Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 19 DESENVOLVIMENTO LOCAL, RESPONSABILIDADE SÓCIO-AMBIENTAL E ROYALTIES: A PETROBRÁS EM MACAÉ (RJ)1 Selene Herculano Resumo: Este artigo enfoca o desenvolvimento local desigual experimentado por Macaé (RJ), a auto denominada “capital nacional do petróleo”, onde a Petrobrás instalou desde 1978 a sua sede operacional da Bacia de Campos; descreve transformações econômicas, urbanas e ambientais trazidas pelas atividades petrolíferas off-shore e aumento das receitas municipais advindas do pagamento de royalties e participações especiais sobre esta produção. O artigo está dividido em quatro partes: as três primeiras descrevem aspectos históricos e factuais sobre a Petrobrás, a produção da Bacia de Campos, a contabilidade dos royalties e as modificações vivenciadas em Macaé; na quarta e última parte discutimos análises teóricas sobre limites e desafios do desenvolvimento local e a responsabilidade sócioambiental empresarial, com o propósito de contribuir para o debate sobre como e o que fazer para superar um aspecto trágico e repetitivo brasileiro, que é o fato do seu crescimento econômico vir acompanhado pela concentração da pobreza e pela degradação social, ambiental e urbana nas localidades que sediam grandes investimentos. Introdução: Este artigo resulta de uma pesquisa, sob os auspícios do CNPq2, sobre contradições e desafios do desenvolvimento local efetivado a partir das atividades de uma mega empresa e seus impactos positivos e negativos. A localidade é o município de Macaé (RJ) e suas transformações econômicas, urbanas e ambientais de 1979 a 2009; as origens das mudanças são as atividades petrolíferas de prospecção e exploração offshore de petróleo pela Petróleo Brasileiro S.A. – Petrobrás e as conseqüentes receitas 1 Texto com base no trabalho intitulado “Petrobrás, desenvolvimento local e royalties em Macaé (RJ)”, da mesma autora, apresentado no VII WORKSHOP EMPRESA, EMPRESÁRIOS E SOCIEDADE -Mesa Temática 2 – Empresas e a responsabilidade social e ambiental -Sessão 2 Florianópolis, 25/28 de maio de 2010. 2 “Petróleo, desenvolvimento local e ambiente. Um estudo de caso de Macaé (RJ)”. Selene Herculano, Thereza Carvalho Santos e Vera Lúcia Ferreira Motta Rezende. Edital MCT/CNPq 03/2008 Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 20 municipais advindas do pagamento de royalties e participações especiais sobre esta produção. O artigo está dividido em quatro partes: as três primeiras descrevem aspectos históricos e factuais sobre a Petrobrás, a produção da Bacia de Campos e as modificações vivenciadas em Macaé; na quarta e última parte discutimos análises teóricas sobre o desenvolvimento local e a responsabilidade sócio-ambiental empresarial com o propósito de debater como e o que fazer para escapar do aspecto trágico brasileiro, que é o do crescimento econômico vir acompanhado da pobreza e da degradação social, ambiental e urbana. 1. A Petrobrás, a legislação dos royalties e as suas políticas para minimizar impactos: As atividades de prospecção e de exploração petrolíferas são sabidamente altamente impactantes, positiva e negativamente: geram recursos de vulto e passivos ambientais de difícil mitigação. Ampliam e diversificam o mercado de trabalho, sendo fator de atração de migrações que irão pressionar por políticas públicas. Sua lógica de localização não vem de escolhas políticas, mas das condições geofísicas, inserindo-se muito freqüentemente em municipalidades pobres e desiguais, onde são recebidas com as mais altas expectativas de trazerem o desenvolvimento, o bem-estar e a superação do quadro de desigualdades. A Petrobrás é a maior empresa do país, orgulho e ícone do desenvolvimento nacional auto-determinado, resultado do sucesso de uma campanha ampla de cidadãos no início dos anos 50 - “O petróleo é nosso!” - (MIRANDA, 2004) e, segundo a Revista Fortune, a 54º maior empresa do mundo no ano de 20093. A empresa realizou R$ 33 bilhões e 915 milhões em lucro líquido em 2008, tendo investido R$ 53,3 bilhões no mesmo ano; sua produção média de petróleo e gás alcançou 2.356.843 barris de óleo equivalente por dia (boed) em 2009 (www.petrobras.com.br). Criada pela Lei 2004/53, a Petrobrás é uma empresa estatal de economia mista, e detinha inicialmente o monopólio integral da pesquisa, prospecção, exploração e refino das jazidas petrolíferas brasileiras. Pelo seu artigo 27, a empresa indenizava estados e municípios onde atuasse com 5% sobre a sua produção, da seguinte forma: 4% da produção terrestre para os Estados e 1% para os municípios. Conforme 3 De acordo com a Revista Fortune, a Petrobrás ocupava a 54ª posição dentre as 500 maiores empresas, tendo alcançado rendimentos de 91869 milhões de dólares em 2009. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 21 estipulado no parágrafo 4º do mesmo Artigo, os Estados, Territórios e Municípios deveriam aplicar tais recursos “preferentemente na produção de energia elétrica e na pavimentação de rodovias”. (Ou seja, apesar do emprego da palavra indenizar, o que sugere compensar, o espírito da lei era investimento em infra-estrutura que facilitaria a execução das atividades da própria empresa.) Além dessas indenizações, as localidades se beneficiaram da política salarial praticada pela empresa, pois a Petrobrás baseava sua folha de pagamento no maior salário mínimo regional do país (RJ-SP), o que teve um forte efeito direto e indireto sobre a renda da população dos locais em que atuava, onde os salários praticados eram muitíssimo menores, como, por exemplo, nos campos de produção baianos onde iniciou sua exploração. Praticava ainda 15 salários anuais (além do 13º salário criado pelo Presidente João Goulart nos anos 60, pagava um salário adicional de férias, um adicional sobre periculosidade e a PL – participação nos lucros); o adicional de periculosidade se estendia a todas as categorias empregadas, mesmo para os que atuavam nos escritórios. Em meados dos anos 70 iniciou-se a prospecção e exploração de petróleo na plataforma marítima continental (operações off-shore) e uma nova lei federal (Lei 7453, de 27/12/1985) definiu a extensão dos limites territoriais da plataforma continental e introduziu o conceito de região geoeconômica. Por conta desta extensão, a obrigatoriedade da indenização passou a incluir a produção do mar com o mesmo percentual de 5%, indo 1% desses recursos para o Ministério da Marinha e 1% para um Fundo Especial que beneficiaria as entidades da federação 4. Na disputa por royalties, municípios que não eram produtores de petróleo, mas que sediavam instalações de movimentação do produto, pleitearam e ganharam esses recursos: a Lei 7990/89 (regulamentada pelo decreto nº 01, de 11/01/1991) alterou a distribuição dos royalties, incluindo 0,5% também para os municípios que “sediassem instalações de embarque e desembarque de petróleo e de gás natural”. O Fundo Especial destinado às unidades da federação foi reduzido para 0,5%. Em 1997, a Lei do Petróleo (Lei 9748, de 06/08/1997) revogou a Lei 2004/53, quebrando o monopólio sobre a prospecção e produção, criou a ANP – Agência Nacional de Petróleo - estabeleceu em 10% a alíquota dos royalties sobre a renda bruta dos poços e criou também uma distribuição diferenciada, a Participação Especial (PE), 4 Destes, 1,5% para os estados confrontantes com os poços e pertencentes às áreas econômicas dos municípios confrontantes; 1,5% para os municípios confrontantes com poços e pertencentes às áreas geoeconômicas confrontantes; 1% para o Ministério da Marinha e 1% para constituir um Fundo Especial a ser distribuído pelas entidades da federação. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 22 cobrada sobre os campos com grandes volumes de produção ou de grande rentabilidade, incidindo trimestralmente sobre o lucro do campo. A institucionalidade ambiental5 criada no país a partir dos anos 70 e recomendações de organismos (responsabilidade internacionais6 social e em prol ambiental, da responsabilidade apontadas como empresarial motivadas pelos questionamentos de um novo consumidor consciente) trouxeram a necessidade da Petrobrás se ajustar a essas regulações. Após os acidentes de vazamento de óleo na Baía de Guanabara (em janeiro de 2000), a empresa iniciou modificações para adequação às normas de meio ambiente e às exigências do mercado verde: segundo seus relatórios, foi criado o PEGASO, Programa de Excelência em Gestão Ambiental e Segurança Operacional, com investimentos da ordem de R$ 1,8 bilhão para o período 2000-20037; um Sistema Corporativo de Gestão de SMS (Segurança, Meio Ambiente e Saúde) foi implantado em 2002, com o objetivo de disseminar em todos os níveis do Sistema Petrobrás uma cultura de percepção do risco e de proteção da vida; o CT-PETRO – um fundo setorial do petróleo e gás natural, com base nos royalties, havia sido criado em 1999, através do qual a Petrobrás iniciou um programa de parceria entre empresas, universidades e centros de pesquisa para estimular a qualificação de recursos humanos e desenvolvimento de projetos e mitigar impactos negativos de vazamentos e explosões. (Um exemplo de sua aplicação é a Recupetro - Rede Cooperativa em Recuperação de Áreas Contaminadas por Atividades Petrolíferas: sob a coordenação do Núcleo de Estudos Ambientais da Universidade 5 Assim nos referimos ao marco regulatório e aos organismos públicos oficiais – federais e estaduais de controle ambiental. Iniciou-se com a SEMA, Secretaria Especial de Meio Ambiente, em 1973,então vinculada ao Ministério do Interior, em decorrência da Conferência da ONU sobre o Ambiente Humano (UNCHE, em Estocolmo, em 1972). A SEMA foi extinta posteriormente, juntamente com a Superintendência do Desenvolvimento da Borracha-SUDHEVEA e o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal-IBDF, dando lugar ao Ministério do Meio Ambiente e ao IBAMA. O marco regulatório se configura no Brasil com a Lei 6938, de 31/8/81, que criou explicitamente a Política Nacional de Meio Ambiente, o SISNAMA (Sistema Nacional de Meio Ambiente) e o CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente). A Resolução CONAMA 001, de 23/01/86, conceitua o que é impacto ambiental e define procedimentos para os EIAs-RIMAs (estudos de impacto ambiental e Relatórios de Impacto Ambiental), a serem divulgados e debatidos em audiências públicas sobre as atividades fortemente modificadoras do meio ambiente: construção de estradas, ferrovias, portos e terminais, aeroportos, dutos, linhas de transmissão de eletricidade, obras hidráulicas, extração de combustível, aterros sanitários, usinas de eletricidade, complexos industriais e agro-industriais, distritos e zonas industriais, projetos urbanísticos acima de 100 ha, atividades que utilizem carvão vegetal, projetos agropecuários. Integram o marco regulatório ambiental federal ainda a Lei 9605/98, que trata dos crimes ambientais e a Lei 7347/85, sobre Ação Civil Pública em relação a direitos difusos, como são os direitos ambientais. 6 ISO - International Organization for Standardization - desenvolveu e divulgou diretrizes para a efetivação da responsabilidade social –SR (social responsibility), na forma da ISO 26000, de adoção voluntária. 7 Alice Cid Loureiro (Petrobras) Gilson Brito Alves Lima (Universidade Federal Fluminense) et al. Gestão de qualidade, segurança, meio ambiente e saúde: estudo de um modelo integrado para a engenharia da Petrobras. IV Congresso Nacional em Gestão, Niterói, 2008 Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 23 Federal da Bahia, que reunia 13 Redes Cooperativas de Pesquisa do Setor de Petróleo e Gás Natural nas Regiões Norte e Nordeste, financiadas, além do CT-Petro, também pelo CNPq e Finep). Ainda segundo seus próprios relatórios, a Petrobrás ter-se-ia tornado referência também em estudos sócio-ambientais necessários ao início das suas atividades, em obediência à Resolução do CONAMA sobre EIAs-RIMAs (ver nota 5). Um outro exemplo da preocupação em minimizar impactos negativos foi o Seminário "Diretrizes para a exploração, produção e transporte de óleo e gás na Amazônia – desafios ambientais e soluções" (ANP, abril de 2009, na Cidade do Rio de Janeiro), com a apresentação de estudos de caso, nacionais e internacionais, relativos à atividade de E&P em florestas tropicais (BP Brasil, Exxon Mobil, Petrobrás e Shell Brasil), e palestras de representantes do Sistema Nacional de Meio Ambiente. Inspirada também pela chamada Lei Sarbannes-Oxley8, dos Estados Unidos da América, a empresa reformulou modelos de atuação e divulgação de dados e criou um novo estatuto, novas perspectivas e novas diretrizes constantes do Plano Estratégico da empresa até 2015: liderança e responsabilidade; conformidade legal; avaliação e gestão de riscos; novos empreendimentos; operação e manutenção; gestão de mudanças; aquisição de bens e serviços; capacitação, educação e conscientização; gestão de informações; comunicação. (Observamos que não há diretriz específica sobre a mitigação ambiental). Em seu “Social and Environmental Report” de 2006, ano de uma celebrada auto-suficiência brasileira, a empresa também festejava sua admissão ao DJSI – Dow Jones Sustainability Index, comprometia-se com os oito Objetivos do Milênio9 e com os 10 princípios do Pacto Global da ONU, do qual era signatária desde 2003. Este Pacto Global (Global Compact), anunciado pelo SecretárioGeral da ONU em 1999 durante sessão do Forum Econômico de Davos, é de livre adesão e busca estimular uma cidadania empresarial global e a conciliação dos interesses empresariais com os projetos, princípios e valores da ONU e das ONGs, enfocando os temas Direitos Humanos, Condições de Trabalho, Proteção do Meio- 8 A Lei Sarbanes-Oxley (Sarbanes-Oxley Act) é uma lei dos Estados Unidos, de julho de 2002, de autoria do senador Paul Sarbanes e do deputado Michael Oxley. Visa garantir a governança empresarial, através da criação de mecanismos de auditoria e de segurança para evitar fraudes, mitigar riscos aos negócios e garantir transparência na gestão, assim evitando a fuga de investidores. Teria sido motivada por escândalos financeiros como o da empresa Enron. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_Sarbanes-Oxley. 9 Segundo a ONU: erradicação da extrema pobreza e da fome; universalização da educação primária; promoção da equidade de gênero; redção da mortalidade infantil; melhora da saúde materna; combate a AIDS, malária e outras doenças; sustentabilidade ambiental; parceria global para o desenvolvimento. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 24 Ambiente e Combate à Corrupção10. A Petrobrás também está associada ao World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) e é parceira do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), para a cooperação em comunidades de baixa renda na América Latina e Caribe. Conjugado com o Plano Estratégico, a empresa desenvolveu o Programa Petrobrás Ambiental, realizado através de política de patrocínio, investindo em iniciativas que visam à proteção ambiental e à difusão da consciência ecológica. Entre 2003 e 2008, este Programa Petrobrás Ambiental investiu cerca de R$ 150 milhões em projetos desenvolvidos em parceria com organizações da sociedade civil de diferentes regiões e ecossistemas do país. Um segundo programa de patrocínio é o Programa Desenvolvimento & Cidadania Petrobrás, elaborado em parceria com a sociedade civil e governos, visando a inserção social de pessoas e grupos que vivem em risco social no Brasil. Em março de 2010, a Petrobrás anunciou a abertura de inscrições para uma nova etapa deste programa, com uma dotação de 110 milhões de reais para a vigência 2010-201211. Todavia, tomando-se a produção/dia de 2009 em barris, acima referida, e seu preço médio de 80 US$ ou R$ 136,00 por barril, essa dotação alcançaria cerca da terça-parte da produção de um dia. Cabe observar que as atividades sócio-ambientais retratadas nestes programas de patrocínio da Petrobrás são as de “estimular iniciativas”. Alcançam e beneficiam aqueles já capacitados a ter iniciativas, os que já tem acesso à informação sobre tais possibilidades de patrocínio e detém qualificações sobre como elaborar, redigir e submeter projetos. Dentre estas iniciativas estimuladas, destacam-se os projetos universitários, como o do Núcleo em Ecologia e Desenvolvimento Sócio-Ambiental de Macaé – NUPEM/UFRJ e seu projeto/atividade POLEM – Polos de Educação Ambiental do Norte Fluminense. Segundo Machado &Miglievich (2010) a UENF – Universidade Estadual do Norte-Fluminense Darcy Ribeiro, instalada desde 1993 sobre a Bacia de Campos, 10 Aproximadamente 1.500 empresas de 55 países já aderiram ao Pacto Global, destacando-se na área de energia, além da Petrobras, Amerada Hess, BP, China Petroleum & Chemical Corp., ENI, Gaz de France, Indian Oil Corp., Nexen, Petro Canada, Royal Dutch/Shell Group, Statoil e TotalFinaElf. As empresas e organizações brasileiras mais conhecidas que também aderiram: Avon, Banco Itaú, Belgo Mineira, Copel, Fiesp, Furnas, Grupo Abril, Klabin, Natura Cosméticos S/A, Organizações Globo, Pulsar Informática, Samarco, Shell Brasil, Telemig, Instituto Ethos e Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança. Ver, a propósito, SANTAROSA, Wilson. A Petrobras e o Pacto Global da ONU - Organização das Nações Unidas. Capturado em www2.petrobras.com.br/ResponsabilidadeSocial/portugues/Artigos.asp 11 Revista Visão Sócio-Ambiental nº 22, fev/mar 2010. