ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 PARA CADA CORPO, UM PAPEL Virgínia Laís de Souza (PUC/SP) Virgínia Laís de Souza Mestranda em Comunicação e Semiótica (PUC/SP – CAPES) sob orientação da Profa. Dra. Christine Greiner. Formada em Comunicação das Artes do Corpo, com habilitação em Dança (PUC/SP). Formada no método DanceAbility criado por Alito Alessi. Fez cursos com Candoco Dance Company, DV8 Physical Theatre e AXIS Dance Company. Trabalha como educadora e professora de dança na cidade de São Paulo. E-mail: [email protected] Resumo Algumas observações sobre “corpos autorizados à permanência” parecem existir tanto na dança quanto na sociedade. Ainda que se considere mudanças de estilos, técnicas, radicalizações de espaço e possibilidades de movimento, os corpos dançantes pouco conseguiram transpor os padrões corpóreos (no máximo temos alterações de um corpo magro substituído por um musculoso e forte). Pode não ser explícito ou escrito em livros, entretanto: quantas vezes um corpo obeso está nos palcos das artes cênicas? Palavras-Chave: corpo; estigmas; dança. FOR EACH BODY, ONE ROLE Abstract Some observations on "bodies allowed to be" seem to exist both in dance and in society. Even if one considers changes in styles, techniques, radicalization of space and movement possibilities, dancing bodies have sparsely managed to overpass the standards body (at most we have changes from a lean body replaced by a muscular and strong one). It may not be explicit or written in books, though: how many times an obese body is on stage performing arts? Keywords: body; stigmas; dance. http://portalanda.org.br/index.php/anais 1 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 Corpo e Poder Os estudos do/sobre o corpo são inesgotáveis. As abordagens podem ser de campos de conhecimento distintos como sociologia, psicologia, antropologia, artes, educação, religião. As análises sobre as relações que envolvem o corpo, porém, parecem encontrar pontos em comum: o poder. Estes dispositivos de poder podem focar nos corpos – se utilizar deles para prescrever regras e políticas que serão disseminadas sem muitos pudores. É do cristianismo, por exemplo, que se começa a pensar o corpo como um objeto que nos possibilita conhecer as “indecências” produzidas nele – assunto que interessou, por exemplo, a Sigmund Freud (1856-1939) e Michel Foucault (1926-1984). Creio que a técnica de interiorização, a técnica de tomada de consciência, a técnica do despertar de si sobre si mesmo em relação às suas fraquezas, ao seu corpo, à sua sexualidade, à sua carne, foi a contribuição essencial do cristianismo à história da sexualidade. A carne é a própria subjetividade do corpo, a carne cristã é a sexualidade presa no interior dessa subjetividade, dessa sujeição do indivíduo a ele mesmo, e este foi o primeiro efeito da introdução do poder pastoral na sociedade romana. (FOUCAULT, 2006, p. 71) Foucault, talvez o mais importante dos pensadores que se debruçaram nas questões do corpo, conseguiu sinalizar o poder agindo sobre os corpos em diversas situações – não apenas, como nos mostra Christine Greiner (2007), nas situações explícitas de violência e repressão, mas também o poder agindo e se mostrando eficiente por meio de discursos sobre o desejo e produção do saber. O poder que interessa a Foucault não é algo que é imposto ao indivíduo, mas sim relações envolvidas e dispositivos de poder, que estão em toda parte e grupo, inclusive internalizada nos indivíduos mesmo quando estes não percebem. Algumas dessas relações agem no o corpo através de um discurso sobre a segurança; para que se possa garantir o bem-estar da população (da maioria) é permitido o uso de ações, muitas vezes parciais, mesmo que isso signifique uma desautorização de um indivíduo ou um grupo (que seria a minoria). Para Greiner: Isso trouxe uma ambigüidade perversa: a possibilidade de proteger a vida através das estratégias políticas e, ao mesmo tempo, a autorização para o seu extermínio. Assim, por um lado, o biopoder qualificou a vida http://portalanda.org.br/index.php/anais 2 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 dos seres viventes, mas por outro construiu os corpos dóceis dos quais necessitava. (GREINER, 2010, p. 33) Ao discutir a ideia de “Governamentalidade”, Foucault esmiúça esses procedimentos; os dispositivos de segurança, ao se tornarem problemas da população, se