820 A SUBJETIVIDADE EM JEAN-PAUL SARTRE E MICHEL FOUCAULT: ANTINOMIA OU COMUNHÃO? MAURICIO JUNIOR RODRIGUES DA SILVA - UNESP 1. INTRODUÇÃO A “subjetividade é o abstrato de sujeito1”, “é o âmago mais profundo da experiência2”. Essas assertivas, apresentadas por Mauro Amatuzzi (2006), buscam definir o objeto a ser problematizado no presente trabalho: a subjetividade. Tida como elemento íntimo e abstrato do sujeito pelo autor, diversos pensadores já detiveram a analisar e a problematizar a mesma. Descartes, por exemplo, ao apontar para uma dupla substância - res cogitan e res extensa - estabeleceu uma dicotomia entre corpo e espírito no campo da subjetividade. Tal separação não se repete em Merleau Ponty, no qual o corpo é o princípio do ser, e em sua animalidade já está imbricado com o mundo. Malgrado tais proposições filosóficas sejam determinantes na reflexão moderna da subjetividade, não nos cabe aqui esquadrinhá-las. Interessa-nos problematizar a subjetividade em dois filósofos do século XX: Jean-Paul Sartre e Michel Foucault. Sartre dialoga com a obra Meditações de Descartes (2005) para demonstrar como é um equívoco conceber a consciência como coisa pensante. Para o filósofo, a consciência não é uma coisa, tampouco um objeto, mas uma “falta”, um “vazio” que só aparece ao se apoiar no ser que é. Segundo André Yasbek (2006), para Sartre: [...] o homem é precisamente um Ser em si faltando. Em consequência, o Ser completo que o assedia constantemente – e com o qual ele tende a querer se amalgamar – é precisamente o si-mesmo enquanto Em-si. Eis, então, o desejo ontológico fundamental do Para-si: ser todo inteiro plenitude de Ser e todo inteiro consciência [...]. (YASBEK, 2006, p. 45) O excerto mostra como para Sartre o sujeito está constantemente envolto a um projeto, a um movimento de constituir-se. Segundo Sartre (2005, p. 137): 821 [...] o Para-si não tem sentido, a menos que apreenda a si mesmo como fracasso em presença do ser que ele fracassou em ser, quer dizer, deste ser que seria fundamento de seu ser e não somente fundamento de seu nada, ou seja, que seria seu próprio fundamento enquanto consciência consigo mesmo. Por natureza, o cogito reenvia àquilo que lhe falta e ao faltado, porque é cogito infestado de ser, como Descartes bem observou; e tal é a origem da trascendência: a realidade humana é seu próprio transcender [dépassement] em direção àquilo que lhe falta As palavras de Sartre nos levam a categorizar o sujeito enquanto um ser fundamentalmente livre, que decide o que ele é e o que outros são, obviamente respeitando os limites da facticidade e da contingência do mundo. Michel Foucault, por sua vez, parece iniciar sua vereda filosófica no caminho avesso ao de Sartre. Num primeiro momento3 de seu pensamento - caracterizado por obras como Arqueologia do Saber (2000), As Palavras e as Coisas (2007) – Foucault mostra como ao longo da História, surgiram diversas condições específicas – as epistèmes - que legitimaram discursos em campos como o da ciência, das arte, e de igual forma, deram estatuto de verdade a tais discursos. Frente a essa constatação, o pensador propôs um método que pudesse captar a historicidade da irrupção discursiva e dessa forma desmembrar a ordem intiuída entre os discursos. Segundo Inês Lacerda Araújo (2006-2007): O arqueólogo analisa uma ordem do saber, onde arranjos produziram objetos (e é deles que os cientistas se ocupam), e o meio pelo qual é feita essa análise é o discurso. Como dissemos, a finalidade não é atingir o fundo último do saber, nem a constituição última do mundo, nem a certeza e a verdade do conhecimento. Essas tarefas cabem ao filósofo, ao historiador da ciência, ao epistemólogo. Os pressupostos da arqueologia não são a representação acurada, o transcendental, nem o empírico, e sim a constituição histórica de certos saberes, épitémès, nas quais o discurso se arma. (ARAUJO, 2006-2007, p. 8) O método arqueológico tem relevâncian até a década de 70, quando há uma guinada no pensamento