Página | 1 Página | 2 APRESENTAÇÃO O Instituto de ciências sociais da PUC Minas, por meio dos cursos de Arquitetura e Urbanismo, Ciências sociais, Relações Internacionais e Serviço Social, realizou em Setembro de 2012 o primeiro Simpósio de Ciências Sociais, com o título Cidades e Fronteiras. O simpósio promoveu o diálogo e ampliou as interfaces de trabalho entre as áreas de conhecimento do Instituto, como também repercutiu a produção científica e técnica de seus corpos docente e discente, correlatas ao tema em discussão, aberto à participação da comunidade acadêmica interessada nas temáticas em foco. O tema das fronteiras deve ser abordado não apenas sob o prisma das zonas limítrofes dos territórios, em suas áreas de expansão, vetores de crescimento e barreiras fronteiriças; é intuito desse simpósio debater o espaço fronteiriço também segundo a capacidade relacional que esse estabelece dada sua natureza, qual seja a de ser primeiramente lugar de trocas materiais e simbólicas - lugar praticado por meio da atuação de agentes diversos nas escalas micro local, local, metropolitana, regional e nacional e internacional. A reflexão sobre a fronteira permite, também, retomar o argumento de que a ocupação do território é sempre inseparável de sua prática. Quando experimentamos viver num espaço urbano fazemos um continuado exercício de configurar relações sociais, estabelecer limites para a ação cotidiana de indivíduos ou de grupos, reconhecer direitos e arranjos sociais diversos, tornar efetivos os esforços de cooperação para a vida coletiva. Nesse sentido, pensar as fronteiras implica colocar em pauta a vida cotidiana, as construções nesse espaço comum de contato, a dimensão das relações de solidariedade, de intercâmbios, a percepção dos fronteiriços sobre seu espaço e a integração em diversas escalas. Página | 3 Com vistas a permitir que a questão urbana correlata ao tema das fronteiras seja amplamente discutido em sua multidisciplinaridade, o tema geral do simpósio está subdivido em 4 sub temas: Megaeventos; Territorialidade, Governança e Políticas Sociais; Meio Ambiente e Políticas Urbanas; Proteção social, políticas sociais e modos de vida urbanos. Atenciosamente, Comissão Organizadora do I Simpósio de Ciências Sociais PROGRAMAÇÃO 24 a 27/09 - Como parte da programação do simpósio e paralelamente à apresentação de trabalhos em painéis, será realizada a 1ª Mostra Integrada de Extensão e Iniciação Científica do Instituto de Ciências Sociais da PUC Minas, cuja apresentação de trabalhos de extensão e iniciação científica será restrita aos professores e alunos do Instituto de Ciências Sociais da Universidade. Sala de multimeios do prédio 47. 24/09 – 19h - Abertura Oficial SICS Conferência de abertura - Cidades e Fronteiras: O Direito a Cidades Professor Edésio Fernandes Local: Auditório do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas 25/09 - 15h às 18h – MEGA EVENTOS GT 01 - MEGA EVENTOS – Local: Auditório 03 – prédio 43 Coordenador: Hélio Oliveira Júnior (PROPPG Ciências Sociais) Debatedora: Rita de Cássia Lucena Velloso (ICS-PUC Minas) Página | 4 Painelistas: Marcela Montalvão Teti (UFRJ); Naiane Loureiro dos Santos; Lucia Ciccarini Nunes (PUC- Minas); Marco Antônio Marinho. Pedro Ivo Brandão (Puc Minas); Tatiana Soledade Delfanti Melo (PUC-Minas) – Radamés Vieira (Faculdade Ciências Jurídicas de Diamantina) ; Hélio Oliveira Jr. Daniel Freitas. (PUC Minas) 25/09 – 19h às 22h – TERRITORIALIDADES, GOVERNANÇA GT 01 - Territorialidades, governança, identidades e soberania Local: Auditório 03 – prédio 43 – 205 vagas Coordenadora: Matilde de Souza (Relações Internacionais) Debatedora: Silvana Seabra (Ciências Sociais) Painelistas: Hérica Cristina Alves de Vasconcelos; Tiago Vieira Bontempo; Douglas Mansur da Silva e Victor Cezar de Sousa Vitor. GT 02 - Territorialidades, governança: dinâmicas políticas, cooperação, conflito - Local: Sala 316 prédio 47 Coordenadora: Taiane Las Casas Campos (Relações Internacionais/PUC Minas) Debatedor: Onofre dos Santos Filho (Relações Internacionais) Painelistas: Isaias Albertin de Moraes e Beatriz Rodrigues Bessa Mattos; Raquel de Bessa Gontijo de Oliveira; Luciana Leal Resende Paiva; Samuel Araújo Gomes da Silva; Pedro de Melo Braga. GT 03 - Territorialidades, governança: dinâmica dos grupos sociais e desafios da governança do território - Local: Sala 318 prédio 47 Coordenadora: Nathália Lelis (Arquitetura e Urbanismo) Debatedora: Rita Fazzi (Ciências Sociais) Página | 5 Painelistas: Daiane de Oliveira Florêncio; Maria da Cunha Pinto Colares; Matheus Soares Cherem; Mônica Abranches GT 04 - Territorialidades, governança: aspectos da exclusão / desafios da inclusão - Local: Sala 325 prédio 47 Coordenadora: Regina Medeiros (Ciências Sociais/PUC Minas) Debatedor: Otávio Soares Dulci (PROPPG Relações Internacionais) Painelistas: Maria Flávia Vieira Batista; Maria Celeste Reis Fernandes de Souza; Rita de Cássia Liberato, Thiago Canettieri; Thiago Gonçalves; Rodrigo Faleiro Dolabella Cesar. Marco Antônio Souza Borges Netto 26/09 – 15h às 18h - Meio Ambiente; Políticas Urbanas GT 01 – Construindo a Agenda na Área de Meio Ambiente Local: Sala 314 prédio 47 Coordenador: Carlos Alberto de Vasconcelos Rocha(Ciências Sociais/PUC Minas) Debatedora: Ricardo Ferreira Ribeiro (Ciências Sociais/PUC Minas) Painelistas: Daniela Cristina Oliveira Anastácio- Faculdade Minas Gerais/FAMIG; Edilvan Moraes Luna- Graduando em Ciências Econômicas pela Universidade Regional do Cariri – Urca, Crato-Ce; Adélia Alencar BrasilGraduada em Geografia pela Universidade Regional do Cariri- Urca, Crato- Ce; William Daldegan de Freitas- PUC Minas GT 02 - Políticas Urbanas: habitação e sustentabilidadeLocal: Sala 327 prédio 47 Coordenador: Prof. Paulo Diniz (PUC Minas) Página | 6 Debatedor: Profa. Chyara Sales (PUC Minas) Painelistas: Mário Peters, M.A- Leibniz Universität Hannover, Alemanha; Camila do Couto Seixas- Mestre em Desenvolvimento Sustentável (Universidade Harokopio/HUA); Graduada em Ciências Econômica (Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG); Graduada em Relações Internacionais (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais/PUC-Minas) Universidade Harokopio (Atenas, Grécia); Alícia Duarte Penna PUC-Minas, Érico de Oliveira e Silva PUC-Minas, Laís Grossi de Oliveira PUC- Minas, Margarete Maria de Araújo Silva- PUC-Minas/ EA UFMG 26/09 – 19h às 21h30 - PROTEÇÃO SOCIAL, POLÍTICAS SOCIAIS E MODOS DE VIDA URBANOS GT1 – Assistência social: institucionalidades e cotidiano Auditório do Museu de Ciências Naturais Coordenadora: Maria Raquel Lino de Freitas – Serviço Social/PUC Minas Debatedora: Profa. Regina Coeli de Oliveira (Serviço Social/PUC Minas) Painelistas: Maria Raquel Lino de Freitas (Serviço Social/PUC Minas); Cibele Vieira Feital (Prefeitura Municipal de Belo Horizonte) Márcia Maria Silva Brandão (Secretaria Estadual de Defesa Social). GT 2 – Serviços sociais, assistência social e políticas públicas Sala 318 prédio 47 Coordenador: Profa. Andréa Inês Dutra Braz – (Serviço Social/PUC Minas) Debatedora: Profa. Maria Christina Cesarino Soares (Serviço Social/PUC MG) Página | 7 Painelistas: Fernando Antônio França Sette Pinheiro Junior (CEDEPLAR/UFMG); Bárbara Diniz Caldeira, Cléssio Cunha Mendes, Rafael Gonçalves (Serviço Social/PUC Minas); Alan Pereira da Silva (Serviço Social/PUC Minas); Carlos Eduardo Batista Costa ( PPGCS/PUC Minas). GT3 – Inserções da juventude na cidade: circuitos e “curto-circuitos Sala 314 – prédio 47 Coordenadora: Profa. Regina de Paula Medeiros – PPGCS/PUC MInas Debatedor: Prof. Robson Sávio Reis Souza - Serviço Social/PUC Minas Painelistas: Laís de Oliveira (Ciências Sociais/UFJF); Rafael Lacerda Silveira Rocha (PPGS/UFMG); Camila Mendes Froede (Relações Internacionais/PUC Minas); Samuel Santos (PPGIEL-Educação Física/UFMG) GT 4 – Reconhecimento social: a sociedade do não reconhecimento Sala 325 prédio 47 Coordenadora: Profa. Yara Maria Frizzera Santos (Serviço Social/PUC Minas) Debatedora: Profa. Carmem Lícia Macedo de Almeida (Serviço Social/PUC Minas) Painelistas: Carmen Lícia Macedo de Almeida, Yara Maria Frizzera Santos, Fabrícia Melatto, Mônica Silva, Pedrina Leite, Valéria Bastos; Jefferson Pinto Batista (CRESS/MG); Cirlene de Jesus Costa e Lívia Vallory Figueiredo (Serviço Social/PUC Minas); Bárbara Francis Pereira da Silva, Elizabete Maria da Silva, Emanuelle Xavier da Silva, Jéssica Padrão Silveira (Enfermagem/PUC Minas); Ana Beatriz Melo (PPGCS/PUC Minas). Página | 8 GT 5 – Cidades: narrativas e vivências Local: Sala 316 prédio 47 Coordenador: Profa. Debora Maria Davi Luz- Serviço Social/PUC Minas Debatedora: Profa. Juliana Jayme Gonzaga-PPGCS/PUC Minas Painelistas: Vanessa Costa Soares (PPGCS/PUC Minas); Rejane de Oliveira Nazário (PPGCS/PUC Minas); Ana Helena do Nascimento Barbosa (Ciências Sociais/UFCeará); Fernanda Favorito (PMH/Universidade Anhembi-Morumbi/SP); Nayara de Amorim Salgado; graduanda em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade de Minas Gerais GT 6 – Intervenções do poder público e (des) qualificação da vida urbana Sala 327 prédio 47 Coordenadora: Profa. Andréa Gontijo Alvares (Serviço/Social/PUC Minas) Debatedora: Profa. Alicia Duarte Penna (Arquitetura e Urbanismo/PUC MG) Painelistas: Karine Gonçalves Carneiro (PPGCS/PUC Minas); Mariana Ramos de Morais (PPGCS/PUC Minas); Theresa Raquel Reis Timo (PPGCS/PUC Minas); Daniele Cardoso do Nascimento, Elis Rocha Palmeira e Laise Copolillo Ayres (Relações Internacionais/PUC Minas). 26/09 – 14h às 18h – Oficina do Estatuto da Cidade: Instrumentos de planejamento urbano para o Brasil atual – 50 vagas - Sala 325 prédio 47 Professores Rita Velloso e Lúcia Ciccarini 27/09 – 14h – Encerramento Mesa redonda: Balanço do I Simpósio e perspectivas Página | 9 Local: Auditório do Museu Ciências Naturais 27/09 - 16h – Lançamento do Portal Cooperação Urbana Parceria da PUC Minas com a Fundação AVSI, no âmbito do programa dologias e Instrumentos para Redução da Pobreza Urbana, Melhorias Habitacionais e Regularização Fundiária” - Local: Auditório do Museu Ciências Naturais. SUMÁRIO Apresentação................................................................................................................03 TEMA: MEGA EVENTO..........................................................................................18 Grupo Temático 1: Megaeventos: impactos, reflexos, retóricas do legado......... T1 – Megaeventos e psicologia social. Marcela montalvão Teti (UFRJ).....................18 T2 – Impactos socioespaciais, ambientais e culturais. Naiane Loureiro. Lucia Ciccarini (PUC- Minas) ...............................................................................................................24 T3 – A venda do espetáculo e a retórica do legado. Marco Antônio Marinho. Pedro Ivo Brandão (PUC Minas).....................................................................................................30 T4 – experiências positivas/tendências negativas em vésperas de copa do mundo. Tatiana Melo (PUC-Minas) ......................................................................................................37 T5 – Investimento ou passivo social. Radamés Vieira (Faculdade Ciências Jurídicas de Diamantina)...................................................................................................................45 T6 - Reflexões sobre os impactos das obras de mobilidade. Hélio Oliveira Jr. Daniel Freitas. (PUC Minas) ....................................................................................................51 Página | 10 TEMA: TERRITORIALIDADES, GOVERNANÇA E POLÍTICAS SOCIAIS Grupo Temático 1 – Territorialidades, governança, identidades e soberania T1 – Entre o épico e a perdição: uma análise do imaginário territorial na identidade portuguesa. Autora: Hérica Cristina Alves de Vasconcelos.........................................57 T2 – Relativização da soberania em face à nova ordem internacional. Autor: Tiago Vieira Bontempo...........................................................................................................66 T3 – Cultura Cosmopolita versus identidade local? Mapeando zonas de turbulência, identidades e memórias no espaço público de Viçosa/MG. Autores: Douglas Mansur da Silva e Victor Cezar de Sousa Vitor.........................................................................74 Grupo Temático 2 – Territorialidades, governança: dinâmicas políticas, cooperação, conflito T1 – Os Brasiguaios e os recentes conflitos pela posse da terra no Paraguai - Autores: Isaias Albertin de Moraes e Beatriz Rodrigues Bessa Mattos......................................80 T2 – O Brasil e os Estados Unidos: um sobrevoo pela bibliografia sobre a política externa brasileira. Autora: Raquel de Bessa Gontijo de Oliveira.................................86 T3 – Análise de investimentos com recursos do BNDES nas fronteiras brasileiras: o desenvolvimento na fronteira oeste. Autor: Kaully Furiama Santos............................93 T4 – Cooperação descentralizada e atração de investimento externo direto: possibilidades e desafios. Um estudo de caso sobre Minas Gerais e São Paulo. Autora: Luciana Leal Resende Paiva.........................................................................................99 T5 – A perspectiva da descentralização e o financiamento de projetos de desenvolvimento: o relacionamento de Minas Gerais com o Banco Mundial entre 2003 e 2012. Autor: Samuel Araújo Gomes da Silva..........................................................106 Página | 11 T6 – A bacia hidrográfica do Rio Paraná: uma análise do provimento de bens públicos para conservação de espaços na região da fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai. Autor: Pedro de Melo Braga.......................................................................................114 Grupo Temático 3 – Territorialidades, governança: dinâmica dos grupos sociais e desafios da governança do território T1: O apogeu e a derrocada do distrito de Mestre Caetano – Sabará/MG. Autora Daiane de Oliveira Florêncio (expositora) e outros....................................................121 T2: Arranjos institucionais participativos e movimentos sociais: uma análise de dimensões possíveis de empoderamento a partir da experiência de participação social no âmbito do Legislativo mineiro. Autoras: Maria da Cunha Pinto Colares; Carla Bronzo Ladeira Carneiro.............................................................................................131 T3 – As novas práticas urbanas em Belo Horizonte. Autor Matheus Soares Cherem........................................................................................................................144 T4 – Planejamento urbano participativo: mapeamento dos problemas da cidade pelos seus diversos atores. Autora: Mônica Abranches........................................................152 Grupo Temático 4 – Territorialidades, governança: aspectos da exclusão / desafios da inclusão T1 – Detento/a, família, vulnerabilidades: estudo exploratório de uma unidade prisional. Autoras: Maria Flávia Vieira Batista; Maria Celeste Reis Fernandes de Souza...........................................................................................................................160 T2 – A dispersão da pobreza de Belo Horizonte na Região Metropolitana. Autores: Rita de Cássia Liberato, Thiago Canettieri; Thiago Gonçalves..................................170 T3 – Dicotomias da Marginalização. Autor: Rodrigo Faleiro Dolabella Cesar.........176 Página | 12 T4 – Descumprimento da função social da cidade: a comunidade Dandara e a política habitacional de Belo Horizonte. Autor: Marco Antônio Souza Borges Netto............182 TEMA: MEIO AMBIENTE; POLITICAS URBANAS Grupo Temático 1- Construindo a Agenda na área de Meio Ambiente T1 - A Construção Social da Sustentabilidade Urbana- Daniela Cristina Oliveira Anastácio- Faculdade Minas Gerais/FAMIG..............................................................190 T2 - O Posicionamento dos EUA nas Negociações do Protocolo de Kyoto- William Daldegan de Freitas- PUC Minas................................................................................197 Grupo Temático 2 – Políticas Urbanas: Habitação e Sustentabilidade T1 - Política Habitacional e Distinção Social em Belo Horizonte- A Fundação e o Desenvolvimento da Cidade Jardim e do Conjunto IAPI como áreas residenciais, entre 1940-1970- Mário Peters, M.A- Leibniz Universität Hannover, Alemanha....................................................................................................................206 T2 - Cooperativas de Catadores de Material Reciclável, Sustentabilidade e Inclusão Social: Um Estudo de Caso do Programa de Gerenciamento de Resíduos Sólidos Urbanos do Município de Belo Horizonte (MG)- Camila do Couto Seixas- Mestre em Desenvolvimento Sustentável (Universidade Harokopio/HUA); Graduada em Ciências Econômica (Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG); Graduada em Relações Internacionais (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais/PUC-Minas) Universidade Harokopio (Atenas, Grécia)..................................................................213 T3 - Processo e Forma, Desenho e Significado no Des-Aglomerado da Serra- Alícia Duarte Penna PUC-Minas, Érico de Oliveira e Silva PUC-Minas, Laís Grossi de Página | 13 Oliveira PUC-Minas, Margarete Maria de Araújo Silva- PUC-Minas/ EA UFMG.........................................................................................................................225 TEMA: PROTEÇÃO SOCIAL, POLÍTICAS SOCIAIS E MODOS DE VIDA URBANOS Grupo Temático 1 – Assistência social: institucionalidades e cotidiano T1 – Pobreza, desigualdades e discriminação: expressões dos usuários da política de assistência social. Autora: Maria Raquel Lino de Freitas (Serviço Social/PUC Minas)..........................................................................................................................230 T2 – Assistência social: identidade e alcance. Autora: Cibele Vieira Feital (Secretaria Estadual de Defesa Social)..........................................................................................238 T3 – O trabalho em rede e a intersetorialidade na práxis socioeducativa de internação provisória: contribuições do serviço social na garantia do acesso aos direitos. Autora: Márcia Maria Silva Brandão (Secretaria Estadual de Defesa Social).........................245 Grupo Temático 2 – Serviços sociais, assistência social e políticas públicas T1 – A complexidade da provisão de serviços sociais. Autor: Fernando Antônio França Sette Pinheiro Junior (CEDEPLAR/UFMG)..................................................258 T2 – Fronteiras da educação: a inserção do assistente social nas escolas. Autores: Bárbara Diniz Caldeira, Cléssio Cunha Mendes, Rafael Gonçalves (Serviço Social/PUC Minas)......................................................................................................264 T3 – O Sistema Único de Saúde como efetivação de direitos. Autor: Alan Pereira da Silva (Serviço Social/PUC Minas)..............................................................................271 Página | 14 T4 – Compaixão laica: OSCIP, uma travessia do desencantamento da cidadania em metáforas ordenadas do controle social. Autor: Carlos Eduardo Batista Costa (PPGCS/PUC Minas)..................................................................................................278 Grupo Temático 3 – Inserções da juventude na cidade: circuitos e “curtocircuitos T1 - Movimentos culturais urbanos e pós-modernos: o caso do manguebeat e dos grupos recriadores em São Paulo. Autora: Laís de Oliveira (Ciências Sociais/UFJF)..............................................................................................................284 T2 - No meio do caminho tinha uma pedra. Circuitos de consumo de crack na cidade de Belo Horizonte (MG), um estudo do bairro Lagoinha. Autora: Nayara de Amorim Salgado (Ciências Sociais/PUC Minas)......................................................................292 T3 - Uma análise das relações de rivalidade e pertencimento entre gangues juvenis em um aglomerado de Belo Horizonte. Autor: Rafael Lacerda Silveira Rocha (PPGS/UFMG)............................................................................................................298 T4 - Revolution: o Rock and Roll e os Beatles na contracultura soviética. Autora: Camila Mendes Froede (Relações Internacionais/PUC Minas)..................................305 T5 - Lazer e formação profissional: a construção de sabres de oficineiros do programa Fica Vivo. Autor: Samuel Santos (PPGIEL-Educação Física/UFMG).......................312 Grupo Temático 4 – Reconhecimento social: a sociedade do não reconhecimento T1 – Emprego doméstico: um estudo sobre reconhecimento social. Autoras: Carmen Lícia Macedo de Almeida, Yara Maria Frizzera Santos, Fabrícia Melatto, Mônica Silva, Pedrina Leite, Valéria Bastos (Serviço Social/PUC Minas).............................319 Página | 15 T2 – Idoso: reconhecimento de uma autonomia contraditória. Autor: Jefferson Pinto Batista (CRESS/MG)..................................................................................................326 T3 – Abuso sexual intra-familiar e pacto do silêncio; fronteiras da convivência e conivência. Autoras: Cirlene de Jesus Costa e Lívia Vallory Figueiredo (Serviço Social/PUC Minas)..........................................................................................................................335 T4 – Assistência de enfermagem à mulher vítima de violência sexual no serviço público de saúde em Belo Horizonte: refletindo sobre a política de proteção social na saúde da mulher. Autoras: Bárbara Francis Pereira da Silva, Elizabete Maria da Silva, Emanuelle Xavier da Silva, Jéssica Padrão Silveira (Enfermagem/PUC Minas)..........................................................................................................................343 T5 – Competição e autogestão em fábricas recuperadas no Brasil: é possível viver sem duplicidade a hegemonia do mercado e luta contra ela? Autora: Ana Beatriz Melo (PPGCS/PUC Minas)..................................................................................................351 Grupo Temático 5 – Cidades: narrativas e vivências T1 – A cidade-empresa de Ipatinga e seus personagens: um olhar sobre as políticas da Usiminas e seus reflexos sociais. Autora: Vanessa Costa Soares (PPGCS/PUC Minas)..........................................................................................................................357 T2 – A Consolidação da periferia nas fronteiras da RMBH: Um estudo sobre os conjuntos habitacionais estatais. Autora: Rejane de Oliveira Nazário (PPGCS/PUC Minas)..........................................................................................................................364 T3 – Etnografia nos postais: discursos, imagens e vivências na Praça do Ferreira. Autora: Ana Helena do Nascimento Barbosa (Ciências Sociais/UFCeará)........................................................................................................374 Página | 16 Grupo Temático 6 – Intervenções do poder público e (des)qualificação da vida urbana T1 – Nova Luz e Sombras: o Projeto Nova Luz [São Paulo, Brasil]. Autora: Karine Gonçalves Carneiro (PPGCS/PUC Minas).................................................................382 T2 – Segregação socioespacial e políticas públicas: em busca de melhorias para a população em situação de pobreza. Autora: Mariana Ramos de Morais (PPGCS/PUC Minas)..........................................................................................................................389 T3 – Isolamento X integração: como vivem mulheres moradoras de um novo bairro no Minha Casa Minha Vida. Autora: Theresa Raquel Reis Timo (PPGCS/PUC Minas)..........................................................................................................................395 T4 – A parceria entre a sociedade e o Estado: o exemplo do movimento Nossa BH como uma alternativa nesta interação. Autoras: Daniele Cardoso do Nascimento, Elis Rocha Palmeira e Laise Copolillo Ayres (Relações Internacionais/PUC Minas)..........................................................................................................................401 Página | 17 O Instituto de Ciências sociais não se responsabiliza pelo conteúdo dos textos publicados, que são de exclusiva responsabilidade de seus autores. 1 - MEGAEVENTOS E PSICOLOGIA SOCIAL: UM BREVE ESTUDO SOBRE AS MUDANÇAS TERRITORIAIS NA HISTÓRIA DO PORTO DO RIO DE JANEIRO E SUAS IMPLICAÇÕES POLÍTICO-SOCIAIS. Marcela Montalvão Teti O presente trabalho é resultado parcial da atividade de doutorado, iniciada em março de 2011 e que ainda continua em curso. Originário de um instituto de psicologia, tem o intuito de debater os problemas porque passam os indivíduos e grupos sociais, imersos, atravessados, por transformações e reformas urbanas. Por meio de uma proposta interdisciplinar, intenta pensar como modificações, na paisagem geográfica e urbana de uma cidade, podem resultar em efeitos de subjetivação. Distante de perspectivas que propõem uma psique unicamente centrada em indivíduos, o presente trabalho analisa como as relações sociais, atravessadas por forças históricopolíticas, concorrem para o engendramento de indivíduos. Nesse sentido, realiza um estudo a respeito das formas como transformações urbanas na região portuária do Rio de Janeiro, promovem mudanças nas formas como os indivíduos entendem a si mesmo e o mundo circundante. O período envolvido no trabalho de pesquisa é de quatro anos, 2011-1015, aquele que antecede a realização da Olimpíada de 2016. Para tanto, o trabalho de pesquisa foi dividido em duas vertentes. Uma histórica, no sentido de buscar quais modelos de urbanização atuaram na Página | 18 região portuária no último século, procurando destacar a especificidade do modelo que permeia a reforma urbanística estimulada pela lógica do megaevento. A outra vertente de pesquisa é de cunho etnográfico e tem o intuito de acompanhar mais de perto, junto aos moradores da região, o que implica a social e politicamente a “pertinência” da realização dos jogos olímpicos para a região estudada. Nesta segunda etapa, a participação regular nas reuniões do Fórum Comunitário do Porto do Rio de Janeiro e do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas, assim como leitura de relatórios e dossiês de denúncias contra violações de direitos humanos, produzidos pelos dois grupos, foram importantes para a apresentação dos resultados. A iminência dos Jogos Olímpicos na cidade do Rio de Janeiro produz na região portuária, a atuação de políticas e intervenções urbano-territoriais. São múltiplos os exemplos: construção do Museu do Mar e do Amanhã, reforma do Píer Mauá, da retirada do Viaduto da Perimetral, reforma da Praça Mauá, reconstrução do Cais do Valongo, instalação de Teleférico no Morro da Providência, construção e abertura de vias de acesso. O modelo usado para a reurbanização do Porto, apesar de controverso, é o da zona portuária de Barcelona. Na iminência dos Jogos Olímpicos de 1992, a cidade espanhola foi modificada. Baseados em projetos públicos, elaborados cerca de 10 anos antes, e com o estímulo financeiro internacional para realização dos jogos, Barcelona sofreu intervenção pública e privada para transformação da paisagem visual e estrutural. Dentre as principais alterações, os projetos privilegiavam a utilização dos espaços públicos e foram ancorados em reconstrução de praças, aumento das áreas verdes nesses espaços e instauração de vias públicas. Ao final dos jogos olímpicos daquele ano, o processo de instalação de equipamentos e reordenação urbana alcançou tamanho sucesso que hoje aquele modelo de reforma é bastante difundido. De certo modo, foi a lógica da construção de espaços abertos e de passagem, que operou também junto às transformações urbanas para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, e na reestruturação do Porto de Buenos Aires, na Argentina, durante o governo de Página | 19 Carlos Menem. Dentre as principais consequências das medidas de reurbanização, afirmam os governantes, estão a revitalização das áreas portuárias, antes locus de marginalidade, insegurança pública, tráfico e uso indiscriminado de entorpecentes, disseminação de doenças, dificuldades de circulação. A revitalização desses espaços, portanto operaria uma maior quantidade e qualidade nos fluxos de pessoas, que passam a atuar inclusive em torno de bares, restaurantes, espaços culturais e de conhecimento. Seguindo esses exemplos, a prefeitura do Rio e o Governo brasileiro afirmam que a cidade tem a possibilidade de alcançar o mesmo destino de Barcelona. As reformas dotariam o Rio e o porto de aparatos necessários para abarcar diversidade cultural, qualidade de vida e atendimento das exigências do fluxo turístico, que pretende ocupar as ruas da região nos próximos anos. Entretanto, uma breve análise dos modelos de urbanização que atuaram nas cidades, inclusive no Rio de Janeiro, e consequentemente na região portuária, mostraria que o problema da mobilidade urbana sempre esteve presente de uma forma ou de outra. Sem que, no entanto, a melhoria dos processos de mobilidade implicasse melhoria na qualidade de vida a população, mas simplesmente maior facilidade do deslocamento das classes dirigentes aos locais de produção. Ao todo, chamaríamos atenção para quatro desses modelos. O primeiro deles teria seu início na segunda metade do século XIX e teria como foco a construção de indústrias e fábricas próximos às regiões portuárias das cidades, no intuito de facilitar embarque e desembarque de produtos e pessoas. Nesse momento, residências são construídas próximas a estes locais a fim de facilitar o deslocamento de pessoas de suas casas para o trabalho e vice-versa. O segundo modelo de urbanização viria nas primeiras décadas do século XX e estaria marcado pela construção de grandes vias de acesso. Em geral essas pistas eram construídas no sentido de cortar as cidades, algumas vezes de um canto a outro, a fim de que as classes dirigentes pudessem construir moradia longe do ambiente de trabalho, sem que, no entanto seu deslocamento fosse prejudicado pela distância. Essa modificação urbana se fez necessária em virtude da alta Página | 20 proletarização das regiões próximas às fábricas e indústrias e da necessidade da classe dirigente de não estar próxima das regiões de pauperização. O terceiro modelo identificado seria o de construção de grandes vias suspensas, localizado a partir da década de 1950. A partir desse momento, o congestionamento nas cidades havia crescido muito, sendo necessárias outras vias de mobilidade. Para além das grandes pistas, boa parte das cidades passa a desfrutar de grandes viadutos ornamentando a paisagem. O último modelo teria relação direta com o modelo de cidade que é implantado junto aos megaeventos. É o modelo que começa a entrar em vigor há mais ou menos 30 anos e que privilegia a circulação em espaços públicos e cada vez mais modifica os equipamentos urbanos a fim de possibilitar idas e vindas de mercadorias e pessoas, sejam turistas ou residentes. É o modelo que produz em grande quantidade transportes subterrâneos, ciclovias, praças públicas de livre acesso, sempre com o argumento de tornar a cidade mais bonita, mais habitável, com um visual límpido e sem interposições de quaisquer equipamentos de concreto. Não é a toa que atualmente, os viadutos tão necessários anteriormente, são apresentados como um obstáculo à visualização da paisagem citadina. Nesse último modelo, está em jogo uma necessidade de uma parte da população, sejam efetivos do poder público ou privado, de ocupar espaços antes considerados degradados. O intuito de um projeto de Porto Olímpico é o de facilitar a chegada e circulação de turistas, assim como o deslocamento dos mesmos das regiões centrais para demais áreas, nas quais a Olimpíada deve se realizar. E, sob o argumento de melhoria da mobilidade urbana e melhoria da qualidade de vida de uma “população”, a cidade do Rio de Janeiro produz ações de segregação e exclusão social. Mais uma vez, no desenho urbano que se pode acompanhar, o privilégio é pelo deslocamento das classes dirigentes e completa desconsideração pelos moradores das regiões degradadas, relegados sempre ao segundo plano nos projetos. No tocante às análises, a respeito do sucesso de modelo de urbanização na zona portuária de Barcelona, pesquisadores salientam que antes mesmo de sua indicação como sede Página | 21 Olímpica os projetos urbanos já existiam. Seu reconhecimento como sede, veio somar forças para realizar projetos iniciados ou que estavam entravados por ausência de recursos. Por ser um projeto pensado bem antes de ser colocado em prática, a população das áreas afetadas foi participativa no processo. Mesmo aqueles que precisaram ser removidos, foram com negociação, viabilizando benefícios para as partes. O que os autores chamam a atenção, é que no Rio, o que se passa é o percurso contrário do que foi efetivado na cidade espanhola. Os projetos urbanos passaram a existir depois da indicação da sede olímpica dos jogos de 2016 e são implantados com demasiada rapidez, sem participação popular na elaboração dos mesmos. Fica, portanto, evidente que a retirada da população residente e a construção de equipamentos olímpicos são direcionadas somente ao desfrute uma elite cultural e social. E isso acontece sem o devido conhecimento por parte dos moradores que acompanham diariamente as construções do porto sem saber que, em poucos meses, é sua casa que será demolida e que logo serão eles que não terão lugar para morar. Muitos moradores são obrigados a se deslocar para comunidades miliciadas, como as de Senador Camará, afastados dos locais de trabalho e centros de saúde pública. A partir desse quadro político de modificações, importa à psicologia refletir a égide de uma diversificação cultural, processos de segregação social e exclusão que se configuram. A partir do exposto fica claro quais indivíduos devem atuar em determinado espaço público e quais relações são permitidas no exercício cotidiano das atividades portuárias. Palavras-chave: Região portuária, Rio de Janeiro, Olimpíadas, Urbanização, Segregação social. Referências Bibliográficas. Página | 22 ARTICULAÇÃO NACIONAL DOS COMITÊS POPULARES DA COPA. Megaeventos e violações de direitos humanos no Brasil. 2ª Ed. 10 de dezembro de 2011. Disponível em: < http://www.portalpopulardacopa.org.br/index.php?option=com_k2&view=item&id=198:dossi %C3%AA-nacional-de-viola%C3%A7%C3%B5es-de-direitos-humanos>. Acesso em: 24 ago. 2012. FORUM COMUNITÁRIO DO PORTO. Relatório de violação de direitos e reivindicações. 24 de maio de 2011. Disponível em: < http://forumcomunitariodoporto.files.wordpress.com/2011/12/relatc3b3rio-mpf-fcp.pdf>. Acesso em: 24 ago. 2012. LIRA, Ana Carla Cortês de. Enseñanzas útiles de la Barcelona Olímpica: aspectos que se deben tener en cuenta a la hora de intentar reproducir un modelo. Cadernos do PROARQ, Rio de Janeiro, n. 17, dez/2011, p. 42-53. Disponível em: < http://www.proarq.fau.ufrj.br/revista/public/docs/cadernosproarq17.pdf>. Acesso em: 24 ago. 2012. RIO DE JANEIRO (Estado). História. Docas do Rio: autoridade portuária. Disponível em: <http://www.portosrio.gov.br/node/4>. Acesso em: 09 set. 2010. 2 - IMPACTOS SOCIOESPACIAIS, AMBIENTAIS E CULTURAIS DA COPA DO MUNDO 2014 E OLIMPÍADAS 2016 NA Página | 23 CONSTRUÇÃO E DESCONSTRUÇÃO DO ESPAÇO METROPOLITANO DE BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS Naiane Loureiro dos Santos1 Lúcia Helena Ciccarini Nunes2 Resumo A Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, por meio da Pró-reitoria de Extensão-ProEx e do Observatório de Políticas Urbanas-OPUR integra um Instituto em Rede denominado Observatório das Metrópoles, vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia- INCT. Em 2011, o OPUR/ProEx integrou mais um projeto de pesquisa nacional, coordenado pelo Observatório das Metrópoles, que tem como finalidade a elaboração e aplicação de instrumentos de monitoramento dos impactos relacionados aos megaeventos na estrutura urbano-metropolitana das cidades-sedes da Copa 2014 e das Olimpíadas Rio 2016, financiado pela FINEP. 1 2 Doutoranda em Ciências Sociais pela PUC Minas; técnica do Observatório de Políticas Urbanas da Pró-reitoria de Extensão da PUC Minas; pesquisadora do Observatório das Metrópoles/Núcleo Belo Horizonte. Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro; Professora e pesquisadora do Observatório de Políticas Urbanas da Pró-reitoria de Extensão da PUC Minas; Pesquisadora do Observatório das Metrópoles/Núcleo Belo Horizonte. Página | 24 O projeto de pesquisa denominado “Monitoramento de impactos socioespaciais relacionados a megaeventos esportivos: Olimpíadas e Copa do mundo nas metrópoles - Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza, Natal, Manaus e Cuiabá”, utiliza como metodologia a pesquisa qualitativa e quantitativa, tendo por base a observação e análise do contexto atual da preparação brasileira para a Copa do Mundo e Olimpíadas, aliada à comparação com experiências anteriores. Para a realização desta análise, o projeto estrutura-se em 5 eixos temáticos interdisciplinares. O presente artigo centra-se no eixo temático: Governança Urbana e Metropolitana. Assistiram-se a seminários, reuniões temáticas, audiências públicas, congressos e outros eventos afins. Foram realizadas pesquisas junto aos alunos do Curso de Capacitação de Conselheiros Municipais e Agentes Sociais, realizado anualmente pelo OPUR desde 2003. Neste ano, foram ministradas aulas com debates e dinâmicas de grupo para discutir o tema dos Megaeventos, portanto, foram relatados fatos importantes que merecem ser analisados. Outra iniciativa relevante foi a seleção de informações oficiais disponibilizadas pelos portais de Governo do Estado e Prefeitura de Belo Horizonte, em especial, os da transparência, alem dos portais do Legislativo, Judiciário e Ministério Público com o objetivo de identificar novos arranjos institucionais de gestão urbana metropolitana, em caráter simulatório. Neste sentido, promoveu-se ainda um diagnóstico setorial sobre conselhos municipais e outras instâncias de governança, catalogadas pelo OPUR/ProEx para a elaboração do Plano Metropolitano da RMBH-PDDI, encomendado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Regional do Estado de Minas Gerais-SEDRU, bem como do volume III – Estudos Página | 25 Setoriais do referido plano. Tais estudos mostram uma forte institucionalização de instâncias de governança formal, porém um baixo grau de participação efetiva dos representantes da sociedade civil, em contrapartida a representação dos empresários junto ao governo nos projetos de desenvolvimento urbano mostra-se extremamente articulada. Até o presente momento pode-se observar significativos impactos emergentes das obras dos Megaeventos, no que diz respeito às questões ambientais, segundo dados mostrados em reportagem no Jornal Estado de Minas, Belo Horizonte eliminou mais de 22 mil árvores desde 2010: 1.149 árvores – 650 no estádio do Mineirão e quase 500 na Avenida Cristiano Machado, um dos corredores que receberão o BRT. A derrubada se soma ao corte de outros 10.173 espécimes em ruas e avenidas de BH e alcança o total de 11.322 árvores suprimidas até outubro. “[...] Belo Horizonte registra um déficit de pelo menos 7.528 árvores em relação ao início do ano 2010.” (Flávia Ayer. 21/11/2011 06:12 www.uai.com.br) Além da derrubada das árvores, vários prédios que datam da construção da cidade foram demolidos, incluindo escolas públicas, para alargamento de avenidas, por exemplo, para a duplicação da avenida Antonio Carlos estão sendo desapropriados e indenizados mais de 250 imóveis a um custo de aproximadamente R$ 110 milhões ao longo dos 2,2 quilômetros que estão em obras. Já foram realizados 80% de acordos firmados com proprietários de imóveis e já demolidos 55% das edificações. O caso da avenida Pedro I, três décadas de Pampulha estão sendo demolidas, mais 207 imóveis serão desapropriados até o final da obra. (Valquíria Lopes. 28/07/2011 06:00. www.uai.com.br) Página | 26 Quanto aos impactos socioespaciais, o mais freqüente, no caso da região metropolitana de Belo Horizonte, tem sido o relacionado à questão habitacional, como problemas com remoções, assentamentos informais, moradores em situação de rua, e também relacionados a questão trabalhista, como vendedores ambulantes e trabalhadores informais entre muitos outros. No que diz respeito aos impactos culturais, também decorrentes dessas intervenções acima citadas, foram catalogadas redução da produção de alimentos e bebidas típicos na RMBH, tais como o feijão tropeiro, tradição no Estádio do Mineirão, além de outras comidas tradicionais e artesanato. Assim, a proposta deste artigo consiste em refletir estratégias preventivas de defesa do patrimônio cultural e natural da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Palavras-Chave: Megaeventos. Governança democrática. Transparência, metrópole 1 Objetivos Este trabalho tem por objetivos discutir as estratégias preventivas de defesa do patrimônio cultural e natural da Região Metropolitana de Belo Horizonte por meio da identificação e análise da governança urbana e metropolitana, com ênfase na identificação de processos de emergência de novas coalizões de forças sociais, econômicas e políticas na gestão das cidades, processos de organização do movimento social, processos de fortalecimento do planejamento urbano e processos de controle social que possam Página | 27 reduzir os impactos negativos causados pela turistificação da capital e região em função da Copa do Mundo e Jogos Olímpicos e a patrimonialização da natureza. 2 Metodologia e informações utilizadas a) 1º Análise dos primeiros resultados da pesquisa “Megaeventos e Metropolização”; b) 2º Identificação de estudos setoriais sobre os impactos ambientais, culturais e socioespaciais emergentes dos megaeventos da copa de 2014 e das olimpíadas de 2016 na RMBH; c) 3º Análise do grau de governança e da transparência nos processos de acessibilidade da informação pela população via pesquisa realizada junto aos alunos do curso de capacitação de conselheiros municipais e agentes sociais, edição 2011; d) 4º Sistematização dos resultados e elaboração das proposições. 3 Resultados Apresentação dos espaços populares criados para enfrentamento de redução dos impactos negativos ocasionados pelos promotores dos megaeventos, como por exemplo: Comitê dos Jogos Limpos, Comitê dos Atingidos pela COPA, “Atletas pela Cidadania” etc; discutir o papel da articulação da Frente pela Cidadania Metropolitana, das redes sociais e portais na discussão do tema Megaeventos; de modo a demonstrar o papel da Página | 28 universidade na formulação e avaliação de políticas públicas para redução dos impactos negativos dos megaeventos na RMBH. Referências DOMINGUES, Edson Paulo; BETARELLI JUNIOR, Admir Antonio; MAGALHÃES, Aline Souza. Copa do mundo 2014: impactos econômicos no Brasil, em Minas Gerais e em Belo Horizonte. Belo Horizonte: CEDEPLAR/UFMG, 2011. INSTITUTO HORIZONTES. Ações e projetos estratégicos para o vetor noroeste da RMBH. Maio de 2011. Disponível em: <http://www.institutohorizontes.org.br/imagens/ estudoseprojetos/PAE_NOROESTE-TERMO-DE-REFERENCIA.pdf>. Acesso em: 27 fev. 2012. PORTER, P. K. Mega-sports events as municipal investments: a critique of impact analysis. In: FIZEL, J.; GUSTAFSON, E.; HADLEY, L. (Ed.) Sports economics: current research. Westport: CT: Praeger, 1999. p.61-73. RIBEIRO, Luiz César de Queiroz; SANTOS JÚNIOR, Orlando Alves dos (Coord.). Monitoramento de impactos sócio-espaciais relacionados a mega-eventos esportivos: olimpíadas e copa do mundo nas cidades-metrópoles: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza, Natal, Manaus e Cuiabá. Rede Nacional Observatório das Metrópoles, 2010-2013. Disponível em: <http://www.observatoriodasmetropoles.net/projetomegaeventos/> ROCHE M. Mega events and urban policy. Annals of Tourism Research, v. 21, p.1-19, 1994. Página | 29 3 – COPA DE 2014: A VENDA DO ESPETÁCULO E A RETÓRICA DO LEGADO Marco Antônio Couto Marinho e Pedro Ivo Martins Brandão No dia 30 de outubro de 2007, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) anunciou que o Brasil seria a sede da Copa do Mundo de 2014. A escolha do país logo desencadeou uma série de notícias sobre o evento na mídia brasileira. Pouco tempo depois, Belo Horizonte foi confirmada como uma das capitais que receberia jogos do maior torneio entre seleções nacionais de futebol do mundo. Serão seis partidas, incluindo quatro da primeira fase, uma das oitavas de final e uma das semifinais. E novamente os veículos de comunicação locais e regionais pautaram diversas matérias envolvendo o tema, que passou a fazer parte das discussões cotidianas da população. Nas primeiras abordagens, falou-se muito do esporte, dos craques que poderiam atuar nos campos mineiros, dos turistas que invadiriam a cidade, na festa, no espetáculo. No discurso oficial dos representantes da Prefeitura Municipal e do Governo do Estado de Minas Gerais, uma palavra ganhou destaque e passou a ser usada na estratégia retórica de defesa do evento e dos investimentos que ele demandaria: legado. O apelo está presente até nos documentos divulgados por meio do sítio eletrônico Transparência da Copa 2014 do Estado de Minas Gerais. O legado consistiria, portanto, num instrumento legitimador do evento, visto pelo conteúdo esperançoso, e em tom otimista, sobre aquilo de “bom” que a realização da Copa de 2014 poderia gerar como benefício público, concreto e duradouro para a cidade e seus habitantes. Página | 30 Neste trabalho, não temos a pretensão de medir ou julgar os possíveis ganhos e perdas públicas geradas por esse megaevento. Contudo, a proposta é analisar algumas questões relacionadas à venda da imagem positiva utilizada para justificar os custos que vem sendo feitos pelo Poder Público. Figura 1 - Peça de propaganda do Governo Federal sobre a Copa do Mundo de 2014 Fonte: Portal 2014/ Brasil, 2012. A venda de qualquer sonho é feita, antes de tudo, com a realização de promessas que produzem como efeito expectativas de que o sonho se concretize. Em um contexto urbano como o de Belo Horizonte, por exemplo, tais promessas alimentam a fé ou a esperança por melhorias de acesso ao consumo de bens sociais publicamente escassos como a segurança pública, a mobilidade urbana, a educação e a saúde. Ao todo, segundo o Portal da Transparência do Governo Federal, serão gastos na capital mineira cerca de R$ 2,3 bilhões com as ações relacionadas ao evento. As obras pactuadas entre os três níveis de governo compreendem, principalmente, a reforma do Estádio Mineirão e a melhoria do sistema de transporte, Página | 31 especialmente, nos corredores de maior tráfego que ligam as regiões da cidade ao grande palco dos jogos (BRASIL, 2012). No sítio eletrônico Transparência da Copa 2014 do Estado de Minas Gerais, o “legado” é dividido em cinco áreas: Cultura, Meio Ambiente, Mobilidade, Negócios, Saúde e Tecnologia da Informação. O apelo retórico do benefício que o megaevento trará no futuro novamente guia o discurso, como se pode observar em um dos textos presentes nesse portal oficial do Governo Estadual: A Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014 é vista em Minas como uma oportunidade para acelerar obras e projetos que vão trazer benefícios perenes à sociedade. O foco primordial de um evento desse porte no Estado é melhorar a vida das pessoas, é o chamado legado. A Copa será ainda um momento especial de Minas mostrar ao mundo tudo o que há de melhor aqui. (MINAS GERAIS, 2012, p.1). Página | 32 Figura 2 - Sitio eletrônico do Governo de Minas sobre a Copa do Mundo de 2014 Fonte: PORTAL DA TRANSPARÊNCIA/ MINAS GERAIS (2012). Diante desse quadro, o presente trabalho tem como objetivo problematizar o megaevento Copa do Mundo de 2014, em Belo Horizonte, partindo da premissa de Guy Debord (2003) sobre espetacularização da vida social. No livro intitulado “A sociedade do espetáculo”, publicado pela primeira vez em 1967, o autor francês descreve um cenário que nos parece bem adequado para o debate de algumas questões relacionadas à já citada retórica do legado. Segundo ele, a vida nas sociedades modernas se transformou em uma grande representação, em que as relações sociais são atravessadas pela afirmação da aparência. A realidade, para Debord (2003), é sobreposta pela contemplação passiva do espetáculo, cuja forma e conteúdo justificam um sistema capitalista baseado no consumo. Página | 33 E o que é a Copa do Mundo, senão um exemplo cristalinho de um espetáculo fundado e edificado de maneira pujante sobre um jogo que, por si só, já poderia ser entendido como uma materialização do consumo via espetacularização? Toda essa lógica da imagem permeia o discurso construído para justificar o megaevento aqui analisado, que assume uma dimensão de realidade. A retórica do legado, portanto, ganha sentido em meio às aparências e sentimentos embarcados na espetacularização de um torneio de futebol. Assim, há uma retórica forjada de que a Copa de 2014 surge como garantidora da efetivação de vários direitos públicos. Observa-se nisso uma tentativa de cooptação da cidade em torno de tais legados, como se a própria sociedade se tornasse uma refém do espetáculo que produz. Deste modo, estaríamos conquistando o acesso à segurança pública, à mobilidade urbana, à educação e à saúde ou apenas reproduzindo novas formas de consumo? Um dos pontos que justifica esse questionamento está claramente exposto no orçamento dos investimentos previstos para adequar a cidade de Belo Horizonte às exigências da Federação Internacional de Futebol: o valor para a reforma do estádio Mineirão é de R$ 695 milhões (BRASIL, 2012), o que representa quase um terço do total de recursos que serão gastos em Belo Horizonte. O espaço, que pertence ao Governo do Estado, será o palco maior do espetáculo de consumo do lazer durante o megaevento. Aliás, é bom ressaltar que uma empresa privada ficará responsável pela operação do estádio por 25 anos, em uma parceria público-privada que, segundo o sítio eletrônico do Governo do Estado, terá o cidadão da capital mineira como principal beneficiado: “Nesse jogo de ganha ganha, o grande vencedor será o torcedor que passará a ser visto como um cliente. Esse novo torcedor-cliente vai frequentar um estádio mais confortável, seguro, acessível e sustentável”. (MINAS GERAIS, 2012). Daí uma clara controversa, como se a conquista da cidadania dependesse antes, da conquista de outro status: “cliente”. Página | 34 Outro ponto que nos chamou à atenção é o modo como a segurança pública tem sido considerada pelo evento. Entre os dias 14 e 18 de maio deste ano de 2012 ocorreu no Boulevard Shopping uma exposição realizada pela Polícia Federal denominada de “Portas Abertas”. O objetivo da exposição era de expor publicamente os sistemas de segurança que serão utilizados durante a realização do Mega Evento como cães farejadores, robôs que desativam bombas, armamentos pesados entre outros artefatos de guerrilha. Corroborando com Debord (2003), notase na exposição feita pela Polícia Federal uma grande exibição de imagens que reforçam o fetiche em torno da segurança pública como expõe o trecho a seguir, retirado do site do Shopping Boulevard durante a campanha publicitária feita para divulgação da exposição mencionada: Uma das atrações do evento será a simulação de desativação de artefatos explosivos, feita por um robô, comprado no Canadá para esse fim. No Brasil, só existem cinco exemplares do robô “Vanguard”. O equipamento já auxiliou na segurança do Pan de 2007 e nos Jogos Mundiais Militares. Segundo a PF, outros 12 serão adquiridos para atender as cidades-sede da Copa do Mundo. Além do robô, a exposição mostrará um traje antifragmentos para proteger os peritos que desmontam artefatos explosivos. O traje pesa 45 quilos e é o mesmo que aparece no início do premiado filme “Guerra ao Terror”. (SHOPPING BOULEVARD, 2012, p.1). Página | 35 Como imaginar um espetáculo do porte da Copa do Mundo sem exibicionismos como estes, semelhantes aos utilizados no cinema blockbuster? Robôs, armas, equipamentos e trajes de guerra tornam-se atrações extras do Mega Evento, ao mesmo tempo em que a retórica forjada pelo poder público, federal, estadual ou municipal estruture-se sobre um discurso em torno do interesse público. Desta forma não responde adequadamente à pergunta com a qual encerramos o texto: Copa, para quem? Referências BOULEVARD SHOPPING. Exposição Polícia Federal. Disponível em: < www.boulevardshopping.com.br/.../Release-23-Semana-da-PF.pdf >. Acesso em 25 de maio de 2012. BRASIL. PORTAL 2014. Disponível em: < http://www.portal2014.org.br/ >. Acesso em: 08 de maio de 2012. DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. E-book digitalizado por Coletivo Periferia e eBooks Brasil, 2003. Disponível em: < http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/socespetaculo.html >. Acesso em: 03 de março de 2012. Página | 36 MINAS GERAIS. Portal da Transparência de Minas Gerais. Disponível em:< http://www.copa.mg.gov.br/ >. Acesso em: 14 de abril de 2012. 4 - EXPERIÊNCIAS POSITIVAS DE MORADIA POPULAR EM REGIÃO CENTRAL X TENDÊNCIAS NEGATIVAS EM VÉSPERAS DE COPA DO MUNDO Tatiana Soledade Delfanti Melo3 A discussão apresentada deriva da dissertação de mestrado da autora intitulada: “A Vila Santa Isabel na Avenida Afonso Pena: a experiência positiva da moradia popular em região central de Belo Horizonte”. Os aspectos positivos verificados na pesquisa referem-se às relações sociais pacíficas e interdependentes existentes entre moradores da Vila Santa Isabel (favela) e moradores dos bairros do entorno (classe média e alta). A Vila Santa Isabel é, também, um exemplo positivo de uma forma particular de ocupação urbana que contribui para atenuar fronteiras físicas e sociais. No entanto, a Vila Santa Isabel, assim como todas as Vilas delimitadas como ZEIS localizadas na região central de Belo Horizonte tendem a desaparecer a partir de um acirramento da pressão imobiliária, principalmente para a construção de empreendimentos que visam a Copa do Mundo 3 Professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC Minas. Pesquisadora Colaboradora do Observatório das Metrópoles vinculado ao Núcleo Belo Horizonte do Projeto Metropolização e Megaeventos (Observatório das Metrópoles/ IPPUR/UFRJ). Página | 37 FIFA/ 2014. O artigo pretende analisar em que medida as políticas públicas orientadas pelos megaeventos contribui para atenuar ou reforçar as fronteiras na cidade, a partir do exemplo da Vila Santa Isabel em Belo Horizonte e da Vila Autódromo na cidade do Rio de Janeiro. A Vila Santa Isabel na Avenida Afonso Pena é uma favela de área e população reduzida. Ocupa quatro mil metros quadrados em dez lotes de frente para a Avenida Afonso Pena e possui 48 domicílios. É remanescente da Pindura Saia, uma favela muito maior que ocupava o morro em torno do Reservatório de Água do bairro Cruzeiro desde a década de 30, à época área distante e periférica da cidade, atualmente área central e valorizada. A quase completa extinção da Favela Pindura Saia ocorreu na década de 70, sob a vigência da Política de Erradicação de Favelas executada pelo órgão municipal CHISBEL (MELO, 2012). A experiência da moradia popular na Avenida Afonso Pena mostrou-se positiva sob vários aspectos. Um deles foi verificado na interação socioespacial, como oposto da segregação (MENDONÇA, 2002), existente entre moradores da Vila e moradores do bairro. Outro aspecto refere-se à estrutura de oportunidades (KAZTMAN; FILGUEIRA, 1999) que contribui para o acesso aos direitos sociais constitucionais que os moradores da Vila Santa Isabel possuem em função da localização da moradia, tais como trabalho, educação, saúde, lazer e segurança. A Vila Santa Isabel não possui os requisitos que justificam a remoção de favelas executada pela instituição responsável pelas áreas de favelas do município - URBEL: não está no meio do caminho, nem em área de risco, encontra-se urbanizada e em terreno de propriedade pública municipal. Contudo, a regularização fundiária como preconiza a “nova ordem jurídicourbanística” (FERNANDES, 2006) não é cogitada pelo poder público municipal e recentemente o Conselho Municipal de Habitação aprovou a Resolução nº XVIII (09/09/2011) denominada “Operação Urbana em ZEIS”. Página | 38 Esta resolução trata-se de uma articulação legal para extinguir as ZEIS – Zona Especial de Interesse Social - das áreas centrais. A primeira iniciativa para viabilizar um empreendimento neste tipo de operação urbana é retirar a área do zoneamento ZEIS. Mas se o zoneamento como ZEIS é o que tem permitido a permanência das vilas nas áreas centrais (FERNANDES, 2003), a “Operação Urbana em ZEIS” é uma ameaça a estas áreas e surge num momento de grande demanda por hotéis na área central (MELO, 2012). A maior fronteira social frequentemente enfrentada por um morador da favela é imposta pelo estigma (MELO, 2012). Nesse aspecto, o morador da Vila Santa Isabel se distingue: a maioria dos entrevistados não considera haver preconceito, discriminação ou estigma – e esta é uma diferença importante. Para os moradores entrevistados na Vila Santa Isabel a vida cotidiana em meio à centralidade de maior pujança da metrópole é “pacata”, “tranquila”. “Os vizinhos são bons, ninguém incomoda”, disse um morador. Os conflitos existem; Lícia Valladares (2005) já atentou para o “mito da comunidade coesa”. Mas, “não há tiroteio, nem confusão tem”, disse outro morador. “Perto de outras favelas aqui é o céu!”, exclamou moradora de 69 anos. A violência atribuída ao território da favela não se verifica ali e esta é outra diferença importante. O que os moradores da Vila mais gostam é da vizinhança, seguida da localização. A vizinhança e a estrutura familiar são determinantes para o aproveitamento da estrutura de oportunidades (KAZTMAN; FILGUEIRA, 1999) oferecida pela localização. Nas proximidades da Vila os moradores estudam, trabalham, consomem, passeiam, enfim, tecem a trama social que dá vida à cidade. O desenvolvimento dos estudos dos jovens é positivo; metade deles terminou o segundo grau com a perspectiva natural da universidade (MELO, 2012). Página | 39 A “proximidade física” não agrava a “distância social” (RIBEIRO, 2008). Quando os moradores dizem “os ricos pra lá, nós pra cá”, expressam o “individualismo próprio das formas de sociabilidade contemporâneas” (ANDRADE; JAYME; ALMEIDA, 2009), mas não a “segregação que exclui o outro” (MENDONÇA, 2002). Possuem preferência nas vagas de trabalho da região, são percebidos positivamente pelos vizinhos como a expressão da diversidade da cidade (JACOBS, 2000). Os moradores entrevistados gostam de morar na Vila e querem permanecer. Para os entrevistados moradores dos bairros do entorno imediato a vontade dos moradores da Vila deve prevalecer. Porém, as prospecções futuras dos moradores da Vila Santa Isabel não são positivas, indicam pouca capacidade de (ou mesmo disposição para) resistência. Imaginam que serão removidos porque o “terreno é caríssimo”, disse morador. Já outro morador respondeu à pergunta - Como imagina o futuro da Vila? - assim: “até a copa [2014] vão pô nóis pra corrê” (MELO, 2012). O direito à moradia é assegurado pela Constituição Federal. Pela lei, os moradores deveriam ter sua segurança jurídica da posse. Com esta garantia, reconhecida através de uma Concessão Real do Direito de Uso (CDRU), por exemplo, poderiam até se mudar se assim desejassem (como foi manifestado por alguns moradores). Mas a área de ZEIS deveria permanecer para assegurar o direito à moradia para as futuras gerações. Por isso, o poder público ao invés de se unir à iniciativa privada para articular a extinção das ZEIS, deveria cumprir o arcabouço legal que ampara o direito à moradia e à cidade, ampliando a quantidade de ZEIS nos vazios urbanos centrais (MELO, 2012). Página | 40 Nas palavras de Maricato: A conhecida figura do zoneamento poderia ser utilizada para garantir áreas com um mix de moradia de camadas de renda média e interesse social, mas, em vez disso, o zoneamento tem contribuído para restringir o mercado e, portanto, o acesso à moradia, por meio de padrões excludentes e segregadores ou distinguidores. (MARICATO, 2000, p. 177, grifo meu). O “mix de moradia” defendido por Maricato é o que se observa no contexto urbano da Vila Santa Isabel, embora não tenha derivado de um propósito das sucessivas leis de zoneamento da cidade. A região é de renda alta e média, há diversidade de usos e há a presença das três vilas diretamente conectadas à malha de transporte urbano. Esta forma do arranjo urbano, através do mix, mostrou-se mais eficaz na interação social entre Vila, bairro e cidade, do que o Programa Vila Viva cujo slogan é de “Integração das Vilas à Cidade”. A experiência da moradia popular na Avenida Afonso Pena, área central de Belo Horizonte, verificada no caso da Vila Santa Isabel, permitiu verificar o que é o oposto da segregação socioespacial e como a interação social relaciona-se diretamente com a configuração do espaço urbano. O espaço urbano que mistura moradias “caras” e “baratas”, mercado sofisticado e popular, e que por isso é acessível a diferentes grupos sociais, mostrando que há uma interação socioespacial possível. O mix de moradias demonstra ser possível a atenuação de fronteiras físicas e sociais (MELO, 2012). Página | 41 O artigo pretende investigar outros exemplos positivos de inserção das moradias populares em áreas centrais e que, como a Vila Santa Isabel e demais Vilas centrais em Belo Horizonte, vêm sendo pressionadas pela demanda de empreendimentos gerada pela Copa do Mundo 2014. Um destes exemplos é a Vila Autódromo na cidade do Rio de Janeiro4. Nesta Vila, localizada em área central e valorizada, há pressão imobiliária para a erradicação e construção de empreendimentos destinados à Copa de 2014. No entanto, os moradores estão mobilizados para elaborar um plano popular composto a partir de suas demandas reais. Este plano popular de demandas ascendentes é uma mobilização positiva, é uma forma de resistência com amplo significado. Embora os canais de voz sejam reduzidos (BURGOS, 2005), as classes populares não são amorfas, nem se encontram adormecidas, como parecem julgar aqueles que possuem o poder da decisão. A análise sobre os exemplos positivos de moradia popular em área central, sobre a pressão imobiliária exercida nestes territórios em vésperas de copa do mundo e sobre as formas de mobilização e resistência dos moradores e da sociedade como um todo pretende contribuir para a reflexão sobre as políticas de mercado que insistentemente têm sido chamadas de políticas públicas. Palavras-Chave: ZEIS em Áreas Centrais. Direito à Moradia. Dinâmica Imobiliária. Copa do Mundo FIFA/ 2014. http://www.portalpopulardacopa.org.br/vivaavila/index.php/joomla-forums http://comitepopulario.files.wordpress.com/2012/08/planopopularvilaautodromo.pdf http://raquelrolnik.wordpress.com/2012/08/20/vila-autodromo-remocao-e-eleicoes/ 4 Página | 42 Referências ANDRADE, Luciana Teixeira; JAYME, Juliana Gonzaga; ALMEIDA, Rachel de Castro. Espaços públicos: novas sociabilidades, novos controles. Cadernos Metrópole, v. 21, p. 131-153, 1º sem. 2009. BURGOS, Marcelo Baumann. Cidades, território e cidadania. Dados: Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 48, n. 1, p. 189-222, 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/ pdf/dados/v48n1/a07v48n1.pdf> Acesso em: 26/09/2011. FERNANDES, Edésio. Legalização de favelas em Belo Horizonte: um novo capítulo na história? In: FERNADES, E.; ALFONSIN, B. (Org.). A lei e a ilegalidade na produção do espaço urbano. Belo Horizonte: Del Rey, 2003. FERNANDES, Edésio. Legalizando o ilegal. In: BRANDÃO, Carlos Antônio Leite (Org.). As cidades da cidade. Belo Horizonte: UFMG, 2006. JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000. KAZTMAN, Ruben. FILGUEIRA, Carlos. Marco conceptual sobre activos, vulnerabilidad y estructura de oportunidades. Montevideo: CEPAL, 1999. MARICATO, Ermínia. As idéias fora do lugar e o lugar fora das idéias: planejamento urbano no Brasil. In: ARANTES, O.; VAINER, C.; MARICATO, E. A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. Petrópolis: Vozes, 2000. p.121-192. Página | 43 MELO, Tatiana Soledade Delfanti Melo. A Vila Santa Isabel na Avenida Afonso Pena: a experiência positiva da moradia popular em área central de Belo Horizonte. 2012. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Núcleo de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Belo Horizonte. MENDONÇA, Jupira Gomes de. Segregação e mobilidade residencial na Região Metropolitana de Belo Horizonte. 2002. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, Rio de Janeiro. RIBEIRO, Luiz César de Queiroz. Proximidade territorial e distância social: reflexões sobre o efeito do lugar a partir de um enclave urbano. Revista Ver a Cidade, Ano 3, n. 3, páginas, maio 2008. VALLADARES, Lícia do Prado. A invenção da favela: do mito de origem à favela.com. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 2005. Página | 44 5 - INVESTIMENTO OU PASSIVO SOCIAL: CONSIDERAÇÕES SOBRE AS SALVAGUARDAS INSTITUCIONAIS FIADORAS DAS COMPETIÇÕES DA FIFA NO BRASIL E SEUS DESDOBRAMENTOS PARA NOSSA EXPERIÊNCIA DE DEMOCRACIA Radamés Andrade Vieira Palavras-Chave: Estado de exceção, megaeventos, consentimento dos governados. Além dos atrasos no que tange à execução austera dos prazos contratados para as obras necessárias à concretização da Copa do Mundo FIFA 2014 e da Copa das Confederações FIFA 2013, muito se tem dito, em tom um tanto exprobratório, sobre as altercações entre o governo brasileiro e a FIFA. O alvoroço da opinião pública tem recaído, contudo, numa preocupação pueril com o verniz de maioridade institucional e em não dar ensejo a um vexame de repercussão internacional, calcado no descumprimento das obrigações acordadas com a entidade mundial que regula o esporte de futebol de associação. Um receio como este, apesar de legítimo, revela algo de uma mentalidade vassala, ainda sobrepujada pela lógica do colonizado. Além disso, oblitera um dilema de maior relevância a um país que ainda tem procurado rotinizar uma expertise democrática tantas vezes postergada nos variados regimes de exceção pelos quais passou, qual seja, o fato de que a organização da Copa do Mundo FIFA 2014 não pode representar uma ameaça às instituições políticas e jurídicas que, de forma claudicante, têm sido aqui construídas. Página | 45 É importante salientar que no documento de candidatura do Brasil à sede da Copa do Mundo FIFA 2014, o Governo Federal assumiu com a FIFA o compromisso de afiançar serviços e isenções para assegurar a execução total da organização do evento. Tais garantias governamentais foram ratificadas após o anúncio de confirmação do país como sede da copa. Para salvaguardar tais obrigações, o Governo Federal assumiu o compromisso de modificar dispositivos em nossa legislação, no período correspondente à organização e consecução dos eventos, pois apenas desse modo poderia se ajustar às exigências da FIFA. Quando em dissonância com a legislação brasileira, essas garantias têm sido referendadas através de Medidas Provisórias usadas como instrumento de exceção, como ferramenta de ingerência imediata do Poder Executivo em nichos de competência de outras esferas. Exemplares dessa legislação específica são: a LEI Nº 12.462, de 5 de Agosto de 2011, a qual Institui o Regime Diferenciado de Contratações Públicas – RDC; a LEI Nº 12.350, de 20 de Dezembro de 2010, a qual dispõe sobre medidas tributárias referentes à realização, no Brasil, da Copa das Confederações FIFA 2013 e da Copa do Mundo FIFA 2014; a Lei nº 12.348, de 15 de Dezembro de 2010, a qual dispõe sobre o limite de endividamento de Municípios em operações de crédito destinadas ao financiamento de infra-estrutura para a realização da Copa do Mundo FIFA 2014 e dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016; a LEI Nº 12.663, de 5 de Junho de 2012, a qual dispõe sobre as medidas relativas à Copa das Confederações FIFA 2013, à Copa do Mundo FIFA 2014 e à Jornada Mundial da Juventude – 2013. O fato crucial é que a FIFA, seus parceiros comerciais e operacionais, além de consórcios, empresas e Página | 46 instituições interessadas nas promessas de negócios geradas por um megaevento desse porte querem se resguardar juridicamente em relação as suas transações. Esse texto é produto do Projeto Metropolização e Mega-Eventos: impactos dos Jogos Olímpicos 2016 e da Copa do Mundo 2014, realizado pelo Observatório das Metrópoles, que reuniu instituições de pesquisa e pesquisadores das doze cidades que receberão jogos da Copa do Mundo FIFA Brasil 2014. A pesquisa procura verificar os impactos dos megaeventos esportivos sobre o desenvolvimento econômico, os equipamentos e serviços urbanos, a moradia e dinâmica urbana e ambiental e, enfim, sobre a governança urbana e metropolitana. O conteúdo dessa exposição representa parte de um dos eixos da pesquisa cuja investigação recai sobre a governança urbana e metropolitana. O trabalho examina, do ponto de vista sociológico, a forma como certas alterações legislativas e medidas administrativas de caráter excepcional ligadas à promoção dos megaeventos podem violar ou dispensar salvaguardas fundamentais para a preservação de princípios constitucionais arduamente construídos em nosso país e, além disso, de que modo essas excepcionalidades não constituiriam, do ponto de vista de nossa cultura política, a recrudescência de formas clientelistas e patrimonialistas de administração do Estado. Um Estado disposto a fazer concessões, alterações legislativas e medidas administrativas de caráter excepcional corre os riscos de franquear aos negócios precedentes desfavoráveis e até mesmo, violações no âmbito jurídicoconstitucional. Nestes termos, é notável que o povo, quando não apartado dos processos consultivos relativos aos interesses que gravitam no fulcro dos megaeventos, é nitidamente alijado dos processos deliberativos. É temerário que a realização de megaeventos como a Copa do Mundo FIFA 2014 e a Copa das Confederações FIFA 2013 represente, de uma perspectiva tanto política como jurídica, um agravo ao consentimento dos governados, ao franquear a entidades Página | 47 internacionais como a FIFA e aos seus parceiros uma ingerência inadequada sobre a soberania do Brasil. Um dos desafios na organização de um megaevento como a Copa do Mundo FIFA num país como o Brasil é o de coordenar os esforços entre os diferentes entes federativos, preservando a autonomia e a atribuição de cada um e garantindo, ao mesmo tempo, o cumprimento de um único projeto. Para tanto, foi desenvolvido um Plano Estratégico das Ações do Governo Brasileiro para a Copa do Mundo FIFA 2014 e uma estrutura de governança cunhada para dar-lhe efetividade. A presidência da República Federativa do Brasil decretou a criação dessa estrutura de governança para articulação entre os entes federados, órgãos públicos e parceiros privados envolvidos e destes com o Comitê Organizador Local da Copa do Mundo FIFA 2014. Assim como o Governo Federal assumiu responsabilidades perante a FIFA, de modo análogo, as cidades-sede dos jogos também as assumiram. Nesta acepção, foi constituído um instrumento para celebrar esse acordo: a Matriz de Responsabilidades. Este protocolo de cooperação federativa assinado entre a União, os Estados, os Municípios e o Distrito Federal define as responsabilidades de cada um dos entes no que tange às fontes de recursos e à execução daqueles projetos avaliados como essenciais para a realização da Copa. Nestes termos, foi assinado entre o Comitê Organizador Brasileiro da Copa do Mundo FIFA 2014 e as Cidades Candidatas um termo de compromisso, por meio do qual as cidades selecionadas à sede das competições se comprometeram a firmar instrumentos necessários à conjunção de esforços entre os entes federados na fixação de prioridades, prazos e encargos correspondentes aos empreendimentos relacionados às competições. Portanto, a pretexto de uma mercantilização da cidade, fortemente calcada num modelo desenvolvimentista predatório e revigorante da segregação sócio-espacial, Página | 48 nossos governos se comprometeram nos três níveis federados a promover as concessões que se fizessem necessárias a realização dos megaeventos. Conforme o sociólogo alemão Max Weber, em sua famosa conferência A política como vocação, “o Estado moderno é um agrupamento de dominação que apresenta caráter institucional e que buscou (com êxito) monopolizar, nos limites de um território, a violência física legítima como instrumento de domínio e que, tendo esse objetivo, reuniu nas mãos dos dirigentes os meios materiais de gestão” (WEBER, 1970, p. 62). Além de recursos financeiros, militares ou qualquer outra espécie de recurso utilizável para fins políticos, decerto um dos mais evidentes meios materiais de gestão é o da produção jurídica, de vez que é o aparato mais relevante para convalidar os interesses em jogo na gestão do espaço público. E é justamente porque não é neutro o campo no qual a prática jurídica e o discurso são produzidos, é que nos interessam as variáveis jurídicas associadas aos discursos que fomentam a Copa do Mundo FIFA Brasil 2014. Pierre Bourdieu destaca em seu trabalho O poder simbólico que o campo jurídico possui como apanágio a ‘concorrência pelo monopólio do direito de dizer o Direito’, isto é, tal campo é um espaço no qual estão em disputa agentes investidos de uma aptidão em decodificar um corpus de textos que sanciona uma perspectiva justa e legítima do mundo social. Por isso, os problemas correlacionados à definição do marco legal regulatório da Copa do Mundo FIFA Brasil 2014 são tão essenciais à nossa discussão. Numa sociedade democrática, por suposto, não se pode reservar ao povo o papel de dar o mero referendo aos interesses de uma pequena oligarquia, ao contrário, só podemos dar a reputação de democracia ao Estado que baseia sua governança no mais transparente princípio do consentimento dos governados. Afinal, mais que fazer do processo consultivo mero protocolo e simulacro, é imperioso preceituar os instrumentos indispensáveis para afiançar que os interesses do povo sejam mais que uma manifestação improlífica, mas que tenham incidência na deliberação Página | 49 final. Nesta acepção, já reunimos um passivo de protelações sociais que dispensam aprofundamentos teóricos. E por mais que não se deva reificar os megaeventos como se estes batizassem em novas águas a governança urbana e metropolitana, todavia eles revelam de forma ruidosa, truculenta e aparatosa a lógica de proscrição dos cidadãos das arenas de decisão. Referências Bibliográficas: BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. WEBER, Max. Ciência e política: Duas vocações. A política como vocação. São Paulo, Cultrix, 1970. Página | 50 6 - REFLEXÕES SOBRE OS IMPACTOS DAS OBRAS DE MOBILIDADE DA COPA DO MUNDO FIFA/2014 EM BELO HORIZONTE Hélio Rodrigues de Oliveira Jr.5 Daniel Medeiros de Freitas6 A análise que aqui se apresenta está inserida em uma pesquisa mais ampla, de caráter prospectivo, iniciada em março de 2011, na qual são monitorados e investigados os impactos concretos e potenciais das obras de mobilidade da Copa do Mundo FIFA/2014 sobre a estrutura socioespacial da capital mineira. Esta pesquisa visa a compreensão dos processos de implantação de equipamentos e serviços coletivos, de acesso à moradia e a distribuição dos diferentes grupos sociais nos espaços da cidade, bem como a identificação de processos de diferenciação, segmentação e segregação urbana vinculados ao acolhimento deste megaevento esportivo pela 5 Graduado em Ciências Sociais pela FAFICH/UFMG (2000). Mestre em Sociologia pela FAFICH/UFMG (2005). Doutorando em Ciências Sociais pela PUC Minas (2011). Coordenador do Núcleo Belo Horizonte do Projeto Metropolização e Megaeventos: os impactos da Copa do Mundo/2014 e Olimpíadas/2016 (Observatório das Metrópoles/IPPUR/UFRJ). 