tornam problemas do governo, que será o responsável por “resolver” as situações que colocam a vida da maioria em risco. Esse poder delegado a uma instituição, por exemplo, dá a ela absoluta autorização para decidir quais serão as regras e a maneira como serão aplicadas. Saber da existência de uma figura que se encarrega dos problemas da sociedade significa conforto e alívio. Os indivíduos não precisam se preocupar em tomar decisões e sabem que sua não ação (ainda que a abstenção também seja uma ação) será a ação de outrem, quiçá, alguém até melhor para decidir como devemos seguir. A tal figura, que nos aponta os caminhos, pode ser Deus, um rei, um familiar, mas na história, há sempre alguém cumprindo esse papel. O essencial para o bom soberano, como lembra Foucault, é de sempre conduzir ao bem comum e a salvação de todos: seria um fim conveniente. (...) o que caracteriza a finalidade da soberania, esse bem comum, esse bem geral, não é, no fim das contas, nada além do que a submissão absoluta. Isso quer dizer que a finalidade da soberania é circular: ela remete ao próprio exercício da soberania. O bem é a obediência à lei, portanto o bem que a soberania se propõe é que as pessoas lhe obedeçam. (FOUCAULT, 2003, p. 292) Foucault chama de poder pastoral esse que é capaz de orientar os indivíduos por um determinado caminho. Esse poder estabelece uma relação de dependência e dominação da sociedade; o pastorado conduz suas “ovelhas-indivíduos”, não buscando garantir uma vitória sobre o mal, mas sempre buscando o bem de todos. Trata-se de um poder que reina sobre uma multiplicidade de indivíduos, não sobre um território. O que entendemos, então, é que nos últimos séculos parece haver um poder que se estabelece sobre o corpo e que decide sobre ele. Sendo assim, não há como escapar dos discursos já disseminados, das dicotomias que estabelecem o que é certo e errado, aceitável ou rejeitável na sociedade. É partindo dessa ideia que pensamos na http://portalanda.org.br/index.php/anais 3 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 destreza com que alguns corpos foram sendo marginalizados e outros ganharam maior importância e nos servem de modelo. A estigmatização dos corpos (...) acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida: construímos uma teoria do estigma; uma ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em outras diferenças, tais como as de classe social. Utilizamos termos específicos de estigma como aleijado, bastardo, retardado, em nosso discurso diário como fonte de metáfora e representação, de maneira característica, sem pensar no seu significado original. (GOFFMAN, 1963, p. 15) Para o sociólogo Erving Goffman, estigma é “a situação do indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena”. Os estigmas são justificados a partir de características físicas, raça, religião, opção sexual – muitos parâmetros podem ser usados para definir aqueles que serão escusados na sociedade. Como esclarece o pesquisador David Le Breton, o estigmatizado não consegue se disfarçar na multidão, acaba atraindo os olhares: Nesses atores o corpo não passa despercebido como manda a norma de discrição; e quando esses limites de identificação somáticos com o outro não mais ocorrem, o desconforto se instala. O corpo estranho se torna corpo estrangeiro e o estigma social funciona então com maior ou menor evidência conforme o grau de visibilidade da deficiência. O corpo deve ser apagado, diluído na familiaridade dos sinais funcionais. Mas, com a simples presença física, o “deficiente” físico ou o “louco” perturbam a regularidade fluida da comunicação. Proibindo o próprio corpo, eles suscitam o afastamento bastante revelador da atitude de nossas sociedades para com a corporeidade. (BRETON, 2006, p. 50) Percebe-se que o estigmatizado é colocado à parte do grupo: ele não terá direito à voz e muitos tentarão anular sua presença, uma vez que ela pode incomodar e não se saiba quais os recursos para interagir com a diferença. Foucault (1996), ao discutir procedimentos de exclusão nas sociedades a partir da produção de discursos, escolhe usar o termo “interdito” – as pessoas não podem dizer (tudo) o que tem vontade, não http://portalanda.org.br/index.php/anais 4 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 tem esse direito, independente do assunto. Para o autor, desde a Idade Média é a figura do louco que aparece