PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Glaucio Alberto Faria de Souza A HUMANIZAÇÃO DO SER HUMANO UM DIÁLOGO ENTRE A TEOLOGIA E A OBRA LITERÁRIA “A HORA DA ESTRELA” DE CLARICE LISPECTOR MESTRADO EM TEOLOGIA SÃO PAULO 2013 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Glaucio Alberto Faria de Souza A HUMANIZAÇÃO DO SER HUMANO UM DIÁLOGO ENTRE A TEOLOGIA E A OBRA LITERÁRIA “A HORA DA ESTRELA” DE CLARICE LISPECTOR MESTRADO EM TEOLOGIA Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Teologia Sistemática, sob a orientação do Doutor Antonio Manzatto. SÃO PAULO 2013 Prof., Banca Examinadora AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus por sua bondade e generosidade; Agradeço ao meu orientador Prof. Doutor Antonio Manzatto pela sua valiosa orientação, pelo seu companheirismo e amizade; Agradeço a Profa. Doutora Maria Freire da Silva por sua atenção, sua presença singela e fraterna; Agradeço a Regina, minha amada esposa, que prontamente sempre está ao meu lado, acreditando nos meus sonhos; Agradeço a minha mãe por seu carinho e suas orações; Agradeço a todos os meus colegas e alunos que partilharam comigo esta importante etapa da minha vida. RESUMO O objetivo deste trabalho foi apresentar a importância e a possibilidade do diálogo entre a teologia e a literatura, tomando como base de reflexão o elemento antropológico da obra A hora da estrela de Clarice Lispector. Nessa obra, a autora retrata a “inexistência” de Macabéa, um ser humano vítima de uma sociedade marcada por uma estrutura social capitalista que desumaniza, escraviza e exclui quem dela não consegue fazer parte. São essas inquietações que levam Clarice a compor seu último romance, carregado de denúncia social e à espera de resposta, por isso inacabado. Mais do que denunciar este modelo “tecnocolor” que subjuga, a autora espera por novos rumos, pois não é possível continuar vivendo desta maneira. Ela mesma diz: “esta história acontece em estado de emergência e de calamidade pública”. A partir dessa realidade retratada por Clarice é que busquei elaborar uma resposta aos questionamentos sobre o futuro em uma sociedade em nada diferente da construída pela autora, uma sociedade marcada pelo consumismo, pela necessidade do “ter”, uma sociedade que banaliza e relativiza crenças e valores. Creio que a resposta possa ser dada a partir da Cristologia. PALAVRAS-CHAVE: teologia, literatura e antropologia. ABSTRACT The aim of this work was to present the importance and possibility of dialogue between theology and literature, based on anthropological reflection from the work A hora da estrela by Clarice Lispector. In this work the author portrays the “absence” of Macabéa, a human being as a victim of a society marked by a capitalist social structure that dehumanizes and enslaves, it excludes those who cannot join. It is these concerns that lead Clarice writing her last novel full of social protest and waiting for response, so unfinished. More than denounce the “tecnocolor” model that subjugate, the author awaits new directions, because it is not possible to keep on living this way. As she says: “This story takes place in a state of emergency and public calamity”. From this reality portrayed by Clarice, I sought to develop a response to questions about the future in a society, as current as society today, marked by consumerism that trivializes and relativizes beliefs and values. I believe the answer can be given from Christology. KEY WORDS: theology, literature and anthropology. SIGLAS HE- A hora da estrela AV- Água viva GS- Gaudium et Spes SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 11 CAPÍTULO I – TEOLOGIA E LITERATURA ................................................................... 13 1. 2. 3. Como nasce a teologia .................................................................................................. 13 1.1 A teologia no mundo atual ..................................................................................... 14 1.2 O pluralismo teológico ........................................................................................... 18 1.3 A teologia e os outros saberes ................................................................................ 19 Literatura ...................................................................................................................... 21 2.1 Obra de Ficção: a arte que imita a vida ................................................................... 21 2.2 Os símbolos falam ................................................................................................. 25 2.3 Os três mundos de Paul Ricoeur ............................................................................. 26 2.4 A narrativa e seus elementos textuais ..................................................................... 29 2.4.1 O enredo ......................................................................................................... 30 2.4.2 A personagem ................................................................................................. 31 2.4.3 Tempo e espaço .............................................................................................. 32 2.4.4 Situação ambiente e ponto de vista .................................................................. 33 2.4.5 Linguagem...................................................................................................... 33 Diálogo entre teologia e literatura ................................................................................. 34 3.1 O eixo antropológico: o tri-vial entre a teologia e a literatura ................................. 35 3.2 A palavra: expressão do humano ............................................................................ 36 3.3 O diálogo entre teologia e literatura: Questão do método........................................ 38 3.3.1 Métodos antigos .............................................................................................. 39 3.3.2 Método da correspondência ............................................................................ 39 4. 3.3.3 O método antropológico: o ser no mundo ........................................................ 40 3.3.4 Diálogo entre teologia e literatura em território nacional ................................. 40 3.3.5 A crítica metodológica de Magalhães .............................................................. 41 Conclusão ..................................................................................................................... 43 CAPÍTULO II – SEMPRE É TEMPO DE PENSAR A HORA DA ESTRELA ....................... 44 1. Breve biografia: um panorama da vida de Clarice ......................................................... 45 2. Entre o biográfico e o literário: a relação da escrita com a vida ..................................... 48 3. A literatura nacional moderna e o estilo de Clarice ........................................................ 50 3.1 4. Clarice e a crítica ................................................................................................... 51 A escritura clariceana .................................................................................................... 54 4.1 A escritura epifânica .............................................................................................. 56 4.2 O silêncio............................................................................................................... 58 4.3 O grotesco ............................................................................................................. 59 5. O social em Clarice ....................................................................................................... 60 6. A hora da estrela ........................................................................................................... 64 7. 8. 6.1 Macabéa: o retrato da miséria................................................................................. 67 6.2 O encontro com o amor .......................................................................................... 68 6.3 Em busca de um futuro .......................................................................................... 69 6.4 A morte da estrela .................................................................................................. 71 Análise da obra ............................................................................................................. 72 7.1 O corpo do texto .................................................................................................... 75 7.2 É morrendo que se nasce para a vida ...................................................................... 80 Conclusão ..................................................................................................................... 81 CAPÍTULO III – REFLEXÃO TEOLÓGICA...................................................................... 83 1. Uma antropologia teológica?......................................................................................... 83 1.1 O confronto com a negatividade ............................................................................. 86 1.2 A teologia .............................................................................................................. 88 2. 3. A luta pela vida ............................................................................................................. 90 2.1 O messianismo ....................................................................................................... 90 2.2 O messias Galileu – a resposta de Deus à alienação do ser humano ........................ 91 2.3 Jesus e a sua missão ............................................................................................... 92 2.4 O Reino de Deus: a desfatalização da história ........................................................ 94 A hora do espetáculo: o confronto mortal ...................................................................... 95 3.1 4. 5. Existe esperança? .......................................................................................................... 99 4.1 A morte de Jesus .................................................................................................. 100 4.2 Reavivando a esperança ....................................................................................... 101 Quanto ao futuro? ....................................................................................................... 103 5.1 6. A hora de Jesus ...................................................................................................... 97 Um Deus solidário/uma comunidade solidária...................................................... 104 Conclusão ................................................................................................................... 108 CONCLUSÃO GERAL ..................................................................................................... 110 BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................... 