6 Arquiteto pela PUC Minas (2000). Especialista em revitalização urbana (2004). Mestre (2006) e doutorando da Escola de Arquitetura da UFMG (2012). Professor do Centro Universitário UNA e do departamento de Urbanismo da EA‐UFMG. Pesquisador Colaborador do Observatório das Metrópoles vinculado ao Núcleo Belo Horizonte do Projeto Metropolização e Megaeventos (Observatório das Metrópoles/IPPUR/UFRJ). Página | 51 cidade de Belo Horizonte. Com efeito, a partir deste contexto urbano-metropolitano e para os fins que se delineiam na presente análise, procuramos caracterizar as intervenções de mobilidade urbana em andamento e aquelas já previstas, para, em seguida, formular algumas questões relacionadas aos seus impactos, seus legados e a relação destes com o planejamento urbano estratégico vigente. Palavras-chave: Mobilidade urbana. Impactos socioespaciais. Legados urbanísticos. Planejamento urbano. Copa do mundo FIFA/2014. __________________________________ Em seu desenvolvimento, a metrópole convive com problemas que requerem a oferta regular de soluções a serem planejadas em médio e longo prazos. A alta concentração de renda, a especulação imobiliária e a consequente elevação do preço da terra, o surgimento de empreendimentos imobiliários privados, que invadem áreas estratégicas de preservação ambiental, a ampliação dos serviços de água e esgoto, bem como dos serviços de transporte de massas, a abertura de corredores de passagem para veículos automotores, que têm seu número consideravelmente aumentado e que implica a desapropriação de imóveis, entre outros, informam a questão urbana em diferentes níveis e remetem às políticas públicas mais adequadas para seu o tratamento. Assim, é de se esperar que a geração de alternativas viáveis para a resposta contínua a tais demandas seja contemplada no plano estratégico e administrativo das grandes cidades. Página | 52 Parece ser exatamente neste sentido que a relação entre a hospedagem de megaeventos esportivos e as possibilidades de transformações urbanas estruturais se apresenta como meio de resolver e/ou de mitigar alguns dos problemas prementes acima elencados, visto que estes podem funcionar como fator catalisador de investimentos destinados a promover tanto desenvolvimento econômico quanto reabilitação urbana. No entanto, é fundamental salientar que o legado urbanístico de um megaevento esportivo não deve ser, a priori, pensado como intrínseco a este, mas, também, como potencialmente definido pela política urbana e pelo delineamento de prioridades dentro do rol de intervenções previstas por esta mesma política, em cada contexto. Notoriamente, é a partir da década de 1990 que os megaeventos passaram a ser associados ao planejamento estratégico e ao desenvolvimento econômico e de imagem das cidades. Via de regra, a perspectiva de que os megaeventos têm potencial para promover melhorias diversas no plano socioespacial metropolitano passou a vincular-se à reabilitação urbana efetiva, contemplando aspectos ligados à mobilidade urbana, ao transporte, à habitação, ao saneamento e gestão de resíduos, à limpeza de zonas contaminadas, à infraestrutura social e cultural etc., tal como argumentou Raquel Rolnik em relatório de ampla repercussão apresentado na ONU (ROLNIK, 2010). Contudo, se, em tese, o acolhimento de eventos com grandes proporções pode ocasionar ganhos significativos para as cidades anfitriãs, a experiência internacional tem demonstrado que, nos diversos contextos em que estes foram promovidos e realizados, manifestou-se uma forte tendência de se privilegiar o desenvolvimento econômico em detrimento da reabilitação urbana, o que suscita cautela quanto à avaliação deste tipo de fenômeno e dos impactos a ele associados. Página | 53 Neste sentido, pesquisas recentes têm demonstrado que: (a) em quase todos os países que acolheram megaeventos esportivos o ganho esperado fica aquém do gasto final, gerando prejuízo aos cofres públicos, coberto por intermédio de deslocamento de fundos e cortes orçamentários; e (b) não existem estudos que comprovem que a realização de megaeventos possibilitou redução da pobreza e diminuição da desigualdade social, ao contrário, a maioria das análises têm revelado que estes contribuíram para agravar tais problemas (PILLAY; BASS, 2008). Quanto ao caso brasileiro, essas observações parecem apontar para desdobramentos consoantes aos acima mencionados, visto que a análise de um quadro geral de políticas e intervenções urbanas em curso nas cidades-sede da Copa 2014 apresenta fortes indícios de que estamos experimentando uma forma de planejamento urbano dedicado a atender as demandas deste megaevento, subordinando aquelas das cidades e de seus cidadãos (VAINER, 2010). No caso de Belo Horizonte, embora seja verdade que a maioria das obras de mobilidade associadas à Copa já estivessem previstas pelo Plano Diretor de 1996 (e Relatórios e Estudos Institucionais específicos desencadeados por ele), fazendo, portanto, parte da política urbana de médio e longo prazos do município, a implementação do Projeto Copa 2014 apresentado pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e pelo Governo do Estado de Minas Gerais – que define que a concepção dos investimentos deve atender aos requisitos da FIFA, à expectativa do torcedor, mas, sobretudo, deve servir como instrumento de antecipação de investimentos que promovam o desenvolvimento econômico, social e cívico, deixando um legado para a sociedade (Planejamento Estratégico Integrado, 2009) – tem demonstrado que determinadas intervenções adquirem contornos de uma aparente urgência, indicando uma atuação sobre o espaço não mais que pontual e casuística, tornando-as potencialmente isoladas de uma política e de um planejamento urbano estratégicos e, sobretudo, passíveis de gerar impactos outros, não previstos e/ou corretamente dimensionados. Página | 54 De fato, a política urbana ora adotada já desencadeia impactos significativos associados a dois processos em curso na cidade de Belo Horizonte. O primeiro remete à violação do direito de moradia, vinculado, sobretudo, às desapropriações para implantação das obras, quase sempre viabilizadas pelo argumento de urgência e de exceção que caracteriza o contexto diante da iminência da Copa 2014. O segundo diz do conjunto de fatores que informam a valorização imobiliária que, além de potencializar o primeiro impacto, contribuindo indiretamente para a segregação urbana, atua na apropriação privada dos investimentos públicos, ou seja, se vale das intervenções promovidas pela administração pública para obter benefícios diretos de ganhos sobre o preço da terra e a valorização da propriedade privada. Por outros termos, quando vinculadas à Copa 2014, tais intervenções se sucedem de modo desarticulado e sugerem a afirmação de uma política urbana alinhada e amigável ao mercado, assim como estruturada a partir de uma legislação de exceção, em detrimento da necessária reabilitação urbana, não contribuindo, portanto, para a consecução dos fins inicialmente propostos tanto pelo Plano Diretor quanto pelo Projeto Copa 2014, o que parece confirmar algumas hipóteses levantadas por pesquisadores proeminentes dedicados a analise desta temática e das peculiaridades do caso brasileiro em relação ao acolhimento de megaeventos esportivos. Por conseguinte, uma vez que desarticuladas e priorizadas em virtude de sua urgência, o conjunto de obras de mobilidade urbana viabilizados pela Copa do Mundo de 2014, além de gerar impactos não previstos sobre a dinâmica urbana, demonstra fragilidades do planejamento urbano que podem vir a comprometer seu legado (que, tal como se esperava, seria positivo) e potencializar seus efeitos negativos sobre a cidade. Essa situação nos leva a questionar o montante Página | 55 de investimentos que, mal aplicados, não promovem nem o legado esperado, nem a reabilitação urbana possível e pretendida, podendo gerar, inclusive, futuros prejuízos aos cofres públicos. A partir de uma caracterização preliminar das principais intervenções previstas e daquelas em curso na cidade de Belo Horizonte – compondo um total de sete, consideradas de maior relevância, sendo os quatro corredores de BRT (Antônio Carlos/Pedro I; Cristiano Machado; Pedro II/Carlos Luz; e Área Central), o chamado Boulevard Arrudas e a abertura de duas novas vias (210 e 710), o presente artigo discute: os critérios adotados para se definir a prioridade de execução destas obras; a discrepância 1) entre os valores de investimento inicialmente previstos e aqueles praticados a partir de sua contratação e, ainda, 2) da distribuição de recursos entre obras; o elevado custo do km/linear do BRT em virtude de sua vinculação aos custos de interseção e alargamento viários e consequente desapropriações (para esta última, indenizatórios) atrelados à sua implantação; e, por fim, o retardamento na utilização dos recursos previstos para indenizações destinadas às desapropriações que se farão sabidamente necessárias, sobretudo, nos corredores Antônio Carlos e Pedro I, configurando um ambiente emergencial propício tanto à especulação quanto à violação de direitos e assimetrias no processo de negociação com a população afetada, bem como um possível e significativo aumento do investimento previsto. Ao final, algumas conclusões serão apresentadas com o propósito fomentar o debate em torno do tema aqui trabalhado, tendo em vista sua necessária abertura para investigações futuras. Referências Governo de Minas Gerais / Prefeitura de Belo Horizonte. Planejamento Estratégico Integrado: Projeto Copa 2014. Elaborado em 2009. Página | 56 PILLAY, U.; BASS, O. Mega-events as a response to poverty reduction: the 2010 FIFA World Cup and its urban development implications. Urban Forum, v.9, n.3, p. 329-346, 2008. Portal Transparência da Copa 2014: http://www.portaltransparencia.gov.br/copa2014/ ROLNIK, R. A questão dos megaeventos é debatida na ONU. Proposta, Rio de Janeiro, v. 121, p. 50 - 68, 01 dez. 2010. VAINER, C. B. Mega eventos e a cidade de exceção. In: Conferência Internacional Mega Eventos e a Cidade, 2010, Niterói. Conferência Internacional Mega Eventos e a Cidade, 2010. 1 - ENTRE O ÉPICO E A PERDIÇÃO: UMA ANÁLISE DO IMAGINÁRIO TERRITORIAL NA IDENTIDADE PORTUGUESA Hérica Cristina Alves de Vasconcelos7 RESUMO Questões territoriais tiveram grande importância para Portugal desde sua fundação como Estado politicamente centralizado. Primeiramente, foi necessário expulsar o Islã do território para lançar as bases da identidade de um estado cristão imbuído do espírito de cruzada. Depois, a definição dos limites com o reino vizinho de Leão e Castela estabeleceu a fronteira com o outro, aspecto presente na identidade portuguesa em sua constante diferenciação do reino espanhol. A 7 PUC Minas Página | 57 posição geográfica, com toda a costa ocidental voltada para o Atlântico e a posição de fronteira entre a Europa e o resto do mundo, também foi determinante na formação da identidade nacional. A configuração do território muito influenciou na expansão marítima empreendida por Portugal no século XV. Segundo Eduardo Lourenço (1992) Portugal por se sentir excluído do continente europeu e ressentido de sua pequena dimensão territorial, lançou-se ao mar como forma de compensar sua condição na Europa. Com a expansão marítima, o pequeno país situado na ponta da Península Ibérica tornou-se um grande Império com territórios nos quatro continentes. Dessa forma, o imaginário territorial português foi alargado, de uma pequena faixa de aproximadamente 90 000 km² de terra para inúmeros territórios descontínuos nos quatro cantos do mundo. A construção do imaginário territorial não pode ser dissociada da construção da identidade. O território simbólico existe na medida em que a identidade dele se apropria e dota-o de significado. Concomitantemente, essa mesma identidade que o constrói necessita de uma base espacial para sua construção, pois é no território que os indivíduos se relacionam socialmente, tomam consciência do que têm em comum, e constroem o discurso sobre quem são. Nesse sentido, a identidade nacional portuguesa alargou-se juntamente com o imaginário territorial. Os territórios dalém mar serviram como uma espécie de espaços compensatórios que davam uma dimensão mágica ao pequeno país e sua posse parecia co-essencial à realidade histórica de Portugal e, mais ainda, parecia fazer parte da imagem corpórea, ética e metafísica de portugueses. (LOURENÇO, 1992). A identidade em sua construção necessita de uma base espacial, e a base espacial dessa identidade nacional portuguesa alargada compreendia a metrópole e todas as colônias. E assim como a grande extensão territorial do Império “alargou” a identidade nacional, esta deu sentido ao território do império português, fazendo com que mesmo aqueles territórios que não eram bem conhecidos, ou aqueles que eram apenas imaginados através dos mapas e relatos de viagens, fizessem parte desse território simbólico. Várias foram as manifestações do imaginário construído no período da expansão marítima. A titulação régia, a epopéia Camoniana, a Sociedade de Geografia de Lisboa e as reações ao Ultimato Inglês de 1890 não só manifestaram o imaginário territorial português como Página | 58 contribuíram para a sua consolidação. Ao mesmo tempo em que expressavam o imaginário que, pouco a pouco, interiorizava na alma portuguesa, contribuíam para seu fortalecimento. O processo se deu em via de mão-dupla. Dessa forma, o território do Império Português, a pequena faixa na Península Ibérica e os territórios conquistados além mar, serviram como uma espécie de espelho, refletindo a imagem de Portugal, a imagem de um Portugal destinado por Deus a ser uma grande nação. Tendo essas duas questões em mente, a co-constituição de território e identidade e o significado assumido pelos territórios além-mar na identidade nacional portuguesa, o presente trabalho busca analisar as implicações que a descolonização do século XX teve na identidade portuguesa. A identidade nacional portuguesa foi construída a partir de um imaginário territorial alargado e a descolonização da África impôs uma reconfiguração deste imaginário territorial, um retorno às suas dimensões territoriais originais. No século XX, quando Portugal perdeu o que lhe restava desse território estendido, imaginário territorial sofreu uma reconfiguração o que teve implicações na identidade nacional portuguesa. É a partir de obras literárias selecionadas que buscamos entender como a identidade nacional portuguesa reagiu a essa reconfiguração territorial. Com esse propósito, partimos, simbolicamente, de Os Lusíadas, representação máxima do Império colonial português, para chegar em Partes de África, de Helder Macedo, As Naus, de Lobo Antunes e Jornada de África, de Manuel Alegre. As obras selecionadas contemplam três aspectos importantes relacionados à retração territorial provocada pela descolonização: a) a polissemia identitária portuguesa na relação metrópole / colônia / metrópole – Partes de África; b) a sobreposição dos imaginários da colonização e da descolonização no discurso e nas práticas dos retornados das ex-colônias – As Naus; c) o fechamento do ciclo imaginário do Sebastianismo, mito de fundação essencial na construção da identidade nacional portuguesa – Jornada de África. Apesar destas três obras não serem estatisticamente representativas do corpus literário do tema elas permitem, pelos aspectos enumerados, evidenciar as ressignificações do imaginário e perceber, pelo discurso literário, a incidência da descolonização na identidade territorial portuguesa. O livro Jornada de África nos mostra que após o fim das guerras coloniais e a independência das colônias a grandiosidade de Portugal acaba e o país que retorna para suas dimensões reduzidas na Página | 59 Europa deve re-atualizar sua identidade de acordo com o novo contexto. Percebe-se uma dissonância entre a identidade alargada de Portugal e o contexto atual, e a mensagem do livro, uma vez que este possui forte engajamento político, seria que a única solução para esse descompasso é Portugal encarar sua realidade e reconstruir-se em conformidade com ela. O sumiço do alferes Sebastião simbolizaria o fim da identidade alargada portuguesa. As Naus pode ser interpretado de forma similar. O livro termina com um bando de loucos sentados na praia esperando o retorno do rei Dom Sebastião para salvar a nação de sua perdição. Seria, dessa forma, uma loucura, continuar esperando pela salvação da grandeza de Portugal. O livro de Lobo Antunes descreve Lisboa como uma cidade decadente, sem o esplendor da época do grande Império, sem “naus emparelhadas na enseada”. Dessa forma, percebe-se, mais uma vez, a incompatibilidade cognitiva entre a identidade portuguesa e o contexto real do país. Ao narrar a história do personagem Helder, expatriado dentro e fora de seu próprio país, o livro Partes de África, demonstra que a identidade portuguesa corresponde não apenas a Portugal mas a todas as partes do Império colonial, é como se ela coabitasse este imenso espaço simbólico compartilhado daquém e dalém mar onde se é, e não é português, simultaneamente. O que se pode perceber na leitura das três obras é que existe uma dissonância entre a identidade portuguesa e o contexto do país pós-descolonização. As narrativas mostram como esta dessincronização foi resolvida através da construção imaginária de um Portugal cuja identidade produz sentidos que não correspondem ao significado contextual que vive o país: o fim de seu império colonial. Portugal, dessa forma, expressa uma condição dupla, pois continua contendo e contido em seus domínios de forma imaginária, apesar de não estar mais presente nestes domínios fisicamente. A identidade nacional portuguesa é maior que a estreita faixa de terra em que se confinou. A consequência disso para os portugueses é a identificação simbólica com uma nação deslocada temporal e espacialmente, pois a comunidade imaginada que construíram é baseada em um repertório de significados que remete ao seu passado imponente, negação de sua condição atual de um pequeno estado confinado à Península Ibérica. Os personagens de As Naus exemplificam esta condição identitária, na medida em que não mais reconhecem a cidade de Lisboa e não se sentem mais parte de lugar algum. Página | 60 Palavras-chave: Imaginário territorial. Identidade Nacional. Obras literárias. REFERÊNCIAS ALEGRE, Manuel. Biografia. 2010. Disponível em: <://www.manuelalegre.com/ 101000/1/,000021/index.htm?> Acesso em: 5 jun. 2010. ALEGRE, Manuel. Jornada de África: romance de amor e morte do Alferes Sebastião. 2.ed. Lisboa: Dom Quixote: Circulo de Leitores, 1989. 242p. ALEXANDRE, Manuel Valentim. A descolonização portuguesa em perspectiva comparada. In: CONFERÊNCIA INTERNACIONAL FLAD-IPRI, 3, 2005. Disponível em: <http://www.ipri.pt/eventos/pdf/FLAD05_VAlexandre.pdf> Acesso em: 18 nov. 2009. ANDERSON, Benedict R. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 330p. ANEXO: Lista de reis de Portugal. Wikipédia. Disponível em: <http://wapedia.mobi/ pt/Anexo:Lista_de_reis_de_Portugal> Acesso em: 13 abr.2010. ANTUNES, António Lobo. As naus. Lisboa: Dom Quixote: Circulo de Leitores, 1988. 247p. ARENDT, João Claudio; PAVANI, Cinara Ferreira. Imaginário social e representação literária: apontamentos sobre a poesia de Augusto Meyer. Caxias do Sul: Educs, 2006. Disponível em: <http://www.ucs.br/ucs/tplPOSEducacao/ posgraduacao/strictosensu/educacao/professores/joao_arendt/artigo.pdf> Acesso em: 4 dez. 2009. BIBLIOTECA NACIONAL EÇA DE QUEIRÓS. Mapa Cor-de-Rosa. 2000. Disponível em: <http://purl.pt/93/1/iconografia/imagens/cc976a/cc976a.html> Acesso em: 20 jun. 2010. BORDO, Aparecido Adilson et al. As diferentes abordagens do conceito de território. Disponível em: <http://www.temasemdebate.cnpm.embrapa.br/textos/ 051018_TERRITORIO_ESPACO_quarta.pdf) >Acesso em: 15 out. 2009. Página | 61 BOXER, Charles R. O império marítimo português: 1415-1825. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. Disponível em: <http://www.oslusiadas.com/ content/> Acesso em: 16 mar. 2010 CANÊDO, Letícia Bicalho. A descolonização da Ásia e da África. 2. ed. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1985. 79 p. CASTRO, Iná Elias de; GOMES, Paulo César da Costa; CORRÊA, Roberto Lobato. Geografia: conceitos e temas. 10. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. 352 p. CHANDEIGNE, Michel. Lisboa ultramarina, 1415-1580: a invenção do mundo pelos navegadores portugueses. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1992. CLAVAL, Paul. O Território na transição da pós-modernidade. Geographia, Ano 1, n.2, 1999. Disponível em: <www.uff.br/geographia/ojs/index.php/geographia/ article/.../14> Acesso em: 14 out.2009. COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São Paulo: Iluminuras, 1997. 383p. COSTA, Rogério Haesbaert da. O mito da desterritorialização: do fim dos territórios à multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. 400p. FERNANDES, João Luís. Dimensão territorial da identidade portuguesa no final do Século XX: a integração na Europa e no mundo. 1999. In: MENDES, José Maria Amado. A identidade portuguesa. Coimbra: Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, 1999. (Cadernos de Língua e Culturas Portuguesas; Série História e Geografia, n. 1. Disponível em: <https://woc.uc.pt/fluc/getFile.do?tipo=2&id=2385> Acesso em: 3 março 2010. FONTENELLE, Robson. A construção da narrativa em partes da África, de Helder Macedo. Cadernos Cespuc de Pesquisa, Belo Horizonte , n.9, p.56-69, ago. 2001. GELLNER, Ernest. Nações e nacionalismo. Lisboa: Gradiva, 1993. 210p. GUIBERNAU I BERDUN, M. Montserrat. Nacionalismos: o estado nacional e o nacionalismo no século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. 188p. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. 102p. LEFÉBVRE, Henri. The production of space. Oxford: Blacwells, 1991. 454p. Página | 62 LOPES, Maria de Lourdes Amaral Henriques. Figurações de identidade em António Lobo Antunes e Hélder Macedo. 2005. 239f. Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Programa de Pós-Graduação em Letras. LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade: psicanálise mítica do destino português. 5. ed. Lisboa: Dom Quixote, 1992. MACEDO, Helder. Partes de África: romance. Rio de Janeiro: Record, 1999. 253p. MACEDO, Helder. Seminário: entrevista com Helder Macedo. Scripta: Revista do Programa de Pós-graduação em Letras e do Centro de Estudos Luso-Afro-brasileiros da Puc Minas, Belo Horizonte , v.4, n.8 , p. 337-402, 1.sem.2001. MARQUES, A. H. de Oliveira; AZEVEDO, Jose Baptista Pinheiro de. Historia de Portugal: desde os tempos mais antigos ate ao Governo do Sr. Pinheiro de Azevedo. 7. ed. Lisboa: Palas, 1977. 2v. MATTOSO, José et al. Portugal a formação de um pais. Lisboa: Caixa Geral de Depositos, 1992, p.197. MATTOSO, José. A identidade nacional: Portugal. Lisboa: Gradiva, 1988, p.108. MAXWELL, Kenneth. O império derrotado: revolução e democracia em Portugal. Trad. Laura Texeira Motta. São Paulo: Companhia da Letras, 2006. MELO, José Osmar de. Ficções da memória em partes de África, de Hélder Macedo. Cadernos Cespuc de Pesquisa, Belo Horizonte, n. 9, p. 28-44, ago. 2001. MONTAURY, Alexandre. Caravelas de regresso: uma leitura de As Naus, de Antônio Lobo Antunes. TriceVersa, Assis, v.1, n.1, maio/out. 2007. Disponível em: <http://www.assis.unesp.br/cilbelc/Alexandre%20Montaury.pdf> Acesso em: 10 maio 2010. MUNDIM, Rosa Maria Santos. Em que partes de África? Cadernos Cespuc de Pesquisa, Belo Horizonte, n. 9, p.70-81, ago. 2001. NAÇÕES UNIDAS. Carta das Nações Unidas. São Francisco, 1945. Disponível em: <http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/atuacao-e-conteudos-deapoio/legislacao/seguranca publica/carta_nacoes_unidas.pdf > Acesso em: 12 abr.2010. NÉGRIER, Anabela Bingre de. Reflexão sobre a identidade nacional em As Naus, de Lobo Antunes. 2005. 195f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Três Lagoas. Disponível em: <http://www.cbc.ufms.br Página | 63 /tedesimplificado/tde_arquivos/13/TDE-2009-09-17T145550Z-445/Publico/Anabela. pdf> Acesso em: 5 maio 2010. OLIVEIRA, Maura Eustáquia de. Partes de África - trama de mosaicos e espelhamentos. Cadernos Cespuc de Pesquisa, Belo Horizonte, n. 9, p. 45-55, ago. 2001. OLIVEIRA, Silvana Maria Pessôa de. Relendo as naus partuguesas- ironia e paródia na obra de Lobo Antunes. Scripta: Revista do Programa de Pós-graduação em Letras e do Centro de Estudos Luso-Afro-brasileiros da PUC Minas, Belo Horizonte , v. 4, n. 8 , p. 295-302, jan. 2001. OLIVEIRA, Silvana. As Naus do discurso de Lobo Antunes. In: XI Congresso Internacional da ABRALIC, 11, 2008, São Paulo. Tessituras, interações, convergências. São Paulo: USP, 2008. Disponível em: <http://www.abralic.org/ anais/cong2008/AnaisOnline/simposios/pdf/076/SILVANA_OLIVEIRA.pdf> Acesso em: 12 maio 2010. PAVÃO, Suzana Rodrigues. Espelhos estilhaçados em Jornada de África, romance de Manuel Alegre. 1997. 167f. Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Programa de Pós-Graduação em Letras. PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & história cultural. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. 130p. PORTUGAL, Biblioteca Nacional. Mapa de Portugal e Império Colonial Português. 2009. Disponível em: <http://purl.pt/11436/2/P1.html> Acesso em: 25 jun. 2010. RETIS, Grupo de Pesquisa. Esquema da linha de demarcação Tratado de Tordesilhas, 1494. 2002. Disponível em: <http://www.igeo.ufrj.br/fronteiras/mapas/ map001.htm> Acesso em: 23 jun. 2010. RODRIGUES, Fátima da Cruz. Mapas: (Re) cortes coloniais. O Cabo dos Trabalhos, n.1, 2006. Disponível em: <http://cabodostrabalhos.ces.uc.pt/n1/ documentos/200611_mapas_recortes_coloniai s.pdf> Acesso em: 6 nov. 2009. ROSSI, Aparecido Donizete. Fado da Desesperança: resenha de “As Naus”, de Lobo Antunes. Usina de Letras. 2002. Disponível em: <http://www.usinadeletras. com.br/exibelotexto.php?cod=2041&cat=Ensaios&vinda=S> Acesso em: 15 maio 2010. SANTOS, Boaventura de Sousa. Modernidade, identidade e cultura de fronteira. Tempo Social, São Paulo, v. 5, n. 1-2, p. 31-52, 1993, Disponível em: <http://www. fflch.usp.br/sociologia/temposocial/site/images/stories/edicoes/v0512/Modernidade.pdf> Acesso em: 26 fev. 2010. Página | 64 SCHWARCZ, Lilia Moritz. Apresentação. In: ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 330p. SERBENA, Carlos Augusto. Imaginário, ideologia e representação social. Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas, Santa Catarina, n.52, dez. 2003. Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/cadernosdepesquisa/ article/viewFile/1944/4434> Acesso em: 4 dez. 2009. SILVA JÚNIOR, Otoniel Fernandes da. Por uma Geografia do Imaginário: percorrendo o labiríntico mundo do imaginário em uma perspectiva geográfica cultural. Revista Eletrônica do Centro de Estudos do Imaginário, Rondônia, Ano I, n. 3, out./dez. 2001. Disponível em: <http://www.cei.unir.br/artigo31.html> Acesso em: 15 out. 2009. SILVA, Marisa Corrêa. Partes de África: cartografia de uma identidade cultural portuguesa. Niterói: EdUFF, 2002. 201p. SOUZA, Edevaldo Aparecido; Pedon, Nelson Rodrigo. Território e identidade. Revista Eletrônica da Associação dos Geógrafos Brasileiros, Três Lagoas, v.1, n.6, ano 4, Nov.2007. Disponível em: <http://www.cptl.ufms.br/revistageo/artigo6_ EdevaldoS._e_NelsonP..pdf> Acesso em: 19 out. 2009. TEIXEIRA, Nuno Severiano. Política externa e política interna no Portugal de 1890: o Ultimatum Inglês. Análise Social, v. 23, n. 98, p. 687-719, 1987. Disponível em: <http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223027734K4zTZ2wh1Lu94TC4.pdf> Acesso em: 29 maio 2010. Página | 65 2 - RELATIVIZAÇÃO DA SOBERANIA EM FACE À NOVA ORDEM INTERNACIONAL Tiago Vieira Bomtempo8 A soberania dos Estados vem passando por várias transformações nos últimos tempos devido a causas de ordem externa, como o surgimento das organizações internacionais, a globalização, a preocupação da comunidade internacional com questões relacionadas aos direitos humanos, ao meio ambiente e à biotecnologia, e, também, pela formação de blocos econômicos ou organizações supranacionais. A nova ordem internacional hoje exige o pensamento global, na atuação em que um Estado se relaciona com o outro por uma necessidade de interdependência. Conforme Lenio Luiz Streck e Jose Luis Bolzan: No plano internacional, em especial, observa-se fenômeno semelhante relacionado ao caráter de independência dos Estados soberanos, como capacidade de autodeterminação. A interdependência que se estabelece contemporaneamente entre os Estados aponta para um cada vez maior atrelamento entre as ideias de soberania e de cooperação jurídica, econômica e social, o que afeta drasticamente a pretensão à autonomia [...] (STRECK; MORAIS, 2010, p.140). 8 Mestrando em Direito Privado do Programa de Pós-Graduação em Direito da PUC Minas. Especialista em Direito Público pelo Instituto de Educação Continuada da PUC Minas Página | 66 O que se percebe é que os Estados hoje possuem muito mais uma questão de pactos e compromissos assumidos do que de própria soberania, isto é, o seu poder fica limitado na medida destes compromissos, de forma que um não prejudique o outro. Seria mais uma questão de relações internacionais do que de soberania. Desde 1945, com o fim precípuo de manter a paz mundial, após a II Guerra Mundial, foi criada a ONU (Organização das Nações Unidas), primeira organização internacional. A ONU atua nos limites do seu objeto e dos poderes investidos a si pelos Estados que a compõem. Apesar de não ser um Estado, o poder exercido pela ONU sobre os Estados, inclusive naqueles que não a integram, é de ingerência e de império, na medida em que esta organização pode sancionar desde ações restritivas de ordem econômica até o uso da força coercitiva, em nome da paz e da ordem mundial, por meio de medidas aprovadas pelo Conselho de Segurança, órgão que compõe a ONU. Exemplifica Sahid Maluf: As mais importantes intervenções políticas ocorrem, em alguns casos, por solicitações dos próprios países abalados por comoções internas, na maioria das vezes por exércitos formados por determinação da ONU, chamados comumente de “força internacional de paz” ou Missão de Estabilização, como ocorreu no Haiti. Outras vezes ocorrem Página | 67 por legitimação outorgada a um ato de ocupação ou invasão, praticado por um ou vários países contra o outro, como ocorreu no Iraque, e outras, ainda, por imposição de sanções econômicas e comerciais com finalidades coercitivas (MALUF, 2010, p.46). Assim, verifica-se que a soberania dos Estados frente às organizações internacionais, como a ONU, são relativizadas, ou mesmo, suprimidas, ainda que temporariamente, justificadas por questões globais, como a paz mundial. Outro evento que impactou na soberania dos Estados foi a globalização. Calcada na quebra de barreiras, sob a égide do fluxo de informações, capital, pessoas e tecnologia, a globalização aproximou os povos e quebrou a hegemonia dos Estados, refletindo na soberania. Analisa Sahid Maluf que: A globalização, assim considerada, produz reflexos no conceito de soberania, na medida em que acaba por atingir cada país de forma desigual, na proporção da riqueza, poder, ou desenvolvimento social, econômico e tecnológico de cada um. Esses reflexos assumem maior gravidade entre os países chamados de “terceiro mundo” ou “em desenvolvimento”, os quais ficam mais vulneráveis, diante da incapacidade de enfrentamento das imposições originadas da ordem internacional [...] (MALUF, 2010, p.44). Página | 68 Neste sentido, visando minimizar os efeitos da globalização foram criados os blocos econômicos ou organizações supranacionais. De acordo com Lenio Luiz Streck e José Luiz Bolzan de Morais: As chamadas comunidades supranacionais – Comunidade Econômica Européia/CEE/União Européia, NAFTA, MERCOSUL etc.- particularmente a primeira, impuseram uma nova lógica às relações internacionais e, consequentemente, atingiram profundamente as pretensões de uma soberania descolada de qualquer vínculo ou limitação. O que se percebe, aqui, é uma radical transformação nos poderes dos Estados-Membros, especialmente no que se refere a tarifas alfandegárias, aplicação de normas jurídicas de direito internacional sujeitas à apreciação de Cortes de Justiça supranacionais, emissão de moeda, alianças militares, acordos comerciais etc. (STRECK; MORAIS, 2010, p.140). Sendo assim, nestas organizações supranacionais, cada Estado transfere ou cede parcela de sua soberania a um órgão comum, admitindo que as decisões tomadas por esse órgão se tornem obrigatórias dentro de cada Estado, independente de qualquer manifestação política ou legislativa interna. Passam estas decisões, ou melhor, ordens, a fazer parte do ordenamento Página | 69 jurídico interno de cada Estado. Por conseguinte, vislumbra-se a perda quase que total da soberania dos Estados que fazem parte de uma organização supranacional, como é o caso da União Européia. Aduz Sahid Maluf que: A União Européia caracteriza uma forma de cessão, mesmo que parcial, da soberania. Na observação de Ives Gandra Martins, “o direito comunitário prevalece sobre o Direito local, e os poderes comunitários (Tribunal de Luxemburgo, Parlamento Europeu) têm mais força que os poderes locais. Embora no exercício da soberania, as nações aderiram a tal espaço plurinacional, mas, ao fazê-lo, abriram mão de sua soberania ampla para submeterem-se a regras e comandos normativos da comunidade. Perderam, de rigor, sua soberania para manter uma autonomia maior do que nas Federações clássicas, criando uma autêntica Federação de países [...] (MALUF, 2010, p.53). Outra causa relacionada à relativização da soberania foi a universalização dos direitos humanos, principalmente com a promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948. Cláudio de Cicco e Alvaro de Azevedo Gonzaga definem direitos humanos como: [...] os Direitos Humanos são os direitos derivados da natureza humana, independente de idade, sexo, religião, idéias políticas ou Página | 70 filosóficas, país, etnia ou condição social. Decorrem da dignidade da pessoa humana e tem abrangência universal e supranacional, de modo que todas as pessoas e Estados devem respeitá-lo [...] (DE CICCO; GONZAGA, 2009, p.156). Ante o exposto, verifica-se que devido ao caráter de universalidade e a imposição dos direitos humanos inseridos nos Estados, a soberania destes fica condicionada a respeitar tais direitos, pois não devem ser limitados pelo Estado, pelo menos em um plano teórico. Faz-se mister acrescentar que sob a nova ordem internacional os direitos humanos se desdobram em direitos de primeira a quarta gerações, em que se insere o direito ao meio ambiente, à sustentabilidade, e o direito das gerações futuras. Neste sentido, várias são as manifestações internacionais, tanto com a criação de organismos internacionais como de organizações não-governamentais para a proteção destes direitos, interferindo diretamente nos Estados, o que acaba comprometendo suas soberanias. Lenio Luiz Streck e Jose Luiz Bolzan de Morais entendem que: Outro agente fundamental neste processo de transformação – de eclipse, para alguns- da noção de soberania são as Organizações Não Governamentais (ONGs). Estas entidades, que podem ser enquadradas em um espaço intermediário entre o público, representado pelos organismos internacionais, e o privado, representado pelas empresas Página | 71 transnacionais, atuam em setores variados, tais como: ecologia (Greenpeace), direitos humanos (Anistia Internacional), saúde (Médicos Sem Fronteiras) etc. O papel das mesmas vem se aprofundando, sendo, nos dias que correm, muitas vezes imprescindíveis para que certos Estados tenham acesso a programas internacionais de ajuda, possam ser admitidos em determinados acontecimentos da ordem internacional, etc. Tais vínculos, incongruentes com a ideia de poder soberano, são uma realidade da contemporaneidade onde os relatórios destas entidades podem significar reconhecimento ou repúdio em nível internacional, com reflexos inexoráveis na ordem interna de tais países, em especial naqueles que dependem da “ajuda” econômica internacional (STRECK; MORAIS, 2010, p.141). Resta fazer um questionamento: afinal, é possível afirmar que hoje existe soberania? Entende-se que a soberania pode se subsistir na atualidade, porém com novos contornos, desde que a democracia dos Estados se abram para o mundo, que seja participativa, sob uma visão cosmopolita e global, integrando a todos, visto que hoje se inserem no contexto de comunidade internacional, de plurinacionalidades. De acordo com Jose Maria Gómez: Página | 72 É preciso construir um projeto de democracia cosmopolita, sustentado tanto nas garantias institucionais e normativas que assegurem representação e participação de caráter regional e global, quanto em ações deliberativas e em rede que expandam e adensem uma esfera pública sobre as mais variadas questões relevantes (direitos humanos, paz, justiça distributiva, gênero, biosfera, saúde, etc.) (GÓMEZ, 2000, p.135). A partir deste pressuposto pode-se afirmar em uma soberania popular, ou plurinacional, conformada na instituição e na construção do poder pelo povo e para o povo, em um contexto global e multicultural. Palavras-chave: Soberania. Ordem internacional. Plurinacionalidade. Referências DE CICCO, Claudio; GONZAGA, Alvaro de Azevedo. Teoria geral do estado e ciência política. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009. GÓMEZ, Jose Maria. Política e democracia em tempos de globalização. Petrópolis: Vozes, 2000. Página | 73 MALUF, Sahid. Teoria geral do estado. 30. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. STRECK, Lenio Luiz; MORAIS, José Luis Bolzan de. Ciência política e teoria geral do estado. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010. 3 - CULTURA COSMOPOLITA VERSUS IDENTIDADE LOCAL? MAPEANDO ZONAS DE TURBULÊNCIA, IDENTIDADES E MEMÓRIAS NO ESPAÇO PÚBLICO DE VIÇOSA/MG Douglas Mansur da Silva9 Victor Cezar de Sousa Vitor10 Introdução e Objetivos Trata-se de uma proposta de pesquisa cuja problemática principal é refletir sobre as diferentes narrativas e usos do espaço urbano de Viçosa/MG, a partir da utilização de recursos imagéticos – fotográficos e audiovisuais – e de categorias analíticas como território, lugar, paisagem, pedaço, mancha, circuito e pórticos. Este estudo possui financiamento pelo Edital PIBIC/CNPq 2012/2013 e já se encontra em andamento. O presente enfoque representa um desdobramento da pesquisa original, Cultura cosmopolita versus identidade local? Tensões, divergências e conexões entre moradores de uma cidade da Zona da Mata mineira, iniciada em meados de 2010, sob a coordenação do professor e pesquisador Douglas Mansur da Silva. O presente projeto manteve o foco nas diferentes visões acerca da cidade, com base em diferentes experiências do uso do espaço público. Contudo, a ênfase recai sobre as 9 Universidade Federal de Viçosa – orientador do projeto Universidade Federal de Viçosa – orientado do projeto 10 Página | 74 narrativas e usos do espaço através do mapeamento de “zonas de turbulência” (ARANTES, 2000), identidade e memória. Viçosa é uma localidade marcada por um intenso fluxo de pessoas: migrantes temporários, sobretudo estudantes; migrantes que chegam para trabalhar e morar, geralmente técnicos e professores universitários; população nativa, moradores do centro, periferias e zona rural ou das áreas limítrofes e rodovias que cruzam a cidade e a integra a outras regiões e municípios. Levando em consideração o contraste entre população local e a maioria dos migrantes, que se traduz em assimetrias de poder, acesso desigual a bens culturais e a condições favoráveis à mobilidade social, é possível identificar no município um fenômeno singular: a migração de mãode-obra altamente qualificada para uma cidade considerada de pequeno a médio porte. O município de Viçosa fica na região da Zona da Mata mineira e tem atualmente pouco mais de 70 mil habitantes (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2009), dos quais a estimativa é a de que 20 mil fazem parte de uma população flutuante (UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA, 2009), composta principalmente por estudantes. Contudo, foi a partir da década de 1980 que a cidade experimentou um significativo incremento em sua população, decorrência da própria expansão do ensino superior e médio e, como corolário, do comércio e do mercado imobiliário (CENTRO DE PROMOÇÃO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, 2007). As políticas educacionais do governo de Fernando Henrique estimularam, desde a década de 1990, o aumento da oferta de vagas no ensino privado – hoje a cidade conta com três instituições deste tipo – e o programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), do governo de Lula da Silva, fez aumentar significativamente a oferta de vagas nas Instituições de Ensino Superior público. Os efeitos dessa expansão das últimas duas décadas são visíveis nos contrastes da paisagem urbana local. O aumento populacional, seguido da ausência ou ineficácia de políticas públicas de planejamento urbano, o desenvolvimento do comércio e da especulação imobiliária – que encarecem significativamente o custo de vida, sobretudo para os mais pobres -, tem produzido uma acelerada verticalização da região central da cidade e do seu entorno (CARVALHO; GOMIDE; RIBEIRO FILHO, 2009), além da expansão da fronteira urbana do Página | 75 município, na forma de bairros periféricos, de classes médias e condomínios fechados, situados ao lado ou entre trechos de mata nativa e propriedades rurais. A partir do contexto acima descrito, o objetivo da presente proposta de pesquisa está na realização de uma etnografia visual dos territórios, lugares e paisagens do espaço público de Viçosa/MG, através da identificação de usos do espaço e das narrativas sobre os mesmos. Entre os objetivos específicos estão: refletir sobre as relações entre cosmopolitismo e identidade local; etnografar as percepções dos diferentes moradores da cidade acerca da cidade e de suas assimetrias; identificar formas de segregação, sociabilidade, territorialidades e configurações do espaço público na cidade, apreendidas tanto em suas formas discursivas e performáticas, quanto imagéticas. Justificativa e Revisão da Bibliografia Fundamental De acordo com Carvalho, Gomide e Ribeiro Filho (2009), diversos são os estudos que apontam para a verticalização da região central de Viçosa, tendência que vai à contramão da dispersão espacial urbana em uma economia política marcada pela aceleração e descentralização da produção, distribuição e consumo próprios do capitalismo flexível (NEGRI; HARDT, 2004). Em grande parte, isto aponta para a baixa diversidade econômica local, que depende em grande medida da Universidade e do comércio, apesar da presença da atividade rural e de pequenas agroindústrias. O encarecimento e a disputa por espaço, sobretudo na região central e entorno, marcam a paisagem. Além da verticalização, diferentes formas de segregação, apropriação, destruição, transformação e usos do espaço ocorrem de modo concomitante, produzindo novas paisagens, com efeitos nas identidades e memórias locais. Contudo, não há um estudo etnográfico que analise e dê voz à percepção de diferentes moradores acerca de tais processos; nem registros imagéticos constituídos e/ou reunidos de modo sistemático e documental. Com a proposta de etnografarmos tanto as dinâmicas sócio-espaciais, bem como os usos dos espaços que (re)configuram a malha social do referente município, utilizaremos categorias analíticas reconhecidas por estudos nacionais da antropologia urbana. A noção de território é aqui utilizada para referir-se às diversas formas de apropriação e usos do espaço relacionados às disputas e aspirações ao exercício do poder e da soberania no espaço público (SOUZA, 1995). Já a noção de lugar pode ser referência à configuração de Página | 76 identidades e à produção da memória, relacionando-se a vínculos de pertencimento acerca da espacialidade. De acordo com Magnani (2008), a idéia de pedaço relaciona-se àqueles locais em que formas de sociabilidade são reforçadas, evitando-se o risco da relação com os de fora do grupo. Já a noção de mancha refere-se a regiões contíguas do espaço cuja identidade é marcada pela oferta de certos serviços e/ou atividades, havendo abertura para relações com desconhecidos. A idéia de circuito refere-se àqueles locais dispersos espacialmente, mas relacionados entre si, configurando um mapa mental e espacial. Em contrapartida, a noção de pórtico refere-se àqueles locais de trânsito ou de liminaridade, relacionando-se à transgressão e/ou ao desvio ou por serem ou não serem familiares, locais de passagem, de interdições, como terrenos baldios, vielas, encruzilhadas, entre outros. Por fim, a noção de paisagem refere-se às perspectivas visuais presentes em cada ambiente, relacionando-se à apreensão do mundo, podendo ser utilizado na literatura ora como resultado de uma combinação dinâmica/flexível e hierarquicamente organizada da disposição das coisas do mundo no espaço, ora como mediação entre o mundo das coisas e o da subjetividade humana, de modo a compor uma cena/unidade visual (ARANTES, 2000). Metodologia e Operacionalização da Pesquisa O principal método empregado nesta pesquisa é a observação participante, seguida da aproximação fotográfica e da realização de entrevistas e o acompanhamento de redes (BARNES, 1987) e de situações sociais e seus desdobramentos (VAN VELSEN, 1987; VINCENT, 1987) que, por sua vez, permitirão o mapeamento dos espaços públicos segundo zonas (de turbulência, identidade e memória). Ao lado da observação participante de territórios e suas formas de sociabilidade, serão contatados moradores nativos e migrantes para entrevistas mais aprofundadas. Para efeitos de operacionalização da pesquisa, serão inicialmente consideradas 3 fases para a pesquisa: a) o mapeamento de territórios, aspecto na qual ganha maior relevância a dimensão do poder no espaço público; b) o mapeamento de lugares, em que as noções de Página | 77 identidade e as formas de sociabilidade ganham destaque; c) o mapeamento de paisagens, em que a dimensão visual e da memória aparecem em relevo. Outra fonte bibliográfica e documental constitui-se do acompanhamento de notícias publicadas na imprensa local (jornal “Folha da Mata”, internet, TV). Elaboração do Roteiro de Entrevistas: Até o momento de iniciação deste estudo, nos ocupamos em construir, além de um levantamento imagético e cartográfico do município, um roteiro de entrevistas detalhadas, de cunho qualitativo, com a intenção de captar as narrativas que traduzem os espaços públicos, bem como as memórias e identidades do município de Viçosa. Objetivamos identificar também, através deste questionário, zonas de turbulência (tensões, conflitos) e zonas de conexões (aproximações), baseando-se em termos do antropólogo Antonio A. Arantes. Organizamos este questionário a partir da divisão de perguntas em grupos temáticos como: Circulação; Memória/Identidade Local; Diferenças entre Moradores; Espaço Público (conflitos, conexões e serviços) e Custo de Vida. Mapeamento Imagético: Seguindo a orientação metodológica do referente trabalho, por se tratar de uma etnografia visual, realizaremos também uma pesquisa imagética, tanto do processo histórico quanto atual, do espaço público do município de Viçosa. Mapearemos situações públicas que traduzem de modo visual Zonas de turbulência, identidades e memórias da cidade (fotoetnografia). Entendemos que a incorporação deste acervo imagético em nossa pesquisa oferecerá ferramentas foto-etnográficas que despertarão nos informantes a capacidade de evocar Página | 78 comentários, memória e discussão no decorrer do roteiro da entrevista semi-estruturada. Uma dessas ferramentas imagéticas é conhecida como Foto-elicitação e Memória, que envolve a manipulação de fotografias para despertar memória social entre os sujeitos de estudo, acerca dos objetivos da pesquisa (BANKS, 2009). REFERÊNCIAS ARANTES, Antonio Augusto. Paisagens paulistanas. Campinas: Ed. Unicamp, 2000. BANKS, M. Dados visuais para pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Artmed, 2009. BARNES, John. Redes sociais e processo político. In: FELDMAN-BIANCO, Bela (Org.) Antropologia das sociedades contemporâneas: métodos. São Paulo: Global, 1987. p. 159-195. CARVALHO, Aline Werneck Barbosa de.; GOMIDE, Débora de Oliveira; RIBEIRO FILHO, Geraldo Browne. A lógica imobiliária no processo de verticalização dos bairros de Viçosa/MG no período de 1990-2007. 2009. Projeto (Iniciação científica em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal de Viçosa. CENTRO DE PROMOÇÃO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. Perfil empresarial de Viçosa II. Viçosa: Census, 2007. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estimativas da população para 1º de julho de 2009. Rio de Janeiro: IBGE, 14 ago. 2009. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/estimativa2009/ estimativa.shtm>. Acesso em: 16 nov. 2009. MAGNANI, José G. C. Quando o campo é a cidade: fazendo antropologia na metrópole. In: MAGNANI, J. G. C.; TORRES, Lílian L. T. (Org.). Na metrópole: textos de antropologia urbana. 3. ed. São Paulo: Edusp, 2008. p. 12-53. NEGRI, Antonio; HARDT, Michael. Multidão: guerra e democracia na era do Império. Rio de Janeiro: Record, 2004. SOUZA, M. J. L. O território: sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento. In: CASTRO, I. E.; GOMES, P. C. C.; CORRÊA, R. L. (Org.). Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand, 1995. p.77-116. Página | 79 UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA. Número de estudantes matriculados. Viçosa: UFV, 2009. Disponível em: <http://www.cpd.ufv.br/relatorioufv/>. VAN VELSEN, Jaap. A análise situacional e o estudo de caso detalhado. In: FELDMANBIANCO, Bela (Org.). Antropologia das sociedades contemporâneas: métodos, São Paulo: Global, 1987. VINCENT, Joan. A sociedade agrária como fluxo organizado. In: FELDMAN-BIANCO, Bela (Org.). Antropologia das sociedades contemporâneas: métodos. São Paulo: Global, 1987. 1 - OS BRASIGUAIOS E OS RECENTES CONFLITOS PELA POSSE DA TERRA NO PARAGUAI Isaias Albertin de Moraes11 Beatriz Rodrigues Bessa Mattos12 INTRODUÇÂO O presente artigo aborda a questão dos brasileiros, em sua maioria de agricultores, imigrados para o Paraguai e do atual conflito deflagrado entre esses e os carperos, tendo como pano de fundo a posse de terras no país vizinho. 11 Pesquisador do Grupo de Análise de Prevenção de Conflitos Internacionais – GAPCon. Mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ. Especialista em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB. [email protected] 12 Pesquisadora do GAPCon. Mestranda em Ciência Política e Relações Internacionais pelo IUPERJ. Especialista em Comércio Exterior pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. [email protected] Página | 80 O fluxo migratório de brasileiros para o país vizinho começou timidamente no final dos anos de 1950. Nesse período, o general e mandatário paraguaio Alfredo Stroessner liberou a comercialização de terras para estrangeiros. Esse fluxo se intensificou nas décadas seguintes, impulsionado pela construção da hidrelétrica de Itaipu e pela concentração fundiária no Brasil. Os brasileiros, que se encontram, predominantemente, nos Departamentos paraguaios de Itapúa, Canindeyú, Caaguazú e Alto Paraná, são, estimativamente, em número de 459.14713. Sendo, portanto, a maior comunidade brasileira em uma nação fronteiriça e a segunda maior no exterior, somente em número menor do que a estadunidense. Atualmente, essa região, que está em uma área estratégica para o Mercado Comum do Sul – Mercosul, é conhecida por muitos como “espaço brasiguaios”14. Os imigrantes brasileiros são, em sua maioria, agricultores que cultivam, principalmente, a soja. O faturamento derivado da colheita desse grão no Paraguai é responsável por, aproximadamente, 20% do PIB do país. Isso o coloca como o quarto maior produtor de soja do mundo. (VITAL, 2008). A presença de brasileiros, como na maioria dos processos migratórios, originou aspectos complexos nessas regiões. Os imigrantes têm o hábito, não raramente, de se prenderem a suas tradições e de não adequá-las ao novo habitat. Esses preservam, também, a memória, a cultura, os símbolos e os mitos de sua terra natal, mantendo, assim, seus laços com a pátria mãe. Isso pode ser visto no país receptor, todavia, como ameaça a sua simbologia e as suas próprias tradições. 13 Não existem dados precisos sobre o número de imigrantes brasileiros no Paraguai. Levantamento do governo paraguaio, em 2002, estima que haja 81.592 brasileiros no país. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil – MRE chegou a um número estimado de 459.147 em 2000. Ver, entre outros, (ALBUQUERQUE, 2009, p.2); (DOIS..., 2010); (SOUCHAUD, 2001, p. 17-19). 14 O termo “brasiguaio” é empregado, neste artigo, em sua forma mais genérica e ampla, ou seja, significa os brasileiros que vivem no Paraguai, que pertencem às distintas classes sociais e que trabalham em vários setores da economia. Para uma melhor compreensão do termo e sua representação sugere. (WAGNER, 1990, p. 11). Página | 81 Concomitantemente a esses fatores sociais e morais, a tensão entre os dois povos pode aumentar se os imigrantes disputa o principal recurso econômico da nação, neste caso a terra. Observa-se que os brasiguaios estão diretamente em conflito com os paraguaios pelos interesses econômicos, políticos e simbólicos do país. A prosperidade econômica da comunidade brasileira, além disso, estabeleceu ressentimentos em determinados setores sociais paraguaios. A situação conflituosa dos brasiguaios vem se complicando desde o fim da ditadura do General Stroessner em 1989. A democratização paraguaia trouxe participação política ativa e estimulou os movimentos sociais que, anteriormente, eram sufocados pelo regime ditatorial. Entre esses se encontra o movimento da Mesa de Coordenação Nacional das Organizações Campesinas, que é o movimento dos trabalhadores sem-terra paraguaios. Esse luta pela reforma agrária, contra o capital estrangeiro e contra o modelo de agronegócio realizado por muitos agricultores brasileiros. A reforma agrária, contudo, nunca saiu do papel. Além disso, o surgimento de escândalos da vida privada do Presidente e as alianças políticas questionáveis pela esquerda motivou a radicalização de determinados movimentos sociais e a organização em grupos, muitas vezes armados, para lutarem pela terra e pela soberania do Paraguai. A existência de milhares de brasileiros no Paraguai e os recentes conflitos entre esses e os carperos15, como são conhecidos os sem-terra paraguaios, não é um fato que pode ser analisado de forma isolada. Deve-se, compreender o percurso histórico, sobretudo a partir de meados do século XX, que gerou o atual estado de insegurança permanente entre os agricultores brasileiros e os campesinos paraguaios. É necessário, ademais, estudar os fatores que provocaram a 15 Em tradução livre para o português carperos é: aqueles que moram em barracas. Página | 82 radicalização dos carperos recentemente. Por fim, é preciso analisar a atuação da diplomacia brasileira e paraguaia na tentativa de equacionar a hodierna crise fundiária e a suposta ação do MST além das fronteiras nacionais. METODOLOGIA Inicialmente, foi efetuado um levantamento bibliográfico e histórico sobre a migração brasileira para o Paraguai. Posteriormente, o estudo procurou apresentar as principais causas dos conflitos entre brasiguaios e carperos. Dessa forma, foi realizada uma abordagem sistemática por meio de coleta, organização e avaliação crítica de fontes primárias e secundárias referente à temática. Essas foram interpretadas de forma qualitativa, objetivando proporcionar uma visão geral sobre a realidade. Por fim, o estudo pretendeu elencar quais são ações dos governos de ambos os países com vistas a solucionar os problemas e propor que o Brasil adote políticas mais eficientes para se atingir uma solução adequada. RESULTADOS E DISCUSSÕES A significativa presença de brasileiros no Paraguai e o domínio desses de grandes áreas cultiváveis geraram aspectos complexos no campo econômico, cultural e social do país. A necessidade de uma reforma agrária paraguaia é evidente, pois segundo o Censo Agropecuário Nacional – CAN de 1991, apenas 1% da população detinha 70% dos terrenos rurais aptos para o desenvolvimento de atividades agrícolas e pecuárias. Além desse dado, o CAN Página | 83 apresenta que aproximadamente 88% do total da superfície dos 406.752 km² do país estão controlados por apenas 7% da população em geral. O Presidente do Paraguai ao defender a solução do embate pela via judiciária age corretamente, pois as alegações de títulos de propriedades rurais duplicados ou falsos são comuns no Paraguai, alguns lotes contam com dois, três e até mais títulos, quando judicialmente apenas um é válido. O único caminho de averiguação sobre a legitimidade da propriedade da terra, dessa maneira, é o judicial. Por parte do governo brasileiro, é importante que a diplomacia se comprometa a prestar apoio logístico e jurídico bem como garanta segurança aos brasiguaios. As similaridades partidárias e ideológicas entre os governos atuais dos dois países não podem ficar acima da proteção dos direitos e da segurança dos brasileiros em solo estrangeiro e do interesse de Estado. CONSIDERAÇÕES FINAIS Conclui-se que as questões antagônicas como: as relações brasiguaios e carperos, reforma agrária e concentração fundiária, “diplomacia companheira” e defesa dos interesses nacionais, entre outras – presentes, nesta atual crise social e agrária paraguaia, são elementos recentes e em transformações, portanto não há como prever o seu desfecho. O artigo busca apresentar à problemática e levantar possíveis caminhos, chegando à conclusão que qualquer solução deverá passar pelo trabalho político, técnico e diplomático entres o governo do Paraguai e o governo do Brasil. Palavras – chaves: Brasiguaios; Carperos. Conflito agrário. Migração. Página | 84 REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, José L. Os brasiguaios e os conflitos sociais e nacionais na fronteira BrasilParaguai. Análise de Conjuntura, n. 2, páginas, fev. 2009. DOIS em cada três brasileiros que vivem fora do Brasil estão em situação irregular. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 23 set. 2010. SOUCHAUD, S. Geografía de la migración brasileña en Paraguay. Asunción: UNFPA, 2001. VITAL, Nicholas. Brasiguaios lutam pela terra. Dinheiro Rural, San Alberto, n. 47, set. 2008. Disponível em <http://revistadinheirorural.terra.com.br/secao/agroeconomia/ brasiguaioslutam-pela-terra> Acesso em: 10 mar. 2012. WAGNER, Carlos. Brasiguaios: homens sem pátria. Petrópolis: Editora Vozes, 1990. Página | 85 2 - O BRASIL E OS ESTADOS UNIDOS: UM SOBREVOO PELA BIBLIOGRAFIA SOBRE A POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA Raquel de Bessa Gontijo de Oliveira A forma como o Brasil se insere no sistema internacional está intimamente ligada às suas relações hemisféricas. A metáfora desenvolvida por Rubens Ricupero, ilustrando a existência de uma “relação triangular” entre o Brasil, os Estados Unidos e a América Latina, expressa de maneira clara a importância deste aspecto para a compreensão da forma como as relações do Brasil no mundo são construídas. Assim, está claro que os estudos sobre política externa brasileira no século XX têm como um de seus eixos centrais as relações com os Estados Unidos e, uma vez que o relacionamento do Brasil com a potência hemisférica é, desde os primórdios da República, um elemento fundamental para a compreensão da trajetória de sua política externa, ele ocupa um espaço proeminente na literatura sobre o tema. Este trabalho tem por objetivo identificar as formas como a literatura especializada aborda a temática do relacionamento bilateral entre Brasil e Estados Unidos, desde o governo Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) até governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Isto permite um mapeamento de como os analistas descrevem o movimento pendular entre períodos de alinhamento entre os dois governos, e períodos em que o Brasil buscou maior autonomia. Este Página | 86 movimento de oscilação entre aproximação e afastamento é uma característica recorrentemente apontada pelos analistas para descrever as relações entre os dois países. Encontram-se, na literatura especializada, diversas periodizações indicativas dessas relações bilaterais. Com efeito, podem ser listados diversos termos empregados por vários autores para descrever o movimento pendular de aproximação e afastamento da política externa brasileira em relação aos Estados Unidos: de um lado, tem-se o americanismo, o alinhamento, a unilateralidade, a relação especial com os Estados Unidos; e, de outro, tem-se o globalismo, a autonomia, a multilateralidade e a diversificação de parcerias. Nem sempre há consenso entre os autores quanto à melhor forma de se classificarem determinados períodos, mas algumas tendências perpassam diversas análises e permitem a identificação de classificações mais aceitas. De modo geral, é possível dispor os governos, a partir de Dutra, em um espectro analítico, de acordo com as tendências de suas respectivas políticas externas. Em um extremo do espectro, encontram-se aqueles governos que adotaram políticas mais americanistas. Nesta posição, merecem destaque o governo Dutra e o governo de Humberto Castelo Branco (1964-1967). As interpretações encontradas na literatura focam claramente os incentivos que ambos os governos encontraram para promover políticas de maior alinhamento com a potência ocidental. O governo Dutra, no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, orientou sua política externa pela expectativa de um relacionamento especial com os Estados Unidos, o que lhe valeria benefícios sobretudo econômicos. Já o governo Castelo Branco, enfrentando uma difícil conjuntura interna no período que se seguiu ao golpe de abril de 1964 e ao início do Regime Militar, adotou políticas fortemente anticomunistas e, consequentemente, pró-Ocidente, com a adesão à teoria das fronteiras ideológicas internacionais. Esta teoria buscava enquadrar a política externa brasileira aos moldes políticos da Guerra Fria. Página | 87 No outro polo do espectro, estão os governos orientados pela busca de maior autonomia, cuja agenda internacional foi marcada pela diversificação de parcerias. A literatura tende a enquadrar nesta extremidade a Política Externa Independente (PEI) de Jânio Quadros e João Goulart (19611964), e o Pragmatismo Responsável e Ecumênico de Ernesto Geisel (1974-1979). Este apresentou um longo período de continuidade, através dos governos de João Figueiredo (19791985) e José Sarney (1985-1990). Alguns analistas sugerem que a diversificação de parcerias empreendida durante a PEI foi fruto dos sucessivos desapontamentos nas relações com os Estados Unidos, uma vez que as expectativas de benefícios decorrentes de um relacionamento especial com a potência hemisférica foram repetidamente frustradas. Por sua vez, o pragmatismo de Geisel é percebido como uma retomada de princípios introduzidos por Quadros e Goulart, em um contexto em que o alinhamento hemisférico trazia poucas vantagens para o Brasil. Assim, a política externa brasileira rompeu com a ideia de alinhamentos ideológicos e passou, então, a defender relacionamentos orientados por considerações pragmáticas. Isso significava que relacionamentos percebidos como vantajosos não seriam rejeitados com base apenas nas considerações ideológicas inerentes ao contexto da Guerra Fria. Entre esses dois extremos de alinhamento e de autonomia há uma zona cinzenta, em que se percebe maior divergência entre os analistas. Assim, os governos de Getúlio Vargas (1951-1954), Juscelino Kubitschek (1956-1961), Artur da Costa e Silva (1967-1969) e Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) estariam dispostos ao longo do espectro analítico empregado, com alguns autores posicionando-os ora mais próximos à linha americanista, ora mais próximos à agenda da diversificação de parcerias. Estes governos caracterizam-se por priorizar agendas desenvolvimentistas, de tal forma que a temática econômica parece ofuscar posicionamentos políticos muito bem definidos. Essa característica pode ajudar na compreensão dos motivos pelos Página | 88 quais o posicionamento desses governos ao longo do espectro de alinhamento e autonomia é mais incerto. A partir da década de 1990, as classificações tornam-se mais difíceis, possivelmente pela proximidade entre os analistas e o objeto de estudo. Ainda que vários autores estendam o período de alinhamento aos governos de Fernando Collor (1990-1992) e Itamar Franco (1992-1995), termos como “período de ajuste” ou “período de amadurecimento” começam a ser empregados com maior frequência. No entanto, o problema inerente a esses termos é a dificuldade em se compreender a ideia que eles buscam transmitir. Com efeito, é legítimo supor que todas as fases de política externa implicam algum grau de ajuste ou de amadurecimento, na medida em que o contexto de formulação e implementação de tais políticas sofre mudanças, tanto no plano nacional quanto no plano internacional. Alguns analistas sugerem que o governo Collor trouxe a falência tanto do paradigma americanista quanto do paradigma autonomista, dando início a uma nova fase, em que o movimento oscilatório que prevalecera até o final da década de 1980 não mais se verificaria. Encontram-se, na literatura, interpretações apontando para um novo paradigma, orientado pela integração internacional. Assim, os esforços do Brasil de se engajar em organismos multilaterais, promover uma forte aproximação com seus vizinhos latino-americanos e aumentar os laços com os países em desenvolvimento de forma mais ampla seriam indicadores desse novo paradigma que desponta a partir do governo Itamar Franco e que ganha força nos governos Fernando Henrique Cardoso (1995-2001) e Luiz Inácio Lula da Silva (2002-2010). Este estudo, cujo objetivo é explorar a literatura sobre a política externa brasileira e formular um mapeamento das diferentes interpretações e periodizações ali encontradas, pretende oferecer uma pequena contribuição para o debate rico e plural sobre a política externa brasileira, tendo como Página | 89 foco a própria literatura. Tal mapeamento contribui para a identificação dos períodos que suscitam maiores divergências entre os analistas, e para a formulação de hipóteses sobre os motivos de tais divergências. Algumas hipóteses para as divergências entre os analistas podem ser delineadas desde já. Percebese um apreço dos analistas pelos discursos, os quais nem sempre correspondem às práticas adotadas na formulação da política externa. No mesmo sentido, deve também ser levada em conta a predominância de estudos qualitativos sobre o tema, que permitem a expressão de interpretações divergentes sobre um mesmo evento. Sob essa perspectiva, a dificuldade em se estabelecerem critérios objetivos claros de classificação favoreceria a emergência de análises divergentes. Finalmente, tais divergências podem ser fruto de interesses diferentes entre os analistas. Assim, enquanto alguns percebem fortes laços econômicos entre o Brasil e os Estados Unidos, outros podem se debruçar sobre o estranhamento político entre os dois países, o que expressaria, essencialmente, a complexidade e multiplicidade da política externa brasileira em seus diversos temas e áreas de atuação. Palavras-chave: política externa brasileira; relação Brasil-Estados Unidos; bibliografia. REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS ALTEMANI, Henrique. Política externa brasileira. São Paulo: Saraiva, 2005. Página | 90 AMORIM NETO, Octavio. De Dutra a Lula: a condução e os determinantes da política externa brasileira. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. BUENO, Clodoaldo. “Da agroexportação ao desenvolvimentismo (1889-1964)”. In: CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. História da política exterior do Brasil. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008, p.149-363. CERVO, Amado Luiz. “A periodização da história da política externa brasileira”. In: Textos de História 1. 1993, p. 49-57. CERVO, Amado Luiz. “Do projeto desenvolvimentista à globalização”. In: CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. História da política exterior do Brasil. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008, p. 365-521. HIRST, Monica. Brasil-Estados Unidos: desencontros e afinidades. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009. JAGUARIBE, Hélio. “Introdução geral”. In: ALBUQUERQUE, José Augusto Guilhon (org.). Sessenta anos de política externa brasileira (1930-1990): Crescimento, modernização e política externa. São Paulo: Nupri-USP/ Cultura Editores Associados, 1996, v.1, p. 23-33. Página | 91 PINHEIRO, Letícia. Política externa brasileira (1889-2002). Rio de Janeiro: Zahar, 2010. RICUPERO, Rubens. “O Brasil, a América Latina e os EUA desde 1930: 60 anos de uma relação triangular”. In: ALBUQUERQUE, José Augusto Guilhon (org.). Sessenta anos de política externa brasileira (1930-1990): Crescimento, modernização e política externa. São Paulo: Cultura Editores Associados, 1996, v. 1, p. 37-60. VIZENTINI, Paulo Fagundes. Relações internacionais do Brasil: De Vargas a Lula. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003. VIZENTINI, Paulo Fagundes. “O Brasil e o mundo: A política externa e suas fases”. In: Ensaios FEE, Porto Alegre, vol. 20, nº 1, 1999, p. 134-154. Página | 92 3 – ANÁLISES DE INVESTIMENOS COM RECURSOS DO BNDES NAS FRONTEIRAS BRSILEIRAS: O DSENVOLVIMENTO NA FRONTEIRA OESTE. Expositor: Kaully Furiama Santos Introdução Entre os objetivos da maior parte dos governantes e dos grupos políticos está o desenvolvimento dos seus respectivos Estados e regiões, divergindo (em ideias e ações) nos meios para atingi-lo, mas o quê seria esse objetivo desses que são considerados por muitos os principais atores das Relações Internacionais? Para responder essa tão importante pergunta recorre-se ao economista Bresser Pereira, que com sua lucidez conceitua o desenvolvimento por parte de um Estado como: “O desenvolvimento é um processo de transformação econômica, política e social, através da qual o crescimento do padrão de vida da população tende a torna-se automático e autônomo. Trata-se de um processo social global, em que as estruturas econômicas, políticas, e sociais sofrem transformações continuas e profundas.” (PEREIRA, 1968, p.15) Um fato que constata esse foco no desenvolvimento de grupos de diferentes escolas e posições, como aponta Karen Costa (2011), decorre da fundação de bancos regionais e nacionais que buscam fomentar o desenvolvimento infraestrutural e industrial, fato fortemente percebido Página | 93 no pós-segunda guerra. Os denominados BD (Banco de desenvolvimento) foram criados então num ambiente multipolar em diversas regiões do mundo, pode–se citar como exemplo dados por Costa, o Korea Development Bank (1954) na Coreia e o Industrial Development Bank (1950) na Turquia. O Brasil, bem como outros países da América Latina, não foge a regra dessa busca pelo desenvolvimento. No entanto, governos, economistas e estudiosos reconhecem os problemas econômicos e estruturais sul americanos que dificultam o desenvolvimento dos países dessa região. Sendo decorrente da precária infraestrutura de transporte dos países até o atraso em pesquisa e de tecnologia industrial da região latino americana frente a outros mercados. Isso é evidenciado em uma das teorias que mais se aprofunda no tema e no diagnóstico do subdesenvolvimento brasileiro e latino americano: a Teoria do Desenvolvimento de Celso Furtado, membro da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal). GUMIERO (2011) divide a teoria do desenvolvimento de Celso Furtado em dois momentos, sendo o primeiro um diagnóstico do subdesenvolvimento brasileiro entendendo que o subdesenvolvimento não é uma etapa para atingir o desenvolvimento pleno e que as causas e os modelos de “subdesenvolvimento” são específicos de cada país; no segundo momento Furtado trabalha com as alternativas para superar o subdesenvolvimento brasileiro. Dado esse diagnóstico, surge no Brasil final da década de 40 e início dos anos 50 o BNDE como um dos principais órgãos latinos americanos de origem pública para fomentar o desenvolvimento, não apenas do Brasil, mas atingindo a América Latina e regiões específicas como as fronteiras do país. Um Banco que passou por modificações desde a sua estrutura administrativa até incorporações de novas funções, como a finalidade de fomentar também o desenvolvimento social a partir da década de 1980. Página | 94 A partir desse contexto é importante observar as características da fronteira do país com a Bolívia e o Paraguai, a chamada fronteira oeste, e suas peculiaridades no âmbito da economia e do comércio. Sendo o trabalho informal um problema social, político e econômico comum na região, pois além de irregular, o trabalho informal leva os indivíduos muitas vezes a praticar outros fatos antijurídicos como o contrabando e o descaminho. Cabe ao Estado com o objetivo de desenvolver-se, promover condições para evitar que esse tipo de trabalho se expanda, e impedir que crimes relacionados a essa informalidade sejam cada vez mais comuns. Além de continuar a investir em soluções para problemas de regiões fronteiriças mais trabalhadas pelo governo como o de povoamento, desenvolvimento sustentável e de segurança na Fronteira Norte do país. Dentre as políticas de desenvolvimento nas regiões fronteiriças, observa-se duas formas de atuação com utilização de recursos do BNDES, as diretas e as indiretas. A forma direta pode ser observada em exemplos como nas linhas de financiamento ofertadas para o setor de Turismo em Foz do Iguaçu noticiadas pelo BNDES (2011) em seu site oficial. Como modelo de atuação indireta o Corredor Bioceânico beneficia setores sociais e políticos juntamente com sua finalidade principal de melhorar a infraestrutura de transporte do país e do escoamento dos produtos nacionais.sendo que nos estudos técnicos feitos pelo BNDES (2011b) observa-se que o Corredor Bioceânico é de grande importância econômica para setores agrícolas e industrias do Mato Grosso do Sul e do Paraná, pois aumenta a competitividade de seus produtos no mercado internacional, com destaque para a produção de grãos, açúcar e álcool. Para entender os possíveis benefícios que as ações do BNDES e de seus investimentos na região da Fronteira Oeste do Brasil envolvendo a Bolívia e o Paraguai, gerando um processo de Página | 95 transformação econômica, política e social, ou como no conceito de Bresser Pereira apresentado no início do texto, o desenvolvimento, se faz necessário entender o processo de evolução do BNDES. Metodologia: O presente texto foi elaborado como atividade do Observatório da Fronteira, projeto de extensão do Laboratório de Análises de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (LARI – UFGD). Com o objetivo de acompanhar a conjuntura política, econômica e social da Fronteira Oeste do Brasil, e fornecer subsídios para o desenvolvimento de pesquisas, o Observatório da Fronteira acompanha a cobertura da região nos principais meios de comunicação do Brasil e dos principais países vizinhos para realizar análises mais aprofundadas sobre os temas que possam ter maior relevância para a agenda regional. Nesse sentido, ao longo dos últimos meses, o debate em torno do desenvolvimento econômico regional veio acompanhado da necessidade de melhor entendimento dos investimentos do BNDES nas áreas de fronteira. Assim, privilegiou-se nesse texto um estudo do papel dos investimentos públicos em ações de infraestrutura, com foco especial para o corredor bioceânico, dentro do contexto de integração nacional e regional. A produção desse texto contou com três etapas: a primeira, de levantamento de notícias da imprensa e relatórios de órgãos públicos sobre os investimentos do BNDES nas regiões de fronteira; a segunda, de levantamento e revisão bibliográfica em obras de referência, periódicos acadêmicos e bancos de dissertações e teses sobre investimento público e desenvolvimento econômico; e uma terceira, de projeção de impactos do corredor bioceânico para o Página | 96 desenvolvimento econômico e social da região e para as estratégias de integração regional do país na América do Sul. Resultados e Reflexões: A presença do BNDES na América Latina atende grandes necessidades para o desenvolvimento dos seus países, o fato do Estado fomentar o desenvolvimento econômico e também social consiste em uma das premissas da teoria econômica da Cepal. No entanto foram criados Bancos de Desenvolvimento em diversos países e regiões do mundo principalmente a partir da década de 50, o BNDE criado em 1952 se firmou como uma empresa pública importante para o país não apenas nos fatores econômicos, atingindo também questões sociais e de política externa. Nota-se a partir das notícias apresentadas, bem como os estudos feitos por integrantes da própria instituição, que o BNDES promove também a defesa do Brasil com suas atuações na fronteira evitando que a região que serve de acesso ao território nacional fique tão vulnerável a delitos e crimes. O presente estudo observou que setores econômicos que abrangem desde a agricultura ao Turismo são setores de interesse do governo e apoiados pelo BNDES no desenvolvimento do país e de sua economia. Gerando emprego, infraestrutura e melhores condições competitivas no mercado para os trabalhadores, população e produtores em regiões de características específicas como as regiões fronteiriças, minimizando a entrada de pessoas no crime e na informalidade sem que os grandes grupos criminosos possam perceber e agir. Página | 97 A presença do BNDES nas regiões de fronteiras como observados no projeto Calha Norte e no corredor Bioceânico garantindo não somente a melhoria econômica dessas regiões, mas a diminuição dos problemas sociais como o trabalho informal, o desemprego e de algumas práticas antijurídicas já apontadas, atinge um desenvolvimento real do país e de sua fronteira, pois como aponta Bresser: “Se o desenvolvimento não trazer consigo modificações de caráter social e político; se o desenvolvimento social e político não for a um tempo o resultado e causa de transformações econômicas, será porque de fato não tivemos desenvolvimento.” (PEREIRA, 1968, p.15) Palavras Chave: Desenvolvimento, BNDES, Fronteira, Bioceânico Referências: BRASIL, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES. BNDES apresenta linhas de financiamento para setor de turismo em Foz do Iguaçu (PR). Brasil, 2011. Disponível em: http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Sala_de_Imprensa/Notic ias/2011/Institucional/20110616_turismo.html Acesso em: 25 jul. 2012. BRASIL, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES. Estudos técnicos referentes ao eixo de capricórnio: Oferta de Capacidade de Transporte Ferroviário. Brasília, 2011. Página | 98 COSTA, Karen Fernandez. Mudança de rumo, mesma função – O BNDES na segunda metade dos anos 80. 2003. 167 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2003. GUMIERO, Rafael Gonçalves. Diálogo das teses do subdesenvolvimento de Rostow, Nukse e Myrdal com a teoria do desenvolvimento de Celso Furtado. 2011. 144f. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2011. PEREIRA, L.C Bresser. Desenvolvimento e Crise no Brasil Entre 1930 e 1967. Ed. Zahar Editores. Rio de Janeiro, 1968. 