SENTIMENTOS DE MULHERES COM HIV/AIDS Samya Raquel Soares Dias; Priscila Martins Mendes; Raisa Leocádio Oliveira; Francisco Braz Milanez Oliveira; Fernanda Valéria Silva Dantas Avelino; Introdução: A infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) e o desenvolvimento da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) são grandes problemas de saúde pública a nível mundial. O contexto atual indica mudanças no perfil das pessoas que convivem com HIV, uma delas é feminização. Objetivo: Relatar os sentimentos vivenciados por mulheres que convivem com HIV/AIDS. Método: Trata-se de um estudo descritivo, exploratório, com abordagem qualitativa por meio do método de história de vida. Os dados foram coletados em um Serviço de Atendimento Especializado (SAE) em Teresina (PI) por meio de entrevista semiestruturada. A amostra se deu por saturação de falas, sendo composta por sete mulheres. Resultados: Muitos sentimentos permeiam a vivência de mulheres que convivem com HIV, no entanto, foram descritos principalmente a culpa, discriminação, preconceito, rejeição, medo, tristeza, vergonha, depressão, medo da morte e responsabilidade quanto à contaminação e ser contaminado. Foi evidenciado o impacto negativo quanto a si mesmas e às relações familiares. Conclusão: Portanto, as falas identificaram a face negativa que a vivência com o vírus despertou e o impacto causado. Espera-se, desse modo, uma assistência mais humanizada e focada no sentido de auxiliar essas mulheres a desmistificar a convivência com o vírus. Descritores: HIV; Síndrome da Imunodeficiência Adquirida; Mulheres. Introdução Desde o surgimento dos primeiros casos e a identificação do vírus da imunodeficiência humana (HIV), a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) fundamenta um dos grandes problemas de saúde pública a nível mundial. Conforme as estimativas realizadas pelo Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais aproximadamente 718 mil pessoas convivem com HIV/Aids no Brasil. Dessa forma, os dados acumulados de 1980 a junho de 2013 no Brasil, foram notificados no Sinan, declarados no SIM e registrados no Siscel/Siclom um total de 686.478 casos de AIDS, dos quais 445.197 (64,9%) são do sexo masculino e 241.223 (35,1%) do sexo feminino (BRASIL, 2013). Durante muitos anos o HIV cresceu mais rapidamente em homens em relação às mulheres, estas que eram pouco visíveis (PAIVA et al., 2002). O Brasil acompanha a tendência mundial de heterossexualização e feminização do HIV, associada ao aumento de incidência entre populações socioeconomicamente mais vulneráveis. No sexo feminino, as maiores taxas de incidência estão na faixa etária de 30 a 39 anos, com incremento a partir dos 40 anos (VALADARES et al., 2010). Diante do exposto, esta pesquisa teve por objetivo relatar os sentimentos vivenciados por mulheres que convivem com HIV/AIDS. Assim, justifica-se pela mudança da população com HIV/AIDS, ou seja, a feminização da mesma, despertando interesse na temática e contribuições para novas pesquisas. Método Trata-se de um estudo descritivo, exploratório, com abordagem qualitativa por meio do método de história de vida. Os sujeitos do estudo foram mulheres soropositivas para o HIV que faziam acompanhamento em um Serviço de Atendimento Especializado (SAE) em Teresina (PI). O tamanho da amostra se deu pela saturação da fala das depoentes. Foram incluídas mulheres que atenderam os seguintes critérios: ter resultado de exame sorológico reagente para HIV tendo desenvolvido ou não a síndrome; com idade superior ou igual a 18 anos; ser natural e domiciliada em Teresina; apresentar condições físicas, mentais e psicológicas para participar da entrevista; e, aquiescer em participar do estudo. Como critérios de exclusão foram considerados as mulheres que não faziam acompanhamento ou não compareceram aos retornos ambulatoriais no SAE durante o período de coleta dos dados. Os dados foram coletados por meio de entrevista