Texto: Paulo Fernando Góes
EDIFÍCIO ROLIDEI - ESPETÁCULO TEATRAL
Comédia para 4 atores (2 Homens e 2 Mulheres)
PERSONAGENS
NALVA
Trinta e tantos anos, suburbana mas de alma requintada, Nalva mora
sozinha de aluguel em um muquifo do edifício Rolidei. É bem-humorada,
otimista, sonhadora e carente. Fala rápido, faz 10 coisas ao mesmo tempo e
dorme com tarja preta. Aumentou a dose depois que seu noivo a trocou por
uma mulher vinte anos mais velha. Venceu um concurso de Miss onde
competia com sua vizinha, Vera.
VERA
Trinta e poucos anos, se acha chique mas é bem cafona. Exagera na
maquiagem e está sempre com a roupa equivocada (como o vestidinho rosa
choque que usou no enterro do sogro). Vera adora chamar atenção e
combina roupas de zebra e onça com sua mobília. Ela parece ser a que tem
melhor situação financeira no prédio mas, na verdade, é quem mais deve.
Nunca aceitou ter perdido a coroa de Miss para Nalva, sua ex-melhor amiga.
Depois desse baque, entrou para uma igreja evangélica radical onde tudo é
proibido, o que não combina com sua personalidade tresloucada. É uma
mulher forte, manipuladora e persuasiva. Veio do Recife para casar-se com
Edmar, o marido em quem ela manda e desmanda.
EDMAR
Casado com Vera, é do tipo malandro e vagabundo, vive dos biscates que
faz. Apesar de se achar espertalhão, Edmar é um bobo, facilmente
enganado por qualquer um. Tira onde de machão mas chora fácil e morre de
medo de quem faz macumba. Ele é apaixonado por Vera e é capaz de
qualquer coisa para não perder a esposa.
ABÍLIO
Síndico do edifício, mora com sua esposa, Lucimar. Ele está sempre bem
arrumado e fala como os políticos. Neurótico, ele tem mania de doença, é
alérgico a tudo e ainda tem vários TOC's. Gosta que tudo esteja sempre
certinho mas é corrupto com a administração do condomínio. Tem obsessão
pela falecida mãe e cuida do jarro de barro que ela lhe deu como se fosse a
própria. É o amante de Vera.
LUCIMAR (Off ou Contrarregra)
Obesa, não consegue passar pela porta de casa há anos. A última vez que
tentou, ficou entalada por horas, chamaram a imprensa sensacionalista, foi
um horror. O trauma a impede de tentar sair de novo. Só aparece de
relance pela porta ou em Off. Esposa de Abílio, faz da vida dele um inferno.
CENÁRIO
Dois apartamentos, tipicamente suburbanos, separados por um hall. Neste
hall, há uma porta que dá para as escadas e outra para o elevador.
SINOPSE
Nalva acaba de perder o namorado pra uma mulher vinte anos mais velha e
está desiludida da vida. Ela mora no famoso Edifício Rolidei, um pardieiro
caindo aos pedaços que, não se sabe como, ainda está de pé. Sua vizinha,
Vera, é uma evangélica recém-convertida, casada com Edmar, um pintinho
que se acha galo-alfa. Vera nunca aceitou o fato de ter perdido para Nalva o
título de Miss e, por isso, as duas vivem em pé de guerra. Sem trabalho e
sem marido, Nalva decide fazer uma simpatia para seu dinheiro render e
coloca suas economias junto com fermento em um jarro de barro que foi
pego emprestado do hall. Mas o jarro era do síndico, Abílio, o único
presente que sua mãe lhe dera em vida. Quando vai cobrar os doze meses
atrasados de condomínio para Vera e Edmar, Abílio sente falta do jarro,
reclama por ele e Nalva recoloca-o no lugar, sem tirar o dinheiro que
colocou dentro para que a simpatia não tenha efeito contrário. Edmar, por
sua vez, ganha mil reais no jogo do bicho e não conta para ninguém. Ao
voltar para casa com o prêmio, sua esposa - que já descobriu tudo - vai abrir
a porta reclamando pelo dinheiro e, sem saber o que fazer, Edmar escondeo no jarro de barro. Nalva encontra o dinheiro e acredita que sua simpatia
deu certo. A partir daí, uma sucessão de confusões e mal-entendidos
acontecem em um engenhoso abrir e fechar de portas que fazem desta, uma
divertidíssima comédia.
SOBRE ESTE AUTOR QUE VOS ESCREVE
Acredito na conciliação do artístico com o comercial. Escrevi este texto
pensando em agradar desde o público da Internet às idosas que vão em
grupos de vã ao Teatro. O humor é atual, os diálogos são dinâmicos mas a
história tem uma inocência que agrada aos mais conservadores.
SOBRE A DIREÇÃO
O Rio de Janeiro ainda não descobriu o maior diretor de comédia do Brasil:
MÁRCIO WILDHAGEN. Um gênio vivo, uma assumidade no ramo. Ele fez a
façanha de escrever e dirigir um monólogo musical de duas horas e meia
sem intervalo onde a plateia não se cansa e não pára de rir. Falo de "Sarjeta
- Meu Mundo Caiu", com Gustavo Mendes. Com este diretor, temos 75% de
chance de sucesso do projeto.
SOBRE O ELENCO
É imprescindível que sejam atores com excelente timing de comédia.
EXIGÊNCIA
Apenas uma: não falar nenhum palavrão, nem de improviso. Este texto é
uma prova de que se pode ser hilário sem apelações, portanto, palavrões
fazem-se desnecessários.
PRÓLOGO
Abrem-se as cortinas ao som da música 'Sorria,
Sorria', de Evaldo Braga. No palco, o hall do
edifício Holliday e dois apartamentos: o de
Nalva e o de Vera e Edmar. Há também uma porta
de acesso às escadas, outra do elevador e, por
último, a porta da casa de Abílio, o síndico.
No hall, um pedestal vazio. Nalva está em casa,
rindo e chorando ao mesmo tempo.
NALVA
Cretino! Cachorro! Canalha! Onde já se viu, me
largar por uma mulher 20 anos mais... (Chora) Mais
velha! Vou fazer uma faxina porque, como diz a minha
vó, a vassoura é um santo remédio! Vem cá, Cileide!
Por falar em santo remédio, cadê meu Rivo?
Toma o Rivotril com um whisky vagabundo.
NALVA
Boi, boi, boi... Boi da tarja preta... Ui, já tá
batendo. (Varre.) Bora, Cileide, é isso aí,
animação! Bom dia, comunidade!
Vera, evangélica recém-convertida e vizinha de
Nalva, coloca a música 'Não Nego a Jesus', de
Cassiane.
OFF CASSIANE
Não nego a Jesus! Não nego a Jesus...
NALVA
Ih, a crente de sangue quente acordou.
Edmar surge.
EDMAR
Vera! Dá um tempo! A essa hora?
VERA
Com Deus me deito, com Deus me levanto.
EDMAR
(abaixando o som)
Abaixa, pelo menos!
VERA
O edifício Holliday inteirinho carece de ouvir a
palavra de Deus. Só mora pecador nesse pombal.
EDMAR
Meu beijinho de bom dia. Dormiu bem?
VERA
Que nada, muito pesadelo. Sonhei que eu tava presa
numa jaula com o Alexandre Frota. Ele tava vestido
como veio ao mundo, aí ele se aproximava com uma
coisa envergada na mão que meus olhos puros não
identificaram o que era... Só quando ele se
aproximou que eu vi que era uma banana! E ele não
tava nu, tava vestido de macaco!
EDMAR
Vou jogar macaco no bicho!
Abílio surge no hall com um vaso de violetas em
mãos. Feliz, ele cheira a violeta, espirra e
toma um remédio que tira do bolso. Lucimar,
esposa de Abílio, grita.
LUCIMAR
Abíliooooooo!!!
CENA 1
Nalva limpa a casa e ouve no rádio.
OFF
Você, minha cara ouvinte, que esta aí sozinha, na
fossa...
NALVA
Eu!
OFF
Você que foi abandonada...
NALVA
Trocada por uma velha!
OFF
Levanta esse astral! Embarque no cruzeiro das
solteiras! Grita comigo: 'Sou solteira!'
NALVA
Sou solteira!
OFF
Mas não por muito tempo! O amor da sua vida vai
estar neste cruzeiro para Santos!
NALVA
Preciso ir! Mas com que grana?
OFF
E não se preocupe com o pagamento! Se você ligar nas
próximas 24 horas, você paga somente mil reais pelo
Cruzeiro! Você não vai perder a chance de conhecer o
amor da sua vida, vai?
NALVA
Claro que não! Ai, eu tenho 24 horas pra arrumar mil
reais! Cruzeiro das solteiras, me aguarde!
Nalva coloca 'Dandalunda', de Margareth
Menezes. Vera surge no apartamento ao lado,
enfurecida.
OFF
VERA
Bem pertinho da entrada do gueto, num terreiro de
angola Iketu, Mãe Maiamba que comanda o centro, dona
Oxum dançando Oxossi no templo...
Tá amarrado, em nome de Jesus! Isso é música de
Deus? Essas músicas de Carnaval só falam de macumba!
Será que... Será que ela é macumbeira?
Vera sai. Abílio bate na porta de Nalva com um
aparelho em mãos.
ABÍLIO
Dona Nalva! Dona Nalva!
NALVA
Ai, caramba, o síndico!
Nalva desliga o som e abre a porta em trajes
mínimos.
NALVA
Oi, seu Abílio!
ABÍLIO
Dona Nalva, a regra 954 do estatuto do condomínio
diz que o barulho não pode exceder 200 decibéis. Meu
aferidor acusou 384 decibéis, dona Nalva, quase um
trio elétrico!
NALVA
Desculpaê, eu tava deprê e resolvi fazer uma faxina
em clima de micareta.
ABÍLIO
(malicioso)
Abadá, ainda tem?
LUCIMAR
Abílioooooooooo!!!
NALVA
Ih, sua mulher!
