UFRB Universidade Federal do Recôncavo da Bahia Caminhadas de universitários de origem popular UFRB UFRB Copyright © 2009 by Universidade Federal do Rio de Janeiro / Pró-Reitoria de Extensão. O conteúdo dos textos desta publicação é de inteira responsabilidade de seus autores. Coordenação da Coleção: Jailson de Souza e Silva Jorge Luiz Barbosa Ana Inês Sousa Organização da Coleção: Monique Batista Carvalho Francisco Marcelo da Silva Dalcio Marinho Gonçalves Aline Pacheco Santana Programação Visual: Núcleo de Produção Editoria da Extensão – PR-5/UFRJ Coordenação: Claudio Bastos Anna Paula Felix Iannini Thiago Maioli Azevedo C183 Caminhadas de universitários de origem popular : UFRB / organizado por Ana Inês Souza, Jorge Luiz Barbosa, Jailson de Souza e Silva. — Rio de Janeiro : Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pró-Reitoria de Extensão, 2009. 100 p. ; il. ; 24 cm. — (Coleção caminhadas de universitários de origem popular) Ao alto do título: Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. Programa Conexões de Saberes : Diálogos entre a Universidade e as Comunidades Populares. Parceria: Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. ISBN: 978-85-89669-39-9 1. Estudantes universitários — Programas de desenvolvimento — Brasil. 2. Integração universitária — Brasil. 3. Extensão universitária. 4. Comunidade e universidade — Brasil. I. Souza, Ana Inês, org. II. Barbosa, Jorge Luiz, org. III. Silva, Jailson de Souza e, org. VI. Programa Conexões de Saberes : Diálogos entre a Universidade e as Comunidades Populares. V. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. VI. Universidade Federal do Rio de Janeiro. VII. Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. CDD: 378.81 Ministério da Educação Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades populares Organizadores Jailson de Souza e Silva Jorge Luiz Barbosa Ana Inês Sousa UFRB Pró-Reitoria de Extensão - UFRJ Rio de Janeiro - 2009 Coleção Autores Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva Adriano Guedes de Souza Alessandra Régis do Rosário Anderson dos Santos da Silva Ministério da Educação Fernando Haddad Ministro André Bruno Santos da Anunciação Bruna Maria Santos de Oliveira Daniela de Souza Sales Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade – SECAD André Luiz de Figueiredo Lázaro Secretário Daniela da Silva Santos Daniela de Melo Oliveira Deraci Souza dos Santos Edilon de Freitas dos Santos Diretoria de Educação para a Diversidade - DEDI Armênio Bello Schmidt Edimilson Pereira dos Santos da Silva Ednólia Oliveira dos Santos Coordenação Geral de Diversidade – CGD Leonor Franco de Araújo Eliana Souza dos Santos Emanuel Silva Andrade Érica Paixão da Silva Evanilda dos Santos Esmeralcy Almeida Santos Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades populares Jorge Luiz Barbosa Jailson de Souza e Silva Coordenação Geral Fabiana Aguiar Fonseca Geoston Caetanos Castro Oliveira Gerlan Cardoso Sampaio Iranildes Sales Bispo Jailton Almeida dos Santos Barbosa Cláudio Orlando Costa do Nascimento Coordenação Geral do Programa Conexões de Saberes/UFRB Rita de Cássia Nascimento Leite Eduardo David de Oliveira Djenane Brasil da Conceição Priscila Carvalho Leão Sivanildo da Silva Borges Coordenação Adjunta Jeovana Ribeiro de Jesus do Nascimento Joana Angelina dos Santos Silva Jordana da Silva Chaves José dos Santos José Raimundo dos Santos Joselita de Jesus Bomfim Juliana de Jesus Santos Leila Pereira da Cruz Lucas Dias Reis Maria Joseni Borges de Souza Maria Gilcilene Maciel Rocha Paulo Gabriel Soledade Nacif Marly Silveira Reitor Meire Aparecida de Souza Fiuza Naiara Fonseca de Souza Silvio Luiz de Oliveira Sóglia Vice-Reitor Núbia Oliveira Palmira Magaly Passos Gusmão Rita de Cássia Dias Pereira de Jesus Pró-Reitora de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis Queilane Salvador Santos Rosiane do Carmo Teixeira Rosiane Rodrigues da Silva Robenilson Ferreira dos Santos Silmary Silva dos Santos Simone Santana da Cruz Solange Conceição Silva Tatiane Santos de Brito Toniel Costa do Carmo Santos Vanessa Morais Paixão Uirlon Sábigo Alves Cardoso Prefácio A sociedade brasileira tem como seu maior desafio a construção de ações que permitam, sem abrir mão da democracia, o enfrentamento da secular desigualdade social e econômica que caracteriza o país. E, para isso, a educação é um elemento fundamental. A possibilidade da educação contribuir de forma sistemática para esse processo implica uma educação de qualidade para todos, portanto, uma educação que necessita ser efetivamente democratizada, em todos os níveis de ensino, e orientada, de forma continua, pela melhoria de sua qualidade. No atual governo, o Ministério da Educação persegue de forma intensa e sistemática esses objetivos. Conexões de Saberes é um dos programas do MEC que expressa de forma nítida a luta contra a desigualdade, em particular no âmbito educacional. O Programa procura, por um lado, estreitar os vínculos entre as instituições acadêmicas e as comunidades populares e, por outro lado, melhorar as condições objetivas que contribuem para os estudantes universitários de origem popular permanecerem e concluírem com êxito a graduação e pós-graduação nas universidades públicas. Criado pelo MEC em dezembro de 2004, o Programa é desenvolvido a partir da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD-MEC) e representa a evolução e expansão, para o cenário nacional, de uma iniciativa elaborada, na cidade do Rio de Janeiro no ano de 2002, pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. Na ocasião constitui-se uma Rede de Universitários de Espaços Populares com núcleos de formação e produção de conhecimento em várias comunidades populares da cidade. O Programa Conexões de Saberes criou, inicialmente, uma rede de estudantes de graduação em cinco universidades federais, distribuídas pelo país: UFF, UFMG, UFPA, UFPE e UFRJ. A partir de maio de 2005, ampliamos o Programa para mais nove universidades federais: UFAM, UFBA, UFC, UFES, UFMS, UFPB, UFPR, UFRGS e UnB. Em 2006, o Ministério da Educação assegurou, em todos os estados do país, 33 universidades federais integrantes do Programa, sendo incluídas: UFAC, UFAL, UFG, UFMA, UFMT, UFPI, UFRN, UFRR, UFRPE, UFRRJ, UFS, UFSC, UFSCar, UFT, UNIFAP, UNIR, UNIRIO, UNIVASF e UFRB. Através do Programa Conexões de Saberes, essas universidades passam a ter, cada uma, ao menos 251 universitários que participam de um processo contínuo de qualificação como pesquisadores; construindo diagnósticos em suas instituições sobre as condições pedagógicas dos estudantes de origem popular e desenvolvendo diagnósticos e ações sociais em comunidades populares. Dessa forma, busca-se a formulação de proposições e realização de 1 A partir da liberação dos recursos 2007/2008 cada universidade federal passou a ter, cada uma, ao menos 35 bolsistas. práticas voltadas para a melhoria das condições de permanência dos estudantes de origem popular na universidade pública e, também, aproximar os setores populares da instituição, ampliando as possibilidades de encontro dos saberes destas duas instâncias sociais. Nesse sentido, o livro que tem nas mãos, caro(a) leitor(a), é um marco dos objetivos do Programa: a coleção “Caminhadas” chega a 33 livros publicados, com o lançamento das 19 publicações em 2009, reunindo as contribuições das universidades integrantes do Conexões de Saberes em 2006. Com essas publicações, busca-se conceder voz a esses estudantes e ampliar sua visibilidade nas universidades públicas e em outros espaços sociais. Esses livros trazem os relatos sobre as alegrias e lutas de centenas de jovens, rapazes e moças, que contrariaram a forte estrutura desigual que ainda impede o pleno acesso dos estudantes das camadas mais desfavorecidas às universidades de excelência do país ou só o permite para os cursos com menor prestígio social. Que este livro contribua para sensibilizar, fazer pensar e estimular a luta pela construção de uma universidade pública efetivamente democrática, um sociedade brasileira mais justa e uma humanidade cada dia mais plena. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade Ministério da Educação Observatório de Favelas do Rio de Janeiro Sumário Apresentação ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 09 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 13 ○ ○ ○ ○ ○ ○ Rita de Cássia Dias, Cláudio Orlando Costa do Nascimento Eduardo Oliveira, Djenane Brasil da Conceição e Priscila Leão Texto autobiográfico Adriano Guedes de Souza ○ ○ Autobiografia Alessandra Régis do Rosário ○ ○ ○ ○ Em busca de um sonho Anderson dos Santos da Silva ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Memorial André Bruno Santos da Anunciação Meus relatos Bruna Maria Santos de Oliveira ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 18 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 21 ○ ○ ○ ○ 24 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Caminhos cruzados: muitas vidas, uma história Daniela de Souza Sales, Esmeralcy Almeida Santos, Gerlan Cardoso Sampaio, Iranildes Sales Bispo, Jailton Almeida dos Santos Barbosa, Joana Angelina dos Santos Silva, Juliana de Jesus Santos, Maria Joseni Borges de Souza , Naiara Fonseca de Souza, Rosiane do Carmo Teixeira, Rosiane Rodrigues da Silva, Robenilson Ferreira dos Santos, Silmary Silva dos Santos, Simone Santana da Cruz, Tatiane Santos de Brito e Vanessa Morais Paixão ○ “Caminhando contra o vento” Daniela da Silva Santos ○ ○ Autobiografia Daniela de Melo Oliveira Memorial Deraci Souza dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ Quem sou eu? Edilon de Freitas dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Memorial Edimilson Pereira dos Santos da Silva Em busca dos sonhos Ednólia Oliveira dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 15 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 27 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 36 ○ ○ ○ ○ ○ ○ 38 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 40 41 45 47 Minha trajetória de vida Eliana Souza dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Trajetória da conquista de um sonho Emanuel Silva Andrade Texto autobiográfico Érica Paixão da Silva ○ Texto autobiográfico Evanilda dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Minha história Solange Conceição Silva ○ Autobiografia Uirlon Sábigo Alves Cardoso ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 61 64 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 68 70 72 73 75 77 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 79 ○ ○ ○ ○ ○ ○ 83 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 67 ○ ○ ○ Texto autobiográfico Toniel Costa do Carmo Santos ○ ○ ○ 58 ○ ○ ○ 56 ○ ○ ○ ○ ○ 55 ○ ○ ○ ○ ○ ○ 53 ○ ○ ○ ○ ○ 50 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ A realizaçao do sonho Queilane Salvador Santos ○ ○ Superação Meire Aparecida de Souza Fiuza Texto autobiográfico Núbia Oliveira ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Memorial Maria Gilcilene Maciel Rocha ○ ○ ○ Meus passos, minha caminhada Palmira Magaly Passos Gusmão L’Amore Marly Silveira ○ ○ ○ ○ ○ ○ Autobiografia Joselita de Jesus Bomfim ○ ○ ○ Texto autobiográfico José Raimundo dos Santos ○ ○ ○ Autobiografia Jordana da Silva Chaves Texto autobiográfico Lucas Dias Reis ○ ○ ○ ○ ○ ○ Texto autobiográfico Jeovana Ribeiro de Jesus do Nascimento Verdadeira identidade Leila Pereira da Cruz ○ ○ ○ ○ ○ ○ Texto autobiográfico Geoston Caetano Castro Oliveira ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Vários obstáculos, novas conquistas Fabiana Aguiar Fonseca ○ ○ ○ ○ O impossível aconteceu José dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 85 88 90 92 95 99 Apresentação A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB nasce impregnada de referenciais históricos e culturais da tradição do “Recôncavo Baiano, berço da nação brasileira”. São saberes e experiências que se caracterizam, fundamentalmente, pelo reconhecimento e valorização das formas de resistência, reação e afirmação das diferenças e da possibilidade de coexistência coletiva. A UFRB, imbuída do propósito de contribuir para a correção das distorções sociais ainda presentes, compromete-se em propiciar a inclusão social e a igualdade racial, através de políticas institucionais, é assim que a UFRB torna-se pioneira no âmbito das universidades brasileiras, na criação de uma Pró-Reitoria dedicada a implantar políticas de ação afirmativa associadas aos assuntos estudantis, instituindo a PROPAAE - Pró-Reitoria de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis - cuja missão é promover a execução de políticas afirmativas e estudantis, garantindo à comunidade acadêmica condições básicas para o desenvolvimento de suas potencialidades, visando a inserção cidadã, cooperativa, propositiva e solidária nos âmbitos cultural, político e econômico da sociedade e o desenvolvimento regional. A PROPPAE nasce comprometida com a perspectiva multicultural, sintonizada com a luta dos movimentos sociais, e com as atuais políticas públicas relativas à diminuição das disparidades sociais e a promoção da igualdade racial e da diversidade, sobretudo, vincula-se àquelas políticas que impliquem na promoção de práticas relativas à democratização do acesso, permanência e pós-permanência do estudante de origem popular no ensino superior. A UFRB/PROPAAE, de forma dialógica e articulada com os vários segmentos contemplados pelas políticas institucionais, pôs em prática uma ação de co-responsabilidade e mutualidade no trato com as demandas da comunidade acadêmica, instituindo o Programa de Permanência embasado nos princípios da experiência universitária, que integra nas ações de permanência, práticas de ensino, pesquisa e extensão, fomentadas em torno do conceito de permanência qualificada. O Programa de Permanência visa contribuir com a permanência dos estudantes nos cursos de graduação da UFRB, assegurando formação acadêmica qualificada, através de aprofundamento teórico, por meio de participação em projetos de extensão, atividades de iniciação científica vinculadas a projetos de pesquisa e atividades de ensino relacionadas à sua área de formação e ao desenvolvimento regional. Implementando assim, uma política de permanência associada à excelência na formação acadêmica. Conexões de Saberes na UFRB O Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades populares integra a política institucional da UFRB que vincula de forma inextrincável, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 9 formação técnico-científica, ao compromisso social e à promoção do protagonismo dos cidadãos acadêmicos. Baseado no plano de ação da PROPAAE-UFRB, de construção e implantação de políticas de acesso e permanência para estudantes de origem popular, afro-descendentes e indígenas no ensino superior, a UFRB esteve presente no II Seminário Nacional do Programa Conexões de Saberes, realizado no período de 1 à 4 de novembro de 2006, no Rio de Janeiro. Nessa oportunidade, foi possível vivenciar uma conexão nacional, constituída pela participação dos coordenadores locais e nacionais, dos estudantes bolsistas, das representações comunitárias e das universidades integrantes do Programa, que contempla todas as unidades da Federação. A PROPAAE articulou no Projeto institucional a participação da Pró-Reitoria de Pesquisa e Ensino de Pós-Graduação - PRPPG e da Pró-Reitoria de Extensão - PROEXT, instituindo uma coordenação colegiada, e um plano de trabalho que pudesse articular à política de permanência e de ações afirmativas, às ações de pesquisa e extensão. Segundo o Reitor Prof. Paulo Gabriel Nacif, a decisão de participarmos do Conexões de Saberes deveu-se, sobretudo à importância de envolver experiências entre Universidade-Comunidade, tendo os jovens de origem popular como protagonistas das ações que buscam valorizar tradições, saberes e experiências locais. As caminhadas, experiências e saberes emancipatórios A escrita autobiográfica foi o nosso ponto de partida para a execução do Projeto. Consideramos que a escrita e a socialização dos textos sobre as histórias de vida possibilitou vários olhares sobre itinerários e itinerâncias realizados pelos estudantes no decorrer de suas vidas. Esses textos, num primeiro momento, possibilitaram a condição de reconhecimento e apropriação dos sentidos correspondentes às caminhadas, ao vivido individual e coletivamente. O caminho percorrido, reconhecido, refletido e apropriado pelos sujeitos expressa suas vivências, experiências e saberes. Em outras palavras, os estudantes ao escreverem sobre suas histórias, acordaram suas memórias, buscaram compreender as situações vivenciadas, os contextos, os tempos-lugares de onde cada um fala, produz seus sentidos consoantes com suas vidas de agora. Podemos perceber muitas histórias diferentes e em comum, experiências protagonistas, vivências tradicionais, culturais, saberes ancestrais, conhecimentos contextualizados, encarnados na região do Recôncavo, um Ethos que institui realidades e expressa a preponderância de referenciais pertencentes a etnia negra. Caminhadas no ensino médio: às rodas de formação Os textos das histórias de vida, experiências e saberes dos estudantes-conexistas presentes nesse livro destinam-se à execução do Programa na sua fase de extensão junto às escolas de ensino médio, numa ação que consiste na realização de atividades de formação junto aos alunos do 3º. ano do ensino médio nos espaços escolares. Pretendemos assim, favorecer o diálogo entre os estudantes da UFRB e os estudantes do ensino médio através das Rodas de Formação para tratarem de temas transversais pertinentes à formação cidadã, social, cultural e protagonista dos Jovens. 10 Caminhadas de universitários de origem popular As Rodas de Formação são constituídas e organizadas pelos estudantes e coordenadores do Conexões na UFRB e pelos alunos de escolas públicas de ensino médio da Região do Recôncavo. As Rodas promovem o debate de temas transversais do currículo dessas escolas, a exemplo das ações afirmativas, articulado com as políticas de acesso e permanência no ensino superior. Essa ação de extensão nas escolas do ensino médio, possibilita aos estudantes-conexistas uma permanência qualificada, um exercício protagonista implicado e comprometido com atividades de formação, que resulta em integração, debate, pesquisa e formação. A metodologia de abordagem coletiva de temas previamente elencados, enfocados a partir da sistemática de relatos e discussões. As Rodas são compostas por Jovens que se revezam nas funções de facilitadores, ao apresentarem seus relatos, saberes e experiências a fim de dinamizar o início das discussões sobre os temas escolhidos para a formação. Profa. Dra. Rita de Cássia Dias Pró-Reitora de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis Prof. Dr. Cláudio Orlando Costa do Nascimento Coordenador de Políticas Afirmativas – CPA e do Programa Conexões de Saberes na UFRB Prof. Dr. Eduardo Oliveira Centro de Formação de Professores – CFP Profa. Ms. Djenane Brasil da Conceição Centro de Ciências da Saúde – CCS Priscila Leão Assistente Social UFRB Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 11 Texto autobiográfico Adriano Guedes de Souza* Fiz o curso primário em escola pública, onde tive muitas dificuldades para estudar, pois muitas vezes não tinha material escolar suficiente. Mas com a ajuda de minha mãe, que sempre me incentivou aos estudos, eu concluí o ensino primário sem nunca ter perdido um ano. O maior problema em estudar era financeiro, pois o meu pai não me reconheceu como filho e fui criado somente por minha mãe. Ela, por ser quase analfabeta - concluiu somente a 4ª série do primário -, tinha dificuldades em conseguir um emprego. Então, ela sempre trabalhou com bicos: lavadeira, faxineira, venda de produtos de catálogos de revistas. O dinheiro que entrava servia praticamente só para pagar aluguel e a comida. Entrei para o ensino fundamental com onze anos de idade. Foi nessa época que minha mãe começou a vender doces (balas, chicletes etc) e eu passei ajudá-la. Pela manhã ia à escola e ela ficava na barraca de doces. Durante a tarde, eu ficava na barraca e ela podia fazer outras coisas, como vender produtos e fazer faxinas. Aos sábados era dia de eu trabalhar na feira com carrinho-de-mão (carregando compras) e ela ficar o dia inteiro na barraca. O dinheiro era pouco, mas dava para ajudar na alimentação para a família: minha mãe, eu e minha irmã Adriana, que ainda era muito pequena. Concluí o ensino fundamental sem também perder nenhum ano. Nesse intervalo de tempo, a barraca foi perdendo freguesia, os doces foram acabando e eu fui à procura de outros trabalhos como engraxate, ajudante de marceneiro e de ajudante de oficina de bicicletas. Durante o ensino médio, comecei a trabalhar numa oficina de conserto de moto, recebendo metade do salário mínimo na época, onde além de trabalhar aprendi a profissão. No período da manhã eu estudava e à tarde trabalhava. Também concluí o ensino médio de forma regular, sem perder nenhum ano. Após isso fiquei um ano sem poder estudar, pois passei a trabalhar o dia todo e chegava em casa muito tarde (20h) e cansado, mas não podia deixar de trabalhar porque minha mãe não conseguia mais trabalhar por motivos de saúde (problemas de coluna e nervos) e também não podia se aposentar por nunca haver trabalhado com carteira assinada. Então, era praticamente eu que sustentava a casa, e nessa época já não pagávamos mais aluguel, pois o meu avô havia falecido e deixou um terreno grande na roça, que foi vendido e o dinheiro dividido entre os filhos. Com esse dinheiro compramos um terreno e com a ajuda de uma prima da minha mãe, Eneide, e conseguimos construir uma casa. Nesse período eu passei a me engajar em grupos de jovens da Igreja Católica, onde desenvolvíamos trabalhos de evangelização. * Graduando em Engenharia Agronõmica pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 13 Então achei um emprego melhor, como balconista numa lanchonete, onde recebia melhor remuneração e com isso podia ajudar mais em casa. Foi nessa mesma época que senti necessidade de entrar em um cursinho pré-vestibular. Por participar do grupo de jovens da igreja, consegui, através de um amigo, uma vaga em um cursinho pré-vestibular mantido pela Igreja Católica, que era gratuito e direcionado para jovens de origem popular. Mesmo trabalhando, fiz o cursinho à noite e aproveitava as horas vagas no trabalho para estudar. No final de 2003 me inscrevi para o vestibular da Universidade Federal da Bahia (UFBA) no campus de Ciências Agrárias, em Cruz das Almas, que posteriormente se tornaria a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e fui aprovado. Mas aí surgiu um novo obstáculo: o curso para o qual fui aprovado (engenharia agrônoma) era em período integral e isso dificultou as possibilidades de continuar trabalhando, pois eu era o único funcionário da lanchonete. E, além disso, era eu sozinho quem sustentava a casa. Fiquei sem saber qual decisão tomar. Foi aí que minha mãe me deu a maior força para optar pelos estudos. Saí do emprego e entrei na universidade. Quando entrei na faculdade, uma ex-professora e um amigo me informaram que os estudantes tinham direito a uma bolsa alimentação, e que era somente para estudantes que morassem fora da cidade, mas que os que estivessem numa situação muito difícil poderiam tentar concorrer à bolsa, mesmo morando na cidade. Então tentei, e apesar de tudo, consegui. Com isso, os gastos em casa diminuíram um pouco. Minha mãe passou a fazer outros bicos e conseguiu também a Bolsa-Família, um auxílio do governo federal de R$ 65,00 mensais. Uma tia, Enilda, passou a assinar a sua carteira de trabalho, para tentar garantir uma futura aposentadoria. Apesar de todas essas dificuldades, estou feliz e orgulhoso por cursar agronomia e apaixonado pelo curso. Mesmo tendo estudado em escola pública, consegui entrar em uma universidade federal e passei de certa forma a ser uma referência em meu bairro para os outros jovens, pois assim como eu consegui passar, eles também são capazes de conseguir. Desde que comecei a estudar na universidade, me empolguei com as informações relacionadas ao meu curso de agronomia, quando algo dentro de mim me chamou muito a atenção. Sentia uma vontade muito grande de poder dividir com a sociedade, principalmente com os jovens como um todo; tudo aquilo que aprendi e venho aprendendo no meu curso e na minha luta como estudante pobre, vindo de espaço popular e de origem afro. Sempre que chegava da universidade os amigos do meu bairro se aproximavam, e me perguntavam como era a faculdade, como eu havia conseguido entrar, algumas pessoas que nem falavam comigo antes, me paravam nas ruas me desejando parabéns; eu achava tudo aquilo tudo o máximo. Quando estava no 5° semestre do curso fiquei sabendo de um Programa do governo federal, chamado Conexões de Saberes. Procurei mais informações e, quando soube que a idéia era trabalhar com questões sociais voltadas para comunidades populares, me interessei muito pelo Programa. Fiz o processo seletivo, mas veio logo em seguida a decepção, pois não fui selecionado. Fiquei triste, mas não desanimei, pois pessoas muito queridas haviam passado. Passado alguns meses, estava em casa à noite, quando um primo veio até minha casa para dizer que a universidade tinha ligado para ele, dizendo que eu devia comparecer no dia seguinte na coordenação de assuntos estudantis. Fiquei muito curioso, mas nem me lembrava mais do programa do governo, pensei que era por outros motivos. Quando cheguei lá, no dia seguinte, tive uma grande surpresa: fiquei sabendo que tinha sido escolhido como novo membro do programa. Esse foi um dos momentos mais emocionantes, depois de ter sido aprovado no vestibular, em minha caminhada estudantil. 14 Caminhadas de universitários de origem popular Autobiografia Alessandra Regis do Rosário* Sou filha de Antonio Geraldo do Rosário Filho e Maria Lucia Regis do Rosário e tenho Luana e Anderson como irmãos. Nasci em 28 de junho de 1980, na cidade de Valença, interior da Bahia, sendo a primeira filha de uma família de classe média baixa. Graças ao bom Deus, que ilumina nossa família, nunca passamos por dificuldades, meu pai sempre manteve a casa, pois era a única pessoa que trabalhava. Ele nunca teve um emprego fixo, sempre trabalhou para si mesmo como produtor rural e na alta estação - como minha cidade é costeira - ele também trabalhava com venda de mariscos num ponto que meu avô cedeu pra ele, no fundo do mercado da cidade, e minha mãe sempre foi dona de casa. Meus pais não completaram os estudos, só cursaram até a oitava série do ensino fundamental, mas sempre lutaram para que eu e meus irmãos fôssemos mais além. Então, com toda dificuldade e estudando sempre em colégio público, eu e meus irmãos fomos adiante. Minha irmã, mesmo sendo mais nova que eu, está concluindo a faculdade de administração pela Universidade Estadual da Bahia (UNEB) e eu agora entrei na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Meu caminho até a universidade Sempre estudei em escola pública, cursei o ensino fundamental no Complexo Escolar Gentil Paraíso Martins, na época o único colégio de ensino fundamental da cidade. Lembro que ia para o colégio sem nenhuma vontade, sem nenhum estímulo, pois a estrutura docente era precária . Os professores passavam o conhecimento de forma mecânica e me lembro que chegava muitas vezes a ter medo de alguns deles, nesta época acabei repetindo a sétima série, atrasando assim minha formação. No ano seguinte consegui passar para a oitava série e concluí o ensino fundamental. O meu ensino médio cursei em uma escola técnica - Escola Média de Agropecuária Regional (EMARC) onde fiz o curso técnico em agropecuária. Na época era considerado ensino médio, optei por fazer este curso pensando em ajudar meu pai. Foi uma época mais animadora em minha vida, pois a escola tinha uma estrutura bem melhor do que a outra, que eu tinha cursado o ensino fundamental. Porém, no final do curso, vi que não era aquilo que eu queria seguir e fiquei um pouco desesperada, pois agora a responsabilidade caía um pouco sobre mim. Tinha chegado a * Graduanda em História pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 15 hora de retribuir um pouco a meus pais do que eles tinham feito por mim todo aquele tempo e ajudá-los nas despesas, pois agora chegava a hora de meus irmãos estudarem também, então deixei de lado os conhecimentos que tinha aprendido no segundo grau (pois a dificuldade de conseguir emprego na área era grande) e fui procurar emprego no comércio da cidade. Não foi fácil, como não consegui resolvi fazer um teste de seleção na outra instituição de ensino da minha cidade, o Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia (CEFET), passei e comecei o curso técnico em turismo, pois era uma área que estava gerando muito emprego na cidade, pela vocação como cidade turística. Comecei o curso, que era noturno, mas não desisti de procurar emprego e acabei conseguindo um estágio na própria instituição, onde exercia a função de monitora do laboratório de informática e recebia uma bolsa de meio salário mínimo. Lá pude também aprender computação e esta bolsa foi de grande importância para mim, pois além do conhecimento tinha a ajuda de custo que me auxiliou muito. Após o final do curso, e conseqüentemente o final da bolsa, consegui um emprego no comércio da cidade como vendedora em uma loja de calçados. Este trabalho tomava praticamente todo o meu tempo, então parei de estudar e só tinha tempo para o trabalho, que era muito cansativo e muitas vezes humilhante, devido às muitas cobranças dos chefes. Nesta época minha irmã passou no vestibular e entrou na universidade. Foi um momento muito feliz para mim e para meus pais, que ate então não tinham noção do que era a filha de um produtor rural e de uma dona de casa na universidade. Essa vitória de minha irmã foi cada vez mais me estimulando, cada degrau que ela alcançava me deixava mais interessada e feliz, de certo modo eu me realizava com as conquistas e descobertas dela. E foi ela mesma que me incentivou a voltar a estudar. Foi aí que resolvi entrar em um cursinho pré-vestibular: trabalhava durante o dia e fazia o cursinho à noite, e logo no começo me senti muito feliz por estar ali, lutando por um sonho, porém muitas vezes chegava muito atrasada e cansada e não conseguia assistir as aulas. Além disso, por eu ter optado por fazer meu ensino médio em escola técnica, deixei de lado muitas matérias que eram de suma importância, essenciais para o vestibular, como física, química etc. Daí, quando os professores do cursinho passavam estas matérias me sentia totalmente aérea, com os assuntos que nunca tinha visto. Isso me desanimava muito e eu pensava que nunca iria passar no vestibular. Infelizmente, devido ao cansaço e os horários irregulares, acabei desistindo do cursinho. Assim, como era de se esperar não passei no vestibular. A grande decisão Mesmo com a derrota do primeiro vestibular, não tinha desistido do meu objetivo, que era entrar na universidade. Depois de cinco anos de trabalho e sem perspectiva de melhora, veio em minha mente uma idéia: largar o emprego e me dedicar exclusivamente ao vestibular. Cheguei em casa e comentei com meus familiares a minha decisão de sair do trabalho, sabia