tais comportamentos garantem a interacção na díade e fazem do bebé um parceiro interactivo. Nos últimos anos, vários estudos se têm centrado na interacção entre pais e filhos prematuros e nas dificuldades apresentadas comparativamente com os nascituros de termo6. O nascimento prematuro é uma “transição inoportuna”7 dum ambiente uterino protegido para o meio exterior, onde o bebé ainda não é capaz de elaborar uma resposta interactiva eficaz. Devido à situação de prematuridade, o recém-nascido necessita de cuidados de saúde especializados, indispensáveis à sua sobrevivência, que ocupam uma boa parte do tempo que seria necessário à interacção com os pais. Para os pais, o nascimento e internamento do seu filho, causa uma “tempestade psíquica” 8, na qual o bebé idealizado não corresponde ao bebé da incubadora. Estes pais, também eles prematuros9,10, sentem-se muitas vezes perdidos e incompletos e o medo de perder o filho torna-se presente de forma bastante significativa, remetendo para o receio em intensificar o vínculo 10,11. Quando nasce, o prematuro é neurologicamente menos desenvolvido, manifestando menor organização dos seus comportamentos, reservas de energia limitadas e pouco tempo de alerta 12. Inicialmente, só consegue receber um pouco de estimulação e apenas numa das áreas - ouvido, tacto ou visão. Gradualmente, vai desenvolvendo a capacidade de receber, em simultâneo, diferentes tipos de estímulos até ao momento em que consegue, ao mesmo tempo, fixar um rosto, ouvir uma voz e sentir o conforto de ser pegado ao colo13. Apesar da evolução favorável do prematuro, os sinais contraditórios e distorcidos por ele emitidos dificultam, muitas vezes, a compreensão e previsão dos seus comportamentos originando, frequentemente, interacções mãe-bebé desajustadas. As diferenças observadas na interacção, em função da maturidade do bebé, sugerem que as mães de bebés prematuros apresentam mais dificuldade no estabelecimento de interacções positivas e adequadas com o bebé, do que as mães de bebés de termo, nomeadamente, inibição no contacto logo à nascença 6,11. Se, por um lado, se colocam dificuldades à interacção entre os prematuros e as mães após o nascimento, há também resultados empíricos que afirmam as competências interactivas das díades, mesmo quando a criança necessita de tratamento intensivo neonatal6. Neste contexto, são objectivos deste estudo conhecer a qualidade do comportamento interactivo estabelecido entre a mãe e o bebé prematuro nas situações face-a-face e alimentar, no contexto da Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN) e identificar factores que influenciam essa interacção. Estes decorrem do conhecimento 54 Camarneiro A et al – Interacção Mãe-Bebé Prematuro actual que o contacto precoce entre o bebé prematuro e os seus pais é um factor decisivo na sua recuperação física, afectiva e intelectual14. Metodologia A amostra é constituída por 30 díades mãe-bebé prematuro durante o internamento na UCIN de uma maternidade. Foi utilizada uma amostragem não probabilística, consecutiva, recolhida em 2004. Os critérios de inclusão na amostra foram: mães integradas na prestação de cuidados ao filho; prematuros com 33 a 37 semanas de idade corrigida (idade gestacional caso não tivessem ainda nascido); colocados em berço; com mais de sete dias de internamento; competentes a mamar. Consideraram-se critérios de exclusão: mães com história de doença do foro psiquiátrico; toxicodependência; bebés com malformações. É um estudo observacional, de natureza quantitativa, descritivo e correlacional. A recolha de dados foi realizada em dois momentos. No primeiro, procedeu-se à observação dos comportamentos interactivos da díade mãe-prematuro, nas situações face-a-face e alimentar. A observação foi efectuada por dois observadores seguida do registo das observações. A fidelidade foi assegurada através da análise da concordância na categorização dos dados obtidos, tendo sido esta superior a 95%15. No segundo momento recolheram-se dados de caracterização sócio-demográfica e clínica, através do processo clínico individual. Antes da recolha de dados, foram seguidos os procedimentos éticos e legais junto da Direcção da instituição e, às mães, foi pedido o consentimento informado. As variáveis em estudo são: a qualidade do comportamento interactivo mãe-prematuro - variável dependente; a idade materna e o nível socioeconómico, classificado segundo Graffar (características sócio-demográficas); permanência da mãe na unidade residencial materna (alojamento próximo da maternidade); tipo de alimentação do bebé (ao peito ou por tetina) e tempo de internamento (variáveis clínicas) - estas enquanto variáveis independentes. Os objectivos de investigação foram os seguintes: conhecer a qualidade dos comportamentos interactivos do prematuro e da mãe; Conhecer a relação entre a qualidade dos comportamentos interactivos da mãe e do prematuro nas situações face-a-face e alimentar; Verificar a relação entre a idade materna e a qualidade dos comportamentos interactivos estabelecidos; Identificar a influência do nível socioeconómico materno na qualidade dos comportamentos interactivos estabelecidos, assim como da permanência da mãe na unidade residencial materna e do tipo de alimentação do bebé; Finalmente, conhecer a relação entre o tempo de internamento e a qualidade dos comportamentos interactivos por parte da mãe e do bebé prematuro. Para operacionalizar a variável qualidade do comportamento interactivo mãe-bebé-prematuro, recorreu-se às escalas de avaliação da interacção mãe-bebé de Field (1980) Interaction Rating Scales (IRS)16 na sua versão portuguesa17, constituídas pela Escala de Avaliação das Interacções na Situação face-a-face (Face-to-face Interactions) e pela Escala Acta Pediatr Port 2009:40(2):53-57 de Avaliação das Interacções na Situação Alimentar (Feeding Interactions), A escala de observação e avaliação da interacção na situação face-a-face tem sete itens relativos ao comportamento do bebé (estado; actividade física; orientação da cabeça; contacto ocular, expressões faciais; irritabilidade e vocalizações) e dez que se referem ao da mãe (estado; actividade física; orientação da cabeça; contacto ocular; silêncio durante a aversão do olhar; expressões faciais; vocalizações; comportamentos infantilizados; resposta contingente; comportamento de jogo). Cada item comporta uma graduação e é cotado em três pontos (um, dois, três), variando os resultados entre um e três pontos para o bebé e para a mãe. A escala de observação e avaliação da interacção na situação alimentar é composta por cinco itens para observar o bebé (estado; actividade física; orientação da cabeça; contacto ocular, persistência na alimentação) e nove que dizem respeito ao comportamento da mãe (posição para alimentar; estado; actividade física; orientação da cabeça; contacto ocular; vocalizações; remoção do mamilo/tetina; arrotar; persistência na alimentação). Cada item é igualmente cotado em três pontos. Em todos os casos, quanto mais elevada a classificação, melhor a qualidade da conduta interactiva. Utilizou-se o programa estatístico SPSS (Statistic Package for Social Sciences), versão doze, da Statistical Product and Service Solutions, EUA, para tratamento dos dados, com recurso à estatística descritiva e inferencial, nomeadamente, média, moda e desvio padrão e testes de diferença de médias e correlação. Resultados As mães tinham idades compreendidas entre os 18 e os 39 anos (média (M)=28,4; desvio padrão (d.p.)=5,2). Casadas são 87% e com nível socioeconómico baixo são 77%. A gestação durou 25 a 36 semanas (M=30,8; d.p.=3,0). Metade teve uma gestação de 31 a 34 semanas, seguidas de 20% com tempo de gestação de 28 a 31 semanas. Primíparas são 60%. A maioria (97%) fez vigilância da gravidez e 53% teve uma gravidez sem intercorrências. Permaneciam na unidade residencial materna 83% das mães; Sem acompanhamento psicológico foram 80% das mães; 60% amamentavam o filho ao peito. Os bebés são 53% do género feminino, têm idade corrigida entre 33 e 37 semanas (M=34.8; d.p.=0.9). Com 35 semanas são 47%, seguidos de 33% com 33 semanas. O peso ao nascer variou entre 700 e 2120 gramas (M=1317; d.p.=395,4). Ao nascer, 30% dos bebés pesavam entre 1500 e 1750 gramas, seguidos de 23% que pesavam entre 1000 e 1250 gramas e em 17% o peso era de 750 a 1000 gramas. O tempo de internamento variou entre sete e 70 dias (M=28,9; d.p.=18,5) com 40% a apresentar catorze a 21 dias de internamento e 34% com internamento igual ou superior a 35 dias. O tempo de berço situou-se entre três e 25 dias (M=11,1; d.p.=4,9), mas 53% apresentou tempo de berço de sete a catorze dias. A aplicação das escalas de observação e avaliação da qualidade da interacção mãe-bebé permitiu conhecer a qualidade da interacção estabelecida, cujos resultados se apresentam no Camarneiro A et al – Interacção Mãe-Bebé Prematuro Quadro I. A observação dos dados permite afirmar que existe qualidade nos processos interactivos por parte de cada parceiro da interacção. Quadro I – Qualidade da interacção mãe-prematuro em situação face-a-face e em situação alimentar Interacção mãe-prematuro x dp md xmin xmáx Interacção do Bebé 2.17 0.48 2.21 1.14 2.71 Interacção da Mãe 2.44 0.33 2.55 1.80 2.90 Interacção do Bebé 2.32 0.37 2.40 1.40 3.0 Interacção da Mãe 2.26 0.25 2.33 1.67 2.78 Situação FACE-A-FACE Situação ALIMENTAR Média (x), desvio padrão (dp), a mediana (md) o valor mínimo (xmin) e o valor máximo (xmáx) dos resultados obtidos pela observação da interacção do prematuro e da mãe e nas situações face-a-face e alimentar. Os valores representam a qualidade da interacção, que é tanto maior quanto mais se aproximar de 3. Os comportamentos interactivos da mãe e do bebé prematuro na situação face-a-face assim como na situação alimentar, estão correlacionados positiva e significativamente, tal como se observa no Quadro II, através dos resultados da correlação de Spearman (p <0,05). A interacção por parte do bebé na situação face-a-face aumentou com a idade materna (rs= 0,42; p=0,02), o que não se verificou em outras situações interactivas (p = n.s.). O nível socioeconómico materno (considerados dois níveis, médio/elevado e baixo) influenciou a qualidade dos comportamentos interactivos mãe-bebé prematuro, quer na interacção do bebé quer na interacção da mãe na situação face-a-face (Z=2,761; p=0,005 e Z=2,026; p=0,042, respectivamente), mas não na interacção na situação alimentar (p=n.s.). São as mães de nível socioeconómico mais baixo que evidenciam menos comportamentos interactivos. A permanência da mãe na unidade residencial materna não influencia os comportamentos interactivos entre a mãe e o Quadro II – Correlação de Spearman nas situações de Interacção Interacção mãe-prematuro N rs p* Situação face-a-face Bebé x Mãe 30 0.41 0.012 Situação alimentar Bebé x Mãe 30 0.46 0.005 Resultado e nível de significância do teste de correlação de Spearman relativo às interacções do prematuro e da mãe na situação face-a-face e na situação alimentar. A correlação é positiva e estatisticamente significativa nos dois casos (* Teste unilateral) bebé prematuro (p= n.s.). Quanto ao tipo de alimentação, como se pode observar no Quadro III, a mãe não apresenta diferenças significativas na interacção face-a-face, quer quando alimenta o filho ao peito quer por tetina. O bebé alimentado ao peito tem significativamente mais comportamentos interactivos face-a-face. Na situação alimentar, tanto a mãe como o bebé têm significati55 Acta Pediatr Port 2009:40(2):53-57 Camarneiro A et al – Interacção Mãe-Bebé Prematuro Quadro III – Comparação da Interacção mãe - recém nascido em função do tipo de alimentação Interacção e Tipo de alimentação Bebé na situação face-a-face: Mãe na situação face-a-face: Bebé na situação alimentar: Bebé na situação alimentar: n xaritm xord md Peito 18 2.33 18.53 2.36 Tetina 12 1.94 10.96 2.00 Peito 18 2.54 18.00 2.60 Tetina 12 2.28 11.75 2.20 Peito 18 2.46 18.86 2.40 Tetina 12 2.12 10.46 2.20 Peito 18 2.35 18.31 2.33 Tetina 12 2.13 11.29 2.11 z p 2.340 0.019 1.919 0.055 2.618 0.009 2.167 0.030 Teste de U de Mann-Whitney comparando os valores médios da interacção observada no bebé e na mãe, na situação face-a-face e na situação alimentar conforme o tipo de alimentação ao peito ou por tetina. Na interacção face-a-face, observada na mãe, não se verificam diferenças conforme a alimentação seja ao peito ou por tetina. Em todas as outras situações a interacção é de maior qualidade quando a alimentação é ao peito. vamente mais comportamentos interactivos quando a alimentação é ao peito (p<0.05). A qualidade dos comportamentos interactivos estabelecidos entre a mãe e o prematuro, nas situações alimentar e face-a-face, tendem a aumentar com o tempo de internamento (p < 0,05). Excepção para a interacção do bebé na situação face-a-face (p = n.s.). Discussão As díades em estudo estabelecem interacções em situação face-a-face e em situação alimentar, positivas e adequadas, o que vem reforçar a importância da presença da mãe na UCIN e da utilização do modelo de parceria de cuidados 6,14. O bebé é quem menos exerce interacções face-a-face ficando ao cuidado da mãe um maior contributo para a interacção nesta situação. Isto mostra que o seu comportamento tem um papel mais determinante do que o do bebé no estabelecimento do padrão de interacção17 e, consequentemente, a qualidade da vinculação do bebé à mãe depende da qualidade do comportamento interactivo que a mãe tem com o bebé. Na situação alimentar, foi o bebé quem mais contribuiu para a interacção. Estes prematuros têm competências completamente desenvolvidas (coordenação de reflexos) no que respeita à alimentação, no entanto, fazem-no de forma mais lenta e por vezes mais desinteressada que os bebés de termo. Contudo, o comportamento interactivo tanto por parte da mãe como do filho em ambas as situações, estão relacionadas de forma significativa e positiva, o que vem de encontro aos estudos que mostram que bebé e mãe têm competências para a interacção mesmo em internamento neonatal6. Os comportamentos interactivos do prematuro, na situação face-a-face, aumentam com a idade materna o que remete para os estudos still-face5 em que o bebé tem uma clara prefe56 rência por rostos dinâmicos e expressivos, o que pode acontecer com mães mais experientes. A classe social foi uma das primeiras variáveis cujo efeito na qualidade da interacção foi estudado. As mães de classe média ou alta providenciam ao bebé mais oportunidades de estimulação. Também, na maioria dos estudos, a conduta interactiva das mães de classe média alta é, na sua generalidade, mais adequada do que as que pertencem a uma classe baixa17. Assim, as mães de nível sócio-económico mais baixo evidenciam menos comportamentos interactivos, estando de acordo com os autores citados. A permanência da mãe na unidade residencial materna, por si só, não influencia significativamente a qualidade dos comportamentos interactivos mãe-bebé prematuro. Apesar dos esforços empreendidos para aproximar as mães dos filhos, mais importante do que a frequência com que estão presentes, é a qualidade dessa presença. Os pais têm grandes conflitos emocionais quando se aproxima o momento de cuidar o filho. Sentem-se assustados e incapazes, enquanto que, ao mesmo tempo, anseiam por esse momento. Deve então ser permitido que os pais vejam, toquem e segurem no filho mesmo que por alguns minutos, que conversem com ele e tentem estabelecer contacto visual18,6,10,14. Ainda assim, o sofrimento de ter um filho não esperado pode levar a mãe a esquecer-se dele9. Os comportamentos interactivos do bebé prematuro tendem a aumentar quando aumenta o tempo de internamento. Quando os tubos e aparelhos saltam à vista, é difícil iniciar um processo de vinculação e imaginar tratar do bebé e levá-lo para casa algum tempo depois. É de extrema importância que se encoraje a mãe e o pai a participarem tanto quanto possível nos cuidados, a entrar e segurar o bebé, a trazer leite materno, devendo os enfermeiros fazer todo o esforço possível para auxiliar no que necessitem19,10. À medida que a capacidade dos pais se desenvolve, poderão assumir responsabilidades nas actividades diárias, tais como lavar, vestir e alimentar, embora desenvolvam muitas vezes Acta Pediatr Port 2009:40(2):53-57 habilidades técnicas bem mais complicadas, como responder a períodos de apneia, técnicas alimentares (principalmente por gavagem) e até, nalguns casos, aspiração de secreções20. Com a aplicação do modelo de parceria de cuidados tende “a modificar-se a intervenção centrada na prestação directa de cuidados prestados à criança, para outras formas de cuidados que permitem que o pessoal de enfermagem possa contribuir para uma intervenção mais positiva”18. Perante os resultados obtidos acredita-se que o facto das mães se envolverem efectivamente na prestação de cuidados ao seu filho influencia positivamente a qualidade da interacção. O tipo de alimentação proporcionada ao bebé mostra ser uma característica que influencia a qualidade da interacção mãe-bebé. Quando a alimentação é ao peito, a interacção mãe-bebé é geralmente mais adequada observando-se um número mais elevado de iniciativas positivas de jogo e contacto físico e de expressões de afecto para com o bebé21. Os bebés prematuros numa situação face-a-face, mostram-se menos activos do que os bebés de termo e, por sua vez, as mães dos bebés prematuros foram observadas a estabelecer interacções menos sincronizadas com os estados de atenção e a disponibilidade interactiva do bebé22. Contrariando este facto, a intervenção da equipa de enfermagem da UCIN onde se realizou este estudo, fomenta os cuidados centrados no cliente, privilegia os cuidados desenvolvimentais/atraumáticos e enfatiza a aplicação do processo de negociação e parceria de cuidados, optimizando a excelência dos cuidados e a melhoria contínua. Bell23 foi o primeiro autor a propor que a qualidade da interacção mãe - bebé é determinada por características que se referem a ambos os parceiros da díade - à mãe e ao bebé. O autor defendeu que, tal como sucede com a mãe, também o bebé determina o rumo dos acontecimentos interactivos na díade. O estudo da interacção mãe-bebé só pode ser feito mediante a adopção da perspectiva interactiva, na qual “a interacção é vista como um sistema diádico, no qual as influências se movem em ambas as direcções”4 - da mãe para o bebé e do bebé para a mãe. Assim, conclui-se que, independentemente da situação de interacção observada, os comportamentos interactivos se correlacionam positivamente Conclusão A separação física por internamento é uma das dificuldades fundamentais ao estabelecimento de interacções eficazes entre a mãe e o prematuro. O contacto corporal, assim como a alimentação ao peito, é benéfico para ambos porque acelera a recuperação do bebé e ajuda a mãe a superar os sentimentos, frequentes, de medo e culpa. As estratégias para facilitar o estabelecimento destas interacções são o livre acesso à UCIN, a participação progressiva dos pais nos cuidados mesmo enquanto o bebé estiver na incubadora, apesar da necessidade de rigorosa assepsia24 (Modelo de Negociação e Parceria dos Cuidados) e informação/formação acerca das competências do filho. É fundamental que os serviços de neonatologia sejam promotores da qualidade da interacção, no sentido de favorecer a construção e a intensificação do vínculo entre pais e filhos. 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Metodologia: Em 42 crianças com idade média de 6.1 anos (± 1.75), de um centro dentário privado de Odontopediatria, foram avaliados os seguintes parâmetros: grau de risco de cárie, capacidade tampão salivar e número de colónias de Streptococcus mutans e Lactobacillus na saliva, através da utilização de dois kits comerciais: CRT® bacterias e CRT® buffer. Os resultados da primeira avaliação foram comunicados aos pais e às crianças como reforço do ensino das instruções de higiene oral, sendo as crianças reavaliadas quinze dias depois. Para análise estatística foi realizado um teste de χ2 de Pearson com um p< 0.05. Resultados: Os resultados demonstraram que o número de colónias de bactérias influencia significativamente o grau de risco de cárie para uma capacidade tampão alta (p=0.000) e média (p=0.046).Ao comparar o número de colónias de bactérias entre a primeira e a segunda avaliação verificamos que 62% dos pacientes apresentaram uma redução do número de colónias (n=26), sendo que em 45% das crianças se reduziram para valores mínimos. Caries risk test in Paediatric Dentistry - its use-fulness as a prevention method Abstract Objectives: 1- To examine the association between caries risk, buffer capacity and the bacterial counts of Streptococcus mutans and Lactobacillus in saliva. 2- To verify a short time effectiveness of the association between oral hygiene motivation and explanation to parents and children of the evaluation of the individual caries risk. Methodology: Forty-two children aged 6.14±1.75, from a private paediatric dentistry center, were included in the study. Caries risk, buffer capacity, Streptococcus mutans and Lactobacillus counts in saliva were observed, using two commercial kits: CRT® bacteria and CRT® buffer. The results were communicated to parents and children, as a reinforcement of the oral hygiene instructions. All the children were revaluated after a two week period. We used pearson’s χ2 test with p<0.05. Results: The results demonstrate that Streptococcus mutans and Lactobacillus levels influenced significantly the caries risk when the buffer capacity was high (p=0.000) and medium (p=0.046). In the other hand when we compare the bacterial levels between the two evaluations we find that 62% of the children reduced the microorganisms levels (n=26); 45% of these children reduced the levels into minimal values. Conclusões: Quando na presença de uma capacidade tampão salivar alta e média, associada a um baixo número de colónias de bactérias, podemos esperar um baixo risco de aparecimento de cárie. A utilização destes testes influenciou positivamente as crianças e os responsáveis, sugerindo que pode ser utilizado como um método preventivo em Odontopediatria. Conclusions: In the presence of high and medium buffer capacity and low levels of bacterial counts we can expect a significantly reduction of caries risk. We also find that these tests had a positive effect in parents and children, suggesting that they could be used as a preventive method in Paediatric Dentistry. Palavras-chave: risco de cárie, Streptococcus mutans, Lactobacillus, capacidade tampão salivar, prevenção. Key-words: caries risk, Streptococcus mutans, Lactobacillus, buffer capacity, prevention. Acta Pediatr Port 2009;40(2):59-64 Acta Pediatr Port 2009;40(2):59-64 Recebido: Aceite: Correspondência: Elsa Paiva / Luís Pedro Ferreira Faculdade de Ciências da Saúde - Universidade Fernando Pessoa Rua Carlos da Maia, 296 4200-150 Porto E-mail: [email protected] / [email protected] 28.09.2006 26.02.2009 Financiamento: Parte deste estudo foi financiado por Vivadent ® 59 Acta Pediatr Port 2009:40(2):59-64 Introdução A cárie dentária é uma doença infecciosa de origem microbiana localizada nos tecidos duros dentários que se inicia por uma desmineralização do esmalte por ácidos orgânicos, produzidos por bactérias orais específicas após metabolização dos hidratos de carbono da dieta1. Os microorganismos, com capacidade cariogénica, não determinam por si só o desenvolvimento de cárie dentária, visto ser necessário que exista um substrato adequado e condições fisiológicas do hospedeiro que permitam a sua colonização e sobrevivência e consequentemente o aparecimento da cárie dentária2. A saliva intervém no processo da cárie dentária essencialmente como um factor protector do hospedeiro. Entre as suas funções incluem-se: acção de limpeza mecânica, capacidade tampão e propriedades antibacterianas. A saliva possui, também, componentes que inibem a desmineralização dentária e favorecem a remineralização, quer orgânicos (determinadas proteínas), quer inorgânicos (iões flúor, cálcio)1. As lesões de cárie estão associadas à presença de colónias de Streptococcus mutans (SM) e Lactobacillus (LB) na placa dentária e saliva. Este tipo de flora produz uma redução do pH na interface placa-dente e consequentemente, uma desmineralização dos tecidos dentários duros2,3. Existe uma forte relação entre o número de colónias de SM e a prevalência de cárie dentária, pois os indivíduos que apresentam níveis altos de SM desenvolvem um maior índice de cáries do que aqueles que apresentam baixos níveis de SM4. Os SM têm um papel impor-tante tanto na iniciação como na progressão das lesões de cárie, enquanto que os LB apenas actuam na progressão da cárie, uma vez que a lesão já tenha sido iniciada. Os LB são altamente acidogénicos sendo que a sua presença na cavidade oral está fortemente relacionada com uma dieta rica em hidratos de carbono3,4. Os SM são transmitidos ás crianças a partir dos seus responsáveis, principalmente através da mãe, pelo contacto salivar5,6. Esta transmissão vertical pode ser de certa forma adiada reduzindo o número de bactérias presentes na cavidade oral da mãe. No entanto, existe pouca informação sobre como controlar esta infecção na criança. O uso de agentes antibacterianos, como a clorohexidina, pode ser efecaz, mas os efeitos a longo prazo deste método preventivo em crianças muito jovens ainda é pouco conhecido7,8. Está hoje bem esclarecido na literatura dentária que a época em que ocorre a colonização da boca da criança pelo Streptococcus mutans é de extrema importância uma vez que quanto mais precoce mais alto parece ser o índice de cárie na criança9. Alguns estudos referem que o SM coloniza a boca da criança apenas quando erupcionam os primeiros dentes dado esta bactéria necessitar de uma superfície dura não descamativa para aderir10. O estudo de Caufield et al defende que existe uma “janela de infectividade” para a colonização por SM na criança por volta dos 17-23 meses11. No entanto, trabalhos mais recentes mostraram que esta bactéria pode colonizar a cavidade oral mesmo antes de os dentes erupcionarem e que cerca de 30% das crianças edêntulas aos 3 meses de idade já estão infectadas por esta bactéria e que aos 6 meses cerca de 60% destas crianças já apresentam a bactéria12. 