MultiFilme é a expressão utilizada para nomear um projeto experimental desenvolvido pelo autor no âmbito da sua tese de Mestrado em Estudos Cinematográficos da Universidade Lusófona, o qual se propõe cruzar parâmetros do vocabulário cinematográfico com os recursos da produção digital e das tecnologias de computação, no intuito de explorar uma nova fronteira de criação artística e comunicacional pela intersecção de cinema e new media. VOYEUR (ou MultiFilme # 01) designa a primeira obra multi-­‐versão produzida conforme o sistema MultiFilme, um modo original de produção de cinema porquanto a cada visionamento pode corresponder uma apresentação fílmica diferenciada, com o objectivo de oferecer uma experiência cinematográfica singular a cada espectador que com ele contacte. Um filme diferente para cada espectador
Em rigor, MultiFilme é essencialmente um processo, um sistema de produção de conteúdos, que admite a criação de múltiplas obras cinematográficas segundo o método que lhe está subjacente. Inversamente à estratégia de produção fílmica convencional, a que corresponde um único filme cujo final cut foi determinado para ser visto pelo colectivo de espectadores, os filmes produzidos através do sistema MultiFilme privilegiam a proliferação de versões e a exibição individualizada. Também diversamente da criação de obras duráveis, o conceito MultiFilme produz obras efémeras. Porque ao invés da exploração da obra, privilegia a exploração da experiência. No sistema MultiFilme as decisões de montagem são diferidas para o momento de visionamento, possibilitando que a mesma linha de história seja mostrada de perspectivas diversas, que se multipliquem personagens e cenas, indícios narrativos, que o filme assuma enredos, géneros e ritmos distintos, etc., introduzindo uma dimensão suplementar e inédita na experiência de ver filmes, em que as digressões na direção da história se suscitem pelo menos tão interessantes quanto seguir o fio condutor narrativo tradicional. Do ponto de vista do espectador, valoriza-­‐se a experiência de um espetáculo cinematográfico renovado; de um filme indefinidamente revisitável que por isso proporciona diferentes fruições, e assim pode acrescentar modalidades adicionais ao seu envolvimento como parte interveniente no processo de gerar significado. Na perspectiva do realizador, abrem-­‐se novas oportunidades para prolongar a relação do espectador com cada objecto fílmico criado, por via da multiplicidade de visionamentos que admite a reconfiguração do filme a partir de uma base de dados recombinável, extensível e actualizável. Curta-metragem multi-versão
© Victor Candeias 2010
Intersecção entre cinema e new media:
uma nova fronteira artística e tecnológica
As tecnologias computacionais abriram perspectivas para a emergência de modelos inéditos de narrativa evolutiva assentes na utilização de bases de dados, e as tecnologias digitais providenciaram o processamento não-­‐linear de imagem e som, originando um médium completamente novo para a expressão cinematográfica e para uma expansão das modalidades de experiência cinéfila. A identidade deste objecto fílmico inovador é portanto híbrida, intersectando fronteiras artísticas e tecnológicas, para coexistir no limiar de contacto entre cinema e new media. Assim, em cada sessão de visionamento, o sistema de apresentação MultiFilme compila uma versão do filme com base na coleção de cenas e de variantes de representação disponíveis, em função das decisões de montagem do realizador. A estrutura narrativa é variável conforme a sequenciação de séries de cenas, e por isso a sua construção dramatúrgica é adaptada ao processo multivariante e multilinear de modo a não perder o efeito de sentido que é normalmente associado à percepção de um filme completo na mente do espectador. Exibição numa sala de cinema virtualmente disponível
a qualquer espectador, a qualquer hora e em qualquer parte