que seria uma decisão que poderia me trazer muitas preocupações, pois não poderia ajudar nas despesas da casa e nem mesmo nas minhas próprias despesas. Minha família, apesar das dificuldades que iríamos enfrentar, me deu o maior apoio e disse que eu poderia sair do trabalho o correr atrás dos meus objetivos. Nesse momento não posso deixar de falar na pessoa que é a razão do meu viver: minha mãe, que acredita em mim até mais do que eu. Ela me deu toda força e incentivo. Então a decisão estava tomada: saí do 16 Caminhadas de universitários de origem popular trabalho e comecei a estudar. Com o dinheiro da minha rescisão de trabalho paguei o cursinho pré-vestibular e aí pude chegar no horário, sempre disposta a aprender tudo nas aulas, além de estudar em casa também. Passaram-se oito meses, tinha chegado finalmente a reta final do cursinho e as provas de vestibular. Nessa época o dinheiro que eu tinha recebido já havia acabado, então como já estava mais segura do vestibular resolvi voltar a trabalhar. Consegui outro emprego, bem mais maleável que o antigo, e comecei a viajar para fazer vestibular. Eu tinha me escrito em duas universidades – a Universidade Estadual da Bahia (UNEB) para o curso de pedagogia e a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) para o curso de história, que era o meu curso preferido. Fiz as provas, fiquei meio apreensiva, mas com muita fé fiquei aguardando o resultado. O grande dia Lembro que entrava na internet todos os dias na esperança que o resultado saísse antes que o previsto mas via que seria realmente na data prevista. Exatamente no dia que eu não tinha entrado na net foi quando saiu o resultado. Eu estava no trabalho e logo que a loja abriu minha amiga Selma me deu os parabéns, dizendo que eu passei no vestibular da UNEB. Eu fiquei sem graça e trêmula, agradecia muito a Deus pela vitória de estar dentro de uma universidade. Fiquei a manhã toda ansiosa para chegar a hora do almoço e contar a maravilhosa notícia para minha mãe e pra minha família. O que eu não sabia é que Deus tinha me reservado uma surpresa ainda maior. Depois da comemoração de ter passado em um vestibular e confirmado que tinha valido a pena todos os meus esforços e abdicações, outro amigo meu me ligou e disse que tinha saído o resultado da federal e eu tinha passado também. Eu não acreditava naquilo que eu ouvia, era muita felicidade para uma pessoa só (chorei muito junto com minha mãe, pois tinha passado na UFRB para o curso dos meus sonhos, foi o dia mais feliz da minha vida). Depois da euforia havia chegado à hora de pensar como eu iria estudar, pois a universidade ficava em outra cidade e seria difícil achar um lugar para morar. Então minha irmã entrou em cena mais uma vez: ligou para uma amiga dela que morava próximo de Cachoeira e perguntou a ela se eu poderia passar um tempo em sua casa. Ela disse que eu poderia ficar quanto tempo quisesse, então mais uma vez larguei tudo e fui atrás dos meus objetivos. Logo quando entrei na universidade tive a oportunidade de me inscrever na seleção para bolsista de um projeto maravilhoso que é o Programa Conexões de Saberes, no qual fui selecionada e fiquei muito feliz não só pela ajuda de custo que me proporcionaria como também pela maravilhosa experiência de poder passar para muitos jovens a minha história de vida e incentivá-los a correr atrás dos sonhos deles, mesmo com muitas dificuldades que nós sabemos que são inevitáveis, principalmente para estudantes que são oriundos de comunidades pobres e de escolas públicas. Veja, não diga que a canção está perdida Tenha fé em Deus tenha fé na vida Tente outra vez. Raul Seixas Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 17 Em busca de um sonho Anderson dos Santos da Silva* Vou contar a história de um jovem que lutou bastante para conquistar seu sonho. Foram muitas as barreiras que ele encontrou no caminho, porém superou cada uma delas e correu como um verdadeiro atleta, a fim de alcançar seu objetivo: entrar na faculdade. A princípio gostaria que você, leitor (a), o chamasse de Silva. O jovem Silva é de uma família simples e humilde de interior da Bahia. Sua mãe, Railda, uma senhora amigável e uma mãe formidável, teve três filhos. O Aprígio, o mais velho, o Ademir (que após contrair uma doença ficou mudo e surdo) e o caçula Silva. Seu pai chama-se Dermeval, um senhor que segundo sua mãe cercava seu filho caçula de todo amor e carinho. Silva não conheceu a figura paterna, pois o pai morreu quando ele tinha três anos de idade. Não digo que foi uma dor para esta criança, pois ela desconhecia o significado desta palavra. Railda, mesmo abalada com a morte de seu marido, decidiu cuidar dos três filhos. Tornou-se não só mãe, mas - porque não dizer - um pai também. Era uma guerreira, uma mãe brasileira, uma mulher que mesmo viúva lutou pelo bem-estar dos seus filhos. Ela encontrou dentro de casa uma ajuda fundamental na criação das crianças: seu filho mais velho, Aprígio. Este, por sua vez, começou a trabalhar cedo para ajudar a pagar as despesas de casa. Surgia então um batalhador, um exemplo. Batalhador sim! Travou uma luta nada fácil, por ter que conciliar trabalho e estudo. Quantas noites mal dormidas teve este jovem, afim de que seus irmãos ficassem bem. A ajuda dele foi indispensável para a criação da família. Mas passados alguns anos e muitas lutas de sua mãe e irmão, chega a época de Silva começar seus estudos numa escolinha chamada Menino Jesus. Os primeiros anos foram difíceis para ele, por não conseguir entender o significado de estudar; deu muito trabalho para seu irmão e sua mãe. Uma das frases que ele não cansava de repetir era que “escola não dá futuro”. Ledo engano. Essa fase turbulenta de Silva passou, e o Colégio Virgílio de Senna, onde cursou o primário, lhe ajudou a amar e admirar os estudos; a partir de então Silva teve uma verdadeira história de paixão com o conhecimento, mesmo com o Virgílio de Senna deixando a desejar com relação à estrutura. Em meio a tudo isso o jovem Silva concluiu as quatro séries iniciais neste colégio e passou a estudar em outro colégio, chamado Senador Pedro Lago. Mas antes de passar para a quinta série, Silva passou as férias de fim de ano com sua tia Almira Nunes, irmã de sua mãe, e conviveu com seus primos Adenilse (Lila) e Isaias (Sassá), além do tio Antônio Carlos, um policial militar. O que era para serem férias acabou se * Graduando em Comunicação Social pela UFRB. 18 Caminhadas de universitários de origem popular tornando a realidade de Silva, pois ele vive até hoje com essa família. Você acha que ele abandonou sua mãe? Claro que não! Ele vive entre a casa de uma e outra mãe. Tia Almira tornou-se uma segunda mãe para ele. Foi ela que, também uma guerreira, o levou a conhecer o mundo à sua volta. Enquanto uma das mães o superprotegia (Railda) a outra o ensinou a encarar seus desafios e medos (Almira). No Colégio Estadual Senador Pedro Lago o amor de Silva pelos estudos aumentou mais ainda. Era um colégio com novos professores, amizades, aprendizagens. E mesmo com tanta novidade, o colégio caía aos pedaços, o que levou os alunos a serem transferidos até a conclusão de uma reforma local. Apesar das condições precárias de infra-estrutura, ele aprendera muitas lições que pôde levar para o ensino médio no Centro Educacional Teodoro Sampaio. O Teodoro Sampaio foi mais um colégio público na vida de Silva; mesmo assim, era uma fascinação a cada aula, a cada seminário, havia uma verdadeira emoção no ato de estudar. Porém, nem tudo eram flores: havia também as dificuldades com alguns professores e muitas vezes a má qualificação e a falta de responsabilidades dos mesmos. Passados três anos, ele concluiu o ensino médio em 2004 e, a partir daí, começou a busca pelo seu sonho, o ensino superior. Inscreveu-se num programa do governo federal, Universidade para Todos, e obteve uma vaga. E neste momento começou a dimensionar o quanto era grande a “brecha” entre o ensino público médio e superior. Ele percebeu, na prática, que havia muitos assuntos do ensino médio que o vestibular cobrava e que ele não tinha a mínima noção. Então ele começou a esforçar-se bastante para tapar os espaços que o ensino médio deixou. Foram muitas madrugadas afora com a cara nos livros, para ver se conseguia pelo menos tornar-se competitivo no vestibular. Participou do processo seletivo do Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET), para um curso técnico, de nível médio: foi aprovado, mas não era isso que queria. O CEFET era apenas um aperitivo perto do seu sonho. Ele cursou parcialmente, mas não desistiu de entrar na faculdade. Logo após inscreveu-se no vestibular da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador e passou na primeira fase. Parecia que alcançaria seu sonho. Após fazer a segunda etapa, com todas as dificuldades, foi saber no que deu: REPROVADO. Mesmo com a derrota, o que ele não podia era desistir, de seu sonho. Desta vez tentou a Universidade Estadual da Bahia (UNEB), novamente em Salvador, e achou que desta vez seria diferente, estava confiante, tinha que ser aprovado. Passados alguns dias saiu o resultado, e por incrível que pareça ele foi REPROVADO. Uma tristeza total para ele, sentia-se incapaz, temia não conseguir nunca. Mas sabia que só não alcançaria seu sonho se parasse de tentar! Foi tentar em outra cidade, na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), e durante os três dias de prova acordava às quatro horas da manhã e pegava o ônibus às cinco. Depois de toda correria para realizar as provas, saía a lista de aprovados, e seu nome... não estava lá, REPROVADO mais uma vez. Já dá para imaginar como estava difícil para ele, após três derrotas consecutivas, o quê fazer? O que você faria, leitor(a)? Desistiria de seu sonho? Silva jamais desistiria, e é por isso que escolhi a história dele para vos contar. Ele continuou em busca do seu sonho. Cursou por mais um ano o Universidade para Todos, aprendendo e revisando todos os assuntos. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 19 Em seguida procurou pela isenção da taxa do vestibular da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), e conseguiu pela quarta vez obter uma isenção. Fez sua inscrição para o curso de Comunicação Social, e pela primeira vez concorreria a um curso que o agradava. Finalmente chegou o dia da prova, fez a primeira fase e conseguiu ser aprovado. Desta vez não se alegrou tanto como da primeira vez, mas estudou bastante, afim de não ser reprovado como das outras vezes. Realizou a segunda fase e, após alguns, dias saiu o resultado. Ele estava com muito medo do que poderia estar escrito lá, temia mais uma vez ser reprovado, estudou muito e passar era tudo que mais queria. E quando tomou coragem para ver o resultado, contemplou o que assim poderia estar escrito como uma notícia de jornal: “Depois de dois anos tentando ser aprovado numa universidade pública, após perder a vaga em três vestibulares consecutivos, o jovem Silva é APROVADO no processo seletivo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, para o curso de Comunicação Social”. Finalmente Silva alcançou seu sonho, mas tenham certeza, muitos outros virão. E sabe por quê? Silva vai em busca de seu sonho. Ah! Quase esqueci seu nome... Anderson dos Santos da Silva, atual membro do Conexões de Saberes e o mesmo que vos escreve. 20 Caminhadas de universitários de origem popular Memorial André Bruno Santos da Anunciação* Eu prefiro ficar com os gestos a me perder com as palavras. Intuo a docilidade dos versos, a versificação da alma. Tua rima é doce, teu propósito é suave. Melindra no campo das flores, escorre saudades. Espero, um dia, amadurecer-te e coser-te de detalhes, encher-te de brilho. Tomara que venha à minha boca e que eu não fale bobagens. Faça-me entendê-la clara e precisa, que eu a compreenda leve e tranqüila, mas não sucumba a tua verdade, doce palavra. André Bruno Santos da Anunciação Histórico e caminhadas Meu nome, antes de eu nascer, já estava certo, iria ser Bruno, se menino; Poliana, se menina; depois que eu nasci, acrescentou-se o André por convenção de minhas outras duas irmãs primogênitas, Andréia e Adriana, ficando assim, André Bruno. Há 24 anos eu nascia em Salvador, capital baiana. Era fofinho, bem cuidado e todo mundo queria um pedacinho meu. Talvez este tenha sido o meu primeiro momento entre tantas pessoas juntas. Sou filho de mãe solteira. Sou fruto da convivência quase efêmera entre minha mãe e meu progenitor. Minha mãe trabalhava como auxiliar de contas médicas no Instituto de Dermatologia e Alergia da Bahia (IDAB) quando conheceu o meu pai, que era funcionário público do município onde nasci. Namoraram por, mais ou menos, dois anos, até que eu nascesse e ele se eximisse de sua responsabilidade sobre mim quando descobriu que ela, sua namorada, aguardava um filho seu. Embora o fato de ser mãe solteira tenha começado anos antes de eu nascer e ganhado maior impulso nos anos seguintes ao meu nascimento, mulheres de muita coragem como minha mãe já executavam a difícil tarefa de ser mãe e pai ao mesmo tempo. * Graduando em Engenharia Agronômica pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 21 Estudei sempre em rede pública de ensino. Fui aluno de creche, onde aprendi, entre outras coisas, a cantarolar. Coisa que faço até os dias de hoje debaixo do chuveiro. Não me arrisco em público. Tive uma passagem breve por duas escolinhas de ensino pré-primário que eram particulares, mas nada que onerasse as despesas de minha família (que era basicamente composta por mim, minhas irmãs, minha mãe e minha avó [que guardo com muito carinho em minha memória]). Depois desse período pré-silábico, eu passei os anos áureos de minha infância na Escola Vila Vicentina – Vicentina em homenagem a São Vicente de Paula – que apesar de ser Católica, o ensino era gratuito, pois havia um convênio entre a igreja e o Governo do Estado. Entrar lá foi o meu primeiro grande sacrifício, pois embora fosse de caráter público, o ensino era de excelência e exigia-se muito para ingressar nela. Eu saí do pré-primário sem base alguma, e uma das exigências da escola era que soubéssemos ler, escrever e fazer continhas. Mas eu não sabia, absolutamente, nada. Acabei por ser alfabetizado por minha mãe, em casa, sob beliscões, safanões, xingamentos etc., bem ao modo em que ela aprendera. Mas eu só tenho a agradecê-la por tudo, pois me motivou a querer mais e a perseguir isso. Havia todo um rito de entrada, saída e permanência nas dependências de lá. Entrávamos enfileirados, executando alguma canção católica propícia do mês, a caminho do pátio maior do antigo convento, onde ficávamos de frente à matriarca da escola (católica-nata) que nos regia, como ninguém, acalmando nossos ânimos com as canções que tratavam de amor, perdão, paciência e paz, seguidos de sermões às vezes dados por ela própria, pelo Monsenhor, ou mesmo pela secretária paroquial do Monsenhor. Ainda me lembro com muito carinho de uma que dizia assim: Eu te peço perdão, meu Deus; Se não perdoei, se não obedeci; Se não parei para agradecer: O meu despertar, o meu viver, Minha alegria de brincar E o meu sonho gostoso À noite, ao deitar. Se era mês mariano, cantarolávamos à Virgem Maria; se era a Páscoa, ressentíamos o nascimento e a paixão de Cristo... Duas pessoas muito importantes A primeira, minha avó, a segunda, minha madrinha (aliás, meus padrinhos). Falar de seres tão angelicais, ternos, amigos como minha avó e minha madrinha é me remeter, assim como em todo momento anterior, a um mundo que me traz muitas boas recordações: essas duas pessoas (ou melhor, três, com o meu padrinho) sempre estiveram bastante presentes em minha vida. Tanto minha avó como meus padrinhos eram aquele ombro amigo com o qual podia contar e ter em troca palavras confortáveis, animadoras, amorosas e de esperança. Por diversas vezes, ambos, socorreram-me. Sinto falta de minha avó querida! Meu padrinho é a figura mais próxima que tenho de um pai, minha madrinha é uma segunda mãe, grande amiga. 22 Caminhadas de universitários de origem popular Origem e manancial Sou oriundo do índio (do mato) e do preto (escravo e quilombola), com raízes fincadas no Sul e Recôncavo da Bahia. A universidade me deu a oportunidade fazer o caminho que os meus ancestrais não puderam fazer, por serem negros e, por isso, não tinham “alma” (negro vem do latim que quer dizer “coisa sem alma”). Como poderiam ter direito à educação, se nem alma eles podiam ter? Minha tataravó era índia que fora trazida por “focinho” (estrutura análoga a uma boca) de cachorro a um quilombo (de história e elenco perdidos) que havia aqui no Recôncavo, antes mesmo de haver a circunscrição política de Cruz das Almas. Meu bisavô, Tomás Nogueira, negro alto, espigado, nascera livre, no mato, provavelmente em algum quilombo, pois nascera por volta dos anos 1840, morrendo por volta dos anos de 1960, com cento e quinze anos de idade em Cruz das Almas, cuja causa mortis dada pelos seus foi “uma feridinha no pé.” Lutas Comecei a “lutar” (executar atividade remunerada) desde os dezesseis anos de idade com a oportunidade do meu primeiro emprego, chance que tive ao ser selecionado por concurso mirim para ser estagiário da Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia, onde levei um ano sob contrato. Aos dezessete, quase dezoito, tive o meu primeiro emprego com a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) assinada em Clínica Oftalmológica, depois na Vivo Telecomunicações. Nunca fui ativista de movimentos sociais, contudo encetei a primeira turma de instrutores de um Curso Pré-Vestibular da Organização de Auxílio Fraterno (OAF), mantido pelo Ministério da Educação (MEC), através do Programa Inovadores de Cursos (PIC) e Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), voltado, em especial, para os negros e jovens em situação de risco social. Nem por isso deixei de estudar, eu queria mais, mais do que os meus antepassados haviam conseguido ou tentado, eu queria uma carreira acadêmica, uma formação intelectual, social e política... O meu primeiro vestibular foi para Ciências Contábeis no Instituto de Educação Superior Unyhana Salvador (IESUS), onde passei, mas não cursei. A instituição era particular e eu só o fiz porque fui isentado da taxa de inscrição. Eu continuei estudando. Queria ser militar, e, por isso, inscrevi-me no curso preparatório para a Academia Superior de Armas do Exército Brasileiro, que tinha sede no Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET), mas quando faltavam quatro meses para concorrer a uma vaga para cadete na Academia Superior de Armas (ASA) - Escola de Formação Militar das “Agulhas Negras”, que é uma instituição de formação militar da Marinha do Brasil, desisti, fazendo o meu primeiro vestibular federal para a Escola de Agronomia, que pertencia à Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas que agora compõe um dos campi da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), onde curso. Assim como eu pretendia antes de entrar na universidade, continuo perseguindo os meus sonhos (que eram: independência, ascensão social, crescimento intelectual, moral, humano...) e tenho certeza de que chagarei lá, unindo à minha profissão, a minha realização pessoal de estar fazendo o que gosto (em breve, ser engenheiro agrônomo). Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 23 Meus relatos Bruna Maria Santos de Oliveira* Meu nome é Bruna Maria Santos de Oliveira, sou de Barreiros – Distrito de Riachão do Jacuípe, na Bahia, e vou contar alguns relatos de minha vida, talvez comuns a tantas outras marcada por uma trajetória de dificuldades e conquistas. Tudo começou com o namoro de dois jovens, Odenice e Orlando, meus pais biológicos. Nasci prematura de sete meses, na casa de meus avós maternos, sem nenhuma condição favorável para um parto. Tive problemas de saúde que quase me levaram à morte, sobrevivi graças a Deus e aos cuidados de minha família. Por esses e outros motivos, quando tinha alguns meses de vida, fui morar na casa de meu avô paterno, cuja morte ocorreu após dois anos, e minha ida pra lá, que era pra ser por alguns dias, ficou em definitivo, pois continuei lá morando por toda a minha vida. Essa talvez tenha sido a parte mais difícil e prazerosa de minha vida, pois ganhei uma família maravilhosa composta de uma mulher (segunda mulher de meu avô) que até faltamme palavras para descrevê-la, cujo nome é Maria de Jesus Ferreira, minha mãe ou, como costumo chamá-la, “mainha”. Uma mulher batalhadora, guerreira e muito forte que criou seus sete filhos, que são meus tios-irmãos. “Mainha” além de mãe, foi o pai de seus filhos, netos e de algumas crianças que “apareceram” como eu. Trabalhou durante toda sua vida como lavradora para sustentar a todos e não tinha nem os domingos para descansar. Mesmo não sabendo ler e escrever e das demais dificuldades, sempre nos mostrou a importância dos estudos. Sempre dedicou seu amor e cuidados pra mim igual aos seus filhos. Lembro-me dos cuidados especiais - e até exagerados - que recebia por causa dos meus ataques de bronquite asmática e das muitas vezes onde todos “perdiam” noites e dias em revezamento para cuidar de mim, faltando até mesmo nos seus trabalhos, pois desde muito cedo todos já lidavam com isso para ajudar na renda familiar, tudo para dedicar total atenção a mim. Lembro-me também com muitas saudades das belas tranças que eram feitas em meus cabelos ao domingos, dia este em que eles eram lavados sempre às dez horas da manhã, quando o sol estava “quente”, pois tinha que ficar aquecendo-me para secar mais rápido. Nesses momentos, como em tantos outros, parecia até que o mundo todo parava para dedicar-me amor, carinhos e segurança, e foi assim ao logo de minha vida. Estudei durante toda minha vida em escolas públicas, etapa maravilhosa e marcante, onde comecei a traçar meus objetivos e conviver com pessoas que me ajudaram em tal * Graduanda em Engenharia Agronômica pela UFRB. 24 Caminhadas de universitários de origem popular trajetória. Concluí o ensino médio em 2004, apesar das dificuldades, pois além da falta de preparação de alguns professores, não existia na comunidade uma sede própria e adequada para o único colégio de ensino médio do lugar. Para tal finalidade foi utilizado um galpão de um ex-supermercado, desativado por falta de estrutura física, e tive também que trabalhar durante o período escolar para ajudar na renda familiar, o que não foi motivo para interromper meus objetivos. Em decorrência da falta de oportunidade de emprego e estudo em Barreiros, em janeiro de 2005, fui pra Feira de Santana fazer um Curso Técnico em Agropecuária pela Fundação Bradesco, que a princípio foi apenas a primeira oportunidade que encontrei pra continuar estudando. Entretanto, me apaixonei pela área de atuação, que conseqüentemente foi responsável pela minha escolha profissional: a Engenharia Agronômica. O curso técnico me proporcionou também a oportunidade maravilhosa de morar com meu irmão Paulo Marcos, com quem até então tinha pouco contato. Foi nele que encontrei também total apoio para continuar estudando, pois ele é uma pessoa maravilhosa e um dos meus exemplos. Após concluir o curso técnico, fui trabalhar em uma ONG, o Movimento de Organização Comunitária (MOC). Meu trabalho era em Itiúba, na Região Sisaleira, desenvolvendo atividade com jovens e familiares baseado em agricultura familiar, agroecologia e crédito, com objetivo de melhorar a qualidade de vida e geração de renda das pessoas daquela região. O MOC foi uma academia importante em minha vida, pois a partir dele tive a oportunidade de me envolver verdadeiramente com os movimentos sociais e causas que até então só me envolvia como coadjuvante. Me possibilitou também conhecimentos e momentos que me ajudaram não apenas profissionalmente, mas também pessoalmente, graças ao convívio com pessoas e lugares que me possibilitaram tal papel. Conquistei e fui conquistada por várias pessoas e construí muitas amizades. Afastei-me do trabalho por causa da universidade, pois não tinha como conciliar o trabalho com os estudos acadêmicos por serem em municípios diferentes e distantes, pois Itiúba, fica aproximadamente 400 km de Cruz das Almas, onde está o campus de Engenharia Agronômica da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Consegui, apesar de muitas dificuldades, ingressar na UFRB e fazer o curso Engenharia Agronômica. Consegui quebrar o paradigma que existe na cabeça de muitas pessoas de que a universidade, apesar de pública, não é para todos. Realmente faltam políticas afirmativas contínuas e intensivas para erradicar as desvantagens que os grupos sociais de baixa renda enfrentam ao longo da história e que dificultam sua inserção igualitária na competição social, como ingressar e permanecer em uma unidade pública de ensino superior. Pois os cursos oferecidos, na maioria das vezes, possuem um turno integral diurno, ficando quase impossível conciliar trabalho e estudo. Isso muitas vezes define os que podem continuar e os que sacrificam o estudo. Sei também que a caminhada é longa e que entrar não foi o maior desafio: concluir e enfrentar o competitivo mercado de trabalho será ainda mais duro. O meu ingresso na UFRB possibilitou-me o conhecimento do Programa Conexões de Saberes, que despertou meu interesse não apenas pela possibilidade de ganhar uma bolsa que iria ajudar a manter-me na universidade com menos dificuldades financeiras por um período de tempo, como também pela proposta de poder ajudar e contribuir no crescimento de pessoas de classes populares como a minha. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 25 Sem dúvida, os maiores responsáveis pelo meu sucesso foram minha mãe Maria, meu irmão Paulo Marcos, minha família, alguns professores e amigos, que com certeza sabem da contribuição que tiveram durante minha vida. Fica aqui registrado o meu muito obrigada por terem me incentivado sempre e acreditarem em mim. Agradeço principalmente a Deus por te me dado a vida e a possibilidade de conviver com pessoas maravilhosas e poder conquistar meus objetivos. 26 Caminhadas de universitários de origem popular Caminhos cruzados: muitas vidas, uma história Texto a 16 mãos Introdução São quase seis da tarde. As aulas já acabaram faz algum tempo. As salas estão vazias, chorando de saudades da euforia que há pouco tudo preenchia e agora se transforma em um vazio amistoso entre a angústia e o descanso. Olhando ao redor não se vê uma alma sequer. Já foram todos embora para seus afazeres, para suas tendas, para suas famílias. As luzes do pátio já se encontram apagadas e seria difícil encontrar direção caso a luz da saída não ficasse costumeiramente acesa, servindo de bússola. Parando no meio do pátio e fazendo ecoar três palmas seguidas, logo surgirá em meio ao breu um dos porteiros, seu Gerson ou seu Josafá, em dias alternados. O primeiro magro, queixo fino, olhos grandes, semblante amigável. O outro roliço e contente, pronto para servir. Ambos negros - como a maioria dos brasileiros -, vagam pelos corredores à espera do vigia noturno que chega às sete. Está tudo vazio. O silêncio é sonoro. Se apurar os ouvidos um instante, perceberá um burburinho ao longo do corredor. Descendo as duas escadas, chegará à frente de uma sala, às vezes a porta encontra-se aberta, outras vezes não. Será fácil perceber que nem tudo é silêncio. Nessa sala, em um grande e irregular círculo, senta-se um pequeno grupo de jovens atentos. Descobrir-se-á, em meio a muitas vozes, risos, contos, histórias de vida e de superação, trajetórias que se cruzam perfazendo um desenho único. Esses jovens passaram por muitas dificuldades. Fizeram dos obstáculos um meio de preparação para a vida, do estudo um alicerce e da negritude um orgulho de viver. São negros e pobres, critério imprescindível para compor o grupo de contemplados pelas políticas afirmativas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB. Guardamos lembranças maravilhosas, sonhamos, fazemos gracejos. Nossas histórias são bem parecidas, mas não são iguais... Não somos iguais, pois uns são bolsitas da Fundação Clemente Mariane e outros do Programa Conexões de Saberes. Vivemos em lugares diferentes, cidades diferentes, temos famílias diferentes, cursos universitários diferentes, mas também somos parecidos... estudamos em escolas públicas, tivemos o mesmo sonho de ingressar na universidade, moramos em bairros populares, temos histórias marcadas pela desigualdade social e discriminação racial, somos protagonistas de nossas histórias, somos negros e negras que, historicamente excluídos, resolveram responder com a inserção, daí que desejamos incluir os bolsitas da Fundação Clemente Mariane com trajetórias semelhantes às nossas, que, na verdade, entrelaçam-se com nossas vidas. Por isso realizamos o desafio de escrever esse texto a 16 mãos! Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 27 Infância O cheiro da terra preenche o ar. Terra molhada, chuva forte, incessante... dá vontade de ver um filme, comer pipoca, ficar enrolado no cobertor quentinho, olhar da vidraça a chuva caindo na calçada, levando as folhas do chão na rua silenciosa. No entanto, numa casa de pau-a-pique, chão batido e coberta por palhas, a chuva não inspira momentos alegres... pai, mãe e quatro filhos... todas as crianças foram debaixo da mesa. Lá permaneceram até a chuva passar. Na zona rural de Mutuípe a vida não era fácil. Ora comiam banana verde cozida em rodelas, ora comiam um ovo dividido para seis pessoas, e carne fresca só quando o pai fosse, no sábado, comprar uma cabeça de boi na feira. A menina olhava impotente com os olhos marejados e irritados pela fumaça, o fogo a consumir suas lembranças e o trabalho de seus pais. Era a segunda vez que a casinha de paua-pique ardia em chamas. Da primeira, reduziu os sonhos da família a cinzas. Da segunda, a fumaça causou insuficiência respiratória no caçula. O fogo, então, lhe roubava a vida. Seu pequenino irmão morrera. Uma mesma vida, outras experiências. Um sorriso maroto e sapeca alegra seu rosto e ilumina qualquer coração angustiado. A menina brinca com os irmãos... faz comidinha de ervas silvestres, fabrica bonequinhos e animais de chuchu com pernas e braços de taliscas de café, corre feliz pelas campinas verdes... não se queixa da vida nem da sorte. Rosiane Teixeira sorri e encanta, sabe o que é sonhar. Na zona urbana de Amargosa tinha uma rua com muitas crianças que brincavam o dia inteiro. Brincavam de casinha, amarelinha, comidinha, esconde-esconde, escolinha, desfiles... Daniela amava brincar com a turminha de sua rua. Era tão divertido que Vanessa, moradora de outra rua, às vezes aparecia pra brincar também. Em casa, cantava com uma toalha na cabeça fazendo graça para os pais. Também fazendo graça, Maria Joseni fazia o pai de brinquedo enchendo a cabeça dele de xuquinhas coloridas. Era uma alegria só na zona rural de Ubaíra. Na zona rural de Elísio Medrado não era difícil encontrar Gerlan dentro do panacun, servindo de contrapeso para a lenha, enquanto seu avô seguia puxando o jumento pelo caminho de terra seca. Para o menino, aquele era um divertido e prazeroso passeio. “Ah! Que saudades!” Da zona rural vem o alimento. São das raízes firmadas na terra que brota o sustento não apenas do corpo, mas da cultura e da tradição de um povo. Iranildes e Robenilson moraram em lugares diferentes de Brejões e, após alguns anos, ambos mudaram-se para a zona urbana da cidade. Maria Joseni saiu da roça após conseguir a bolsa do Conexões de Saberes. A sua família continua morando no mesmo lugar. Jailton, Tatiane e Simone viveram na zona rural de Amargosa, mas logo migraram para a cidade. Já Esmeralcy, ainda hoje, vive com sua mãe no campo, nos arredores de Amargosa. Quando a noite cai, no silêncio ela ouve apenas o canto dos grilos, que vêm do mato. Então, pega um papel e uma caneta, senta-se na cama e, à luz de uma vela, começa a escrever a sua história. E assim, fazendo suas as palavras de Cora Coralina, diz: Eu sou aquela mulher A quem o tempo Muito ensinou. 