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 25 “capitaneou R$ 51,8 milhões da Petrobras ao longo de 15 anos, incluindo a criação, em 2006, de seu “Núcleo de Competência Regional”. Segundo o Balanço Social e Ambiental da Petrobrás 2008, a Petrobrás investiu R$ 1,97 bilhão em meio ambiente, tendo evitado a emissão de 680 mil toneladas de dióxido de carbono equivalente. A empresa atribuiu-se a meta, para 2013, de alcançar 4,5 milhões de toneladas do gás em emissões evitadas e, complementarmente, investir três bilhões de dólares, até 2013, em energias renováveis12. Contudo, segundo Ricardo Young, Presidente do Instituto Ethos, a Petrobrás foi a ausência na Conferência Ethos 2009 sobre ações de responsabilidade social e sustentabilidade, tendo rompido com o Instituto por conta de polêmicas em torno do diesel.13 Na contramão dessas políticas e programas da empresa, a Petrobrás vem sendo criticada por ambientalistas e ativistas sociais brasileiros em geral e pela Rede Brasileira de Justiça Ambiental – RBJA, em especial, por ter uma atuação considerada degradadora e “imperialista” na América Latina. Criticam-na com base no conceito de colonialidade, uma característica que marcaria nossa formação histórico-geográfica em seu momento neo-liberal e pela qual a Petrobrás cumpriria um triste papel de ir contra a luta de povos latino-americanos pela reapropriação de suas jazidas. (PORTOGONÇALVES, 2007). Segundo denúncias da imprensa equatoriana, moradores da comunidade de Palo Azul, no Equador, queixavam-se da queda de receitas compensatórias e o país receava o esgotamento da jazida e a militarização por parte da Petrobrás. Outra denúncia dizia respeito à invasão de terras indígenas e do Parque Nacional Yasuní, considerado reserva da biosfera pela ONU, em cuja área a Petrobrás pretendia abrir estrada de acesso de 17 km. Em 2007, a RBJA apresentou uma Moção de recomendação à Petrobrás e ao governo brasileiro, apoiando a iniciativa do governo equatoriano de manter o petróleo da porção amazônica de seu território represado. A moção recomendava que o Estado Brasileiro, na figura da Petrobrás, “cumprisse seu papel internacionalmente assumido de garantir a preservação da Amazônia, a sobrevivência cultural de seus povos indígenas e a reversão do quadro de aquecimento global e que se diferenciasse voluntariamente das transnacionais que tanto vêm prejudicando o povo e os ecossistemas da América Latina, passando a aplicar na Amazônia equatoriana os mesmos princípios adotados pela legislação brasileira no que concerne às práticas de proteção ambiental no restante dos países em que a Petrobrás opera”. (LEROY & MALERBA, 2005). 12 13 Revista Sócio-Ambiental nº 20, set/out de 2009. Revista Visão Sócio-Ambiental nº 20, de setembro/outubro de 2009. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 26 No Estado do Rio de Janeiro cerca de 20 mil pescadores do entorno da Baía da Guanabara (Niterói, São Gonçalo, Guapimirim, Magé, Itaboraí e, no Rio de Janeiro, as regiões do Caju, Ilha do Governador, Marcílio Dias, Ramos e Paquetá) moveram ação legal no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro - TJ-RJ, pedindo indenização por conta do vazamento de óleo proveniente da REDUC – Refinaria Duque de Caxias - no dia 18 de janeiro de 2000. A Petrobrás foi condenada em primeira instância, mas recursos deram prosseguimento à questão. (Divulgado pela imprensa na época, não haviam sido concluído seus trâmites.). Verbas indenizatórias do derrame de óleo na Baía de Guanabara foram utilizadas na realização de seminário e pesquisa sobre ambiente pela UFRJ. Secretários da Prefeitura de Macaé criticam a forma que consideram distante e arrogante pela qual a Petrobrás se relaciona com a cidade: desde sua instalação, em 1978, quando unilateralmente decidiu que se instalaria no Porto de Imbetiba, na praia central do mesmo nome (o que trouxe para a cidade o impacto de 700 carretas/dia atravessando seu centro), até a atualidade, quando passou a se sentir descomprometida com o município, porque já paga os royalties (R$299.558.138 em 2009). Segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, os projetos ambientais que a Prefeitura submete a financiamento da Petrobrás ou não são aprovados, ou o são após modificálos substancialmente, como teria se dado com um projeto de apoio à pesca e que mudou para o Projeto Mosaico. Quando houve diálogo no passado, teria sido apenas em função da personalidade e empenho individual de gerências passadas e antes do efetivo início do pagamento dos royalties: dantes a Petrobrás construía creches, fazia-se presente, mas depois dos royalties isso teria mudado. Exemplos da Itaipu Binacional e da Usiminas foram lembrados pelo secretariado como empresas que verdadeiramente teriam atitude de responsabilidade social com as suas comunidades. Para o Secretariado de Macaé, deveria haver um maior relacionamento entre o poder público e o poder privado para “planejar juntos a cidade, em um urbanismo de longo prazo”. No entanto, o Plano Plurianual da Prefeitura de Macaé, apontado adiante na Tabela 5, permite entrever, pelo montante de recursos previstos por funções, o quanto meio ambiente, saneamento, urbanismo e habitação tampouco são prioridades para a administração pública local (Respectivamente 0,3%, 9%, 5,7% e 0,3% dos recursos previstos para 2010-2013). A gerência da Bacia de Campos informou ter atividades de apoio a famílias de pescadores, ter projeto de doação de câmeras de segurança pública e de asfalto para a duplicação de trecho da Rodovia Amaral Peixoto e que financiara também um estudo executado pelo Consórcio Rionor, o Prodesmar, com análise situacional e propostas Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 27 para o Norte Fluminense, cuja execução deverá ser atribuição exclusiva do governo estadual14. 2. A Bacia de Campos: A exploração da Bacia de Campos começou no final de 1976, com o poço 1-RJS-9-A, que deu origem ao campo de Garoupa; a produção comercial começou em agosto de 1977, através do poço 3-EM-1-RJS, no campo de Enchova. Entre o final dos anos 70 e 90, a Petrobrás investiu na Bacia de Campos cerca de 20 bilhões de reais (MONIÉ, 2003, p. 271). Considerada a maior reserva petrolífera da Plataforma Continental Brasileira, a Bacia de Campos tem cerca de 100 mil quilômetros quadrados e se estende do estado do Espírito Santo nas imediações da cidade de Vitória, até Arraial do Cabo, no litoral norte do Estado do Rio de Janeiro. É responsável por aproximadamente 84% da produção nacional de petróleo (dados de 2009), em 55 campos em operação, 36 dos quais são considerados maduros, ou seja, já atingiram o pico de produção. Dali se extraem cerca de 1,49 milhão de barris/dia de óleo e 22 milhões de metros cúbicos/dia de gás (dados de 2009). A previsão feita para 2010 era que a produção aumentaria para 1,8 milhão de barris de óleo por dia e 34,6 milhões de metros cúbicos de gás15. As atividades da Bacia de Campos em 2009 ocupavam 48.829 pessoas embarcadas e tinham 2203 poços perfurados.16. (Segundo o Anuário Estatístico da ANP de 2009, Tabela 2.7, o estado do Rio de Janeiro teria 554 poços produtores e o país 8560). T1 - RESERVAS DE PETRÓLEO (EM MILHÕES DE BARRIS) EM 2009: Reservas provadas Reservas totais Rio de Janeiro 10381,9 16337,4 Brasil 12857,0 21134,4 Fonte: ANP, Anuário Estatístico de 2009, tabelas 2.3 e 2.4 Com as operações da Bacia de Campos, o Estado do Rio de Janeiro tornou-se o maior produtor do país e seus municípios da região norte-fluminense tornaram-se os maiores beneficiários das participações especiais e dos royalties, passando a ser denominados 14 PRODESMAR. Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro- Análise Situacional, Cenários Prospectivos e Estratégia de Desenvolvimento Regional. Belo Horizonte: Consórcio Rionor, março de 2010 15 Fonte: http://www2.petrobras.com.br/Petrobras/portugues/plataforma/pla_bacia_campos.htm 16 Dados da Secretaria Municipal de Finanças de Macaé. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 28 como “municípios petro-rentistas”. Em 2009 os valores em royalties pagos ao estado do Rio de Janeiro e aos seus municípios foram de R$ 1.709.375.000,00 para o Estado e R$ 1.872.103.000,00 para os municípios.17 T2 – PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS E ROYALTIES PAGOS EM 2009 (R$1000): Participações Especiais Royalties 3.175.451 1.709.375 Campos 457.926 419.628 Rio das Ostras 113.987 117.771 Estado do Rio de Janeiro Municípios produtores: São João da Barra 85.451 73.127 Macaé 60.988 294.558 Cabo Frio 29.300 95.662 Quissamã 25.870 65.922 Casimiro de Abreu 14.863 39.162 Búzios 4.477 36.188 Carapebus 761 21.899 Arraial do Cabo 241 4.998 Fonte: ANP – Anuário Estatístico de 2009, Tabela 2.16 (participações) e UCAM – Info royalties (http://inforoyalties.ucam-campos.br/)- valores correntes 3 Macaé – crescimento econômico e urbano: Macaé tem um território de 1.219,8 km² na região do Norte-Fluminense, dividido em seis distritos: além do distrito-sede, há os distritos de Cachoeiros de Macaé, Frade, Glicério e Sana. A beleza natural da região é diversificada: na costa há lagunas, praias e arquipélagos; na região serrana, bem cortada por rios e ainda florestada, há matas, corredeiras e cachoeiras onde se pratica raft e rapel. Até ser escolhido pela Petrobrás como base das operações em terra da Bacia de Campos em 1977, era um município rural. Seu povoamento se iniciou em 1580, integrando a