em meio da possibilidade e impossibilidade do discurso. Ao mesmo tempo em que suas palavras não têm valor algum, também se acredita que o louco pode trazer à tona verdades ocultas e previsões sobre o futuro. Durante séculos, o discurso do louco foi entendido como permeado por poderes ou absolutamente rejeitado. Ao que parece, o sujeito fica em uma posição de não-lugar; a pessoa com deficiência, por exemplo, é alguém intermediário: não está nem incluído, nem excluído, não é doente, mas também não é saudável. Breton (2006) vai dizer que a pessoa fica sempre em um meio-termo, o que significa não ter as mesmas possibilidades/direitos/deveres dos demais, ao mesmo tempo em que também não está completamente fora da sociedade. Esses estigmas se tornam cada vez mais solidificados; uma vez que o indivíduo é entendido a partir de sua singularidade, dificilmente (pelo que vemos hoje) consegue se distanciar dos estereótipos. O doente mental, por exemplo, não é alguém que mereça ser levado a sério, não a nada que possa falar que tenha algum valor para a sociedade. Assim, a pessoa perde espaço e acaba “vestindo” uma determinada imagem que lhe foi imposta. Diante da impossibilidade de reorganizar os discursos sobre a própria condição, muitas pessoas começaram a usar seus estigmas de maneira a assumir o papel esperado pela sociedade. Nos circos e feiras americanas e européias dos séculos XVIII e XIX, ocorreu o auge dos freak shows, que apresentavam corpos deformados como forma de divertimento (ou conhecimento/informação) ao público. Esses monstros1 (como muitos autores costumam chamar os sujeitos expostos por suas deformações) representam uma infração das leis, tanto de regras da sociedade como da natureza. Hoje, temos uma prática de exposição semelhante em mídias como a televisão, por exemplo. Os programas exploram excentricidades e conquistam sua audiência ao mostrar para as pessoas aquilo que está inscrito na anormalidade, logo, aquilo que o público comum não é – o que garante certo grau de conforto para os que precisam assegurar sua normalidade. 1 Segundo o pesquisador Jean-Jacques Courtine (2008) a palavra monstro é da ordem do real, enquanto monstruoso se refere a um discurso, a uma inserção do monstro no campo da representação, do imaginário. http://portalanda.org.br/index.php/anais 5 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 Para alguns indivíduos, essa exposição surge como chance de tirar proveito da própria condição, ou seja, incorporar o tal “papel” citado no título deste texto – e que será melhor discutido a seguir. Desconforto e desvantagem se tornam trabalho, reconfigurando o que estava apenas importunando a vida de alguns. Importante ressaltar que muitas dessas pessoas veem com bons olhos essa exposição na TV – ao contrário do que o senso comum tende a pensar, muitas vezes, sempre a partir de uma super exploração do estigmatizado. Mesmo nos freak shows dos séculos passados as relações não necessariamente eram de exploração por parte do gerente/produtor do circo; segundo Robert Bogdan (1988) algumas parcerias foram estabelecidas de forma que o exibido e o produtor do show conseguiam lucros. Mais que pensar na satisfação das pessoas em relação aos seus próprios corpos e na imagem que se produz a partir deles é interessante pensar nos efeitos que essa espetacularização causa. Uma das perguntas essenciais é se essa exposição do corpo-monstruoso é capaz de reforçar os estereótipos do corpo. De maneira geral, as artes e os meios de comunicação de massa apresentam esses corpos de modos distintos; a primeira, buscando discutir e ressignificar padrões, enquanto a segunda, acaba por banalizar o assunto. Na década de 70, segundo Greiner (2010), o cinema, por exemplo, propõe a insistência no real; aparece a carnalidade do corpo, deficiência física, tortura e sacrifício de animais. Tudo o que deveria ser escondido começa a ser trazido à luz, servindo para agitar alguns debates sobre o que pode ou não ser mostrado ao telespectador. Ao discutir as transformações do cinema a partir dos anos 70 e 80, os autores Gilles Lipovetsky e Jean Serroy descrevem diferentes manipulações e possibilidades de imagens, como a imagem-excesso. São estas imagens que desconstroem normas e regras estéticas, que conseguem se aproximar da hipermodernidade. Na imagemexcesso nada é demais: (...) todas as formas de excrescência, de subida aos