112 11 INTRODUÇÃO A teologia é um discurso sobre Deus que nasce da fé. A elaboração deste discurso é feita de modo rigoroso e com metodologia própria, caracterizando-a como ciência. Porém, deve-se reconhecer que a teologia como ciência é sui generis, pois seu fundamento (Revelação) difere dos fundamentos dos outros saberes científicos. Ressalta-se que a elaboração teológica apresenta uma diversidade muito grande de métodos e temas oriundos a maneira de teologizar de cada época. Toda teologia é contextual e histórica, possibilitando um verdadeiro pluralismo teológico, cabendo ao teólogo repensar os dados da fé no ambiente em que está inserido. Assim sendo, o teólogo deve estar atento aos sinais dos tempos para poder se comunicar com o ser humano, pois este, ainda hoje, levanta questões fundamentais sobre a sua existência. O diálogo com o mundo e com a sua vasta complexidade exigirá por parte do teólogo aproximação a outros saberes, e estes saberes o ajudarão como mediações do contexto atual. Esta aproximação entre teologia e outros saberes não é uma novidade, pois a filosofia sempre foi parceira da teologia. Evidencia-se que esta dialética entre a teologia e as demais ciências é benéfica para a teologia, pois estas ciências podem provocar o teólogo às novas descobertas ou relembrar dimensões esquecidas. A literatura como mediação para a reflexão teológica pode soar estranho. Diferente, sim! Mas, possível! Esta possibilidade é verificada no fato de a literatura como obra de ficção ter como inspiração a vida. Logo, ela comunica importantes elementos da sociedade e da personalidade do autor. Por meio da literatura pode-se ter certa compreensão do mundo, assim como pelas ciências, a diferença está na maneira de transmitir os seus dados, pois a literatura por sua força simbólica é capaz de aquecer o coração do seu interlocutor. A literatura, enquanto obra de ficção, não tem a intenção de ser um relato jornalístico; ela parte da realidade e se expressa por meio de símbolos. A obra literária, por meio da sua força simbólica, permite o seu interlocutor captar certa representação do mundo, uma cosmovisão, um olhar sobre a existência humana e uma determinada compreensão da vida e de seus valores. Neste sentido, a literatura é antropocêntrica, e este antropocentrismo é interessante para a teologia, principalmente pelo fato de ela também ser “antropologia”. 12 Falar de literatura é falar de um campo muito vasto e com várias escolas. Esta pesquisa se limitará ao gênero do romance na obra A hora da estrela, de Clarice Lispector. Trata-se de uma autora de peso da literatura nacional, que tem como objeto central da sua escrita o ser humano. Na obra A hora da estrela, a autora aponta para o ser humano desumanizado pela força capitalista-tecnicista: ele é miserável, inconsciente e vítima do seu contexto social. Clarice faz o seu leitor se deparar com um processo desumanizador, e a teologia, ao se aproximar da literatura clariceana, buscará anunciar a salvação oferecida por Deus a todos os homens, proclamando a boa notícia do Reino de Deus, contrapondo-se à realidade de indiferença e desprezo conhecida pela personagem da trama, a desinteressante alagoana Macabéa. Encontrar-se com a literatura é deixar-se questionar por ela e procurar responder a esses questionamentos. Para tal missão, esta pesquisa foi divida em três capítulos: O primeiro capítulo, denominado Teologia e Literatura, procura estabelecer a possibilidade de diálogo entre ambas. Este capítulo está dividido em três grupos temáticos: o primeiro refere-se à teologia, o segundo trata da literatura, e o terceiro grupo trabalha o diálogo entre teologia e literatura. O segundo capítulo, Sempre é tempo de pensar A hora da estrela, procura fazer uma análise profunda da obra, dando ênfase à denúncia social e à caracterização do ser humano ali presente. E o terceiro capítulo expõe a Reflexão Teológica a partir da antropologia apresentada em A hora da estrela. Trata-se do encontro no qual a antropologia clariceana servirá de inspiração à reflexão teológica que, por sua vez, procurará apresentar alternativas ao modelo de vida apresentado por Clarice Lispector. 13 CAPÍTULO I – TEOLOGIA E LITERATURA 1. Como nasce a teologia A teologia1 é um discurso sobre Deus que nasce da fé. Ela é a busca do crente que deseja aprofundar aquilo que crê. Segundo a clássica definição de Santo Anselmo, a teologia é: “A fé que deseja saber”.2 Na fé encontra-se uma vontade de verdade que seduz a razão, então, nasce a teologia. Por conseguinte, teologia é a fé de olhos abertos, inteligente e crítica. O teólogo Roger Haight apresenta a essência da fé como um compromisso dinâmico da liberdade humana em ação. Para ele, “a fé só é real à medida que caracteriza uma efetiva reação e resposta humana à realidade”. 3 Logo, pode-se fazer uma relação direta entre fé e racionalidade a partir da experiência humana, como assinala Clodovis Boff: “Nessa linha, é impossível que haja fé sem que haja um mínimo de reflexão sobre ela, sem que o espírito deixe de pensar sobre o conteúdo. Esse é um movimento natural, espontâneo. Por isso, toda pessoa de fé é também teóloga, pelo menos em grau mínimo”. 4 Verifica-se que a teologia é um trabalho da inteligência da fé, a fé que busca compreender e crescer. Trata-se da autocompreensão do que se crê e isso exige que o teólogo seja um sujeito de fé, como nos assinala Santo Agostinho: “Creio para entender”. É isso que a definição clássica da teologia significa: compreensão da fé, usar todas as forças, todos os recursos da razão humana para compreender o que Deus diz ao homem em sua Revelação. Esta reflexão da fé é rigorosa, com métodos próprios que a caracterizam como ciência, uma ciência a seu modo, que tem no centro Deus, mistério insondável, e que usa dos símbolos cristãos para interpretar a realidade, como nos relata Haight: 1 A teologia é um termo pré-cristão. Este termo aparece pela primeira vez na obra A República de Platão (Rep. 379a). Outros filósofos trabalham com o termo teologia, porém, o estoicismo é que fundamenta a teologia como disciplina filosófica. O cristianismo aos poucos assume este termo e a partir dos pensadores da escola de Alexandria reivindica-se o discurso cristão como a verdadeira teologia. Cf. LACOSTE. Jean-Yves. (dir.) Dicionário Crítico de Teologia. São Paulo: Paulinas e Loyola, 2004. p. 1707. 2 BOFF, Clodovis. Teoria do Método Teológico. 2. ed. rev. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 25. 3 HAIGHT, Roger. Dinâmica da teologia. São Paulo: Paulinas, 2004. p. 38. 4 BOFF, Clodovis. Teoria do Método Teológico. Op.cit. p. 27. 14 Talvez a designação mais comum da teologia provenha de Agostinho e de Anselmo: teologia é fé em busca de compreensão. Decerto, a adequação dessas fórmulas depende efetivamente de maior explanação de seu significado. A compreensão da teologia que subjaz a este ensaio, no entanto, é a seguinte: a teologia é a interpretação da realidade à luz dos símbolos cristãos. Em termos gerais, a teologia é uma disciplina que interpreta o todo da realidade – a existência humana, a sociedade, a história, o mundo e Deus – nos termos da fé cristã.5 Afirmar a cientificidade teológica não significa apresentar as evidências dos seus princípios, como faz a ciência atual. 6 A racionalidade da teologia é hermenêutica, ela procura interpretar de maneira exaustiva os dados da Revelação em paralelo com o texto da vida. A teologia enquanto ciência possui suas fontes na Revelação: Sagrada Escritura, Tradição e o Magistério eclesiástico. Destas fontes ela colhe os dados que serão humildemente escutados (auditus fidei) e elaborados (intellectus fidei). A teologia como ação humana nasce na história, mas não se resolve nela. Ela interpreta a história e a orienta no encontro com a Palavra de Deus. Segundo Antonio Manzatto, a racionalidade da teologia faz com que o discurso da fé seja inteligível e não um discurso incompatível com a razão humana. 7 1.1 A teologia no mundo atual O mundo atual é um grande desafio à teologia cristã. Sob o enfoque da sociologia, denominamos a sociedade como moderna ou pós-moderna. Ressalta-se que não existe uma definição bem clara sobre essas terminologias, por isso, esta pesquisa se limitará a apontar algumas características que marcam este período. O modelo de civilização denominado modernidade se desenvolveu na Europa ocidental a partir do século XVI e alcançou o seu ápice no século XVIII. Dois acontecimentos ajudaram a impulsionar este modelo de vida: a revolução industrial e a revolução democrática. O ser humano consciente e amparado pela racionalidade cunhou o termo “moderno” ou “novo” indicando uma ruptura com as tradições dominantes em todos os campos da vida: a política, a economia, a arte, a ciência, a ética, etc.8 5 HAIGHT, Roger. Dinâmica da teologia. Op.cit. p. 238. A ciência em nossos dias é entendida como um conhecimento certo e válido a partir de uma dedução lógica. Sua verdade se apoia na racionalidade das experiências através de métodos específicos, que são aceitos pela comunidade científica. Este conceito de ciência não se aplica à teologia, a verdade teológica tem como ponto de partida os dados da Revelação que vão orientar o teólogo na elaboração e sistematização dos seus pensamentos. Cf. LIBANIO, J. B; MURAD, Afonso. Introdução à Teologia: Perfil, Enfoques, Tarefas. 8. ed. rev. ampl. São Paulo: Loyola, 1996, p. 68-74. 7 MANZATTO, Antonio. Teologia e Literatura: Reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado. São Paulo: Loyola, 1994. p. 39. 8 Segundo Wagner Lopes Sanches, a palavra ruptura sintetiza este processo denominado moderno. Foram diversas as rupturas impulsionadas pela modernidade. Este processo de derretimento afetou diretamente a Igreja 6 15 Porém, como este modelo não foi capaz de responder às necessidades humanas, inicia-se um novo modelo chamado pós-modernidade. A pós-modernidade indica um passo adiante, posterior à modernidade. Este modelo cultural ultrapassa os valores da modernidade, não aceita as macronarrativas, logo, tudo o que é sólido ou absoluto se torna líquido. Surge então uma crise ética ou falta de sentido. Neste modelo tudo pode ser criticado. O efêmero é a grande marca deste modelo social e pode ser representado por quatro características: a secularização, o individualismo, o pluralismo e o subjetivismo.9 Segundo Bruno Forte, a sociedade atual vive um profundo vazio das razões que motivam o sentido de viver. Sua visão sobre o nosso tempo pode ser exposta como uma falência: É tempo de naufrágio e de queda, no qual a crise de sentido do que se é e do que se faz torna-se característica comum, às vezes até mesmo aspecto peculiar da inquietude moderna. Neste tempo de pobreza, que é a “noite do mundo”, não por falta de Deus, mas pelo fato de que as pessoas não sofrem mais dessa falta, a doença mortal é a indiferença, o não sofrer mais a “falta da pátria”, que é antes de tudo a perda do gosto de buscar as razões últimas do viver e do morrer humano. É tempo de exílio, se com esta metáfora se quer dizer: tempo de indiferença aos fundamentos do comportamento em relação a um horizonte último e a uma última pátria. E o exílio − como afirma um dito da tradição judaica – começa não quando se deixa a pátria, mas quando não se tem mais no coração ardente [...].10 Diante do vácuo causado pela efemeridade da vida, o teólogo Bruno Forte afirma a atualidade da teologia, pelo fato de que ela levanta as questões fundamentais da existência humana, buscando o sentido radical do viver em todas as épocas e apresentando o valor e a dignidade da vida humana. Para Clodovis Boff, a atualidade da teologia é perene. 11 A atualidade teológica se constrói através da hermenêutica da fé, que reinterpreta e organiza os dados revelados, vividos e compreendidos pela comunidade eclesial, em diferentes contextos com o seu caráter sacral e absoluto, que será questionado pelo advento da historicidade. Cf. SANCHES, Wagner Lopes. Teologia Cristã e modernidade: confrontos e aproximações. In BATISTA, Paulo Agostinho N; SANCHES, Wagner Lopes. (orgs). Teologia e Sociedade: Relações, dimensões e valores éticos. São Paulo: Paulinas, 2011. p. 57-62. 9 BARREIRO, Álvaro. SJ. A eclesialidade da fé cristã nos novos contextos socioculturais. In. KONINGS, Johan. (org). Teologia e Pastoral: Homenagem ao Pe. Libanio. São Paulo: Loyola, 2002. p. 123-145. (Coleção CES). 10 FORTE, Bruno. Teologia em diálogo: Para quem quer e para quem não quer saber nada disso. Tradução: Marcos Marcionilo. São Paulo: Loyola, 2002. p. 10. (Coleção CES-14). 11 BOFF, Clodovis. Teoria do Método Teológico. Op.cit. p 408. 16 socioculturais e históricos.12 Deste modo, ela assume uma contramão cultural. Fundada na Palavra Soberana, ela assume a criticidade no momento histórico, adotando o seu papel profético, conforme nos propõe o Concílio Vaticano II: Para desempenhar a sua missão, a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre o significado da vida presente e futura e de suas relações mútuas. É necessário, por conseguinte, conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática.13 O Vaticano II, como um todo, é um gigantesco esforço para adaptar-se aos problemas e desafios contemporâneos. A teologia pós-conciliar não mais consistirá em repetir apenas a riqueza proveniente dos séculos passados e fixada uma vez por todas em fórmulas teológicas. Ela interrogará e responderá; aceitará a pesquisa dos homens e não recusará receber alguma coisa dela proveniente14, depois da Constituição Pastoral Gaudium et Spes a teologia não pode deixar de olhar para a realidade dos seres humanos. 