Capitania Hereditária de São Tomé. O município foi criado em 1813 e em 1846 a Vila de Macaé passou à condição de cidade. “Vivia em relativo isolamento e sua produção açucareira e cafeeira se escoava através do Canal Campos-Macaé, de 109 km de extensão, construído em 1872 com mão de obra escrava, e pela estrada de ferro Macaé-Campos, construída em 1875”.18 17 18 ANP- Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, Tabela 2.15. http://www.macae-rj.com.br/acidade.php Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 29 O ambiente construído no seu distrito-sede é fragmentado e acanhado na sua zona central: em Visconde de Araújo há um casario de casas modestas e malcuidadas amontoadas em pequenos lotes, em ruas de calçadas estreitas e sem arborização, de cujos bueiros emana um cheiro de esgoto. Este centro está ladeado por duas zonas de enormes contrastes: ao norte, favelas que ocupam áreas de manguezais e de proteção ambiental: Nova Holanda, Malvinas, Aroeira, Nova Brasilia, Botafogo, Parque Aeroporto, Cabiúnas, Lagomar, dentre outras. Ao sul, zonas de moradia de luxo em condomínios fechados nos bairros da Glória, Cancela Preta, Cavaleiros, etc., onde trabalhadores de alta qualificação habitam em torno da Lagoa de Imboassica, parcialmente aterrada e assoreada. A população migrante, oriunda preponderantemente de outros pontos do estado do Rio de Janeiro e da Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais, concentra-se no Setor Administrativo 6 (27% dos migrantes estão em Cabiúnas, Lagomar, Parque Aeroporto). A cidade prepara sua expansão ao longo das suas Linhas Verde e Azul, recém-abertas e pavimentadas, onde manguezais são aterrados para a formação de distrito industrial e onde novas favelas despontam, como Piracema, por exemplo. Em função de aterros e de retificações indevidas de cursos d’água, toda a cidade é sujeita a enchentes. A Rodovia Amaral Peixoto corta a cidade e tem congestionamentos intensos e extensos, acidentes e atropelamentos. Seu Plano Conservação Diretor (Lei Complementar 76/2006) identificou oito Unidades de 19 - UCs - e 38 áreas de interesse ambiental . Segundo informação da Secretaria de Meio Ambiente, as UCs municipais não tem dotação orçamentária (apenas o que foi nominalmente estipulado no texto da lei que as criou); tampouco tem plano de manejo. A Secretaria informou tentar levantar recursos para isso via submissão de projetos a Petrobrás e a diversas fundações e ONGs. O PIB – Produto Interno Bruto - per capita do município já figurava em 2004 dentre os 10 maiores do país (R$120.602,00, segundo o IBGE). Em 2008, Macaé já ocupava o 4º lugar dentre as 92 municipalidades do estado do Rio de Janeiro em receita absoluta total (R$ 1.150.731.987, segundo o Anuário Fluminense 2009, da Aequs Consultoria). Segundo os dados da UCAM/Info Royalties, em 2008 a receita de Macaé oriunda dos royalties somados às participações especiais foi de R$ 501.680.92420, mas as aplicações em despesas com investimentos ficaram em R$ 86.880.672, ou seja, uma quinta parte. 19 Dentre as oito UCs, três são de proteção integral, de uso indireto: Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, com seu complexo lagunar de 18 lagoas; Reserva Biológica União e Parque Municipal do Atalaia; cinco são de uso sustentável: duas Reservas Particulares de Patrimônio Natural – RPPN da Fazenda da Barra do Sana e do Sítio Shangri-lá; cinco Áreas de Proteção Ambiental: APA do Arquipélago de Sant’Anna, APA do Sana e APA do Jardim Pinheiro, nos termos do SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei federal 9985/2000). 20 O que contrasta com a cifra divulgada pela SEMIC, que contabilizou R$ 406,9 milhões em 2008. (“Macaé, um lugar para investir”). Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 30 Ainda em 2008, a composição das despesas municipais da Prefeitura de Macaé, segundo o Anuário Fluminense, foi de 49,2% em pessoal, 43,4% em custeio, 9,9% em investimento e 2,5% em encargos e amortização de dívida. Dentre os principais municípios petro-rentistas fluminenses, Macaé figura como aquele em que o dinheiro dos royalties, embora muito expressivo, tem comparativamente menos peso nas receitas totais (o que se explica pelas receitas do ISS e do ICMS pagas pelas empresas, respectivamente 198 e 214 milhões de reais em 2009, segundo a SEMIC): T3 - COMPOSIÇÃO (%) DA RECEITA DOS CINCO MAIORES MUNICÍPIOS PETRO-RENTISTAS DO RJ -2008 Macaé População Campos 188787 431839 Rio das São João da Ostras Barra 91085 Quissamã 30348 19315 Receita Tributária 21,8 5 9,9 5 3,6 Royalties 43,9 70,6 68,9 74,4 66,6 3,0 2,0 3,4 4,6 3,5 QPM-ICMS 16,2 10,2 6,5 9,8 22,0 Outras 15,1 12,2 11,3 6,2 4,4 Total 100 100 100 100 100 FPM Fonte: Anuário Fluminense de 2009 – Aequs Consultoria A população de Macaé triplicou a partir da década de 70 e seu crescimento urbano foi assim calculado: taxa anual de crescimento populacional de 3,88 entre 1991 e 2000; taxa de urbanização de 91,37% em 1991 e de 95,13% em 2000; taxa líquida de imigração de 103 entradas por mil habitantes em 2000 (MOTA et al, 2007). Sua população era de 132.461 habitantes em 2001 (IBGE, Censo Demográfico); passou para 188.787 em 2008 (Anuário Fluminense de 2009, dados estimados) e alcançou 194.497 no Censo de 2010. Segundo o Programa Macaé-Cidadão, 86.156 pessoas eram oriundas de outras localidades em 2007 (cerca de 45% dos habitantes)21 T4 – IDH-M DE MACAÉ IDH geral IDH-renda IDH-longevidade IDH-educação 1991 0.73 0.72 0.66 0.86 2000 0.79 0.77 0.89 0.89 Fonte: PNUD – Atlas do IDH-M 1991-2000 Apesar de estar entre os 10 municípios mais ricos do país, o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH de Macaé o colocou na 811ª posição entre os cerca de 5 mil municípios brasileiros. A taxa de indigência recuou de 17,9% em 1970 para 6,5% em 2000 (MOTA et al , 2007); segundo o orçamento da Prefeitura de 2009, Macaé recebeu R$ 5.512.540,00 de recursos federais para o Bolsa-Família naquele ano e os entregou a 9255 pessoas 21 Programa Macaé-Cidadão, da Prefeitura Municipal de Macaé, Pesquisa Domiciliar. Tabela População Residente segundo a última unidade da federação ou país que morou, por setores administrativos. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 31 beneficiadas (ou seja, cerca de 7% da sua população é reconhecida como extremamente pobre). Macaé tem a situação invulgar no cenário econômico brasileiro de ser um município onde predominam os empregos formais, com carteira de trabalho assinada e encargos sociais atendidos. Entre 1995 e 2005 seu estoque de empregos formais evoluiu de 67% para 82% do total de empregados, contrastando com o país, que evoluiu de 10% para 26%, segundo dados do CAGED - Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho e Emprego (MOULIN). Outro estudo apontava para 55 mil postos de trabalho formal (41,7%) numa população de 132 mil habitantes, dos quais 19% (10432) ocupados nas atividades de extração de petróleo e gás. (RAIS - Ministério do Trabalho e Emprego, apud F. Araújo, 2005). Todavia, esta população com trabalho formal não se fixa: é uma população flutuante, estimada em 50 mil segundo a Secretaria Municipal de Indústria e Comércio (SEMIC, 2010). Os trabalhadores embarcados, que operam as plataformas em regime de turnos, chegam a morar emoutras regiões do país e mesmo fora dele. Em 2006 existiam 8159 empresas instaladas em Macaé, contra 368 ao final dos anos 70. Dessas 8159, quase a metade 3555 - no setor de prestação de serviços. (Em 2008 a SEMIC contabilizou menos: 6583, das quais 90 em atividades de extração de petróleo). As atividades petrolíferas provocaram intensa modificação urbana. Segundo a Associação Macaense da Indústria Hoteleira, Macaé tem o segundo maior parque hoteleiro do estado, voltado para o turismo de negócios, movimentando cifras que contribuem para 10% do PIB do município. Tem um aeroporto considerado o maior da América Latina em número de pousos e decolagens de helicópteros. Em 2006 a Prefeitura aprovou 130 novos projetos de obras para residenciais, comerciais, galpões de empresas e shopping center. condomínios, prédios 22 O crescimento econômico e urbano foi, entretanto, acompanhado pela favelização (Malvinas, Nova Holanda, Aroeira, Santana, Boa Vista, São Jorge, Jardim Pinheiro, Vila Pinheiro, Leocádia, Botafogo, Miramar, Lagomar, Jardim Santo Antônio, Nova Macaé, etc.23), pela violência e tráfico de drogas (ali atuava o temível traficante Roupinol, Rogério Rios Mosqueira, natural de Macaé) e pela degradação ambiental (poluição dos corpos hídricos). Como se mostra a seguir, a Prefeitura ainda não universalizou a rede de esgotamento sanitário. 22 Os dados são da Associação Comercial e Industrial de Macaé – ACIM, coletados pelo doutorando Heitor Delgado Correa, UFF/PPGSD. 23 Segundo Soffiati, nesta coletânea, as ocupações se deram em áreas assoreadas a partir do trabalho equivocado de retificação dos rios pelo DNOS – Departamento Nacional de Obras de Saneamento. Soffiat, A.A. Macaé em quatro tempos. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 32 Em setembro de 2009 a Agência Brasil, órgão oficial da imprensa do Governo Federal, publicou matéria da Jornalista Isabel Vieira, intitulada “A Maldição do Petróleo”, focando a violência e favelização local. Segundo o Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros24, a cidade de Macaé foi arrolada entre os 15 municípios mais violentos do país: ocorreram 123 assassinatos em 2006, o que corresponde a uma taxa de homicídios de 85,9 (em 100 mil habitantes). Consultado pela Agência Brasil, o Prefeito Riverton Mussi chamava a atenção para a pressão da demanda migratória e a conseqüente sobrecarga nova anual sobre os serviços de educação e saúde e políticas públicas desde o boom do petróleo. Há um Programa Municipal chamado “Macaé Sem Favelas”, inserido no Plano Local de Habitação de Interesse Social, desenvolvido pela SEMHAB e apoiado pelo Ministério das Cidades, dentro do PAC – Programa de Aceleração de Crescimento, do governo federal, em fase de início de execução e que não se propõe a atender toda a demanda. Segundo o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro - TCE-RJ, o rápido crescimento sem planejamento adequado trouxe sérios problemas para o Município e dentre estes avulta um sistema de esgotos sanitários ainda parcial e ineficiente25: embora houvesse um projeto de macrodrenagem e esgotamento sanitário, visando o tratamento integral do esgoto da área urbana (com um valor estimado de R$236.835.295,32, segundo Processo 237.198-6/06 do TCE-RJ), o que o município de Macaé tinha em 2007 eram ETES – estações de tratamento de esgoto – apenas projetadas ou com funcionamento parcial26: segundo o TCE-RJ, as obras da ETE Virgem Santa estavam abandonadas, o material apresentava sinais de deterioração e de extravio, o que foi objeto de investigação da Câmara Municipal. A Lagoa de Imboassica, que já foi considerada um santuário ecológico, hoje está assoreada e recebe dejetos de esgoto domiciliar de bairros que surgiram em seu entorno. Segundo ativistas sociais e ambientalistas de Macaé, em suas manifestações de rua e em seus blogs27, não teria havido investimentos significativos em saneamento básico por parte da Prefeitura de Macaé ao longo dos anos. A municipalidade assim 24 J.Jacobo Waiselficz, trabalho divulgado pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana – Ritla e Ministério da Justiça, 2008. http://www.ritla.net.br 25 TCE-RJ- Relatório de Auditoria no Sistema de Gestão Ambiental (SGA) do Municipio de Macaé realizada no periodo de 23.07.07 A 10.08.07 Processo nº 224.872-3/2007 26 Na ZONA NORTE, as ETE do Bairro Lagomar, ETE do Engenho da Praia, ETE Aeroporto, ETE do Bairro da Ajuda (CEHAB), ETE do Centro de Convenções e ETE Nova Holanda; na ZONA SUL, ETE Mutum, ETE Virgem Santa e ETE do Hospital Municipal. 27 http://denunciamacae.forumeiros.com/noticias-local-nacional-f1/o-mau-exemplo-de-macae-t8.htm Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 33 configurou a aplicação de suas receitas, segundo seu Plano Plurianual 2010-2013 e no qual saneamento aparece com 9% dos recursos: T5 – PLANO PLURIANUAL DE MACAÉ PARA 2010-2013 (R$ POR FUNÇÃO): Função Legislativa 33.319.660,00 2,7% 213.268.954,08 17,6% Segurança Pública 4.013.687,98 0,3% Assistência Social 32.708.405,45 2,7% Administração Previdência Social 13.846.457,21 1,1% 227.485.843,35 18,7% Trabalho 24.651.587,74 2,0% Educação 248.926.315,92 20,5% 8.464.684,96 0,7% Saúde Cultura Direitos da Cidadania 289.330,70 0,02% Urbanismo 70.172.893,49 5,7% Habitação 2.544.607,36 0,2% Saneamento 108.873.856,32 9,0% Gestão ambiental 4.056.593,75 0,3% Ciência e Tecnologia 2.171.645,45 0,17% Agricultura 1.316.366,65 0,1% Comércio e serviços 3.777.923,82 0,3% Comunicação 10.039.057,28 0,8% Transporte 29.217.604,74 2,4% Desporto e lazer Reserva de contingência Total geral 16.865.282,47 1,3% 154.649.741,28 12,7% 1.210.660.500,00 100% Fonte: Prefeitura Municipal de Macaé, Plano plurianual 2010-2013 Segundo dados divulgados pela Prefeitura28, Macaé estaria entre as 10 cidades economicamente mais pujantes do país, mas em uma posição mediana no que diz respeito à qualidade de vida (educação, saúde: “É a primeira cidade do estado e a primeira do Norte Fluminense em desenvolvimento.” “O PIB per capita do município é de R$ 120 mil, 30% maior do que a média nacional” (IBGE, 2006). “Está em sétimo lugar no ranking das melhores cidades do sudeste, atrás apenas das metrópoles São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Vitória (ES) e dos municípios Barueri (SP), São Caetano do Sul (SP) e Belo Horizonte (MG). Essa foi a oitava edição da pesquisa “As cem melhores cidades para fazer carreira”, coordenada pelo professor Moisés Balassiano, da FGV”. No ranking fluminense, Macaé e Niterói foram as únicas duas cidades do Estado a aparecerem na lista dos cem municípios com maior crescimento do Brasil. Em 2000, Macaé ocupava a 45ª posição. Com os novos investimentos, a cidade conquistou a 34ª posição, subindo 11 lugares. 28 http://www.macae.rj.gov.br/conteudo.php?idCategoria=27&idSub=27&idConteudo=41, capturado em 8 de novembro de 2010 Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 34 Está entre as 100 melhores cidades da América Latina (segundo Certificado concedido em 28 de maio de 2008 pela Associação Nacional de Municípios Produtores - Anamup. Em junho de 2008, Macaé foi considerada a cidade mais dinâmica do Estado do Rio de Janeiro e a segunda do país. (Atlas do Mercado Brasileiro). Os critérios para avaliação dos municípios incluem investimentos sociais feitos em 2007 em saúde, educação, habitação, ciência e tecnologia e capacidade de compra. Em comparação com os 5.564 municípios brasileiros, Macaé está em 686º lugar no setor de educação. Na saúde, em comparação com todo o país, o município aparece em 640º lugar e na geração de emprego, a cidade conquistou o décimo-primeiro lugar.” Um Programa Municipal de Combate à Evasão Escolar29 mencionava a alta incidência de morte juvenil por homicídios e relacionava a evasão escolar a esta violência, uma vez que os jovens deixam de estar protegidos pela escola. Em debate em 2010 sobre o Programa, professoras propuseram que, dentre as causas prováveis da evasão, dever-seia considerar também a baixa qualidade de escolas da rede municipal, carentes que seriam de material de consumo, de quadras de esportes e mesmo de abastecimento de água. Alguns estudos, a despeito da dificuldade de dados, oferecem indícios no sentido de comprovar o quanto a riqueza e a pobreza se entrelaçam no mundo do petróleo: Givisiez & Oliveira (2007) fizeram um estudo comparativo sobre receita de royalties e Índice de Pobreza Humana (IPH do PNUD- Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento): a partir dos 759 municípios recebedores de royalties no país, foi construída uma tipologia de cidades por índices de pobreza e níveis de receita de royalties. (A renda per capita municipal advinda dos royalties - RP-M - foi verificada sobre dados de 2000 e o Índice de Pobreza Humana – IPH-M - dos municípios sobre dados de 1997). Dos resultados alcançados, damos destaque ao seguinte: “os 76 municípios que se classificam com RP-M médio alto e muito alto apresentam IPH–M preponderantemente nas categorias médio alto e alto”. Ou seja, a pobreza acompanha a riqueza. Note-se que entre os 26 municípios com RP-M alto, apenas três apresentaram o indicador de pobreza mais baixo e, mesmo entre os 16 municípios no topo da classificação RP-M, somente cinco apresentaram o IPH-M baixo. (Givisiez & Oliveira, 2007, p. 155). Ou seja: municípios ricos, população pobre. Os autores concluem afirmando que grande parte da população nos municípios petro-rentistas não sabe nem da existência nem da importância dessas receitas no orçamento municipal, tampouco como deveriam ser usadas. No caso das jazidas petrolíferas, elas têm um horizonte curto, razão pela qual a legislação prevê o pagamento dos royalties e participações. Rodrigo Serra os define 29 Programa de Combate à Evasão Escolar, da Câmara Permanente de Gestão-Gerência do Plano Diretor, em setembro de 2010. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 35 como instrumentos de promoção de justiça intergeneracional, uma vez que incidem sobre um bem finito (a plataforma continental teria “uma duração estimada de pelo menos três décadas” (2007:93). Sua análise mostra que esses recursos têm sido utilizados como um “sobrefinanciamento das esferas de governo subnacionais”, o que representa “um saque feito à conta das futuras gerações”. (2007:78,79). Municipalidades e estados aquinhoados defendem seu direito aos recursos recebidos, interpretando-os como indenizações pelos impactos ambientais e de adensamento causados pelas atividades de exploração e produção (E&P) de petróleo em suas localidades. Seriam compensações pelos danos. Serra considera isso um “equívoco interpretativo” talvez proposital, uma vez que a “elevação do fluxo de renda local e regional gerado pela presença do segmento de E&P provoca um crescimento da base tributária, permitindo o aumento da arrecadação por meio dos instrumentos impositivos clássicos” – ICMS; IPTU (2007:80). Parece ocorrer uma “preguiça fiscal” por parte das autoridades locais, segundo Givisiez & Oliveira. Serra, analisando a realidade político-econômica dos “novos municípios ricos [..] avizinhados por regiões empobrecidas” (2007:93), constata os seguintes aspectos: fragilidade da norma de distribuição dos royalties e participações especiais; contratação pelas prefeituras de pessoas físicas e jurídicas de forma terceirizada (pela impossibilidade de ampliar o quadro de pessoal com recursos do petróleo); existência de processos de alocação dos recursos para fins distantes da política de promoção da justiça intergeracional (2007: 99); financeirização das rendas petrolíferas (para pagamento de dívidas com a União e capitalização de fundos previdenciários, segundo as Medidas Provisórias 1869/99 e 2103/2001); facilitação para as elites políticas e econômicas do processo de privatização de importantes fundos públicos; falta de controle social destes recursos. E o autor recomenda, além da “urgência de se realizar um amplo debate acerca da necessidade de orientar efetivamente para o público, de forma irrestrita, os expressivos fundos públicos alimentados pelas rendas petrolíferas” (2007:107): • um teto para repasse das rendas petrolíferas aos municípios; • a inclusão de critérios meritórios para o rateio dessas rendas; • a instituição de mecanismos de controle social; • a vinculação legal das rendas do petróleo a determinadas funções e programas de governo no nível local; • a realização de indicadores para mensurar a efetiva presença territorial de capital e trabalhadores ligados às atividades de exploração e produção. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 36 Monié (2003), ao examinar as dinâmicas territoriais e culturais provocadas pelas atividades petrolíferas no norte-fluminense, observou os seguintes aspectos: • o enriquecimento de parte da população e o afluxo de trabalhadores pobres sem qualificação; • o surgimento de áreas de residência e de consumo de alto padrão social e a expansão de bolsões de pobreza; • o aumento das desigualdades intra-regionais entre campo e cidade e entre centros urbanos mais ou menos inseridos na nova economia regional; • o caráter desigual das dinâmicas em curso; • a implantação de uma cultura empresarial moderna, que leva à necessidade da oligarquia tradicional reformular suas estratégias para manter a hegemonia; • novas estratégias residenciais e demandas por equipamentos comerciais e culturais modernos. A organização civil em torno dos interesses das finanças locais advindas do petróleo é dinâmica. Apontamos a OMPETRO e a Rede Petro-BC: em 2001 os municípios rentistas criaram a OMPETRO – Organização dos Municípios Produtores de Petróleo da Bacia de Campos, para a defesa dos interesses regionais, presidida por Rosinha Garotinho30. A Rede Petro-BC (Bacia de Campos) foi criada em 2003 pela Prefeitura de Macaé, pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Rio de Janeiro (Sebrae/RJ) e por um grupo de empresários para “concentrar esforços na promoção de negócios e acesso às modernas capacitações em níveis gerenciais e tecno-profissional e gerar oportunidades de negócios para seus associados, viabilizando projetos, buscando atrair indústrias de transformação, de maneira a dar mais horizonte à vida produtiva local”. Piquet e Oliveira entrevistaram executivos de diferentes tipos de empresas31, chegando às seguintes conclusões: as petroleiras consideram as administrações locais (prefeituras) pouco eficientes e pouco atentas às suas necessidades de segurança, iluminação, transporte coletivo e vêem a si mesmas agindo dentro dos princípios éticos e administrativos modernos, obedecendo à legislação trabalhista e ambiental. As fornecedoras e as não-vinculadas acham que cumprem seu papel ao gerar empregos e pagar impostos e percebem os programas sociais como atribuições do setor público. Nenhuma das empresas demonstrou preocupação com o território que lhes dá 30 Mulher do ex-governador Anthony Garotinho; ela própria ex-governadora e prefeita de Campos. As empresas petroleiras transnacionais - Shell, Texaco, Petrobrás – que são as grandes petroleiras, de alto padrão tecnológico e certificadas nos termos da ISO 9000; as fornecedoras locais, aplicadas em engenharia civil, transporte, alimentos, que são novas, com um quadro pequeno de pessoal e de baixa qualificação e que são prestadoras de serviço às petroleiras; as “empresas não-vinculadas” empresas familiares, com mão de obra de baixa qualificação e sem nenhuma certificação. Em Piquet e Serra, op.cit. 31 Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 37 sustentação (p. 279). Macaé, a cidade que as sedia, vem tendo um crescimento “especializado e dependente, projetado para um horizonte curto, de 20 a 30 anos” (p.283). Piquet define as áreas produtoras de petróleo e gás como “campos de fluxos, onde se articulam sofisticadas redes de unidades industriais, portos, dutos, aeroportos, bens, homens e informações e cuja localização se dá por determinação da natureza” (onde estão as jazidas). Tais campos não são inspirados pela promoção do desenvolvimento regional, estando antes destinados a cumprir metas globais e/ou nacionais de desenvolvimento. Tampouco parecem orientados por outras formas de desenvolvimento (bem-estar, sustentabilidade ambiental, participação local e defesa da identidade cultural). Macaé ilustra o que acontece nos demais municípios petro-rentistas: preocupações de curto prazo; construção de um consenso falso; desinformação; lógicas oligárquicas; particularismos. (SOFFIATI) Poderia ser diferente, sim, mas por onde começar a provocar a diferença? Poderia a Petrobrás provocar essa diferença, se o quisesse? Em resumo: a pujança econômica local no Brasil vem acompanhada da pobreza, da degradação sócio-ambiental e urbana. Forma os “desafios da abundância” aos quais se referiu Piquet. Macaé é exemplo disso. Os dados e análises contidos nos estudos acima mencionados apontam para um processo de crescimento econômico acompanhado por desigualdades intensificadas. Nossa pergunta: poderia ser diferente? O que fazer para superar essa dinâmica trágica? 4. Desenvolvimento local e o desafio da abundância: a responsabilidade social empresarial seria a resposta? Os campos petrolíferos compartilham com outros grandes projetos – hidrelétricas, pólos petroquímicos – os mesmos impactos: “migrações, com conseqüente estrutura demográfica atípica, composta por elevado coeficiente de homens jovens; favelização, prostituição e criminalidade; espaços urbanos não-equipados; despreparo do poder público local, que faz concessões que enfraquecem os cofres municipais e que assiste à ocupação não planejada das beiras de estradas, rios, canais e encostas de morros e à conseqüente sobrecarga no uso dos equipamentos coletivos, sem cuidar de sua ampliação e modernização” (PIQUET, 2007). 4.1- Teorias sobre o desenvolvimento local: Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 38 As teorias sobre desenvolvimento local – ou sobre a dificuldade de realizá-lo - podem ser agrupadas em dois tipos: um, que podemos chamar de estruturalista e que explica o sub ou mau desenvolvimento local como resultado de forças econômicas que atuam na macro-estrutura e que constrangem tanto os estados-nações quanto dentro deles as localidades. As teorias do desenvolvimento dependente e do dependente-associado (Gunder Frank; Cardoso & Faletto) são seus melhores exemplos. Brandão menciona alguns autores de concepções marxistas (Lefebvre; Harvey; Lipietz; Castells) que explicam a reprodução social do espaço a partir da relação entre Estado e capital e das lutas internas entre frações do capital e entre este e o trabalho. Com base neste enfoque estruturalista, somos levados a concluir que a superação de tal situação de sub ou mau desenvolvimento local seria algo que só poderia acontecer do nível macroestrutural para o micro. Complementarmente, seria impossível a concretização de um desenvolvimento local que fosse econômico e social a um só tempo, por conta das pressões migratórias do segmento mais pobre e sem qualificação e suas urgências. Um segundo tipo de enfoque sobre o desenvolvimento local forma o pensamento que Brandão chama criticamente de “localistas” e no qual agrupa as propostas de “capital social”, de “economia solidária e popular”, de “voluntariado”, “empreendedorismo”, “microiniciativas”, “parceria público-privada”, “cooperativa”, “governança”, “responsabilidade social empresarial”, etc. Tais idéias tem em comum não apenas o nível micro, mas a aposta na capacidade individual, na sua criatividade, o que levaria a uma nova identidade e um novo perfil mais atraente para as localidades onde os indivíduos empreendedores agem. Brandão as critica como