60 Paiva E et al – Avaliação do risco de cárie em Odontopediatria Uma infecção precoce por SM na boca das crianças sugere um risco potencial para o desenvolvimento de Cáries Precoces da Infância e parece explicar a razão porque muitas crianças com apenas 18 meses de idade já apresentam lesões 13. Uma vez que esta bactéria reside na placa dentária, é aceitável concordar com a literatura existente que demonstrou que a presença de placa nos dentes está associada a um risco aumentado de cárie dentária 14. Como a espécie SM reside na placa dentária a sua remoção mecânica por escovagem e o uso de fio dentário teoricamente reduzem a infecção por SM e o risco de desenvolver cárie dentária. Vários estudos demonstraram que um menor número de cáries está associado a uma menor presença de placa dentária e melhores hábitos de higiene oral em crianças 15,16. Estudos longitudinais controlados sobre remoção mecânica da placa dentária em adolescentes demonstraram uma baixa contagem de bactérias após longos períodos de limpeza profissional e uso de fio dentário 17. Um início precoce dos cuidados de higiene oral está também relacionado com um menor número de cáries em crianças muito jovens 16. As crianças nas quais colónias de SM são detectadas logo após a erupção dos dentes e crianças com níveis altos de colónias de SM têm também níveis altos de colónias de LB. Estas crianças têm uma incidência de cárie dentária significativamente mais alta do que as crianças que sofreram uma colonização mais tardia e com níveis de colónias mais baixos 9,11. Como a remoção mecânica da placa vai ajudar a reduzir as bactérias cariogénicas, existem fundamentos para se estabelecer recomendações aos responsáveis das crianças de como escovar os dentes das crianças mal o primeiro dente erupcione 19. Desde o estudo de Klock e Krasse em 1979, o papel da contagem de bactérias na previsão da cárie dentária tem recebido muita atenção 20. Existem vários métodos para a detecção de SM e LB, desde simples métodos de cultura (Dentocult SM Strip Mutans, Dentocult LB - Orion Diagnostica; Cariocheck SM e LB - Hain Diagnostika; CRT - Vivadent) a testes imunológicos (Streptococcus-mutans-Elisa - Diagnostika) e técnicas bio-moleculares (Strept ococcus-mutans-PCR). Dentro destes métodos, a simples cultura de bactérias, em conjunto com um exame clínico adequado, parece ser o método mais fácil, mais fiável e mais económico para ser utilizado em medicina dentária. O Caries Risk Test (CRT ®) é um sistema de cultura recente para a detecção simultânea dos dois grupos de bactérias: SM e LB, permitindo também determinar a capacidade tampão salivar 21. Este estudo tem como principal objectivo avaliar a relação entre risco de cárie, capacidade tampão salivar e número de Streptococcus mutans e Lactobacillus presentes na saliva. Pretendemos ainda verificar a efectividade a curto prazo da associação da motivação para a higiene oral à explicação aos pais e às crianças da avaliação individual do risco de cárie. Acta Pediatr Port 2009:40(2):59-64 Paiva E et al – Avaliação do risco de cárie em Odontopediatria Metodologia Resultados Quarenta e duas crianças com idade média de 6.14 anos (± 1.75) que se apresentaram para uma primeira consulta de Medicina Dentária num centro privado de Odontopediatria foram seleccionadas para este estudo. Foram excluídas as crianças que estivessem sob antibioterapia durante, ou um mês antes do inicio do estudo, bem como aquelas que tivessem efectuado bochechos com soluções antibacterianas num período inferior a 12 horas. Foi obtido o consentimento informado dos responsáveis das crianças que participaram no estudo. A análise da capacidade tampão salivar mostrou que a maioria das crianças pertencia à categoria alta. Nenhuma das crianças apresentou uma capacidade tampão baixa (Quadro I). O Quadro I mostra a relação entre a capacidade tampão salivar, o número de colónias de bactérias presentes na saliva e o risco de cárie, na primeira avaliação (CRT 1). Numa primeira fase foram avaliados os seguintes parâmetros: grau de risco de cárie, capacidade tampão salivar e número de colónias de Streptococcus mutans e Lactobacillus presentes na saliva (CRT 1), através da utilização de dois kits comerciais: CRT® bacterias e CRT® buffer. Para determinar o risco de cárie seguiu-se a classificação sugerida pela Academia Americana de Odontopediatria22. Classificaram-se as crianças em baixo risco (1): sem cáries nos últimos dois anos; risco moderado (2): dentes cariados nos últimos dois anos; alto risco (3): dentes cariados no último ano. Como se pode avaliar pela mesma tabela, 71% dos 42 pacientes apresentava um número de colónias de bactérias alto ou moderado, para uma capacidade tampão alta ou média. Doze pacientes apresentaram uma baixa contagem de colónias de bactérias, sendo que destas crianças todas tinham uma Para determinar a capacidade tampão salivar usou-se o CRT® buffer de acordo com as instruções do fabricante (Vivadent, Liechtenstein): pediu-se às crianças que mastigassem durante um minuto uma pastilha de parafina e que em seguida cuspissem para um copo; impregnou-se a tira de amostra com uma gota de saliva utilizando a pipeta e aguardou-se 5 minutos; avaliaram-se os resultados de acordo com o método colimétrico do kit (capacidade alta: pH ≥6.0 correspondente à cor azul; capacidade média: 4.5 <pH <5.5 correspondente à cor verde; capacidade baixa: pH ″ 4.0 correspondente à cor amarela). Para a análise bacteriológica usou-se o CRT® bactérias seguindo as instruções do fabricante (Vivadent, Liechtenstein): o CRT bacterias apresenta de um dos lados do dispositivo um meio de cultura selectivo para o Streptococcus mutans - Mitissalivarius-bacitracina-agar (MSB-agar,) e do lado inverso o Rogosa-agar que permite o cultivo de Lactobacillus. Colocouse uma pastilha de monocarbonato de sódio no tubo de cultivo para acelerar o cultivo de lactobacilos. Após removidas as lâminas protectoras da placa de agar estas foram impregnadas com saliva. Fechou-se o tubo e etiquetou-se com nome e data. Introduziram-se os tubos de cultivo numa incubadora durante dois dias a 37 º C após o que se procedeu à contagem do número de colónias de bactérias nos tubos de cultivo. Os resultados foram comparados com a tabela fornecida pelo fabricante. Numa segunda fase, após terem sido mostrados às crianças e aos responsáveis os resultados da primeira avaliação (CRT 1) e fornecidas instruções de higiene oral, foi realizada quinze dias depois uma nova avaliação do número de colónias de bactérias (CRT 2) utilizando o CRT® bactérias e seguindo o mesmo procedimento utilizado na primeira avaliação (Figura). Para a análise dos dados utilizou-se o programa informático SPPS para Windows 11.5®. Na análise estatística utilizou-se o teste de qui-quadrado de Pearson com um p< 0.05. Figura – Contagem de colónias de bactérias de Streptococcus mutans (primeira imagem) e Lactobacillus (segunda imagem). capacidade tampão salivar alta. Verificamos também que 53% das 38 crianças que mostraram uma capacidade tampão alta apresentaram um grau de risco de cárie baixo. Apenas quatro pacientes apresentaram uma capacidade tampão moderada, sendo que a maioria (75%) destas crianças apresentou um número de contagem de bactérias moderado. O número de colónias de bactérias influencia significativamente o grau de risco de cárie para uma capacidade tampão alta (p=0.000) e média (p=0.046). O Quadro II mostra a relação do número de colónias de bactérias entre a primeira (CRT 1) e a segunda avaliação (CRT 2). Verificamos que 81% dos pacientes com um número de colónias médio na primeira avaliação reduziu para valores inferiores na segunda avaliação. As crianças que apresentaram uma contagem do número de colónias baixa na primeira avaliação mantiveram os mesmos resultados. Cerca de 22% dos 61 Acta Pediatr Port 2009:40(2):59-64 Paiva E et al – Avaliação do risco de cárie em Odontopediatria Quadro I – Relação entre a capacidade tampão salivar, o número de colónias de bactérias e risco de cárie (CRT 1). Capacidade Tampão Grau de Risco Sem cáries nos últimos 2 anos Capacidade alta Capacidade média CRT 1 CRT 1 Cáries nos últimos 2 anos Cáries no último ano Total Colónias baixo contagem % de CRT 1 12 100% 0 0% 0 0% 12 100% Colónias médio contagem % de CRT 1 8 44,4% 6 33,3% 4 22,2% 18 100% Colónias elevado contagem % de CRT 1 0 0% 3 37,5% 5 62,5% 8 100% Colónias médio contagem % de CRT 1 3 100% 0 0% 3 100% Colónias elevado contagem % de CRT 1 3 0% 1 100% 4 100% contagem % de CRT 1 3 75,0‰ 1 25,0% 4 100% Total pacientes que mostravam uma percentagem de microorganismos elevada na primeira análise reduziram para valores mais baixos. Apenas quatro dos 42 pacientes (10%) não evoluíram positivamente. Quando comparamos o número de colónias de bactérias entre CRT 1 e CRT 2 verificamos que 62% dos pacientes apresentaram uma redução do número de colónias (n=26), sendo que 45% destas crianças reduziram para valores mínimos (n=19). tar a desmineralização do dente, é importante avaliar a presença destas duas espécies na cavidade oral26. Discussão Considerando a relação entre risco de cárie, capacidade tampão salivar e factores microbiológicos salivares, a associação estatisticamente significativa encontrada entre estas variáveis está de acordo com os resultados obtidos por outros autores23,29,30. Pretendeu-se avaliar a capacidade tampão salivar com o intuito de saber se esta representa um factor chave na avaliação do risco de cárie. Uma capacidade tampão com um pH inferior a 4.5 é considerada por vários autores como um factor de susceptibilidade para a ocorrência de cárie dentária23,24. No nosso estudo nenhuma das crianças apresentou uma capacidade tampão baixa. Segundo Tenovuo25 a taxa de secreção salivar é o parâmetro salivar mais importante quando se considera a actividade de cárie de um indivíduo. Para este mesmo autor a capacidade tampão tem uma associação negativa fraca com a actividade de cárie. No nosso estudo encontramos uma associação estatisticamente significativa entre uma capacidade tampão alta e média e um baixo risco de cárie, quando associada a uma baixa contagem do número de bactérias. O Lactobacillus e o Streptococcus mutans têm um papel importante na formação do biofilme bacteriano. Devido às propriedades acidogénicas e acidófilas destas espécies e à necessidade de manutenção do pH na placa dentária para evi62 A contagem microbiológica foi realizada a partir da saliva estimulada. Não existe consenso na literatura quanto ao facto de se efectuar a avaliação microbiológica a partir de amostras da placa dentária ou da saliva. A maioria dos autores defende que não existe diferença entre a contagem de colónias de bactérias na saliva estimulada ou na placa dentária27,28. Kneist et al recomendam o uso dos kits utilizados por serem rápidos e fiáveis16. Os resultados sugerem que quando na presença de uma capacidade tampão alta e média associada a um baixo número de colónias de bactérias podemos esperar um baixo risco de presença de cárie. O estudo de Seow et al em crianças com uma média de idades de 20 meses demonstrou uma redução de 25% no número de colónias de SM a partir do momento em que os bebés começaram a ter os seus dentes escovados, durante um período de 4 semanas31. Uma única sessão de instruções de higiene oral, associada ao facto de se ter mostrado aos pais e às crianças os resultados da primeira avaliação, foi bastante eficaz uma vez que cerca de 62 % das crianças reduziram o número de colónias de bactérias, sendo que 45% reduziram para valores mínimos. Acta Pediatr Port 2009:40(2):59-64 Paiva E et al – Avaliação do risco de cárie em Odontopediatria Quadro II – Relação entre a primeira avaliação (CRT 1) e a segunda avaliação (CRT 2). CRT2 CRT 1 colónias baixo colónias médio Total Colónias baixo contagem % de CRT 1 12 100% 0 0% 12 100% Colónias médio contagem % de CRT 1 17 81,0% 4 19,0% 21 100% Colónias elevado contagem % de CRT 1 2 22,2% 7 77,8% 9 100% contagem % de CRT 1 31 73,8‰ 11 26,2% 42 100% Total Este estudo levanta a hipótese de este método vir a ser aplicado em grávidas para prevenção e motivação do agregado familiar relativamente à prevenção e correcta higiene oral, diminuindo assim a transição de bactérias aos futuros bebés. Conclusão A avaliação do risco de cárie deve ter vários factores em consideração. Um deles é a presença de Streptococcus mutans, considerado o principal agente etiológico da cárie dentária. Neste contexto e tendo em conta os resultados obtidos, a avaliação do número de microorganismos presentes na saliva representa uma importante ferramenta para a avaliação do risco de cárie em pacientes pediátricos. Os resultados mostram que na presença de uma capacidade tampão alta e média associada a um baixo número de colónias de bactérias podemos esperar um baixo risco de presença de cárie. A utilização destes testes influenciou positivamente os pais e as crianças, podendo servir como método de prevenção em Odontopediatria. Estes testes têm a vantagem de poderem ser utilizados no consultório permitindo que os resultados sejam mostrados ao paciente e aos responsáveis, fomentando assim a sua motivação. Referências 1. Espasa E, Boj J. Caries dental en el niño. In: Boj J, Catalá M, García-Ballesta C, Mendoza A, editores. Odontopediatria. 1ª ed. Barcelona: Masson; 2004. p. 126-7. 2. Aguilera LA, Premoli G, Gonzalez A, Rodriguez RA. 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O presente estudo pretende contribuir para melhorar o conhecimento epidemiológico e clínico da malária importada na região de Lisboa Admission for imported malaria in children, in two hospitals of Lisbon urban area Abstract Métodos: Realizou-se um estudo descritivo das crianças com malária, internadas em dois hospitais da Grande Lisboa, durante um período de seis anos (1999-2004). Introduction: Although Portugal is not an endemic country for malaria, the increasing migratory demographic movements and the historic background between Portugal and Africa enable importation of the disease to our country. This study aims to increase the knowledge about epidemiology and clinical manifestations of imported malaria in the region of Lisbon. Resultados: Foram identificados 134 casos, sendo a mediana das idades de sete anos. A maioria (93,3%) era de origem africana e referia estadia em região endémica (90%). O Plasmodium falciparum foi o agente etiológico mais frequente (73%). A febre foi a manifestação clínica mais frequente, seguida de manifestações gastrointestinais e cefaleias. Ocorreram complicações em 42% dos doentes, sendo a trombocitopenia (19,4%) e a anemia grave (9%) as mais frequentes. A halofantrina e o quinino foram os anti-maláricos mais usados. Results: A total of 134 cases were identified, with a median age of 7 years. The majority of patients (93,3%) had African origin and 90% referred a stay in an endemic country in the year previous to the admission. Plasmodium falciparum was the most frequent etiologic agent (73%). Fever was the most common sign, followed by gastrointestinal symptoms and headache. Complications occurred in 42% of cases, the most frequent being thrombocytopenia (19,4%) and severe anaemia (9%). Halofantrine and quinine were the antimalarics more frequently used. Conclusões: A malária importada é uma patologia relativamente comum na Grande Lisboa e, dada a inespecificidade do quadro clínico, todas as crianças febris ou doentes com estadia recente num país endémico devem ser rastreadas para esta entidade. Conclusions: Imported malaria is relatively frequent in the Great Lisbon region. As clinical presentation of paediatric malaria can be unspecific, all febrile or sick children who have recently been at an endemic country should undergo screening of malaria. Palavras-chave: malária Plasmodium, viajante Key-words: imported malaria, antimalarics, Plasmodium, traveller. importada, anti-maláricos, Acta Pediatr Port 2009;40(2):65-68 Acta Pediatr Port 2009;40(2):65-68 Recebido: Aceite: Correspondência: Luís Varandas Unidade de Infeciologia, Hospital Dona Estefânia R. Jacinta Marto 1169-045 Lisboa 04.03.2008 17.05.2009 65 Acta Pediatr Port 2009:40(2):65-68 Freira S et al – Malária importada em crianças Introdução Resultados A malária é responsável por 750000 a dois milhões de mortes por ano em crianças com idade inferior a cinco anos, 90% das quais ocorrem em África1. Nos últimos anos, tem-se verificado um número crescente de casos de malária importados na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, sendo que as crianças constituem 15-20% dos mesmos2,3. Em Portugal, pela crescente mobilidade das populações e laços históricos com África, é importante que os clínicos que prestam cuidados a crianças estejam atentos, para a possibilidade da ocorrência de malária quando estas regressam de áreas endémicas. Foram internadas nos dois hospitais 134 crianças com o diagnóstico de malária. Não se registaram reinternamentos. A mediana das idades foi de sete anos (mínimo de 8 meses e máximo de 15 anos) e 61,2% das crianças eram do sexo masculino. A maioria dos doentes era de origem africana (Quadro I). Em 120 casos (90%) havia referência a estadia em região endémica no ano anterior ao internamento sendo Angola o país relacionado com maior número de casos (Quadro I). O P. falciparum foi o agente identificado com maior frequência (98; 73%), seguida por P. vivax (11; 8%), P. malariae (6; 5%), e P. ovale (2; 2%); parasitemia dupla por P. falciparum e P. ovale foi observada em três (2%) crianças. Em catorze casos (10%) não foi identificada a espécie de plasmódio. A mediana do tempo de latência foi de dez dias (máximo 300 e mínimo de um) (Quadro II). Apenas sete doentes (5%) apresentaram tempo de latência superior a 120 dias, sendo que nenhum teve infecção por P. falciparum. A febre foi a manifestação clínica mais frequente (118; 88%), seguida de dor abdominal e vómitos (65; 49%), hepatomegalia (50; 37%), esplenomegalia (47; 35%), cefaleia (44; 33%), tosse (6; 5%) e artralgia (5; 4%). Dos 118 doentes com febre, 105 (89%) ficaram apiréticos após uma semana de terapêutica. A mediana da duração da febre foi três dias (máximo de catorze e mínimo de um). Em 56 (42%) dos casos ocorreram complicações: trombocitopenia (26; 46%), anemia (12; 21%), hipoglicemia (8; 14%), convulsão (4; 7%), hematúria macroscópica (2; 4%), insuficiência renal (2; 4%) e coma (2; 4%). Dos 56 doentes com complicações, 52 tinham infecção por P. falciparum, dois por P. vivax, um por P. ovale e um por P. malariae. Não ocorreram óbitos. Os fármacos mais utilizados foram a halofantrina e o quinino (Quadro III). Todos os doentes a quem foi detectada infecção por P. vivax ou P. ovale realizaram terapêutica de erradicação com primaquina, após exclusão de défice de glicose 6-fosfato desidrogenase. Quadro I – Origem e proveniência dos doentes. N (%) 134 Origem Africana 125 Indiana 3 93,3‰ 2,2‰ Caucasiana 2 1,5‰ Não Identificada 4 3,0‰ Estadia em área endémica (n=20) Angola 51 S.Tomé e Principe 32 Guiné-Bissau 28 Moçambique 5 Índia 3 A malária importada define-se como infecção adquirida numa área de malária endémica e diagnosticada num país não endémico após desenvolvimento de sintomas3. Os filhos de imigrantes que vivem em países não endémicos e viajam durante as férias escolares para visitar familiares no país natal constituem, actualmente, a maior proporção de casos nos países europeus3. Este estudo tem como objectivo descrever os casos pediátricos de malária internados em dois hospitais da Grande Lisboa, procurando conhecer melhor o panorama actual da malária importada neste grupo etário e contribuir para o correcto tratamento da mesma. População e Métodos Foi realizado um estudo descritivo sobre as crianças internadas com malária entre 1 de Janeiro de 1999 e 31 de Dezembro de 2004. O diagnóstico foi realizado pela identificação de Plasmodium spp, em gota espessa ou esfregaço de sangue periférico, em crianças com história epidemiológica compatível. Foram analisados dados sócio-demográficos, epidemiológicos, clínicos, laboratoriais e terapêutica efectuada. Definiu-se como tempo de latência o período de tempo decorrido entre o início dos sintomas e a última exposição possível ao insecto vector. 66 Discussão Este estudo é a maior série de malária pediátrica publicada no nosso país. Curiosamente, no mesmo período, em Portugal, foram notificados e publicados pelo Instituto Nacional de Estatística, apenas, 40 casos de malária em crianças com menos de 15 anos4. Um panorama idêntico de subnotificação ocorre noutros países europeus5. Quadro II – Tempo de latência da infecção. Mediana Máximo Mínimo (dias) (dias) (dias) P. falciparum 7 21 1 P. vivax 30 300 5 20,5 150 2 P. falciparum + P. ovale 30 240 7 P. ovale 50 90 10 P. malariae Acta Pediatr Port 2009:40(2):65-68 Freira S et al – Malária importada em crianças Quadro III – Origem e proveniência dos doentes. Esquema terapêutico Nº de doentes Nº de doentes tratados no HDE tratados no HFF 63 1 Quinino 8 25 Quinino + cloroquina 0 1 Quinino + doxicilina 3 1 Quinino + clindamicina 0 1 Halofantrina Quinino + halofantrina 4 3 Quinino + halofantrina 2 0 + pirimetamina/sulfadoxina Quinino + pirimetamina 0 1 Cloroquina 7 4 Cloroquina + halofantrina 7 2 Cloroquina + pirimetamina 0 1 O risco exacto de se adquirir malária é difícil de quantificar e depende de uma variedade de factores tais como o local de destino, a duração da viagem, o uso de repelentes e a utilização de quimioprofilaxia6. Assim, recomenda-se que toda a criança que viaje para áreas com malária efectue uma consulta (“Consulta do Viajante”) para avaliação do risco e quais as mediadas profiláticas a adoptar. A febre, embora tendo sido a manifestação clínica mais frequente, não estava presente em todas as crianças, tal como ocorreu noutras séries7. As alterações do aparelho gastrointestinal foram as segundas mais frequentes, o que está de acordo com a inespecificidade do quadro clínico de malária na criança3. Nas áreas endémicas, as principais manifestações de malária grave são a anemia grave, alterações do padrão respiratório (“respiratory distress”) e as manifestações neurológicas8. Na malária importada a frequência e o tipo de manifestações de malária grave não são descritas com exactidão. No entanto, a maior taxa de complicações ocorre nas infecções por P. falciparum9. Em países industrializados a ausência da suspeita clínica é responsável por 40% das mortes10, pelo que o rastreio de malária em qualquer criança febril ou doente que tenha visitado um país endémico está formalmente recomendado. A maioria dos casos observados provinha de países africanos, com elevada prevalência de resistência à cloroquina, nomeadamente Angola11 e São Tomé e Príncipe12. Recentemente, em Luanda, foram descritas falências parasitológicas após tratamento com quinino13. À data da realização deste estudo não existia em Portugal um protocolo nacional para tratamento da malária na criança. O tratamento com halofantrina foi usado no tratamento da malária simples com bons resultados, não se tendo registado efeitos secundários. Actualmente desaconselhada pela Organização Mundial de Saúde e algunsn autores, pela sua toxicidade cardíaca14, a sua comodidade posológica e a existência de for- mulação líquida facilitavam o tratamento por via oral . Em 2006, a Secção de Infecciologia da Sociedade Portuguesa de Pediatria, publicou recomendações para o tratamento da malária15. A implementação destas recomendações poderá permitir a uniformização dos cuidados e a realização de estudos epidemiológicos a nível nacional. Em conclusão, a malária infantil continua a ser uma doença subnotificada em Portugal. Dada a inespecificidade do quadro clínico, em toda a criança febril ou doente com história de estadia recente num país endémico de malária, esta doença deve ser, sistematicamente, rastreada. A implementação a nível nacional do protocolo, acima referido, contribuirá para o correcto tratamento da malária na criança e permitirá a realização de futuros estudos multicêntricos. Referências 1. Centers for Diseases Control and Prevention. Guidelines for Treatment of Malaria in the United States (Guidelines For Clinicians) [serial on the Internet]. 2007 May [cited 2007 Aug 22] Acessível em http://www.cdc.gov/malaria 2. Ventura FA. 