15 Ela deve ser companheira do ser humano na história assumindo a aventura humana. 16 A Constituição Pastoral Gaudium et Spes apresenta um profundo olhar de compaixão em relação à humanidade, conforme apresenta Geraldo Lopes: [...] Compaixão não é dar coisas, mas é dar-se a si próprio, colocar-se a serviço, estar com o outro na hora da necessidade. A Gaudium et Spes tem profundíssima atualidade na era dos homens e mulheres “sem”: sem terra, sem trabalho, sem teto, sem saúde, sem escola, etc. Homens e mulheres que 12 LIBANIO, J.B, MURAD. Afonso. Introdução à Teologia... Op.cit. p. 336. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. “Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje”. In Compêndio do Vaticano II - constituições, decretos, declarações. 29ª ed. Petrópolis: Vozes, 2000. n. 4. Doravante a Constituição Pastoral Gaudium et Spes será citada pela sigla GS. 14 GS 44. 15 MANZATTO, Antonio. O teólogo, responsável pelo mundo. Disponível em: <http/ciberteologiapaulinas.org.br/ciberteologia/index.php/notas/o-teologo-responsavel-pelo-mundo/> Acesso em 15 novembro 2012, 23:37:15. 16 A resposta da teologia ao homem moderno segundo o Concílio Vaticano II passará pela atenção religiosa do momento histórico no qual a humanidade está inserida. Os sinais dos tempos são as marcas características de uma época. Verifica-se que é uma análise ou leitura da atualidade histórica. M. D. Chenu proporciona uma importante interpretação sobre a temática em questão. O teólogo francês entende que a história humana é lugar teológico, Logo, os tempos, devem ser entendidos como sinais que servirão de elementos para uma análise sociológica. Estes elementos sociológicos se tornam material para a análise teológica. Assim sendo, teologia partirá da vida assumindo o método indutivo. Cf. BOFF, Clodovis. Sinais dos Tempos: Princípios de Leitura. São Paulo: Loyola, 1979. p. 115-144. (Coleção Fé e Realidade – V). 13 17 mordem o pó da estrada para cavar a própria sobrevivência, os quais, em um modelo “herodiano”, andam cansados de tantas promessas.17 A teologia, na perspectiva apresentada por Geraldo Lopes, é um ato de amor, amor ao ser humano situado na sua realidade histórica. Esta relação amorosa, segundo Bruno Forte, deve ser considerada como um encontro, encontro entre a condição humana de êxodo e o advento de Deus vivo em sua relação histórica. Esta convergência ocorrerá na medida em que a teologia assumir o momento histórico, sem renunciar ao Eterno. Logo, a teologia será memória da fé revelada no presente, adotando o papel profético e crítico. A teologia como história perfila-se, então, em seu estatuto crítico original: ela é memória da fé revelada que, na consciência responsável do presente, se torna projeto. Sem memória, o projeto seria utopia; sem projeto, a memória seria lamento; sem consciência responsável do agora, memória e projeto seriam evasão. É na unidade dos três momentos que o pensamento da história se faz verdadeiramente crítico, rico em discernimento e juízo, capaz de julgar e orientar o presente. Se a Igreja quiser responder às verdadeiras questões do mundo presente, deve abrir-se, e não partir apenas do dado da Revelação e da Tradição, como fez a teologia clássica. Exige-se dela, agora, partir dos dados e questões recebidos do mundo e da história.18 Aqui a história é percebida como lugar da mediação da verdade, não como a verdade mesma em seu fazer-se: uma verdade que se resolvesse na história justificaria um relativismo absolutamente incapaz de garantir a abertura do devir histórico às surpresas da Transcendência e de seu advento [...] Na concepção teológica, a verdade “advém” a história, não “devém” nela; vem a manifestar-se na mediação hermenêutica da linguagem e da comunicação, mesmo excedendo sempre a capacidade de apreensão do conceito de interpretação.19 Salienta-se que a cultura contemporânea apresenta-se cada vez mais complexa. Esta complexidade é um desafio à criticidade teológica, que não deve procurar respostas prontas ou fáceis. Por ser ciência e estar limitada ao seu contexto histórico, a teologia terá sempre uma resposta provisória e apresentará um pluralismo inevitável. Logo, o diálogo com o mundo e com a sua vasta complexidade implica atenciosa relação com o seu tempo, reconhecendo os problemas humanos que também são os seus problemas. Pensar a relação entre a teologia e sociedade é problematizar as relações entre um determinado tipo de saber, oriundo da fé religiosa e que toma em conta uma dimensão específica da realidade – a 17 LOPES, Geraldo. Gaudium et Spes: Texto e comentário. São Paulo: Paulinas, 2011. p. 17. CONGAR, Yves. Situação e tarefas atuais da teologia. São Paulo: Paulinas, 1969. p. 87-88. (Coleção Revelação e Teologia). 19 FORTE, Bruno. Teologia em diálogo... Op.cit. p. 38. 18 18 dimensão da Realidade Última da vida − e um aspecto da realidade humana que é a vida em sociedade com toda complexidade que dela decorre. É por isso que a teologia – escuta pensante do Outro em Seu falar e em Seu calar, palavra salutarmente “ferida” pelo acolhimento da revelação – pode contribuir de modo singular para a pesquisa em torno da fundação da ética e interpelar seu potencial de memória crítica do Deus que vem e da capacidade de discernimento dos traços do Último nos rostos dos outros a serviço do crescimento da qualidade de vida para todos [...].20 1.2 O pluralismo teológico Toda teologia é contextual e histórica, marcada pelo seu tempo. Assim sendo, ela sofrerá os limites produzidos pelo contexto no qual está inserida. “Uma teologia que se fechasse ao diálogo e que restringisse a uma recitação de teses em monólogo não pode ser boa teologia nem teologia eclesial propriamente dita”.21 O diálogo da teologia com o mundo de hoje deve ser um diálogo vivo, capaz de interrogar, ensinar e servir. O alicerce do pluralismo teológico se dá em dois pilares. O primeiro é o mistério da fé, que supera em muito o entendimento humano e, por isso, não se esgota em somente uma interpretação. O segundo pilar está radicado neste encontro com a história; toda teologia está situada num contexto e, por isso, sofre os seus limites. “Toda e qualquer teologia já é enculturação da fé e, por isso, discurso particular [...]”.22 Verifica-se que a mesma fé pode dar origem a diferentes teologias devido ao espaço cultural em que a mesma se desenvolve. Impulsionado pelo diálogo e aggiornamento, o Concílio Vaticano II impele os teólogos ao encontro com os seres humanos no concreto da sua existência: É dever de todo o povo de Deus sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da Palavra de Deus, de modo que a Verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo mais convincente. 23 20 FORTE, Bruno. Teologia em diálogo... Op.cit. p. 16. MYSTERIUM SALUTIS: Compêndio de dogmática histórico-salvífica. Tradução portuguesa. Vol I/1. Rio de Janeiro: Petrópolis, 1971. p. 23. 22 BOFF, Clodovis. Teoria do Método Teológico. Op.cit. p. 495. 23 GS 44. 21 19 Afirmar a pluralidade da teologia e a sua inevitável ocorrência não significa abrir espaço para o relativismo e nem tão pouco infidelidade à Revelação. A teologia deve estar sempre ligada à sua fonte, caso contrário não será teologia. Cabe ao teólogo repensar os dados da fé dentro de cada cultura, dentro de cada lugar social. Entende-se lugar social como as condições e os contextos em que o ser humano está inserido, logo cada realidade exigirá do teólogo uma leitura diferente e mediações que possibilitem uma maior aproximação. 1.3 A teologia e os outros saberes Para realizar a sua tarefa, a teologia se aproxima de outros saberes. Ela serve-se dos recursos apresentados por outras áreas do conhecimento. E sua relação é de respeito e de reconhecimento da autonomia das demais áreas do saber. Segundo Clodovis Boff, é um equívoco pensar que a teologia precisa abordar questões referentes a outras ciências. Ela possui o seu tema próprio, contudo, para realizar sua missão, ela necessita aproximar-se do conhecimento humano, em particular da filosofia e das ciências humanas. Sendo entendida como um discurso humano sobre Deus, a teologia pode utilizar os outros saberes para agregar ao seu conhecimento sobre a realidade. Outro aspecto importante é que o mistério de Deus é revelado no mundo e na história. O diálogo entre criador e criatura acontece na história humana com todos os desafios que a história comporta. Deste modo, a teologia, partindo do seu pressuposto absoluto que é a Revelação, utiliza das ciências como instrumento ou mediações que lhe permitem uma melhor compreensão da realidade. Ressalta-se que a mediação cultural é comandada pela fé, como assinala Clodovis Boff: “Diante de ciência alguma a teologia pode assumir uma posição subalterna e, pior ainda, de subserviência”. 24 Este relacionamento entre a teologia e as demais ciências deve ser sempre baseado na dialética; não cabe ao saber teológico interferir no processo do conhecimento de uma determinada área. A relação não deve ser ditatorial e, sim, democrática. Com efeito, este diálogo entre a teologia e as demais ciências, incluindo a arte, contribui com a teologia, ajudando-a a aprofundar e a provocar as razões teológicas. O teólogo não pretenderá substituir os especialistas dos vários campos e não hesitará em deixar-se provocar por eles, reconhecendo o valor das suas propostas e percebendo a força 24 BOFF, Clodovis. Teoria do Método Teológico. Op.cit. p. 368. 20 inquietante de seus questionamentos. Longe de fechar-se num castelo de fáceis certezas, a teologia deverá viver na brecha da história, no diálogo e na companhia exigente e fecunda das pessoas que fazem a real circunstância em que a teologia se vê posta. O diálogo com a ciência representa um movimento de reconciliação da teologia com as realidades terrestres. Esta reconciliação se dá no fato de que no passado recente a fé cristã apenas excomungava o mundo moderno.25 Ressalta-se que neste diálogo a própria teologia reconfigurou-se em seus métodos. Ao entrar em contato com as diversas áreas do saber, a teologia pode contribuir com a sociedade, oferecendo-lhe um conhecimento valorativo, um verdadeiro horizonte para a vida humana em todos os tempos. A teologia não existe para si. Sua raiz está na fé, e a fé não é ato isolado. Assim sendo, a teologia é uma ciência feita para a vida. O objeto de estudo da teologia é Deus, e Deus não é somente verdade. Ele é também vida. As verdades reveladas são para serem conhecidas, sim, mas para serem finalmente vividas. Elas esclarecem, mas também aquecem. Mas a teologia não fala somente de Deus, ela fala também do ser humano.26 Por isso, ela precisa lançar um olhar atento às condições na qual a vida humana se desenvolve, e fazer o processo de forma indutiva em que “os problemas surgem da vida, de baixo, pela via da indução. Vai da experiência ao dogma. O primeiro momento de tal teologia é ver. Ver os problemas que tocam a vida dos fiéis e, num segundo momento, refletir sobre tais questões à luz da revelação”. 27 Este momento histórico é desafiador e, ao mesmo tempo, de oportunidades. Em diálogo com as diversas ciências e com toda a sociedade, a teologia pode, agora, apresentar e expor as suas reflexões em muitos setores, mas fará essa transição somente aqueles que buscam na sua reflexão escutar28 (auditus/fidei e vitae) e se sentem provocados pela realidade da existência como o próprio Jesus. Assim, a teologia não será limitada, pelo contrário, será dinâmica e profética, será um processo de construção (intellectus fidei) a partir da historicidade na qual o ser humano está situado. A Revelação acontece dentro da história, por 25 O documento eclesial que sintetiza a reação católica frente à modernidade é a Encíclica Quanta Cura, de Pio IX (1846-1878). 