DOCUMENTO FINAL DA CONFERÊNCIA LOCAL DA REGIÃO DA MISSÃO TIRIYÓ Nós, povos Tiriyó, Katxuyana, Txikiyana, Aparai, Wayana, descendentes dos povos Pïrëuyana, Txikiyana, Sakëta, Okomoyana, Aramayana, Aipïpa, Akuriyó, Pïropï, Katuyana, Tunayana, Mawayana, Inkarïnyana, Kahiyana, Maraso, Akïyó, Murumuruyó, Aramaso, Aturai, Waripi, Piayanakoto, Werehpai, Patakaiyana da faixa oeste da TI Parque do Tumucumaque, estivemos reunidos entre os dias 21 a 23 de julho de 2015, na Aldeia Missão Nova, na Etapa Local da Região da Missão da 1ª Conferência Nacional de Política Indigenista, que tem por tema central “A relação do Estado Brasileiro com os Povos Indígenas no Brasil sob o paradigma da Constituição de 1988”. Nesta oportunidade em que estivemos reunidos para refletir sobre a forma com que o Estado brasileiro historicamente se relaciona com os povos indígenas, manifestamos a necessidade de apoio das instituições competentes em relação ao nosso modo de vida tradicional descentralizado para evitar o sobreuso de recursos de uma única região, e ajudar na fiscalização dos limites da terra. Para tanto, se faz necessário que o Estado se responsabilize em garantir o acesso a direitos humanos básicos, como educação escolar, saúde, saneamento, transporte, fiscalização. Em relação à educação escolar, nossas propostas são: - Construção de escolas nas aldeias da faixa oeste da TI Parque do Tumucumaque. Até hoje nenhuma escola local foi construída pelo órgão competente. - Quanto aos profissionais da educação escolar, de forma geral, há insuficiência tanto de professores indígenas, quanto de professores não indígenas. Sobre esta questão, manifestamos nossa insatisfação quanto ao desinteresse e a falta de qualificação de alguns professores não indígenas presentes nas escolas de nossa região, queremos que eles recebam preparação para o convívio nas nossas comunidades e para o trabalho com educação escolar indígena diferenciada. - Queremos o apoio do MEC na alfabetização para todos. - Queremos também o reconhecimento, por meio da SEED/NEI, bem como do Conselho Estadual de Educação do Estado do Amapá, dos cursos de formação dos professores indígenas realizados pelo Iepé de 2007 à 2011. - Queremos a regularização dos contratos dos professores indígenas por parte do NEI/SEED. - Queremos produção e publicação de materiais didáticos adequados para as escolas locais. - Descentralização do caixa escolar - Mais atenção do Governo do Estado do Amapá sobre Educação Indígena - Acompanhamento pedagógico nas escolas locais pelos pedagogos indígenas contratados - Sugerimos que haja instâncias para fiscalizar tanto a construção e a melhoria das estruturas físicas das escolas em nossa terra, quanto a qualidade e a adequação a nossa realidade cultural dos cursos de formação de professores realizados pela SEED/NEI desde 2011 em nossa região. Esta instância será composta por entidades indígenas, FUNAI, Iepé e MInistétio Público. No que se refere à saúde indígena nossas propostas são: • Construção de postos de saúde e reforma das estruturas já existentes, como é o caso do posto da Aldeia Missão Nova; • Equipagem dos postos de saúde (incluindo equipamentos permanentes e de consumo e medicamentos); • Contratação de profissionais indígenas para atuarem como motoristas de carro, motoristas fluviais e proeiros indígenas; • Formação continuada de AISs; • Formação continuada e contratação de AISANs; • Regularização dos contratos dos AISs; • Projetos de Medicina tradicional incluindo um sistema de valorização e estruturação do serviço de parteiras nas comunidades locais; • Construção de infraestrutura de saneamento básico • Formação de profissionais indígenas de saúde - técnicos de enfermagem, saúde bucal, laboratoristas, etc... • Concurso público específico para profissional indígena de saúde; • Garantia do cumprimento da Lei nº 1.477, de 26 de abril de 2010, que “autoriza o Poder Executivo a criar os cargos de Agente de Saúde Indígena, Técnico de Saúde Indígena, Agente Ambiental Indígena, Técnico em Meio Ambiente, Técnico em Enfermagem, Técnico em Análises Clínicas e Técnico em Saúde Bucal, no Quadro de Pessoal Civil do Estado do Amapá e dá outras providências e que este reconhecimento se dê numa instância nacional. • Saúde indígena é do índio, não do Ministério da Saúde. Ele não pode limitar medicamentos nas Terras Indígenas • Preparo adequado dos profissionais de saúde não indígenas para o convívio e trabalho junto às comunidades indígenas. Nossas propostas para Terra e Ambiente são: • Projetos de Monitoramento territorial - reavivamento dos limites/criação de postos/aldeias de vigilância - feitos pelos próprios indígenas; • Que os órgãos competentes realizem ações de fiscalização (FUNAI, Polícia Federal, Forças Armadas, SEMA/PA). • Realização de oficinas que tratem especificamente do lixo. Precisa de transporte para a retirada do lixo tóxico. Fazer acordos para que órgãos governamentais responsáveis se envolvam. • Formação e valorização dos indígenas para a preservação do meio-ambiente Proibição de entrada de pessoas sem autorização dos caciques para que não aconteça de não índios se beneficiarem do desconhecimento dos índios em favor próprio • Que a formação de militares indígenas, quando acontecer, seja séria, valorizando o militar indígena e garantindo-lhe o direito de seguir a carreira completa até a graduação superior. No que se refere à valorização cultural, nossas lideranças, pais, mães e mais velhos afirmaram que precisam cuidar de dar exemplo dentro de suas aldeias sobre a importância da nossa cultura tradicional e nossas formas próprias de transmissão dessa cultura. Nossas propostas para revitalizar nossa cultura são: • Projetos de promoção e valorização cultural que envolvam todas as gerações, homens e mulheres; • Valorizar a nossa cultura também nas escolas; • Produção e utilização nas escolas de materiais didáticos sobre a cultura, história e nossos conhecimentos sobre a terra e ambiente em que vivemos; • Registro de nosso patrimônio cultural em livros e filmes. Por fim, manifestamos nosso repúdio contra a PEC 215, e nosso apoio à demarcação da Terra Indígena Katxuyana, situada no território de origem do povo katxuyana, no médio Trombetas, norte do Pará. Uma das nossas principais reivindicações hoje diz respeito à regularização das pistas de pouso. Enquanto isso não acontece nossa saúde, educação e direito de ir e vir encontram-se prejudicados, pois o único meio de acesso à nossa região é por via aérea. Em relação aos empreendimentos que estão em andamento na nossa Terra Indígena, como a Micro Central Hidrelétrica, e outros que venham a ser planejados futuramente, queremos a garantia de que seja cumprido o direito de consulta livre, prévia e informada que está assegurado para os povos indígenas na Convenção 169 da OIT. Por fim solicitamos que a CR Amapá e Norte do Pará disponibilize uma vaga de CTL para um representante indígena da faixa oeste da Terra Indígena Parque Tumucumaque, ao mesmo tempo em que apoiamos a nomeação do servidor Francisco Paes como coordenador efetivo da referida Coordenação Regional. • Missão Tiriyó, 23 de julho de 2015.