foucaultiano e um novo método é apresentado: a genealogia do poder. Nesse momento, surgem obras como A Ordem do Discurso (2008), Vigiar e Punir. Sobre tal método Luigi Cupido (2008-2009) nos explica que: Un metodo che gli permette di superare la descrittività di quello archeologico e gli consente di portare l’attenzione dalle formazioni discorsive, viste come campi autonomi d’analisi, al costituirsi dei saperi e alla loro capacità di affermare discorsi come positività (in grado, cioè, di delimitare campi di oggetti attorno a cui siano possibili giochi diverità).4 822 Pelo excerto, pode-se perceber o método genelógico como complementar à Arqueologia, uma vez que busca perceber quais são as condições de possibilidade ou os elementos de poder5 que norteiam o discurso. Malgrado exista tal complementaridade, o que os distingue é a possibilidade da genealogia estender ao poder uma reflexão dantes circunscrita ao saber. Dessa virada ou complementaridade advêm conceitos como micro-poder, biopoder, etc. Nesses dois momentos distintos do pensamento de Foucault, é possível observar o sujeito como um ser cativo a práticas discursivas ou mecanismos de poder. Assim, ao contrário do projeto sartriano que vê o sujeito como um ser condenado à liberdade, nessas obras Foucault ignora tal possibilidade, e ao articular discurso e relações de poder, pensa o homem como um ser assujeitado, condenado a ser constituído majoritariamente por práticas discursivas. Segundo Silveira & Furlan (2006, p. 404): [O] caráter dissociativo do eu, com seus começos inumeráveis, múltiplos e dissociadores, possibilita a compreensão de uma dinâmica desse eu na qual corpo e alma estão submetidos a processos múltiplos de constituição histórica. Corpo e alma, portanto, são interpenetrados de história e articulados através de diferentes contextos discursivos, os elementos co-construtores de múltiplos focos de subjetivação, de forma que se torna imprescindível associá-los ao processo de edificação da própria identidade histórica do indivíduo. Por meio do excerto, é possível perceber que na teoria proposta por Foucault o homem seria produto das epistèmes de uma época e sua subjetividade estaria atrelata ao direcionamento das práticas discursivas nesse campo epistêmico. Tal perspectiva nos leva a pensar em uma prescindencia ou morte do sujeito, ilação que evidencia uma clara distinção com a subjetividade proposta por Sartre. Essa antinomia filosófica que parecia evidente entre os supracitados pensadores, tornou-se problemática com surgimento da obra Hermeneutica do Sujeito, que advém a partir de um curso ministrado por Michel Foucault no College de France no ano de 1982. Segundo Hélio Cardoso Jr (2005).: Quando Foucault apresentou o curso A hermeneutica do sujeito, em 1981 e 1982 [...], nota-se uma mudança em sua trajetória. A notória questão acerca do saber e do poder, que até então tinha sido a marca do pensamento foucaultiano [...], é acrescida de uma indagação a respeito das práticas pelas quais nos tornamos sujeitos [...] 823 Justamente na fase final de sua obra [...], Foucault volta atenção para o sujeito [...] nas fases anteriores, consensualmente denominadas arqueologia do saber e genealogia do poder, acostumamos a ver Foucault anunciar a decantada morte do homem [...]. (CARDOSO JR., 2005, p. 343) Pautado por esse novo interesse, Foucault descreve na Hermenêutica o modo de subjetivação na Antiguidade, e busca tornar patente a precariedade da subjetivação moderna. Destarte, ao estudar a cultura helenística, greco-romana dos séculos IV a.C. ao II e III da era cristã, Foucault se interessa por um preceito que os gregos davam à palavra epimeleia heautou, e que significa o Cuidado de Si. Para o francês, esse termo não se reduz a um simples movimento de estar interessado em si mesmo, mas antes de tudo, denota um denso trabalho subjetivo de “fazer da vida um objeto para uma espécie de saber, de uma técnica, de uma arte” (DREYFUS & RABINOW, 1995, p. 270). Não que com esse