26 GESCHÉ, Adolphe. O ser humano. Tradução: Carlos Felício da Silveira. São Paulo: Paulinas, 2003. p. 5. (Coleção Deus para pensar; 2). 27 LIBANIO, J.B, MURAD. Afonso. Introdução à Teologia... Op.cit. p. 103. 28 Usarei a palavra escutar, mantendo assim a nomenclatura clássica do fazer teológico, que destina a escuta voltada a busca da elaboração já realizada pela Tradição, mas ao mesmo tempo utilizarei o mesmo verbo com a intenção de ouvir/ver/ perceber os clamores da vida, assim não se trata de voltar à tradição somente (auditus fidei), mas também indagar a realidade na esperança de uma intelecção capaz de responder as necessidades surgidas por este ouvir. 21 isso ainda hoje ela é atual. Enquanto Revelação, tecnicamente falando, terminou com a morte do último apóstolo, mas, como mensagem, há que ser atualizada 29 para que o homem de hoje também tenha a possibilidade de fazer este encontro com Deus. “A teologia, ao fazer-se companheira, quer contar-lhe as estórias de Deus que lhe permitem encontrar sentido para esta aventura tão breve entre os infinitos do ontem e do amanhã”.30 Nesta pesquisa teológica, buscar-se-á a convergência entre a Palavra Eterna de Deus revelada ao homem e o momento histórico no qual este mesmo homem está inserido, tendo como instrumento de mediação a obra literária, em especial o romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. Porém, antes da análise da obra clariceana, faz-se necessário apresentar a relevância da literatura e o diálogo entre a teologia e a literatura. 2. Literatura A primeira etapa desta pesquisa teve como objeto a teologia. Após uma pequena introdução sobre como nasce a teologia, o texto apresentou a necessidade da ciência da fé em assumir-se como participante do momento presente. Para cumprir sua missão, a teologia deverá dialogar com outras áreas do conhecimento, como a literatura. Nesta segunda etapa, refletir-se-á sobre literatura como meio de construção social e instrumento de humanização, capaz de revelar os mais profundos anseios antropológicos. Esta capacidade da arte será terreno fértil para o teólogo poder examinar o contexto no qual a vida se desenvolve. 2.1 Obra de Ficção: a arte que imita a vida Na mentalidade moderna é muito comum pensar que tudo o que é verdadeiro está relacionado ao labor científico, deste modo, a literatura seria considerada como falsa, devido a sua força ficcional. Este pensamento pode ser entendido como um preconceito, depreciação, pois, embora a literatura seja ficção, ela está ligada a uma tradição na qual o seu autor está inserido, assim seu ponto de partida será a vida. 29 A transmissão viva da Palavra de Deus é mediada pela Igreja que a interpreta na fé, na acolhida humilde, para si e para os outros em cada momento da história. LIBANIO, João Batista. Teologia da Revelação a partir da modernidade. São Paulo: Loyola, 1992. p. 17 (Coleção Fé e Realidade - 31). 30 LIBANIO, J.B; MURAD. Afonso. Introdução à Teologia... Op.cit. p. 36. 22 A ficção tem como inspiração o grande quadro da vida; a imaginação constrói o mundo irreal ancorado na realidade. É exatamente nesta relação do real vivido e do irreal imaginado que se encontra a questão da verdade na literatura.31 Ressalta-se que mesmo a literatura tendo essa capacidade de comunicar elementos importantes da vida, do modelo social e cultural, ela não substitui as ciências sociais.32 Esta influência mútua entre a literatura e a sociedade fará com que elementos externos do cotidiano sejam assumidos na elaboração da articulação interna da obra literária. A poesia épica tradicional, em vigência até o século XVIII [...] servia de espelho onde se refletiam as representações, anseios e aspirações dos povos, carentes de alimento para a sensibilidade e a imaginação [...]. Idêntica função desempenha o romance, ressalvas as diferenças entre ambos, que nascem de ser outro o tempo e outros valores e as estruturas sociais: o romance pode, mais do que o conto, a novela e a poesia [...], apresentar uma visão global do mundo. Sua faculdade essencial consiste em recriar a realidade: não a fotografa, recompõe-na; não demonstra ou reduplica, reconstrói o fluxo da existência, com meios próprios, de acordo com uma concepção peculiar, única, original.33 Verifica-se que a literatura não tem como finalidade a transmissão de informações. “Literatura não transmite nada. Cria. Dá existência plena ao que, sem ela, ficaria no caos inomeado e, consequentemente, do não existente para cada um. E, o que é fundamental, ao mesmo tempo em que cria, aponta para o provisório da criação”.34 A literatura não se preocupa em apresentar um retrato mais próximo possível do verdadeiro, em ser uma notícia jornalística; pelo contrário, para o filósofo francês Paul Ricoeur, quando o romance no século XIX assume o papel da verossimilhança, ele entra em declínio.35 A arte imita a vida. Com ela, temos certa compreensão do mundo, do humano e da sua significação. A literatura também pode fazer com que a vida imite a arte, anunciando novas possibilidades de construir a sociedade. Esta possibilidade criativa da literatura em meio à vida cotidiana é profundamente reveladora, estar diante do provisório é captar e valorizar a vida como uma história da qual fazemos parte e na qual podemos assumir um papel novo 31 MANZATTO, Antonio. Teologia e Literatura: Reflexão Teológica a partir da Antropologia contida nos Romances de Jorge Amado. São Paulo: Loyola, 1994. p .17. 32 MANZATTO, Antonio. Teologia e Literatura: aproximações pela antropologia. Disponível em: http://<www.alalite.org/pt/coloquios/brasil2007/comunicacoes.html>. Acesso em: 9 dezembro 2011, 10:05:15. 33 MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa I. 20. ed. São Paulo: Cultrix, 2006. p. 165. 34 LAJOLO, Marisa. O que é literatura? 6. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 43. 35 RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa 2: A configuração do tempo na narrativa de ficção. Tradução: Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. p. 33. 23 diante dos mais variados desafios, como nos assinala Massaud Moisés: “[...] o romance encerra uma visão macroscópica da realidade, em que o narrador procura abarcar o máximo, em amplitude e profundidade, com as antenas da intuição, observação e fantasia”. 36 Proclamar a literatura como um passatempo, um momento de fuga da vida é reduzir em muito a possibilidade de reconfiguração da arte, “a fruição de uma obra de arte implica sempre reinvenção”.37 É simplesmente não perceber ou captar a vida que pulsa no interior de cada um, vida esta que pode ser despertada pela arte, no caso da literatura romanesca. Nenhuma obra nasce por si só, ela deve ser construída, planejada, por isso o autor é o construtor da obra; ele tem como ponto de partida o seu referencial de vida, ela nasce das memórias, dos sentimentos, dos questionamentos vividos. Desta maneira, a obra é um conjunto de percepções que o autor vai reunir ao longo da sua caminhada de vida. As lembranças narradas são composições racionais dos sentimentos vividos pelo autor, e esses sentimentos nos revelam marcas da condição social e cultural em que o mesmo está inserido, consequentemente, por trás de toda obra literária há uma antropologia a ser descoberta.38 Afirmar que o romance A hora da estrela, de Clarice Lispector, objeto desta pesquisa, é profundamente marcado pela ficção é também afirmar que: “a própria criação da utopia se nutre sempre de uma imaginação ancorada na realidade”.39 Destarte, temos que a obra de ficção parte da realidade. A imaginação tornou-se um caminho que não apenas nos permite captar o real, mas vai além, permitindo-nos projetar novas perspectivas da realidade. Desta forma, encontramos o processo imaginativo na fantasia, na elaboração de projetos, nas expressões simbólicas, nas ideologias e nas mais variadas emoções que nos afetam diariamente. Neste sentido, esta pesquisa teológica buscará se aproximar da realidade vivida, tendo como mediação ou instrumento de captação a obra clariceana. François Laplantine e Liana Trindade, na obra O que é imaginário, nos diz que: “O imaginário em liberdade, que rompe os limites do real, consiste na explosão que propicia o 36 MOISÉS, Massaud. A criação literária... Op.cit. p. 165. RAMOS, Maria Luiza. Fenomenologia da obra literária. Rio de Janeiro: Forense-Universitário, 1969. p. 35. 38 Destaca-se que o termo “antropologia a ser descoberta” está relacionado à compreensão do sentido do humano apresentado na obra literária. Ou seja, num primeiro momento buscar-se-á a partir da obra literária os elementos que constituem a vida dos personagens e somente depois é que estes elementos serão analisados. 39 LAJOLO, Marisa. O que é literatura? Op.cit. p. 46. 37 24 início de uma nova época ou apenas o tempo efêmero e extraordinário de uma festa [...]”. 40 Esta explosão provocada pela literatura tem como ponto de partida a tradição, que envolve o autor. Por tradição deve-se entender o diálogo de tudo, o passado, o presente da configuração das experiências vividas. A obra é a reelaboração do passado no presente, e o passado se atualiza através da linguagem. 41 Segundo Vicente Ataíde, a literatura toca e revela o profundo do ser humano: “O objeto da especulação literária é a realidade, tomada em sentido amplo, absorvendo as regiões mais fundas do sujeito e as mais exteriores [...]. Através de palavras, o sujeito da comunicação quer dizer o que observou, o que sentiu, o que intuiu [grifo do autor]”.42 O romance, por ser obra de ficção, não se preocupa em retratar a verdade dos fatos. Ficção está diretamente ligada à imaginação, trata-se de um texto irreal, mas o fato de ser ficção não significa que seja falso. Como já foi apresentada acima, a literatura parte da realidade, mas a sua maneira de expressar a realidade é metafórica, usa-se da força simbólica para apresentar o contexto, e esta simbologia possibilita não só a atualização dos sentimentos do autor, mas também a reinterpretação por parte do leitor. É exatamente neste ponto que se situam as questões da verdade da literatura, o real é o inspirador, a vida é a potência, ou seja, a possibilidade de novas interpretações da realidade. Nesse contexto, podemos até falar da literatura como “filosofia imaginativa”, influenciada pelo social. A literatura é sempre atual, e também profética e escatológica na medida em que deseja realizar algo superior, ultrapassando a realidade vivenciada. Sendo entendida a literatura como um discurso figurado que faz alusão ao real, exatamente por estar distante do real, ela, a literatura, toma distância para ver a vida não como um dogma, mas como possibilidade de ser ou não ser. Com ela, nasce o questionamento, surgem novas possibilidades e novos desejos. Percebe-se que a literatura é um espaço profundamente humano, do humano desadaptado que busca transcender a sua realidade. Esta transcendência é mediada pelo símbolo, recurso abundantemente utilizado por Clarice Lispector na sua escrita. 40 LAPLANTINE, François; TRINDADE, Liana. O que é imaginário? São Paulo: Brasiliense, s/ ano. p. 2. (Coleção Primeiros Passos). 41 LAJOLO, Marisa. O que é literatura? Op.cit. p. 49. 42 ATAÍDE, Vicente. A narrativa de ficção. Curitiba: Ed. Dos professores, 1972. p. 4. 