A iniciativa de produzir um filme susceptível de se renovar a cada visionamento, oferecendo uma versão personalizada a cada espectador, afigura-­‐se particularmente oportuna no contexto da atual tendência de expansão do cinema e do multimédia para espaços de exibição individual, acompanhando a disseminação das tecnologias de informação digital. Por isso este projeto aposta na internet como plataforma preferencial de exibição através de um website especificamente desenvolvido para o efeito, o qual constitui a sua sala de cinema privativa complementada por um foyer de informações alusivas, mantendo-­‐se em exibição permanente após a sua estreia, circunstância que potenciará a obtenção de elevados níveis de audiência. O recurso a procedimentos de auditoria com base em informação analítica disponibilizada por fontes idóneas irá assegurar a obtenção de estatísticas fiáveis quanto à quantificação de visitas ao website do projeto, designadamente número, frequência e duração das visualizações. Exploração das novas oportunidades de produção digital
e de distribuição online
O projeto constitui igualmente uma experiência-­‐piloto sob o ponto de vista da exibição, na medida em que ensaia uma estratégia de distribuição alternativa às contingências de programação nos circuitos tradicionais de exibição de filmes, em especial no caso da curta-­‐metragem. Também na sua estratégia de divulgação procura aproveitar a versatilidade e a amplitude de escala na difusão proporcionada pela World Wide Web, designadamente através de redes sociais, blogues, mailing-­‐lists, motores de pesquisa, websites e portais afiliados, sendo a campanha de promoção dos filmes maioritariamente online e desenvolvida sobre suportes de comunicação desmaterializados. Curta-metragem multi-versão
© Victor Candeias 2010
SINOPSE
VOYEUR aborda uma história de enredo variável, em formato multi-­‐versão para curta-­‐metragem, e a pretexto de uma Rapariga desencantada OU humilhada OU leviana OU vingativa que pode ter: a) Um Marido sádico OU velhaco que a maltrata OU despreza OU ama à sua maneira; b) Um Amante leviano OU hipócrita que a ama por desfastio OU que a trai OU que a estima; c) O Rapaz do apartamento ao lado ingénuo OU sonso que a cobiça OU tem outros planos; d) Um Homem com insuficiência de oxigénio que a espia OU vigia à distância, porque é um mirone pervertido OU um anjo da guarda OU que conspira por conta de outrem. A estes prováveis intervenientes junta-­‐se uma Outra Mulher obstinada OU caprichosa que a persegue OU que a quer afastar; e um misterioso Joker com aparições esporádicas, sob a forma de vagabundo com-­‐carro-­‐de-­‐compras. As personagens da galeria são dúplices, reversíveis quanto ao móbil para as suas ações, entre motivações passionais, desejos de vingança ou de simples cupidez. Quaisquer que sejam os fins em vista, podem associar-­‐se com diferentes personagens cujas ações conduzem a desenlaces ora mais prosaicos ora mais inesperados. Nenhum deles é caracterizado à partida como “o” Vilão nesta história, já que vários o podem ser, à vez. Em alternativa podem também ser inocentes, cúmplices, culpados por ação ou por omissão, mandantes e manietados. As relações podem tornar-­‐se complexas na proporção das combinações possíveis de enredo que o sistema multi-­‐versão admite, e conforme as personagens que sejam convocadas para cada sessão de visionamento, cuja duração poderá situar-­‐se entre 6 e 10 minutos. Sendo o enredo flexível, também a possibilidade de happy end se afigura contingente. Consoante as ações, assim será o desfecho, aliás tal como sucede na vida real. A história contida nas diversas versões do filme foi elaborada segundo linhas de enredo variáveis que evocam elementos de ficção populares e de imediato reconhecimento para facilitar o contacto com os mais diversificados públicos. A variabilidade nos arranjos do enredo introduz contextos diferenciados e perspectivas distintas sobre os objectivos, sentimentos e ações, quer da protagonista quer dos personagens secundários, influenciando o desenvolvimento da história e/ou o desfecho que podem ser apresentados em cada visionamento. As cenas para todas as versões de VOYEUR foram filmadas em cenários naturais localizados em Lisboa, durante o período de semana, e com cada ator em separado, os quais contracenam e dialogam apenas na montagem e conforme a estrutura dos múltiplos guiões que foram desenvolvidos para o efeito. Curta-metragem multi-versão