uma “endogenia exagerada das localidades” e também por parecerem partir da idéia de que os conceitos de oligopólios, de classes sociais, de hegemonia estariam superados como explicação para uma nova realidade onde já não haveria centralização, concentração, massificação e estandartização (2007:38,45). Além disso, essas teorias localistas partem, segundo Brandão, da premissa equivocada de que a região e a esfera nacional ter-se-iam tornado desimportantes. (Lembramos que o próprio mote da Conferência de Cúpula da ONU sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente (Rio 92) – “pensar globalmente, agir localmente”- parecia também prescindir da esfera nacional.) Essas teorias endogênicas seriam também voluntaristas, segundo Brandão. Eis como o autor compara e contrasta os dois blocos teóricos (Brandão, 2007, pgs. 44,45): Teorias da “Divisão Social do Trabalho” Teorias do “Desenvolvimento Local/Endógeno” 1. Sociedade 1. Comunidade Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 39 2. Classes Sociais 2. Atores, Agentes, Talentos Humanos 3. Capital (e suas frações) x Trabalho 3. “Capital Social”; “Capital Cultural”; “Capital Sinérgico”; “Capital Humano” 4. Propriedade dos Meios de Produção 4. “Agenciamento de Habilidades” e Capacidade de “Federar a Produção” 5. Relações Mercantis 5. Relações de Reciprocidade 6. “Mundo do Trabalho” 6. “Capital Humano”; Recursos Humanos e sua empregabilidade 7. Estado 7. Mercado 8. Ação Pública 8. “Iniciativa Privada” e “Parcerias Público-Privadas” 9. Rivalidades Intercapitalistas 10. Fatores “macroeconômicos” determinantes 9. Cooperação “exógenos” e 10. fundamentais e “microeconômicos” do ambiente sinérgico (câmbio, juros, Fatores Endógenos e fisco, são determinantes regulação do mercado de trabalho; papel das questões monetárias, financeiras, dos fundos públicos, etc.) 11. Padrões Concorrenciais, mesmo que 11. Micro e Pequenas Empresas e Empresas em última instância, comandados por em Rede oligopólios 12. Estruturas Produtivas 12. Economia Terciária e “dos serviços”, pós-industrial, pós-fordista acumulação flexível 13. Poder; Hegemonia 13. Atmosfera 14. “Bloco Histórico” 14. “Espírito Empreendedor” 15. Divergência, Diversidade, Assimetrias 15. Convergência 16. Equidade 16. Eficiência 17. Justiça Ambiental (intergeracional) 17. Sustentabilidade 18. Pouca capacidade de Regulação Local 18. Governança Local (posto que o Centro de Decisão está no núcleo dominante e não é disseminado, mas concentrado). 19. Ética 19. Estética e de Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 40 Houve, prossegue Brandão, uma “certa banalização e vulgarização da problemática do desenvolvimento de cidades, regiões e países” porque as explicações foram deslocadas para o lugar-comum do voluntarismo, esquecendo a “natureza estrutural, histórica e dinâmica destas “questões espaciais”. O autor propõe um olhar diverso, examinando o local, o territorial a partir de uma perspectiva estrutural, e recolocando o urbano e suas políticas dentro da economia política do desenvolvimento. Segundo ele, há um movimento desigual da acumulação de capital no espaço, através de processos de homogeneização, integração, polarização e hegemonia: • o capital homogeneíza porque leva a mercantilização às últimas conseqüências e porque aniquila o espaço pelo tempo, sendo indiferente ao lugar; • o capital integra porque cria instâncias mais largas – nacional, supra-nacional, às custas da supressão da autonomia e independência dos lugares; • o capital polariza porque hierarquiza espaços, ao criar pontos nodais com diferentes níveis de estruturas de serviços, centros de armazenagem, comercialização, gestão, poder político e cultural; • o capital se funda na hegemonia, na conquista do consenso via persuasão e alianças de classes, ocultando fissões e conflitos, criando um pacto de dominação entre donos de terra, o Estado e os donos do dinheiro, contra “as camadas baixas, difusas, deserdadas e com fratura orgânica.” (2007: 86) Ao percorrer a história econômica brasileira, Brandão menciona os pontos territoriais de semi-enclave, as frentes de expansão, as ilhas de infra-estrutura e nelas as oligarquias regionais que trouxeram uma industrialização restringida em um processo de “fuga para frente”. As localidades do país receberam um “processo avassalador de migração, urbanização-metropolização e burocratização” (2007: 129). Frações modernas do capital soldaram seus interesses com o capital mercantil, aquele de natureza política, garantido por privilégio político (2007: 139) e perpetuaram o atraso estrutural do Brasil. Houve, segundo Brandão, uma “pactuação horizontal interoligárquica”, que permitiu a combinação do dinamismo das forças produtivas com a reprodução simples e não dinâmica da periferia. (2007: 99). Essa situação, que seria explosiva, foi amortecida através da mobilidade espacial e social e da expansão da fronteira agrícola, mas esse amortecimeto implicou em favelas e depredação ambiental. No outro extremo das propostas sobre como efetivar o desenvolvimento local, estão aqueles que enfatizam mesmo a ação inovadora de um indivíduo criativo, mas sobretudo das empresas que o estimulam (GOMES & MORETTI). Caberia às empresas e Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 41 ao empresariado um papel fundamental em um novo capitalismo, agora conscientizado das urgências corporações. sociais e do comprometimento moral com o entorno das suas Tais idéias se difundiram com os conceitos de desenvolvimento sustentável e de responsabilidade sócio-ambiental das empresas. Elkington (2001), da “Sustain-Ability”, e Hawkins & Lovins (1999) sustentam a tese de que o desenvolvimento sustentável é atribuição empresarial porque depende de inovações e de tecnologia, plantas que vicejam nas empresas, e porque a busca de sustentabilidade dá oportunidade a novos negócios via criação de novos perfis de mercado. Layrargues, todavia, mostra-se algo descrente deste ambientalismo empresarial que se configuraria na maior parte dos casos, em uma cortina de fumaça. As teorias acima sintetizam duas concepções que deram extenso debate na sociologia em geral e da sociologia do desenvolvimento em particular: o confronto do estruturalismo, que trata de forças sociais sem sujeito, versus o voluntarismo da ação planejada dotada de sentido e vontade de sujeitos que agem. Como se dá o processo de desenvolvimento, quem o faz, quem o impede? Ao se debruçar sobre o desenvolvimento urbano, Maricato nos oferece uma análise complexa do porquê da degradação social e ambiental das cidades brasileiras: sem deixar de ver os aspectos estruturais, ela não exime das suas causas também as inconsistências internas da máquina administrativa, o beletrismo bacharelesco, cômodo e ineficaz da sua tecnocracia, a adaptação esperta do pequeno rentista de imóveis de auto-construção, as negociações de permissões e até de lotes clandestinos por parte do corpo fiscal etc. 4.2 – O que fazer? É possível escapar ao determinismo trágico das estruturas? Macaé, como visto acima, é um local rico e desigual; está estreitamente ligado a estruturas econômicas petrolíferas internacionais; tem um expressivo contingente de pobres em favelas; tem áreas lindas mas ambientalmente degradadas. Muitos dos aspectos históricos brasileiros abordados por Brandão se aplicam a Macaé: um desenvolvimento desigual e desequilibrado. Como mudar isso, como superar esta abundância trágica? Devem as empresas atuar diretamente na sua superação? Na literatura sobre a questão, Angra III e a Eletrobrás Eletronuclear são apontadas (Revista Visão Sócio-Ambiental) como exemplos: de um orçamento total de investimento de R$ 7 bilhões na Usina Nuclear Angra III, teria destinado 481 milhões (6,87%) como recursos compensatórios ao longo de seis anos, para projetos sócioambientais nas três municipalidades onde atua: Angra dos Reis, Rio Claro e Parati, o que significaria R$ 2.226.851,00 por municipalidade/mês, para capacitação de pessoal e desenvolvimento regional. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 42 Tentemos um quadro esquemático para visualizar a correspondência entre a análise do desenvolvimento desigual e as propostas de superá-lo: Por que Macaé apresenta um desenvolvimento desigual Como solucioná-lo na direção de um desenvolvimento e desequilibrado? ambientalmente sustentável, socialmente justo e dmocrático? 