28 Caminhadas de universitários de origem popular Ensinou a amar a vida. Não desistir da luta. Recomeçar na derrota. Renunciar as palavras e pensamentos negativos. Acreditar nos valores humanos. Ser otimista. Cora Coralina Como vive no meio rural, encontra-se em estreito contato com a natureza, sentindo-se, muitas vezes, como um pássaro livre. Ali, respira um ar puro e sacia sua sede com a mais pura água de uma nascente que se encontra ao pé da mata, na propriedade da família. Foi ali que aprendera a dar os primeiros passos, fazer os primeiros riscos e, apesar de ter sido uma criança “fechada” e ciumenta, era também feliz, brincalhona e estudiosa, tornando-se, hoje, uma pessoa simples e humilde. Os mais velhos sempre gostaram de contar para as crianças, na zona rural ou urbana, histórias antigas e de assombração que rendem muitas fantasias, pesadelos e sustos para a criançada, despertando a criatividade e a relação de respeito com as crenças dos antigos. Era um dia especial. A recepção era sempre calorosa: “que milagre é esse você por aqui!?”, a vovó indagava. E com um brilho nos olhos, começava a contar a história que mais gostava: Os cangaceiros eram temidos em toda a região, pois eram valentes. Andavam todo o nordeste. Piauí, Ceará, Pernambuco... e na Bahia eles saíam em bando, assaltando e matando gente rica como coronéis e outras autoridades da época. Eles eram temidos por todos e admirados por alguns. Tinham fama de justiceiros, principalmente Lampião, o líder, com sua mulher e companheira, Maria Bonita. Ela sempre era vista como uma mulher corajosa, com chapéu na cabeça e arma na mão. Lampião e Maria Bonita lutaram juntos até a morte. Iranildes, atenta, ouvia as histórias que a avó contava. À beira do rio Jiquiriçá-Mirim o Sol se põe mais uma vez, e ao adentrar da noite o candeeiro é aceso e colocado sobre a mesa junto ao pequeno caderno. Após um longo e cansativo dia de trabalho, o coração de mãe sabe que passar o conhecimento é uma linda forma de demonstrar amor. Então, a mão calejada coloca-se sobre as mãos pequenas e delicadas que desajeitadas desenham as primeiras letras à luz do candeeiro. Tatiane foi alfabetizada em casa por sua mãe. Sentadas à mesa da pequena sala, Daniela era orientada por sua mãe, que pacientemente ensinava-lhe as letrinhas e os números. Era impressionante como ela aprendia rápido. Orgulhosa de ver a filha lendo e escrevendo, a mãe resolveu matriculá-la numa escolinha pública em que havia estudado e, além disso, ficava próxima do bairro em que moravam. As histórias são diversas, mas formam um mesmo mosaico de infâncias que se desenharam na mesma cena social, cada uma com seu colorido, cada uma com sua tristeza. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 29 Trajetória escolar: do ensino infantil ao fundamental A professora ficava na porta recebendo os pequenos alunos, a mãe ia levando pela mão a garotinha Iranildes para o primeiro dia na escola. Robenilson era muito pequeno para ficar num lugar com tanta gente, então, no rostinho assustado, começaram a escorrer lágrimas incessantes, fazendo o pequeno adormecer... só despertou quando a mãe chegou para buscá-lo. Não muito diferente aconteceu com Jailton que, ao entrar na escola, as portas foram fechadas e aquele portão grande de ferro foi trancado. Não daria mais para alcançar a mamãe, então no meio do pátio ele entregou-se ao desespero do choro. Rosiane Rodrigues não entrava na escola de jeito nenhum, ficava do lado de fora, entre a curiosidade e a vergonha. No final - indecisão completa - chorava. Simone entusiasmou-se com tudo que via e Silmary fez logo amizade e achou a escola o maior barato! Um “toquinho de gente” iria ser interna no Convento de Santa Clara, em Salvador. Muitas meninas de várias idades olhavam para aquela garotinha recém-chegada. Aquela seria a família de Juliana por muitos anos. Só iria para casa nos fins de semana e se o comportamento fosse satisfatório. Juli era muito pequena para compreender as circunstâncias que a levaram para aquele lugar tão diferente do seu cotidiano. O convento era um lugar de disciplina e oração, mas para a interna, havia tantas obrigações como orações. A imposição religiosa era constante: às 6:00 acordava e rezava aos pés de Nossa Senhora; às 6:10 escovava os dentes e penteava os cabelos; 6:20: esperava até o horário do café; 6:30 era a fila e oração para o café da manhã; 7:00 oração de agradecimento, em seguida vinham as atividades de limpeza e até o fim do dia tantas outras rezas e obrigações... a mãe de Juliana sabia que uma criança pobre, negra e mulher, só venceria na vida através de muito estudo e dedicação. Uma garotinha fofa... saia de prega azul marinho e um shortinho da mesma cor por baixo, blusa branca de tergal, um lindo laço nos cabelos, sapatinhos pretos e meias brancas. Feliz, andava em direção ao educandário Imaculado Coração de Maria, em Amélia Rodrigues, administrado por irmãs missionárias, que ensinavam com dedicação os valores cristãos. Joaninha passou muitos momentos bons no educandário, mas certo dia sumiu uma lapiseira 0,7 mm na sala, e a dona da grafite asseverou: “só saio daqui quando aparecer minha lapiseira!” Não precisa dizer que essa era a menina mais chata da turma. Todos procuraram em seus pertences, e as irmãs também revistaram e olharam a bolsa de todos, um por um. Entrevistaram cada aluno, individualmente, inquirindo sobre o objeto. No entanto, nem o culpado nem a lapiseira apareceram. Então, as férias de São João terminaram em sabatina e limpezas do pátio das 8h às 17h. Acontece que no meio do pátio, entre o cimento, nascia um capim. Ajoelhadas, sol quente, arrancavam o matinho, assim como quem paga um pecado que não cometeu... Aos sete anos, sua mãe a matriculou na alfabetização numa escola da zona urbana, porém a professora percebeu que a pequena já estava alfabetizada e a transferiu para a 1ª série. Na sala, tudo lhe parecia estranho e confuso, pois seus colegas lhe olhavam com desconfiança. Quase nada a inibia, a não ser um colega que todos os dias ao término das aulas cercava-lhe e tentava agredi-la fisicamente. Este dilema se estendeu por vários e vários meses, até que um dia, Tatiane disse a si mesma: “Tenho que dar um jeito nisso! Ele não pode continuar me atormentando...!” Então, por mais irresponsável que fosse seu ato, decidiu levar uma faca para a escola e ameaçar o menino. Após isso, ele não mais a incomodou. Depois de ter vivido tal experiência ela aprendeu uma lição que traz consigo em todos 30 Caminhadas de universitários de origem popular os momentos de sua vida, que nossos grandes medos só podem ser superados se enfrentados corajosamente. A pequena Maria Joseni que carinhosamente era chamada de Dodi. Estudava pela manhã e, na volta da escola, as pernas curtas encaravam uma estrada longa de terra, os carros passavam a lançar poeira em seu meigo rosto. Sentia um vazio que parecia consumir a alma. Então, sem outra reação mais espontânea para aquela situação, sentava e chorava em meio às vacas por trás da cerca e, olhando os meninos andando pelo caminho, as lágrimas não solucionavam nada, mas era a única coisa que lhe ocorria naquele momento. Trajetória escolar: ensino médio Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si... as notas da canção não podem ser esquecidas por nenhum dos músicos, pois um erro compromete todo o grupo, a música é um excelente veículo para levar alegria. Robenilson conheceu a música no Colégio Estadual Ana Lúcia Castelo Branco, o que lhe deu a oportunidade de tocar instrumentos musicais e de aprender a reger as experiências vividas rumo às conquistas. • Lave todos os pratos! • Deixe a cozinha limpa! • Tire a poeira dos móveis! • Arrume todas as camas! • Varra a casa! • Lave o banheiro, está imundo! • O menino está chorando mais uma vez...! Esta era uma rotina triste para uma adolescente com muito desejo de estudar... e precisava suportar humilhações, tristezas, dores, aflições, trabalhando como babá e doméstica. Sozinha, naquela casa, servia de alvo para críticas cruéis... sentia-se só, estava longe do abraço da mãe e do olhar protetor do pai. Já não daria mais para agüentar, era hora de Rosiane Teixeira voltar para sua casa, na roça. Ainda não havia raiado o sol, eram 4h da manhã, o sono precisava dar lugar à determinação, estava frio, chovia muito, seria bom ficar debaixo das cobertas... esticou o corpo, passou a mão nos olhos, bocejou, pensou em sonhar mais um pouco, mas para realizar os sonhos era necessário levantar, então vestiu a roupa e seguiu pelo caminho de terra, que era apenas lama a grudar em suas pernas e sapatos. Meia hora depois do trajeto e essa corajosa mocinha chegaria ao ponto para pegar o ônibus que a levaria para a escola na cidade. No caminho de sempre, prestando atenção no pasto, no cheiro forte de esterco molhado, na paisagem que se desenhava tranquilamente à sua frente, surpreendeu-se com um grande animal que desembestava em sua direção. Calafrio, taquicardia, pavor, correu desesperada, afobada e, sem saber medir o susto e a fuga, caiu na lama, lambuzou-se, mas livrou-se da vaca. Estava suja e cansada nos primeiros minutos da manhã, isso não era uma novidade. Dentro da bolsa tinha sempre roupas limpas de reserva, entrou na plantação, trocou de roupa e seguiu a longa jornada em busca da realização dos sonhos que acordada criava. As 4:00 da manhã, em Ubaíra, Maria Joseni também carecia despedir-se do sono e enfrentar mais uma difícil jornada rumo à escola. Como já era de costume nos dias de chuva, a roupa limpa ia dentro da bolsa, pois o risco de cair era grande e sempre acontecia. No dia da entrevista para a seleção do Programa Conexões de Saberes, Joseni chegou na universi- Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 31 dade completamente suja de lama. Havia caído de moto em uma das ladeiras que tinha de subir para chegar em seu destino. A platéia aplaudiu de pé a estréia do jovem grupo de teatro. As pessoas se divertiram muito naquele dia e os atores se sentiam realizados com os sorrisos e aplausos. A partir daquele momento, a paixão pela arte de interpretar nasceu no coração de Naiara, que passou todo o ensino médio desenvolvendo seu talento. Também no ensino médio, Juliana estudava num colégio perto do convento; ela se dividia entre a escola, a casa e as fugidas que dava do convento. Na vida há muitos encontros e desencontros. Em um encontro do colegiado escolar na 5º série do ensino fundamental Jailton e Vanessa tornaram-se amigos. Nas histórias existem planos e coincidências. Em uma dessas, Simone foi colega de Rosiane Rodrigues por muitos anos, vivendo alegrias e tristezas lado a lado. Gerlan era um rapazinho que dava “nó em pingo d’água”. Certo dia armou com os colegas da sala e deu uma tortada na cara da vicediretora da escola. Foi o maior fuzuê! Ele era colega da comportada Esmeralcy. Como Brejões não é uma cidade muito grande, Robenilson e Iranildes foram colegas três anos consecutivos. O mundo se faz pequeno quando quer, e planejando ou não, as conexões sempre acabam acontecendo. Entrada na universidade A filha de uma família de baixa renda não poderia de forma alguma fazer um cursinho pré-vestibular, pois isso significaria muito no orçamento precário da casa. Vanessa estudava sozinha em casa utilizando revistas, jornais e livros emprestados. O primeiro vestibular que fez foi um grande desafio para a moça de 17 anos que acabara de concluir o ensino médio, mas, para sua surpresa, teve resultado satisfatório e está cursando o tão sonhado curso de Pedagogia. As longas noites de estudo não foram exclusividade de Vanessa. Todos os outros tiveram muita coragem e determinação para entrar na universidade, alguns pelo sistema de reserva de vagas, outros não, alguns com cursinho pré-vestibular, outros sem, mas todos, sem exceção, deram duro pra entrar na faculdade! Similar, Iranildes estudava em casa e, com um pequeno grupo de amigas, também almejavam cursar o ensino superior público. Fez algumas tentativas sem sucesso, porém, o momento de realizar seu objetivo estava se aproximando. Fez o vestibular e alcançou a realização. Essas são nossas histórias comuns! Negritude Todos os alunos deveriam se reunir em grupos. E assim foi feito. Havia um grupo com meninas brancas e apenas uma negra. Então em alto e bom som a professora gritou para a menina negra: “Você é muito fraca para ficar nesse grupo de meninas mais fortes que você!” A menina negra e gordinha não sabia o que fazer, estava com vergonha, se sentido muito mal, como se estivesse lhe faltando chão nos pés. Pensava: “como essa mulher, que nem me conhece, pode dizer que eu sou fraca? Fraca por quê?” Triste, abaixou a cabeça em meio àquela cena constrangedora. Fez o trabalho no “grupo dos fracos” que acabou sendo o melhor de toda a sala. Silmary aprendeu a mostrar sua capacidade e determinação, o que iria ser fundamental na formação de sua identidade como negra. No ensino médio, Mary não se atemorizava, pelo contrário, organizava apresentações sobre negritude e fazia exposições orais para todo o Colégio Estadual Pedro Calmon. 32 Caminhadas de universitários de origem popular Certa vez, Gerlan foi assistir a um filme na casa de sua tia. Um amigo negro sentou-se na cama dela. Ao cair da tarde, quando o garoto foi embora, a tia pegou o lençol e lavou com o maior desprezo. Esse acontecimento chocou Gerlan, que não cruzou os braços diante da ofensa. Junto com alguns colegas integrou uma comissão que organizou o Primeiro Desfile da Consciência Negra, onde propuseram um evento que mostrasse o valor, a cultura e a beleza do negro. Chegou a uma loja para fazer um pagamento. Todos a olhavam com desconfiança e uma apreensão tomou seus passos, que divagavam em direção ao caixa sob olhares atentos e desconfiados. A funcionária da loja, depois de muito fazê-la esperar, perguntou com indiferença: “Você veio pagar algo do seu patrão? Qual é o nome dele?” Abateu-lhe uma tristeza e uma revolta que a levaram às perguntas que não calavam em sua mente: “por que me julgam doméstica? Por que a desconfiança? Acham que estou aqui para roubar?” Olhou-se, e na pele encontrou o motivo das suspeitas: por ser negra, não mereceu confiança. Lembrou-se das inúmeras vezes que, ao manifestar qualquer opinião em sala de aula, no ensino médio, era chamada de “negrinha atrevida”. Então, disse com altivez: “Não! A conta é minha mesmo! Eu comprei, trabalhei e posso pagar com meu próprio dinheiro! Você acha que não posso pagar porque sou negra, é!?” As aulas começavam em Salvador. Pais e filhos iam às papelarias comprar os materiais escolares. Juliana entrou na loja e encontrou atendentes aparentemente de origem oriental. Inesperadamente um senhor a convidou a se retirar. “Será que ele achou que eu não tinha condições para comprar? Achou que eu poderia roubar, ou era só por eu ser negra?” Depois de muito pensar, Juliana percebeu que eram as três coisas juntas. Então prometeu a si mesma que jamais se calaria novamente diante de um ato de preconceito. As crianças sentavam ao redor da mesa e Daniela ia explicando as lições, uma a uma. No meio delas havia uma menina que, apesar de ter apenas seis anos de idade, demonstrava atitudes preconceituosas, por isso quanto mais Dani se aproximava mais a menina se afastava. Era uma menina branca que não se esquivava das outras crianças brancas, porém, da professora negra do reforço escolar, ela fugia o quanto podia. Um sentimento desafiador tomou conta de Daniela, que resolveu mostrar à criança que a única diferença existente entre elas era a cor da pele e nada mais. Após muito tempo de convivência e insistência, a criança aprendeu. Hoje ela está crescendo e sempre vai visitar sua ex-professora negra. Daniela não desistiu e contribuiu muito para a formação cidadã daquela criança. Ela segurava com doçura a mão da netinha indo para a missa. No caminho da igreja encontrou uma beata que perguntou: “É sua neta? Mas é tão moreninha?! Que moreninha bonita”. E a avó respondeu: “é minha neta sim, meu chocolate!” E não era apenas na rua que a estranhavam. Na sua própria casa alguns parentes diziam: “você foi trocada no hospital!” Isso acontecia por que a família materna inteira possuía pela clara e apenas sua mãe tinha se relacionado com um homem negro, gerando uma filha negra, consequentemente discriminada. A confusão na cabeça da criança ficava completa por não ter contato com a família paterna, restando-lhe apenas enfrentar os preconceitos na casa de pessoas de pele branca. Hoje, Naiara não se importa com os comentários sobre suas origens, pois se declara negra e orgulha-se disso! Na Escola Santa Bernadete, em Amargosa, no censo escolar, uma pergunta foi lançada para o rapaz: “qual seu pertencimento étnico-racial?” Ele rapidamente respondeu: “negro”. A professora, espantada, exclamou: “você é pardo!” Depois de uma longa Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 33 discussão, Jailton foi declarado como pardo por determinação da professora, gerando muitos conflitos no rapaz. No colégio sempre havia aqueles que cantavam musiquinhas de provocação às crianças negras, o que deixava Jailton bastante triste e sem reação, mas hoje ele já sabe como agir diante de situações semelhantes. “Lugar de preto e pobre é na escola e você só será gente se conseguir se formar!”, já diziam os pais de Tatiane. Os meninos gritavam: “nega preta!” Tatiane, ao se dar conta que se dirigiam a ela, lembrava que sua mãe sempre dizia: “quando esses meninos ficarem te chamando desse jeito você tem que responder: ‘sou negra sim, com muito orgulho!’ Não deixe ninguém pisar em você!” Entre lágrimas, Tati falava exatamente como a mãe lhe dizia e assim fez inúmeras vezes. Algumas pessoas lhe diziam: “essa sua cor é cabo verde”, outras diziam: “sua pele é tão linda, que nem parece negra!” E Tati, não esqueceu a lição da mãe, e, ainda hoje, diz: “sou negra sim, com muito orgulho!” Ser negro em um país regido por valores que têm na aparência a primeira razão de um ser, é ir para uma entrevista de trabalho sabendo que as chances são mínimas, é saber que nas penitenciárias a maioria dos detentos são pretos, é ser discriminado, é sofrer a ideologia do branqueamento para ser mais aceito, é ser marginalizado em qualquer situação, é ser o primeiro suspeito sem investigação, é sentir-se culpado pela falta de reconhecimento de sua humanidade, é ter sua religião distorcida. Quantas vezes em uma rua escura e deserta, alguém passou para outra calçada ao ver um negro? Até quando será permitido? Ser negro no Brasil é também ter na pele, na mente, na alma e no coração as marcas da história desse povo que é, antes de tudo, negro; é ter a força de não se deixar abater, é ter sempre coragem pra lutar, é estudar para se fazer ouvir, é ter na arte um instrumento de liberdade, é ter na tradição a imortalidade de seus ancestrais, é ter na natureza a razão de sua existência, é ter confiança em suas divindades, é cultuar seus orixás, é conviver em famílias – nucleares ou extensas, é ter orgulho do samba no pé, do sorriso no rosto, da resistência à opressão, da criatividade, da inclusão, do colorido que povoa nossa pele; é sonhar que nossas crianças não sofrerão preconceitos, é ter sensibilidade para ensiná-las o caminho do respeito à diversidade. Protagonismo Sendo movimento social lutando pelos direitos da população, lá estava Joseni presente. A comissão de menores em Ubaíra conta com a colaboração de Dodi, que percebe as dificuldades que as crianças da sua localidade tinham para estudar, assim, começou a dar reforço escolar para os pequenos, mesmo sabendo que financeiramente eles não poderiam retribuir. Os corações jovens sempre acabam sendo invadidos pelos sonhos antigos ainda não alcançados. Jailton é um desses jovens com sonhos antigos de solidariedade e amor ao próximo. Uma idéia se concretizou quando ocorreu a II Gincana Entre Ruas de Amargosa para arrecadar alimentos, roupas, remédios e brinquedos que deveriam ser doados à população carente da cidade. Também arrecadavam livros para as bibliotecas. Esse evento ocupou alguns finais de semana de jovens, crianças e adultos que, participando de provas diversas e brincadeiras diferentes, contribuíam para amenizar o sofrimento de muitas pessoas. Daniela, com seus colegas e amigos, também faziam o possível para arrecadar o máximo de contribuições para ajudar pessoas de bairros humildes da cidade, mas ouvir lamentos e aflições a angustiava, no entanto - e apesar do sentimento de impotência - jamais deixou de ser generosa e participativa. 34 Caminhadas de universitários de origem popular No Centro Sapucaia, Silmary e Vanessa ocupavam-se elaborando e contando histórias para crianças do Timbó, localidade atendida pela ONG Sapucaia, que trabalha para preservar os recursos naturais de Amargosa e região. Políticas afirmativas Na estrada de chão, entre um carro e outro, só dava pra ver muita poeira com o Sol a arder na cabeça. Em um dos carros que viajavam entre as cidades de Brejões e Amargosa, ia uma picape D20 a carregar em sua carroceria três estudantes da UFRB, Iranildes, Robenilson e Paloma, que não é bolsista. Essa realidade não era nada agradável, mas a motivação mostrava-se tão grande que não os deixava desistir. Essa situação findou quando Robenilson obteve a bolsa Conexões de Saberes, pois ele passou a ter condições de manter-se em Amargosa. Não foi diferente com Naiara, Juliana, Joana, Joseni e Rosiane. Outros moravam em Amargosa, mas a família não tinha como dar subsídios para todas as despesas que demandava os estudos na universidade, assim era para Daniela, Gerlan, Simone, Vanessa e Esmeralcy. Já Silmary, Jailton e Tatiane não conseguiam conciliar trabalho e estudos acadêmicos, por esse motivo estavam numa situação difícil. Rosiane Rodrigues perdeu o emprego assim que resolveu estudar, pois os horários coincidiam. Todos estavam com dificuldades para continuar a graduação... Vemos na roda de conversa nossas histórias encontrarem-se mais uma vez na UFRB, no programa de políticas afirmativas, que visa não só a permanência qualificada do estudante na graduação, mas prioriza a valorização e o reconhecimento étnico e racial como um dos fundamentos do Programa de Permanência da Pró-Reitoria de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis. O Programa Conexões de Saberes não oferece apenas um auxílio financeiro. Antes de tudo, é uma oportunidade de um encontro mais profundo, verdadeiro e sincero consigo e sua história. Muitos chegaram confusos: ‘‘eu coloquei na inscrição que sou pardo, mas que cor tu achas que sou?” Ou: “sou afrodescendente, mas visivelmente parda!”Assim, a confusão de pensamentos propagou-se, as discussões foram dando margens para que o reconhecimento étnico-racial começasse a acontecer, já que eles vão muito além da cor da pele. Como um indivíduo pode desenvolver-se sem reconhecer sua etnia? Porque a vergonha de ser preto? Porque o medo das conseqüências que ser negro traz? Hoje, estamos em processo de reflexão. As lágrimas tomam um novo sentido, os sonhos moldam-se e tomam novos horizontes. Em nossos semblantes começa a surgir o orgulho que cresce dia-a-dia e a felicidade de poder assumir o que somos, sem máscara nem disfarce, sem vergonha ou receio. O melhor ficou para o final, que é mais um começo, para nós que nas políticas afirmativas encontramos o suporte para uma permanência de qualidade na universidade. Enfim, os sorrisos estão chegando, os sonhos são grandes e a vontade de realizá-los ainda maior, o que dá razão para muitas novas histórias de sucesso, determinação e superação de obstáculos. As dezesseis mãos que assinam esse artigo são: Daniela de Souza Sales (Dani), Esmeralcy Almeida Santos, Gerlan Cardoso Sampaio, Iranildes Sales Bispo, Jailton Almeida dos Santos Barbosa, Joana Angelina dos Santos Silva (Joaninha), Juliana de Jesus Santos (Juli), Maria Joseni Borges de Souza (Dodi), Naiara Fonseca de Souza, Rosiane do Carmo Teixeira, Rosiane Rodrigues da Silva, Robenilson Ferreira dos Santos (Rob), Silmary Silva dos Santos, Simone Santana da Cruz, Tatiane Santos de Brito (Tati) e Vanessa Morais Paixão. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 35 “Caminhando contra o vento” Daniela da Silva Santos* Meu nome é Daniela da Silva Santos, tenho 24 anos, nasci em dois de setembro de 1982, em Santo Antonio de Jesus, na Bahia. Falarei de minha mãe. Seu nome é Sonia Maria da Silva Santos e teve três filhos: Ana Paula, Luis Cláudio e eu, que sou a terceira. Não conheci meu pai e nunca tive meios para procurá-lo e me aproximar dele. A verdade é que eu tive uma vida “madrasta”, sofri muito, toda lembrança que tenho de minha infância é de sofrimento e tristeza. Começarei o relato de minha história a partir de lembranças remotas que marcaram muito a minha vida. Minha mãe me levou muito cedo para a casa de uma de suas amigas, a qual não me recordo o nome agora. Ela foi para Salvador, e eu tive de ficar morando com essa amiga dela. Lembro-me muito bem que fiquei aos prantos,não entendia porque ela teria que se afastar de mim. Os dias se passaram e senti muito a sua falta. Após alguns meses ela voltou, era uma época de São João eu fiquei muito feliz de estar ao seu lado, mas o período de festas passou e ela logo voltou para Salvador para trabalhar e novamente nos afastamos. Foi difícil segurar, e o pior é que tive que sair da casa dessa amiga de minha mãe para morar com outra amiga dela, que as pessoas chamavam de “dona Neném”. Passei alguns anos morando na casa de dona Neném, ela é uma pessoa muito boa, pois cuidava bem de mim, mas eu precisava de uma mãe, de uma família, pra me passar valores, me ensinar as coisas da vida, enfim, precisava de um lar que me acolhesse e que fosse meu, precisava sentir os pés no chão. O período que fiquei na casa de dona Neném foi muito angustiante pra mim, ficava o tempo inteiro na janela esperando minha mãe voltar, ficava na expectativa de que ela viesse me buscar e sonhava com a possibilidade de morarmos juntas pra sempre; por mais dura que fosse a minha realidade, eu, como criança, ainda tinha capacidade de sonhar com dias melhores. Depois de alguns anos na casa de dona Neném, fui surpreendida com a notícia de que, a pedido de minha avó, eu iria morar com meu tio José e sua esposa Lucia, que eram então recém-casados. Fiquei feliz, pois pelos menos iria morar com um parente, mas as coisas não seguiram como eu imaginava. No início, quando fui morar na casa de meu tio José, tudo foi bem, mas depois de algum tempo, sua esposa e eu já não convivíamos bem, isso porque ela me maltratava muito. Eu ficava refletindo em alguns momentos, indagando o porquê de eu sofrer tanto? Porque eu tinha que passar por todas essas coisas? * Graduanda em Comunicação pela UFRB. 36 Caminhadas de universitários de origem popular Toda experiência que passei no período na casa de meu tio José mexeu muito comigo, hoje eu sou uma pessoa muito conflituosa, inconstante e insegura. Tenho medo da vida em alguns momentos e em outros enfrento ferozmente os obstáculos que surgem diante de mim, acredito que toda essa experiência que passei me tornou a pessoa que hoje eu sou, ou como diria o filósofo francês Jean Jacques Rousseau: “O homem é fruto do meio”. Sinto que às vezes sou muito exagerada quando conto a minha história de vida, mas eu faço um auto-reflexão e me questiono se houve durante minha infância algum momento feliz. A resposta é não, não tinha nenhum momento de felicidade, não sei como não morri de tristeza; sei, contudo, que essa situação me fez ver o quanto fui e sou forte e persistente. Fui à escola pela primeira vez aos dez de idade, pois eu não tinha documentos em mãos que me possibilitassem a inscrição em um colégio atrás de educação formal. Até que minha tia Rita se dispôs a ir ao cartório pegar a segunda via de minha certidão de nascimento. Daí fui matriculada, esse era o meu melhor momento. Gostava muito de ir a escola, me sentia alguém, só não gostava quando tinha que realizar trabalhos escolares: era preciso comprar materiais e eu não tinha a quem recorrer. Eu observava que meus colegas tinham pai e mãe, que por mais humildes que fossem fariam um sacrifício e comprariam materiais pros filhos. Quanto a mim, não tinha a quem pedir. Os anos passaram e cheguei à adolescência. Meus conflitos se acentuavam, eu percebia que já não dava mais pra continuar morando na casa de meu tio José, pois minha convivência com Lucia estava insuportável, daí eu resolvi que sairia de lá e moraria na casa de minha tia Minusinha. Ela não queria que eu fosse, pois não tinha condições de me sustentar, mas eu argumentei que não havia mais nenhuma possibilidade de conviver com a esposa de meu tio. Minha tia é uma pessoa muito boa, mas não podia fazer por mim o que eu realmente precisava, porém eu fui seguindo em uma nova fase de minha vida. Quando fui morar com ela tinha treze anos de idade e uma longa experiência de vida. Na escola eu estava indo mal, havia perdido o ano e estava desolada, mas mesmo assim não desisti e prossegui minha caminhada. Quando completei dezessete anos comecei a namorar o Joel, quando tínhamos um ano e meio de namoro fomos morar juntos, e com dois anos juntos fiquei grávida de meu primeiro filho: Joilson. Eu cursava o primeiro ano do ensino médio e, com o nascimento de meu filho minha irmã Ana Paula foi morar comigo: ela tomava conta de Joilson pra que eu pudesse estudar. Quando eu estava no segundo ano fiquei grávida de meu segundo filho, o João Pedro. Aí as dificuldades se acentuaram, mas eu não desisti. Com quinze dias de parida voltei às aulas, no terceiro ano, e nos intervalos das aulas ia correndo pra casa amamentar meu filho. Concluí o ensino médio e prestei meu primeiro vestibular para o curso de História, mas não consegui aprovação. No ano seguinte me matriculei num cursinho pré-vestibular . No início deste mesmo ano eu sofri uma grave decepção no meu casamento e estava decidida a dar um novo sentido a minha vida, além de meus filhos: meus estudos. Prestei vestibular pela segunda vez, mas também não passei. Continuei me dedicando muito aos meus estudos e prestei vestibular pela terceira vez para os cursos de Comunicação na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e Geografia na Universidade Estadual da Bahia. Consegui aprovação nas duas, fiquei feliz da vida, pois parecia um sonho. Tenho muitos planos para o meu futuro e tenho grandes sonhos: encontrar meu irmão, meu pai e escrever a minha história de vida em um livro. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 37 Autobiografia Daniela de Melo Oliveira* Ei, psiu! Será que você me deixa ser seu anjo de guarda aqui na terra? Então leia minha história e pense na sua... Nasci em Nazaré, uma cidade próxima a Santo Antônio de Jesus, ambas na Bahia, por que o médico que atendia minha mãe trabalhava naquela cidade por questões políticas. Vivi parte da minha infância em na chamada Rua do Areal. Lembro-me bem de uma professora que tive nesta rua onde morei. Ela tinha uma escola pequena, simples, perto de minha casa e foi onde comecei a dar os primeiros passos em busca do conhecimento. A professora Edite, como era chamada, era muito carinhosa e marcou muito minha vida, a começar pelo jeito de chamar-me: Dade. Ela era uma negra bem forte e sempre com seu lindo sorriso nos lábios, que nos fazia sentir vontade de ficar pertinho dela. Com mais ou menos doze anos de idade eu e minha família mudamos para mais perto do centro de Santo Antônio de Jesus. Continuei estudando nas escolas públicas perto de minha casa, e a maior parte do ensino fundamental fiz no Colégio Estadual Francisco da Conceição Menezes. Nesse colégio fiz boas amizades, tanto entre o corpo discente, como também entre o corpo docente. Foi lá que me formei em magistério (curso preparatório para formação de professores de 1ª a 4ª séries). Dez anos atrás, esse era o curso mais procurado para quem queria ensinar, ou seja, formar-se e logo trabalhar. Esse curso também era o que a maioria das famílias de baixo poder aquisitivo estimulavam seus filhos a fazerem, pois a maioria delas não podia encaminhar seus filhos para estudarem fora. Os meus pais, não sei se pelo grau de instrução que era muito baixo, pois meu pai só sabia assinar o próprio nome e minha mãe estudou na roça apenas até a 3ª série, não me incentivaram a continuar meus estudos. A única pessoa da família que faz um curso de nível superior sou eu, a caçula da família. Mas hoje entendo que meus pais não me incentivaram a estudar porque quisessem, mas porque eles não tiveram esse tipo de incentivo, pois tiveram que batalhar desde muito cedo. Meu pai foi caminhoneiro até o dia que Deus o levou e a minha mãe sempre foi donade-casa e costureira, exercício que aprendeu com as tias, pois minha avó morreu ainda quando ela era bebê. Formei-me e, depois de ensinar por muito pouco tempo, fui trabalhar no comércio, que era a única saída para arrumar emprego. Contudo, dentro de mim existia uma força que queria fazer-me movimentar, ou seja, eu não estava satisfeita profissionalmente e precisava continuar estudando. * Graduanda em Enfermagem pela UFRB. 38 Caminhadas de universitários de origem popular Em um belo dia comecei a namorar um rapaz de nome José Fidelis. Nós trabalhávamos juntos em um escritório de seguros e, com pouco tempo de serviço e pouca maturidade, fiquei grávida: aí, tudo complicou para mim, pois atrasou mais ainda meus estudos. O pior de tudo é que nem sabíamos se realmente queríamos ficar juntos, pois tudo tinha acontecido abruptamente. Fomos morar num bairro bem distante do centro e comecei a perceber que estava sozinha, apesar de estar casada. Ele não ligava para mim, não me tratava bem, apesar de ser sempre um pai amoroso. Segundo as normas da empresa onde trabalhávamos, não podia trabalhar junto quem fosse parente, então eu resolvi sair e deixá-lo trabalhando. Resumo: eu e o pai de Gabriella Merícia, minha filha, vivemos cinco mal vividos anos juntos. No entanto, no dia 19/04/2003 ele veio a falecer, vítima de um acidente automobilístico. Eu sofri muito, pois pensava e lembrava no amor que Fidélis e Gabriella dispensavam um ao outro. Aos poucos fui tentando tirar forças da fé que tenho em Deus e que a cada dia aumenta mais. Desempregada e vivendo na casa de minha mãe, comecei a fazer artesanato para vender. Depois tive a brilhante idéia de dar aulas em minha casa. Com o tempo comecei a fazer um curso para prestar concurso para Polícia Militar da Bahia e foi através deste curso que me chamaram para ministrar aulas de reforço escolar para alunos de 1ª a 8ª séries. E foi a partir desta experiência de dar aulas que adquiri bagagem para passar, em 2007 no vestibular para Enfermagem na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), no campus de Santo Antônio de Jesus. Um curso lindo, pelo qual a cada dia me apaixono mais. Também passei no mesmo ano para o curso de Geografia na Universidade Estadual da Bahia (UNEB), porém optei por Enfermagem. Eu não posso reclamar de nada. Deus me deu um grande presente que eu não sabia que era possível que acontecesse. Hoje estudar em uma universidade pública é um sonho e ainda ganhei mais um lindo presente, que é fazer parte de um grupo tão acolhedor quanto o grupo do Programa Conexões de Saberes. Fazer parte do Conexões é saber a cada dia que pessoas passam por muitos problemas e que acham que não vão chegar onde eu cheguei. Por isso, precisam do meu apoio e saber que é só acreditar em nós mesmos e lutarmos para conquistarmos o nosso espaço na sociedade. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 39 Memorial Deraci Souza dos Santos* Nasci em oito de abril de 1987, em Santo Antônio de Jesus, filha de Aládio Fagundes dos Santos com Clara Souza dos Santos, já falecida. Sou a última de onze filhos de pais lavradores e semi-analfabetos. Sem condições financeiras favoráveis, meu destino parecia previsível. Meu nascimento e sobrevivência foram difíceis, pois minha mãe, além de estar em idade avançada para ter uma criança, apresentava problemas de saúde. Então, quando nasci, o médico logo advertiu que eu não passaria mais que semanas viva, mas como é preciso ir contra as determinações que nos limitam, agora estou tentado contar um pouco da minha história. Passei minha infância em localidade conhecida com Fazenda Congonha, na zona rural de Varzedo. Lá meus irmãos precisavam caminhar uma distância de aproximadamente 4 km para chegarem até a escola, por isso, todos desistiram de estudar e saíram de casa para trabalhar, devido também às condições financeiras. Quando completei oito anos, minha família se mudou para o Povoado do Cruzeiro – na zona rural de Laje – lá comecei a minha vida escolar. Estudei sempre em escolas públicas, e sou mais alguém que teve que “correr atrás” para superar as marcas deixadas por um ensino deficiente. Lembro que das dificuldades no curso pré–vestibular, a pior delas, era a angústia em pensar que tanto esforço poderia culminar em apenas uma tentativa frustrada. Quero ressaltar um fator importante em minhas conquistas: a FÉ. Esta me sustenta e me impulsiona a continuar lutando por meus desejos. Em um mundo real e baseado na razão, a presença de um Deus sobrenatural foi essencial para a realização de sonhos que vão além daqui. É bom falar do relevante papel de uma importante instituição na vida de alguém: a FAMÍLA. Quando tinha treze anos minha mãe faleceu e, com o tempo, percebo quão grande foi esta perda! Possuía um vínculo muito grande com ela. Atualmente, reconheço meu pai, meus irmãos e amigos - que considero como família - como atores também responsáveis por minhas vitórias. Completei o ensino médio e comecei a estudar em um curso pré-vestibular de cunho social que era uma oportunidade única!!! Então prestei vestibular para História na Universidade Estadual da Bahia (UNEB) e para Psicologia na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e fui classificada em ambas. Escolhi cursar psicologia na UFRB porque é uma universidade federal, que prepara os melhores profissionais para atuar em diversas áreas. Até então, conhecia muito pouco de psicologia, e o que me fez optar por este curso foi a possibilidade de desempenhar um trabalho que suprisse não apenas minhas necessidades materiais mas que permitisse um contato humanizado com as pessoas, poder entendê-las e participar dos processos de “transformação” social, mudando de vida, superação de traumas. Sou a primeira em minha família a ingressar em um curso superior de graduação e isso é uma grande vitória; não é o final, mas o início de uma outra caminhada em que deverei superar limites. Permanecer na faculdade é ainda um grande desafio, porém um importante passo foi dado e atualmente faço parte do programa de permanência na faculdade, na qual contribuirei para que outras pessoas lutem contra as determinações sociais que os limitam. * Graduanda em Psicologia pela UFRB. 40 Caminhadas de universitários de origem popular Quem sou eu? Edilon de Freitas dos Santos* Um dia você foi inscrito para participar do maior concurso do mundo, da maior corrida de todos os tempos. Acredito, você estava lá! Eram mais de quarenta milhões de concorrentes. Pense nesse número. Todos tinham potencial para vencer e só um venceria. Será que você era um número na multidão ou tinha algo especial? Augusto Cury Para mim foi um susto quando soube da possibilidade de escrever um memorial. Não me é nada confortável falar da minha vida, mas vamos lá. O meu nome é Edilon de Freitas dos Santos, brasileiro, nascido em Cachoeira, na Bahia e resido desde criança em Conceição da Feira. Tenho dois irmãos, Elane e Marlon, que são filhos de pais distintos. Tenho dezenove anos de idade. Sobre minha mãe ...mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana, sempre, quem traz no corpo a marca, Maria, Maria, possui a estranha mania de ter fé na vida... Milton Nascimento e Fernando Brant Eu não poderia começar a relatar minha trajetória de vida sem primeiro citar a pessoa responsável por grande parte do que sou – minha mãe, Maria da Paixão Suzart de Freitas. Ela desde muito cedo enfrentou a vida praticamente sozinha. O pai da minha irmã, Elane, nunca ligou muito pra lá. Só dava pensão quando queria, e quase nunca queria. O meu pai, esse praticamente não conheço. Só o vi uma vez em toda a minha vida, devia ter mais ou menos nove anos. Consigo lembrar-me com requinte de detalhes como tudo aconteceu. Eu estava voltando da escola, quando minha avó paterna me interceptou para informar que meu pai estava para chegar no final de semana. Na hora fiquei sem reação. Em minha cabeça houve uma briga dos mais extremos sentimentos: amor, ódio, enfim, fervia um turbilhão de sensações. * Graduando em História pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 41 No entanto, minha mãe - apesar do abandono do meu pai em relação a mim - nunca estimulou sentimentos negativos meus em relação a ele. Então decidi vê-lo, escutar suas explicações, seus pedidos e aceitá-los. Mais uma vez decepção total. Ele veio conversar comigo cheio de autoridade e, ao invés de dar-me um grande abraço, quis saber como ia na escola. O fato é que essa foi a primeira - e talvez última vez - que pude estar cara a cara com o homem que afirma ser meu pai e que, por mais incrível que pareça, me registrou como seu filho. No final de 2006 ele ligou para mim se colocando à disposição para procurá-lo, sempre que precisar. Achei sua intenção nobre. O único problema são dezenove anos de atraso. De fato, não conheço o significado da palavra “pai”. Já minha mãe, a essa serei grato para o resto da vida, nunca conseguirei retribuir tudo o que ela fez por mim. Faltam-me palavras para descrever uma pessoa que abdicou da própria vida pessoal em troca de proporcionar uma vida honrosa para mim. Lembro-me de suas insônias quando faltava algo para mim e meus irmãos, lembro-me também de sua alegria pelas minhas conquistas. Para mim, essa pessoa interpretou com mais exatidão a palavra “mãe”. A primeira escola Depois de um breve período na creche Mimos da Tia Lena, a qual não me adaptei, fui matriculado na Escola Cantinho do Saber. Lá estudei dos três até os oito anos de idade. Durante esse tempo fui muito bem alfabetizado, vivi inesquecíveis momentos. Até hoje tenho vários amigos dessa época. Foram vários acontecimentos especiais, recordo-me com mais intensidade de quando participei da formatura do ABC. Ainda hoje consigo buscar em minha memória a imagem nítida. A diretora da escola colocando o anel no meu dedo, minha professora vibrando juntamente com minha mãe, que se derramava em lágrimas na platéia. Lembro dos ensaios para a valsa dos debutantes, posso inclusive ver diante de meus olhos a decoração do salão. Consigo escutar a música cantada em coro por nós. Este ano quero paz em meu coração, quem quiser ter um amigo, que me dê a mão. O tempo passa, e com ele caminhamos todos juntos, sem parar, nossos passos pelo chão vão ficar, marcas do que se foi, sonhos que vamos ter...” Os Incríveis Ensino fundamental Escola Estadual Hérlio Mascarenhas Cardoso, essa foi a escola onde fiz quase todo meu ensino fundamental. Quase porque comecei lá a partir da segunda série. Este ambiente para mim foi além do meramente escolar. Tive oportunidade de conviver com professores que foram muito mais que simples orientadores acadêmicos, mas também pessoas que estimularam meu crescimento moral. Não tenho conhecimento da atual situação desta escola, no entanto, quando era membro do corpo discente dela a percebia como uma “grande família”. 42 Caminhadas de universitários de origem popular Talvez precocemente foi lá que, durante a sétima série, decidi o que queria como profissão para o resto da minha vida. Confesso que essa decisão foi bastante influenciada por um professor por quem tenho bastante admiração. Quanto ele chegava para dar aulas podia sentir o prazer, o regozijo com que ele desempenhava sua função. Professor Joaquim foi um dos “culpados”, por eu estar encarando uma graduação em História. Um dos culpados porque, mais tarde, durante o ensino médio, tive um exemplo semelhante novamente com professor de História. Desta vez foi a professora a Ana Maria, essa foi muito mais que regente da disciplina, fez-se mestra na arte de lecionar. Ensino médio Fiz todo o meu ensino médio no Colégio Estadual Yêda Barradas Carneiro, concluí em 2005. Essa fase foi bastante comum, o que não quer dizer irrelevante, pois como já relatei, foi neste contexto que confirmei o desejo que tinha de me graduar em História, mais precisamente durante o primeiro e o segundo anos em que estudei com Ana Maria. Entre as experiências que tive com a professora desta disciplina, algumas foram graves e constantes, pois não aceitava alguns comportamentos dela como docente. Batia sempre de frente com ela. Mas sempre fui de deixar os problemas acadêmicos dentro dos muros do colégio e fomos bons amigos. O caminho até a UFRB A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega roda viva e carrega o destino para lá.. Chico Buarque Quando concluí o ensino médio estava meio sem perspectiva acadêmica, pois já tinha decidido que, diante das dificuldades econômicas pelas quais minha família vinha passando, era melhor eu procurar um trabalho e, consequentemente, deixar de lado meu grande sonho, que era entrar para a universidade pública. Assim fiz, e logo no início de 2005 recebi proposta para trabalhar informalmente como cobrador do transporte alternativo que faz a linha Conceição da Feira/Feira de SantanaBA. Não sei se por obra do acaso ou vontade divina, fato é que mesmo tentando distanciarme do meio acadêmico, esse trabalho me colocava em constante contato com ex-professores, que me faziam sermões e sermões por eu ter me acomodado. Os professores não sabiam do sacrifício que eu fazia para me convencer e aceitar naquele momento que eu tinha mesmo é que me encaixar logo no mercado de trabalho. Neste conflito fui até o meio do ano, quando soube de um pré-vestibular comunitário e resolvi encarar a dupla jornada. No entanto, fisicamente para mim tornou-se insustentável, pois meu trabalho começava às 5:00 da manhã e ia até horário indeterminado. Após três semanas, desisti definitivamente do pré-vestibular. Resolvi fazer o exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Obtive uma média boa, então me inscrevi para concorrer a uma bolsa do programa PROUNI (Universidade para Todos). Um dia encontrei uma pessoa que tem uma parcela enorme de responsabilidade no fato de hoje esta na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A minha grande amiga Joana, que em uma conversa onde eu falava das minhas dificuldades, ela me falou da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 43 nova universidade que havia se instalado no Recôncavo e que já estava aberto o processo de isenção da taxa do vestibular. Então eu corri para conseguir a isenção, me inscrevi para o vestibular e o fiz, pra História. A melhor surpresa da minha vida Saiu o resultado da seleção para a bolsa do PROUNI. Eu não podia acreditar: consegui uma bolsa integral para Administração de Empresas, numa instituição particular, a Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC). Com alguns dias saiu o resultado da federal. Pensei que era ilusão de ótica, não podia, como é que eu, sem pré-vestibular e de primeira, podia passar numa federal. Felizmente não foi ilusão, realmente um rapaz de origem humilde havia conseguido. Eu me senti o cara mais feliz do mundo. Agora na universidade, o primeiro momento foi um “choque”, tudo fascinante, mais surpreendente do que imaginei. Tenho plena sobriedade e entendo o importante papel social que assumirei. Papel por vezes de protagonista, por vezes de coadjuvante, mas sempre de forma conjunta tentando transformar a minha realidade e a de todos à minha volta. 44 Caminhadas de universitários de origem popular Memorial Edimilson Pereira dos Santos da Silva* Sou Edimilson Pereira dos Santos da Silva, 24 anos, moro em Cabaceiras do ParaguaçuBA, terra natal do poeta Castro Alves, que lá nasceu em 14 de março de 1847, em uma fazenda da região. Gosto de realçar esse fato porque as manifestações culturais acerca dessa data tiveram importante influência em minha vida, desde a minha infância. Essa é uma das datas mais festivas do meu município, levando em conta que estudei todo o ensino médio em escolas que tinham relação direta em preservar a memória do poeta, através de diversos conceitos e empreendimentos realizados pela escola. Tempos marcantes, tanto que posso me recordar de um trecho do poema de Castro Alves (Navio Negreiro) que diz assim: Senhor Deus, dos desgraçados! Dizei – me vós, Senhor Deus! Se é loucura... Se é verdade, Tanto horror perante os céus... Ó mar! Por que não apagas Co’a esponja de tuas vagas Do teu manto este borrão?... Astros! Noite! Tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! Castro Alves Reflito também todos os desafios em minha trajetória de vida dentro e fora da escola. Posso dizer que sou de comunidade popular e filho de agricultores que fizeram bastantes esforços para a minha permanência na escola, apesar das dificuldades enfrentadas. Retrato original, pode-se dizer, de toda a comunidade da região, e apesar de minha mãe e meu pai trabalharem duro na lavoura de milho, feijão, fumo, mandioca etc, eu freqüentava a escola e começava a visualizar os horizontes do mundo letrado. Portanto ricos e pobres só se assemelhavam em uma só vertente subjetiva: no pensamento de que a fuga da pobreza, a solução econômica, social e profissional se dá através da educação. Minha relação com a comunidade onde vivo é bastante harmônica, me relaciono bem com meus pais e amigos, gosto de praticar esportes, meu preferido é o futebol, o principal esporte da região. Sempre que posso estou presente em eventos religiosos da Igreja Católica, no entanto a religiosidade da minha comunidade é diversificada e tem abrangência também para o Protestantismo e o Candomblé. * Graduando em Engenharia Agronômica pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 45 Concluí todo o ensino médio profissionalizante (magistério), na rede pública de ensino; municipal e estadual consecutivamente. Os obstáculos tiveram uma proporção de aumento gradativo ao longo dessa árdua jornada, mas a força de vontade foi e está sendo a força motriz para estar hoje na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), onde curso Agronomia. Durante todo o período colegial tive a oportunidade de me inserir em alguns grupos de incentivo, me instruí e busquei informação sobre diversos problemas, inclusive sobre doenças epidêmicas que assolavam a comunidade desta região, participei de grêmios estudantis e gincanas, isso também é algo para se lembrar. Além disso, sempre procuro estar informado sobre alguns programas de melhoria social implantados em meu município, sejam eles programas de governo ou não; o importante é que essa interação nos proporciona aprender muito, tanto na teoria quanto na prática, trazendo maior engajamento social através de maior relação com a sociedade. Sobre todos esses períodos que relatei dou enfoque para uma frase que diz: “quando evoluímos, evolui também tudo que está à nossa volta”. Desconheço o autor dela. Visualizo que o homem é um ser de vivência coletiva e, desapropriado de seus recursos básicos, utiliza diversos esforços para sua permanência no espaço geográfico. Pois essa situação gera um conjunto de aspectos da vida material e cultural em que cada civilização desenvolve suas características próprias. Dentre esses aspectos a escola tem um papel mediador que instrui o indivíduo a ser construtor do meio social, tendo em vista normas e patamares a seguir. Partindo daí o homem sempre irá buscar em cada estágio de seu desenvolvimento o mais alto grau de sua evolução. E evoluir é nos despimos da condição de “homens primitivos” e ditarmos raízes na sociedade moderna. Porque o homem contemporâneo modifica constantemente seus padrões de vida; claro que acoplado com o avanço tecnológico, por isso há a necessidade de mudança para adequar-se a essa evolução. A universidade, na minha perspectiva e concepção é mais uma amplitude desse espaço, onde para transformamos idéias e criações; utilizamos um fundamental artifício que é a ciência (uma intrincada teia de conhecimentos) com base no principio ético e moral. 46 Caminhadas de universitários de origem popular Em busca dos sonhos Ednólia Oliveira dos Santos* Sou filha de Antonio Gonçalves dos Santos e Honorina Oliveira dos Santos. Nasci em 11 de março de 1978, em uma pequena fazenda dos patrões dos meus pais na Mata das Covas, zona rural de Amargosa-BA, onde meu pai trabalhava como vaqueiro e minha mãe cultivava a terra. Sou a quarta filha de uma família de quatorze filhos, sendo que três morreram ainda pequenos. Tive uma infância com poucas oportunidades de brincar com os amigos, pois meu pai era muito rigoroso. Meu maior sonho era ganhar uma boneca de cabelo grande, pois eu tinha os cabelos curtos e crespos e, por isso, sofria alguma discriminação na escola. Não sei ao certo o motivo desse desejo. Seria uma forma de chamar a atenção das pessoas pelo fato de elas só valorizarem cabelos lisos e grandes? Estudei até a 2ª série do ensino fundamental numa escola municipal onde nasci. Recordo-me claramente da minha primeira professora, que por sinal era muito carinhosa e chama-se Celice. Quando completei onze anos, meus pais deixaram essa fazenda e compraram um pequeno pedaço de terra no Timbó, também zona rural de Amargosa. Lá, iniciaram a agricultura. Eu e meus irmãos, que até então éramos seis, sempre trabalhamos ajudando nossos pais: acordávamos cedo e passávamos o dia inteiro no Sol quente. Mesmo assim o dinheiro nunca era suficiente. A vida no campo é muito difícil, pois seus moradores são esquecidos e discriminados por todos. Falta dinheiro e investimento para garantir a sobrevivência e a permanência nesse espaço. Eu não desejava aquele sofrimento para o futuro, queria mudanças, porém sabia que para isso acontecer eu tinha que estudar. Ali o acesso à escola era difícil e assim resolvi ir para a cidade trabalhar na casa dos ex-patrões dos meus pais, com apenas treze anos. Sofri muito por deixar meus familiares. Aí aconteceu uma etapa importante da minha vida: ambiente novo, família distante, tarefas a cumprir. No começo foi muito duro, mas com o tempo, tudo foi se acomodando, pois tinha encontrado uma segunda mãe: a querida professora Lygia, a pró Lygia (como carinhosamente todos a chamam) que logo cuidou de me levar ao médico, pois eu era uma criança doente, que necessitava de cuidados. Aos quatorze anos voltei a estudar, depois de quatro anos fora da escola. Estudava no turno matutino e fazia as tarefas domésticas à tarde. Fiz 3ª e 4ª séries nas Escolas Reunidas * Graduanda em Letras pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 47 Almeida Sampaio; já de 5ª a 8ª, na Escola Estadual Santa Bernadete e o Ensino Médio no Colégio Estadual Pedro Calmon. Foram muitos anos de sacrifícios e trabalho também. Encontrei amigos maravilhosos e inesquecíveis como Elâne, Jemile, Jirlene, Silvando, Virgílio e outros. O meu sonho era tornar-me professora da Escola Mundo Encantado, que era da minha patroa-mãe, pró Lygia. Imagine o quanto seria gratificante para minha família ter uma filha professora daquela escola tão famosa na cidade. Concluí o ensino médio no ano de 2000. Tive um professor de Didática no 1º ano que marcou a minha vida. Ele sempre incentivava muito os seus alunos a continuar os estudos e nos acompanhou até o 3º ano. Seu nome é Fábio Josué. Depois fui morar na casa da família fantástica da minha amiga Elâne e comecei a trabalhar como auxiliar de classe nessa escola que tanto sonhava ser professora. Em 2002, voltei para casa da pró Lygia e comecei a lecionar na 3ª série do ensino fundamental. Sonho realizado! Quanta alegria! Porém os empecilhos começaram a surgir, pois os pais dos alunos não acreditavam que eu seria capaz de conduzir aquela turma, já que no ano anterior eu era auxiliar de classe do maternal. A pró Lygia sabia o que estava fazendo, pois sempre acompanhou meus estudos, sempre me incentivava e sabia que eu era capaz. Continuei e desenvolvi bem o meu trabalho, no final do ano fui elogiada pelos próprios pais. Quando essa turma concluiu a 4ª série, fui convidada para ser madrinha de formatura. Continuei ensinando na 3ª série durante cinco anos, sempre tendo um bom relacionamento com os meus pequenos. Eles gostavam tanto de mim que faziam a maior propaganda da pró Dinha, como carinhosamente me chamavam. Mesmo trabalhando, na medida do possível, fazia leituras extras para o vestibular. Em 2004, tentei meu primeiro vestibular e não passei. Fiz um ano de cursinho, mas o tempo não era suficiente para me dedicar. Tentei novamente em 2005 e 2006, também sem sucesso. Porém não desisti. Nesse último ano conheci Gilvânio, começamos a namorar. Ele fazia o 3º ano do ensino médio e combinamos estudar juntos nos fins de semana. Sempre tentei vestibular para Letras Vernáculas na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em Santo Antônio de Jesus, pois sempre tive afinidade com Português. Mas meu maior sonho era fazer Psicologia. Como era um curso que só existia em cidade grande, eu achava um tanto quanto difícil conseguir; além de não gostar de lugares grandes, não tinha condições de me manter lá. Quando a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) nasceu, trazendo para Santo Antônio de Jesus o curso de Psicologia, meu sonho renasceu, apesar de ter muito medo de encarar o vestibular numa universidade federal. Então resolvi fazer o vestibular da UFRB e também na UNEB para Letras, juntamente com o meu namorado, que havia decidido também fazer Letras por gostar muito da literatura brasileira. Quanta alegria! Passei na federal e nós dois passamos na UNEB. Presente triplo! Valeu a pena! Em 2007, nova etapa, novos sonhos, mudanças, outros obstáculos: perdi meu emprego, pois não dava para conciliar trabalho e estudo. Deixei minhas amorosas crianças e mais uma vez a pró Lygia apoiou-me, sabia que eu faria falta naquele ambiente, mas deu-me toda força necessária e disse: “vá em busca de seus sonhos”. E agora, como ficaria minha vida? Como continuar estudando sem emprego, sem ajuda financeira da família, pois ela não tem condições de me ajudar? Inscrevi-me no Programa Conexões de Saberes e fui contemplada. Estou super feliz, terei um ano de bolsa de estudos, vou poder permanecer aqui e incentivar outros jovens. Os anos seguintes? Não 48 Caminhadas de universitários de origem popular sei o que irá acontecer. Quero continuar estudando. Alguns sonhos já foram realizados, outros estão a caminho. Não vou desistir! Meus pais continuam lá no campo fazendo as mesmas atividades de sempre e eu estou aqui a lutar. Sou a única filha que está numa universidade e tenho a esperança que meus três irmãos menores cheguem onde estou e que milhares de outras pessoas também não parem no meio do caminho, pois tudo é possível para aqueles que crêem e não desistem. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 49 Minha trajetória de vida Eliana Souza dos Santos* Sou de uma família simples e humilde toda oriunda do interior (zona rural) da Bahia. Meu pai, Cornélio, nasceu e cresceu no povoado conhecido como fazenda das Corocas, em Entre Rios, onde aprendeu desde muito cedo a lidar com a lavoura. Não teve tempo de ir à escola, apesar de seu maior desejo ser aprender a ler: só aprendeu a assinar o nome e fazer contas. Já a minha mãe, Edileuza, nasceu em Itanagra e cresceu em Araçás, localidade próxima a Entre Rios, onde estudou até a 6ª série do ginásio. Sempre fez pequenos bicos para ajudar nas despesas de casa, com uma família grande (minha avó teve dezenove filhos). Ela fazia cabelo (a ferro), unhas, lavava roupa de ganho (para fora), fazia faxina, vendia na feira... tudo para ajudar. Surgiu em Araçás uma empresa de construção onde meu pai trabalhava como ajudante. O destino fez com que minha mãe fosse lavar a roupa desses rapazes, então numa dessas entregas de trouxa de roupas Edileuza conheceu Cornélio. Começaram a namorar e pouco tempo depois ela ficou grávida. Minha mãe passou uns dias na casa de uma tia, Leli, até o a época do meu nascimento. Após um fim de semana com muitas dores, na manhã da segunda-feira, 12 de novembro de 1984, na maternidade Ticila Balbino, nasceu Eliana Souza dos Santos. Como a vida no interior não é fácil, após esse momento lindo que foi o meu nascimento “painho e mainha” resolveram se mudar para Salvador, para assim eu ter um futuro melhor do que o deles. Como começar a vida numa nova cidade? A primeira moradia deles foi uma casa de lona preta numa invasão denominada Bate Coração, no bairro de Paripe. Nessa época eles possuíam as roupas, um fogareiro de uma boca, uma cama de campanha, dois pratos, dois talheres, dois copos e a “cara e a coragem”. Como era mês de junho e fazia muito frio, pela primeira vez minha mãe se desligou de mim e eu fiquei na casa de tia Leli. Ela arrumou um trabalho como doméstica e meu pai de ajudante de caminhoneiro. Passaram-se quinze dias neste barraco até conseguir comprar um quarto-e-sala de taipa no mesmo lugar. A vida começou a se ajeitar: eu ficava na casa de tia Leli com os meus primos Antonio Marcos e Patrícia e meu padrinho Manuel. Nos fins de semana ia ver meus pais, até que, depois de quase três anos nessa toada, mudamos para uma casa maior, já com mainha grávida. Eu já freqüentava uma banca - que equivale a aulas de reforço escolar, mesmo não tendo ainda começado a estudar - que a vizinha dava, pois era muito “arteira” e só ficava quieta indo para lá. No dia 17 de março de 1989 nasceu meu irmão Jamerson e, como eu era a “princesinha da casa”, tudo mudou: tive de aprender a dividir a atenção, o amor e o carinho de todos. * Graduanda em Museologia pela UFRB. 50 Caminhadas de universitários de origem popular Como aos quatro anos eu já era esperta o bastante, meus pais me puseram na Escolinha Tia Liliane, no bairro da Plataforma, porque com o nascimento do meu irmão meu pai resolveu mudar para um lugar melhor. Estudei em outra escola até a alfabetização, o Jardim de Cristo. Um fato interessante foi que aos seis anos (louca para ler tudo e qualquer frase) eu saí com minha mãe para fazer compras, mas só que quando a gente saía ela dizia: “Vou comprar isso, não tenho dinheiro pra comprar nem água, então não me peça nada porque não vou te dar e não faz escândalo”. Aí eu ia toda feliz e não pedia nem para fazer xixi, só que desta vez foi diferente. Paramos em frente a uma banca de jornais e vi uma revista em quadrinhos do Chico Bento. Fiquei alucinada, mainha disse que me daria só quando eu soubesse ler, pois eu soletrava, mas insisti tanto e ela comprou. Eu aprendi a ler em três dias: dormia, acordava, comia e tomava banho com a revista do lado. Me alfabetizei naquele ano. Meu pai resolveu mudar de bairro de novo e fomos morar numa ocupação com o nome de Nova Constituinte, no bairro de Periperi, comunidade popular que não possuía saneamento básico nem água encanada. Fui matriculada na Escola Comunitária Nova Constituinte, que ficava a quase meia hora de casa. Quando chovia virava um verdadeiro lamaçal e eu tinha de colocar meus pés num saco plástico; ao chegar lá a professora lavava os meus pés. No ano seguinte a escola fechou e fui transferida para a Escola Cleto Araponga, onde estudei até a 4ª série e que ficava a quase uma hora e meia à pé da minha casa. Como não gosto de perder aulas, ia debaixo de chuva ou sol. Depois desse sofrimento morei na casa de minha madrinha Zélia por quase nove meses, por que Periperi era perigoso: fomos assaltados em casa, minha mãe ficou com medo e minhas tias resolveram que era melhor morarmos em Águas Claras, perto dos nossos parentes. Nessa época cursava a 5ª série no Colégio Renan Baleeiro, que é literalmente em frente a casa de minha tia. Meu pai comprou um terreno no final de linha de ônibus de Águas Claras, construiu nossa casa e logo após descobriu que ele fora picado pelo barbeiro e tinha o Mal de Chagas. Meu pai fez o tratamento no Hospital das Clínicas, e como eu morava próximo do ponto final da linha de ônibus do bairro, todo fim de semana eu ia visitá-lo. Painho passou a tomar remédios controlados, alguns eram doados e outros comprados. Terminei o ensino fundamental e parti para o ensino médio. No sorteio de vagas, a escola que caiu para eu estudar foi o Colégio Estadual da Bahia – unidade central. Surgiu a preocupação de como iria estudar, pois teria de pagar ônibus, e, com meu pai doente, a situação estava crítica. Então comecei a vender doces em casa e brigadeiros na escola, a fazer pesquisa escolar manuscrita (acabei com tendinite)... tudo para ter o dinheiro do transporte. Em 2001 ocorreu uma greve escolar enorme e eu, pela primeira vez, perdi o ano letivo. Tive de repetir tudo, fiquei triste mas meus pais me apoiaram. Estava no 3º ano. Quando estava no 3º ano, em 2003, aconteceu algo inesperado: meu pai sofreu um derrame em 19 de julho, sobreviveu até 7 de agosto e faleceu nos braços de minha mãe. A tristeza abalou a nossa família, agora resumida a mainha, eu e Jamerson. Minha maior lembrança dele era quando dizia: “como ovo com farinha mas eu formo a Eliana, ela vai ser doutora”. Tudo que ele queria para si depositou em mim, tendo orgulho da minha capacidade. Por isso que desde então me esforço para ter uma graduação no curso que adoro, Museologia. Fiz vestibular em outras instituições particulares e públicas, fui aprovada em Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 51 particulares, mas como não tenho condições de pagar nem era o que eu queria, nunca fiz matrícula. Ao saber da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), resolvi me inscrever. Fui aprovada, só que surgiu um grande problema: não tenho parentes em Cachoeira e isso dificultaria cursar Museologia. Mas como existe Deus, surgiram dois anjos na minha vida: Agnaíldes e Vera, que me acolheram em sua casa sem me conhecer direito. Saí de casa para estudar, deixando meu quarto, minha família, minha vida, mas está valendo a pena. Estou em Cachoeira e, quando retornar, estarei realizada. Com a minha graduação desejo atuar na área de pesquisa e documentação de uma instituição, atrás do reconhecimento profissional. Desejo fazer pós-graduação em História da África (um assunto que tenho curiosidade em conhecer profundamente), quero fazer cursos de especialização na área de restauro. Tenho de agradecer a Deus e a todos que me ajudaram a ser a primeira pessoa da família a ser universitária, em especial a tia Leli, tia Esperança, tia Didi, tia Regina, tio Chico, tio João, tio Antonio, tio Pedro, tio José, minhas madrinhas Ene e Zélia, meu padrinho Manuel, aos meus primos e primas, a seu Luiz e dona Raimunda (pelos conselhos), Nilza e Helena (por me ajudarem a segurar a barra e a chorar, quando precisava), a Jamerson, Gilmar, Irani e a todos que sabem o quanto eu os amo. Eu dedico tudo o que eu fiz, faço e vou fazer a painho (in memorian) e a mainha. Também não posso esquecer do meu maior tesouro, que é Tamires, minha afilhada. Minha vida simplesmente se resume ao modo em que fui criada, humildemente, e como vou transformá-la após minha participação no Programa Conexões de Saberes e na UFRB. 52 Caminhadas de universitários de origem popular Trajetória da conquista de um sonho Emanuel Silva Andrade* Logo quando comecei a freqüentar a escola, com uns seis anos de idade, numa comunidade da zona rural de Maragogipe-BA, onde morava com meus pais e mais três irmãos, percebi que estava me deparando com algo totalmente novo: a leitura. Ficava ansioso para aprender a ler e assim poder mostrar para os meus pais a novidade que já fazia parte da minha vida. Foi tudo tão rápido que, quando me dei conta, já estava terminando a quarta série do ensino fundamental e no ano seguinte iria estudar a quinta. Daí que surgiu um novo desafio. Teria que me deslocar de onde morava, na zona rural, para a zona urbana da cidade, pois só lá tinha escolas que ofereciam cursos a partir desta série. Nossa! Lembro-me como se fosse hoje. No início foi muito difícil. Tinha que ir na carroceria de um caminhão com meus irmãos e mais uma turma de pessoas. Às vezes, este quebrava ou a prefeitura atrasava o salário do motorista, e assim o transporte faltava, então tinha que andar durante uma hora até a escola. Minha mãe, Maria, ficava muito preocupada, pois me achava muito ingênuo em comparação ao pessoal da cidade, que eles poderiam fazer algo de mau comigo. Com exceção das brincadeiras discriminatórias, por eu ser da zona rural, não havia nada de tão preocupante assim. Na época em que estudava, nas horas vagas, ajudava meus pais no trabalho da lavoura; nunca gostei desse tipo de trabalho, mas era necessário praticar. Quando terminei a primeira série do ensino médio, fui chamado pela diretoria da escola onde estudava para trabalhar como conferente de matrícula, pelo meu boletim acadêmico ser um dos melhores da sala. Oficialmente, era o meu primeiro trabalho remunerado; trabalhei durante um mês e meio e foi uma experiência muito significativa para o meu desenvolvimento pessoal e profissional. Em 2004, com dezoito anos, quando estava perto de concluir o ensino médio, o pensamento sobre o futuro não saía de minha mente. Era um período de ansiedades, dúvidas e deduções sobre a minha vida após o término do período escolar, mas de uma coisa eu tinha certeza: queria continuar estudando. Minha irmã Fernanda, com dezenove anos, estava na expectativa de fazer o vestibular para estudar numa faculdade particular, o Instituto Adventista de Educação do Nordeste (IAENE); eu não tinha idéia de como ela pagaria as mensalidades, pois o seu trabalho não pagava o suficiente e nossos pais não tinham condições de ajudá-la. Aliás, eles e os moradores da comunidade não tinham noção alguma sobre universidade. Ela acabou passando para o curso de Pedagogia e deu um jeito de pagar. Eu, ao concluir o ensino médio, vim morar com ela numa casa alugada no centro de Maragogipe. Então enquanto ela trabalhava * Graduando em Museologia pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 53 e estudava, eu trabalhava como orientador pedagógico em um projeto na área de alfabetização de jovens e adultos. Era muito legal, visitava à noite as turmas de alunos, fazia reuniões com os professores e às vezes dava aula para os educandos. Foi uma experiência inesquecível pra mim. No ano seguinte, minha irmã não teve mais condições de pagar as mensalidades da faculdade. Após uma negociação com o IAENE, onde estudava, ela conseguiu um ótimo desconto, mas teria que trabalhar nesta instituição. Consequentemente ela largou o trabalho anterior, e daí surgiu uma chance de trabalho pra mim, que seria no lugar dela, novamente na área de educação, mas dessa vez, para trabalhar com alunos do ensino fundamental em um projeto em que coordenava trinta professores. Foi nesse período, início de 2006, que um curso preparatório para vestibulares e concursos públicos vinculado a uma nova universidade que tinha sido criada recentemente, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), passou a fazer parte da minha vida. Senti que era uma ótima oportunidade para me ajudar a ingressar numa instituição de ensino superior, assim como minha irmã já conseguira, ainda mais sendo pública, em que não me preocuparia com mensalidades. Seria um sonho pra mim. Quando o curso preparatório começou, Fernanda já morava em Cachoeira, onde estudava e trabalhava, e eu voltei para a casa de meus pais na zona rural, pois não tinha como pagar o aluguel sozinho. Saía de casa para trabalhar às seis horas da manhã e chegava às onze da noite, só depois do cursinho. Era uma rotina muito cansativa, mas sabia o que estava fazendo e tinha certeza que no final iria valer a pena. No meio do ano a UFRB abriu o seu primeiro vestibular. Eu não perdi a oportunidade e me inscrevi para o curso de Comunicação, mas no dia da prova, logo na primeira fase, fiquei doente e não fui fazê-la; isso me deixou muito triste e minha família também, pois sabia o quanto era importante para mim. Mesmo assim, não desanimei, continuei no cursinho e, no final do ano, novamente me inscrevi no vestibular do primeiro semestre de 2007, agora para o curso de Museologia, algo que nunca tinha pensado antes, apesar de sempre ter admirado uma instituição como um Museu. Dessa não houve imprevistos. Fiz o vestibular e fiquei na expectativa do resultado. Achei que tinha ido mal, pois tive dificuldades com os cálculos na prova de matemática e, no momento, fiquei muito nervoso, perdi tempo. Mas estava confiante, pois fiquei feliz com o meu desempenho na área de Ciências Humanas. Quando saiu o resultado e vi que estava aprovado, foi uma felicidade única, não só para mim e minha família, mas também para o pessoal da comunidade, pois lá praticamente ninguém tinha conseguido ingressar numa universidade pública. Depois disso, minha vida mudou totalmente. Mudei para Cachoeira, que é um pouco distante de Maragogipe, pois o curso é lá. Passei a morar numa casa alugada com alguns colegas. O primeiro mês de aula foi de adaptação, tanto com o curso quanto com a cidade, e logo surgiu um sério problema: as despesas eram muitas, meus pais não tinham como me ajudar e minhas economias do trabalho já estavam no fim. Foi exatamente neste tumultuado momento que surgiu a inscrição para o Programa Conexões de Saberes. Não perdi a chance de me inscrever, pois achei muito interessante a proposta e também seria uma grande ajuda financeira para continuar tranqüilo no curso. Para a minha felicidade, fui selecionado e hoje, com 21 anos, estou no primeiro semestre e com grandes expectativas para o futuro. Consciente de que a universidade é um mundo de diferenças em que prevalece o conhecimento, que para mim deve ser transmitido sempre como meio de transformação social para mudar essa dura realidade que ainda oprime muitos jovens a inserirem numa universidade. 54 Caminhadas de universitários de origem popular Texto autobiográfico Érica Paixão da Silva* Minha história é muito simples. Como em toda família de classe popular, passei por várias dificuldades. Meus pais sempre lutaram para criar a mim e meus dois irmãos, além de sempre nos incentivarem a estudar. Meu pai é pedreiro e minha mãe dona-de-casa. Estudei todo o ensino fundamental e médio em escolas públicas, sempre sonhei em fazer vestibular, concluí meus estudos mas desanimei um pouco. Trabalhei temporariamente numa loja de roupas da minha cidade, Cruz das Almas. Em 2005 me casei, e encontrei no meu esposo a força e o empurrão que precisava para despertar e voltar aos estudos. A convite de um primo, passei a estudar na biblioteca da cidade todas as tardes; cada semana lia um livro e ali mesmo, com alguns colegas, tirava minhas dúvidas. Muitas vezes pensei em desistir, mas Deus sempre colocava à minha frente pessoas que me incentivavam, assim continuei a estudar. Ao saber que a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), seria implantada na minha cidade e em cidades próximas, me animei bastante. Como não me interessava pelos cursos oferecidos em Cruz das Almas, me inscrevi para Cachoeira, e hoje - com muito orgulho - curso Museologia, que antes era um curso desconhecido para mim. Era muito difícil explicar para as pessoas do que tratava o curso, alguns diziam: “Museologia? Ah, você vai cuidar de coisas velhas”. E eu tentava, mesmo sem ter muito domínio sobre o que estava falando (porque ainda estava no primeiro semestre), explicar que além de preservar a memória, iria cuidar do nosso patrimônio histórico. Apesar das dificuldades enfrentadas na sala de aula, principalmente porque sou muito tímida e tinha que apresentar seminários e debater assuntos em sala de aula, estar na faculdade tornou-se algo maravilhoso, muito interessante e encantador. Mas apesar de todo encanto e interesse, tive que encarar a realidade das dificuldades financeiras de ter de cursar uma faculdade algo distante de minha casa, mesmo pública. Pagar o transporte e tirar várias fotocópias por semana não é fácil, ainda mais para quem não trabalha, como eu. Quando soube do Programa Conexões de Saberes me interessei, me inscrevi, e quando descobri que tinha sido escolhida fiquei muito feliz e encontrei mais forças para continuar. * Graduanda em Museologia pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 55 Texto autobiográfico Evanilda dos Santos* Feliz o homem que acha sabedoria, o homem que adquire conhecimento: porque melhor é o lucro que ela dá do que o da prata, e melhor a sua renda do que o ouro mais fino. Provérbio 3. 13-14 Em busca de conhecimento Meu nome é Evanilda dos Santos. Nasci em Cachoeira-BA, no dia 6 de fevereiro de 1982. Sou da zona rural de Conceição da Feira e filha do encanador Ezequiel dos Santos e da doméstica Maria do Carmo dos Santos. Tenho quatorze irmãos, entre os três casamentos de meu pai. Hoje moro apenas com meu pai, minha madrasta Carolina e meu irmão Willys. Quando eu tinha dois anos de idade meus pais se separaram, então minha mãe foi embora levando consigo duas irmãs: Elenilda e a caçula Elizabeth, deixando seis filhos para meu pai criar. Ele sempre foi um homem batalhador e sua infância foi muito sofrida. Apesar de tudo sempre foi forte e nos criou da melhor forma possível. Foi uma fase bastante difícil para mim e meus irmãos, pois vimos nossa mãe ir embora e não podíamos fazer nada para impedir, apenas choramos pedindo que ela não fosse. Ficávamos sozinhos em casa e meus irmãos mais velhos, Raimundo e Ecia, tomavam conta dos demais. Meu pai saía bem cedo para trabalhar, chegava muito tarde e, além do mais, nesse período ele bebia muito. Depois de alguns anos meu pai casou-se com Carolina, que consigo, trouxe três filhos: Uberlândio, Wilsa Carla e Willys. Para nós, Carolina não se tornou apenas uma madrasta, mais sim nossa mãe, pois ajudou meu pai a nos criar e nos tornou pessoas de bem. Ainda não freqüentávamos a escola, e logo que ela chegou nos matriculou. No primário, estudei na escola Canteiro da Alegria que ficava bem próxima de minha casa, e depois na escola Jessé Bittencourt Dalto, que ficava um pouco mais distante; para mim era maravilhoso freqüentar a escola. Em 1994, comecei a estudar o ensino fundamental e tive muita força de vontade, pois a escola Padre Alexandre de Gusmão, que eu freqüentava, era muito longe e meu pai não tinha como para pagar o transporte; assim, tive que ir a pé, percorrendo três quilômetros todos os dias. Mas apesar de ter andado vários quilômetros durante cinco anos, enfrentando * Graduanda em Museologia pela UFRB. 56 Caminhadas de universitários de origem popular períodos de chuva e sol, eu confesso que foram os melhores anos que estudei e que mais me diverti. Encontrei pessoas maravilhosas, principalmente minhas amigas Dorlene e Adriana, que estiveram sempre comigo durante todos esses anos. Depois de concluir o ensino fundamental, fui estudar no centro da cidade, no Colégio Yêda Barradas Carneiro, em 1999, enquanto que Dorlene e Adriana foram para outro colégio. Apesar de termos tomado rumos diferentes, ainda matemos algum contato e, quando nos encontramos, nos divertimos bastante, lembrando dos velhos tempos. No primeiro ano do ensino médio, em meio a tantas dificuldades financeiras, meu pai teve que pagar transporte, pois não daria para ir à pé. Já nos anos seguintes, a prefeitura colocou ônibus à disposição dos alunos. Assim, foi maravilhoso concluir meu ensino médio, sem me preocupar com esse problema. Nesse colégio encontrei Ariana e Clésio e nos tornamos bons amigos, desde o primeiro dia de aula nos identificamos muito e sempre estávamos juntos. Hoje estamos distantes, mas sempre mantemos contato. Em 2001 concluí o ensino médio. Desde então, passei seis anos sem nenhuma ocupação profissional, apenas trabalhei com reforço escolar para crianças da minha comunidade e, nos fins de semana, me reunia com meus irmãos Willys e Ecilene e com minha amiga Joseane e com outros colegas para ensaiarmos no nosso grupo de dança, “Blit Dance”. Resolvi estudar para o vestibular, meu grande sonho ainda é fazer Letras com habilitação em Inglês, mas devido às condições financeiras, não tive nenhuma oportunidade de fazer. Eu sempre me perguntava: será que vou conseguir fazer parte de uma universidade? E quando eu consegui o dinheiro para pagar o vestibular, escolhi a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), mesmo não tendo o curso de Inglês que eu tanto queria, pois o custo de manutenção seria menor, principalmente no que diz respeito a passagem, pois a universidade fica mais próxima de minha casa. Prestei vestibular pela primeira vez e escolhi Museologia. Fui aprovada, confesso que estou adorando e pretendo concluí-lo; vejo que as portas estão se abrindo e quero aproveitar cada momento da melhor forma possível, inclusive para manter aceso aquele sonho, de fazer Letras. Estou muito feliz por ter conseguido entrar para uma universidade e, mesmo enfrentando problemas financeiros, sei que vou conseguir vencer, pois Deus tem me dado muitas provas e hoje mais uma porta foi aberta. Agora faço parte do Programa Conexões de Saberes, onde pretendo me dedicar e desempenhar um bom trabalho junto às comunidades, adquirindo e passando conhecimentos. Agradeço a Deus e à minha família por tudo que tem acontecido comigo, além de meu namorado, Neto, que amo muito e tem me ajudado bastante. Hoje, diante de todos os fatos ocorreram em minha vida, carrego sempre comigo a seguinte frase: Lutar sempre, vencer às vezes, desistir jamais. Pensamento Popular Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 57 Vários obstáculos, novas conquistas... Fabiana Aguiar Fonseca * O passado pra mim é uma cortina de vidro. Estou feliz e orgulhosa, pois posso observálo para caminhar para o futuro. Espero, através da minha história de vida, nutrir esperanças, estimular e quem sabe até desenterrar os sonhos daqueles que pensam que universidade é um sonho inatingível. Nasci em 18 de abril de 1981, em Imperatriz, no Maranhão. Quando criança, adorava fabricar meus próprios brinquedos com meu irmão. Minha mãe e meu pai passavam o dia trabalhando na roça e na casa de farinha, fazendo fécula de mandioca. E nós passávamos o dia ajudando nossos pais nas tarefas e fazendo travessuras. Não posso dizer que fui uma criança completamente feliz, pois me faltava algo muito especial e desejado: estudar! O que foi muito difícil, devido ao lugar onde a família morava, na zona rural, muito distante da cidade, onde ficava a escola. Por isso essa felicidade só veio se concretizar aos nove anos, quando minha mãe conseguiu a casa de minha avó para ficarmos. Foi então que pude ir à escola e estudar, como as outras crianças. Um mundo novo no qual aos poucos fui me inserindo. Confesso que no começo fui um “bicho do mato” tentando adaptar-se num mundo completamente diferente, porém muito fascinante, que fez de mim uma aluna muito dedicada. Aos quatorze anos, depois de ter cursado a 6ª série, tive que parar os estudos, por falta de lugar para morar, e voltei para o campo. Com 15 anos, acontecimentos marcantes mudaram minha vida: casei e vim morar aqui na Bahia, com promessas de emprego para meu esposo. Aqui, fomos morar com meus sogros, na zona rural de Sapeaçu, onde passamos momentos difíceis, ficando dois anos desempregados. Quanto aos meus estudos, foram ficando um sonho cada vez mais distante. Tentei inúmeras vezes recomeçá-lo, mas meu esposo não concordava com tal idéia, o que tornouse motivo de desavenças durante alguns anos. Com muita dificuldade, terminei o ensino fundamental fazendo Comissão Permanente de Avaliação (CPA), no Colégio Estadual Olavo Galvão, em Santo Antonio de Jesus. O CPA marcou a data da prova, eu peguei a relação dos assuntos e só voltei lá para fazê-la. Foi uma experiência com frutos de má qualidade, pois se com os professores explicando na sala de aula torna-se difícil estudar, imagine sem eles, como foi meu caso. Em 1999 nasceu minha filha Bianca, que hoje é meu incentivo para lutar. Foi e é maravilhoso dedicar-me a ser mãe. Apesar de toda essa euforia, eu queria ser mais que isso. * Graduanda em Enfermagem pela UFRB. 58 Caminhadas de universitários de origem popular E o sonho de continuar meus estudos permanecia vivo em mim, nunca deixei de lutar pelo direito de continuá-lo. Porém, nessas várias batalhas, só obtinha fracassos, lágrimas e problemas. Só consegui continuar quando minha filha chegou à época de ir para escolinha. E depois de um “longo acordo”, pude estudar num colégio regular, a Escola Estadual Doutor Eliel da Silva Martins. Foi para mim uma grande vitória e também um desafio, pois tive que me desdobrar para acompanhar os assuntos, devido à deficiência do curso CPA. Mas venci com muita dedicação e prazer. E com tudo isso adquiri frutos bons, um deles foi meu boletim escolar, que foi meu passaporte nas inscrições dos vestibulares, sendo sempre isenta da taxa de inscrição. Ao concluir o terceiro ano, ainda sem muitas perspectivas de estudos, fui incentivada pelos meus professores, me inscrevi para o vestibular da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e prestei para Agronomia. Para minha surpresa, passei para segunda fase, porém não fui aprovada na lista final - não foi desta vez. Com essa experiência e conscientização dos professores e pessoas de minha família, foi brotando dentro de mim a idéia de que um diploma de 2º grau não seria suficiente, que ainda existia muito a ser conquistado e que eu era capaz. Tais idéias, apesar de simples para alguns, pra mim foram revolucionárias. E mais uma vez, estava eu diante de uma grande batalha. Imaginei que não existem vitórias sem lutas... garimpei pedras preciosas nas ruínas dos meus conflitos e nada conseguiu arrancar de mim esse tão desejado sonho. Com ajuda da minha mãe, que sempre acreditou em mim, pude fazer um cursinho prévestibular em 2006 em Cruz das Almas, de domingo a domingo. Com essa oportunidade, realmente conheci de verdade a física, a química e a matemática que pensava ter conhecido. Tudo parecia “grego”, e às vezes batia o desespero, mas eu estava ali com um objetivo e para isso tive que “traduzi-las” e absorver tudo. Torrei muito a paciência dos meus professores, muitas madrugadas foram minhas companheiras. E com a concretização da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) e as oportunidades por ela proporcionadas, pude então decidir o que realmente queria fazer. Acabei me apaixonando pela área de Enfermagem. E no segundo vestibular para este curso na UFRB, apesar do nervosismo, conseguir passar para 2ª fase. Então, decidi dar mais de mim, estudando até dezesseis horas por dia e, felizmente, conquistei a minha tão sonhada vitória. Ufa! Não era mais um sonho, meu nome constava na lista dos classificados para enfermagem da UFRB. E também para História na Universidade Estadual da Bahia (UNEB). O sabor da conquista foi duplamente maravilhoso, uma felicidade inigualável e inexplicável. A vontade de gritar ao vento invadiu o meu ser, mas me faltaram forças e palavras. Só conseguia chorar muito. A partir de então, comecei a organizar os meus documentos para a matrícula, a ansiedade tomou conta de mim. Não via a hora de começar a estudar. Chegado o dia tão esperado da matrícula, numa manhã de chuva, vi meu sonho e minha alegria tornarem pesadelo, minha matrícula não poderia ser realizada devido a alguns problemas na documentação escolar (mais um fruto do CPA). Confesso que pensava que tudo estava indo por água abaixo, mas diante de todo esse desespero, permaneci sóbria, a fé me reergueu e fui à luta para ter o direito de poder realizar minha matrícula. Foram duas semanas de sofrimento e angústia, mas finalmente consegui regularizar a documentação e pude enfim ingressar na universidade. Ufa, mais uma vez! Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 59 Novos horizontes surgiram depois de tantas barreiras e meus sonhos renasceram após lágrimas derramadas. Apesar do cansaço, pois moro longe da universidade, tenho que ir e vir todos os dias de Sapeaçu. Estou gostando muito dessa nova etapa. Para complementar minha alegria, consegui a bolsa do Programa Conexões de Saberes, que está sendo muito importante para manter-me, principalmente com relação aos transportes. Além de proporcionar-me oportunidades para que eu possa exercer minha função social como cidadã universitária. Confesso que ainda tenho grandes desafios para enfrentar, obstáculos para superar e crises para vencer, pois dar conta de todas as responsabilidades (estudo, Conexões de Saberes, filha, esposo e casa), não é fácil. Mas a coragem é o combustível que mantém a chama acesa dos meus sonhos e o que me torna autora da minha própria história. E para isso, “precisamos apenas entender que não existem pessoas fracassadas, o que existe são pessoas que lutam pelos seus sonhos ou desistem deles. Por isso, nunca desista dos seus sonhos!” Augusto Curi. 60 Caminhadas de universitários de origem popular Texto autobiográfico Geoston Caetano Castro Oliveira* Pais Acho que devo começar a contar um pouco da minha história de vida, por meus pais, a quem devo uma gratidão eterna, mesmo com todos os problemas, percalços, indiferenças e brigas. Miguel Araújo Oliveira, nascido em Canudos, sertão baiano, como a maioria das crianças nordestinas não teve a infância que uma criança merece, e viu que o único caminho para a sobrevivência era pelo trabalho. Tendo que escolher entre trabalhar e estudar, parou na 4ª série do ensino fundamental. Assim como a vida deixa marcas, ela traz presentes, e a grande dádiva do meu pai é a minha mãe, mesmo sem ele demonstrar isso (ou talvez nem saber). Dalva Caetano Castro Oliveira, nascida em Jeremoabo e criada em Canudos, é uma mulher guerreira, de fibra, que modificou sua vida a favor dos filhos, mas nunca desistiu de realizar seus sonhos, como em 2001, o ano em que concluiu o ensino médio. A vida de um sertanejo poderia se resumir na fuga da seca, da pobreza e a busca de um a vida melhor. Ela foi morar em Feira de Santana e ele foi onde o trabalho o levava, tudo muito rápido. Se conheceram, namoraram e se casaram, concebendo quatro filhos: Giovanne, George, Geórgia e Geoston. Eu Sou Geoston Caetano Castro Oliveira, mas minha família e amigos de infância me chamam de “Nenê”, e outros me chamam de “Geo”, já que para um cara de quase dois metros de altura não fica bem chamar de “Nenê”. Tenho poucos amigos, mas os que tenho são pessoas as quais admiro muito. Não sei ser espontâneo no começo, só quem é meu amigo sabe como eu sou, tímido, sincero e adoro admirar as coisas à minha volta. Sou um cara legal, tenho meus defeitos mas sei ser honesto com aquilo que faço ou sinto, não sei enganar as pessoas nem mentir. Meus amigos sempre falam que muita gente já quis se aproximar de mim, mas não o fazem. Não sei porquê, talvez um dia eu descubra. Na escola A primeira escola em que estudei se chamava Talento Infantil, eu tinha sete anos. Lembro bem desse dia porque não chorei, não sorri, nem fiquei alegre ou triste, simplesmente * Graduando em Comunicação Social - Jornalismo pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 61 curioso: uma mistura de medo com admiração, vendo aquele mundo todo colorido, com figuras e desenhos na parede que eu não sabia o significado, que só depois vim saber que eram letras e números. Nessa escola estudei da alfabetização à 1º série e foram anos surpreendentes, acho que o despertar pelo estudo não poderia ter sido em um lugar melhor. Mas a realidade da minha família era outra. Meus pais não tinham como me sustentar em uma escola particular, então fui para o Colégio Estadual Dr. Wilson da Costa Falcão. Sorte minha que dois amigos foram comigo para o mesmo colégio, cuja integração com os novos colegas foi mais fácil, apesar de ser muito tímido. O “Wilson”, como chamávamos, foi palco da minha infância e começo da adolescência. Todas as alegrias, tristezas - enfim – as emoções e sensações da juventude ocorreram no pátio daquele colégio. Lembro da primeira vez que pensei na universidade, quando a professora de História Maria Araújo perguntou, logo no primeiro dia de aula, pra que área faríamos o vestibular e qual seria o curso escolhido. Foi quando se iniciou toda a vontade de fazer um curso superior. De lá até o primeiro vestibular foram vários cursos em que pensei em Medicina Veterinária, Biologia, História, Educação Física, Direito, Medicina e Odontologia, mas só o curso mudava, porque a vontade de estudar na universidade só crescia. Estudar nunca foi problema pra mim. Mas em relação a aprender o conteúdo, o problema se encontrava em como obtê-lo. Como no “Wilson” não havia ensino médio, fui para a Escola Estadual Helena Assis Suzart, que não era o colégio que eu queria, mas o mais perto da minha casa. Passei um ano reclamando com minha mãe que o ensino era muito fraco, porque o colégio era recém-inaugurado. No 2º ano do ensino médio fui para o Instituto de Educação Gastão Guimarães (IEGG), um colégio grande no centro da cidade, mas meu único interesse no colégio era o esporte, já que ele tinha fama neste setor. O meu ensino médio foi muito complicado, pois o dinheiro do transporte, lanche e fotocópia era curto, minha mãe às vezes me perguntava como eu conseguia passar a manhã toda sem comer nada, acho que era a vontade de entrar para a universidade. Pré-universidade Me formei em 2002 e, logo em seguida, prestei vestibular para a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) não consegui entrar porque zerei a prova de redação. Daí percebi que parte do que tinha aprendido não significava nada para o vestibular. Entre outros problemas, não conseguia fazer um cursinho preparatório porque me preocupava em como pagar. Então o governo federal lançou o Universidade para Todos, um cursinho prévestibular, mas não fui aprovado no seu processo seletivo. Não desisti, e quinze dias depois das aulas começarem fui pedir à coordenadora que me deixasse assistir às aulas, e a resposta dela foi positiva. Fiz alguns vestibulares, só passei no quinto e, por sinal, foi a alegria e surpresa de todos, pois eu já trabalhava de manhã e fora aprovado no processo seletivo do Centro de Educação Tecnológica da Bahia (CETEB). Cursava à tarde, à noite ia para o pré-vestibular e estudava de madrugada até o sono e o cansaço me derrubarem. Tive êxito na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), na Universidade Estadual da Bahia (UNEB) e na UEFS. Mas nesta, que era meu alvo principal, julguei que não teria condições de me manter ao longo do curso e optei por não me inscrever. Foram quatro anos de espera para ver a cena mais linda e perfeita, o olhar e o sorriso da minha mãe, algo que com palavras, sinais, gestos ou imagens é indescritível, algo que só eu sei. 62 Caminhadas de universitários de origem popular Universidade “Um mundo totalmente diferente do que pensamos”. Essa é a primeira impressão que senti quando entrei na universidade, que como o próprio nome diz, é um universo de conhecimento e descoberta. Algo interessante de se ressaltar na UFRB é que existe uma mistura de etnias, religiões, classes sociais e opiniões, algo que a diferencia das outras universidades. Optei por Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, depois de tantas dúvidas. Descobri que quero seguir na área, mesmo sendo tímido, porque o curso é muito abrangente. Escolhi Jornalismo mas quero me especializar no campo audiovisual, pois na Bahia as universidades públicas só oferecem esta formação, além de Relações Internacionais ou Multimeios. Existe um rótulo sobre o curso de Comunicação e acho que isso se reflete na sala, pois ela é heterogênea, não é como na maioria das universidades em que grande parte dos alunos do curso é oriunda de classe social mais abastada. O que me parece é que há uma separação na sala entre os alunos, em grupos formados, mas o clima é legal. Tento ser amigo de todos e, por incrível que pareça, as pessoas mas legais são aquelas que têm as mesmas dificuldades que eu! Espero que o curso me dê a oportunidade de conseguir um emprego que me ajude a levar meus estudos adiante. Sei que quero seguir na vida acadêmica, talvez fazer mestrado e doutorado, e para isso terei que trabalhar e estudar como nunca, algo que já fez parte da rotina de minha vida. Com o projeto da Bolsa Clemente Mariane e o Programa Conexões de Saberes, posso ficar um pouco mais tranqüilo e só me dedicar aos estudos e ao projeto e aumentar minha experiência profissional e humana, pois trabalhar com pessoas é uma forma de aprendizado muito gratificante e o projeto está ainda começando, assim como a universidade. Mas faço projeções de que será um sucesso. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 63 Texto Autobiográfico Jeovana Ribeiro de Jesus do Nascimento* Chamo-me Jeovana Ribeiro de Jesus do Nascimento, tenho 20 anos, fui aprovada no vestibular 2007 da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) no curso de Museologia, em Cachoeira, no turno da manhã. Moro em Cruz das Almas e me desloco diariamente para poder estudar. Em 2005 me inscrevi no curso de Psicologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e não passei. Devido a pesquisas na internet, para me informar melhor sobre a área de atuação da Psicologia, tomei afinidade pelo curso e gostaria muito de ser psicóloga, mas como não tinha conseguido passar nessa minha primeira tentativa, então resolvi mudar de curso, algo que não fugisse daquilo que eu tinha tido afinidade e que estivesse ao alcance das minhas condições. Daí surgiu esse projeto da UFRB, e tomando conhecimento dos cursos que estariam disponíveis fiz uma análise de cada um. Vi que teria o curso de Psicologia na UFRB para Santo Antônio de Jesus, era o que eu desejava fazer, mas por questões financeiras percebi que, com o transporte, os gastos seriam ainda maiores. Por mais que eu gostasse de Psicologia, não poderia me comprometer a fazer esse curso, e, se eu passasse, não teria como me manter caso fosse morar lá. Nós, estudantes, quando concluímos o ensino médio, desejamos prosseguir nos estudos fazendo algum curso superior. Muitas vezes por pressão dos pais que exigem, obrigam e até mesmo escolhem os cursos que seus filhos devem fazer, e por outro lado os jovens vêem na faculdade uma forma de “independência”, ou seja, se ver livre pra tomar suas próprias decisões. Muitos saem de casa pra morarem sozinhos, em repúblicas, alugam casas, etc; alguns conseguem arranjar um emprego e conciliar trabalho e estudo, e outros têm sua “independência” limitada, pois dependem de pensões dos seus pais para se manter. Muitos jovens ficam iludidos com a faculdade, esse desejo de sair de casa, ter sua liberdade, festas, curtição: tudo é uma maravilha. Mas quando você está lá dentro a realidade é outra, temos que ter responsabilidades, precisamos de muita atenção para termos um bom aproveitamento do curso. Eu mesma pensava em ir pra Salvador trabalhar e estudar lá, era meu sonho de consumo, mas eu vi que não teria condições, se eu fosse pra lá teria que morar na casa de parentes, o que não é a mesma coisa que a minha casa e, mesmo trabalhando, as despesas seriam muitas. Então nessa minha análise me interessei pelo curso de Museologia, que envolve História da Arte, restaurações de patrimônios históricos, o estudo dos museus e a função que ele vem a desempenhar na sociedade, as transformações, enfim, é algo novo pra mim e a princí* Graduanda em Museologia pela UFRB, 64 Caminhadas de universitários de origem popular pio gostando muito, porém com dificuldades em algumas disciplinas, pois como falei é tudo muito novo e a quantidade de assuntos é grande, principalmente para quem vem de uma escola pública e que não está acostumada com essa sobrecarga. Fica um pouco puxado e além disso há algumas novas matérias que nunca tinha visto no ensino médio. Mas pelo fato de Cachoeira ser próximo a minha cidade, resolvi investir e me inscrevi, só não tinha pensado como eu faria para me deslocar todos os dias. Fiz as provas da 1° fase não muito confiante em passar, mas tinha fé, então passei para a 2° fase e percebi que minhas chances de ingressar na faculdade estavam aumentando, era uma oportunidade única que eu não poderia deixar escapar. Hoje em dia ou você é qualificado, ou seja, ser apto para exercer uma função, ou você entra na enorme fila dos desocupados; até os profissionais que tem curso superior se deparam com esse caos que é o desemprego, e por necessidade acabam exercendo cargos que não estão relacionados com sua formação. Então, diante desses fatos, temos que ir sempre em busca de aperfeiçoamento para estarmos preparados para o mercado de trabalho. Espero ao concluir o curso de Museologia fazer estágios e me especializar cada vez mais, para atender as necessidades do mercado. Nunca participei de movimentos estudantis, já contribuí com a comunidade popular arrecadando alimentos não perecíveis e estaria disposta a contribuir mais ainda com algum projeto da faculdade para com essas pessoas. Venho de uma família de classe média, pois apesar de muitas dificuldades nunca passei fome, sempre tive moradia e assistência médica. Meus pais não tiveram a oportunidade de estudar como eu tenho hoje, mas eles sempre trabalharam muito para não faltar nada dentro de casa e sempre me deram uma boa educação. Estudei o ensino fundamental todo em rede pública, e sabemos que o ensino público deixa muito a desejar, os alunos têm uma enorme carência de aprendizagem e nem sempre estão preparados o suficiente para enfrentar essa competitividade de mercado. Meus pais, em busca de melhorias de ensino pra mim, após a conclusão do ensino fundamental me colocaram em uma escola privada, juntamente com a ajuda de minha madrinha, que pagava as mensalidades para que eu tivesse no ensino médio uma boa preparação acadêmica que me ajudaria futuramente, porém as condições financeiras não permitiram que eu continuasse nessa escola privada, então concluí o ensino médio numa escola estadual. Minha mãe é de cor branca e o meu pai de cor negra e dessa mistura eu nasci. Conforme as características genéticas, me considero negra e até o momento nunca fui discriminada pela minha família, amigos ou em qualquer lugar que eu fosse. Meus pais são separados e moro apenas com minha mãe. Não trabalho e a única renda da casa é proveniente da aposentadoria de minha mãe, que recebe um salário mínimo. Esse dinheiro é dividido em alimentação, água, luz, gás e medicamentos, pois minha mãe sofre de hipertensão e necessita sempre de remédios para o seu tratamento, fora outras despesas que surgem, então essa renda mal dá pra suprir as necessidades da casa. Tenho que buscar ainda o dinheiro do transporte, porque tenho que ir e vir todos os dias, tirar fotocópias, alimentação na faculdade, e as possíveis viagens em grupo que teremos para as aulas práticas, como conhecer os museus de Salvador, Minas Gerais (aonde desejo muito ir, para conhecer Ouro Preto), Rio de Janeiro, entre outras cidades, ir para congressos etc. Além das despesas da faculdade, eu usaria parte da bolsa para fazer um curso de línguas estrangeiras, pois hoje em dia vários lugares exigem que as pessoas falem mais de Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 65 um idioma, e nessa área da Museologia é muito bom aprender mais de um idioma. Quanto mais qualificada for a pessoa, melhores serão as oportunidades de trabalho; seria bom se na universidade implantassem esse curso de línguas estrangeiras também. Gostaria muito de ter um emprego pra suprir essas minhas necessidades, mas é tão complicado arranjar para as pessoas que estão disponíveis a cumprir a carga horária de oito horas por dia, imagine pra mim, que estudo pela manhã e que teria apenas a tarde ou a noite para trabalhar, fora que teria que reservar um tempo pra estudar em casa, e também tem a questão que eu talvez não conseguisse conciliar os dois, trabalho e estudo, pelo menos nesse início de semestre. Por isso me inscrevi no Programa Conexões de Saberes, para tentar essa bolsa, porque de certa forma eu dependo de alguma renda pra continuar a freqüentar a faculdade. Eu achei essa iniciativa de criar um programa que ajude financeiramente os alunos da universidade oriundos da rede pública muito importante para o aproveitamento estudantil, porque apesar de ser pública, existem gastos nos quais aqueles mais necessitados desistem de estudar e deixam de lado seus sonhos por falta de renda, mas com essa ajuda torna-se propício a permanência daqueles que precisam se manter na faculdade. 66 Caminhadas de universitários de origem popular Autobiografia Jordana da Silva Chaves * Eu me chamo Jordana da Silva Chaves, sou filha de Josino Campos Chaves e Maria Rita da Silva Chaves. Nasci em Santo Antonio de Jesus, Bahia, porém nos meus primeiros anos de vida morei na zona rural de Dom Macedo Costa (cidade natal de minha mãe). Para entender melhor a minha história, é necessário voltar ao tempo e falar um pouco de meus pais. Com muita dificuldade minha mãe, em uma família de sete irmãos e mãe solteira, conseguiu estudar e concluir o ensino médio, onde fez magistério. Já o meu pai nem conseguiu se alfabetizar: vindo de uma família de doze irmãos, o trabalho acabou sendo bem mais importante que os estudos. Os problemas de saúde fizeram com que minha mãe parasse de lecionar, ela ensinava alunos de primário e, portadora da Doença de Chagas , foi preciso colocar marcapasso no coração, não podendo mais exercer sua função de professora. Ela hoje está em fase de readaptação, com a saúde fraca. Outra dificuldade é o fato de meu pai ser autônomo, e não ter renda fixa; a maior parte das contas da casa minha mãe quem paga. Apesar de tudo, os dois sempre fizeram questão que eu e meu irmão Diêgo estudássemos para no futuro vislumbrar uma vida melhor do que a que eles tiveram. Sempre estudei em escola pública. Fiz meu primário na Escola Municipal Cefira Baylão Diniz, mesmo local onde minha mãe trabalha. Foi lá que eu construí meus primeiros laços de amizade fora da família. No ginásio, comecei a estudar no Colégio Felix Gaspar e concluí no Colégio Rômulo Almeida. Sei das dificuldades e das falhas da educação no país em que vivemos e isso fez com que eu desse cada vez mais valor aos esforços dos meus pais. Mesmo contra a vontade deles, resolvi trabalhar durante meu ensino médio na expectativa de ajudar nas despesas, mas vi que essa não era a melhor maneira de ajudá-los. Trabalhar sem carteira assinada não dá expectativa nenhuma de vida e eu não via futuro ali. Minha mãe sofreu derrame cerebral e foi um choque muito grande para toda a família. A fala foi prejudicada, mas graças a Deus, ela está viva. Decidi abandonar o trabalho e estudar para a universidade. Entrei em um cursinho pré-vestibular de caráter social, mas por já ter entrado atrasada, não consegui acompanhar o ritmo, ficando apenas seis meses. No ano seguinte, retornei ao cursinho e me dediquei de corpo e alma, lutei ao máximo para alcançar meu objetivo, que era a universidade. Nessa batalha tive pessoas maravilhosas ao meu lado e Samuel, meu namorado, foi quem mais esteve mais presente, estudando, apoiando, e até mesmo dando bronca. Resultado: ambos passamos na mesma universidade e, por incrível que pareça, no mesmo curso: ENFERMAGEM. Hoje sei que posso conquistar todos os meus objetivos, basta ter força de vontade e perseverança. * Graduanda em Enfermagem pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 67 O impossível aconteceu José dos Santos* Em 27 de janeiro de 2007, ao abrir timidamente o jornal A Tarde, consultei a relação dos candidatos aprovados no vestibular da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e constatei que o meu nome se encontrava entre os aprovados do curso de Engenharia de Pesca. O impacto foi tão grande que terminei transformando a bela notícia da conquista em um silêncio profundo, acompanhado de meditação e agradecimento a Deus, pela tão sonhada vaga que já estava se tornando uma utopia. Em três outros concursos do referido vestibular eu já havia fracassado. Além disso outros fatores, como o longo período afastado da sala de aula (vinte anos), a conclusão dos ensinos fundamental e médio em escola pública e a falta de um curso preparatório para a realização de vestibular me respaldavam em certo desânimo e davam a entender que ser aprovado em um concurso de universidade federal era algo muito difícil nessas condições. Quem sou eu Para uns, José pescador; para outros, José do camarão; mas eu gosto mesmo é de ser chamado Zé de Dona Jovelina ou de Zé do seu João. José pescador: Desde a infância acompanhava meu pai e meus queridos irmãos nos dias de boas marés. Antes de ir para a escola, para vencer na vida e conseguir uma parte da alimentação, tínhamos grandes compromissos com a pesca, pois quando não estava lançando rede, estávamos arrastando um pequeno calão (rede de pesca de porte médio). Um saudoso amigo do meu pai, Antônio Viana, sempre que via a nossa saída do porto, dizia: “Lá vai a canoa cobiçada com seu João e sua tripulação, para mais um dia de ensinamento de uma grande lição: de como seus filhos se defenderem da fome através da pesca, sem nada dos outros lançarem mão” José do camarão: Para não fugir do mar e ter uma carreira, o único jeito que arrumei foi trabalhar com o cultivo de camarão. Foram muitos anos de vida dedicados a esta função; com ela eu fiz quase tudo: criação em gaiolas, cativeiro e até pesca de arrastão. É por isso que alguns me chamam até hoje de José do camarão. Zé filho de dona Jovelina ou Zé do seu João: João é o meu pai e Jovelina é a minha mãe. Eles são as maiores pessoas da minha vida, por quem eu tenho grande consideração. É com muito carinho, amor e muita satisfação que os guardo no meu coração. Portanto, antes de tudo, jamais irei preferir ser chamado de outro nome, a não ser Zé de Dona Jovelina ou Zé do seu João. * Graduando em Engenharia de Pesca pela UFRB. 68 Caminhadas de universitários de origem popular De onde eu venho Venho de uma linda cidade do Baixo Sul da Bahia, chamada Ituberá. Como eu não sei falar em versos, deixarei alguém com mais experiência as belezas dela recitar. Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer eu encontro lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar –sozinho, à noite– Mais prazer eu encontro lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu’inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá. Gonçalves Dias Para onde eu vou A partir desta nova etapa de vida, acadêmica, me preparo para realizar a minha grande missão, que é, sem me interessar em ganhar muito dinheiro, compartilhar com o próximo, sendo ele sem terra, sem lar ou sem chão, os conhecimentos adquiridos com minha nova profissão de engenheiro de pesca. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 69 Texto autobiográfico José Raimundo dos Santos* Nasci em Amargosa, no interior da Bahia, oriundo de uma família pobre. Por isso, desde criança, trabalhei pela busca de melhores dias de vida para mim e para toda minha família. Pela falta de apoio da figura paterna em todos os aspectos, tive que trabalhar desde muito cedo para ajudar no sustento da família. Aos doze anos estudava o primário durante a semana e comecei a vender picolé aos sábados na minha cidade natal. À medida que crescia, sentia uma maior necessidade de trabalhar mais, pois as despesas da família aumentavam. Foi quando comecei a fabricar e vender vassouras feitas artesanalmente por mim, o que continuei a fazer por alguns anos. No final de 1995 terminei o primário e, por conta disso, passei a estudar na Escola Agrotécnica de Amargosa, onde fui elogiado e incentivado pelos meus professores pelo meu bom desempenho escolar. Também conquistei a amizade de muitas pessoas, de quem até hoje sinto saudades. Em 1997 mudei-me com minha família para Santo Antônio de Jesus, onde passamos a morar de aluguel num bairro pobre da cidade, cujo nome é Irmã Dulce. Matriculei-me no Colégio Luis Viana Filho, para fazer o supletivo da 7ª a 8ª séries. Em 1999 fui para o Colégio Rômulo Almeida estudar à tarde, já que trabalhava durante a noite, sendo por isso reprovado no final do ano. Por isso, só terminei o ensino médio no final de 2002. Ainda dentro do meu terceiro ano, brotou o sonho de cursar História, pelo fato de ter um professor que ensinava esta disciplina de forma crítica e reflexiva: professor Edinaldo. Foi isso que me motivou a conhecer as questões sociais, porque o modelo capitalista contribui para a desigualdade social, onde prevalece a falta de perspectiva de vida em pessoas que vivem na miserabilidade econômica, que em sua grande maioria são pessoas de origem africana – na minha opinião – porque isso reflete diretamente na comunidade onde eu moro. Através do estímulo de alguns professores, matriculei-me em 2004 no curso pré-vestibular Tiro de Guerra, para prestar vestibular na Universidade Estadual da Bahia (UNEB) no final do ano, sem êxito no processo de seleção. Em 2005 fiz cursinho novamente, estudava em casa, mas não tive sucesso novamente na prova, para cursar História na UNEB. Em 2006 entrei no curso pré-vestibular Razão, participei no meio do ano do processo seletivo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), passei na primeira fase, no entanto não passei na segunda. Inscrevi-me novamente no processo seletivo da UNEB e * Graduando em Psicologia pela UFRB. 70 Caminhadas de universitários de origem popular UFRB, no final do ano, e graças a Deus, passei para cursar Psicologia na UFRB, que também me fascinou por ser uma área que está ligada ao estudo do homem em diversos contextos, como histórico, social e cultural. Tive que sair da empresa em que trabalhava, pois não dava para conciliar o trabalho e o estudo. Por isso, vários obstáculos estão surgindo e surgirão outros pela frente, tenho certeza. Já matriculado na UFRB, espero ao terminar o meu curso, colaborar na melhoria da qualidade de vida das pessoas, principalmente aqueles que vivem oprimidos pelos detentores do poder político do nosso país. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 71 Autobiografia Joselita de Jesus Bomfim* Eu, Joselita de Jesus Bomfim, nasci na Zona Rural de Itamari, na Bahia. Tenho 25 anos, sou solteira, moro com meus pais e três irmãos, tenho pele negra, olhos castanhos escuros e 1,65 metro de altura. Iniciei a minha vida escolar aos seis anos, me alfabetizarei na zona rural e logo depois comecei a estudar o primário na Escola Estadual Dr. Vasco Filho, onde concluí a 4ª série no ano de 1994. Já em 1995, comecei o ginásio na Escola Municipal Centro Educacional de Apuarema. Nesta mesma escola cursei todo o ensino médio, e em 2001 prestei o meu primeiro vestibular na Universidade Estadual da Bahia para o curso de Enfermagem. Fui classificada, mas não convocada em virtude no número insuficiente de vagas. Essa trajetória continuou e, já em 2005, prestei novamente vestibular, desta vez me sentia mais preparada, pois estudei um ano de cursinho. O problema é que ainda não foi suficiente, fui reprovada de novo! Voltei para a minha cidade, trabalhei durante o dia, dava aula de Ciências de 5ª a 8ª séries e à noite trabalhava com classe de alfabetização. Hoje, realizo o meu sonho ao cursar Enfermagem na UFRB. Espero que seja a minha verdadeira vocação, pois a luta não foi fácil, já que vim de uma família de classe baixa com pouca ou quase nenhuma instrução escolar. Espero que consiga concluir o curso, já que este é um dos grandes desafios do aluno que vem da escola pública com baixo poder aquisitivo, como o meu caso. Mas apesar de todos os obstáculos, pretendo realizar o meu novo sonho, que é concluir a graduação, me especializar na área e fazer um doutorado em Patologia Humana. Ser, enfim, realizada profissionalmente. E dar uma condição de vida melhor para os meus pais, que tanto lutaram e se dedicaram para a conquista do meu sonho. * Graduanda em Enfermagem pela UFRB. 72 Caminhadas de universitários de origem popular Verdadeira identidade Leila Pereira da Cruz* Nascia mais um dia, o Sol aquecia a terra, o mundo estava tão diferente e não sabia que ali, logo em frente, a poucas horas, aconteceria uma coisa especial. No dia 8 de setembro de 1989, às 12:20, o mundo se alegrou, a felicidade aumentou, nascia em uma maternidade de Cruz das Almas uma criança de nome Leila, filha de Luiz Alberto e Valneide Pereira. Meu pai, pedreiro, estudou até a 4ª série. Órfão de pai aos sete anos, teve que trabalhar para ajudar sua mãe na criação de seus oito irmãos e, devido a isso, não pode se dedicar aos estudos. Teve de abrir mão de ser uma criança com infância normal e divertida para ser uma criança cheia de responsabilidade desde cedo. Ele começou a trabalhar vendendo picolé para ajudar nas despesas de casa, um pouco mais tarde ele aprendeu a profissão de pedreiro e começou a trabalhar nessa área. Depois ele conheceu minha mãe, que já tinha dois filhos. Minha mãe, dona de casa e aposentada, estudou até a 6ª série. Largou a escola devido a problemas de saúde e não pôde nem concluir o ensino fundamental. Aos 18 anos já era mãe e depois precisou criar dois filhos só com a ajuda de Deus e de seus pais. Somos seis irmãos em casa, três homens e três mulheres. Minha irmã Valdinéia, de 25 anos, abandonou os estudos ainda na 4ª série, se tornou mãe cedo e foi trabalhar em casa de família. Meu irmão Everaldo, de 22 anos, estudou e conseguiu concluir o ensino médio. Trabalha em uma fábrica chamada Bibi Calçados. Os meus outros irmãos ainda estão no colégio: Leandro na 1ª série, Luiz na 5ª série e Leilane no 2º ano. Ao completar três anos entrei na escola, iniciando pelo Jardim, na Escolinha Casa da Criança, que na época era na minha rua. Logo depois eu me mudei de escola e fui estudar no Colégio Batista, onde fiquei da 1ª à 4ª série. Eu, quando pequena, sempre fui uma criancinha frágil e doente, porque tinha problemas respiratórios, sentia falta de ar, e devido a isso eu deveria me limitar a certos tipos de brincadeira, como de correr e coisas que exigissem muito esforço físico. Quando eu concluí a 4ª série, fui estudar no Centro Educacional Cruzalmense (CEC), onde fiz meus ensinos fundamental e médio. Na 6ª série uma colega minha de sala me tratou com preconceito racial, pelo simples fato da cor da minha pele ser negra. Essa situação foi muito difícil para mim e assim eu descobri que existiam pessoas capazes de julgar o outro pela cor da pele. Isso se repetiu mais uma vez mais tarde, dessa feita um pouco diferente: foi pelo fato de ser de classe baixa. Uma pessoa me discriminou mais uma vez. Isso tudo foi * Graduanda em Engenharia Florestal pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 73 superado porque eu conversei com minha mãe e ela me disse que não me importasse com isso, que no mundo existiam algumas pessoas desse tipo, e eu sempre senti orgulho da minha cor e da minha classe social. No ensino médio sempre acontecia um evento no colégio chamado “Projeto Literário”, e isso era muito legal porque cada sala ficava com uma obra literária para desenvolver e apresentar uma peça teatral. Era feita a divulgação do projeto em formas de cartazes e de mini-apresentações; participei por três anos desse projeto, durante o tempo em que estudei nesse colégio. Em 2005, no dia 1º de novembro, minha avó materna, que estava doente devido a um acidente vascular cerebral, faleceu. Nesse dia para mim o mundo tinha desabado, por que ela era alegre, sorridente e uma pessoa muito querida por filhos, netos e amigos, não dava para acreditar. Quando eu vi minha avó dentro do caixão, cheia de flores, eu pensava que aquilo era um pesadelo e que ela estava apenas dormindo. Em 2006 eu fiz o 3º ano do ensino médio no CEC à tarde e um cursinho no turno da noite no Pré-Vestibular do Povo. Em agosto meus pais me deram 75 reais para fazer a inscrição. Fiz o ENEM e continuava estudando e freqüentando o cursinho. Em novembro se realizaria a 1ª fase do vestibular da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), um dia antes dei uma revisada nos assuntos e continuava ansiosa. No dia da prova saí de casa cedo e isso se repetiu nos dois dias seguintes. Eu fiquei contando as horas para sair o resultado e, quando saiu, descobri que tinha sido aprovada. Começava minha luta rumo à 2ª fase, que seria para mim mais difícil que a primeira porque as questões eram discursivas e, apesar de ter me preparado, me faltava confiança. Na 2ª fase eu estudei mais que na primeira, a ponto de me desesperar. E se eu não conseguisse? Passado o dia da prova, esperei até o resultado e, quando saiu, fui na internet abrir a página da UFRB. Procurei resultado para o curso de Engenharia Florestal, cujo campus é em Cruz das Almas, e quando vi meu nome na tela eu senti uma forte emoção, inexplicável até hoje, para mim era um sonho e que eu demorava a acreditar. Ao sair do 3º ano para uma universidade, minha família ficou muito feliz e daí em diante eu comecei a imaginar como seria a universidade. No dia da matrícula foi quando entrei na UFRB pela primeira vez e a sensação que tive foi de estar no jardim da infância, porque é o período em que você vai para a escola com sua mãe, e foi isso que aconteceu comigo: me senti feliz por poder compartilhar isso com minha mãe. As aulas começaram, cheguei na UFRB tímida e demorava para acreditar que agora eu tinha se tornado universitária, devido às minhas origens, filha de um pedreiro e uma dona de casa, que mal concluíram o ensino fundamental. No começo foi um pouco difícil, eu não conhecia quase ninguém e nem como funcionava a universidade, afinal eu estava costumada com o colégio. Eu passei a enxergar o mundo de outra forma totalmente diferente de quando eu estava do lado de fora da faculdade. Sábio não é aquele que sabe muito, mas aquele que sabe que o pouco que ele sabe é o muito que ele precisa. Autor desconhecido 74 Caminhadas de universitários de origem popular Texto autobiográfico Lucas Dias Reis* Tenho 19 anos e sou natural de Cruz das Almas, no interior da Bahia. Sempre fui uma pessoa muito criativa, o que sempre chamou a atenção de amigos e parentes. Em muito a minha família contribuiu (e até hoje contribui) para as minhas conquistas, sempre me incentivando a fazer o que de fato gosto, sem, contudo, deixar de alertar-me a respeito dos riscos a que estamos expostos na vida, ressaltando ainda que eu deveria buscar as minhas vitórias pessoais de maneira disciplinada e honesta. Herdei, portanto, através de lições familiares, valores que hoje me caracterizam como pessoa e que prezo muito. Minha família sempre foi bastante envolvida com questões religiosas. Com efeito, aos 11 anos entrei no grupo de coroinhas da Igreja Católica, na paróquia da minha cidade. Nesse mesmo período cursava a 5ª série do ensino fundamental, tendo, na escola em que estudava, um acerta popularidade que resultou em diversas indicações para assumir lideranças em atividades extra-classe, como gincanas, feiras de cultura etc. No final de 2000, período em que já havia concluído a 6ª série, minha família se mudou para Salvador; porque meu pai apresentava graves problemas de saúde e buscávamos oferecer-lhe melhores condições de tratamento. Seis meses após tal mudança, lamentavelmente, meu pai veio a falecer, causando abalos à nossa estrutura familiar. Com isso, minha mãe, de uma modesta dona-de-casa, foi obrigada a se tornar chefe de família. Embora houvesse muitas dificuldades naquele momento, decidimos permanecer em Salvador, tendo em vista que eu e meus três irmãos teríamos mais oportunidades quanto aos estudos, bem como no mercado de trabalho. Em busca de atividades que me levassem a lidar, de maneira menos angustiante, com a ausência do meu pai, decidi me matricular na oficina de teatro oferecida pela escola onde estudava; daí surgiu a oportunidade de participar de um festival de música sobre o meio ambiente, organizado pela Secretaria de Educação de Salvador e a Secretaria de Planejamento (SEPLAN), no qual fui vencedor com a música Beleza Ambiental. Já em 2003 cursei o ensino médio em um dos colégios mais conceituados da rede pública de Salvador: Colégio Estadual Anísio Teixeira – CEAT. Fazia apenas duas semanas desde a minha chegada no CEAT, quando fui eleito, por meus colegas, líder da turma. Certo de que estaria apto para representar todo o corpo discente dessa instituição, decidi me inscrever nas eleições do Colegiado Escolar (no segmento dos alunos). Durante o processo eleitoral, surpreendi professores e colegas ao apresentar bom desempenho nos debates e demais atividades correlatas. Doravante, venci as eleições para os três turnos (matutino, * Graduando em Engenharia Agronômica pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 75 vespertino e noturno), e, logo após tomar posse, fui convidado pelo presidente do grêmio estudantil para assumir a diretoria de cultura do grupo: aceitei o desafio, e junto à coordenação pedagógica, desenvolvi e implementei diversas atividades culturais. Entretanto, como diretor da função, permaneci por pouco tempo: cinco meses após assumir o cargo, fui nomeado vice-presidente do grêmio no turno vespertino. Como sempre fui um estudante bastante sensível às causas sociais, nesse mesmo período, tornei-me militante junto à Juventude Socialista Brasileira (JSB) e, juntamente com outros militantes, fundamos a Associação de Grêmios e Estudantes de Salvador (AGES). Embora, como se pode observar, eu tivesse participação ativa no movimento estudantil, em momento algum releguei a um plano secundário as minhas atividades religiosas, sempre cumprindo, com afinco, as minhas obrigações como catequista na Pastoral da Juventude da paróquia que freqüentava. Em agosto de 2005, quando cursava a 3ª série do ensino médio, fui nomeado presidente do grêmio estudantil. Como já presidia a comissão de formatura do colégio, decidi me afastar da JSB e da AGES, a fim de me dedicar mais ao grêmio, à organização da formatura e, é claro, aos estudos, já que faria vestibular ao final daquele ano. Apesar do grande interesse que sempre apresentei pelas questões socioculturais, haja vista as atividades que executei durante a minha vida estudantil, era um desejo meu prestar vestibular para um curso que estivesse dentro da área de Ciências Agrárias, campo extenso, que me atraía por representar uma junção das Ciências Naturais e Sociais. Decidi, portanto, me inscrever para o curso de Engenharia Agronômica, na certeza de que ele contemplaria toda a riqueza oferecida pelas Ciências Agrárias. Aprovado, voltei então para Cruz das Almas, com grande expectativa quanto ao início de mais uma fase – desafiadora e prazerosa – da minha vida. Cheguei à universidade um pouco tímido; entretanto, graças à minha busca incessante por novos amigos, fui rapidamente integrado à comunidade acadêmica, o que me possibilitou, já no primeiro semestre, a participar de trabalhos de pesquisa da área. Hoje estou no segundo semestre e, gradativamente, acentua-se a minha paixão pelo curso. Continuo, pois, expondo-me a novos desafios, tendo como base o seguinte preceito do pedagogo e sábio Paulo Freire: “Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino”. 