© Victor Candeias 2010
O filme foi inteiramente rodado em formato digital HD utilizando uma câmara fotográfica Canon 5D e um jogo de objectivas Canon 80-­‐200mm e CarlZeiss 50mm, com máximo aproveitamento das condições de luz existente. VOYEUR (ou MultiFilme # 01) constitui o primeiro filme de uma série de 5 títulos a produzir e a exibir oportunamente, nos quais serão exploradas abordagens fílmicas e narrativas diferenciadas com o objectivo de explorar o potencial do sistema de apresentação MultiFilme. PERSONAGENS E MOTIVAÇÕES
Adiante se apresenta a galeria das personagens que podem ser convocadas pelo sistema combinatório para intervir na ação, bem como alternativas para os seus principais traços de caracterização relacional e motivacional, os quais vão repercutir-­‐se em arranjos de enredo diferenciados aquando da apresentação de versões do filme. A RAPARIGA
Ocupa a posição de protagonista no núcleo inicial de enredo, a partir do qual se lançam as diversas opções narrativas. Tem um marido que a maltrata, e a quem se submete encontrando nisso vicioso prazer / do que ela se ressente por o amar desesperadamente / de quem se quer vingar / que quer eliminar como obstáculo a novos planos. Tem um amante que a desaponta / por quem se deixa humilhar / de quem quer vingar-­‐se por traições inconfessas. Trava conhecimento com o rapaz do apartamento ao lado, de quem finge gostar que a corteje / a quem não retribui dissimuladamente / que quer apenas como concubino / com quem acalenta planos de fuga. Apercebe-­‐se de um velho predador com máscara que a espia à distância, o que a repugna e por isso foge dele / quer livrar-­‐se por razões ocultas no passado / aceita os préstimos para lhe fazer o trabalho sujo. Dá-­‐se conta de que tem uma amiga-­‐da-­‐onça de quem se deixa enganar / que manobra para castigar / com quem se conluia por conveniência / a quem se submete resignadamente. O MARIDO
O outro vértice do triângulo amoroso pressuposto pelo núcleo inicial do enredo. Bate na mulher porque a despreza / porque é ciumento / porque tem prazer nisso. Descobrindo-­‐se enganado conspira para castigá-­‐la / para castigar o amante. É implacável se enganado nos negócios obscuros que tem com outros, e com assumido prazer na crueldade da vingança. Iniciou a rapariga nas práticas sadomasoquistas e mantém-­‐na cativa das sevícias que lhe inflige. Curta-metragem multi-versão
© Victor Candeias 2010
Trocou-­‐a pela Outra Mulher porque a achava melhor / porque era a namorada do amante com quem a mulher o traía (e assim o meio de castigar ambos). Não a trocou e encontra na partilha da Rapariga com a amiga uma suprema tentação. As suas características podem fazer dele o verdugo que dá gosto odiar, mas também o tornam uma apetecível vítima. O AMANTE
Um dos vértices do triângulo amoroso pressuposto pelo núcleo inicial do enredo. Ama-­‐a verdadeiramente. Ama-­‐a apenas por desfastio, e engana-­‐a com a Outra Mulher. Ama-­‐a só pelo prazer de lhe enganar o marido (tendo até negócios com ele). Não sabe o que viu nela e afinal decide abandoná-­‐la. O amante e o marido servem-­‐se dela os dois, sem que ela saiba que o combinaram. Usou-­‐a apenas para chegar ao marido por quem se sente atraído ou a quem quer realmente enganar. O caso com a Outra Mulher pode até ser apenas uma ligação de cumplicidade para desígnios secretos. O RAPAZ DO LADO