1.1 Por causa das forças estruturais do capitalismo global 1 Não haveria solução local e nem haveria problema, 1.2 Por causa das forças estruturais da “pactuação posto que todo processo de desenvolvimento gera horizontal interoligárquica” a nível nacional “naturalmente” uma cadeia de desequilíbrios 2 Porque as oligarquias locais são perversas, seja por 2.1 Uma solução seria a atuação social empresarial vontade, seja por omissão (intenção ou inércia) 2.2 Outra a capacitação política da população via democracia participativa e governança 3 Porque as instituições políticas e jurídicas nacionais são 3 Não haveria solução local, uma vez que o desenho fatores de perpetuação das desigualdades destas instituições é nacional, de difícil atualização e de privilégios quase vitalícios e as instituições locais as mimetizam 4 Por causa da cultura política geral – local e nacional – 4.1 Uma solução seria de longo prazo através da educação que naturaliza desigualdades e não prioriza o interesse formal e continuada público 4.2 Um encaminhamento de solução seria uma ampla campanha de debates nos meios de comunicação 5 – 5- Por que as empresas são desterritorializadas e não Ações conjuntas de responsabilidade social e ambiental de fato pelas empresas ligam para o seu entorno Chico Oliveira debruçou-se sobre o que chamou de “o enigma do desenvolvimento local”. Poderia ele corrigir a tendência da concentração macro? As cidades globais, frutos da ligação direta global/local, significariam a não-necessidade da instância nacional? Seria ultrapassar a dimensão do Estado nacional? Para o autor, o desenvolvimento local pode se inserir em uma estratégia de descentralização que agrave desigualdades. Oliveira critica um significado atribuído ao desenvolvimento local que o aplica como um “emplastro” de uma cidadania que seria o não-conflito32. O caminho que ele aponta é a luta por cidadania, que viria a ser a forma contemporânea da luta de classes. Essa luta ele a define como uma luta por 32 Os episódios de março e abril de 2010, com a passeata na Cinelândia, organizada pelo governo estadual e municípios do estado do Rio de Janeiro contra a Emenda Constitucional Ibsen Pinheiro, podem ser exemplos deste falso consenso: “mexer cm o Rio é mexer comigo”, estava escrito em um cartaz da passeata que reclamava da proposta do Senador de se distribuir a receita dos royalties por todo o país. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 43 significados, direitos e fala. E que teria peso porque, ainda segundo ele, o poder do local não é pequeno no Brasil33. Chico Oliveira reconhece que há mesmo uma nova ética – um clamor público e uma proposta empresarial - que pede transparência, mas ele cobra da ética empresarial que ela desça dos preceitos abstratos, nos seus modelos e tipologias34 e se introduza nas dimensões mais concretas. Piquet e E. L.de Oliveira, como já mencionado, ao entrevistarem executivos de diferentes tipos de empresas35 parecem corroborar esta falta de dimensão mais concreta: as petroleiras consideram as administrações locais (prefeituras) pouco eficientes. Há um clima de animosidade e desconfiança mútuas. “A economia do petróleo não tem país, as empresas não criam identidade com a cidade” afirmou Cliton Santos, Secretário de Desenvolvimento Econômico de Macaé. As fornecedoras e as não-vinculadas acham que cumprem seu papel ao gerar empregos e pagar impostos e percebem os programas sociais como atribuições do setor público. Piquet e Oliveira, as autoras, concluem que nenhuma das empresas demonstrou preocupação com o território que lhes dá sustentação (p. 279). Macaé, a cidade que as sedia, vem tendo um crescimento “especializado e dependente, projetado para um horizonte curto, de 20 a 30 anos” (p.283). “A instalação da Petrobrás em Macaé, antes da Constituição Federal de 1988, foi traumática e há uma dívida social impagável da empresa com a cidade”, afirmou o jornalista Martinho Santa Fé, ambientalista local emérito e editor da Revista Visão Sócio-Ambiental. Os municípios petro-rentistas também padecem de preocupações de curto prazo; construção de um consenso falso; desinformação; lógicas oligárquicas; particularismos. 33 Não faltam exemplos de fóruns e blogueiros denunciando a falta de transparência e o desperdício das fartas verbas do petróleo em Campos. Como, por exemplo, a “desciclopedia sobre Macaé - http://desciclo.pedia.ws/wiki/Maca%C3%A9. 34 Os autores arrolados na bibliografia e que tratam da responsabilidade social empresarial enfatizam mesmo os preceitos. A responsabilidade social corporativa (RSC) representa o compromisso com a idéia de organização como conjunto de pessoas que interagem com a sociedade. Dela fazem parte: a ação social filantrópica e assistencial; auditoria social, com avaliação sistemática do impacto social da empresa; o capital relacional, entendido como a integração com grupos de interesse; um código de conduta, expressão formal de valores e boas práticas; um código de bom governo interno; o desenvolvimento sustentável, entendido como a compatibilização entre a exploração racional de recursos naturais e sua regeneração; a empresa-cidadã, conceito pelo qual a empresa se percebe tendo deveres; a ética empresarial, valores, normas e providências determinado pela organização aos seus membros; filantropia estratégica, vinculada a um planejamento estratégico de negócio, associando a ação filantrópica a alguns benefícios determinados em termos econômicos e de vantagem competitiva; gestão ambiental, voltada para a prevenção, redução, minimização e eliminação do impacto ambiental negativo que ocasiona ou pode ocasionar a atividade da empresa; marketing social, visando campanhas com apoio da comercialização de produtos e serviços oferecidos por países com vistas ao desenvolvimento e organizações não governamentais que canalizam ajuda a ditos países; reputação corporativa, buscada com o reconhecimento público alcançado, expressão, em certa medida, de legitimidade social; sustentabilidade, entendida como sua tríplice dimensão econômica, social e ambiental; conta tríplice de resultados, apresentando o valor econômico, o valor para o desenvolvimento social ou para o meio ambiente que as empresas criam ou destroem. 35 As empresas petroleiras transnacionais - Shell, Texaco, Petrobrás – que são as grandes petroleiras, de alto padrão tecnológico e certificadas nos termos da ISO 9000; as fornecedoras locais, aplicadas em engenharia civil, transporte, alimentos, que são novas, com um quadro pequeno de pessoal e de baixa qualificação e que são prestadoras de serviço às petroleiras; as “empresas não-vinculadas” empresas familiares, com mão de obra de baixa qualificação e sem nenhuma certificação. Em Piquet e Serra, op.cit. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-2: Selene Herculano - Pag 44 Soffiati36, ambientalista emérito de Campos e professor da UFF, sugere que a OMPETRO se transforme em um órgão assessorado por um corpo técnico que oriente as prefeituras sobre a aplicação correta do dinheiro dos royalties e participações e que haja um fundo municipal administrado paritariamente e com transparência. Tal fundo existe em Macaé, mas não encontramos maiores informações a respeito. Macaé, nesse grupo de municípios petro-rentistas, tem aspectos distintivos e melhores: não é assim tão dependente dos royalties, uma vez que obtém receita expressiva das multinacionais ali instaladas. Mas que podem ir embora se as atividades de extração terminarem. As descobertas recentes das jazidas petrolíferas do “pré-sal” parecem arredar tal ameaça. Continuam, todavia, os problemas de falta de planejamento urbano, da presença de uma pobreza que não é resgatada. A alternativa de se preparar para em um futuro sem petróleo vir a ser um centro de tecnologia não parece estar sendo enfrentada, se lembrarmos dos recursos modestos pensados para esta função (Tabela 5, acima), apesar dos esforços de construção de espaços para sediar cursos universitários em experiências de interiorização. Brandão tem razão: o desenvolvimento, pelo menos em um país desigual, não pode se dar isoladamente em uma localidade, precisa ser resultante de políticas regionais ou nacionais, orquestradas de forma sistêmica, integrada e harmoniosa. Mas, enquanto essas não se realizam, não caberia à Petrobrás, dado o seu histórico – uma empresa criada a partir de campanhas populares, nacionalistas e desenvolvimentistas – e seu perfil, uma empresa de economia mista, com dinheiro também público, atuar nesse sentido? Alguns responderiam que não, que a única responsabilidade de uma empresa é gerar lucro (M. Fridman), e que cabe ao povo escolher melhor seus governantes e deles cobrar o bem público. Mas há que se considerar que nem a Petrobrás é uma empresa particular nem pode escolher com o desejável grau de liberdade e cidadania uma população com expressivo montante na pobreza e defrontada com instituições percebidas como tendentes à inércia e à defesa de si mesmas. Bibliografia: ALMEIDA, Priscila Gontijo Aguiar. Investigando a injustiça ambiental no Brasil: conflitos ambientais e riscos à saúde nos Bairros Nova Holanda e Nova Esperança no Município de Macaé-RJ. IFF – Instituto Federal Fluminense-Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental - Modalidade Profissional, Macaé, 2010 ARAUJO, Faber Paganoto. Migrantes Ricos e Migrantes Pobres: As Heranças da Economia do Petróleo em Macaé . Monografia submetida ao Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio De Janeiro, 2005. 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