4 - COOPERAÇÃO DESCENTRALIZADA E ATRAÇÃO DE INVESTIMENTO EXTERNO DIRETO: POSSIBILIDADES E DESAFIOS: UM ESTUDO DE CASO SOBRE MINAS GERAIS E SÃO PAULO. Luciana Leal Resende Paiva16 Este trabalho busca estudar a ação de um novo ator emergente no cenário mundial, as unidades subnacionais. O principal objetivo é entender como esses atores, em um mundo cada 16 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Página | 99 vez mais globalizado, realizam a sua inserção no cenário internacional sem entrar em conflito com os marcos estabelecidos pelo Estado Nacional e conseguem assim atrair Investimento Externo Direto (IED) para o seu território e desenvolvem alguns setores em que a ação do Estado Nacional não é tão eficiente. Para tal análise, primeiramente, tomaremos como base as mudanças ocorridas no Sistema Internacional, após o Fim da Guerra Fria, pois elas foram determinantes para novas estruturas surgidas no interior dos Estados, influenciando as políticas domésticas. Segundo Barros (2009), o cenário internacional nas décadas de 70 e 80 foi marcado por intensas modificações, dentre elas, ocorreu um importante aprofundamento dos fluxos financeiros internacionais. As mudanças estruturais que estavam ocorrendo eram inéditas nesse contexto, sendo que o fim da Guerra Fria foi um elemento fundamental para dar início a tais modificações. Anteriormente o sistema estava configurado como uma bipolaridade, tendo as duas maiores potências da época, os Estados Unidos e União Soviética, disputando poder e influência de forma competitiva e ideológica, as questões relativas à segurança eram as que estavam em pauta, até aquele momento. O fim do bloco soviético significou o fim da Guerra Fria também. Nesse período, há uma mudança quantitativa no sistema e o capitalismo passou a ser algo concretamente global, a conseqüência de tal foi à formação de uma nova agenda internacional. Assim, pretende-se entender, como ficou estabelecida a posição do Estado em seus âmbitos interno e externo possibilitando a inserção internacional das unidades subnacionais de forma mais autônoma. Esses fatores além de permitirem a inserção internacional desses entes federados no cenário internacional, comportam a participação desses atores em um espaço econômico global, que anteriormente era ocupado pelos Estados nacionais. Nesse novo momento, existe a interdependência entre os países, que cada vez é mais acentuada devido à Página | 100 globalização, que torna os países mais dependentes em vários aspectos, mas principalmente o econômico (HOCKING, 2004; HIRST; THOMPSON, 1998). Esse fato pode ser explicado pela Interdependência Complexa, teoria criada pelos autores Keohane e Nye (2001), com a construção desse modelo diferente dos já existentes, os autores demonstram não se basearem nas teorias realistas, que eram obsoletas, para compreender a nova configuração do sistema internacional que tornar-se-ia mais complexo, por ter em pauta em menor grau questões bélicas. O novo contexto internacional demonstrava que as questões econômicas tornavam-se cada vez mais um elemento importante devido ao contexto em que o cenário internacional encontrava-se. Sendo assim, também notamos a importância das multinacionais para a atração de Investimentos Externos Diretos. A globalização econômica, segundo Gilpin (2004), levantou a questão da escala e da complexidade das transações internacionais, alimentando o crescimento das funções exercidas pelas matrizes das multinacionais, que foram as responsáveis pela aceleração da integração das economias dos Estados globalmente nas décadas de 50, 60 e 70, que foi o período de maior expansão do comércio internacional, e a volta do crescimento econômico. Segundo Laplane e Sarti (1999), as multinacionais constituem o núcleo da produção, núcleo que teve seu método modificado devido à internacionalização. No final dos anos 70, mudanças importantes ocorreram, principalmente, pelo fato de que o comportamento dos governantes modificou em aspectos como a economia e política. Compreenderemos como as iniciativas idealizadas pelos governos subnacionais, podem atingir um patamar internacional procurando a atração de investimentos para sua região, e como eles conseguem a instalação da mesma em seu território, que benefícios são oferecidos. Sendo assim, eles utilizam a Cooperação Descentralizada para conseguirem agir no Cenário Internacional Página | 101 Ela pode ser uma estratégia eficiente para que os entes federados consigam suprir as necessidades de sua região, pois, a ação descentralizada realizada por governos subnacionais demonstra ser complexa e dinâmica, transformando as políticas públicas e a gestão dos governantes locais oferecendo uma nova perspectiva as relações globais. Segundo Sassen (1998) e Keating (2004), os governos locais assumem papéis importantes em novas temáticas dentre elas os desafios da economia sustentada e a necessidade da promoção do desenvolvimento local, sendo assim, as cidades assumem atitudes proativas e competitivas, que norteiam as estratégias para desenvolvimento de suas ações. Nesse trabalho destacaremos os aspectos de liderança das cidades que envolvem o novo modelo de gerencia das cidades. Dimensões até então de preocupação exclusiva do Estado nacional. Ainda também buscaremos entender a relação da União como incentivadora, ou não, da atuação de seus entes federados para apoio à atração de Investimento Externo Direto. Sendo assim, é necessário entendermos a atuação de agências nacionais para o fomento à exportação e importação como a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX), a Agência Nacional de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MIDIC), para sabermos se há apoio dos órgãos estatais para a atração de IED pelos entes federados. Para Rodrigues (2004), a atuação dos entes federados brasileiros ocorre com uma grande assimetria. Geralmente, as cidades capitais são as melhores capacitadas para atuação internacional, mas mesmo assim as políticas utilizadas para a atração de investimento diferem entre os entes federados. Segundo Pereira (2004), são poucas as unidades subnacionais que buscam a ação internacional, pois nem todos possuem os mecanismos necessários à cooperação descentralizada e Página | 102 nem capacidade política para tal. Ainda não devemos esquecer que esse tema possui informações escassas e superficiais. Logo, para dar consistência ao trabalho faremos uma comparação entre as políticas realizadas por dois entes federados brasileiros Minas Gerais que possui inserção internacional de forma diferenciada e São Paulo, que é um polo econômico, financeiro e comercial, sendo o principal estado brasileiro responsável pela captação de IED. Esses estados estão localizados na região sudeste. Eles possuem destaque pela inserção internacional bem realizada, porém no tocante as suas políticas para atração de investimento e a coordenação de suas agências de promoção de investimentos ainda existe muito a ser feito. E, também, será analisada a relação da União com os dois entes federados para que possamos saber qual o papel exercido pela União nesse contexto, para que seja possível analisar todo um contexto de atração de investimentos por unidades subnacionais no Brasil. A área internacional dos estados brasileiros em pauta é descoordenada. Isso nos remete a um problema, à falta de pessoal capacitado ocupando cargos nesses locais, pois geralmente as pessoas não estão habilitadas a assumir esses cargos, sendo que seus conhecimentos sobre sua área de atuação é escassa. Percebemos isso ao analisarmos as secretárias estaduais dos dois estados brasileiros, aparentemente a ação de maior significância para atração de investimentos foi à criação de agências como a Investe São Paulo, que trabalha de forma mais organizada e consegue atrair aportes de IED para a região de São Paulo, conseguindo assim gerar renda e desenvolvimento econômico para a região. Porém, o Instituto de Desenvolvimento Integrado (INDI), agência mineira, procura atrair investimento estrangeiro e nacional, não tendo como escopo a atração de Investimento Externo Direto. Um importante fator é que geralmente as propostas de negociações estrangeiras partem deles e não do ente federado o que prejudica a Página | 103 atração de Investimentos Externos Diretos para as regiões (INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO INTEGRADO DE MINAS GERAIS, 2012a). Segundo, Tavares (2012), o Brasil não está preparado para atuação internacional de seus entes federados, como ocorre em outros países. Percebemos que a ação de instituições como a APEX, ABDI, BNDES, MIDIC, ocorre para alguns setores e não correspondem as especificidades de cada ente federado, por exemplo, o empréstimo fornecido pelo BNDES é o mesmo para o micro empresário de São Paulo e de Minas Gerais. A APEX apesar de possuir escritórios regionais não busca empresas que explorem a potencialidade do local em que esse escritório se encontra. Ou seja, o apoio não é direcionado para resolver problemas regionais e possibilitar seu pleno desenvolvimento, mas para atender as necessidades da União. Palavras-chave: Cooperação descentralizada. Investimento Externo Direto. Multinacionais. Minas Gerais. São Paulo. REFERÊNCIAS BARROS, Mariana Andrade. A atuação internacional dos governos subnacionais. Belo Horizonte: Del Rey, 2009.168p. GILPIN, Robert. O desafio do capitalismo global: a economia mundial no século XXI. São Paulo: Record, 2004. 494p. Página | 104 HIRST, Paul; THOMPSON, Grahame. Globalização em questão: a economia internacional e as possibilidades de governabilidade. Petrópolis: Vozes, 1998. 364p. HOCKING, Brian. Regionalismo uma perspectiva das relações internacionais. In: WANDERLEY, Luiz Eduardo et al. (Org.). A dimensão subnacional e as relações internacionais. São Paulo: EDUC, 2004. Cap.3, p.77-108. INSTITUTO Infraestrutura. DE DESENVOLVIMENTO Disponível em: INTEGRADO DE MINAS GERAIS. <http://www.indi.mg.gov.br/porque/?area=13&secao =17&site=1> Acesso em: 25 abr. 2012 INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO INTEGRADO DE MINAS GERAIS. Institucional. Disponível em: <http://www.indi.mg.gov.br/indi/?area=5&secao=41& site=1> Acesso em: 27 abr. 2012a. KEATING, Michael. Regiones y asuntos internacionales: motivos, oportunidades y estrategias. In: WANDERLEY, Luiz Eduardo et al. (Org). A dimensão subnacional e as relações internacionais. São Paulo: EDUC, 2004. Cap. 2, p. 49-76. KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S. Power and interdependence. 3 ed. New York: Longman; 2001. Cap.:1, p. 9-10. LAPLANE, Mariano F.; SARTI, Fernando. O investimento direto estrangeiro e a internacionalização da economia brasileira nos anos 1990. Economia e Sociedade, Campinas, v. 11, n. 1, p. 63-94, jan./jun. 2002. Página | 105 PEREIRA, José Alexandre. O federalismo na diplomacia brasileira: o interesse do Itamaraty nas ações externas dos governos subnacionais. Revista Cena Internacional, v.6, n.2, p. 144-159, 2004. RODRIGUES, Gilberto Marcos Antonio. A inserção internacional de cidades: notas sobre o caso brasileiro. In: WANDERLEY, Luiz Eduardo et al. (Org.). A dimensão subnacional e as relações internacionais. São Paulo: EDUC, 2004. Cap.14, p. 441-462. SASSEN, Saskia. As cidades na economia mundial. São Paulo: Studio Nobel, 1998. TAVARES, Rodrigo. As relações internacionais de São Paulo. Política Externa, v. 20, n. 4, p.169-184, mar/maio 2012. 5 - A PERSPECTIVA DA DESCENTRALIZAÇÃO E O FINANCIAMENTO DE PROJETOS DE DESENVOLVIMENTO – O RELACIONAMENTO DE MINAS GERAIS COM O BANCO MUNDIAL ENTRE 2003 -2012. SAMUEL ARAUJO GOMES DA SILVA Estudante de Pós - Graduação no programa de Mestrado em Administração da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG Página | 106 RESUMO EXPANDIDO O presente artigo tem como objetivo analisar as mudanças sistêmicas que propiciaram o relacionamento mais próximo de Minas Gerais com o Banco Mundial e se o conceito de isomorfismo coercitivo ajuda a compreender o relacionamento entre o estado [de Minas Gerais] e o Banco [Mundial]. Nesse sentido, o presente artigo tem por objetivo analisar as mudanças sistêmicas que propiciaram o relacionamento mais próximo de Minas Gerais com o Banco Mundial e se este é um caso de isomorfismo coercitivo. Para tanto nos valeremos da análise dos princípios disseminados pelo Banco Mundial, como estratégias, para a promoção do Desenvolvimento Humano e a correlação das temáticas dos projetos aprovados pelo estado da federação brasileira junto ao Banco Mundial. Assim dividiremos nossa análise nas seguintes seções: As mudanças sistêmicas e o descolamento da ordem no sistema internacional; A redefinição do papel do Estado; Os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento e a administração pública gerencial; O Banco Mundial e os projetos de desenvolvimento das subunidades nacionais; O caso de Minas Gerais; e considerações finais. Para validar a análise partimos do pressuposto de que, com o deslocamento da ordem do sistema internacional do Estado para Economia, a relação dos governos com as organizações privadas, multilaterais e internacionais se intensificaram e foram moldadas de acordo com os interesses das partes envolvidas. O Estado foi perdendo força para as organizações que detém os fatores tecnológicos dos meios de produção e recursos financeiros, e a promoção do desenvolvimento ficou cada vez mais vinculada à utilização eficiente e eficaz dos recursos pelos governos. Este Página | 107 novo ambiente baseado na lógica da interdependência complexa é determinada por uma ordem de caráter econômico, na qual os atores envolvidos neste processo não são mais apenas os EstadosNação. Com o aumento da interdependência econômica, o mercado, bem como as organizações internacionais, passaram a exercer um papel de extrema relevância, ao passo que reduziram o grau de controle que os governos exercem sobre suas economias (STOPFORD E STRANGE, 1991). A perspectiva da descentralização passou a ser um assunto cada vez mais recorrente quando se fala da eficiência e eficácia dos Estados na promoção do bem público. Nesse sentido a proposta de reforma do Estado ganhou relevância ao propor que, para uma atuação do Estado com eficiência, flexibilidade e principalmente agilidade, se fazia necessário que houvesse uma reforma no seu aparato administrativo. A reforma gerencial do Estado passou a ser apontada por teóricos e governantes como a alternativa disponível para responder as demandas por ele recebidas. Esta tem como objetivo principal reduzir seu tamanho, torná-lo mais ágil, flexível e eficiente, além de mais responsável perante a sociedade” (FLEURY,2000, p.1), ou seja, reduzir no aparato estatal todo o excesso produzido pela burocracia, bem como restringir a atuação direta da União apenas às ações necessárias e aumentar a participação dos cidadãos. No caso brasileiro, a reforma teve foco em um rearranjo institucional que delegou tarefas e responsabilidades, outrora unicamente estatais, para outras esferas da sociedade. Com base na redefinição do papel do Estado, assistimos a uma mudança no entendimento da função e das potencialidades das subunidades nacionais. Estas passam de mero território geograficamente limitado, com grande diversidade populacional e cultural, a um espaço em que as relações entre o governo e as organizações sociais - e internacionais - ganham cada vez mais espaço, abrindo assim um campo de respostas possíveis aos desafios econômicos, políticos e culturais (BORJA, 1996). Acompanhada a este debate surgiu a preocupação com a receita das Página | 108 subunidades nacionais neste processo e, consequentemente, com as estratégias de atração de Investimento Externo Direto (IED) utilizadas pelos estados da federação brasileira. Um meio muito utilizado por estas tem sido a captação de recursos por meio de financiamentos e empréstimos junto aos Bancos Multilaterais para o Desenvolvimento (BMDs). Entretanto, para estruturar tal ação internacional das subunidades, seus governos fazem uso do que denominamos paradiplomacia, aparato burocrático administrativo que vislumbra explicar a ação externa das subunidades nacionais. A paradiplomacia é vista como “um fenômeno social abrangente de busca de inserção de entidades subnacionais na política mundial contemporânea” (RIBEIRO, 2008, p.160), ou de forma mais prática o envolvimento de governos não-centrais nas relações internacionais por meio do contato com entidades públicas ou privadas estrangeiras, com o objetivo de promoção sócio-econômica e cultural (PRIETO, 2004). Com os BMDs, enquanto instituições preocupadas com o desenvolvimento por meio do financiamento de projetos com os governos, a unanimidade em relação à reforma do Estado não aconteceu de maneira diferente, e estes ainda fundamentaram a sua ideia no conceito de descentralização. O Banco Mundial (BM), de forma mais específica, teve seus guidelines modificados de acordo com as mudanças em seus princípios orientadores, no que se entendia por desenvolvimento. Após um longo período de conferências e estudos, um dos conselheiros do BM, na época, desenvolveu um conceito de desenvolvimento que propiciou a reorientação dos princípios, guidelines e a ação do Banco [Mundial]. Amartya Sen definiu o desenvolvimento como “um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas possuem” (SEN, 2002, p.17). Os BMDs, por sua vez, para disseminar a perspectiva da descentralização e do desenvolvimento humano como forma de promoção do desenvolvimento, implementaram condicionantes, aqui Página | 109 chamados também de guidelines, que relacionam com a capacidade gerencial dos governos e sua estrutura interna à concessão de empréstimos e financiamentos. Esse conjunto de condicionantes criados pelos BMDs passaram a fazer parte de um discurso em que se fomentou na crença de que a descentralização pode resultar no fortalecimento da democracia, no aumento de transparência e na busca por competitividade e eficiência (World Bank, 2012). Esse conjunto de medidas propostas pelo BM passou a ser conhecido como promoção da “boa governança” nas subunidades nacionais. Esse conceito, traduzido em estratégia do BM, passou a ser difundido como meio para alcançar a eficiência necessária para a promoção do desenvolvimento. Consequentemente passou a ser fruto da ação do Banco Mundial e dos seus diversos fundos constituidores no que tange à seu relacionamento com as subunidades nacionais. A implementação de condicionantes, por sua vez, pode desencadear na incorporação de práticas e padrões de comportamentos comuns entre as estados que buscam financiamento junto ao BMDs, de forma mais precisa o Banco Mundial. Esse fenômeno, por sua vez, pode ser caracterizado como institucionalização por meio de isomorfismo coercitivo (DIMAGGIO; POWEL, 2005). O estado de Minas Gerais é um exemplo de subunidade que mantém um relacionamento próximo e contínuo com o Banco Mundial. A partir de 2003 o relacionamento de Minas Gerais com o Banco Mundial se intensificou, por meio de um programa responsável por um dos maiores fluxos financeiros de IED no estado. O programa tomou corpo em um conjunto de medidas de rápido impacto para modificar, de vez, o padrão de comportamento da administração pública estadual com a contemporaneidade própria de uma gestão eficiente, efetiva e eficaz (VILHENA et al, 2006). Não obstante, o estado recentemente passou e/ou passa por uma reforma em seu aparato administrativo, em direção a uma administração mais gerencial. Muitas das ações compreendidas Página | 110 no âmbito do programa de reforma, aqui também chamado de Choque de Gestão, foram executadas por meio de projetos financiados pelo Banco [Mundial]. De 2003 até 2012 o relacionamento de Minas Gerais se intensificou principalmente no que tange aos projetos de promoção de governança e governabilidade no estado. Junto ao Banco Mundial já foram captados desde então US$ 2.057 bilhões. Enquanto o valor da projeção de investimento do BM no Brasil de 2007-2011 foi de US$ 7 bilhões, Minas Gerais recebeu quase US$1.5 bilhão, totalizando quase 21,5% de todo o investimento no país (World Bank, 2012). Assim, concluímos que o condicionamento da concessão de empréstimos e financiamentos à capacidade gerencial dos governos pode resultar em armadilhas para o BM, pois os estados podem adotar essas medidas de forma cerimonial (DIMAGGIO; POWEL, 2005), ou seja, sem transformar isso em valor e internalizar as mesmas. Ainda, os estados podem internalizar mais perder o foco da promoção de bens públicos, uma vez que a criação de indicadores e o alcance de metas podem ser transformados em um fim ao invés de um meio. Pouco ainda se sabe se de fato a implementação de condicionantes, mecanismos de isomorfismo coercitivo, para os empréstimos e financiamentos são eficazes na promoção do desenvolvimento humano. Principalmente uma vez que partimos do entendimento que as reformas administrativas deveriam refletir um consenso pactuado e enraizado socialmente, fruto de uma rearticulação entre o Estado e a sociedade, com a redefinição das relações de poder e o redesenho das estruturas institucionais (FLEURY, 1997), e não como aconteceu com o estado de Minas Gerais em que o governo impôs um modelo de reforma com objetivos diversos, entre eles a captação de recursos junto ao Banco Mundial. Página | 111 Palavras-chave : Banco Mundial, Minas Gerais, Isomorfismo coercitivo, Gestão Pública. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BORJA, Jordi. As cidades e o planejamento estratégico: uma reflexão européia e latino-americana. In: Tânia Fischer, ed. Gestão contemporânea, cidades estratégicas e organizações locais. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas.1996. CKAGNAZAROFF, Ivan Beck; QUEIROZ, Roberta Graziella Mendes. Inovação no setor público: uma análise do choque de gestão (2003-10) sob a ótica dos servidores e dos preceitos teóricos relacionados à inovação no setor público. RAP – Revista da Administração Pública. Rio de Janeiro. Maio/Junho 2010. Trimestral. DIMAGGIO, P. J.; POWELL, W. W. A gaiola de ferro revisitada: isomorfismo institucional e racionalidade coletiva nos campos organizacionais. Revista de Administração de Empresas. v. 45, n. 2. p. 74-89. 2005. FLEURY, Sonia. Diferentes abordagens sobre a reforma do Estado. Revista de Administração Pública, 31 (4): 299-309, 1997. PEREIRA, ChyaraSales .O Estado-Nação e as cidades – a redefinição do papel do Estado e a emergência das cidades no cenário internacional – uma questão paradiplomática. 2010, in III Página | 112 Congresso Consad de Gestão Pública Disponível em <http://www.consad.org.br/sites/1500/1504/00001998.pdf< Acesso em: 18/04/2010. RIBEIRO, Maria Clotilde Meirelles. A ação Internacional das Entidades Subnacionais: Teoria e Visões sobre a Paradiplomacia. Cena Internacional, vol. 10, n. 2, 2008. SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Companhia das Letras. 2002. STOPFORD, J, e STRANGE, S. Rival States and Rival Firms: Competition for World Market Shares. Cambridge: Cambridge University Press. 1991. VILHENA, Renata [et al.]. O choque de gestão em Minas Gerais : políticas da gestão pública para o desenvolvimento. Belo Horizonte: Editora UFMG. 2006 THE WORLD BANK. Disponívell em http://web.worldbank.org < acesso em 26/05/2010> THE WORLD BANK. Disponívell em http://web.worldbank.org < acesso em 20/03/2012> Página | 113 6 - A BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO PARANÁ: Uma análise do provimento de bens públicos para conservação de espaços na região da fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai17 Pedro de Melo Braga18 Palavras Chave: Bacia do Rio Paraná. Conservação. Bens Públicos. Ação Coletiva. Fronteiras podem ser entendidas por “uma faixa de transição onde os valores de cada parte, particularmente a língua, raça, religião, ideologia, costumes e comércio, se interpenetram. Mas, se a caracterização jurídica da fronteira é a linha, a sua realidade cultural ou administrativa (instalação de postos de controle, alfândegas, elementos de vigilância ou defesa) é a faixa.”. (MATTOS, 1990, p.30). Partindo dessa definição, entende-se a fronteira como um dos espaços no qual as relações internacionais podem ser observadas. Nesse sentido de espaço, a região da Bacia do Rio Work in progress. Graduando do Curso de Relações Internacionais da PUC Minas; Bolsista de Iniciação Cientifica âmbito PIBIC/CNPq; Membro do Grupo de Pesquisa Relações Internacionais do Atlântico Sul; 17 18 Página | 114 Paraná, mais especificamente o Rio Paraná em si, constitui o lugar físico no qual a interação entre os Estados do MERCOSUL, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai acontece, pois é a sua fronteira. Partindo dessas considerações sobre os limites geográficos entre tais países, este artigo procura analisar o Rio Paraná, a área de sua Bacia, e a sua importância para a Região no que tange a sua utilização pelos Estados citados. O objetivo geral desse artigo é analisar como se estrutura a relação entre o Brasil, Argentina e Paraguai para a consolidação dos bens públicos existentes naquela fronteira, a saber: segurança pública, recursos naturais e infraestrutura. Como objetivos específicos, analisaremos os aspectos formais institucionais, os recursos humanos e materiais despendidos por esses três Estados na Bacia do Rio Paraná; buscaremos identificar, ainda, a existência de assimetrias econômicas e políticas entre esses atores, de forma a identificar como esse grupo se organiza para prover esses bens públicos. Os três diferentes aspectos de bem público contemplam diferentes agendas as quais essa pesquisa pretende analisar. Pelo aspecto da segurança pública referem-se iniciativas de proteção de áreas e utilização de força policial e militar na região. Em infraestrutura compreende-se a conservação de áreas, no que tange a viabilização da utilização de espaços providos pelos Estados. E por recursos naturais entendem-se as iniciativas coletivas para a salvaguarda de áreas nas quais os atores que os utilizam, se beneficiem pelo uso pleno de seus meios. Discutir sobre a importância de um espaço comum a diferentes atores é uma tarefa que requer colher na literatura as ferramentas necessárias para entender a influência desse espaço para os Estados. Inserido no debate das Relações Internacionais, a discussão Página | 115 sobre bens públicos é uma dessas ferramentas. O bem público é definido através de duas características básicas: a não exclusão - bens públicos produzem ganhos para quem custeou sua consecução ou não, e o consumo desses bens não implica em redução do mesmo para as partes. (RUSSETT; SULLIVAN,1985). Essa discussão trazida por Russett; Sullivan (1985), é contemplada também por Olson (1999), o qual define um bem público por: “qualquer benefício que se for consumido por qualquer pessoa em um grupo não pode viavelmente ser negado aos outros membros desse grupo. Em outras palavras, aqueles que não pagam por nenhum dos benefícios públicos ou coletivos que desfrutam não podem ser excluídos ou impedidos de participar do consumo desses benefícios, como podem quando se trará de benefícios não-coletivos.” (OLSON, 1999 p. 15). Diante dessa caracterização encontramos em Olson (1999), que bens públicos além de convergir com os interesses comuns do grupo, são gerados diante de duas condições: o provimento pela organização ou o provimento pelo membro da organização que possui capacidades claras de assumir os custos da consecução.19 Claramente, no caso do MERCOSUL, vê-se uma assimetria entre as partes, observando o seu potencial econômico. O Brasil alcançou em 2010, de acordo com o Banco Mundial, um PIB de 2,14 trilhões, enquanto seus vizinhos Argentina, Paraguai e Uruguai alcançaram 368 bilhões, 18 bilhões e 39 19 Página | 116 Observando tais condições, encontramos na região o tipo de bem público que atende a nossa pesquisa, a conservação de áreas, recursos e objetos comuns na Bacia do Rio Paraná. O fato de analisarmos a conservação como um bem público é tido em Russett; Sullivan (1985) o qual menciona uma agenda comum como a junção de interesses dos Estados para a constituição de um bem coletivo. Assim, uma vez que os agentes não promovam individualmente condições para a concretização de um interesse, eles se unem com objetivo de fornecer as qualificações necessárias para sua execução de forma que apoiarão sistemas de defesa, investigações científicas e conservação ambiental. (Russett; Sullivan, 1985). Através desse estudo, pretende-se então compreender como ocorre o processo de provimento de bens públicos através da conservação desses dois espaços. Assim, pergunta-se, em que medida a conservação de espaços comuns entre países que detêm um recurso comum, o Rio do Paraná, sucinta ações coletivas no sentido de viabilizar o provimento de bens públicos necessários tanto para a conservação desse recurso quanto para a segurança das fronteiras dos membros do grupo. Analisaremos neste caso o provimento de bens públicos originados pela existência de um recurso natural compartilhado por três países. Segundo Russett; Sullivan, (1985, p. 854, tradução nossa) existem cinco formas de se prover bens públicos. Primeiramente, “no limite, o bem comum pode ser provido quando existe a coerção dos atores para pagar por uma parte dos custos de sua consecução”20; em segundo lugar, “se os indivíduos não bilhões respectivamente no período. Isso evidencia claramente a diferença potencial entre os membros da instituição, no qual o Brasil se desponta como a assimetria dentro do bloco. 20 At one extreme the collective good can be provided when members are coerced to pay their share of the costs. Página | 117 pensarem de forma auto interessada, mas de forma a convergir interesses dos outros, eles estarão dispostos a fazer sacrifícios sejam estes diretamente retribuídos ou não”21; em terceiro, “o bem coletivo pode ser fornecido a um grau quase "ideal" em um grupo em que um membro é muito maior do que todos os outros membros”22. Em quarto lugar, “o bem coletivo pode ser obtido se o grupo usar de interesses privados para os membros como um incentivo aos Estados para se unir e de assumir sua parte dos encargos na consecução de bens coletivos.”23. Por fim, “o bem coletivo pode muitas vezes ser conseguido em grande parte como um subproduto das despesas dos membros realizada exclusivamente para obter bens privados.”24 Russett; Sullivan (1985) utilizam o argumento da lógica da ação coletiva proposto originalmente por Olson (1999) para a análise de comportamento de indivíduos, ampliando, contudo, seu escopo para a análise de atores estatais interagindo no sistema internacional. A Bacia é um recurso natural, que não pode ser considerado como um bem público, entretanto a sua conservação pode sim ser vista dessa forma. Na região encontrase um exemplo de conservação que sustenta o nosso argumento: a conservação da Ponte da Amizade. A ponte, que localiza-se sobre o Rio Paraná liga o Brasil e o Paraguai, e é 21 If individuals no longer think only in terms of their own very narrow self-interest but include also the interests of others in their self-image, they will be willing to make certain sacrifices whether or not those sacrifices are directly reciprocated 22 The collective good may be provided to an almost "optimal" degree in a group in which one member is very much larger than all the other members 23 The collective good may be obtained if the group can use the provision of private goods to members as an inducement to states to join and to bear their share of the burdens in achieving collective goods. 24 The collective good may also be provided when social pressure can be used to encourage members to make contributions Página | 118 institucionalmente de responsabilidade do Brasil na sua conservação de acordo com o Acordo Bilateral DCI/DAM/DAI/ 2 /256.(43), de Março de 1965. Constroem-se, assim duas alternativas de hipóteses para o problema. A primeira refere-se ao fato de que a conservação de espaços, por constituírem-se bens públicos traz ganhos para os três países que partilham esse recurso natural comum a eles. Nesse caso, os ganhos advindos pela geração do bem contribuem, em alguma medida, para os Estados participantes. Do outro lado, esses bens não geram ganhos para todos os três países, apenas para quem usufrui dele isoladamente e quem os provém. Dessa forma, inserido na proposta de trabalho, procura-se evidenciar a partir da ação coletiva dos Estados, a importância da discussão de bens públicos para o estudo sobre fronteiras e Integração Regional e, através das análises dos benefícios coletivos da região, solucionar o problema de pesquisa aqui colocado. REFERÊNCIAS BANCO MUNDIAL, World Development Indicators. Disponível em: <http://databank.worldbank.org/ddp/home.do>. Acesso em 21 jul. 2012 MATTOS, Carlos de M. Geopolítica e teoria de fronteiras. Biblioteca do Exército, Rio de Janeiro, 1990. MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES DO BRASIL, Acordo sobre a utilização, conservação e vigilância da Ponte sobre o Rio Paraná. Disponível em: Página | 119 <http://www.dai-mre.serpro.gov.br/atos-internacionais/bilaterais/1965/b_10>. Acesso em: 21 jul. 2012. OLSON, Mancur. A lógica da Ação Coletivos: Os Bens Públicos e Uma teoria dos Grupos Sociais, Edusp, São Paulo, 1999. RUSSETT, Bruce M; SULLIVAN, John D. Collective Goods and International Organization, International Organization, v. 25, n.4, [S.l.], 1971, p.845-865. SNIDAL, Duncan. The Game Theory of International Politics. World Politics, v. 38, n. 1, [S.l], 1985, p.25-57. Página | 120 1 - O APOGEU E A DERROCADA DO DISTRITO DE MESTRE CAETANO - SABARÁ/MG: Uma análise de impactos causados pela mineração.25 O fenômeno de atuação dos agentes modeladores do espaço ativou e alterou a dinâmica da Produção econômica do Distrito de Mestre Caetano no município de Sabará, Minas Gerais. A suspensão da extração aurífera interferiu significativamente no cotidiano dos habitantes daquele espaço. As pesquisas exploratórias, principalmente as que buscaram o resgate da memória oral através de entrevistas, juntamente a análise documental propiciaram análises de um centro de funções de ordem econômica e social existente no espaço pesquisado. A relevância deste trabalho está relacionada à reconstrução histórico-espacial da localidade, alcançada com a conclusão da pesquisa, a partir da memória dos antigos moradores. Resgate que possibilitou aos mesmos recuperar parte significativa de suas vidas, histórias que certamente seriam perdidas no tempo. Através da reconstrução espacial pautada na história oral, também foi possível observar que com o passar de décadas o espaço Mestre Caetano foi transformado e (re) significado. A compreensão do fenômeno aliada às teorias analisadas propõe a 25 Pesquisa desenvolvida pelos alunos do Curso de Geografia da PUC Minas Coração Eucarístico, Daiane de Oliveira Florêncio, Gustavo Henrique da Costa, Natália Maria de Oliveira, Ranufo de Paula Ramalho, Verônica Torres Amarante e Warley Claiton Campos Alves como Trabalho de Conclusão de Curso, cuja primeira fase de desenvolvimento foi financiada pelo PROBIC PUC Minas e desenvolvida pelas alunas Natália Maria de Oliveira e Daiane de Oliveira Florêncio (expositora do trabalho). As duas pesquisas foram orientadas pela professora Doutora Rita de Cássia Liberato. Página | 121 valorização da memória e de aspectos sociais locais por parte dos Geógrafos e planejadores urbanos. Segundo Corrêa (1999), a organização espacial segue uma lógica de disposição, distribuição e organização que é influenciada por diversos fatores, cabendo ao geógrafo identificálas a fim de compreender o processo de organização espacial que é a expressão da produção material do homem. Deste modo, a compreensão desta materialidade espacial, frequentemente discutida nas correntes geográficas a partir de uma visão regional, nesta pesquisa foi apresentada sob a forma de estudo de caso. Este trabalho representou uma resposta da academia à população, que normalmente não é oferecida nos cursos de graduação. Excelentes trabalhos são desenvolvidos e armazenados em bibliotecas, ficando restritos e desconhecidos pelas pessoas da área estudada, que vivenciam o fenômeno. Nesta pesquisa parte das análises realizadas, dados coletados e cartogramas produzidos com a reconstrução parcial do lugar foram disponibilizados à alguns integrantes da comunidade. As interfaces do fenômeno sob a perspectiva da vivência. Somente sistematizando o fenômeno da vivência é que foi possível “presentificar” o passado, a fim de se revelar a construção do espaço que a princípio se encontra escondido, com poucas “pistas” que levem aos processos, funções, estruturas e formas ali impressas e reimpressas durante anos, aprisionados na memória. Página | 122 O Mestre Caetano que foi apresentado não está representado em nenhuma página de livro, site ou filme. Os relatos oferecidos foram organizados para revelar um espaço partindo da vivência daqueles que participaram de sua construção, vivenciando o desenvolvimento da Mina de Cuiabá, estudando na escola que foi fechada, que usufruíram da Estação Ferroviária de Mestre Caetano como funcionários ou usuários estando aptos a descrever e revelar os fenômenos que culminaram na retração/deslocamento do povoado de Cuiabá. As Ressignificações Espaciais e a Ação dos Agentes Modeladores do Espaço. O que aconteceu em Mestre Caetano, mais especificamente Cuiabá foi um processo de desligamento, onde um espaço rugoso torna-se estriado uma vez que esgota suas possibilidades econômicas e estruturais de produção e/ou desenvolvimento. Porém com o auxílio pessoas que vivenciaram estas modificações foi possível compreender que a crise financeira e tecnológica da década de 1940 e a mudança na relação de trabalho ocorrida neste período. Onde o modelo fabril que foi difundido em larga escala em diferentes regiões do Brasil também foi implantado e retirado do Distrito de Mestre Caetano, afetando a dinâmica do lugar. Devido à crise estrutural que se caracterizou pela falta de matéria prima, aumento do preço da mão-de-obra, e toda uma conjuntura estabelecida, a política de criação do salário mínimo instituída no governo Vargas no ano de 1940, melhorias nos meios de transportes, o modelo não se sustentou. Com a criação do salário mínimo os trabalhadores tiveram por um lado um direito adquirido, porém viram-se obrigados a custear sua moradia, já que o modelo anterior já não gerava mais o lucro esperado. Página | 123 A ação dos agentes modeladores do espaço apresentados por Corrêa (1999), que são os proprietários dos meios de produção, proprietários fundiários, promotores imobiliários, estado e grupos sociais excluídos. Também foi determinante para a promoção das ressignificações ocorridas. Os proprietários dos meios de produção, além de consumidores de espaço, interferem nesse segundo seus interesses comerciais muitas vezes sem considerar os impactos de suas interferências para a população. O Distrito de Mestre Caetano, era um local movimentado no qual a economia girava em torno dos benefícios da mineração, cuja maior representante era a Mineradora Morro Velho, atual Anglogold Ashant. O local exercia centralidade em relação ao entorno, já que concentrava diversos equipamentos públicos como cartório, escolas, igreja. Condição que subdividida o Distrito em dois núcleos um urbano Mestre Caetano e o rural Pompéu. Contudo a regulação do Capital e desregulação do Estado, permitiu a retirada e relocação de equipamentos assistenciais para a população pela mineradora de ouro, que atua em fases distintas de diferentes formas, algumas vezes assumindo funções de Estado, quando oferece tratamento de saúde e moradia aos seus trabalhadores, e por outras vezes promovendo especulação imobiliária e migração populacional. Considerações Finais. Ao iniciarmos esta pesquisa através de um projeto de iniciação científica, e posteriormente a aprimorando em um Trabalho de Conclusão de Curso, desejávamos exercer a função de Geógrafas/os e conferir a aplicabilidade das teorias oferecidas em sala de aula com a Página | 124 realidade do dia-a-dia que se apresentava tão complexa. Utilizar somente recursos Geográficos que nos levasse a compreender o espaço como um todo. Contudo, com o desenrolar da pesquisa percebemos o quão complexa é a Geografia e o quanto é impossível se trabalhar sozinho com fontes puras, obedecendo apenas uma corrente de pensamento nos rendendo, portanto, às contribuições da História, Economia e Sociologia. Estudar um objeto cuja principal parcela seja a matéria Humana, revelou-se um desafio mais complexo e prazeroso do que esperávamos. A História Oral é fascinante e incrivelmente reveladora, apesar não ser uma fonte comumente utilizada por pesquisadores Geógrafos. Grande parte dos estudos e diagnósticos consultados, oferecem o oposto da pesquisa apresentando somente o viés dos planejadores e não o dos vivenciadores do espaço e das ações realizadas no mesmo. Percebeu-se com este estudo o quanto os municípios ainda têm que investigar sobre seu território para que os planejamentos atendam sua população plenamente. Apesar do estudo, ter sido realizado em um município de significativa representatividade histórica estadual e nacional (Sabará), pouquíssimos registros e estudos sobre a localidade foram encontrados. Porém durante a pesquisa diversos questionamentos ambientais, sociais e culturais surgiram, situações que apenas reforçam a necessidade latente de estudos mais aprofundados sobre os Lugares para a garantia do sucesso de planejamentos urbanos locais e regionais, assim como o registro histórico dos fatos. No que diz respeito aos impactos causados pela mineração, a autora Amélia Enriquez (2008), sugere que os efeitos da Mineração são muito díspares e necessitam de mais estudos. A mesma empresa pode atuar de maneiras diversas com o mesmo empreendimento em lugares diferentes. Resta-nos acompanhar e normatizar estas atuações para que o meio ambiente como um todo seja preservado e valorizado, não apenas seus aspectos físicos, mas também os sociais e Página | 125 culturais. O desenvolvimento tem que ser promovido, a tecnologia, mudanças são necessárias, porém o não registro e estudo dos impactos destes processos é extremamente arriscado. O Estado e as Empresas privadas que intervém no meio devem contribuir ainda mais para a preservação do patrimônio social que comumente não é resguardado. Por fim, temos nosso território historicamente falando sempre estudado e diagnosticado por estrangeiros, já passa o momento de fomentarmos pesquisas que resguardem nossa memória histórica e espacial. Independentemente da área e da corrente de pensamento sempre temos grandes contribuições a oferecer aos lugares do cotidiano. Muito estudamos a respeito de lugares globais e poucos nos interessamos e produzimos a respeito dos lugares do cotidiano por nós vivenciados. Já é ora de trabalharmos. Palavras Chave: Geografia, memória, espaço, mineração. Referências AUGÉ, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da super modernidade. São Paulo: Papirus,1994 BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionario histórico-geografico de Minas Gerais. Belo Horizonte: SATERB, 1971. 541p. BARROS, R. Carolyne et al. Conte-me sua história: reflexões sobre o método da História de Vida. Mosaico: Estudos em Psicologia, Belo Horizonte, v. 01, p.25-35, 2007. BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 12. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 484p. Página | 126 BOSI, Ecléa. O tempo vivo na memória: ensaios da psicologia social. 2 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. 219p. BOURDIEU, Pierre. A opinião pública não existe. In THIOLLENT, Michel. Crítica metodológica, investigação social e enquete operária. 4 ed. São Paulo: Polis, 1985. BRASIL, Estações Ferroviárias. E. F. Central do Brasil (1908-1975). Disponível em: <http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_mg_ramais/mestre.htmm> Acesso em: 18 ago. 2011. BRASIL. Ministério dos Transportes. Estrada de Ferro Vitória Minas (EFMV). Brasília. Disponível em: http://www.transportes.gov.br/bit/ferro/BH-Vitoria/Vitoria-Minas.htm Acesso em 18 de novembro 2011. CARLOS, Ana Fani A. Ensaios de geografia contemporânea: Milton Santos: obra revisitada. São Paulo: Hucitec, 1996. 332p. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. 698 p. (A era da informação. Economia, sociedade e cultura; 1). CASTRO, Iná Elias de; GOMES, Paulo Cesar da Costa; CORRÊA, Roberto Lobato. Geografia: conceitos e temas. 10. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. 352 p. CORRÊA, Roberto Lobato. O espaço urbano. 4. ed. São Paulo: Ática, 1999. 94p. (Princípios; 174). CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. São Paulo: Atica, 1986. 93p . Página | 127 COSTA, Stael de Alvarenga Pereira. A morfologia dos tecidos urbanos de influencia inglesa da cidade de Nova Lima. Paisagem Ambiente: ensaios - n. 25 - São Paulo - p. 55 - 76 – 2008. ENRIQUEZ, M. A. Mineração: maldição ou dádiva?. São Paulo: Signus, 2008. 396p. FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Atlas dos monumentos históricos e artísticos de Minas Gerais: circuito de Santa Bárbara. Belo Horizonte: Sabará. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1981. 2v. em 3. FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Bens culturais: circuito do Ouro e Alto Jequitinhonha. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1975. 1v. GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1991. 159p. GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1987. 207p. GOUNET, Thomas. Fordismo e toyotismo na civilização do automóvel. São Paulo: Boitempo, 1999. GUATTARI, Félix. Espaço e poder: criação de territórios na cidade. Espaço & Debates, São Paulo, Ao 5, n. 16, p. 109-121, 1994. HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidde. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. 400 p. LIBERATO, Rita de Cássia Liberato. Cidade e exclusão social: o lugar de moradia dos excluídos de e por Belo Horizonte no período de 1897 a 2000. 2007. Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Programa de Pós-Graduação em Geografia, Página | 128 Belo Horizonte. MARCONI, M. de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Técnicas de pesquisa: planejamento e execução de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisa, elaboração, análise e interpretação de dados. São Paulo: Atlas, 1982. MARTINS, Dora; VANALLI, Sônia. Migrantes. São Paulo: Contexto, 1997. 101p. MINERAL, Brasil. Os 150 anos da Mina de Morro Velho. São Paulo: jun. 1984, Periódico, p.54. MORAES, Antonio Carlos Robert . Ideologias geográficas: espaço, cultura e política no Brasil. São Paulo: Annablume, 2005. 156 p. NOGUEIRA, Maria Alice; CATANI, Afrânio (Org.). Escritos de educação: Pierre Bourdieu. Rio de Janeiro: Vozes, 1998 PAULA, Dilma Andrade. As ferrovias do Brasil: análise do processo de erradicação de ramais. Universidade Estadual do oeste do Paraná. Disponível em: <http://www.docutren. com/archivos/aranjuez/pdf/22.pdf> Acesso em: 18 set. 2010. SABARÁ. Prefeitura Municipal de Sabará. Arquivos da Biblioteca Municipal. 2011. SABARÁ. Prefeitura Municipal. Plano Diretor do Município de Sabará- MG. Sabará: Prefeitura, 2008. 56p. SALOMON, Délcio Vieira. Como fazer uma monografia: elementos de metodologia do trabalho científico. 6. ed. Belo Horizonte: Interlivros, 1979. Página | 129 SANTOS, Milton et al. Território e sociedade: entrevista com Milton Santos. 2. ed. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000. 127 p. SANTOS, Milton. A cidade e o urbano como espaço-tempo. In: FERNANDES, Ana e GOMES, M. A. A. de Filgueiras (Org.). Cidade e história: modernização das cidades brasileiras nos séculos XIX e XX. Salvador: Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia, 1992. p. 241244 SANTOS, Milton. Economia espacial: críticas e alternativas. São Paulo: Hucitec, 1979b. SANTOS, Milton. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: F. Alves, 1979. 345p. SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no inicio do século XXI. 5. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. 307p. SILVEIRA, Victor. (Org.). Minas Gerães em 1925. Bello Horizonte: Imprensa Official, 1926. 1492p TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo: Difel, 1983. 250 p. TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: Difel, 1980. 288p. VENCOVSKY, Vitor Pires. Sistema ferroviário e o uso do território brasileiro: uma análise do movimento de produtos agrícolas. 2006. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade de Campinas, Instituto de Geociências, Campinas. Disponível em <http://cutter.unicamp.br/document/?code=vtls000376994> Acesso em: 21 ago. 2010. Página | 130 2 - ARRANJOS INSTITUCIONAIS PARTICIPATIVOS E MOVIMENTOS SOCIAIS: UMA ANÁLISE DE DIMENSÕES POSSÍVEIS DE EMPODERAMENTO A PARTIR DA EXPERIÊNCIA DE PARTICIPAÇÃO SOCIAL NO ÂMBITO DO LEGISLATIVO MINEIRO Maíra da Cunha Pinto Colares26 Carla Bronzo 27 A participação da sociedade civil no processo de definição da agenda pública tem sido fomentada, na contemporaneidade, através de inúmeros processos de mobilização e de inovações institucionais. Trata-se de uma construção histórica e que demanda o envolvimento político e institucional dos governos e da própria sociedade. Essas experiências demonstram uma forte influência de princípios e práticas democráticas, partindo-se do pressuposto de que “a democracia não é apenas um processo de governar [...], a democracia também é inerentemente um sistema de direitos” (DAHL, 2001, p. 62). O direito de auto-desenvolvimento de cidadãos só é possível a partir de uma “sociedade Mestre em Administração Pública (FJP/MG), Especialista em Gestão Pública (FJP/MG) e Bacharel em Serviço Social (PUC-MG). 27 Pesquisadora e professora da Escola de Governo/Fundação João Pinheiro (MG), Doutora em Sociologia e Política (UFMG), Mestre em Sociologia (UFMG), Graduada em Ciências Sociais (UFMG). 26 Página | 131 participativa, que gere um sentido de eficácia política, que nutra uma preocupação por problemas coletivos e contribua para a formação de um corpo de cidadãos conhecedores e capazes de ter um interesse contínuo pelo processo governamental” (HELD, 1987:235). Nesse contexto, a participação política e social dos cidadãos é considerada um direito e enquanto tal deve ser exercida através de mecanismos organizacionais e políticos democratizantes. As fronteiras para o exercício da participação tornam-se, nessa perspectiva, uma destituição do direito à participação política e de definição das agendas públicas. O exercício da participação deve estar relacionado à capacidade de articulação política e institucional da sociedade civil, ao empoderamento de cidadãos e, ainda, a arranjos institucionais participativos criados por sociedades e Estado com essa finalidade. O empoderamento, nesse caso, está associado ao desenvolvimento de capacidades de articulação e engajamento do cidadão na vida coletiva, com vistas à participação ativa na implementação de políticas públicas, na deliberação dos processos decisórios da agenda pública e exercício do controle público (CÔRREA; LUBAMBO, 2005). A relação entre sociedade civil e Estado, nessa ótica, rompe alguns paradigmas característicos de concepções tradicionais de Estados autoritários, sem princípios democratizantes, a partir de uma concepção de democracia elitista. O entendimento de que governos devem prestar contas à sociedade, tornar suas ações transparentes e agir de acordo com as preferências dos cidadãos, tem trazido novos desafios de gestão para o poder público e também de organização para a sociedade civil. Espera-se, na contemporaneidade, que o Estado seja accountable e passível de controle a partir das diversas perspectivas de accountability empreendidas por O’Donnell (1998): vertical Página | 132 (controle do Estado pelo cidadão através do mecanismo eleitoral), horizontal (controle entre os próprios órgãos governamentais) e societária (através de uma articulação permanente da sociedade civil para influenciar a agenda pública e publicizar atos ilegais de governantes). A partir dessas perspectivas, percebe-se que o empoderamento do cidadão é fundamental para criar condições e capacidades para que a sociedade exerça o controle público e paute a agenda governamental. Completando essa análise, verifica-se que “impactos sobre o processo de empoderamento são possíveis a partir de arranjos institucionais adequados (CÔRREA; LUBAMBO, 2005, p. 261). Isso significa que “o arcabouço institucional começou a ser apresentado como um fator determinante para desencadear uma sinergia entre Estado e sociedade e, até mesmo, fomentar a participação cívica” (CÔRREA; LUBAMBO, 2005, p. 259). Diante das considerações apresentadas, fica reconhecida a importância de implementação de arranjos institucionais no âmbito da gestão pública que sejam capazes de: garantir o diálogo entre sociedade e Estado; contribuir para o empoderamento de cidadãos e, conseqüentemente, para sua participação na deliberação da agenda governamental; e potencializar as formas de controle, prestação de contas e responsabilização da ação estatal. No Brasil, os mecanismos de controle do Estado e de participação social na definição da agenda governamental avançaram nas últimas décadas, principalmente após o processo de elaboração e promulgação da Constituição Federal de 1988. A década de 90 foi decisivamente marcada por desenhos institucionais democratizantes, como os conselhos de políticas públicas e os orçamentos participativos. Os movimentos sociais tiveram grande contribuição para que isso ocorresse, assim como outros atores sociais que compuseram um processo de resistência e luta pela democratização das relações entre Estado e sociedade. Página | 133 O referencial teórico-metodológico para orientar a coleta e análise de dados, discute democracia, participação, empoderamento e os paradigmas sobre movimentos sociais. Buscou-se identificar na teoria sobre movimentos sociais as diferentes concepções sobre o seu papel na sociedade, assim como o entendimento de suas contribuições para a garantia de uma sociedade mais democrática e com acesso aos direitos sociais, políticos e civis. A análise dos paradigmas clássicos e contemporâneos da teoria sobre movimentos sociais (norte-americano, europeu e latino-americano) forneceu as dimensões a partir das quais a analise empírica poderia ser desenvolvida. Em Minas Gerais, o Poder Legislativo iniciou em 2003 uma experiência de elaboração das leis orçamentárias com participação social, em parceria com o Poder Executivo, através de audiências públicas. Essa iniciativa tem como objetivo o aperfeiçoamento do planejamento governamental para torná-lo mais condizente com as demandas sociais dos cidadãos. Além disso, existe a expectativa de tornarem públicas discussões do planejamento governamental e, dessa forma, contribuir para que cidadãos e movimentos sociais desenvolvam a capacidade de participarem da elaboração da agenda governamental. Diante dessa experiência, este trabalho busca reunir elementos para aprofundar o estudo qualitativo da iniciativa de Minas Gerais e identificar se o processo de elaboração do orçamento com participação social contribuiu para que houvesse o desenvolvimento das habilidades e capacidades técnicas, estratégicas e políticas dos movimentos sociais que participaram do processo, numa perspectiva de empoderamento. Busca-se verificar de que maneira foram desenvolvidas essas capacidades e se houve avanço na qualidade da atuação da sociedade civil organizada, assim como os desafios lançados à participação social, a partir do desenvolvimento dessa experiência no Estado. Página | 134 Para identificarmos se ocorreu avanço em relação a essas dimensões buscamos identificar quais os atores participaram desse processo (de 2003 a 2009) e verificamos que os proponentes de emendas orçamentárias que foram incorporadas ao PPAG/LOA eram em sua maioria movimentos sociais (24,63%%), entidades da sociedade civil (18,18%), dentre outros, como Conselhos de Políticas Públicas (16,57%). Constatamos que 65,48% dos proponentes de emendas populares incorporadas ao orçamento na categoria de movimentos sociais eram de organizações de defesa dos direitos da criança e do adolescente, como a Frente de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente e o Fórum Estadual de Combate ao Trabalho Infantil e Defesa dos Direitos do Adolescente Trabalhador. Buscamos, dessa forma, realizar um estudo empírico através de entrevistas semiestruturadas com os proponentes de emendas populares do movimento de defesa dos direitos da criança e do adolescente e pudemos observar os avanços e os desafios dessa experiência, em relação ao empoderamento e desenvolvimento de habilidades e capacidades. Quanto aos efeitos produzidos nos movimentos, o foco da analise se concentra nas dimensões técnica, estratégica e política. Considera-se como dimensão técnica aquela relacionada ao desenvolvimento da capacidade dos movimentos sociais de lidarem e interpretarem o orçamento público para exercício da accountability; de expertise para analisarem relatórios gerenciais e de terem discernimento do que sejam propostas coerentes e realmente passíveis de serem transformadas em uma emenda à lei orçamentária. A dimensão estratégica diz respeito às possibilidades e formas de organização do movimento social para exercer o controle público e a participação no processo de elaboração do planejamento governamental, seja através de sua atuação permanente e em rede (que define coletivamente as suas prioridades de emenda ao orçamento público) ou de criarem Página | 135 e/ou manterem espaços de articulação com demais movimentos sociais, sociedade civil e órgãos públicos. Já a dimensão política diz respeito às estratégias para que os movimentos sociais tenham seu canal de diálogo com o Executivo ampliado, suas demandas sociais vocalizadas e incorporadas ao orçamento estadual, com ampliação do exercício da accountability e de transparência do acesso às informações da atuação governamental. Pode-se perceber que houve contribuições dessa experiência de participação ao movimento social, numa perspectiva de empoderamento a partir de dimensões técnicas, políticas e estratégicas em sua atuação: observam-se avanços na qualidade de emendas apresentadas ao longo dos anos; a agenda do orçamento público foi incorporada como temática de atuação do movimento social estudado; foi aprimorada a capacidade de diálogo entre movimentos sociais e instituições públicas; o reconhecimento do Poder Executivo de que o movimento social é um ator legítimo para contribuir com o planejamento governamental; estímulo para a atuação em rede e para o desenvolvimento de estratégias coletivas por parte do movimento social para acompanhamento da execução orçamentária e do controle público. Por outro lado, observa-se que ainda existem dificuldades para que as sugestões da sociedade civil ao planejamento governamental sejam de fato implementadas e priorizadas pelo Executivo e que o exercício do controle público seja de fato exercido pelo Legislativo e também pelos movimentos sociais. Verifica-se, dessa forma, que algumas perspectivas dessa experiência podem ser potencializadas a partir de um maior investimento político e institucional dos Poderes Legislativo e Executivo, assim como dos movimentos sociais. Palavras chave: Democracia participativa, empoderamento, movimentos sociais. Página | 136 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Maria Hermínia Tavares de. O Estado no Brasil contemporâneo: um passeio pela história. In: MELO, Carlos Ranulfo; SAÉZ, Manoel Alcântara (Org.). A democracia brasileira: balanço e perspectivas para o século 21. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007. ALONSO, Ângela. As teorias dos movimentos sociais: uma teoria em debate. Lua Nova, São Paulo, n. 76, p. p. 49-86, 2009. AVRITZER, Leonardo; WAMPLER, Brian. Públicos participativos: sociedade civil e novas instituições no Brasil democrático. In: COELHO, Vera Schattan P.; NOBRE, Marcos (Org.). Participação e deliberação: teoria democrática e experiências institucionais no Brasil contemporâneo. São Paulo: Editora 34, 2004. BEHN, Robert D. O novo paradigma da gestão pública e a busca da accountability democrática. Revista do Serviço Público, Brasília, Ano 49, n. 4, p. 5-45, 1998. BEHRING, Elaine R; BOSCHETTI, Ivanete. Política social: fundamentos e história. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2007. BRASIL. Constituição (1988) Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ constituicao/constitui%C3%A7ao.htm> BRASIL, Flávia de Paula Duque. A participação cidadã nas políticas sociais e na gestão de programas e projetos: potenciais e desafios. In: FAHEL, Murilo; NEVES, Jorge Alexandre. Página | 137 (Org.). Gestão e avaliação de políticas sociais no Brasil. Belo Horizonte: PUC Minas, 2007. v. 1. CARDOSO, Ruth Corrêa Leite. A trajetória dos movimentos sociais. In: DAGNINO, Evelina. Anos 90: política e sociedade no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2004. CARVALHO, José Murilo. Cidadania no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. CARNEIRO, Carla Bronzo Ladeira. Trabalho realizado para a disciplina “Governança, Accountability e Democracia”, com a Professora Maria Fatima Anastasia. Belo Horizonte: UFMG, 2000. CHAMBERS, Simone. A chave democrática deliberativa. In: MARQUES, Ângela Cristina Salgueiro (Org.). A deliberação pública e suas dimensões sociais, políticas e comunicativas: textos fundamentais. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. COÊLHO, Denilson Bandeira; LUBAMBO, Catia Wanderley. Governo e sociedade civil aprendem: o que revela a experiência recente de participação em Pernambuco? In: LUBAMBO et al. (Org.). Desenho institucional e participação política: experiências no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Vozes, 2005. COHEN, Joshua. Deliberação e legitimidade democrática. In: MARQUES, Ângela Cristina Salgueiro (Org.). A deliberação pública e suas dimensões sociais, políticas e comunicativas: textos fundamentais. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. CÔRREA; LUBAMBO, 2005 Página | 138 COSTA, Homero de Oliveira. Democracia e participação na teoria pluralista. Cronos, Natal, v. 8, n. 1, p. 215-228, jan./jun. 2007. DAHL, Robert. Sobre democracia. Brasília: UnB, 2001. DAHL, Robert. Prefácio à teoria democrática. Rio de Janeiro: Zahar, l996. DAGNINO, Evelina. Sociedade civil, espaços políticos e a construção democrática no Brasil: limites e possibilidades. In: DAGNINO, Evelina (Org.). Sociedade civil e espaços públicos no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. FARIA, Cláudia Feres. O Estado em movimento: complexidade social e participação política no Rio Grande do Sul. 2005. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) - Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Belo Horizonte. FARIA, Cláudia Feres. Democratizando a relação entre o poder público municipal e a sociedade civil: o orçamento participativo em Belo Horizonte. 1996. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) - Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Belo Horizonte. GOHN, Maria da Glória. Teoria dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. São Paulo: Loyola, 1997 e 2010. GOHN, Maria da Glória. Empoderamento e participação da comunidade em políticas sociais. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 13, n. 2, p. 20-31, maio/ago. 2004. Página | 139 HOROCHOVISKI, Rodrigo Rossi; MEIRELLES, Giselle Meirelles. Problematizando o conceito de empoderamento. In: SEMINÁRIO NACIONAL MOVIMENTOS SOCIAIS, PARTICIPAÇÃO E DEMOCRACIA, 2, 2007, Florianópolis. Anais... Florianópolis: UFSC, 2007. HELD, David. Modelos de democracia. Belo Horizonte: Paidéia, l987. JACOBI, Pedro. Poder local, políticas sociais e sustentabilidade. Revista Saúde e Sociedade, n. 8, p. 31-48, 1999. LÜCHMANN, Lígia Helena Hahn; BORBA, Julian. Participação, desigualdades e novas institucionalidades: uma análise a partir de instituições participativas em Santa Catarina. Ciências Sociais Unisinos, São Leopoldo, v. 44, n. 1, p. 49-68, jan./abr. 2008. MEIRELLES, Mauro; INGRASSIA, Thiago. Perspectivas teóricas acerca do empoderamento de classe social. Revista Eletrônica “Fórum Paulo Freire”, Ano 2, n. 2, 2006. Disponível em: <http://www.ufpel.edu.br/fae/paulofreire/novo/br/pdf/ Mauro%20Meirelles%20e%20Thiago.pdf> MELO, Marcos. Empowerment e governança no Brasil: questões conceituais e análise preliminar de experiências selecionadas. Brasília: Worl Bank – Brazilian Office DRAFT, 2003 MINAS GERAIS. Constituição (1989). Constituição Estadual de Minas Gerais. Belo Horizonte: ALMG, 1989. Disponível em: <http://www.almg.gov.br/downloads/ ConstituicaoEstadual.pdf> Página | 140 MINAS GERAIS. Deliberação nº 2.333, de 04 de junho de 2003. Minas Gerais, Belo Horizonte, 27 jun. 2003. Diário do Legislativo, p. 27. Disponível em: <http://www. almg.gov.br/consulte/legislacao/completa/completa.html?tipo=DLB&num=2333&comp=&ano =2003&aba=js_textoOriginal#texto> MINAS GERAIS. Secretaria de Estado do Planejamento e Gestão. Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado 2008-2023. Belo Horizonte: SEPG, 2008. Disponível em: <http://www.planejamento.mg.gov.br> MINAS GERAIS. Secretaria de Estado do Planejamento e Gestão. Plano Plurianual de Ação Governamental 2008-2011. Belo Horizonte: SEPG, 2008. Disponível em: <http://www.planejamento.mg.gov.br> MINAS GERAIS. Secretaria de Estado do Planejamento e Gestão. Revisão do Plano Plurianual de Ação Governamental 2008-2011: exercício 2009. Belo Horizonte: SEPG, 2009. Disponível em: <http://www.planejamento.mg.gov.br> MINAS GERAIS. Secretaria de Estado do Planejamento e Gestão. Relatório de Institucional de Monitoramento: janeiro a dezembro de 2008 – PPAG 2008-2011. Belo Horizonte: SEPG, 2008. Disponível em: <http://www.planejamento.mg.gov.br> MINAS GERAIS. Relatórios Gerenciais PPAG 2003 a 2009. Disponível em: <www.almg.gov.br> Página | 141 MINAS GERAIS. Resolução nº 5.176, de 6 de novembro de 1997. Minas Gerais, Belo Horizonte, 07 nov. 1997. Diário do Legislativo, p. 18. Disponível em: <http:// www.almg.gov.br/consulte/legislacao/completa/completa.html?tipo=RAL&num=5176&comp= &ano=1997> MINAS GERAIS. Resolução 5.212, de 09 de maio de 2003. Minas Gerais, Belo Horizonte, 10 maio 2003. Diário do Legislativo, p. 19. Disponível em: <http://www. almg.gov.br/consulte/legislacao/completa/completa.html?tipo=RAL&num=5212&comp=&ano =2003> NOBRE, Marcos. Participação e deliberação na teoria democrática: uma introdução, In: COELHO, Vera Schattan P.; NOBRE, Marcos (Org.). Participação e deliberação: teoria democrática e experiências institucionais no Brasil contemporâneo. São Paulo: Editora 34, 2004. O´DONNELL, Guilhermo. Accountability horizontal e novas poliarquias. Lua Nova, São Paulo, n. 44, p. 27-54, 1998. ROMANO, Jorge O. Empoderamento: recuperando a questão do poder no combate à pobreza. In: ROMANO, Jorge O; ANTUNES, Marta. Empoderamento e direitos no combate à pobreza no Brasil. Rio de Janeiro: Action Aid Brasil, 2002. SANTOS, Boaventura de Sousa; AVRITZER, Leonardo. Introdução: Para ampliar o cânone democrático. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (Org.). Democratizar a democracia: os caminhos da democracia participativa. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. Página | 142 SANTOS, Nelson Rodrigues dos. Implantação e funcionamento dos conselhos de saúde no Brasil. In: CARVALHO, Maria do Carmo A. A.; TEIXEIRA Ana Cláudia C. (Org.). Conselhos gestores de políticas públicas. São Paulo. Polis. 2000. SCHUMPETER, Joseph. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Zahar, l984. SCHERER-WARREN, Ilse. Das mobilizações às redes de movimentos sociais. Sociedade e Estado Brasília, v. 21, n. 1, p. 109-130, jan./abr. 2006. SCHERER-WARREN, Ilse. Redes de movimentos sociais na América Latina: caminhos para uma política emancipatória?. Caderno CRH, Salvador, v. 21, n. 54, p. 505-517, set./dez. 2008. SCHERER-WARREN, Ilse. Redes de movimentos sociais. São Paulo: Loyola, 2009. SCHERER-WARREN, Ilse; LÜCHMANN, Lígia Helena Hahn. Situando o debate sobre movimentos sociais e sociedade civil no Brasil. Política & Sociedade, Santa Catarina, n. 5, p.1335, out. 2004. SMULOVITZ, Catalina; PERUZZOTTI, Enrique. Societal accountability: the other side of control. Local: editora, 2000. TATAGIBA, Luciana. Os conselhos gestores e a democratização das políticas públicas no Brasil. In: DAGNINO, Evelina (Org.). Sociedade civil e espaços públicos no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. TEIXEIRA, Elenaldo Celso. O local e o global: limites e desafios para a participação cidadã. Salvador: Cortez, 2001. Página | 143 TORRES, Marcelo Douglas de Figueiredo. Agências, Contratos e Oscips: a experiência pública brasileira. Rio de Janeiro: FGV, 2007. VITALE, Denise. Democracia direta e poder local: a experiência brasileira do orçamento participativo. In: COELHO, Vera Schattan P.; NOBRE, Marcos (Org.). Participação e deliberação: teoria democrática e experiências institucionais no Brasil contemporâneo. São Paulo: Editora 34, 2004. 3 - AS NOVAS PRÁTICAS URBANAS EM BELO HORIZONTE Matheus Soares Cherem28 Esse escrito tem como objetivo principal discutir os aspectos referentes às aplicações das regulações urbana e ambiental no espaço urbano em Belo Horizonte, tendo em mente as fases do urbanismo brasileiro. O planejamento urbano é usualmente compreendido como o ato de diagnosticar, propor e executar intervenções no espaço urbano em função do interesse coletivo, ou compreendido como a ação racional do Estado sobre a organização e estruturação do espaço intraurbano. E em sua trajetória no território brasileiros é possível identificar três grandes fases na Teoria e no Planejamento Urbano. A mesma análise da esfera nacional 28 Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais Página | 144 (apesar de tratar apenas dos poucos grandes núcleos urbanos existentes) é possível de utilização para o processo de urbanização de Belo Horizonte e sua Região Metropolitana. Definido pelos planos de melhoramento e embelezamento de partes selecionadas da cidade, o primeiro período apresentado se inicia em 1875 e se estende até 1930. Esse busca uma cidade organizada a partir de valores estéticos elitistas e discurso higienista. O segundo que se inicia na década de 1930, é marcado pela ideologia da harmonização do caos urbano pelo planejamento (enquanto técnica científica) a partir de ferramentas que englobem progressivamente toda a cidade, apenas no discurso. O último, que se inicia na década de 1990, é definido pela reação democrática ao segundo. O autoritarismo institucional é superado, são postos novos valores sociais e o discurso legitima a periferia por meio da participação. Quadro 1 – Síntese dos períodos identificados 1930/40PERÍODOS 1875-1930/40 Pós 1980/90 1980/90 URBANISMO Progressista Progressismo tecnocrático democrático Racionalista Planos diretores Planos PLANEJAMENTO diretores Embelezamento compreensivos participativos BELO Cidade Cidade Cidade HORIZONTE Bela Funcional (des)Mobilizada Página | 145 Fonte: Elaboração própria O racionalismo e sua manifestação – o embelezamento – se traduzem no desenho urbano proposto por Araão Reis e pelo regulamento específico quanto ao uso (propostas de território) das terras da nova cidade. Cidade essa que se insere de forma radical e destrutiva sobre um vilarejo que futuramente lhe doará nome. Por consequência, tem-se forte exclusão espacial que expulsa as classes mais desfavorecidas para as zonas tachadas de suburbanas, e novas áreas que demandam atenção do poder público para sua manutenção enquanto áreas com aspirações a urbanas. O modelo continua até final dos anos de 1920, quando obras de embelezamento são assim justificadas, possibilitando aberturas de vias, canalizações de córregos e remoção de aglomerados suburbanos, com forte atuação na zona urbana. O progressismo e sua manifestação – os planos diretores – se traduzem nas prioridades da prefeitura em expandir as formas de acesso ao centro da cidade e a outras centralidades (como Distrito Industrial de Contagem e Pampulha). A cidade pública é perdida para a cidade privada, os espaços comuns são transformados em espaços exclusivos e de certa elite, a exemplo, da edificação dos Correios que deu lugar a Sulacap. A infraestrutura é caracterizada por grandes avenidas, como a Amazonas, Antônio Carlos, Cristiano Machado e Anel Rodoviário, além de outros equipamentos como o novo terminal rodoviário e o Complexo Viário da Lagoinha. Todas essas obras são executadas como cirurgias urbanas, o bisturi do planejador ignora o cenário ali presente e planeja sobre ele. A viabilização dos distritos industriais é um dos principais objetivos dos governos que pretendem assim dinamizar economicamente as cidades. A cidade em expansão demográfica demanda a expansão de serviços básicos, como esgotamento e transporte público, sendo esse tão Página | 146 precário quanto o primeiro. O modelo continua até final dos anos de 1980, quando obras de infraestrutura são, assim, justificadas, possibilitando aberturas de vias, canalizações de córregos e remoção de aglomerados suburbanos mais próximos. Novas demandas surgem com o processo de redemocratização, não mais tanto pelo esgotamento dos aparelhos – que ainda se mostravam eficazes – mas pela necessidade de inclusão de algumas questões sociais no debate de querelas urbano. Dentre elas inclui noções como a segregação socioespacial e o grande diferencial em termos de aparelhos urbanos para diferentes camadas da população. Diferentemente do contexto nacional, a Frente Esquerda (liderada pelo PT) ganhou espaço na capital mineira já nas primeiras eleições da década de 1990. Patrus Ananias ganhara as eleições de 1992 e a cidade de Belo Horizonte seria administrada pela Frente Esquerda até 2007, último ano do mandato de Fernando Pimentel e, ano da eleição de Marcio Lacerda. Nesse momento histórico entre 1993 e 2008, existem características permanentes como a diretriz de inversão de prioridade e forte mobilização popular, devido à característica dos governos eleitos. Apesar disso, a diretriz alçada por a um caminho socialista perde centralidade para as estratégias competitivas de crescimento desde o último mandato de Pimentel. Por um lado, as políticas desenvolvidas na cidade a partir da diretriz de inversão de prioridades, implicaram no reconhecimento da cidade realmente existente, na promoção de sua regularização fundiária, na promoção de sua urbanização (fornecimento Página | 147 de equipamentos coletivos), bem como na abertura à participação popular e na tentativa de regular a produção do espaço citadino. Por outro, tais políticas, características de um planejamento participativo, includente e democrático, também apresentaram um papel contraditório ao se inserirem em um movimento de valorização das áreas carentes e de especulação imobiliária e, gerarem carência em outras periferias da cidade. Com o advento de projeto político específico do Governo de Minas para a capital e sua região metropolitana em 2007 as políticas públicas em Belo Horizonte sofreram guinadas rumo a um novo paradigma. As forças de atraso à democracia por meio do planejamento estratégico urbano propuseram um processo contrário à reação e à inversão de prioridades. Nesta lógica do planejamento estratégico, as cidades devem competir para atrair investimentos, negócios, eventos, turistas e mão de obra altamente qualificada que supostamente promoveriam seu crescimento e desenvolvimento econômico na nova ordem global. Deste modo, a cidade se torna mercadoria a ser vendida, produto a ser consumido, a cidade é submetida a toda sorte de medidas, planos, reformas e requalificações que objetivam a atração dos usuários que possam pagar pelos bens e serviços diversos a serem ofertados na cidade e, que possam consumir a cidade: o lugar de consumo e consumo de lugar de Lefebvre. A força da reação democrática vivenciada por Belo Horizonte logo na primeira metade da década de 1990 durou pouco mais de uma década. Com a mudança de gestões, e ainda que sob o discurso do “continuísmo político”, as políticas urbanas associadas à inversão de prioridades – tal como o Orçamento Participativo – perderam força, embora não tenham sido extintas. Se por um lado a forte mobilização do início da década de 1990 tenha se institucionalizado e se enfraquecido, Página | 148 por outro, têm ressurgido aos poucos novos focos de mobilização em reação às forças de atraso que vem dominando as esferas de decisão política sobre a cidade. O planejamento estratégico chega à política pública urbana já nos anos de gestão de Fernando Pimentel e ganha força nos anos seguintes com apoio do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, e do próximo prefeito, Márcio Lacerda. As maiores obras na capital são a requalificação dos corredores viários do Vetor Norte. Elementos de etapas e fases anteriores do planejamento urbano são facilmente identificados no novo ciclo de grandes obras públicas executadas: a beleza do Boulevard Arrudas, a imponência do Centro Administrativo, a requalificação da Antônio Carlos, a fluidez da MG-010 e a modernidade do Aeroporto Internacional. O discurso da cidade para todos é marcado em cada uma das inaugurações de obras, onde o tecnicismo pleno é encontrado em cada projeto e estudo de impacto e a participação popular é limitada às instâncias formais, como os conselhos, já esvaziados de qualquer combatividade. A idealização, a fundação e a construção da capital centraram-se numa concepção racionalista de ordenamento do espaço, a serviço do capital pelo discurso do progresso. Esse processo continua de forma mais participativa e menos autoritária que anteriormente. Entretanto, a manutenção desses interesses, cada vez mais defendidos pelas gestões municipais de Belo Horizonte e estaduais de Minas Gerais, tem explicitado o acirramento de conflitos ambientais e espaciais em torno da produção do espaço urbano em Belo Horizonte e em toda sua Região Metropolitana. Página | 149 Palavras-chaves: Políticas Públicas. Planejamento Urbano. Legislação e Regulação Urbana. Belo Horizonte. REFERÊNCIAS COSTA, Heloísa. Habitação e produção dos espaços em Belo Horizonte. In: MONTE-MÓR, Roberto Luís de Melo et al. Belo Horizonte: espaços e tempos em construção. Belo Horizonte: CEDEPLAR, 1994. FRANCO, S. H. R. A democracia, o socialismo e o urbano: reflexões a partir da experiência dos governos das frentes de esquerda na cidade de Belo Horizonte: PGCP-DCP-UFMG, 2007. LAMOUNIER, Bolivar. Da independência a Lula: dois séculos de política brasileira. São Paulo : Augurium, 2005.. MONTE-MÓR, Roberto Luís de Melo. Belo Horizonte: a cidade planejada e a metrópole em construção. In: In: MONTE-MÓR, Roberto Luís de Melo et al. Belo Horizonte: espaços e tempos em construção. Belo Horizonte: CEDEPLAR, 1994. MONTE-MÓR, Roberto Luís de Melo. Do urbanismo à política urbana: notas sobre a experiência brasileira. In: COSTA, G.M.; MENDONÇA, J. G. (Org.). Planejamento urbano no Brasil: trajetória, avanços e perspectivas. Belo Horizonte: Ed. C/Arte, 2008. p.31-65. PAULA, João Antônio de. Minas Gerais e a Modernidade. In: PAULA, João Antônio de. Raízes da modernidade em Minas Gerais. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. Cap. 1, p. 9-22. Página | 150 PAULA, João Antônio de. O semeador e a colheita: estrutura urbana em Minas Gerais. In: PAULA, João Antônio de. Raízes da modernidade em Minas Gerais. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. Cap. 2, p. 25-58. VILAÇA, F. Espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo: Nobel, 1998. VILLAÇA. F. Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil. In: DEÁK, Csaba; SCHIFFER, Sueli Ramos. O processo de urbanização no Brasil. São Paulo: Edusp, 1999. p. 169-243. Página | 151 4 - PLANEJAMENTO URBANO PARTICIPATIVO: MAPEAMENTO DOS PROBLEMAS DA CIDADE PELOS SEUS DIVERSOS ATORES Monica Abranches29 RESUMO EXPANDIDO: Nas últimas décadas, as políticas públicas têm se aproximado dos estudos espaciais com o objetivo de incorporar às suas análises novos métodos e técnicas para otimizar a solução de problemas socioeconômicos, culturais e ambientais das cidades. As análises dos problemas urbanos ficaram mais ricas e próximas das demandas da população com a integração de áreas como a Geografia, a Cartografia, a Sociologia, o Urbanismo, a Antropologia, entre outros. Pensar a dimensão das políticas públicas através de métodos de estudos espaciais tem gerado grandes potencialidades para os estudos acadêmicos e para a sua utilização nos campos do planejamento urbano e na administração dos serviços públicos, principalmente, nas questões metropolitanas que se constituem como espaços mais diversificados para a implantação de políticas públicas no país, tanto pela sua grande 29 Curso de Serviço Social/Instituto de Ciências Sociais/PUC Minas Página | 152 concentração e múltipla funcionalidade, quanto pela sua grande concentração populacional e organização sociopolítica, que geram um novo padrão de exclusão social. A utilização da análise espacial permite caracterizar configurações de uma dada organização e forma territorial, ou seja, empregar um novo olhar sobre o território estudado, discutindo os problemas urbanos de uma forma mais real, aproximando as hipóteses das resoluções a serem tomadas do espaço que vai receber a intervenção. Abordamos nesse trabalho o modelo de gestão e de planejamento urbano democráticos que vão influenciar diretamente o futuro de nossas cidades, e que podem ser avaliados sob uma perspectiva espacial. Essa nova tendência democratizante tem sido implementada nas diversas áreas sociais e econômicas dos Governos, e tem exercido grande influência nos espaços urbanos que demandam melhores soluções para problemas sociais e articulações políticas para a sua resolução. Essa experiência tem transformado a paisagem das cidades através da descentralização de obras, serviços, equipamentos e distribuição da população no espaço urbano. Propõe-se uma análise sobre essa condição política de gestão e de planejamento, através da abordagem da atuação dos Conselhos Municipais de BH que representam, hoje, no processo de democratização brasileiro, o maior exemplo da gestão paritária e da intervenção popular na formulação e avaliação de políticas sociais efetivas para o desenvolvimento da cidade. Essa perspectiva analítica se volta para o perfil, a atuação e a percepção dos conselheiros municipais de diversas políticas urbanas sobre o espaço de Belo Horizonte Página | 153 apresentando um mapeamento dos problemas das cidades e suas influências no planejamento urbano. Considera-se que os homens estão, constantemente, agindo no seu espaço com objetivo de responder às suas necessidades, e que essas ações no ambiente (natural ou construído) afetam a qualidade de vida de várias gerações. Dessa forma, cada indivíduo percebe, responde e age diferentemente sobre os diversos aspectos em seu meio, e essas reações são fruto das percepções, dos julgamentos e expectativas de cada indivíduo. Tendo a cidade e suas transformações como foco central, trabalha-se as influências da percepção ambiental dos indivíduos, pois se está considerando uma mudança da paisagem (pelo planejamento urbano) a partir da “visão” de atores com diferentes status e com interesses diversificados, já que os conselhos gestores possuem representação do governo, da sociedade civil e, dentro desta, de entidades públicas e privadas. Essa teoria trata da investigação das formas como os indivíduos percebem e tomam decisões a respeito da cidade a partir de sua subjetividade. Assim, o estudo da percepção ambiental dos indivíduos sobre a cidade é de fundamental importância para que seja possível compreender as interrelações dos homens com o ambiente, suas satisfações e insatisfações e seus valores que afetam seus julgamentos e condutas e, sobretudo, suas escolhas políticas sobre as intervenções no espaço urbano. Foram analisados 122 questionários respondidos por membros de 11 conselhos municipais de Belo Horizonte e as atas de 12 meses de reuniões, que permitiram a verificação das dinâmicas e resultados do funcionamento dos conselhos na cidade e a elaboração de um perfil sociodemográfico dos conselheiros, bem como uma espacialização político-social destes no Página | 154 espaço de Belo Horizonte. Através de endereços dos conselheiros - por rua e bairro foi possível organizar uma distribuição espacial das forças políticas que decidem sobre o futuro da cidade. Foi possível avaliar como se dá esse modelo de planejamento participativo, além de apontar algumas fragilidades dessa experiência democrática. Através da atuação dos conselhos municipais, em Belo Horizonte, constata-se que é possível promover formas de mesclar as visões diferenciadas trazidas por diversas representações sociais, sejam elas, locais, regionais, técnicas, empresariais ou populares, configurando um espaço político legítimo de discussão da cidade. Isso permite a reflexão sobre os mecanismos de decisão dentro do poder público, aponta os conflitos de interesse e as contradições entre segmentos diferentes ou mesmo parecidos, identifica as interfaces entre as propostas políticas, culturais, sociais e econômicas e suas convergências e, principalmente, como tudo isso se reflete no cotidiano e no espaço da cidade. Percebe-se que essa nova contratualidade entre sociedade e Estado (conselhos) permitiu uma maior visibilidade dos problemas da cidade nas diversas áreas sociais e estruturais, a partir de ângulos e interesses diferenciados, além de trazer um novo olhar para o espaço da cidade, considerando que os participantes dos conselhos representam e “defendem” os seus diferentes territórios. A espacialização das decisões dos conselhos e o estudo das atas permitiram verificar que diferentes aspectos estão sendo abordados na cidade como: meio ambiente, Página | 155 urbanização, habitação, segurança, ocupação, territorialização, utilização dos espaços da cidade, questões sociais que afetam a distribuição e a circulação da população, influências do mercado e da especulação imobiliária, entre outros. Isso quer dizer que a diversidade das situações urbanas está sendo considerada e que existe um esforço de inclusão de todas as partes da cidade, sejam elas oficiais ou não. A influência da percepção ambiental sobre as decisões dos conselhos também foi um fator importante nesse trabalho. De acordo com a hipótese inicial, é possível verificar que a construção coletiva é extremamente afetada pelas análises individuais. Isso seria lógico, partindo da pluralidade que existe em um movimento democrático, que envolve diversas ideias em torno de uma proposta. Mas, nessa experiência considera-se algo mais profundo, que passa pela identificação das pessoas com os lugares em que vivem ou trabalham, além de suas diversidades na formação política, educacional, cultural e social que influenciam suas escolhas (herança cultural). Questiona-se o quanto o envolvimento afetivo (ou não) pode afetar as decisões do planejamento urbano. A percepção da imagem da cidade é um elemento importante para entender as identidades pessoais e os significados urbanos, pois estes delinearão as formas de “compromisso” ou “não compromisso” das pessoas com os lugares. Por isso, elegeu-se como um referencial teórico a percepção ambiental para compreender a dinâmica concreta que influencia as decisões dos conselheiros na cidade. Tem-se, então, análises interessantes quando a percepção da cidade pelos conselheiros municipais é avaliada e as decisões finais tomadas pelos conselhos municipais são espacializadas. Página | 156 O que mais chama atenção neste trabalho é a associação dos problemas apontados pelos conselheiros e os bairros onde se localizam, e a indicação dos locais para onde as decisões dos conselhos são direcionadas. Há uma clara incoerência entre a indicação dos conselheiros dos bairros que devem receber investimento público e aqueles que têm problemas emergentes e deveriam ser atendidos com prioridade. A análise das atas dos conselhos nos mostra que o mapeamento do direcionamento de suas resoluções no espaço da cidade é diferente do mapeamento das indicações de bairros com maiores problemas sociais, apontados pelos próprios conselheiros. Percebe-se que as indicações dos lugares que receberam indicações de investimento se associam mais aos locais de moradias dos conselheiros e aos espaços de que mais gostam. Isso nos faz refletir sobre a existência direta da topofilia que faz com que os conselheiros, mesmo no âmbito público e decidindo pelo coletivo da sociedade, valorizem e deem preferência para os lugares que lhe são afetos ou de sua convivência frequente. Também o mapeamento dos problemas da cidade e dos bairros que precisam de maior intervenção (opinião dos conselheiros) não condiz com a espacialização dos bairros atendidos pelas decisões dos conselhos nem com a espacialização dos bairros que receberam indicação de futuras discussão dos conselhos. Tem-se, ainda, a seguinte verificação: as áreas mais contempladas pelas decisões dos conselhos municipais correspondem àquelas onde moram os conselheiros que tem maior escolaridade (nível superior e pós-graduação) e com maior índice de renda. Os espaços periféricos e mais vulneráveis da cidade abrigam os conselheiros que tem menor renda ou sem renda e que possuem estudos apenas até o primeiro grau. Pode-se dizer que Página | 157 os conselheiros com mais anos de estudo e, consequentemente, maior renda, tem exercido uma grande influência nos conselhos, atraindo as decisões para as suas áreas de origem. Pode-se afirmar a importância da análise da distribuição dos conselheiros municipais, enfocando suas tendências políticas e seu capital social, pois são fatores que contribuem fortemente nas decisões individuais de cada cidadão. A qualificação política dos conselheiros, associada ao alto grau de escolaridade e maior renda, empodera suas reivindicações e participação e pode aproximar as decisões coletivas a favor de seus interesses. Como último ponto, tem-se a reflexão sobre a contribuição da geografia urbana que permitiu entender, em diferentes escalas, o sistema urbano e suas relações externas e intraurbanas, e acrescentou uma dimensão espacial à compreensão e ao agir dos homens em seu espaço de moradia, de lazer e de trabalho. Palavras-Chave: Planejamento urbano. Conselhos municipais. Percepção ambiental. Referências CLARK, David. Introdução a geografia urbana Trad. Lúcia Helena Oliveira Gerardi e Silvana Maria Pintaud. São Paulo: DIFEL, 1985. FERRARA, Lucrecia D’Aléssio. Olhar periférico: informação, linguagem e percepção ambiental. São Paulo: EDUSP, 1999. Página | 158 ROLNIK, Raquel. Planejamento Urbano nos anos 90: novas perspectivas para velhos temas. In: QUEIROZ, Luiz César. Globalização, fragmentação e reforma urbana: o futuro das cidades brasileiras na crise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994. SANTOS JUNIOR, Orlando Alves dos; RIBEIRO, Luiz César Queiroz; AZEVEDO, Sérgio de. Governança urbana e poder local: a experiência dos conselhos municipais no Brasil. Rio de Janeiro: REVAN/FASE, 2004. SANTOS JUNIOR, Orlando Alves dos; RIBEIRO, Luiz César Queiroz; AZEVEDO, Sérgio de. Reforma urbana: por um novo modelo de planejamento e gestão das cidades. Rio de Janeiro: FASE/IPPUR-UFRJ, 1995. SOUZA, Marcelo Lopes de. Mudar a cidade: uma introdução crítica ao planejamento à gestão urbanos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. TOLEDO, Ana Helena. Planejamento urbano em debate. São Paulo: Cortez & Moraes, 1978. TUAN, Y. F. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Trad. Lívia de Oliveira. Rio de Janeiro: Difel, 1974. TUAN, Y. F. Geografia humanística Trad. Maria Helena Queiroz. Anais da Associação de Geógrafos Americanos, v. 66, n. 2, jun. 1976. Página | 159 1 - DETENTO/A, FAMÍLIA, VULNERABILIDADES: ESTUDO EXPLORATORIO DE UMA UNIDADE PRISIONAL Maria Flávia Vieira Batista30 Maria Celeste Reis Fernandes de Souza31 Resumo Este artigo tem como objetivo discutir questões relacionadas a família, vulnerabilidade, e, pessoas em situação de aprisionamento buscando compreender suas implicações para as relações familiares dessas pessoas. Trata-se de um estudo de natureza descritiva. O campo de pesquisa é uma Unidade Prisional – UP, localizada no interior de Minas Gerais. O instrumento utilizado para a coleta de dados será realizada em documentos da unidade prisional (Prontuário Geral da Saúde e Jurídico; Programa de Ressocialização) para traçar o perfil social dos sujeitos em situação de aprisionamento. Serão realizadas, também,entrevistas abertas com 10 sujeitos em situação de aprisionamento cujo critério de seleção será estabelecido posteriormente. A escolha por este instrumental foi intencional, pois o mesmo tem como foco identificar as relações que se estabelecem entre detentos/as e suas famílias em situação de vulnerabilidade social no sistema prisional. 30 Assistente Social. Mestranda do Programa de Mestrado em Gestão Integrada do Território. UNIVALE 31 Doutora em Educação. Professora do Programa de Mestrado em Gestão Integrada do Território. UNIVALE Página | 160 Conclui-se que o território da prisão delimita e condiciona as relações familiares a partir de regras, normas, critérios e exigências do sistema prisional e reforçam o caráter de vulnerabilidade, tanto dos/das detentos quanto de suas famílias. Palavras chave: Família. Vulnerabilidade. Sistema Prisional. Território. 1 INTRODUÇÃO Nos últimos anos constata-se a ampliação das discussões acerca do sistema prisional, mobilizadas pelo reconhecimento dos direitos humanos de pessoas em situação de aprisionamento. Esse reconhecimento diz respeito a questões como condições físicas e sociais do aprisionamento, direito ao trabalho e à educação e configuram-se como objeto de preocupação de legisladores, juristas, gestores, pesquisadores, assistentes sociais, educadores, entre outros. Esta investigação insere-se nesse cenário preocupando profissionais e toma como referência os Estudos Territoriais para a análise das relações entre famílias e detentos de uma unidade prisional do município de Itambacuri - Minas Gerais. 2 OBJETIVO Analisar as relações que se estabelecem entre detentos e suas famílias em situação de vulnerabilidade social. Página | 161 3 METODOLOGIA Trata-se de um estudo de natureza descritiva. A coleta de dados será realizada em documentos da unidade prisional (Prontuário Geral da Saúde e Jurídico; Programa de Ressocialização) para traçar o perfil social dos sujeitos em situação de aprisionamento. Serão realizadas, também, entrevistas abertas com 10 sujeitos em situação de aprisionamento cujo critério de seleção será estabelecido posteriormente. Inicialmente, pretende-se que os critérios de seleção dos sujeitos contemplem: diferenças de gênero, diferenças geracionais, maior número de filhos/as, dentre outros aspectos a serem definidos a partir do perfil social, como por exemplo, renda familiar. A proposta é a realização de entrevistas que permitem uma maior compreensão sobre a realidade do cotidiano das famílias dos/as apenados/as, a relação que se estabelece entre as pessoas em situação de aprisionamento e os seus familiares e a identificação de situações de vulnerabilidades a que os/as detentos/as e suas famílias estão expostos. O fio condutor das entrevistas será o relato de caso do/a apenado/a sobre a sua relação com a família após o aprisionamento. A análise qualitativa buscará compreender de que forma o sistema prisional contribui para o acirramento das situações de vulnerabilidade de detentos/as e suas famílias. 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO A revisão bibliográfica possibilita afirmar a prisão como território delimitado por normas, regras, valores, leis, redes, violência, relações de poder, (RAFFESTIN, 1993; Página | 162 FOUCAULT, 1984; 1987; 2006). Tomar a prisão como território é reconhecer a temporalidade histórica que marca o nascimento e fortalecimento do sistema prisional, os ordenamentos legais que regularizam o sistema prisional e que normatizam a vida de cada instituição, o advento dos direitos humanos, as questões enfrentadas na atualidade com o aumento da violência e da criminalidade, as relações sistema prisional, comunidades nas quais estão inseridas, as relações sistema prisional e sociedade, e, vulnerabilidade familiar, dentre outros aspectos. A Lei de Execução Penal (LEP) assegura às pessoas presas direitos a assistência, seja ela material, espiritual, social, jurídica, no espaço prisional, considerando-se que essas pessoas encontram-se em privação de liberdade. A LEP reforça que os direitos humanos caracterizam-se em direito civil, direito social e direito político. Direitos Civis: direito à vida, propriedade, a segurança, aos registros públicos. Direitos Sociais: direitos do homem [e da mulher] ao trabalho, remuneração justa, a proteção ao trabalho. Direitos Políticos: direito de exercer voto direto, secreto, de igual valor para todos, ser elegível e ser eleito. Os conjuntos de todos esses direitos embasam a conjectura dos direitos humanos. No tocante a escolarização, embora a Lei de Execução Penal (LEP) já contemplasse a educação como possibilidade para as pessoas aprisionadas, tal direito só é reconhecido em 2010, com a publicação a publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Prisional (BRASIL, 2010). Cumpre-nos esclarecer que as instituições prisionais possuem vínculo governamental (podem ser Federais ou Estaduais) e o Estado se configura, portanto, como responsável pelo abrigamento de presos e por “prepará-los” para a sua reinserção na sociedade pelo viés da Página | 163 reabilitação. Assim, o Estado não só deve assegurar os direitos considerados fundamentais e descritos na LEP, como estar atento para o correto cumprimento da pena, e da preparação do/a preso/a na sociedade. Há, portanto, neste território da prisão, o controle do Estado sobre a população prisional, que se vale de “estratégias para facilitar ou restringir a mobilidade [dessa] população” (RAFFESTIN, 1993, p. 95). Essa restrição se apresenta nas diferentes divisões dos Estabelecimentos penais que se dividem em: Estabelecimentos para Idosos; Cadeias Públicas; Penitenciárias; Colônias Agrícolas; Industriais e Similares; Casas de Albergado; Centros de Observação Criminológica; Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (BRASIL, 2006). A entrada em uma desses estabelecimentos e o transito entre eles é determinado em função da condição dos/das presos/as (eles/elas podem estar na situação de condenados/as, de prisão provisória ou sob medida de segurança) e pelo perfil da população prisional (podem abrigar somente mulheres, somente homens, ou homens e mulheres). Segundo dados do Ministério da Justiça do Brasil (2008), existem no país 1735 estabelecimentos penais, que abrigavam, em dezembro de 2008, 451.219 apenados. Considerando-se os 1.134 estabelecimentos penais identificados, em 2008 pelo Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (InfoPen) observa-se que em Minas Gerais, eles totalizam 67, sendo que uma dessas instituições constitui-se o campo dessa investigação. Ao evocarmos as contribuições de Raffestin (1993) pensamos também na mobilidade populacional, não somente entre estabelecimentos penais, mas nos tipos de regime (fechado, aberto, semi aberto) que indica lugares possíveis de serem transitados e cerceia determinados espaços. Nesse sentido há a permissão(ou não) para o exercício do Página | 164 trabalho, para a frequência às aulas, para o deslocamento na própria instituição prisional, para a acolhida das famílias nesse território, com seus códigos e regras de conduta. Foucault em seu livro “Vigiar e punir: história do nascimento das prisões” evoca na própria arquitetura do espaço prisional o “olho do poder” (FOUCAULT, 1987). Esse olhar onipresente se serve de mecanismos de controle do tempo, do corpo, da vigilância e sanção normalizadora. O território da prisão é atravessado por relações de poder que se apresenta na “minúcia dos regulamentos, [no] olhar esmiuçante das inspeções, [no] controle das mínimas parcelas da vida e do corpo” (FOUCAULT, 1987, p. 122). Esse poder disciplinar estende-se, também, à relação do/a detento/a com suas famílias. A entrada da família na prisão é normatizada por olhares, vigilâncias, revistas, permissões, restrições e proibições. Se o Estado “protetor” se apresenta na “guarda do preso” na garantia dos seus direitos e no dever de zelar pelo cumprimento da pena, esse “olhar protetor” dos direitos, parece-nos não se estende às famílias desses/as detentos/as. Ao definirmos família recorremos a Política Nacional de Assistência Social, que assume um conceito ampliado de família, não mais somente por grau de parentesco, ou uma questão consaguínea, mas considera os novos rearranjos familiares: a família é o grupo de pessoas que acham unidas por laços de solidariedade.32 Pensar o conceito ampliado de família, suas vulnerabilidades e relacioná-las com o sistema prisional, implica realizar uma reflexão mais ampla que envolva a compreensão do significado atribuído à família, valores sociais e política pública. A família quando possui 32 Utilizamos o conceito ampliado de família que é abordado na Política Nacional de Assistência Social ,do ano de 2004 que considera além aspectos consanguíneos os laços afetivos e de solidariedade. Página | 165 membros inseridos no sistema prisional, torna-se mais vulnerável, em função de rompimentos de laços afetivos e de agravamento da situação de vulnerabilidade, especialmente quando os responsáveis pela manutenção da família (mulheres e homens) encontram-se impossibilitados de fazê-lo. A incursão no campo de pesquisa e um contato inicial com os documentos a serem analisados mostra uma maioria masculina na unidade prisional (96 homens e 4 mulheres). Essa população possui baixa escolaridade e baixa condição sócio-econômica, bem como um perfil jovem. A maioria dos sujeitos possuem 04 (quatro) filhos/as e destaca-se o acentuado grau de pobreza dos sujeitos em situação de aprisionamento e, consequentemente, de suas famílias. Certamente podemos evocar aqui, ao pensarmos nessas famílias a inclusão precária das mesmas. Por inclusão precária recorremos a Martins (1997) que o utiliza para se contrapor a “naturalização” da exclusão. Para o autor, a exclusão não é uma categoria abstrata, e os pobres vivem situações de inclusão precária em seus direitos sociais básicos: saúde, alimentação, educação e moradia. Certamente, essa inclusão precária é acentuada pela vivência da situação de aprisionamento. É possível constatar a questão da pobreza dessas famílias pelas visitas escassas (muitas vezes os deslocamentos necessários são distantes e não há recursos para os mesmos); na escassez de roupas, alimentos e outros itens de sobrevivência levados pelas famílias na ocasião das visitas; na preocupação expressa dos/das presos/as com a situação de filhos e filhas. Cremos ser necessário nessa investigação, problematizarmos as questões de gênero, pela coexistência de mulheres e homens em uma mesma instituição prisional e ao Página | 166 pensarmos nas questões das famílias, estudos mostram que as mulheres em situação de aprisionamento são, em sua grande maioria as únicas responsáveis pela manutenção dos/das filhos/as (NONATO, 2010) o que implica, certamente em acirramento da exposição de crianças e jovens à situações de vulnerabilidade. Ao discutirmos as relações entre instituição prisional, detentos/as, vulnerabilidade e assumirmos a prisão como um território, compreendemos as relações de poder como discute Foucault em seus estudos. Para Foucault, “o poder” só existe em ato, “ação sobre a própria ação” (FOUCAULT, 1995, p. 243) e tem lugar nas relações entre pessoas, entre grupos, entre pessoas/grupos, entre culturas, entre modos de vida. Relações de poder microfísicas, “conjunto de ações que se induzem e se respondem uma às outras” (FOUCAULT, 1995, p. 240) e que se inserem “na vida cotidiana, nas relações entre os sexos, nas famílias, entre os doentes e os médicos” (FOUCAULT, 2006, p. 233), nas prisões, de modo especial (entre os/as detentos/as; entre os/as responsáveis pela vigilância, entre mulheres e homens, entre as normas prisionais, os agentes e aqueles que devem cumpri-las). O sujeito inserido na “cela”, no cotidiano da prisão a divide para além de um espaço geográfico delimitado, mas a vivencia como um território atravessado por relações de poder (não somente o poder do Estado. Esse sujeito se submete a normas, subserviência, disciplina, mas também se organiza em grupos, escolhe lideranças, realiza enfrentamentos, boicotes, promove acirramento de disputas, constrói e ou rompe laços familiares e exerce mesmo de longe, muitas vezes controle sobre grupos e sobre suas próprias famílias. Página | 167 5 CONCLUSÃO: As conclusões deste estudo indicam que o território da prisão delimita e condiciona as relações familiares a partir de regras, normas, critérios e exigências do sistema prisional e reforçam o caráter de vulnerabilidade, tanto dos/das detentos quanto de suas famílias. É nesse espaço delimitado por hierarquias, regras, normas, obrigações e disciplinas que se pode pensar o estabelecimento de redes políticas, econômicas, jurídicas, assistências, legais, educacionais que ultrapassam os muros da prisão e envolvem as famílias dos/das detentos/as. Ao evidenciarmos a situação de vulnerabilidade dos/das detentos/as deseja-se promover olhares sobre o contexto do sistema prisional brasileiro, o avanço das discussões sobre os direitos dessas pessoas em situação de privação de liberdade, e de modo especial, contribuir para discussões sobre a vulnerabilidade a qual ficam expostas as famílias dos/das detentos/as. Referências: BRASIL. Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984. Institui a Lei de Execução Penal. Diário Oficial da União, 13 jul. 1984. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao>. Acesso em: 09 maio 2012. BRASIL. Ministério da Justiça. Sistema prisional. Brasília: MJ, 2006. Disponível em: <http://www.portal.mj.gov/data/pages>. Acesso em: 25 set.2011. Página | 168 BRASIL. Resolução CNE/CEB 2/2010. Dispõe sobre as Diretrizes Nacionais para a oferta de educação para jovens e adultos em situação de privação de liberdade nos estabelecimentos penais. Diário Oficial da União, Brasília, 20 maio 2010. Seção 1, p. 20. BRASIL. Sistema Penitenciário no Brasil: dados consolidados. Brasília: MJ, 2008. Disponível em: <www.portal.mj.gov.br/data/pages>. Acesso em: 25 set. 2011. FOUCAULT, Michel. Estratégia, poder-saber. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. v.4. FOUCAULT, Michel. O sujeito e o poder. In: DREYFRUS H.; RABINOW P. Michel Foucault: uma trajetória filosófica para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense, 1995. p.231-249. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 27. ed.. Petrópolis: Vozes, 1987. MARTINS, José de Souza. Exclusão social e a nova desigualdade. São Paulo: Paulus, 1997. NONATO, Eunice Maria Nazarethe. Educação de mulheres em situação prisional: experiência que vem do sul, no processo de reinvenção social. 2008. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) - Universidade do Vale do Rio dos Sinos. BRASIL, POLITICA NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL- Brasília, 2004. RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993. Página | 169 2 - A DISPERSÃO DA POBREZA DE BELO HORIZONTE NA REGIÃO METROPOLITANA Dra. Rita de Cássia Liberato Thiago Canettieri Thiago Gonçalves A presente pesquisa se insere no contexto da discusão referente o processo de exclusão social conduzido pelos centors urbanos que, a partir de diversos mecanismos, obriga a população de baixo rendimentos financeiros à ocupar zonas periféricas, cada vez mais longes das áreas centrais e em condições precárias. Busca-se identificar e compreender como é a reprodução desse fenômeno na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). O debate proposto pela pesquisa levanta questões cara à discussão sócioespacial, já que se revela um processo de limpeza social das áreas centrais e que, servindo aos interesses capitalistas, minam a possibilidade de sociabilidade do urbano como espaço do encontro. Nas grandes cidades dos países subdesenvolvidos perpetua-se um processo de reprodução econômica e social que tem diversas causas que se interpenetram. Entre elas se encontram:1) o desemprego estrutural; 2) a precarização das relações de trabalho; 3) o fracaso do planejamento urbano-regional. Entre as rações comumente utilizadas para a perpetuação da pobreza postula-se que existe um círculo vicioso, em que os pobres, sendo maioria da população, geram novos contigentes de pobres, devido a alta taxa de natalidade nesse segmento. No entanto, com a queda das taxas de natalidade nas últimas décadas mostra a fragilidade dessa hipotese conforme vem Página | 170 sendo demonstrada por especialistas (MATOS, et. All. 2010). Assim, é necessário recorrer a outras hipóteses para compreender esse cenário. Ao que parece, considerando o contexto da redução da taxa de natalidade da população que vive nas zonas periféricas, o número de pessoas nessa situação não é reduzido, mas, na verdade, tem-se aumentado cada vez mais. Conforme é demonstrado o município de Belo Horizonte, desde a década de 1970 não existe mais espaços destinaods para a ocupação urbana, a saturação do espaço é expressa não apenas à nível horizontal como também vertical. Esse processo está acompanhado de um constante aumento do preço da terra e das contruções, um processo inerente aos grandes centros urbanos capitalistas que, em última instância, conduzem a seleção dos indivíduos residentes a partir da capacidade de pagar por sua moradia em um determinado espaço. No caso da RMBH ainda se observa, um processo em que o crescimento do “Resto da região metropolitana” (RMBH excetuando Belo Horizonte) é crescente, enquanto que o crescimento da capital é decrescente. Dessa maneira tem-se a intenção de responder ao longo da pesquisa a seguinte questão: Para onde as pessoas de baixos rendimentos financeiros, antigos residentes de Belo Horizonte, quando excluídos da e pela cidade, vão residir? Trabalha-se com a hipótese de que a população pobre, devido a dificuldade de manter residência na área central da Região Metropolitana, é obrigada a ocupar as zonas mais distantes do espaço central e, dessa maneira, podendo ultrapassar as fronteiras dos municípios limítrofes de Belo Horizonte. Objetiva-se na pesquisa analisar a dinâmica da população que está abaixo da linha de pobreza e que são imigrantes de Belo Horizontes e que se dirigem aos municípios vizinhos e assim compreender como ocorre esse processo de ocupação realizado pela população excluída de Belo Página | 171 Horizonte. OS objetivos específicos constituem na identificação do processo de urbanização da RMBH, comprovar a dinâmica de intercâmbio populacional de baixa renda entre as cidades selecionadas e encontrar as áreas ocupadas por parte da população nesses municípios. Deve ser destacado que a presente investigação não está terminada, mas já possui importantes considerações com os dados trabalhados do censo de 2000 que revelam como esse processo de exclusão e expulsão toma forma na Região Metropolitana de Belo Horizonte, expulsando a população de baixos rendimentos financeiros para a periferia. Belo Horizonte foi uma cidade planejada nos moldes da concepção de modernidade, com o objetivo de ser a nova capital de Minas Gerais. Desenhada de uma maneira que tentava centra-se em um único centro o poder público, os funcionários e a clásse rica. Foi concebida a partir de uma malha quadricular com bulevares e infraestrutura urbana. Enquanto que os pobres, trabalhadores que atuaram na construção da nova cidade se encontravam sem uma área também planejada, sendo obrigados a ocupar as áreas externas da Avenida do Contorno. Nos primeiros anos da capital o centro era caracterizado pela presença da infraestrutura mas era despovoada, enquanto que na periferia a ocupação era maior a pesar da precariedade da infraestrutura. Verifica-se esse processo da perda da participação populacional do município de Belo Horizonte referente ao total da RMBH, enquanto que acontece um progressivo aumento da participação dos municípios limítrofes que em 1970 detinham aproximadamente 6% da população total da região metropolitana e que, em 2010 representam 20%. Este enchimento das cidades vizinhas à capital são procedentes do esvaziamento de Belo Horizonte. Vários processos que conjulgados contribuem para esse movimento da população, mas destaca-se a ação do mercado de terras e benfeitorias. Esse mecanismo atua como forma de Página | 172 selecionar a população mais interessante para ocupar Belo Horizonte, uma população de alta renda capaz de pagar o elevado preço da terra e das contruções altamente especulados, enquanto que a porção da população que não possui a renda capaz de se manter é obrigada a deslocar-se para áreas cada vez mais distantes e que acabam alcançando outros municípios. Belo Horizonte contribuiu, entre 1975 e 1980, com aproximadamente 45% da migração para os municípios vizinhos, enquanto que, entre 1995 e 2000 a porcentagem se elevou para 77%. A presença desse contigente populacional procendente de Belo Horizonte se mostra como o processo de exclusão conduzido na capital obriga as pessoas a se deslocarem para outras cidades ao longo do tempo. Cabe destacar que esses valores não consideram os migrantes que tem como objetivo chegar à Belo Horizonte, mas devido aos mesmos processos que observa-se, não podem e ocupam os municípios adjacentes. Na década de 1970, Belo Horizonte também esteve marcada por uma série de obras de intervenções urbana como viadutos em expansão, canalização de córregos e construções de vias sanitárias. Essas ações requiriam o deslocamento de pessoas para dar lugar as obras, sendo a sua maioria de pessoas que residiam nos barriso pobres de Belo Horizonte. Essa expulsão obrigou a população a buscar refúgio nas zonas mais distantes chegando aos outros municípios que são vizinhos a Belo Horizonte. Como foi assinalado anteriormente está comunicação é ainda parcial. Ao analisar os dados disponíveis, referente em sua maioria ao censo de 2000, percebe-se a existência de um processo de movimentação de população de baixa renda entre Belo Horizonte e os municpipios vizinhos. Os resultados parciais revelam que contigentes de população pobre são obrigados a realizar o deslocamento de seu sítios de residÊncia do centro para a periferia, ocupando os municípios Página | 173 vizinhos mas se mantém diretamente vinculados à capital, para as mais diversas necessidades, em especial o trabalho. O padrão espacial da ocupação pobre encontrado na ocupação dos municípios vizinhos revelam esse transbordamento. percebe-se que a maior concentração populacional dos municípios em estudo está localizada no entorno imediato à cidade pólo da Região Metropolitana, em uma área limítrofe. Na realidade não foram os municípios que experimentaram um crescimento demográfico, o que ocorreu foi a expansão da cidade de Belo Horizonte ultrapassando os limites municipais legais, realizada principalmente por uma população que não tem mais condições de pagar o custo de vida altamente valorizado nos limites municipais de Belo Horizonte. Nessa área de maior concentração populacional coincide também com a maior incidência de indivíduos que estão abaixo da linha de pobreza. Essa organização espacial revelam que, mais uma vez, ocorreu o transbordamento da pobreza de origem belorizontina para os municípios vizinhos, o que contribui para caracterizar um processo de elitização de Belo Horizonte. Como destacado anteriormente, a presente comunicação é ainda parcial. Na análise dos dados disponivéis, percebe-se a existência de um movimento entre Belo Horizonte e os municípios limítrofes estudados, sustentado por dados demográficos e que, espera-se ser verificado também através de imagens de satélite, visualizando essa transbordamento da perifeira da capital mineira para os municípios vizinhos. Os resultados parciais revelam grandes massas de populações pobres sendo obrigadas a realizar o deslocamento de suas residências do centro para as áreas periféricas, indo ocupar outros municípios, mas, ainda estando ligados a capital de forma direta, seja para trabalho, seja para estudo, ou outras necessidades. Página | 174 Importante destacar que esse aspecto do processo de produção do espaço urbano e da sociedade é importante para contribuir como forma de denúncia e ajuda a essa população que, excluída, das áreas de melhor infra-estrutura por meios do mercado imobiliário, que selecionam os moradores a partir de sua capacidade de arcar com o preço dos imóveis. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GOLDANI, Ana Maria. (2001) “Demografia da Exclusão: Construção de uma Agenda.” In: OLIVEIRA, Maria Coleta (org.). Demografia da Exclusão Social – Temas e Abordagens. Campinas: Editora da Unicamp. KOWARICK, Lúcio. (1980) Espoliação Urbana. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra. LIBERATO, Rita de Cássia. (2007) Cidade e exclusão: o lugar de moradia dos excluídos – o caso de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Pontifícia Universidade de Minas Gerais, 2007. MATOS, Ralfo. (2010) “A Reprodução de periferias e dispersão dos emigrantes de Belo Horizonte”. en MATOS, Ralfo. (org.) Espacialidades em rede: população, urbanização e migração no Brasil contemporâneo. Belo Horizonte: Editora C/Arte. MATOS, Ralfo; LOBO, Carlos; STEFANI, João; UMBELINO, Glauco. (2010) “Pobreza urbana e dimensão socioespacial nos processos de redistribuição da população em periferias de Belo Horizonte”, en MATOS, Ralfo. (org.) Espacialidades em rede: população, urbanização e migração no Brasil contemporâneo. Belo Horizonte: Editora C/Arte. MONTE MÓR, Roberto Luís de Melo. (1994) “Belo Horizonte: A Cidade Planejada e a Metrópole em Construção”. en MONTE-MÓR, Roberto Luís de Melo. (Org.). Belo Horizonte: Espaços e Tempos em Construção. Belo Horizonte: CEDEPLAR-PBH. Página | 175 PAULA, João Antônio. (2006) “Novas Periferias Metropolitanas.” en: COSTA, Heloisa Soares de Moura. (org.) Novas periferias metropolitanas – A expansão metropolitana em Belo Horizonte: dinâmica e especificidades no eixo Sul. Belo Horizonte: Editora C/Arte. 3 - DICOTOMIAS DA MARGINALIZAÇÃO Rodrigo Faleiro Dolabella Cesar Resumo Expandido: As multifacetadas manifestações de criminalidade, e marginalização, intrínsecos ao estado brasileiro, apresentam-se como desafios aos pressupostos weberianos. (WEBER, 1982, p.98). A identificação de uma violência crônica que transcende as capacidades de coerção e controle estatais sugere o questionamento da existência de uma soberania absoluta, no circunscrito territorial estatal. Nesse sentido, a percepção de ‘bolsões geográficos’ aonde não há sinais de governança reflete a indagação acerca da ‘integridade’ da segregação dicotômica, realizada entre o estado e o ambiente anárquico internacional. Ou seja, a recorrência de fenômenos marginalizados, associados à violência, reiteram uma percepção da ‘existência’ de espaços domésticos que não apresentam características tão distintas da idealização consagrada de anarquia internacional. Nesses espaços desprovidos da ‘autoridade legítima’ diversas manifestações de ‘dominação’, Página | 176 reproduzem, em certo sentido, o próprio funcionalismo estatal, relativizando a concepção clássica de autoridade central. Por outro lado, o recorrente uso do termo marginalização nos discursos domésticos reflete sua origem linguística na transição da sociedade feudal para moderna na Europa, quando se diferenciavam as regiões dos burgos com seu entorno, isolado do poder, da socialização (ALVES, 2011) e menos submetido à projeção de poder disciplinar. (FOUCAULT, 1987) O termo é utilizado muitas vezes como sinônimo de criminalidade, e não somente como dicotomia de exclusão social. (ALVES, 2011). Esse uso contrastado com um discurso totalizador de duas arenas em valorações absolutas irá desestabilizar as concepções tradicionais do estado. Dessa forma, a emergência de discursos sobre a mitigação da segurança urbana no Brasil traz à tona as contradições inerentes nesse discurso de legitimação estatal na esfera internacional. A proliferação de retóricas aporéticas acerca do estado leva à descrença em relação a ele e corrobora para a emergência de mais discursos de desafio e questionamento. Disputa-se nesse caso a efetividade e eficácia estatal, e a sensação de impunidade, em múltiplas esferas, fortalece um contexto de ausência de coerção do estado. Nesse sentido, a relativa inutilidade do estado como provedor de segurança em nichos urbanos enfraquece seu caráter aglutinador e vinculante, perdese grande parte da sensação de pertencimento e de legitimidade do governo. Não haveria mais como racionalizar a auto-justificação estatal onde sua funcionalidade primordial, a provisão de segurança, deixa de ser monopolizada e sofre fragmentação, ou simplesmente desaparece da percepção individual. A ‘inquestionável’ preponderância do estado como ‘unidade sólida’ no ambiente internacional, com seu imperativo masculino de poder, é paradoxalmente mitigada internamente quando se defronta com uma criminalidade fluída. (WEBER, 2002, p.137). Nesse caso, há a Página | 177 necessidade de se ‘consolidar’ a fluidez em localidades prontamente acessíveis pelo estado. Isso ocorre justamente quando há o encontro de uma retórica espacial que confere imobilidade as esferas estatais, com discursos midiáticos que alertam acerca da existência de ‘desordem’ em espaços geográficos estatais. Porém no mesmo momento em que se estabelecem fronteiras ‘internas’ de não penetração estatal - como se existissem ‘redutos internacionais, anárquicos ou não-estatais’ os quais o estado deva eliminar - também se inscreve um discurso de ‘internalidade’ e pertencimento destas áreas que inviabiliza uma mobilização do estado. Ou seja, ambiguidade resultante ‘constrange’ o estado a duas ‘alternativas morais’ dicotômicas, o aspecto externo o impede de agir ‘moralmente’ com o risco de ser condescendente com a ‘desordem’, e o aspecto interno o impede de ‘agir’ amoralmente já que se descaracterizaria o ‘ambiente interno’ de ‘ordem’. (WEBER, 2002, 139) Assim, a continuidade do vácuo estatal aos poucos ‘desestrutura’ a ‘penetração’ dos ‘valores sociais estabelecidos’ e mitiga também a própria identidade individual. Ao passo que a própria fundamentação do conceito de individualidade intrínseco a sociedade moderna pauta-se na centralização do poder. (BAUMAN, 1989, p.65). Assim, o enfraquecimento do estado é dialético com o rompimento do modelo individual racionalizado pelo estado. (WEBER apud BAUMAN, 1989, p.75, 76). Ou seja, a ausência do estado coercitivo resulta na não-racionalização de nichos sociais, onde não ocorre, portanto a ‘purificação’ e eliminação dos elementos nãosociais de seus membros. (BAUMAN, 1989, p.75, 76). A ausência das táticas das disciplinas individualizantes contudo, não obstrui o poder panóptico que se dá pelo processo de classificação daqueles redutos tidos como potenciais sítios de criminalidade. (FOUCAULT, 1987, p.165). Nesse caso, a diversidade de sujeitos inseridos nessas localidades é agregada em uma coletividade rotulada negativamente. Ou seja, a ineficácia da gerência do estado sobre essas áreas é Página | 178 discursivamente desproblematizada a partir da categorização moral de agrupamentos marginalizados. Esquece-se que a ausência da disciplina individual demandada pelo ordenamento estatal punitivo (FOUCAULT, 1987) é fruto da própria inoperância da máquina estatal. Abstémse o estado, da culpa pela insegurança, que passa agora a ser visualizada como originária de sujeitos/comunidades desviantes. A marginalização, nesse caso, é pragmaticamente abstraída de seu sentido geográfico/contextual, e passa a representar escolhas auferidas em um vácuo, sem constrangimentos. O sujeito discursivamente construído como ‘livre’ é dito como feitor de seu próprio destino, ‘o marginal transforma-se em criminal’. Entretanto, a pré-conceitualização desses sujeitos é dialética com o próprio discurso segregador dos mesmos. Ou seja, o elemento discursivo que estabelece as fronteiras geográficas/morais nos centros urbanos estatais relaciona-se com discursos que irão identificar sujeitos originários desses lugares, e logo com os valores delineados às suas localizações. Assim, sujeitos provenientes de ‘redutos perigosos’ são prontamente identificados como possíveis ‘indivíduos perigosos’. Assim, mitiga-se não só o vínculo individual com o ‘governo’ mas também com o ‘estado’ e com a ‘sociedade’. O ‘pseudo-individuo’, em sua condição de marginalização não se visualiza como ‘eu’ em relação à “comunidade imaginada estatal”, e sim como o ‘outro’. Nesse sentido, a consolidação de espaços anárquicos intrínsecos ao estado, sedimenta internamente novas dicotomias de contraposição ao mesmo, criando assim ‘novas fronteiras’. Percebe-se que a nova dicotomia de fundamentação eu/outro, inside/outside, vincula-se à contraposição da sociedade de dentro e de fora das ‘comunidades’ marginalizadas, por exemplo: morro/asfalto, favela/pista. “Vai haver então um permanente “exterior constituinte”, conforme Derrida nos demonstrou, um exterior à comunidade que possibilita sua existência”. (DERRIDA Página | 179 apud MOUFFE, 1993, p.114, tradução nossa).33 Nesse sentido, constrói-se uma identidade do sujeito marginalizado em contraposição à identidade ‘central’. Palavras-chave: Marginalização. Criminalidade. Drogas. Estado. Brasil. Drogas. Pós- estruturalismo. Pós-modernismo. Discurso. Violência, Ordem, Anarquia. Referências ALVES, Luzia, Reflexos de Criminalidade no Discurso Sobre Pobreza e Marginalidade. Disponível em: http://www.unitau.br/scripts/prppg/la/5sepla/site/comunicacoes_orais/artigoluzia_alves.pdf Acesso em 27/07/2011. BAUMAN, Zygmunt, A Liberdade, Editora Estampa, Lisboa, 1989 CAMPBELL, David, Writing Security: United States Foreign Policy and the Politics of Identity, revised edition, 1998 33 There will therefore exist a permanent 'constitutive outside', as Derrida has shown us, an exterior to the community that makes its existence possible. Página | 180 COSTA, Jurandir Freire, Perspectivas da Juventude na Sociedade de Mercado, In: NOVAES, Regina e VANNUCHI, Paulo (orgs.). Juventude e Sociedade: trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004. DEVETAK, Richard. Postmodernism. In: BURCHILL, Scott and Andrew Linklater. Theories of International Relations. New York: St. Martin‟s Press, p. 179-209, 1996. FOUCAULT, Michel, A Ordem do Discurso, Edições Loyola, 20ª Ed., 1971. FOUCAULT, Michel, Vigiar e Punir, Nascimento da Prisão, 20ª Ed., Petrópolis, Vozes, 1987. MOUFFE, Chantal, The Return of the Political, New York, 1993. REITH, Gerda, Consumption and its Discontents: addiction, identity, and the problem of freedom, In: The British Journal of Sociology, 2004, vol.55, issue 2. ROUSSEFF, Dilma, Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, na abertura do seminário de implantação dos Centros Regionais de Referência em Crack e Outras Drogas, Secretaria de Imprensa da Presidência da República, Palácio do Planalto, Brasília, 17 de Fevereiro de 2011. WALKER, Rob J. Inside/outside: International relations as political theory. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. WALTZ, Kenneth N., Theory of International Politics, University of California, Berkeley, 1979. Página | 181 WEBER, Cynthia. ‘Flying planes can be dangerous’. In: Millennium: Journal of international studies, 31 (1), p. 129-147, 2002. WEBER, Max. A política como vocação. In WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1982. WEBER, Max. Economia e Sociedade. Vol. 2. Brasília: Editora da Universidade de Brasília; São Paulo: Imprensa Oficial, 2004. 4 - DESCUMPRIMENTO DA FUNÇÃO SOCIAL DA CIDADE: A COMUNIDADE DANDARA E A POLÍTICA HABITACIONAL DE BELO HORIZONTE Marco Antonio Souza Borges Netto34 O presente trabalho faz parte da dissertação que será apresentada ao curso de Pós-graduação “stricto sensu” em Ciências Sociais da PUC Minas, orientado pela professora Léa Guimarães Souki. Nele,é discutido como se deu o processo de ocupação da Comunidade Dandara, os motivos, a repercussão e as propostas para solucionar os conflitos urbanos ligados à moradia. 34 Faculdade Pitágoras/Engenharia Civil – Betim. Programa de Pós-Graduação “Stricto Sensu” em Ciências Sociais – PUC Minas. Observatório de Políticas Urbanas – PUC Minas Página | 182 O que faz com que atualmente muitos pesquisadores trabalhem sem problemas em sociedades complexas, é considerar que o “outro”, que mora ao lado, são pessoas que vivem sob a pressão das mesmas forças estruturais que nós, e que, em muitos casos ostentam valores e crenças idênticas. Porém, pressupor de antemão essa semelhança é submeter todas as falas a um mesmo paradigma de análise. É ter um conhecimento superficial da sociedade e descartar ou ignorar tudo o que foi produzido desde então, além de não analisar o contexto histórico do porquê das ocupações urbanas. Segundo Fernandes, já existe um acúmulo significativo de conhecimento sobre as drásticas mudanças territoriais, culturais e ambientais provocadas pelo crescimento urbano acelerado. No entanto, na grande maioria dos estudos urbano-ambientais, o direito – incluindo leis, decisões judiciais, doutrina e jurisprudência, enfim, a cultura jurídica mais ampla – tem sido reduzido à sua dimensão instrumental. Para este autor, de um modo geral, o direito tem sido subestimado pelos analistas mais radicais como se fosse tão somente um instrumento político de discriminação e exclusão social, ou aceito sem reservas por outros, ou como se fosse meramente um instrumento técnico, que se presta a dar soluções imediatas aos galopantes problemas urbanos e sociais. Assim sendo, a governabilidade passa pela criação de novos espaços públicos, e pela democratização do Estado, através do estabelecimento de uma relação mais direta com a sociedade civil. Contudo, o Poder Público, notadamente a Prefeitura, depois de 23 anos da promulgação da Constituição Federal, de 10 anos de governo federal de esquerda e de quase 20 anos de governo municipal de esquerda, continua implantando políticas públicas à revelia das demandas populares, que gera conflitos. Página | 183 Conflitos esses que se dão, inclusive, pela expansão da pobreza e das desigualdades sociais, associada a questões profundas de uma democracia recente, vem ocorrendo um processo de desinstitucionalização dos direitos, impossibilitando a construção de uma cidadania. Marshal (1967) define cidadania como participação integral do indivíduo na comunidade política e distingue três tipos de direitos: os direitos civis, aqueles direitos que asseguram as liberdades individuais; os direitos políticos, aqueles que garantem a participação dos cidadãos no exercício do poder político; e os direitos sociais, aqueles que asseguram o acesso a um mínimo de bem-estar material. O argumento do autor segue a seguinte lógica: garantidos os direitos civis, as pessoas lutariam pelos direitos políticos e, consequentemente, garantiriam os direitos sociais. Carvalho (2001) afirma que é parente, no Brasil, a precariedade do conhecimento dos direitos civis. Ou seja, a maioria das pessoas não recorre à justiça, pois preferem não fazer nada ou tentou resolvê-los por conta própria. E, segundo o mesmo autor, entre os motivos alegados para não recorrer à justiça, três tinham diretamente a ver com a precariedade das garantias legais: 28% alegaram não acreditar na justiça, 4% temiam represálias, 9% não querem envolvimento com a polícia. Em suma, as pessoas não recorreram por não crer na justiça ou por temê-la ou por não acreditarem nos resultados. Já diz a Lei de Introdução ao Código Civil que na aplicação das leis, "o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e as exigências do bem comum." (fonte) Página | 184 Evidente, também, é a ineficácia de nossa legislação ambiental ou das leis de uso e ocupação do solo que impõem restrições à ocupação destas áreas, restringem a ação reguladora do Estado, mas não conseguem coibir as ocupações, oferecendo o território à informalidade com a consequente potencialização dos riscos e dos processos de degradação ambiental. Dessa forma, a política habitacional não enxerga a cidade como um todo, como um sistema. Menos evidente, porém, é a extensão do risco ambiental e social a toda a sociedade, seja sob a forma de poluição das águas e do solo, do assoreamento dos fundos de vale e inundações em áreas de ocupação formal, ou sob a forma crescente e flagrante de desigualdade econômica e de acesso a bens e serviços e sua consequência mais imediata e indesejável: a alarmante elevação da violência e da criminalidade urbana, nas cidades brasileiras, expressão objetiva da insustentabilidade do modelo socioambiental praticado no Brasil. Como defende Souza (2003, p. 98), por corporificar as várias crises “reais ou supostas de que se ouve diariamente falar – ecológica, do capitalismo, de valores, do Estado e várias outras”, as metrópoles são como o lugar da crise, também a sua possibilidade de superação. O fator educação também pesa para compreender o conformismo em relação à participação política e ao desconhecimento de técnicas de interpretação legal e de tecnologias. Ou como aliar conhecimento técnico e economia. Para Carvalho (2001), quanto menor o grau de educação da pessoa, menos ela recorre à justiça para garantir direitos. E quando recorrem, não possuem recursos para bancarem especialistas e há uma Página | 185 insensibilidade do Poder Judiciário quanto a isso. Pois, em todas as negociações referente à Comunidade Dandara, questões ligadas à fatores ambientais, de sustentabilidade, de materiais, de autogestão, eram ignorados por desconhecimento profundo da questão. Imaginemos, pois, os efeitos benéficos - extensíveis a toda a sociedade - que poderiam advir da eleição das áreas de ocupações precárias como prioritárias nos investimentos públicos e programas de recuperação socioambiental das cidades. No caso de Belo Horizonte, as maiores e as mais antigas favelas e aglomerados localizam-se em áreas privilegiadas da cidade, ao longo da Serra do Curral na porção sudeste do município, e ocupando áreas nas cabeceiras de importantes córregos urbanos, por vezes estendendose por vários quilômetros ao longo de seus leitos. Também na porção norte da cidade, como é o caso da Comunidade Dandara, as cabeceiras de vários cursos d’água da Bacia do Onça abrigam populações de baixa renda, em processos mais recentes de ocupação, mas igualmente devastadores. A Comunidade Dandara é um assentamento urbano precário situado na região norte da cidade de Belo Horizonte (MG). Como a maioria dos casos similares, em Minas Gerais e no Brasil, trata-se igualmente de processo de ocupação de áreas urbanas desocupadas por famílias e grupos de pessoas com grande dificuldade de acesso à moradia urbana e que veem, quase sempre, nesses processos, a única maneira de conseguirem um lugar para construir sua moradia. Este caso é um exemplo, que demonstra como tem se dado encaminhamentos para solucionar o problema habitacional no Brasil em face da ausência e/ou ineficácia das políticas públicas. Página | 186 Mas, diferentemente da grande maioria das ocupações, a Comunidade Dandara estabeleceu-se através de um modo planejado de ocupação que tem contado com a participação ativa das lideranças políticas do movimento de ocupação em íntima conexão e sintonia com os seus moradores. Outro aspecto de diferenciação é que, ao invés de ocupar áreas residuais inadequadas para a urbanização e quase sempre de grande risco para as moradias, a Comunidade Dandara ocupou um amplo terreno em meio à cidade com excelentes características para a urbanização e – claro – grande valor de mercado, num processo de ocupação que a colocou no centro de ações judiciais, atuações governamentais e a mídia, ao mesmo tempo em que movimentou vários grupos políticos ligados à reivindicação da moradia urbana. Então, dentre os atores que atuam nas cidades, temos as políticas urbanas realizadas pelas prefeituras, dentre essas, os programas habitacionais que buscam atender uma demanda crescente por moradia. E estes programas apresentam grande dificuldade na sua implementação, surgindo soluções urbanas dentro do seio da própria sociedade à margem do mercado formal de terras e sem o devido controle estatal. Essas soluções são pautadas pela autogestão e autoconstrução dentro de várias áreas das cidades brasileiras. Estas situações ocorrem a revelia do estado e sem a devida assessoria técnica por parte de arquitetos, urbanistas e engenheiros, contribuindo assim para agravar a qualidade urbana das cidades brasileiras. Santos e Rodriguez nos chama a atenção para essa mudança de paradigma: Página | 187 [...] as cidades emergem com importância crescente na evolução das formas de organização territorial e nos mecanismos de polarização do crescimento [...] A questão social tornou-se hoje territorial, concentrado em setores fragilizados dos grandes conjuntos metropolitanos. (SANTOS; RODRIGUEZ, 2002, p. 343). Ou seja, é fundamental para a governança de territórios uma análise sistemática e completa dos fatores em que se deu a ocupação. O trabalho monográfico analisará como se dá a participação das pessoas na formulação de políticas pública, o diálogo entre os atores políticos e, sobretudo, qual é o papel de cada um no processo de ocupação do território e de negociação. E essa análise será apresentada no painel proposto. REFERÊNCIAS Carvalho (2001) CARVALHO, J.M. Cidadania: tipos e percursos. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 9, n. 18, p.257-424, 1996. Fernandes (data) Lei de Introdução ao Código Civil Página | 188 MARSHALL, T.H. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar, 1967. SANTOS, B. S.; RODRÍGUEZ, C. Produzir para viver. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. SOUZA, M.L. Mudar a cidade: uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbanos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. Página | 189 1 - A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA SUSTENTABILIDADE URBANA Daniela Cristina Oliveira Anastácio35 Resumo Expandido O objetivo é discutir as possíveis formas de inserção do Serviço Social na temática do Meio Ambiente, a respeito das principais questões relacionadas à degradação do meio ambiente e formas de atuação do profissional do serviço Social como um educador ambiental, considerando os diversos aspectos envolvidos nessa relação, perpassando pela questão política, ambiental e social. A Educação Ambiental abrange muito mais do que um repasse de informações sobre o meio ambiente. Ela é uma forma inovadora de aprender a respeitar, conhecer a natureza e analisar a influencia do ser humano neste processo de degradação. Também percebeu-se que o assistente social pode,por meio da intervenção e mediação,trabalhar nessa área relativamente nova para a profissão. O documento mais antigo que se tem conhecimento, segundo Sirvinskas (2002, p.9), retratando o a consciência ecológica do homem é a famosa Confissão Negativa, papiro encontrado com múmias do Novo Império Egípcio. Este documento fazia parte 35 Faculdade Minas Gerais/FAMIG BH Página | 190 do Livro dos Mortos, que data de três milênios e meio. Segue trechos extraídos do citado livro que passaram a fazer parte do testamento do morto: Homenagem a ti, grande Deus, Senhor da Verdade e da Justiça!/ Não fiz mal algum.../ Não matei os animais sagrados/ não prejudiquei as lavouras.../ Não sujei a água/ Não usurpei a terra/ Não fiz um senhor maltratar o escravo.../ Não repeli a água em tempo/ Não cortei um dique.../ Sou puro, sou puro, sou puro! (AUTOR, data, página). A consciência ecológica surge diante da ameaça à qualidade de vida da população mundial, pois a expansão da tecnologia e o crescimento demográfico têm elevado a deterioração dos recursos ambientais. O Serviço Social Ambiental tem como enfoque principal a Ecologia Social no intuito de compreender a interação dos grupos humanos com o meio em que vivem, visando o desenvolvimento sustentável através principalmente da Educação Ambiental. Analisar a política de educação ambiental no Brasil, bem como apontar a importância da atuação do Serviço Social na gestão de políticas públicas ambientais. A luz destas experiências,analisa-se teoricamente a educação ambiental e fundamenta-se as argumentações na necessidade desta ser concebida como uma Política Social. A discussão sobre as questões ambientais emergiu como tema central deste artigo, que perpassa, sobretudo pelo Serviço Social, profissão que ultimamente, vem Página | 191 confirmando suas ações na defesa intransigente da democracia, da justiça, da liberdade e dos direitos humanos. Ações humanas estão frequentemente, na origem de desequilíbrios ambientais ou,generalizando,causam poluição em seu sentido mais amplo, caracterizado por tudo que torna a biosfera agredida. Alterações do ambiente seja água, no ar ou no solo, que modifiquem suas características, tanto físicas como químicas ou biológicas, acarretam problemas à saúde, à segurança e ao bem-estar dos humanos e causam danos à vegetação, à flora e à fauna, como um todo. Todos têm direito ao meio ambiente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público o dever de defendê-lo para as presentes e futuras gerações, Artigo 225 da Constituição Federal (BRASIL, 1988). A preocupação de décadas com o Meio Ambiente ganhou maior atenção e importância no século XXI, considerando o envolvimento dos países desenvolvidos, em desenvolvimento e até mesmo os subdesenvolvidos, momento em que já não se pode somente enaltecer a problemática com os recursos naturais, mas é necessário destacar o fato de que as nações dependem da conservação do meio ambiente para se desenvolverem e estarem aptas à sobrevivência das futuras gerações. Quatro fatores resumem a preocupação com a questão ambiental: o crescimento populacional e a infraestrutura: o esgotamento dos recursos naturais: o esgotamento a capacidade da biosfera em absorver resíduos e poluentes: e as desigualdades sociais. Página | 192 A perspectiva ambiental consiste num modo de ver o mundo em que se evidenciam as interrelações e a interdependência dos diversos elementos na constituição e manutenção da vida. Para assegurar a efetividade desse direito, a CF responsabiliza o Poder Público a realizar diversas atividades: preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas; controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente; proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade. No Serviço Social, aqui enxergado como uma profissão de caráter técnico e operativo, de intervenção na realidade e na compreensão do homem enquanto ser social, esse debate ainda é bastante frágil, com pouquíssimas produções acadêmicas e sistematizações práticas. No entanto, é necessário que se faça um exercício de pensar a pratica do assistente social nesse espaço,bem como desenvolvimento que auxiliem e dêem sustentação a essa situação . Indiscutivelmente, o Serviço Social é uma profissão que tem assumido uma característica de inserção em espaços políticos estratégicos e que está ligado à idéia de cidadania e igualdade social. E é nessa perspectiva, que se pode estabelecer fortes vínculos com a temática ambiental, tanto no que se refere aos ideais ambientalistas e suas respectivas práticas, quanto à proposta pedagógica de educação ambiental e até mesmo de mudança de mentalidade e comportamento. Esse possível - e necessário – laço entre a Página | 193 profissão e a questão ambiental se dá no sentido de construção de conhecimentos para uma sociedade sustentada no equilíbrio social e natural, além da inevitável articulação política ,necessária para o fortalecimento das idéias compartilhadas.Isso já vem ocorrendo,devido ao fato de que o Serviço Social e o movimento ambientalista (julgado aqui por seus ideais e práticas) possuírem orientações teóricas e políticas que tendem a se complementar pela busca da superação das mazelas impostas pelo sistema vigente. Nos países em desenvolvimento, a escalada de degradação ambiental foi mais crítica. Os processos de urbanização intensa, como os vistos nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, entre outras, tem feito com que os problemas ambientais se tornem cada vez mais graves e descontrolados. A escassez de recursos para investimentos, uma legislação ambiental fraca, inexistente ou não cumprida e a pouca atuação dos órgãos de controle ambiental agravam ainda mais esta situação. Por outro lado, faz-se verdadeiro o dito de que "a pobreza é a pior forma de poluição", visto que as comunidades que vivem esta realidade pouco podem fazer para mudá-la sem o devido investimento em saúde, educação, trabalho, moradia, entre outros, por parte do poder público, o que certamente se contrapõe aos esforços para o desenvolvimento de programas de controle ambiental. O desenvolvimento tecnológico e industrial tem provocado problemas de poluição do ar, da águas e do solo, devastação da vegetação, como se a natureza tivesse o poder de inesgotabilidade de seus recursos, e a questão ambiental é questão de sobrevivência. Página | 194 Daí a importância da atuação do Assistente Social nesta problemática ambiental, ele vem para garantir os Direitos Humanos, à dignidade da pessoa humana, intervindo com métodos e técnicas para, na medida do possível, conseguir minimizar alguns problemas decorrentes da problemática ambiental na comunidade, mas também age no intuito de mobilizar a população através da Educação Ambiental. Frente às questões ambientais, o profissional de Serviço Social poderá contribuir no desencadeamento de ações junto às comunidades, movimentos sociais, o que pode gerar uma transformação comportamental em relação ao modo de vida dessa sociedade, consistindo num processo de socialização e urbanização em relação ao ambiente concreto, incluindo as relações cotidianas que se estabelecem entre familiares, vizinhos, companheiros de trabalho, entre outras, correlacionando ao seu efeito multiplicador porto que, cada destinatário é, por sua vez, um promotor potencial de interação social cotidiana. Questão ambiental é também uma questão política e perpassa todo o debate sobre democracia e participação da sociedade nessas decisões. Não é possível desvinculá-las ou dissociá-las, uma vez que esse debate leva em conta diversas variáveis e não somente o aspecto ecológico. Essa é uma área indiscutivelmente politizada, em que o assistente social necessita compreender a correlação de forças existentes,a fim de promover o diálogo entre a população e os demais componentes envolvidos no jogo político. Palavras-chave: Serviço Social. Meio Ambiente. Ecologia. Direitos Humanos. Página | 195 Referências AUTOR. Desenvolvimento e meio ambiente: uma avaliação descargas poluidoras orgânicas em Bacias Hidrográficas: estudo de caso: Bacia Dorio Mogi-Guaçu. 1999. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos. AUTOR. Educação ambiental: uma forma de prevenção aos incêndios florestais no parque Estadual da Serra do Rola Moça. 2009. Monografia (Conclusão de curso) - Academia de Polícia Militar de Minas Gerais, Curso de Formação de Oficiais Bombeiros Militares. BAYARDINO, Renata Argenta. Título do artigo. Revista Ecológico, Ano 4, n. 42, p. 42-45, março 2012. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. CANÇADO, Cláudio Jorge. Código de ética profissional do assistente social. 3. ed. Belo Horizonte: CRESS, 2001. IAMAMOTO, Marilda Vilela. Serviço social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. São Paulo: Cortez, 2004. Regulamentação da Profissão – Lei n.° 8.662 . 3.ed. Belo Horizonte:CRESS, 2001, p. 0814.CRESS. Coletânea de Leis. Página | 196 REIGOTA, Marcos. Prefácio. In: GÓMEZ, J. Andrés Dominguez; AGUADO, Octavio Vasquez; PÉREZ, Alejandro Gaona (Org.). Serviço social e meio ambiente. São Paulo:Cortez, 2005. SIRVINSKAS (2002, p.9), VIANA, Carlos Henrique. A Petrobrás e o desafio da sustentabilidade ambiental. 2004. Monografia (Conclusão de curso) - Universidade do Rio de Janeiro, Instituto de Economia. Disponível em: <http://www.ie.ufrj.br>. Acesso em: 05 mar. 2012. 2 - O POSICIONAMENTO DOS EUA NAS NEGOCIAÇÕES DO PROTOCOLO DE KYOTO William Daldegan de Freitas36 Este texto busca analisar a atuação dos Estados Unidos durante as negociações do Protocolo de Kyoto. Para tanto, toma-se como objeto a dinâmica congressual norte-americana no que tange à formulação de política externa, durante o processo de negociação do acordo, e os impactos da negativa à ratificação do mesmo. Sobretudo, busca-se identificar como interesses de diferentes grupos poderiam afetar a formulação da política externa para a temática ambiental. 36 PUC Minas Página | 197 Durante toda a década de 1990 e no decorrer dos anos 2000 as discussões acerca do aquecimento global e dos processos que degradam o meio ambiente tiveram importante papel nas relações internacionais. Nota-se que os movimentos internacionais no âmbito do Regime Internacional de Mudanças Climáticas (RIMC) e, mais precisamente, nas discussões do Protocolo de Kyoto exigiram dos Estados Unidos um posicionamento, ora de liderança nas negociações, ora de negociador, ora como crítico e ora retirando-se das negociações. Interessante notar que, podendo ser líder do processo de implementação do Protocolo que teria importância fundamental na agenda climática, e sendo responsável por parcela significativa das emissões de gases danosos à atmosfera, os EUA não obtiveram apoio tanto interno – as demandas internas eram divergentes, seja entre as diferentes esferas do governo seja quanto a setores da sociedade, principalmente aqueles ligados à indústria energética – quanto externo – as medidas defendidas pelos americanos como fundamentais para sua participação no acordo e na “correta” divisão de responsabilidades foram rejeitadas. No início de 2001 o Governo Bush anunciou sua retirada das negociações e como justificativa alegou que sem uma revisão da distribuição de responsabilidades, assim como o comprometimento de países como Brasil, Índia, China e México com metas de redução, o acordo seria insuficiente e falho. O processo decisório, tanto no ambiente internacional quanto no ambiente doméstico, apresenta especificidades e o manuseio das diferentes preferências e interesses deve ser feito com extrema atenção. Se o Protocolo de Kyoto obterá êxito no final do período proposto não é algo que este estudo pretende discutir. O que interessa aqui é investigar como a política é encarada nos dois níveis de análise – interno e externo – tomando como contexto o processo que se inicia com a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD) em 1992, na cidade do Rio de Janeiro, e, com a ascensão do presidente Bill Clinton à presidência dos Página | 198 Estados Unidos, até o término do mandato do republicano George W. Bush em 2008, passando pelo início do período dos compromissos de implementação das questões dispostas no Protocolo de Kyoto, em 2005. A movimentação na arena doméstica americana denota o difícil apaziguamento entre os dois níveis de negociação nos quais os estados devem interagir. O ambiente doméstico a complexa legislação onde os diferentes níveis da federação dispõem de dispositivos para a promulgação, implementação e fiscalização de regras, dificultam a convergência de demandas e o aprofundamento dos debates em arenas específicas. Assim como disposto na Constituição dos Estados Unidos a organização do Congresso Americano é disposto em duas câmaras, o Senado e a Câmara dos Representantes. Os legisladores são escolhidos por voto popular e as eleições ocorrem de dois em dois anos. Segundo Lipson (1966) o Senado dos EUA é a câmara mais poderosa do Congresso Americano e, desta forma, capaz de manipular dispositivos para aprovar a resolução Byrd-Hagel, de 1997, que impactou na negociação dos acordos internacionais na área ambiental. Ao Senado é dada a prerrogativa de confirmar as nomeações e ratificar tratados, com exceção de tratados que envolvam comércio exterior que precisam, antes de serem ratificados, a aprovação do Senado. (LIPSON, 1966). Quando se remete ao poder dos presidentes Vig (2006) afirma que estes detêm poderes como a proposição de instrumentos para a supervisão e regulação das políticas ambientais, assim como formulação de agenda, formulação e proposição de reformas, orçamentos e emissão de ordens, assim como assinar ou rejeitar tratados internacionais. O papel exercido pelos constrangimentos internos e externos na tomada de posição de um estado é condicionado pela estrutura institucional que da sustentação a tais medidas. A Página | 199 compreensão de como ações cooperativas serão tomadas, deste modo, perpassa por um complexo jogo de forças nos diferentes níveis de negociação e por inúmeros atores buscando alcançar objetivos traçados. O maior comprometimento dos países em desenvolvimento nas decisões acerca da mitigação dos efeitos do aquecimento global é um dos atenuantes do processo, onde o Protocolo de Kyoto tornou-se coadjuvante na definição da política externa norte-americana e sua recusa a ratificar o referido acordo. O Protocolo de Kyoto começou a ser discutido em 1996 na Conferência das Partes (COP) ocorrida em Genebra e vai ser firmado em 1997 em Kyoto. Discutido no fórum multilateral do Regime Internacional de Mudanças Climáticas, o Protocolo de Kyoto teve de início os EUA como indutores das discussões. Responsável por cerca de um quarto das emissões mundiais de carbono (dados de 1999) e maior economia mundial, a importância de ter os EUA como um dos indutores do processo desencadeado pelo Protocolo de Kyoto é extrema importância, conforme argumenta Viola (2002). Para o autor, apenas outros três países teriam capacidade de impulsionar o processo, que seriam União Européia, Japão e China. Deste modo, a participação dos norte-americanos no processo seria vital para os avanços da negociação. Durante o ano de 1997, no Senado americano, é aprovado um texto bem claro em suas disposições e a que versa. A resolução dispõe “os requisitos para que os Estados Unidos sejam signatários de qualquer acordo internacional sobre emissões de gases de efeito estufa sob a Página | 200 Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.”37 (ESTADOS UNIDOS, 1997, p.01, tradução nossa). A Resolução Byrd-Hagel elencou como principal argumento que os impactos na economia americana seriam demasiadamente elevados e criou inúmeros obstáculos para a aprovação de qualquer acordo que pudesse incorrer nesse risco. A resolução parece ter recrudescido as políticas voltadas para a mitigação do efeito estufa. De todo modo, apesar das negociações seguirem um caminho questionado pelos EUA e sob os constrangimentos derivados da Resolução Byrd-Hagel, os americanos seguiram nos debates sobre a temática ambiental defendendo a importância dos estados em desenvolvimento comprometerem-se com metas de redução. No decorrer de 2001, conforme argumenta Viola (2002), o terceiro relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) “alertava com o máximo de força contra os riscos da mudança climática e a necessidade de agir rapidamente para mitigá-la” (VIOLA, 2002, p.45). Diante disso, foi requerido dos EUA um posicionamento a favor da liderança das tratativas do Protocolo de Kyoto e sua ratificação. Todavia, os argumentos levantados e a necessidade da ratificação por parte dos americanos do Protocolo, Bush anuncia a retirada do país das negociações. O posicionamento americano frente as negociações do Protocolo de Kyoto foram condicionadas pelos constrangimentos internos, mais precisamente pela Resolução Byrd-Hagel, construídos a partir de um jogo de interesses, porém que se converteu em unanimidade, no caso 37 Do original “regarding the conditions for the United States becoming a signatory to any international agreement on greenhouse gas emissions under the United Nations Framework Convention on Climate Change.” Página | 201 da votação desta. Apesar de defendido pelo presidente Clinton, o Protocolo não pôde ser ratificado justamente porque a conformação dos interesses se sobrepôs internamente no Congresso. Vê-se que as negociações no ambiente internacional são pautadas pela formulação de política desenhada no interior dos estados. Mesmo com um discurso pró-positivo, de Clinton, o win-set criado pelo Congresso foi capaz de dificultar as negociações. Já na administração Bush, a correspondência dos interesses presidenciais com as demandas de setores internos foi satisfeita. Apesar da forte pressão internacional e do constrangimento gerado dentro do ambiente multilateral do Regime Internacional de Mudança Climática (RIMC), os americanos não ratificaram o acordo e se retiraram das negociações, em 2001. Nota-se que a defesa da economia interna do país foi o argumento central para a não ratificação. De acordo com a resolução e a própria formulação da política externa, os EUA não se dispõe a assumir acordos que não sejam equânimes na divisão dos custos da implementação e, que outros estados também não assumam. O Congresso estava atento à importância e ao alto custo gerado pela participação no acordo, porém não permitiria arcar com o crescimento de outros países enquanto os americanos estariam modificando sua estrutura industrial. Logo, a formulação da política externa americana, neste contexto, demonstra como os níveis nacional e internacional se relacionam e impactam no posicionamento dos atores e no avanços de iniciativas de impacto global. Palavras-chave: Política Externa. Kyoto. Byrd-Hagel Página | 202 Referências AXELROD, Robert, KEOHANE, Robert O. Achieving cooperation under anarchy: strategies and institutions. World Politics, v. 38, n. 01, p. 226-254, 1985. ESTADOS UNIDOS. Constitution (1787). Constitution of the United States. Disponível em: <http://www.senate.gov/civics/constitution_item/constitution.htm#a1>. Acesso em: 01 fev. 2012. ESTADOS UNIDOS. Byrd-Hagel resolution. 1997. Disponível em: <http://www.national center.org/KyotoSenate.html>. Acesso em: 01 fev. 2012. HENRY, Laura A.; SUNDSTROM, Lisa M. Russia and Kyoto Protocol: seeking an alignment of interests and image. Global Environmental Politics, n. 7, 4 Nov. 2007. KRAFT, Michael E. Environmental policy in congress. In: VIG, Norman J.; KRAFT, Michael E. Environmental policy: new directions for the twenty-first century. 6. ed. Washington: CQ Press, 2006. p. 100-123. LEEDS, Brett A. Political institutions, credible commitments, and international cooperation. American Journal of Political Science, v. 43, n. 4, p. 979-1002, 1999. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/2991814>. Acessado em 27 de maio de 2011. LIPSON, Leslie. A civilização democrática. Rio de Janeiro: Zahar, 1966. v. 2. MARTIN. Lisa L. Interests, power and multilateralism. International Organization, v. 46, n. 04, p.765-792, 1992. Página | 203 MILNER, Helen V. Interest, institutions and information: domestic politics and international relations. Princeton: Princeton University Press, 1997. PECEQUILO, Cristina Soreanu. A política externa dos Estados Unidos: continuidade ou mudança? Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2005. PUTNAM, Robert. Diplomacy and domestic politics: the logic of two-level games. International Organization, v. 42, n. 3, p. 427-460, 1988. RICHELS, Richard G.; BLANFORD, Geoffrey J.; RUTHERFORD, Thomas F. International Climate Policy a second best solution for a second best world? Climate Change, v. 97, p. 289296, 2009. ROSENBAUM, Walter A. Improving environmental regulation at the EPA: the challenge in balancing politics, policy, and science. In: VIG, Norman J.; KRAFT, Michael E. Environmental policy: new directions for the twenty-first century. 6. ed. Washington: CQ Press, 2006. p. 169192. RUBIN. Jeffrey Z.; ZARTMAN. William. The study of power and the practice of negotiation. In: RUBIN. Jeffrey Z.; ZARTMAN. William Power and negotiation. Michigan: The University of Michigan Press, 2002. SHOGREN, Jason F.; TOMAN, Michael A. Climate change policy. In: PORTNEY, Paul R.; STAVINS, Robert N. Public policies for environmental protection. 2. ed. Washington: RFF Press Book, 2000. p. 125-168. Página | 204 VIG, Norman J. Presidential Leadership and the Environment. In: VIG, Norman J.; KRAFT, Michael E. Environmental policy: new directions for the twenty-first century. 