ABÍLIO
Tenho que ir!
NALVA
Tchau!
ABÍLIO
Jesus Christ! Fuck! Essa pequena...
Abílio sai de cena. Vera reaparece em sua casa.
CENA 2
VERA
Parou. Agora sou eu que vou botar Gal Costa pra ela
ver o que é música boa.
Coloca 'Pegando Fogo', de Gal Costa e canta
junto, bem alto.
VERA
Meu coração amanheceu pegando fogo... Fogo! FOGO!
No último 'Fogo', Vera abre sua porta e canta
na direção da porta de Nalva, para provocá-la.
NALVA
Fogo? Meu Deus, fogo! Fogo!
Vera fecha de novo sua porta. Nalva corre pro
hall com o balde de água da sua faxina e
dispara o alarme de incêndio.
VERA
Socorro! Edmar, corre! É fogo! Socorro!
Edmar aparece usando uma cueca samba-canção
infantil e com um extintor de incêndio em mãos.
EDMAR
Fogo! Onde, cadê?
Vera, Edmar e Nalva já estão no hall.
VERA
Cadê o fogo?
NALVA
Eu é que te pergunto! Disparei o alarme porque tu
tava gritando fogo!
VERA
(desliga o alarme)
Eu tava cantando!
EDMAR
Então, não tem fogo nenhum?
NALVA
Pergunta pra sua esposa.
VERA
Tem o fogo de Satanás que é onde vão queimar todos
que não levam Jesus no coração!
EDMAR
Amor, não começa...
VERA
Me deixe, Edmar. Meu problema com essa daí é antigo.
NALVA
Não tenho problema nenhum com você, meu amor. Não
tenho culpa se você ainda não aceitou que perdeu o
título de Miss Zona Leste pra mim.
VERA
Aquilo foi armação! Aquele prêmio era meu.
EDMAR
Um carro usado, velho, caindo aos pedaços...
NALVA
Não fala assim da minha caranga!
VERA
Mas ia servir, já que meu marido nunca me deu nem um
patinete pra eu fazer minhas entregas de salgado
pras madames.
NALVA
Salgado? Seu risole de camarão não tem UM camarão
dentro, é só água de cabeça!
EDMAR
Mas até que é gostosinho...
VERA
Deixe estar, Edmar, meus salgados já mataram a fome
dessaí muitas vezes! Por isso que ela tá gorda!
NALVA
Tu quer que eu desça pro teu nível mas eu não vou
descer! Dá licença que eu tenho mais o que fazer.
VERA
Espere! Quando tu vai pagar o aluguel atrasado?
EDMAR
Venceu ontem, amor, dá um refresco pra ela.
VERA
E eu lá tenho cara de lanchonete pra dar refresco?
NALVA
Me apertei mas assim que der eu pago. Pode cobrar a
multa. Agora, com licença.
VERA
Tu tá vexada pra ir porque tá com inveja de mim, né?
NALVA
Inveja? Eu? Tá boa!
VERA
Tu tem a faixa e a coroa de Miss Zona Leste mas não
tem um homenzarrão gostoso desse kilate...
NALVA
Ah, ele late, é?
EDMAR
Peraí, pô...
VERA
Tu respeite meu marido, sua ladrona de coroa!
EDMAR
Não pirraça, amor, vamos pra casa.
NALVA
Tu que é uma desmiolada!
VERA
E tu, uma despirocada! Antes sem miolo do que sem...
EDMAR
Amor! Vamos embora.
VERA
Simbora, Mamá. Vamo fazer amor e gritar nossa
felicidade!
EDMAR
Aleluia!
VERA
E os incomodados que se matem!
NALVA
Queridinha, o único barulho que escuto daí é do
ronco do seu marido!
EDMAR
Quem ronca é ela...
VERA
Quieto, Edmar!
NALVA
E viva a minha vida de solteira...
VERA
Tu não é solteira, tu é largada que eu sei!
NALVA
Do quê que tu tá falando?
VERA
Fala pra ela o que tu me contou, Edmar!
EDMAR
Eu? Ah... Lá na sinuca o pessoal tava comentando que
seu caso lhe trocou por uma mulher vinte anos mais
velha...
NALVA
Largou porque ela tinha dinheiro! Já foi tarde,
aquele interesseiro.
VERA
Que feio, Nalva, perder pra uma coroa!
NALVA
Por falar em coroa, vou lá dentro polir a minha de
Miss Madureira! Sou rainha, meu amor!
VERA
NALVA
Essa coroa é minha por direito!
(doce)
Tá bom, Verinha. Te dou a coroa. Igual a de Jesus
Cristo! Quer?
VERA
Lave sua boca, mulher medonha!
NALVA
Horrorosa é você! Com esse cabelo e esses dentes de
caveira, parece a morte!
VERA
Pois venha cá que tu vai conhecer a morte, venha!
Vera voa para cima de Nalva e Edmar se coloca
no meio.
EDMAR
Olha o barraco, minha gente! Vamos manter o nível,
pô!
VERA
Sua desfrutável! Malévola!
NALVA
Sonsa! Mocréia!
EDMAR
Pára com isso, pára, pára! (Elas param pra ouvir o
sermão de Edmar). Vocês sempre foram tão amigas,
como é que chegaram a esse ponto? Tudo por causa de
uma coroa!
NALVA
E uma faixa, linda e maravilhosa.
VERA
(retomando a pancadaria)
A miss tinha que ser eu!
NALVA
Tu não tem classe pra isso! Nem sabe dar aquele
adeus, sabe?
EDMAR
(segurando Vera)
Pára, Veroca, pára!
VERA
Me deixe, Edmar, em nome de Jesus, me deixe! Vá
lavar a louça, vá!
NALVA
É, vaza, linguarudo, vai lavar a louça!
VERA
Quem manda no meu marido sou eu! Vai lavar a louça,
Edmar!
NALVA
Gato que aparta briga é o que mais sai arranhado!
EDMAR
Tem razão. Eu vou me embora.
VERA
Vai dar razão pra ela, Edmar?
EDMAR
Tchau!
Edmar entra em sua casa e bate a porta. Vera
olha feio pra Nalva que responde, debochada,
com um par de chifres e uma careta demoníaca.
VERA
Desconjuro!
Vera entra em casa e, logo em seguida, Nalva
vai para a sua.
CENA 3
Cenas paralelas acontecendo nos apartamentos.
NALVA
Ai, preciso urgente de dinheiro! Ninguém merece
morar nesse muquifo de prédio.
VERA
O edifício Holliday tá um cortiço, um pulgueiro!
Aqui não é lugar pra uma mulher de Deus como eu.
EDMAR
Mas tu acabou de se converter, meu amor... Seu
problema não é o prédio, é a Nalva! Poxa, era tão
bonito ver a amizade de vocês, viviam grudadas!
VERA
Eu não sei quando foi que esse bolo desandou...
NALVA
Depois que eu ganhei a coroa de Miss Madureira, a
Vera pirou de vez. Até pra igreja entrou! Justo ela,
que sempre viveu no pecado.
EDMAR
Esquece esse negócio de miss, ano que vem você
tenta!
VERA
NALVA
E receber a coroa das mãos dela? Deus me livre, é
muita humilhação! Esse Satanás de saia sempre quis
tudo o que era meu! Se eu alisasse o cabelo, ela
alisava também...
Sempre achei tão bonito o cabelo liso da Vera...
VERA
Qualquer moda que eu lançava, ela me copiava!
NALVA
Ela sempre teve bom gosto pra se vestir.
VERA
O pior é que ela sempre foi mais encorpada que eu.
Posso malhar o que for que eu não consigo o corpo
dela!
NALVA
Ela sempre foi tão magra... Posso passar fome que eu
não consigo o corpo dela!
VERA E NALVA
Vaca!
VERA
Vou resolver isso agora. Hoje eu sou uma mulher de
Deus mas sim, eu tenho um passado. (Pega um livro de
Simpatia). Aqui, Simpatia Para Tudo e Para Todos!
NALVA
Meu São Jorge, tenho um pedido a lhe fazer.
Nalva vai acender uma vela para São Jorge.
EDMAR
(pegando o livro das mãos de Vera)
Como que eu nunca soube disso, Vera?! Isso aqui é
bruxaria?
VERA
Claro que não! É um livro poderoso de Simpatias,
minha vó que me deu. Tem de tudo. (Folheia o livro).
Simpatia pra conseguir dinheiro...
NALVA
Eu queria tanto ganhar um dinheirinho...
VERA
Simpatia pra arrumar marido...
NALVA
Queria tanto um marido também.
EDMAR
(Pega o livro das mãos de Vera)
Cadê. Olha, simpatia pra amarrar o marido! (Lendo)
Dê ao seu marido um chá de calcinhas usadas com
gengibre, alecrim e mel... Vera! E você dizendo que
o chá era pra minha garganta!
VERA
Naquela época tu tava muito saidinho!
EDMAR
Simpatia pra curar cecê, pra evitar fofoca... Ah! É
por isso que aquela dentadura tava no congelador!
VERA
Sim, senhor!
NALVA
Queria tanto ir nesse cruzeiro, São Jorge... Me dá
uma força, vai. Preciso desse dinheiro.
EDMAR
(folheando o livro)
Simpatia pra arrumar marido rico, pra arrumar marido
inteligente, pra arrumar marido dotado... Vera!
Agora você é uma mulher de Deus e não pode mais ler
essas coisas! Vou jogar isso fora!
NALVA
Manda um sinal qualquer, São Jorge.
VERA
O livro de vovó, não!
Edmar abre a porta e joga fora o livro, que
bate na porta de Nalva.
NALVA
Já vai!
Vera quer ir atrás do livro mas Edmar a
embarreira.
EDMAR
Ou o livro ou eu!
VERA
Tá, Edmar! Você.
EDMAR
Ótimo! Vamos lá pra dentro, amor. Vamos fazer o
Ypsilone Invertido Underline.
Edmar e Vera saem. Nalva abre a porta e vê o
livro.