gravada, antes ou após consulta médica ou de enfermagem nos turnos manhã e tarde conforme agendamento ambulatorial prévio para consulta de retorno. No local, a entrevista foi realizada em ambiente privativo. A coleta de dados foi realizada nos meses de novembro e dezembro de 2013 e a amostra composta por sete mulheres. A pesquisa foi aprovada pela Fundação Municipal de Saúde e pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Piauí com o CAAE: 07582912.9.0000.5214 atendendo aos princípios norteadores da Resolução 466 de 2012 do Conselho Nacional de Saúde. Resultados e Discussão O estudo foi composto por sete mulheres com idades entre 28 a 64 anos. Quanto à cor auto referida, houve prevalência de pardas (três). Três delas eram solteiras. Quanto à religião, seis referiram ser católicas. Em relação à renda familiar houve prevalência de mulheres que recebiam um salário mínimo. No que se refere à escolaridade, a maioria possuía baixa escolaridade, onde apenas uma estava cursando Ensino Superior. Em relação à evolução da doença, duas delas encontravam-se na fase assintomática, três na fase sintomática e duas já desenvolveram AIDS. Seis delas tinham menos de quatro anos de infecção. Quatro delas relataram não ter vida sexual ativa, enquanto três referiram possuir parceiros sexuais. Sentimentos frente à infecção por HIV/AIDS Muitos sentimentos permeiam a vivência da mulher com HIV, no entanto, a depressão é mais referida. Como mostram os seguintes depoimentos: Eu fico mais assim depressiva, às vezes eu choro.(E1) Tenho depressão hoje e tenho esse vírus.(E7) A depressão em soropositivos pode decorrer de vários fatores, compromete o bem estar físico, o humor, a percepção de como essa pessoa vê o mundo, a realidade a sua volta e como se sente em relação a si próprio (REIS, et al, 2011). Em estudo realizado quando se comparou a presença de sintomas de depressão entre os gêneros, verificaram-se diferenças estatisticamente significantes entre homens e mulheres portadores da doença, visto que as mulheres apresentaram sintomas de depressão de intensidade mais grave que os homens (REIS, et al, 2011). E por vezes, por desconhecimento ou por preconceito, as pessoas deixam de procurar ajuda psiquiátrica quando estão com sintomas de depressão. Assim, por já sofrerem discriminação pela sopositividade preferem se poupar para não enfrentar mais uma doença estigmatizada, que é a depressão (WAIDMAN; BESSA; SILVA, 2011). Essa visão proporciona uma compreensão negativa e até mesmo pejorativa da doença, fazendo com que as pessoas que tem depressão sintam o temor de serem taxadas como loucas, ou, em outros casos, desacreditadas, incompreendidas; em ambos os sentidos, a pessoa se sente desvalorizada, inferiorizada, estigmatizada (MOREIRA; TELLES, 2008). Isso evidencia que são muitos os fatores que podem desencadear uma depressão, de forma que a equipe multiprofissional deve observar e intervir em sua progressão, proporcionando melhor atenção ao individuo (MOREIRA; TELLES, 2008). A revelação da sorologia positiva para o HIV é um desafio que muitas mulheres ainda não conseguem vencer (GONÇALVES; WEBER; ROSO, 2013). Um dos principais fatores é o medo de sofrer preconceito por parte de familiares, amigos e pela própria sociedade. Porque a gente sabe que o preconceito é grande, que as pessoas fingem gostar da gente, mas elas nunca aceitam o problema que você tem. (E7) Eu tenho medo de sofrer preconceito, porque eu já ouvi falar, eu já ouvi uma pessoa chegou pra mim e falou o que ele sofreu no preconceito do começo. (E4) Tenho medo assim, porque eu penso como elas vão reagir, se vai ter algum preconceito, porque tem pessoas que tem, prefiro ficar na minha. (E5) Eu sofri preconceito no tempo que estava doente mesmo que o pessoal ficava falando, falando, e eu tenho uma amiga que é vizinha, contei pra ela, pro marido, filha e namorado da filha dela, ai senti a gente foi pro restaurante à noite no natal, eu achava que meu