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Apresenta-se o caso de baço “errante” em jovem do sexo feminino, de quinze anos, com vómitos e dor abdominal na admissão hospitalar. Ocorreu deterioração do estado clínico com aparecimento de sinais clínicos de abdómen agudo, sendo realizada laparotomia com remoção do baço enfartado. A torção do baço errante deve ser considerada no diagnóstico diferencial de dor abdominal recorrente e de abdómen agudo. Palavras-chave: baço “errante”; torção; enfarte esplénico; abdómen agudo; esplenectomia. Acta Pediatr Port 2009;40(2):69-71 Wandering spleen, a rare cause of acute abdomen Abstract: Wandering spleen is a rare condition characterized by increased splenic mobility due to the absence or laxity of its suspensory ligaments, that may present as acute abdomen when it is twisted on its pedicle. We reported a case of torsion of a wandering spleen in a 15 - year-old female patient with vomiting and abdominal pain at hospital admission. Deterioration of clinical picture with findings of acute abdomen occurred and a laparotomy was performed and the infarcted spleen was removed. Torsion of wandering spleen should be kept in mind in the differential diagnosis of recurrent abdominal pain and of acute abdomen. Key-words: Wandering Spleen; torsion; spleen infarct; acute abdomen; splenectomy. seus ligamentos (etiologia congénita versus adquirida), levando a posição ectópica variável do mesmo no abdómen e/ou pelve, podendo ocorrer torção do seu pedículo, determinando isquemia, enfarte, eventualmente choque hemorrágico e até a morte. O baço errante pode resultar de anomalias congénitas dos ligamentos e por vezes estar associado a hérnia diafragmática1. Alterações hormonais e laxidez abdominal devido à gravidez poderão desempenhar um papel nas situações de etiologia adquirida2,3. Outras etiologias incluem o síndrome de prune-belly, esplenomegalia, trauma, doenças hematológicas e infecção2,3. Patologia incomum com uma incidência referida inferior a 0.2% (essencialmente mulheres em idade fértil), raramente ocorre em crianças com menos de 10 anos, existindo, contudo, predominância pelo sexo masculino em lactentes4. A apresentação clínica é variável, podendo ser assintomática, causa de dor abdominal recorrente, até ao estabelecimento de um quadro cirúrgico de ventre agudo. Ocasionalmente apresenta-se como uma massa móvel no quadrante superior esquerdo do abdómen. Para além da dor estão referidos outros sintomas como febre, náuseas, vómitos, alterações do trânsito intestinal, melenas, hematemeses e anorexia. É potencialmente fatal se ocorrer torção do órgão, podendo determinar enfarte, hipertensão portal e hemorragia3,4. Os exames laboratoriais são habitualmente inespecíficos e o principal contributo para o diagnóstico desta entidade provém dos meios imagiológicos. O tratamento é cirúrgico. Se o diagnóstico for “precoce”, o tratamento de eleição deve ser a esplenoplexia por laparoscopia5,6. Se já está estabelecida a torção do pedículo e o enfarte do órgão a esplenectomia é, por vezes, a única opção possível7. Acta Pediatr Port 2009;40(2):69-71 Relato de caso Introdução O baço errante é definido como uma situação de hipermobilidade resultante do anormal desenvolvimento ou laxidez dos Recebido: Aceite: 25.04.2008 20.03.2009 Jovem do sexo feminino, quinze anos de idade, caucasiana, segunda filha de pais jovens, saudáveis, não consanguíneos. Gestação vigiada, com ocorrência de diabetes gestacional no terceiro trimestre. Parto hospitalar, por via vaginal, às 40 Correspondência: Jorge França Santos Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD), EPE; Serviço de Pediatria - Unidade Hospitalar de Chaves Av. Dr. Francisco Sá Carneiro, 5400 - 249 Chaves [email protected] 69 Acta Pediatr Port 2009:40(2):69-71 França Santos J et al – Baço errante semanas, com índice de Apgar 7/9, grande para a idade gestacional (4600g/51cm/37cm), tendo ocorrido paralisia do plexo braquial à direita (C5-C6). Sem história de hipoglicemia, organomegalias e/ou outras intercorrências no período neonatal. Acompanhada regularmente por fisiatria nos primeiros dois anos de vida. Internamento de seis dias aos 13 anos, por pneumonia lobar direita. Admitida no serviço de urgência hospitalar, por apresentar dor epigástrica “tipo moinha”, com evolução de cinco dias, sem relação evidente com a ingestão alimentar, com agravamento da intensidade no dia da admissão, concomitantemente com o aparecimento de vómitos. Referência a “síndrome gripal” nos últimos dez dias, tendo efectuado anti-inflamatório e antibioterapia oral (que não sabia especificar), por prescrição do seu médico de família. A jovem estava apirética, hemodinamicamente estável e com bom estado nutricional. Apresentava sinais de desidratação ligeira a moderada, limitação de alguns movimentos do ombro direito e atrofia da cintura escapular ipisilateral. O restante exame foi referido como normal. Do estudo laboratorial inicial, o qual incluiu hemograma, ionograma, ureia, creatinina, glicose e sedimento urinário, realça-se a normalidade dos resultados com a excepção da presença de 25 a 50 eritrócitos por campo na urina, explicáveis pelo facto da jovem se encontrar em período menstrual. Foi internada, iniciando fluidoterapia, protector gástrico e analgesia endovenosa. Nas primeiras 48 horas verificou-se melhoria das queixas álgicas, que passaram a ser intermitentes. Existia evidência de tumefacção palpável no hipocôndrio esquerdo, a qual foi interpretada como distensão cólica por obstipação. Foi realizada radiografia abdominal simples de pé, a qual foi interpretada como normal. Também foi pedida uma ecografia abdominal, que não chegou a ser efectuada. Ao terceiro dia de internamento ocorreu agravamento do quadro clínico com aparecimento de febre elevada (38,9º C), intolerância digestiva total com vómitos biliares e dor abdominal difusa intensa. Realçava-se a presença de sinal de Murphy renal positivo à esquerda e a existência de contractura abdominal. Do ponto de vista laboratorial constata-se então a existência de anemia normocítica e normocrómica (hemoglobina 10,8 g/dl; Hematócrito-32,1%; VGM-87,2fl; CHCM32g/dl; RDW-14,2%), leucocitose com neutrofilia (leucócitos-18,3x1000e/_l; neutrófilos-75%), trombocitopenia (plaquetas-125000e/_l) e aumento do PCR-9,8mg/dl. A tomografia axial computorizada (TAC) abdominal evidenciou a existência de uma volumosa tumefacção abdominal (16x13x5cm-Figura 1) de etiologia desconhecida, cujo limite superior se encontrava ao nível da bifurcação da aorta e cujo limite inferior se estendia até ao fundo da cavidade pélvica, em posição retrouterina e adiante da parte terminal do cólon sigmóide. Submetida a laparotomia exploradora, constatou-se a existência de baço ectópico e suspeitou-se, pelo aspecto macroscópico, de enfarte esplénico secundário a torção (de 720º) do pedículo vascular do órgão sobre si mesmo. Após distorção manual do pedículo, não se verificou normalização do aspecto do baço, pelo que foi efectuada esplenectomia. O diagnóstico de enfarte foi confirmado pelo exame anátomopatológico (Figura 2). Figura 1 – Limite superior da volumosa tumefacção abdominal, em posição ântero-lateral esquerda ao nível da bifurcação da aorta nas 2 artérias ilíacas e dos pólos inferiores de ambos os rins. Figura 2 – Peça de esplenectomia de 600 grs e 18 x 12 cm, com soluções de continuidade capsulares e áreas hemorrágicas/enfarte visíveis em corte transversal. 70 Acta Pediatr Port 2009:40(2):69-71 Teve alta ao terceiro dia de pós-operatório, após administração de vacina antipneumocócica 23-valente e penicilina benzatínica intramuscular, com indicação de manter a profilaxia indicada pós- esplenectomia. Discussão O diagnóstico precoce de baço “errante” impõe-se para permitir, se possível, tratamento conservador - esplenopexia, a qual pode ser realizada por laparoscopia4-6. A apresentação clínica, bem como os achados laboratoriais, podem ser inespecíficos, podendo a radiologia contribuir de modo decisivo para o diagnóstico. A radiografia abdominal simples pode mostrar ausência da sombra esplénica normal. A ecografia é considerada o meio de diagnóstico mais útil, podendo evidenciar, quer a presença do baço errante, quer a existência da torção com isquemia (ecografia com Doppler)8,9, a qual por condicionalismos do hospital não foi realizada em tempo útil. A TAC abdominal pode fornecer igualmente informação sobre a existência de torção e da viabilidade do parênquima esplénico9. A TAC permite efectuar o diagnóstico, exigindo, no entanto, uma leitura sistemática (loca esplénica vazia e a massa visualizada apresentar densidade sobreponível à do baço). A ausência desta interpretação no caso apresentado determinou que o diagnóstico não fosse efectuado no pré-operatório. A cintigrafia hepato-esplénica e a ressonância magnética podem ser igualmente úteis na abordagem diagnóstica do baço errante9. A trombocitopenia pode relacionar-se, quer com o hiperesplenismo, resultante do aumento do órgão após crises repetidas de sub-torção do seu pedículo, quer com a activação dos mecanismos da coagulação/hemólise no momento da torção irreversível do pedículo e consequente enfarte esplénico, mecanismo este que terá acontecido neste caso. O sinal de Murphy renal esquerdo poderia explicar-se, eventualmente, por estiramento do ligamento espleno-renal (se existente, mesmo que frouxo ou anormalmente longo), o que não se verificou. Nesta situação concreta admite-se a possibilidade de ser um caso de “dor referida” ou um achado inespecífico. A incerteza do diagnóstico preciso e a gravidade da situação França Santos J et al – Baço errante clínica, determinaram a opção por laparotomia exploradora. O aspecto macroscópico do baço sugerindo enfarte e a sua não alteração após a distorção, determinaram a realização da esplenectomia. Desejamos que a divulgação deste caso contribua para um melhor conhecimento do “Baço errante”, muito em particular pelos pediatras, cirurgiões e radiologistas, de modo a diminuir as complicações associadas a esta situação. Agradecimentos à Dra. M.J. Perez del Rio do Serviço de Anatomia Patológica do CHTMAD,EPE - Unidade de Chaves, pelo fornecimento de fotografia respeitante ao estudo anátomo-patológico e a Dr. J.C. Portela Pastrana do Serviço de Radiologia do CHTMAD,EPE -Unidade de Chaves, pelo fornecimento de fotografia da TAC e revisão crítica deste exame e do relatório previamente efectuado. Referências 1 - Ng T, Lessin MS, Lucks FI, Wallach MT, Wesselhoeft CW. Wandering spleen presenting as duodenal obstruction after repair of congenital diaphragmatic hernia. J Pediatr Surg 1997; 32:1790-2 2 - Abell I. Wandering spleen with torsion of the pedicle. Ann Surg 1933; 98:722-35. 3 - Brown CVR, Virgílio GR, Vasquez WD. 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No plano de actuação as decisões dos pais e a intervenção multidisciplinar são muito importantes. Apresenta-se um caso de encefalocelo occipital com hipoplasia do cerebelo. O diagnóstico de encefalocelo occipital foi feito às 22 semanas e de acordo com a decisão dos pais às 39 semanas nasceu uma criança com exame neurológico normal. Foi efectuada cirurgia correctiva do encefalocelo. A criança desenvolveu hidrocefalia ligeira e os pais opuseram-se à colocação de sistema de derivação ventrículo-peritoneal. Aos sete meses de idade a lactente apresentava estrabismo convergente, sem outras alterações no desenvolvimento psicomotor, e sem hidrocefalia activa. A criança tem usado irregularmente lentes oculares correctivas e falta à maioria da consultas hospitalares. Aos 24 meses a criança mantém estrabismo, com boa evolução após uso regular das lentes correctivas. Destaca-se ainda ataxia com dificuldade na marcha, tendo iniciado fisioterapia com melhoria. A última tomografia axial computorizada crânio-encefálica, realizada aos 24 meses, é semelhante às outras, sem hidrocefalia progressiva. Nesta altura, foi realizada avaliação cognitiva em Consulta de Desenvolvimento que foi normal. Discutem-se os aspectos éticos e psicológicos existentes na comunicação entre os pais e os profissionais de saúde e a sua implicação no prognóstico de uma determinada situação clínica. Occipital encephalocele: science and ethics Abstract: Prenatal diagnosis of encephalocele frequently leads to termination of pregnancy. Prognosis is associated with the type of malformation and co-existent anomalies. Management plan depends on parents' decisions and needs multidisciplinary approach. We report a case of occipital encephalocele and hypoplasia of the cerebellum. The diagnosis was made at 22 weeks' gestation, and according to parents decision, a child was born at 39 weeks gestation; first neurologic examination was normal. She was submitted to a corrective surgery. She developed mild hydrocephalus and parents opposed to the shunt procedure. At 7 months the child presents a convergent strabismus without other development abnormalities and no progressive hydrocephalus. At 24 months she still had strabismus, with a good evolution after correct use of lenses. She showed a truncal ataxia with impaired walking and started rehabilitation with improvement The last computed tomography of brain (at 24 months) is similar to the others, without progressive hydrocephalus, and cognitive evaluation was reported normal. The authors discuss he ethical and psychological aspects of parents-professionals communication and its implication to the prognosis. Key-words: Neural tube defects; encephalocele; cerebellar hypoplasia; hydrocephalus. Acta Pediatr Port 2009;40(2):72-76 Palavras-chave: Defeitos do tubo neural; encefalocelo; hipolasia cerebelosa; hidrocefalia Acta Pediatr Port 2009;40(2):72-76 Recebido: Aceite: 72 26.06.2006 20.03.2009 Correspondência: Acta Pediatr Port 2009:40(2):72-76 Introdução Os defeitos do tubo neural são uma das malformações congénitas mais comuns no recém-nascido. A sua incidência é de cerca de 1/1000 nados vivos na Europa, Estados Unidos e Japão, sendo maior (6/1000) na população do norte da China e em alguns grupos étnicos. Atinge mais frequentemente o sexo feminino e o risco de ocorrência é maior em mulheres com antecedentes familiares1. A hipótese mais provável é que esta anomalia congénita resulte de uma falência no encerramento do tubo neural, que ocorre entre a terceira e a quarta semana pós concepção, embora os mecanismos exactos ainda não sejam totalmente claros. A sua causa parece ser multifactorial, resultando da interacção entre factores genéticos e ambientais. Entre estes factores destacam-se algumas anomalias cromosómicas (como as trissomias 13 e 18), algumas síndromes genéticas (como a síndrome de Meckel-Gruber caracterizada por encefalocelo, microcefalia, microftalmia, polidactilia, rins displásicos poliquísticos e outras malformações), défices nutricionais (como de ácido fólico, zinco e vitamina B12), hiperglicémia materna em mães diabéticas e alguns agentes teratogénicos (como os antifolatos - valproato de sódio e carbamazepina, entre outros - talidomida e nitratos)1,2,3. A hipertermia e a obesidade maternas são factores discutíveis. Existem ainda vários estudos que apontam para a associação com determinadas mutações genéticas, nomeadamente dos genes que codificam os receptores do ácido fólico, a metilenotetrahidrafolato redutase e que alteram o metabolismo da homocisteína1,3,4,5. O consumo regular pré-concepção (pelo menos um mês) e durante as primeiras semanas de gestação de doses adequadas de ácido fólico reduz o aparecimento de defeitos do tubo neural1,4.Quanto ao diagnóstico prénatal destas situações salientam-se o doseamento no soro materno de alfa-fetoproteína às 14 semanas de gestação e a ecografia fetal1,4,6. O encefalocelo é um tipo de defeito do tubo neural caracterizado pela exteriorização de estruturas intracranianas através de um defeito da calote. Pensa-se que resulta de uma insuficiência paraxial da mesoderme aquando do encerramento do tubo neural anterior. Aproximadamente 80% dos encefalocelos ocorrem na região occipital. Os naso-etmoidais são observados frequentemente em determinados países asiáticos, sendo os encefalocelos esfenoidais os mais raros. Relativamente aos encefalocelos occipitais, o saco herniado pode ter tecido cerebral quase normal ou pode apresentar anomalias morfológicas importantes, em particular cerebelosas1,7 (de referir uma identidade diferente que é o meningocelo occipital - sem existência de tecido cerebral no saco herniado, sendo este constituído apenas por meninges e com muito melhor prognóstico). Os encefalocelos têm dimensões variáveis, podendo estar associados a outras malformações, nomeadamente a fácies característica com microcefalia e região frontal recuada, agenésia do corpo caloso, hipoplasia/agenesia do cerebelo e hidrocefalia1,7. O estudo genético reveste-se de grande importância, pois verifica-se a associação com várias alterações cromossómicas e com algumas síndromes genéticas que se caracterizam pela presença de diversas malformações, destacando-se as síndromes de Meckel-Gruber, de Walker-Walburg, de Joubert e de Martins S et al – Encefalocelo occipital Knobloch1,3. O diagnóstico pré-natal do encefalocelo occipital é muito importante, devendo-se determinar e caracterizar a anomalia e outras alterações associadas e, assim tentar estabelecer um prognóstico mais correcto possível. Desta forma, podemos informar os pais o mais correctamente possível acerca da malformação em causa e que consequências poderá ter para a vida da criança, ajudando-os na decisão complexa no que se refere à evolução da gestação, ao tipo de parto e à realização de um plano de actuação após o nascimento, destacando-se aqui a importância da mudisciplinaridade1,6. Após o nascimento, é de salientar que o prognóstico a longo prazo depende sobretudo da dimensão e da presença e/ou qualidade de parênquima cerebral no saco herniado, associado à existência de hidrocefalia8. Apresenta-se o caso de um recém-nascido com o diagnóstico pré-natal de encefalocelo occipital e discutem aspectos éticos e psicológicos existentes na comunicação entre os pais e os profissionais de saúde e a sua implicação no prognóstico. Relato de caso Recém-nascido do sexo feminino, com o diagnóstico pré-natal, às 22 semanas de gestação, de encefalocelo occipital. É o primeiro filho de pais não consanguíneos, saudáveis e sem antecedentes familiares relevantes. A mãe tinha 36 anos e o pai 31 anos e a gestação foi vigiada. Tomou a partir do primeiro trimestre dose adequada de ácido fólico, não tendo história de exposição a possíveis agentes teratogénicos. Teve como intercorrência hemorragia vaginal no primeiro e segundo trimestres de gestação que resolveu com o repouso, em ambulatório. Às 22 semanas de gestação foi realizada ecografia fetal que mostrou encefalocelo occipital. Nesta altura, falou-se com os pais relativamente ao prognóstico destas malformações e quais os exames complementares de diagnóstico que poderíamos oferecer para melhor caracterizar a malformação e procurar outras alterações associadas, nomeadamente a Ressonância Magnética Nuclear (RMN) fetal e a amniocentese, que os pais recusaram. O rastreio bio-químico no segundo trimestre foi negativo. Foi então oferecida a hipótese de interrupção terapêutica de gravidez ao abrigo da alínea c) do artº 142º do Código Penal, que não foi aceite pelos pais. Às 36 semanas de gestação o acompanhamento passa a ser feito na Consulta Materno-Fetal de Alto Risco, com a intervenção da Obstetricia, Neurocirurgia e Neonatologia, sendo efectuada RMN fetal. Tal exame foi efectuado de acordo com os pais e para caracterizar melhor a malformação e, assim realizar um plano de actuação no nascimento da criança, incluindo a necessidade imediata de cirurgia. A RMN fetal (Figura 1) confirmou o diagnóstico de encefalocelo occipital, ficando-se na dúvida quanto ao conteúdo do saco (“cerebelo?”). Foi realizada cesariana electiva às 39 semanas de gestação. Nasceu com boa vitalidade (índice de Apgar de 10/10). O peso, comprimento e perímetro cefálico da recém-nascida foram respectivamente: 3700 g (P50-75), 50 cm (P50) e 33,5 cm (P10-25). Salientando-se a disparidade do perímetro cefálico (diminuído) relativamente aos outros parâmetros 73 Acta Pediatr Port 2009:40(2):72-76 Martins S et al – Encefalocelo occipital Recém-Nascido (UCERN), em decúbito ventral. Apresentava fácies característico de fronte recuada, fendas palpebrais inclinadas para cima e para fora, orelhas de implantação baixa e rodadas posteriormente, pescoço curto e cabelo de implantação baixa. Foi efectuado cariótipo que se revelou normal. Foi observado por um neuropediatra que não registou alterações no exame neurológico e aconselhou seguimento após a alta hospitalar. A ecografia transfontanelar (Eco TF) mostrou cornos frontais virtuais e afilados, dilatação do átrio e corno occipital e hipoplasia cerebelosa. Na RMN crânioencefálica (CE) efectuada para caracterizar as malformações observou-se encefalocelo occipital associado a defeito de encerramento da calote occipital, dimensão reduzida da fossa posterior, hipoplasia acentuada do cerebelo, dimensão reduzida do IV ventrículo e colpocefalia dos ventrículos laterais. Figura 1 – Ressonância magnética fetal (às 36 semanas) com encefalocelo occipital. somatométricos. Apresentava pequena tumefacção occipital com cerca de 2 cm de diâmetro, com revestimento cutâneo totalmente íntegro e coberto de cabelos (Figura 2). Sem défices neurológicos aparentes e fontanela anterior normotensa, ficou internado na Unidade de Cuidados Especiais ao Foi, também, efectuada tomografia axial computorizada crânio-encefálica (TAC CE) (Figura 3) que confirmou o defeito de encerramento da calote occipital com eversão dos bordos ósseos, separado do buraco oval occipital. As radiografias de crânio e cervical não revelaram anomalias vertebrais e/ou da charneira. Dada a boa vitalidade, o exame neurológico normal e o peso normal ao nascer do recém-nascido, além da integridade do tecido cutâneo que revestia a tumefacção occipital e a ausência de sintomas/sinais de hipertensão intracraniana a cirurgia foi protelada. No período pré-cirugia não se verificaram inter-corrências, alimentando-se ao peito e por tetina e apresentando sempre óptima vitalidade. A cirurgia realizou-se ao 10º dia de vida, com remoção parcial do tecido extracraniano fibrótico de estrututa gliótica (provavelmente de origem cerebelosa), encerramento e reforço dos planos dural e pericraniano. Figura 2 – Recém nascido no 1º dia de vida: aspecto exterior do encefalocelo occipital com revestimento cutâneo totalmente íntegro. Após a cirurgia e ainda no internamento realizaram-se ecografias tranfontanelares que detectaram dilatação boderline dos ventrículos laterais, pelo que a equipa de Neurocirurgia aconselhou a colocação de um sistema de derivação ventriculo-peritoneal (SDVP) antes da alta mas, após discussão dos respectivos riscos e benefícios com os pais, optou-se por vigilância da evolução da hidrocefalia em ambulatório, sem colocação de SDVP. Teve alta ao 18º dia de Figura 3 – Tomografia axial computorizada crânio-encefálica: encefalocelo occipital associado a fossa posterior e IV ventrículo de reduzidas dimensões, hipoplasia do cerebelo e colpocefalia dos ventrículos laterais. 74 Acta Pediatr Port 2009:40(2):72-76 vida, clinicamente sem alterações, nomeadamente ao exame neurológico, perímetro cefálico no P25 e com boa progressão estaturo-ponderal. Teve alta com indicação para seguimento em consultas de Neonatologia, Neuropediatria e Neurocirurgia. Aos 7 meses de idade, apresentava estrabismo convergente, sem outras alterações do desenvolvimento psicomotor e com somatometria adequada ao sexo e idade, incluindo perímetro cefálico. Nesta altura, a criança usava irregularmente óculos correctores e faltava à maioria das consultas hospitalares. A hidrocefalia mantinha-se estável. Aos 24 meses a criança mantinha estrabismo, com melhor evolução com o uso correcto dos óculos adequados. Surgiu ainda ataxia que impedia a marcha sem apoio. No entanto, verificou-se melhoria após fisioterapia. A última TAC CE, aos 24 meses, foi semelhante às outras, sem progressão da hidrocefalia. Nesta altura efectuou também avaliação cognitiva que foi normal para a idade. Discussão Os defeitos do tubo neural são das malformações congénitas mais frequentes, e nas fases precoces da embriogénese a sua incidência ainda é mais elevada, representando 2,5% das causas de abortamento espontâneo. A etio-patogénese é complexa e ainda é alvo de investigação, parecendo haver causas genéticas e ambientais, pelo que é de crucial importância uma anamnese cuidada, com destaque para a história familiar e/ou para a possibilidade de exposição a determinados agentes teratogéneos e para o consumo adequado de ácido fólico. De facto, o risco é maior quando há consanguinidade e existe história familiar, calculando-se que seja de 3% quando um dos progenitores apresenta um defeito do tubo neural. O risco de recorrência aumenta quando existem irmãos afectados, sendo de 1% a 2% quando há um irmão e aumentando para o dobro quando há dois irmãos. No entanto, cerca de 95% das crianças com este tipo de malformação são filhos de casais sem qualquer história familiar. O diagnóstico pré-natal é ecográfico, podendo ser sugerido pelo doseamento aumentado de alfa-fetoproteína no soro materno no segundo trimestre de gestação (superior a 2,5 vezes a média para a idade gestacional, com uma sensibilidade de 90-100% e especificidade de 96%). Se tal se verificar é importante o aconselhamento genético, de forma a assegurar informações precisas acerca do risco da presença de defeitos do tubo neural ou de outras situações que conduzem ao aumento de alfa-fetoproteína, da possibilidade da existência de falsos positivos e para a discussão de um plano de actuação1,2,3. Perante a possibilidade da existência de um defeito do tubo neural deve ser efectuada ecografia fetal orientada para a sua pesquisa1, 6. Pode ainda ser realizada, entre as 16-18 semanas de gestação, a amniocentese para doseamento de alfa-fetoproteína e de acetilcolinesterase e, eventualmente, para a determinação do cariótipo. A associação de aumento de alfa-fetoproteína com a existência de acetilcolinesterase no líquido amniótico tem uma sensibilidade de 98% e uma taxa de falsos positivos de apenas 0,04%1. Martins S et al – Encefalocelo occipital De acordo com um estudo11, realizado em Agosto de 2007, a RMN fetal é um método eficaz e não invasivo de avaliação in útero de malformações do sistema nervoso central (SNC), permitindo predizer de forma mais correcta a evolução e a elaboração de um plano de actuação e aconselhamento genético. No entanto, e ainda segundo este estudo, ainda não é um exame perfeito para aconselhar a IVG. No caso clínico apresentado tratava-se de um recém-nascido sem história familiar relevante e com uma gestação vigiada desde o primeiro trimestre de gestação. Aparentemente, não houve carências nutricionais na dieta materna e ocorreu a ingestão de ácido fólico em doses adequadas (1mg/dia), mas só após iniciar vigilância da gravidez. Não se verificou a exposição a agentes teratogénicos. O doseamento de alfa-fetoproteína no soro materno e no segundo trimestre de gestação foi normal. Perante estes factos podemos concluir que não havia risco acrescido para o desenvolvimento de defeito do tubo neural, embora idealmente o consumo de ácido fólico seja preconizado pelo menos 1 mês antes da concepção4. Após a ecografia pré-natal diagnostica (às 22 semanas de gestação) de encefalocelo occipital, foram propostos aos pais outros exames complementares, nomeadamente amniocentese e RMN fetal de forma a caracterizar a malformação e a informar melhor acerca do prognóstico da situação clínica. Os pais não aceitaram, pois dadas as suas convicções pessoais, a evolução da gestação não dependia da realização destes exames complementares. O plano de actuação depende do tipo de defeito e das malformações associadas, com a intervenção de várias áreas, nomeadamente, da Obstetrícia, da Neurocirurgia, da Genética e da Neonatologia, devendo os pais ser convenientemente informados a apoiados nas suas decisões. Tal foi o que aconteceu neste caso, realizando-se RMN fetal às 36 semanas, com consentimento informado dos pais, para caracterizar melhor a malformação e anomalias associadas, nomeadamente alterações que podiam pôr em risco a vida da criança ao nascer e que necessitassem de intervenção imediata. Tendo em consideração o resultado deste exame (“encefalocelo occipital, em que o conteúdo do saco parecia cerebelo, aparentemente sem outras alterações”), foi planeada cesariana às 39 semanas, na presença de um neonatologista e com a transferência do recém-nascido para a Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais. Verificou-se a observação imediata da equipa de neurocirurgia que acompanhava o caso que, perante o bom estado geral do recém-nascido, as características da malformação (dimensão reduzida e tecido cutâneo íntegro) e a inexistência de hipertensão intra-craniana (confirmada imagiologicamente), decidiu adiar a cirurgia correctiva para o 10º dia de vida, mantendo-se a criança clinicamente sempre estável e sem alterações ao exame neurológico. Relativamente ao prognóstico entre os factores mais importantes destacam-se as características do encefalocelo (dimensão e conteúdo do saco herniado) e a presença de hidrocefalia7, 9 . Segundo um estudo realizado em 46 crianças com vários tipos de cefalocelos concluiu-se que uma boa evolução global relaciona-se com um perímetro cefálico normal, um exame neurológico inicial sem alterações, a operabilidade da lesão e a ausência de alterações da migração neuronal; a 75 Acta Pediatr Port 2009:40(2):72-76 evolução neurológica depende também da existência ou não de hidrocefalia, enquanto o nível de inteligência relaciona-se principalmente com a presença ou não de tecido cerebral no saco herniado8. É também fundamental pesquisar a existência de outras anomalias associadas, a existência de cromosomopatias e/ou a presença de alguma síndrome genética. No caso clínico descrito como factor de bom prognóstico salienta-se a dimensão reduzida do encefalocelo. No entanto, a existência de hidrocefalia (ainda que ligeira) e dependendo da evolução pode determinar à posteriori a colocação de uma derivação ventriculo-peritoneal. De facto, as situações com hidrocefalia secundária necessitam da colocação de derivação em cerca de 50% dos casos1. Neste caso há também tecido cerebeloso no saco herniado e hipoplasia do cerebelo associada, verificando-se as consequências desta malformação: o estrabismo e a ataxia. Nesta situação, e apesar da avaliação cognitiva normal aos 24 meses, pode verificar-se mais tarde alteração da linguagem, dificuldade de aprendizagem e alterações do comportamento, nomeadamente comportamento autista10. O cariótipo é normal, pelo que fica excluída a existência de cromossomopatia. Neste caso, além de todos aspectos técnicos e científicos envolvidos, estão presentes uma série de aspectos éticos, em que a multidisciplinaridade e a intervenção activa dos pais, em diálogo constante, foi crucial para o desenvolvimento e para a situação actual da criança. Na decisão de tratar, tivemos em consideração o melhor interesse do recém-nascido/lactente, depois de auscultarmos a opinião e apreciarmos os valores e os objectivos dos pais. De salientar que depois a atitude excessivamente optimista dos pais levou ao atraso na reabilitação. 