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A SUBJETIVIDADE EM JEAN-PAUL SARTRE E MICHEL FOUCAULT:
ANTINOMIA OU COMUNHÃO?
MAURICIO JUNIOR RODRIGUES DA SILVA - UNESP
1. INTRODUÇÃO
A “subjetividade é o abstrato de sujeito1”, “é o âmago mais profundo da
experiência2”. Essas assertivas, apresentadas por Mauro Amatuzzi (2006), buscam
definir o objeto a ser problematizado no presente trabalho: a subjetividade. Tida
como elemento íntimo e abstrato do sujeito pelo autor, diversos pensadores já
detiveram a analisar e a problematizar a mesma. Descartes, por exemplo, ao
apontar para uma dupla substância - res cogitan e res extensa - estabeleceu uma
dicotomia entre corpo e espírito no campo da subjetividade. Tal separação não se
repete em Merleau Ponty, no qual o corpo é o princípio do ser, e em sua animalidade
já está imbricado com o mundo.
Malgrado tais proposições filosóficas sejam determinantes na reflexão
moderna da subjetividade, não nos cabe aqui esquadrinhá-las. Interessa-nos
problematizar a subjetividade em dois filósofos do século XX: Jean-Paul Sartre e
Michel Foucault.
Sartre dialoga com a obra Meditações de Descartes (2005) para demonstrar
como é um equívoco conceber a consciência como coisa pensante. Para o filósofo, a
consciência não é uma coisa, tampouco um objeto, mas uma “falta”, um “vazio” que
só aparece ao se apoiar no ser que é. Segundo André Yasbek (2006), para Sartre:
[...] o homem é precisamente um Ser em si faltando. Em consequência, o
Ser completo que o assedia constantemente – e com o qual ele tende a
querer se amalgamar – é precisamente o si-mesmo enquanto Em-si. Eis,
então, o desejo ontológico fundamental do Para-si: ser todo inteiro plenitude
de Ser e todo inteiro consciência [...]. (YASBEK, 2006, p. 45)
O excerto mostra como para Sartre o sujeito está constantemente envolto a
um projeto, a um movimento de constituir-se. Segundo Sartre (2005, p. 137):
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[...] o Para-si não tem sentido, a menos que apreenda a si mesmo como
fracasso em presença do ser que ele fracassou em ser, quer dizer, deste
ser que seria fundamento de seu ser e não somente fundamento de seu
nada, ou seja, que seria seu próprio fundamento enquanto consciência
consigo mesmo. Por natureza, o cogito reenvia àquilo que lhe falta e ao
faltado, porque é cogito infestado de ser, como Descartes bem observou; e
tal é a origem da trascendência: a realidade humana é seu próprio
transcender [dépassement] em direção àquilo que lhe falta
As palavras de Sartre nos levam a categorizar o sujeito enquanto um ser
fundamentalmente livre, que decide o que ele é e o que outros são, obviamente
respeitando os limites da facticidade e da contingência do mundo.
Michel Foucault, por sua vez, parece iniciar sua vereda filosófica no caminho
avesso ao de Sartre. Num primeiro momento3 de seu pensamento - caracterizado
por obras como Arqueologia do Saber (2000), As Palavras e as Coisas (2007) –
Foucault mostra como ao longo da História, surgiram diversas condições específicas
– as epistèmes - que legitimaram discursos em campos como o da ciência, das arte,
e de igual forma, deram estatuto de verdade a tais discursos. Frente a essa
constatação, o pensador propôs um método que pudesse captar a historicidade da
irrupção discursiva e dessa forma desmembrar a ordem intiuída entre os discursos.
