II Seminário Iniciação Científica – IFTM, Campus Uberaba, MG. 20 de outubro de 2009. ESCRAVIDÃO E INFÂNCIA EM UBERABA SOUZA, J.C. de1 1 Professor de Educação Básica da Escola Estadual Professor Chaves. Aluno do curso de especialização em Educação Profissional integrada à Educação Básica na modalidade de Educação de Jovens e Adultos do Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia do Triângulo Mineiro – IFTM/Campus Uberaba. Graduado em História pela Universidade de Uberaba. e-mail: [email protected]. RESUMO A Escravidão é uma das temáticas que estão sendo mais pesquisadas na historiografia brasileira atualmente, visto que novas correntes historiográficas estão proporcionando novas abordagens de pesquisas. Em Uberaba tivemos um período de Escravidão que compreendeu de 1856 (elevação da cidade) a 1888 (Abolição da Escravidão no país). Os fatores econômicos pelos quais a cidade passou nesse período contribuíram para moldar o cotidiano escravo vivenciado em Uberaba. Por meio de leituras bibliográficas e de documentos disponíveis no Arquivo Público da cidade, pudemos levantar um pouco desse cenário escravo. Encontramos então um processo crime que nos chamou a atenção. O processo tratava-se de uma criança escrava de nome Alexandrina, que estava sendo castigada por roubar dinheiro dos seus senhores. Do outro lado, a acusação era maus tratos contra a pequena criança de oito anos. Quem falava a verdade? E a Lei do Ventre Livre promulgada em 1871? Pelas entrelinhas o documento pode nos revelar muito mais que simples inferências, ele pode nos fornecer pistas, indícios, que nos permite ver muito além. Por conseguinte, ao ler os relatos descritos ao longo do processo, pudemos recriar algumas cenas da infância escrava encontrada em Uberaba nos anos finais do século XIX. Palavras-chave: Escravidão, Infância, Lei do Ventre Livre, Uberaba. INTRODUÇÃO Muito tem se falado sobre a Escravidão no Brasil. Novos estudos estão sendo realizados, sobretudo com o advento de novas vertentes historiográficas (ROCHA, 2004). Nessas pesquisas, outros objetos são estudados, geralmente aqueles anteriormente esquecidos, como cotidiano, gênero, entre outros. Em Uberaba, diferentemente do desconhecimento da população, tivemos um período de Escravidão. Período esse concomitante com o desenvolvimento econômico da cidade. Lembrando que Uberaba foi elevada à cidade em 1856, e a abolição da Escravidão aconteceu em 1888. Nas últimas décadas do século XIX, Uberaba alcançou uma grande importância regional, visto que a cidade estava localizada na “boca do sertão”, ou melhor, era o último ponto de “civilização” frente a um vasto sertão pouco conhecido. Desse modo, Uberaba era o eixo de ligação entre o principal centro econômico do país (a capital Rio de Janeiro), e uma grande região onde haviam encontrado ouro,Goiás e Mato Grosso (LOURENÇO, 2007). Assim, “a Princesa do Sertão” como ficou II Seminário Iniciação Científica – IFTM, Campus Uberaba, MG. 20 de outubro de 2009. conhecida a cidade, firmou-se como importante centro regional, alcançando o status de primazia, visto que polarizava uma grande região em seu entorno, compreendendo hoje parte do Triângulo Mineiro e do Centro-Oeste do país, conhecida na época e ainda pairando no imaginário coletivo da população, como “Sertão da Farinha Podre”. Essa caracterização econômico-social será fator influenciador no processo escravocrata em Uberaba. DISCUSSÂO Buscando encontrar indícios do cotidiano escravo no município de Uberaba, partimos para o Arquivo Público de Uberaba. Entre um grande acervo de fontes primárias, muitas inexploradas pelos historiadores uberabenses, encontramos um processo crime que nos chamou a atenção. Tratava-se de um caso de agressão física numa criança escrava. A pequena escrava de oito anos, de nome Alexandrina, filha de Maria escrava de