extremos, de exacerbações corporais, sexuais e patológicas: serial killers, obesidade e dependências, junkies, desportos radicais, pornografia, personagens extraterrestres (...) (LIPOVETSKY; SERROY, 2010, p. 70) http://portalanda.org.br/index.php/anais 6 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 Essa ousadia do cinema em mostrar tudo o que “sempre tivemos vontade e nunca pudemos” radicaliza as imagens das telas. Podemos pensar que, assim como no cinema, as artes cênicas também passam por momentos de revisão dos discursos e da busca em superar e inovar discursos. A ousadia aparece, por exemplo, em espetáculos que abordam assuntos delicados, que mostram corpos marginalizados ou que tentam chocar o público com uma imagem absolutamente excêntrica, propondo que novos significados sejam atribuídos. O modo escolhido para apresentar determinados corpos parece fundamental para que novos significados sejam trazidos à tona. O corpo sempre mostrado em sua absoluta incapacidade e causando repulsa aos “corpos normais”, pouco terá recursos para ultrapassar esses estigmas incorporados e disseminados durante anos. O esquema criado é algo como um perfil dos estigmas, das convenções e normas que esperamos que os outros tenham em relação ao caráter ou conduta. Goffman (1963) comenta sobre a surpresa das pessoas (então) normais, quando descobrem que o sujeito estigmatizado faz as mesmas coisas que ela. É comum um relato pejorativo que diz que não imaginava que a pessoa com algum problema pudesse “fazer as mesmas atividades ou ter as mesmas leituras que eu”. O exemplo dado pelo sociólogo é de um criminoso que estuda filosofia, que acaba por transgredir o que se imaginava estar em suas possibilidades de leitura. O que se tem percebido é que algumas pessoas acabam ocupando papéis aos quais a sociedade compreende sendo cabíveis a eles. “Quando um indivíduo se apresenta diante de outros, consciente ou inconscientemente projeta uma definição da situação, da qual uma parte importante é o conceito de si mesmo. (...)” (GOFFMAN, 2003, p. 221-222) Ainda segundo Goffman, o estigmatizado recebe - geralmente de profissionais as orientações de como ser e agir, partindo sempre de um discurso a respeito dos próprios benefícios que essa pessoa terá agindo assim. Esse esquema gerará o que denomina de “aceitação-fantasma” que possibilita uma “normalidade-fantasma”. Espera-se que os estigmatizados ajam cavalheirescamente e não forcem as circunstâncias; eles não devem testar os limites da aceitação que lhes é mostrada, nem fazê-la de base para exigências ainda maiores. (...) Fica, agora, evidente, a natureza do "bom ajustamento". Ele exige que o estigmatizado se aceite, alegre e inconscientemente, como igual aos normais enquanto, ao mesmo tempo, se retire http://portalanda.org.br/index.php/anais 7 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 voluntariamente daquelas situações em que os normais considerariam difícil manter uma aceitação semelhante. (GOFFMAN, 1963, p. 132) A pessoa obesa pode se infiltrar em algum grupo de pessoas magras, mas isso se aceitar o papel que se direciona à ela; o obeso, geralmente, é a figura engraçada, aquele que será singular no grupo. Ele não está nem absolutamente dentro do grupo, mas também não está excluído, uma vez que está desempenhando uma função. O sociólogo Claude Fischler (1995) comenta sobre pesquisas que indicam que as pessoas tendem a simpatizar com os gordos, por parecerem pessoas mais amáveis. Em contrapartida, pesquisas americanas da década de 60, mostravam às crianças silhuetas de pessoas obesas e magras – e elas sempre definiam os gordos como feios, maus ou sujos. Ao que parece, há um duplo estereótipo do gordo: extrovertido/brincalhão ou depressivo/descontrolado. Segundo entrevistas feitas por Fischler, as pessoas tendem a acreditar que: ou o obeso é alguém animado ou alguém depressivo por suas características e alguém que tende a sempre disfarçar seu sofrimento. Parece óbvio, então, que o obeso está restrito a dois papéis que se espera dele, não sendo possível se afastar desses “modelos de gordo”. O obeso pode ser mais aceito em determinadas profissões: chefes de cozinha, políticos, relações públicas (segundo os entrevistados). Trabalhos ligados à força tendem a diminuir a obesidade da pessoa: o halterofilista Vassili Alexeiev é visto como um sujeito forte (deixa de ser gordo). O que temos, então, parece