Imazon - Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia Projeto Conectando as partes Comercialização de Produtos Florestais Não Madeireiros em Belém Estagiária: Patrícia da Silva Supervisores: Simone Carolina Bauch e Paulo Amaral Belém, julho de 2009 1. Introdução Belém se destaca por ser a principal cidade da Amazônia Oriental que apresenta um forte mercado para a comercialização de Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM) devido à exuberância das florestas que estão ao entorno da cidade e concentram uma variedade de produtos. 2 A comercialização de produtos florestais não-madeireiros tem sido discutida como forma de incentivar a conservação da floresta por vários autores. Segundo Shanley et al (2002), ao contrário dos usos da terra prevalentes na Amazônia tais como pecuária e exploração madeireira, os quais contribuem para o empobrecimento biótico e para a drástica redução de espécies com valor econômico, a coleta de Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM) é descrita como uma forma de uso da terra sustentável. O referido trabalho irá abordar a valoração ambiental (ferramenta importante para as tomadas de decisões que envolvem políticas ambientais e desenvolvimento sustentável) ao julgar quanto à população estará disposta a pagar por um PFNM, nesse caso óleos de copaíba e andiroba produzidos das seguintes formas: a. produção sustentável, ou seja, produzido por meio de boas práticas de manejo florestal, independente da produção ser comunitária ou empresarial); b. produção comunitária, não necessariamente com uso de boas práticas de manejo florestal (sustentável); e c. produção comunitária e sustentável. No passado, a economia tradicional tratava o meio ambiente e os recursos naturais como inesgotáveis ou inalteráveis pelas atividades econômicas. Porém, isto tem mudado, principalmente a partir da Rio-92. As ciências econômicas vêm trabalhando na elaboração de conceitos e ferramentas para lidar com as questões ambientais de forma adequada (MOTTA, 2006). O desenvolvimento da Amazônia tem se mostrado como um dos principais responsáveis pela crescente degradação e desmatamento que resulta em pouca riqueza duradoura. Assim, para viabilizar a conservação florestal é necessário que haja incentivos para que o dono da floresta a mantenha em pé. Estes incentivos podem ser na forma de subsistência (REDFORD, 1992) ou renda monetária (SHANLEY, 2002; NEUMANN e HIRCH, 2000; PEREZ e ARNOLD, 1996), bem como seguro natural contra eventos extremos (PATTANAYAK, 2001; PUTZ, 2000;). É necessário que haja uma interação entre o crescimento econômico e a preservação do meio ambiente, visto que a economia não deve ser vista como um sistema dissociado do mundo natural. Todavia, entende-se que os recursos naturais não são fontes perenes de riquezas, e que, torna-se imprescindível conciliar o desenvolvimento econômico e a preservação desses recursos (BALZON, 2006). Visando resguardar os recursos naturais surge a Economia ambiental como mais uma ferramenta de estudo, dentro da qual está embutida o método de valoração, cuja base esta 3 centrada no princípio da racionalidade econômica, uma vez que, as pessoas realizam suas escolhas a partir do que observam, procurando maximizar o bem estar limitado pelas restrições orçamentárias. Não se trata de transformar um bem ambiental num produto com preço de mercado, mas sim em mensurar as preferências dos indivíduos sobre as alterações em seu ambiente (Pearce, 1993). O método de valoração de contingente (MVC) avalia monetariamente o dano no nível do bem estar do indivíduo, através da utilização do indicador de valor, disposição a pagar (DAP), visando de alguma forma exprimir a mudança no nível do bem-estar percebida pelo indivíduo, resultante da alteração de um bem ou serviço ambiental. Assim, o MVC estima o valor da DAP com base em mercados hipotéticos que são simulados por intermédio de pesquisas de campo que perguntam ao entrevistado sua DAP por alterações na disponibilidade quantitativa ou qualitativa do meio ambiente (MOTTA,2006). Como exemplo têm-se: a utilização do método para valorar o parque ambiental “Chico Mendes”, situado em Rio Branco- Acre visando a determinação econômica de um bem público; O estudo pode apresentar resultados positivos aumentando a comercialização dos PFNM na cidade de Belém-Pará, comunidades produtoras e os comerciantes que residem na cidade, na medida em que a consciência ambiental da população aumente, implicando diretamente na procura por bens sustentáveis e que não causem danos ao meio ambiente. 