Segundo Inês Lacerda Araújo (2006-2007):
O arqueólogo analisa uma ordem do saber, onde arranjos produziram
objetos (e é deles que os cientistas se ocupam), e o meio pelo qual é feita
essa análise é o discurso. Como dissemos, a finalidade não é atingir o fundo
último do saber, nem a constituição última do mundo, nem a certeza e a
verdade do conhecimento. Essas tarefas cabem ao filósofo, ao historiador
da ciência, ao epistemólogo. Os pressupostos da arqueologia não são a
representação acurada, o transcendental, nem o empírico, e sim a
constituição histórica de certos saberes, épitémès, nas quais o discurso se
arma. (ARAUJO, 2006-2007, p. 8)
O método arqueológico tem relevâncian até a década de 70, quando há uma
guinada no pensamento foucaultiano e um novo método é apresentado: a
genealogia do poder. Nesse momento, surgem obras como A Ordem do Discurso
(2008), Vigiar e Punir. Sobre tal método Luigi Cupido (2008-2009) nos explica que:
Un metodo che gli permette di superare la descrittività di quello archeologico
e gli consente di portare l’attenzione dalle formazioni discorsive, viste come
campi autonomi d’analisi, al costituirsi dei saperi e alla loro capacità di
affermare discorsi come positività (in grado, cioè, di delimitare campi di
oggetti attorno a cui siano possibili giochi diverità).4
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Pelo excerto, pode-se perceber o método genelógico como complementar à
Arqueologia, uma vez que busca perceber quais são as condições de possibilidade
ou os elementos de poder5 que norteiam o discurso. Malgrado exista tal
complementaridade, o que os distingue é a possibilidade da genealogia estender ao
poder
uma
reflexão
dantes
circunscrita
ao
saber.
Dessa
virada
ou
complementaridade advêm conceitos como micro-poder, biopoder, etc.
Nesses dois momentos distintos do pensamento de Foucault, é possível
observar o sujeito como um ser cativo a práticas discursivas ou mecanismos de
poder. Assim, ao contrário do projeto sartriano que vê o sujeito como um ser
condenado à liberdade, nessas obras Foucault ignora tal possibilidade, e ao articular
discurso e relações de poder, pensa o homem como um ser assujeitado, condenado
a ser constituído majoritariamente por práticas discursivas. Segundo Silveira &
Furlan (2006, p. 404):
[O] caráter dissociativo do eu, com seus começos inumeráveis, múltiplos e
dissociadores, possibilita a compreensão de uma dinâmica desse eu na qual
corpo e alma estão submetidos a processos múltiplos de constituição
histórica.
Corpo e alma, portanto, são interpenetrados de história e articulados através
de diferentes contextos discursivos, os elementos co-construtores de
múltiplos focos de subjetivação, de forma que se torna imprescindível
associá-los ao processo de edificação da própria identidade histórica do
indivíduo.
Por meio do excerto, é possível perceber que na teoria proposta por Foucault
o homem seria produto das epistèmes de uma época e sua subjetividade estaria
atrelata ao direcionamento das práticas discursivas nesse campo epistêmico. Tal
perspectiva nos leva a pensar em uma prescindencia ou morte do sujeito, ilação que
evidencia uma clara distinção com a subjetividade proposta por Sartre.
Essa antinomia filosófica que parecia evidente entre os supracitados
pensadores, tornou-se problemática com surgimento da obra Hermeneutica do
Sujeito, que advém a partir de um curso ministrado por Michel Foucault no College
de France no ano de 1982. Segundo Hélio Cardoso Jr (2005).:
Quando Foucault apresentou o curso A hermeneutica do sujeito, em 1981 e
1982 [...], nota-se uma mudança em sua trajetória. A notória questão acerca
do saber e do poder, que até então tinha sido a marca do pensamento
foucaultiano [...], é acrescida de uma indagação a respeito das práticas
pelas quais nos tornamos sujeitos [...]
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Justamente na fase final de sua obra [...], Foucault volta atenção para o
sujeito [...] nas fases anteriores, consensualmente denominadas
arqueologia do saber e genealogia do poder, acostumamos a ver Foucault
anunciar a decantada morte do homem [...]. (CARDOSO JR., 2005, p. 343)
Pautado por esse novo interesse, Foucault descreve na Hermenêutica o
modo de subjetivação na Antiguidade, e busca tornar patente a precariedade da
subjetivação moderna. Destarte, ao estudar a cultura helenística, greco-romana dos
séculos IV a.C. ao II e III da era cristã, Foucault se interessa por um preceito que os
gregos davam à palavra epimeleia heautou, e que significa o Cuidado de Si.