76 Caminhadas de universitários de origem popular Meus passos, minha caminhada Palmira Magaly Passos Gusmão* Acredito que qualquer pessoa, quando descreve sua jornada vivida, inicia seu relato falando sobre a família. Tenho meus pais vivos e três irmãos, que são mais novos que eu. Meus pais são separados há doze anos e nós moramos com minha mãe e um tio deficiente mental. Apesar da separação e de uma situação financeira limitada, meus pais nos criaram priorizando sempre nossa educação. Essa situação financeira, somada ao término do casamento, marcou minha vida escolar, que foi cheia de migrações entre colégios públicos e particulares. As séries iniciais cursei em escolas públicas, parte do ensino fundamental em colégios particulares, e outra parte em colégios públicos. Ao final do ensino fundamental resolvi iniciar o meu ensino médio com um curso profissionalizante, então fiz magistério. Nos três anos de magistério fiz estágios remunerados em três escolas diferentes. Fiz um cursinho pré-vestibular e, no mesmo período, ingressei num curso de capacitação para jovens no Instituto Cultural Steve Biko. Na Steve Biko me formei, junto com outros vinte e nove jovens, na primeira turma de recreação infantil, onde tivemos oficinas de diversas atividades e fizemos apresentações em muitos lugares. Neste período fui eleita líder da turma e representei o grupo num encontro com primeira dama do país na época, Ruth Cardoso e outros jovens que participavam de outros cursos com a mesma característica que o meu. Também fui chamada para trabalhar em festas particulares e em festas populares feitas pela prefeitura de Salvador. Apesar de diariamente discutir questões raciais, foi a partir do ingresso na Biko que realmente comecei a atuar na área. Li muito sobre esses assuntos, participei de palestras, discussões, amadureci meus pensamentos e decidi então prestar vestibular para um curso que não é historicamente freqüentado por negros e que me parecia estimulante e novo. Queria viver novas experiências e contribuir com minha causa em um campo diferente. Prestei vestibular para Engenharia Agronômica da então Universidade Federal da Bahia (UFBA) e passei. Quando cheguei aqui, desenvolvi algumas atividades como voluntária no projeto da universidade, chamado UFBA em Campo. Este projeto auxiliava uma comunidade localizada dentro de sua área. O projeto findou mas a minha vontade de trabalhar na área social não, então fui nomeada diretora social da Cooperativa de Estudantes de Agronomia (COOPEA). Idealizei * Graduanda em Engenharia Agronômica pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 77 alguns projetos, mas poucos foram postos em prática, por falta de verbas. Havia pensado em hortas comunitárias, em ciclo de palestras para serem desenvolvidas nessa comunidade, mas infelizmente não foram possíveis essas realizações. Assim que acabou a minha gestão como diretora da Coopea, iniciei um estágio na escola sob a orientação da professora Gilca Garcia, que discutia as diversas formas de acesso a terra no Médio São Francisco, próximo à Chapada Diamantina, na Bahia. Nesse estágio trabalhei principalmente em comunidades ribeirinhas e remanescentes de quilombos. Paralelo a este estágio, trabalhei em São Felipe (no interior da Bahia, próximo a Cruz das Almas) como professora do ensino médio. Por quatro anos estive em São Felipe e, durante os últimos anos, me dediquei exclusivamente às atividades que desenvolvia; deixei de priorizar a faculdade pela necessidade de me sustentar em Cruz das Almas. Mesmo distante da faculdade, formei junto com seis colegas o Núcleo de Estudantes Negros da Escola de Agronomia, que chamamos de Azeviche. Com o Azeviche, eu e meus colegas fizemos algumas discussões até chegarmos à conclusão que deveríamos promover um seminário que discutisse as questões raciais na faculdade, onde poderíamos então abrir nossas idéias a outros estudantes, como também para o público da cidade no geral. O seminário que ocorreu no mês de outubro de 2005 se chamou “UFBA EM NEGRITO, o Recôncavo discute suas raízes”. Para mim, a experiência foi única. Ao final do evento me senti realizada e frustrada por perceber a total falta de interesse dos professores em discutir ou até mesmo participar do seminário. Deste evento em diante poucas foram as atividades do Azeviche e, em virtude disso, terminamos nos afastando. Porém a minha jornada ainda não havia esfriado, e eu então decidi me dedicar a faculdade e me formar de uma vez, e isso só seria possível se eu tivesse um emprego na mesma cidade. Saí da escola que trabalhava e passei a estagiar na Prefeitura de Cruz das Almas, no departamento de Reparação Racial. No departamento, pude me aproximar mais efetivamente das minhas antigas atividades junto à comunidade negra, além de conhecer e me envolver na política local. Mesmo gostando de estagiar neste departamento, ainda assim não dispunha de tempo para a faculdade e não podia também abrir mão da remuneração, então me inscrevi no Conexões de Saberes para poder unir a minha vontade em trabalhar às questões raciais nas comunidades e, ao mesmo tempo, obter uma remuneração para a minha permanência na universidade. Agora que me aproximo do final da minha graduação, espero que o Conexões seja um instrumento para o enriquecimento da minha caminhada e construção da minha carreira na forma como pretendo desenvolvê-la. 78 Caminhadas de universitários de origem popular Memorial Maria Gilcilene Maciel Rocha* Introdução I Eu vou cantar pra vocês um pouco da minha história Sou de uma família humilde que veio para mudar a trajetória II Ninguém da família enfrentou a história enfrentei as distâncias para me encaixar na história III Está é Maria Gilcilene que acabei de descrever que está no Conexões de Saberes na UFRB • Para falar de mim, precisei fazer uma síntese da minha história de vida, assim conectei as informações descritas nesse documentário. • O memorial foi elaborado levando em conta as condições, situações e contingências que envolveram o desenvolvimento do meu percurso até a entrada na universidade. Origem/família Em São Felipe, na zona rural chamada Copioba do Sul-BA, em 15 de agosto de 1982, nasceu uma negra linda, entre as lindas da minha cor, chamada, Maria Gilcilene M. Rocha, filha de gerações de agricultores rurais de subsistência. Meu pai, Antonio Paulo Conceição Rocha, aprendeu a lidar com a lavoura e só estudou até a 4ª série primária do fundamental, por causa da distância até a escola. Minha mãe vem de uma família numerosa é a segunda de dez filhos. Não teve muitas oportunidades de estudar e fez até a 3ª série primária do fundamental. Após se casarem ainda adolescentes (dezessete e quinze anos, respectivamente) tiveram quatro filhos: Jivanildo, eu, Maria Jane e Gilmar. O casamento só durou sete anos e separam-se. * Graduanda em Engenharia Agronômica pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 79 Meu pai ficou com a guarda dos filhos. Nos levou para a casa do meu avô paterno, Antonio Alves da Rocha, agricultor e serralheiro, hoje aposentado. Minha mãe, saiu de casa e foi morar na casa dos meus avós maternos (Laura Pereira e José Maciel), que deixaram a zona rural (e se mudaram para o centro urbano, de Cruz das Almas-BA). Minha mãe não conseguiu um trabalho qualificado e começou a trabalhar de doméstica. Infância/adolescência A separação do casal aconteceu em 1988, estava com seis anos na época. A infância ficou marcada por esta tragédia e por uma adolescência precoce. Assim, a maior parte da infância foi concluída sem a participação dos pais. Era mãe e irmã ao mesmo tempo dos meus irmãos. Aprendemos a caminhar sozinhos, um aconselhando ao outro. Ainda neste período, tolerava um sofrimento por não poder ver a minha mãe, por imposição paterna. Como residíamos na casa de meu avô, ele preenchia a lacuna de carinho, nos permitia brincar de tudo, de cantiga de roda, macaquinho, sete-pedra, casinha, até cozinhar; preferia mesmo era jogar futebol. Lembro nitidamente dos “babas” de fim de tarde com meninos e meninas, no pequeno campo, na propriedade do meu avô. Como diz o ditado, “alegria de pobre dura pouco”, e assim foi a minha curta infância. Passados alguns anos nesta casa, minha avó Carmelita faleceu. Eu, por ser a “meninamulher” mais velha, tive que assumir o controle dos afazeres domésticos, como lavar roupa e pratos, cozinhar e outros. Assim, antecipei minha adolescência. Escola Para estudar tive que superar as dificuldades econômicas, e acima de tudo, as distâncias das escolas. Na zona rural as escolas ficavam distantes entre si, quando não éramos obrigados a estudar em outras cidades. Para chegar até o colégio tive que andar de pé, caminhão ou ônibus, enfrentando altas e baixas temperaturas, sol e chuva, até chegar ao destino final, meu colégio. Antes de começar a estudar, imaginava que a escola era uma grande casa com quatro paredes, cheia de cadeiras e esteticamente bonita. A primeira vez que fui à escola tive um choque, porque era o contrário do que imaginava. Era pequena, velha e feia. Em um breve momento me desestimulei a estudar. Comecei a estudar com seis anos, na escola Municipal Geraldo Pereira Lordelo, do povoado da Tapera. Lá estudei o ABC e a Cartilha (alfabetização). Apesar de tudo, a professora era excelente, a dona Vitória, que me fez mudar a concepção sobre a escola, dizia “que não importava a beleza da escola, mas sim o que ela oferecia, o estudo”. Ela era paciente ao ensinar o beabá e a tabuada. Cursei da 1ª a 4ª séries na mesma escola. Nesse período tive as professoras Laura, Mariza e Antonia, esta carinhosamente chamada de Toinha, tão excelente quanto a dona Vitória. Só me lembro que havia competição interna para mudar de lição, terminar o livro e pegar outro. Sempre fui uma das primeiras a terminar os exercícios e trocar de livro, o que gerava elogios das professoras. Havia também gozações por parte dos alunos, para quem errasse a tabuada; isto incentivava a leitura constante em casa para não errar a resposta. Na entrada para a 5ª série do fundamental tive um grande problema, pois a zona rural só oferecia estudo até a 4ª série fundamental. No centro urbano de São Felipe só haviam 80 Caminhadas de universitários de origem popular dois colégios que ofereciam o ensino fundamental e médio completo. Um era o Colégio Estadual João Durval Carneiro (CEJDC), que tinha poucas vagas por ano, preenchidas por estudantes do centro da cidade e, se sobrassem, para os da zona rural. Meu pai foi procurar vaga para me matricular no CEJDC, mas não conseguiu como era esperado. Como eu era esforçada nos estudos, ele resolveu falar com o dono do Colégio Cenecista São Felipe para tentar uma bolsa de estudos, em troca de alguns sacos de farinha de mandioca. Aí ele teve êxito e me matriculou. Fiz a 5ª e 6ª séries no Cenecista São Felipe. Antes de terminar a sexta série, enfrentaria outro obstáculo, dessa vez era em relação ao transporte. O prefeito da cidade não estava pagando o salário dos motoristas e na época eles deixaram de circular os carros. Nesse período escrevi para minha mãe, expondo a situação e pedindo para ela reservar uma vaga de 7ª série em um colégio público. Ela conseguiu vaga no Colégio Estadual Landufo Alves de Almeida (CELAA). Porém ao passar para estudar em Cruz das Almas, o ônibus era pago isso constituía um outro obstáculo, porque meu pai não queria que eu fosse estudar lá e tivesse contato com minha mãe, entretanto, se eu fosse estudar ele não pagaria o ônibus. Visando o melhor pra mim, decidi estudar em Cruz das Almas, porque não tinha previsão para os motoristas voltarem a circular os ônibus para São Felipe. Nas 7ª e 8ª séries do fundamental fui estudar no CELAA. Ia e voltava todos os dias para casa do meu avô, financiado pela minha tia Maria, irmã do meu pai. O ensino médio continuei no Landulfo Alves. Nesse período fiz grandes amizades com Railda, Kátia, Núbia, Ana Paula, Regiane, tenho até hoje contatos com todas elas, em especial a Ana Paula, que é minha cunhada. O professor que mais se destacou nesse colégio foi Das Neves, de matemática. Sua metodologia cativou muitos alunos, inclusive a mim. Era rígido quando necessário, porém ensina bem. Nesse colégio participei de feiras de ciências, recitais de poesias, gincanas estudantis, feiras de cultura, seminários, entre outros eventos. Nesses cinco anos conquistei amizades de muitos professores, inclusive a professora Delma, que me incentivou a fazer o vestibular. Trabalho x vestibular Em 2002, ao término do ensino médio, não fiz o vestibular, por falta de dinheiro para pagar a inscrição. Em 2003, minha mãe pagou a inscrição do vestibular, mas não tive êxito. Prestei para enfermagem na Universidade Federal da Bahia (UFBA), passei na 1ª fase e perdi na 2ª. Ainda nesse ano ela me matriculou em um cursinho pré-vestibular comunitário da Igreja Católica, chamado “cursinho do povo” e depois no pré-vestibular Garagem. Nesse mesmo ano prestei o vestibular para pedagogia pela Universidade Estadual da Bahia (UNEB), no campus de Valença. Dessa vez tive sucesso, fiquei feliz, mas tinha um problema: era em outra cidade e não teria recursos para me sustentar. Por conta de uma greve, as aulas só iriam começar no segundo semestre de 2004. Enquanto as aulas na universidade não começavam, trabalhei para juntar dinheiro e poder estudar. Fui garçonete em um restaurante no centro de Cruz das Almas e ganhava muitas gorjetas, o que me incentivava a continuar no emprego. Trabalhava mais tempo que deveria por pouco menos de um salário mínimo. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 81 Em 2004, por intermédio do empregador de minha mãe, que era na época diretor acadêmico da Faculdade de Ciências Tecnologia Albert Einstein (FACTAE) fiquei sabendo da seleção para o cargo de telefonista na instituição, com inscrição gratuita. Fui pessimista, nem os amigos achavam que iria conseguir, mas como quem “não chora não mama”, tentei. Fui selecionada para a 2ª fase, da entrevista coletiva, e mais uma vez fui pessimista, pois só havia uma negra, que era eu. As outras concorrentes eram loiras e morenas. Havia três vagas para o cargo, com quinze meninas na entrevista. Após oito dias saiu o resultado e quase não acreditei: consegui, e isto foi motivo de alegria para todos, mãe, amigos, tios.... Deixei o trabalho de garçonete e fui trabalhar como telefonista. Passei quase três meses em fase aprendizado para logo depois receber elogios de um trabalho bem feito, por parte de todos inclusive do presidente da faculdade, que disponibilizaria meia bolsa de estudos para os funcionários da instituição. Então prestei vestibular para Administração, fui aprovada, juntei o útil ao agradável (trabalhando e estudando na mesma cidade, perto de casa). Estudava de manhã e trabalhava à noite. No segundo semestre de 2004, chegaria a hora de decidir entre Pedagogia na UNEB, que é pública, e Administração na FACTAE, particular. Visando o melhor para mim, minha mãe preferiu que eu continuasse na FACTAE e desisti de estudar Pedagogia em Valença, pela UNEB. No segundo semestre de 2005 prestei novamente o vestibular e passei, dessa vez para Agronomia, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Hoje o curso faz parte da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Fiquei muito feliz, consegui passar numa faculdade pública, como desejava. Não pensei duas vezes, ao término do 3º semestre de Administração da FACTAE tranquei matrícula. Achava que iria continuar a trabalhar na FACTAE e estudar na UFRB. Entretanto, não sabia do regulamento da instituição, em que funcionário bolsista que deixasse de estudar, perderia o trabalho. Logo, estava em uma escolha novamente entre FACTAE X UFRB. Consultei meus familiares, que aconselharam para ficar na FACTAE. Estava na pior indecisão de toda a minha vida. Então pensei, pensei e decidi: resolvi ir contra os conselhos de minha família, pois acho que a sorte não bate duas vezes na mesma casa, então o melhor pra mim era fazer a UFRB. Hoje posso dizer com certeza que escolhi certo, pois uma das vantagens, é estar no Conexões de Saberes, e poder contar a minha história. Reflexão final A trajetória da minha vida, até o dia atual, é marcada por muitos obstáculos financeiros. As dificuldades ocasionadas pelo dinheiro se agravam, ainda mais por pertencer a uma etnia negra. Oriunda de uma família humilde, onde tem como prioridade o estudo, acreditam que isso pode mudar o estado socioeconômico, de status e conhecimento para quem consegue estudar. Para estudar, tive que superar as dificuldades econômicas, e acima de tudo as distâncias das escolas. Enfim, a síntese da minha vida é marcada por muitos obstáculos, porém não me fizeram desistir em nenhum momento do que hoje é meu objetivo principal, que é concluir o curso superior. 82 Caminhadas de universitários de origem popular L’Amore Marly Silveira* Uma história de amor, uma lição de vida Sou estudante do curso de Nutrição da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e venho contar um pouco da minha historia de vida. Ela é como a de milhões de outras mulheres negras e pobres que vivem discriminadas, sem muitas oportunidades. Estava no ventre da minha mãe quando meu pai morreu. Porém cresci na zona rural, no seio de uma numerosa família de nove irmãos, ao lado da minha mãe, que lutava com dificuldade para criar seus filhos. Nossa situação financeira não era favorável, mas sempre fui uma criança alegre. Quanto sentia medo, sempre procurava a “mainha”, que me transmitia muita seriedade e paz. Aos dozes anos de idade fiquei órfã de mãe e passei por várias moradas na casa de parentes, estudando com dificuldade, sempre a perseguir o sonho de um dia obter um futuro melhor. Após alguns anos fui acolhida por minha tia, hoje com 80 anos. Lá pude concluir os estudos do ensino médio e prestar vestibular, realizando o sonho de tentar freqüentar uma universidade para, no futuro, assegurar uma melhor condição de vida para mim e meus irmãos. Muito dedicada aos estudos, e com grande facilidade no aprendizado nas áreas de exatas, principalmente química e física, logo que concluí o ensino médio passei a trabalhar com reforço escolar para todas as séries, única fonte de renda para custear as minhas despesas pessoais. Estudando em escola pública e sem dinheiro para custear um curso pré-vestibular, tentei quatro vestibulares para uma universidade pública estadual ou federal. Estas reprovações me deixaram num estado depressivo, me sentido incapaz de tudo, porém dei a volta por cima e voltei a estudar, e dessa vez decidida a passar. Hoje, após a minha aprovação no curso de Nutrição na UFRB, tenho receio de que sem o suporte financeiro, tenha que abandonar o sonho da minha vida, pois sem trabalho fixo, não terei como pagar as despesas como alimentação e transporte para freqüentar a faculdade. Entretanto com aprovação no vestibular, perdi o suporte financeiro do reforço escolar que eu oferecia, porque coincidiu o horário do curso com o horário das aulas da faculdade, não sendo possível remanejar o grupo para o horário noturno. Freqüentadora de um centro espírita na cidade onde resido, trabalho como coordenadora e evangelizadora do departamento de infância e juventude, que oferece às crianças e jovens da comunidade carente palestras sobre a doutrina e tem como objetivo mantê-los * Graduanda em Nutrição pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 83 afastados das drogas, mostrando a importância do convívio familiar, da boa conduta perante o seu próximo e conscientizando-os da contribuição para um mundo melhor. Também atuo no departamento de assistência social, que visa completar a renda da população de baixa renda, com cursos profissionalizantes e uma cesta básica mensal. Com essa experiência vivenciada junto à comunidade, gostaria de ampliar minhas ações, mais frequentemente na área de reforço escolar, levando conhecimento não só as pessoas que já se encontram na escola, mas principalmente aquela que não têm essa possibilidade, dando-lhes a chance de ter uma vida melhor. Após a minha formação acadêmica, espero obter um trabalho que esteja aliado à realização financeira, a oportunidade de atuar em projetos sociais com as comunidades populares, propiciando uma melhor qualidade de vida geral. Sabendo que a formação acadêmica não se completa na graduação, tenho pretensões de continuar os estudos, em cursos de especialização na área de nutrição clínica, e posteriormente fazer um mestrado e doutorado. É dessa forma que levo minha vida, mostrando que por mais que existam obstáculos em nossas vidas, nada é impossível. 84 Caminhadas de universitários de origem popular Superação Meire Aparecida de Souza Fiuza* Não te mandei eu? Esforça-te, e tem bom ânimo; não temas nem te espantes; porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares. Josué1: 9 Poderia ter começado minha história de várias maneiras, mas iniciei com este versículo bíblico porque sou evangélica e gosto muito desta mensagem, ela me reanima sempre. Ao contar minha história você entenderá. Nasci e fui criada em Cruz das Almas, cidade situada no Recôncavo da Bahia, onde sempre estudei em escola pública. Sou filha adotiva, talvez por isso valorize muito meus pais. Eles me criaram com muita dedicação, mesmo com todas as dificuldades que surgiam, me incentivavam e me alertavam que tinha de lutar por meus objetivos e que deveria romper as barreiras que a vida colocasse à minha frente: que tentasse sempre, e não desistisse ou desanimasse jamais. Na escola primária, participava das aulas e de todas as atividades da escola. Lembrome que sempre visitávamos a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), onde eu e a turma aprendíamos muito sobre os alimentos; também desfilávamos no aniversário da cidade. Bons tempos! Quando pequena, ia continuamente com minha mãe à biblioteca municipal, onde escolhia livros de histórias infantis bem coloridos e cheios de gravuras. Gosto muito de ler. Estudar sempre foi um prazer. Ia ao colégio para adquirir mais conhecimento e compartilhar momentos de alegria com meus colegas; ajudávamos-nos naqueles assuntos de difícil assimilação. Minhas notas sempre foram boas, mas em algumas matérias obtinha notas piores. Precisei de reforço escolar em matemática; tinha horror a essa matéria e posso dizer que o assunto mais interessante nesta seara foi matriz, pois o professor fazia com que desenvolvêssemos nosso raciocínio lógico. Morávamos eu e meus pais em uma casa no bairro da Assembléia. Em 1994, quando minha avó comprou uma casa nova, nos chamou para morar com ela, no bairro do Itapicuru. Vivo lá atualmente. A convivência em minha casa é muito boa, mas é claro que houve momentos de crise, com crises financeiras que atingiam minha família. Havia constantes discussões e meus pais quase se separam. Sofria em ver que um casamento de 25 anos * Graduanda em Comunicação pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 85 poderia se desfazer. Desde que meus pais tinham vindo embora de São Paulo nunca conseguiram arranjar um emprego fixo, “se viravam”. Trabalharam como ambulantes e autônomos durante dezoito anos e não foram bem sucedidos. Vendiam em barracas carne, bijuterias, desinfetantes e doces. Foram tempos difíceis, meus pais contraíram dívidas e o que ganhavam era pouco para cobrir as despesas da casa. Após esse período, em 2005, meu pai conseguiu emprego em uma fábrica de lajes e pré-moldados. As coisas melhoraram. Estimulada por mim, em 2002 minha mãe voltou a estudar e deve concluir em 2007 o 3º ano do ensino médio. Muito dedicada, ela participou do concurso da Prefeitura Municipal de Cruz das Almas em 2006, conseguiu boa pontuação e foi admitida no mesmo ano; hoje trabalha como auxiliar de serviços gerais. Ainda bem que as lutas só serviram para que o amor na nossa família crescesse mais e que pudéssemos valorizar uns aos outros. Como disse, sempre me interessei pelos estudos. As matérias que mais gostava eram Ciências e Educação Artística, porque sempre amei fazer artesanato e sempre fazíamos algo novo. Aos doze anos comecei a fazer artesanato para vender, o dinheiro dava para comprar algumas coisas, a realidade financeira não era fácil, vendo a situação que passávamos e não me acomodei. Aprendi a confeccionar caixas presenteáveis, bordados, pinturas em tecido e, há cerca de quatro anos, conheci o “Biscuit”, material que se assemelha massa de modelar, utilizado para fazer ímãs de geladeira e objetos de decoração de cozinhas. Rende pouco, mas me ajudou a comprar minhas apostilas do colégio e mesmo no início da faculdade. Estudei na escola Recanto Feliz da alfabetização à 4º série. Nessa última série (aos dez anos) participei do concurso de desenho “Pinta o Sete”, promovido por um mercado do município. O desenho devia ser baseado na história de origem da cidade. Entre os primeiros colocados fui classificada em sétimo lugar. Ao concluir o ensino primário, minha professora disse que minha vaga estava garantida no Centro Educacional Cruzalmense (CEC). Mas não foi tão fácil assim: sofri preconceito racial. Sou negra e me orgulho disso. Minha mãe conversou com as professoras da antiga escola, elas recomendaram que fôssemos falar com a diretora do CEC. Ao conversar com a diretora da instituição minha mãe explicou que eu era uma boa aluna e que não sabia o porquê de ter sido mandada para outra escola. A diretora, com tom arrogante, perguntou: “Esta menina é boa mesmo?” Recordo-me que minha mãe se calou, apenas tirou o boletim de notas da bolsa e apresentou a ela. Então ela voltou e disse, meio sem jeito: “Continue assim que você terá sucesso na sua vida estudantil”. Minha vaga foi concedida, estudei neste colégio da 5ª série ao 3º ano científico. Estive sempre atenta a concursos e atividades que ocorressem em minha cidade. No 2º ano científico, participei do concurso da Secretaria da Fazenda para um estágio. Eram seis vagas, fui a nona colocada e, como não houve desistência, não consegui o estágio. Já no 3º ano científico participei de uma seleção para um cursinho pré-vestibular da prefeitura, nomeado “Pré-vestibular do Povo”: fui aprovada. Efetuei minha matrícula e cursei durante 2006, no período noturno. Estudava no colégio à tarde e, com muito esforço, me deslocava para o centro da cidade à noite. Ia de bicicleta com minha vizinha, que desistiu, mas eu continuei a ir, porque meu pai me buscava todos os dias. Em setembro de 2006 me inscrevi em um concurso de redação criado pelo Rotary Club da minha cidade, cujo tema central era “A melhoria do ambiente físico de Cruz das Almas”. Esperava-se por sugestões de educação ambiental ou gestão ambiental do município. Fiquei em primeiro lugar do Ensino Médio e fui premiada com um computador, (até 86 Caminhadas de universitários de origem popular então nunca tive condições financeiras para comprar). Minha redação foi publicada na Revista Canal, que circula na cidade. Cursar a universidade sempre foi um sonho, às vezes achava inatingível. As dúvidas brotavam em minha cabeça. Não era só a escolha do curso, mas como me manteria se passasse. Os cursos com os quais me identificava eram desenho industrial, design de produtos, decoração de interiores e editoração gráfica. Mas eles só existiam em Salvador. Não havia como morar lá, não tinha parentes que pudessem me acomodar e a grana era curta. Decidi procurar outro curso que gostasse e fosse perto de casa. A solução foi o curso de Comunicação Social em Cachoeira, próximo da minha cidade. Fiquei na expectativa do processo de isenção de taxa de inscrição do vestibular e consegui êxito. Estava ansiosa e preocupada. Minha cabeça era um turbilhão de pensamentos! Dediquei-me mais ao colégio, além de ter feito cursinho. Prestei o vestibular e fui aprovada na 1º etapa, uma alegria só! Uma amiga minha que havia sido também aprovada me convidou para estudarmos juntas. Assistimos aos filmes cobrados no vestibular e ainda pagamos uma revisão em um cursinho particular, pois a 2º etapa já se aproximava. Nela a prova seria aberta, mas mesmo assim fiquei calma pedi direção a Deus. Fiz a prova tranqüila, afinal se não fosse aprovada já seria experiência para o próximo! Sou muito otimista acho que isso me ajudou muito e apesar das preocupações não entrava em desespero. Respondi minha prova e fui para casa. Quase todos os dias ia a uma lan house próxima para ver se já havia saído o resultado. Finalmente, no dia 26 de janeiro de 2007, soube a tão boa notícia: passei! Abracei meus familiares, chorei de emoção. Em minha cabeça passava um filme de tudo que havia feito para conseguir realizar meu sonho. Vou sempre me lembrar deste momento ímpar em minha vida. Infelizmente algumas amigas minhas não conseguiram serem aprovadas, dou o maior apoio para que elas prestem vestibular novamente. A palavrachave é tentar. Hoje sou universitária e curso Comunicação Social. Estou muito feliz, afinal com muito esforço realizei um dos meus sonhos. Incentivo todos que têm interesse