conceito, Foucault passe a admitir, de modo expresso, a existência de um sujeito livre, consciente de seus atos, e senhor de sua subjetividade; contudo, essa subjetividade contida no Cuidado de Si já não é a mesma daquela constritiva contida nas primeiras obras do pensador. Nesse sentido, cabe à presente empresa questioná-la, problematizá-la e perceber até que ponto é possível articulá-la ao pensamento sartriano. Em resumo, a presente pesquisa visa discutir, relacionar e problematizar a noção de sujeito contida nas obras Ser e o Nada, de Jean-Paul Sartre (2002) e Hermeneutica do Sujeito de Michel Foucault (2006). 2. SARTRE, SUBJETIVIDADE E LIBERDADE A filosofia proposta por Sartre pode ser definida como uma filosofia da consciência, aproximação que não o coloca em congruidade com o pensamento cartesiano. Sartre parte da separação entre corpo e alma proposta por Descartes6, para demonstrar o equívoco de tal propositura. Baseado na fenomenologia de Husserl, o existencialista refuta a idéia cartesiana de que a consciência seria uma coisa pensante, e por tal razão, teria sentido por si próprio. O autor afirma que a mesma não pode ser um objeto ou coisa, pois é precisamente uma falta, um vazio, e por isso, depende dos objetos para constituir-se. 824 No desenvolvimento de tal hipótese Sartre lança os conceitos de Em-Si e Para-si. O primeiro faz referência aos objetos que estão postos no mundo, em existência, e por tal razão, possuem uma essência própria, delimitada. O ser-em-si seria autônomo, desprovido de um regime ontológico, e dessa forma, independeria do homem: puro, ele seria fechado e opaco. O Para-si, por sua vez, não possui uma essência determinada, seria uma carência de ser, uma consciência concebida na falta de ser. O ser seria a conjunção do Ser-em-si com o Ser-para-si, sendo o último a nadificação do primeiro. Segundo Sartre (1954, p.26): El ser surge y se organiza como mundo en el movimiento de interiorización que atraviesa todo el ser, sin que haya prioridad del movimiento sobre el mundo ni del mundo sobre el movimiento. Pero esta aparición Del sí-mismo allende el mundo, es decir, allende la totalidad de lo real, es una emergencia de la «realidad humana» en la nada. Sólo en la nada puede ser trascendido el ser. 7 Nesse contexto de constituição do ser, o Nada aparece como uma condição fundamental para a consciência livre. Ele emerge do para-si para impulsionar nossa necessidade de empreender escolhas durante a vida e, desse modo, enseja uma condenação inexorável de liberdade da consciência. É justamente o fato de o sujeito estar condenado a fazer escolhas que engendra uma angústia nesse indivíduo. Sentimento que deriva da percepção de que o mundo é resultado de nossas escolhas. Sobre tal angustia, Sartre nos explica que: La angustia es el temor de no encontrarme en esa cita, de no querer siquiera acudir a ella, pero también puedo encontrarme comprometido en actos que me revelan mis posibilidades en el instante mismo em que las reafirman. En el acto de encender este cigarrillo reconozco mi posibilidad concreta; si se quiere, mi deseo de fumar; por el acto mismo de acercarme a éste papel y esta pluma me doy como mi posibilidad más inmediata, la de trabajar en esta obra: heme aquí comprometido en ella, y la descubro en el momento mismo en que ya me lanzo a Ella. (SARTRE, 1954, p. 37)8 Frente a essa angústia e ao atributo eletivo que dela deriva, a subjetividade emerge como uma necessidade de agir, de constituir-se, inclusive como uma forma de atenuar esse vazio angustiante que solapa o existir. Essa necessidade de empreender escolhas se ampara em projetos que surgem durante a vida, ou seja, 825 todas as pessoas são movidas por um projeto fundamental, o projeto de autorealização, de transcendência. Como o ser é faltante, o homem se projeta no ser das coisas, na contínua busca de ser. Nesse movimento, a liberdade implica em uma opção feita em direção ao projeto fundamental. De acordo com Sartre (1954, p. 295): El proyecto libre es