Para o francês, esse termo não se reduz a um simples movimento de estar
interessado em si mesmo, mas antes de tudo, denota um denso trabalho subjetivo
de “fazer da vida um objeto para uma espécie de saber, de uma técnica, de uma
arte” (DREYFUS & RABINOW, 1995, p. 270). Não que com esse conceito, Foucault
passe a admitir, de modo expresso, a existência de um sujeito livre, consciente de
seus atos, e senhor de sua subjetividade; contudo, essa subjetividade contida no
Cuidado de Si já não é a mesma daquela constritiva contida nas primeiras obras do
pensador. Nesse sentido, cabe à presente empresa questioná-la, problematizá-la e
perceber até que ponto é possível articulá-la ao pensamento sartriano.
Em resumo, a presente pesquisa visa discutir, relacionar e problematizar a
noção de sujeito contida nas obras Ser e o Nada, de Jean-Paul Sartre (2002) e
Hermeneutica do Sujeito de Michel Foucault (2006).
2. SARTRE, SUBJETIVIDADE E LIBERDADE
A filosofia proposta por Sartre pode ser definida como uma filosofia da
consciência, aproximação que não o coloca em congruidade com o pensamento
cartesiano. Sartre parte da separação entre corpo e alma proposta por Descartes6,
para demonstrar o equívoco de tal propositura.
Baseado na fenomenologia de Husserl, o existencialista refuta a idéia
cartesiana de que a consciência seria uma coisa pensante, e por tal razão, teria
sentido por si próprio. O autor afirma que a mesma não pode ser um objeto ou coisa,
pois é precisamente uma falta, um vazio, e por isso, depende dos objetos para
constituir-se.
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No desenvolvimento de tal hipótese Sartre lança os conceitos de Em-Si e
Para-si. O primeiro faz referência aos objetos que estão postos no mundo, em
existência, e por tal razão, possuem uma essência própria, delimitada. O ser-em-si
seria autônomo, desprovido de um regime ontológico, e dessa forma, independeria
do homem: puro, ele seria fechado e opaco. O Para-si, por sua vez, não possui uma
essência determinada, seria uma carência de ser, uma consciência concebida na
falta de ser.
O ser seria a conjunção do Ser-em-si com o Ser-para-si, sendo o último a
nadificação do primeiro. Segundo Sartre (1954, p.26):
El ser surge y se organiza como mundo en el movimiento de interiorización
que atraviesa todo el ser, sin que haya prioridad del movimiento sobre el
mundo ni del mundo sobre el movimiento. Pero esta aparición Del sí-mismo
allende el mundo, es decir, allende la totalidad de lo real, es una
emergencia de la «realidad humana» en la nada. Sólo en la nada puede ser
trascendido el ser. 7
Nesse contexto de constituição do ser, o Nada aparece como uma condição
fundamental para a consciência livre. Ele emerge do para-si para impulsionar nossa
necessidade de empreender escolhas durante a vida e, desse modo, enseja uma
condenação inexorável de liberdade da consciência.
É justamente o fato de o sujeito estar condenado a fazer escolhas que
engendra uma angústia nesse indivíduo. Sentimento que deriva da percepção de
que o mundo é resultado de nossas escolhas. Sobre tal angustia, Sartre nos explica
que:
La angustia es el temor de no encontrarme en esa cita, de no querer
siquiera acudir a ella, pero también puedo encontrarme comprometido en
actos que me revelan mis posibilidades en el instante mismo em que las
reafirman. En el acto de encender este cigarrillo reconozco mi posibilidad
concreta; si se quiere, mi deseo de fumar; por el acto mismo de acercarme a
éste papel y esta pluma me doy como mi posibilidad más inmediata, la de
trabajar en esta obra: heme aquí comprometido en ella, y la descubro en el
momento mismo en que ya me lanzo a Ella. (SARTRE, 1954, p. 37)8
Frente a essa angústia e ao atributo eletivo que dela deriva, a subjetividade
emerge como uma necessidade de agir, de constituir-se, inclusive como uma forma
de atenuar esse vazio angustiante que solapa o existir. Essa necessidade de
empreender escolhas se ampara em projetos que surgem durante a vida, ou seja,
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todas as pessoas são movidas por um projeto fundamental, o projeto de autorealização, de transcendência.