76 Martins S et al – Encefalocelo occipital Referências 1 - Gomella T et al. Neural tube defects. In: Neonatology: management, procedures, on-call problems, diseases and drugs. 5th ed. McGrawHill; 2004; 501-11. 2. Frey L, Hauser WA. Epidemiology of neural tube defects. Epilepsia. 2003; 44 Suppl 3: 4-13. 3. Finnell RH et al. Pathobiology and genetics of neural tube defects. Epilepsia. 2003; 44 Suppl 3: 14-23. 4. American Academy of Pediatrics. Folic acid for the prevention of neural tube defects. Pediatrics 1999; 104: 325-7. 5. Wenstrom KD, Johanning GL, Owen J, Johnston KE, Acton S, Cliver S, et al. 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Na actualidade é usada complementarmente à ecografia e pode fornecer informações adicionais úteis, sendo um importante contributo para a avaliação pré-natal, não só no diagnóstico destas patologias mas também no seu prognóstico. As alterações adquiridas/destrutivas do cérebro fetal representam a terceira indicação mais frequente para a realização de RM fetal, logo após a avaliação de ventriculomegalias e de malformações. Neste artigo, revêem-se alguns conceitos importantes relacionados com a patologia hipóxico-isquémica, hemorrágica e infecciosa e faz-se uma revisão sobre as alterações detectadas por RM. Estas alterações são variadas e englobam a ventriculomegalia, hemorragias intra-cranianas de diferente localização, leucomalácia peri-ventricular, cavidades parenquimatosas, hidranencefalia, calcificações, irregularidade do contorno ependimário, perda do padrão em multi-camada, septações e níveis intra-ventriculares, edema e atrofia, podendo também ser encontradas alterações de tipo malformativo em casos de agressões precoces. Palavras-chave: RM fetal, sistema nervoso central, diagnóstico pré-natal, doenças fetais, lesões destrutivas cerebrais. Acta Pediatr Port 2009;40(2):77-82 Fetal Magnetic Resonance in Central Nervous System destructive lesions Abstract: Since the first magnetic resonance imaging (MRI) studies of fetal brain morphology and pathology, progressively incremented by development of fast sequences, fetal MRI as proved to be a useful and valid technique for the diagnosis of central nervous system pathology. Nowadays, it can be used in complement of ultrasound and it can provide addition- Recebido: Aceite: 29.05.2007 27.11.2008 al information, being an important tool on prenatal evaluation, not only in diagnosis but also in prognosis. Fetal brain acquired or destructive lesions represent the third indication for fetal MRI studies, after ventricular dilatation and malformations. In this article, same concepts related to hypoxic-ischemic, hemorrhagic and infectious pathology are reviewed. The abnormalities detected by fetal MRI are wide-ranging and include ventricular dilatation, intracranial hemorrhage of different location, periventricular leucomalacia, parenchymal cavities, hydranencephaly, calcifications, ventricular lining irregularity, loss of multi-layered pattern, intraventricular septa or levels, edema and atrophy. In cases of early insults, malformations anomalies can also be found. Key-words:fetal MRI, central nervous system, prenatal diagnosis, fetal disease, destructive brain lesions. Acta Pediatr Port 2009;40(2):77-82 Introdução As anomalias do sistema nervoso central (SNC), sejam de tipo malformativo ou adquirido, constituem um importante grupo de patologias que podem envolver o feto e serem detectadas in útero. Actualmente, a ressonância magnética (RM) fetal constitui um importante meio auxiliar de diagnóstico, cuja mais-valia tem sido largamente documentada em inúmeros artigos da literatura. Para além de permitir uma avaliação detalhada da normal evolução da giração e sulcação e da mielinização do cérebro fetal1-5, permite também uma avaliação mais sensível e detalhada de inúmeras patologias do SNC, fornecendo nomeadamente informações adicionais no estudo das ventriculomegalias detectadas por ecografia6-12. As alterações adquiridas/destrutivas do cérebro fetal representam a terceira indicação mais frequente para a realização de RM fetal, logo após a avaliação de ventriculomegalias e de malformações13-14. Este grupo de alterações adquiridas/destrutivas abrange sobretudo a patologia hipóxico-isquémica e Correspondência: Carla Conceição UCA de Neurorradiologia, Serviço de Imagiologia Hospital Fernando da Fonseca 2720-276 Amadora [email protected] 77 Acta Pediatr Port 2009:40(2):77-82 Conceição C et al – Ressonância Magnénita fetal hemorrágica, sendo menos frequentes as patologias de tipo infeccioso, tumoral e metabólico. Patologia hipóxico-isquémica/hemorrágica Conceitos importantes Ao longo da gestação muitas condições patológicas15 podem comprometer a circulação materno-fetal e diminuir a perfusão de cérebro fetal, originando lesões isquémicas e/ou hemorrágicas. Estas condições podem ser de origem materna (ex. choque hipovolémico, hipóxia, hiper ou hipotensão arterial, drogas, trauma, intoxicação), placentária (ex. enfarte, descolamento) ou fetal (ex. infecção, anasarca), existindo também maior risco em gravidezes múltiplas monocoriónicas16-17. As lesões do cérebro fetal resultantes destas alterações circulatórias não são uniformes e apresentam diferentes padrões, nomeadamente de distribuição e gravidade, dependendo estes padrões da maturidade do encéfalo na altura da lesão (ou seja da idade gestacional - IG), da gravidade e duração do agressão15. As zonas de vulnerabilidade variam com a IG, localizando-se antes das 34-36 semanas na substância branca peri-ventricular e deslocando-se posteriormente em direcção à região sub-cortical. Em casos de agressões graves existem também lesões profundas, ao nível dos tálamos, gânglios da base e tégmen do tronco cerebral e mais tardiamente no hipocampo e córtex peri-rolândico15. A separação entre lesões isquémicas e hemorrágicas é frequentemente artificial, pois estes fenómenos estão habitualmente interligados: a reperfusão de uma área de isquémia concomitantemente com o aumento de pressão venosa, frequentemente presente, pode originar rotura dos capilares e consequente hemorragia, situação esta particularmente comum na região da matriz germinal15. Esta é, aliás, uma zona particularmente vulnerável e sensível à alteração da pressão sanguínea, hipóxia, anóxia e acidose, susceptibilidade esta relacionada com a sua intensa actividade metabólica e grande aporte vascular, com vasos imaturos e de parede muscular fina15. Do ponto de vista neuropatológico, a reacção tecidular do cérebro fetal varia consoante a maturação cerebral (ou seja consoante a IG), sendo diferente o tipo de lesão resultante15: antes das 24-26 semanas de IG o cérebro fetal tem uma capacidade de reacção astrocitária limitada, resultando as lesões de um processo de necrose de liquefacção, com cavidades regulares sem septos ou gliose designadas de porencefalia. Posteriormente, inicia-se esta capacidade de resposta astrocitária, com aparecimento de cavidades irregulares, septações e gliose, alterações estas designadas de encefalomalácia. De referir também que frequentemente as cavidades parenquimatosas estão em continuidade com os ventrículos, dos quais deixam de ser delimitadas, resultando assim em dilatação ventricular de contorno habitualmente irregular. Na Figura 1, observa-se um caso de um feto de 22 semanas de IG, referenciado por ventriculomegalia marcada associada a prováveis lesões porencefálicas, aspectos estes confirmados e 78 Figura 1 – RM axial e coronal T2 SSFSE - Presença de lesões porencefálicas posteriores parieto-occipitais, com destruição e cavitação do parênquima e consequente comunicação entre os ventrículos dilatados e o espaço sub-aracnoideu. melhor caracterizados na RM. Patologia isquémica As lesões isquémicas são de difícil detecção, sobretudo se difusas, atendendo ao elevado teor de água e à ausência de mielinização do cérebro fetal, dificultando assim, e por vezes impossibilitando a sua identificação18. São, contudo, mais frequentes no período fetal que no período neonatal, contrariamente às lesões hemorrágicas19. A gliose difusa é frequentemente subestimada quando feita uma análise comparativa entre estudos de ecografia e RM com estudos de anátomo-patologia18-20. Caracteriza-se por hiposinal em T1 e hipersinal em T2 da substância branca, difuso e consequentemente de difícil valorização, podendo apenas traduzir-se por redução da espessura do manto parenquimatoso, perda do padrão em multi-camada, microcefalia ou dilatação dos ventrículos (cuja origem pode contudo ser variada). As lesões focais são de mais fácil detecção, sendo no entanto necessário ter em atenção os artefactos que as podem simular, nomeadamente de movimento, de fluxo ou por alteração da homogeneidade do campo18. Caracterizam-se por idênticas alterações do sinal, de carácter focal, traduzindo-se também por cavidades parenquimatosas, perda do padrão em multicamada, alteração do habitual sinal do córtex ou do contorno ependimário e irregularidade deste último18-20. O aparecimento de cavidades facilita a identificação destas lesões, como em casos de encefalomalácia multiquística. Por outro lado, fenómenos de microcalcificação ou de necrose Figura 2a – RM axial e coronal T2 SSFSE - Ventriculomegalia associada a irregularidade do contorno ependimário, mais hipointenso que o usual, envolvendo nomeadamente os corpos e cornos frontais e com contorno quadrangular destes últimos - leucomalácia peri-ventricular com necrose hemorrágica/microcalcificação; coexiste redução da espessura do parênquima, sobretudo junto ao segmento posterior das valas sílvicas, as quais quase contactam a superfície ventricular. Acta Pediatr Port 2009:40(2):77-82 Conceição C et al – Ressonância Magnénita fetal Figura 4, podem também ser documentadas e adequadamente caracterizadas. Em casos de gravidezes gemelares monocoriónicas (nomeadamente com síndromes transfusionais feto-fetais), a morte de um dos fetos acarreta uma morbilidade acrescida no sobrevivente, em particular um risco aumentado de lesões Figura 2b – RM pós-natal axial T1 e T2 - Confirmação dos achados pré-natais de leucomalácia peri-ventricular com necrose hemorrágica/microcalcificação nível justa-ventricular, com irregularidade e hipersinal em T1 e hiposinal em T2 desta região, para além da ventriculomegalia ex-vácuo. hemorrágica podem associar-se ao insulto primariamente isquémico, facilitando também a sua detecção: caracterizam--se mais frequentemente por zonas de hipersinal em T1 e hiposinal em T218-20, conforme ilustrado no caso da Figura 2a relativo a um feto de 31 semanas de IG e cuja ecografia evidenciava atraso de crescimento intra-uterino, aumento da Figura 3 – RM axial T2 SSFSE e T1, sagital T2 SSFSE - Malformação aneurismática da ampola de Galeno, com ectasia desta ampola, dos seios falcino e occipital e tórcula, bem como do sistema vertebro-basilar e carotideo e de várias pequenas estruturas vasculares; extensas alterações cerebrais, com atrofia cortico-subcortical difusa, encefalomalácia, calcificações corticais e ventriculomegalia ex-vácuo com contorno irregular. resistência no cordão umbilical e ventriculomegalia simétrica com maior dilatação dos cornos frontais: na RM observam-se alterações características de leucomalácia peri-ventricular com necrose hemorrágica ou microcalcificação, aspectos estes confirmados pelo estudo RM pós-natal da Figura 2b. No caso da Figura 3, observa-se um feto de 38 semanas de IG com malformação aneurismática da ampola de Galeno, Figura 4 – RM Coronal e axial T2 SSFSE - Hidranencefalia - extensa e quase total destruição dos hemisférios cerebrais, substituidos por LCR; cerebelo e tronco cerebral sem alt valorizaveis. associada a extensas alterações destrutivas, com atrofia, calcificações e encefalomalacia. Situações extremas de hidranencefalia, conforme ilustrado na Figura 5 – RM sagital e coronal T2 SSFSE - Gravidez gemelar monocoriónica bi-amniótica, sem evidência de lesões suspeitas no feto vivo, com manutenção do habitual padrão em multi-camada e do volume dos ventrículos. hipoxico-isquémicas16,17. A RM fornece não só uma informação mais detalhada, nomeadamente na detecção de lesões corticais, do ependima ou de zonas de atrofia focal de difícil detecção na ecografia, mas também uma informação mais precoce, designadamente na detecção de áreas de edema ou necrose21. No caso da Figura 5 demonstra-se caso de uma gravidez gemelar monocoriónica bi-amniótica de 26 semanas de IG e com morte de um dos fetos: a RM do feto vivo foi normal, não tendo sido detectadas lesões, nomeadamente de tipo destrutivo. Patologia hemorrágica As lesões hemorrágicas intra-cranianas e em particular as da matriz germinal e intra-ventriculares são relativamente comuns em recém-nascidos prematuros no período neonatal, oscilando a sua incidência entre 24.6 e 31.8% em neonatos com menos de 2000 g22. São mais raras no feto, existindo contudo inúmeros casos e séries publicadas sobre hemorragias intra-cranianas in-útero, com diagnóstico pré-natal por ecografia e RM. A sua incidência é desconhecida, estimando-se entre 1-5/10.000 gravidezes23. Os factores predisponentes para a hemorragia intra-craniana incluem o trauma, trombocitopénia e outras alterações da coagulação, para além dos factores já referidos como causa de redução da perfusão de cérebro fetal18,23-26. Contudo, apenas em cerca de 43 a 47% dos casos é possível identificar um possível mecanismo causal23-25. As hemorragias intra-cranianas podem ter diferentes localizações, mais precisamente na matriz germinal, intra-ventricular (com origem na matriz ou no plexo coroideu), parenquimatosa, sub-aracnoideia, sub-dural ou epidural15,18,24,25. As hemorragias da matriz germinal e intra-ventriculares são classificadas segundo a sua extensão e dilatação ventricular associada, habitualmente em quatro graus (tal como nos recém-nascidos) e mais raramente em três, constituindo assim um grupo heterogéneo15,24,25. A localização das hemorragias intra-cranianas é um impor79 Acta Pediatr Port 2009:40(2):77-82 tante factor de prognóstico, o qual é pior nas parenquimatosas e intra-ventriculares com dilatação ventricular grave ou extensão parenquimatosa, sendo favorável quando circunscritas à matriz germinal ou com ventriculomegalia ligeira15,24,25: sequelas neurológicas graves ou situações de morte in-útero/neonatal ocorrem em cerca de 90% dos casos de hemorragias parenquimatosas e em 50% das intra-ventriculares com extensão parenquimatosa inferior a 1 cm ou ventriculomegalia grave (átrio superior a 15 mm). A RM assume assim um importante papel, não só de diagnóstico mas também de prognóstico, atendendo à sua maior capacidade de caracterização da correcta extensão destas hemorragias, sobretudo do envolvimento parenquimatoso18. A tradução dos fenómenos hemorrágicos em RM depende de inúmeros factores, nomeadamente do seu tempo de evolução, facto este bem documentado na literatura18,27. Contudo, não existem ainda estudos sobre a sua evolução temporal no feto, a qual poderá ser um pouco diferente da do adulto (a hemo- Figura 6 – RM axial T2 SSFSE e coronal T1 - Ventriculomegalia marcada e assimétrica, secundária a hemorragia intra-ventricular grau IV, com coágulo de moldagem no ventrículo lateral e lesão do parênquima frontal adjacente por provável enfarte venoso; coexiste agenesia do corpo caloso e padrão dismórfico dos gyrus frontais. globina fetal tem maior afinidade para o oxigénio e o seu processo de degradação pode estar mais acelerado)15. De um modo global, as hemorragias recentes são isointensas em T1 e hiper e depois hipointensas em T2, as sub-agudas hiperintensas em T1 e hipointensas e depois hiperintensas em T2 e as antigas hipointensas em T1 e T2. Na Figura 6, ilustra-se o caso de um feto de 31 semanas de IG referenciado por ventriculomegalia assimétrica detectada na ecografia. A RM demonstrou achados adicionais compatíveis com hemorragia intra-ventricular grau quatro, em fase sub-aguda. Figura 7 – RM axial e coronal T2 SSFSE - Ventriculomegalia marcada e assimétrica, associada a lesão encefaloclástica, com presença de septação espessa e muito hipointensa homolateral e nível hemático no ventrículo lateral contralateral, achados estes compatíveis com hemorragia prévia; a cavidade encefaloclástica está em comunicação com o sistema ventricular e apresenta características expansivas, com alargamento da calote craniana adjacente e desvio da linha média (hidrocefalia obstrutiva). 80 Conceição C et al – Ressonância Magnénita fetal Outro aspecto por vezes encontrado em lesões hemorrágicas é a visualização de nível hemático intra-ventricular e/ou de septações, estas últimas frequentemente responsáveis pela coexistência de mecanismo hidrocefálico por obstrução à drenagem do líquor e aumento de pressão, conforme demonstrado na Figura 7 correspondente à RM de um feto de 29 semanas de IG. Patologia infecciosa As infecções congénitas do SNC fetal incluem sobretudo as do tradicional grupo TORCH (toxoplasmose, rubéola, citomegalovirus (CMV), herpes simplex) entre outras, sendo a infecção a CMV a mais frequente28,29. Também nas agressões de etiologia infecciosa, nomeadamente a CMV, as alterações cerebrais resultantes são bastante diferentes consoante a IG na altura da infecção28-31: casos de infecção precoce (antes das 26-28 s) originam malformações do desenvolvimento cortical de tipo lisencefálico ou polimicrogírico e casos de infecção tardia (após 26-28 s) originam lesões destrutivas, nomeadamente alterações da substância branca, leucomalácia peri-ventricular, cavidades, calcificações, pseudo-quistos sub-ependimários28-31 e mesmo lesões hemorrágicas32. Outras alterações possíveis são a microcefalia, a hipoplasia do cerebelo, hemimegalencefalia e hidranencefalia30,31. As alterações do SNC são encontradas em cerca de 23% dos casos de suspeita de lesões infecciosas29, sendo mais frequentes em infecções a CMV (39%) e rubéola (33%), comparativamente com a toxoplasmose (15%) e varicela (18%). Globalmente, a alteração mais frequente é a ventriculomegalia (85%), seguida das lesões destrutivas (34%), malfor- Figura 8 – RM axial, coronal e sagital T2 SSFSE - Ventriculomegalia marcada, associada a hematoma frontal superior com dissecção para o ventrículo lateral subjacente e volumoso coágulo de moldagem preenchendo este último, bem com nível hemático no ventrículo lateral contralateral. Adicionalmente observa-se acentuação do hipersinal T2 da substância branca, com apagamento dos sulcos, sugestivo de edema. mações (22%), calcificações (12%) e hemorragias intra-cranianas (4,8%). As alterações hiperecogénicas lineares detectadas por ecografia nos tálamos e atestando o espessamento da paredes dos vasos (sinal do candelabro), não tem tradução por RM15. Na Figura 8 observa-se um feto de 31 semanas de IG com suspeita de infecção a CMV, tendo a RM mostrado extensas áreas de edema e lesões hemorrágicas. Também em contexto de lesões infecciosas e tal como nas hipoxico-isquémicas/hemorrágicas, os exames de imagem podem demonstrar a presença de aderências ou septações intra-ventriculares, habitualmente com consequente dilatação ventricular por hidrocefalia, como no caso da Figura 9 de um Acta Pediatr Port 2009:40(2):77-82 Conceição C et al – Ressonância Magnénita fetal Conclusão Figura 9 – RM axial e sagital T2 SSFSE - Ventriculomegalia marcada e assimétrica, associada a septação intra-ventricular, sugerindo agressão infecciosa ou hemorrágica prévia. O ventrículo dilatado condiciona desvio contralateral das estruturas da linha média e apagamento dos sulcos parieto-occipitais - hidrocefalia obstrutiva. feto de 30 semanas de IG e referenciado por ventriculomegalia assimétrica. Outra alteração também por vezes associada a infecções ou a patologia hipóxico-isquémica/hemorrágica é a presença de quistos sub-ependimários18,30. Estes últimos localizam-se tipicamente ao longo do sulco tálamo-caudado e junto aos cornos frontais, sendo mais correctamente designados de pseudo-quistos pois estudos anatomo-patológicos demonstraram que não têm epitélio18,33,34. Considera-se que são resultantes de um insulto muito limitado da zona germinativa, isquémico ou hemorrágico, com posterior regressão quística (e por isso também designados de quistos ou lesões de germinolise). Podem ser uni ou bilaterais e serem um achado isolado ou associado a outras alterações (ex. coartação da aorta, malformações do desenvolvimento cortical, ventrículos dilatados ou assimétricos, disgenesia do vérmis, atraso de Figura 10 – RM axial T2 SSFSE e FLAIR/ corte axial macroscópico Ventriculomegalia ligeira simétrica, associada a ausência do septo pellucidum e a pequenos quistos sub-ependimários junto ao contorno antero-superior da cabeça dos núcleos caudados. crescimento intra-uterino), associando-se no primeiro caso a evoluções habitualmente normais e dependendo no segundo das anomalias coexistentes33,34. Podem ainda estar associados a alterações cromossómicas, doenças metabólicas ou consumo de drogas (cocaína)34. Na Figura 10 observa-se o caso de gravidez inicialmente não vigiada, com cerca de 27 semanas de IG, referenciada por ventriculomegalia ligeira associada a alteração da morfologia do IIIº ventrículo, possível agenesia do corpo caloso e oligohidrâmnios. A RM mostrou a presença de quistos sub-ependimários bilaterais associados a ausência do septo pellucidum e ventriculomegalia ligeira, sem agenesia calosa, sendo o padrão de sulcação e giração compatível com cerca de 29-30 semanas de IG, aspectos estes posteriormente confirmados em autópsia Na revisão de algumas séries da literatura que avaliam por RM as anomalias associadas à ventriculomegalia, as lesões destrutivas (isquémicas, hemorrágicas e infecciosas) são responsáveis por cerca de 11,6 a 27,3 % destes casos13,35. Por outro lado, em casos de suspeita de eventuais lesões hipoxicoisquémicas e infecciosas, a RM demonstra alterações em 66,5% e 23 % dos casos, respectivamente14. As alterações detectadas na RM são variadas e englobam a ventriculomegalia, hemorragias intra-cranianas, leucomalácia peri-ventricular, cavidades parenquimatosas, calcificações, irregularidade da matriz germinal, perda do padrão em multicamada, septações intra-ventriculares, edema e atrofia. Em casos de agressões precoces, alterações de tipo malformativo podem também ser encontradas. A RM fetal é uma técnica útil e válida para o diagnóstico da patologia do SNC, nomeadamente nas lesões de tipo destrutivo, podendo ser usada adicionalmente à ecografia e fornecer informações adicionais úteis em pacientes seleccionados, confirmar alterações suspeitas ou negar achados duvidosos. Constitui assim um importante contributo na avaliação pré-natal, quer no diagnóstico quer no prognóstico da patologia do SNC, atendendo à sua grande sensibilidade e capacidade de caracterização e avaliação destas anomalias. Referências 1 - Garel C, Chantrel E, Brisse H, Elmaleh M, Luton D, Oury JF, et al: Fetal cerebral cortex: normal gestational landmarks identified using prenatal MR imaging. AJNR 2001; 22: 184-9. 2 - Girard N, Raybaud C, Poncet M: In vivo MR study of brain maturation in normal fetuses. 