25 2.2 Os símbolos falam Os símbolos estão vivos, falam de mim, de você, da nossa família, do nosso grupo, da nossa casa e, por estarem vivos, podem carregar negação ou aceitação de tudo aquilo que representam. A linguagem simbólica é usada quando se esgotam as expressões comuns. É como ponte que permite ao leitor ultrapassar os seus limites. A literatura é altamente simbólica, os símbolos são construções humanas, portanto, por trás do simbólico existe um ser humano que deseja relacionar-se. A linguagem simbólica, considerada enquanto um ato de amor promove um lançamento e uma entrega de cada um de nós para o que não se consegue nomear, para o que não se consegue resposta imediata, buscando o conhecimento que é, ao mesmo tempo, autoconhecimento. Compreendendo alguns símbolos, compreende-se algo mais de si mesmo.43 O símbolo não cristaliza uma emoção; deve ser visto como uma moldura que não possui uma definição de contornos; ele é livre como numa pintura. A moldura serve de aparato para a verdadeira expressão que é a pintura, logo, entende-se que a obra de arte, em especial a literatura, é uma obra aberta, aberta a um mundo de possibilidades. Esse universo simbólico apresentado pela literatura proporciona uma enorme possibilidade de transgredir os limites, construindo novas maneiras de ver o mundo. Transcender é a potencialidade do ser humano para buscar alternativas que ofereçam sentido a sua existência. Isso não significa sair correndo sem rumo... Trata-se de buscar sentido (direção e significado) para si mesmo (consciência); compreender seu tempo no presente, através do passado, e poder construí-lo no futuro.44 Considerando que a literatura possui uma linguagem própria, uma linguagem ficcional, de maneira alguma, como já foi afirmado anteriormente, ela será desengajada ou alienante. Ela é expressão do pensamento, e por ser expressão do pensamento está ancorada na existência, como nos aponta Maria Celina: “A palavra faz o pensamento existir. A palavra sonha e pensa: sonha através da imaginação e pensa ao ser expressa. Ao expressar-se, provoca e evoca a explosão da linguagem, que não contém apenas palavras, mas transcende com e na imaginação”.45 43 NASSER, Maria Celina de Q. Carreira. O que dizem os símbolos? São Paulo: Paulus, 2003. p. 11. Idem. Ibidem. 45 Ibidem. p. 21. 44 26 Ao usar a linguagem simbólica, constata-se que algo está faltando, defendem-se os direitos humanos porque eles ainda não são respeitados. A transcendência não é uma fuga para algo distante, mas é expressão de seres finitos, com o desejo do infinito, insatisfeitos com a realidade, com a sua vida; insatisfeitos com a sociedade e com as respostas imediatas apresentadas pela grande massa; é um não conformar-se com a situação. O recurso simbólico é utilizado com um objetivo muito claro: ele deseja desinstalar o leitor, levá-lo a lugares profundos e distantes da vida cotidiana. O símbolo é capaz de tocar no homem interior. Por ter excesso de sentido, pode criar grandes mudanças no leitor. Segundo L. A. Schökel, esta relação produzida pela força simbólica é verdadeiramente uma iluminação: “A obra literária ilumina e descobre nossos pensamentos mais íntimos, torna-nos conscientes de sua profundidade. Lendo nós mesmos, à luz do autor e da sua obra; e, nos conhecendo melhor, podemos chegar à ação ou à conversão necessária”.46 2.3 Os três mundos de Paul Ricoeur A hermenêutica de Paul Ricoeur contribui, em muito, para o entendimento e para a visualização da construção literária e seus elementos antropológicos. Ele entende o termo ficção de maneira diferente, pois ignora a ambição da narrativa histórica em se constituir como verdadeira. Tudo o que é narrado acontece dentro do tempo, e o que está no tempo/história pode ser contado, logo as experiências humanas são articuladas por meio da narração. Narrar é contar experiência, seja ela oral ou articulada através da escrita. Desta maneira, o texto será “a unidade linguística procurada que constitua o médium apropriado entre o vivido e o ato narrado”.47 Entre o tempo da ficção e o da experiência fenomenológica existe uma distância. A experiência é o tempo da prefiguração (mímesis I), o mundo da obra (mímesis II) e a refiguração entendida como mundo do leitor (mímesis III). Percebe-se uma necessidade de desconectar a experiência viva do tempo, por outro lado, temos também uma impossibilidade desta conexão por inteiro. 46 SCHÖKEL, Luís Afonso. La parole inspirée. Ecriture Sainte à la lumiére du langage et de la littérature. Apud MANZATTO, Antonio. Teologia e Literatura: Reflexão Teológica a partir da Antropologia contida nos Romances de Jorge Amado. São Paulo: Loyola, 1994. p. 81. 47 NASSER, Maria Celina de Q. Carreira. O que dizem os símbolos? Op.cit. p. 25. 27 A obra de ficção não cessa de fazer a transição entre a experiência antes do texto e a experiência depois do texto48, afinal, o tempo fictício nunca está cortado do tempo vivido. A obra literária projeta um mundo no qual as personagens realizam uma experiência fictícia do tempo, nos apresentando um horizonte. Conclui-se que a ficção não pode romper as suas amarras com o mundo prático, do qual procede e depois retorna. 49 Este processo apresentado por Ricoeur é descrito por Antonio Manzatto da seguinte forma: “O autor compõe a obra e por ela influencia o leitor; a obra influencia, em uma relação dialética, o sujeito que a criou e aquele que a lê; o leitor dá um sentido e realidade à obra e, assim, influencia o autor”. 50 A reorganização do mundo em termos de arte, através da literatura, tem seu início na elaboração da obra. O autor é um engenheiro que combina os diversos elementos da vida, sejam eles naturais ou técnicos; trata-se do momento de criação. A arte, assim entendida, pressupõe que exista algo maior. O artista se torna porta-voz de todos, de um determinado grupo social ou de toda sociedade.51 Por isso, sua expressão artística enquanto comunicação deve ser “legível” para outros homens. Paul Ricoeur trabalha a questão sobre o mundo da obra como uma projeção capaz de fornecer um espaço de confrontação entre o mundo do autor e do leitor. Contudo, esta confrontação só é possível após uma releitura da obra. É na sua interação com o leitor que surge a obra como possibilidade narrativa e construtiva. Na perspectiva metafísica, a obra é uma potência inacabada e a releitura será a atualização da obra.52 O mundo da obra tende ao mundo do leitor. Sem a participação do leitor a literatura está incompleta. Seria como revelar os segredos mais profundos a ninguém, seria como discursar sem plateia jogando palavras ao vento. A hipótese de Ricoeur tem como base o caráter comum da experiência humana, que é articulado no tempo - “tudo o que narra acontece no tempo, desenvolve-se temporalmente; e o que se desenvolve no tempo pode ser contado”.53 Assim acontece a relação entre ficção, história e tempo. Deste modo, o texto será entendido como uma unidade linguística entre o tempo vivido e o ato de narrar. A narração será elaborada por um conjunto de ações 48 RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa... Op.cit. p. 125. Ibidem. p. 130. 50 MANZATTO, Antonio. Teologia e Literatura... Op.cit. p. 36. 51 Ibidem. p. 30. 52 Ibidem. p. 31 53 RICOEUR. Paul. Do texto a ação: ensaios de hermenêutica. Portugal: Rés-editora, s/d. p.24. 49 28 realizadas, denominada intriga. A intriga é a mediadora entre o acontecimento e a história por ser unidade inteligível.54 Outra chave de interpretação importante referente ao tempo de ficção é a distinção entre enunciado e enunciação. Essa distinção compreende três níveis: enunciação, enunciado e mundo do texto, que, por sua vez, correspondem a um tempo de narrar, um tempo narrado e a experiência fictícia. Desta maneira, percebe-se a referência da arte à vida. Nesta perspectiva, toda narração está para algo além de si mesma, e é exatamente desta distinção que podemos distinguir o tempo do narrar e o tempo narrado. “Todo narrar é um narrar [de] algo que não é narrativa, mas processo de vida”. 55 A obra influencia os seus leitores, a arte reorganiza ou desorganiza a realidade. Não obstante, podemos ter várias interpretações, pois temos uma obra e diversos mundos e vidas a interpretá-la, temos uma dialética criadora e também transformadora. Esta dialética é estabelecida pelo discurso, e todo discurso remete a um locutor. Discursar é comunicar, e toda comunicação possui os seus códigos, por conseguinte, todo discurso tem, além do seu locutor ou sujeito, um mundo. Este mundo projetado pelo discurso se transforma em significação, podendo identificar e ser re-identificado. Na obra O único e o singular, Ricoeur fala da hermenêutica da interpretação do texto. Segundo o filósofo francês, são as interpretações coletivas que animam o texto. Assim, cita um pensador medieval que diz: “o texto cresce com os seus leitores”. 56 Ele, o texto, valoriza a multiplicidade de significações. Na mesma obra, Ricoeur, ao observar um quadro de Rembrandt, cujo título é Aristóteles contemplando um busto de Homero, nos diz que o filósofo não começa do nada. O seu start é a poesia. Desta maneira, temos o poeta como estátua, e o filósofo é o que vive, fazendo uma breve analogia, o filósofo passa a ser o leitor que, após ser impactado pela obra, se retira em busca de um significado. É isso o filosofar. O poeta estaria recolhido em sua obra. Isto mostra a relação entre o autor e a sua visão de mundo inserida na sua obra. Aristóteles não se contenta em contemplar. Quer ir além, e toca a estátua de Homero, ou seja, entra em contato com a poesia. Esta relação dialética o faz reorientar os seus questionamentos. Surge algo no interior da alma do filósofo que faz a vida ter uma nova 54 RICOEUR. Paul. Do texto a ação: ensaios de hermenêutica. Op.cit. p. 26. RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa... Op.cit. p. 132. 56 RICOEUR. Paul. O único e o singular. Tradução: Maria Leonor F. R. Loureiro. São Paulo: Unesp, 2002. p. 19. 55 29 esperança, e este poder simbólico é também verificado na relação cultual das diversas religiões. A literatura, por ser simbólica, é muito rica de sentido sociológico, psicológico, cultural e linguístico, que são expressos pela vida vivida, e não por fórmulas matemáticas. Trata-se da arte engajada na vida e da busca de identidade. É a maneira de apresentar a realidade humana vivida e sentida. 2.4 A narrativa e seus elementos textuais A narração faz parte do patrimônio cultural de todos os povos. Ela pode ser escrita ou oral. Narrar é relatar um determinado acontecimento, que pode ser real ou inventado. Logo, a narração não deve ser um amontoado de fatos; deve ser organizada e estruturada, de forma a apresentar os acontecimentos ocorridos de maneira significativa. 57 O papel da narração não é apenas o de informar acontecimentos. Deve também mostrá-los, ao ponto de criar interesse ao leitor. Ressalta-se que “por trás” de uma narração existe uma fabricação de ideias dispostas que darão sentido à história. Este sentido que norteia a narração é denominado de tema. Para que uma narração consiga efetivamente apresentar uma sequência significativa de ações, pensamentos, falas, sentimentos e sensações, são necessários que, ao se contar uma história, saiba selecionar os fatos que contribuam para estabelecer o significado do texto (tema). Ou seja, precisamos escolher o que é importante contar, deixando de lado tudo o que for desnecessário, supérfluo.58 A obra literária é uma recriação da realidade através da imaginação do artista. 59 Ao elaborar sua obra, o artista usará de elementos textuais para que ela seja interessante, empregará personagens, espaços específicos tornando sua elaboração narrativa singular, como relata Vicente Ataíde: “O objeto da especulação literária é a realidade, tomada em sentido amplo, absorvendo as regiões mais fundas do sujeito e as mais exteriores”. 60 Esta realidade captada pela sensibilidade do autor, reconfigurada pelo seu contexto de vida, pela sua história, será narrada projetando na obra toda sua intuição ou engajamento. 57 CABRAL, Isabel Cristina M; MINCHILLO, Carlos Alberto C. A narração: teoria e prática. [coord] Ubaldo L de Oliveira, 9. ed. São Paulo: Atual, 1989. p. 12. 58 Ibidem. p. 18. 59 ATAÍDE, Vicente. A narrativa de ficção. Op.cit. p. 3. 60 Ibidem. p. 4. 30 A obra de arte se diz “compromissada”, “engajada”, “dirigida”, quando se põe a serviço de uma causa, doutrina, ideologia, sistema filosófico, político, religioso, científico. [...]. A arte sempre foi engajada, na medida em que nela o autor insufla um pensamento e um sentimento que, embora pessoais, representariam os padrões de certa classe ou casta social em determinado momento. 