fundamental, pues es mi ser. Ni la ambición, ni la pasión de ser amado, ni El complejo de inferioridad, pueden considerarse como proyectos fundamentales. Es menester, al contrario, comprenderlos a partir de un primer proyecto, que se reconoce porque ya no puede ser interpretado a partir de ningún otro, y es total. [...] Desde ahora podemos decir que el proyecto fundamento que soy es un proyecto que no concierne a mis relaciones con tal o cual objeto particular del mundo sino a mi ser-enel-mundo como totalidad, y que -puesto que El propio mundo sólo se revela a la luz de un fin- ese proyecto pone como fin cierto tipo de relación con el ser, que el para-sí quiere mantener. Ese proyecto no es instantáneo, pues no puede estar «en» el tiempo. É interessante ressaltar que essa liberdade, que é imposta ao homem, possui limites ou contingências. Contudo, tais limitações não obstam que a mesma se consume. Aliás, o fato de estar diante de contingências é que faz com o homem seja livre, pois o ser humano deve sempre estar impelido da realização de contínuas escolhas. Se tais escolhas fossem ilimitadas e desprovidas de contingências, o ser seria plenamente realizado, fato o que o aproximaria de Deus e o faria obliterar sua condição de ser livre. 3. FOUCAULT E A FALÁCIA DO SUJEITO Diferente de Sartre, a subjetividade em Foucault não emerge como uma sentença natural imposta ao homem em decorrência de sua condição de ser faltante. Como já esboçado, em um primeiro momento, a mesma estaria vinculada a práticas discursivas, que por sua vez, estariam alicerçadas a campos de saberes - as epistémes - que determinariam a ordem e a viabilidade de um discurso em uma determinada época. Frente a essa constatação, o método arqueológico torna-se a via teórica proposta por Foucault para analisar a emergência dos discursos em sua singularidade irredutível, ou como nos informa Rafael Teixeira: 826 Cético, Foucault jamais acreditou nas ideias gerais, somente nas verdades dos fatos históricos que preencheram as páginas de seus livros. Dirigindose ao fundo dos fenômenos, constatou, além da singularidade de cada um, a arbitrariedade de todos; fez “passar a história no fio de um pensamento que recusa os universais” [...] Ontologicamente falando, existem apenas singularidades, heuristicamente falando, partiu dos detalhes das práticas – do que se fez e do que se disse – para explicitar o discurso que lhes foi imanente. O discurso aparece em Foucault como a mais precisa descrição de uma formação histórica, a colocação em dia de sua singularidade irredutível. [...] (TEIXEIRA, 2009, p. 600-601, grifo nosso) Dizer que ontologicamente só existem singularidades, significa postular que o sujeito do conhecimento em Foucault está cingido à instância discursiva, enredado, de modo específico, a práticas e formações, e de modo lato, à historicidade dos campos epistêmicos que o constituem. Quando na década de 70, Foucault lança a genealogia, sua reflexão dantes circunscrita ao saber passa a englobar as capilaridades do poder que emergem na constituição das subjetividades. Por meio de tal suporte analítico, Foucault passa a conjecturar que “não há constituição de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua, ao mesmo tempo, relações de poder” (FOUCAULT, 1979, pp.29-30, apud SILVEIRA & FURLAN, 2003, p. 175). Nesse sentido, elementos como o corpo e a sexualidade devem ser analisados sob a esfera da historicidade contida no binômio saber-poder. Silveira & Furlan nos mostra como os contextos históricos são determinantes na determinação do corpo e alma: [...] o corpo é o campo (porque as forças atravessam e constituem a realidade corpórea, não há força sem corpo) de forças múltiplas, convergentes e contraditórias, e o próprio lugar da sedimentação de seus combates. [...] Corpo e alma, portanto, são interpenetrados de história e articulados através de diferentes contextos discursivos, os elementos co-construtores de múltiplos focos de subjetivação, de forma que se torna imprescindível