NALVA
O que é isso? Simpatia para tudo e para todos.
Gente! São Jorge, tu é o cara! Valeu!
CENA 4
Nalva entra em casa e folheia o livro
rapidamente.
NALVA
Nunca acreditei nesses troços, mas... São Jorge sabe
das coisas. Aqui, como fazer render o seu dinheiro.
(Lendo) Coloque suas economias num jarro de barro
com fermento dizendo: assim como esse fermento faz
crescer o pão, também fará crescer o meu dinheiro!
Ora, se eu tivesse economia não estaria me prestando
a esse papel ridículo! E jarro de barro? Ô povo que
complica, não podia ser uma tupperware? (Continua
lendo) Siga as orientações ao pé da letra para que a
simpatia não tenha efeito contrário. Tá vendo? Onde
que eu vou arrumar um jarro de barro agora?
Nalva sai de cena. Abílio entra esbaforido no
hall, abraçado a um jarro de barro.
LUCIMAR
Abíliooo! Some daqui com esse jarro!
ABÍLIO
Lucimar, você está sendo injusta com a mamãe! Ela
fez esse jarro cega, na véspera de morrer, não posso
jogar fora. Além do valor sentimental, é uma obra de
arte!
LUCIMAR
Então vende pra um museu que eles cuidam bem! Não
quero fantasma da tua mãe aqui!
ABÍLIO
(para o jarro)
Perdoe Lucimar, mamãe, ela não é má
remédios da tireóide que deixam ela
descompensada. Vou deixar a senhora
que volto pra te buscar, tá, mamãe?
pessoa, são os
assim,
aqui mas juro
Te amo.
Abílio beija o jarro, coloca-o no pedestal e
volta pra sua casa. Quase ao mesmo tempo, Nalva
sai de casa e vê o jarro no hall.
NALVA
Jesus, Maria, José! São Jorge, Oxum, Ogum! Alah!
Buda! Quem colocou esse jarro de barro aí pra mim?
Nunca teve jarro aí! Não sei quem foi, mas...
Obrigada!
Nalva pega o jarro e entra em casa.
NALVA
Cadê o livro... Aqui. Cem reais é tudo que tenho,
das unhas que fiz essa semana. Fermento... Agora, as
palavras mágicas. (Lê algo estranho no livro). Ih,
peraí. PS. Para a simpatia ter efeito, as palavras
devem ser ditas por uma pessoa estranha e do sexo
oposto.
Acendem-se as luzes da plateia. Nalva os encara
e escolhe um espectador.
NALVA
Oooooooi! Por favor, não se ofenda com a minha
pergunta: você é do sexo oposto, não é? Sei lá! Hoje
em dia... Não custa perguntar. Outra perguntinha
básica que eu sou meio sequelada: a gente não se
conhece, não, né? (Resposta esperada: Não). Você
acaba de perder a chance de escapar dessa, querido.
Pensou que só o pessoal da primeira fila era pego
pra número de plateia, não é? Não! (Ela desce). Vou
colocar meus cem reais no jarro e enquanto eu jogo o
fermento, você fala: assim como esse fermento faz
crescer o pão, também fará crescer o meu dinheiro!
Vai. (Ele repete a frase e Nalva o corrige). Não!
Meu dinheiro, não, você tem que falar dela! (Ele
repete: Assim como esse fermento faz crescer o pão,
também fará crescer o dinheiro dela!). Obrigada!
(Volta ao palco e entra na sua casa com o jarro).
Pronto, agora é só esperar. De repente, a herança de
algum tio milionário desconhecido, sei lá.
CENA 5
Nalva entra em sua casa e deixa o jarro na
sala. Ela sai de cena. Entram Vera e Edmar.
VERA
Fez nossa fezinha essa semana, Edmar?
EDMAR
Crente não pode se envolver com jogo!
VERA
Nunca! Jamais! Só pecador faz isso. Como tu é
pecador, pode jogar pra gente.
EDMAR
Joguei no bicho. Macaco. Segui o palpite do teu
sonho com o Alexandre Frota.
VERA
Devia ter jogado veado! Desde quando sonho dá
resultado de jogo do bicho?
EDMAR
(manhoso)
Por falar em bicho... Vamo lá no quarto tentar fazer
a ariranha bailarina?
VERA
Só se tu fizer aquilo que eu lhe pedi.
EDMAR
Amor, eu não gosto de bater, você sabe...
VERA
Não quero ser espancada, Edmar, eu sou contra
violência. São tapas de amor!
EDMAR
Mas benzinho...
Vera esbofeteia Edmar.
VERA
EDMAR
Isso foi um tapa de amor! Viu como é diferente?
VERA
Doeu igual.
Sua vez.
EDMAR
Amor, eu te respeito...
VERA
Respeite sua mãe!
EDMAR
Cadê Deus nessa hora, Ele deixa isso?
VERA
Deus tá cuidando de coisa mais importante! Tu acha
que ele fica assistindo a intimidade dos casais, é?
Fica não! O próprio Deus diz que a gente aprende
pelo amor ou pela dor!
Edmar dá um tapa na bunda de Vera.
EDMAR
Vamo que hoje você vai ter!
VERA
Ui, Edmar... Isso não é um carinho, é um 'eu te
amo'!
Saem de cena.
CENA 6
Luz no relógio que indica passagem de tempo.
Música 'Je T'Aime Moi Nos Plus'. Nalva dança
com sua vassoura. Abílio entra em cena com sua
violeta e logo dá falta do jarro.
ABÍLIO
Mamãe! Cadê você, mamãe!? Sequestraram minha mãe!
Abílio toca desesperado na casa de Nalva.
NALVA
O que foi, seu Abílio?! Tá passando mal?
ABÍLIO
Dona Nalva, a senhora viu mamãe por aí? Ela estava
aqui no corredor!
NALVA
A dona Zuleica já morreu faz tempo, seu Abílio! Deu
pra ver espírito agora? Era só o que faltava,
fantasma no edifício Holliday!
ABÍLIO
Mamãe estava aqui ainda agora!
NALVA
Ai, pára! Morro de medo dessas coisas!
ABÍLIO
(inalando uma bomba para asmáticos)
Tô passando mal. Preciso de ar!
NALVA
Ai, meu Deus! Entra, seu Abílio, vou te dar um copo
d'água com açúcar.
Abílio entra e Nalva observa o hall,
amedrontada. Quando ela entra em casa, Abílio
vê o jarro atrás dela.
ABÍLIO
(apontando na direção de Nalva)
Mamãe! Ela está aqui!
NALVA
(vira-se)
Aaaaah! Onde?
ABÍLIO
Ali!
NALVA
Onde?
ABÍLIO
Na sua frente!
NALVA
(fecha os olhos)
Eu não quero ver! Vai embora, dona Zuleica, siga pra
luz! Ela já foi, Abílio? Vou me mijar!
Quando Nalva abre o olho, vê Abílio abraçado
com o jarro.
ABÍLIO
Mamãe, mamãe...
NALVA
Deixa esse jarro aí, seu Abílio! Ele é horroroso mas
tá me sendo útil.
ABÍLIO
Foi mamãe que me deu. Ela fez pra mim na véspera de
morrer. Cega! O único presente que ela me deu em
vida.
NALVA
Ah, a mamãe é o jarro? Faça-me o favor, seu Abílio,
um homem do teu tamanho!
ABÍLIO
Pra quê você pegou a mamãe do hall?
NALVA
Pra... Pra regar minhas plantas! Ganhei umas ervas
pra emagrecer...
ABÍLIO
Ervas? Algo proibido?
NALVA
Não! São umas ervas pra secar barriga. E a sabedoria
popular diz que se regar plantas com jarro de barro,
elas nascem mais vistosas!
ABÍLIO
Pois mamãe vai ficar no hall! O jarro agora é
patrimônio do condomínio!
NALVA
Sim, senhor!
LUCIMAR
Abíliooooo!!!
ABÍLIO
Tenho que ir. Até mais ver, dona Nalva! Bye bye!
NALVA
Tchau!
Abílio recoloca o jarro no pedestal e vai pra
sua casa.
NALVA
Ferrou! Se eu tirar o dinheiro dali, minha simpatia
pode ter o efeito contrário! Ah, ninguém sabe de
nada mesmo, vou deixar a grana ali e seja o que Deus
quiser!
CENA 7
Nalva sai de cena. Edmar reaparece de pijama e
interfona para a portaria.
EDMAR
Fala, Zé! Chegou correspondência? Conta pode deixar
aí. Escuta, tu sabe qual foi o resultado do bicho?
Macaco?! Opa! Ganhei 1.000 reais! Hã? Pô, adoraria
te emprestar mas não posso... Ué, se teu gás acabou,
compra um microondas! Abusado!
Edmar desliga. Vera surge.
VERA
Quem é, Edmar, que macaquice é essa?
EDMAR
Nada, amor. Vou ali comprar um cigarro e já volto!
VERA
Não demore!
Vera sai de cena.
CENA 8
Edmar sai e, enquanto espera o elevador, Abílio
o surpreende.
ABÍLIO
Seu Edmar! Se me permite, eu gostaria de tratar de
uns pormenores para com a sua pessoa.
EDMAR
Pois não.
ABÍLIO
(Desenrolando um papel enorme)
Como o senhor deve ter acompanhado pela ata da
última reunião, nunca antes na história deste
condomínio, houve uma administração tão eficiente
como a minha. Pintei a fachada que estava imunda,
recoloquei as letras de Holliday que estavam
caídas...
EDMAR
Eu vi. Só que holliday começa com H e termina com
AY.
ABÍLIO
Não começa com R e termina com EI?
EDMAR
Não.
ABÍLIO
Tanto melhor. Abrasileiramos a coisa. I don't like
americanices.
EDMAR
Agora, se me dá licença, tenho que...
ABÍLIO
Ainda não, seu Edmar! Tenho que falar sobre...
EDMAR
...sobre o condomínio que tá atrasado, né?