2. Objetivos Objetivo geral Saber se as pessoas têm conhecimento sobre um PFNM e quanto estão dispostas a pagar pela produção de óleos medicinais sendo produzido das seguintes formas: sustentável, por uma comunidade e por uma comunidade de forma sustentável. Objetivo específico • Levantar dados sobre o conhecimento dos PFNM; • Coletar informações a respeito da comercialização dos PFNM; • Aplicar questionário sócio-econômico nos supermercados, nas feiras da cidade de Belém e em Mosqueiro; • Realizar uma análise descritiva com as variáveis de interesse, que são: GENDER (sexo), AGE (Faixa etária), EDUCBS (Faculdade), BIRTH(Se 4 nasceu ou não em Belém), EFOR (Se já entrou na floresta), VALAND (Valoração do óleo de andiroba), VALCOP (Valoração do óleo de copaíba); • Fazer análises de regressão com as variáveis de interesse para verificar o grau de influência na tomada de decisão das pessoas ao valorar um PFNM; 3. Metodologia Os dados deste artigo vêm de entrevistas com 863 consumidores em feiras e supermercados na cidade de Belém, a qual apresenta uma população de 1.408.847 hab, com uma extensão de 1.065 km2 (Belém Sustentável, 2007). Nas feiras e supermercados distribuídos pela cidade nota-se uma grande comercialização por produtos PFNM como os óleos de andiroba e copaíba, os quais têm uma grande importância relacionada a cultura popular servindo para uso medicinal. Além disso, Belém possui 44 feiras, 4 portos e centenas de mercados, vendedores informais e mercearias. Para este estudo os supermercados foram selecionados baseados em uma amostra aleatória de 20% das 3 maiores redes de supermercados da cidade. As feiras nas quais foram realizadas as entrevistas foram selecionadas através de uma amostragem aleatória estratificada, visando uma amostragem representativa de feiras com diferentes números de vendedores de produtos florestais. A figura 1 mostra o número de bancas vendendo produtos florestais em cada feira: Feiras em Belém 80 70 60 50 40 30 trs in e d 20 10 M F P s c n a b d ro e m ú N 0 1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 Feira 27 29 31 33 35 37 39 41 43 5 Figura 1: Número de vendedores de produtos florestais nas feiras de Belém. A amostra de estabelecimentos inclui 9 feiras e 6 supermercados de Belém e as entrevistas foram realizadas nos meses de Fevereiro a Abril de 2009 que correspondem ao período de safra da maioria dos produtos florestais não-madeireiros. A escolha dos consumidores nos estabelecimentos visitados se deu por amostragem sistemática. O método de coleta de dados utilizado, o método de survey, apresenta um questionário estruturado de uma amostra da população e é destinado a obter informações específicas dos entrevistados. Baseia-se no interrogatório dos participantes e é direto, ou seja, o objetivo é conhecido pelo respondente (MALHOTRA, 2005). Primeiramente foram calculadas estatísticas descritivas das variáveis utilizadas nas análises subseqüentes para verificar se existe alguma relação entre elas e o valor atribuído ao valorar: andiroba produzida pela comunidade sem necessariamente apresentar boas práticas de manejo; andiroba sustentável produzida não obrigatoriamente por uma comunidade, embora apresentem boas práticas de manejo; andiroba comunidade sustentável, produzida pela comunidade com o uso de boas práticas de manejo. E todas estas designações são válidas para copaíba. Finalmente, algumas análises de regressão foram utilizadas para explicar conhecimentos sobre a disposição a pagar das pessoas por um óleo produzido pela comunidade, produzido de forma sustentável e produzido pela comunidade de forma sustentável, para saber até que ponto estes dados podem influenciar na valoração econômica. Há diversas maneiras em que se poderia medir o grau de influência ao valorar um PFNM com base nos dados das entrevistas. Logo, a entrevista foi realizada com o seguinte questionamento: Este óleo (andiroba ou copaíba) custa (R$2,00 ou R$5,00 respectivamente) aqui na feira. Quanto você pagaria por este outro (andiroba ou copaíba comunidade, andiroba ou copaíba sustentável, andiroba ou copaíba comunidade sustentável)?” e baseado nesta pergunta pode-se analisar a disposição a pagar ao valorar este produto. 