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Berlin: Springer, 2004: 201-16. 0873-9781/09/40-2/93 Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria EDUCAÇÃO MÉDICA A leitura crítica de um artigo médico (2ª parte) Daniel Virella1,2,3 1 - Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais, Hospital de Dona Estefânia, Centro Hospitalar de Lisboa Central; 2 - Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais, Universidade Católica Portuguesa; 3 - Editor Associado da Acta Pediátrica Portuguesa. Resumo: A leitura crítica da literatura médica é uma actividade exigente. Requer uma atitude activa de reflexão e de aquisição prévia de conhecimentos, pois implica dar atenção especial não apenas a aspectos formais mas principalmente aos elementos metodológicos e estruturantes dos artigos científicos, verificando o rigor e consistência da informação partilhada e a possibilidade da sua utilização prática. A segunda parte deste artigo discute os aspectos aos quais o leitor deve prestar atenção para avaliar a qualidade e utilidade dum artigo nas secções que vão da apresentação dos resultados à apresentação das referências. Abordam-se também as formas de participar activamente no ciclo científico vital da literatura médica: a discussão em journal club, a escrita de cartas ao editor e a citação. Palavras-chave: artigos médicos, leitura crítica, avaliação de qualidade, journal club, cartas ao editor. Acta Pediatr Port 2009;40(2):93-98 Reading a medical paper with a critical view (part 2) Abstract: Reading a medical paper in a critic fashion is a demanding activity. It requires an active attitude of reflexion and previous acquisition of expertise, as it demands to pay special attention both to formal aspects and, mainly, to the methodological elements that give the scientific backbone to a medical paper, assessing its reliability, the consistence of the information it shares and its eventual usefulness. The second part of this paper reviews the items a reader should pay more attention to asses its quality and usefulness of his medical reading from the presentation of the results of the study to the references, as well as the forms to actively participate on the scientific vital cycle of a medical paper: the journal club, the letter to the editor and citation. Key-words: medical papers, critical reading, quality evaluation, journal club, letters to the editor. Acta Pediatr Port 2009;40(2):93-98 A apresentação dos resultados Se o enunciado dos objectivos e da metodologia seguida são uma etapa imprescindível num artigo, a apresentação dos resultados é a verdadeira razão da sua existência. A apresentação de resultados deve ser suficientemente completa para responder a todas as questões apresentadas nos Objectivos e esclarecer os potenciais factores de confundimento ou concorrentes com os fenómenos encontrados, sem, no entanto, ser excessivamente exaustiva. É importante para a fácil adesão do leitor que as ilustrações (quadros e figuras) apresentem os achados principais de forma clara, com legendas informativas. O leitor não deve, no entanto, considerar negativamente um artigo sem ilustrações: elas podem não adicionar nenhum valor acrescentado ao texto e, portanto, não se justificarem. A repetição de resultados nas ilustrações e no texto pode ser enfadonha para o leitor1. A sua complementaridade, pelo contrário, deve ser encarada positivamente. Inconsistências na apresentação de resultados (mesmo que apenas aparentes) deixam muito má impressão no leitor atento, que pode abandonar rapidamente a leitura do artigo e deixar de ponderar a sua referência futura. Uma apresentação de resultados que se inicia pelos dados que respondem às questões principais enunciadas nos Objectivos é especialmente gratificante para o leitor, convidando-o a prosseguir para os dados complementares que se seguem. Os dados numéricos devem ter uma apresentação coerente com o rigor estatístico e epidemiológico exigido pelos Objectivos. Deve ser valorizada muito positivamente a apresentação de resultados numéricos não apenas em proporções mas também em valores absolutos1. O leitor deve verificar a adequação das descrições estatísticas dos dados à sua natureza (dados contínuos, intervalares ou discriminados, com Correspondência: Daniel Virella [email protected] 93 Acta Pediatr Port 2009:40(2):93-97 distribuição Normal ou de outra natureza) e considerar positivamente a referência à confiança estatística dos resultados, quer pelo uso de intervalos de confiança (em taxas de incidência ou de prevalência e cálculos de risco relativo ou de odds ratio), pela apresentação dos valores das estatísticas dos testes usados (como o coeficiente de correlação) ou de indicadores de significância estatística, conforme adequado2. Se a descrição e análise dos dados numéricos não forem as adequadas à sua natureza, o leitor não pode ter confiança nos resultados apresentados, estando a leitura do artigo fatalmente comprometida. Por exemplo, a escolha inadequada dos métodos de estudo estatístico, como a análise com testes paramétricos de variáveis com distribuição não Normal, é uma falha frequente, que escapa inexplicavelmente à revisão editorial, mesmo de publicações prestigiadas. Por outro lado, a selecção pelos autores de critérios de decisão de significância estatística demasiado rigorosos para a confiança dos dados obtidos (pela natureza da sua recolha ou a dimensão da amostra) ou a sua aplicação estrita, sem uma reflexão crítica, podem levar a uma interpretação errada. Estes factos foram analisados e divulgados em artigos de revisão de publicações de referência, constatando que estes erros de interpretação estatística induziram os leitores (e outros investigadores) a rejeitar sem razão durante anos intervenções ou descobertas importantes3. Quanto às ilustrações, o leitor deve valorizar positivamente a sua simplicidade, sobriedade e facilidade de leitura, incluindo o auxílio efectivamente dado pelas legendas e anotações. A apresentação de aspectos argumentativos juntamente com os resultados do estudo pode ser considerada uma “liberdade de estilo”, mas o leitor mais rigoroso deve considerá-la um incumprimento das regras de estruturação dos artigos científicos, valorizando-a negativamente. A Discussão do estudo Uma das principais deficiências frequentemente encontradas nos artigos médicos é encarar a Discussão como referente apenas aos resultados do estudo. A realidade é que a Discussão deve referir-se à globalidade do estudo, incluindo uma forte e consistente discussão da metodologia, abordando os seus pontos fortes e as suas falhas. Apenas assim os autores conseguem transmitir aos leitores a sua boa fé científica e o rigor da análise do seu trabalho, devendo ser valorizado positivamente. Um estudo pode ter, certamente, defeitos ou deficiências, nomeadamente metodológicas, mas elas são compensadas quando os autores as identificam, as assumem, e têm em consideração na discussão e interpretação dos resultados. Deixa muito má impressão no leitor atento a identificação de falhas metodológicas insanáveis que os autores não apontam no texto, pois levanta sempre a suspeição da intenção de “tentar ver se escapa”. A leitura crítica da Discussão passa também pela análise da sua estrutura. Ela pode seguir a mesma sequência do artigo, quando os aspectos metodológicos se tornam particularmente importantes, mas, quando estes são “pacíficos”, pode iniciar-se pela discussão dos principais achados e, apenas mais à frente, matizar a discussão com a análise da metodologia usada. O leitor deve considerar negativamente a discussão de dados 94 Virella D et al – Leitura crítica de um artigo (Parte II) do estudo que não foram previamente apresentados nos Resultados, pois não é apenas formalmente incorrecto, como geralmente esta apresentação extemporânea é incompleta e insuficiente, não permitindo uma leitura correcta. A comparação crítica da consistência da metodologia e dos resultados com os de outra literatura semelhante é de valorizar pelo leitor. No entanto, a transformação da Discussão numa revisão encoberta da literatura já não o é1. Por muito proveitosa que uma actualização teórica possa ser para o leitor, não é na leitura da discussão de um artigo de investigação original que deve ser feita4. Esta observação crítica deve visar não apenas os autores, mas também os editores da publicação, que, em última instância, são os responsáveis pelo rigor do que é publicado. Com a leitura completa da Discussão, o leitor deve ter tido a possibilidade de confrontar a opinião que formou durante a leitura das restantes secções dos artigos com a interpretação que os autores fizeram do seu próprio trabalho. Se esse confronto não é possível, a Discussão apresentada é certamente insuficiente. No entanto, a opinião do leitor não é obrigatoriamente coincidente com as dos autores, apesar da argumentação que foi apresentada, o qual não desmerece necessariamente o artigo, pois a ciência, apesar da tentativa de objectividade, não pretende apresentar verdades absolutas. O leitor deve estar aberto à possibilidade da diferença de ideias, pontos de vista e interpretações. A impressão do leitor sobre a importância dum estudo não deve ser condicionada pelo facto de que os resultados encontrados não sejam positivos, isto é, os autores podem não confirmar a sua hipótese ou verificar que estavam errados, mas deve ser valorizado que tenha sido garantida a sua correcção metodológica3 e que tenha sido reservado um espaço na discussão a argumentar a importância desse achado. De facto, a publicação destes estudos é defendida pela Comissão Internacional de Editores de Revistas Médicas (ICMJE)1. Pode considerar-se a apresentação de um estudo que não deu resultados se a discussão metodológica desse insucesso pode servir para auxiliar outros autores que pretendam estudar o mesmo assunto. São poucas as publicações dedicadas a este tipo de artigos e geralmente são especializadas em metodologia de investigação. A Conclusão do estudo As regras de publicação de diferentes revistas médicas não são consensuais acerca da independência desta secção dos artigos científicos. O leitor, antes de criticar a inclusão ou não das Conclusões na Discussão, deve verificar se os autores se limitaram a cumprir as regras editoriais que lhes foram impostas. É nossa opinião, no entanto, que os princípios de clareza da escrita científica são favorecidos pela existência de uma secção de Conclusões independente para os artigos de investigação original, embora não o defendamos para os artigos de relato de casos e casuísticas breves. É sim fundamental que as conclusões apresentadas respondam claramente às questões colocadas no enunciado dos Objectivos, seja isso feito de forma positiva, negativa ou dubitativa. O leitor deve ter uma apreciação negativa de Acta Pediatr Port 2009:40(2):93-97 artigos com conclusões dúbias, extemporâneas ou que não se referem directamente ao estudo apresentado. Do mesmo modo, deve ser encarada com fortes reservas uma conclusão que remete para adicionais referências bibliográficas. Limitar a impressão sobre um artigo à leitura do título e das conclusões pode ser extremamente enganador, como se depreende. Virella D et al – Leitura crítica de um artigo (Parte II) mais frequente, fruto do desenvolvimento da Internet. O leitor deve dar-lhes atenção especial, por duas razões, por um lado, são fáceis de consultar, podendo ser uma leitura suplementar muito útil, por outro, pode ser importante verificar a sua credibilidade, pois, como referido, muitas fontes on-line são apócrifas e sem a adequada revisão científica. Os Anexos Os Agradecimentos e as Declarações de Conflitos de Interesses Os princípios éticos que regem actualmente a publicação de artigos científicos vão mais além da garantia expressa da protecção dos direitos e garantias dos pacientes e indivíduos participantes e abrangem também o reconhecimento do trabalho técnico e intelectual e das relações financeiras e institucionais dos investigadores1. A apresentação explícita destes aspectos deve ser apreciada positivamente pelos leitores. O reconhecimento pelos autores de contribuições técnicas que não assumiram os critérios de autoria deve ser valorizado positivamente5. Em contrapartida, se se depreende da leitura do artigo que existiram contribuições para o estudo que não constam na autoria nem em Agradecimentos, isso deve ser valorizado negativamente. A inclusão de agradecimentos pessoais por contribuições não especificadas deve ser encarada como torpe. O reconhecimento de contribuições financeiras ou materiais de outro tipo deve ser encarada favoravelmente e tida em conta na interpretação das conclusões do estudo, se o leitor considerar a existência de possível conflito de interesses, apesar do que tenha sido referido explicitamente pelos autores. As Referências Os fundamentos de qualquer artigo médico são um elemento fulcral, mesmo quando se trata da apresentação de um estudo extremamente original. O leitor deve valorizar a inclusão de referências primárias (artigos originais), recentes, seminais (as primeiras publicações sobre o tema abordado)5 e de recomendações oficiais fundamentadas em critérios objectivos. Pelo contrário, salvo reduzidas excepções, deve ser encarada negativamente a inclusão de referências redundantes, referências secundárias (artigos de revisão, artigos de livros e artigos originais que citam outrem), de artigos desactualizados ou de artigos publicados em revistas ou websites sem credibilidade científica (sem reconhecido processo de revisão interpares). Exceptuase a inclusão de referências destas características quando os autores as usam para analisar criticamente o seu conteúdo6,7. A inclusão de referências de publicações dos próprios autores deve ser encarada de forma positiva quando surgem na sequência de uma linha de investigação coerente, que valoriza o estudo apresentado, particularmente quando fundamenta a metodologia usada ou a interpretação de dados obtidos nos estudo em causa. “Auto-referências” extemporâneas ou difíceis de justificar devem ser vistas de forma crítica. A referência a fontes electrónicas de informação é cada vez Alguns artigos médicos apresentam Anexos com informação complementar. Outros beneficiariam com a sua apresentação. O conteúdo mais frequentemente encontrado como Anexo é a inclusão de um formulário, inquérito ou protocolo usado ou validado no estudo1. A inclusão deste tipo de documentos pode ser valorizada muito positivamente, pois permite uma leitura mais completa do estudo e, eventualmente, a sua utilização por outrem na confirmação dos achados ou mesmo a sua aplicação prática. Isto é particularmente importante quando se apresenta a validação de instrumentos de intervenção, diagnóstico ou prognóstico. Por vezes, o anexo apresenta listas de indivíduos que contribuíram para o estudo, particularmente em estudos baseados em redes de recolha de informação para estudos clínicos ou em estudos multicêntricos8. Estes anexos devem ser também valorizados positivamente pelos autores, pois reflectem o cumprimento pelos autores de requisitos éticos. O contacto entre os leitores e os autores e editores: as Cartas ao Editor, os Comentários Editoriais e as Citações Uma consequência natural da leitura crítica da literatura médica é a informação de retorno dos leitores aos autores e editores das publicações, geradora de discussão científica e clínica. Se a leitura de um artigo gera dúvidas acerca da correcção de um estudo ou opiniões discrepantes entre o leitor e os autores, o sistema prevê a apresentação destas questões através do envio de Cartas ao Editor1,9,10. Através deste meio é possível solicitar esclarecimentos suplementares ou confrontar experiências ou interpretações diferentes, prolongando e ampliando o “ciclo de vida científica” de um artigo11. Em Portugal, existe muito pouca tradição de publicação de Cartas ao Editor com verdadeiro conteúdo científico, por razões variadas, que se prendem quer com a pequena dimensão da comunidade científica quer com o pouco desenvolvimento da investigação clínica original12-14. No entanto, as Cartas ao Editor são uma actividade corrente na literatura médica internacional10. É aconselhável que a leitura de qualquer artigo se complemente com a pesquisa da correspondência que gerou, pois pode ajudar o leitor a esclarecer dúvidas geradas pela leitura do artigo ou a chamar-lhe a atenção para aspectos que até então lhe tinham escapado. Os modernos motores de busca bibliográfica habitualmente referenciam junto a cada artigo os comentários e correspondência associada, facilitando o trabalho do leitor. Pode afirmar-se que qualquer leitura está incompleta sem esta leitura complementar. Por outro lado, o número de cartas recebidas por um artigo é uma medida da 95 Acta Pediatr Port 2009:40(2):93-97 sua repercussão (embora não necessariamente da sua qualidade) e da actualidade do tema abordado. Alguma literatura recente aponta para a utilidade do exercício da escrita de Cartas ao Editor como parte de cada Clube de Leitura, sendo um instrumento de treino de leitura crítica na formação médica15,16. Alguns jornais internacionais de maior repercussão impõem limites temporais relativamente curtos para a recepção de correspondência sobre os artigos publicados, o que, por um lado, facilita a pesquisa da troca epistolar pelos leitores mas, por outro, impede a participação de leitores retardatários ou mais hesitantes. Existe sempre, no entanto, a possibilidade de contacto directo entre o leitor e os autores. Por vezes, os Editores convidam especialistas da área a comentar artigos que lhes chamam a atenção pela sua importância ou controvérsia (por vezes são as observações dos revisores que desencadeiam este processo). Esta é uma forma de facilitar a leitura crítica do artigo, ajudando a identificar os seus aspectos mais destacados ou que merecem maior reflexão. É sempre sensato confiar no julgamento dos Editores e complementar a leitura do artigo com a dos Comentários Editoriais. Outra forma de verificar o impacto de um artigo (e, indirectamente, do seu valor) é o número de citações que lhe são feitas17. Esta verificação não é possível de imediato, como é óbvio. Também este aspecto pode requerer uma análise crítica: existem casos célebres de artigos amplamente citados de forma errada, pois algum autor consagrado o citou e a citação foi repetida sem a adequada leitura do artigo original, passando a citação a ser feita de forma inadequada. De aqui se depreende que o leitor tem uma responsabilidade inesquivável de citar correctamente os artigos que referencia quando se torna autor, quer verificando correctamente a adequação do conteúdo do artigo à citação quer fazendo correctamente a referenciação. A referenciação primária (de artigos originais) é não apenas uma exigência de rigor científico mas um dever ético exigido aos autores5. A valorização global dum artigo médico A leitura crítica dum artigo não deve perder-se na análise pormenorizada de cada um dos seus elementos, antes sim integrar esta análise parcelar numa valorização de conjunto, para a qual, como vimos, nem todas as suas secções contribuem com o mesmo peso para a avaliação final. O leitor deve, em primeiro lugar, decidir se realmente o artigo aborda um tema do seu interesse pessoal ou se a escolha temática foi errada. Em segundo lugar, deve valorizar globalmente o rigor e a validade do estudo apresentado. Apenas após a avaliação positiva deste aspecto importa decidir se os resultados apresentados e a sua interpretação lhe parecem interessantes ou mesmo úteis, de modo a concluir se irão contribuir para atingir o objectivo que levou à sua leitura: a sua informação e valorização profissional, a melhoria da prática clínica ou a resolução de alguma questão concreta. É de valorizar muito positivamente um artigo que apresenta um estudo de forma que seja clara uma sequência lógica e coerente entre o motivo do estudo, os seus objectivos, a 96 Virella D et al – Leitura crítica de um artigo (Parte II) metodologia seguida e os resultados obtidos, assim como a profundidade e adequação da discussão, terminando na apresentação de conclusões que respondam de facto aos objectivos definidos. A reflexão acerca da capacidade demonstrada pelos autores para a apresentação integrada de todos os componentes do seu artigo é um elemento muito importante da avaliação efectuada pelo leitor. Um artigo que deixa a sensação de uma amálgama de secções insuficientemente interligadas e, particularmente, mal integradas na Discussão, merece uma valorização negativa, especialmente quando as conclusões parecem estar desgarradas do resto do artigo. Mesmo que existam, e certamente existirão com frequência, aspectos de maior ou menor pormenor com os que não se concorde ou que sejam de compreensão mais difícil, isso não deve levar à rejeição do ganho que advém da leitura de um artigo científico. A leitura de artigos com graves erros metodológicos, que comprometem irremediavelmente a sua validade, pode ser valiosa, pelas ilações que de aí se podem tirar. Conclusões A leitura crítica da literatura médica é uma actividade exigente, num primeiro tempo para o leitor, pois requer uma atitude activa de reflexão e de aquisição prévia de conhecimentos, mas também, num segundo plano, para os autores e editores, pois exige-lhes maior responsabilidade pelo rigor dos conteúdos publicados. A leitura crítica implica dar uma atenção especial não apenas a aspectos formais mas principalmente aos elementos metodológicos e estruturantes dos artigos científicos, verificando o rigor e consistência da informação partilhada e a possibilidade da sua utilização prática. Com esta a atitude lucram o leitor, que adquire informação mais correcta, os autores e editores, certamente, mas também os pacientes e a população servida pelos profissionais de saúde, que beneficiam de cuidados prestados por técnicos actualizados e informados. A leitura científica deve, assim, ser não apenas crítica mas responsável. Referências 1 - International Committee of Medical Journal Editors. Uniform Requirements for Manuscripts Submitted to Biomedical Journals (Updated October 2008). http://www.icmje.org/icmje.pdf. Acedido a 11 de Março de 2009. 2 - Mansfield L. The reading, writing, and arithmetic of the medical literature, part 2: critical evaluation of statistical reporting. Ann Allergy Asthma Immunol. 2005;95:322; qiuz 380. 3 - Chung KC, Kalliainen LK, Spilson SV, Walters MR, Kim HM. The prevalence of negative studies with inadequate statistical power: an analysis of the plastic surgery literature. Plast Reconstr Surg 2002; 109:1-6; discussion 7-8. 4 - Wells WA. Unpleasant surprises: how the Introduction has wandered into the Discussion. J Cell Biol 2006;174:741. Epub 2006 Sep 5. 5 - Virella D. Ética Editorial. Acta Pediatr Port 2006:37:VI. 6 - Craan F, Oleske DM. Medical information and the Internet: do you know what you are getting? J Med Syst 2002;26:511-8. 7 - Forester J. Criteria for evaluating the credibility of a Website. 2006. https://filebox.vt.edu/users/jforeste/pt3/teachered/portfolio/lesson6.doc. Acedido a 11 março 2009. Acta Pediatr Port 2009:40(2):93-97 8 - Pereira-da-Silva L, von Kries R, Rose D, Elliott E. Acknowledging contribution to surveillance studies. Arch Dis Child 2005;90:768-9. 9 - Pless B. Are Editors free from bias? The special case of Letters to the Editor. Inj Prev 2006;12:353-4. 10 - Fernández E, Garcia AM. Sr. Director: la importancia de las Cartas al Director. Gac Sanit 2005;19:354-5. 11 - Brown CJ. Unvarnished viewpoints and scientific scrutiny. Letter to the editor provide a forum for readers and help make a journal accountable to the medical community. Can Med Assoc J 1997; 157:792-4. 12 - Pereira-da-Silva L, Afonso S, Marques A. Actividade científica e de investigação num hospital central. Acta Med Port 2004;17:309-16. 13 - Pereira-da-Silva L. Que actividade científica importa? Acta Med Port 2005;18:95-6. Virella D et al – Leitura crítica de um artigo (Parte II) 14 - Pereira-da-Silva L. Recusa de indexação na Medline®: discriminação ou veredicto inevitável? Um ponto de vista. Acta Pediatr Port 2008:39:XXV-VI. 15 - Edwards R, White M, Gray J, Fischbacher C. Use of journal club and letter-writing exercise to teach critical appraisal to medical under graduates. Med Educ 2001;35:691-4. 16 - Kallen AJ, Wilson CT, Russell MA, Larson RJ, Davies L, Sirovich BE et al. Group writing of Letters to the Editor as the goal of Journal Club. JAMA 2006;296:1053-4. 17 - Nieminen P, Carpenter J, Rucker G, Schumacher M. The relationship between quality of research and citation frequency. BMC Med Res Methodol 2006;1:42. 97 0873-9781/09/40-2/99 Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria HISTÓRIA DA MEDICINA Efemérides da Pediatria portuguesa Henrique Carmona da Mota Palestra apresentada, no dia 18 de Outubro de 2008, no 9º Congresso Português de Pediatria, realizado no Porto. Convidaram-me para falar de efemérides no Congresso de Pediatria; dos factos que deixaram marca (ides) e não dos que desbotaram no dia seguinte. Para isso socorri-me mais da memória que da história outros já se ocuparam (Santos Bessa. Saúde Infantil, Setembro 1987; Mª Lurdes Levy . ”Breve História da Sociedade Portuguesa de Pediatria“, em http://www.spp.pt; J. Salazar de Sousa. Acta Pediátrica Portuguesa. Março 2008). Evoco Pêro Vaz ... “SENHOR, posto que o capitão-mor desta vossa frota e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que se ora nesta navegação achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que para o bem contar e falar o saiba pior que todos fazer. Mas tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual, bem certo, creia que por afremosentar nem afear haja aqui de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu. Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer e os pilotos devem ter esse cuidado.” Pêro Vaz de Caminha. Carta a El-Rei D. Manuel. 