Como o ser é faltante, o homem se projeta no ser das coisas, na contínua
busca de ser. Nesse movimento, a liberdade implica em uma opção feita em direção
ao projeto fundamental. De acordo com Sartre (1954, p. 295):
El proyecto libre es fundamental, pues es mi ser. Ni la ambición, ni la pasión
de ser amado, ni El complejo de inferioridad, pueden considerarse como
proyectos fundamentales. Es menester, al contrario, comprenderlos a partir
de un primer proyecto, que se reconoce porque ya no puede ser
interpretado a partir de ningún otro, y es total. [...] Desde ahora podemos
decir que el proyecto fundamento que soy es un proyecto que no concierne
a mis relaciones con tal o cual objeto particular del mundo sino a mi ser-enel-mundo como totalidad, y que -puesto que El propio mundo sólo se revela
a la luz de un fin- ese proyecto pone como fin cierto tipo de relación con el
ser, que el para-sí quiere mantener. Ese proyecto no es instantáneo, pues
no puede estar «en» el tiempo.
É interessante ressaltar que essa liberdade, que é imposta ao homem, possui
limites ou contingências. Contudo, tais limitações não obstam que a mesma se
consume. Aliás, o fato de estar diante de contingências é que faz com o homem seja
livre, pois o ser humano deve sempre estar impelido da realização de contínuas
escolhas. Se tais escolhas fossem ilimitadas e desprovidas de contingências, o ser
seria plenamente realizado, fato o que o aproximaria de Deus e o faria obliterar sua
condição de ser livre.
3. FOUCAULT E A FALÁCIA DO SUJEITO
Diferente de Sartre, a subjetividade em Foucault não emerge como uma
sentença natural imposta ao homem em decorrência de sua condição de ser faltante.
Como já esboçado, em um primeiro momento, a mesma estaria vinculada a práticas
discursivas, que por sua vez, estariam alicerçadas a campos de saberes - as
epistémes - que determinariam a ordem e a viabilidade de um discurso em uma
determinada época.
Frente a essa constatação, o método arqueológico torna-se a via teórica
proposta por Foucault para analisar a emergência dos discursos em sua
singularidade irredutível, ou como nos informa Rafael Teixeira:
826
Cético, Foucault jamais acreditou nas ideias gerais, somente nas verdades
dos fatos históricos que preencheram as páginas de seus livros. Dirigindose ao fundo dos fenômenos, constatou, além da singularidade de cada um,
a arbitrariedade de todos; fez “passar a história no fio de um pensamento
que recusa os universais” [...] Ontologicamente falando, existem apenas
singularidades, heuristicamente falando, partiu dos detalhes das práticas –
do que se fez e do que se disse – para explicitar o discurso que lhes foi
imanente. O discurso aparece em Foucault como a mais precisa descrição
de uma formação histórica, a colocação em dia de sua singularidade
irredutível. [...] (TEIXEIRA, 2009, p. 600-601, grifo nosso)
Dizer que ontologicamente só existem singularidades, significa postular que o
sujeito do conhecimento em Foucault está cingido à instância discursiva, enredado,
de modo específico, a práticas e formações, e de modo lato, à historicidade dos
campos epistêmicos que o constituem.
Quando na década de 70, Foucault lança a genealogia, sua reflexão dantes
circunscrita ao saber passa a englobar as capilaridades do poder que emergem na
constituição das subjetividades. Por meio de tal suporte analítico, Foucault passa a
conjecturar que “não há constituição de poder sem constituição correlata de um
campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua, ao mesmo tempo,
relações de poder” (FOUCAULT, 1979, pp.29-30, apud SILVEIRA & FURLAN, 2003,
p. 175).
Nesse sentido, elementos como o corpo e a sexualidade devem ser
analisados sob a esfera da historicidade contida no binômio saber-poder. Silveira &
Furlan nos mostra como os contextos históricos são determinantes na determinação
do corpo e alma:
[...] o corpo é o campo (porque as forças atravessam e constituem a
realidade corpórea, não há força sem corpo) de forças múltiplas,
convergentes e contraditórias, e o próprio lugar da sedimentação de seus
combates. [...]
