ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema artístico aquilo que entendem por realidade. E para isso, convidam todos os nossos sentidos, por meio da visão e/ou da audição, a entendermos o que entendem por realidade. Mas a realidade, enquanto representação, requer, do espectador, mais que os cinco sentidos, requer a memória, requer reminiscências. Está aí o poder da Arte de atingir todas as pessoas, independente de suas limitações. Limitações também do ecrã, que são superadas por uma busca pela representação da realidade por meio de outros olhos, os olhos da pintura. Quando traça-se um paralelo entre cinema e pintura, é necessário ter em vista a dicotomia que ao mesmo tempo que as une, as separa: Os limites da tela (cinematográfica) não são, como o vocabulário técnico às vezes o sugere, o quadro da imagem, mas um "recorte" (cache em francês) que não pode senão mostrar uma parte da realidade. O quadro (da pintura) polariza o espaço em direção ao seu interior; tudo aquilo que a tela nos mostra, contrariamente, pode se prolongar indefinidamente no universo. O quadro é centrípeto, a tela é centrífuga. (BAZIN apud XAVIER, 1977, p. 14). A memória presente no quadro, na tela do cinema remonta outro tempo, apropriado pelo cinema. Tempo este que nunca está isolado em uma cena de um filme, mas em cada cena, assim como nos quadros de Giotto vistos por Almeida, "há um tempo em trânsito presente, sendo o e ao mesmo tempo, passado, presente, futuro. Um tempo que não se faz tempo que transcorre, mas tempo que dura. Duração. Eternidade em movimento.” (ALMEIDA, 1999, p. 37). A partir de qualquer imagem, recompõe-se uma narração. E cada narração é sugerida pela nossa memória, artística, mas antes de tudo, social. ESCRITOR E CINEASTA: LEITURA DE MACHADO DE ASSIS POR MAURO FARIAS A originalidade do estilo de Machado de Assis pode ser percebida no conto O Enfermeiro, publicado em 1896, no livro Várias Histórias. Conto este que, interpretado pelo cineasta Mauro Farias, em 1999, deu origem a um filme de mesmo nome, obra de análise neste estudo. Apesar de homônimos, no entanto, é a distinção entre as duas linguagens, que propõem as diferentes perspectivas com que encaram a temática cineasta e escritor. Além disso, é de fato na composição de cada cena que o cineasta assina sua contribuição na construção de sentido da releitura da obra. No conto, o enredo quase perde a importância para a forma de descrever de Machado de Assis. Há uma ênfase na forma e na análise psicológica das Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 729-736 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema personagens, que são essencialmente descritivas [...]. A personagem de Procópio, o enfermeiro, por exemplo, desde o começo da narrativa literária, mantém-se como narrador-personagem, mantendo-se como focalizador das ações, ao passo que na narrativa fílmica, não há como deixar à vista somente a perspectiva de Procópio, já que outros personagens são inseridos na trama para dar vida ao enredo, como o vigário, o médico, o tabelião, os escravos - personagens esses que são somente citados no decorrer do conto como componentes do personagem "sociedade". (FANK, SILVA, 2008, p.5). Mesmo com a ausência de elementos substancialmente descritivos que subsidiassem a produção do cenário, o diretor cuidadosamente escolheu elementos que ajudassem na transmissão do ambiente bucólico e naturalista do século XIX. Desde o céu à paisagem que circunda o ambiente no qual desenrola-se a história, Mauro Farias, teve extremo cuidado na escolha da luz, natural, e da cor, viva que transmitiria a sensação de paz conflituosa em relação ao ambiente de tensão inscrito no interior dos ambientes da casa onde moram enfermeiro e velho. O conto descreve com clareza, e uma clareza peculiar, a constante angústia do personagem-narrador Procópio, mas em nenhum momento sugere ou denota características referentes ao ambiente externo aos personagens, seja a casa onde vivem, seja a paisagem que circunda a casa. É de única responsabilidade - e criatividade - do cineasta elencar elementos que sirvam ao seu próprio enredo, que transforma-se a partir do momento que conta como personagem também a paisagem. LEITURA DE STANLEY KUBRICK POR MAURO FARIAS: CINEASTA E CINEASTA A paisagem ganha importância e caráter de personagem a partir do momento que ativa-se um conhecimento prévio e passa-se a estabelecer-se uma intertextualidade com outras cenas de outros filmes, outras influências. O ambiente exterior parece ser composto como numa tela, mas antes de dialogar com pinturas, dialoga de maneira nada sutil com a paisagem criada para apaziguar conflitos de Barry, em Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick. Desde o céu à vegetação de um verde contrastante. Como nos fala sobre a pespectiva Almeida (1999, p.123): “Uma caixa que encerrará em linhas, luzes e sombras artificiais