UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA Departamento de Letras e Artes – DLET Curso de Licenciatura em Letras com a Língua Inglesa Língua Portuguesa VI Profª. Norma Soeli JOÃO BOSCO DA SILVA ([email protected]) CARTA DE MÁRIO PRATA AO MINISTRO PAULO RENATO. ANÁLISE DO TEXTO FEIRA DE SANTANA - BAHIA 2009 1 CARTA DO ESCRITOR MÁRIO PRATA AO MINISTRO PAULO RENATO Saber que uma crônica minha, publicada aqui neste espaço, foi tema da prova de português num vestibular para medicina só me envaidece. O ego dá um pulo. Melhor até mesmo que um elogio no The New York Times (sorry, mas eu tinha de contar). A crônica imposta aos jovens se chama As Meninas-Moça. Publicaram a danada inteira e depois fizeram oito perguntas em forma de múltipla escolha. E eu, que escrevi, que sou o autor, errei as oito. Imagino os meninos e as meninas, que querem ser médicos, submetidos a tal dissecação. Fico aqui me perguntando, ministro, pra que isso? Será que, para cuidar de uma dor de cabeça, um jovem tem de saber se a minha expressão "esparramados em seios esplêndidos" é uma paráfrase, uma metáfase, uma paródia, uma amplificação ou o resumo de um texto bem conhecido pelo cidadão brasileiro? Com toda a sinceridade, ministro da Educação Paulo Renato, você sabe me responder isso? Algum assessor seu sabe? A gente educa os filhos direitinho, ensina o que achamos fundamental. Educação, honestidade, indica bons livros, explica porque o Maluf é nefasto, pede para ele torcer pelo Corinthians, apresenta gente decente, paga milhões de reais por bons colégios, ensina inglês e até paga o analista. Para que ele tenha um bom futuro e seja feliz. Meus filhos sabem, por exemplo, o que é larica. Você também sabe. Mas, para ser médico, a larica é outra. Veja mais um exemplo da prova: "Larica é larica. Vide dicionário." Aí, para ser médico, o jovem precisa saber se esta pequena frase é poética, fática, metalingüística, emotivaexpressiva, referencial, conativa ou apelativa? O que você acha, Paulo Renato? Eu, larica à parte (e bem-vinda), não faço a menor idéia. Será que não teria sido melhor publicar a crônica (como foi feito) e pedir para a garotada escrever o que quisesse, o que achasse, o que bem entendesse do que eu entendi? Deixar o jovem manifestar a sua opinião, fazer a garota escrever no lugar de ficar ticando opções fáticas? O título da vestibular crônica, já disse, era As Meninas-Moça e eu me referia ao time feminino de vôlei da Leites Nestlé que ia acabar. Olha o que eles perguntaram aos alunos, sobre o título: a - ao usar meninas-Moça, não flexionou no plural o segundo elemento porque criou um neologismo, processo que não se submete a normas da língua; b - ao criar um novo vocábulo, não transgrediu as regras de flexão dos compostos; c - usou uma flexão admissível porque o segundo elemento é um nome próprio feminino; d - ao usar a expressão do composto, violentou a regra da língua que preconiza, para esse caso, a variação no plural para os dois elementos; e - usou apropriadamente a forma meninas-Moça, visto que o segundo elemento tem função apositiva. O que você acha, ministro? Eu, fico entre a e b. Mesmo porque eu não tenho a menor idéia do que seja uma função apositiva. E você, Paulo Renato, vota em quem? F, H, C? Ou A, C, M? Ou M, E, C? E agora, meu querido ministro, só para terminar a aula, me diga, nas expressões abaixo, onde você identifica um exemplo de intertextualidade: a - "... principalmente o feminino balé de braços, de loiras e altitudes mim"; b - "Não, leite Moça foi feito para flanar esparramado em seios esplêndidos, chacoalhando no ar, jornadando até as estrelas"; c - "Aquelas meninas-moças, todas voando pela quadra já fazem parte da latinha"; d - "Embaixo, está escrito: indústria brasileira"; e - "... que saem de dentro da lata como que convocadas pelos gênios das lâmpadas que iluminam." E agora, C, D, ou F? Já disse lá atrás, ministro e organizadores da prova, que sinto-me sinceramente envaidecido com a escolha de um texto meu. Mas jamais poderia imaginar que, ao escrever uma crônica pensando naquelas coxas todas, naqueles seios esparramados pelas quadras, ao escrever um texto de olho na Karin, ao digitar uma crônica, preocupado com o desemprego da minha namorada (que fazia parte da equipe) fosse dar tanta dor de cabeça 2 para dezenas de milhares de jovens que querem apenas uma profissão digna para enobrecer este nosso País tão mal-educado. Quanto às pernas da Karin, ministro, vá de a, b, c, d e fim de papo. Sacou? Fonte: O Estado de São Paulo – 16/06/1999 – Mário Prata ANÁLISE DO TEXTO: Mário Prata ao escrever essa matéria no Jornal “O Estadão”, salienta que “o Brasil tem poucos leitores e que, para mudar esse quadro, é fundamental incentivar as pessoas a ler desde a adolescência. Segundo ele, o método adotado pelos vestibulares faz justamente o contrário: só afasta o jovem da literatura”, por isso os alunos optam pela leitura de resumos. A raiz do problema está no fato de se educar tendo como objetivo apenas o vestibular. Todos deveriam perceber que as obras são abertas e que dão possibilidades de muitas interpretações. No vestibular se elege apenas uma única possibilidade correta, sem deixar que o estudante manifeste sua opinião. Na prova o professor não quer saber se o estudante é capaz de se comunicar, pois o que realmente conta é a capacidade de identificar orações subordinadas, adjuntos adverbiais, adjetivos etc. O raciocino de Mário Prata se aplica ao ensino de Língua Portuguesa em geral também, pois quando o estudante tem o primeiro contato com uma infinidade de nomenclaturas, parece inicialmente não faz sentido. A pessoa passa anos estudando essas regras na escola, e quando precisa criar um texto não vai saber descrever um pensamento e as palavras na ordem e forma estruturadas. As estruturas como, por exemplo, S.V.O (Sujeito, Verbo, Objeto) do Português pode ser preservada, mas deve também ser acompanhada, concomitantemente, com o incentivo à criação de textos, sem torturar ninguém com análise sintática, por exemplo, fazendo um casamento perfeito entre a teoria e a prática, deixando de lado a frieza e o radicalismo do ensino da gramática normativa. As gerações estão procurando aprender somente o necessário para passar no vestibular da Faculdade, enquanto que no Vestibular da vida, quando lhes aparecem as múltiplas escolhas, não vão ter muito que decidir com base apenas nos resumos das leituras e estudos da escola, podendo ter o futuro severamente prejudicado. Pequena bibliografia: Mario Prata nasceu em Uberaba, em 1946. Vive em São Paulo, onde se consagrou como jornalista, roteirista, dramaturgo e escritor. É autor de novelas de sucesso, como Estúpido cupido e Sem lenço, sem documento, e de best-sellers como Schifaizfavoire, Mas será o Benedito?, Minhas mulheres e meus homens, Os anjos do Badaró (primeiro romance brasileiro escrito online, com a participação dos leitores) e Minhas tudo. REFERÊNCIA TECNOLÓGICA: www.marioprataonline.com.br > Acesso em 12.06.2009.