Corpo e alma, portanto, são interpenetrados de história e articulados através
de diferentes contextos discursivos, os elementos co-construtores de
múltiplos focos de subjetivação, de forma que se torna imprescindível
associá-los ao processo de edificação da própria identidade histórica do
indivíduo. (SILVEIRA; FURLAN, 2003, pp. 174-175)
Por meio do excerto, fica evidente que a subjetividade que emerge dessa
relação corpo e alma apresentada pelos autores, fica submetida a uma historicidade
na perspectiva foucaultiano. Essa subordinação claramente se distingue da
facticidade sartreana, pois para Sartre o fato do homem estar sujeito a
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circunstâncias factuais não o obsta de ser livre, ao contrário, reforça sua condição
eletiva de liberdade.
Em Foucault, o fato da subjetividade estar enredada a condicionantes
históricos, solapa a possibilidade do indivíduo empreender escolhas de modo livre e
consciente. Nesse sentido, o simples fato de escolher já implica em uma imiscuição
em distintas formações discursivas ou em jogos de poder de uma dada época.
Fatores que obliteram a possibilidade de constituição de um sujeito livre, “senhor” de
seus atos.
4. O SER ENTRE A HERMENEUTICA E O NADA
Estabelecidas tais distinções, cabe-nos problematizar a subjetividade contida
na obra Hermenêutica do Sujeito (2004), que junto com a obra Subjetividade e
verdade sintetiza grande parte dos cursos ministrados por Michel Foucault no
College de France, no início da década de 80, sendo respectivamente relativos aos
anos de 1982 e 1981.
Na Hermenêutica do Sujeito (2004), encontra-se o ponto fulcral da guinada na
perspectiva foucaultiana acerca da subjetividade: a noção de Cuidado de Si
(epiméleia heautoû).
Pode-se entender a epiméleia heautoû como um denso trabalho esculpir a
subjetividade. O termo não se confunde com uma simples preocupação consigo
mesmo, ou com uma busca por uma essência recôndita do sujeito. Ao contrário,
o cuidado de si deve entendido como uma espiritualidade ou como um
movimento subjetivo pautado pela necessidade de se fazer da vida uma obra de
arte, um projeto em que possa superar o determinismo imposto pela existência.
(DREYFUS & RABINOW, 1995, p. 270)
O conceito predeminou no pensamento helenístico e romano da Antiguidade,
estendendo-se até o limiar do Cristianismo. O cuidado de si inspirou a Filosofia
Antiga, sobretudo Sócrates, e foi perdendo força a partir do estabelecimento da
filosofia cartesiana, quando o conceito foi suprimido pela idéia de gnôthi seautón
(conhecimento de si). Segundo Cavalcanti Junior (2007-2008, p. 05):
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O “momento cartesiano”, como denomina Foucault, seria o responsável por
inverter uma primazia que existia na Grécia Antiga, a primazia do cuidado
de si sobre o conhecimento de si. E esta inversão ocorreu a partir do
momento em que Descartes convenceu o mundo ocidental de que o acesso
à verdade só seria possível através do conhecimento objetivo da realidade.
Pelo excerto, é possível perceber como a Filosofia cartesiana, sobretudo por
meio de Descartes, escindiu o conhecimento de si do cuidado si, dando relevância
ao primeiro em detrimento do segundo. Dessa forma, “quando se pergunta sobre o
princípio moral da Antiguidade, a resposta é ‘o conhecer-te a ti mesmo’ e não ‘tome
conta de você mesmo’. Ora, o ‘conhecer-te a ti mesmo’ é um conselho técnico a ser
observado para consultar o oráculo, que chama atenção sobre a natureza da
consulta” (SILVA, s.d., p. 5). Tal princípio “está subordinado ao cuidado de si”
(ibidem, s.d., p. 6), isso porque existem variadas formas de cuidado.
É precisamente contra a primazia do gnôthi seautón que Foucault desenvolve
seu curso. Pois, foi por meio do primado do conhecimento de si que a questão da
verdade tornou-se mais importante do que o trabalho a ser realizado sobre si
mesmo. Segundo Silva:
No procedimento cartesiano descrito nas Meditações dois pontos marcaram
a requalificação filosófica do gnôthi seautón, e a desqualificação do
epimeleia heautou. Foucault lembrou da noção cartesiana de evidência, a
qual é própria da consciência e do autoconhecimento como verdade do ser.