associá-los ao processo de edificação da própria identidade histórica do indivíduo. (SILVEIRA; FURLAN, 2003, pp. 174-175) Por meio do excerto, fica evidente que a subjetividade que emerge dessa relação corpo e alma apresentada pelos autores, fica submetida a uma historicidade na perspectiva foucaultiano. Essa subordinação claramente se distingue da facticidade sartreana, pois para Sartre o fato do homem estar sujeito a 827 circunstâncias factuais não o obsta de ser livre, ao contrário, reforça sua condição eletiva de liberdade. Em Foucault, o fato da subjetividade estar enredada a condicionantes históricos, solapa a possibilidade do indivíduo empreender escolhas de modo livre e consciente. Nesse sentido, o simples fato de escolher já implica em uma imiscuição em distintas formações discursivas ou em jogos de poder de uma dada época. Fatores que obliteram a possibilidade de constituição de um sujeito livre, “senhor” de seus atos. 4. O SER ENTRE A HERMENEUTICA E O NADA Estabelecidas tais distinções, cabe-nos problematizar a subjetividade contida na obra Hermenêutica do Sujeito (2004), que junto com a obra Subjetividade e verdade sintetiza grande parte dos cursos ministrados por Michel Foucault no College de France, no início da década de 80, sendo respectivamente relativos aos anos de 1982 e 1981. Na Hermenêutica do Sujeito (2004), encontra-se o ponto fulcral da guinada na perspectiva foucaultiana acerca da subjetividade: a noção de Cuidado de Si (epiméleia heautoû). Pode-se entender a epiméleia heautoû como um denso trabalho esculpir a subjetividade. O termo não se confunde com uma simples preocupação consigo mesmo, ou com uma busca por uma essência recôndita do sujeito. Ao contrário, o cuidado de si deve entendido como uma espiritualidade ou como um movimento subjetivo pautado pela necessidade de se fazer da vida uma obra de arte, um projeto em que possa superar o determinismo imposto pela existência. (DREYFUS & RABINOW, 1995, p. 270) O conceito predeminou no pensamento helenístico e romano da Antiguidade, estendendo-se até o limiar do Cristianismo. O cuidado de si inspirou a Filosofia Antiga, sobretudo Sócrates, e foi perdendo força a partir do estabelecimento da filosofia cartesiana, quando o conceito foi suprimido pela idéia de gnôthi seautón (conhecimento de si). Segundo Cavalcanti Junior (2007-2008, p. 05): 828 O “momento cartesiano”, como denomina Foucault, seria o responsável por inverter uma primazia que existia na Grécia Antiga, a primazia do cuidado de si sobre o conhecimento de si. E esta inversão ocorreu a partir do momento em que Descartes convenceu o mundo ocidental de que o acesso à verdade só seria possível através do conhecimento objetivo da realidade. Pelo excerto, é possível perceber como a Filosofia cartesiana, sobretudo por meio de Descartes, escindiu o conhecimento de si do cuidado si, dando relevância ao primeiro em detrimento do segundo. Dessa forma, “quando se pergunta sobre o princípio moral da Antiguidade, a resposta é ‘o conhecer-te a ti mesmo’ e não ‘tome conta de você mesmo’. Ora, o ‘conhecer-te a ti mesmo’ é um conselho técnico a ser observado para consultar o oráculo, que chama atenção sobre a natureza da consulta” (SILVA, s.d., p. 5). Tal princípio “está subordinado ao cuidado de si” (ibidem, s.d., p. 6), isso porque existem variadas formas de cuidado. É precisamente contra a primazia do gnôthi seautón que Foucault desenvolve seu curso. Pois, foi por meio do primado do conhecimento de si que a questão da verdade tornou-se mais importante do que o trabalho a ser realizado sobre si mesmo. Segundo Silva: No procedimento cartesiano descrito nas Meditações dois pontos marcaram a requalificação filosófica do gnôthi seautón, e a desqualificação do epimeleia heautou. Foucault lembrou da noção cartesiana de evidência, a qual é própria da consciência e do autoconhecimento como verdade do ser. O gnôthi seautón passou a ser procedimento filosófico, enquanto que o cuidado consigo acabou sendo excluído da “filosofia” moderna. (ibid., s.d., p. 5) Ao sobrepujar o gnôthi seautón, o momento cartesiano, em nome de uma verdade oculta, preteriu a possibilidade do indivíduo lutar contra os desejos e dominações que lhe são impostas pela cultura. Em outros termos, quando o acesso à verdade se dá por meio do conhecimento, ignora-se o denso trabalho a ser realizado sobre a espiritualidade, para preconizar um método que seja capaz de fazer emergir uma verdade. (FOUCAULT, 2004, passim) Contrário a tal perspectiva, Foucault valoriza a epiméleia heautoû como forma de recolocar a questão subjetiva no centro das reflexões filosóficas. Segundo Cavalcanti Junior, é válido recordar que: Foucault nem sempre pensou assim. As duas primeiras fases de suas pesquisas: a Arqueológica, quando estudou a constituição dos saberes e a Genealógica, quando verificou a importância do poder na constituição dos 829 saberes; apontavam para um sujeito subjugado pela linguagem. Por ela, seria ordenado e estruturado. Foi só na sua terceira fase, quando se preocupou com a subjetividade, que o francês adotou a perspectiva de que os indivíduos poderiam tomar as “rédeas” de sua própria constituição de sujeito desde que olhassem para si, investigando como se tornaram o que são, ou dito diferente, como o mundo no qual estão inseridos procurou produzir sua subjetividade. (CAVALCANTI JUNIOR, 2007-2008, p. 07) O excerto mostra como nas aulas do College de France (1981-1982), Foucault passa a admitir que o indivíduo, de alguma forma, possa intervir no determinismo imposto por campos epistêmicos ou jogos de poder e, desse modo, possa esculpir uma subjetividade distinta daquela que lhe foi imposta. Ao cotejar tal perspectiva com a subjetividade sartreana, é possível conjecturar uma sutil aproximação entre as teorias. Nesse sentido, é válido relembrar que em Sartre o sujeito está condenado a ser livre, devendo empreender escolhas amparadas por um projeto de constituir-se, de transcender-se. Assim, a subjetividade emerge a partir de uma conseqüência natural: o fato do homem ser um ser faltante. Foucault, por seu lado, não chega a admitir uma clara e evidente emancipação do sujeito. Contudo, por meio da noção de cuidado de si, o pensador admite que o sujeito, por meio de um denso trabalho, possa entalhar sua espiritualidade e dessa forma intervir nos determinismos que lhe são impostos, construindo uma subjetividade diversa daquela que lhe fora imputada. Segundo Candiotto (2008): [...] Subjetividade que aqui se refere não à identificação com o sujeito como categoria ontologicamente invariável, mas a modos de agir, a processos de subjetivação modificáveis e plurais. Nesse sentido é que também Foucault entende a constituição do sujeito antigo como ultrapassagem de si. (CANDIOTTO, 2008, p.88) Em suma, se para Sartre a irrupção da subjetividade é um imanente projetarse, no último9 Foucault a mesma pode ser entendida como um denso processo de ultrapassagem de si mesmo. 5. CONCLUSÃO Concluímos este trabalho ressaltando a importância do tema analisado, tanto por este perpassar um campo de reflexão acerca da Filosofia contemporânea, tanto 830 por empreender uma reflexão sobre os desdobramentos da subjetividade na obra desses importantes pensadores. Assim, o objetivo do presente trabalho foi demonstrar como antes de uma notória antinomia, existem pontos de congruência entre as perspectivas filosóficas de Sartre e do último Foucault. A saber, a reflexão que ambos desenvolvem sobre a irrupção da subjetividade. Para tal optou-se por analisar os conceitos de subjetividade trabalhada, direta ou indiretamente, nas obras Ser e o Nada de Sartre e Hermenêutica do Sujeito de Foucault. Da leitura destas, pode-se constatar que em ambas é possível perceber a subjetividade como um projeto: em Sartre, como um projeto natural, ou como uma perene conseqüência do simples fato de existir; e em Foucault, de um denso processo de talhar a subjetividade. Ao estabelecer tal aproximação, ressaltou-se também a guinada de