e estáveis, as linhas, luzes e sombras da realidade natural e cambiante. [...] representará a vida efêmera e transitória em formas estáveis e permanentes”. É esse o elo que une os diálogos presentes nessa caixa: a perspectiva. As formas ora já utilizadas por Kubrick tornam-se referência, adquirem uma duração de permanência, que, Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 729-736 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema dessa forma, servem aos interesses de Farias, e por esse motivo, são resgatados de sua memória.. Abaixo frame do filme O Enfermeiro (1999), de Farias (Figura 1): Abaixo, cena do filme de Kubrick, Barry Lyndon (Figura 2): Nesse contexto, o homem aparece muito pequeno, diante da imensidão da natureza. A imponência e a vitalidade das cores e frondosas árvores escondem o homem, que surge em meio a esse conjunto. Seduziu aos dois cineastas, especialmente, a luz natural que dá lugar a Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 729-736 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema cada cor da vegetação, desde o bege dos capins secos ao verde vivo, que configura mais vida à natureza. Em outras cenas iniciais dos dois filmes, que coincidentemente descrevem a jornada de um homem jovem, rumo às atrocidades que o destino lhe prepara, o homem está sempre em conjunto com a natureza, e em quase sua totalidade é focalizado para depois, com a cena aberta, ser transformado num detalhe do quadro que compõe a cena. Nesse sentido, os enredos se completam, à medida que contam a história de homens que seguiram seu próprio instinto para sobreviverem ao que encontravam pelo caminho, por vezes desvelando um caráter desaprovado pela sociedade burguesa, mas sempre seguindo à própria natureza. As composições dos cineastas constituem conjuntos muitas vezes difíceis de se abandonar. Transmitem a paz e serenidade que os outros momentos tensionais e passionais do filme não transmitem. São paisagens convidativas, principalmente aos olhos preparados para perceber seu diálogo. CLAUDE LORRAIN, ANTOINE WATTEAU E GEORGE DE LA TOUR POR KUBRICK Aos espectadores desavisados, o tratamento da imagem, feito por cada cineasta, passa despercebido frente a um enredo de qualidade ou a um roteiro bem escrito. É o caso dos dois filmes. Num enfoque um pouco mais abrangente, AUMONT (2007) também nos faz refletir no diálogo do cinema com a pintura: este quando se tornou apto a se pensar como arte, não tem todo o seu sentido se separarmos da história da pintura, cinema e pintura não representam, não visam representar o espaço, o tempo, a ficção da mesma maneira, eles não empregam totalmente os mesmos meios. O foco deste estudo exige uma leitura mais aprimorada que irá discutir aspectos primordiais, quando considera-se um diálogo entre a pintura e o cinema: luz e cor. Para Jacques Aumont, É na relação com a luz que se percebe melhor o paradoxo plástico do cinema: vítima de sua tecnicidade, ele apreende bem demais a luz, sem trabalho, para saber, de saída, trabalha-la. Fazer da luz um material plástico é, em pintura, uma necessidade: o pintor mais naturalista não pode esgotar seu tratamento da luz em efeitos de realidade; é, no filme, uma decisão deliberada e difícil. [...] e começar falando da luz é, apesar de tudo, revelar uma escolha, a do cinema, já que a luz pictórica é sempre a idéia de uma luz. Só que o que é primordial em pintura não é evidentemente a luz, e sim a cor. (AUMONT, 2003, p. 181) Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 729-736 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema Explica-se: o valor da cor para o cinema é inscrito na sua concepção de luz, ao passo que na pintura, pensa-se primeiro na cor, para conseqüentemente pensar-se na cor. Nas paisagens observadas e selecionadas dos filmes, percebe-se o que seria para Aumont (2003), o efeito atmosférico da luz na representação: nesse sentido, a luz não serve para dar lugar a nenhum objeto na composição da obra, pelo contrário, iluminá-la como um todo. Em geral, essa forma de representação, banha o quadro inteiro ou "por zonas, de uma luz cuja 'conotação', levará a apreciação de conjunto do quadro." (AUMONT, 2003, p. 175) principalmente no caso das paisagens. De acordo com Susan Woodford, "a paisagem pode ser um motivo tão atraente para um pintor quanto para qualquer amante da natureza. Alguns artistas tornaram-se, na realidade, especialistas em paisagens, enquanto outros só ocasionalmente se voltaram para esse gênero da natureza - como refrigério para espírito e olhos." (1983, p. 14). É o caso de Claude Lorrain e Antoine Watteau, dos quais Kubrick, relido por Mauro Farias, empresta figurino, composição e luz. Landschaft mit der Vermählung von Isaak und Rebekka - Claude Lorrain - 1663 (Figura 3) Como diz Aumont, a respeito de Lorrain (Figura 3), "Lorrain jamais representa diretamente o sol", como acontece nos filmes, de Kubrick e Farias; "[...] mas, torna-se mestre, reconhecido como tal, na difusão da luz solar, na representação de características dos momentos dos dias e das estações." (2003, p. 175). Em virtude da falta de espaço e tempo para uma análise mais completa, apenas uma obra corporeifica-se para efeito de ilustração. Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 729-736 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema Mas à câmera de Kubrick, Lorrain emprestou em muitas cenas a luz solar indireta, e as nuvens, que têm efeito especial nas cenas externas de Kubrick. O cinema, nesse sentido, buscou as marcas pictóricas para fazer-se além da luz, já que é a pintura a mãe da cor. De Watteau (Figura 4), Kubrick, além do figurino e até de alguns rostos, emprestou a composição. E aí, entram não só os elementos formais (luz, cor, forma etc.), mas também aqueles elementos que constituem enredo e figurino do filme, completando-lhe a temática. Os quadros de Watteau, assim como a paisagem de Kubrick e a paisagem de Farias, são em quase totalidade, emoldurados por frondosas árvores, dando ênfase ao céu e à luz indireta do sol. Quase imperceptíveis passam as pessoas na parte inferior da tela, insignificantes perante o esplendor da natureza. Fêtes - Jean-Antoine Watteau (485x400)- óleo sobre tela - 1717. (Figura 4). Nas "paisagens" internas, quando normalmente passa-se alguma cena de conflito, percebe-se uma influência significativa da obra de George de La Tour, o que ajuda a configurar às cenas de briga e aflição, na obra de Farias, uma eloqüência retórica, que o aproxima de pintores como Rembrandt e Caravaggio, também significativos na construção dos signos "velho" e"enfermeiro", já explicitados em outro estudo e que não traremos aqui em virtude da falta de espaço para um estudo comparativo mais aprofundado. Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 729-736 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema À LUZ DO OLHAR INTERPRETATIVO Os diálogos entre filme, conto e telas sempre permitem-nos caminhar pela multiplicidade de elementos que chamam o nosso olhar e convidam a nossa memória à reflexão. No presente estudo, encarar o cinema como artefato histórico, que utiliza-se da literatura e de outras artes, como a pintura, para transformar as relações culturais, foi de fundamental importância para perceber como a Perspectiva (Almeida, 1999, p. 141) “como uma virtude artística e científica, governa a educação visual contemporânea e, em estética e política, reconstrói, à sua maneira, a história de homens e sociedades”. Não é demais lembrar, no entanto, que a ideia não é comparar passagens iguais entre filme e telas, mas justamente suas aproximações, já que a cada nova leitura, um primeiro texto passa por transformações e se adequa e incorpora as reminiscências de cada leitor. Como já dissemos em outro artigo: Mais do que uma fotografia, nota-se neste filme uma preocupação especial com a luz, que o aproxima tanto da pintura. É a relação que se estabelece entre a luz e objetos filmados que, mais que a cor, revela muito das relações constituídas na obra de Mauro Farias. A luz, aqui figurada como engenho dramático, confere à obra os mínimos sinais que revelam o diálogo com a pintura. Mas o filme não tenta pintar o que lê. O cinema não quer uma percepção mesma da pintura: fixa e imóvel. Cinema é movimento... (FANK, SILVA, 2009, p.7). Resta aos observadores, ir além do enquadramento da câmera, procurando observar a tela com os olhos da memória, que nos fazem ler de uma maneira diferente, até mais apaixonante. Não deve ser a percepção instituída, a perspectiva, a moldar nosso olhar, ela serve apenas como meio de olhar enquanto se busca por uma significação na arte. REFERÊNCIAS: ALMEIDA, Milton José de. (Cinema Arte da Memória). Autores Associados. Campinas, 1999. ASSIS, Machado de. (Obra Completa). Nova Aguilar. Rio de Janeiro, 1994. Vol. II. AUMONT, Jacques. (O olho interminável [cinema e pintura]). Tradução Eloísa Araújo Ribeiro. Cosac & Naify. São Paulo, 2004. BAZIN, André. (O que é o cinema?) Braziliense e Livros Horizonte. Lisboa, 1992. Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 729-736 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema SILVA, Acir Dias da; FANK, Julie. (Algumas representações do “velho” no cinema e literatura). In VIII Seminário de Literatura, História e Memória - 2008. da SILVA, Acir Dias da; FANK, Julie. (Imagens pictóricas em O enfermeiro (1999) - Mauro Farias). In 12ª Jornada Regional e 2ª Jornada Nacional de Estudos Lingüísticos e Literários 2009. WOODFORD, Susan. (A arte de ver a arte). Tradução Álvaro Cabral. Círculo do Livro S. A.. São Paulo, 1983. XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: opacidade e transparência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977 Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 729-736