namorado não estava com preconceito e nem marido dela, mas ela eu achei que estava. (E6) É percebido que o portador de HIV/Aids sofre discriminação e preconceito, entra em conflito emocional de diversos âmbitos, detém sentimentos de culpa, rejeição, medo, tristeza, vergonha e responsabilidade quanto à contaminação e ser contaminado. Isso ocorre porque os pacientes passam a adaptações e da mesma forma todas as pessoas que convivem com eles quando tem conhecimento da condição sorológica, o que leva a um sofrimento mental (WAIDMAN; BESSA; SILVA, 2011). A culpa frente ao HIV demonstra constituir um assunto intrigante, por envolver aspectos relacionados ao juízo de moralidade, de consciência, de justiça, que todos de certa forma possuem (CARVALHO; GALVÃO, 2010). A enfermidade é um momento de passagem na vida de um indivíduo, que desorganiza seu ser, suas relações e seus ajustamentos à vida em sociedade, bem como aqueles que estão mais próximos, como família, trabalho, amigos, lazer e relacionamentos amorosos. Quando se constata essa situação, gera muitas incertezas, ansiedade, insegurança, medo, tristeza e o sentimento de perda de uma situação. E é nesse dilema de uma nova realidade que a pessoa passa a vivenciar momentos de grande sofrimento (ALMEIDA; LABROCINI, 2007). Por não ter cura, a infecção pelo HIV desperta nas mulheres o questionamento do tempo de vida, trazendo a tona o sentimento de morte e medo da mesma. Como descrito pela mulher E5. Será que eu vou durar muitos anos? Será que vou ver minha filha grande? Passam essas coisas na minha cabeça. (E5) Estudos evidenciam a frequência do desejo de morte frente à convivência com o HIV/Aids em idosas. As mesmas também referiram preconceito, discriminação e diversos sentimentos negativos que permeiam essa vivência. Mostram ainda sentimentos e experiências inerentes à revolta e indignação, sofrimento e vergonha, além do medo da morte (SERRA, et al, 2013; BOTTI, et al, 2009). A morte é vivida de maneira particular dentre os indivíduos que convivem com HIV/Aids, mesmo sabendo que na atualidade possui diversos recursos para propiciar a qualidade de vida, este pensamento repercute intensamente na vida dessas pessoas (MOREIRA; BLOC; ROCHA, 2012). É importante a presença do profissional de saúde no aconselhamento destes indivíduos, como forma de trilhar um caminho que seja benéfico para o restabelecimento da saúde. O fato de ter pensamentos negativos, interfere no dia-adia, impedindo as pessoas de terem a qualidade de vida em sua plenitude. Conclusão O presente estudo possibilitou grandes descobertas, quando falamos de sentimentos. Dentre as evidências as mulheres apresentaram certa fragilidade frente ao diagnóstico, ao mesmo tempo se tornam guerreiras por compreender a dimensão de conviver com HIV/Aids, e repassar o que sabem de uma maneira íntima de quem realmente convive com tal problemática. Relembrar o medo da morte, e os sentimentos de tristeza, culpa, vergonha, falar sobre o preconceito foram pontos chave do estudo. Ressalta-se assim a importância da assistência especializada, com promoção de autoajuda e autocuidado, como forma de estimular o enfrentamento diário, abordando mais sobre a doença, fazendo com que mais mulheres que sofrem com o estigma consigam desmistificar o significado de conviver com HIV/Aids para si e para seus familiares. REFERÊNCIAS ALMEIDA, M. R. C. B.; LABRONICI, L. M. A trajetória silenciosa de pessoas portadoras do HIV contada pela história oral. Ciência & Saúde Coletiva, v.12, n.1, p.263-274, 2007. BOTTI, M. L., et al. Conflitos e sentimentos de mulheres portadoras de HIV/Aids: um estudo bibliográfico. Rev Esc Enferm USP, v. 43, n. 1, p. 79-86, 2009.Disponívelhttp://www.scielo.br/pdf/reeusp/v43n1/10.pdf BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Boletim Epidemiológico – Aids e DST.Ministério da Saúde: Brasília – DF, 2013. CARVALHO, C. M. L.; GALVÃO, M. T. 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