ABÍLIO
São 12 meses, seu Edmar! Os outros moradores estão
me acusando de ser tolerante com o senhor. A Mirtes
do 417 chegou a questionar se estamos de caso. Veja
a que ponto chegou sua dívida!
EDMAR
Qual é, seu Abílio, tá me estranhando? Mas é que...
Seu Abílio, o senhor tá com alguma alergia? Seu
pescoço tá todo empolado!
ABÍLIO
Ai, ai, ai! Deve ser! Sou alérgico a tudo que começa
com P. Pelo, pólen, poeira, pastel...
EDMAR
Até pastel?
ABÍLIO
(tomando um comprimido)
Se for de camarão, então, minha glote fecha em
segundos!
EDMAR
Vamos evitar o P, então. Nada de falar em pagamento
pra não fechar sua glote.
ABÍLIO
Falemos, então, da sua dívida!
EDMAR
(em tom confessional)
Ô, seu Abílio, eu tô nessa crise financeira por
conta dos vícios da Vera! Tu sabe que ela é
dependente química, né?
ABÍLIO
É?
EDMAR
Viciada em formol. Gasta tudo no salão alisando
aquele cabelo. Outro dia tive que buscar a televisão
que ela deixou empenhada lá no Joselito's Coiffeur.
E eu tô desempregado, sem dinheiro nenhum.
ABÍLIO
Nenhum? Mas eu fiquei sabendo pelo porteiro que o
senhor ganhou mil reais na contravenção! É verdade?
EDMAR
Fala baixo, homem! Se minha mulher descobre, nem eu,
nem você! (Para si) Eu mato aquele calango do Zé...
ABÍLIO
(Com uma calculadora em mãos)
Esses mil reais vão pagar... 12 vezes duzentos e
cinquenta... 1 terço da sua dívida! Já é alguma
coisa.
EDMAR
Claro! Eu ia te ligar mas o Zé fez o favor de se
adiantar, né?
ABÍLIO
Os funcionários deste edifício são instruídos para
repassar informações valiosas que facilitem na
complexa tarefa que é administrar o edifício
Holliday. Se fosse fácil, não se chamaria edifício,
concorda?
Edmar ri forçado da piada sem graça e dá em
Abílio um tapinha de camarada mas o síndico
permanece sério e imóvel.
ABÍLIO
E então?
EDMAR
O quê?
ABÍLIO
O dinheiro!
EDMAR
Ah, o dinheiro! Ave Maria, seu Abílio, que pressa
danada! Eu acabei de saber que ganhei no bicho,
ainda nem fui buscar a grana.
ABÍLIO
Vou te esperar com esta verba para quitação parcial
da sua dívida, estamos combinados?
EDMAR
Sim, senhor. Até logo!
Edmar vai saindo e Abílio grita.
ABÍLIO
Seu Edmar!
EDMAR
Mas gosta de dar susto, né? Seu brincalhão danado.
ABÍLIO
(orgulhoso)
Notou algo diferente no hall?
EDMAR
Nada demais, só esse jarrinho vagabundo.
ABÍLIO
Foi mamãe que me deu. O único presente que ela me
deu em vida.
EDMAR
Olhando bem... É bonito, sim. Dá licença, viu, seu
Abílio, tenho que correr.
ABÍLIO
Até.
Edmar sai. Nalva sai de casa e encontra com
Abílio no hall.
CENA 9
NALVA
Seu Abílio! Bom te encontrar. Fiquei sabendo que a
Rita do 309 foi assaltada ontem! No elevador! O
senhor tem que tomar uma providência!
ABÍLIO
Sim, vou investigar e os responsáveis serão punidos.
NALVA
Nem precisa de investigação, ela reconheceu o
bandido! É o Demival, do 701! Esse prédio tá virando
uma penitenciária, seu Abílio! A Etiene, do 213,
deixou o filho de castigo sem computador e sabe o
que ele fez? Queimou o colchão e jogou pela janela!
O senhor já sabe o futuro que vai ter esse menino,
né?
ABÍLIO
Já passei uma circular avisando para não jogarem
nada pela janela. Vira e mexe jogam uma casca de
melancia, um botijão de gás, um corpo...
NALVA
Seu Abílio... O senhor tá cheio de placa vermelha no
pescoço! É alergia?
ABÍLIO
(entra em pânico)
Ah, não! Tomei um antialérgico que às vezes me dá
alergia! Tô sentindo minha glote fechar! (Saca outro
comprimido do bolso). Esse é batata!
NALVA
Quer que eu pegue uma água?
ABÍLIO
Não sei se tenho esse tempo de vida! Vai no seco
mesmo. (Tenta engolir o comprimido e se engasga).
Acode!
NALVA
Meu São Jorge! Peraí, seu Abílio, outro dia vi na TV
como é que faz pra desengasgar!
Nalva faz em Abílio a manobra de Heimlich para
desengasgá-lo. Quando Abílio está quase de
quatro e com Nalva abraçada a ele por trás,
comprimindo sua barriga, Vera entra.
CENA 10
VERA
Jesus! Que pouca vergonha é essa em minha porta?
NALVA
Ih, lá vem! Hora de ir embora. Até!
ABÍLIO
(já desengasgado mas ainda ofegante)
Dona Vera, muito bom dia, como vai a senhora?
Nalva sai.
VERA
Como Deus quer. Já tu, tá como o diabo gosta, né?
ABÍLIO
Que tal um café na sua casa?
VERA
A casa é minha, lhe convido se eu quiser! Entra.
Vera entra em casa e Abílio a acompanha. Quando
estão a sós, Abílio esbofeteia Vera.
VERA
(excitada)
Ai, Bibi...
ABÍLIO
Enfim sós, que saudades! Vem cá, minha quente, hoje
é dia de tomar vacina no bumbum.
VERA
Não, não! Nem mais um passo! Se saia que minha vida
de pecado com você acabou! Minha alma agora pertence
a Deus!
ABÍLIO
(tirando a camisa)
Tudo bem, eu só quero o corpo. Come on, come, come!
VERA
(tentada)
Eu lhe repreendo, em nome de Jesus! Ai, o demônio
entrou na minha sala em forma de síndico pra atentar
meu juízo! Abílio, eu não traio mais o meu marido!
Minha raiz tá encrespando, perdi a coroa de Miss, tô
envelhecendo, sem dinheiro mas eu tô feliz porque eu
tenho um marido que faz tudo por mim!
ABÍLIO
Ué, eu também sou bem casado!
VERA
É nada! Tua mulher é uma elefoa, nem passa no
batente da porta! Já deve estar com quantos kilos,
200?
ABÍLIO
223.
VERA
Por isso que tu trai a coitada comigo e com a Nalva!
ABÍLIO
Eu não tenho nada com a Nalva!
VERA
Pensa que eu não lhe vi de roça-roça com ela?
ABÍLIO
Deixe de ciúme e venha cá! Tá na Bíblia: 'Amai-vos
uns aos outros, assim como eu vos amei'.
VERA
É verdade, isso tá na Bíblia mesmo.
ABÍLIO
Então, Veroca. Eu te amo!
VERA
Se tem amor, Deus deve deixar.
Vera pula no colo de Abílio.
VERA
Seu sem vergonha! Por onde tu tem andado, Bibi?
ABÍLIO
A Lucimar tá no meu pé.
VERA
Será que ela sabe de nosso caso de amor?
ABÍLIO
Não sei. Outro dia, ela me deu uma violeta e disse
que eu tinha que cuidar como se fosse o nosso amor.
VERA
Deixe estar que pra eu jogar um Baygon nessa violeta
é um pulo! E esse conversê é típico de mulher que
quer salvar o casamento. Tu sabe que, um dia desses,
eu tava esperando o elevador, ela botou a cabeça na
porta e me lançou um olhar fuzilante?
ABÍLIO
Não, ela não sabe de nada. E se desconfia de alguém,
não é de você.
VERA
E tu tem outra outra? É Nalva, é? Pode dizer que eu
aguento. Essa invejosa quer tudo que é meu!
ABÍLIO
Eu não dou conta de duas, pra quê ia querer uma
terceira?
VERA
Acho bom.
ABÍLIO
Deixemos esse ciúme bobo de lado e vamos direto ao
ponto.
VERA
Ui! Não, Bibi, o Edmar pode chegar, é perigoso! Ele
só foi ali na esquina comprar cigarro!
ABÍLIO
Ele vai demorar.
VERA
Como é que tu sabe? O Edmar tem outra? Vocês são
cúmplices? Quem é a rapariga? É Nalva, é? Pense numa
mulher que quer tudo que é meu!
ABÍLIO
Não é nada disso, sua boba.
VERA
(sacudindo Abílio)
Desembuche logo, Abílio! Ou eu faço de sua gravata
uma forca, perante a Deus!
ABÍLIO
MIL REAIS! O Edmar foi pegar os mil reais que ele
ganhou no jogo do bicho!
VERA
E foi? Bandido, nem me disse nada! Pense num marido
traíra! Eu preciso desse dinheiro!
ABÍLIO
Ele vai usar este dinheiro pra pagar o condomínio!
VERA
Quem manda no meu marido sou eu! Tu não manda nem em
mim.
ABÍLIO
Eu não sou o tonto do seu marido, veja lá como fala!
VERA
Se fosse, também já estaria com um belo par de
chifres, tal qual Belzebu!
ABÍLIO
Não tenho mais nada pra fazer aqui. Mas se o seu
marido não pagar o condomínio, vou entrar com uma
ação de despejo contra vocês! Bye, bye!
VERA
Entre que eu entro na mesma hora com uma ação de
despejo pra sua mulher! Safado! Vá simbora, vá!
Abílio sai catando suas roupas e vai em direção
a porta para sair.
CENA 11
Edmar surge no hall, concentrado na contagem do
dinheiro que ganhou no bicho. Ao perceber que
Edmar está no hall, Abílio se esconde. Vera
grita.
VERA
Edmar! Que história é essa de que tu ganhou mil
reais no bicho?!
EDMAR
Putz, ela descobriu!