ser a distinção entre a obesidade benigna e maligna. Há, ainda, uma espécie de julgamento moral, que acredita que o obeso é descontrolado e come mais que os outros: (...) através do nosso corpo, em especial de nossa corpulência, passam significados sociais muito profundos. Um dos mais importantes é o seguinte: a corpulência traduz aos olhos de todos a parte da comida que nós nos atribuímos, isto é, simbolicamente, a parte que tomamos para nós, legitimamente ou não, na distribuição da riqueza social. (...) (FISCHLER, 1995, p. 71) Assim se faz necessário que o obeso restitua a sociedade por esse suposto prejuízo que causa. Ele pode escolher profissões que exijam força física ou pode http://portalanda.org.br/index.php/anais 8 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 aceitar trabalhos que ridicularizem sua imagem, em espetáculos onde seu corpo será motivo de zombaria. Existe um preço que se paga para não ser completamente ridicularizado no grupo: Goffman (1963) diz que o gordo é aceito pelo grupo, porém como saco de pancadas ou confidente, por exemplo, jamais podendo ocupar um espaço igual aos outros membros. A distribuição de papéis na sociedade parece, muitas vezes, estar clara. É como se cada um de nós, mesmo que não conscientemente, soubesse “até onde ir” e de quais grupos fazer parte. O corpo na dança A dança (desde a moderna, mas principalmente a contemporânea) parece conseguir debater questões sobre o corpo e suas representações. Desta forma, existe a possibilidade de se trazer corpos diferentes em cena sem que isso possa se caracterizar como um “risco” ao trabalho. Segundo a pesquisadora Helena Katz, “Corpos anatomicamente desfavorecidos (isto é, corpos cujas partes/elementos não indicam condições favoráveis) surpreendem predições de fracasso e produzem boa dança. (...)" (KATZ, 2005, p. 26) Este tipo de experiência pode ser visto em inúmeros trabalhos que contam com elenco heterogêneo no que diz respeito aos aspectos corporais visíveis: pessoas com deficiência, obesos, negros. O coreógrafo americano Alvin Ailey, ao contar sua trajetória à Maribel Portinari, relata que na década de 70 era quase impossível um homem negro dançarino no palco. O público estava sempre questionando por uma dança negra, feita por negros, algo que viesse das danças da periferia, enquanto Ailey era acusado de seguir em direção contrária: “Eu diria que o racismo ainda está por trás dessas acusações. Afinal, o que certos críticos pretendem é que eu fique eternamente cultivando raízes negras, ou seja, fechado num mundo que foi o da minha infância no Texas. Nunca reneguei as minhas raízes. Mas o que existe de condenável em se colocar numa obra elementos do musical da Broadway? (...)” (PORTINARI, 1985, p. 24) http://portalanda.org.br/index.php/anais 9 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 O relato de Ailey só nos faz lembrar essa dificuldade em apresentar “corpos não convencionais” e, diz ainda, da insatisfação pela cobrança em fazer uma dança para/de negros. Ann Cooper Albright (1997) fala sobre as descrições que envolviam a bailarina, no ano de 1838: era um sinônimo de leveza, delicadeza, alguém que transcende o corpo material. Este modelo também pode ser visto em poetas como Valéry ou Mallarmé, que propunham a bailarina como distanciada do resto dos humanos. Há algumas mudanças no corpo da dança; o corpo magro começa a ser substituído pelo corpo musculoso. No lugar do ideal da magreza, agora se tem a preocupação dos músculos estarem aparentes: “(...) raro uma dançarina que não tem o bíceps esculpido”. (ALBRIGHT, 1997, p. 73) Albright fala ainda que nossa visão de uma dançarina profissional é basicamente de alguém branca, mulher, magra, flexível, com membros longos e “corpo capaz” (able bodied – sempre em oposição ao corpo deformado/deficiente). Se os padrões são estes, como dizer que Alvin Ailey era um dançarino? Seu distanciamento desse modelo dificultava a inserção entre o grupo de artistas da dança. É desejável ainda, aos corpos dançantes, força e vitalidade aparentes, características a princípio, de um corpo jovem – o que já indica que o dançarino pode ter um “prazo de validade”. Helena Katz (2010) fala sobre “O Tratado da Saúde Perfeita, que garantiria a extensão da juventude, (e) continua sendo revisto e reescrito, produzindo comportamentos sociais. (...)” (KATZ, 2010, p. 132) Goffman nos apresenta o