61 2.4.1 O enredo Afirmar que a literatura parte da realidade significa aceitar que existe um momento, um fato, uma lembrança, um episódio que serviram como base para a elaboração do artista. A partir deste acontecimento, o autor fará a construção da história, que deverá ser coerente e organizada. O enredo será a construção da trama de maneira coerente, na qual todas as partes da obra estarão conectadas. Uma boa obra literária possui esta conexão, pois será através desta conexão entre os episódios que a trama indicará um caminho, mostrando ao leitor a proposta do texto, conforme relata Vicente Ataíde: “Os episódios e acontecimentos são o conjunto de elementos vividos pelas personagens. Deve haver uma coerência própria entre os acontecimentos e quem os vive”.62 Será considerado como um bom texto ficcional aquele no qual o público poderá fazer a experiência do suspense. Este texto deve permitir ao leitor olhar tanto para o protagonista como para sua vida, e enxergar uma série de variáveis possíveis. Para que o leitor faça esta experiência, cabe ao autor usar das ferramentas disponíveis na elaboração da sua arte. Os recursos devem ser agudos e intensos com o objetivo de prender a atenção do leitor, criando um momento de interação com a obra, que será instigada por meio da riqueza de cada episódio. Verifica-se que, devida a sua importância, o enredo não deverá ser de forma alguma um ajuntamento de fatos sem qualquer ligação. Nele deve haver qualidades da verossimilhança. Entende-se esta verossimilhança como narração não do que aconteceu, mas do que poderia ter acontecido. Em outras palavras, trata-se da reconstituição da realidade a partir da realidade. 61 62 MOISÉS, Massaud. A criação literária... Op.cit. p. 167-69. ATAÍDE, Vicente. A narrativa de ficção. Op.cit. p. 22. 31 Os antigos, partindo da lição aristotélica, falam em peripécia e reconhecimento (=anagnorisis) como partes integrantes do enredo. A peripécia é a passagem brusca, completa e inesperada de uma situação para outra situação contrária. [...]. O reconhecimento é a passagem da ignorância ao saber, tendo consequências relevantes no texto [...].63 Considerado em si mesmo, o enredo é um todo que apresenta unidade, e deverá ser considerado como uma imitação da realidade. O texto, muitas vezes, apresenta fatos ou situações que aos olhos comuns são irracionais e impossíveis. Essa distinção entre o impossível e o irracional ocorre a partir do fantástico provocado pela obra, isto é, da capacidade do autor de deixar o leitor estupefato, encantado, emocionado segundo as regras da poesia, e a partir daí passar a ver por novos ângulos. [...] a fábula narrativa não é representação de uma realidade contingente, mas uma forma do necessário que parece verdadeiro. A estória dá a impressão de contemplarmos verdadeiros heróis, faz-nos crer na inevitabilidade dos acontecimentos propostos no texto e na verdade de que homens naquelas circunstâncias sofreriam os mesmos casos. 64 2.4.2 A personagem As personagens são seres que atuam como atores numa narrativa de ficção.65 Levando-se em conta que todo enredo é história articulada, a obra narrativa apresenta suas personagens como pessoas que vivem dramas e situações parecidas com a maioria da população, sendo como um espelho da sociedade. Massaud Moisés ressalta a importância da percepção de que a literatura é o reflexo projetado da vida: São “‘representações’, ‘ilusões’, ‘sugestões’, ‘ficções’, ‘máscaras’ [...]”.66 Para Vicente Ataíde, as personagens possuem uma hierarquia. Estas personagens podem ser divididas em: principal, secundária e irrelevante. A personagem principal é aquela em que incide o maior foco; ela carrega a ênfase do artista no enredo. Já a secundária está 63 ATAÍDE, Vicente. A narrativa de ficção. Op.cit. p. 26. Ibidem. p. 28. 65 Ibidem. p. 37. 66 MOISÉS, Massaud. A criação literária... Op.cit. p. 226. 64 32 interligada à principal, mas enquanto pano de fundo. Por fim, a personagem irrelevante, que aparece de maneira esporádica e com fraca atuação.67 Outra maneira de nomear as personagens enquanto a sua relevância na obra de ficção é pela distinção entre a personagem redonda e plana. Estas representam modelos de narrativa. A personagem redonda seria um símbolo, uma possibilidade humana por momentos elevada à sua dimensão mais alta. Esta elevação humana só é possível pela realidade da personagem. Entende-se que esta realidade não é a da vida diária, mas enquanto a personagem respeita e vive de acordo com as leis literárias, ela se torna convincente e, porque convence, realiza aquilo que gostaríamos de ser. A personagem redonda [grifo do autor] corresponde, assim, a uma projeção, ou símbolo, de nosso “eu profundo”, é um alter-ego [grifo do autor] livre para concretizar a impossível evasão, que morremos sem ao menos iniciar, tão presos estamos ao condicionamento exterior. Por meio de sua ação, temos a ilusão de nos realizar, de nos conhecer melhor, e vamo-nos compensando das frustrações da vida cotidiana.68 A personagem plana, do tempo histórico, é entendida por Vicente Ataíde como: Personagens plana ou estática são personagens destituídas de profundidade, de vida interior, de dramaticidade, de consistência do seu eu [grifo do autor]. A vida de tais personagens não vai além as condições externas que a modelam, são superficiais quanto ao mundo que têm dentro de si. A personagem estática ou plana vive uma vida que acontece a [grifo do autor] elas, não dentro [grifo do autor] delas.69 2.4.3 Tempo e espaço A caracterização das personagens determinará a mensagem que a mesma passará ao leitor. Trata-se de um recurso comunicante, capaz de transmitir mensagens ao leitor, por meio de uma série de descrições, desde os aspectos físicos e psicológicos como também sociais. O espaço é o local onde a personagem se movimenta, logo, deve ser bem caracterizado. Essa caracterização transformará o local em ambiente. Isso é fundamental na narrativa. Uma vez 67 ATAÍDE, Vicente. A narrativa de ficção. Op.cit. p. 41. MOISÉS, Massaud. A criação literária... Op.cit. p. 234. 69 ATAÍDE, Vicente. A narrativa de ficção. Op.cit. p. 43. 68 33 que o espaço assume a condição de ambiente, ele apresenta uma atmosfera que envolve a personagem. O tempo pode ser separado em tempo cronológico e psicológico. O tempo cronológico é apresentado por meio de períodos regulares (segundos, minutos, horas e dias, etc.), enquanto o tempo psicológico é medido não por dados objetivos, mas é instruído por uma medida de duração interior. 2.4.4 Situação ambiente e ponto de vista A situação ambiente é onde o enredo se desenrola, e o ponto de vista é o ângulo no qual a história é contada e como ela é resolvida. Logo, a visão do leitor será dada pela personagem principal, que pode assumir dois pontos de vista conforme o entendimento de Vicente Ataíde: “O primeiro é aquele em que a narrativa é vista por dentro, faz-se a partir de alguém que vive e convive os fatos; o segundo é aquele em que os episódios são apresentados de fora por alguém que sabe dos fatos mas não os viveu.”70 2.4.5 Linguagem A linguagem é um elemento muito importante da vida humana. Ela não é uma questão qualquer à existência humana. Ela permite a fundação da consciência e construção do entendimento de sua história. A linguagem assume o profundo do ser humano, nela encontrase o mistério da existência humana. A literatura como discurso artístico perscruta o mundo humano, daí a importância do tema para a teologia.71 A linguagem pode ser falada ou literária. A falada é livre, enquanto a literária assume um conjunto de regras, constituindo-se em linguagem lógica. Assim sendo, o romance não reproduz o mundo, ele usa da linguagem, mas não da maneira como se fala, não é reprodução dos fatos, como uma narração jornalística. Os principais expedientes romanescos - diálogo, narração, descrição, dissertação - espelham essa discrepância entre linguagem falada e escrita artística. Querer igualar a linguagem falada à linguagem escrita é errar o alvo. 70 ATAÍDE, Vicente. A narrativa de ficção. Op.cit. p. 55. VILLAS BOAS, Alex. A essência da linguagem. Disponível em: <http://www.teoliteraria.com/edicoes/ed002/port/pdf port/05 11 txt00 editorial.pdf> Acesso em: 9 dezembro 2011, 20:42:15. 71 34 Por isso o romance-reportagem, querendo tornar-se a transposição direta da vida, falseia-se e falseia os fins da arte (que, antes de ser cópia [grifo do autor], é uma transfiguração [grifo do autor] do real), e o romance-arte, recriando a vida, cumpre o seu papel. Paradoxalmente o romance-arte depois volta para a vida de onde nasceu, enquanto o outro se ausenta da realidade. O primeiro, por manter-se fiel a si próprio, modifica a realidade de onde partiu, o outro, mumifica-se, porque voltado para o transitório, e não para os constantes, do mundo do real. Efetivamente só a imaginação, trabalhando sobre os possíveis da realidade, é capaz de perceber o que perdura, e abandonar o que varia.72 3. Diálogo entre Teologia e Literatura A aproximação ou diálogo entre teologia e literatura na história contemporânea está cada vez mais presente nos círculos acadêmicos. Este diálogo atrai pesquisadores de diversas áreas como literatos, filósofos, psicólogos, cientistas da religião e teólogos.73 Aos poucos, este diálogo vai construindo um significativo caminho, tanto no Brasil quanto no exterior. Destaca-se também que existem diferentes formas de aproximação deste diálogo. Portanto, faz-se necessário observar os pontos que aproximam a teologia da literatura e o percurso até aqui. Esta observação será de suma importância para os demais pesquisadores. Um primeiro aspecto a ser destacado nesta aproximação entre a literatura e a teologia é a riqueza e a diversidade de ambas, atributos que permitem uma gama de aproximações com diferentes métodos. Logo, nesta pesquisa, não se tem a pretensão de encerrar o assunto sobre as discussões metodológicas, discussões estas que ganharão novos moldes e novos caminhos com o passar do tempo, como sugere Alex Villas Boas.74 Ressalta-se que esta aproximação da ciência teológica com a arte literária não é exclusividade da teologia. Outras ciências, como a psicologia, também têm se aproximado da literatura como mediação do seu pensamento. Igualmente, destacam-se a filologia, a 72 MOISÉS, Massaud. A criação literária... Op.cit. p. 242. Destaca-se o IV Colóquio Latino Americano de Teologia e Literatura, sob o tema Literatura e Teologia em diálogos e provocações. Organizado pela Alalite (Associação Latino Americana de Literatura e Teologia) em conjunto com o grupo de pesquisa Lerte da PUC-SP, foi realizado na PUC-SP entre os dias 1 e 3 de outubro de 2012, e contou com mais de cem participantes de várias regiões do Brasil e do exterior. 74 Esta possibilidade de aproximação entre teologia e literatura ainda não possui caminhos definidos, por isso, Alex Villas Boas usa a expressão “o caminho se faz caminhando” como um processo de elaboração e de aprofundamento nesta relação. Cf. VILLAS BOAS, Alex. Teologia e Poesia: A busca de sentido em meio às paixões em Carlos Drummond de Andrade como possibilidade de um pensamento poético teológico. São Paulo: Crearte, 2011. p. 21-22. 73 35 linguística e a sociologia. Segundo Alejo Carpentier, esse interesse tem seu start no fato de a literatura ultrapassar os limites da narração: “Por aí pode-se perceber que o romance vai além da narração, do relato, ‘além do próprio romance’, e engloba os contextos social, econômico, racial, religioso, político, cultural, ideológico e torna-se então interessante, como campo de pesquisa, para várias ciências”.75 A aproximação entre teologia e literatura é legítima. Não se trata de um devaneio da teologia, pelo contrário, será um ato de amor. Na verdade, o teólogo que busca esta relação sabe que por trás da obra literária, seja ela qual for, encontrará um ser humano, um modelo capaz de nos iluminar e que também necessita ser iluminado pela luz da fé. 3.1 O eixo antropológico: o tri-vial entre a teologia e a literatura 76 Tanto teologia como literatura são produtos humanos, são produções intelectuais. A teologia é marcada pela reflexão à luz da fé, enquanto a literatura, por ser expressão artística, é obra da imaginação, que, por sua vez, também possui seu viés de racionalidade. Pela ficção ou poesia, a literatura põe em cena o homem vivo, com suas questões, seus sonhos, seus problemas e seus sentimentos em face do mundo da natureza, em face dos outros homens e diante de si mesmo. Ela interessa-se por tudo o que é humano, de tal modo que se pode dizer que a literatura é tão grande quanto o humano. 