Vera está com a mão na maçaneta para abrir a
porta e Edmar, do outro lado, em vez de abrir,
tranca a porta. Ela destranca por dentro e ele
tranca por fora.
VERA
Edmar, abre essa porta!
EDMAR
Tá com defeito, meu bem!
Assustado e sem saber o que fazer com o
dinheiro na mão, ele coloca os mil reais no
jarro de barro. Vera abre a porta. Edmar está
ofegante.
VERA
Já pra dentro, Edmar!
EDMAR
Olá, benzinho.
Edmar e Vera entram. Abílio está escondido.
VERA
(revistando Edmar)
Eu quero saber dos mil reais que tu ganhou no bicho,
cadê, homem?
EDMAR
Como as notícias correm rápido neste prédio! Foi o
porteiro que te contou?
VERA
Até o porteiro já sabia e eu não?
EDMAR
(ainda ofegante)
Ô, benzinho, calma! Não tá vendo que eu tô passando
por um momento difícil?
VERA
Que foi?
EDMAR
Então, acertei no macaco, sim. Mil reais.
VERA
Eu que sonhei com macaco! Meu palpite, meu dinheiro!
EDMAR
Pois é. Eu ia fazer uma surpresa pra você. Ia te
levar pro salão, mas... Quando eu peguei o dinheiro,
vieram quatro moleques armados, me renderam e
levaram tudo!
VERA
E foi? Tadinho... Pensa que eu sou idiota, Edmar?
Cadê esse dinheiro, homem?
EDMAR
Levaram tudo! Não sobrou nem uma moeda pro cigarro!
Foram quatro moleques, benzinho, quatro! Um pegou
numa mão, outro na outra, um numa perna, outro na
outra... Fiquei suspenso no ar, com aqueles
marginais me esticando...
VERA
Mas eram fortes esse moleques, hein?
EDMAR
Sim, eram moleques mas tinham corpo de homem! Você
sabe como essa juventude se desenvolve cedo, tudo à
base de Whey Protein.
VERA
Tu não me engane, Edmar!
EDMAR
(chorando)
Eu juro por tudo o que há de mais sagrado! Tu quase
fica viúva, benzinho! Meu Deus, que cidade violenta!
VERA
(acreditando)
Oh, Edmar... Tadinho. E eu aqui, pensando mal de
você. Machucaram meu benzinho?
EDMAR
Um pouco, só um pouco. Me jogaram no chão, eu caí,
um horror.
VERA
Tá doendo?
EDMAR
Ah, dói. O corpo inteiro.
VERA
Venha cá, fique nu e deite de bruços que eu vou lhe
fazer aquela massagem bem boa.
EDMAR
Não! Deixa pra lá, passou!
VERA
Tu tá com medo, Edmar? Relaxe, hoje eu vou só até o
cóccix.
EDMAR
Essa sua mão é muito escorregadia!
VERA
Não vai doer, não, venha. Deite aí. Feche o
olhinho... Visualize uma luz azul... Relaxe.
CENA 12
Nalva vai colocar o lixo na escada e ouve os
gemidos de Edmar.
EDMAR
Ai! Ui!
VERA
VERA
Calma, meu amor. Agüente firme! EDMAR Ai!
Relaxe, benzinho.
EDMAR
Ui!
VERA
Vou pegar um óleo pra deslizar melhor. Fique aí, de
olhinho fechado... Relaxe...
Vera faz sinal para Abílio sair do quarto.
Edmar fica em silêncio e de olhos fechados.
Abílio vai embora de mansinho, com a blusa por
fora da calça, a gravata e os sapatos ainda nas
mãos. Quando Nalva está indo conferir seu
dinheiro no jarro, Abílio aparece no hall e ela
disfarça.
ABÍLIO
(constrangido)
Dona Nalva?
NALVA
(maliciosa)
Hum, seu Abílio... Como é que tá sua esposa?
ABÍLIO
Ah, levando, né?
NALVA
E a Vera?
ABÍLIO
A Vera? É...
NALVA
Levando, né?! Seu Abílio, o que é isso roxo no seu
pescoço? É alergia ou foi um chupão?
ABÍLIO
Alergia! Certamente! Alergia!
NALVA
Então corre pra tomar um remédio, seu Abílio! O
senhor tá vermelho! Não sei se de vergonha, de
nervoso, mas ó, sua cara tá toda cheia de placa!
LUCIMAR
Abílioooooooo!
ABÍLIO
Tenho que ir! Preciso me medicar! Com licença!
Abílio sai correndo.
NALVA
Tchau, seu Abílio! Deixa eu aproveitar pra ver se tá
tudo bem com meu dinheirinho. (Pega o dinheiro do
jarro e percebe que este decuplicou.) Caraca, deu
certo!(Conta o dinheiro) Mil e cem reais, 10 vezes o
que eu botei! Nunca pensei que o dinheiro fosse sair
do jarro, menina! Vou fazer mais. Vou ficar rica!
Nalva pega o jarro e leva pra dentro da sua
casa.
NALVA
(para o mesmo espectador de antes)
Fala comigo, rápido! (Joga o fermento) Assim como
esse fermento faz crescer o pão, também fará crescer
o meu dinheiro! Pronto! Vou ficar rica! Agora eu
tenho que devolver o jarro pro hall antes que o
Abílio perceba!
Nalva recoloca o jarro no hall e vai para a
rua.
CENA 13
Vera volta com um óleo Liza para a massagem.
EDMAR
Óleo de cozinha, amor?
VERA
Tem quanto tempo que tu não me dá um Vitoria Sics?
Abílio toca com insistência na casa de Vera.
VERA
(gritando para a porta)
Quem é o avexado?!
EDMAR
Ah, meu Deus, tava quase dormindo...
ABÍLIO
O síndico!
Edmar finge que está dormindo e começa a
roncar. Vera abre a porta.
VERA
O que é que tu quer?
ABÍLIO
(ainda no hall)
Dona Vera, tenho negócios para tratar com seu
marido.
VERA
Meu marido, macho alfa, tá no sono alfa, aquele sono
que não pode ser despertado, igual sonâmbo.
ABÍLIO
E quem é que vai pagar o condomínio atrasado? A
senhora?
VERA
(à parte, para Abílio)
Tu não sabe que ele foi assaltado, homem?
ABÍLIO
(à parte, para Vera)
Não sou trouxa, não acredito!
Abílio bate palma e faz barulho para acordar
Edmar.
ABÍLIO
Seu Edmar!
EDMAR
Ai, meu Deus! Ladrão de novo!? É ladrão? Por favor,
me deixem viver!
ABÍLIO
Não é ladrão, não, seu Edmar. É o síndico!
EDMAR
Ai, meu Deus! Ai, meu coração. Ui, ui, ui.
VERA
Tadinho! Pense num sujeito assustado! Vou buscar uma
aguinha com açúcar pra tu.
Vera sai para buscar água.
ABÍLIO
Muito bem, seu Edmar, passado o susto...
EDMAR
Que passado, que nada! O senhor por um acaso sabe do
trauma que eu sofri? Fui assaltado, levaram tudo!
Inclusive o dinheiro do condomínio, tá? Foi.
ABÍLIO
Sei.
EDMAR
Três marginais com armas em punho!
Vera volta com a água.
VERA
E não foram quatro, Edmar?
EDMAR
Então, quatro. Eu disse quatro!
ABÍLIO
O senhor falou três.
EDMAR
Três com armas em punho! O quarto era aleijado, não
conta. Tava só na butuca, vigiando.
VERA
Ah, bom.
ABÍLIO
Pois, muito bem. Se até a semana que vem o senhor ou
a senhora sua esposa não pagar pelo menos um dos
meses atrasados, serei obrigado a entrar com um
pedido de despejo!
VERA
Pois antes de ser despejada, faço questão de ir na
sua casa pra me despedir da sua esposa pessoalmente!
EDMAR
Seu Abílio, cadê seu coração? Eu aqui, passando por
um momento difícil e o senhor me vem com
mesquinharias? Francamente! E a nossa amizade?
ABÍLIO
Que amizade?
EDMAR
Seu Abílio, o senhor é meu melhor amigo! Só não me
mudo desse cortiço por sua causa! Todo dia antes de
dormir eu rezo pelo senhor e pelos meus filhos!
ABÍLIO
O senhor não tem filhos.
EDMAR
Mas vou ter! E o senhor vai ser padrinho.
ABÍLIO
Puxa vida, não esperava. Muito obrigado!
EDMAR
Você é meu amigo de fé, meu irmão, camarada! Lembra
daquela chupeta que fiz pro senhor?
VERA
Chupeta?! Que chupeta?
EDMAR
Ele tava atrasado pro trabalho, o carro dele arriou
a bateria e foi minha chupeta que salvou este homem!
ABÍLIO
Amigos, amigos, negócios à parte. Continuo
irredutível na minha decisão. Ou vocês pagam o que
devem ou entro com uma ação de despejo contra vocês.
Com licença.
VERA
Lembranças à sua esposa!
Vera sai e Edmar conduz Abílio até a porta.
CENA 14
Abílio e Edmar continuam a conversa no hall.
EDMAR
Repense, seu Abílio, repense com o coração...
Abílio ignora Edmar, pega o jarro e vai na
direção da sua casa. Edmar, desesperado,
intercede.
EDMAR
(pegando o jarro de Abílio e
recolocando-o no pedestal)
Larga isso! Deixa o jarro aí, menino, a obra de arte
da tua mãe!
ABÍLIO
Dona Nalva disse que se as plantas forem regadas com
um jarro de barro, nascem mais vistosas. E a violeta
que minha mulher me deu está morrendo!
EDMAR
Pois eu tenho um adubo milagroso pra você. Foi
trazido das montanhas do Tibet pelos camelos mancos
do Sri Lanka e benzido pelo Dalai Lama! Dizem até
que você não pode enterrar as cinzas de ninguém com
esse adubo porque é capaz da pessoa ressuscitar!
ABÍLIO
Se eu tivesse as cinzas de mamãe... Seu Edmar,
preciso desse adubo pra salvar minha violeta!