perspectiva acerca da constituição do sujeito que ocorre no pensamento foucaultiano a partir dos cursos do College de France (1981-1982). Assim, se antes desses cursos, a antinomia entre Foucault e Sartre era evidente e aparentemente insuperável, contudo, a partir dos mesmos essa divergência se perde, sobretudo na retomada que Foucault dá ao conceito da Antiguidade de Cuidado de si. Finalizando, espera-se que o presente artigo tenha traçado satisfatoriamente as bases para o entendimento do tema abordado, e desta forma, possibilitado uma macro visão exemplificativa de como Michel Foucault e Jean-Paul Sartre percebem a subjetividade. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMATUZZI, M.M. A subjetividade e sua pesquisa. Memorandum. Ribeirão Preto: USP; Belo Horizonte: UFMG; n. 10, abr. 2006, pp. 93-97. Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a10/amatuzzi03.pdf >. Acesso em: 10 mai. 2010 ARAUJO, Inês Lacerda. Formação discursiva como conceito chave para a arqueogenealogia de Foucault. Revista Aulas. N. 3, dez. 2006-mar. 2007, pp. 0124. 831 CANDIOTTO, César. Subjetividade e verdade no último Foucault. Trans/Form/Ação. São Paulo, n. 31, 2008, pp. 87-103. CARDOSO JUNIOR, Hélio R. Para quê serve uma subjetividade? : Foucault, tempo e corpo. Psicologia, reflexão e crítica, 2005, n.18, pp. 343-349. CAVALCANTI JUNIOR, Idelmar G. 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Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a10/amatuzzi03.pdf >. Acesso em: 10 mai. 2010. 2 Ibidem, p. 95. 3 Por questão expositiva e didática, optou-se pela divisão do pensamento Foucault em três fases: a primeira, caracterizada por obras da década de 60 do século XX, na qual o pensador expõe o método arqueológico; uma segunda fase centrada em obras da década de 70, marcada pela existência de um novo método foucaultiano de análise: a genealogia do poder; e uma terceira, centrada em aulas e palestras contidas sobretudo na obra Hermenêutica do Sujeito, e que abrem um novo campo de análise foucaultiano, marcado pelo conceito de Cuidado de Si. 4 “Um método que permite superar o descritivismo arqueológico e chamar a atenção para as formações discursivas, visto como um campo autônomo de análise, para a criação do conhecimento e sua capacidade de afirmar o discurso enquanto uma positividade (ou seja, uma possibilidade de delimitar o campo do objeto em torno do qual, diferentes jogos de verdade são possíveis)." (CUPIDO, 2008-2009, pp. 21-22, tradução nossa) 5 É pertinente mencionar que o poder em Foucault não se restringe a um determinado campo, como o Estado ou uma determinada classe econômica, mas ao contrário, encontra-se disperso discursivamente na sociedade, em múltiplos e variáveis campos. 6 DESCARTES, René. Meditação sexta: Da existência das coisas materiais e da distinção real entre a alma e o corpo do homem. In: Meditações metafísicas. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 7 “O ser surge e se organiza como mundo no movimento de interiorização que atravessa todo o ser, sem que haja uma prioridade do movimento sobre o mundo, tampouco do mundo sobre o movimento. Mas esta aparição do si-mesmo atinge o mundo, ou seja, atinge a totalidade do real, é uma emergência da realidade humana no nada. Só no nada pode ser transcendido o ser”. (SARTRE, 1954, p. 26, tradução nossa). 8 “A angústia é o temor de não me encontrar nesta data, de não querer sequer acudir a ela, mas também posso me encontrar comprometido nesses atos que revelam minhas possibilidades no mesmo instante em que as reafirmam. No ato de acender um cigarro reconheço minha possibilidade concreta, pelo ato mesmo de aproximar deste papel e desta pena, dou-me como uma possibilidade mais imediata, de trabalhar nesta obra: estar aqui comprometido com ele, e descobri-la no momento em que me lanço a ela”. (SARTRE, 1954, p. 37, tradução nossa) 9 Por último Foucault, entenda-se o Foucault da Hermenêutica do Sujeito e dos cursos do College de France no início da década de 80.