1500. ...consciente do viés inerente a esta postura. Um século pode parecer demasiado para começar uma história pregressa duma epopeia mas é o objectivo mítico de duração de uma vida humana. Há cem anos deu-se o regicídio, a clássica tendência para castigar o alegado culpado em vez de procurar a causa para corrigir o defeito. Há cem anos nasceu Manoel de Oliveira que, aqui ao lado começou a filmar crianças e Henri Cartier-Bresson, o mestre do foto-jornalismo que aconselhava a esperar pelo “momento decisivo” para disparar (uma atitude tipicamente hipocrática), apenas “quando a cabeça, o olho e o coração estiverem alinhados”... tal como para registar efemérides. Foi há cem anos que Metchnikoff inventou a noção de probióticos; há cem anos foi comercializado a primeira fórmula láctea “adaptada” (Lactogen). Na década de 30, quando nasceram os mais velhos de nós, já um colega Fernando Correia recordava: filmar crianças; e Henri Cartier-Bresson, o mestre do foto-jornalismo que aconselhava a esperar pelo “momento decisivo” para disparar (uma atitude tipicamente hipocrática), apenas “quando a cabeça, o olho e o coração estiverem alinhados”... tal como para registar efemérides. Foi há cem anos que Metchnikoff inventou a noção de probióticos; há cem anos que foi comercializado a primeira fórmula láctea “adaptada” (Lactogen). Na década de 30, quando nasceram os mais velhos de nós, já um colega Fernando Correia recordava: “Mas recordemos mais uma vez o triste martirológio infantil fixado nas estatísticas: - Em Portugal morre uma criança de menos de cinco anos de dez em dez minutos. Recordemos que a maior causa da mortalidade infantil são as enterites, consecutivas a ignorância das mães principalmente, mas muitas delas a mi¬séria, que, não as deixando alimentar convenientemente, lhes faz secar o leite nos seios e as obriga a criar os filhos com leite de animal, tanta vez im¬próprio e bem mais fácil de alterar-se que o que a mãe guarda nos seus peitos, e além disso com muitas qualidades perdidas pela inevitável fervura. Recordemos que a seguir às enterites é a debi¬lidade congénita que mata mais crianças e esta é devida principalmente ao alcoolismo, sífilis, tuber¬culose ou deficiente alimentação do pai e da mãe. Recordemos que uma terceira causa vem a seguir nas estatísticas para explicar a mortalidade infantil, a bronco-pneumonia, tanta vez devida a insuficiência de agasalhos e à necessidade de as mães levarem os filhos consigo quando vão tra¬balhar, expondo-os por conseguinte assim a todas as intempéries. Uma das principais causas de mortalidade in¬fantil é a falta não só de educação como de orien¬tação dos pais. Fernando Correia. Problemas de Higiene e puericultura. Coimbra 1934 Naquele tempo as doenças apresentavam-se floridas e tinham nomes estranhos - atrépsia, marasmo (Figura 1), toxicose... Os mestres daquele tempo preocupavam-se com os flagelos e ...consciente do viés inerente a esta postura. Um século pode parecer demasiado para começar uma história pregressa duma epopeia mas é o objectivo mítico de duração de uma vida humana. Há cem anos deu-se o regicídio, a clássica tendência para castigar o alegado culpado em vez de procurar a causa para corrigir o defeito. Há cem anos nasceu Manoel de Oliveira que, aqui ao lado começou a Figura 1 99 Acta Pediatr Port 2009:40(2):99-104 estudavam a malnutrição (em 1936, Carlos Salazar de Sousa defendeu a Tese de Doutoramento sobre Lactantes Malnutridos, em Lisboa e em 1939 Lúcio de Almeida publicou um livro sobre Fisiopatologia Alimentar do Lactente, Coimbra). Era o período dos pensamentos únicos, dos livros únicos que clamavam “Viva Salazar”, no ano em que se inaugurou o campo de concentração do Tarrafal e a trágica Guerra civil de Espanha (Viva la Muerte) que prenunciava a mundial. Foi então que começou a Revista Portuguesa de Pediatria (RPP) por iniciativa de Carlos Salazar de Sousa, pioneiro da investigação em Pediatria no seu Serviço do H. Santa Maria. Primeiro Revista Portuguesa de Pediatria e Puericultura (Figura 2), depois (1970) apenas Revista Portuguesa de Mota H – Efemérides da Pediatria portuguesa Terminada a guerra, criou-se a Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP-1948) por iniciativa de Manuel Cordeiro Ferreira, um passo decisivo para congregar os pediatras portugueses. A SPP fez 60 anos; a ela se deve estarmos hoje aqui. Bem-hajam quem a criou, Mª Lurdes Levy, sua ama e também quem escolheu o seu belo logotipo. Manuel Cordeiro Ferreira convidava mestres da Pediatria europeia a passar alguns dias em Lisboa; além de palestras, acompanhavam o trabalho diário nas enfermarias do H. D.ª Estefânia. A saúde da criança portuguesa preocupava; em 1952 reuniu-se o 1º Congresso Nacional de Protecção à Infância presidido por um pediatra (Prof. Castro Freire). No mesmo ano, Adolfo Rocha, um clínico geral, descrevia a realidade no mundo rural: “Tocar a anjinhos na torre era tão natural como tocar às avé-marias. Se o sino grande da irmandade abria o seu vozeirão a chamar, ainda um frémito de terror percorria a veiga. Agora se badalava o pequeno, ninguém fazia caso. - Parece que ouço sinais... - É um anjo. E a vessada continuava, alheia às enterites da primavera que dizimavam a infância da freguesia. - Anda Deus a fazer a sua colheita.” Miguel Torga. A criação do mundo (O terceiro dia) Coimbra 1952. Figura 2 Pediatria e mais tarde, Acta Pediátrica Portuguesa desde 1995. Seguiram-se os anos da II Grande Guerra que veio agravar ainda mais as tremendas carências da maioria. Racionamento severo de bens de consumo, pão, leite, sabão, gasolina ... Colavam-se tiras de papel nas vidraças para evitar os estilhaços num eventual bombardeamento. O regime tentava atenuar a severa morbilidade infantil, integrando iniciativas dispersas de protecção materno-infantil (Instituto Maternal - Os serviços consistiam em consultas de Pediatria e Puericultura, Lactários e Consultas pré-natais e ginecológicas. Serviços equivalentes aos europeus mas com 40 anos de atraso. Paula Cristina Almeida Remoaldo. Os desafios da saúde materno-infantil portuguesa nos inícios do Sec. XXI (Cuadernos Geográficos (Granada) 2005;36: 553-61 http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/171/17103736.pdf). Em Coimbra o Instituto Maternal era dirigido por Santos Bessa, um peso pesado do regime. A oposição intelectual aglutinava-se no neo-realismo. Soeiro Pereira Gomes, que nasceu há cem anos, dedicava os Esteiros “aos filhos dos homens que nunca foram meninos” Não havia antibióticos; os medicamentos escasseavam. No país profundo um clínico geral sobreviveu por pouco à febre tifóide tratada com gelo e caldos; dois filhos tiveram difteria o mais novo morreu sufocado pelo “garrotilho”. Então, só era recomendada a vacina contra a varíola; as outras disponíveis só eram aconselhadas “quando e onde for necessário” (1949). 2º Inquérito Serológico Nacional, Portugal Continental 20012002. 2004 DGS. 100 Os médicos tentavam impedir essa colheita com os recursos da época: volumosas injecções subcutâneas de soro fisiológico; perfusões endovenosas em caso de colapso (“toxicose”) mas as agulhas eram mais grossas que as veias e as gotas do tamanho das lágrimas (Figura 3). Figura 3 Apesar do Sol o raquitismo era frequente e os sinais óbvios bordeletes, rosário costal, sulco de Harrison e até deditos hipocráticos; a tetania não era rara. Tempos difíceis em que Torga descreveu os radicais livres: (“O catolicismo, aqui na Ibéria, respira-se como um ar de compressão. É o super-oxigénio da nossa asfixia social”. Miguel Torga, Diário VIII). Em 1957 os “soviéticos” lançaram o primeiro satélite artificial que zunia (Bip, bip, bip, biiiip) sobre as nossas cabeças - as incrédulas, as temerosas e as regaladas. Aquilino publicava “Quando os lobos uivam” no mesmo ano em que Mao iniciava o Grande Salto em Frente - trágicos resultados de tentar iluminar o povo. O general Delgado fazia tremer o regime. Foi o ano da Balada da Despedida do 6º ano médico (Bandeira Mateus/ Machado Soares), o curso de Nicolau da Fonseca, Alexandre Furtado, Vilaça Ramos e do Sutil Roque que a cantou. Acta Pediatr Port 2009:40(2):99-104 Em 1959 Duras-Resnais (Hiroshima mon amour ) mostravam a dificuldade de perceber o horror não experimentado. “Tu n'as rien vu à Hiroshima ...” Foi o ano da vitória de Fidel em Cuba e o inicial do conflito sinosoviético. (“O um dividiu-se em dois...”. J. Pacheco Pereira). Graça Andrada, regressada dos USA, iniciava a sua epopeia na Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral. 1961 foi um ano trágico. Ergueu-se o Muro de Berlim, resposta lógica ao enviesamento de uma utopia. Começou a Guerra de Angola com os bárbaros massacres do Norte de Angola. “Assim, não...” diziam os furriéis da “nossa” Companhia “indígena”. No ano em que Gagarine, o primeiro cosmonauta, relatava que “A Terra é azul” e Raul Solnado ironizava “A guerra de 1908” (na revista “Bate o pé”). Publicou-se o Relatório das Carreiras Médicas (Miller Guerra, relator); os médicos tomam em mãos a definição do futuro... A guerra levou muitos médicos a sair de Portugal: para a Europa uns, por objecção; para África muitos, mobilizados no exército português mas também integrados nas forças da guerrilha - Agostinho Neto que fora interno de Pediatria; Manuel Videira, Manuel Boal... “Para Angola e em Força” tinha ordenado Salazar e nós lá fomos para recuperar nambuangongos. Nambuangongo Meu Amor Em Nambuangongo tu não viste nada ... Não, tu não viste nada em Nambuangongo. Manuel Alegre Ramos de Almeida, já pediatra, foi com as primeiras levas e mais tarde publicou a experiência. Saborosíssimas histórias de um médico camuflado no exército português nos primeiros anos da Guerra de Angola, um jovem (“tinha ideias mas não parecia”) enfant terrible da nata da sociedade lisboeta de há meio século. Escritas por um dos mais brilhantes pediatras de uma geração de oiro da Pediatria portuguesa com uma pena de cisne (pato é pouco, pavão demasiado) por quem fruiu a vida com o prazer de roçar os limites e o à-vontade e o distanciamento irónico de quem se cria invulnerável. Creio que todos os milicianos da guerra de Angola, em especial os médicos, lerão com imenso prazer o Camuflado, Sine Dolo. Para muitos recém-licenciados este foi o Serviço médico à periferia. Emídio Sancho que, mais tarde haveria de fundar, com Nicolau da Fonseca, a Secção de Pediatria Ambulatória da SPP, descreveu a sua a iniciação à Pediatria em África. E continuo na Damba, rodeado de doentes, dos pequeninos, como nós gostamos. Tenho uma enfermaria (chama-lhe barracão que ainda agradeço) cheia de pretinhos. Todos os dias chegam coisas sensacionais. Os maiores edemas carenciais que vi na minha vida, as maiores desidratações, os maiores problemas alimentares; maravilhoso, maravilhoso tudo. E os miúdos começam a nascer. Nascer para a vida e para mim. (Agradeço-lhes com todas as minhas forças os únicos momentos "vivíveis" de Angola.) E assim a Pediatria me vai dominando. Mota H – Efemérides da Pediatria portuguesa Curiosamente, nesse mesmo ano em que Sancho descrevia “Os maiores edemas carenciais que vi na minha vida”, Mª. José Lobo Fernandes, futura pediatra, coligia 19 casos de kwashiorkor hospitalizados no Serviço de Pediatria do HUC. (Algumas considerações sobre o Kwashiorkor, Tese de licenciatura. Coimbra 1963), que Cecily Williams, uma médica, tinha descrito em 1933. (A nutritional disease of childhood associated with a maize diet.. ADC 1933). Portugal era uno do Minho a Timor... 1962 foi o ano da crise dos mísseis em Cuba que levou a “guerra fria” à ebulição. Foi também o ano da 1ª crise académica da nossa geração. Nesse ano, reuniu em Lisboa o X Congresso Internacional de Pediatria sob a direcção de C. Salazar de Sousa. Foi também o ano I da “pílula” com as conhecidas repercussões na natalidade (Figura 4). Em 1963 foi assassinado Kennedy; dois anos depois foi a vez de Humberto Delgado. Exilado, Manuel Alegre, “pergunto ao vento que passa/notícias do meu país/E o vento cala a desgraça/E o vento nada me diz”. Poderia ter dito que se tinha iniciado o Programa Nacional de Vacinação com o êxito que viria a ter. Erradicou-se a varíola, fez-se quase desaparecer a poliomielite e a difteria e, mais tarde, também o sarampo (Figura 5). Figura 4 A vacina é a arma de saúde pública que as ditaduras aceitam. O seu paradigma consiste em eliminar os germes mortais - genocídio do vírus da varíola - e em conseguir que os cidadãos fiquem imunes à toxina tetânica e à contestatária. Curiosamente foi já em regime democrático que se perverteu o paradigma: não satisfeitos com eliminar as estirpes eventualmente virulentas das bactérias comensais, já se passou dos sete iniciais genotipos do pneumococo para nove ou treze. Mais radical é o sabão anti-séptico que, a pretexto de lavar as mãos, anuncia “eliminar 99,9% das bactérias” com o beneplácito da SPP. A limpeza étnica, um mundo asséptico, é o objectivo perseguido sem arrepio. Voltemos a 1966, ano em que se inauguraram o primeiro S. de Pediatria Oncológica (Gentil Martins, IPO, Lisboa), as 1ªs Reuniões Luso-Castelhano-Astur Leonesas de Pediatria e começou a Revolução Cultural da Mao-Tsé-Tung. Em 1967 confirmou-se, em Lovaina (Herz G.) o défice enzimático de uma doença metabólica numa biopsia hepática de uma doente do HUC. 1968 foi outro ano crucial: o ano de Maio em Paris e do início da Primavera de Praga que, mal começou pior acabou 101 Acta Pediatr Port 2009:40(2):99-104 Figura 5 tal com as ilusões de muitos. 1968 foi ao ano da tradução francesa de “O Primeiro Círculo” sobre o Gulag, que descreve o horror dos campos destinados a intelectuais e cientistas e a demência paranóide do estalinismo do pós-guerra. Nesse mesmo ano, foram assassinados R. Kennedy e M. Luther King nos USA. Em Portugal, cai Salazar e começa, com expectativa, a “Primavera Marcelista”. A Ordem do Médicos só reconhecia como especialistas quem se tivesse submetido a um exame nacional depois de um estágio em centros reconhecidos; eram provas longas e exigentes, que duravam dois dias e se prolongavam pela madrugada. Assim nos conhecíamos uns aos outros. O número de pediatras ia aumentando, o que justificava reuniões fora dos grandes centros. O 1º Curso de Actualização e Aperfeiçoamento em Pediatria decorreu em Aveiro. Também em 1968, realizaram-se as 1ªs Jornadas Pediátricas de Angola sob a presidência de Nuno Cordeiro Ferreira e as I Jornadas Internacionais de Pediatria Social, também em Angola, com a presença de grande número de pediatras estrangeiros, nomeadamente espanhóis e franceses (http://www.spp.pt/conteudos/default.asp?ID=3). 1969 foi o ano da II Crise académica que prenunciou o fim da abertura marcelista; na sequência da crise, a Universidade de Coimbra foi encerrada e Octávio Cunha expulso. Entretanto, o homem chegava à Lua. Mas a descompressão que a queda de Salazar ocasionou permitiu algumas reformas importantes: Em 1971 o ministro Gonçalves Ferreira e Arnaldo Sampaio lançaram as bases do que seria o futuro SNS; criaram a Direcção-Geral da Saúde (Arnaldo Sampaio) e os Centros de Saúde.(http://www.minsaude.pt/portal/conteudos/a+saude+e m+portugal/servico+nacional+de+saude/historia+do+sns/historiadosns.htm). No mesmo ano Zeca Afonso cria “Grândola, Vila Morena”, Milles Davies e outros monstros do jazz tocam em Cascais e Fernanda Sampayo executa a primeira septostomia de Rashkind em Portugal (H. Sta Marta). Mas a guerra de África continuava a drenar médicos, que os capitães exigiam protecção. Quando se esgotaram os novos, reinspeccionaram os mais velhos. Nicolau da Fonseca, foi mobilizado para a Guiné. “Fui arrancado brusca e inesperadamente aos 43 anos de idade de junto da minha família, da minha terra, dos meus hábitos, da minha clínica. Pregaram-me nos ombros uns galões de capitão, como podiam ser de major. Fiz figura com 102 Mota H – Efemérides da Pediatria portuguesa eles no aeroporto. Até tive uma continência da sentinela. Mas, chegado aqui, estes lateiros da Medicina não levam a bem esta invasão de ten-coronéis, majores e capitães médicos milicianos, graduados dum dia para o outro a postos iguais ou superiores aos deles. E está a travar-se uma guerra dentro da guerra. Para já o Chefe de serviços de saúde militar... fez tábua rasa da minha especialização e prepara-se para me enviar para Bafatá como clínico-geral. Entretanto no Hospital Civil morrem às sete criança por dia, não obstante o serviço ter melhorado francamente com a presença do Correia de Sousa. Bissau 30-10-72 A minha actividade clínica vai decorrendo sem dificuldades de maior. Tenho com que me entreter durante grande parte do dia. Estou sòzinho no Hospital Regional. Consultas com 50 a 70 doentes todas as manhãs. Enfermarias com um total de 86 camas para visitar de tarde. Muito paludismo, muitas anemias; muitos problemas de má nutrição (sobretudo em mulheres, durante e após gravidezes; em crianças, menos do que esperava); algumas diarreias, complicações respiratórias graves do sarampo; etc. Não tenho qualquer apoio laboratorial. Apenas um aparelho de radioscopia. Apesar de ter sido nomeado Pediatra do Hospital de Bafatá, faço clínica geral. Sob uma avalanche de doentes de todas as idades, fico sem poder dedicar-me como queria à Medicina Infantil. A única possibilidade que tenho é de observar as crianças na consulta e na enfermaria com um pouco mais de atenção. E nada mais. Felizmente não tenho tido grandes dissabores com as crianças que tenho tratado. Já me faleceram algumas, mas em situações que me não deixaram qualquer peso na consciência: 1 tétano noenatal, 1 sépsis neonatal, 1 coma súbito numa criança de 2 meses internada com o CR febril (encefalite, coma palúdico?), 2 complicações pulmonares do sarampo em crianças com um mau estado de nutrição, 1 coma hepático (post hepatite) num rapazinho de 14 anos. Mas, apesar de tudo, é preciso sorte. O hospital fica entregue das 18h às 7h da manhã, a serventes negros, a maior parte analfabetos. Fica um de serviço de noite. Chama o enfermeiro quando é preciso e este manda chamar o médico se a situação o justifica. As medicações têm que ser feitas entre as 7 e as 18horas, porque só nesse horário disponho de enfermeiros (bons no aspecto de desembaraço, mas maus em muitos outros aspectos). Bafatá 10-12-1972 Os pequenitos portugueses tiveram que se haver sem Nicolau da Fonseca durante dois anos, mas os de Bafatá nem se deram conta da sorte que tiveram. Também relata a vida em Bafatá: No meio da cavaqueira ouve-se uma explosão, o chão treme e todos se calam. Depois de se chegar à conclusão que se trata da Artilharia a fazer batimentos de zona, retoma-se o fio à conversa. Descrição que recorda o que Torga publicara vinte anos antes: “E a vessada continuava, alheia às enterites da primavera que dizimavam a infância da freguesia.” Miguel Torga. A criação do mundo (O terceiro dia) Coimbra 1952. Ramos de Almeida, regressado de Angola sem sequelas, publicou um curiosíssimo trabalho (Erytroblastic Saga) nos Acta Pediatr Port 2009:40(2):99-104 Mota H – Efemérides da Pediatria portuguesa Archives of Diseases in Childhood, que implica as avós na eritroblastose fetal; o desenho, magnífico, é do João Abel Manta, o dos Cartoons (1975): “Se hoje, ano segundo da Revolução, me detenho numa data (1969, suponhamos - hora a que nasceram os primeiros desenhos deste álbum) e se, a partir dela me ponho a desfiar referências em passado, covardias, rendas mentais, mortes várias, surge-me acto contínuo a nossa comarca das artes, toda contente e solene, instalada no seu presépio. À volta, e para lá dela, era o país - Portugal, dizem. Estava-se, escusado será lembrar, em delírio de sociedade de consumo: jogos de Bolsa e batalhas de galerias; e havia estímulo, parabéns ao artista, investimentos em moldura. Revolução, nessa época, nem pensar: só a da pintura, e olha lá. Contestação, a das formas. Movimento, o dos happenings nobres. E disse. Enquanto isso, em lugar à parte, um pintor, João Abel Manta, ia anotando e construindo o seu testemunho do tempo”. Prefácio de J. Cardoso Pires, o de O Delfim (1968) e do fabuloso Dinossauro Excelentíssimo (1972). Entretanto a história continuava: em 1973, Allende (médico) era assassinado no Chile (http://www.youtube.com/watch?v= 7vrSq4cievs) e, com ele, morria mais outra ilusão latinoamericana depois da de Che e Fidel. Nesse mesmo ano, “Depois de se chegar à conclusão que se trata da Artilharia a fazer batimentos de zona, retoma-se o fio à conversa, e alheios às enterites da Primavera”, realizou-se o Seminário sobre a Criança na Comunidade Luso-Brasileira, durante o qual foram confrontados alguns dos problemas sociais referentes à criança nas duas comunidades. L. Levy. http://www.spp.pt/conteudos/default.asp?ID=3 1974 foi “a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo” de Sofia e nossa. Haverá muitas causas para o revolução dos cravos, umas mais generosas que outras. A queda dos elevados valores da mortalidade infantil (MI) vinha a acontecer, lenta mas persistente; foi em 1974 que os valores da mortalidade pós-neonatal foram, pela primeira vez, inferiores aos da mortalidade neonatal - atingiu-se o que era chamado “ponto de civilização”, boa razão para mudar o regime. Se até 1974 a velocidade de queda da MI era lenta, a partir daí acelerou-se de tal modo que se aproximou e ultrapassou a dos países europeus (Figura 6). O XIV Congresso Internacional de Pediatria também foi em 1974, em Buenos Aires. Ali ouvi o relato dos sucessos da melhoria dos índices de saúde da criança após a revolução cubana com o entusiasmado aplauso dos jovens pediatras argentinos; no avião soube que Torrado da Silva tinha regressado a Portugal. Em 1975 alguns recém-licenciados propuseram-se fazer parte do seu estágio nos Centros de Saúde; foi o início do Serviço Médico à Periferia que levou todos os jovens médicos a contactar com a realidade portuguesa que desconheciam. Nesse mesmo ano, Ramos de Almeida assumiu a direcção do “S. Neonatalogia da MAC:” uma revolução na qualidade de cuidados ao recém nascido na maior maternidade do país. O Serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria organizou-se em Unidades especializadas, germe das especialidades pediátricas actuais; uma foi o Desenvolvimento com o estatu- Figura 6 to das especialidades clássicas (J. Gomes Pedro e Mª José Lobo Fernandes) Neste período, regressaram a Portugal muitos pediatras: Nicolau da Fonseca, da Guiné, Norberto T. Santos, de Moçambique; Torrado da Silva, Luis Lemos e Octávio Cunha, de Lausanne. Do UK regressaram Gabriel Tamagnini e os três primeiros neuro-pediatras (Cândida Maia, Karin Dias e Luis Borges) que se encontraram no mesmo Serviço de Londres ao mesmo tempo e para onde tinham ido sem saberem uns dos outros. Com eles começou a Neuropediatria em Portugal; eles dirão que já havia começado com Orlando Leitão - tudo tem um precursor (http://neuropediatria.online.pt/a-neuropediatria/a-historia). É curioso que nenhum era pediatra; todos vieram da Neurologia. E, assim, o nosso pequeníssimo grupo de pediatras de Coimbra viu-se dotado de três magníficos pesos pesados -Torrado da Silva, Luis Lemos e o regressado Nicolau da Fonseca. Em 1976, o “despacho Arnaut” criava as bases do futuro Serviço Nacional de Saúde (SNS). http://www.min-saude.pt/portal/conteudos/a+saude+em+portugal/servico+nacional+de+saude/historia+do+sns/historiadosns.htm. Havia muitos alunos em Medicina e o fim da guerra de África desmobilizou muitos médicos, facto que facilitou o arranque do SNS tal como acontecera com o NHS no Reino Unido em 1945. António Arnaut era muito amigo e grande admirador de Torga com quem convivia - não custa imaginar que, juntos, tivessem imaginado o futuro. O sucesso dos críticos primeiros tempos do SNS deve muito à excelente Direcção Geral de Saúde, ao tempo dirigida por Arnaldo Sampaio que apoiou decididamente a energia inesgotável de Celsa Afonso, pediatra responsável pela coordenação dos cuidados à criança. Cursos, normas, simposia (sobre nutrição infantil....) e a edição dos “Temas de Pediatria”, uma espécie de livro de texto com contributos de pediatras de todos os centros do país; o primeiro capítulo, Panorama da Saúde Infantil em Portugal (Mário Cordeiro) é um excelente retrato dos problemas da criança portuguesa de então. Foi em 1976 que Norberto T. Santos ocupou a Cadeira de Pediatria da FM Porto, por morte de Lopes dos Santos. Foi o grande responsável pela qualidade que o Serviço atingiu e pela fundação duma escola de Nutrição no Porto. O Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar foi criado em 1975; o primeiro curso de Medicina começou em 76. O ensino de Pediatria foi atribuído ao S. Pediatria do H. Stº António (Baltazar Valente). Do ensino da Pediatria do novo 103 Acta Pediatr Port 2009:40(2):99-104 curso de Medicina da Universidade Nova de Lisboa foi encarregado Nuno Cordeiro Ferreira, do H. Dª. Estefânia. Em 1977, centenário do H. Dª Estefânia, foi inaugurado o Hospital Pediátrico de Coimbra que havia sido construído por Santos Bessa e Bissaya Barreto. Era constituído por vários Serviços; além dos clássicos - Medicina, Cirurgia - também a Consulta Externa e a Urgência foram constituídos como Serviços, com pessoal e direcção próprias. Gentil Martins, cirurgião pediatra, foi eleito bastonário da OM. Entretanto o SNS ia-se consolidando apesar de enormes reticências. Luis Lemos, que dirigia o S. Urgência do Pediátrico de Coimbra, foi nomeado consultor de Pediatria para os Cuidados de Saúde Primários (Declaração de Alma-Ata, 1977) pela Direcção Geral de Saúde (por iniciativa de Celsa Afonso); uma vez por semana ia aos Centros de Saúde para palestras e discussão de casos. A ONU declarou 1979 Ano internacional da Criança; justamente no ano em que a OMS proclamou a eficácia da reidratação oral nos casos de diarreia (Oral rehydration therapy. WHO Chron. 