que seria um homem que nunca tem motivos para se envergonhar ou acreditar que está inferior/excluído da sociedade: "(...) um homem jovem, casado, pai de família, branco, urbano, do Norte, heterossexual, protestante, de educação universitária, bem empregado, de bom aspecto, bom peso, boa altura e com um sucesso recente nos esportes. (...)" (GOFFMAN, 1963, p. 139) Como ficam todos os outros que não se encaixam nesse perfil? Em maior ou menor escala, parece que algumas pessoas serão impedidas de algumas atividades ou participação social por não estarem exatamente no ideal. Regras e etiqueta, além daquilo “inscrito” no corpo, também indicarão os bons, educados, civilizados: (...) As regras de civilidade vão, de fato, impor-se para as camadas sociais dominantes. Como se comportar em sociedade para não ser, ou http://portalanda.org.br/index.php/anais 10 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 parecer, um bruto. Pouco a pouco o corpo se apaga e a civilidade, em seguida a civilização dos costumes, passa a regular os movimentos mais íntimos e os mais ínfimos da corporeidade (as maneiras à mesa, a satisfação das necessidades naturais, a flatulência, a escarrada, as relações sexuais, o pudor, as manifestações de violência, etc.). (...) (BRETON, 2006, p. 21) Ao que parece, antes mesmo de uma discussão sobre a pesquisa e técnica da dança, o dançarino precisa se preocupar com sua aparência, esclarecer à crítica e público o que lhe interessa (assim como fez Alvin Ailey) e estar ciente dos estigmas à que pode estar submetido para, só assim, buscar ressignificar esses papéis que se espera dele. Referências ALBRIGHT, A. C. Choreographing Difference – The body and identity in Contemporary Dance. Hanover and London: Wesleyan University Press, Published by University Press of New England, 1997. BOGDAN, R. Freak Show – Presenting Human Oddities for Amusement and Profit. Chicago and London: The University of Chicago Press, 1988. BRETON, D. A sociologia do corpo. Tradução: Fuhrmann, Sonia M. S.. Petrópolis: Editora Vozes, 2006. COURTINE, J. J. “O Corpo Anormal – História e Antropologia culturais da deformidade”. In: Corbin, Alain; Courtine, Jean-Jacques; Vigarello, Georges (org.) História do Corpo – As Mutações do Olhar: O Século XX – volume 3. Tradução e revisão: Alves, Ephraim Ferreira. Petrópolis: Editora Vozes, 2008. FISCHLER, C. “Obeso Benigno Obeso Maligno”. In: Sant’Anna, Denise Bernuzzi (org.) Políticas do Corpo – elementos para uma história das práticas corporais. Tradução: Moura, Mariluce. São Paulo: Estação Liberdade, 1995. FOUCAULT, M. “Sexualidade e Poder”. In: Motta, Manoel Barros da (org.). Ética, Sexualidade e Política, Coleção Ditos e Escritos V. Tradução: Monteiro, Elisa; Barbosa, Inês Autran Dourado. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. FOUCAULT, M. “A Governamentalidade”. In: Motta, Manoel Barros da (org.). Estratégia, Poder-Saber, Coleção Ditos e Escritos IV. Tradução: Ribeiro, Vera Lucia Avellar. 1ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. http://portalanda.org.br/index.php/anais 11 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 FOUCAULT, M. A ordem do discurso. Tradução: Sampaio, Laura Fraga de Almeida. São Paulo: Loyola, 1996. GOFFMAN, E. A Representação do Eu na Vida Cotidiana. Tradução: Raposo, Maria Célia Santos. 11 ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2003. GOFFMAN, E. Estigma – Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Tradução: Nunes, Márcia Bandeira de Mello Leite. 4ª ed. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1963. GREINER, C. O Corpo em Crise – Novas Pistas e o Curto-Circuito das Representações. Coleção Leituras do Corpo. São Paulo: Annablume, 2010. GREINER, C. Estratégias para pensar (e reinventar) as relações entre corpo e poder. Revista Sala Preta, São Paulo, n. 7, p. 103-108, 2007. KATZ, H. O papel do corpo na transformação da política em biopolítica. In: Greiner, Christine. O Corpo em Crise – Novas Pistas e o Curto-Circuito das Representações. Coleção Leituras do Corpo. São Paulo: Annablume, 2010. KATZ, H. Um, Dois, Três. A Dança é o pensamento do corpo. Belo Horizonte: FID Editorial, 2005. LIPOVETSKY, G.; SERROY, J. O ecrã global. Tradução: Sarmento, Luís Filipe. Lisboa: Edições 70, 2010. PORTINARI, M. Nos passos da dança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. http://portalanda.org.br/index.php/anais 12