6. ed. Washington: CQ Press, 2006. p. 100-123. VIOLA, Eduardo. As negociações globais do Protocolo de Kyoto e a participação do Brasil (1996-2001). In: FUNDAÇÃO KONRAD ADENAUER, Rio + 10 = Joanesburgo: rumos ao desenvolvimento sustentável. Fortaleza: Fundação Konrad Adenauer, 2002. p. 33-63. WEIDNER, Helmut. Desenvolvimento de capacidades em política ambiental: resultados de um estudo em 30 países. In: FUNDAÇÃO KONRAD ADENAUER, Rio + 10 = Joanesburgo: rumos ao desenvolvimento sustentável. Fortaleza: Fundação Konrad Adenauer, 2002. p. 33-63. ZARTMAN, William. The political of negotiation how who gets what and when. World Politics, v. 26, n. 3, p. 385-399, 1974. ZARTMAN. William. The structure of negotiation. In KREMENYUK, Victor A. International negotiation. San Francisco: Jossey-Bars Publishers, 1991. Página | 205 1 - POLÍTICA HABITACIONAL E DISTINÇÃO SOCIAL EM BELO HORIZONTE – A FUNDAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO DA CIDADE JARDIM E DO CONJUNTO IAPI COMO ÁREAS RESIDENCIAIS, ENTRE 1940 E 1970 Mario Peters, M.A. Doutorado em História Leibniz Universität Hannover, Alemanha Departamento de História Nas últimas décadas, a distinção sócio espacial (Bourdieu, 1993) tornou-se uma das conseqüências globais mais visíveis do processo de urbanização. Essa distinção se mostra visível nas condições de moradia nas cidades brasileiras. Meu projeto de doutorado versa sobre a política habitacional em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, entre o período de 1940 e 1975. O enfoque da minha pesquisa incide na influência do pensamento modernista na política habitacional e na formação das áreas residenciais da capital mineira. Por fim, tenho por objetivo pesquisar em que medida existe correlação entre a política habitacional e o aumento da distinção sócio-espacial em Belo Horizonte na época demarcada. Página | 206 No simpósio de Ciências Sociais da PUC Minas proponho discutir a política urbana do prefeito Juscelino Kubitschek (JK) desde 1940 até 1945. Primeiramente, será apresentado o projeto de modernização urbana e as principais idéias do governo municipal supracitado sobre a temática da habitação. O debate abarcará o desejo das autoridades governamentais de integrar Belo Horizonte ao círculo das cidades modernas38. Ainda no que concerne à modernização urbana desse ente federativo, abordarei o planejamento da distinção residencial imposta pelo governo municipal de JK. Em relação a essa questão, o enfoque central da palestra versará sobre a fundação e o desenvolvimento de duas áreas residenciais belo-horizontinas que fizeram parte do projeto modernizante desenvolvido na gestão de JK: o bairro Cidade Jardim, localizado na Região CentroSul do capital mineira e o Conjunto IAPI São Cristovão/Lagoinha, situado na Região Noroeste de Belo Horizonte. Trabalhando com uma abordagem comparativa na escala intra-urbana, intento questionar se a distinção residencial e sócio-espacial correspondeu às intenções das autoridades governamentais (e, também, das elites urbanas) ou se o desenvolvimento das condições desiguais de moradia resultou da ineficácia do planejamento urbano. Com o objetivo de compreender os efeitos da política habitacional lançada pelas autoridades municipais de Belo Horizonte, considero relevante comparar as diretrizes governamentais proclamadas pela propaganda oficial com as realidades urbanas da época. Portanto, também analiso os fenômenos da favelização e das invasões que acompanharam a implantação dos projetos residenciais a partir da década 1940. A Cidade Jardim foi planejada pelo engenheiro mineiro Lincoln Continentino no início da década 1940. Entretanto, em 1950 essa região ainda apresentava baixa densidade populacional e caráter 38 Kamel, Roberto Chafik Abu: Gestão municipal e o processo de organização do espaço urbano da cidade de Belo Horizonte (1894-1960). Belo Horizonte 2007, 38. Página | 207 predominantemente rural. Apenas na década subseqüente que a ocupação residencial do futuro bairro começou a se desenvolver.39 A construção do Conjunto IAPI foi concluída em 1951, apesar de a ocupação residencial já ter iniciado três anos antes. Ambos os espaços fizeram parte da modernização urbana belo-horizontina, iniciada pelo governo JK. Ao contrário da Cidade Jardim, que foi planejada como um bairro elitista,40 o Conjunto IAPI era o primeiro projeto estadual de política habitacional direcionado às camadas populares de Belo Horizonte.41 Em virtude do crescimento demográfico e do processo de favelização ocorridos na região norte da cidade, as autoridades urbanas foram impelidas a apresentar alternativas para o problema de falta de espaço residencial para as massas populares.42 Ao mesmo tempo, o novo bairro Cidade Jardim no Centro-Sul expressou, na opinião dos planejadores, uma alternativa mais sustentável ao crescimento urbano contemporâneo.43 Assim sendo, a Cidade Jardim e o Conjunto IAPI configuram como dois casos de estudos oportunos para pesquisar a relação entre a implantação das políticas habitacionais e o aumento das desigualdades residenciais intra-urbanas entre as décadas de 1940 e 1970. A metodologia da pesquisa é estruturada pela análise bibliográfica e documental, que se fundamentam em diversas fontes textuais, tais como: publicações oficiais do governo municipal, como o Anuário de Belo Horizonte (1953-1959), artigos de jornais e de revistas populares, como a 39 Gerência de Patrimonio Histórico Urbano. Secretária municipal Adjunta de Regulação Urbana. Prefeitura Munícipal de Belo Horizonte: Dossier de Tombamento Conjunto Urbano Bairro Cidade Jardim. Processo No. 01. 144187.0410. Belo Horizonte. Março 2004, s.p. 40 41 Ibid, s.p. Ibid. 42 Gerência de Patrimonio Histórico Urbano. Secretária municipal Adjunta de Regulação Urbana. Prefeitura Munícipal de Belo Horizonte: Dossier de Tombamento. Conjunto Residencial IAPI-São Cristovão. Processo 01.144907.0609. Belo Horizonte: Março 2004. 10. 43 Gerência de Patrimonio Histórico Urbano. Secretária municipal Adjunta de Regulação Urbana. Prefeitura Munícipal de Belo Horizonte: Dossier de Tombamento Conjunto Urbano Bairro Cidade Jardim. Processo No. 01. 144187.0410. Belo Horizonte. Março 2004, s.p. Página | 208 Revista Alterosa. Além disso, o estudo engloba a análise dos relatórios apresentados anualmente pelos prefeitos na época. Também foram analisados documentos e autobiografias publicados pelos políticos e planejadores urbanos dessa época, como Lincoln Continentino (1954)44 e Juscelino Kubitschek (1976).45 Além das fontes textuais, a história oral também é utilizada como recurso metodológico, através da análise de entrevistas abertas que retratam as lembranças e memórias de antigos funcionários da Prefeitura de Belo Horizonte, que atuaram na área de política habitacional, no período de tempo abordado por essa pesquisa. Ademais, o estudo ainda considera a perspectiva dos habitantes da Cidade Jardim e do Conjunto IAPI, através da análise de entrevistas que abordam os aspectos das trajetórias pessoais desses sujeitos (como a memória da infância, da educação escolar, da entrada no mercado de trabalho). Sobretudo, são exploradas as lembranças dos antigos moradores desses espaços acerca do passado do bairro Cidade Jardim e do Conjunto IAPI. Ressalta-se as percepções sobre as áreas residenciais, a convivência com os vizinhos, o contato cotidiano com a cidade e experiências da distinção ou exclusão social. Enfim, a palestra objetiva apresentar uma análise dos depoimentos dos moradores acerca da percepção dos mesmos sobre os efeitos da política habitacional e das reformas urbanas nas suas vidas cotidianas. A palestra da um olhar ao desenvolvimento infra estrutural do bairro Cidade Jardim, da região (Região Centro-Sul) e da cidade inteira. Além disso, a composição arquitetônica, a topografia e o crescimento demográfico da Cidade Jardim serão analisados. Tendo em vista esses fatores, devese discutir se a Cidade Jardim pode ser vista como “uma cidade (independente) dentro da cidade.“ 44 Continentino, Lincoln: Urbanização de Belo Horizonte e seu Saneamento, in: Arquitetura e Engenharia 30, Mar. /Abr. 1954, 66-73. 45 Kubitschek, Juscelino: Meu caminho para Brasilia. Vol 2: A escalada política. Rio de Janeiro 1976. Página | 209 Outro aspecto de central importância é o desenvolvimento da vida social elitista, analisado através dos depoimentos dos habitantes sobre a memória da vida cotidiana e dos eventos sociais ocorridos nesse bairro desde os anos 1950, 46 além de algumas reportagens realizadas pelos jornais da época que retratam esses fenômenos. Em relação à vida social na Cidade Jardim serão discutidas as representações sociais sobre o bairro, não apenas elaboradas pelos seus moradores, mas como pela sociedade em geral, como a mídia, os políticos e as autoridades públicas. Algumas questões nortearam o debate sobre a vida social na Cidade Jardim: Pode-se afirmar que a intimidade e o caráter residencial elitista foram promovidos para atrair novos moradores da classe alta?47 Quais ideias foram mais recorrentes acerca da representação social do bairro efetuada pelas autoridades urbanas? Essas idéias foram aderidas pela mídia belo-horizontina? Em relação a essas questões, serão apresentadas as imagens do bairro Cidade Jardim retratada nos jornais da época estudada, como o Estado de Minas ou Diário da Tarde. O desenvolvimento da Cidade Jardim será comparado ao desenvolvimento do Conjunto IAPI. Serão consideradas as tentativas da administração municipal de solucionar o problema da falta de espaço residencial popular. A pesquisa analisa o desenvolvimento do Conjunto IAPI como primeiro projeto estadual da habitação social, sua integração na região Lagoinha e na cidade como um todo, a composição arquitetônica, a topografia do espaço, tal como o desenvolvimento demográfico desde os anos 1940. Um dos questionamentos em pauta diz respeito se o Conjunto IAPI era apresentado pelas autoridades como uma solução da crise habitacional. A análise também considera se a mídia deu suporte à fundação do Conjunto IAPI. 46 Cajazeiro, Karime Gonçalves: A Cidade Jardim belo-horizontina e o campo do patrimônio cultural: representações, modernidade e modos da vida. Tese PUC. Belo Horizonte 2010, 70. 47 Ibid, 68-69. Página | 210 Assim como no estudo de caso desenvolvido sobre a Cidade Jardim, a pesquisa sobre o Conjunto IAPI fundamenta em análise bibliográfica e documental, que utiliza fontes textuais tais como o Dossiê de Tombamento, artigos de jornais e revistas da época, assim como abrange o recurso da história oral, através de entrevistas realizadas com os sujeitos que habitavam esse espaço no recorte temporal de interesse. Essas entrevistas enfocam os mesmos aspectos retratados no estudo de caso da Cidade Jardim, conforme o que foi mencionado no texto. Portanto, a palestra pretende apresentar os principais resultados da pesquisa realizada sobre a Cidade Jardim e o Conjunto IAPI, espaços retratados como áreas residenciais belo-horizontinas, fundadas sob a gestão municipal do prefeito JK na década de 1940. A conclusão do trabalho problematiza a questão se os dois estudos de caso realizados possibilitam inferir acerca da correlação entre a política habitacional da época e o aumento da distinção social em Belo Horizonte no mesmo período temporal. Bibliografia Bourdieu, Pierre; Accardo, Alain (Orgs.): La misère du monde. Paris 1993. Cajazeiro, Karime Gonçalves: A Cidade Jardim belo-horizontina e o campo do patrimônio cultural: representações, modernidade e modos da vida. Tese PUC. Belo Horizonte 2010. Gerência de Patrimonio Histórico Urbano. Secretária municipal Adjunta de Regulação Urbana. Prefeitura Munícipal de Belo Horizonte: Dossier de Tombamento. Conjunto Habitacional do IAPB/Cidade Jardim. Belo Horizonte: Março 2004. Página | 211 Gerência de Patrimonio Histórico Urbano. Secretária municipal Adjunta de Regulação Urbana. Prefeitura Munícipal de Belo Horizonte: Dossier de Tombamento. Conjunto Residencial IAPISão Cristovão. Processo 01.144907.0609. Belo Horizonte: Março 2004. Gerência de Patrimonio Histórico Urbano. Secretária municipal Adjunta de Regulação Urbana. Prefeitura Munícipal de Belo Horizonte: Dossier de Tombamento Conjunto Urbano Bairro Cidade Jardim. Processo No. 01. 144187.0410. Belo Horizonte. Março 2004. Kamel, Roberto Chafik Abu: Gestão municipal e o processo de organização do espaço urbano da cidade de Belo Horizonte (1894-1960). Belo Horizonte 2007, 37-81. Fontes Continentino, Lincoln: Urbanização de Belo Horizonte e seu Saneamento, in: Arquitetura e Engenharia 30, Mar. /Abr. 1954, 66-73. Kubitschek, Juscelino: Meu caminho para Brasilia. Vol 2: A escalada política. Rio de Janeiro 1976. Prefeitura de Belo Horizonte: Anuário de Belo Horizonte (1953-1959). Prefeitura de Belo Horizonte: Relatório de Prefeitos 1940/1941. Belo Horizonte 1942. Prefeitura de Belo Horizonte: Relatório de Prefeitos 1949. Belo Horizonte 1949. Página | 212 2 - COOPERATIVAS DE CATADORES DE MATERIAL RECICLÁVEL, SUSTENTABILIDADE E INCLUSÃO SOCIAL: UM ESTUDO DE CASO DO PROGRAMA DE GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS SOLIDOS URBANOS DO MUNICÍPIO DE BELO HORIZONTE (MG) Camila do Couto Seixas48 A reciclagem informal é uma realidade característica de países em desenvolvimento que, face às conseqüências das últimas crises econômicas em escala global e regional, passa a ser observada também em países desenvolvidos, como, por exemplo, Grécia e Itália. Diariamente, homens, mulheres e crianças pobres e excluídos da sociedade vasculham latas de lixo e depósitos irregulares de resíduos no intuito de assegurar uma renda mínima e sua sobrevivência diária, apesar das péssimas condições de higiene e do alto grau de periculosidade envolvido na atividade de catação de materiais recicláveis, especialmente quando esta ocorre em lixões e aterros sanitários. A reciclagem informal é o que ajuda a explicar o elevado percentual de reciclagem observado em alguns países em desenvolvimento, por exemplo, o Brasil, apesar da inexistência de programas oficiais de reciclagem abrangentes e eficientes no país. Sustentabilidade, em regiões 48 Mestre em Desenvolvimento Sustentável (Universidade Harokopio / HUA). Graduada em Ciências Econômicas (Universidade Federal de Minas Gerais / UFMG). Graduada em Relações Internacionais (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais / PUC Minas). Página | 213 caracterizadas pela atuação de catadores de material reciclável, requer a inclusão desses catadores nos sistemas oficiais de gerenciamento de resíduos sólidos locais ou sua proteção contra a adoção de medidas e políticas que possam dificultar ou ameaçar o desenvolvimento de suas atividades. O Brasil é considerado um exemplo de sucesso no que se refere à inclusão social dos catadores. Face a pressões pela modernização dos programas de gerenciamento de resíduos sólidos, motivas pelo aumento da consciência ambiental e pelo desenvolvimento do mercado da reciclagem, em muitas localidades os catadores são mantidos à margem dos processos de reformulação dos programas, por suas atividades serem consideradas incompatíveis com sistemas de gerenciamento de resíduos sólidos eficientes e ambientalmente adequados. O objetivo geral do presente trabalho foi a análise do programa de gerenciamento de resíduos sólidos urbanos do município de Belo Horizonte (MG), mais especificamente, o programa de coleta seletiva, o qual foi implementado através do desenvolvimento de parcerias entre o governo local e cooperativas de catadores de material reciclável. Esse programa alternativo de gerenciamento de resíduos sólidos urbanos combina os princípios e objetivos de um modelo integrado e compartilhado de gerenciamento de resíduos sólidos urbanos com a abertura de canais que viabilizam a participação local e a inclusão social dos catadores. O arcabouço teórico que embasou a análise compreendeu os referenciais teóricos do desenvolvimento, desenvolvimento sustentável, local area development, inovação social, inclusão social, economia solidária e cooperativismo, além do gerenciamento integrado e compartilhado de resíduos sólidos urbanos. A metodologia utilizada no presente trabalho envolveu revisão bibliográfica, análise de documentos oficiais e dados secundários, visitas in loco e entrevistas semi-estruturadas com Página | 214 representantes da Superintendência de Limpeza Urbana de Belo Horizonte (SLU/BH) e representantes das cooperativas de catadores de material reciclável parceiras da SLU/BH no programa de coleta seletiva de materiais recicláveis. As entrevistas foram realizadas em maio de 2012 na sede das cooperativas e nas instalações da SLU/BH. É possível identificar uma série de fatores que, combinados, culminaram na inclusão dos catadores de material reciclável no programa de coleta seletiva do município de Belo Horizonte. Entre eles, podemos identificar o aumento do grau de organização e da capacidade mobilizatória dos catadores, inicialmente impulsionados pela Pastoral de Rua, num momento onde o cenário político da capital mostrava-se bastante favorável. Durante os anos de 1993 a 2009, foram eleitos para a o cargo de prefeito da cidade candidatos do mesmo partido político, comprometidos com uma proposta de gestão pública participativa. A continuidade observada na implantação de políticas públicas participativas no setor de gerenciamento de resíduos sólidos foi essencial no processo de surgimento e consolidação das cooperativas de catadores. Com a abertura de novos canais de participação, criados a partir de um processo de reestruturação interna da SLU/BH, as necessidades e demandas dos catadores puderam ser reveladas e ouvidas, possibilitando sua inclusão social. A imagem social do catador transformou-se consideravelmente, passando de pessoas que sujam e enfeiam a cidade para sujeitos que contribuem de forma efetiva para o desenvolvimento sustentável do município. Nesse cenário, os fóruns de catadores de material reciclável – os fóruns municipais, estaduais e nacional Lixo e Cidadania, além dos movimentos nacionais, regionais e internacional de catadores – representaram (e continuam a representar) importantes espaços públicos de debate e participação, contribuindo para o processo de revelação das necessidades dos catadores, além de funcionarem como arenas de difusão de estratégias inovadoras. Durante todo esse processo, a educação e o treinamento foram de vital importância Página | 215 para o desenvolvimento e melhoria das capacidades dos catadores e para seu empoderamento (empowerment), fortalecendo os mecanismos de gestão, tanto das cooperativas, quanto do programa de coleta seletiva como um todo. Em relação à sustentabilidade futura do programa de coleta seletiva do município de Belo Horizonte, algumas considerações podem ser feitas. Em relação à dimensão social do conceito, a manutenção da participação dos catadores no programa de coleta seletiva é considerada positiva. A questão que se coloca, no entanto, é a seguinte: de que forma? A resposta a essa questão mostra-se bastante complexa. Atualmente, existe, por parte da sociedade, uma crescente demanda por reciclagem e pela coleta seletiva. O sistema de coleta seletiva do município, da forma como está estruturado, e com o número de cooperativas de catadores participantes, é incapaz de suprir essa demanda. Seriam necessárias novas cooperativas, ou a privatização de, pelo menos, parte do programa? O que é possível afirmar é que, em razão das características específicas desse grupo social, em especial, seu geralmente baixo grau de escolaridade e capacidade organizativa, cooperativas de catadores dificilmente surgem sem um importante suporte inicial. Durante todo o processo de criação, desenvolvimento e funcionamento de empreendimentos sociais – no caso do presente estudo, cooperativas de catadores de material reciclável – a educação e o treinamento são importantes instrumentos de empoderamento (empowerment), contribuindo para o aumento da autonomia e da independência dos empreendimentos. É importante enfatizarmos que as cooperativas, enquanto agentes econômicos, têm que sobreviver e competir numa arena altamente competitivo. Nesse ambiente, a educação e o treinamento podem contribuir para o aumento da probabilidade de sucesso das cooperativas. Em relação à dimensão econômica da definição de sustentabilidade, as parcerias desenvolvidas entre as cooperativas de catadores de material reciclável e o governo local podem Página | 216 significar economia aos cofres públicos, uma vez que algumas cooperativas parecem desenvolver suas atividades com elevado grau de autonomia. Além disso, as cooperativas de catadores, em razão da coleta de materiais que, ao contrário, acabariam sendo direcionados aos aterros sanitários do município, podem contribuir para a redução das despesas da prefeitura com transporte e destinação final dos resíduos. Em relação ao percentual de reciclagem observado no município, formal e informal, este parece ser bastante superior à porcentagem observada a partir dos dados oficiais da SLU/BH, uma vez que esses dados não abarcam todas as cooperativas e a coleta seletiva realizada pelos catadores informais. Não foi possível, portanto, estimar o percentual de reciclagem real realizado no município. Em relação à dimensão ambiental do conceito de sustentabilidade, é possível argumentar que os catadores de material reciclável desempenham um importante serviço ambiental, possibilitando a economia de recursos naturais, uma vez que reintroduzem no sistema produtivo resíduos – os materiais recicláveis – como matéria prima para a indústria, os quais, diferentemente, acabariam sendo direcionados aos aterros sanitários. Considerando a pergunta que direcionou toda a análise desenvolvida na pesquisa – “a introdução dos catadores no programa de gerenciamento de resíduos sólidos do município de Belo Horizonte é uma exemplo de estratégia de desenvolvimento local e inovação social no setor de gerenciamento de resíduos sólidos?” – a resposta é a seguinte: em termos. No caso específico das cooperativas de catadores de Belo Horizonte, algumas questões podem ser identificadas. Primeiro, o apoio dado às cooperativas de catadores pelas mais diversas instituições não deve restringir a capacidade das cooperativas funcionarem de forma eficiente e autônoma e deve focarse, especialmente, no desenvolvimento e fortalecimento de capacidades (capacity building), ao invés Página | 217 da simples oferta de benefícios. Segundo, são necessários urgentes investimentos para melhoria da infra-estrutura das cooperativas, no intuito de contribuir para a elevação dos seus graus de autonomia, de suas capacidades de processar quantidades cada vez maiores de material reciclável, de gerar mais postos de trabalho e mais renda. Terceiro, o sistema de coleta seletiva do município precisa ser reformulado, para que seja possível aumentar seu grau de cobertura. Quarto, os fóruns de catadores precisam manter-se abertos e em pleno funcionamento, continuando a funcionar como arenas de participação e negociação, onde novas demandas possam emergir. Quinto, são necessários esforços, por parte do poder público local, no sentido de elevar o grau de inclusão das demandas das cooperativas nas arenas institucionais onde a política municipal de reciclagem é desenvolvida e monitorada. Finalmente, é urgente a necessidade de produção de dados confiáveis sobre o fenômeno da coleta seletiva no município, formal e informal, tornando possível o desenvolvimento de programas de monitoramento e indicadores, a identificação de exemplos e práticas de sucesso e a adoção e difusão de estratégias inovadoras. Palavras-chave: Catadores de material reciclável. Cooperativas. Gerenciamento de resíduos sólidos urbanos. Desenvolvimento sustentável. Inclusão social. Referências AGARWAL, Ankit et al. Municipal solid waste recycling and associated markets in Delhi, India. Resources, Conservation and Recycling, v. 44, p. 73-90, 2005. Página | 218 BAILLIE, Caroline et al. Waste-based composites: poverty reducing solutions to environmental problems. Resources, Conservation and Recycling, v. 55, p. 973-978, 2011. BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Caracterização dos resíduos sólidos de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Limpeza Urbana, 2004. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. BRASIL. Decreto no. 5.764, de 16 de dezembro de 1971. Define a Política Nacional de Cooperativismo, institui o regime jurídico das sociedades cooperativas, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 17 dez. 1971. BRASIL. Decreto no. 5.940, de 25 de outubro de 2006. Institui a separação dos resíduos recicláveis descartados pelos órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta, na fonte geradora, e a sua destinação às associações e cooperativas dos catadores de materiais recicláveis, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 26 out. 2006. BRASIL. Decreto no 7.404, de 23 de dezembro de 2010. Regulamenta a Lei no 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, cria o Comitê Interministerial da Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Comitê Orientador para a Implantação dos Sistemas de Logística Reversa, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 24 dez. 2010c. BRASIL. Decreto no 7.405, de 23 de dezembro de 2010. Institui o Programa Pró-Catador, denomina Comitê Interministerial para Inclusão Social e Econômica dos Catadores de Materiais Reutilizáveis e Recicláveis o Comitê Interministerial da Inclusão Social de Catadores de Lixo Página | 219 criado pelo Decreto de 11 de setembro de 2003, dispõe sobre sua organização e funcionamento, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 24 dez. 2010d. BRASIL. Lei no 11.445, de 5 de janeiro de 2007. Estabelece diretrizes nacionais para o saneamento básico; altera as Leis nos 6.766, de 19 de dezembro de 1979, 8.036, de 11 de maio de 1990, 8.666, de 21 de junho de 1993, 8.987, de 13 de fevereiro de 1995; revoga a Lei no 6.528, de 11 de maio de 1978; e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 6 jan. 2007. BRASIL. Lei no 12.305, de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 3 ago. 2010e. BRASIL. Lei no 12.375, de 30 de dezembro de 2010. Altera a Lei no 10.683, de 28 de maio de 2003; transforma Funções Comissionadas Técnicas em cargos em comissão, criadas pela Medida Provisória no 2.229-43, de 6 de setembro de 2001; altera a Medida Provisória no 2.228-1, de 6 de setembro de 2001, e as Leis nos 8.460, de 17 de setembro de 1992, 12.024, de 27 de agosto de 2009, 10.833, de 29 de dezembro de 2003, 11.371, de 28 de novembro de 2006, 12.249, de 11 de junho de 2.010, 11.941, de 27 de maio de 2009, 8.685, de 20 de julho de 1993, 10.406, de 10 de janeiro de 2002, 3.890-A, de 25 de abril de 1961, 10.848, de 15 de março de 2004, 12.111, de 9 de dezembro de 2009, e 11.526, de 4 de outubro de 2007; revoga dispositivo da Lei no 8.162, de 8 de janeiro de 1991; e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 30 dez. 2010f. BRASIL. Ministério da Fazenda. Economia brasileira em perspectiva. Brasília: Ministério da Fazenda, 2010a. Disponível em: <http://www.fazenda.gov.br/portugues/docs/perspectivaeconomia-brasileira/edicoes/Economia-Brasileira-Em-Perpectiva-Especial-10.pdf>. Acesso em: 20 fev. 2012. Página | 220 BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Plano nacional de resíduos sólidos: versão preliminar para consulta pública. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2011. Disponível em: <http://www.cnrh.gov.br/pnrs/documentos/consulta/versao_Preliminar_PNRS_WM.pdf>. Acesso em: 20 fev. 2012. BRASIL. Ministério do Planejamento. Instrução normativa, Orçamento e Gestão no. 1, de 19 de janeiro de 2010. Dispõe sobre os critérios de sustentabilidade ambiental na aquisição de bens, contratação de serviços ou obras pela Administração Pública Federal direta, autárquica e fundacional e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 20 jan. 2010b. COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Nosso futuro comum. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1991. DEMAJOROVIC, Jacques; BESEN, Gina Rizpah; RATHSAM, Alexandre Arico. Os desafios da gestão compartilhada de resíduos sólidos face à lógica de Mercado. In: JACOBI, P.; FERREIRA, L. (Org.). Diálogos em ambiente e sociedade no Brasil. São Paulo: Annablume, 2006. DIAS, Sônia Maria. Coleta seletiva e inserção cidadã: a parceria poder público/ASMARE. In: JACOBI, P. Gestão compartilhada de resíduos sólidos: inovação com inclusão social. São Paulo: Annablume, 2006. DIAS, Sônia Maria. Construindo a cidadania: avanços e limites do projeto de coleta seletiva em parceria com a ASMARE. 2002. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal de Minas Gerais, Instituto de Geociências, Belo Horizonte. Página | 221 FUNDAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE. Programas municipais de coleta seletiva de lixo como fator de sustentabilidade dos sistemas públicos de saneamento ambiental na região metropolitana de São Paulo. Brasília: Fundação Nacional de Saúde, 2010. 168 p. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA Censo demográfico 2000. Rio de Janeiro: IBGE, 2000. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/ populacao/censo2010/tabelas_pdf/Brasil_tab_1_4.pdf>. Acesso em: 20 fev. 2012. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA IBGE Cidades. Rio de Janeiro: IBGE, 2012a. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow. htm?1>. Acesso em: 10 fev. 2012. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2000. Rio de Janeiro: IBGE, 2002. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores de desenvolvimento sustentável: sistema IBGE de recuperação automática (SIDRA). Rio de Janeiro: IBGE, 2012b. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2008. Rio de Janeiro: IBGE, 2010. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Relatório de pesquisa: pesquisa sobre pagamento sobre serviços ambientais urbanos para gestão de resíduos sólidos. Brasília: IPEA, 2010. Disponível em: <http://www.reusa.com.br/biblioteca/Relatorio_Pesquisa_PSAU _IPEA.pdf>. Acesso em: 18 fev. 2011. Página | 222 MACCALLUM, Diana et al. Introduction. In: MACCALLUM, Diana et al. Social innovation and territorial development. Surrey: Ashgate, 2009. p.1-8. MARTINE, George. População, meio ambiente e desenvolvimento: o cenário global e nacional. In: MARTINE, George (Org.). População, meio ambiente e desenvolvimento: verdades e contradições. Campinas: Editora da Unicamp, 1996. p. 21-39. MEDINA, Martin. Scavenger cooperatives in Asia and Latin America. Resources, Conservation and Recycling, v. 31, p. 51-69, 2000. MINAS GERAIS. Governo do Estado. Lei no 18.031, de 12 de janeiro de 2009. Dispõe sobre a Política Estadual de Resíduos Sólidos. Minas Gerais, Belo Horizonte, 13 jan. 2009. MOULEART, Frank. Globalization and integrated area development in european cities. New York: Oxford University Press, 2000. MOULEART, Frank. Social innovation: institutionally embedded, territorially (re)produced. In: MACCALLUM, Diana et al. Social innovation and territorial development. Surrey: Ashgate, 2009. p.11-23. NINAUT, Evandro Scheidt; MATOS, Marcos Antonio. Panorama do cooperativismo no Brasil: censo, exportações e faturamento. Informações Econômicas, v.38, n.8, p. 43-55, 2008. OLIVEIRA, Maria Coleta; PINTO, Luiza Guedes. Exclusão social e demografia: elementos para uma agenda. In: OLIVEIRA, Maria Coleta (Org.). Demografia da exclusão social. Campinas: Editora da Unicamp, 2001. p.77-103. Página | 223 OLIVEIRA, Orlandina de; ARIZA, Marina. Gênero, trabalho e exclusão social. In: OLIVEIRA, Maria Coleta (Org.). Demografia da exclusão social. Campinas: Editora da Unicamp, 2001. p.77-103. SAMSON, Melanie. Refusing to be cast aside: waste pickers organizing around the world. Cambridge: Women in Informal Employment: Globalizing and Organizing, 2009. SEMBIRING, Emenda; NITIVATTANANON, Vilas Sustainable solid waste management toward an inclusive society: integration of the informal sector. Resources, Conservation and Recycling, v. 54, p. 802-809, 2010. SEN, Amart ya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. TORRES, Henrique Rodrigues As organizações dos catadores de material reciclável: inclusão e sustentabilidade: o caso da Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reaproveitável, ASMARE, em Belo Horizonte. 2008. 112 pp. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Sustentável) – Universidade de Brasília, Centro de Desenvolvimento Sustentável, Brasília. WILSON, David C.; VELIS, Costas; CHEESEMAN, Chris. Role of informal sector recycling in waste management in developing countries. Habitat International, v. 30, p.797-808, 2006. Página | 224 3 - PROCESSO E FORMA, DESENHO E SIGNIFICADO NO DES-AGLOMERADO DA SERRA Alícia Duarte Penna49 Érico de Oliveira e Silva1 Laís Grossi de Oliveira1 Margarete Maria de Araújo Silva50 Hygina Moreira Bruzzi já dizia que os arquitetos-urbanistas andam se preocupando muito, demasiadamente, com os processos urbanos e pouco, insuficientemente, com a forma urbana. Referia-se a arquiteta à aproximação da Arquitetura - aqui nascida nas Belas Artes, crescida entre Engenharias e amadurecida nas Ciências Sociais Aplicadas - das Ciências Sociais, para ela proporcional ao seu afastamento da Estética. Muito provavelmente por isso, quando vamos dois professores e seis estudantes dos cursos de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais participar de um mutirão para a recuperação de ruína de casa - uma casa multifamiliar - demolida na área conhecida como Primeira Água do Cardoso, no Aglomerado da Serra, na Região Sul, em Belo Horizonte, detemo-nos nos processos. 49 50 PUC Minas PUC Minas / EA UFMG Página | 225 Primeiro, maldizemos os processos (ainda, sempre?) autoritários de concepção, de desenvolvimento e de implementação das políticas urbanas e habitacionais públicas, no caso, aqueles referentes ao Programa VILA VIVA, criado em 2005 pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, coordenado pela Secretaria Municipal de Políticas Urbanas e pela Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte e implantado com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal, naquela e em outras favelas - belorizontinas ou não. Segundo, criticamos os processos diretos de expulsão de grupos sociais daquelas localizações centrais. Terceiro, censuramos os processos indiretos de incorporação de terra sob as regras do mercado imobiliário informal ao formal. E, finalmente, execramos os processos previsíveis de segregação socioespacial desencadeados e potencializados por políticas urbanas e habitacionais públicas. Se não evidentes, suspeitados tais processos naquela ruína de casa multifamiliar e nas demais – e são muitas- dali avistadas ao longo do córrego do Cardoso. Suspeitados também tais processos nas construções novinhas em folha – edifícios multifamiliares verticais- também dali avistadas. Suspeitados tais processos nessas clareiras abertas – ruínas ou novas construções- sobre o acúmulo de práticas, energia e matéria que é a favela como o é a cidade. Se cedo demais talvez para se medirem (a qualquer prazo: curto, médio ou longo, pois todos devem ser considerados embora distintos os graus de dificuldade em sua mensuração) os efeitos do Programa VILA VIVA sobre a vida naquela favela e daquela gente e sobre a vida na cidade dessas e doutras gentes; se cedo demais para se comprovarem com números as acusações tantas Página | 226 vezes (na Belo Horizonte aberta sobre o Arraial do Curral D’El Rey desde o final do século XIX) levantadas, há algo já claramente evidente ali. E esse já claramente evidente é: a forma! Comecemos pelo parcelamento do solo. Reparemos na definição - agora geometricamente traçada- da propriedade privada. E na definição- agora geometricamente traçada- do que são o espaço público, o espaço coletivo, o espaço privado. Constatemos como se perdeu o desenho – a forma!- e o seu significado. O espaço público passou a ser o espaço viário. O que sobrou do espaço viário é o espaço do lazer, mas não o inspirado ou o inventado, e, sim, o (mal) instituído e, por isso, inibidor das práticas de apropriação, do tempo livre no espaço. O espaço coletivo, por sua vez, passou a ser o que sobrou do espaço privado e que, do espaço privado, afasta o espaço público. O espaço privado – o último, mas não o menos importante, ao contrário, o agora dominante- passou a ser o espaço privativo do apartamento. Assim, o público é o do governo – do outro que o instituiu e que dele deverá cuidar. O coletivo é o de ninguém – ali não mais se constitui alguém na interseção de muitos ou de todos. O privado é o da família, assim nucleada, unifamília legítima e proprietária, número 101, 102, 103 ou 104. Examinemos o curso d’água, o Córrego do Cardoso - afluente do Ribeirão Arrudas, por sua vez afluente do Rio das Velhas, por sua vez afluente do Rio São Francisco-, natureza agora mantida à distância insegura e improvável da sociedade perigosa. Aqui se separou o esgoto do que o origina pelo chamado “Parque da Primeira Água”: placa, cerca e nenhuma brincadeira ou aberta serventia para a água que, pelo governo, será um dia – quando?- purificada, como um dia já foi quantificada e vendida e, também por isso, lançada sem o tratamento devido ao curso d’água. Acolá se converteu o solo em pavimento asfáltico, sociedade mantida à distância insegura e improvável da natureza perigosa. Reafirma-se, assim, por duas vias que na verdade são uma só, Página | 227 uma única relação entre sociedade e natureza, justo aquela capitalista, ocidental, aqui ainda ou cada vez mais desenvolvimentista. Examinemos agora o curso das pessoas. Acuou-se o pedestre – o que anda, carrega, encontra, troca, brinca, briga, mata, beija e abraça - na calçada mínima entre a avenida e o arrimo. Monumentais ambos – avenida e arrimo -, mas de uma monumentalidade cuja geometria, sequer engenheira, não se decifra, resultado da implantação em encosta íngreme e ondulada, como se em tabula rasa. Assim são provocados e contidos – na verdade, transferidos - os riscos de erosão e de escorregamento pelos que com eles podem medir forças, retirados os que, sozinhos e fragilizados, com eles não puderam e não poderão. Passemos à densidade de ocupação. O vazio – o espaço livre de construção - agora predomina sobre o cheio – o espaço construído - e esse vazio predominante, já dizemos, é o espaço viário, o “nada urbanístico”, na expressão de Carlos Nelson Ferreira dos Santos. Se alguns já podem circular e estacionar (quase) à porta da casa, garagens anunciam-se numa economia de espaço que dá aos carros próprios a vaga subtraída às casas e as multifamílias consideradas impróprias. Nessa mesma economia, se espaço público e espaço privado não se interseccionam mas se contrapõem, mais predominante – opressivamente predominante o vazio. E avancemos por fim à ocupação. O que era mosaico de planos agora é linha. O que era escalonamento seguindo e revelando a topografia, agora é corte e arrimo em, como já dito, indecifrável geometria. O que era conjunto, agora é repetição. Ora, a produção seriada do edifício não é mal em si, sobretudo se se pensa que seu princípio um dia foi a justa distribuição dos produtos – imobiliários, no caso-, sobretudo se se pensa que seu princípio um dia pode vir a ser o de uma economia sustentável e solidária dos produtos. Não Página | 228 é um mal em si a produção seriada do edifício, salvo se se pensa que cada um deveria ouvir uma música única, pessoal e intransferível. Se se pensa que cada um deveria criar a sua música - o que é pensamento mais justo em direção a ação desalienante -, que se lembre de que há as notas e de que o sujeito não é abolido se há linguagem - a com que os homens se comunicam e a qual podem revolucionar. Estava lá a linguagem antes da anomia que agora está em seu lugar: estava lá a tagarelante laje, a um só tempo-espaço, cobertura e chão: varanda, mirante, pracinha e lavanderia, por exemplo. O escalonamento dos planos, tática de multiplicação do solo raro oposta à estratégia da mera verticalização, misturava espaço construído e livre de construção, espaço e âmbito privados, espaço e âmbito coletivos e espaço e âmbito públicos; a tabula rasa os separa. O escalonamento misturava natureza e sociedade; a tabula rasa os separa. O escalonamento e a geminação permitiam fazer crescer ou diminuir a casa mais ou menos própria para a família mais ou menos nuclear. O edifício convencional, multifamiliar na vertical, fragmentado em sub-unidades, o chamado predinho, torna ainda mais privada a propriedade e ainda mais retraído o sujeito criativo. E...é feio. Tudo isso é muito feio tanto quanto para Sérgio Ferro o conceito de beleza, em separado dos de produção e de apropriação da arquitetura – e da cidade, onde está a favela-, é desesperadamente vazio. Com Hygina Bruzzi, Carlos Nelson Ferreira dos Santos e Sérgio Ferro, afinal, está Henri Lefebvre, para quem o espaço é um inseparável das relações sociais. E viceversa. Basta ir lá - na Primeira Água, na Segunda ou na Terceira do Cardoso e prestar esta atenção para constatar que assim é – e assim parece. Palavras-chave: Favela. Política pública. Socionatureza. Sustentabilidade ambiental-urbana. Forma urbana. Página | 229 1 - POBREZA, DESIGUALDADES E DISCRIMINAÇÃO: EXPRESSÕES DOS USUÁRIOS DA POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL51 Maria Raquel Lino de Freitas52 1 INTRODUÇÃO O objeto de discussão do trabalho são as diferentes dimensões da desigualdade inscritas nas falas de usuários da política de assistência social, durante debates sobre os significados da pobreza e da política de assistência social. Os dados utilizados constituem parte da amostragem da pesquisa empírica de tese de doutorado defendida pela autora no Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade de Brasília (UnB), em julho de 2008, intitulada “Cidadania e Tutela na Política de Assistência Social: uma análise da cultura política de gestores e de usuários na região metropolitana de Belo Horizonte/MG” O reconhecimento de que a pobreza combina dimensões quantitativas e qualitativas, tal como percebida pelos sujeitos que ocupam o lugar do vivido, é o principal pressuposto que sustenta a discussão. Nessa ótica, os dilemas da pobreza material são ampliados por valores, comportamentos e atitudes inscritos nas relações de dominação e exclusão que circunscrevem os 51 O conteúdo do trabalho foi utilizado para elaboração de texto apresentado e publicado, em forma completa, no XV Congresso Brasileiro de Sociologia, em 2011, com o título: “Dimensões da desigualdade sob o olhar dos usuários da política de assistência social”. 52 Doutora em Política Social pela Universidade de Brasília (UnB), professora vinculada ao Departamento de Serviço Social da PUC Minas. Página | 230 espaços de convívio social. Identifica-se uma noção de pobreza que inclui a incapacidade do indivíduo de inserir-se nos processos por meio dos quais ele próprio cria e recria os seus canais de acesso ao consumo e à rede de serviços necessários ao sustento de suas necessidades materiais e sociais. Os resultados da pesquisa demonstram que a percepção da pobreza pelos usuários da política de assistência social aponta para, pelo menos, três dimensões da desigualdade. A primeira delas se refere ao desconhecimento sobre os direitos sociais assegurados nos instrumentos legais e operacionais da política, bem como à desinformação sobre as formas de acesso aos bens e serviços de proteção social nela afiançados; a segunda diz respeito às dificuldades e à falta de condições materiais, e; a terceira se refere a diferentes formas de discriminação e exclusão dos espaços de convívio social. 2 DIMENSÕES METODOLÓGICAS A metodologia do trabalho foi construída na perspectiva da pesquisa qualitativa, definida em duas vertentes: na metodologia da interpretação elaborada por John Thompson (1995), permitindo colocar em evidência o objeto de análise como construções simbólicas significativas, inseridas em contextos sociais e históricos de diferentes tendências, e permitindo que as falas fossem vistas em diferentes platôs de profundidade, e; outra vertente, referenciada na dialética histórica e estrutural, para a análise da relação sociedade/Estado com base nas teorias gramscianas de Estado Ampliado. Foram realizados 10 (dez) grupos focais, envolvendo, ao todo, 82 (oitenta e dois) usuários da política de assistência social em 05 (cinco) municípios da região metropolitana de Belo Página | 231 Horizonte, no período de dezembro de 2007 a abril de 2008. Todos os sujeitos da pesquisa estavam, à época, vinculados às diferentes ações asseguradas na Lei orgânica de Assistência Social, caracterizadas como Proteção Social Básica, de acordo com o modelo do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Os grupos focais foram realizados em Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), nos municípios de Belo Horizonte, Contagem, Nova Lima, Ouro Preto e Sabará. Para a interpretação dos dados foi utilizado o procedimento proposto por Laurence Bardin (2003) que consistiu numa pré-análise das falas para a constituição do corpus da pesquisa. A interpretação dos vestígios comunicacionais se realizou num processo dialético de aprofundamento contextualizado nas três fases da hermenêutica de profundidade. Na fase de exploração do material foi elaborado um corpus e dois subcorpus de análise dos dados, que orientaram a fase da interpretação/reinterpretação das falas dos sujeitos da pesquisa, bem como as conclusões finais do trabalho. 3 RESULTADOS 3.1 Desigualdades no processo de informação e acesso à política de assistência social Nas falas dos usuários predomina a identificação da política de assistência social com formas tutelares e de carências familiares e pessoais. Há ênfase do desconhecimento e da desinformação sobre os processos operacionais da política. Aproximada à noção de orientação e Página | 232 de fiscalização, a percepção do significado da assistência identifica-se com ações de fiscalização do pobre, com a pessoa e com o lugar onde ocorrem as doações e encaminhamentos para outras instituições. Como favor, a assistência social é identificada pelos usuários, nas práticas de doação de cestas básicas e segunda via de documentos, como expressões de amor e de caridade. Os depoimentos dos sujeitos da pesquisa apontam para formas de relações de dominação/subalternização nos espaços institucionais de gestão da política, em nível municipal e territorial. 3.2 Pobreza e desigualdade de condições materiais Os discursos dos usuários realçam a questão da desigualdade associada à educação, distribuição de renda e descaso público. Sobre a origem da pobreza, destacaram-se as seguintes faltas: humanidade, espiritualidade e perseverança, demonstrando uma tendência moralizante e de culpabilização do sujeito pobre pela sua condição de pobreza. Foi destacada a falta de condições de estudo e de alimentação, combinada às dificuldades quantitativas e qualitativas nas formas de acesso aos bens e serviços públicos destinados à educação e à formação para o trabalho. Os depoimentos destacam noções de desigualdade na configuração das condições e nos níveis de dificuldade vividos cotidianamente. Depoimentos realçam a ausência de “condições”, sinalizando para o reconhecimento de situações relacionais vinculadas à falta material, como a dificuldades de acesso ao consumo de alimentos e de itens de vestuário. Página | 233 A falta da alimentação como definição da pobreza aparece associada à ideia de abandono, tendendo a relacionar a pobreza à fraqueza individual e a culpabilização do indivíduo pela própria situação de pobreza e de abandono, sobretudo nos casos de pessoas denominadas de “mendigo de rua“. Há também a ilustração do reconhecimento de que a pobreza é identificada pela falta de moradia, associando a propriedade da casa a determinado status, referência para a negação da pobreza. 3.3 Pobreza e desigualdade nas relações sociais: discriminação e exclusão Nas falas dos usuários, há ênfase no sentimento de abandono e de discriminação, associadas às faltas material, de informação, e de condições de acesso aos bens e serviços públicos. Boa parte das falas aponta para a dimensão subjetiva da pobreza, por meio de expressões de sentimentos agregados à condição da pobreza e ao lugar do pobre nas relações sociais cotidianas, como é o caso de sentimento de humilhação e de rejeição da sociedade, sobretudo, nos ambientes de consumo, onde o mercado impõe suas múltiplas formas de segregação. Sobre a discriminação nas formas de acesso ao trabalho, a questão do território onde se habita é apontado como um fator de negação de oportunidade. Observa-se também a percepção da estigmatização racial entre os próprios pobres, incrementando o sentimento de desamparo. A dimensão qualitativa da dificuldade financeira é associada à dimensão subjetiva do sentimento de humilhação causado pelos vizinhos e pelo desafeto da sociedade, por meio de expressões de Página | 234 desamparo como falta de “amor” e “pobreza espiritual”, sugerindo a existência de uma vertente moral, julgadora do comportamento das pessoas em relação à pobreza. Sobre expectativas quanto às formas de diminuição da pobreza, os usuários reportam-se às faltas relacionadas às experiências vividas, tanto de natureza objetiva, como é o caso de melhores oportunidades de educação para o trabalho, como de natureza subjetiva, como é o caso do enfrentamento às relações discriminatórias e de exclusão social, a exemplo do racismo, das práticas clientelistas exercidas pelos próprios pobres e da corrupção no sistema político. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS O desconhecimento sobre os direitos sociais demonstra uma das formas de negação da cidadania. Levando em conta o poder e o saber instituído sobre as noções de pobreza, de faltas e de desigualdades, considera-se fundamental contar com a participação efetiva dos usuários nos processos de elaboração das ações de divulgação e de informação sobre a política de assistência social, com base na escuta e na valorização da fala originada no lugar do vivido. As formas de acesso à educação e ao trabalho que os usuários da assistência social demandam não se restringem aos objetivos finais da conquista por condições autônomas de consumo e fortalecimento da base material deles e de suas respectivas famílias, embora esta seja uma necessidade explícita em quase todo o universo de usuários atendidos pela política de assistência social. Marshall (1967), já se preocupava com a questão do respeito dos trabalhadores em relação a si mesmos e aos outros, bem como com as condições que teriam as classes Página | 235 trabalhadoras de “zelar” pelos direitos sociais. Putnam (2005) realça a importância da vida social e política para a constituição de uma comunidade cívica, participativa e solidária. Os processos instituintes da aprendizagem são também processos cotidianos de elaborações de crenças, valores e referências culturais que resultam em formas de representação que indivíduos e grupos fazem de si mesmos. Importa articular saberes originados de diferentes áreas de conhecimentos, construir estratégias de diagnósticos e intervenções interdisciplinares e de ampliação das oportunidades de participação dos sujeitos usuários. O fortalecimento da rede socioassistencial, de base territorial e intersetorial, apresenta-se como um destacado potencial para se fazer a gestão das ações da política de assistência social na perspectiva da autonomia dos cidadãos usuários. Entretanto, o processo de fortalecimento da rede incorpora o desafio de se articular diferentes noções da pobreza, reconhecendo as desigualdades identificadas nas percepções dos seus usuários. Palavras chave: Pobreza. Desigualdades. Assistência Social. Discriminação. Exclusão Referências BARDIN, Laurence. L’ analyse de contenu et de la forme des communications. In: MOSCOVICI, Senge; BUSCHINI, Fabrice. Lês méthodes dês sciences sociales. Paris: PUF, 2003. Página | 236 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. BRASIL. Política Nacional de Assistência Social. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2004. COLIN, Denise R. A.; FOWLER, Marcos B. LOAS: Lei Orgânica de Assistência Social anotada. São Paulo: Veras, 1999. FALEIROS, Vicente de Paula. A categorização dos pobres: os desafios do contexto organizacional e institucional. In: FALEIROS, Vicente de Paula. Estratégias em serviço social. São Paulo: Cortez, 1999. FALEIROS, Vicente de Paula. Metodologia e ideologia do trabalho social. 10. ed. São Paulo: Cortez, 2007. FREITAS, Maria Raquel Lino de. Cidadania e tutela na política de assistência social: uma análise da cultura política de gestores e de usuários na região metropolitana de Belo Horizonte. 2008. Tese (Doutorado) - Universidade de Brasília, Programa de Pós-Graduação em Política Social, Departamento de Serviço Social, Brasília. GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a política e o Estado moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. MARSHALL, T. H. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro. Zahar, 1967. PUTNAM, D. Robert. Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 2005. Página | 237 THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis: Vozes, 1995. 2 - ASSISTÊNCIA SOCIAL: IDENTIDADE E ALCANCE Cibele Vieira Feital53 Historicamente, a Assistência Social esteve associada à benesse e à caridade; à tutela e ao favor. Todavia, a Constituição Federal de 1988 a localizou dentre os noves direitos sociais que devem ser garantidos pelo Estado. No texto constitucional aparece como “proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados” (art. 6º). Em seu artigo 194, a Carta Magna estabelece ainda que a Assistência Social componha, ao lado da Saúde e da Previdência Social, a Seguridade Social. Defende-se que não se deve confundir Seguridade Social com Proteção Social54, visto que a primeira é composta pelos três direitos elencados anteriormente. Já a Proteção Social somente será assegurada pelos noves direitos expressos no artigo 6º da Constituição Federal, a saber: Educação, Saúde, Alimentação, Trabalho, Moradia, Lazer, Segurança, Previdência Social e Assistência Social. Entendendo que os direitos sociais são materializados e garantidos através de políticas públicas, doravante os direitos sociais serão denominados de políticas públicas. 53 Assistente social da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, especialista em Gestão da Política de Assistência Social 54 Entendida aqui como as formas institucionalizadas que as sociedades encontram para proteger seus membros. Página | 238 Ainda com relação à Assistência Social na Constituição Federal de 1988, nota-se que a mesma adquire um caráter não contributivo e relativamente universal, visto que se destina “a quem dela necessitar”. Esta parece ser umas das contradições presentes no texto constitucional, já que no inciso primeiro do parágrafo único do artigo 194, a Seguridade Social deve, entre outros, objetivar dois tipos de universalidade: a de cobertura e a de atendimento. Dentre as três políticas que compõem o tripé da Seguridade Social, somente a Saúde parece cumprir este primeiro objetivo. Em seu artigo 203, a Carta Magna estabelece cinco objetivos para a Assistência Social: I - a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; II - o amparo às crianças e adolescentes carentes; III - a promoção da integração ao mercado de trabalho; IV - a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; V - a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei. (BRASIL, 1988). A Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993 (Loas – Lei Orgânica da Assistência Social), expande esses objetivos em seu artigo 2º e pode-se notar que no inciso I, a Assistência Social é identificada como um tipo de Proteção Social que almeja garantir a vida, a redução de danos e a prevenção de riscos. Nos incisos II e III são acrescidos objetivos relativos à vigilância social e a Página | 239 defesa de direitos. E o parágrafo único preocupa-se em alertar que não cabe à Política Pública de Assistência Social o enfrentamento da pobreza, cabendo esta a um conjunto integrado de políticas setoriais. Apesar de não especificado, espera-se que entre essas políticas setoriais, esteja a política econômica, visto ser esta mais importante que quaisquer políticas sociais para o enfrentamento da pobreza. A Loas, artigo 1º, esforça-se para que a Assistência Social rompa definitivamente com seu passado conservador ao defender que se trata de um direito do cidadão e de um dever do Estado. Mas, retrocede ao afirmar que a Assistência Social deve prover os “mínimos sociais”, categoria expressamente neoliberal. Atualmente, a Política Pública de Assistência Social organiza-se através de um sistema descentralizado e participativo denominado Suas (Sistema Único de Assistência Social), que por sua vez é composto por dois tipos de proteção: proteção social básica e proteção social especial de média e de alta complexidade. A proteção social básica é composta por serviços, programas, projetos e benefícios que objetivam prevenir situações de riscos e de vulnerabilidade social através do fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. Deve ainda atuar no desenvolvimento de potencialidades. Costuma-se afirmar que a proteção social básica é preventiva, proativa e protetiva. A proteção social especial é composta por serviços, programas e projetos; almeja reconstruir vínculos familiares e comunitários e a proteção de famílias e indivíduos com violações de direitos. A proteção social especial de média complexidade atua quando há violação de direitos e os vínculos familiares e comunitários estão fragilizados. A proteção social especial de alta Página | 240 complexidade intervém quando há violação de direitos e rupturas de vínculos familiares e comunitários. A PNAS, 2004 (Política Nacional de Assistência Social – Resolução n.º 145, de 15 de outubro de 2004 do Conselho Nacional de Assistência Social) afirma que a Proteção Social de Assistência Social deve garantir três seguranças: 1. de sobrevivência (de rendimento e de autonomia) – “[...] garantia de que todo tenha uma forma monetária de garantir sua sobrevivência, independentemente de suas limitações para o trabalho ou do desemprego”. (BRASIL, 2005, p.31). 2. de acolhida – vista como a mais primordial das seguranças de Assistência Social. Ela opera com a provisão de necessidades humanas que começa com os direitos à alimentação, ao vestuário e ao abrigo, próprios à vida humana em sociedade. A conquista da autonomia na provisão dessas necessidades básicas é a orientação desta segurança da assistência social. (BRASIL, 2005, p.31); 3. de convívio ou vivência familiar – vista como uma das necessidades a ser preenchida pela Política Pública de Assistência Social. [...] supõe a não aceitação de situações de reclusão, de situações de perda das relações. [...]. É na relação que o ser cria sua identidade e reconhece a sua subjetividade. A dimensão societária da vida desenvolve potencialidades, subjetividades coletivas, construções culturais, políticas e, sobretudo, os processos Página | 241 civilizatórios. [...] A dimensão multicultural, intergeracional, interterritoriais, intersubjetivas, entre outras, devem ser ressaltadas na perspectiva do direito ao convívio. (BRASIL, 2005, p.32). Essas três seguranças, de acordo com a PNAS (2005), marcam a especificidade da Política Pública de Assistência Social no campo das políticas sociais. A Norma Operacional Básica do Suas, 2005 (Nob/Suas – Resolução n.º 130, de 15 de julho de 2005 do Conselho Nacional de Assistência Social) avança ao afirmar que a Assistência Social possui uma direção universal e ocupa-se da proteção da vida, da redução de danos, do monitoramento das populações em risco, da prevenção de agravos. Ocupa-se ainda das vitimizações, fragilidades e contingências que as pessoas enfrentam por ciclo de vida, imposições sociais, econômicas e políticas. E deve produzir aquisições materiais, sociais e socioeducativas que supram as necessidades de reprodução social, desenvolva as capacidades para a convivência, o protagonismo e a autonomia. A Nob/Suas (2005) afirma ainda que a Proteção Social de Assistência Social, ao ter por direção o desenvolvimento humano e social e os direitos de cidadania, tem por garantias: a segurança de acolhida; a segurança social de renda; Página | 242 a segurança do convívio ou vivência familiar, comunitária e social; a segurança do desenvolvimento da autonomia individual, familiar e social; a segurança de sobrevivência a riscos circunstanciais. (BRASIL, 2005, p.90) Observa-se que a PNAS (2005) elencou três seguranças a serem afiançadas pela Política Pública de Assistência Social e que a Nob/Suas (2005) elencou cinco seguranças. Na Nob/Suas (2005), a segurança de acolhida contempla desde um ambiente acolhedor para o usuário (de suas demandas, necessidades, potencialidades e capacidades), com um profissional provido de uma escuta qualificada à oferta de serviços para permanência de indivíduos e famílias por períodos variados. Dessa forma, perpassa pela proteção social básica e especial, pela oferta de serviços e benefícios. A segurança social de renda relaciona-se à oferta do BPC – Benefício de Prestação Continuada e aos programas de transferência de renda. Assim sendo, relaciona-se aos benefícios e, portanto, à proteção social básica. A segurança de convívio relaciona-se a ofertas de serviços de natureza básica e especial que promovam “construção, restauração e fortalecimento de laços de pertencimento”, bem como “exercício capacitador e qualificador de vínculos sociais e de projetos pessoais e sociais de vida em sociedade”. (BRASIL, 2005, p. 91) Página | 243 A segurança de desenvolvimento de autonomia exige ações relacionadas ao desenvolvimento de capacidades e habilidades, bem como para a conquista de melhores graus de liberdade e conquista de maior grau de independência pessoal. A segurança de sobrevivência a riscos circunstanciais relaciona-se aos benefícios eventuais e a um serviço da proteção social especial da alta complexidade e visa atender famílias e indivíduos que estão vivendo em situação de vulnerabilidade temporária ou calamidade pública. Pelo exposto, espera-se ter demonstrado que, atualmente, a Política Pública de Assistência Social possui um objeto próprio, diverso de outras políticas sociais, mas atuando intersetorialmente em várias ocasiões. Assim sendo, considera-se superado o lócus histórico que colocava a Assistência Social como executora das falhas de outras políticas sociais, especialmente para a população mais pauperizada. Ressalta-se, contudo, que esta política tão jovem, apesar de possuir um objeto próprio e bem delimitado, encontra-se em plena construção enfrentando hoje um grande desafio: o da profissionalização e qualificação de sua oferta. Palavras chave: Assistência social. Objetivos. Seguranças afiançadas. Referências BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. BRASIL. Lei 8.742, de 7 de dezembro de 1993. Dispõe sobre a organização da Assistência Social e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 08 dez. 1993. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Política Nacional de Assistência Social (PNAS). Norma Operacional Básica (Nob/Suas). Brasília: MDS, 2005. Página | 244 3 - O TRABALHO EM REDE E A INTERSETORIALIDADE NA PRÁXIS SÓCIOEDUCATIVA DE INTERNAÇÃO PROVISÓRIA: CONTRIBUIÇÕES DO SERVIÇO SOCIAL Márcia Maria Silva Brandão55 RESUMO EXPANDIDO 1 INTRODUÇÃO A exposição que se segue tem como finalidade apresentar alguns aspectos abordados na apresentação da monografia para obtenção do título de especialista em Sistema de Proteção Social no Brasil: Seguridade Social e Trabalho (2010). Nela foi realizada “uma análise sobre o trabalho em rede e a intersetorialidade na práxis socioeducativa de Internação Provisória: contribuições do Serviço Social”, na mediação do processo de garantia de acesso aos direitos e (re) inserção social dos adolescentes que cumprem essa medida na dimensão do Sistema de Proteção Social na perspectiva da Política de Assistência Social. 55 Bacharel em Serviço Social pela PUC-MG/Contagem, pós-graduada (Lato Sensu) em "Sistema de Proteção Social no Brasil: Seguridade Social e Trabalho" pelo Instituto de Educação Continuada – IEC/PUC-MG. Assistente Social da Secretaria de Estado de Defesa Social- SEDS/Subsecretaria de Atendimento a Medida Socioeducativa-SUASE. Página | 245 2 SISTEMA DE PROTEÇÃO SOCIAL E A POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL De acordo com Pereira (2008), o Welfare State, Estado de Proteção Social, é um fenômeno histórico que se consolidou no período pós Segunda Guerra Mundial de caráter normativo e intervencionista. Ele permitiu a legitimação da política social e a possibilidade de materialização dos direitos sociais de cidadania. Dentre os sistemas de proteção social destacam-se o modelo Bismarkiano de caráter seletivo e corporativista e o Beveridiano que visava ser um sistema universal, assistencial e de responsabilidade do Estado. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 possibilitou a institucionalização do conceito de Seguridade Social, com o objetivo de universalizar a cobertura dos programas e serviços sociais e implementar um novo significado para a Seguridade Social. Boschetti (2002) assinala que no Brasil esse modelo se estruturou a partir de três pilares: a Previdência Social, a Saúde e Assistência Social. Essa última como política de proteção social colocou o adolescente em conflito com a lei na posição de cidadão de direitos, ele deve ser atendido nos serviços de proteção social especial de média e alta complexidade, garantindo-lhe proteção integral. Os serviços socioassistenciais estão organizados por função: Proteção Social Básica e Proteção Social Especial (de média ou alta complexidade); e por sua abrangência territorial, local, regional ou municipal. A Proteção Social Básica realiza acompanhamento preventivo a famílias em situação de vulnerabilidade e risco social. A Proteção Social Especial é o atendimento assistencial destinado a famílias e indivíduos que se encontram em situação de risco pessoal e social. Página | 246 A Proteção Social Especial de Média complexidade constitui-se de serviços destinados ao atendimento as famílias ou indivíduos que tiveram os seus direitos violados, porém não tiveram os vínculos familiares e comunitários rompidos e necessitam de atendimento especializado, sistematizado e monitorado. A Proteção Social Especial de Alta Complexidade é definida como aquela que possui serviços de proteção integral para famílias e indivíduos que se encontram sem referência ou em situação de ameaça. Nessa incluem-se as medidas restritivas e privativas de liberdade executadas pela esfera estadual. 3 A CONSTRUÇÃO DOS PARÂMETROS LEGAIS NA EFETIVAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS E O SERVIÇO SOCIAL: TRABALHO EM REDE E A INTERSETORIALIDADE Segundo Peralva (1998), ao longo dos séculos, a humanidade se preocupava com a construção de uma ordem social capaz de garantir uma convivência coletiva e pacífica aos homens. Durante muito tempo, a solução encontrada foi à criação de instituições, que definissem modelos racionais de condutas, nos quais o indivíduo era obrigado a identificar-se com tal padrão, não considerava-se a sua subjetividade. O Estatuto da Criança e do Adolescente-ECA foi à primeira lei brasileira que propôs “eliminar” a perversidade do sistema repressivo contido na legislação anterior, através de uma sugestão de trabalho sócio-educativo emancipador, baseada na perspectiva de cidadania. Dispôs que o adolescente em conflito com a lei terá as garantias necessárias na aplicação de medidas socioeducativas, as quais têm como finalidade gerar um processo de responsabilização e Página | 247 promoção. No artigo 121 do ECA trata da medida de Internação articulada aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Essa poderá ser aplicada, de acordo com o artigo 122, incisos I a III do ECA. As medidas de Internação possuem modalidades distintas: a primeira refere-se à Internação Provisória, a qual se restringe a liberdade do adolescente por um período máximo de quarenta e cinco dias, aguardando a sentença judicial. A segunda é denominada de Medida Socioeducativa Sentenciada de Internação por prazo indeterminado e máximo de três anos. O ECA traz a proposta de trabalhar a política para a criança e o adolescente articulada em rede, como está disposto em seu Art. 86: “A política de atendimento dos direitos da criança e do adolescente far-se-á através de um conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios”. O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo - SINASE (2006) esclarece que a incompletude institucional revela a lógica presente no ECA, quanto à concepção de um conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais para a organização das políticas de atenção à infância e à juventude. Conforme Ckagnazafoff, Melo e Carvalho (2005), o tratamento direcionado aos desdobramentos da questão social relacionada aos adolescentes em conflito com a lei tem sido criticado devido às questões como os poucos métodos utilizados, à especialização dos profissionais e a ínfima articulação dos setores. Assim, propaga-se o pensamento da intersetorialidade, o qual pode ser uma solução para as ações na gestão das políticas. Outro aspecto relevante para o trabalho com adolescentes em cumprimento de Internação Provisória é a transdiciplinariedade profissional, no intuito de analisar a demanda posta a partir da pluralidade dos vários saberes, que devem ser colocados de forma interdependente e Página | 248 interligados horizontalmente, num processo de construção teórico-prática, que venha a facilitar a abordagem e reconstituição dos vínculos sócio-afetivos dos familiares junto ao público atendido pela medida socioeducativa. Para realizar o trabalho em rede na Internação Provisória faz-se necessário compreender que “rede” indica a concepção de “articulação”, atuação integrante, “relações horizontais” entre os profissionais, “interdependência” dos equipamentos, no intuito de viabilizar a integração da assistência. Pensar o trabalho em rede a partir da Internação Provisória é percebê-lo “na sua inserção econômica, política, cultural, social, num processo complexo de mediações, é um desafio que o trabalho em redes se propõe a enfrentar”. (FALEIROS, 1999, p.178). Baptista (2000) aponta que Atualmente tem-se discutido, tanto em nível governamental quanto não governamental, as questões relacionadas ao adolescente em conflito com a lei. Pontua-se que as demandas desse público não são satisfeitas devido à precariedade dos serviços. As políticas básicas, destinadas à criança e ao adolescente, em nível municipal, mesmo na modalidade de descentralização e da municipalização, são desarticuladas e muitas vezes não respondem os objetivos pelos quais foram criadas. O grupo de adolescente em conflito com a lei é aquele que em sua grande maioria possui mínima cobertura socioassistencial, além da maior parte das ações para este público serem centralizadas em regiões metropolitanas. Ressalta-se que a articulação da sociedade civil, Conselhos de Direitos, Conselhos Tutelares e de organizações não governamentais tem-se constituído em fator decisivo para as políticas destinadas a tal segmento, no que se refere aos projetos e programas. Página | 249 Neves (2009) pontua que o trabalho do assistente social centra-se numa contraditória dinâmica institucional e intricada rede de operacionalização de serviços, frente a correlações de forças presentes em cada conjuntura, da qual os sujeitos sociais fazem parte e, dispõe dos seus projetos societários. O profissional do serviço social deverá conhecer a rede de serviços existentes no local onde a instituição está inserida e ter um olhar amplo quanto à demanda do usuário no sentido de orientá-lo e encaminhá-lo. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Observou-se que o trabalho em rede é uma nova modalidade de intervenção preconizada no ECA como uma das formas de garantir aos adolescentes em cumprimento da medida de Internação Provisória o acesso as informações, aos serviços, programas e projetos e, que são ínfimas as iniciativas que realmente incorporam e trabalham nessa perspectiva. Percebeu-se que o profissional do Serviço Social em função das especificidades de sua formação, a qual é fortalecida pelo conhecimento das políticas públicas setoriais, pode criar estratégias que viabilizem e favoreçam o trabalho em rede, sendo primordial obter informações sobre os serviços e equipamentos ofertados. Apesar das possibilidades que o profissional do Serviço Social encontra para atuar nessa direção, vale ressaltar que sua atuação não deve acontecer de forma isolada e que as noções de intersetorialidade, interdisciplinaridade ou transdisciplinaridade, apresentadas no corpo teórico do estudo, apontam para a relevância da troca de experiências e saberes. Página | 250 No período de pesquisa bibliográfica, outro fator constatado foi à insignificante literatura sobre os assuntos rede, interdisciplinariedade, intersetorialidade relacionada à política de assistência social, transdiciplinariedade e Internação Provisória. Constata-se que os desafios para atuação profissional na área são grandes e estão relacionados a fatores sociais, econômicos, políticos e culturais. Entretanto, há de se pensar na elaboração de políticas e equipamentos que venham a contribuir com a construção da rede e a promoção da intersetorialidade a fim de se efetivar o que está regulamentado. A existência de dificuldades relacionadas a interação interpessoal, a valorização de um saber em detrimento do outro se constitui empecilho para articular e integrar os diversos saberes e setores para operacionalizar a rede. No processo de construção das redes sociais faz-se necessário desenvolver o fortalecimento dos laços sociais dos adolescentes e possibilitar que sejam membros da sociedade. Percebe-se que não é um trabalho fácil, porém é possível. Em vista dos argumentos apresentados, não se tem a pretensão de esgotar a temática, mas sim promover uma reflexão crítica sobre o assunto. Palavras-Chave: Sistema de Proteção Social. Trabalho em Rede. Intersetorialidade. Internação Provisória. Serviço Social. Referências BAPTISTA, M. V. A intervenção em rede: o que é e o que precisa ser? Elementos para pensar propostas alternativas de prática junto ao adolescente com processo por prática infracional. Página | 251 Margem Revista de Trabajo Social, Buenos Aires, volume, número, 2000. <http://www.margen.org/suscri/margen12/myrian.html> Acesso em 04 de Dez.2009. BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Medidas socioeducativas em meio aberto: a experiência de Belo Horizonte. Belo Horizonte: editora, 2010. v.1. BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas, A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Tradução Floriano de S. Fernandes. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 173236. BOSCHETTI, Ivanete. Seguridade Social: a armadilha dos conceitos. Texto preparado originalmente como item do projeto de pesquisa intitulado “A Seguridade Social Dilapidada: Elementos Determinantes de sua Fragmentação no Brasil”, apresentado ao CNPq em julho de 2002. BOURGUIGNON, Jussara Ayres. Concepção de rede intersetorial. Disponível em: <http//www.uepg.br/nupes/intersetor.htm> Acesso em: 20 dez.2009. BRANDÃO, Márcia M. S. O trabalho em rede e a intersetorialidade na práxis da medida sócioeducativa de internação: contribuições do serviço social. 2010. 66 fls. Monografia (Especialização) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Instituto de Educação Continuada, Belo Horizonte. BRASIL. Constituição (1988) Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. BRASIL. Estatuto da criança e do adolescente. 3ª ed. Brasília: Senado, 1990. 160 p. Página | 252 BRASIL. Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993. Dispõe sobre a organização da Assistência Social e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, dia mês 1993. BRASIL. Norma operacional básica do SUAS. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2005. BRASIL. Política nacional de assistência social. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2004. BRASIL. Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo - SINASE. Brasília: Senado, 2006.122p. CABRAL, Edson A. (Org.); Sistema de garantia de direitos: um caminho para a proteção integral. Recife: CENDHEC, 1999. v.8. CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão cientifica dos sistemas vivos. 3 ed. São Paulo: Cultrix, 1996. 238 p. CARVALHO, Alysson. Politicas públicas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. CASTRO, Mary G.; ABRAMOVAY, Miriam. Por um novo paradigma do fazer políticas: políticas de/para/com juventudes. Brasília: UNESCO, 2003. 53 p. CKAGNAZAROFF, Ivan Beek; MELO, Joyce de Souza Cunha; CARVALHO, Débora Nacif de. Da gestão da intersetorialidade: o caso do Programa BH Cidadania, Brasil. Disponível em: <http://www.iij.derecho.ucr.ac.cr/archivos/documentacion/inv%20otras%20entidades/ CLAD/CLAD%20X/documentos/ckagnaza.pdf> Acesso em 06 de jun.2010. Página | 253 CONSELHO ESTADUAL DE ASSISTENCIAL SOCIAL DE MINAS GERAIS. Relatório de atividades 2005. Belo Horizonte: O Lutador, data. p. 33-43. COSTA, Antônio Carlos Gomes. De menor a cidadão. In: MENDES, Emílio Garcia Mendes; COSTA, Antônio Carlos Gomes da. Das necessidades aos direitos. São Paulo: Malheiros, 1994. p.119-145. DESLANDES, Maria Ferreira et al. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 2. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1993. 80 p. FALEIROS, Vicente de Paula. Desafios do serviço social na era da globalização. Revista Serviço Social e Sociedade, Ano 20, n. 61, p.152-183, nov. 1999. FARIA, Arlinda Márcia G. Uma análise da inserção social das adolescentes em cumprimento de acautelamento provisório e de medida sócioeducativa de internação: o caso do Centro de Reeducação Social São Jerônimo (CRSSJ). 2007.97fls. Monografia (Especialização) – Fundação João Pinheiro, Escola de Governo/Políticas Públicas Sociais e Direito, Belo Horizonte. FROTA, Maria Guiomar da Cunha. A cidadania da infância e da adolescência: da situação irregular à proteção integral. In: CARVALHO, Alysson et al. Políticas públicas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. GARCIA, Célio. Tô fora: o adolescente fora da lei, o retorno da segregação, escritos em psicanálise e direito. In: BARROS, Fernanda Otoni de. (Coord.). Redes de redes. Belo Horizonte: Del Rey. 2003. p. 1-10. Página | 254 HERZER, prenome. A queda para o alto. 11 ed. Rio de Janeiro. Vozes. 1985. 200 p. INOJOSA, Rose Marie. Sinergia em políticas e serviços públicos: desenvolvimento social com intersetorialidade. São Paulo: Fundap, 2001. p. 102-110. (Cadernos Fundap, n. 22). MARCÍLIO, Maria Luiza. História social da criança abandonada. São Paulo: Hucitec, 1998. p.134-223. MINAS GERAIS. Conselho Municipal de Defesa da Criança e do Adolescente. Resolução 63, de 07 de junho de 2007. Dispõe sobre as deliberações da V Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Belo Horizonte. MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 7. ed. São Paulo: Hucitec, 2000. Cap. 1, p.19-37. NEVES, Marília Nogueira. O serviço social e o atendimento em rede. Coletânea de textos do 2° Simpósio Mineiro de assistentes sociais: Nas trilhas dos direitos humanos para combater as desigualdades. Org. CRESS-MG 6" região. 