O gnôthi seautón passou a ser procedimento filosófico, enquanto que o
cuidado consigo acabou sendo excluído da “filosofia” moderna. (ibid., s.d.,
p. 5)
Ao sobrepujar o gnôthi seautón, o momento cartesiano, em nome de uma
verdade oculta, preteriu a possibilidade do indivíduo lutar contra os desejos e
dominações que lhe são impostas pela cultura. Em outros termos, quando o acesso
à verdade se dá por meio do conhecimento, ignora-se o denso trabalho a ser
realizado sobre a espiritualidade, para preconizar um método que seja capaz de
fazer emergir uma verdade. (FOUCAULT, 2004, passim)
Contrário a tal perspectiva, Foucault valoriza a epiméleia heautoû como
forma de recolocar a questão subjetiva no centro das reflexões filosóficas.
Segundo Cavalcanti Junior, é válido recordar que:
Foucault nem sempre pensou assim. As duas primeiras fases de suas
pesquisas: a Arqueológica, quando estudou a constituição dos saberes e a
Genealógica, quando verificou a importância do poder na constituição dos
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saberes; apontavam para um sujeito subjugado pela linguagem. Por ela,
seria ordenado e estruturado. Foi só na sua terceira fase, quando se
preocupou com a subjetividade, que o francês adotou a perspectiva de que
os indivíduos poderiam tomar as “rédeas” de sua própria constituição de
sujeito desde que olhassem para si, investigando como se tornaram o que
são, ou dito diferente, como o mundo no qual estão inseridos procurou
produzir sua subjetividade. (CAVALCANTI JUNIOR, 2007-2008, p. 07)
O excerto mostra como nas aulas do College de France (1981-1982),
Foucault passa a admitir que o indivíduo, de alguma forma, possa intervir no
determinismo imposto por campos epistêmicos ou jogos de poder e, desse modo,
possa esculpir uma subjetividade distinta daquela que lhe foi imposta.
Ao cotejar tal perspectiva com a subjetividade sartreana, é possível
conjecturar uma sutil aproximação entre as teorias. Nesse sentido, é válido
relembrar que em Sartre o sujeito está condenado a ser livre, devendo empreender
escolhas amparadas por um projeto de constituir-se, de transcender-se. Assim, a
subjetividade emerge a partir de uma conseqüência natural: o fato do homem ser um
ser faltante.
Foucault, por seu lado, não chega a admitir uma clara e evidente
emancipação do sujeito. Contudo, por meio da noção de cuidado de si, o pensador
admite que o sujeito, por meio de um denso trabalho, possa entalhar sua
espiritualidade e dessa forma intervir nos determinismos que lhe são impostos,
construindo uma subjetividade diversa daquela que lhe fora imputada. Segundo
Candiotto (2008):
[...] Subjetividade que aqui se refere não à identificação com o sujeito como
categoria ontologicamente invariável, mas a modos de agir, a processos de
subjetivação modificáveis e plurais. Nesse sentido é que também Foucault
entende a constituição do sujeito antigo como ultrapassagem de si.
(CANDIOTTO, 2008, p.88)
Em suma, se para Sartre a irrupção da subjetividade é um imanente projetarse, no último9 Foucault a mesma pode ser entendida como um denso processo de
ultrapassagem de si mesmo.
5. CONCLUSÃO
Concluímos este trabalho ressaltando a importância do tema analisado, tanto
por este perpassar um campo de reflexão acerca da Filosofia contemporânea, tanto
830
por empreender uma reflexão sobre os desdobramentos da subjetividade na obra
desses importantes pensadores.
Assim, o objetivo do presente trabalho foi demonstrar como antes de uma
notória antinomia, existem pontos de congruência entre as perspectivas filosóficas
de Sartre e do último Foucault. A saber, a reflexão que ambos desenvolvem sobre a
irrupção da subjetividade.