em fazer vestibular. Que não fiquem estagnados diante dos obstáculos e que almejem as vitórias que estão por trás deles. Sei que é difícil, mas não impossível; a vitória é virtude apenas dos fortes, pois os fracos não conseguem ao menos lutar. Sou grata a Deus, minha razão de viver, à minha família e meus amigos. Agradeço a todos que sempre me estimularam; se hoje consegui o que tenho não é privilégio só meu, é uma vitória de todos que me deram força, e não me deixaram desanimar Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 87 Texto autobiográfico Núbia Oliveira* Em 1983 o meu mundo começou. Foi quando minha mãe, com a graça do Espírito Santo, trouxe-me pra cá e a minha história é mais ou menos a seguinte... Nasci em Pintadas, cidadezinha no interior da Bahia, e comecei a minha vida escolar aos sete anos de idade na Escola Municipal Públio Barreto. Sempre gostei de estudar, acho que os obstáculos e dificuldades que passei para freqüentar a escola até concluir todo ensino fundamental eram o que despertavam meu desejo de sempre continuar. Falo isso porque minha família sempre morou na zona rural, em um povoado localizado na divisão dos municípios de Pintadas e Maíri, e isso dificultava minha caminhada escolar. Comecei a minha alfabetização já tardia, estudava em uma escola multiseriadada, ou seja, a professora lecionava para alunos da alfabetização até a 4ª série do ensino fundamental. No mesmo turno e sala era impossível dar a mesma da atenção para todos os alunos. Dessa forma eu, assim como todos os outros coleguinhas de sala, tivemos uma base escolar prejudicada. Para prosseguir com os estudos após esta etapa foi um processo difícil, pois morando na zona rural ficava complicado o deslocamento para a cidade e, para proceder com a caminhada estudantil teria que ser assim, já que na zona rural só tinha escola que ensinava até a 4ª série do ensino fundamental. Mas foi assim que a prefeitura disponibilizou um microônibus para levar os estudantes interessados. Não foi fácil, pois eu tinha que andar todos os dias um bocado, devido o ponto do transporte ser distante da minha casa. Sendo assim, tinha que sair cedo, por volta das onze horas, e só retornava para casa novamente mais ou menos umas sete da noite. Foi assim que comecei a estudar da 5ª a 8ª séries do ensino fundamental na Escola Municipal Professora Zilda Dias da Silva, na cidade em que nasci. Após a 8ª série tive que mudar de colégio, já que lá não havia ensino médio. Comecei a estudar no Colégio Estadual Normal de Pintadas, durante dois anos, concluindo o último ano no Rio de Janeiro, no Colégio Estadual Charles Dickens. Ao começar o ensino médio optei por magistério (curso preparatório para formação de professores para ensinar de 1ª a 4ª séries), pois como não tinha certeza se no futuro iria fazer um curso superior, imaginava que optando por este curso, poderia depois de concluído conseguir um emprego na prefeitura, como muitos dos professores dos quais me ensinaram conseguiram. A maioria dos professores que me ensinaram na época não tinha nível superior, ensinavam * Graduanda em Enfermagem pela UFRB. 88 Caminhadas de universitários de origem popular apenas com o conhecimento que tinham adquirido no nível médio. Hoje, graças a Deus, esta realidade está mudando, pois só agora eu sei as dificuldades que tenho passado pelo fato de não ter tido uma formação melhor. Não quero menosprezar o trabalho deles, afinal tenho consciência que a maioria se esforçou para dar o melhor de si e também sei que se não fosse dessa forma nem o ensino básico eu teria conseguido, uma vez que eu não tinha outra opção. Sou filha de Osvaldo Gonçalves das Mercês e Carmezinda Vitalina de Oliveira, ambos lavradores, hoje aposentados. O nível cultural da minha família, no que diz respeito ao conhecimento formal, é pouquíssimo. Sou filha de pais semi-analfabetos, e isso se justifica em parte pela falta de oportunidade que os mesmo não tiveram de freqüentar uma instituição educacional formal, afinal o conhecimento que adquiriram a foi graças a organizações feitas na comunidade com propósito de transmitir o limitado conhecimento de uma pessoa para os componentes da mesma. Foi dentro da casa de um dos moradores da comunidade, com outras crianças reunidas, que meus pais também puderam ter a chance de concluir até a 3ª série do ensino fundamental. Pertenço a uma família composta de quatro irmãos, dos quais dois deles não tiveram a oportunidade de concluir nem o ensino médio, sendo hoje também considerados semianalfabetos. Desde criança estudei em escola pública e o meu maior sonho era cursar enfermagem em uma instituição federal. Me sinto lisonjeada de hoje fazer parte do corpo discente de uma. Mas sei que as dificuldades serão inúmeras, porque não tive uma boa formação escolar. Espero que, a partir dessa bolsa do Conexões de Saberes eu possa contribuir com as políticas afirmativas ajudando as comunidades populares e, ao mesmo tempo, eu possa com a parte financeira investir em melhorias no meu curso, participando de projetos e com tempo disponível para evoluir profissionalmente. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 89 A realização do sonho Queilane Salvador Santos* Meu nome é Queilane Salvador Santos, a segunda filha de Pedro Pereira dos Santos e Cleonice da Conceição Salvador, irmã de Fabio Salvador Santos. Nasci em maio de 1988 em Cruz das Almas-BA. Oito meses após o meu nascimento, meu pai comprou um sítio na zona rural, no povoado de Cerquinha, que faz parte de Cabaceiras do Paraguaçu. Foi lá que dei os meus primeiros passos. Meu pai, nesta época, trabalhava em Salvador como garçom em um restaurante, e minha mãe como professora do ensino fundamental, profissão que exerce até hoje. Minha mãe, além disso, trabalhava nas horas vagas na agricultura. No entanto, mesmo morando na zona rural, estudava em Cruz das Almas, e para chegar até a cidade tinha que pegar ônibus todos os dias. Estudava numa Escola Municipal Maria Peixoto Barbosa junto com meu irmão, Fabio que estava dois anos adiantado em relação à mim. Tive que repetir a alfabetização por não saber soletrar as palavras. A minha infância foi bem divertida no povoado onde morava, pois tinha muitas amigas e brincávamos bastante. Não posso deixar de falar do Fabio, que sempre foi um “irmãozão” para mim. Sempre gostei de brincar de boneca, tanto que quando percebi já estava com quinze anos e brincando de boneca. Algum tempo depois meu pai deixou o trabalho de garçom e foi trabalhar de agricultor no seu próprio sítio onde morávamos. Até que um dia meu pai resolveu comprar algumas terras em Juazeiro-BA, e infelizmente foi obrigado a vender seu sítio para poder pagar as terras. Foi a partir daí que a nossa vida financeira começou a mudar. Nesta época estava com dez anos, estudava no Colégio Municipal Jorge Guerra, em Cruz das Almas, estava na quinta série. Tivemos que nos mudar para o povoado da Pindobeira, em Muritiba-BA, em um sítio do meu avô. Chegando a Pindobeira , percebi que a vida não seria fácil. Meu pai, endividado, sendo obrigado a trabalhar como agricultor, e como se sabe, não é muito rentável viver da agricultura, contávamos apenas com o salário mínimo da minha mãe para nos mantermos. Tanto eu como meu irmão sempre fomos estimulados pelos nossos pais a superar as dificuldades e procurar o caminho do aprendizado e do crescimento. E graças a Deus nasci no berço evangélico. Somos da igreja Assembléia de Deus, e era na igreja que nos sentíamos revestidos de força para enfrentar as dificuldades. Desde a minha adolescência que vejo e sei o que é privação, é você querer alguma coisa e não poder ter. Não que meus pais não quisessem me dar as coisas, mas porque realmente não * Graduanda em Museologia pela UFRB. 90 Caminhadas de universitários de origem popular tinham condições. Tanto eu como meu irmão tínhamos que trabalhar junto com nossos pais na lavoura. Era uma vida complicada, porque, além disso, era preciso estudar. Graças a Deus sempre fui uma boa aluna, desde o ensino fundamental até o ensino médio nunca passei por uma recuperação, e sempre dei orgulho aos meus pais. Para ser realista, não pensava em fazer um dia uma faculdade, porque achava que não tinha capacidade de passar no vestibular. Mas quando vi meu irmão ingressar na faculdade, me despertou uma vontade muito grande, de entrar e fazer o mesmo. Meu irmão prestou o vestibular sem fazer cursinho, ele estava encerrando o seu terceiro ano quando prestou vestibular da Universidade Federal da Bahia (UFBA) no curso de Zootecnia. Alguns dias depois, saiu o resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), e ele foi aprovado no Programa Universidade Para Todos (PROUNI) e faz Geografia na Faculdade Maria Milza (FAMAM). Resumindo, meu irmão faz duas faculdades. Então pensei: meu irmão passou, eu também posso passar. Estava no meu segundo ano do ensino médio e já falava em estudar para o vestibular. Lembro-me que nas minhas férias de final de ano estudei dois livros de História e alguns romances. Quando iniciei o terceiro ano, só falava em vestibular. Estudava no Colégio Estadual Landulfo Alves e na minha sala tinha 52 alunos; dentre esses, só eu prestei o vestibular. Havia dificuldades para poder estudar para o vestibular, porque pela manhã trabalhava, à tarde ia para o colégio e à noite era o único tempo que me restava para estudar, tanto para o colégio quanto para o vestibular. Não tive condições financeiras para fazer um cursinho pré-vestibular, tinha que pegar livros emprestados na Biblioteca Municipal. Meus pais e meu irmão sempre me deram maior foca na época em que estudava para o vestibular. Na igreja onde congrego pedi aos irmãos da igreja que orassem por mim. E sempre dizia para os meus pais que este vestibular era o vestibular do milagre, pois estava firmemente confiante em Deus que tudo ia dar certo. E realmente tudo deu certo. Prestei o vestibular 2006/2007 da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), e passei para o curso de Museologia. Este foi o meu primeiro vestibular, e sinto-me bastante vitoriosa, porque vim de uma família pobre, de uma escola pública. Hoje faço parte do Programa Conexões de Saberes e espero que, através da minha história pessoal, muitas pessoas possam ser incentivadas a prestar o vestibular e entrar numa faculdade. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 91 Minha história Solange Conceição Silva* Nasci em Salvador-BA, no dia 13 de março de 1986. Em 2007 dei um passo muito importante para minha vida ao passar no vestibular da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Para muitos a entrada na universidade é apenas uma continuação de seus estudos, mas para mim é a melhor forma de exercer cidadania, assim cobrar nossos direitos. Não quero que digam “coitadinha” sobre mim, mas que minha história pessoal sirva de incentivo para quem tem outras histórias e saiba que não há limites para quem acredita em si mesmo. Infância Grande parte de minha infância morei com meus avós em Cruz das Almas-BA e, devido a essa convivência, me habituei a referir-me a eles como “mainha e painho”. E sempre que me recordo disso me vem à memória o dia em que minha mãe foi nos visitar e, após seu regresso, meu tio Lucas, com ciúme, me mandou sair do colo de mainha, pois aquela era mãe dele e não minha. Então mainha nos explicou carinhosamente que por ela ser minha avó, era o mesmo que ser minha mãe por duas vezes. Daquele dia em diante ele passou a explicar a todos que ele era meu tio, de forma muito engraçada, onde demonstrava o orgulho de ser mais do que meu irmão. Meu avô bebia muito, o que dificultava ainda mais a vida em casa. Minha avó fazia crochê. Nenhum deles possuía educação formal, aliás, ninguém na família foi muito longe nesta área, com exceção de minha mãe, que cursou até a oitava série do ensino fundamental. Por esses e outros motivos eu praticamente não freqüentei a escola infantil. Lembro que, por influência de minha mãe, cheguei a ser matriculada, mas que no meu primeiro contato com a escola eu adquiri verdadeira aversão, por sentir-me inferiorizada (não sabia sequer o abecê). Talvez também por ter olhos grandes, ser magrela e possuir cabelos crespos e avermelhados, o que era assustador e servia como alvo de deboche. No meu primeiro dia de aula, a professora pediu-me para dizer as vogais; fiquei apavorada e comecei a fazer xixi no meio da sala. Aquilo repercutiu muito mal, fui tratada de forma cruel enquanto estive na escola. Com aproximadamente nove anos de idade fui morar com dona Helena (amiga de igreja de minha avó). Lá, minha vida não foi nenhum mar de rosas, porém foi nesse local que aprendi a ler e escrever e decidi voltar a estudar. E ao retornar para morar com meus avós agora em Candeias-BA - pedi a eles que me matriculassem em uma escola melhor e assim foi * Graduanda em Engenharia Agronômica pela UFRB. 92 Caminhadas de universitários de origem popular feito. Ao chegar à nova escola percebi que tirava sempre as melhores notas e ganhei afeto e a admiração de todos, pois tinha idade e conhecimento avançado para estar na primeira série do ensino fundamental. Foi proposto então pela secretaria da escola uma forma de adiantar-me no nível escolar. Fui neste mesmo ano para a terceira série e, desde então, não mais parei de estudar. Durante a minha infância também houve momentos em que estive ao lado de minha mãe. Esses foram marcados por brigas horríveis entre ela e Raimundo (pai de meus irmãos), contudo foi quando freqüentei com muito entusiasmo a praia, shoppings e parques, ou seja, lugares que até então eu só conhecia pela televisão. Em relação a meu pai, ele nunca esteve presente em minha vida, apenas sei que tenho mais três irmãos. Adolescência Ao concluir a terceira série do ensino fundamental, saí de Candeias e fui morar com minha mãe em Salvador. Eu estava com aproximadamente doze anos, minha mãe se encontrava separada de Raimundo e, com muito esforço, acabava de construir uma pequena casa para morarmos nós três: eu, ela e Reijane, minha irmã mais nova que estava morando com sua avó paterna. Fomos matriculadas em uma escola que ficava a 40 minutos à pé de casa. No primeiro ano ambas estudávamos pela manhã e, como eu me encontrava na quarta série do fundamental, no ano seguinte passei para o turno vespertino, pois a norma da escola era primário pela manhã e ginásio à tarde, então fomos separadas. A minha estadia nessa escola foi tranqüila e amigável, fiz amigos para toda uma vida; no entanto foram momentos conturbados em casa, pois Reijane acabou se afastando da escola. Indiretamente isso ocasionou a reconciliação de minha mãe com Raimundo, e depois disso veio o nascimento de meu irmão mais novo em 1999. Com a reaproximação do casal vieram também conflitos familiares. Mesmo com varias confusões “daquelas”, em momento algum deixei minha vida acadêmica, e então eu tentei conciliar trabalho com estudo. Comecei a trabalhar como atendente em uma loja de aluguel de painéis perto de casa. E em meados de 2004 arrumei um estágio de recepcionista em uma pequena empresa de cursos profissionalizantes. Fiquei por um ano e meio, até a conclusão de meu ensino médio. 2006: um ano especial O ano de 2006 se iniciava e eu desempregada e desesperada, pois não contava sequer com a ajuda de custo do estágio, que havia acabado, já tinha distribuído currículos e não conseguia emprego. Sem alternativa, trabalhei com jogo de bicho com minha mãe, na esperança de encontrar algo de meu interesse depois. Trabalhava de dia e fazia o cursinho Universidade para Todos (programa do governo federal) à noite, para no final do ano prestar vestibular. E assim, prestei vestibular para Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Universidade Estadual da Bahia (UNEB) e CEFET-BA (Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia). Fui aprovada em Engenharia Agrônoma na UFRB e em Automação e Processos Industriais no CEFET. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 93 A escolha do curso Minha intenção de fato era passar na UFRB, pois nos outros centros escolhi cursos estritamente ligados a Ciências Exatas. Eu prefiro algo mais ligado à área de Ciências Biológicas e naquele mesmo ano conheci uma pessoa que cursa Agronomia na UFRB, então despertei meu interesse no curso. Estou adorando meu curso, sei que futuramente não será fácil, mas espero contribuir de forma qualificada para a sociedade. A chegada na UFRB e o Programa Conexões de Saberes No dia em que vi o resultado do vestibular, ao mesmo tempo em que sentia alegria sentia também medo; eu mesma me indagava sobre o que iria fazer. No entanto, ouvindo a música “Caminhos”, de Raul Seixas, que diz “o caminho do risco é o sucesso”, deixei o emprego para me dedicar ao estudo. E chegando na universidade pensava todo o tempo em como iria me manter no curso, já que o horário da faculdade já é um grande empecilho para conciliar estudo e trabalho. Estágio só se consegue a partir do terceiro semestre e com todos os pré-requisitos, como média superior a sete nas notas em sala, além da concorrência. Ao ver o edital do Programa Conexões de Saberes verifiquei que me encaixava em todo o perfil proposto, isso me surgiu como a “luz no fim do túnel”. Ao entrar no Programa, percebi que era algo muito maior do que a ajuda financeira: era a oportunidade de conscientizar pessoas da mesma origem que a minha e que se encontram incrédulas quanto à sua própria capacidade de cursar o nível superior em uma faculdade pública. Espero corresponder ao objetivo do Programa. 94 Caminhadas de universitários de origem popular Texto autobiográfico Toniel Costa do Carmo Santos* Contar por escrito a história da minha vida é algo inédito para mim, mas também é uma experiência que me possibilita trazer à memória alegrias e tristezas, dificuldades e vitórias. Mesmo tendo o hábito de escrever sobre diversos assuntos não somente na escola e posteriormente na universidade, mas também em casa, encaro a tarefa de redigir um texto autobiográfico como bastante desafiadora. Meu pai, Gilberto, natural de Cachoeira-BA e minha mãe, Janice, nascida em São Félix-BA, se casaram no final de 1984. Alguns meses depois meu pai faleceu vítima de afogamento; mesmo sabendo nadar, ele sofreu congestão e seu corpo só foi encontrado no dia seguinte. Ele tinha 18 anos. Numa tarde de dezembro de 1985 eu nasci, pesando pouco mais de três quilos e quebrando os prognósticos de alguns vizinhos que diziam que eu, devido a ter pais com porte físico magro, iria nascer com bem menos peso. Após a morte de meu pai, minha mãe continuou morando com minha avó Guilhermina. Ela era do tipo “matriarca”, que gostava de ver toda família reunida e manter tudo, inclusive a vida de todos os familiares, sob seu controle. Ela só teve duas filhas “legítimas”, porém tinha uma grande vocação para adoção. Sempre fez questão de nos ensinar princípios de fé, carinho, respeito e equilíbrio. Iniciei a alfabetização com quatro anos de idade, tardiamente para padrões da época e mais tardio ainda para os atuais numa escola vinculada a uma igreja evangélica a qual nós pertencemos até hoje, o Instituto Educacional Batista (IEB). Lembro-me que no primeiro dia de aula chorei muito. Não me adaptei bem à professora no primeiro ano da alfabetização e por isso a direção me tirou do turno matutino e me colocou no vespertino, com uma professora chamada Norma. Com ela meu comportamento melhorou. No último ano do período pré-escolar, em uma das brincadeiras do recreio, caí e fraturei o braço esquerdo, o que gerou muita preocupação por parte dos professores e funcionários, pois tinham receio de que minha avó responsabilizasse os mesmos por isso; porém quando ela e minha mãe perceberam que se tratava de nada muito grave, se acalmaram. Aos sete anos minha mãe me matriculou no Grupo Escolar Carlos Marques de Almeida, onde cursei da 1ª a 4ª séries do primário. Na 1ª e na 2ª séries estudei no turno da tarde. Tive boas notas e gostava muito de Português e Estudos Sociais, uma matéria que ensinava assuntos relacionados à História e Geografia. * Graduando em Comunicação Social - Jornalismo pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 95 As duas professoras que me ensinaram nestas séries foram muito boas. Já na 3ª e na 4ª séries, somente uma professora chamada Edna me ensinou ambas. Ela é uma profissional competente e, naquele período, sua característica marcante foi ser exigente quanto ao desempenho dos alunos, tanto que na sala havia vinte alunos e somente três não precisaram de recuperação para passar para a 4ª série - eu estava entre eles. A 4ª série ficou marcada pela grande dificuldade que tive com Matemática, visto que se eu não tivesse bom desempenho em Português e não dominasse as quatro operações não ingressaria na 5ª série. Com deficiência nas operações de divisão, precisei de aulas de reforço para solucionar o problema. Porém, o que mais me marcou nessa época, foi o período de outubro de 1995 a janeiro de 1996. Foi quando minha avó paterna Celina ficou muito doente e acabou falecendo. Gostava muito dela e todos os domingos ou ela vinha até minha casa ou íamos até Cachoeira visitá-la. No Centro Educacional Rômulo Galvão (CERG), um colégio estadual, cursei da 5ª série ao 3ª ano de formação geral entre 1997 e 2003. A 5ª série foi um período de adaptação: mais disciplinas, mais professores, mais aulas por dia e maior cobrança de desempenho. As aulas de que eu mais gostava eram as de Geografia, com a professora Girlene; Português, com a professora Edna e posteriormente com a professora Rosângela e Educação Artística, com a professora Lélia. Tive dificuldade com Ciências, Inglês e Educação para o Lar, uma disciplina relacionada a artesanato. Surpreendentemente não tive problemas com Matemática, pois a professora Marilda explicava os assuntos de forma simples e prática, facilitando a compreensão. Na 6ª série não fiz uma boa primeira unidade, período geralmente equivalente há um bimestre, mas nas outras me dediquei mais e me recuperei. Em 1999, na 7ª série, não tive problemas nas disciplinas, mas em meados de junho fiquei doente. Primeiro veio a febre alta que surgiu diariamente nos mesmos horários, depois começaram as dores no corpo e principalmente nas articulações. Como não havia um especialista na cidade, um clínico geral diagnosticou “febre sem origem”. Fomos a uma reumatologista em Feira de Santana e ela descobriu que se tratava de uma Artrite Reumatóide Juvenil, que apesar de ser uma doença óssea, tem origem no sangue devido a fatores genéticos. Ela aparece geralmente em mulheres - a probabilidade de aparecer em homens é de uma a cada cem casos - e por isso quando acontece em homens vem de forma mais intensa e agressiva. Foram três meses de perda de peso, restrição de movimentos e enfraquecimento do sistema imunológico devido aos medicamentos. Em setembro consegui retornar à escola com parte do peso recuperado e dos movimentos também. Fiz as provas e trabalhos pendentes e ainda deu tempo de participar da 1ª Exposição Interdisciplinar do CERG, que tinha como tema a cidade de São Félix. Foram apresentados trabalhos de pesquisas nos locais mais importantes da cidade. Além disso, foi feito um telejornal no qual eu era um dos apresentadores, onde as reportagens eram voltadas para os problemas dos bairros. A 8ª série foi em 2000 e, mais uma, vez precisei ficar alguns meses sem estudar devido ao aparecimento de Lupus Eritrematoso Sistêmico, uma patologia reumática que se associou à Artrite Reumatóide. O Lupus afeta o sistema imunológico para fazer que as defesas ataquem, ou seja, o sistema de proteção do organismo desenvolve mecanismos de ataque ao próprio organismo. 96 Caminhadas de universitários de origem popular Desta vez a recuperação foi mais gradativa. Precisei ir de táxi até o colégio e voltar andando com dificuldades; mesmo assim recuperei as provas que eu não tinha feito no período de tratamento e com boas notas. Acho que a superação foi fundamental naquela situação, assim como o apoio de minha mãe, minha avó e pessoas como meus amigos Carlos e Angelino. Em 2001, prestes a iniciar o ensino médio, existiam duas opções de curso: o Magistério (Ensino Médio Normal) e o de Formação Geral (popularmente chamado na época de Científico). Optei pelo último porque já pensava em fazer vestibular para Jornalismo. O ano letivo ficou marcado pelo início da reforma no CERG, que começou na metade de 2001 e se estendeu até os primeiros meses do ano letivo de 2002. Foi período de aulas quinzenais em uma escola municipal inativa. Nesse mesmo ano, apareceram seqüelas da atividade do Lupus, como as deformidades nas mãos, cotovelos e pés. No 2º ano do ensino médio, grande parte do ano letivo foi cursado no CERG, após a reforma do mesmo. Tive bom desempenho nas disciplinas, em especial Química, Sociologia, Artes, Espanhol e História, porém eu achei muito importante ter feito mais textos nas aulas de língua portuguesa com o professor Conrado. No 3º ano do ensino médio tive novamente problemas físicos. Só pude freqüentar a escola a partir de abril. Neste mesmo ano fiz o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) pela primeira vez e repeti nos anos de 2005 e 2006. Fiz apenas para testar meus conhecimentos, me preparando assim para o vestibular, visto que não tinha condições financeiras para fazer um curso preparatório. Em 2006 surgiu em Cachoeira a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), só que a informação que eu recebi de início era que haveria cursos de História, Museologia e Pedagogia. Como não me interessei por nenhum deles, resolvi não me inscrever. Posteriormente descobri que o curso de Pedagogia seria substituído pelo de Comunicação e, desta vez, pensei em prestar o vestibular no fim do ano. Só tomei a decisão dois dias antes do final das inscrições. Também me inscrevi no Programa Universidade Para Todos (PROUNI), pois como meu perfil se encaixa nas exigências, achei que teria mais chances do que no vestibular da UFRB. A prova da 1ª fase representou para mim um momento de reflexão. O fato de eu estar ali significou um ato de força de vontade. Percebi que basta querer e se esforçar para que todas as coisas conspirem a favor dos objetivos. Impulsionado pelo êxito na 1ª fase, usei todo tempo possível para estudar para a prova da 2ª fase. Assim como na 1ª, a minha tática foi usar todo o tempo disponível no dia da prova. Alguns dias antes do resultado final saiu outro resultado, o do PROUNI e eu não estava entre os relacionados. Só restava portanto, o vestibular da UFRB. Na verdade eu fiz o vestibular apenas com o intuito de ganhar experiência, pois achava que passados três anos da minha formatura eu estaria desatualizado, e portanto não teria chances reais de passar. Esse pensamento mudou quando passei para 2ª fase, pois percebi que, se tinha chegado até aqui, não poderia perder essa oportunidade. Após mais de um mês de espera, saiu o resultado e eu soube de forma inusitada: num fim de tarde de sábado, um colega que também fez o vestibular veio me parabenizar, trazendo o jornal que continha a lista de aprovados, ou seja, eu fui o “último a saber”. Assim como eu, ele também passou, só que para Museologia. Infelizmente Carla, uma vizinha que muito me ajudou nesse período, não passou para enfermagem. A “ficha só caiu” após a matrícula. Todo esforço e espera valeram a pena. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 97 Nesta ocasião, inclusive, contei com a colaboração da professora Maria José, que resolveu todos os detalhes da matrícula e tem me ajudado bastante nesse processo de adaptação a este novo desafio. Ao entrar na universidade percebi que este não era um local apenas de aprendizado acadêmico, mas de troca de conhecimentos tanto dentro como fora da instituição. O surgimento na UFRB do Programa Conexões de Saberes tornou-se uma evidência firme deste principio, pois proporciona que nós, bolsistas, sejamos agentes modificadores da sociedade. Mesmo enfrentando muitos desafios, posso afirmar que Deus coloca pessoas em nosso caminho para nos ajudar nos momentos em que mais precisamos. Foram professores, amigos e familiares que me deram a mão. Se eu for listar estes nomes posso me esquecer alguns, porém devo destacar a professora Edna Macedo e amigos como Albert, Djavan, Eliane, Fernando, Hilário e principalmente Cleiton, que “apesar de torcer para o Vitória” sempre me ajudou e continua assim fazendo. Não posso deixar de destacar também a importância fundamental de minha mãe. Preocupada sempre com o melhor para mim, me incentivou nos momentos que eu mais precisava e até hoje me ajuda de todas as formas possíveis, se fazendo constantemente presente e influente em minha vida. E principalmente agradecer a Deus não só por estar ao meu lado, sustentando-me, mas também por Ele ter me proporcionado aprender lições de bondade, solidariedade e determinação. Cheguei até aqui e pretendo ir mais longe, preservando os ensinamentos que minha avó materna, falecida em 2005, deixou para mim: acreditar em Deus, pois Ele dá forças e suporte para as batalhas da vida e não se intimidar com os obstáculos, porque eles não surgem para serem temidos e sim para serem vencidos. 98 Caminhadas de universitários de origem popular Autobiografia Uirlon Sábigo Alves Cardoso* É com orgulho e honestidade que relato a trajetória de minha vida. Até os oito anos de idade convivi com meu pai, Antonio Carlos, minha mãe, Neuza, e minhas duas irmãs Uitier e Werla; devido a vários desentendimentos entre meus pais, ocorreu a separação, sofri muito, pois amo muito meus pais. Minha mãe, mulher guerreira, professora na época do ensino médio e fundamental, trabalhou muito para nos criar e educar, educação essa sempre ministrada em instituições públicas. O tempo foi passando e minha infância terminando de forma tão sutil que só as lembranças restaram, ficou um gosto amargo devido a frustração por não ter em minha casa um ambiente saudável e propício para uma criança se desenvolver, por minha família ser de origem humilde, tendo baixa renda e pela relação conturbada entre meus pais. Agradeço a Deus todos os dias por minha mãe ter se revelado uma mulher batalhadora, me incentivando a estudar e me dando todo auxílio possível para que eu pudesse vir me tornar um homem de bem. Porém a mesma vem enfrentando problemas de saúde sérios. Há pouco tempo minha mãe se submeteu a uma carga de exames, e por infelicidade do destino, a maioria em seus diagnósticos apontou problemas. Com isso, ela se encontra no momento afastada de suas atividades para poder dar início aos tratamentos. O esforço de minha mãe vem se refletindo na minha vida, porque ultrapassei barreiras e hoje aqui estou, em uma universidade federal de respaldo, cursando Nutrição, profissão que venho conhecendo e me apaixonando cada vez mais. Sei que existem dificuldades, gastos, responsabilidades pessoais comuns que têm que ser cumpridas, mas essa bolsa de estudos vai me dar um suporte para que eu possa permanecer na universidade e vencer mais esse obstáculo. Diante de todas as dificuldades encontradas no meu caminho, entre vitórias e derrotas, posso analisar com clareza os fatos ocorridos na minha curta trajetória de vida, e concluir que a garra e a vontade de vencer estão sempre comigo, e por isso eu sou vitorioso. * Graduando em Nutrição pela UFRB. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 99