2009. p.43-62. NEVES, Marília Nogueira. Rede de atendimiento social: uma ação possível? Disponível em <Revista Da Católica, Uberlândia, V. 1, N. 1, p. 147-165, 2009 – www.Catolicaonline.Com.Br/Revistadacatolica> Acesso em 04 de jan. 2010. PEREIRA, Potyara Amazoneida. A assistência social na perspectiva dos direitos: crítica aos padrões dominantes de proteção aos pobres no Brasil. A Lei Orgânica da Assistência Social-LOAS: Sentido e Novidade. Brasília: Thesaurus, 1996. p. 99-111. Página | 255 PEREIRA, Potyara Amazoneida. Política social: temas e questões. São Paulo: editora, 2008. RIZZINI, Irene (Org.). O elogio do cientifico: a construção do “menor” na prática jurídica. A Criança no Brasil Hoje – Desafio para o Terceiro Milênio. Rio de Janeiro: Editora Universitária Santa Úrsula. 1993. p.81-99. SILVA, Roberto da. Os filhos do governo: a formação da identidade criminosa em crianças órfãs e abandonadas. 2. ed. São Paulo: Ática, 1998. SLUZKI, Carlos E. A rede social na prática sistêmica. Tradução Cláudia Berlener. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997. 147 p. TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Evitar o desperdício de vidas In. Justiça Adolescente e Ato Infracional: socioeducação e responsabilização. ILANUD; ABMP; SEDH; UNFPA (orgs.). São Paulo: ILANUD, 2006. p. 427-447. UDE, Walter. Redes sociais: possibilidades metodológicas para uma prática inclusiva. In: CARVALHO, Alysson. Políticas públicas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. VAITSMAN, Jeni; ANDRADE, Gabriela; FARIAS, Luis Otávio. Proteção social no Brasil: o que mudou na assistência social após a Constituição de 1988. Ciência e Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 14, n.3, páginas, 2009. VOLPI, Mário. Sem liberdade, sem direitos: a experiência de privação de liberdade na percepção dos adolescentes em conflito com a lei. São Paulo: Cortez, 2001. Página | 256 WHITAKER, F. Rede: uma estrutura alternativa de organização. Disponível em: <http//www. inforum.insite.com.br/arquivos/259/estrutura_alternativa _ organização.PDF>. Acesso em: 14 lul. 2009. Mesa 2 – Serviços sociais, assistência social e políticas públicas Data – 26/09/2012 Horário – 19:00 / 21:30 Sala 318 ESS Coordenadora: profa. Andréa Inês Dutra Braz – Serviço Social/PUC Minas. Debatedora: profa. Maria Christina Cesarino Soares – Serviço Social/PUC Minas. Painelistas: Página | 257 1 - A COMPLEXIDADE DA PROVISÃO DE SERVIÇOS SOCIAIS Fernando Antônio França Sette Pinheiro Júnior Palavras - chave: política social, serviços sociais e tríade mercado, famílias e Estado. A provisão de serviços sociais na maioria dos países é uma mistura de provisão social pública e privada. O Estado e o mercado interagem continuamente ao longo da história e definem as formas de provisão social presentes nos países. Com a análise do mix público-privado tem-se o escopo das necessidades humanas que são dadas como direito social (iniciativa pública) e quais são relegadas ao mercado (iniciativa privada). (Esping-Andersen, 1991) Para as provisões sociais serem consideradas públicas elas devem ser diretamente legisladas e administradas pelo Estado ou deve existir um mandato governamental para que setor privado forneça o serviço. A relação causal proposta por Esping-Andersen (1991) é que o mix público privado reflita a estrutura de provisão do bem-estar de um país. A partir do momento em que o Estado coloca sobre sua responsabilidade a execução de determinados serviços sociais, e que esses passam a ser considerados políticas públicas com cunho social, ou seja, são políticas sociais. Marshall (1967) aceitava como certo e adequado um raio amplo de desigualdade quantitativa ou econômica, mas condenava a diferenciação qualitativa entre o homem que era por ocupação, ao menos, um “cavalheiro” e o indivíduo que não o fosse. Há, portanto, uma espécie de igualdade Página | 258 humana básica, associada ao conceito de cidadania, a qual não é inconsistente com as desigualdades econômicas. No entanto, ele se referia apenas ‘as obrigações e não aos direitos de cidadania, do contrário o Estado assumiria a responsabilidade de conceder esses direitos, o que levaria a atos de interferência. O conceito de cidadania é dividido em três partes: civil, política e social. O elemento civil é composto dos direitos necessários à liberdade individual(ir e vir, imprensa, pensamento e fé; propriedade, celebrar contratos válidos, justiça); o político se refere ao direito de participar no exercício do poder político, como um membro de um organismo investido da autoridade política ou como um eleitor dos membros desse organismo; e o social é tudo o que vai desde o direito a um mínimo de bem-estar econômico e segurança ao direito de levar a vida de um ser civilizado de acordo com os padrões que prevalecem na sociedade. Assim, a cidadania se constitui através de uma sequência cronológica e lógica. Cronológica, porque primeiro se desenvolvem os direitos civis- aqueles fundamentais à vida, à liberdade, à propriedade e à igualdade perante a lei- depois os políticos- direito de participar do governo da sociedade, significando a capacidade de fazer demonstrações políticas, de organizar partidos, de votar e ser votado- para então se chegar aos direitos sociais- aqueles que permitem a participação igualitária de todos os membros da comunidade, nos padrões básicos de vida, garantem, portanto, a participação na riqueza coletiva. (MARSHALL, 1967) Para Marshall (1967), a igualdade aplicada à cidadania é composta, primeiramente, pela consagração dos direitos civis (liberdade de ir e vir, direito à propriedade, direito à justiça), que atribuíam aos indivíduos o direito de defender e afirmar todos os seus direitos em termos de igualdade com os outros, instituindo-os como iguais perante a Lei, mas não necessariamente perante os aspectos econômicos. Página | 259 Assim, o autor coloca que os direitos civis eram, em sua origem, acentuadamente individuais, e esta é a razão pela qual se harmonizaram com o período individualista do capitalismo. Esses direitos se tornaram para os trabalhadores um instrumento para elevar seu status econômico e social, ou seja, para reivindicar sua habilitação a certos direitos sociais. Mas o método para assegurar tais direitos é o exercício do poder político, pois os direitos sociais pressupõem um direito absoluto a um determinado padrão de civilização que depende do cumprimento das obrigações gerais da cidadania. Nesse sentido, foram os direitos políticos que permitiram que, através da representatividade de novas classes, antes preteridas do exercício do poder político, que possibilita a entrada de demandas sociais na agenda política e modificar a estrutura de participação na riqueza (compreendida como padrões mínimos de vida, não apenas em aspectos econômicos). Posteriormente, os direitos sociais foram incorporados ao status de cidadania sob a visão de que os serviços sociais não eram um meio de equalizar economicamente a sociedade, mas um mecanismo de instauração da igualdade de oportunidades: o Estado garantiria o mínimo de bens e serviços essenciais visando igualar o status de cidadão de a todos. Sen (2000, p.57) argumenta que “a contribuição do crescimento econômico tem de ser julgada não apenas pelo aumento de rendas privadas, mas também pela expansão de serviços sociais (incluindo, em muitos casos, redes de segurança social) que o crescimento econômico pode possibilitar”. Assim, essa visão de desenvolvimento proposta por Sen pode ser resumida como um processo contínuo de expansão das liberdades substantivas e individuais das pessoas que compõem uma sociedade. Dessa maneira, quando se expande o emprego e a arrecadação do setor público, deve-se permitir ao governo fazer políticas públicas, e principalmente as sociais para as pessoas mais carentes. É preciso enxergar que o desenvolvimento é um processo de expansão das liberdades reais das pessoas. Página | 260 Segundo Faria (1998), o regime adotado em um país quanto à provisão de serviços e criação de políticas sociais possui forte relação com os papéis atribuídos à tríade - Estado, mercado e sociedade civil organizada, que no presente contexto é exemplificada pela família. A configuração das inter-relações entre essas três instituições são capazes de promover diferentes arranjos de bem-estar social. A provisão das demandas por serviços sociais recai sobre os elementos da tríade. Assim, Estado, mercado e família formam pilares de sustentação para a garantia dos serviços sociais e do bemestar dos indivíduos. Essas instituições, conforme se estruturam, impactam profundamente uma às outras e são mutuamente impactadas. Por exemplo, a estrutura familiar – o número de filhos, a posição da mulher como dona de casa e no mercado de trabalho, o cuidado com os idosos e com as crianças – influencia as políticas sociais do Estado que são direcionadas para determinada estrutura familiar. Ao mesmo tempo, as perspectivas de futuro dos membros dessa família influenciam a estrutura familiar de acordo com as políticas do Estado. O mercado também influencia e é influenciado à medida que oferece esses serviços sociais suprindo uma demanda não abarcada pelo Estado e pelas famílias, ou ainda, oferecendo serviços complementares ou de maior qualidade. (FARIA, 1998). Conforme o papel de cada uma dessas instituições - Estado, mercado e famílias - na provisão desses serviços denota-se uma configuração diferente das formas como os serviços sociais são alocados em determinada sociedade. No entanto, é importante que os arranjos institucionais formem um arcabouço suficiente para a garantia efetiva dos direitos sociais. A intervenção estatal é dimensionada também a partir do tamanho do papel do Estado como garantidor desses serviços. Porém, esses papéis são dinâmicos e se modificam com o tempo, modificando também Página | 261 o ônus da garantia de determinado serviço e fazendo surgir novas demandas sociais dos indivíduos. (FARIA, 1998). Com o advento da moderna cidadania social que estabelece uma infraestrutura complexa e interdependente de serviços, de saúde, educação, previdência social, e que por isso requer uma gestão pública competente que saiba administrar uma complexa coordenação de recursos, que muito provavelmente as associações voluntárias ou os mecanismos de mercado não podem garantir. Nesse sentido, somente uma instituição nacional e representativa pode agir em defesa do interesse geral — o Estado democrático. O Estado deve, portanto, ser o principal responsável pela implementação de padrões da cidadania social. Porém o Estado tem encontrado dificuldade em manter uma política social universal e de qualidade, principalmente devido ao fato de esse vir atendendo as demandas de atendimento básico. Atualmente, com a maior consciência dos seus direitos, a sociedade reivindicam demandas mais complexas, ocasionando um aumento do custo da política social. Concomitante às maiores reivindicações e aumento dos custos, o setor público parece ter chegado ao seu limite de tributação e de aumento da sua rede de serviços. Assim, o Estado deve garantir o mínimo de certos bens e serviços essenciais (tais como assistência médica, moradia, educação ou salário mínimo), e qualquer pessoa capaz de ultrapassar esse mínimo garantido por suas qualidades próprias está livre para fazê-lo, ou seja, o Estado deve garantir igualdade de oportunidades. O grau de igualdade alcançado depende de quatro fatores: se o benefício é oferecido a todos ou a uma classe limitada, se assume a forma de pagamento em dinheiro ou de prestação de serviços, se o mínimo é alto ou baixo, e como se obtém os recursos para pagar o benefício. O objetivo consiste em assegurar que todos os cidadãos devem atingir, pelo menos, o mínimo prescrito, ou por seus próprios recursos ou com a assistência, se não Página | 262 puderem fazê-lo por meios próprios, de modo que as desigualdades no nível inferior da escala sejam reduzidas a zero. (FARIA, 1998). REFERÊNCIAS DRAIBE, Sônia e WILNES, H.(1988) “Welfare State”, crise e gestão da crise: um balanço da literatura In.:Revista Brasileira de Ciências Sociais v.3, n.6 p. 53-78, ANPOCS. ESPING-ANDERSEN, Gøsta. As Três Economias Políticas do Welfare State. In.; Revista Lua Nova, No.24, 1991, pp.85-116. ESPING-ANDERSEN, G (1995) O futuro do Welfare State na nova ordem mundial .; Revista Lua Nova No 35, pp 73-111. FARIA. Vilmar. A conjuntura Social Brasileira: Dilemas e Perspectivas. In.: Novos Estudos,. 1992, 33, 103-114. FARIA, Carlos. A. (1998) Uma genealogia das teorias e modelos do Estado de Bem Estar Social. In.: Boletim Bibliográfico de Ciências Sociais No 46 pp. 39- 71 Página | 263 MARSHALL,Tomas. Humprey (1967) Cidadania, Classe Social e Status, Rio de Janeiro ZAHAR. MEIER, Gerald M. The old generation of development economists and the new. In.: Frontiers of development economics: the future in perspective. New York: Oxford University Press, 2000. P 227-258. SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade, São Paulo: Cia. das Letras, 2000 2 - FRONTEIRAS DA EDUCAÇÃO: A INSERÇAO DO ASSISTENTE SOCIAL NAS ESCOLAS A urbanização da sociedade moderna trouxe consigo a necessidade de políticas públicas que pudessem atender às populações adensadas em torno dos grandes centros. Entre elas, merece destaque um equipamento público que desperta interesse e razoável consenso em torno da sua relevância, qualquer que seja o projeto societário que se proponha defender: a escola. Aproveitando de um razoável consenso em torno da relevância da universalização da educação é que o serviço social pode se considerar demandado como um ator importante e socialmente reconhecido para contribuir na qualificação desta política pública. Usar esta inserção social dele requerida de forma a ampliar as fronteiras da educação para além da pura promoção do acesso a uma escola formadora de mão-de-obra, intervindo de forma comprometida com uma Página | 264 ética transformadora e emancipatória na educação, faz parte de um debate cada vez mais presente nos espaços de articulação profissional. Compreender como se dá a reprodução de uma cultura não emancipadora no contexto escolar é imprescindível para consolidar a educação como ferramenta de empoderamento dos sujeitos sociais. É esta a grande justificativa que oferecemos para a presença do profissional de serviço social no âmbito escolar, com sua visão diferenciada da realidade social e suas contradições. O presente texto resulta de pesquisa realizada no curso de graduação em serviço social da PUC Minas e orientou-se pela verificação das seguintes hipóteses: a) os maiores obstáculos que dificultam a inserção do assistente social na política de educação advêm da ausência de recursos disponíveis para implementação das ações hoje já assumidas por essa política e não apenas de um conflito entre essa profissão e a do professor; b) o assistente social não seria reconhecido pelo professor como capaz de lidar com as questões que surgem nos espaços escolares, em especial a violência juvenil; c) os profissionais da política de educação receberiam excessivas interferências de outras profissões, políticas ou atores sociais que se julgam aptos a apontar com maior competência as soluções para os problemas enfrentados por essa política. Tais interferências estariam desconectadas da realidade do cotidiano escolar. Página | 265 Metodologia Num primeiro momento foi executada uma sistematização das experiências profissionais disponíveis e já empregadas pelos assistentes sociais que trabalham na educação. A partir destes textos, foi preparado um roteiro de entrevista semiestruturada proposta por Minayo (1998, p. 108) e levada a campo para verificação empírica das hipóteses, notadamente a pertinência das ações sugeridas. Foi escolhida uma amostra de nove professores, distribuídos em seis unidades de educação pública de ensino infantil, fundamental e médio da região metropolitana de Belo Horizonte. Sendo a pesquisa fundamentalmente de cunho qualitativo, nossa amostra não pretendeu ser uma medida representativa e generalizante, mas orientou-se pela busca de tendências e indicações coletadas a partir de alguns discursos dos atores que atuam cotidianamente na política de educação. Referencial teórico Tomamos de Foucault (2009) a noção de instrumentalização da educação como ferramenta de formatação de sujeitos dóceis e obedientes já nos primeiros anos de vida. O autor é um conhecido interessado em entender os objetivos e processos que têm por norte a consolidação da disciplina sobre o homem. Página | 266 Bourdieu (1998) também se ocupou da análise da função social atribuída à escola como formadora da moral e conduta humanas. Para isso, reconhece na filosofia pedagógica da escola a reprodução do capital cultural cuja origem está em uma elite que tem incorporada a disciplina como valor. Além disso, mais do que considerar este valor um instrumento de dominação a ser imposto às classes populares, ele é a própria fonte do sucesso social que as classes mais bem sucedidas se atribuem - e que, talvez por isso, as leva a pretender disseminar –, ressaltando que os professores são recrutados, majoritariamente, destas elites. Outra influência significativa no ideário de setores da licenciatura, diametralmente oposta às oferecidas acima, é a do pensamento social moderno de Emile Durkheim, do qual extraímos o conceito subjacente à citação de uma de suas obras menos conhecidas. “Segundo as nossas aptidões, temos diferentes funções a cumprir, e há que nos harmonizarmos com aquela de que estejamos incumbidos. Nem todos somos talhados para meditar” (DURKHEIM, 1984, p. 8), afirma o sociólogo francês. Análise dos dados A hipótese 1 pareceu, à primeira vista, parcialmente refutada pelo resultado das respostas estimuladas, já que apenas um entrevistado indicou que “faltam recursos do orçamento da educação para arcar com o salário destes profissionais”, como explicação para a ausência de assistentes sociais na educação pública. Dadas as limitações da resposta fechada de escolha única, passamos a observar com cuidado as respostas espontâneas para tentar enxergar de forma mais clara os fatores explicativos do fenômeno conforme apareceram nas falas. Pudemos verificar que a vontade política dos representantes, amplamente citada como fator explicativo para a ausência Página | 267 do assistente social na educação, está intimamente ligada às questões orçamentárias de gasto público que são decididas nessa esfera – questões que aparecem sempre de forma secundária nas mesmas falas. Tal fato nos permitiu indicar uma confirmação da hipótese desde que a ela seja agregada o fator político como elemento explicativo, na ótica dos entrevistados. A verificação da hipótese 2 pediu uma análise das entrevistas em busca de possíveis indicações sobre a não correspondência do assistente às demandas consideradas importantes pelos professores no sistema de ensino. Em geral, essas indicações não apareceram nas falas. Agrupamos o posicionamento dos entrevistados, em relação às respectivas respostas espontâneas, da seguinte forma: 3 defendem a participação direta do assistente social na política de educação; 2 a defendem de forma indireta, por meio de uma articulação intersetorial com a política de assistência social; 1 defende a ausência destes profissionais na educação; e ainda 3 não demonstraram claramente sua posição a respeito Para tentar detectar alguma ordem de resistência da categoria de professores à presença de outras profissões, objeto da hipótese 3, formulamos a pergunta “Como os profissionais da educação vêem as tentativas de outras profissões, políticas e de atores sociais de oferecer contribuições ao funcionamento do sistema de ensino, quanto à freqüência e quanto à aplicabilidade”. A referida hipótese é refutada no que diz respeito ao excesso de intromissões externas. Apenas 1 entrevistado as considera realmente excessivas. Também a aplicabilidade indicada pelos entrevistados permite refutar a mesma hipótese, ainda que por estreita margem: 5 dos entrevistados as consideraram coerentes com as demandas da escola. Página | 268 Outras descobertas Além das verificações de hipóteses, importantes constatações colaterais merecem um destaque em nossa análise. Com relação aos maiores obstáculos identificados pelos professores para a política de educação, chama a atenção a pulverização de questões levantadas e seu baixo índice de recorrência. Surpreendeu especialmente não ter a violência e a indisciplina aparecido com a freqüência esperada, nem nas respostas espontâneas, nem nas estimuladas. Além disso, um dos entrevistados, ainda que como voz dissonante na amostra, ofereceu uma explicação interessante para o fenômeno da indisciplina no espaço escolar. Esta, de fato, interferiria negativamente no processo de ensino-aprendizagem, mas não por conta da indisciplina em si - algo que partiria exclusivamente do aluno, canalizada por meio de atos de desobediência – e sim por conta da percepção que o professor tem destes atos em uma dimensão personalista, ou seja, um desrespeito direcionado a ele e que acaba por levantar barreiras nesta relação, interrompendo o processo educativo como um todo. Embora não fizessem parte do objeto de pesquisa e não aparecessem nas perguntas, as questões relacionadas ao universo conflituoso das relações entre as famílias dos alunos e a escola apareceram de forma frequente nas falas, que não puderam ser ignoradas na análise dos resultados. A partir dos fragmentos recolhidos nas entrevistas, formulamos para futura investigação a hipótese de que, estando o professor preocupado com a ausência da instituição familiar no processo formativo da infância brasileira, ou fica o seu papel de educador sobrecarregado ou fica o seu papel de transmissor de conteúdo desviado para outras funções. Por Página | 269 conseqüência, o assistente social torna-se um forte candidato a apoiá-lo neste desafio, quer mediando a relação conflituosa dos alunos indisciplinados com a escola, quer intervindo junto às famílias para chamá-las a uma participação ativa no processo de educação. Outra questão que apareceu com freqüência nas falas é a noção do professor de que sua profissão, sozinha, não dá conta do grande desafio da construção de uma política de educação eficiente. Essa constatação insinua que a classe de professores demonstra estar razoavelmente aberta à participação de outras profissões, na perspectiva de receber algum tipo de ajuda profissional externa que permita aliviar suas angústias. Este é, concluímos, o maior espaço aberto para o profissional do serviço social para oferecer sua contribuição na consolidação de um sistema de ensino que não se preste exclusivamente a reproduzir e enquadrar comportamentos desviantes dentro de uma norma social regida pela ordem e pela funcionalização dos indivíduos. Referências BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 1998. DURKHEIM, Émile. Sociologia, educação e moral. Porto: RÉS, 1984. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 2009. MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento. São Paulo: Hucitec, 1998. Página | 270 3 - O SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE COMO EFETIVAÇAO DE DIREITOS. Alan Pereira da Silva¹ O contexto atual do cenário da política pública de saúde exige uma análise histórica das lutas sociais ocorridas entre 1980 e 1990, período de crescentes mobilizações populares na luta por democracia e justiça social. A classe trabalhadora conseguiu nesse período grandes avanços políticos rompendo com a ditadura, contudo continuou enraizado no subalternismo político latifundiário e do grande capital das indústrias. Assim, a discussão sobre o surgimento do SUS (Sistema Único de Saúde), perpassa pela analise dos atores envolvidos na elaboração e execução dessa política pública social que tem origem com a Lei Orgânica da Saúde (LOS - 8.080/90 e 8.142/90), e os fundamentos por ela regulamentados. Com o objetivo de compreender a política social de saúde e sua ação na busca de efetivação pelo direito a saúde, inscrito na Constituição Federal de 1988, ressaltamos a subjetividade dos atores envolvidos nessa política, assim como a importância da Constituição Federal de 1988 para construção de uma sociedade mais justa, que busca reafirmar os direitos sociais contidos na Constituição Federal. A conjuntura histórica dos processos descritos nos permite entender o SUS como uma política social que visa tocar nas desigualdades sociais impostas pelo sistema capitalista. Página | 271 Descrever a atual estrutura da política pública da saúde brasileira nos permite analisar o surgimento do SUS como uma estratégia de efetivação dos direitos sociais. A supremacia política do regime militar impôs de forma autoritária a centralização tributária como característica das relações intergovernamentais até 1985. Até a Constituição de 1988, os municípios alegavam que não implantavam políticas sociais porque não tinham recursos. Com a descentralização fiscal, indicada na Carta Magna de 1988, acreditava-se que passariam a criar políticas derivadas da descentralização fiscal. Isso foi superestimado a partir de estudos europeus, de países como a Inglaterra ou a França, que não têm as diferenças sociais que o Brasil apresenta. O SUS, no Brasil, é fruto de uma luta popular pela democracia e pelo direito à saúde. Uma luta que envolveu diversos setores da sociedade articulados na Reforma Sanitária Brasileira, movimento político que levou a aprovação das diretrizes do SUS; Universalização, integridade e equidade no acesso, descentralização, regionalização e ___________________________________________ 1- Graduando de Serviço Social pela Universidade Católica de Minas Gerais / PUC-MG participação comunitária. Dessa forma, entendemos o SUS como uma política social por se tratar de um processo que luta contra hegemonia que resiste aos golpes permanentes aplicados pelos que preferem o tratamento da doença como mercadoria, assim como a redução do papel do Estado na mediação de conflitos oriundos do sistema capitalista. Nasce da consciência política e organizada da classe trabalhadora, como enfrentamento as desigualdades sociais, adquirindo conceito de resposta do Página | 272 Estado, as demandas que nascem da sociedade e do seu interior, buscando efetivar o direito a saúde, numa linha de ação ao longo prazo. Ao longo dos seus 24 anos de existência e regulamentação, o SUS, apresenta vários avanços na saúde, como a criação básica e estratégia da saúde da família, eficiência na urgência e emergência, qualificação do sistema de gestão, políticas de enfrentamento das desigualdades e iniquidades em saúde destinadas a populações em risco de vulnerabilidade social, entre outras. Contudo, ainda se faz necessárias melhorias na política de saúde do Brasil, retomando o debate da saúde como questão estratégica para a democracia, reforçando a participação popular pelo direito à saúde em defesa do SUS. Garantir financiamento permanente para o sistema a partir de políticas redistribuitivas, melhorar a rede de cuidados e atenção à saúde por meio de políticas de humanização com planos de cargos e salários condizentes a função social dos trabalhadores envolvidos na política de saúde. Adotar mecanismos transparentes de controle e monitoramento de combate à corrupção e bom desempenho do sistema, qualificando a sociedade na democracia participativa voltada à consolidação do SUS e da saúde como direito. Temos por exemplo a conquista da aprovação da Emenda Constitucional 29/2000 (EC 29/00), ainda que não represente a forma ideal desejada pelo setor, cria horizontes mais favoráveis quanto aos montantes destinados à saúde e coloca desafios para o controle social quanto ao melhor e mais adequado destino dos recursos acrescidos. As principais restrições à EC 29/00 estão associadas ao fato de não vir acompanhada de uma regulamentação imediata que garanta um significativo aumento dos recursos na área da saúde, principalmente pelas indefinições sobre o que será admitido como gastos em ações e serviços de saúde. Além disso, é preciso garantir formas efetivas de que os recursos adicionais ajudem a constituir a garantia do acesso, da qualidade e da humanização, da atenção e do aumento da equidade. Também é preciso que seja Página | 273 formulado um Projeto de Lei que contemple a conformação de um novo patamar de financiamento para a saúde. Por outro lado, a aprovação da EC 29/00 abre uma etapa de luta nos municípios e estados, para que de fato se cumpra o comprometimento de recursos previstos na área da saúde. A contradição entre o modelo econômico brasileiro e a proposta de construção do SUS reflete-se na dificuldade de obter formas estáveis e montantes suficientes para o financiamento do sistema público de saúde, em constante atrito com a expansão de um sistema privado dirigido pela lógica excludente de mercado, coerente com o modelo de desenvolvimento hegemônico no Brasil. Ao defender o conceito ampliado de saúde, o assistente social salienta a importância da determinação social sustentada nas categorias de trabalho e reprodução social da vida. Nesta concepção, é fundamental o contexto e as condições sociais que impactam o processo saúdedoença. Assim temos embasamento para práxis profissional dos assistentes sociais no âmbito da saúde contido na Constituição Federal de 1988 e na Lei 8.080/1990, que ressalta as expressões da questão social, ao apontar que “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação” (CF, 1988, Art. 196) e indicar como fatores determinantes e condicionantes da saúde, “entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do País” (LEI 8080/1990, Art. 3º). Página | 274 Os usuários reconhecem a importância de um sistema descentralizado e universalizado de saúde como direito. Contudo, não estendem os direitos acerca do planejamento, gestão, organização e execução das políticas sociais e se queixam da execução de forma que valoriza a subjetividade e o atendimento individualizado e não o sistema como um todo complexo de uma política social. Entendemos assim, que a política social da saúde estará sempre em construção, partindo do conceito de que uma política social deve ser um meio e jamais um fim para tocar as desigualdades sociais, de forma processual, por meio de consciência coletiva, de caráter emancipatório. Devem combater a injustiça social e tocar de forma representativa na questão social. Dessa forma, não basta que exista apenas universalização dessa política, mas que tenha um serviço de qualidade, capaz de atender as demandas de uma sociedade marcada pelas desigualdades sociais. Para tanto é necessário que se crie uma consciência coletiva, de forma a reconhecer o problema de saúde pública como um problema de demanda social, para que a sociedade possa se organizar na formulação, gestão e execução de forma participativa, fazendo valer dos direitos de democracia na efetivação dos direitos sociais assegurados na Constituição Federal brasileira que se idealizou e consolidou a partir da organização das manifestações populares. Aliado a essas ações é que consideramos o lugar dos assistentes sociais nas políticas sociais, por meio dessas, temos o claro compromisso de defender a concepção de saúde pública, pois assim salientamos a importância da determinação social sustentada nas categorias de trabalho e reprodução social da vida. Nesta concepção, é fundamental o contexto e as condições sociais que impactam o processo saúde-doença. Página | 275 O desafio é a criação de uma nova cultura pautada na centralidade dos sujeitos na construção coletiva das políticas sociais. Para que essa proposta se consolide é preciso que os trabalhadores estejam motivados, com condições de trabalho dignas e salários compatíveis. A defesa dessa concepção encontra-se respaldada no Projeto Ético Político do Serviço Social, devendo ser compromisso e preocupação profissional. Para tanto, o assistente social deve participar investindo na educação permanente das equipes, com vistas a repensar o modelo de atenção à saúde e avaliar, constantemente, as dificuldades que se apresentam no processo coletivo de trabalho em saúde. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. BRASIL, 1988. República Federativa do Brasil. Constituição de 1988. Edição Atualizada em 1999. Brasília: Senado Federal. Subsecretaria de Edições Técnicas, 1999. BRASIL, 2008. Entendendo o SUS. Ministério da Saúde. Governo federal. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/cartilha_entendendo_o_sus_2007.pdf. Acesso em: 12/03/2010 às 20h06min’. BRASIL, 2008. Ministério da Saúde: Disponível em: www.saude.gov.br. Acesso em: 19/03/2010 às 08h00min’. Página | 276 BRAVO, Maria Inês Souza e MATOS, Murilo Castro de. Projeto Ético-Político do Serviço Social e sua Relação com a Reforma Sanitária: Elementos para o debate. Disponível em: http://www.fnepas.org.br/pdf/servico_social_saude/texto2-3.pdf. Acesso em: 20/03/2010, 19h00min’. COHN, Amelia. A Saúde como direito e como serviço. São Paulo: Cortez, 4ª ed. 2006. DEMO, Pedro. Política Social, Educação e Cidadania. Campinas: Papirus, 9. ed. 2006. FASSARELA, João. Lei Orgânica de Assistência Social. Um instrumento de inserção Social e Construção de cidadania. Brasília: Câmara dos deputados, 2000. BRASIL, 1990. Leis Orgânicas da Saúde: Lei 8080/90 e 8142/90. NETTO, José Paulo. Ditadura e serviço social: uma análise do serviço social no Brasil pós-64. 10.ed. São Paulo: Cortez, 2007. Parâmetros para a Atuação de Assistentes Sociais na Saúde. (Versão Preliminar). Grupo de trabalho serviço social na saúde. Brasília, março de 2009. Disponível em: http://www.cress.org.br/cress/imagens/file/arquivos_comuns/parametros_a_s_na_saude.pdf Página | 277 5 - COMPAIXÃO LAICA: OSCIP, UMA TRAVESSIA DO DESENCANTAMENTO DA CIDADANIA EM METAFORAS ORDENADAS DO CONTROLE SOCIAL Carlos Eduardo Batista Costa56 Resumo A proposta de trabalho se apresenta como “Compaixão laica: OSCIP, uma travessia do desencantamento da Cidadania em metáforas ordenadas do controle social”. Uma reflexão sobre os diferentes modos de interação entre Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP’s) e o Estado, dentre suas estratégias e bases valorativas diversificadas sobre a Cidadania no campo das Políticas Sociais. Uma questão baseada na caracterização do processo relacional entre a cultura cívica e a racionalização administrativa. O recorte do estudo, com a categoria de “Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público”, se deve, principalmente, a existência de aspectos regulatórios e legitimadores da máquina estatal. Uma interdependência entre o Estado e tais organizações que se submete ao regime da Lei no 9.790, de 1999, no qual aprecia e qualifica tais entidades com intuito de ser apêndice do Estado. A análise das relações entre OSCIP’s e o Estado possibilita a compreensão de graus de envolvimento dos mesmos na formulação de políticas públicas, como também uma imersão crítica aos momentos de interlocução ou enfrentamento com o Estado na ampliação da justiça e mobilizações sociais. Tem-se a sociedade contemporânea vivendo um tempo do esgotamento, da dessacralização frente às metáforas ordenadoras de controle social. Uma apreensão da questão social, em um Estado laico, perpassando múltiplas formas de pressão social e reinvenção da vida construída no cotidiano; via modelos interpretativos e interativos nas arenas econômica, social, cultural e política. 56 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais ‐ Mestrado Página | 278 A gênese conceitual de sociedade civil no Brasil coincidiu com a resistência do regime militar, ocupando nesse contexto uma função mais propriamente política estratégica que analítica teórica (COSTA, 1996), a partir de um período de entusiasmo cívico. Estudos pontuam que as associações da sociedade civil apresentam contornos conceituais muito difusos e constituem “apenas” uma força propulsora de transformações no arcabouço institucional democrático, o qual deve sofrer permanentemente aperfeiçoamentos e adaptações. O imaginário institucional contemporâneo do Estado, do Mercado e da Sociedade Civil legitima cada setor como importantes artífices nas convicções e normativas públicas e políticas. Algo que aproxima ao pensamento de Tocqueville, em que as leis e instituições seriam algo imediatamente acessível à intervenção humana, e por meio dessas se exerceria o conteúdo emancipatório da cultura. A ideia de que o Estado tende à ineficiência se sustentou com toda força no discurso liberal (MESTRINER, 2001), sendo uma das hipóteses para explicação das alianças consolidadas entre Estado e Terceiro Setor; principalmente após a redemocratização em 1985. Uma “terceirização” dos serviços sociais que perpassou por incentivos/subvenções estatais, utilizando discursos e ações de uma democracia como forma de opressão consensual e convencional. A confluência entre antigas e novas concepções acerca das organizações do Terceiro Setor propicia uma análise mais crítica entre a lógica da cultura cívica e a das relações tradicionais. Com isso, se observa que a liberdade e a participação de organizações representativas da sociedade civil não levaram automaticamente a resolução de problemas sociais no país. Havia uma busca por maior controle social, mas tal base era consolidada em uma política travestida por uma compaixão laica, com princípios na benemerência e na filantropia. Atualmente, visando mitigar mazelas do passado já se identificam esforços do Estado na formalização e fomentação de espaços para qualificar as entidades do Terceiro Setor. Alguns pesquisadores contemporâneos relacionam a fragilidade da cidadania brasileira com os “déficits” no campo do direito civil, na manutenção da cultura de uma cidadania regulada. Considerando a cidadania como um processo de inclusão social se constata, no contexto brasileiro - especificamente na lógica da sequência dos direitos, que há contrastes e inversão da ordem dos mesmos comparados ao padrão do modelo inglês. E a via da peculiaridade histórica do país torna possível identificar a criação, a garantia e a expansão de seus direitos em prol do fortalecimento da própria democracia. No fenômeno da cidadania no Brasil houve três diferenças substanciais, as quais impactaram diretamente na natureza do seu conceito sobre cidadania, dentre elas: a ênfase do direito social em relação aos outros direitos, a alteração da lógica inglesa e a concepção de Estado nação. Vale relembrar a celebre citação de Adam Przewosrki em que “a democracia é um jogo de regras certas, com resultados incertos”. No caso brasileiro, as aplicações desse conceito, frente ao Página | 279 seu processo histórico e arranjos institucionais, apresentam regras não tão claras, e os resultados se perdem nos parâmetros de controle social. Análises de alguns autores apresentam que no Brasil há uma forte noção de independência dos indivíduos, porém atrelada a uma fraca noção de cultura cívica. Constrói-se uma democracia sem uma “cultura democrática”. Com isso, não há necessariamente uma identidade cívica, pois a mesma se restringe a jogos políticos e suas representações; sustentando assim o mito da democracia. O cenário societário poderia ser comparado a um “experimento frankesteiniano” (LESSA, 2002), onde cada setor, com seus arranjos institucionais, contribuiriam estrategicamente no conjunto de expectativas relacionadas à democracia. E as OSCIP’s, legalmente legitimadas pelo Estado, cada vez mais incorporariam e se organizariam em prol da manutenção de acordos políticos vigentes, conectando eixos estruturantes da cidadania e da administração pública. O processo relacional entre o Estado e uma OSCIP se firmaria então em parcerias para enfrentamento das complexidades sociais, mesmo diante algumas divergências estruturais e ideológicas entre ambos, como também na identificação e na intervenção dos gargalos do processo de construção da democracia brasileira. Essas relações solidificam espaços e emergem discussões sobre a redefinição do papel do Estado, o seu processo democrático, pluralismo e identidades vigentes. Uma parceria que retrata um paradigma inovador nas políticas de desenvolvimento, como também uma busca na qualificação das organizações do Terceiro Setor como medida de racionalidade administrativa estatal. Onde o papel das OSCIP’s gera complexidades além de simplesmente “suprir” algumas das lacunas do Estado. Ou seja, instiga pesquisadores a uma reflexão “mais densa” da teia de interações que compõem tais organizações. Algo que necessita de aprofundamento em novas pesquisas, pois se observa uma “estagnação” de produções no campo das Ciências Sociais sobre esse assunto; demonstrando assim a relevância da retomada dessa discussão acadêmica. Os pilares para as reflexões do tema se basearam em bibliografias de clássicos da Sociologia e da Teoria Política, como demais obras de autores contemporâneos, além da consulta de legislação vigente a respeito da regulamentação de OSCIP’s. A leitura de Max Weber, na Página | 280 concepção de ação, relação social e racionalização. Tocqueville, na analise do processo de associativismo. Marshall, na discussão das dimensões da cidadania. Elisa Pereira Reis, com reflexões sobre o legado intelectual comum as diversas tradições teóricas do conceito e papel que a Cidadania no campo da teoria social e política, dentre os seus “vetores” contemporâneos. José Murilo de Carvalho, na analise dos desafios que retardam a cidadania no Brasil. Sérgio Costa, na reconstrução da trajetória teórica da ideia de sociedade civil e do mapeamento das linhas principais do debate contemporâneo, inclusive o percurso no contexto brasileiro. Edson de Oliveira Nunes, na articulação dos padrões institucionalizados de relações que estruturam os laços entre sociedade e Estado no Brasil. Maria Luiza Mestriner, no estudo sobre a relação do Estado brasileiro com a filantropia, e demais políticas sociais. R. Lessa, na abordagem da teoria da democracia, balanço e perspectivas. Bresser Pereira, na caracterização do público não estatal na reforma do Estado. Contudo, a opção de análise por esses autores tem caráter genérico, não devendo ser desprezadas as distinções específicas de cada uma dessas correntes teóricas. Almeja-se que o trabalho aqui proposto contribua com possíveis debates sobre tal problemática, não tendo a pretensão de se limitar a possíveis receitas ou respostas aos desafios da mesma. Palavras chave: Estado. Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). Relação Social. Cidadania. Democracia. Referências BRASIL. Lei no 9.790, de 23 de março de 1999. Dispõe sobre a qualificação de pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, como OSCIP, institui e disciplina o Termo de Parceria, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 24 mar. 1999. Página | 281 CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 4 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. COSTA, 1996 COSTA, Sérgio. Categoria analítica ou passe-partout. político normativo: notas bibliográficas sobre o conceito de Sociedade Civil. Boletim Informativo e Bibliográfico, Rio de Janeiro, n.43, p. 3-25, 1 Sem. 1997. FERRAREZI, Elisabete. A mudança do marco legal do terceiro setor no Brasil. Trabalho apresentado no III Congresso Internacional do CLAD sobre a reforma do Estado e da Administração Pública, Madri, 14-17 de outubro de 1998. FERRAREZI, Elisabete; REZENDE, Valéria. OSCIP – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público: a Lei 9790/99 como alternativa para o Terceiro Setor. Conselho da Comunidade Solidária. Brasília: Takno, 2000. LESSA, R. A teoria da democracia: balanço e perspectivas. In: PERISSINOTTO, R.; FUKS, M. (Org.). Democracia: teoria e pratica. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2002. MARSHALL, T. H. Cidadania, classe social e Estado. Rio de Janeiro: Zahar, 1967. MESTRINER, Maria Luiza. O Estado entre a filantropia e a assistência social. São Paulo. Corteza, 2001. Página | 282 NUNES, Edson de Oliveira. A gramática política no Brasil: clientelismo e insulamento burocrático. 4 ed. Rio de Janeiro: Garamand, 2010. PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. O público não estatal na reforma do Estado. Rio de Janeiro: FGV, 1999. PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. Reforma do Estado para a cidadania: a reforma gerencial brasileira na perspectiva internacional. Brasília: Ed.34, 1998. PRZEWOSRKI, Adam. REIS, Elisa Pereira. Processos e escolhas: estudos de sociologia política. Rio de Janeiro: Contra Capa, 1998. REIS, F. W. Democracia, igualdade e identidade. In: FUKS, M. (Org.). Democracia: teoria e pratica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. SOUKI, Lea Guimarães. A atualidade de T. H. Marshall no estudo da Cidadania no Brasil. Civitas: Revista de Ciências Sociais, v.6, n.1, p. 39-58, jan./jun. 2006. TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na America. In: GILBERT, Pierre (Org.). Igualdade social e liberdade política: uma introdução à obra de Alexis Tocqueville. São Paulo: Nerman, 1988. p.33.65. WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1991. WEBER, Max. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1992. Página | 283 1 - MOVIMENTOS CULTURAIS URBANOS E PÓS-MODERNOS: O CASO DO MANGUEBEAT EM RECIFE E DOS GRUPOS RECRIADORES EM SÃO PAULO Laís de Oliveira57 Resumo Este trabalho pretende articular novas indagações teóricas sobre o conceito de cultura popular com a presença desta nas metrópoles contemporâneas através de modos de vida juvenis. Tentar-se-á também mostrar como o espaço fronteiriço simbólico da cultura em tempos de hiperglobalização e modernidade tardia está na verdade marcado por uma indeterminação aguda, não sendo nem rígido, nem fechado, nem preso a um único lugar rua, bairro, cidade, nação, como poderia ter sido no passado. Começaremos primeiro por conceitualizar a cidade contemporânea. Habermas acredita que chama-la apenas de moderna já estaria ultrapassado quando se pensa no descompasso entre as funções urbanas habituais e os novos padrões de temporalidade e espacialidade, consequência das transformações em curso nas atuais metrópoles. Estas mudanças em curso dizem respeito à 57 Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF Página | 284 emergência da cidade pós-moderna que é gigantesca em suas instalações, e que por isso destrói progressivamente formas tradicionais de vida e convívio social, onde por conta de um salto tecnológico há uma ruptura com formas anteriores de comunicação e sociabilidade como também com as estruturas urbanas a elas correspondentes. (MAGNANI, 1998). Outro conceito que precisamos redefinir é o de cultura popular. O que tradicionalmente e romanticamente designávamos por esta era a popular cultura produzida no meio rural, e que foi aos poucos, segundo Martín-Barbero (2009), com a criação dos mercados e Estados Nacionais, reprimida e desvalorizada até perder o chão. Um pouco forçadamente podemos dizer que para este autor a constituição da cultura urbana (massiva) tem origem nesse processo de repressão das culturas populares desde a Idade Média, não sendo algo que simplesmente começou a ser produzido - no âmbito das Indústrias Culturais - com a invenção dos tradicionais meios de difusão urbana da cultura no início do século XX, como o rádio e a TV. Em Canclini: “a noção própria de cultura urbana vai reaparecer como substituto do que já não pode ser entendido sob os rótulos de culto ou popular”. (CANCLINI, 2011, p. 284). Hodiernamente, no plano desta cultura urbana também há mudanças em curso e elas dizem respeito, sobretudo, à globalização com a consequente mundialização da cultura e sua força homogeneizante. Assim é que as discussões sobre a pós-modernidade caracterizam o seu estado atual, “onde a tendência mais contemporânea é celebrar o crossover, o híbrido, a mistura, o ecletismo, o pastiche, a fragmentação, a bricolage, e muitos outros termos”. (MENDONÇA, 2007, p. 1-2) A metáfora da paisagem (ou LandScape) do teórico do multi-culturalismo Arjun Appadurai é sumamente pertinente para se descrever estes atuais contextos culturais. Assim como alguns espaços físicos das grandes metrópoles e suas formas de sociabilidade correlatas deixaram de Página | 285 existir num sentido tradicional, também o espaço “físico” da cultura deixou de ser ou estar numa cidade, instituição, ou lugar específico e determinado passando a ser uma paisagem, um cenário (muitas vezes imagético ou midiático), em meio a muitos outros, presente simultaneamente em diversos lugares do mundo. (MENDONÇA, 2007) OS GRUPOS RECRIADORES No Brasil, uma das manifestações urbanas mais marcadas por este tema do hibridismo58, foi o movimento Manguebeat59 em Recife no início dos anos 90, que projetou a cena recifense no âmbito nacional e em certos circuitos da cultura mundializada, além de ter feito com que o olhar dos jovens se voltasse para as culturas tradicionais brasileiras. Típico movimento cultural urbano e pós-moderno tendo sido idealizado em Recife-Pernambuco, mas também vivido de forma intensa na cidade de São Paulo. Em estudo de caso recente Mira (2009) mostrou como jovens, muitos deles influenciados pela ideia deste movimento, estão se juntando a grupos Recriadores60 de tradição popular, e 58 O termo hibridismo, utilizado para explicar os atuais intercâmbios culturais, e que difere das misturas referentes ao sincretismo que tem um peso mais religioso e à mestiçagem que tem um peso mais étnico, é de autoria do estudioso argentino Néstor Garcia Canclini. 59 O manguebeat foi um movimento musical surgido na cidade de Recife/Pernambuco, no começo dos anos 90, quando bandas como Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A decidiram misturar a música pop internacional de ponta (o rap, as várias vertentes eletrônicas e o rock neopsicodélico inglês) aos gêneros tradicionais da música de Pernambuco (maracatu, coco, ciranda, caboclinho etc.). (Fonte: http://cliquemusic.uol.com.br/generos/ver/mangue‐beat) 60 Os Grupos são assim chamados pelo Fórum Permanente para as Culturas Populares de São Paulo. Mira adota também essa denominação para poder diferenciá-los dos grupos ainda hoje considerados tradicionais, como o Maracatu Nação de Recife. Página | 286 saindo pelas ruas de São Paulo ora tocando maracatu61, ora se apresentando em praças, ora participando de festas ou eventos do circuito. Partindo dos resultados de uma pesquisa coletiva realizada durante o ano de 2007 na PUC de São Paulo, Mira (2009) mapeou e estudou grupos envolvidos com a recriação de culturas populares na cidade de São Paulo. Para entender como estes grupos se articulam, e onde se encontra o fenômeno propriamente urbano e juvenil de recriação da cultura popular, é preciso ter em mente que esses grupos não são em sua maioria grupos profissionais, mas grupos de amigos que se juntaram como numa brincadeira não para protestar, ou arrecadar dinheiro, mas simplesmente expressar “a experiência nova e reveladora que sentem estar vivendo a partir do encontro com a ‘tradição’”. (MIRA, 2009, p. 570) Além disso, feita a ressalva de que numa cidade tão grande como São Paulo não há como saber de tudo o que acontece, a pesquisa confirmou que há uma forte concentração dos grupos Recriadores numa parte da Zona Oeste da cidade, que pode ser considerada como de classe média alta mais do ponto de vista cultural do que econômico, compreendendo uma mancha62que vai dos bairros da Água Branca ao Butantã, passando por Perdizes, Pompéia e Vila Madalena (centro da mancha). 61 “O maracatu está entre as mais importantes manifestações culturais de Pernambuco com grande projeção no carnaval de Olinda e Recife. Há dois tipos de maracatu: o maracatu de baque-virado ou maracatu nação e o maracatu rural ou maracatu de baque solto ou de orquestra”. (MENDONÇA, 2007, p. 9). 62 Para Magnani (2002) os deslocamentos e comportamentos dos atores sociais pela cidade, não são erráticos, mas apresentam padrões. Assim é que numa grande cidade é possível distinguir a existência de áreas claramente demarcadas pela oferta de determinados bens ou serviços: são as manchas, áreas contíguas do espaço urbano, dotadas de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam, competindo ou complementando-se, uma atividade ou prática dominante. Página | 287 Conclui-se que os integrantes dos grupos recriadores são jovens de classe média, estudantes do 2º grau, universitários ou já graduados, predominantemente das áreas de Ciências Humanas e Artes. É entre eles que está o fenômeno propriamente juvenil de interesse pelas culturas tradicionais no ano de 2007. Outra característica importante destes grupos é o fato de não serem bandas musicais num sentindo convencional; os instrumentos em torno do qual se reúnem são os percussivos primordialmente; fazem apresentações com cerca de 14 a 16 componentes que tocam tambores, dançam, cantam “em forma de cortejo, muitas vezes pelas ruas da cidade, sob o olhar admirado dos transeuntes”, utilizando em suas apresentações outras linguagens populares como o circo e o teatro. Embora também façam apresentações de palco “circula no meio a ideia de que o lugar da cultura popular é a rua, de modo que os grupos se apresentam muito em praças e parques, espaços abertos, pé no chão”. (MIRA, 2009, p. 569) Por fim, recriam não apenas tradições populares pernambucanas, mas entre eles é possível visualizar três linhagens principais: o conjunto dos grupos de influência pernambucana, sobretudo do Maracatu que são os mais numerosos; os que se apoiam nas manifestações populares e folclóricas do sudeste do país e os grupos que desenvolvem expressões populares maranhenses. CONCLUSÕES A tendência iniciada nos anos 90 pelo manguebeat, e que causou mudanças significativas no cenário cultural brasileiro, está para Mira (2009) inserida num fenômeno muito mais amplo: o da valorização da diversidade cultural, das culturas tradicionais ou locais num cenário de globalização que parece ameaçar sua sobrevivência. Para ela: Página | 288 [...] Não se considera que estes jovens, ao tocarem maracatu pelas ruas da cidade estejam lidando com “a Tradição”, mas que estejam vivendo numa sociedade pós-tradicional como na expressão de Anthony Giddens, numa sociedade onde existem muitas tradições, mas nenhuma pode ou tem cada vez mais dificuldade de se pensar como única e verdadeira. (MIRA, 2009, p. 564) Num contexto contemporâneo e pós-moderno de vertigem, crise de identidade e busca por um eixo numa vida moderna, principalmente nas grandes cidades, cheia de incertezas e vicissitudes, jovens urbanos de classe média estão buscando na tradição ou em práticas folclóricas uma certeza de pertencimento que lhes falta. Eles acreditam que certa convivência em comunidade irá lhes transmitir ensinamentos que a vida moderna não pode oferecer mais. Além disso, outra conclusão que se chega é sobre o infundado temor que se manifestou no contexto de Recife, da descaracterização da cultura popular pela mistura que o movimento Manguebeat fez do maracatu com o pop/rock internacional. É preciso conceber “a cultura popular como um terreno em constante transformação e, portanto, não congelado ou cristalizado em formas cuja ‘pureza’ deva ser mantida a todo custo, mas onde se realizam também disputas sobre hegemonia cultural”. (MENDONÇA, 2007, p. 17) Esta também é a visão partilhada por Canclini, que acredita que desde sempre a cultura foi híbrida – inclusive é a própria expansão urbana que contribui para que isto se acentue – o que muda, em tempos de hiper-globalização e modernidade tardia é que as misturas ou os Página | 289 intercâmbios culturais estão ocorrendo numa velocidade nunca antes vista na história. Nas palavras de Mira: [...] “Embora a polêmica seja grande, com certeza, os novos grupos envolvidos com essas práticas nas grandes cidades não são tradicionais em nenhum sentido do termo, o que não significa dizer por outro lado, que algum dia houve uma versão autêntica ou pura que foi corrompida ou descaracterizada. TODA E QUALQUER CULTURA É SEMPRE E AO MESMO TEMPO, AUTÊNTICA E RECRIADA, ESPECIALMENTE A QUE CHAMAMOS DE POPULAR [...] MESMO OS GRUPOS QUE NÓS ANTROPÓLOGOS, CONSIDERAMOS TRADICIONAIS ESTÃO EM CONSTANTE MUDANÇA”. (GRIFO MEU) (MIRA, 2009, p. 567). Para finalizar, resta dizer que, além disso, o que estes jovens estão buscando é uma distinção social (no sentido de Bourdieu) e uma participação num grupo estético privilegiado ao se apropriarem de uma cultura que embora continue conceitualizada como popular, no processo de sua sistematização Ilustrada acabou inacessível para as classes menos abastadas tanto econômica quanto culturalmente. A estas últimas restou consumir outro tipo de cultura, menos refinada, a cultura urbana de massas, justamente cuja falta de originalidade, referências personalizadas e signos de distinção os jovens de classe média estão a fugir e a buscar. Página | 290 Palavras-chaves: Cultura urbana. Juventude. Pós-modernidade. Multiculturalismo. Referências BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp, 2007. CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 4 ed. São Paulo: Edusp, 2011. (Ensaios Latinos Americanos, 1). Habermas MAGNANI, J. G. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 17, n. 49, páginas, jun. 2002. MAGNANI, J. G. Transformações na cultura urbana das grandes metrópoles. In: MOREIRA, A. S. Sociedade global: cultura e religião. Petrópolis: Vozes, 1998. MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações. 6d. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009. MENDONÇA, Luciana F. Moura. Música pop(ular), diversidade e identidades: o manguebeat e outras histórias. Oficina do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, n. 275, páginas, maio 2007. MIRA, Maria Celeste. Sociabilidade juvenil e práticas culturais na cidade de São Paulo. Sociedade e Estado, Brasília, v.24, n. 2, p. 563-597, maio/ago. 2009. Página | 291 2 - “No meio do caminho tinha uma pedra”. Circuitos de consumo de crack na cidade de Belo Horizonte (MG), um estudo do bairro Lagoinha. NAYARA DE AMORIM SALGADO Esta pesquisa teve como tema uma reflexão sobre os espaços urbanos de uso de drogas. Objetiva-se aqui um estudo sobre o consumo de crack no bairro da Lagoinha, na região central de Belo Horizonte, bairro importante para a capital mineira que tem sido cronificado como lugar de uso do crack . O bairro da Lagoinha nasceu junto a capital planejada Belo Horizonte e no traçado original da cidade, está localizada na área suburbana, fora dos limites da Avenida 17 de Dezembro, a atual Avenida do Contorno, que circundava a área urbana. A Lagoinha juntamente com Bonfim, São Cristóvão e a Pedreira Prado Lopes, formavam a parte da 6ª Seção Suburbana de acordo com a Planta geral da Cidade de Minas. O bairro foi ocupado de forma espontânea, sendo caracterizado pela chegada dos operários que vinham em busca de emprego na construção da nova capital, vindos de todo o Estado de Minas e também imigrantes italianos, portugueses e alemães. A Lagoinha, desde as suas primeiras décadas foi cenário de uma diversidade social e cultural significativa, traços que ficaram marcados no imaginário da população e na história de Belo Horizonte. Na década de 1950 a Lagoinha aparece como espaço da boemia da Página | 292 cidade, tendo como ponto principal a Praça Vaz de Melo, passando a ser conhecido como a “Lapa Mineira”, pois existiam casas de prostituição, muitos bares, restaurantes, cinemas, clubes de dança que eram pontos tradicionais de encontro de boêmios e artistas, cenário que correspondia ao famoso bairro da Lapa no Rio de Janeiro. A Lagoinha atualmente apresenta-se assim como um ambiente degradado. As pesquisas sobre a história do bairro mostram que coexistência de várias características diferentes, seja a Lagoinha da boemia, da vida bucólica, das atividades religiosas, dos antiquários, dos ambulantes, entre outras. Assim como outros bairros pericentrais da cidade, como por exemplo, a Floresta, Santa Tereza e Bonfim, a Lagoinha representou e ainda representa um importante papel na história da cidade de Belo Horizonte, pois também possui uma cultura própria, um modo de vida peculiar, uma tradição cultural que faz parte do imaginário da cidade. Mas a situação da Lagoinha difere dos outros bairros suburbanos que tem legislação definida e mais formalizada com relação às políticas de públicas de proteção ao patrimônio. A Lagoinha teve sua importância histórica reconhecida pela Lei de Parcelamento, Ocupação e Uso do solo e pelo Plano Diretor de Belo Horizonte, que criou a Área de Diretrizes Especiais, mas que ainda não foi regulamentada e ainda não prevê nenhuma política de proteção para o bairro. A Legislação de Parcelamento e Ocupação e Uso do Solo, em seu art. 88, trata o bairro Lagoinha como área de importância cultural e econômica para a cidade, garantindo Página | 293 ao bairro proteção como patrimônio cultural, com a preservação de sua paisagem urbana. Já a Área de Diretrizes Especiais, ADE, se constitui como instrumento de preservação de áreas referenciais para a população, que mereçam legislação específica. No caso da Lagoinha, o objetivo seria, por exemplo, definir o perímetro de tombamento do conjunto urbano, indicação de sub-áreas para tratamento urbano diferenciado e requalificação dos imóveis degradados; como também a proposição de medidas de incentivo e/ou flexibilização de parâmetros urbanísticos que contribuam para requalificação urbana, entre outros. Assim, Lagoinha como um bairro tradicional e antigo que tem grande relevância cultural para a história e memória da cidade, é ainda um local onde as intervenções do poder público não corresponderam a sua importância. O cenário que apresenta atualmente demonstra que o local passa ainda por processos que continuam a alterar seu espaço físico e patrimonial sem preservá-lo. Tal bairro se torna atualmente, alvo de atribuições negativas, pela população da cidade e pela mídia. A imprensa que retratou a Lagoinha como o lugar da boemia, dos antiquários, da arquitetura, das obras para o complexo viário, atualmente tem novo enfoque, pois o destaque tem sido a violência e o uso de drogas em seu território, que vem aumentando. É bastante expressiva a população em situação de rua encontrada na Lagoinha. Os casarões abandonados, os espaços de casas demolidas, as ruas e praças que têm sido Página | 294 invadidas por práticas recorrentes de tráfico e consumo de crack. Em vários espaços públicos têm-se a presença de atores sociais marginalizados, traficantes, profissionais do sexo e demais indivíduos que fazem uso de crack (muitos deles homens, mulheres e meninos em situação de rua). É recorrente a cena de pessoas consumindo crack sentados no chão, apoiados nas paredes dos muros e nas calçadas de casas. A ocupação do bairro Lagoinha por atores sociais marginalizados, especificamente por usuários de crack é o foco desde estudo. Pois a partir da revisão bibliográfica apresentada, pode-se concluir que o bairro, que tem grande importância histórica para cidade, vive um processo de degradação e decadência, que culmina atualmente com essa “invasão” do local pelos usuários de crack, que faz da Lagoinha, a Cracolândia de Belo Horizonte. Sendo assim, os trabalhos de campo realizados no Bairro da Lagoinha na cidade de Belo Horizonte, tiveram como objetivo a apreensão da realidade do lugar a partir das representações populares do local, como um bairro histórico, detentor de patrimônio cultural importante para a memória da cidade e também da sua atual condição, de ter se tornado uma Cracolândia. No estudo sobre os modos de vida urbano, levou-se em conta como os grupos apropriam o espaço. Com isso tem-se o estudo mais profundo sobre os bairros, que podem ser pensados como unidades de interação entre os indivíduos. Página | 295 A partir da perspectiva sociológica, entende-se que o bairro é uma unidade de pertencimento, que situa e diferencia os indivíduos de outros grupos e outros espaços da cidade. Define-se através do vivido e do agir social, consolidando-se a partir de sua história. Trata-se de um espaço social em que estão circunscritos as sociabilidades, as praticas cotidianas e culturais assim como oposições, distinções e conflitos entre os indivíduos e grupos sociais. A partir do estudo de bairros, que são espaços microssociais, pode-se compreender processos globais da cidade, pelo uso de uma sociologia dos bairros. Tal perspectiva analítica deve levar em conta as narrativas sobre os espaços urbanos, que informam sobre as categorizações e reconhecimento do local. As delimitações das unidades significativas para observação e análise do bairro Lagoinha se basearam no conceito de circuitos, que tenta articular dois elementos da dinâmica urbana, que são os comportamentos e os espaços, buscando entender a sociabilidade dos grupos estudados assim como suas permanências e regularidades. Assim o ‘circuito’ descreve o exercício de uma prática ou a oferta de determinado serviço por meio de estabelecimentos, equipamentos e espaços que não mantêm entre si uma relação de contigüidade espacial, mas é reconhecido em seu conjunto pelos usuários habituais. Uma das discussões desta pesquisa é sobre o que os estudiosos, os usuários de crack, as autoridades policiais, os profissionais de saúde, a mídia e a população em geral, convencionalmente chamam de cracolândia. Página | 296 A cracolândia é entendida aqui como uma modalidade de territorialidade itinerante dentro de um contexto multifacetado e marcado por inúmeras variações situacionais, é um lugar cronificado por indivíduos como o lugar de uso do crack . O processo de cronificação territorial pode ser traduzido como procedimento de demarcação de determinados espaços pela incapacidade de controle, devendo, portanto, ser etiquetado e separado dos demais para não ser confundido. Os usuários de crack, encontram nesses lugares denominados “cracolândias” meios de identificação, acolhimento, visibilidade, interação social e proteção, além de acesso fácil e com menos risco a substância, não só pelos deslocamentos geográficos, mas pelo mecanismo de familiaridade que o próprio espaço proporciona. Esse processo acontece independentemente da classe social, da região em que residem e qualquer outro atributo. A partir das investigações realizadas afirma-se que acontecem deslocamentos dos usuários de crack pela mancha do território das drogas e esse processo acontece de acordo com as ações públicas no espaço, seja através de operações policiais ou por intervenções urbanísticas. Os nóias dispersam-se e convergem para outros pontos da mesma região, próximo dos locais da venda do produto. A analise do espaço social da Lagoinha mostrou que com sua apropriação pelos usuários de drogas, a sociabilidade do bairro se restringe, pois os moradores ficam mais restritos as suas residências, principalmente a noite, além de não freqüentarem os espaços Página | 297 públicos. Pode-se constatar que a violência gerada pelo consumo e trafico de trafico de crack traz sensação de insegurança para a população. Tal processo gera nos moradores e freqüentadores do bairro comportamentos de reserva. A presente pesquisa possibilitou o entendimento e o aprofundamento sobre o tema dos modos de vida urbano, sobre as políticas de proteção ao patrimônio e sobre espaços de consumo de crack. O resgate da história da cocaína até o surgimento e difusão do crack foi importante para entender os significados atribuídos a essa droga e os problemas sociais que pode causar. Palavras Chave: Sociologia Urbana, Bairro Lagoinha, Crack, Cracolândia. 3 - UMA ANÁLISE DAS RELAÇÕES DE RIVALIDADE ENTRE GANGUES JUVENIS EM UM AGLOMERADO DE BELO HORIZONTE Rafael Lacerda Silveira Rocha63 Este trabalho propõe uma análise das relações sociais entre membros de gangues juvenis do Aglomerado Santa Lúcia, uma das localidades com maiores índices de homicídios no 63 Mestrando em Sociologia (UFMG). Bolsista Capes/Prof. Pesquisador do Centro de Estudos Urbanos – CEURB e professor no Departamento de Administração no Centro Universitário Una. E-mail: [email protected] Página | 298 município de Belo Horizonte. Dentro do amplo espectro de relações tecidas dentro e ao redor destes grupos, interessa-me analisar especialmente os aspectos acerca da adoção de uma identidade grupal associada a territórios específicos, elemento que torna-se determinante no processo de entrada de novos integrantes a estes grupos, e manutenção das relações de rivalidade violenta com grupos semelhantes de territórios vizinhos, que em alguns casos persistem por anos ou até mesmo décadas. A apresentação tem como foco os resultados parciais da pesquisa e o material colhido durante seis meses de observação participante entre gangues do referido aglomerado. Frente à configuração dispersa do tráfico de drogas local, sem grandes lideranças, na qual dezenas de pequenos grupos desarticulados realizam uma espécie de tráfico de varejo em territórios muito bem delimitados, e de forma geral não existe uma disputa pela posse de pontos de vendas estratégicos, o que em outras regiões é apresentado como motivação dos conflitos violentos entre grupos e gangues, coube, portanto, a busca por outras explicações para o fenômeno da continuidade da rivalidade violenta entre estes grupos que fossem para além da disputa motivada pelo tráfico de drogas. A perspectiva teórica do interacionismo simbólico, devido sua ênfase no estudo dos grupos e das condutas humanas em relação umas as outras, foi escolhida para o estudo da constituição e manutenção das relações de rivalidade entre as gangues no contexto específico do Aglomerado Santa Lúcia. Herbert Blumer aponta que o interacionismo simbólico é fundado sobre três premissas básicas: 1) os seres humanos agem em relação às coisas com base nos significados que as coisas têm para eles; 2) o significado de tais coisas é derivado, ou surge, da Página | 299 interação social que se tem com os semelhantes; 3) esses significados são manipulados, e modificado através de um processo interpretativo usado pela pessoa para lidar com as coisas que ele encontra (BLUMER, 1986, p. 2, tradução nossa). O sentido das ações dos indivíduos se dá através da interação social entre estes, onde são constantemente interpretadas e reinterpretadas à luz da situação por eles compartilhada. Logo, a interação social torna-se o processo através do qual se forma a conduta dos indivíduos, o cerne da ação social, e não um mero vetor para que esta se manifeste na vida em sociedade. Na perspectiva interacionista o mundo social também é composto de objetos, que são produtos da interação social, e consequentemente, do sentido que os indivíduos dão a eles. Os objetos podem ser quaisquer coisas as quais os atores se referem, desde um livro, um princípio ou valor moral, uma gangue, uma ideia, ou mesmo o território de grupo. A natureza do objeto consiste, portanto, do sentido que possuí para o indivíduo que se relaciona e se refere a ele (BLUMER, 1986). O conceito de objeto adquire importância para este estudo pela característica de ser socialmente construído durante o processo de definição e interpretação na interação entre os indivíduos, tal como o próprio território, moldado e reconstruído de acordo com as interações que nele ocorrem. Com base nesta proposição, optei por abordar a rivalidade entre os grupos do Aglomerado Santa Lúcia da seguinte forma: tanto a rivalidade em si (ou “guerras” como os integrantes dos grupos as denominam), como outros construtos compartilhados por seus membros, como as noções de respeito, “proceder”, e pertencimento a um território específico – que deve ser protegido de ataques dos rivais – são objetos formados, aprendidos e transmitidos no interior destes grupos e, portanto, possuem papel fundamental nas ações de seus integrantes. Página | 300 Desta forma, a ação humana é elaborada ao se levar em conta os vários objetos e indivíduos envolvidos em um dado contexto, e se encaixa em uma linha de conduta do indivíduo coerente com a interpretação que este faz destes fatores. As ações dos indivíduos, embora ocorram em uma diversidade de situações e contextos sociais, se dão dentro de um fluxo, ou de acordo com Goffman (2009) uma linha de ação, orientada não só pela interpretação que o individuo faz destas situações, mas principalmente, de como escolhe se apresentar nestas interações. As noções de “ethos guerreiro” em Zaluar (1997) e de ecologia do perigo em Anderson (1999) são aplicações deste tipo de perspectiva, nas quais os indivíduos interpretam o contexto no qual estão inseridos, as motivações e ações daqueles a seu redor, e com base nos significados que derivam deles através da interação, tomam determinadas linhas de ação, que por sua vez afetam e são interpretadas pelos outros atores participantes daquele contexto de relações, como exemplifica a fala de um dos integrantes de uma das gangues estudadas: Apesar de que nós não tamos zoando o morro não, nós fizemos uma fita aqui que é o seguinte: se os caras [do grupo rival] não vêm aqui, nós também não vai lá, entendeu? Na paz, o morro fica tranqüilo [...] Se todo mundo tivesse essa mentalidade e pensasse assim, não tava essa confusão que tá hoje, porque se depender de nós a gente não zoa ninguém não. Só que os caras ficam zoando, pagando ai de bonzão, vem cá dar tiro, vem na nossa quebrada fazer gracinha. Aí não dá, porque na real fica é feio pra nós se a gente deixar barato entende? Mas a meta nossa mesmo é ficar de boa, andar de motoca, curtir, mas os vacilão não deixam [...] Página | 301 A ação dos rivais de fazer uma incursão no território demanda uma resposta, que geralmente surge na mesma medida ou ainda com mais intensidade, em um ciclo de incursões, ou ataques, como os jovens as denominam. Erving Goffman (2009) explora minuciosamente o conceito de papéis sociais, partindo do caráter dramatúrgico da interação social para considerar as diversas maneiras como os indivíduos se apresentam uns aos outros, e os meios pelos quais dirigem e regulam a impressão causam em seus pares. A vida social assume, portanto, o caráter de múltiplos palcos onde os atores representam uns para os outros. O papel que um indivíduo representa é talhado de acordo com os papéis desempenhados pelos outros, que por sua vez constituem mutuamente plateia para as ações alheias. Assim o espaço público se torna o palco privilegiado por excelência, justamente por permitir exposição da imagem que o indivíduo pretende apresentar de si mesmo para o maior número possível de pessoas. O território não só surge como um elemento de disputa, tanto física com alvo de incursões e deve ser protegido, como social por ser palco das interações de maior alcance, mas também como um elemento que limita as interações entre os jovens em outros espaços e contextos, mesmo aqueles que não são diretamente envolvidos com as guerras, como a fala de um morador destes territórios demonstra: É como eu te disse, até dá [para circular no aglomerado], mas precisa de ter muito jogo de cintura entende? Tipo eu nasci aqui, os caras são meus chegados desde criança, a gente jogava bola, fazia tudo junto. Agora que eles têm guerra eu não vou deixar de conversar né, tomar uma cerveja, essas coisas não. Mas é foda, porque eu tô aqui tem quase vinte anos, e toda mão quando tô em um barzinho ou pagode de outro lado [do morro] os caras que eles têm guerra encrencam, me enquadram, perguntam isso e aquilo, se tô escotando pra eles, é foda... ainda mais se você tá daquele jeito, tomou umas, meio Página | 302 doido... Mas respiro fundo e troco ideia né não? Tipo assim, falo com eles que eu converso com os caras lá da minha quebrada igual converso com você, com eles [rivais], troco ideia com todo mundo igual, sempre respeitando. Tem que ficar esperto, ter malandragem, porque senão rapidinho você caí na guerra dos outros. No contexto das rivalidades violentas entre as gangues do Aglomerado Santa Lúcia o território não só surge como algo a ser protegido ou atacado, visando não o controle, mas a ofensa ao grupo rival, mas também como elemento central nas relações com outros moradores de outros territórios. O morador, especialmente jovem, mesmo que não se insira diretamente na dinâmica de conflitos, “incorpora” em certa medida as características do grupo que atua naquele território, sendo tratado como potencial inimigo ou aliado de acordo com as relações grupais dos territórios de origem. Desta forma pretendo apontar as relações de rivalidade entre as gangues deste aglomerado como uma dinâmica de não apenas grupal, mas também intrinsicamente associada a uma demarcação territorial anterior, que em certa medida define uma estrutura pré-existente na qual se darão as relações de rivalidade e alianças entre os grupos. Palavras-Chave: Gangues. Homicídios. Território. Interacionismo simbólico. Aglomerados urbanos. Referências Página | 303 ABRAMOVAY, Miriam et al. Gangues, gênero e juventudes: donas de rocha e sujeitos cabulosos. Brasília: Secretaria de Direitos Humanos, 2010. AKERS, Ronald L. Social learning and social structure: a general theory of crime and deviance. New Jersey: Transaction Publishers, 2011. ANDERSON, Elijah. Code of the street. New York: Norton Paperback, 1999. BEATO FILHO, Cláudio Chaves. O problema dos homicídios em Belo Horizonte. Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo, v. 42, p. 345-351, 2003. BLUMER, Herbert. Symbolic interactionism: perspective and method. California: University of California Press, 1986. DIÓGENES, Glória. Cartografias da cultura e da violência: gangues, galeras e o movimento hip hop. São Paulo: Annablume, 2008. JANKOWSKI, Martin Sanchez. Islands in the street. California: University of California Press, 1991. GOFFMAN, Erving. As representações do eu na vida cotidiana. Rio de Janeiro: Vozes, 2009. GOFFMAN, Erving. Ritual de interação: ensaios sobre o comportamento face a face. Rio de Janeiro: Vozes, 2011. THRASHER, Frederic M. The gang: a study of 1.313 gangs in Chicago. Chicago: The University of Chicago Press, 1963. Página | 304 WAISELFISZ, Júlio Jacobo. Mapa da violência 2011: os jovens no Brasil. São Paulo: Instituto Sangari, 2011. WHYTE, William Foote. Sociedade de esquina. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. ZALUAR, A. Gangues, galeras e quadrilhas: globalização, juventude e violência. In: VIANNA, Hermano (Org.). Galeras cariocas. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997. ZILLI, Luís Felipe. O bonde tá formado: gangues, ambiente urbano e criminalidade violenta. 2011. Tese (Doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Sociologia, Belo Horizonte. 4 - REVOLUTION: O Rock and Roll e os Beatles na Contracultura Soviética. Camila Mendes Froede64 Você diz que quer uma revolução / bem, você sabe / todos nós queremos mudar o mundo. (THE BEATLES, 1968, tradução nossa). 