1978) Portugal associou-se ao evento, promulgando a Lei 56/79, do SNS (http://www.min saude.pt/ portal/conteudos/a+saude+em+portugal/servico+nacional+de +saude/historia+do+sns/historiadosns.htm) O objectivo, tanto do SNS como da OMS ao exaltar a reidratação oral, era o de levar os recursos e a ciência (co-transporte do Na e da glicose) lá onde eles faziam falta; e do modo mais adequado e eficiente possível. Já anos antes, havíamos extinto a diarreia nosocomial, o flagelo de tantos anos, com a criação da Unidade de Internamento de Curta Duração (UICD) onde os lactentes com diarreia eram cuidados pelas mães (Figura 7). Foi também nesse mesmo ano que começaram duas iniciativas de grande impacto na saúde da criança portuguesa e na Mota H – Efemérides da Pediatria portuguesa Figura 8 casos de hipotiroidismo congénito ou de fenilcetonúria; para ler uma descrição da “oligofrenia fenilpirúvica” terão que ler O Mosteiro, da Agustina Bessa-Luis. “ ... a casa recebera um novo doente. - Cheira a rato, é o defeito que tem. ... loiros e de olhos azuis, ... imaturidade afectivan em famílias aparentemente saudáveis ... crianças belas e ... um andar peculiar, simiesco. Os melhores criados da casa da Teixeira contavam-se entre esses débeis... Em 1980 Fernada Sampayo criou a especialidade de Cardiologia Pediátrica (independente da de Pediatria) e nasce a Secção de Pediatria Social da SPP. Em 1981 surge o primeiro Boletim de Saúde Infantil (rosa meninas e azul - meninos), sucessivamente actualizado: em Figura 9 Figura 7 maneira de a perspectivar: No Hospital Pediátrico de Coimbra, Luis Borges criava o Centro de Desenvolvimento da Criança (CDC), uma instituição multidisciplinar (médica, psicologia, fisioterapia, social) que integrava a Neuropediatria e o Desenvolvimento numa perspectiva integral. No Porto, começava o Diagnóstico Precoce (“Teste do Pezinho”Figura 8), o rastreio neonatal de doenças metabólicas e do hipotiroidismo no Centro de Genética Médica Jacinto Magalhães. Graças à sua eficácia os médicos actuais deixaram de ver 104 1992 foi incluído o “Programa-tipo de actuação”, actualizada em 2002 Orientações Técnicas da DGS (nº12) Com as taxas de MI a baixarem a níveis europeus, era o momento de se preparar o SNS para novas etapas. Em 1981 inaugurou-se a primeira unidade de Cuidados intensivos pediátricos integrais, para RN e para crianças, procurando rentabilizar recursos humanos e de equipamento. Foi a Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Pediátrico de Coimbra, dirigida por Torrado da Silva. Quatro anos depois, Octávio Cunha replicou o modelo no H. Stº António do Porto; a experiência levou-o a publicar o magnífico libreto “O sítio entre o Céu e a Terra” (Figura 9). Em 1982, saiu o Memorial do Convento, a última das três obras-primas de Saramago. Era tempo de organizar os cuidados a todos os recém-nascidos portugueses. (Continua) 0873-9781/09/40-2/XXI Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria NOTÍCIAS Calendário de Eventos Nacionais e Internacionais MARÇO 2009 Cidadão desde o Berço - Criança, Família e Sociedade. Lisboa, 3/3/09 (Anabela Matos, tel. 217961818, [email protected]) • III Reunião Departamento Pediatria do Hospital Fernando Fonseca. Amadora, 5-6/3/09 (Sofia Heleno, tel. 214348299, [email protected]) • XXII Reunião Anual da Secção de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica da SPP “Auto-imunidade e metais”. Braga, 12-14/3/09 ([email protected]) • Curso de Inverno 2009. Sertã, 13-15/3/09 (Maria Júlia Brito, tel. 217574680, fax 217577617, [email protected]) • Neonatal Ultrasound Course. Florença, Itália, 16-19/3/09 (AIM Group - AIM Congress, tel. +3905523388.1, fax +390552480246, [email protected], www.aimgroup.eu) • 9th European Postgraduate Course in Neonatal and Pediatric Intensive Care Medicine. Berna, Suiça, 19-21/3/09 (BBS Congress GmbH, [email protected],www.bbscongress.ch/ Kongresse /2009/NEO%202009/neo09.htm) • Reunião Perturbações do Desenvolvimento Infantil: Novas Perspectivas. Óbidos, 20/3/09 (tel. 262830300, ext. 2479, [email protected], www.nasturtium.com.pt) • Conferências de Otorrinolaringologia - Surdez Infantil. Lisboa, 20/3/09 ([email protected], www.hospitaldaluz.pt) • 1º Congresso Internacional sobre Perturbações do Desenvolvimento. Estoril, 25-28/3/09 (Alexandra Carvalho, tel. 214858240 / 912540412, [email protected]) • Course in Fetal and Neonatal Endoscopic Surgery. Braga, 26-27/3/09 ([email protected]) • Dois dias com… a Neurologia Pediátrica. Lisboa, 31/3-1/4/09 (Paula Belmonte e Pedro Mendes, tel. 217985100 – ext. 44660, fax 217805623, [email protected]) ABRIL 2009 • 2ª Reunião de Formação Pediátrica. Braga, 17/4/09 ([email protected], http://rfpbraga.blogspot.com/) • 2º Curso de Introdução à Bioestatistica da SPP. Porto, 30/4-2/5/09 (SPP, [email protected] ou Patrícia Alves, tel. 225513622, fax 225513623, [email protected], http://sbim.med.up.pt) MAIO 2009 • III Curso de Pediatria Comunitária. Águeda, 1-2/5/09 (Margarida Domingues, ASIC, tel. 239484464, fax 239482918, [email protected]) • XI Jornadas Nacionais de Infecciologia Pediátrica. Aveiro, 7-9/5/09 (Secção de Infecciologia Pediátrica da SPP) • II Jornadas da Saúde da Mulher e da Criança. Lisboa, 7-9/5/09 (www.eventosbayer.pt) • Dislexia: Novos conhecimentos. Lisboa, 15/5/09 (www.nasturtium.com.pt) • Seminário “Ventilação neonatal - aspectos práticos”. Braga, 15-16/5/09 (Secção de Neonatologia da SPP) • Seminário “Ventilação neonatal - aspectos práticos”. Braga, 1516/5/09 (Secção de Neonatologia da SPP) • 2ª Reunião Casos Clínicos Secção Reumatologia Pediátrica SPP. Porto, 16/5/09 (ASIC, tel. 239484464, fax 239482918, [email protected], www.asic.pt) • XVI Reunião do Anuário do Hospital de Dona Estefânia (HDE). Lisboa, 20/5/09 (Lucia Pratas, 213126784 - ext. 1784, anuá[email protected]) • Rastreio auditivo neo-natal universal (RANU). Curso satélite da XVI Reunião do Anuário do HDE. Lisboa, 18/5/09 (Carla Oliveira, Serviço de Gestão da Formação do HDE, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • Prevenção de Acidentes e Promoção da Segurança Infantil (APSI). Curso satélite da XVI Reunião do Anuário do HDE. Lisboa, 18/5/09 (Carla Oliveira, Serviço de Gestão da Formação do HDE, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • Trabalho científico: fundamentos para elaboração e divulgação. Curso satélite da XVI Reunião do Anuário do HDE. Lisboa, 19/5/09 (Carla Oliveira, Serviço de Gestão da Formação do HDE, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • Doença alérgica respiratória em Pediatria. Curso satélite da XVI Reunião do Anuário do HDE. Lisboa, 19/5/09 (Carla Oliveira, Serviço de Gestão da Formação do HDE, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • Reanimação Cardio-Respiratória Básica em Pediatria. Curso satélite da XVI Reunião do Anuário do HDE. Lisboa, 20/5/09 (Carla Oliveira, Serviço de Gestão da Formação do HDE, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • Terapêutica inalatória - dispositivos e técnicas de inalação. Curso satélite da XVI Reunião do Anuário do HDE. Lisboa, 21/5/09 (Carla Oliveira, Serviço de Gestão da Formação do HDE, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • Emergências Neurológicas Pediátricas. Curso satélite da XVI Reunião do Anuário do HDE. Lisboa, 21/5/09 (Carla Oliveira, Serviço de Gestão da Formação do HDE, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • Introdução à Cirurgia Pediátrica. Curso satélite da XVI Reunião do Anuário do HDE. Lisboa, 21/5/09 (Carla Oliveira, Serviço de Gestão da Formação do HDE, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • 1st European Conference on Pediatric and Neonatal Cardiac Intensiv Care. Montreux, Suíça, 20-24/5/09 (www.epncic.com) • 13ªs Jornadas de Pediatria do Centro Hospitalar de Cascais “Actualidades em Pediatria”. Cascais, 21-22/5/09 (tel. 214827700, Anabela Vicente ext. 1326, Florinda Santos ext. 1344, fax 214844843, [email protected]) • Reunião Anual da Secção de Endocrinologia Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria. Porto, 22/5/09 (Carla Pereira, [email protected]) • Gémeos… Do Nascer ao Crescer… Guimarães, 22-23/5/09 (familias [email protected],www.gemeosacamino.com) • Curso Básico sobre Perturbações do Desenvolvimento Infantil. Viana do Castelo, 29-30/5/09 (www.nasturtium.com.pt) • Workshop: A criança que gagueja. Lisboa, 30/5/09 (Oficina Didáctica, tel. 213872458, [email protected]) JUNHO 2009 • II Curso de Endocrinologia Pediátrica - Parte I. Luso, 4-5-/6/09 (ASIC, tel. 239484464, fax 239482918, [email protected], www.asic.pt) • I Jornadas da Estímulopraxis. Lisboa, 5-/6/09 (Alexandra Chumbo de Sá Guerreiro, tel. 962345480, www.estimulopraxis.com) • Perturbações do Desenvolvimento Infantil: Novas Perspectivas. Vila Nova de Famalicão, 5-/6/09 (www.cdibraga.net.) • 27th Annual Meeting of the European Society for Paediatric Infectious Diseases (ESPID 2009). Bruxelas, Bélgica, 9-13/6/0 (Kenes International, +41229080488, fax +41227322850, [email protected]) XXI Acta Pediatr Port 2009:40(2):XXI-XXIII • 2º Curso de Hiperactividade. Porto, 17-18/6/09 (Cidália Oliveira. Tel. 222077500 ext. 1465 ou 963266961, [email protected], http://geocities.com/hiperactividade) • Microtendências em Pneumologia Pediátrica. Lisboa, 18-19/6/09 (Centro de Estudos da Função Respiratória, Sono e Ventilação e Centro Especializado de Fibrose Quística; CHLN, Hospital Santa Maria) • XXVI Curso de Pediatria Ambulatória. Coimbra, 18-19/6/09 (ASIC, tel. 239484464, fax 239482918, [email protected], www.asic.pt) • Curso de Verão 2009. Trancoso, 19-21/6/09 (Maria Júlia Brito, tel. 217574680, fax 217577617, [email protected]) • Curso de Cateterismo no Recém-Nascido. Lisboa, 25-26/6/09 (Hospital de Santa Maria, www.chln.pt) • Jornadas de Saúde Materno Infantil, 10 anos do Hospital de São Sebastião. Santa Maria da Feira, 25-26/6/09 (Raquel Ribeiro, tel. 256379700, ext. 3406, [email protected], www.hospitalfeira.min-saude.pt) • XXXI Simpósio Minhoto-Galaico de Pediatria Extra-Hospitalar. Ofir, 29/6/09 ([email protected]) JULHO 2009 • 4th Europediatrics 2009. Moscovo, Rússia, 3-6/7/09 (AC&C International Professional Congress Organiser, tel. +302106889130, fax +302106844777, [email protected]) • International Symposium on Pediatric Radiology. Rio de Janeiro, Brasil, 23-25/7/09 (Dr. Pedro Daltro, [email protected], www.pedrad2009.com.br/) Notícias • Curso de Cuidados do Recém-Nascido no 1º Mês de Vida. Lisboa, 26-30/10/09 (tel. 217805108, fax 217805603, isabel.freitas@hsm. min-saude.pt) • Standards for Research in Child Health (StaR Child Health) Summit. Amesterdão, Holanda, 27/10/09 (http://www.starchildhealth.org/) • 4ª Escola de Outono de Medicina do Adolescente. São Pedro de Moel, 29-31/10/09 (Elisabete Santos, tel. 232420500, [email protected]) NOVEMBRO 2009 • XVI Jornadas de Pediatria do Hospital de Santa Maria. Lisboa, 11-14/11/09 (Margarida Vales, tel. 217805202, fax 217805623, [email protected]) • IV International Meeting on Neonatology e XXXVII Jornadas da Secção de Neonatologia da SPP. Braga, 12-14/11/09 (Muris Congressos, tel. +351 229476847, fax +351 229476846, [email protected]) • 6th World Congress of the World Society for Pediatric Infectious Diseases. Buenos Aires, Argentina, 18-22/11/2009 (Kenes International, tel. +41229080488, fax: +41229069140, [email protected]) • XII Reunião Anual da SPA-SPP. Évora, 21/11/09 (joseluisfonseca @netcabo.pt, [email protected]) • I Congresso Ibérico e I Congresso Português de Fendas Lábio Palatinas. Porto, 26-28/11/09 (www.congressoibericofendaslabiopalatinas.blogspot.com/) • XVII Jornadas de Pediatria dos Hospitais de Leiria e Caldas da Rainha. Óbidos, 26-27/11/09 (tel. 262830396, [email protected]) SETEMBRO 2009 • PIBD 2009 International Symposium on Pediatric Inflammatory Bowel Disease. Paris, França, 9-12/9/09 (PIBD 2009, tel. +33153858268, fax +33153858283, [email protected], www.pibd2009.com/registration.html) • Golden First Hour post partum. Budapeste, Hungria, 10-12/9/09 (Ipokrates, tel. +496214106134, fax +49621410680134, ipokrates @mcon-mannheim.de, www.ipokrates.info) • Glomerular and tubular disorders of the neonate: from physiopathology to clinical practice. Dijon, França, 24-26/9/09 (Ipokrates, tel. +496214106134, fax +49621410680134, ipokrates @mcon-mannheim.de, www.ipokrates.info) • VII Jornadas de Pediatria Ambulatória do Hospital Santa Maria Maior. Barcelos, 25/9/09 (tel./fax 253809200/253817379., pediatria @hbarcelos.min-saude.pt) • 7º Curso de Actualização em Dermatologia Pediátrica. Funchal, 26/9/09 (Teresa Batista, tel. 214164309, www.eventos.bayer.pt) • Filhos de Mães Toxicodependentes - Período Neonatal e Follow-up. Lisboa, 28-29/9/09 (www.chln.pt) • 32nd Union of Middle Eastern and Mediterranean Pediatric Societies (UMEMPS) congress. Dubrovnik, Croácia, 30/9-3/10/09 (tel. +38521231977, fax +38521231397, [email protected]) DEZEMBRO 2009 • Excellence in Paediatrics. Florença, Itália 3-6/12/09 (tel. +302106889130, fax +302106844777, [email protected], www.excellence-in-paediatrics.org/) • Curso de Aleitamento Materno. Lisboa, 16-18/12/09 (tel. 217805108 fax 217805603, [email protected], www.chln.pt) FEVEREIRO 2010 • II Jornadas de Pediatria do Instituto CUF. Porto, 5-6/2/10 (Isabel Ferreira, tel. 220033500, [email protected]) • 4ª Reunião Pediátrica do HCD e 1ª Reunião Saúde CUF Pediátrica. Lisboa, 25-27/2/10 ((Milupa, tel. 214246880, [email protected]) MAIO 2010 • 10th European Society for Pediatric Dermatology Congress. Lausanne, Suíça, 20-22/5/10 (tel. +41223399571, fax +41223399631, [email protected], www.espd2010.com) OUTUBRO 2009 • I Curso de Pós-Graduação Milupa: Nutrição Pediátrica. Óbidos, 1- 3/10/09 (Milupa, tel. 214246880, [email protected]) • 50th Annual Meeting of the European Society for Paediatric Research. Hamburgo, Alemanha, 9-12/10/09 (Kenes International, +41229080488, fax +41227322850, [email protected]) • X Congresso Nacional de Pediatria. Tróia, 15-17/10/09 (Muris Congressos, tel. +351 229476847, fax +351 229476846, [email protected]) • Neonatal Pharmacology. Ulm, Alemanha, 15-17/10/09 (Ipokrates, tel. +496214106134, fax +49621410680134, [email protected], www.ipokrates.info) XXII JUNHO 2010 • Newborn Hearing Screening 2010 Conference. Cernobbio, Itália, 8-10/6/10 (NHS 2010, tel. +39.02.23993345, fax +39.02.23993367, [email protected]) AGOSTO 2010 • 26th International Pediatric Association Congress of Pediatrics. Johannesburg, África do Sul, 5-9/8/10 Acta Pediatr Port 2009:40(2):XXI-XXIII Notícias limite 31/5/2009 (www.lusoneonatologia.net) Cursos de Formação Contínua em Pediatria • Curso Pós-graduadado de Actualização em Desenvolvimento Infantil. Lisboa, 27/2/09 a 12/06/09 (Gabinete de Estudos Pós-Graduados, FCM/UNL, tel. 218803066, fax 218803068, [email protected], www.fcm.unl.pt) • Curso Pós-graduado de Actualização em Ecografia Transfontanelar. Lisboa, 16 a 27/3/09 (Gabinete de Estudos Pós-Graduados, FCM/UNL, tel. 218803066, fax 218803068, [email protected], www.fcm.unl.pt) • I Curso de Imagiologia no SNC da Secção de Neonatologia da Sociedade Portuguesa de Pediatria. Lisboa, 22/04/09 a 26/06/09 (Teresa Ribeira, tel. 213184101, [email protected]) • Curso Pós-graduado de Actualização em Ecocardiografia em Cuidados Intensivos Neonatais. Lisboa, 29/4/09 a 22/7/09 (Gabinete de Estudos Pós-Graduados, FCM/UNL, tel. 218803066, fax 218803068, [email protected], www.fcm.unl.pt) • “Encontros à Sexta-Feira” 5º Curso de Formação Contínua em Pediatria do Hospital Geral de Santo António. Porto, 3/10/08 a 12/6/09 (Ana Rita Lopes, tel. 222077500 – ext. 1396; [email protected]; http://[email protected]) • “O Essencial em… na Criança e no Adolescente” IV Ciclo de Cursos do Internato Médico do Hospital de Dona Estefânia, Centro Hospitalar de Lisboa Central, EPE. Lisboa, 19/1/09 a 14/12/09 (Carla Oliveira, tel. 213596441, fax 213596439; Lúcia Pratas, [email protected]) Eventos da Sociedade Brasileira de Pediatria ([email protected]; http://www.sbp.com.br) • 8º Congresso Brasileiro Pediátrico de Endocrinologia e Metabologia – Cobrapem. São Paulo, 17-20/4/09 (www.cobrapem2009.com.br) • 2º Simpósio Internacional de Nutrologia. São Paulo, 14-16/5/09 (www.nutroped2009.com.br) • 12º Congresso Brasileiro de Pneumologia Pediátrica. São Paulo, 11-13/6/09 (www.pneumoped2009.com.br) • 3º Simpósio de Reanimação Neonatal. Rio de Janeiro, 27-29/8/09 (www.simposioreanimacao2009.com.br) • 34º Congresso Brasileiro de Pediatria, 6º Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia Pediátrica, 7º Congresso Brasileiro de Reumatologia Pediátrica. Brasília, 8-12/10/09 (www.cbpediatria2009.com.br) • 11º Congresso Brasileiro de Terapia Intensiva Pediátrica. Belo Horizonte, 5-7/11/09 Bolsas • Bolsa S-26 de formação/ investigação em Pediatria. Parceria S.P.P. Wyeth. Data limite 15/9/2009 ([email protected], www.spp.pt) • Bolsas Pierre-Fabre. Parceria S.P.P.- Avène e Aderma. Candidaturas para o 1º semestre de 2009 ([email protected]) • Bolsa Geofar. Parceria Secção de Neonatologia da S.P.P.- Geofar. Data XXIII 0873-9781/09/40-2/XXIV Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria 1. Indicações Gerais aos Autores A Acta Pediátrica Portuguesa (APP) aceita artigos sobre qualquer tema pediátrico e materno-fetal, nas múltiplas dimensões científicas, sociais e culturais relacionadas com a saúde e educação da criança e do adolescente. Aceita também estudos experimentais com animais que contribuam para o melhor conhecimento da fisiologia e fisiopatologia infantil e fetal na espécie humana. São bem-vindos artigos provenientes de todos os Países de Língua Oficial Portuguesa. Podem ser aceites, pela sua relevância, textos escritos noutras línguas, de reconhecida divulgação internacional. Os artigos propostos não podem ter sido objecto de qualquer outro tipo de publicação. Esta restrição não se aplica a notas de imprensa ou a resumos publicados no âmbito de reuniões científicas. Se houver publicações semelhantes à que é submetida ou se existirem dúvidas relativamente ao cumprimento dos critérios acima mencionados, estas devem ser enviadas em anexo ao manuscrito em submissão. Os manuscritos submetidos devem estar de acordo com os requisitos de submissão de manuscritos a revistas biomédicas, elaborados pela Comissão Internacional de Editores de Revistas Médicas (Uniform Requirements for Manuscripts Submitted to Biomedical Journals – URMSBJ), elaborados pela Comissão Internacional de Editores de Revistas Médicas (International Committee of Medical Journal Editors – ICMJE), disponível em URL: www.icmje.org e em N Engl J Med 1997;336:309-15 e, em recente versão portuguesa, em Rev Port Clin Geral 2007;27:778-98 (http://www.apmcg.pt/files/54/documentos/20080304112450125029.pdf). Os manuscritos são inicialmente avaliados por membros da equipa editorial e os considerados adequados são submetidos ao parecer técnico de pelo menos dois revisores externos. A revisão é feita anonimamente, podendo os revisores propor a rejeição, aceitação sem modificações ou propor alterações de conteúdo ou de forma, condicionando a publicação do artigo às mesmas. Os pareceres da equipa editorial e dos revisores são comunicados ao(s) autor(es). A propriedade editorial dos artigos publicados é da APP. Uma vez aceites, os manuscritos não podem ser publicados textualmente ou em forma semelhante noutros locais, mesmo noutro idioma, sem o consentimento da APP. O(s) autor(es) mantêm os direitos de autor da sua obra, o que lhes permite: – publicar em parte ou na totalidade o seu artigo em livro, com a necessária referência à publicação do artigo; – utilizar figuras, tabelas e textos do seu artigo em outros trabalhos escritos pelo(s) autor(es), com a necessária referência à publicação do artigo; – incluir o seu artigo em compilações de textos para ensino, sempre que sejam distribuídos gratuitamente pelos estudantes ou disponibilizados em suporte informático de acesso livre, com intuito de ensino ou formação. Apesar dos editores e dos revisores envidarem esforços para assegurar a qualidade técnica e científica dos manuscritos, a responsabilidade final do conteúdo é dos autores, aos quais pertence a propriedade intelectual dos artigos. 2. Tipos de artigos publicados na Acta Pediátrica Portuguesa A APP prevê a publicação de vários tipos de artigos: 2.1. Artigos de investigação original. Contendo o resultado de investigação original, qualitativa ou quantitativa. O texto, organizado em introdução, métodos, resultados, discussão (e eventualmente conclusão), não deve exceder 3200 palavras, excluindo referências e ilustrações, com um máximo de seis ilustrações e até 30 referências. Devem incluir resumos estruturados, em português e em inglês, com um limite de 300 palavras. XXIV NORMAS DE PUBLICAÇÃO 2.2. Publicações breves. Contendo resultados preliminares ou achados novos. O texto, organizado em introdução, métodos, resultados, discussão e conclusão, não deve exceder 1500 palavras, excluindo referências e ilustrações, com um máximo de duas ilustrações e até quinze referências. Devem incluir resumos estruturados em português e em inglês, com um limite de 250 palavras. 2.3. Casos clínicos. Casos clínicos originais, devidamente estudados e discutidos. O texto deve incluir uma breve introdução, a descrição do(s) caso(s), a discussão sucinta que terminará com uma conclusão sumária. O texto não deve exceder 1200 palavras, excluindo referências e ilustrações, com um máximo de duas ilustrações e até doze referências. Os casos clínicos devem incluir resumos, em português e em inglês, com um limite de 120 palavras, estruturados em introdução, relato dos casos e discussão (eventualmente conclusão). 2.4. Séries de casos (Casuísticas). Contendo a descrição de séries de casos, numa perspectiva de reflexão sobre uma experiência particular de diagnóstico, tratamento ou prognóstico. O texto, incluindo uma breve introdução, a descrição dos casos, a discussão sucinta contendo uma conclusão, não deve exceder 2200 palavras, excluindo referências e ilustrações. O texto deve estar organizado em introdução, métodos, resultados e discussão (eventualmente conclusão), com um máximo de três ilustrações e até trinta referências. As séries de casos devem apresentar resumos estruturados, em português e em inglês, com um limite de 250 palavras. 2.5. Artigos de revisão ou actualização. Artigos de revisão sobre temas das diferentes áreas da Pediatria, com interesse prático para profissionais de saúde dedicados a crianças e adolescentes. Este tipo de artigos de revisão é geralmente solicitado pelos editores. Contudo, serão avaliados artigos de revisão submetidos sem solicitação prévia dos editores. As revisões sistemáticas ou quantitativas têm prioridade editorial sobre revisões cuja metodologia não é especificada. O texto não deve exceder 3400 palavras, excluindo referências e ilustrações, incluir um máximo de seis ilustrações e até 60 referências. As revisões sistemáticas e quantitativas (metanálises, p.ex.) devem ser organizadas em introdução, métodos, resultados e discussão (incluindo conclusões). Os artigos devem incluir resumos, em português e em inglês, com um limite de 250 palavras, devendo ser estruturados no caso de serem revisões quantitativas. 2.6. Consensos e Recomendações. A submissão de consensos e recomendações emanadas por Secções da SPP ou sociedades afins à SPP deverá ser feita pelos respectivos presidentes, ou seus representantes. A autoria será atribuída à Secção ou Sociedade em causa, devendo constar no fim do texto a data da aprovação do documento (e eventualmente a data prevista para a revisão), os nomes dos autores envolvidos na sua elaboração, respectiva filiação institucional, seguido expressamente da menção “em representação da Secção de... da SPP, ou da Sociedade Portuguesa de...”. O texto não deve exceder 3400 palavras, excluindo referências e ilustrações, e conter um máximo de 60 referências. Este tipo de manuscrito não é sujeito a processo de revisão externa, sendo apenas submetido a revisão editorial formal e publicado na rubrica “Sociedade Portuguesa de Pediatria - Consensos e Recomendações”. 2.7. Artigos sobre Educação Médica. Artigos de revisão ou opinião sobre a formação médica contínua, geral ou pediátrica, dirigidos a profissionais de saúde que se dedicam a crianças e adolescentes, particularmente a responsáveis pela formação pré e pós-graduada. Este tipo de artigo pode ser submetido sem a solicitação prévia dos editores. O texto não deve exceder 2400 palavras, excluindo referências e ilustrações, incluir um máximo de três ilustrações e até 20 referências. Os artigos devem incluir resumos, em português e em inglês, com um limite Acta Pediatr Port 2009:40(2):XXIV-XXVIII de 250 palavras, devendo ser estruturados no caso de serem estudos originais. 2.8. Artigos sobre Ética. Artigos de revisão ou de opinião sobre problemas éticos médicos, de carácter geral ou pediátrico. Este tipo de artigo pode ser submetido sem a solicitação prévia dos editores. O texto não deve exceder 2400 palavras, excluindo referências e ilustrações, incluir um máximo de três ilustrações e até 30 referências. Os artigos devem incluir resumos, em português e em inglês, com um limite de 250 palavras, devendo ser estruturados no caso de serem estudos originais. 2.9. Artigos sobre História da Medicina. Artigos de revisão sobre aspectos da História da Medicina, geral ou pediátrica. Este tipo de artigo pode ser submetido sem a solicitação prévia dos editores. O texto não deve exceder 2400 palavras, excluindo referências e ilustrações, incluir um máximo de três ilustrações e até 40 referências. Os artigos devem incluir resumos, em português e em inglês, com um limite de 250 palavras. 2.10. Críticas de livros, de publicações em versão electrónica, de sítios da Internet ou de programas informáticos. O texto não deve exceder 600 palavras, excluindo referências e ilustrações, e incluir no máximo duas ilustrações e até seis referências bibliográficas, incluindo a referência bibliográfica completa do objecto da revisão. Estes artigos não devem conter resumos. 2.11. Artigos de opinião. Incidem em comentários, ensaios filosóficos, análises críticas ou enunciados de posição, acerca de tópicos de interesse nas áreas da Pediatria e Saúde Infantil, políticas de saúde e educação médica. O texto não deve exceder 900 palavras, excluindo referências e ilustrações, e incluir no máximo uma ilustração e até cinco referências. Estes artigos não devem conter resumos. 2.12. Cartas ao Director. Comentários sucintos a artigos publicados na APP ou relatando de forma muito breve e objectiva os resultados de observação clínica ou investigação original que não justifiquem publicação mais extensa. O texto não deve exceder 400 palavras, excluindo referências e ilustrações, e incluir no máximo uma ilustração e até seis referências. As cartas ao director não devem conter resumos. 