77 A partir da ótica do artista, a literatura pode apresentar sua visão do mundo, podendo afirmá-lo ou criticá-lo. Esta visão apresentada pela arte, no caso específico desta pesquisa, o romance A hora da estrela, de Clarice Lispector, pode fazer com que a vida imite a arte, dependendo da compreensão do ser humano e da sua significação ali apresentada. A literatura, pela sua configuração simbólica, convida a vida a imitar a arte, anunciando novas possibilidades de construir a sociedade. A obra de ficção pode afirmar ou contestar a história 75 CARPENTIER, Alejo. Literatura e consciência política na América Latina. Apud MANZATTO, Antonio. Teologia e Literatura: Reflexão Teológica a partir da Antropologia contida nos romances de Jorge Amado, São Paulo, Loyola, 1994. p. 64. 76 O termo tri-vial reporta ao conceito de trivialidade e faz referência à organização da cidade antiga em três vias principais. Estas vias deviam convergir num único ponto. Neste ponto comum, os cidadãos se encontravam e discutiam aspectos da vida que se impunham à existência humana. Ao usar este conceito de convergência, destaca-se o antropológico como lugar de encontro entre teologia e literatura. Cf. BOFF, Leonardo. João Batista Libanio: Teologia Peregrina: Pequeno ensaio de teologia “tri-vial”. In. KONINGS, Joham. (org). Teologia e Pastoral: Homenagem ao Pe. Libanio. São Paulo: Loyola, 2002. p. 43 (Coleção CES). 77 MANZATTO, Antonio. Teologia e Literatura... Op.cit. p. 63. 36 em que o autor está inserido, conforme assinala Antonio Manzatto: “Inclusive a obra de ficção, completamente outra e falsa com relação ao presente, se configura em confirmação ou crítica do mundo real atual, pois se baseia na experiência vivida mesmo coletivamente, e apresenta uma proposta de organização do mundo”.78 Na literatura, a obra nasce da experiência vivida do autor e, ao ser elaborada, torna-se uma narrativa capaz de influenciar outros seres humanos. Verifica-se este processo também na teologia. A fé cristã parte da experiência histórica da Revelação. O conceito de Revelação é exatamente este, que Deus se faz presente na história, e que não há história sem a presença de Deus. Ao fazer esta experiência, o ser humano passa a narrá-la. A literatura e a teologia falam da significação do humano e do mundo, caminham pela mesma via, e este será o caminho em comum nesta pesquisa, o elemento antropológico. 3.2 A palavra: expressão do humano Entre a Teologia e a Literatura nota-se outro ponto de aproximação: ambas trabalham com a palavra. Na literatura, a palavra é seu próprio ser, no qual expressa a sua beleza, capaz de ativar e atingir as profundezas do ser humano. Isto porque o símbolo toca em núcleos, pontos internos nossos que remetem a campos e áreas profundos e amplos. Esses campos são os lugares que contêm histórias que um dia vivemos, imagens que criamos, emoções que tivemos e, ao serem tocados, ressurgem e expressam o mistério da vida/morte.79 A teologia possui uma configuração diferente da literatura. Ela não se preocupa com a questão estética. Por meio da racionalidade a teologia articula as verdades das suas afirmações. Deste modo, ela usa das palavras como um meio de expressão dos seus conceitos. Em vista disso, sua linguagem é analógica. A fonte primeira e decisiva da teologia é a Palavra de Deus, narrada na Sagrada Escritura. É ela que dá a possibilidade de existir à teologia, portanto, a palavra não é estranha à teologia, pelo contrário, é constitutivo do seu ser. Embora a palavra para teologia e para a literatura tenha características diferentes, “pois uma é de 78 MANZATTO, Antonio. Pequeno panorama de teologia e literatura. In. MARIANI, Ceci Baptista; VILHENA, Maria Angela, (orgs). Teologia e Arte: Expressões de transcendência, caminhos de renovação. São Paulo: Paulinas, 2011. p. 88. 79 NASSER, Maria Celina de Q. Carrera. O que dizem os símbolos? Op.cit. p. 6. 37 Deus, a maiúscula, e outra, a minúscula”80, nela se encontra a linguagem como um caminho de aproximação. Antonio Magalhães expõe esta ligação da palavra com a teologia ao dizer que: “O cristianismo é uma religião do livro”.81 Ao fazer esta afirmação, ele deseja ressaltar a força dos pilares do anúncio cristão, que foram forjados através de múltiplas formas narrativas. “Boa parte de seu poder reside no fato de ser literatura e exatamente por ser literatura possui relevância na vida sociocultural”. 82 Esta força da Palavra, que Magalhães destaca na obra Deus no Espelho das Palavras, fica mais evidente quando as narrativas das personagens bíblicas são incorporadas pelas diversas culturas. Isso se dá na medida em que as missões avançam. Aliás, o sucesso do cristianismo está no fato de assumir a literatura como veículo de evangelização, e não as formulações dogmáticas. 83 Ressalta-se que a Bíblia não é um livro. É, na verdade, uma biblioteca, um conjunto de escritos confeccionados ao longo da história. Para tal obra, os hagiógrafos utilizaram todas as suas capacidades e limites, como a cultura, a língua, as formas literárias disponíveis, elaborando um processo que pode ser aplicado à literatura em geral. Somente esta realidade seria suficiente para a aproximação entre a literatura e a teologia. Contudo, verifica-se na Bíblia uma vasta gama de gêneros literários como: contos, novelas, romances, sagas, poemas, sermões, orações, mensagens proféticas, narrativas históricas, relações tribais, dados de arquivos e regulamentos e etc. Em alguns aspectos fundamentais a Bíblia não difere das demais obras de literatura. “A Bíblia não é um livro científico, no sentido estrito do termo, mas, sim, digamos, literário”. 84 Palavras são espelhos que refletem nossas imagens, que nos ajudam ver melhor, nós mesmos e o próximo. São elas também que fazem repousar em si a proximidade e a distância da verdade [...] ao falarmos de verdade, falamos de Deus e de nossa experiência com o mistério doador de nossas vidas. A literatura é companheira desse diálogo e dessa busca.85 80 MANZATTO, Antonio. Pequeno panorama de teologia e literatura. Op.cit. p. 89. MAGALHÃES, Antonio. Deus no espelho das palavras. São Paulo: Paulinas, 2000. p. 9. 82 Ibidem. p. 22. 83 Idem, Ibidem. 84 MANZATTO, Antonio. Pequeno panorama... Op.cit. p. 90. 85 MAGALHÃES, Antonio. Deus no espelho das palavras. Op.cit. p. 25. 81 38 Os livros que constituem a Bíblia foram elaborados a partir de experiências vividas pelo povo no seu relacionamento com Deus. Essa experiência é comunicada pela linguagem, capaz de conduzir o leitor além das simples palavras, assim, o leitor, mesmo distante do evento histórico, pode fazer a experiência de Deus. As narrações possibilitam a transmissão da experiência da fé. A fé cristã nasce do encontro com a pessoa de Jesus de Nazaré, por isso, deve ter estrutura narrativa. Não há outro meio de referência ao evento histórico, a não ser o da narração.86 O anúncio de um evento só é significativo quando suscita no ouvinte uma interpretação. A narrativa, como já exposto na configuração literária dos três mundos identificados por Paul Ricoeur, permite essa reconfiguração da vida. Para Juan Gopegui, por meio da narrativa a palavra se faz vida: “a Palavra feita carne: vida humana significativa dentro da história, palavra humana portadora de sentido, no qual se revela o Sentido radical de toda outra palavra ou vida humana”.87 3.3 O diálogo entre teologia e literatura: Questão do método O diálogo entre a teologia e a literatura tem sido desenvolvido a partir da diversidade metodológica. Esta diversidade se deve à liberdade que a obra de arte possui, em especial a literatura. Nota-se que não existe um meio rígido nessa aproximação. Isso permite diferentes métodos de aproximação entre teologia e literatura. Alex Villas Boas, na obra Teologia e Poesia, aponta para o fato de não se ter um método definido para esse encontro entre teologia e literatura. Verifica-se a possibilidade para novas investidas hermenêuticas, pois a obra pode refletir muitas reações, dependendo de cada leitor. “Apesar de já se estabelecer de modo bastante concreto como área de pesquisa, o encontro entre teologia e literatura não possui um modo bem definido e consensual de como podem caminhar juntas”.88 Existe uma gama diversificada de caminhos percorridos nesta relação. Na busca de uma compreensão deste caminho trilhado, citar-se-ão os três blocos de aproximação entre a 86 GOPEGUI, Juan A. Ruiz de. Experiência de Deus e Catequese Narrativa. São Paulo: Loyola, 2010. p. 14-15. (Coleção Theologica). 87 Ibidem. p. 32. 88 VILLAS BOAS, Alex. Teologia e Poesia... Op.cit. p. 23. 39 teologia e a literatura. Ressalva-se que ao nomear esses três métodos não se tem a intenção de apresentá-los como algo fechado, pelo contrário, a questão metodológica está aberta a novos caminhos e trabalhos. 89 3.3.1 Métodos antigos Antonio Manzatto atribui ao primeiro bloco o nome de métodos antigos. Este modo de aproximação busca encontrar na obra literária os elementos teológicos que ali estão. Neste modelo de aproximação “a literatura seria simples lugar no qual se discutem temas de teologia ou no qual diferentes correntes teológicas se encontram”. 90 Este método entende a literatura como uma simples expressão do religioso. 3.3.2 Método da correspondência O segundo bloco é denominado método da correspondência. Trata-se de uma segunda possibilidade de encontro entre teologia e literatura, um método bem utilizado em nossos dias. Dentro desta metodologia encontramos os trabalhos de Magalhães e também a proposta da teopoética. 91 Essa proposta de aproximação entende que a Revelação se dá na experiência de vida, a vida gesta um modelo existencial, e a literatura permite que essa Revelação ilumine a vida humana. 92 Trata-se da correlação entre os elementos teológicos e os elementos da obra literária. O método da correlação [grifo do autor] segue a linha de Paul Tillich e algumas teses defendidas pelo Concílio Vaticano II sobre a relação entre Deus e o mundo. [...] Segundo esse método, há uma relação estreita entre revelação e situação humana. Nesse propósito, a arte e a literatura apresentam-se como mediações dos grandes dilemas humanos e, por isso, como portadoras de uma presença de Deus que incomoda e antecede as formulações das perguntas.93 89 MANZATTO, Antonio. Pequeno panorama... Op.cit. p. 92. Idem. Ibidem. 91 Ibidem. p. 93. 92 VILLAS BOAS, Alex. Teologia e Poesia... Op.cit. p. 45. 93 MAGALHÃES, Antonio. Deus no espelho das palavras. Op.cit. p.174. 90 40 Esse modelo de interpretação permite diferentes contornos metodológicos. Constata-se esta rica pluralidade nos trabalhos de Eliana Yunes, Salma Ferraz, Maria Clara Bingemer, Alessandro Rocha, Rubem Alves, José Carlos Barcellos, entre outros.94 3.3.3 O método antropológico: o ser no mundo Este terceiro bloco, denominado método antropológico, busca pensar os conteúdos da fé a partir do horizonte literário. Parte da compreensão de que a antropologia é determinante tanto para a teologia quanto para a literatura, pois ambas apresentam certa compreensão do ser humano neste mundo. Nesta relação, o humano expresso pela literatura será revelador de Deus.95 É exatamente o elemento antropológico revelado pela obra literária que será o ponto de reflexão da teologia. Por conseguinte, nesta aproximação entre a teologia e a literatura, busca-se o lugar do encontro, que é a revelação do antropológico, do sujeito social com todas as suas marcas e complexidades. Nessa perspectiva, a relação entre teologia e literatura não será feita com bases em uma análise literária propriamente dita. Procurar-se-á entender o autor literário e a realidade em que está inserido, e a pergunta a ser feita não está voltada diretamente ao sentido da obra, mas, sim, sobre o sentido da vida apresentado pelo autor no conjunto da sua obra.96 3.3.4 Diálogo entre teologia e literatura em território nacional Toda pesquisa tem como ponto de partida os trabalhos já realizados. As produções assumem características diferentes a partir da sensibilidade de cada pesquisador. Nesta breve explanação do processo de aproximação entre teologia e literatura, destacam-se aqueles que são os desbravadores deste caminho em nosso País. Antonio Manzatto é pioneiro na defesa da relação entre teologia e literatura no Brasil. 