Para tal optou-se por analisar os conceitos de subjetividade trabalhada, direta
ou indiretamente, nas obras Ser e o Nada de Sartre e Hermenêutica do Sujeito de
Foucault. Da leitura destas, pode-se constatar que em ambas é possível perceber a
subjetividade como um projeto: em Sartre, como um projeto natural, ou como uma
perene conseqüência do simples fato de existir; e em Foucault, de um denso
processo de talhar a subjetividade.
Ao estabelecer tal aproximação, ressaltou-se também a guinada de
perspectiva acerca da constituição do sujeito que ocorre no pensamento
foucaultiano a partir dos cursos do College de France (1981-1982). Assim, se antes
desses cursos, a antinomia entre Foucault e Sartre era evidente e aparentemente
insuperável, contudo, a partir dos mesmos essa divergência se perde, sobretudo na
retomada que Foucault dá ao conceito da Antiguidade de Cuidado de si.
Finalizando, espera-se que o presente artigo tenha traçado satisfatoriamente
as bases para o entendimento do tema abordado, e desta forma, possibilitado uma
macro visão exemplificativa de como Michel Foucault e Jean-Paul Sartre percebem a
subjetividade.
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Acesso em: 10 mai. 2010.
833
YASBEK, André C. A desorganização interna do Ser e o surgimento da realidade
humana em O Ser e o Nada. DoisPontos, v. 3, n. 2 2006.
7. NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
1
Amatuzzi, M.M. A subjetividade e sua pesquisa. Memorandum. Ribeirão Preto: USP; Belo
Horizonte:
UFMG;
n.
10,
abr.
2006,
p.
93.
Disponível
em:
<http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a10/amatuzzi03.pdf >. Acesso em: 10 mai. 2010.
2
Ibidem, p. 95.
3
Por questão expositiva e didática, optou-se pela divisão do pensamento Foucault em três fases: a
primeira, caracterizada por obras da década de 60 do século XX, na qual o pensador expõe o método
arqueológico; uma segunda fase centrada em obras da década de 70, marcada pela existência de um
novo método foucaultiano de análise: a genealogia do poder; e uma terceira, centrada em aulas e
palestras contidas sobretudo na obra Hermenêutica do Sujeito, e que abrem um novo campo de
análise foucaultiano, marcado pelo conceito de Cuidado de Si.
4
“Um método que permite superar o descritivismo arqueológico e chamar a atenção para as
formações discursivas, visto como um campo autônomo de análise, para a criação do conhecimento e
sua capacidade de afirmar o discurso enquanto uma positividade (ou seja, uma possibilidade de
delimitar o campo do objeto em torno do qual, diferentes jogos de verdade são possíveis)." (CUPIDO,
2008-2009, pp. 21-22, tradução nossa)
5
É pertinente mencionar que o poder em Foucault não se restringe a um determinado campo, como o
Estado ou uma determinada classe econômica, mas ao contrário, encontra-se disperso
discursivamente na sociedade, em múltiplos e variáveis campos.
6
DESCARTES, René. Meditação sexta: Da existência das coisas materiais e da distinção real entre a
alma e o corpo do homem. In: Meditações metafísicas. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
7
“O ser surge e se organiza como mundo no movimento de interiorização que atravessa todo o ser,
sem que haja uma prioridade do movimento sobre o mundo, tampouco do mundo sobre o movimento.
Mas esta aparição do si-mesmo atinge o mundo, ou seja, atinge a totalidade do real, é uma
emergência da realidade humana no nada. Só no nada pode ser transcendido o ser”. (SARTRE,
1954, p. 26, tradução nossa).
8
“A angústia é o temor de não me encontrar nesta data, de não querer sequer acudir a ela, mas
também posso me encontrar comprometido nesses atos que revelam minhas possibilidades no
mesmo instante em que as reafirmam. No ato de acender um cigarro reconheço minha possibilidade
concreta, pelo ato mesmo de aproximar deste papel e desta pena, dou-me como uma possibilidade
mais imediata, de trabalhar nesta obra: estar aqui comprometido com ele, e descobri-la no momento
em que me lanço a ela”. (SARTRE, 1954, p. 37, tradução nossa)
9
Por último Foucault, entenda-se o Foucault da Hermenêutica do Sujeito e dos cursos do College de
France no início da década de 80.
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