EDMAR
O problema é que esse adubo foi muito, muito caro...
ABÍLIO
(escuso)
E não pode ser abatido da sua dívida do condomínio?
EDMAR
Uma dívida de 3 mil por um adubo que vale 6 mil?
Assim o senhor me quebra, seu Abílio.
ABÍLIO
Vamos negociar! Esse adubo mais esse jarro vão
salvar minha violeta!
EDMAR
Não, o jarro, não! Esquece o jarro! O que a Nalva
falou é tudo balela!
ABÍLIO
Se era mentira, pra quê ela pegou o jarro?
EDMAR
Ah, a Nalva é meio pirada, né? Já vi até remédio
tarja preta no lixo dela!
ABÍLIO
Oh, my God, isso é muito sério! Vai que ela fica sem
o medicamento e, num surto, toca fogo no prédio?
Todos nós estaríamos em perigo!
EDMAR
E não é?
ABÍLIO
E se ela resolve se matar? Todos nós viraríamos
suspeitos!
EDMAR
Já pensou?
ABÍLIO
Mesmo assim, não custa levar o jarro. Se bem não
fizer pra minha violeta, mal não há de fazer.
EDMAR
(recolocando o jarro no lugar)
Ah, pode, sim! Ouvi falar que ela é envolvida com
macumba! E se ela pegou esse jarro pra fazer algum
despacho? Eles costumam colocar pipoca, farofa e até
galinha morta numa tigela de barro. Vai ver ela não
tinha tigela e resolveu pegar um jarro!
ABÍLIO
Oh, my god, again! Dona Nalva, hein... Como a gente
se engana com as pessoas!
EDMAR
É! Não duvido que ela queime uma erva.
ABÍLIO
As tais ervas! Meu Deus, o jarro que mamãe me deu
sendo usado para coisas ilícitas! Ela não ia gostar
nada nada disso. Vou pegá-lo de volta para que não
haja mais rituais de magia negra no edifício
Holliday!
EDMAR
Não pega! Tá maluco? Desmanchar a macumba dos outros
é um atraso de vida sem tamanho!
ABÍLIO
Tem razão, é melhor deixar quieto. Mas e minha
violeta? Será que só seu adubo resolve?
EDMAR
Claro! Vamos pegar agora!
ABÍLIO
Vamos.
Eles entram na casa de Edmar.
CENA 15
Imediatamente, Nalva aparece com um carrinho de
supermercado abarrotado de jarros idênticos aos
do hall.
NALVA
Zum, zum, zum, zum zum baba... (Pega o jarro do
pedestal) Ah, meu São Jorge, duvido que esse jarro
tenha sido feito pela mãe do Abílio. (Coloca-o no
carrinho junto com os outros jarros idênticos). Na
feira tinha um monte igual! Vou repetir minha
simpatia com todos e vou ficar rica, rica, rica!
Edmar e Abílio voltam com o adubo.
EDMAR
Pode replantar sua violeta que ela vai ficar
linda...
Edmar e Abílio se espantam ao ver Nalva com
tantos jarros.
ABÍLIO
Mamãe!
EDMAR
(numa angústia contida)
Ai! Ai, ai, ai, ai, ai. Socorro. Meu Deus do céu!
Mas... Mas o que é isso?!
ABÍLIO
Qual delas é a mamãe?!
NALVA
Pronto! Taí sua mamãe!
(colocando um jarro no pedestal)
EDMAR
Esse é o que tava aí, não é? Digo, é a mamãe mesmo?
NALVA
(sem se importar)
É!
ABÍLIO
Mamãe fica aí e ninguém mais mexe nela!
EDMAR
Ninguém mais mexe nela!
NALVA
Tá, ninguém mais mexe nela! Tenho 10 jarros aqui,
pode ficar com tua mamãe. Eu, hein. Fui!
Nalva entra na sua casa com os jarros. Ela
acende uma vela.
NALVA
Vamos lá, São Jorge?
LUCIMAR
Abíliooooo!
ABÍLIO
Tá na hora da sopa da Lucimar. Com licença, até
mais! Obrigado pelo adubo!
NALVA
Agora, o dinheiro...
EDMAR
Até!
Abílio sai de cena.
CENA 16
EDMAR
Ui, meu dinheirinho! Você tem que estar aí!
Nalva e Edmar entornam os jarros ao mesmo
tempo. O dinheiro está no jarro de Nalva.
NALVA
Pronto!
EDMAR
Não é a mamãe!
NALVA
Hum, esse fermento não vai dar. Vou pegar mais na
vizinha.
EDMAR
Essa maluca trocou os jarros. Ela tá com mil reais
num daqueles jarros e nem sabe! Daqui a pouco tá
jogando água no meu dinheiro pra regar planta!
Edmar ouve Nalva abrir sua porta e se esconde
em sua casa. Ela sai pelas escadas.
EDMAR
É a minha chance!
Edmar entra na casa de Nalva.
EDMAR
Quanto jarro! Só pode ser pra macumba, até vela tem!
E eu pensando que era cisma da Vera. Vou pegar minha
grana e vazar, não gosto desses ambientes.
O primeiro jarro que Edmar vai olhar está cheio
d'água. Quando ele vira o jarro para olhar se
seu dinheiro está dentro, recebe um banho.
EDMAR
Merda!
(tirando a camisa)
Mesmo molhado, ele continua entornando os
outros jarros em busca do seu dinheiro.
CENA 17
Nalva volta com o fermento. Edmar escuta o
barulho no hall e se esconde num ponto em que
só a plateia o vê. Nalva entra em casa
cantando.
NALVA
Meu pai Oxalá, é o rei, venha me valer... O velho
Ômolu, Atotô, Baluaê... Pronto, agora vou fazer meu
trabalho. Vou conseguir o que quero e nunca mais
essa vizinha vai me incomodar! Vou calar a boca
dessa mulher pra sempre!
Com medo e em um momento de distração de Nalva,
Edmar tenta sair mas acaba derrubando um jarro.
Nalva grita desesperada e Edmar também.
NALVA
Aaaaaaaaaah! Tarado! Ai! Socorro! Sai! Ai!
EDMAR
Ai! Macumbeira! Assassina!
Atraídos pelos gritos, Vera sai pra ver o que
está acontecendo.
VERA
Pára com essa gritaria, sua barraqueira!
NALVA
Edmar? O que é que tu tá fazendo aqui?
EDMAR
Eu? Então, pois é. Eu vim pra...
Vera escuta Edmar na casa de Nalva.
VERA
Edmar!? É tu que taí, cão?
Nalva abre sua porta.
NALVA
É ele, sim! Esse safado!
EDMAR
Jesus meu, me ajude.
VERA
Em nome de Jeová Rei, Edmar, só me diga o que sua
pessoa está fazendo nesta casa por onde Jesus não
passeia?
EDMAR
Calma, Veroca. Não é nada disso que tu tá pensando!
VERA
Eu não tô pensando, eu tô vendo! Demônio! Como tu
teve coragem, homem? Me trair com essazinha! Jesus
me segura!
NALVA
Não sou teu tipo de mulher, tá louca!
VERA
Eu exijo uma explicação dos dois! Jesus não me
segura!
NALVA
Eu é que mereço satisfações. Vamos, Edmar, se
explique!
VERA
Segure minhas mãos, Jesus, segure. Faz com que eu
não cegue esta mulher com este crucifixo que carrego
em meu peito.
EDMAR
Calma, minha gente...
VERA
Tu fica quieto, se não quiser apanhar!
NALVA
Ele não vai ficar quieto nada, ele me deve
explicações! (Para Edmar) Eu quero saber o que é que
tu tava fazendo na...
VERA
Querendo tirar satisfações com meu marido? Foi isso
mesmo que meus ouvidos captaram? Não tens amor à
vida? Seu lixo!
NALVA
Lixo é você, sua vaca!
As duas se atracam. Vera arranca alguns tufos
de cabelo do mega hair de Nalva. Edmar as
separa.
EDMAR
Olha o barraco! Pára!
VERA
Me largue, Judas Escarioti! Não perdoo traição!
NALVA
Pimenta no dos outros é refresco, né?
VERA
Hã?
EDMAR
Não entendi.
NALVA
Trair, pode. Ser traído, não. (Direto para Vera) Né?
EDMAR
Ela tá falando do quê, benzinho?
VERA
Vamos embora, Edmar! Satanás tomou conta dessa
mulher.
NALVA
Ninguém vai embora! Tão pensando o quê? Invadem
minha casa, arrancam meu cabelo e vai ficar por isso
mesmo? Nada disso! Quer saber, Edmar? Você é corno!
Corno!
EDMAR
É mentira. Não é, amor? Se defenda!
VERA
Deus que me defenda de uma vizinha dessas!
NALVA
Olha que ironia, a crente casada com um chifrudo!
EDMAR
Vera, tu me traiu ou não?
VERA
Traí, traí sim! Tu também não tava me traindo com
essazinha?
EDMAR
Não! Não pode ser.
NALVA
Tu tá é louca! Eu nem sei o que o seu marido tava
fazendo na minha casa!
VERA
Cinismo tem limite, ouviu?!
EDMAR
Com quem você me traía?
VERA
Não me pergunte que eu falo! Tu sabe que eu sou
bocuda!
EDMAR
Fala! Com quem?
VERA
Quer saber mesmo?
EDMAR
Quero!
VERA
Com Jesus!
EDMAR
Ah, bom, que susto. Aí pode!
VERA
Abílio de Toledo Jesus!
Abílio aparece no hall.
EDMAR
O síndico!?
NALVA
É! Todo o prédio já sabe! A Clotilde, do 907, o
Claudineisson, do 1104...
EDMAR
Filho da mãe... Ainda levou meu adubo!
CENA 18
Abílio bate na porta de Nalva.
ABÍLIO
Dona Nalva! Os vizinhos estão reclamando do barulho!
EDMAR
Deixa que eu abro!
NALVA
Ih, agora minha casa cai!
Edmar recebe Abílio.
EDMAR
Eu te mato, filho da mãe!