65 64 65 Titulação e instituição You say you want a revolution Well, you know We all want to change the world. Página | 305 O Rock and Roll tem hoje variantes cunhadas pelo mundo todo, mas, de sua origem nos Estados Unidos, passando pela reconstrução contínua com o country, o folk ou o blues da black music, vê-se um amálgama que aponta para a imagem recorrente da transgressão. Enquanto representante de ritmos africanos, em uma sociedade onde imperava forte segregação racial, estava fadado à marginalização e talvez por isto fosse bandeira e amplificador de ideias contestatórias bastante incomodantes. Ideias de uma juventude revoltada com o sistema cultural, educacional e político estadunidense nos anos 50 e 60. Tão forte ecoavam os acordes na América que não podia mais o fraco limite territorial das nações ser barreira para calar a música enquanto instrumento fundamental de revolta. Nem mesmo a cortina de ferro plantada no imaginário de todo um mundo de pessoas podia desligar o som. Em ligação secreta o rock rompeu com barreiras que à guerra fria qualquer mente sã julgaria intransponíveis, e conseguiu atingir cidadãos do lado de lá da cortina de ferro. Saber se, neste contexto a música rock foi capaz de desempenhar qualquer papel significativo no processo de mudança política evoca, entretanto cuidadoso exame das contradições sistêmicas de uma imposição identitária maciçamente endossada por um aparato estatal vigoroso no interior do bloco, assim como seus desdobramentos e construções, respectivamente em três esferas: a esfera da dominação, da economia e de uma cultura jovem emergente como ator social independente. Tais contradições advêm da institucionalização de políticas apoiadas em temas nacionais e questões do povo russo, pela aprovação do realismo socialista como doutrina oficial do Partido Comunista. A liderança política única do partido empregaria aí o poder absoluto em suas mãos, subordinando tudo mais. Procurando infligir controle total sobre todos os aspectos das vidas e pensamentos de seus cidadãos, sob Stalin, o sistema se torna uma autocracia, permanecendo toda a existência de Página | 306 seus habitantes, até onde possível subordinada à consecução dos objetivos do partido, definidos e especificados pela autoridade suprema. Na arte o estilo deveria ser realista na forma e socialista no conteúdo, isto é, deveria ser um reflexo da realidade e sua mensagem, um instrumento de propaganda do partido. Os artistas se tornam, nas palavras de Stalin, os ‘Engenheiros da Alma Humana’ e têm seu lugar certificado nesta sociedade, contribuindo para sedimentar os alicerces da revolução na medida em que a ideia de um Novo Homem Soviético enquanto identidade cultural vai tomando forma real nas mentes e nas vidas de gerações nascidas na URSS. Surgem novas políticas culturais voltadas para a valorização de uma arte supostamente proletária, concretizada à supracitada corrente e na representação de elementos típicos com vistas à criação e identificação de uma identidade comum através da preservação de costumes e idiomas nativos, do fomento ao desenvolvimento de elites culturais nacionais; sob condição e subserviência ao poder soviético e, da instrução e promoção da música folclórica, enaltecedora das virtudes do Estado. Insere-se aí um mundo de limites nítidos e de natureza material e sociais prontamente decodificados. Substituí-se a realidade por um mundo artificial e conduzido por regras particulares que pouco carece de um manual revolucionário para sua concepção. O mundo fora é irreconhecível e decadente e a América moderna é retratada como uma terra sem lei. Condena-se aí a cultura ocidental em igual medida que juventude soviética une esforços para superar o acirrado isolamento se voltando para o jazz no final dos anos 1940. (HOSKING, 1991) No final dos anos sessenta, é a vez de um verdadeiro ‘boom’, de uma epidemia de música rock ocorrer na URSS. Enquanto a juventude adere francamente ao estilo nas suas diversas modalidades, os Beatles, mais do que qualquer um são vistos como o rosto de um ocidente decadente e inimigo do comunismo soviético. Insultados pelas autoridades como poluição ocidental, seus discos são proibidos. Vigilantes patrulham as ruas procurando por fãs de Rock and Página | 307 Roll e raspando seus longos cabelos enquanto policiais em aeroportos procuram por registros contrabandeados. Possuir ou até ouvir discos do quarteto pode significar cadeia. Esconde-se por trás disto um mundo de mercado e preços livres a típica anarquia de uma feira, repleto de transações ilícitas em grande escala por uma gigantesca rede de negócios não licenciados e não planificados a gíria russa conhecida como ‘Blat’. Por muito tempo o Rock and Roll é retido por todos os tipos de proibições culturais oficiais, mas, a despeito do funcionamento do planejamento nacional soviético, por movimentos delineados, projetados e calculados com antecedência, com mercadorias e serviços criados no valor de bilhões de rublos para serem distribuídos entre os duzentos milhões de habitantes, o capitalismo puro fornece as muletas para o comunismo. Apesar de uma abstrusa infraestrutura, o escopo e a complexidade das mudanças do lado de fora da sociedade soviética assegura a seus indivíduos certas maneiras de receber alguma informação cultural do Ocidente. Na esfera econômica resulta um mundo alternativo do consumo, a demanda por produtos contrabandeados e uma consequente expansão do mercado negro, onde discos de vinil dos Beatles são o fetiche número um. (RYBACK, 1990) No decurso de trinta anos, bandas de rock invadem cada bastião da resistência oficial e induzem; partido e governo a os aceitarem como parte da vida no estado marxista-leninista. Enfrenta-se uma repressão brutal em que as correntes políticas e intelectuais do país fazem uma contracultura explodir numa tradição de gosto musical independente fora da estrutura estatal. Identidades que eram produto da participação na comunidade contracultural presenciariam a transmutação do rock, de uma forma de protesto existencial para uma forma de entretenimento. Três gerações de jovens do bloco constrangeriam os governos a aceitarem passo a passo, um Página | 308 fenômeno cultural muito denunciado como produto do capitalismo ocidental. (CUSHMAN, 1995) No outono de 1991, a União Soviética como um compromisso formal do Estado Nação é dissolvida. Na esteira desta dissolução, o processo de racionalização capitalista da sociedade russa, que havia começado durante a era da Glasnost e Perestroika é intensificado. As tentativas de reforma do sistema soviético são substituídas por um programa de reforma econômica muitas vezes referida como ‘terapia de choque’. Esta terapia de choque ou a rápida racionalização capitalista da sociedade russa resulta no surgimento de um sistema em uma espécie de capitalismo anárquico que se caracteriza pela anarquia e imprevisibilidade nas relações de produção e distribuição com uma tendência para o monopólio da indústria. O novo mundo que ganha forma neste fim de milênio originou-se na justaposição histórica de três processos de construção identitárias. Os desafios sociais versus os padrões de dominação ostentaram uma configuração de identidades autônomas em construção em que a resistência e projetos de uma contracultura musical impactaram e conduziram a transformação da sociedade. Suas interações, processos e reações fizeram surgir uma nova estrutura social dominante, uma nova economia e uma nova cultura. Embora quase sempre posta em prática por estudantes, esta contracultura permeou e repercutiu em todas as esferas da vida em sociedade. Foram movimentos essencialmente culturais de indivíduos que não ambicionavam assumir o poder, porém buscavam algo novo em seus modos de vida. E conseguiram, com alta produtividade e criatividade, pela construção de trincheiras existenciais, realidades alternativas, atos de consumo, produção e distribuição. Todavia, mesmo que tenham sido fundamentalmente culturais e independentes das transformações econômicas e tecnológicas, o legado desta contracultura musical teve impacto Página | 309 sobre a economia, a tecnologia e os resultantes processos de reestruturação soviética. Sua abertura cultural estimulou a experimentação tecnológica com manipulação de símbolos, constituindo um novo mundo de representações imaginárias. Seu cosmopolitismo e internacionalismo lançaram os alicerces intelectuais para um mundo interdependente. E sua aversão ao Estado serenou a legitimidade do socialismo soviético. Ao recusar a transmissão ordeira dos códigos eternos e dos valores oficialmente estabelecidos na sociedade soviética, o Rock and Roll se adaptou e fez aceito como base para formas alternativas de pensar, ser e agir dentro da infraestrutura da modernidade industrial socialista. Neste sentido, os Beatles protagonizaram um culto muito poderoso nesta sociedade. Circularam entre diversos mundos, estilos de vida e experiências. De especial importância, foi seu papel ao possibilitar o desenvolvimento de redes de interação social como modo dinâmico de difusão e mediação cultural. Sem necessariamente haver alguma ambição pessoal nesta mediação e como uma espécie de talento pessoal, os quatro garotos de Liverpool proporcionaram um intercâmbio de informações de um mundo ao outro e se tornaram agentes de transformações. Para aqueles que habitam o sítio das sociedades pós-comunistas, a dissolução da URSS significaria, o início de uma nova história, constituída por novas estruturas e práticas. A experiência revolucionária mais extraordinária do século XX, em um espaço de tempo comparável a um instante termina assim, embalada por canções de rock. E quase quatro décadas depois de Paul ter escrito ‘Back in the USSR’, ele finalmente cantaria a música na Rússia. Uma Rússia muito diferente da dos tempos áureos dos Beatles. Palavras-chave: Rock and Roll. União Soviética. Identidade. Beatles. Página | 310 Referências THE BEATLES. Revolution. In: THE BEATLES. Hey Jude/ Revolution. Londres: Trident Studios, 1968. Duração: 3’21”. CUSHMAN, Thomas. Notes from underground: rock music counterculture in Russia. New York: State University of New York Press, 1995. HOSKING, Geoffrey A. The awakening of the Soviet Union. Harvard: Harvard University Press. 1991. Disponível em: <http://books.google.com.br/books?id=bFQ6VO1sFGsC& printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f= false> Acesso em: fev. 2012. RYBACK, Timothy W. Rock around the bloc: a history of rock music in Eastern Europe and the Soviet Union. Oxford: Oxford University Press, 1990. Página | 311 5 - LAZER E FORMAÇÃO PROFISSIONAL: A CONSTRUÇÃO DE SABERES DE OFICINEIROS DO PROGRAMA FICA VIVO! Autor e Expositor do Trabalho Samuel Santos – Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG, Programa de Pos - Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer. O Programa de Controle de Homicídios da Superintendência de Prevenção à Criminalidade (SPEC), é também conhecido como Programa Fica Vivo! É uma das ações desenvolvidas pela Política de Segurança Pública da Secretaria de Estado de Defesa Social (SEDS), órgão subordinado ao Governo do Estado de Minas Gerais. Visando intervir na realidade social, o mesmo oferece oficinas culturais, esportivas e de lazer para jovens com idade entre 12 a 24 anos, residentes em áreas com índices elevados de homicídios. Um dos objetivos específicos das oficinas é garantir aos jovens o acesso ao esporte, lazer, cultura e formação profissional (SEDS, 2009), porém, tais direitos não são garantias de que os mesmos sejam vivenciados de forma qualitativa e crítica pelos jovens freqüentadores das ações do Programa. Aliás, a participação nos espaços da comunidade onde moram fica limitada pelas restrições da dinâmica criminal e impedidos de circularem, os jovens vivenciam interferências na possibilidade de acesso ao lazer e a outros direitos de cidadania. Entretanto, as orientações do Programa Página | 312 prevêem que o lazer é um dos elementos a ser desenvolvido, no intuito de ampliar o acesso dos jovens a esse direito garantido pela Constituição de 1988. O público alvo do Fica Vivo! são em sua maioria, jovens envolvidos no tráfico de drogas ou consumidores dessas substâncias, embora, jovens não envolvidos com o tráfico e o consumo das drogas frequentem os espaços e tempos das oficinas. Nesse cenário, o trabalho dos oficineiros exige a percepção e a sensibilidade para considerar as subjetividades e as características culturais, históricas, físicas, sociais, criminais e pessoais de cada indivíduo, o que significa que o oficineiro busca potencializar individualidades e diferenças entre os sujeitos. Considerando que os oficineiros podem ser pessoas da comunidade ou profissionais de diferentes áreas de atuação, tais como: Educação Física, Artes, Letras, Filosofia, Matemática, Teatro, dentre outras, os mesmos realizam uma intervenção mediada por um ofício e por um saber que lhe é próprio (SEDS, 2009). Atualmente, profissionais de Educação Física vem somando experiências enquanto oficineiros no Programa e suas ações tem possibilitado uma contribuição para a qualificação do projeto. Sendo assim, a Educação Física é uma das áreas que vem aglutinando esforços para a construção de saberes na Política de Segurança Pública, e os oficineiros são os principais atores dessas ações, por isso, penso na viabilidade de avaliarmos as propostas de formação e atuação profissional nesse Programa, principalmente no que se refere ao âmbito do lazer e sua interface com o setor público e as políticas sociais. Dessa forma, acredito que esse profissional deve compreender que, “não é possível entender o lazer isoladamente, sem relação com outras esferas da vida social. Ele influencia e é influenciado por outras áreas de atuação, numa relação dinâmica” (MARCELLINO, 2006, p. 14), e o não entendimento ou a instrumentalização do profissional que Página | 313 atuará na área pode gerar o tecnicismo pedagógico tão comum no campo, segundo autores como Marcelino (2006) e Isayama (2010). Paraíso (2010, p. 28) destaca que “a mudança, a invenção e a criação, que fazem pensar diferentemente do que já se pensou sobre um tema, podem vir da conexão com diferentes saberes, pensamentos e objetos”. Pelo exposto acima, seria coerente e até mesmo pertinente refletirmos e investigarmos a construção de saberes dos profissionais em diferentes espaços e tempos de formação e atuação, inclusive no âmbito do lazer. Nesse sentido, visualizar a atuação profissional em lazer como espaço de formação e produção de saberes contribui para a superação dos obstáculos entre teoria e prática, ou no mínimo balança o curso da relação entre a suposta superioridade do conhecimento acadêmico e a inferioridade do conhecimento dos que movem ações práticas. Nessa lógica, o desafio seria aumentar a percepção sobre as variáveis que interferem no processo de ensino-aprendizagem ou na mobilização de saberes, e assim, avaliar as sistematizações e reflexões sobre o exercício profissional nesse campo. Refletindo a atuação no âmbito do lazer no Programa Fica Vivo!, proponho uma investigação sobre a construção de saberes dos oficineiros formados em Educação Física, pois, acredito que minhas experiências e intervenções, bem como as discussões e trocas de conhecimentos com os outros profissionais que atuam no Programa, os jovens, o espaço da periferia e a equipe técnica, provocaram de inúmeras formas e fizeram pensar diferente do que vivenciei no currículo de formação inicial no curso de licenciatura em Educação Física. Diante disso, as questões que motivam esse estudo são: quais saberes os oficineiros formados em Educação Física mobilizam em sua atuação no Programa Fica Vivo!? Qual o Página | 314 percurso acadêmico e profissional desses oficineiros? De que maneira esses saberes são por eles construídos e apropriados? Partindo das indagações acima, objetivo identificar e analisar os saberes mobilizados pelos oficineiros formados em Educação Física do Programa Fica Vivo!, de Belo Horizonte, bem como compreender como esses saberes são por eles construídos e apropriados. Tal pesquisa se justifica pela necessidade de compreender como os oficineiros do Programa Fica Vivo! formados em Educação Física, constroem o saber que mobilizam em sua atuação nas oficinas de atendimento aos jovens. Penso ser importante olhares múltiplos sobre os currículos de formação dos profissionais em Educação Física e em lazer, inclusive referente à construção de saberes para atuar em projetos ou programas sociais que atendem jovens de realidades marcadas pela criminalidade e a violência. Nesse sentido, destaca-se a discussão de Isayama (2010) quando aponta a carência de pesquisas sobre a formação profissional no âmbito do lazer e alerta para o seguinte debate: a formação de profissionais para atuar no campo do lazer necessita de estudos sob múltiplos olhares. Propõe-se para essa pesquisa o método qualitativo, numa ação “multi-metodológica”, na qual a pesquisa bibliográfica, documental e de campo se apresentam como procedimentos técnicos na medida em que aglutinam informações dispersas e diversificadas da realidade (ALVES MAZZOTTI, 2002). Para a pesquisa bibliográfica utilizarei a técnica de revisão bibliográfica, a partir do levantamento e análise de estudos que tratam dos temas da segurança pública, do lazer e da construção de saberes. Essa pesquisa será realizada em diferentes fontes eletrônicas e impressas tais como: Google acadêmico, livros, artigos publicados em periódicos, no Banco de teses e Página | 315 dissertações da CAPES, bem como no Sistema de Bibliotecas da UFMG e na biblioteca da PUC Minas. A pesquisa documental consistirá em reunir e analisar informações disponibilizadas no site da SEDS e no documento intitulado “Metodologia do Programa de Controle de Homicídios”, cuja autoria é da equipe técnica e da supervisão metodológica do Programa Fica Vivo! A pesquisa de campo utilizará a técnica de entrevista semi-estruturada com 23 oficineiros do Programa Fica Vivo!, que atualmente, são responsáveis pelas oficinas de esporte e cultura nas comunidades do Boréu, Cabana do Pai Tómas, Conjunto Felicidade, Jardim Leblon, Morro das Pedras, Pedreira Padro Lopes, Santa Lúcia e Serra da cidade de Belo Horizonte. O levantamento quantitativo dos potenciais entrevistados foi realizado em março de 2012, por meio de contato telefônico junto aos Núcleos de Prevenção à Criminalidade das respectivas comunidades. Utilizei como critério para a seleção e inclusão dos oficineiros: ter formação superior em Educação Física (Bacharelado ou Licenciatura) e estar na condição de oficineiro a mais de um ano, uma vez que, esse é o tempo esperado para que os mesmos possam ter visão ampliada da proposta do Programa, conheçam os objetivos da Política Pública de Prevenção à Criminalidade e entendam a dinâmica do contexto social de atuação. Além disso, a escolha dos oficineiros formados em Educação Física tem relação direta com minha trajetória acadêmica, profissional e pessoal no campo e a intenção de contribuir com a formação de profissionais nessa área. A técnica de entrevista será utilizada com o intuito de apreender as narrativas das práticas dos sujeitos, segundo o ponto de vista do próprio narrador. De acordo com Minayo (1998) a entrevista é uma conversa com finalidade, e o seu roteiro serve como um guia ou um instrumento que facilita e orienta o diálogo entre o entrevistador e o entrevistado. Em especial, a entrevista Página | 316 semi-estruturada, permite que o entrevistador faça perguntas específicas sobre o tema abordado e possibilita que o sujeito dê sentido a narrativa, sem fugir do objeto da investigação (ALVES MAZZOTTI, 2002). Por isso, opto pela entrevista semi-estruturada, porque ela viabiliza ao entrevistado narrar o problema do estudo de forma direcionada, sem se perder nas questões propostas pelo entrevistador. Portanto, para a realização do trabalho de campo serão considerados os princípios éticos da pesquisa científica, tomando cuidado com as informações e com o anonimato dos participantes em todos os momentos da investigação. O trabalho de campo somente ocorrerá após ser submetido e avaliado pelo COEP/UFMG. Palavras Chave: Construção de saberes; Lazer; Segurança Pública. Referências ALVES-MAZZOTTI, A. J; GEWANDSZNAJDER, F. O método nas ciências naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo: Pioneira Thomson, 2ª ed. 2002. BARDIN, L. Análise de Conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011. Página | 317 CAMPOS, C. J.G. Método de análise de conteúdo: ferramenta para a análise de dados qualitativos no campo da saúde. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, n.57, p.611-614, set./out., 2004. ISAYAMA, H. F. (org.). Lazer em Estudo: Currículo e Formação Profissional. Campinas: Papirus, 2010. MARCELLINO, N. C. Estudos do lazer: Uma introdução. 4ª ed. Campinas: Autores Associados, 2006. MINAYO, M. C. S. O desafio do Conhecimento: Pesquisa Qualitativa em Saúde. São PauloRio de Janeiro: Hcitec-Abrasco, 1998. PARAÍSO, M. A. Currículo e Formação Profissional em Lazer. (org.) ISAYAMA, H. F. Lazer em Estudo: Currículo e Formação Profissional. Campinas: Papirus, 2010. cap. 2, p. 27-58. SEDS. Programa de Controle de Homicídios: Metodologia. Belo Horizonte, julho. 2009 Página | 318 1 - EMPREGO DOMÉSTICO: UM ESTUDO SOBRE RECONHECIMENTO SOCIAL Carmem Lícia Macedo66 Yara Frizzera Santos1 Marcia da Silva Anunciação67 Fabrícia Melato Carvalho68 Mônica Alves Silva3 Pedrina Gomes Olegário Leite3 Valéria Bastos3 1 INTRODUÇÃO Os “afazeres domésticos” são, de longa data, responsabilidade das mulheres. Como que inscritos na natureza feminina, estas atividades dispensam preparação prévia e competência 66 Professoras da Escola de Serviço Social da PUC Minas Assistente social 68 Estagiárias de Serviço Social 67 Página | 319 específica. Movidas pelo amor, são doação pura, sem expectativa de retribuição. No entanto, o fato de que em todos os sistemas sociais hierarquizados haja trabalhadores remunerados encarregados das tarefas domésticas comprova sua efetiva utilidade social, resultando na necessidade de uma regulação por parte do estado. Assim é que no Brasil o empregado doméstico foi definido pelo Ministério do Trabalho e Emprego como “aquele maior de 16 anos que presta serviços de natureza contínua (frequente, constante) e de finalidade não-lucrativa à pessoa ou à família, no âmbito residencial”. Incluem-se nesta categoria tanto os empregados mensalistas, como os diaristas, sendo o primeiro caso aqueles que recebem um salário mensal, e o segundo os empregados que prestam serviços em mais de um domicílio, e que são remunerados por dia trabalhado” (DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS, 2006, p. 12). Para além desta definição, o emprego doméstico no país tem algumas características específicas: a) entre o empregado e o empregador prevalecem relações interpessoais que explicam em parte o alto índice de informalidade; b) as domésticas são na sua maioria mulheres, negras e de baixa escolarização: 95.6% dos empregados domésticos na Região Metropolitana de Belo Horizonte são mulheres e, dentre a população feminina ocupada, 19.6% são domésticas, percentual que sobe para 24.7% quando se toma como base apenas a população feminina negra; 63.3% das empregadas da RMBH têm o ensino fundamental incompleto ou são alfabetizadas sem escolaridade. (DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS, 2006). O emprego doméstico conjuga três estruturas de poder: a estrutura de classe social, a dominação de gênero e a divisão racial do trabalho, configurando uma das atividades laborais mais Página | 320 desvalorizadas no mapa da divisão social do trabalho, o que se reflete nos baixos salários, no desrespeito aos direitos trabalhistas, no não-reconhecimento social e desprestígio da ocupação. Os vários aspectos que caracterizam a condição de subalternidade das empregadas domésticas modelaram o objeto de nossa pesquisa, que considerou as desigualdades e as relações de dominação e opressão nas suas dimensões econômica e simbólica, nas quais o sexo e a raça são marcadores importantes. Nesta perspectiva, situam-se as pesquisas de Jurema Brites (2003, 2004, 2007) que mostram a ambiguidade das relações de trabalho entre patroas e empregadas, acentuando “a atitudes dos patrões em relação às empregadas domésticas tendem a ser pouco profissionais: burlam a concessão de direitos substituindo-os por doações extra salariais” (BRITES, 2004, p. 1). O emprego doméstico localiza-se, assim, num espaço híbrido entre o trabalho formal, regido pelos direitos e as relações de aliança, de amizade e de camaradagem. Propusemo-nos a pesquisar as representações sociais das empregadas domésticas sobre seu trabalho, entendendo que compreender a compreensão das empregadas domésticas é uma forma de apreender as formas, muitas vezes sutis e camufladas, de como se produz e reproduz as desigualdades inscritas neste campo laboral. As múltiplas dimensões e as contradições do emprego doméstico constituíram, assim, o pano de fundo a partir do qual delimitamos o objeto da pesquisa. O trabalho de campo foi feito no 2º semestre de 2009, com a realização de 5 entrevistas semi estruturadas e de 1 grupo focal com 7 domésticas mensalistas, com idade variando entre 28 e 58 anos. Página | 321 2 RESPEITO E DESRESPEITO; RECONHECIMENTO E HUMILHAÇÃO Ser respeitada, valorizada, tratada como gente, considerada um ser humano, com dignidade, são expressões que ouvimos de todas as depoentes, especialmente quando definem o que é uma boa patroa e ou quando comparam as condições de trabalho atuais com outras anteriores, em que foram desrespeitadas, humilhadas. O salário mínimo e a carteira assinada são sinais de respeito que as fazem se sentir como uma funcionária, empregada, registrada e com tudo reconhecido, graças a Deus (Vania, 32 anos). Ao valorizarem o salário e a carteira elas sabem do que estão falando, porque quase todas vivenciaram situações de exploração e humilhação, especialmente quando começaram a trabalhar como doméstica, em geral ainda criança ou adolescente. Vania começou a trabalhar como doméstica aos 10 anos, e durante quase três trabalhei sem receber um real; a única coisa que recebi era a moradia e a comida; sem receber nada, sem roupa, sem sapato; era uma situação de humilhação mesmo, Maria João, 56 anos, começou a trabalhar aos 10 e se lembra com muita emoção de como era tratada nos seus primeiros empregos, ainda no interior: eles faziam assim de mim... assim, como se fosse uma escrava. Eu trabalhava, trabalhava, quando era de noite mandava eu lavar carro. Se hoje são respeitadas, atribuem ao fato de saberem se impor, reconhecer seu próprio valor: já sofri muita humilhação, mas foi uma coisa boa pra eu amadurecer, pra eu me preparar, porque hoje eu conheço meus direitos (Vania). Página | 322 As entrevistadas nos mostraram a pertinência da teoria de Axel Honneth quando sustenta que o respeito aos direitos repercutem na subjetividade do indivíduo na forma de sentimentos de auto-respeito: eu consigo resolver a minha vida sozinha, num precisa de ajuda de ninguém é com esse dinheiro que sustento minha casa, minha filha. Eu faço com muita boa vontade (Vania). Para Maria João, o salário significa poder presentear, sentir-se na posição de poder doar, invertendo assim, a carência e a dependência que marcam a condição do pobre: a coisa mais linda, uma maravilha é o dia que você recebe o seu pagamento. Seu suor do trabalho. Aí eu posso comprar um presente, ou então... uma coisa para mim mesmo. No entanto este sentimento de respeito frequentemente encontra seus limites: nos testes de honestidade a que são submetidas, como a exposição voluntária de dinheiro e de joias pela casa e as revistas nas bolsas e sacolas; mais sentidas são as acusações imediatas, de modo claro ou insinuao quando alguma coisa tida como de valor sumiu ou não está no lugar que se esperava que estivesse. Estas e outras experiências de desrespeito e humilhação são conhecidas por todas. As formas variam mas, na opinião de Vania, a empregada doméstica, na maioria das casas, ela é tratada como um animal. Não, ela é tratada como um lixo qualquer. Elenice: Dentro da casa de família, às vezes falam coisas que você se sente aquela pessoa lá em baixo, a gente se sente humilhada. Suportar gracinhas, ouvir piadas ou ser alvo de assédio sexual, com palavras, gestou ou abordagens físicas, são situações entendidas como de profundo desrespeito, que muitas vivenciam pessoalmente, mas todas sabem de relatos de outras (e muitas) colegas de profissão ou de relatos de suas mães quem também foram (ou são) empregadas. Repetem Página | 323 práticas escravocratas e machistas, resistentes às mudanças nas relações de gênero e aos avanços nas relações raciais. Confirmam que a violência física e a violência simbólica, são produtos de um trabalho incessante de reprodução (BOURDIEU, 1999). A seleção do que a empregada pode ou não pode comer, que vai da proibição de certos alimentos como yogurt e frutas importadas, até a interdição de comer a comida do dia, ou seja, a empregada só pode comer os restos do dia anterior são sentidos como humilhação e desrespeito. 3 CONCLUSÃO As domésticas entrevistadas relatam relações com seus patrões marcadas por ambiguidades que misturam cumplicidade, reconhecimento com desrespeito, desprezo e humilhação. Ao favorecer a naturalização da posição de subalternidade e a reprodução da desigualdade são a face negativa do reconhecimento social. Honneth refuta esta interpretação. Para ele, são práticas de afronta à dignidade dos sujeitos que, ao serem assujeitados, são privados da forma legítima de reconhecimento social, privados, assim, da condição para a formação de sua autonomia. Não inscritas na teoria do reconhecimento, que “jamais pode ser suspeito de funcionar como uma forma de dominação” (HONNETH, 2006, p. 247). Referências BOURDIEU, 1999 Brites (2003 Página | 324 BRITES, Jurema. Afeto e desigualdade: gênero, geração e classe entre empregadas domésticas e seus empregadores. Cadernos Pagu, Campinas, n. 29, p. 91-109, jul./dec. 2007. BRITES, Jurema. Serviço doméstico: um outro olhar sobre a subordinação: Cinderela domesticada: gênero e reprodução da desigualdade na sociedade brasileira. In: AZEVEDO, M.R.; MALUF. S. (Org.). Gênero, cultura e poder. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2004. p. 111-132. DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS. O emprego doméstico: uma ocupação tipicamente feminina. Brasília: DIEESE, 2006. FRASER. Nancy. Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da justiça na era pós-socialista. In: SOUZA. J. Democracia hoje: novos desafios para a teoria política contemporânea. Brasília: UNB, 2001. HONNETH, Axel. La société du mépris: vers une nouvelle: théorie critique. Paris: La Découverte, 2006. HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34, 2003. SENNET, Richard. Respeito: uma formação do caráter em um mundo desigual. Rio de Janeiro: Record, 2004. SOUZA, J. Uma teoria crítica do reconhecimento. Lua Nova, São Paulo, n. 50, p. 133-158, 2000. Página | 325 2 - IDOSO: RECONHECIMENTO DE UMA AUTONOMIA CONTRADITÓRIA Jefferson Pinto Batista69 Este artigo discute o paradoxo da relação entre o idoso como provedor econômico do domicílio e sua busca pelo reconhecimento. Os idosos brasileiros formam um grupo variado. Aquela imagem tradicional do velho como um problema é deixado de lado, já que se tornam responsáveis pela manutenção de 25% dos domicílios nacionais, ou seja, 47 milhões de domicílios. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), baseado no Censo de 2000, demonstra que os idosos representam 14,5 milhões de pessoas, ou seja, 8,6% da população total do país. O Instituto considera idoso, pessoas com 60 anos ou mais, e este é o mesmo limite apresentado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para os países em desenvolvimento. Em 1991, os idosos correspondiam a 7,3% da população. O envelhecimento da população brasileira é reflexo do aumento da expectativa de vida. Isso foi possível devido aos avanços no campo da saúde e da redução da taxa de mortalidade e aumento da taxa de natalidade, entre outros fatores. Com isso, a expectativa de vida da população brasileira hoje, é em média de 68,6 anos, ou seja, 2,5 anos a mais do que no início da década de 90. 69 Bacharel em Serviço Social pela PUC Minas ‐ Conselho Regional de Serviço Social – 6ª Região Página | 326 O idoso é importante no país, mas essa relevância não se resume apenas à crescente participação dele no total da população. Grande parte dos idosos hoje são chefes de família, e sua a renda na maioria dos casos é maior do que dos adultos não idosos. O Censo de 2000 constatou que 62,4% dos idosos, e 37,6% das idosas são chefes de família. Conforme o IBGE de 2007, mais de 50% das famílias possui idoso e o mais curioso é que o sustento vem deles por dois motivos, o primeiro é que os jovens não têm emprego e o segundo é que os adultos ganham pouco. Os dados do IPEA 2000 apontam um número significativo de domicílios em que o idoso aparece como provedor e em outros momentos contribuindo financeiramente e dispensando cuidados à família. Embora o idoso seja provedor econômico do seu domicílio, ele perde status, autoridade e reconhecimento, resultando na prática de violência, de estigmas, de negligências. O Estatuto do Idoso, Lei Federal 2003, determina no capítulo dois em seu inciso terceiro que: “é dever de todos zelar pela dignidade do idoso, colocando-o a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.” (fonte?) Considerando que os idosos representam grande parte da população e que são responsáveis pelo domicílio, então como fica a questão do reconhecimento? Será que a família, a sociedade e o Estado estão assegurando os direitos dos idosos, tais como: cidadania, participação social na comunidade, dignidade e a vida como previstos no Estatuto do Idoso? A conquista dos bens materiais leva ao reconhecimento? O reconhecimento é fruto do trabalho? Será que a atitude perante os idosos advém daquilo que está embutido na sociedade? Será que o comportamento e Página | 327 as atitudes advêm daquilo que se acredita? Será que se a sociedade acreditar que o idoso é incapaz para o trabalho eles terão o reconhecimento que buscam? Em determinadas culturas, o velho é considerado como o dono da sabedoria, em outros tipos de culturas, a velhice já é vista como um processo natural e biológico dos seres humanos que se origina com o passar do tempo. Isso muda conforme a sociedade e a cultura, enfim, tudo depende do pensamento social e da forma que estes percebem os fenômenos. Vários autores como o filósofo e sociólogo alemão Axel Honneth (2003) acerca do entendimento do que vem a ser o reconhecimento. Ele afirma que os indivíduos e os grupos formam sua identidade baseados no reconhecimento da sociedade diante do grupo. Nesse sentido procuramos discutir como se dá esse não reconhecimento do idoso provedor do domicílio. Netto (1997) aponta cinco questões positivas quanto ao envelhecimento populacional. Dentre os aspectos positivos, o primeiro é o aumento da expectativa de vida de 80 anos nos países desenvolvidos, e 70 anos nos demais países. A segunda questão favorável ao envelhecimento populacional é com relação ao convívio familiar que admite o relacionamento entre várias gerações. Uma terceira questão de relevância tem a ver com o desfrute do tempo livre que os aposentados possuem. A quarta é a valorização do idoso que passa a participar mais das atividades sociais e culturais. E a última implicação favorável, é a diminuição da marginalidade e discriminação contra os idosos. Parte significativa da renda familiar emerge das aposentadorias e pensões, uma justificativa para a questão é a estabilidade do rendimento, uma vez que, benefícios e pensões não estão sujeitos às crises econômicas por estarem assegurados na Constituição Federal de 1988. Página | 328 As aposentadorias e pensões têm aparecido em pesquisas como a principal fonte de renda dos idosos, todavia não é a única, uma vez que os idosos ainda permanecem no mercado de trabalho. Conforme Berzins (2003) 36% da renda total do idoso homem ainda vem do trabalho e 10% nos caso das mulheres, a predominância é a pensão. Berzins (2003) destaca que a crise econômica e de desemprego que os países sofreram nas últimas décadas alteraram de forma significativa as condições de vida dos brasileiros. O retorno de filhos casados ao seio da família leva um aumento às despesas dos pais e avós. O que se observa com isto é que neste caso a renda do idoso contribui e muito com a estabilidade da família, pensando no não rompimento dos laços familiares. Os idosos aposentados por terem um dinheiro certo todo mês mantêm a riqueza do país. E essa alavancada na economia se deve aos lugares com acessibilidade, a exemplo o shopping com portas largas para cadeiras de rodas se for o caso, as vitrines com letras maiores, a facilidade no acesso e atendimento, aos carros com comandos automáticos, aos restaurantes com pouco sal e açúcar nos alimentos para a dieta. As mudanças estruturais também dão mobilidade ao idoso, como calçadas, saneamento, habitação, praças que refeitas tornam-se espaços comunitários de encontro levando os idosos a deixarem de ficar somente em casa. Marília Rocha (2009) afirma que o comportamento do idoso vai mudar quando ele perceber a oportunidade, achar o que fazer e como fazer, a exemplo as viagens como o Programa Melhor Idade criado há dois anos para incentivar as vagens deles pelo país. Ou seja, bastam as possibilidades para que o idoso ganhe autonomia. No livro “A velhice” Simone de Beauvouir (1990) discute detalhadamente a condição dos velhos, que ela define como “escandalosa”. Além disso, a autora ressalta os problemas Página | 329 enfrentados pelos velhos, como a dificuldade de encarar a própria velhice acompanhada de suas limitações e angústias. O livro “A Velhice” foi escrito na década de 70 e fala sobre o processo de envelhecimento e de críticas referentes à atitude da sociedade com os idosos. Propõe uma mudança radical na sociedade, de forma a desmistificar as hipocrisias que cercam a velhice. Mesmo com as mudanças sociais, ainda persiste a violência social que conforme Minayo (2003) em geral é um fenômeno que não ocorre só no Brasil, é um fenômeno mundial. O tratamento que é dado ao idoso é contraditório em cada sociedade. O entendimento negativo sobre o envelhecimento trás a ideia de que a pessoa vale a quantidade que produz e ganha, com isso a exclusão do mercado de trabalho para os velhos se torna cada vez maior. A compreensão positiva do envelhecimento é aquela que valoriza o idoso, considerando a história, a sabedoria, enfim, vem da convivência. Charles Taylor, Axel Honnet e Nancy Fraser, são os principais autores que trabalham o tema do reconhecimento como sendo uma teoria crítica da sociedade contemporânea. O que caracteriza esse processo é uma nova configuração da ordem mundial globalizada e multicultural, na qual as lutas por redistribuição são paulatinamente substituídas por reconhecimento, ou seja, os conflitos de classe são suplantados por conflitos de status social, advindos da dominação cultural (MATTOS, 2004). O que é desafiante na questão do envelhecimento populacional é a promoção de um envelhecimento funcional e que prolongue os anos de vida com qualidade. Para isso é necessário gerar novas maneiras de robustecer as políticas e os programas para elevarem uma sociedade mais unida, harmoniosa, inclusiva e que reconheça o direito a vida longa e a dignidade. Página | 330 Antes os idosos eram assistidos, hoje eles assistem, em outras palavras, eles dependem da família com relação ao acolhimento, a casa, enfim, mas mesmo assim a família que se torna dependente deles economicamente. Simone de Beauvoir destaca que [...] A atitude dos idosos depende de sua opinião geral com relação à velhice. [...] Toda uma tradição carregou essa palavra de um sentido pejorativo ela soa como um insulto. Assim, quando ouvimos nos chamarem de velhas, reagimos com cólera. (BEAUVOIR, 1990, PÁGINA). Palavras-chave: Idoso. Envelhecimento. Provedor. Domicílios. Reconhecimento. Referências BARROS, Myriam Moraes Lins de. Velhice ou terceira idade? Estudos antropológicos sobre identidade, memória e política. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2000. BEAUVOIR, Simone de. A velhice. o mais importante ensaio contemporâneo sobre as condições de vida dos idosos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. Página | 331 BERZINS (2003) BRASIL. Constituição Federal de 1988 BRASIL. O Estatuto do Idoso, Lei Federal 2003 CAMARANO, Ana Amélia; KANSO, Solange; E MELLO, Juliana Leitão. Como vive o Idoso Brasileiro? In: CAMARANO, Ana Amélia. (Org.). Muito além dos 60: os novos idosos brasileiros. Rio de Janeiro: IPEA, 1999. CAMARANO, Ana Amélia; MEDEIROS, Marcelo. Introdução. In: CAMARANO, Ana Amélia. (Org.). Muito além dos 60: os novos idosos brasileiros. Rio de Janeiro: IPEA, 1999. p. 9. CAMARANO, Ana Amélia; PASINATO, Maria Tereza. Envelhecimento, condições de vida e política previdenciária: como ficam as mulheres? Rio de Janeiro: IPEA, 2009. DEBERT, Guita Grin. A antropologia e o estudo dos grupos e das categorias de idade. In: BARROS, Myriam Moraes Lins de. Velhice ou Terceira Idade. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2000. p.49 - 69. DESLANDES, Suely Ferreira. Pesquisa social: teoria método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 1994. ECKERT, Cornelia. A vida em outro ritmo. In: BARROS, Myriam Moraes Lins de. Velhice ou terceira idade. 2.ed. Rio de Janeiro: FGV, 2000. p.169-207. Página | 332 FALEIROS, Vicente de Paula. Saber profissional e poder institucional. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2001. GRUBITS, Sonia; NORIEGA, José Angel Vera. Método qualitativo: epistemologia, complementaridades e campos de aplicação. São Paulo: Vetor, 2004. HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. Trad. Luiz Repa. São Paulo: Ed. 34, 2003. IAMAMOTO, Marilda Villela. O serviço social na contemporaneidade: trabalho e prática profissional. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2007. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo de 2000 KEHL, Maria Rita. Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Campanha das letras, 2005. MASCARO, Sonia de Amorim. O que é velhice. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 2004. (Coleção Primeiros Passos). MATTOS, 2004 MINAYO, Maria Cecília de Souza. Violência contra idosos: relevância para um velho problema. Cadernos de Saúde Pública. Rio de Janeiro, v.19, n.3, p.783-791, maio/jun. 2003. NAÇÕES UNIDAS, Plano de ação internacional para o envelhecimento. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2003. NERI, Anita Liberalesso. Idosos no Brasil: vivências, desafios e expectativas na terceira idade. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2007. Página | 333 Netto (1997) NICACIO, Erimaldo. Serviço social e subjetividade. Rio de Janeiro: UFRJ, 2006. PEIXOTO, Clarice. Entre o estigma e a compaixão e os termos classificatórios: velho, velhote, idoso, terceira idade... In: BARROS, Myriam Moraes Lins de. Velhice ou Terceira Idade. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2000. p.69-84. RICHARDSON, Roberto Jarry. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1999. ROCHA, Marília (2009) ROKEACH, Milton. Crenças, Atitudes e Valores: uma teoria de organização e mudança. Trad. Ângela Maria Magnan Barbosa. Rio de Janeiro: Ed. Intreciencia, 1981. 5 e 6 cpts. A natureza das atitudes/mudança de atitude e mudança comportamental. P.89 – 127. SAAD, Paulo Murad. Transferência de apoio entre gerações no Brasil: um estudo para São Paulo e Fortaleza. In: CAMARANO, Ana Amélia. (Org.). Muito além dos 60: os novos idosos brasileiros. Rio de Janeiro: IPEA, 1999. p. 252. VIEIRA, Isabela. Maioria dos idosos sustenta o lar onde mora, revela pesquisa. Agência Brasil. Rio de Janeiro, 25 jun. 2009. Disponível em: <http://aposentadobeminformado. wordpress.com/?s=a+dependencia+da+familia+na+aposentadoria+do+idoso> Acesso em: 13 out. 2010. Página | 334 3 - ABUSO SEXUAL INTRA-FAMILIAR E PACTO DO SILÊNCIO: FRONTEIRAS DA CONVIVÊNCIA E CONIVÊNCIA Cirlene de Jesus Costa70 Lívia Vallory Figueiredo1 Introdução Este trabalho tem sua origem em pesquisa desenvolvida nas disciplinas de Oficina de Pesquisa em Serviço Social I e II do curso de Serviço Social da PUC Minas – Coração Eucarístico, em Belo Horizonte. Vincula-se à necessidade de compreender o processo de convivência e conivência do abuso sexual contra crianças e adolescentes, enquanto produto do pacto de silêncio entre abusador e vítima, gerando um reconhecimento lento pelo fato de acontecer, dominantemente, no ambiente familiar. A maioria das cidades brasileiras conta com serviços sociais, disponibilizados pelas políticas públicas, que poderiam representar canais de expressão e visibilidade de vivências do abuso sexual. Sabe-se que essa prática expressa um modo de viver presente nas relações familiares ocorrendo, silenciosa e oculta, dificultando o acesso às informações. Isto traz consequências para o efetivo desenvolvimento das políticas públicas, uma vez que ficam limitadas pela falta de denúncias. 70 Escola Serviço Social PUC Minas Página | 335 As referências teóricas que nortearam a compreensão dessa questão estão ancoradas em categorias de análise resgatadas de Azevedo e Guerra (1988), Guerra (1985), Faleiros (2003), Saffioti (1989), Vitiello (1989) e dizem respeito à vitimização sexual e o pacto de silêncio; ao abuso sexual, expressão de uma relação de força imposta e ao feminino e à subalternidade de gênero. A pesquisa, de natureza qualitativa, realizou uma aproximação a profissionais da área de Psicologia e Serviço Social, do Programa de Atendimento à Família e ao Indivíduo (PAEFI) no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) e a conselheiras tutelares que operam com esse público no Conselho Tutelar na Regional Noroeste de Belo Horizonte. O critério para definição dessa Regional vinculou-se ao fato de, nos últimos anos, apresentar o maior número de casos de violência sexual, segundo pesquisas realizadas por Ávila (2007). Vitimização sexual e o pacto de silêncio Recentemente a prática do abuso sexual vem ganhando visibilidade junto aos órgãos governamentais, não governamentais e movimentos sociais, mas são ainda poucos os dados estatísticos existentes. Essa escassez tem diferentes causas, muitas ligadas aos sentimentos que envolvem essa vivência, como a culpa, o medo e a vergonha por parte das vítimas. O abuso sexual está relacionado a um “pacto de silêncio” entre vítima e abusador, dificultando a obtenção de dados mensuráveis que correspondam à realidade dos fatos e Página | 336 que sirvam de instrumento para estudos e ações que abordem essa questão. Segundo Vitiello (1989) a frequência dos abusos é difícil de ser estabelecida por existir uma verdadeira conspiração de silêncio. As pessoas ocultam as informações, pois além de envolver sentimentos difíceis de serem expostos, elas temem repercussões familiares, profissionais e sociais que podem vir a acontecer. Os depoimentos das entrevistadas mostraram essa realidade. Porque a partir do momento que ela cria um vínculo e é ameaçada, a criança não dá conta de elaborar isso. Imagina uma criança sendo ameaçada? Nossa, ela acredita fielmente nele e que ele vai mesmo matar, então ela não dá conta de dizer isso. Isso é o pacto de silêncio. (Paula, PAEFI, assistente social, 6 anos de trabalho). A dependência financeira e emocional em relação ao abusador reforça o silenciamento e envolve a família como um todo: [...] a própria pessoa não quer se expor, porque depende daquele marido financeiramente, tem uma dependência emocional. Eu atendi um caso de abuso aqui, a mãe confirmou o abuso, o pai passava a mão na menina, a mão nos seios, falava que ia casar com a menina. A menina tinha 14 anos. Essa mãe falou assim: eu preciso dele, porque Página | 337 ele imobiliou (sic) o meu apartamento, a gente tem dois carros pra pagar, como eu vou fazer? (Marta, conselheira tutelar, 2° grau completo, 2 anos de trabalho). O pouco crédito que alguns adultos dão às declarações das crianças vítimas de abuso, fazendo crer que as revelações não passam de fantasias e histórias infantis, também culmina na convivência silenciada, constituindo uma condição a mais de perpetuação da prática do abuso sexual. O abuso sexual: uma relação de força imposta Sofrido por crianças e adolescentes, o abuso sexual envolve violência, muitas vezes naturalizada, sendo interpretada, frequentemente, como inerente às relações interpessoais entre adultos e crianças. São relações de força hierárquicas e assimétricas. A criança submete-se ao poder do adulto, que a coage para satisfazer seus desejos, exigindo cumplicidade. O contexto sociocultural, econômico e político existente em nossa sociedade, expresso no convívio social e na realidade das famílias, faz com que sejam incorporados valores marcados pelo patriarcalismo, machismo, por relações de poder e desigualdade de gênero. Para Faleiros (2003) o autoritarismo, o machismo, os preconceitos se definem nas relações de poder presentes no cotidiano familiar e se manifestam nas relações afetivas e de sexualidade. Página | 338 Alcançada a relação de confiança entre vítima e abusador, esse passa a exercer formas de sedução/ameaça e dominação sobre a criança justificando seu ato violento. Para Saffioti (1989) o homem mostra-se detentor de poder sobre a criança e a mulher, estando o conceito de violência sexual associado ao de dominação. Essas relações de poder também foram extensamente percebidas nas falas das entrevistadas: [...] tem essa questão do poder econômico, tem essa questão do poder do pai, o poder do adulto, ele que faz as coisas. Existe o poder do adulto e do homem. É claro quando atendemos alguns casos, as mães relatam que o homem é que sustenta a casa, que é o provedor, né? (Marta, conselheira tutelar, 2° grau completo, 2 anos de trabalho). Para Azevedo e Guerra (1988) esse processo de violência sexual está ancorado no reconhecimento da existência de um padrão adultocêntrico dominante, que seria o padrão assimétrico das relações sociais. O feminino e a subalternidade de gênero Segundo Faleiros (2003) a trajetória do abuso sexual envolve valores machistas, de inferioridade de gênero, componentes do modo como é configurada a sociedade. Saffioti Página | 339 (1989) relaciona a subalternidade de gênero à visão machista impregnada, historicamente, em nossa cultura, expressando um sistema de dominação-exploração. O abusador geralmente é um adulto, então é mais forte. E tem ele um papel de pai ou padrasto. Exerce mesmo um domínio. Muitas vezes vai facilitar o abuso. […] De o abusador ser mais forte, mais forte fisicamente, é mais velho tem mais força do que a criança então consegue dominar ela com mais facilidade. Ou então consegue persuadir essa criança com mais facilidade, vai seduzindo, ou mesmo ameaçando. (Carla, PAEFI, psicóloga, 3 anos de trabalho). As ameaças, em geral de agressão e morte, são direcionadas principalmente à mãe, mostrando a vinculação da violência sexual articulada à dominação do homem e, consequentemente, o poder masculino em relação à mulher e à criança. Conclusão A reflexão realizada acerca das questões que envolvem o abuso sexual constatou que o pacto de silêncio gera um processo sem fronteiras de convivência e conivência com sua prática, tanto no interior das famílias quanto das políticas públicas. Essas, não contando com dados estatísticos e informações, convivem com sua existência, e são, de Página | 340 algum modo, coniventes com essa prática, “justificadas” pelas limitações para seu enfrentamento. Esse processo contribui para a internalização, por parte da vítima e de suas famílias, de sentimentos de culpa, medo e vergonha, e a sua vivência continuada vai constituindo um modo de vida marcado pela conivência. Os autores pesquisados mostram que nessa relação de silêncio existe uma conspiração de segredo mesclando confusamente seduções e ameaças, reafirmando a valorização da figura masculina e as relações de poder em sociedade. As políticas públicas não têm oferecido o acompanhamento necessário. O atendimento dos profissionais fica reduzido ao acolhimento inicial, dificultando um trabalho mais qualificado. A expectativa dos que necessitam atendimento é que haja disponibilidade de escuta e orientação de profissionais experientes. Há necessidade, portanto, de desenvolver políticas públicas que visem acompanhar todo o processo vivido, incluindo suas consequências de ordem psicológica e social. Palavras-chave: Abuso sexual. Família. Pacto do silêncio. Políticas públicas. Referências ÁVILA, Luciene Leão. A dimensão espacial da violência contra a criança e o adolescente em Belo Horizonte - 2005: vítimas, violadores e rede de proteção. 2007. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Programa de Pós-Graduação Página | 341 em Tratamento da Informação Espacial, Belo Horizonte. Disponível em: <http://www.biblioteca.pucminas.br/teses/TratInfEspacial_AvilaLL_1.pdf>. Acesso em: 29 mar. 2012. AZEVEDO, Maria Amélia; GUERRA, Viviane Nogueira Azevedo. Pele de Asno não é só história...: um estudo sobre vitimização sexual de crianças e adolescentes em família. São Paulo: Roca, 1988. FALEIROS, Eva T. (Org.). O abuso sexual contra crianças e adolescentes: os (des)caminhos da denúncia. Brasília: Presidência da República, Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2003. GUERRA, Viviane Nogueira Azevedo. Violência de pais contra filhos: procuram-se vítimas. São Paulo: Cortez, 1985. SAFFIOTI, Heleieth I. B. Exploração sexual de crianças. In: AZEVEDO, Maria Amélia; GUERRA, Viviane Nogueira Azevedo (Org.). Crianças vitimizadas: a síndrome do pequeno poder. São Paulo: Iglu, 1989. p. 49-95. VITIELLO, Nelson. Vitimização sexual: consequências orgânicas. In: AZEVEDO, Maria Amélia; GUERRA, Viviane Nogueira Azevedo (Org.). Crianças vitimizadas: a síndrome do pequeno poder. São Paulo: Iglu, 1989. p. 123-167. Página | 342 4 - ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM À MULHER VÍTIMA DE VIOLÊNCIA SEXUAL NOS SERVIÇOS PÚBLICOS, DE SAÚDE,EM BELO HORIZONTE: REFLETINDO SOBRE A POLÍTICA DE PROTEÇÃO NA SAÚDE DA MULHER. Bárbara Francis Pereira da Silva Elizabete Maria da Silva Emmanuelle Xavier Silva Jéssica Padrão Silveira Robson Figueiredo Brito Projeto de Pesquisa Qualitativa, em Saúde, que aborda como temática de estudo à Assistência de Enfermagem, à mulher, vítima de violência sexual, através dos serviços públicos de saúde, em Belo Horizonte, efetuado por meio da análise de publicações científicas e, entrevistas com enfermeiros, trabalhadores do SUS, embasada na Metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo (LEFREVE e LEFREVE, 2010). Elegeuse como problema de pesquisa a seguinte questão: como os Enfermeiros compreendem sua assistência à mulher, vítima de violência sexual, nos serviços públicos, de saúde, em Belo Horizonte? Esta pesquisa encaixa-se na área temática de proteção social, políticas sociais e modos de vidas urbanos, visto que a análise das publicações científicas incluídas ou inscritas pela Assistência de Enfermagem e, as respostas dos enfermeiros, presentes Página | 343 nas entrevistas, a respeito do sentido desta assistência à mulher, vítima de violência sexual. Dessa forma, para compreensão do trabalho de prestação de cuidado da Enfermagem, seus atores, os enfermeiros, devem ser capazes de acolher, prestando uma assistência humanizada, integral, à mulher violentada, de maneira que proporcione um atendimento que lhe garanta possibilidade de manter sua dignidade de Pessoa, plena de Direitos, que foi abalada, por esta situação traumatizante. Tomando como referência a Organização Mundial da Saúde, citado por Oshikata (2011), a violência sexual pode ser definida como qualquer forma de imposição ou tentativa de ato sexual sem o consentimento da mulher, utilizando-se métodos coercivos e intimidatórios. Desse modo, de acordo com Brasil (2005), a violência sexual é a mais comum entre “as violências,” o que acarreta, consequentemente, na acentualidade da vulnerabilidade feminina. Os serviços de saúde são de extrema importância pela atenção às mulheres vítimas de violência sexual, pois além da assistência que essas necessitam, esses serviços possuem a possibilidade de detectar a agressão ocorrida, uma vez que existe, em tese, uma grande cobertura e contato com as mulheres, facilitando o reconhecimento e o acolhimento dessas vítimas de maneira eficaz (SCHRAIBER, 2002). A violência sexual feminina é um problema de grande relevância para a Saúde Pública, visto que constitui uma das principais causas da morbidade e mortalidade feminina, no país (HIGA, et. al, 2008). Além de problemas psicológicos, a violência sexual pode ocasionar a gravidez indesejada, doenças sexualmente transmissíveis e, infecção pelo HIV que podem alterar, significativamente, os padrões de qualidade de vida da mulher (BRASIL, 2005). O Referencial Teórico, contido neste projeto de pesquisa, é dividido em quatro tópicos Página | 344 subsequentes, que procuram caracterizar qual é o perfil da mulher vítima de violência sexual e, como é realizado o atendimento dessas mulheres, na cidade de Belo Horizonte. No primeiro tópico discorre-se sobre a definição de violência sexual que segundo Oshikata (2011), é uma prática não consensual de conjunção carnal imposta por meio de atos agressivos, violentos e hostis, utilizado pelos agressores como meio de degradar, humilhar, aterrorizar e dominá-las. Raramente é praticado pelo desejo sexual, mas sim, como uma forma de demonstração de poder e controle sobre suas vítimas. Para Brasil (2005) a violência contra as mulheres em todas as suas formas (doméstica, psicológica, física, moral, patrimonial, sexual, tráfico de mulheres) é um fenômeno pelo qual atinge mulheres de diferentes classes sociais, origens, regiões, estados civis, escolaridade ou raças, e o Estado Brasileiro deve adotar políticas de caráter universal, acessíveis a todas as mulheres, englobando as diferentes modalidades, através das quais, ela se expressa. No segundo tópico apresenta os locais de atendimento às mulheres vítimas de violência sexual: os profissionais de saúde; e em especial a Enfermagem, podem detectar sinais dessa violência, por meio de queixas das pacientes, em função do atendimento adequado a essa situação. A violência sexual é um tema relevante para a saúde pública, de maneira que afeta, efetivamente, a qualidade de vida da mulher que sofre este tipo de violência. É considerada como violência doméstica, a perpetração do parceiro íntimo da vítima, está associada às queixas das mulheres, nos serviços públicos de saúde, e o mesmo aparecendo, na manifestação de sintomas como cefaléia, distúrbios gastrointestinais, sofrimento psíquico, uso abusivo de álcool e drogas, tentativa de suicídio; depressão que, frequentemente, passam despercebidas pelos profissionais que não atentam para esse Página | 345 tipo de diagnóstico. (ANDRADE; FONSECA, 2008, p. 592). Os serviços de saúde de Belo Horizonte contam como forma de acompanhamento do número desses casos e, dessa forma, o desenvolvimento de ações de promoção: 145 unidades básicas UPAS (Unidades de Pronto Atendimento) Barreiro, Leste, Oeste, Nordeste, Norte, Pampulha e Venda Nova; e os Hospitais: Hospital de Pronto Socorro João XXIII, Hospital Odilon Behrens, Hospital das Clínicas da UFMG, Hospital Júlia Kubitschek e Maternidade Odete Valadares (PASSOS, 2010, p. 19). Este atendimento à mulher deve ser realizado de forma interdisciplinar, multiprofissional e interinstitucional de maneira que o cuidado seja realizado de forma integral, em consonância, com as diretrizes do SUS: Universalidade, Equidade e Integralidade, valorizando a vítima como ser biopsicosociocultural e de maneira a atender suas demandas de saúde. Os profissionais devem trabalhar segundo a ética e sigilo durante o atendimento, de forma a conseguir a confiabilidade da paciente para que a mesma possa dar sequência ao tratamento (PASSOS, 2010, p.21). No terceiro tópico aborda-se o quadro de violência sexual, em Belo Horizonte, disposto com o propósito de demonstrar quais são as características das mulheres que são vítimas de violência sexual. No estudo realizado por Alves e Coura (2001), pode-se observar o quadro de violência sexual, em Belo Horizonte,por meio dos dados fornecidos pela Secretaria de Estado de Segurança Pública, da Delegacia Especializada de Crimes contra a Mulher e de Buenos Aires utilizados no estudo, devido às semelhanças encontradas. Nos parâmetros biológicos, familiares; sociais e econômicos das usuárias das quatro instituições estudadas encontrou-se a seguinte situação: 88% de usuárias eram do “Benvinda” e 86% da Casa Abrigo; em idade produtiva para o mercado Página | 346 de trabalho, e em idade fértil (16-48 anos). Como cor foi definida duas: “branca” e “nãobranca”, segundo este critério no “Benvinda” e na Casa Abrigo, respectivamente, 38% e 54% para mulheres “brancas” e 54% e 46% para aquelas consideradas “não-brancas”. Quanto à origem dessas mulheres, 73% das usuárias eram migrantes e 86% eram naturais de Belo Horizonte. Segundo esses dados, a minoria delas são analfabetas e a maioria delas tinha trabalho remunerado com vínculo legalizado ou não (ALVES;COURA,2001). Ainda de acordo com estes parâmetros, a maior parte delas vivem em situação de esposa, sendo 49% legalizadas, 24% informais, 5% de viúvas, 10% de solteiras e dessas famílias 50% de mulheres-mães de até dois filhos e 30% com até três filhos. Em média 24% das entrevistadas do “Benvinda” e da Casa de Abrigo declararam serem moradoras da regional do Barreiro, outras 30% em media, moradoras da região oeste da cidade e 5% a 19% são moradoras de outros municípios. Dentre as entrevistadas 63% relataram fazer uso de ansiolíticos e antidepressivos (ALVES,COURA, 2001). O último tópico descrevese a Assistência de Enfermagem, à mulher, vítima de violência sexual, mostrando suas características, seu sentido, no ato de cuidar dessas vítimas, presente na literatura científica. A Enfermagem, como ciência do cuidar tem um papel fundamental para com a mulher, nesta situação, mesmo que, o relato dessa violência aconteça em uma consulta de Enfermagem. Cabe ao profissional, enfermeiro, encontrar no seu saber-fazer a forma de auxiliar a paciente, entendendo seu “desabafo” como um pedido de socorro. Existem profissionais, na saúde, que cometem equívoco ao acreditar que a vitima só está precisando de um atendimento biomédico. Não se trata disso, mas sim, da realização prática do acolhimento, pelos enfermeiros, de um ser humano, com sua história, que foi Página | 347 violentado e ferido, em suas condições essenciais, que se revela no ato de receber, escutar e tratar, holisticamente, esta mulher, presença viva, nos serviços de saúde. (MORAIS et.all,2010). O Projeto em sua primeira parte consistiu pelo levantamento de artigos de periódico relacionados ao assunto, em questão, na Biblioteca Virtual de Saúde, além da leitura do Manual elaborado pelo Ministério da Saúde, que subsidia o atendimento às mulheres vítimas de violência sexual. Em sua segunda parte aplicar-se-a à Metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo, com um roteiro desenvolvido previamente: i) representação de violência sexual contra a mulher para o enfermeiro dos serviços; ii) o tratamento dispensado a essa vítima de violência sexual; iii) conhecimento de políticas de proteção a essa mulher; iv) caracterização da assistência de enfermagem, a essa mulher violentada, para captar discursos tanto nas publicações científicas encontradas, quanto nas entrevistas a serem realizadas com enfermeiros, das principais unidades de atendimento, em Belo Horizonte que assistem às mulheres vítimas de violência sexual. Os dados coletados, nas entrevistas, serão apresentados tendo em vista o que é preconizado pela Resolução 196/96. Os profissionais serão orientados e convidados a participar assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, uma vez que passará pela aprovação: Comitê de Ética Pesquisa da PUCMINAS, e da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. Os dados obtidos serão descritos e, analisados, a partir da literatura científica presente, no referencial teórico, construindo assim, o Discurso do Sujeito Coletivo, sendo este organizado em consonânciacom o que ocorre no cotidiano laboral dos profissionais de Enfermagem nas unidades de saúde, do SUS. Página | 348 Palavras–chave: Assistência de Enfermagem, Violência Sexual, Saúde da Mulher. REFERÊNCIAS ALVES, Andréa Matias; COURA-FILHO, Pedro. Avaliação das ações de atenção às mulheres sob violência no espaço familiar, atendidas no Centro de Apoio à Mulher (Belo Horizonte), entre 1996 e 1998. Ciência e saúde coletiva. Belo Horizonte.vol.6, n.1, p. 243-257, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csc/v6n1/7040.pdf> Acesso em: 6 de maio 2012. ANDRADE, C. J. M; FONSECA, R. M. G. S. Considerações sobre violência doméstica, gênero e o trabalho das equipes de saúde da família.Revista escola enfermagem USP. 2008, v.42, n.3, p. 591-595. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v42n3/v42n3a24.pdf>Acesso em: 12 maio 2012. BRASIL, Ministério da Saúde. Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes: Norma Técnica. Brasília – DF, 2005. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/prevencao_agravo_violencia_sexual_mulheres_3ed. pdf> Acesso em: 14 abr. 2012. HIGA, R., et.al. Atendimento à Mulher vítima de violência sexual: Protocolo de Assistência de Enfermagem. Revista Escola de Enfermagem USP. São Paulo, jun. 2008, v. 42, n. 2, p. 377- Página | 349 382. Disponível em:< http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v42n2/a22.pdf>Acesso em: 14 abr. 2012 LEFEVRE, Fernando; LEFEVRE, Ana Maria Cavalcanti. Pesquisa de Representação Social: um enfoque qualiquantitativo: a metodologia do Discurso Sujeito Coletivo. Brasília: Líber Livro, 2010. p. 224. MORAIS, Sheila Coelho Ramalho Vasconcelos et al. O cuidar em Enfermagem à mulher vítima de violência sexual. Texto Contexto Enfermagem, Florianópolis,Jan- mar, 2010, v. 19, n.1 p.155-160. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/tce/v19n1/v19n1a18.pdf Acesso em: 07 de maio 2012. OSHIKATA, Carlos Tadayukiet al. Características das mulheres violentadas sexualmente e da adesão ao seguimento ambulatorial: tendências observadas ao longo dos anos em um serviço de referência em Campinas, São Paulo, Brasil.Caderno de Saúde Pública.Rio de Janeiro. vol.27, n.4, p. 701-713, 2011. Disponível em: <http://www.scielosp.org/pdf/csp/v27n4/09.pdf>Acesso em: 6 de maio 2012. Página | 350 PASSOS, H. R. Conhecendo a Rede de Apoio às mulheres vítimas de violência no Município de Belo Horizonte. 2010. 28f. Monografia (conclusão de curso) – Universidade Federal de Minas Gerais, Curso de Especialização em Atenção Básica em Saúde da Família, Belo Horizonte. Disponível em: <http://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/imagem/0550.pdf>Acesso dia: 12 maio 2012. SCHRAIBER, Lilia Blimaet al. Violência contra a mulher: estudo em uma unidade de atenção primária à saúde. Rev Saúde Pública, São Paulo, 2002, v.36, n.4, p. 470-477. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v36n4/11766.pdfAcesso em: 07 maio de 2012. 5 - COMPETIÇÃO E AUTOGESTÃO EM FÁBRICAS RECUPERADAS NO BRASIL: É POSSÍVEL VIVER SEM DUCPLICIDADE A HEGEMONIA DO MERCADO E A LUTA CONTRA ELA? Ana Beatriz Melo Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC Minas Área temática: proteção social, políticas sociais e modos de vida urbanos Página | 351 Resumo expandido As fábricas recuperadas ganharam visibilidade no Brasil a partir do final dos anos 1980. O ponto de partida desse processo situa-se em experiências pontuais e isoladas de recuperação de empreendimentos falidos a partir da organização de trabalhadores para manter seus empregos. A partir do aprofundamento da crise econômica que vigorou no cenário nacional durante a década de 1990, observou-se um crescimento significativo do número de empresas em situação falimentar, levando milhares de pessoas ao desemprego e ao subemprego. As fábricas recuperadas surgiam, nesse contexto, como formas de reação/resistência ao fechamento dessas empresas e a conseqüente perda de postos de trabalho. Tais iniciativas se expandiam na medida em que empreendimentos inviabilizados do ponto de vista econômico eram desocupados/abandonados por seus proprietários e, posteriormente, arrendados/tomados por parte ou pela totalidade dos antigos funcionários a partir de processos judiciais. As empresas em situação falimentar no Brasil, via de regra, estão ligadas ao setor industrial e apresentam um histórico de passivo trabalhista vultoso, sendo frequente aos trabalhadores a vivência de longos períodos com salários em atraso além do não recolhimento dos direitos devidos. Na iminência do encerramento das atividades e diante do não pagamento de verbas rescisórias contratuais e do afastamento/abandono dos antigos donos, surgia entre os exfuncionários a perspectiva de controlar as fábricas em crise ou de criar, a partir da massa falida, cooperativas autogestionárias. Uma parte significativa dessas experiências se desenvolveu a partir da recuperação de empresas familiares que entraram em falência e/ou estado pré-falimentar após processos mal-sucedidos de sucessão geracional. Página | 352 Os sindicatos que, de início, mostravam alguma resistência em relação às perspectivas do cooperativismo e do trabalho autogestionário por as consideraram como reformistas, passaram a assumir, ao longo dos anos 1990, um papel decisivo e estratégico na formação e na organização dessas iniciativas. Nesse sentido, vale destacar os trabalhos de incubação e orientação desenvolvidos pela Associação Nacional dos Trabalhadores e Empresas de Autogestão e Participação Acionária (ANTEAG), criada em 1994, e pela Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários (UNISOL), organizada em 1999, ambas ligadas ao movimento sindical. Na década de 2000, as fábricas recuperadas acabaram por integrar o movimento social conhecido como economia solidária no Brasil. Foi justamente nesse momento que se sistematizou parte significativa das pesquisas acadêmicas sobre tais empreendimentos (Azevedo, 2007; Faria, 2005; Marques, 2006; Rufino, , 2005; entre outras) em sua maioria, baseadas em estudos de casos. Os debates que abordam o tema das fábricas recuperadas no cenário nacional têm apontado para um grande desafio: delimitar as particularidades dessas experiências no que diz respeito à sua história, organização interna, atores sociais envolvidos, inserção no mercado, articulações com entidades de apoio e poder público. Tal desafio traz em seu cerne uma discussão fundamental sustentada no paradoxo competição X autogestão. A esse respeito, cabe ressaltar que as fábricas recuperadas, por um lado, estão inseridas no mercado, sendo assim sujeitas às suas flutuações, oscilações, crises e retomadas. Essas iniciativas geralmente mantêm o estatuto jurídico e econômico de propriedade privada, trocando serviços e produtos com outros agentes econômicos. Tal necessidade de adaptação a parâmetros competitivos ditados pelas leis do mercado acaba por afetar vários aspectos do cotidiano desses empreendimentos. Página | 353 Especialmente no que tange à organização/gestão da produção, vale destacar obstáculos decorrentes da necessidade de adoção de novas tecnologias, das diferenciações na distribuição das retiradas, da manutenção do nível da qualidade dos produtos, do ritmo, do controle e da disciplina no trabalho, do baixo comprometimento dos trabalhadores em relação ao ideal autogestionário, entre outros. Ademais, as fábricas recuperadas vêm enfrentado uma série de dificuldades estruturais para se consolidarem como empreendimentos econômicos de geração de trabalho e renda, tais quais, ausência de capital de giro, burocratização dos processos falimentares, baixa escolaridade dos trabalhadores, falta de apoio de políticas públicas específicas, herança de maquinário obsoleto, falta de recursos, barreiras para acessar financiamentos, recuperação da posse pelos antigos proprietários, isolamento em relação às demais iniciativas, entre outras. Por outro lado, vale ressaltar que as fábricas recuperadas procuram observar os princípios cooperativistas. Nelas, a propriedade está atrelada a um coletivo formado por associados, que atuam, ao mesmo tempo, como trabalhadores e gestores. Nesse contexto, a autogestão desponta como essência da proposta cooperativista, se consolidando como um atributo marcante das fábricas recuperadas. Se a palavra “autogestão” é relativamente recente na cultura e linguagem políticas – ganhou notoriedade a partir da metade do século XX –, o conceito por trás dessa palavra é tão antigo quanto as lutas de resistência/emancipação dos trabalhadores europeus pós revolução industrial, ou seja, está diretamente associado ao movimento operário. No Brasil, o ressurgimento da autogestão como princípio norteador da economia solidária assume, por um lado, uma conotação fortemente econômica e social relacionada à criação de um sistema de gestão do trabalho capaz de combater o Página | 354 desemprego em massa e, por outro, uma significação ideológica e política associada à um ideal utópico de transformação e mudança social. Ainda não há uma definição precisa e consensual sobre o termo autogestão. Todavia, cabe chamar a atenção para três aspectos gerais que o caracterizam, São eles: a) propriedade coletiva dos meios de produção, sendo vedada a apropriação individual ou alienação particular; b) o controle do empreendimento e o poder de decisão pertencem aos trabalhadores, em regime de paridade de direitos; c) a gestão do empreendimento é realizada pela comunidade de trabalho que organiza o processo produtivo, opera as estratégias planejadas e dispõe sobre o destino dos rendimentos. As práticas autogestionárias dariam aos empreendimentos uma condição singular, pois modificariam o princípio e a finalidade da extração do trabalho excedente. Nesse sentido, a autogestão designaria um modo de produção particular, a partir do qual é realizada a reconciliação entre o trabalhador, os meios produtivos que ele detém e utiliza e os resultados de seu trabalho. É ,portanto, comum a utilização do termo autogestão para abranger tanto as alterações verificadas na forma de propriedade das empresas como também as características democráticas que devem presidir a organização/gestão do processo de trabalho. A partir dessas iniciativas, passar-se-ia teoricamente de num primeiro momento em que predominavam relações de poder verticais entre capital e trabalho para um segundo momento no qual despontam relações horizontais e igualitárias entre trabalhadores. Página | 355 Nesse ponto, vale questionar como se daria no cotidiano das fábricas recuperadas a convivência/tensão entre a necessidade de se consolidar no mercado e a busca por uma práxis autogestionária emancipatória. O projeto autogestionário seria vital para os trabalhadores dessas experiências ou estaria presente tão-somente no imaginário dos militantes ? Em que medida a necessidade de inserção no mercado impactaria o projeto autogestionário ou a luta pela autogestão traria novos sentidos à essa inserção? A partir desses questionamentos e diante do desafio proposto pelos debates atuais sobre o tema, o presente trabalho propõe uma análise sobre fábricas recuperadas no Brasil, enfatizando suas especificidades contextuais e organizacionais. Lançando mão de um balanço/revisão dos estudos mais relevantes sobre tais iniciativas no contexto nacional, ele será apresentado em três sessões: 1) caracterização das recentes transformações do mundo do trabalho e seus impactos sobre a difusão/emergência das fábricas recuperadas; 2) apresentação de três casos emblemáticos – Usina Catende, Uniforja e Cooperminas – dos desafios enfrentados por trabalhadores de fábricas recuperadas no Brasil; 3) discussão e análise de questões teóricas que tratem dos paradoxos econômico-sociais que atravessam essas experiências, entendias como iniciativas autogestionárias inseridas no mercado. Palavras-chave: fábricas recuperadas; Brasil; competição, autogestão. Página | 356 1 - A CIDADE-EMPRESA DE IPATINGA E SEUS PERSONAGENS: UM OLHAR SOBRE AS POLÍTICAS DA USIMINAS E SEUS REFLEXOS SOCIAIS Vanessa Costa Soares71 Nas palavras de Lefebvre (1969) “a industrialização caracteriza a sociedade moderna” e através do termo “sociedade industrial” é que podemos defini-la. O entendimento desse termo se faz a partir do conhecimento do que seja uma cidade industrial para ele. Na síntese feita por Tânia Braga (2000) é aquela cidade que possui organização, ritmos e relações sociais gerida pela indústria. Seu nascimento ocorre quando a empresa “toma de assalto a antiga cidade – espaço de poder, da festa e do mercado – modelando-a de acordo com as suas necessidades e elevando seu crescimento a níveis anteriormente desconhecidos” (BRAGA, 2000, p. 1081). Quando esse processo é potencializado ao ponto do capital assumir o papel de “provedor das condições gerais de produção, da reprodução ampliada da força de trabalho e da urbanização” (BRAGA, 2000, p. 1081), este espaço toma características de uma “cidade monoindustrial”. Desse modo, para Lefebvre (1969) a sociedade urbana deve ser compreendida como objetivo e finalidade do processo de industrialização, portanto ao inverter essa ordem, ou seja, ao 71 Programa de Pós‐Graduação em Ciências Sociais da PUC Minas Página | 357 subordinar a vida urbana ao crescimento industrial, ambos perdem todo seu sentido. É sobre essa perspectiva que podemos localizar importantes cidades brasileiras que surgiram atreladas ao desenvolvimento do seu campo industrial, como Ipatinga, nosso principal objeto. Assim, o objetivo aqui proposto é discutir os impactos da implantação da Usiminas em termos sociais e urbanos, isto é, na criação e organização da cidade-empresa de Ipatinga, e as alterações no cotidiano de moradores e trabalhadores da cidade. O caso da Usiminas é elucidativo do processo de construção e desenvolvimento simultâneo da usina e da cidade. Sua construção se iniciou em agosto de 1958 após a entrada do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e do capital japonês, através da Nippon Steell Corporation, no empreendimento. Conforme Marcelo Freitas (2008), a implantação da Usiminas fez parte do Plano de Metas do Governo JK, o qual teve como objetivo promover a transição de um Brasil dependente da exportação de produtos agrícolas para um país urbano e industrializado. Sua instalação no Aglomerado Urbano do Vale do Aço (AUVA) foi causadora de transformações que modificaram a configuração do seu espaço urbano (BRAGA, 2000; PEREIRA, 2008). A precariedade das primeiras moradias construídas para alojar os responsáveis pela construção das bases da siderúrgica, bem como a necessidade de fixação dos operários e de seus dirigentes deu origem ao projeto urbanístico da cidade de Ipatinga que reproduzia na estrutura urbana a hierarquia funcional da usina. Isso possibilitou o surgimento de espaços estratificados por categoria funcional e padrão salarial. Desse modo, a empresa arcava com a construção inicial das unidades habitacionais, dos bairros operários, e dos elementos básicos de infraestrutura, bem como de equipamentos sociais coletivos, como escolas, clubes, supermercados, hospital de abrangência regional. Conforme Costa e Monte-Mór (1996) “cada Página | 358 bairro foi concebido como uma ‘unidade de vizinhança’, ou seja, a habitação, acompanhada dos equipamentos de comércio, serviço e lazer.” (COSTA; MONTE-MÓR, 1996, p. 423) o que significava que seus moradores tinham um contato limitado uns com os outros. O crescimento urbano provocado pelo grande número de pessoas que migraram para as regiões industriais em busca de emprego foi causador do surgimento espontâneo de uma “outra” cidade, em paralelo à construída pela siderúrgica, haja vista que o espaço planejado não dava conta de absorver toda a massa de trabalhadores que chegava. Sendo assim, o projeto habitacional implantado pela Usiminas provocou uma bipolarização da cidade monoindustrial. Consequentemente, o que se viu foi o surgimento de uma “cidade espontânea” ou “pública” onde residiam aqueles que não conseguiram trabalhar para a empresa, e também os comerciantes locais, em oposição à “cidade planejada” pela siderúrgica. A qualidade de vida da população e o acesso a bens e serviços eram os principais pontos de diferenciação entre eles. Se de um lado a Usiminas garantia serviços como escola, hospital, clubes e cooperativas de consumo, de outro ela excluía grande parte a população do aceso a eles (BRAGA, 2000; COSTA; MONTE-MÓR, 1996). Foi exatamente esse serviço social, juntamente com os benefícios extra-salariais, a organização dos espaços públicos, que somados ao aparato de segurança organizado pela Usiminas serviram de sustentação para o controle social de seus trabalhadores e até mesmo para a vigilância de suas vidas privada. De acordo com Rueda e Nahas Júnior (1991) as atividades deste corpo de segurança tiveram inúmeros desdobramentos na tentativa de evitar danos à produtividade do trabalho, ocasionando assim, um controle até mesmo das atividades de recreação e lazer dos seus funcionários. Entretanto, trabalhar na Usiminas, na maioria das vezes, simbolizava ascensão social, esses atores eram considerados a elite da cidade, como afirma Rueda e Nahas Júnior (1991). A Página | 359 territorialização dos bairros da usina, segundo Denise Pereira (2008) contribuía de modo efetivo na identificação dos trabalhadores e dos “não trabalhadores”, ou seja, se algum andarilho fosse pego nos bairros operários automaticamente ele era identificado. Do mesmo modo ocorria com os funcionários que se envolvidos em algum tipo de confusão, imediatamente ele era identificado e a empresa chamada para intervir. O uso do uniforme cinza também facilitava o reconhecimento, uma vez que esse conferia status ao trabalhador (BRAGA, 2000, p. 1085). É essencial entendermos que o que se percebia dos bairros da empresa era uma segregação dentro da segregação, ou seja, várias fronteiras foram estabelecidas. Conforme Braga (2002), “Os bairros, funcionalmente separados [...] fisicamente distanciados e dotados de padrões diferenciados de moradia, concepção urbanística, infra-estrutura, serviços e equipamentos públicos, deixavam bem claro ‘ o lugar de cada qual na sociedade Ipatinguense’.” (BRAGA, 2000, p. 1083), Tudo isso, dificultava e muito as manifestações públicas dos trabalhadores contrarias as políticas da empresa. Segundo um depoimento apresentado por Diniz (1990), os funcionários da Usiminas eram descritos como não participativos, tinham medo de frequentarem manifestações, bem como de questionar as práticas da usina. Foi em meados dos anos 1980, com a organização da sociedade civil na vida pública, que as forças sociais de resistências tornaram-se cada vez mais visíveis através da ação das pastorais da Igreja Católica. Assim, na analise de Braga (2000) esse período por ela denominado de Ipatinga Una, representou um forte movimento de inflexão na vida cultural, social e política do município. Isto é, a “Ipatinga Una é um processo de mudança no modelo de produção social do espaço, de formação de uma identidade própria da cidade (e de seus habitantes) e de reversão na posição hegemônica da empresa” (BRAGA, 2000, p. 1085). Caracterizou-se por um fortalecimento da Página | 360 oposição sindical, assim como, dos movimentos sociais locais, o que possibilitou a eleição de um candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) para a prefeitura da cidade. Entretanto, a participação dos trabalhadores da usina em movimentos sociais nos quais eram facilmente identificados permaneceu muito baixa. Como demonstra os depoimentos de funcionários e lideranças locais transcritos por Pereira (2008) em sua tese, os trabalhadores continuavam a se manterem discretos e silenciosos, não demonstrando, por exemplo, apoio público às candidaturas de esquerda. Segundo a autora, termos como perseguição, vigilância e ameaça de demissão eram frequentes nas falas dos funcionários. A presença constante dos chefes dentro da usina se refletia em uma aparente acomodação e na ausência de possíveis discussões políticas em seu interior. É importante essa compreensão para termos uma noção real da política empresarial desenvolvida pela Usiminas e que se expressava através daquilo que Pereira (2008) denominou de missão ou ação civilizadora. Essa ideologia está presente nos discursos da usina desde sua inauguração e integravam a esse discurso as concepções de organização e sociedade, assim como as formas de relações sociais embutidas nas relações de trabalho decorrentes do posicionamento ideológico do dirigente, tudo isso na tentativa de burlar a aceitação de conflito de classe, negando sua ocorrência. Nas palavras de Pereira (2008) “as concepções de empresa e de homem, explicitadas a partir da orientação de valorização das pessoas como patrimônio da empresa, indicam, ao longo do tempo, o caminho para a configuração de uma política empresarial coesa” (PEREIRA, 2008, p. 130), que perduram durante as décadas de sua existência.. Mais do que isso, esse discurso marca a opção para uma espécie de educação empresarial, focada na manutenção permanente da ordem e do comportamento organizacional. Página | 361 Tudo isso definia a ideia de uma ação civilizadora da Usiminas, no que tange à construção da empresa e das condições fundamentais de sua existência, o que incluía a cidade na qual se insere. Portanto, esse papel civilizador tornou-se um jargão da empresa repetido, segundo Pereira (2008) em vários de seus documentos, como relatórios, balanços sociais, artigos e peças de comunicação social. A origem dessa ideia esta associada prática e politicamente a um processo que envolvia sua construção física, a urbanização dos bairros e o compromisso de educar seus trabalhadores, garantindo assim, a reprodução da força de trabalho por meio da manutenção de uma ordem pública e adequada á produtividade. O discurso que corre dessa missão vem indicar o papel da empresa na constituição de seu projeto político, além de consolidar a Usiminas como uma empresa idônea. Palavras-chaves: Cidade-empresa. Política Controladora e Distinção. Referências BRAGA, Tania Moreira. Politica ambiental, conflito e produção social do espaço sob o signo da mono indústria: um estudo de caso sobre Ipatinga (MG). In: SEMINÁRIO SOBRE A ECONOMIA MINEIRA, 9, 2000, Belo Horizonte. Anais... Belo Horizonte: UFMG/ CEDEPLAR, 2000. v. 2, p. 1077-1097 Página | 362 COSTA, H. S. M.; MONTE-MÓR, R. L. M. Cidades industriais planejadas e a exclusão da força de trabalho. In: ENCONTRO NACIONAL DA ANPUR, 6, 1995, Brasília. Anais... Brasília: ANPUR, 1996. 