Apolinário José de Almeida. Nesse processo encontramos Maria Balbina de Almeida, esposa de Apolinário e seu filho, Antônio José de Almeida, que castigaram a pequena escrava por subtrair dinheiro. No lado oposto estava a escrava Maria, mãe de Alexandrina, que na sua versão acusava os seus senhores de maus tratos, visto que a criança estava varrendo o quintal, e como o vento estava forte, fez com que o trabalho não ficasse bem feito. Dessa forma o castigo dado à menina terminou em ferimentos causados por um chicote de couro de anta com anel e corrente de prata. O caso da escrava Alexandrina, é apenas um entre tantos outros que aconteceram em Uberaba. Isso não nos proporciona tomarmos tal caso como o modelo de Escravidão vivenciada em Uberaba. No entanto esse acontecimento pode nos incitar a refletir um pouco sobre a situação desse período na cidade. Em 1871 uma lei foi promulgada no Brasil, a Lei do Ventre Livre. A referida lei dizia que os filhos de escravos nascidos a partir daquela data seriam livres. Alguns fatores internos e externos do país contribuíram para a promulgação desta lei e de outras mais, no sentido de controle e, mais ainda do término da escravatura no Brasil, que aconteceu somente em 13 de Maio1888 com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Izabel. No entanto, podemos perceber que a Lei do Ventre Livre não trouxe grandes benefícios para os pequenos cativos. A criança escrava nascia livre, mas ficava sob a posse dos proprietários dos pais até completar oito anos, vivendo escravizados do mesmo modo como seus pais viviam, executando os trabalhos que lhes eram ordenados (FREIRE, 2004). Passado esse período, muitas crianças continuavam ao lado dos seus pais servindo aos seus senhores. Afinal, elas eram apenas crianças, denominadas por “ingênuas”. II Seminário Iniciação Científica – IFTM, Campus Uberaba, MG. 20 de outubro de 2009. CONSIDERAÇÕES FINAIS Alexandrina encaixa-se nessa perspectiva proposta pela Lei do Ventre Livre. No final do processo encontramos seus proprietários absolvidos. Pensamos então numa sociedade escravocrata em pleno século XIX. Alexandrina era somente uma criança negra, escravizada, pobre. A família de Apolinário era branca, rica, possuíam posses. O final do processo já possuía um término esperado. No entanto, nos chama a atenção o fato de Maria, mãe da pequena Alexandrina, ter contestado os castigos sofridos pela filha. A escravidão em Uberaba é ainda uma temática que ainda pode ser bem explorada. Há um grande acervo de documentos disponibilizados no Arquivo Público da cidade. O fato do período do apogeu econômico regional da cidade coincidir com o término da escravidão, fez com que tivéssemos uma participação ímpar dos escravos na constituição da sociedade uberabense. Inúmeros trabalhos foram e estão sendo realizados, acerca da contribuição dos imigrantes e de outras parcelas da população para a história da cidade. Isso é muito importante para uma análise da história de Uberaba, no entanto não podemos nos esquecer da grande participação que os negros escravizados tiveram na formação do país e não diferente, na formação da cidade de Uberaba. Temos uma dívida impagável com a população negra, reconhecer a importância da sua participação na história do nosso povo, já é uma evolução da sociedade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APU. Processo Criminal – nº122 – 1881. BOLETIM INFORMATIVO DO ARQUIVO PÚBLICO DE UBERABA, nº8, maio de 1998. COUTINHO, Pedro dos Reis. História dos Irmãos Maristas em Uberaba. Uberaba: Arquivo Público de Uberaba; Belo Horizonte: Centro de estudos maristas, 2008. DEL PRIORE, Mary (org.) História da Criança no Brasil. 4ªed.. São Paulo: Contexto, 1996. FIGUEIREDO, Luciano. “As mulheres das Minas Gerais”. In: DEL PRIORE, May (org.) 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