4. Resultados e discussões A tabela 1 e 2 a seguir mostram a estatística descritiva das variáveis de interesse: 6 Variável AGE EDUCBS Cop.com. BIRTH EFOR VALOR AGE EDUCBS Cop.sust. BIRTH EFOR VALOR AGE EDUCBS Cop.com.sust. BIRTH EFOR VALOR Descrição Média/homem Desv. Pad/homem Média/mulher Desv.Pad/mulher Idade 36,32 12,50 36,59 14,72 Faculdade 0,16 0,37 0,33 0,47 Nasceu ou não em Belém 0,72 0,45 0,67 0,47 Se já entrou na floresta 0,72 0,45 0,37 0,49 Valor atribuido à copaíba produzida pela comunidade 3,84 1,96 4,36 3,77 Idade 38,07 12,30 36,22 12,63 Faculdade 0,26 0,44 0,29 0,46 Nasceu ou não em Belém 0,70 0,46 0,61 0,49 Se já entrou na floresta 0,68 0,47 0,52 0,50 Valor atribuido à copaíba produzida pela comunidade 3,53 1,59 4,02 2,26 Idade 36,01 12,58 35,11 12,69 Faculdade 0,21 0,41 0,20 0,40 Nasceu ou não em Belém 0,67 0,47 0,70 0,46 Se já entrou na floresta 0,66 0,47 0,51 0,50 Valor atribuido à copaíba produzida pela comunidade 3,78 1,99 4,32 2,37 Tabela 1: Estatísticas descritivas das variáveis de interesse (copaíba). Pela tabela 1 observa-se que mesmo a pessoa tendo um nível de escolaridade (homem 16%, mulher 33% - cop.com; homem 26%, mulher 29% - cop.sust; homem 21%, mulher 20% - cop.com&sust.) nascendo em Belém (homem 72%, mulher 67% - cop.com; homem 70%, mulher 61% - cop.sust; homem 67%, mulher 70% - cop.com&sust.) tendo um maior contato com estes produtos, ter entrado na floresta (homem 72%, mulher 37% - cop.com; homem 68%, mulher 52% - cop.sust; homem 66%, mulher 51% - cop.com&sust.) sabendo a importância da mesma. Estas variáveis não apresentam grande relevância na disposição das pessoas ao valorar um óleo produzido pela comunidade, produzido de forma sustentável e produzido pela comunidade de forma sustentável. Embora as mulheres estejam dispostas a pagar mais (copaíba comunidade R$4,36; copaíba sustentável R$4,02; copaíba comunidade sustentável R$ 4,32). Variável Descrição Média/mulher Desv. Pad/mulherMédia/homem Desv. Pad/homem AGE Idade 35,91 13,10 38,05 12,02 EDUCBS Faculdade 0,28 0,45 0,25 0,44 And.com. BIRTH Nasceu ou não em Belém 0,66 0,48 0,68 0,47 EFOR Se já entrou na floresta 0,49 0,50 0,61 0,49 VALOR Valor atribuido à copaíba produzida pela comunidade 3,51 1,71 3,46 1,62 AGE Idade 35,32 12,61 34,94 11,72 EDUCBS Faculdade 0,22 0,42 0,19 0,40 And.sust. BIRTH Nasceu ou não em Belém 0,71 0,46 0,72 0,45 EFOR Se já entrou na floresta 0,53 0,50 0,76 0,43 VALOR Valor atribuido à copaíba produzida pela comunidade 4,01 2,23 3,75 2,65 AGE Idade 36,27 13,84 36,83 14,46 EDUCBS Faculdade 0,27 0,45 0,19 0,39 And.com.sust.BIRTH Nasceu ou não em Belém 0,58 0,50 0,65 0,48 EFOR Se já entrou na floresta 0,42 0,50 0,69 0,46 VALOR Valor atribuido à copaíba produzida pela comunidade 4,43 3,62 3,54 1,64 Tabela 2: Estatísticas descritivas das variáveis de interesse (andiroba) Em relação a tabela 2 nota-se que mesmo a pessoa tendo um nível de escolaridade (homem 25%, mulher 28% - and.com; homem 19%, mulher 22% - and.sust; homem 19%, mulher 27% - and.com&sust.), nascendo em Belém (homem 68%, mulher 66% - and.com; homem 72%, mulher 71% - and.sust; homem 65%, mulher 58% - and.com&sust.), tendo um maior contato com estes produtos, ter entrado na floresta (homem 61%, mulher 49% - 7 and.com; homem 76%, mulher 53% - and.sust; homem 69%, mulher 42% - and.com&sust.) sabendo a importância da mesma. Estas variáveis não apresentam grande relevância na disposição das pessoas ao valorar um óleo produzido pela comunidade, produzido de forma sustentável e produzido pela comunidade de forma sustentável. Mesmo com as mulheres valorando mais os óleos ( andiroba comunidade R$3,51; andiroba sustentável R$4,01; andiroba comunidade sustentável R$4,43). Entretanto a valoração da copaíba esta superior ao da andiroba. Se considerarmos que a cidade de Belém está inserida no bioma Amazônia e PFNM como o óleo de andiroba e copaíba são amplamente utilizados pela população local esperariase uma valoração da população em relação aos óleos de andiroba e copaíba mais significativos. A seguir, na tabela 3 são apresentados os resultados da regressão de mínimos quadrados simples tendo como variável dependente a valor atribuído ao óleo de andiroba para saber a influência na tomada de decisão (R2= 2% e