Socos e pontapés, eles rolam no chão. Vera e
Nalva tentam separar os dois, sem sucesso.
EDMAR
Bandido, pegou a minha mulher! Confessa!
ABÍLIO
Nunca! Jamais faria isso!
VERA
Cachorro!
Nalva pega um balde cheio d'água e joga nos
dois. Eles param a briga.
NALVA
Que nem cachorro! Agora, todo mundo pra fora da
minha casa!
Abílio aproveita a deixa pra ir embora. Edmar
sai com Vera.
CENA 19
Nalva vai preparar seus jarros pra simpatia
enquanto Vera discute com Edmar.
NALVA
Ah! Como eu queria ir embora dessa baixaria desse
edifício Holliday! O prédio vizinho aqui, o
Hollywood, deve ser muito mais tranquilo.
EDMAR
Quer dizer que o Holliday inteiro sabia, menos eu!
Corno! Meu Deus, corno!
VERA
(enxugando Edmar)
Edmar, desapegue desses rótulos cretinos, homem!
Traição é quando tem sentimento no meio. E eu só amo
você, meu coisinho lindo.
EDMAR
Ah, com ele era só sexo?
VERA
Por quem me tomas, Edmar? O fuscãozinho é só seu! O
Abílio... Ficava com o bagageiro.
EDMAR
O quê?! Então, quer dizer que pro Abílio você...
VERA
Não me relembre o tempo em que Jesus não vivia em
mim, por favor!
EDMAR
Isso não tem perdão! Vou fazer minhas malas.
Edmar vai colocando as roupas na mala e Vera,
ao mesmo tempo, vai tirando. Enquanto isso,
Nalva distribui as notas de cem reais nos
jarros e, sussurrando seu mantra, joga fermento
neles.
NALVA
(Para o mesmo espectador que a ajudou
da primeira vez)
Fala daí, querido? Fala direitinho senão vai ter que
subir.
VERA
Edmar, me escute! Eu não queria fazer isso, eu juro,
perante a Deus! Mas... Eu fiquei com medo do Abílio
despejar a gente daqui! Eu... Eu fiz esse sacrifício
por nós, pela nossa casa, pela nossa dignidade! Mas
eu não queria! Achei que fazendo um agrado pro
síndico, ele ia perdoar sua dívida!
EDMAR
Meu amor... Então, foi por isso?
VERA
Foi! Se tu trabalhasse e pagasse em dia esse
condomínio, nada disso teria acontecido!
EDMAR
Me perdoa, Veroca! Me perdoa!
VERA
Perdoo se tu me explicar o que é que tu tava fazendo
na casa da Nalva.
EDMAR
Fui pegar o dinheiro que ganhei no bicho!
VERA
Ah, então, não teve assalto nenhum? Foi tudo teatro?
Como tu teve coragem de me fazer de idiota por mil
reais, Edmar, uma ninharia!
EDMAR
Mil reais é dinheiro!
VERA
E eu ainda lhe fiz massagem!
EDMAR
Com óleo Liza.
VERA
(furiosa)
Não interessa!
Nalva está sentada olhando para os jarros.
NALVA
Será que meu dindin já reproduziu? Vou dar mais um
tempinho.
EDMAR
(culpado)
Benzinho, não briga comigo!
VERA
Tu me enganou, Edmar. Traíste minha confiança!
EDMAR
Veroca, vamos combinar assim? Você me perdoa e eu te
perdoo. Perdoo porque eu te amo. Perdoo porque não
tenho mais ninguém. Perdoo porque eu não tenho mais
idade pra voltar pra pista. E a pista só tem
periguete. Perdoo porque você é linda e me ama. Não
ama?
VERA
Claro que amo, Mamá...
EDMAR
Prometo que seu maridão vai ficar mais selvagem, tá?
VERA
Tá! Agora me diga, como seu dinheiro foi parar na
casa de Nalva?
EDMAR
Eu explico.
Enquanto Edmar explica pra Vera o ocorrido,
Nalva vai conferir se o dinheiro já se
multiplicou.
NALVA
Nada ainda?! Tem problema, não. Vou pro shopping,
renovo meu look e boto tudo no cartão. Fui!
Nalva sai de casa.
VERA
NALVA
Shhhh! Ela tá saindo!
Vou trancar isso aqui muito bem trancado porque no
último vacilo que eu dei, invadiram minha casa!
Nalva tranca sua porta e sai de cena.
VERA
Já foi. Deixa ver se eu entendi. O dinheiro tá no
jarro que tava no hall e que agora tá com Nalva,
certo?
EDMAR
Exatamente. Ela nem faz ideia que tem mil reais em
um daqueles jarros!
VERA
A gente tem que matutar um jeito de entrar lá!
EDMAR
Isso é crime, amor!
VERA
Eu não dou toda essa importância pras leis dos
homens, o que me interessa é a justiça divina! E
Deus sabe que eu só quero ir lá pra buscar meu
dinheiro, nada mais!
EDMAR
(tímido)
O dinheiro é meu.
VERA
Tive uma ideia! Mas tenho uma condição: se a gente
pegar o dinheiro, metade é meu.
EDMAR
Metade?
VERA
É pegar ou largar.
EDMAR
Tá...
VERA
Vamos entrar pela janela.
EDMAR
Pirou? A gente mora no terceiro andar! Uma queda é
fatal!
VERA
Dá pra andar pelo parapeito, Edmar. Deixe de ser
frouxo! Vamos logo enquanto ela tá na rua!
EDMAR
Ai, meu Deus...
Vera e Edmar saem pela janela ao mesmo tempo em
que Abílio aparece no hall.
CENA 20
ABÍLIO
(com uma penca de chaves nas mãos)
A dona Nalva não sabe mas já morei neste
apartamento. Se ela não mudou a fechadura, a chave
que vai abrir esta porta é... Essa aqui.
Abílio abre a porta e entra com cautela.
ABÍLIO
Isto não se trata de uma invasão de privacidade. Só
estou zelando pela segurança do condomínio.
Abílio fecha a porta. No apartamento vizinho,
Vera e Edmar estão saindo pela janela.
VERA
Vamos pegar esse dinheiro, é uma questão de honra!
(Vendo Edmar ofegante) Que foi, Edmar? Passando mal?
EDMAR
(ofegante)
Esses são os mil reais mais caros da minha vida! Eu
não sabia que a gente morava tão alto!
VERA
Deixe de drama, homem! Cadê o Edmar selvagem que tu
me prometeu? Simbora!
Vera e Edmar saem pelo parapeito da janela.
ABÍLIO
Esses jarros podem ser pra qualquer coisa, menos pra
regar planta! O que será que tem dentro?
Com medo e dificuldade, Abílio coloca a mão
dentro do jarro.
ABÍLIO
Oh, my God, é cocaína! A Dona Nalva é traficante!
Como fui ingênuo. Ela deve ter algum serviço do tipo
Disk-Pó. E tem mais um papel...
Abílio pega o dinheiro do jarro.
ABÍLIO
Dinheiro! Deve ser o preço desta quantidade de
cocaína! Será que tem em todos? Neste tem. Neste
também. E também neste! Bom, não quero me envolver
com tráfico, vou deixar a cocaína. Já o dinheiro,
sou obrigado a confiscar, afinal, ele foi obtido
através de práticas ilícitas dentro do edifício
Holliday, meu distrito. Se permito que um faça,
daqui a pouco o prédio vira uma cracolândia!
Abílio ouve o barulho de alguém entrando pela
janela. Ele sai assustado.
ABÍLIO
Shit! Devem ser os clientes dela! Cracudos! É por
isso que ela nunca levantou suspeitas, eles não
passam pela portaria! Estou de parabéns pelo meu
serviço de detetive!
Abílio sai.
CENA 21
Edmar e Vera entram no apartamento de Nalva
pela janela.
VERA
Vamo rápido que ela pode chegar!
EDMAR
A grana tá num desses jarros.
VERA
Vou babatar até achar!
Edmar põe a mão dentro de um jarro.
EDMAR
Que pó branco é esse?
VERA
Cheira pra ver!
EDMAR
E se isso me deixar doidão?
VERA
Frouxo! Quedê?
Vera cheira o pó na mão de Edmar.
VERA
Isso é fermento! Pra quê essa desvairada tá botando
fermento nos jarros?
EDMAR
Pode ser alguma oferenda pra algum orixá, melhor não
mexer.
VERA
Tu quer ou não quer seu dinheiro de volta?
EDMAR
Quero, claro!
VERA
Então, procura, homem!
EDMAR
Olha esses que eu olho aqueles.
Procuram em todos os jarros e não acham nenhum
dinheiro.
VERA
Nada aqui. Achou alguma coisa aí?
EDMAR
Nada também! Não é possível, tem que estar em algum
jarro!
VERA
Edmar, tá óbvio que ela achou o dinheiro e ficou pra
ela!
EDMAR
Meu dinheirinho...
CENA 22
Nalva entra em cena ao som de 'Pretty Woman'
completamente transformada: peruca,
enchimentos, roupas extravagantes e muitas
sacolas na mão. Ela entra em sua casa e flagra
Vera e Edmar.
NALVA
Aaaaah, não! Que zona é essa?! Já virou bagunça!
VERA
Cadê o dinheiro do meu marido?
EDMAR
Benzinho, calma. Ela achou, achado não é roubado.
VERA
Tu quer ou não quer o seu dinheiro de volta?
NALVA
Que dinheiro, maluca? Eu não tenho nada com o seu
marido, já disse!
EDMAR
Esses jarros...
NALVA
Não toque nos meus jarros! Eles são sagrados.
VERA
Macumbeira! Desde quando jarro de barro com fermento
é coisa sagrada?
NALVA
Vocês mexeram nos meus jarros?!
EDMAR
Calma, a gente não desmanchou nada, não, viu?
Nalva coloca a mão dentro dos jarros.
NALVA
Tinha uns dez mil reais em cada jarro desse! Vocês
me roubaram!
VERA
A única ladra aqui é tu, mulher!