O pinga-­‐amor candidato a ocupar o lugar de amante da rapariga. Ou a desviar-­‐lhe as atenções para conspirar contra ela com o objectivo de lhe ficar com o marido / com o amante / com outra coisa. Através da parede do apartamento escuta os ruídos dos amantes / as discussões entre marido e mulher. Supondo-­‐a vítima de maus-­‐tratos oferece-­‐se para protegê-­‐la / deixa-­‐se seduzir por ela / os seus avanços são rejeitados por ela / procura ganhar a confiança dela para entrar-­‐lhe em casa. Vinga-­‐se dela / planeia manietá-­‐la de conluio com outro / projeta afastar a concorrência / consorcia-­‐
se com ela para se livrar de outrem. O HOMEM DA MÁSCARA
Personagem aparentemente sinistro, que usa uma máscara de oxigénio enquanto espia no apartamento ao lado. É um “predador idoso” obcecado pela rapariga, mas sendo fetichista, não quer tocar-­‐lhe, apenas espiá-­‐la. Tem idêntico prazer em imaginá-­‐la com outro e sendo sovada pelo marido. Descobre que o rapaz do lado também a espia e decide afastá-­‐lo / associa-­‐se a ele para que possam desfrutá-­‐la ambos por saberem do seu “vício” masoquista e confiando que a podem manietar. Curta-metragem multi-versão
© Victor Candeias 2010
Ou então é alguém que ela conhece de águas passadas e de quem se quer afastar / não quer que alguém os relacione. Quando a oportunidade surge, ajuda-­‐a a fugir / desembaraça-­‐a do Marido e/ou do Amante, por solidariedade de parentesco OU segundo um acordo perverso a que a Rapariga se resigna. Pode ainda ser o vigia dela nas ausências do Marido ciumento, por ele posto no apartamento ao lado. A OUTRA MULHER
É uma suposta amiga da Rapariga, que ela supõe sê-­‐lo / com quem teve um arrufo. Como rival, quer o Amante / quer o Marido / quer também o Rapaz do Lado e portanto todos os amantes dela. Como admiradora, descobre que é a Rapariga que ela quer, tornando-­‐se aliada para castigar terceiros que lhe importunem a amiga. É dissimulada e tenaz como cúmplice. É vingativa por temperamento, e não gosta de deixar os planos a meio. O EVENTUAL JOKER
Tal como o Joker habitualmente se joga na última mão de qualquer jogo, também no final de cada versão de filme se pode jogar uma derradeira cartada para o enredo. Este personagem-­‐mistério pode ir fazendo aparições intermitentes ao longo do filme, sob o avatar de “Vagabundo com carro de compras”. Quem poderá ser? – Um suspeito? Um anjo vingador? Um Deus-­‐ex-­‐machina? Um mero transeunte? Nunca se fica realmente a saber. Nem sequer isso interessa especialmente. A sua função é protagonizar o Epílogo de algumas versões do filme, no qual, em jeito de anfitrião a posteriori, se dirige ao espectador para fazer um comentário final, citando um pensamento célebre supostamente alusivo às peripécias que entretanto foram vistas no filme, se bem que por vezes possa soar um tanto enigmático. ELENCO
A Rapariga: Paula Neves O Marido: André Gago O Amante: Adriano Carvalho A Outra Mulher: Carla Salgueiro O Rapaz do Lado: Francisco Areosa O Homem da Máscara: Francisco Queiroz O Eventual Joker: Jorge Silva Curta-metragem multi-versão
© Victor Candeias 2010
FICHA TÉCNICA
Realização, Conceito e Guiões: Victor Candeias Assistentes de Imagem: Pedro Motta e Edgar Pacheco Registo de Som: João Azevedo e Rui Luís Assistente de Realização: Joana Cunha Anotação: Raquel Laranjo Assistente de Produção: Mariana Neto Adereços e Guarda-­‐Roupa: Raquel Laranjo Montagem de Som: Rui Luís Assistente de Montagem: Frederico Tavares Desenvolvimento do Website: José Oliveira e Bruno Pereira Grafismos: António Freitas Software: Vasco Bila e José M. Diniz Marketing Online: Step Value Gestão de Projeto: MEIOS.COM Apoios: Ministério da Cultura . Direção-­‐Geral das Artes . Instituto do Cinema e do Audiovisual Universidade Lusófona Câmara Municipal de Lisboa . Gabinete de Apoio ao Cinema e Audiovisual Colaboração: DIGITAL AZUL FÁBRICA DE BRAÇO DE PRATA HOTEL VILA GALÉ PARQUE EXPO . GESTÃO URBANA REFER . Direção de Comunicação e Imagem CENTRAL MODELS FILMEBASE / CINESONICS CLÍNICA S. JOÃO DE DEUS Curta-metragem multi-versão
© Victor Candeias 2010
Download

Um filme diferente para cada espectador