1200 p. DINIZ, Lígia Garcia. Viver em Ipatinga: olhares de citadinos se fazendo na cidade (1958-1992). 1998. 136f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. FREITAS, Marcelo. Não foi por acaso: a história dos trabalhadores que construíram a Usiminas e morreram no Massacre de Ipatinga. Belo Horizonte: Comunicação de Fato, 2008. 320p. LEFÉBVRE, Henri. O direito à cidade. São Paulo: Documentos, 1969. 133p. PEREIRA, Denise de Castro. Empresa, cidade e cidadania: construções e deslocamentos de lugares de poder. 2008. 311f. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. RUEDA, Lenira; NAHAS JUNIOR, Antônio (Coord.). Homens em série: a história de Ipatinga contada por seus próprios personagens. Ipatinga: PMI, 1991. v.1.107 p. Página | 363 RUEDA, Lenira; NAHAS JUNIOR, Antônio (Coord.). Homens em série: a história de Ipatinga contada por seus próprios personagens. Ipatinga: PMI, 1992. v. 2. 185 p. 2 - A CONSOLIDAÇÃO DA PERIFERIA NAS FRONTEIRAS DA RMBH: UM ESTUDO SOBRE OS CONJUNTOS HABITACIONAIS ESTATAIS Rejane de Oliveira Nazário Resumo: Este artigo aborda a participação do poder público na consolidação da periferia metropolitana no sentido norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), a partir do estudo de dois conjuntos habitacionais localizados no município de Santa Luzia: Cristina e Maria Antonieta Melo Azevedo (Palmital). A implantação desses conjuntos ilustra como a política habitacional, fomentada pelo Banco Nacional de Habitação (BNH), promoveu a migração de uma população de baixa renda para regiões metropolitanas que fazem fronteira com a capital mineira. Palavras-chave: Periferia metropolitana. Região Metropolitana de Belo Horizonte. Conjuntos habitacionais. Política habitacional. Página | 364 Introdução O processo de expansão metropolitana das cidades brasileiras - tema recorrente nos trabalhos de arquitetos e/ou urbanistas, geógrafos e cientistas sociais - permanece relevante no meio acadêmico, seja pela dimensão alcançada pelo fenômeno ou pelas repercussões sociais que suscita, como a formação de periferias precárias. A conurbação de Belo Horizonte com municípios vizinhos ilustra apropriadamente esse alargamento e serve de exemplo para uma reflexão sobre a participação estatal na formação e consolidação das periferias metropolitanas. Diferentemente dos trabalhos que abordam a formação e a consolidação dessas periferias como uma resultante da atuação de atores privados em terrenos caracterizados, quase sempre, pela irregularidade e pela precariedade de infraestrutura, este estudo sobre os conjuntos Cristina e Maria Antonieta Melo Azevedo (Palmital) aponta uma ação estatal direta, capaz de atuar como agente imobiliário e de promover a migração de uma população de baixa renda para regiões cada vez mais distantes da capital. Nesse sentido, o intuito é abordar a expansão da capital mineira focalizando a conurbação com o município de Santa Luzia, em grande medida viabilizada pela política habitacional do Banco Nacional de Habitação (BNH). Para tanto, apresentaremos inicialmente como se deu essa expansão na direção norte da cidade e sua composição, assim como a trajetória do seu município vizinho em questão. Em seguida, recorrendo também a dados empíricos, levantados por meio de pesquisa qualitativa com moradores dos Conjuntos Habitacionais Cristina e Palmital discutiremos a consolidação dessa periferia localizada no Distrito de São Benedito. Página | 365 A dinâmica da expansão urbana da RMBH O processo de expansão metropolitana da capital mineira está relacionado a intervenções públicas como a implantação da Cidade Industrial em Contagem, na região oeste, e do complexo turístico-urbanístico da Lagoa da Pampulha e da Avenida Antônio Carlos, na região norte. Essas iniciativas pioneiras, ao longo dos anos, inspiraram outras intervenções, principalmente as voltadas para o processo de industrialização. Embora abrigue alguns distritos industriais, o vetor de expansão norte72 - constituído pelos municípios de Santa Luzia, Ribeirão das Neves, Vespasiano e São José da Lapa - caracterizase basicamente como local de moradia da população de menor renda da RMBH, em função de seus vários loteamentos voltados para essa população, mas também pela presença de conjuntos habitacionais estatais. O último aspecto se justifica pela considerável ampliação da oferta de conjuntos habitacionais no vetor norte realizada por agências públicas (COHAB-MG e Cooperativas) diante da crise econômica gerada pela elevação da dívida externa e da inflação dos anos de 1970. Visando alcançar as famílias com renda entre 3 a 10 salários mínimos, foram construídos grandiosos conjuntos nessa direção, entre eles: o Cristina e o Palmital em Santa Luzia; e o Morro Alto e o Caieiras em Vespasiano (PLAMBEL, 1986). Lembramos que a atuação dessas companhias estatais, encarregadas de implementar a política habitacional durante o regime militar, esteve quase 72 O espaço metropolitano, segundo Souza e Brito (2008), possui sete vetores de expansão, quais sejam: Belo Horizonte como núcleo ou cidade-polo, Oeste, Norte Central, Norte, Leste, Sul e Sudoeste. Página | 366 sempre dissociada das políticas de planejamento urbano elaboradas pelos próprios órgãos metropolitanos (ROLNIK; SOMEKH, 2000, p.85). Essa localização geográfica da pobreza encontra correspondência com a discussão sobre a formação da periferia como uma delimitação espacial dos estratos econômicos, dividindo a população segundo um modelo de segregação que se traduz quase sempre em espaços periféricos destinados à população de baixa renda e espaços centrais ocupados pela população de média e alta renda. Conforme Marques (2005), ainda que possa ser produzida por processos socioespaciais heterogêneos, a segregação consiste em uma organização territorial da cidade marcada pela produção e reprodução de espaços de desigual acesso e apropriação dos bens simbólicos e materiais. No caso da RMBH, a separação e a concentração dos grupos sociais também correspondem ao modelo de segregação centro – periferia que surgiu após os anos de 1940 (CALDEIRA, 2000). Nesse contexto, a segregação residencial passa a ser expressa pela localização espacial da moradia, com os pobres ocupando as periferias precárias ou sem infraestrutura enquanto os ricos permanecem nas áreas estruturadas e, quase sempre, centrais. A conurbação com o município de Santa Luzia Dos municípios que compõem a área metropolitana, Santa Luzia é o mais próximo de Belo Horizonte, aproximadamente 12 km de distância no sentido norte da capital. Nesse município 47,2% da sua população se desloca diariamente para outro município (para estudo ou Página | 367 trabalho) e 89,1% se desloca em direção a capital (IBGE, 2000; ANDRADE, 2009). Dessa maneira, pode-se perceber que Santa Luzia apresenta grande relação de dependência em relação ao município-polo, constituindo para muitos moradores uma cidade-dormitório. Andrade (2009) observa ainda que, embora o município abrigue um significativo patrimônio histórico, sofre as conseqüências do processo de metropolização, com o desenvolvimento de uma extensa periferia em suas fronteiras com Belo Horizonte, na região que compõe o distrito de São Benedito. Segundo o PLAMBEL (1986; 1987), a ocupação do São Benedito foi estimulada pela implantação da Pampulha e a abertura da Avenida Antônio Carlos. Isso porque os empreendimentos propiciaram a expansão urbana no sentido norte da RMBH, atingindo o município de Santa Luzia em 1957, quando foi iniciado o processo de conurbação com Belo Horizonte. Conforme a Fundação João Pinheiro (2009), sua consolidação iniciou-se nos anos de 1970, com a ampliação da ocupação na região e o desenvolvimento de atividades comerciais e industriais na Avenida Brasília, sua principal via e entrada para a cidade. A partir da década de 1980, o distrito do São Benedito registrou um considerável adensamento populacional, com a implantação de dois grandes conjuntos habitacionais, Cristina e Palmital, consolidando efetivamente a ocupação nesse distrito. Isso possivelmente justifica a conservação, em Santa Luzia, de uma taxa de crescimento anual relativamente próxima ao do período anterior como demonstrado na tabela abaixo. O mesmo poderia ser cogitado para Vespasiano, onde também foi implantando, no mesmo período, um grande empreendimento habitacional estatal, o Conjunto Morro Alto, mas é preciso considerar que a população de São José da Lapa está incluída. Página | 368 Tabela 1 RMBH – População por município e taxa de crescimento 1970-1980-1991-2000. Taxa de crescimento População total Município (% a.a.) 1970 Belo Horizonte 1980 1991 2000 70-80 1.235.030 1.780.855 2.020.161 2.238.526 3,73 80-91 91-00 1,15 1,15 Ribeirão das Neves 9.707 67.257 143.853 246.846 21,36 7,16 6,18 Santa Luzia 25.301 59.892 137.825 184.903 9,00 7,87 3,32 12.429 25.049 54.868 91.422 7,26 7,39 5,84 1.651.500 2.609.520 3.436.060 4.259.163 4,68 2,53 2,69 Vespasiano São José da Lapa (*) Total da RMBH Fonte: IBGE - Censos Demográficos de 1980, 1991 e 2000. In: Teixeira; Souza, 2003, p. 27. (*) Municípios emancipados posteriormente a 1991 O Conjunto Habitacional Cristina foi construído em 1980, e suas residências foram comercializadas pela COHAB-MG, mediante financiamento em até 25 anos. Essa modalidade de financiamento representou para muitos a solução de seu problema de moradia, possibilitando a aquisição da casa própria. Já o Conjunto Habitacional Maria Antonieta Melo Azevedo, mais Página | 369 conhecido como Palmital, começou a ser habitado em 1983, quando o poder público transferiu várias famílias desabrigadas pelas enchentes em Belo Horizonte e também as famílias desapropriadas das margens do Ribeirão Arrudas. Os empreendimentos, construídos e financiados pela Companhia de Habitação de Minas Gerais (COHAB-MG), possuíam nos início dos anos 80, aproximadamente 7.446 unidades habitacionais, com capacidade, portanto, para abrigar um significativo contingente populacional. Essa expressiva quantidade de habitações oferecidas pelos conjuntos, ao ultrapassar a necessidade de moradia do município, revela a intenção do Estado em atender a uma demanda metropolitana. Considerações finais Concluímos que a construção dos conjuntos contribuiu para a consolidação dessa periferia metropolitana na fronteira entre Belo Horizonte e o município de Santa Luzia, na medida em que promoveu a atração de um expressivo contingente populacional cuja composição envolve tanto as famílias com dificuldades para adquirir casa própria em Belo Horizonte e que foram ocupar o Conjunto Cristina quanto as famílias desabrigadas pelas enchentes na capital e as desapropriadas das áreas destinadas à construção de obras públicas que foram transferidas para o Conjunto Palmital. Apontamos ainda como esses conjuntos habitacionais se transformaram em um canal de transferência de uma população de baixa renda, contribuindo para a formação de periferias precárias e mais distantes. Ou seja, esses conjuntos expressam os fenômenos da metropolização e Página | 370 da segregação, cujo agente principal é o poder público. E, para agravar ainda mais esse quadro, a ausência de uma política de gestão metropolitana faz com que o ônus de dotar com infraestrutura e serviços básicos esses espaços se transforme em sobrecarga para os municípios receptores desses conjuntos. REFERÊNCIAS ANDRADE, Luciana Teixeira de (Org.). Como Anda Belo Horizonte. Rio de Janeiro: Letra Capital: Observatório das Metrópoles, 2009. ARRETCHE, Marta Teresa da Silva. As políticas de desenvolvimento urbano. In: ARRETCHE, Marta Teresa da Silva. Estado federativo e políticas sociais: determinantes da descentralização. Rio de Janeiro: Revan; São Paulo: FAPESP, 2000. Cap.1. p.77-88. ARRETCHE, Marta. Intervenção do Estado e setor privado: o modelo brasileiro de política habitacional. In: Espaço & Debates, São Paulo, V. X, n. 31, p. 21-36, 1990. CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34, 2000. Página | 371 CAMPOS, Antônio Carlos. O Estado e o urbano: os programas de construção de conjuntos habitacionais em Aracaju. Aracaju, 2005. Disponível em: http://www. hpopnet.sites.uol.com.br/estado_urbano.pdf> Acesso em: 11 Mar.2009. FUNDAÇÃO ISRAEL PINHEIRO. Plano Municipal Plano Municipal de Regularização da Irregularidade Fundiária Sustentável de Santa Luzia, 2009. 1CD. FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Relatório Final Fapemig/FJP. Gestão do Espaço Metropolitano: Homogeneidade e desigualdade na RMBH – SHA- 62904, Belo Horizonte: 2009. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2000. Disponível em:ftp://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2000/Dados_do_Universo/Agregado_p or_Setores_Censitarios. Acesso em: 16 out.2009. MARQUES, Eduardo. Elementos conceituais da segregação, da pobreza urbana e da ação do Estado. In: MARQUES, Eduardo;TORRES, Haroldo (Orgs.). São Paulo: segregação, pobreza urbana e desigualdade social. São Paulo: Editora Senac, 2005. Cap.1, p.19-57. PLAMBEL. A estrutura da expansão urbana na RMBH diagnóstico e prognóstico. Belo Horizonte: PLAMBEL, 1986. 212p. Página | 372 PLAMBEL. O mercado da terra na região Metropolitana de Belo Horizonte. 2o edição revisada. Belo Horizonte: PLAMBEL, 1987. 212p. ROLNIK, Raquel; SOMEKH, Nadia. Governar as metrópoles: dilemas da recentralização. São Paulo em Perspectiva, v.14, n.4, p.83-90, 2000. SOUZA, Joseane de; BRITO, Fausto. A expansão urbana de Belo Horizonte e da RMBH em direção ao Vetor Norte Central, nos períodos 1986-1991 e 1995-2000. XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais. Caxambu: ABEP, 2008. Disponível em: http://www.abep.nepo.unicamp.br/encontro2008/docsPDF/ABEP2008_1950.pdf Acesso em: 11 Mar. 2009. VALLADARES, Licia do Prado. Passa-se uma casa: análise de programa de remoção de favelas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.142 p. Página | 373 3 - ETNOGRAFIA NOS POSTAIS: DISCURSOS, IMAGENS E COTIDIANO NA PRAÇA DO FERREIRA. Ana Helena do Nascimento Barbosa73 Resumo Expandido A cidade dos prédios com fins comerciais. A cidade dos trâmites de mercadorias. A cidade das longas filas. Filas de gente e de carros. A cidade das poucas matas e muitos outdoors. A cidade com seus símbolos de modernização é também a cidade das rodas de conversas, do cotidiano, de sentar na praça e trocar histórias. Na cidade em que reside o homem com sua atitude blasé e suas marcas de impessoalidade, vive, paralelamente, o flâneur que rejeita o caráter capitalista e transitório da modernidade e se relaciona com a cidade de uma forma mais autêntica, caminhando sempre no contrafluxo do progresso. A cidade é um conjunto de espelhos capaz de refletir múltiplos olhares e significados, e o resultado desta observação procederá do recorte visual assumido pelo observador. Estudar a cidade é compreender este espaço como campo de linguagens, representações e conflitos de forças e discursos. A cidade dos gestores urbanos, dos planos orçamentários, das políticas urbanas e dos projetos turísticos constitui uma perspectiva macro de cidade e, o que se legitima como um discurso oficial dentro de uma sociedade estruturada na razão instrumental. Por outro lado, a lógica do cotidiano valoriza 73 Universidade Federal do Ceará (UFC) Página | 374 e destaca as vivências, as práticas culturais populares, as rotinas diárias, as narrativas informais sobre a cidade construídas com base nas relações sociais fomentadas e reproduzidas em determinado contexto espacial e temporal. A narrativa do cotidiano e as experiências sociais representam a dimensão microssocial da cidade. Na tentativa de explorar essas narrativas e representações possíveis sobre a cidade, esta pesquisa restringe o olhar para um suporte visual que se tornou referência nas formas de apresentação e idealização dos espaços urbanos. Os cartões-postais produzidos sobre a cidade de Fortaleza serão, portanto, campo e produto de investigação desta pesquisa. O cartão-postal, denominado inicialmente de “bilhete postal”, foi criado em 01 de outubro de 1869, com a função social de provocar diálogos e fluxos de comunicação. O postal surgiu como um processo de simplificação da carta e sua circulação de modo livre (isento de envelopes) tornou mais econômico e viável a correspondência particular. O bilhete postal era estruturado por um papel fino que guardava um espaço pequeno para mensagem e destinatário, levava ainda o símbolo do império austríaco e seu uso era restrito às classes mais abastadas. Ao longo dos anos, a estética visual, antes representada no cartão-postal somente pelo brasão do império, passou a englobar cenas urbanas retratadas em pinturas, em desenhos e logos depois em fotografias, destacando pessoas, paisagens, comportamentos sociais e cenas cotidianas. Essas imagens passaram a representar os plurais modos de perceber, dialogar e apresentar os fragmentos do cotidiano e o sentido urbano atribuído à realidade enquadrada. O conhecimento visual que esse suporte de comunicação apresenta não se limita à expressão estética de um espaço, pois, além disso, ele promove filtros culturais que Página | 375 destacam a pluralidade social, fonte e atores oficiais, memória cultural e práticas inerentes a cenas urbanas de um determinado tempo. Apreender o modo de vida urbano e decodificar a realidade com base em uma análise iconográfica e em uma interpretação iconológica é uma das estratégias utilizadas para análise imagética desta pesquisa. Para colaborar no exame deste material é importante ressaltar o papel da fotografia dentro da formação da identidade e do imaginário coletivo, sendo assim a fotografia encarada como forma de comunicação, como instrumento de rememoração e como relicário, neste sentido como espaço de memórias e lembranças. Assim sendo, a forma como são produzidas essas imagens, o processo criativo, o conceito, a linguagem, o modo de circulação e a redes de consumo são pontos fundamentais para a decodificação dos signos que através da imagem compõem o imaginário coletivo dos citadinos. Dentro deste contexto, o cartão-postal desponta como um elemento simbólico de representação de uma cidade idealizada, ao mesmo tempo em que se evidencia como uma espécie de “guardião” da memória urbana. Na intenção de explorar as representações da cidade e os códigos de significação incorporados neste recorte etnográfico, esta pesquisa assume como objeto de estudo e suporte de narrativa urbana os cartões-postais que retratam a Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza, Ceará, durante o século XX, período esse de relevantes transformações históricas e estruturais do espaço público, assim como de importância no campo da política e economia da cidade. No ano de 2001, a Praça do Ferreira foi eleita, através de uma votação popular, como espaço público que representa o coração da cidade. A campanha responsável por Página | 376 essa titulação se chamava “Eleja Fortaleza - Declare seu amor pela cidade” e foi organizada pelo Banco Itaú com o apoio do Sistema Verdes Mares. O resultado desta ação reafirma a praça como espaço de sociabilidade e a pontua como elemento significativo na construção identitária cultural da cidade de Fortaleza. A praça já possuiu vários nomes, entre eles, Feira Nova, Largo das Trincheiras, Pedro II e, no ano de 1871 recebe o atual nome em homenagem ao Boticário Ferreira. Entre construções e demolições, a praça reuniu um conjunto de equipamentos urbanos ligados a entretenimento, lazer, assistência social e cultura. Pode-se apontar como exemplo o Jardim 07 de setembro, o Café Iracema, o Café Java, quiosques e logo depois o coreto, o abrigo do Centro, as bancas, a coluna da hora. A praça foi palanque de movimentos políticos e palco para expressivos shows e performances em vários segmentos na área da cultura e no âmbito social, além de ter sido consagrada como cenário de importantes momentos históricos do local. Por demonstrar significativa importância no cenário sócio-cultural de Fortaleza e por se evidenciar como imagem signo da cidade é que justifico a escolha dos cartões-postais da Praça do Ferreira como objeto central desta investigação antropológica. As perguntas de partida para a elaboração da problemática deste estudo foram: que Fortaleza se pretende mostrar nos cartões-postais? Para quem se destina a produção deste suporte visual? Que práticas socioculturais e fenômenos políticos da época são notórios na análise deste material? Qual a contribuição dos cartões-postais para o acervo memorial urbano? De que forma a reprodução das imagens da cidade apresentada nos Página | 377 postais pode influenciar na formação do imaginário coletivo? De que maneira esses cartões-postais narram a trajetória histórica dessa cidade? O objetivo deste estudo é analisar os cartões-postais com o interesse de explorar as mensagens, o conteúdo, a função social da imagem na construção do imaginário urbano e na identidade visual de Fortaleza, assumindo como recorte etnográfico espacial a Praça do Ferreira no Centro da cidade de Fortaleza, capital do estado do Ceará. A pretensão dessa pesquisa é retratar os processos sociais, destacando as linguagens, discursos e narrativas possíveis sobre a cidade, utilizando-se da análise imagética dos cartões-postais que focam a Praça do Ferreira do século XX. A metodologia utilizada, a priori, será de caráter bibliográfico (documental), iniciando com uma investigação dos cartões-postais sobre a Praça do Ferreira em locais virtuais, bibliotecas, acervo de colecionadores. O trabalho resultante desta busca se tornará essencial para a exploração do recorte etnográfico e para a ampliação das formas e técnicas de abordagens do objeto. Para iniciar a minha coleta de dados dos cartões-postais, usei duas estratégias: a busca dos cartões-postais em acervo virtuais (blogs, sites e perfis de colecionadores de cartões-postais na página do facebook) e a compra de cartões-postais em pontos comerciais e turísticos da cidade. Os cartões-postais selecionados serão organizados de forma cronológica, com a finalidade de observar o espaço relacionado ao seu tempo e à função social que cada fotografia demanda. A pesquisa seguirá a vertente exploratória, em virtude da pretensão de ampliar a produção de conhecimentos e contribuir para a constituição de novo enfoques diante de um tema, além de fomentar as discussões em torno dos estudos Página | 378 da Antropologia Urbana e Antropologia Visual, em especial, das pesquisas que possuem a imagem como objeto de estudo. Na análise dos cartões-postais, tenciona-se observar as experiências sociais da população retratada nos postais; destacar nos cartões-postais as “imagens-poder”, as quais são ícones de intervenção política ou econômica na praça; investigar qual discurso é priorizado na produção das imagens; analisar o cartão-postal como campo de conflitos (em que a escolha de um recorte visual prevalece) e identificar as imagens dominantes e as imagens dominadas, as quais foram desconsideradas pelo produtor dos cartões-postais no momento de seleção das fotografias; observar as características do processo de modernização da cidade; perceber os signos e os significantes na elaboração e divulgação das fotografias dos postais; analisar quem são os produtores e quem são os usuários, ou seja, os criadores e consumidores deste produto; considerar as narrativas sobre a cidade a partir de uma leitura visual e antropológica das fotografias dos postais. Esta pesquisa destaca a imagem não somente como uma ilustração, mas, principalmente, como ferramenta capaz de rememorar as culturas de um grupo social e apresentar os diversos processos sociais e históricos da Praça do Ferreira, realizando assim um resgate etnográfico baseado em um campo visual. Palavras-chaves: Cartões-postais. Narrativas. Discursos. Espaço urbano. Página | 379 Referências ANDRADE, Roseane. Fotografia e Antropologia: olhares fora-dentro. São Paulo: EDUC, 2002. BARREIRA, Irlys. A cidade que se conta: Narrativas e rituais de apresentação em Lyon. In: MIRANDA, J.; PORDEUS, I.;LAPLATINE, F. (Org.) Imaginários sociais em movimento: a oralidade e escrita em contexto multiculturais. Campinas: Pontes Editores, 2006. p. 107-126. BARREIRA, Irlys. Narrativas do olhar: Fortaleza em cartões postais. In: LEITE, Rogèrio P. (Org). Cultura e vida urbana: ensaios sobre a cidade. São Cristovão: Editora UFS, 2008. BARREIRA, Irlys. Usos da cidade: conflitos simbólicos em torno da memória e imagem de um bairro. Análise Social, v. 42, n. 182, p. 163-180, 2007. BECKER, HOWARD. Falando da Sociedade: ensaios sobre as diferentes maneiras de representar o social. Tradução: Maria Luiz X de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia, técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985. Página | 380 BERGER, Peter L; LUCKMSNN, Thomas. A construção social da realidade: tratados de sociologia do conhecimento. 33. ed. Tradução: Floriano de Souza. Petrópolis: Vozes, 2011. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989. CANCLINI, Nèstor G. Cidades e cidadãos imaginados pelos meios de comunicação. Opinião Pública, Campinas, v.8, n. 1, páginas, 2002. CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. 3. ed. Tradução: Ephrain Ferreira. Petrópolis: Vozes, 1998. FURTADO, Beatriz. Imagens eletrônicas e paisagem urbana: intervenções espaçostemporais no mundo da vida cotidiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. São Paulo: Ateliê, 1999. LEITE, Rogèrio P. Imagens making: notas sobre a estética visual nas cidades contemporâneas. In: LEITE, Rogèrio P. Cultura e vida urbana: ensaios sobre a cidade. São Cristovão: Editora UFS, 2008. SIMSON, Olga R. M.V. Imagem e memória. In: SAMAIN, Etienne (Org). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 2005. ZUKIN, Sharon. Paisagens urbanas pós-modernas: mapeando cultura e poder. In: ARANTES, Antônio A. (Org.). O espaço da diferença. Campinas: Papirus, 2000. Página | 381 1 - NOVA LUZ E SOMBRAS: O PROJETO NOVA LUZ [SÃO PAULO, BRASIL] Karine Gonçalves Carneiro74 A tessitura das dinâmicas sociais que, reflexivamente, conformam-se e são conformadas no/pelo espaço urbano, ao mesmo tempo em que exibe também esconde e camufla entre suas tramas modos de vida que são resultados e objeto de intervenções políticas. No emaranhado dessas ações, estruturas de poder (re)conformam cotidianamente as possibilidades de apropriação do espaço das cidades e (re)desenham as fronteiras que estabelecem as possibilidades dos mais diversos atores sociais se estabelecerem. Nesse sentido, com o objetivo de perceber as nuances embutidas nas formas como o poder público vem direcionando intervenções urbanas em grandes cidades brasileiras, o presente trabalho pretende, ao compreender o Projeto Urbanístico Específico – PUE – consolidado da região da Luz, em São Paulo, mais amplamente conhecido como Projeto Nova Luz, verificar o âmbito de sua proposta no que diz respeito ao reconhecimento das práticas cotidianas por elas formatadas. Para tal, será analisado, de um lado, o PUE e seu processo de elaboração tendo como fonte o material divulgado pela prefeitura de São Paulo e, do outro, tanto observações pontuais realizadas in loco nos anos de 2010, 2011 e 2012 como o que será chamado de material etnográfico virtual e que diz respeito a depoimentos, 74 Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Página | 382 documentários e entrevistas disponibilizadas pela internet e que tiveram como objetivo exibir realidades cotidianas formatadas pela linguagem de quem mora, trabalha ou circula pelo local. A região da Luz, localizada no distrito do Bom Retiro, pertence à subprefeitura da República. O projeto Nova Luz cobre uma área de, aproximadamente, 50 hectares e desenha um polígono limitado pelas Avenidas Cásper Líbero, Ipiranga, São João, Duque de Caxias e pela Rua Mauá. Importantes estruturas urbanas cercam a área tanto no que diz respeito à infra-estrutura viária e de transporte (estação ferroviária e metroviária da Luz e Avenida Tiradentes) como a cultura e ao lazer (Parque da Luz, Pinacoteca do Estado, Museu da Língua Portuguesa e Sala São Paulo, dentre outros). A população residente estimada é de 11.679 habitantes (SÃO PAULO, 2012a). O PUE consolidado da região da Luz, datado de julho de 2011, foi divulgado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano – SMDU – da Prefeitura de São Paulo (2012a), em setembro do mesmo ano, com a indicação de que após 35 anos do início das intervenções na região central com a criação dos primeiros calçadões, o poder público e a sociedade civil, finalmente, traçavam um plano de recuperação para a área, mais especificamente, daquela denominada Luz. Como projetos complementares ao PUE foram também divulgados o Plano de Urbanização das ZEIS (SÃO PAULO, 2012b), além dos Estudos de Viabilidade Econômica, Mercadológicos e da Situação Fundiária da área (SÃO PAULO, 2012c). Após vencer concorrência pública, o Consórcio Nova Luz foi a equipe responsável pela elaboração do projeto que, em parceria com a SMDU, daria resposta às diretrizes estabelecidas pela prefeitura tanto no que dizia respeito às soluções urbanísticas para os espaços públicos e privados como no apontamento de estratégias para sua viabilização. Para a implementação do projeto foi previsto um período de 15 anos divido em 5 fases distintas e contemplando as seguintes ações: prazo para composição Página | 383 amigável com os proprietários; aquisição, desenvolvimento dos projetos e aprovações; obras (SÃO PAULO, 2012a). O presente trabalho, entretanto, tem como intuito menos buscar uma análise aprofundada do partido urbanístico adotado, das tipologias de espaços públicos e livres criadas e dos parâmetros urbanísticos propostos, e mais verificar os meios pelos quais a SMDU e o Consórcio Nova Luz buscaram (re)conhecer os modos de vida daqueles que fazem da área seu lugar (re)produção social. Imprescindível, todavia, é a indicação de que, para a execução do projeto, cerca de 40% da área total do conjunto seria demolida para dar lugar às novas intervenções. O objetivo principal, segundo os autores do projeto, seria o de aumentar o número da população residente e flutuante e dinamizar os usos e atividades locais (SÃO PAULO, 2012a). Assim, ao se levar em conta a diversidade dos atores e atividades ali existentes, não seria desmedida a inferência de que a intervenção traria alterações extremamente relevantes na dinâmica sócioespacial do polígono. Nesse sentido, observa-se que no material divulgado pela prefeitura são indicadas metodologias que originariam materiais que serviriam como fonte de dados para a elaboração de um projeto marcadamente preocupado com os atores e realidades locais ao possibilitar a participação da sociedade em sua elaboração através da interação constante com a comunidade local. As principais estratégias apontadas foram visitas de campo, entrevistas, oficinas voltadas à população, grupos focais, surveys, reuniões setoriais com comerciantes e moradores e audiências públicas. Um espaço para a divulgação de informações sobre o projeto também foi criado e batizado pela prefeitura como Espaço Projeto Nova Luz (SÃO PAULO, 2012a). Por outro lado, ao analisar os questionamentos protocolados na Audiência Pública realizada em setembro de 2011 verificam-se questionamentos dos atores locais acerca dos Página | 384 procedimentos realizados pela SDMU e pelo Consórcio Nova Luz. Dentre outros apontamentos, indaga-se sobre a validade técnico-científica do grupo focal que foi realizado apenas em uma seção e com a participação de 10 moradores e 10 comerciantes da região assim como sobre a indisponibilidade das tabulações e questionários relacionados a essa atividade. Destaca-se a inexistência de verossimilhança tendo em vista os resultados da pesquisa e o real perfil dos moradores e freqüentadores da região. Evidencia-se a inexistência, no que diz respeito às questões de mobilidade, da pesquisa origem-destino assim como a adoção de desenho de espaços baseados em modelos estrangeiros e não condizentes com a realidade local. Ressalta-se que as expectativas e sonhos dos autores do projeto e da prefeitura foram contemplados no projeto em detrimento das expectativas da população do perímetro afetado. Pede-se ampla divulgação de editais e informações sobre o projeto para que os atores interessados possam tomar conhecimento dos procedimentos e diretrizes relacionadas ao projeto. Coloca-se em dúvida se o Consórcio Nova Luz e a Prefeitura Municipal de São Paulo de fato visitaram a área devido à disparidade entre a percepção da população da área e a descrição realizada nos documentos divulgados (SÃO PAULO, 2012d). Pesquisas realizadas a partir da análise de vídeos, documentários e entrevistas disponibilizados na internet reverberam o conteúdo dos questionamentos apontados nos documentos protocolados. Tanto usuários da região como especialistas destacam a inexistência de debates e negociações e apontam para a ilegalidade de medidas aprovadas como, por exemplo, a lei da Concessão Urbanística que possibilita a desapropriação de imóveis através de empresas privadas (SÃO PAULO, 2009). A principal conseqüência apontada em virtude das medidas a serem tomadas diz respeito ao processo de gentrificação (LEFTHAND ROTATION, 2011). Página | 385 Ilustrativo de tal fato são demolições iniciadas no ano de 2010 que levaram abaixo quarteirões inteiros e que, ainda hoje, estão esvaziados ou servindo de área de estacionamento para veículos. Percebe-se, nas falas e depoimentos dos atores locais, que as categorias estanques definidas pelo Consórcio e pela Prefeitura, a saber, moradores e comerciantes carregam, na verdade, nuances que complexificam as dinâmicas sócioespacias e tonalizam uma realidade policromática. Moradores são, na verdade, inquilinos, proprietários, habitantes das ruas e dos cortiços e pessoas que há muito habitam edifícios que foram foco de processos de ocupação. Comerciantes ocupam não apenas o interior das edificações ao negociar eletro-eletrônicos, produtos de alimentação e beleza, mas são também aqueles que vivem da cata e reciclagem do lixo das ruas, da venda de seus corpos na atividade diária da prostituição e da venda de drogas, principalmente, o crack, que estigmatizou grande parte da área a ser requalificada como Cracolândia (LEFTHAND ROTATION, 2011). Já na observação do local, a sucessão dos passos que se sucedem ao se caminhar pela região do projeto Nova Luz revela a diversidade dos modos de vida que conformam um lugar prenhe de vida e de heterogeneidade. Cheiros, cores, incômodos e contrastes desenham uma paisagem que, tendo sido percorrida, pela primeira vez, no ano de 2010, exibe, hoje, alterações e cicatrizes. Prédios tombaram e deram lugar a grandes lotes e quadras vazias, moradores de rua e prostitutas não são mais vistos em números expressivos, uma praça criada tem horário de funcionamento das 7hs às 17hs, o barulho das ofertas anunciadas nas portas das lojas enrouqueceu. A impressão é a de que há alguns poucos anos, ao aproximar do polígono de intervenção, a Luz do projeto foi pintada de forma chapada por retratar um espaço que produzia sombras sobre as vidas responsáveis pela formação da lógica do dia a dia. Sombras que homogeneizavam a paisagem e contribuíam para que o olhar mais desatento percebesse um Página | 386 pedaço de cidade de iluminação tão artificial quanto inverídica. Ainda hoje, a Luz não é o local do morador e do comerciante anônimos. Apesar das alterações levadas a cabo, a parcela dos atores sob a sombra do olhar das políticas públicas é, de alguma forma, a parcela que também colore o concreto de uma grande cidade brasileira. Palavras-chave: Projeto Nova Luz. Modo de vida. Heterogeneidade. Referências LEFTHAND ROTATION. Luz. Disponível em: <http://lefthandrotation.com/museode splazados/ficha_luz.htm> Acesso em 08/08/2012. SÃO PAULO. Lei no 14.917, de 09 de maio de 2009. Dispõe sobre a Concessão Urbanística no Município de São Paulo. Disponível em: Acesso em <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/ secretarias/desenvolvimento_urbano/legislacao/index.php?p=821> 06/08/2012. SÃO PAULO. Secretaria de Desenvolvimento Urbano. Audiência Pública realizada em 28 de setembro de 2011. Disponível em: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/ upload/chamadas/memo_21_1323699650.doc> Acesso em 06/08/2012 (d). Página | 387 SÃO PAULO. Secretaria de Desenvolvimento Urbano. Projeto Nova Luz, São Paulo, Brasil: projeto urbanístico específico (PUE). Disponível em: <http://www.prefeitura.sp. gov.br/cidade/secretarias/upload/desenvolvimento_urbano/arquivos/nova_luz/201108_PUE.p df> Acesso em 06/08/2012 (a). SÃO PAULO. Secretaria de Desenvolvimento Urbano. Projeto Nova Luz, São Paulo, Brasil: plano de urbanização de ZEIS (PUZEIS). Disponível em: <http://www.prefeitura.sp. gov.br/cidade/secretarias/upload/desenvolvimento_urbano/arquivos/nova_luz/201108_PUZE IS.pdf> Acesso em 06/08/2012 (b). SÃO PAULO. Secretaria de Desenvolvimento Urbano. Projeto Nova Luz: estudos de viabilidade econômica, mercadológica e de situação fundiária. Disponível em: <http://www. prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/desenvolvimento_urbano/arquivos/nova_luz/20 1108_EVEMSF.pdf> Acesso em 06/08/2012 (c). Página | 388 2 - SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL E POLÍTICAS PÚBLICAS: EM BUSCA DE MELHORIAS PARA A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE POBREZA Mariana Ramos de Morais75 () Resumo expandido O tema da segregação socioespacial tem assumido importância na pesquisa urbana, em especial nos trabalhos sobre a pobreza em que são destacados seus mecanismos de reprodução no contexto das cidades. Algumas abordagens apontam para uma correlação entre os fenômenos da destituição social e a concentração de grupos em situação de pobreza em territórios crescentemente homogêneos. Outros estudos indicam uma mudança nos padrões de segregação, em que o espaço da cidade é representado como fractal. Dessa maneira, entende-se que a forma urbana representada pelo forte contraste entre um centro rico e periferias muito pobres está sendo alterada. A literatura acerca da temática aponta um outro aspecto relevante para se pensar a segregação socioespacial: a pobreza e os espaços onde os pobres residem são muito mais heterogêneos do que usualmente é considerado na literatura, o que sugere a existência de 75 PUC Minas Página | 389 diferentes níveis de segregação mesmo dentro de áreas mais pobres, podendo gerar importantes consequências para o desenvolvimento de políticas públicas. Este trabalho buscará relacionar o conceito de segregação socioespacial com as políticas públicas voltadas para a melhoria das condições de vida da população que está em situação de pobreza. A segregação socioespacial pode ser entendida como a relação entre a posição de grupos no espaço social com a sua localização no espaço físico. É no espaço social que ocorrem as relações que irão demarcar a posição de cada um dentro da sociedade, sendo que, quanto mais diferenciada for a sociedade, mais numerosas serão as dimensões do espaço social. A tendência é de que pessoas que ocupam posições semelhantes no espaço social concentrem-se no mesmo espaço físico, conforme aponta Bourdieu (1999). De acordo com o autor, o espaço social está inscrito nas estruturas espaciais e nas estruturas mentais, estabelecendo-se como um lugar onde o poder é afirmado e exercido. O capital faz com que as pessoas e as coisas indesejáveis mantenham-se à distância, ao mesmo tempo em que permite aproximar-se de pessoas e coisas desejáveis. Dessa forma, a proximidade no espaço físico permite que a proximidade no espaço social produza todos os seus efeitos, o que pode favorecer a acumulação de capital social, ao passo que as pessoas que não possuem capital são mantidas à distância, física ou simbolicamente, intensificando a experiência da finitude. Em outras palavras, a falta de capital prende a um lugar. No contexto urbano, as regiões em que há concentração de grupos em situação de vulnerabilidade são estigmatizadas, e alguns estudos têm apontado para uma crescente homogeneização desses territórios, na medida em que se cria uma dinâmica de causação circular da pobreza ou o “efeito vizinhança”. No caso brasileiro, principalmente quando voltamos nosso olhar para a questão da pobreza no contexto metropolitano, pode-se afirmar que a privação Página | 390 desses “trunfos”, a que se refere Bourdieu, se manifesta na dificuldade de acesso à moradia, na insuficiência de investimentos em serviços e na falta de infraestrutura urbana e social nas áreas periféricas e favelizadas. O termo segregação socioespacial remete à ideia de separação e de exclusão de determinados grupos sociais do conjunto da sociedade, o que pode caracterizar situações em que há uma ausência de relações que vinculem esses grupos ao conjunto social. A análise dos problemas de segregação se constitui num caminho para que se avance na busca pela maior igualdade social, o que passa pelo desenvolvimento de políticas voltadas para a melhoria das condições de vida da população em situação de pobreza. No campo das políticas públicas está se formando um consenso de que a política social direcionada aos que mais sofrem os impactos das transformações econômicas deve focalizar os territórios onde estão concentradas as desvantagens sociais, onde os chamados “efeitos de vizinhança” impedem o acesso da população aos recursos necessários à integração e ao bem-estar social. Outros fatores, como o baixo poder de compra da população e o elevado custo de oferta de habitação, podem contribuir para intensificar a segregação socioespacial. Ainda pode-se citar as falhas de mercado e a regulação urbana que dificultam o acesso à terra e a queda dos custos com habitação como elementos que podem colaborar para o aumento da segregação. Caso não haja um esforço institucional, a situação pode ser agravada. Para tanto, estudos sugerem que sejam definidas estratégias e políticas públicas nas três esferas de governo, que considerem as seguintes diretrizes: uma focalização social e espacial da política urbana; integração de ações, seja no plano institucional ou espacial; a melhoria dos serviços públicos; aperfeiçoamento das políticas já existentes; e a criação de novas formas de atuação na gestão urbana. Uma tarefa complicada, uma vez que, no Brasil, a literatura sempre enfatizou mais a Página | 391 existência de desigualdades e injustiças na distribuição de renda e dos serviços públicos do que a separação entre os grupos sociais. Além disso, a forma como os grupos sociais se distribuem nas metrópoles é heterogênea, como demonstrado em estudos sobre São Paulo (TORRES; FERREIRA; BITAR, 2003; CALDEIRA, 2000), Rio de Janeiro (RIBEIRO, 2003) e Belo Horizonte (TEIXEIRA; SOUZA, 2003). Eles apontam que a segregação pode ser gerada por ações governamentais, mas que o Estado também tem condições de reduzir esse efeito, desenvolvendo políticas de integração social e espacial. Duas formas de tratar esse problema são apresentadas. A primeira seria forçar os grupos sociais mais pobres e mais ricos a conviver e interagir mais intensamente. Outra sugestão é garantir melhorias nas condições urbanas das áreas mais pobres, elevando-as a um padrão mais próximo das áreas em que os ricos moram. Partindo dessas estratégias, que normalmente são associadas, as políticas governamentais com impacto sobre o espaço urbano são classificadas em dois grupos: as políticas relativas ao espaço construído, em que estão incluídas as políticas de regulamentação urbana; e as políticas sociais espacialmente organizadas, que incluem educação, saúde, assistência social, esporte, cultura e lazer. Políticas que são importantes devido à invisibilidade dos mais pobres entre os pobres, ou seja, da diversidade da pobreza, não somente por causa da dificuldade que eles têm para se organizar e vocalizar suas demandas, mas também pelo fato de as rotinas administrativas das agências estatais nunca os considerarem de forma diferenciada. Qualquer que seja a forma da origem da segregação residencial nas cidades, suas consequências sobre o isolamento dos pobres urbanos parece ser suficientemente importante para que os responsáveis pelas políticas de planejamento territorial não deixem essa função a cargo das forças do mercado, orientadas essencialmente por uma lógica imobiliária, pois neste caso as Página | 392 desigualdades nas cidades tenderão a fragmentar o espaço urbano em vizinhanças que concentram classes homogêneas. Assim sendo, a polarização espacial das classes sedimentará as desigualdades e poderá ser um obstáculo na busca por uma situação mais igualitária. Para buscar uma situação mais igualitária, o desenvolvimento de políticas públicas que visam a melhoria das condições de vida daqueles que estão em situação de pobreza deve observar a diversidade e a complexidade presentes nas questões relativas à segregação socioespacial. Informações precisas sobre a oferta de serviços, bem como a sua demanda em cada área, podem contribuir positivamente para a aplicação dessas ações, uma vez que as regiões em que se concentra a pobreza têm suas especificidades, como apontam Teixeira e Souza (2003). De acordo com eles, as unidades espaciais não são espaços uniclassistas presididos por uma lógica de guetos e a distribuição dos grupos sociais também não é aleatória, como se o espaço urbano fosse socialmente indeterminado. Segundo os autores, há um padrão social de moradia definido por meio das relações sociais, que se concretizam, no espaço, em relações de vizinhança ou de segregação. Além disso, é preciso considerar o caráter subjetivo da segregação, como apontam Sabatini e Sierralta (2006). Eles afirmam que a segregação não é simplesmente um fato ou um problema negativo. A segregação deve ser entendida como um fenômeno que é parte integrante dos processos urbanos e que pode ter efeitos positivos – como no caso dos bairros étnicos que enriquecem a vida social e cultural da cidade – ou negativos – dando lugar aos estigmas territoriais. Palavras-chaves: Segregação socioespacial. Políticas públicas. Pobreza. Metrópole. Página | 393 Referências BOURDIEU, Pierre. Efeitos de lugar. In. BOURDIEU, Pierre (Org.). A miséria do mundo. Petrópolis: Vozes, 1999. CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. São Paulo: três padrões de segregação espacial. In: CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34, 2000. Cap. 6, p. 211-255. RIBEIRO, L. C. Q. Segregação residencial e políticas públicas: análise do espaço da cidade na gestão do território. In: RASSI NETO, Elias; BÓGUS, Cláudia Maria (Org.). Saúde nos aglomerados urbanos: uma visão integrada. Brasília: OPAS/OMS, 2003. v. 3, p. 155-180. SABATINI, Francisco; SIERRALTA, Carlos. Medição da segregação residencial: meandros teóricos e metodológicos e especificidade latino-americana. In: CUNHA, José Marcos Pinto da. (Org.) Novas metrópoles paulistas: população, vulnerabilidade e segregação. Campinas: Nepo/Unicamp, 2006. p. 169, 195. Disponível em: <http://www.nepo.unicamp.br/textos/ publicacoes/livros/vulnerabilidade/index.htm>. Acesso em: 25 abr. 2010. TEIXEIRA, J. G.; SOUZA, J. M. Espaço e sociedade na Grande BH. In: MENDONÇA, J. G. de; GODINHO, M. H. de L. (Org.). População, espaço e gestão na metrópole: novas configurações, velhas desigualdades. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2003. p. 19-42. TORRES, H.; FERREIRA, M.; BITAR, S. Pobreza e espaço: padrões de segregação em São Paulo. Revista de Estudos Avançados, São Paulo, n. 47, p. 97-128, 2003. Página | 394 3 - ISOLAMENTO X INTEGRAÇÃO: COMO VIVEM MULHERES MORADORAS DE UM NOVO BAIRRO DO MINHA CASA MINHA VIDA Theresa Raquel Reis Timo76 O estudo da pobreza de modo geral e especialmente da pobreza feminina deve partir dos obstáculos que as mulheres encontram no processo de construção de suas autonomias, não só em relação ao acesso a recursos materiais e simbólicos como também à possibilidade de atuarem como participantes plenas da interação social. O trabalho aqui proposto tem como objetivo discutir as diferentes barreiras que dificultam que mulheres pobres, beneficiárias do Programa Bolsa Família e do Programa Minha Casa Minha Vida residentes no Bairro Jardim Pequis II em Sete Lagoas participem integralmente da vida em sociedade, inclusive dificultando a participação delas no mercado de trabalho. Embora, esse seja um tema bastante estudado, é também bastante atual, principalmente diante das recorrentes discussões em torno da possibilidade de os repasses financeiros estatais a mulheres pobres estarem diminuindo o interesse dessas pelo trabalho ou, pelo menos, por algumas formas de trabalho. Além disso, trazer para essa discussão elementos relatados pelas próprias mulheres durante entrevistas em profundidade pode contribuir e enriquecer a discussão em torno desse tema. 76 Programa de Pós‐graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Página | 395 No meu trabalho de mestrado pretendo discutir os efeitos do Programa Bolsa Família sobre as relações familiares e de trabalho, sobre a autoestima, a qualidade de vida e a autonomia das mulheres que o recebem. Com o objetivo de coletar dados para essa dissertação, foram realizadas entrevistas com roteiro semiestruturado junto a beneficiárias do Programa Bolsa Família residentes na área de referência de um dos Cras (Centro de Referência de Assistência Social) do município de Sete Lagoas. A área escolhida foi a referenciada pelo Cras II que recebeu recentemente dois novos bairros criados a partir de programas do governo federal; o Jardim Pequis I criado pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e o Jardim Pequis II financiado pelo Programa Minha Casa Minha Vida. O primeiro recebeu moradores oriundos de áreas de risco do município, enquanto o segundo recebeu moradores originários de todas as regiões da cidade que se enquadram dentro do perfil e das exigências do programa de casas populares do governo federal. As entrevistas ocorreram em vários bairros da região referenciada pelo CRAS II, contudo nas realizadas junto às moradoras do Bairro Jardim Pequis II aspectos relacionados às dificuldades de mobilidade espacial e acesso encontradas por elas se destacaram como um dos elementos determinantes da forma como elas organizam suas vidas. Assim, pretendemos apresentar as situações em que vivem grande parte das mulheres pobres a partir da realidade das moradoras do bairro Jardim Pequis II. Nas narrativas dessas mulheres, fica muito claro como ter conseguido uma casa por meio de um programa de casas populares trouxe consequências que, em alguma medida, contribuíram para que elas ficassem ainda mais excluídas. Embora, a casa nova traga mais conforto e alguma segurança, sua localização traz também dificuldades de locomoção que se tornam um novo fator de restrição em suas vidas impondo a elas e às suas famílias a necessidade de desprender maior esforço para realizar qualquer tipo de atividade. . Página | 396 Uma das consequências da mudança para o bairro do Programa Minha Casa Minha Vida apontada pelas moradoras é a diminuição ainda maior das possibilidades delas conseguirem desempenhar atividades remuneradas. Se suas alternativas de inserção no mercado de trabalho já eram limitadas agora, devido à questão espacial, ficam praticamente resumidas às atividades que possam ser desempenhadas em casa. A partir dos relatos é possível demonstrar como a dimensão geográfica da pobreza recai sobre essas famílias e especialmente sobre as mulheres erguendo novas barreiras e confinando-as ao espaço doméstico e suas extensões e limitando as possibilidades de autonomia, criando novas formas de dependência. Os efeitos da mudança para o Jardim Pequis II, nesse sentido, ficam claros a partir das narrativas das mulheres e evidenciam uma das dificuldades que se impõem à participação delas na vida em sociedade atuando como mais um mecanismo que leva ao isolamento. Frequentar a casa dos familiares e até mesmo ter acesso a coisas essenciais como serviços de saúde, de assistência, comércio etc. tornam-se grandes desafios. Ao mesmo tempo, a partir dos relatos também é possível perceber os arranjos que vão sendo criados como alternativas para driblar, transpor e diminuir os efeitos das dificuldades encontradas. Alternativas essas que consistem, principalmente em redes de apoio que elas têm construído por meio de suas relações de vizinhança. As barreiras físicas impostas pelo fato de morarem em um bairro distante, com estrutura precária, associadas a normas culturais restritivas à mobilidade feminina, atuam de modo a fazer com que essas mulheres tenham suas vidas restringidas ao domicílio e adjacências. Os aspectos de mobilidade agravados pelo acesso desigual aos recursos e à educação, à precariedade dos postos de trabalho ofertados às mulheres com poucos anos de estudo, à identidade e realização pessoal, em larga medida, vinculadas à maternidade formam uma teia quase intransponível à autonomia de mulheres em situação de pobreza. Página | 397 Esse conjunto de fatores torna as discussões sobre os reflexos das políticas sociais na vida dessas mulheres e na forma como elas participam da sociedade e do mercado de trabalho ainda mais complexas. A análise sobre as posturas e procedimentos das mulheres pobres em qualquer tipo de atividade pública, inclusive trabalho remunerado deve considerar todas as barreiras que precisam ser vencidas e todas as dificuldades que estão envolvidas no ato de sair de casa e se inserirem no espaço público. Colocar em relevo as dificuldades de diversas naturezas enfrentadas pelas mulheres pobres, para transpor os limites do espaço doméstico contribui para enriquecer o debate sobre esse aspecto. Desta forma, pretendemos apresentar fatores, de diferentes ordens, que articulados formam uma teia que retém grande parte das mulheres pobres ao confinamento do espaço doméstico. Elementos que envolvem aspectos culturais, psíquicos, de tempo, de mobilidade, acesso entre outros. Palavras chave: Mulheres. Pobreza. Barreiras Referências AZEREDO, Verônica Gonçalves. Entre paredes e redes: o lugar da mulher nas famílias pobres. Serviço Social e Sociedade, São Paulo, n 103, p. 576-590, jul./set. 2010. BILAC, E. D. Gênero, vulnerabilidade das famílias e capital social: algumas reflexões. In: CUNHA, J. M. P. (Org.). Novas metrópolis paulistas: população, vulnerabilidade e segregação. Campinas: Nepo, 2006. p. 51-65. BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 4 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. Página | 398 ELIAS, Norbert; SCOTSON, John. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. FRASER, Nancy. Reconhecimento sem ética? Lua Nova, São Paulo n. 70, p. 101-138, 2007. KABEER, Naila et al. Productive safety nets for women in extreme poverty: lessons from pilot projects in India and Pakistan. London: Centre for Development Policy & Research, School of Oriental & African Studies, 2012. LAVINAS, Lena; ALVES, José Eustáquio; NICOLL, Marcelo. Pobreza, trabalho e desigualdade de gênero: conexões diversas. In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTUDOS POPULACIONAIS, 15, 2006, Campinas. Anais... Campinas: ABEP, 2006. CD-Rom. MAAS, Lucas Van Der. CAETANO, André Junqueira. Entre a família e o trabalho: uma análise da qualidade da inserção ocupacional no Brasil urbano sob uma perspectiva de gênero, 1996-2006. In: ENCONTRO NACIONAL DA ANPOCS, 33, 2009, Caxambu. Anais... São Paulo: ANPOCS, 2009. MEDEIROS, Marcelo. As teorias de estratificação da sociedade e o estudo dos ricos. Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, São Paulo, n. 57, p. 69-89, 1º Semestre 2004. Página | 399 PAUGAM, Serge. Desqualificação social: ensaio sobre a nova pobreza. São Paulo: Cortez, 2003. TEPICHIN VALLE, Ana Maria. Autonomia para participar em decisiones: elemento central para el combate a la pobreza com equidad de gênero. Estudios Sociológicos, v. 27, n. 79, p. 111-146, ene./abr. 2009. VAITSMAN, Jeni. Flexíveis e plurais: identidade, casamento e família em circunstâncias pósmodernas. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. Página | 400 4 - A PARCERIA ENTRE A SOCIEDADE E O ESTADO: O EXEMPLO DO MOVIMENTO NOSSA BH COMO UMA ALTERNATIVA NESTA INTERAÇÃO Daniele Cardoso do Nascimento77 Elis Rocha Palmeira1 Laise Copolillo Ayres1 Resumo A proposta de trabalho se encaixa, de acordo com o edital do 1° Simpósio de Ciências Sociais – Cidades e Fronteiras, na temática número 4, que é referente à Proteção Social; Políticas Sociais e Modos de vida urbanos. O artigo tem como objetivo entender como o Movimento Nossa BH (MNBH) atua de forma a tentar incentivar o avanço da participação popular em políticas públicas na capital mineira. Para tanto, é necessário compreender como se dá a relação entre sociedade civil e Estado; as diversas formas de participação da sociedade civil em políticas públicas e as dificuldades enfrentadas para que ela se fortaleça na trajetória da cidade de Belo Horizonte. Além disso, pretende-se compreender o contexto do surgimento e a atuação do Movimento Nossa BH nessa cidade, a fim torná-la uma cidade mais justa, democrática e sustentável. 77 PUC Minas Página | 401 No Brasil, a participação política tem sido marcada pela ampliação da presença da sociedade civil nas políticas públicas e pelo crescimento das instituições participativas. Nesse processo, a sociedade civil tem reivindicado maior presença em instituições encarregadas da deliberação sobre políticas públicas nas aéreas de saúde, assistência social e políticas urbanas, ao mesmo tempo em que se constata a legalização por parte dos governos de diversas formas de inserção de associações da sociedade civil nas políticas públicas. (AVRITZER, 2007) O ideal da participação política seria estabelecer uma dialética entre a sociedade civil e o Estado. Dessa forma, é necessário que se alcance a recuperação do papel do Estado, logo, a sua governança, e aumentar a sua governabilidade. Estes elementos são essenciais para a consolidação das ações do Estado dentro da sua relação com a sociedade. A governança está diretamente ligada à capacidade do Estado de atender aos seus cidadãos de forma mais equânime e justa possível, o que visa três aspectos fundamentais: efetividade, eficiência e eficácia. Já o aspecto da governabilidade se refere às condições sistêmicas mais gerais, sob as quais se dá o exercício do poder em uma dada sociedade, como a forma de governo e suas relações entre os poderes (MALAIA; VIEGAS; MAGALHÃES, 2011). Segundo Kliksberg (2007), a pressão da sociedade civil por uma maior participação tem crescido na região latino-americana e a razão para esta mudança está no fato de que, desde os anos 1980 e 1990, tem-se observado um avanço nos processos de democratização. Conseqüentemente, tem havido um nível maior de sociedades articuladas, ativas e que exigem mais espaço no âmbito político. A participação política no Brasil democrático tem sido marcada pela ampliação da presença da sociedade civil nas políticas públicas e pelo crescimento das instituições participativas. Desde os anos 70, começa-se a identificar um aumento de movimentos sociais e associações civis. Página | 402 Com a reforma constitucional brasileira em 1988, originam-se, fundamentalmente, um padrão de ação coletiva, a formação de espaços institucionalizados para a participação ampliada e as instituições híbridas que envolvem um compartilhamento de processos deliberativos entre os atores estatais e atores sociais. (AVRITZER; PEREIRA, 2005). Entende-se então que a proposta participativa de democracia manifesta-se por meio de espaços públicos, nos quais os membros da sociedade civil “praticam sua capacidade de interferir nos processos de tomada de decisão, influenciando na significação do que é compartilhado como bem comum; neles podem ser consolidadas as bases éticas importantes ao processo de construção democrática.” (COSTA, 2011, p. 25). Nesse sentido, a cidade aparece como espaço público por excelência, pois é entendida como ambiente de negociação entre atores, que levarão decisões para as esferas públicas. Estas, por sua vez, referem-se à arena institucionalizada de discussão, ou seja, “ao debate em si e não ao lugar onde ocorre o debate e que sempre associado à relação público e privado”, como argumenta Garcia citado por Costa (2011, p. 25). Assim, as cidades são reconhecidas como cenário onde ocorrem múltiplas relações e as estruturas políticas e institucionalidades são concebidas e aplicadas. Além disso, a cidade tem sido considerada como um direito conquistado institucionalmente, porém de difícil efetivação e consolidação. Globalmente, ele é garantido pela Carta Mundial do Direito à Cidade como resultado de uma convergência de esforços de organizações da sociedade civil para construção de democracias sólidas, onde as formas representativas e diretas da democracia podem e devem se complementar. Página | 403 Uma vez este cenário exposto, pode-se fazer uma ligação com o Movimento Nossa BH, que é constituído pela sociedade civil e se propõe a criar espaços de diálogo entre lideranças comunitárias, organizações sociais, empresas, cidadãos e governo a fim de promover o “comprometimento da sociedade e dos sucessivos governos com uma agenda e um conjunto de metas que tenha como foco a melhoria da qualidade de vida dos habitantes de Belo Horizonte.” (NOSSA BH, 2011, p.4). Assim, pretende exercer um controle democrático no processo de definição, implementação e avaliação de políticas públicas em Belo Horizonte. A criação do Movimento Nossa BH (MNBH) está em consonância ao surgimento de movimentos que visam incentivar e expandir a participação popular na gestão pública. A inspiração advém primeiramente da iniciativa colombiana “Bogotá como vamos”, que, desde 1997, tem obtido sucesso em aglutinar diversos atores sociais com o objetivo de controlar as iniciativas públicas e assim impactar positivamente na qualidade de vida da população na capital colombiana (NOSSA BH, 2011). No Brasil, o movimento no qual o Nossa BH se espelhou foi o Nossa São Paulo, lançada na capital paulista em maio de 2007. Em Belo Horizonte, a possibilidade de instituir um movimento semelhante começou a ser discutida em janeiro de 2008 por representantes de organizações empresariais e sociais. Em julho do mesmo ano, um incentivo para a concretização do movimento Nossa BH deu-se pelo lançamento da Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis. Em dezembro de 2008 foi então lançado o MNBH. O presente artigo busca problematizar a ação do Movimento Nossa BH à luz da realidade contemporânea da participação popular na cidade de Belo Horizonte. Caso de destaque pela longa trajetória de práticas participativas na gestão pública, a capital mineira também se mostra uma realidade instigante para a pesquisa na medida em que observou uma gradativa aproximação entre Página | 404 movimentos sociais e gestão pública, dado o fato de recorrentes governos de esquerda ocuparem o poder local nos últimos anos, bem como tem sido palco para o surgimento de novos atores da sociedade civil, como o MNBH, que se distanciam do padrão clássico dos movimentos sociais que anteriormente apoiaram as lutas pela ampliação da participação popular em Belo Horizonte. O artigo está estruturado de forma a discutir inicialmente a relação entre Sociedade Civil e Estado para, a seguir, analisar as diferentes formas de participação da sociedade civil na esfera pública. Dessa forma, constitui-se uma base teórico-conceitual capaz de problematizar a experiência do MNBH, que é analisada em profundidade no tópico “O Movimento Nossa BH no turbilhão das relações entre Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e Estado”. Seguem a esses tópicos as considerações finais do trabalho, que enumera uma série de desafios ainda muito presentes na realidade de Belo Horizonte, apesar da longa trajetória de participação popular em políticas públicas nessa cidade, que tornam bastante delicada a relação entre organizações da sociedade civil e Estado. REFERÊNCIAS ALVES, Mario Aquino. O conceito de sociedade civil: em busca de uma repolitização. Bahia: Escola de Administração UFBA. n.1, v.1, 1993. ALVES, Mario Aquino. Terceiro Setor: As origens do conceito. ANPAD. 2002. Disponível em: <http://www.anpad.org.br/ler_pdf.php?cod_edicao_trabalho=2605&cod_evento_edicao =6> Acesso em: 20 de jun. 2012 Página | 405 AVRITZER, L. Instituições participativas e desenho institucional: algumas considerações sobre a variação da participação no Brasil democrático. Opinião Pública, Campinas, v. 14, n.1, p. 43-64, 2008. AVRITZER, Leonardo. Sociedade civil, instituições participativas e representação: da autorização à Legitimidade da Ação. Dados: Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 50, n. 3, p. 443464. 2007. AVRITZER, Leonardo; PEREIRA, Maria de Lourdes. Democracia, participação e instituições híbridas. Teoria e Sociedade: Revista dos departamentos de Ciências Política e de Sociologia, Belo Horizonte, volume, n. esp. , páginas, 2005. BAQUERO, Marcello. Cultura política participativa e desconsolidação democrática: reflexões sobre o Brasil contemporâneo. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 15, n. 4, páginas, dez. 2001. BELO HORIZONTE. Câmara Municipal. Ata da centésima quinta reunião ordinária da primeira sessão legislativa da décima sexta legislatura da Câmara Municipal de Belo Horizonte. 2009. Disponível em: <http://euacredito.com/site/wp- content/uploads/frequencia/ 105RO.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2012 BELO HORIZONTE. Câmara Municipal. Projeto de Lei nº 1736/ 2011. Belo Horizonte. 2011. Disponível em: <http://www.nossabh.org.br/up_artigo/fo7de9re7gi3.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2012. Página | 406 BELO HORIZONTE. Câmara Municipal. Proposta de Emenda à Lei Orgânica Lei nº 11/2011. 2011. Disponível em: <http://www.nossabh.org.br/up_artigo/fu2fa3ko4ti8.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2012. BELO HORIZONTE. Prefeitura. Câmara promulga Lei da Ficha Limpa Municipal. 2011. Sala de Imprensa, 13/09/2011. Disponível em: <http://www.cmbh.mg.gov.br/chapeu/fichalimpa-bh>. Acesso em: 20 mai. 2012. BELO HORIZONTE. Prefeitura. Conselhos Municipais de Belo Horizonte elaboram manifesto contra Projeto de Emenda à Lei Orgânica do Município. 31 mai. 2011. Disponível em: <http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/noticia.do?evento=portlet&pAc=not&id Conteudo=47584&pIdPlc=&app=salanoticias>. Acesso em 20 maio 2012. CICONCELLO, Alexandre. A participação social como processo de consolidação da democracia no Brasil. 2008. Disponível em: <http://www.cdes.gov.br/documento/860192/aparticipacao-social-como-processo-de-consolidacao-da-democracia-no-brasil-alexandre-ciconello.html>. Acesso em: 20 maio 2012. COSTA, Márcia Helena Batista Corrêa. Participação democrática e planejamento urbano: o Conselho de Política urbana e as Conferências de Política Urbana em Belo Horizonte. 2011. Tese (Doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, Campinas. Página | 407 FLEURY, Sonia. Políticas sociais e democratização do poder local. 2003. Disponível em: <http://peep.ebape.fgv.br/sites/peep.ebape.fgv.br/files/politicas_sociais_democratizacaolocal.p df>. Acesso em: 21 maio 2012. KLIKSBERG, Bernardo. ¿Cómo avanzar la participación en el continente más desigual de todos? Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 41, n.3, páginas, maio/jun. 2007. LAVALLE, Adrian Gurza; CASTELLO, Graziela. Sociedade civil, representação e a dupla face da accountability: cidade do México e São Paulo. Caderno CRH, Salvador, v. 21, n. 52, p. 67-86, jan./ abr. 2008. MALAIA, M. C. B. T.; VIEGAS, M. C. L, C.; MAGALHÃES, G. S. Governança gerencialista e governabilidade com controle social – experiência brasileira. In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM ADMINISTRAÇÃO, 2011, Rio de Janeiro. Anais do Encontro da ANPAD. Rio de Janeiro: ANPAD, 2011. MCADAM, Doug; SCOTT, W. Richard. Organizations and Movements. In: DAVIS, Gerald F. et al. Social movements and organization theory. New York: Cambridge University Press, 2005. Cap 1, p.4-40. MELUCCI, Alberto. Um objetivo para os Movimentos Sociais? São Paulo: Lua Nova, n.17, jun. 1989. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451989000200004> Acesso em: 20 de jun. 2012. Página | 408 NOSSA BH. A favor do voto aberto. 23 abr. 2012c. Disponível em: <http://movimentonossabh.blogspot.com.br/2012/04/favor-do-voto-aberto.html>. Acesso em: 20 mai. 2012. NOSSA BH. Apresentação Nossa BH. 2011 b. Disponível em: <http://nossabh.org.br/up_apresentacao/pu3ca3pa9ri5.pdf>. Acesso em: 16 mar. 2012 NOSSA BH. CMBH aprova por unanimidade lei do programa de metas em Belo Horizonte. 2012a. Disponível em: <http://www.nossabh.org.br/noticias.php?q=75/CMBH_aprova_por_unanimida de_lei_do_programa_de_metas_em_Belo_Horizonte>. Acesso em: 16 mar. 2012. NOSSA BH. Cultura. [2011e]. Disponível em: <http://www.nossabh.org.br/grupos.php?q=5/Cultura>. Acesso em: 16 mar. 2012. NOSSA BH. Dossiê Nossa BH, 2011a. Disponível em:<http://www.nossabh.org.br/up_artigo/we3ku2ho0ce8.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2012 Página | 409 NOSSA BH. Educação [2011f]. Disponível em: <http://www.nossabh.org.br/grupos.php?q=6/Educa%E7%E3o>. Acesso em: 16 mar. 2012. NOSSA BH. Ficha Limpa - 21/12/2010 . Disponível <http://www.nossabh.org.br/campanhas_completa.php?q=2/Ficha_Limpa>. em: Acesso em: 16 mar. 2012. NOSSA BH. Movimento analisa contas da PBH e aponta preocupações. 2012b. Disponível em: <http://www.nossabh.org.br/noticias.php?q=79/Movimento_analisa_contas_da_PBH_e_apont a_preocupacoes>. Acesso em 22 mai. 2012. NOSSA BH. Por dentro do movimento. 2010a. Disponível em: <http://www.nossabh.org.br/boletim_completo.php?q=2/Por_dentro_do_Movimento_ >. Acesso em: 16 mar. 2010 NOSSA BH. Programa Municipal de Reciclagem Ambiental Participativa. 2010 B. Disponível em: <http://www.slideshare.net/NossaBH 19/11/201>. Acesso em: 16 mar. 2012 NOSSA BH. Sistema de Indicadores Nossa BH. 2012b. Disponível em: <http://www.nossabh.org.br/indicadores/>. Acesso em: 15 mar. 2012. Página | 410 NOSSA BH. Sociedade civil propõe mudanças no PPAG de Belo Horizonte 2011h Edição 11/2011 - Belo Horizonte, 22 de outubro de 2011 NOSSA BH. Sustentabilidade. [2011d]. Disponível em: <http://www.nossabh.org.br/grupos.php?q=1/Sustentabilidade>. Acesso em: 16 mar. 2012. NOSSA BH. Vagas para a Consocial BH já foram praticamente preenchidas. 2011 g 22 out. 2011. Disponível em: <http://www.nossabh.org.br/noticias.php?q=67/Vagas_para_a_Consocial_BH_ja_fora m_praticamente_preenchidas>. Acesso em: 17 mar. 2012. NOSSA BH. Vereadores de BH querem acabar com poder de decisão dos conselhos. 2011 b. Disponível em: <http://www.nossabh.org.br/noticias.php?q=55/Vereadores_de_BH_querem_acabar_com_o_p oder_de_decisao_dos_conselhos NUNES, Débora. Por uma pedagogia da participação popular. O&S, v. 6, set/dez 2006. PORTAL VERMELHO. Entidades fazem manifesto pela cultura em Minas Gerais. 1 jun. 2010. Disponível em: <http://www.vermelho.org.br/mg/noticia.php?id_noticia=130582&id_secao=76 >. Acesso em: 20 mar. 2012. Página | 411 PROGRAMA CIDADES SUSTENTÁVEIS. Programa Cidades Sustentáveis. Disponível em:<http://www.cidadessustentaveis.org.br/plataforma>. Acesso em: 20 mar. 2012. REDE SOCIAL BRASILEIRA POR CIDADES JUSTAS E SUSTENTÁVEIS. Um plano para nossa cidade. Maio de 2009. Disponível em: <http://www.nossabh.org.br/up_artigo/ xa5ca4la7ri2.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2012. SILVA, Marcelo Kunrath. Construção da “Participação Popular”: análise comparativa de processos de participação social na discussão pública do orçamento em municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre/RS. 2001. Tese (Doutorado em Sociologia) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. TEODÓSIO, Armindo dos Santos de Souza. Parcerias tri-setoriais na gestão urbana de Belo Horizonte: uma análise das implicações e desdobramentos do Movimento Nossa BH sobre a esfera pública. Local: editora, data. Página | 412