NALVA
Chega! Vou chamar a polícia.
Abílio abre a porta de Nalva com sua chave e
entra.
ABÍLIO
Já chamei a polícia.
NALVA
Quero esses dois na cadeia!
ABÍLIO
Quem vai presa é a senhora, dona Nalva!
NALVA
O quê?! Invadem minha casa, roubam minha fortuna e
ainda vou presa? É pegadinha, né?
ABÍLIO
Fontes seguras me garantiram que a senhora
comercializa entorpecentes neste apartamento.
EDMAR
Dona Nalva... Quem diria!
VERA
Ela nunca me enganou.
NALVA
Tu é que deve estar drogado pra dizer uma besteira
dessas!
ABÍLIO
Os vizinhos do prédio da frente acusaram a entrada
de cracudos pela janela do seu apartamento, tudo
para não levantar suspeitas na portaria.
Edmar e Vera se entreolham.
NALVA
(indo até a janela)
Só o Homem-Aranha pra escalar até aqui! A não ser
que o invasor tenha vindo do apartamento vizinho...
Aí dá pra vir pelo parapeito! Não é, Dona Vera e seu
Edmar?
VERA
A gente veio buscar o que é nosso!
EDMAR
O meu dinheirinho!
VERA
Nosso!
NALVA
Quem roubou meu dinheiro foram vocês!
ABÍLIO
Veja bem, a invasão deles não retira a queixa do
comércio de entorpecentes! Foi descoberto que a
senhora armazena cocaína dentros desses jarros.
NALVA
Ai, meu Deus! O povo fala, viu?!
ABÍLIO
Então, a senhora confirma!
NALVA
Confirmo nada!
Nalva vira um dos jarros em cima de Abílio.
NALVA
Isso aqui é fermento! Pra fazer render o meu
dinheiro!
ABÍLIO
Eu sou alérgico a farináceos! Socorro!
EDMAR
Deixa ele se estrebuchar aí!
Abílio se sacode e toma um comprimido. Nalva
joga água nele.
NALVA
Morre não, seu Abílio, quero você vivo pra descobrir
onde foi parar o meu dinheiro!
VERA
Não pegamos dinheiro nenhum!
EDMAR
Até viemos pra cá com essa intenção mas, pelo visto,
alguém passou aqui antes da gente.
ABÍLIO
Fermento num jarro de barro pra fazer o dinheiro
render? A senhora quer que eu acredite nisso?
NALVA
É uma simpatia! Fiz uma vez e deu certo. Coloquei
cem reais no jarro do hall e quando fui ver, tinha
mil e cem!
EDMAR
Esse dinheiro era meu! Era meu!
NALVA
Seu?
VERA
Foi o dinheiro que ele ganhou no bicho. Ele escondeu
no jarro!
ABÍLIO
Não tinham roubado o senhor, seu Edmar?
EDMAR
Ué, e não roubaram?! Roubaram de dentro do jarro!
VERA
E essa simpatia... Você tirou de onde?
NALVA
Desse livro.
VERA
Meu livro! Devolve!
NALVA
Ah, pode ficar, a simpatia não deu certo mesmo. Tô
ferrada, comprei tudo no cartão.
ABÍLIO
Não se preocupe, o código de defesa do consumidor dá
sete dias pra desistir da mercadoria.
NALVA
(vai desmontando-se)
É, vou devolver minhas unhas, meus cílios, meu
cabelo, meu peito, minha bunda... Tudo!
EDMAR
Era tudo falcatrua?
NALVA
Mas se minha simpatia não funcionou pra aparecer o
dinheiro, como ele desapareceu?
EDMAR
Também queria saber.
NALVA
Alguém pegou.
VERA
Alguém com acesso a essa casa.
Abílio, sonsamente, ainda analisa o fermento
nos jarros.
VERA
Ô, Bibi... Seu Abílio! Como foi que o senhor entrou
agora aqui?
NALVA
É! A porta tava trancada e tu não tocou a campainha!
ABÍLIO
Eu... Na verdade, eu...
VERA
Antes de tu, Nalvinha, meu inquilino deste
apartamento era ele. Trocaste a fechadura?
NALVA
Não!
VERA
Foi ele!
EDMAR
Ladrão safado!
Toca o interfone. Nalva vai atender.
ABÍLIO
Deve ser a polícia. Vou dispensá-los.
NALVA
Eu atendo! Alô? Não é polícia, não. O Abílio tá
aqui, sim. É sua esposa. Sei... Tá. Mandou tu ir pra
casa. A violeta morreu, ela quer falar contigo.
EDMAR
Deixa eu trocar uma palavrinha com ela.
ABÍLIO
Não! Por favor, não...
EDMAR
Fica quieto aí, seu frango! Alô? É o Edmar do 302,
minha senhora. É só pra falar que tua violeta morreu
porque teu marido tava regando outra plantinha. No
caso, minha mulher!
ABÍLIO
Com que direito o senhor fez isso?
EDMAR
Como corno, tenho o dever de abrir minha boca! Mas
só pra ela.
VERA
Bem feito! Traste ruim.
NALVA
(para Abílio)
Agora só falta chegar a polícia pra te prender. Por
invasão de privacidade...
VERA
...furto do dinheiro alheio...
EDMAR
...e da mulher alheia!
ABÍLIO
Calma, vamos conversar. É conversando que a gente se
entende...
NALVA
Cala a boca! Vera, tu que tem intimidade, revista
ele!
EDMAR
Vai com calma, hein.
VERA
(revistando o bolso de Abílio)
Aqui! A chave e o dinheiro.
EDMAR
Meu dinheirinho! Até que enfim!
NALVA
Peraí que cem são meus!
VERA
E quinhentos são meus!
LUCIMAR
Abíliooo!!! Safado, cafajeste! Vai dormir na rua!
Acabou!
ABÍLIO
Amor, calma. Olha o escândalo! Vamos conversar! Eu
vou pra casa. Preciso conversar com a minha mulher.
Ela tem que me perdoar!
NALVA
Nem mais um passo, Seu Abílio. Antes, nós temos que
te perdoar.
EDMAR
Eu não perdoo!
ABÍLIO
Vera, Edmar, que tal esquecer este infeliz ocorrido
e eu não entro com a ação de despejo?
EDMAR
Que infeliz ocorrido?
NALVA
Vocês invadiram minha casa, isso é crime!
VERA
Nalva, querida, está na hora de levantarmos a
bandeira branca, não acha? Tenho uma proposta.
Coloca o dinheiro que estava em suas mãos nas
mãos de Nalva.
VERA
Tá aqui, toma. Meus quinhentos reais...
EDMAR
Amor, que gesto lindo. Já ganhou o céu.
VERA
(tomando o dinheiro das mãos de Edmar
e colocando-o nas mãos de Nalva)
Mais os quinhentos do Edmar.
EDMAR
Veroca, meu bem, não...
NALVA
(guardando o dinheiro no soutien)
Oba, aceito, sim!
EDMAR
Espera...
VERA
(à parte, para Edmar)
Encare isto como uma fiança. Se ela nos dedurar,
estamos presos! Tô fazendo um bom negócio, acredite!
Edmar, com muito custo, entrega o dinheiro para
Nalva.
EDMAR
Leva, querida... Leva.
NALVA
Obrigada! Vera, tenho uma coisa pra te dar também.
Nalva sai e volta com a coroa e a faixa de Miss
Madureira.
NALVA
Toma, é teu. Ninguém sabia, mas... Dos três jurados
do concurso de Miss Madureira, um era meu tio e
outro era meu primo. Tá no regulamento que não pode
parente jurado, eu sei! Mas eu queria ganhar. Achei
que essa coroa ia mudar alguma coisa na minha vida,
mas... Continuo aqui, solteira. Queria tanto um
marido! Não o seu. Mas um que fosse babão igual a
ele, que soubesse perdoar, que me levasse no
salão...
VERA
Ô Nalvinha, fique assim, não. Tenha fé em Jesus que
teu homem há de aparecer. Agora me dê aqui minha
faixa e minha coroa... Eu sabia que ali tinha treta!
Tô linda, Edmar?
EDMAR
Uma rainha.
VERA
Eu sei, eu sei. Agora vamo simbora. E tu,
fique de olho nos sapos que um deles pode
príncipe! Ah, outra coisa. Fique com esse
também. Eu sou a mais bonita mas você é a
simpatia!
amiga,
ser seu
livro
miss
NALVA
Obrigada, minha amiga.
EDMAR
Tchau!
VERA
Tchau, minha querida!
Vera e Edmar saem de cena.
ABÍLIO
Bom, eu vou avisar ao porteiro pra, se a polícia
vier, dizer que alguém passou um trote. Vou lá
tentar juntar os caquinhos da minha violeta...
NALVA
Boa sorte.
ABÍLIO
Então, nós dois solteiros, né...
NALVA
Nem vem que não tem, seu safado! Vaza daqui.
Nalva coloca Abílio para fora e ele se senta no
hall, abraçado ao jarro, como se pedisse o colo
da mãe. Quando ele vai começar a chorar, sua
esposa intervém.
LUCIMAR
Abíliooooooo!!! Volta.
Abílio sai de cena. Nalva está sozinha em casa.
NALVA
Bom, pelo menos ganhei mil reais que já vai dar pra
pagar a entrada do cruzeiro das solt... Peraí! Deu
certo! A simpatia falou que eu ia ganhar dinheiro e
ganhei! Cadê o livro? Vou fazer outra pra arrumar um
marido! Melhor do que sair num cruzeiro! Cadê...
Aqui. Quando ouvir tocar o sino de qualquer igreja,
coloque um Santo Antônio nos seios. Depois, eleja um
estranho para se casar e faça com que ele beba um
cálice de mel. Ele cairá de amores por você.
Barulho de sinos. Nalva coloca um Santo Antônio
nos seios e aponta para um homem da plateia.
NALVA
Hummm... Você!
CAI O PANO.
CONTATOS:
Paulo Fernando Góes
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Texto: Paulo Fernando Góes