estatística F significativa a 1% para o modelo como um todo): Variável INTERCEPT GENDER Descrição Parâmetro estimado 3,546 0,393 * Sexo AGE EDUCBS Faixa etária Faculdade -0,008 0,230 BIRTH EFOR Se nasceu ou não em Belém Se já entrou na floresta -0,174 0,570 * *** Erro padrão 0,304 0,157 0,006 0,182 0,166 0,160 Tabela 3: Resultados da regressão linear para explicar a valoração da andiroba e o grau de influência dessas variáveis na tomada de decisão (*** significativo ao nível de significância de 1% e * significativo ao nível de significância de 10%). Como se pode ver na tabela 3, pessoas que entraram na floresta (EFOR) apresentam uma maior disposição a pagar. Assim como, as mulheres (GENDER) que responderam o questionário e as pessoas com idades mais avançadas (AGE), respectivamente. A tabela 4 também apresenta os resultados de regressão de mínimos quadrados simples, já que segue a mesma linha de raciocínio da análise anterior só que neste caso voltada para o óleo de copaíba. Assim, têm como variável dependente o valor atribuído ao óleo de copaíba para saber a influência na tomada de decisão (R2= 2% e estatística F significativa a 1% para o modelo como um todo): 8 Variável Descrição Parâmetro estimado Erro padrão INTERCEPT GENDER Sexo 0,393 * 0,157 AGE Faixa etária -0,008 * 0,006 EDUCBS Faculdade 0,230 0,182 BIRTH Se nasceu ou não em Belém -0,174 0,166 EFOR Se já entrou na floresta 0,570 *** 0,160 Tabela 4: Resultados da regressão linear para explicar a valoração da copaíba e o grau de influência dessas variáveis na tomada de decisão (*** significativo ao nível de significância de 1% e * significativo ao nível de significância de 10%). Observa-se na tabela 4, pessoas que entraram na floresta (EFOR) apresentam uma maior disposição a pagar. Assim como, as mulheres (GENDER) que responderam o questionário e as pessoas com idades mais avançadas (AGE), respectivamente o que coincide com os resultados anteriores. Diante dos resultados verifica-se a disponibilidade da população a pagar mais por um óleo de andiroba produzido pela comunidade de forma sustentável e produzido apenas de forma sustentável, já que a mulher paga uma média R$4,43 e homem paga uma média R$3,75 por uma andiroba sustentável, através do uso de boas práticas de manejo, seja fabricado pela comunidade ou não. Em relação a copaíba a população esta disposta a pagar mais por um óleo produzido pela comunidade, a qual nem sempre utiliza boas práticas de manejo, uma vez que o homem paga uma media R$3,84 e a mulher uma média R$4,36. 5. Conclusão 9 A comercialização dos produtos da floresta tem sido incentivado como uma alternativa para preservação da floresta em pé. Pois, a cidade de Belém em suas feiras, portos e supermercados oferta uma farta variedade de PFNM. Este artigo enfoca a valoração ambiental de um bem muito apreciado pela população que são os óleos de andiroba e copaíba. Que através dos resultados das análises observa-se uma preferência por óleos de andiroba: produzidos pela comunidade; produzidos pela comunidade de forma sustentável e o óleos de copaíba produzido pela comunidade, mostrando que os entrevistados tem conhecimento sobre o manejo florestal e suas boas práticas como alternativa pra manter a floresta e explorar seus recursos de forma racional. Assim, a disposição da população a pagar mais por um produto de qualidade e que não agride o meio ambiente, deve ser propagada com o auxílio de políticas públicas e informações sobre os PFNM ressaltando sua importância para comercialização, fortalecendo a consciência ambiental como um meio de incentivar o manejo florestal sustentável e conservação dos recursos. 6. Referência 10 SHANLEY. Patrícia, LUZ. Leda, SWINGLAND. Ian. The faint promise of a distant market: a survey of Belém’s trade in non-timber forest products. Biodiversity and Conservation, vol 11, 2002. 615-636p. MOTTA. S. Ronaldo. Economia Ambiental. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. 228P. PATTANAYAK, S.K., SILLS, E.O. Do tropical forests provide natural insurance? The microeconomics of non-timber forest product collection in the Brazilian Amazon. Land Economics 77(4), 2001. pp. 595-612. PEREZ, R.M., ARNOLD, J.E.M.(eds) Current issues on non-timber forest product research. Proceedings of the workshop “Research on NTFP”. 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