3. Submissão de Manuscritos. Os manuscritos submetidos à APP devem ser preparados de acordo com as recomendações abaixo indicadas e acompanhados de uma carta de apresentação dirigida ao Director da Acta Pediátrica Portuguesa. A carta de apresentação deve incluir a seguinte informação: 1) Título completo do manuscrito; 2) Nomes dos autores com especificação do contributo de cada um para o manuscrito; justificação de número elevado de autores (mais de seis), se tal ocorrer; 3) Especificação do tipo de artigo, de acordo com a classificação da APP; 4) Fontes de financiamento, incluindo bolsas e patrocínios comerciais; 5) Explicitação de conflitos de interesse ou da sua ausência; 6) Declaração de que o manuscrito não foi ainda publicado, na íntegra ou em parte, e de que nenhuma versão do manuscrito está a ser avaliada por outra revista; 7) Declaração de que todos os autores aprovaram a versão do manuscrito que está a ser submetida; 8) Assinatura de todos os autores. É dada preferência à submissão dos manuscritos por e-mail ([email protected]). O manuscrito e a carta de apresentação devem ser enviados em Normas de Publicação ficheiros separados. Deve ser enviada por correio ou por fax (217 577 617) uma cópia da carta de apresentação assinada por todos os autores. Quando estiver disponível a possibilidade de submissão on-line, através das páginas electrónicas da Sociedade Portuguesa de Pediatria (www.spp.pt), será esta a forma de submissão preferencial. Se não for possível efectuar a submissão por e-mail, esta pode ser efectuada por correio, com o envio do suporte digital, para o endereço: Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria Rua Amílcar Cabral, 15, R/C I 1750-018 Lisboa, PORTUGAL Os manuscritos rejeitados ou o material que os acompanha não serão devolvidos, excepto quando expressamente solicitado no momento da submissão. 4. Formatação dos Manuscritos. A formatação dos artigos submetidos para publicação deve seguir os URMSBJ - ICMJE (vide “1. Indicações Gerais aos Autores”). Todo o manuscrito, incluindo referências, tabelas e legendas de Ilustrações, deve ser redigido em coluna única, a dois espaços, com letra de dimensão 12, e justificado à esquerda. Aconselha-se a utilização dos formatos de letra Times, Times New Roman, Courier, Helvética ou Arial; para caracteres especiais, aconselha-se a utilização do formato Symbol. Em todo o manuscrito as quatro margens devem ser de 2,5 cm. Todas as páginas devem ser numeradas, incluindo a página de identificação do manuscrito. Devem ser inseridas quebras de página entre cada secção do manuscrito. Não devem conter cabeçalhos nem rodapés. A publicação de citações, quadros ou ilustrações cuja origem esteja sujeita a direitos de autor, está dependente da citação completa da fonte e/ou da autorização do detentor dos direitos de autor. Unidades de medida - Devem ser utilizadas as unidades de medida do Sistema Internacional (SI), mas os editores podem solicitar a apresentação de outras unidades não pertencentes ao SI. Abreviaturas - Devem evitar-se acrónimos e abreviaturas no título e nos resumos. Quando for necessária a sua utilização, devem ser definidos na primeira vez que são mencionados no texto. O seu significado deve também ficar explícito no resumo, nos quadros e figuras, excepto no caso das unidades de medida. Quando usados mais do que seis acrónimos ou abreviaturas, recomenda-se a inclusão de um quadro com a lista completa dos mesmos. Nomes de doenças – Os nomes de doenças devem ser escritos em minúscula, exceptuando-se apenas aqueles que contêm toponímicos ou antropónimos. Nomes de medicamentos - Deve ser preferida a utilização da Designação Comum Internacional (DCI) de fármacos, escrito em minúscula, em vez de nomes comerciais de medicamentos. Quando forem utilizadas marcas registadas, pode ser mencionado o nome do medicamento, em maiúscula e seguido do símbolo ®, e o nome do fabricante e a sua sede, entre parêntesis. Nomes de instrumentos – Os instrumentos de medida, diagnóstico ou programas informáticos utilizados no estudo e mencionados no manuscrito devem ser apresentados de forma genérica e através do seu nome comercial, seguido do símbolo ®, e o nome do fabricante e a sua sede, entre parêntesis. Local do estudo – A filiação institucional dos autores deve ser referida na página do título. Não deve ficar explícita, no texto ou no resumo, a identificação da instituição onde decorreu o estudo, de modo a manter o duplo anonimato da revisão. Se essa referência for importante para a compreensão do manuscrito, deve ser feita em termos de caracterização genérica do nível de diferenciação e local geográfico da instituição (exº: “hospital universitário de nível III” ou “centro de saúde em área rural”). Secções do manuscrito - O manuscrito deve ser apresentado na seguinte ordem: XXV Acta Pediatr Port 2009:40(2):XXIV-XXVIII 1 - Título (em português e inglês) e título abreviado, autores, instituições, agradecimentos, endereço (e autor) para correspondência; 2 - Resumos e Palavras-chave (em português e inglês); Normas de Publicação 4.1.10. Contagem de palavras, respectivamente, para cada resumo e para o texto principal (não incluindo referências e ilustrações). 4.2. Resumo e Palavras-Chave. 3 - Texto; 4 - Referências; 5 - Legendas; 6 - Ilustrações: 6.1 - Quadros; 4.2.1. Resumo - Deve ser redigido na língua original do manuscrito e inglês, não ultrapassando os limites indicados na especificação dos tipos de manuscritos mas suficientemente informativo e elaborado segundo um formato estruturado contendo os seguintes itens: 4.2.1.1. Os resumos de artigos de investigação original, publicações breves e revisões quantitativas devem ser estruturados (introdução, métodos, resultados, discussão e conclusões) e apresentar conteúdo semelhante ao do manuscrito. 6.2 - Figuras. 4.1. Página de Identificação. Na primeira página do manuscrito devem constar: 4.1.1. O título (conciso e descritivo), na língua original do manuscrito e em inglês; 4.2.1.2. Nos casos clínicos e séries de casos, devem ser estruturados em introdução, relato do(s) caso(s), discussão (incluindo a conclusão); a conclusão deve destacar os aspectos que justificam a publicação do caso ou serie de casos. 4.1.2. Um título abreviado (com um máximo de 40 caracteres, incluindo espaços); 4.1.3. Os nomes dos autores, incluindo o primeiro nome por extenso (não devem incluir graus académicos ou profissionais ou títulos honoríficos); 4.1.4. A filiação institucional de cada autor no momento em que o trabalho foi realizado (deve figurar apenas na página do título; casos excepcionais devem ser justificados); 4.1.5. A contribuição de cada autor para o trabalho. Como referido nos URMSBJ - ICMJE, a autoria requer uma contribuição substancial em, pelo menos, uma das seguintes actividades: – Concepção e desenho do estudo, ou obtenção dos dados, ou análise e interpretação dos dados; – Redacção do manuscrito ou revisão crítica do seu conteúdo intelectual; – Aprovação final da versão submetida para publicação. Nos resumos não devem ser utilizadas referências e as abreviaturas devem limitar-se ao mínimo. 4.2.2. Palavras-chave - Devem ser indicadas logo a seguir ao resumo até seis palavras-chave, em português e em inglês, preferencialmente em concordância com o Medical Subject Headings (MeSH) utilizado no Index Medicus. Para a selecção correcta das palavras-chave recomenda-se a consulta das listas de palavras usadas nos motores de busca: para português em http://www.bireme.br/php/decsws.php ou em http://decs.bvs.br/ e em inglês http://www.nlm.nih.gov/mesh/meshhome.html. Nos manuscritos que não incluem resumos, as palavras-chave devem ser apresentadas no final do manuscrito. 4.3. Texto. A obtenção de financiamento, a recolha de dados ou a supervisão geral do grupo de trabalho, por si só, não justificam autoria. O texto poderá ser apresentado em português ou inglês (poderá ser excepcionalmente considerada a submissão de textos noutras línguas, de reconhecida divulgação internacional). É necessário especificar a contribuição de cada autor para o trabalho. Sugere-se a seguinte discriminação: Os números de um a quinze devem ser escritos por extenso, excepto quando têm decimais ou se seguidos de unidades de medida. Números superiores a quinze são escritos em algarismos, salvo no início de uma frase. As casas decimais devem assinalar-se com vírgulas. (a) Desenho do estudo. (b) Recolha de dados. (c) Análise estatística. (d) Interpretação dos dados. (e) Preparação do manuscrito. (f) Pesquisa bibliográfica. (g) Recolha de fundos. Nos manuscritos assinados por mais de seis autores (três autores no caso das cartas ao editor), tem que ser explicitada a razão de uma autoria tão alargada. É necessária a aprovação de todos os autores, por escrito, de quaisquer modificações da autoria do artigo após a sua submissão. 4.1.6. O nome e contactos do autor que deverá receber a correspondência, incluindo endereço postal e telefone, fax ou e-mail; 4.1.7. Os Agradecimentos, mencionando colaboradores que não cumpram critérios para autoria mas que contribuíram substancialmente para o estudo ou manuscrito, especificando o seu contributo. 4.1.8. Eventuais fontes de financiamento, como patrocínios ou bolsas. 4.1.9. Declaração de Conflito de Interesses entre os autores e alguma eventual instituição ou empresa comercial ligada de alguma forma ao âmbito do estudo ou manuscrito. XXVI 4.2.1.3. Os resumos de manuscritos referentes a revisões não sistemáticas e artigos de opinião não são estruturados segundo as secções referidas na alínea anterior. 4.3.1. Introdução - Deve conter essencialmente os argumentos científicos que fundamentam a realização do estudo e justificam os objectivos. Pode concluir com o enunciado dos objectivos do estudo. Esta secção deve apenas conter as referências bibliográficas indispensáveis para o fundamento e os objectivos do estudo. 4.3.2. Objectivos - Os objectivos do estudo podem ser apresentados no final da Introdução ou em secção própria, devendo ser claros, explícitos e não conter elementos metodológicos no enunciado. 4.3.3. Métodos – Esta secção poderá denominar-se, consoante a natureza do estudo, “Métodos”, “Material e Métodos”, “Amostra e Métodos”, “População e Métodos”, ou simplesmente “Metodologia”. Nesta secção devem descrever-se: 4.3.3.1. A amostra ou a população em estudo (especificando a sua definição e forma de identificação, recrutamento ou selecção); 4.3.3.2. A localização do estudo no tempo e no espaço; 4.3.3.3. O desenho do estudo; 4.3.3.4. Os métodos de recolha de dados; 4.3.3.5. Os métodos de análise dos dados: Os métodos estatísticos devem ser descritos com o detalhe suficiente de modo a possibilitar a reprodução dos Acta Pediatr Port 2009:40(2):XXIV-XXVIII resultados apresentados. Sempre que possível deve ser quantificada a imprecisão das estimativas apresentadas, designadamente através da apresentação de intervalos de confiança. Deve evitar-se uma utilização excessiva de testes de hipóteses, com o uso de valores de p, que não fornecem informação quantitativa importante. Deve ser mencionado o software utilizado na análise dos dados, referindo o seu fabricante e, se considerado necessário, inserindo a referência de citação. 4.3.3.6. As considerações éticas devem figurar no final desta secção. Os autores devem assegurar que todas as investigações envolvendo seres humanos foram aprovadas por comissões de ética das instituições em que a investigação foi realizada, de acordo com a Declaração de Helsínquia da Associação Médica Mundial . Nesta secção deve ser mencionada esta aprovação e a obtenção de consentimento informado, se aplicável. 4.3.4. Resultados - Os resultados devem ser apresentados no texto, usando eventualmente Ilustrações (Quadros e Figuras), seguindo uma sequência lógica. Não deve ser fornecida informação redundante, aparecendo em duplicado no texto e nas ilustrações, bastando descrever a principais observações referidas nas ilustrações. (vide infra as recomendações sobre Ilustrações). 4.3.5. Discussão - Na discussão não deve ser repetida detalhadamente a informação fornecida na secção de Resultados. A discussão deve incidir nas limitações do estudo, na relação dos resultados obtidos com o observado noutras investigações, devem ser evidenciados os aspectos inovadores do estudo e as conclusões que deles resultam. Nesta secção apenas devem ser incluídas as referências indispensáveis para discutir os resultados do estudo. 4.3.6. Conclusão – Esta secção pode surgir separada da Discussão ou incluída no final da mesma. É importante que as conclusões estejam de acordo com os objectivos do estudo, devendo-se evitar afirmações e conclusões que não sejam completamente apoiadas pelos resultados da investigação realizada. 4.4. Ilustrações. As Ilustrações devem ser anexadas após as referências bibliográficas. As Figuras devem ser anexas após os Quadros. Cada Quadro ou Figura deve ser apresentada em páginas separadas, juntamente com os respectivos título e as notas explicativas. Os Quadros e Figuras devem ser numeradas separadamente (numeração romana para Quadros e numeração árabe para Figuras) de acordo com a ordem com que são apresentadas no texto. Devem ser mencionadas no texto todos os Quadros e Figuras. Cada Quadro ou Figura deve ser acompanhado de um título e notas explicativas (ex. definições de abreviaturas) de modo a serem compreendidas e interpretadas sem recurso ao texto do manuscrito. Se a ilustração possui uma tabela ou gráfico que inclua o resultado da análise estatística, devem ser referidos o teste estatístico usado e o seu nível de significância (no caso do cálculo do risco relativo ou do odds ratio, devem ser incluídos os seus intervalos de confiança). O título de cada Quadro ou Figura deve ter uma explicação sucinta do conteúdo, que chame a atenção do leitor para o seu aspecto mais importante e/ou que auxilie a sua compreensão. Nos Quadros, o título e notas explicativas encimam a tabela; nas Figuras, o título e notas explicativas colocam-se por baixo da ilustração. Para as notas explicativas dos Quadros ou Figuras devem ser utilizados os seguintes símbolos, nesta mesma sequência: *, †, ‡, §, ||, ¶, **, ††, ‡‡ . Nas tabelas devem ser utilizadas apenas linhas de limite horizontais. Normas de Publicação As Figuras, incluindo gráficos, mapas, ilustrações, fotografias ou outros materiais, devem ser formatadas em computador ou digitalizadas. Nos gráficos, as legendas dos eixos devem ser preferencialmente escritas paralelamente aos eixos das ordenadas e das abcissas, indicando as unidades de medida. Esses eixos devem ter marcas correspondentes aos valores. Quando digitalizadas, as legendas, símbolos, setas ou letras devem ser inseridas no ficheiro da imagem das fotografias ou ilustrações correspondentes. Os símbolos, setas ou letras devem contrastar suficientemente com o fundo de fotografias ou ilustrações. As ilustrações que incluam fotografias de doentes, deverão ser acompanhadas pela autorização do doente ou do seu responsável legal, permitindo a sua publicação, devendo ter os olhos tapados ou desfocados digitalmente, de modo a impedir a sua identificação, desde que isso não desvirtue a intenção da apresentação da imagem. A dimensão das ilustrações é habitualmente reduzida à largura de uma coluna, pelo que as mesmas e o texto que as acompanha devem ser facilmente legíveis após redução. A resolução de imagens a preto e branco deve ser de pelo menos 1200 dpi e a de imagens com tons de cinzento ou a cores deve ser de pelo menos 300 dpi. Uma vez que a impressão final da APP é predominantemente a preto e branco ou em tons de cinzento, os gráficos não deverão conter cores. A submissão de imagens a cores deve ser reduzida ao mínimo necessário, dado o número limitado de páginas a cores possível em cada número da APP. O excesso de imagens a cores poderá atrasar a data de publicação até haver disponibilidade editorial. Na primeira submissão do manuscrito não devem ser enviados originais de fotografias, ilustrações ou outros materiais, como películas de raios-X. As figuras criadas em computador ou convertidas em formato electrónico após digitalização devem ser preferencialmente inseridas no ficheiro do manuscrito. Em caso de aceitação do manuscrito, serão solicitadas as Ilustrações nos formatos mais adequados para a sua reprodução na revista. 4.5. Referências. As referências devem ser listadas após o texto principal, numeradas sequencialmente, pela ordem de citação no texto e com o mesmo formato de letra com que figura no texto. No texto, os números das referências devem ser apresentados em expoente, antes de vírgulas ou pontos finais (ex.: “segundo alguns autores 3,5,7”). Referências sequenciais devem ser feitas indicando apenas a primeira e a última, unidas por hífen (ex.: “segundo alguns autores 5-7”). Não deve ser utilizado software para numeração automática das referências. Deve evitar-se a citação de referências secundárias (textos que fazem referência às publicações originais), resumos e comunicações pessoais (estas serão referidas no texto como tal). Os autores devem verificar se todas as referências estão de acordo com os documentos originais. Devem ser utilizados os nomes abreviados das publicações, de acordo com o adoptado pelo Index Medicus. Os nomes abreviados devem ser escritos em itálico, sem pontuação. Em caso de dúvida sobre qual o nome abreviado correcto de publicações internacionais pode ser consultado http://www.ncbi.nlm.nih.gov/sites/entrez?cmd=search&db=journals. Uma descrição pormenorizada do formato dos diferentes tipos de referências conforme as regras de URMSBJ – ICMJE, pode ser encontrada em http://www.nlm.nih.gov/bsd/uniform_requirements.html ou em http://www.icmje.org. Citam-se apenas alguns tipos de referenciação: 4.5.1. Artigo de revista: Relação de todos os autores - apelido seguido das iniciais dos primeiros nomes, sem pontos (se mais de seis autores, constarão os seis primeiros, seguidos de “et al”, em itálico). Título do artigo. Nome da revista (abreviada e em itálico), ano de publicação seguido de ponXXVII Acta Pediatr Port 2009:40(2):XXIV-XXVIII to e vírgula, número do volume seguido de dois pontos, e primeira e última páginas (exemplo 1). Em muitas revistas, os artigos que não têm estrita natureza científica têm numeração romana (exemplo 2). Em casos excepcionais a paginação inicia-se em cada número do mesmo volume, nestes casos, o número deve figurar entre parêntesis logo a seguir ao volume (exemplo 3); na maioria das revistas médicas a paginação é contínua ao longo de todo o volume e neste caso o número deve ser omitido. Quando se trata de um suplemento deve figurar logo a seguir ao volume, com indicação da numeração do suplemento se este for o caso (exemplo 4). No caso de carta ao editor ou resumo, deve ser assinalado em parêntesis recto logo a seguir ao título do artigo (exemplo 5). Normas de Publicação última páginas. – Christensen S, Oppacher F. An analysis of Koza’s computational effort statistic for genetic programming. In: Foster JA, Lutton E, Miller J, Ryan C, Tettamanzi AG, eds. Genetic programming. EuroGP 2002: Proceedings of the 5th European Conference on Genetic Programming; 2002 Apr 3-5; Kinsdale, Ireland. Berlin: Springer; 2002. p. 182-91. 4.5.6. Página web: – Cancer-Pain.org [homepage on the Internet]. New York: Association of Cancer Online Resources, Inc.; c2000-01 [updated 2002 May 16; cited 2002 Jul 9]. Acessível em: http://www.cancer-pain.org/. Exemplos: E1 - Levy ML. Adolescência e adolescentes. Acta Pediatr Port 1995;5:255-8. E2 - Chadwick R, Schuklenk U. The politics of ethical consensus finding. Bioethics 2002;16:iii-v. E3 - Diabetes Prevention Program Research Group. Hypertension, insulin, and proinsulin in participants with impaired glucose tolerance. Pediatr Nurs Rev 2002;40(2):679-86. E4 - Geraud G, Spierings EL, Keywood C. Tolerability and safety of frovatriptan with short- and long-term use for treatment of migraine and in comparison with sumatriptan. Headache 2002;42 Suppl 2:S93-9. E5 - Tor M, Turker H. International approaches to the prescription of long-term oxygen therapy [letter]. Eur Respir J 2002;20:242. 5. Autorizações. Antes de submeter um manuscrito à APP, os autores devem ter em sua posse os seguintes documentos que poderão ser solicitados pelo corpo editorial: – consentimento informado de cada participante; – consentimento informado relativamente a cada indivíduo presente em fotografias, mesmo após tentativa de ocultar a respectiva identidade; – transferência de direitos de autor de imagens ou ilustrações; – autorizações para utilização de material previamente publicado; – autorização dos colaboradores mencionados na secção de agradecimentos. 4.5.2. Artigo em publicação electrónica: Exemplos: – Yu WM, Hawley TS, Hawley RG, Qu CK. Immortalization of yolk sac-derived precursor cells. Blood 2002 Nov 15;100(10):3828-31. Epub 2002 Jul 5. – Abood S. Quality improvement initiative in nursing homes: the ANA acts in an advisory role. Am J Nurs [serial on the Internet]. 2002 Jun [cited 2002 Aug 12]; 102(6):[about 3p.]. Acessível em: http://www.nursingworld.org/AJN/2002/june/Wawatch.htm 4.5.3. Livro: Nome(s) - apelido seguido das iniciais dos primeiros nomes do(s) autor(es). Título do livro em itálico e iniciais maiúsculas. Edição. Cidade: nome da casa editora; ano de publicação. – Murray PR, Rosenthal KS, Kobayashi GS, Pfaller MA. Medical Microbiology. 4th ed. St. Louis: Mosby; 2002. 4.5.4. Capítulo de livro: Nome(s) - apelido seguido das iniciais dos primeiros nomes do(s) autor(es) do capítulo. Título do capítulo. In: Nome(s) - apelido seguido das iniciais dos primeiros nomes do(s) editor(es), eds. Título do livro em itálico e iniciais maiúsculas. Número da edição. Cidade: nome da casa editora; ano de publicação. Número da primeira e última páginas. – Arvin AN. Infection control. In: Behrman RE, Kliegman RM, Arvin AM, editors. Nelson Textbook of Pediatrics. 15th ed. Philadelphia: WB Saunders Company; 1996; 1027-8. 4.5.5. Comunicação em jornadas, congressos e similares: Nome(s) - apelido seguido das iniciais dos primeiros nomes do(s) autor(es) da comunicação. Título da comunicação. In: Nome(s) - apelido seguido das iniciais dos primeiros nomes do(s) editor(es), eds. Livro de publicação das comunicações; data e local da reunião. Cidade e nome da casa editora (se referido); ano de publicação. Número da primeira e XXVIII 6. Revisão de Manuscritos. No caso do artigo ser aceite condicionado a modificações, estas devem ser realizadas pelos autores no prazo indicado pela APP. O reenvio de nova versão do manuscrito deve acompanhar-se de uma carta onde os autores respondam às sugestões feitas pelos revisores. No momento da aceitação, os autores serão informados se devem ser enviadas as ilustrações num formato diferente àquele em que foram inicialmente enviadas. As provas tipográficas serão enviadas aos autores, contendo a indicação do prazo de revisão em função das necessidades de publicação da APP. A revisão deve ser aprovada por todos os autores. Nesta fase aceitam-se apenas modificações que decorram da correcção de erros tipográficos. A correcção deve ser efectuada em documento à parte, referindo a página, coluna, parágrafo e linha na qual se pretende que se proceda às correcções. O não respeito do prazo desobriga a APP a aceitar a revisão pelos autores, podendo a revisão ser efectuada exclusivamente pelos serviços da APP. Juntamente com a correcção das provas tipográficas, deve ser enviada uma declaração de transferência de direitos de autor para APP, assinada por todos os autores (documento fornecido pela APP). 7. Separatas. Após a publicação de cada número da APP, os artigos publicados serão enviados em formato PDF pelo Secretariado da APP ao primeiro autor. Poderá ser solicitado ao Secretariado da APP o envio em formato PDF de artigos publicados recentemente, enquanto não estiverem disponíveis na página electrónica da Sociedade Portuguesa de Pediatria (www.spp.pt). 8. Ficha de verificação para os autores. A APP recomenda aos autores que verifiquem na Ficha anexa o cumprimento dos requisitos contidos nestas Normas de Publicação, o que acelera o processo editorial. Acta Pediatr Port 2009:40(2):XXIX Normas de Publicação Ficha de verificação para os autores Título: na língua original do manuscrito, em inglês e na versão abreviada Autores: os nomes, a filiação institucional, a contribuição de cada autor Contacto: nome e contactos do autor que deve receber a correspondência Agradecimentos Fontes de financiamento Declaração de Conflito de Interesses Contagem de palavras: para cada resumo e para o texto principal Resumo e Abstract: estruturado conforme a tipologia do manuscrito Palavras-chave: em concordância com o Medical Subject Headings (MeSH) Texto: estrutura, conteúdo, acrónimos e inserção de referências Ilustrações: formatação e numeração dos Quadros e Figuras; autorizações Referências: em concordância com as regras de URMSBJ – ICMJE Carta de Apresentação à APP Autorizações: autoria, agradecimentos, utilização de imagens e material publicado Declaração de transferência de direitos de autor para APP Data: .…... / ....... / ……..... Assinatura do autor principal: ………………………………………………………....... Acta Pediátrica Portuguesa. Sociedade Portuguesa de Pediatria. Rua Amílcar Cabral, 15 r/c I, 1750-018 Lisboa. Tel.: 217547680. Fax.: 217577617. [email protected] XXIX PROPOSTA DE NOVO SÓCIO ACTUALIZAÇÃO DE MORADA Sociedade Portuguesa de Pediatria Nome: Morada: Cód. Postal - Telef.: Instituição: Telef.: e-mail: @ Enviar a: Sociedade Portuguesa de Pediatria Rua Amílcar Cabral, 15 r/c I, 1750-018 Lisboa Tel.: 217 574 680 – Fax: 217 577 617 e-mail: [email protected] Notas: • Esta proposta de novo sócio deverá ser acompanhada por um cheque de € 7,50 que se destinará ao pagamento da primeira anualidade. ✄ • Em caso de pretender mudança de morada deverá indicar-nos qual a antiga para que se processe a actualização da mesma. Unidade de Vigilância Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria - Portuguese Paediatric Surveillance Unit INSCRIÇÃO DE NOVO NOTIFICADOR OU ACTUALIZAÇÃO DE CONTACTOS Nome: Morada: - , Instituição: Especialidade: Telefone: e-mail: @ Enviar para: ✄ Unidade de Vigilância Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria Rua Amílcar Cabral, 15 r/c I, 1750-018 Lisboa – Tel.: 217 547 680 – Fax: 217 577 617 e-mail: [email protected] Unidade de Vigilância Pediátrica / Portuguese Paediatric Surveillance Unit. Sociedade Portuguesa de Pediatria Rua Amílcar Cabral, 15 r/c I, 1750-018 Lisboa – Tel.: 217 547 680 – Fax: 217 577 617 – e-mail: [email protected]