97 Ele estabelece esta aproximação a partir da antropologia amadiana, na obra Tenda 94 Para um maior aprofundamento Cf. VILLAS BOAS, Alex. Teologia e Poesia... Op.cit. p. 44-46. . MANZATTO, Antonio. Pequeno panorama... Op.cit. p. 96. 96 VILLAS BOAS, Alex. Teologia e Poesia... Op.cit. p. 15. 97 MANZATTO, Antonio Teologia e Literatura: Reflexão Teológica a partir da Antropologia contida nos Romances de Jorge Amado. São Paulo: Loyola, 1994. Esta obra é resultado da sua tese doutoral apresentada em 1993, na Faculdade de Teologia Católica, na Universidade Católica de Louvaina, na Bélgica. 95 41 dos Milagres, de Jorge Amado. Elabora a sua reflexão a partir do ser humano e de todo o contexto no qual o mesmo está inserido. “Neste concreto substrato antropológico da obra de Jorge Amado, ele reflete sobre o Deus da Revelação que vem ao encontro dessa condição humana”. 98 Salienta-se que o termo “aproximação” utilizado por Manzatto tem como objetivo evidenciar que esta relação entre a teologia e a literatura não é uma necessidade, pois uma área é independente da outra. Desta forma, percebe-se o desejo de aproximação de maneira livre, e esta aproximação é possibilitada pelo seu caráter antropocêntrico 99, logo que esta aproximação, a partir da literatura nacional, possibilita à teologia dialogar com o social, no qual estamos inseridos. Ao assumir o ser humano revelado pela obra, o teólogo elabora a sua teologia na busca de respostas aos desafios enfrentados por esse modelo de existência apresentado na obra. Nota-se que a teologia assume o contexto da humanidade. 3.3.5 A crítica metodológica de Magalhães Antonio Magalhães utiliza do método da correspondência, influenciado pela “Teologia da Cultura”, de Paul Tillich. Este método possibilita o encontro da teologia com a cultura em geral, e em especial através da arte, que é capaz de revelar os anseios da humanidade. Para Tillich, através desses anseios revelados, o ser humano é tocado e pode encontrar o sentido da sua existência. Assim a cultura é substancialmente religiosa pelo fato de possuir em seu fundamento a mesma preocupação da religião. A crítica elaborada por Magalhães ao método empregado por Antonio Manzatto está alicerçada na fixação da teologia católica e também da literatura. E, por fim, um problema central na obra de Manzatto é sua fixação quanto às formas de conhecimento. A literatura seria algo fixo, e a teologia também. Por isso, aquilo que Manzatto vê como contribuição da teologia à literatura torna-se bastante limitado. 100 Magalhães entende que a teologia católica apenas repete o que já fora dito no passado. Por essa visão, a literatura seria uma mera pergunta antropológica. Magalhães pretende superar a instrumentalização da literatura pela teologia. Segundo Alex Villas Boas, essa 98 VILLAS BOAS, Alex. Teologia e Poesia... Op.cit. p. 27. Ibidem. p. 29-30. 100 MAGALHÃES, Antonio. Deus no espelho das palavras. Op.cit. p.105. 99 42 discussão é importante, entretanto, a compreensão sobre a teologia católica elaborada por Magalhães não reflete a visão de diálogo com todas as culturas apresentada pelo Concílio Vaticano II101, o diálogo exposto exaustivamente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, o diálogo pela unidade dos cristãos, defendido no Decreto Unitatis Redintegratio, e o diálogo inter-religioso, da Declaração Nosta Aetate. Verifica-se que a abordagem feita por Antonio Manzatto está em consonância com o atual pensamento teológico da Igreja, que tem como inspiração o Concílio Vaticano II. A Revelação, por ser história, implica superação de uma possível instrumentalização, logo ela deve estar direcionada à vida concreta e dialogar com a obra literária. Partir da antropologia contida na literatura, para Manzatto, está em perfeita sintonia com fazer teologia na América Latina e a partir de uma rota Conciliar. Teríamos, então, um diálogo entre antropologias, a partir da história concreta, alvo da reflexão de ambas as áreas em questão, ao passo que a literatura entende sua missão histórica de humanização [...].102 A teologia, tendo como interlocutora a literatura, não perde nada da sua metodologia ou da sua cientificidade, pelo contrário, ela se enriquece ao ter que se fazer sensível à realidade das personagens da obra e do mundo que elas apresentam. Deste modo, ela será uma teologia viva e atenta à realidade da humanidade e, em especial, do povo latino-americano, mantendo a marca teológica deste continente. Teologia e literatura nascem da realidade da vida e abrem uma perspectiva de transformação da realidade. Elas apresentam as experiências fundamentais do ser humano. Ambas são obras abertas em busca de leitores que assumam o processo re-figurativo da vida, do mundo. É pura utopia a defesa/crença de que o humano se faça cada vez mais humano e assuma o seu papel na vida. Esta aproximação entre teologia e literatura enriquecerá muito nosso continente, pois ambas possuem um discurso que parte da realidade e buscam criar novos espaços, novos conceitos, nos quais possibilitam a fecundidade da vida, seja no contexto pessoal, seja no social. O papel do teólogo é o de constantemente contextualizar a mensagem cristã para a sociedade do seu tempo. Para essa finalidade, o pensador deve dialogar com a realidade em 101 102 VILLAS BOAS, Alex. Teologia e Poesia... Op.cit. p.32. Ibidem. p. 37. 43 que está inserido. Nesse quesito, a obra artística tem uma relação imediata com a problemática histórico-social em que foi produzida. Assim, a literatura, como expressão artística, desponta como ferramenta útil e eficaz. 4. Conclusão A teologia como ciência da fé se faz atual uma vez que reinterpreta a realidade histórica buscando o sentido radical do viver em todas as épocas e apresentando o valor e a dignidade da vida humana. Com o objetivo de realizar esta tarefa, a teologia é incentivada pelo Concílio Vaticano II, em especial na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, a estar atenta à condição humana, perscrutando os sinais dos tempos e respondendo a cada geração sobre o sentido da vida. Para o desafio de aproximar-se da realidade, reinterpretá-la e responder aos seus anseios, a teologia sabe que pode se valer da expertise de outros saberes. A aproximação entre teologia e literatura se torna rica de sentido, pois a literatura, que não se afasta do real, apresenta-se como um lugar revelador da realidade na qual se desenvolve a vida do ser humano. Desta forma, a teologia aproxima-se do real vivido e do homem com todas as suas questões. E, por sua vez, o teor literário dá à teologia ocasião para uma reflexão sobre a Palavra de Deus, não a partir do espaço eclesial, mas a partir do mundo, e até mesmo fornece-lhe o material para a inculturação da fé, na medida em que desvela o homem, a sociedade e a cultura, incentivando a busca pela compreensão do que significa ser humano neste mundo. Em seu diálogo com a literatura e com essa proposição, a teologia não abrirá mão de seus valores e da sua identidade, daquilo que lhe é intrínseco. Por outro lado, a literatura também não perderá aquilo que lhe é peculiar. A relação entre ambas deve ser dialógica. Nesta pesquisa teológica, buscar-se-á a convergência entre a Palavra Eterna de Deus revelada ao homem e o momento histórico no qual este mesmo homem está inserido, tendo como instrumento de mediação a obra literária, em especial o romance A hora da estrela, de Clarice Lispector, que será apresentada no próximo capítulo. 44 CAPÍTULO II – SEMPRE É TEMPO DE PENSAR A HORA DA ESTRELA O primeiro capítulo desta pesquisa teve como enfoque principal a relação dialogal entre a teologia e a literatura. A literatura por seus procedimentos próprios aproxima seus interlocutores da vida real, sendo, portanto, uma importante mediação na análise da compreensão do ser humano. Logo, à medida que a teologia se aproxima da literatura, aproxima-se também da vida real. Destaca-se que este diálogo entre teologia e literatura se desenvolverá a partir dos dados antropológicos contidos no romance A hora da estrela, de Clarice Lispector, que, por sua vez, possibilitará novos horizontes para a reflexão teológica. Clarice Lispector é um dos nomes mais celebrados e enigmáticos da literatura brasileira, e dona de uma obra que tem sempre como objeto central o ser humano. A obra clariceana não é de fácil assimilação. Sua linguagem força o leitor a sair do convencional, a ultrapassar os limites do comum. Os textos, complexos, não se deixam enquadrar em modelos predefinidos. Eles inspiram uma nova atmosfera, instigando novos questionamentos que tendem a abalar os sistemas de referências impostos pela sociedade e que já se encontram inseridos no leitor, conforme o doutor em psicologia Dany Al-Behy Kanaan apresenta: [...] diante da sua obra, os modelos tradicionais de interpretação de texto parecem falhos, como se o tempo todo algo ficasse de fora – e fica. Clarice já havia percebido isso em relação à sua obra e em várias ocasiões comentou o fato, como podemos conferir no trecho a seguir: “Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais”.103 Clarice instintivamente escapa, não se deixa enquadrar; ela é consciente da riqueza da individualidade de cada ser humano, por isso, neste trabalho, não se tem a pretensão de querer rotulá-la ou defini-la. Pelo contrário, deseja-se uma aproximação de Clarice por meio da sua obra A hora da estrela, procurando captar os elementos antropológicos que ali se concentram. Faz-se importante ressaltar que não se trata do olhar de um literato, e sim de um teólogo que, apoiado em alguns escritores, tentará essa aproximação. 103 LISPECTOR 1973, p. 14. Apud KANAAN, Dany Al-Behy. À escuta de Clarice Lispector: Entre o biográfico e o literário: uma ficção possível. São Paulo: EDUC, 2003. p. 19. 45 1. Breve biografia: um panorama da vida de Clarice O desejo de apresentar um panorama da vida de Clarice através de uma breve biografia está radicado na certeza de que a vida da autora está diretamente ligada à sua escrita, conforme abaliza Waldman Berta: “Há autores em relação aos quais os dados da vida se entremeiam com a obra, compondo um único objeto”.104 Em Clarice, vida e obra se relacionam num profundo diálogo. Desta forma, faz-se necessário deslizar pela biografia de Clarice na busca de tatear um pouco mais da sua vida. Em dezembro de 1920105, nasceu Haia/Chaia, que em hebraico quer dizer vida “e que, devido a semelhanças fonéticas com Clara, suscitou uma versão em português do nome da menina Clarice”.106 Sua cidade natal é Tchetchélnik, na Ucrânia, que na época ainda pertencia ao Império Russo. Esta cidade era considerada como um “típico lugar encardido onde, até a virada do século XIX para o XX, vivia a maior parte dos judeus do mundo [...]. O lugarejo tinha cerca de 8 mil habitantes, um terço dos quais era judeu”.107 O cenário da época não era dos melhores: a Rússia ainda vivia sob o impacto da Primeira Grande Guerra e amargava as consequências da Revolução dos bolcheviques. E a Ucrânia da década de trinta é marcada pelas perseguições aos judeus, que encontravam na cidade natal de Clarice seu lugar de refúgio. “Reza a lenda que a raiz da palavra Tchetchélnik, Kaçan lik é a palavra turca para refugiado”.108 Esses acontecimentos motivaram a família de Clarice a buscar melhores condições de vida, por isso, decidiram emigrar para a América. 109 O nascimento de Clarice possui um aspecto interessante: ela nasce em trânsito, ou seja, nasce em meio ao processo migratório, conforme própria narração: “Quando minha mãe estava grávida de mim, meus pais já estavam se encaminhando para os Estados Unidos ou para o Brasil, ainda não haviam se decidido: pararam em Tchetchélnik para eu nascer, e 104 WALDMAN, Berta. Clarice Lispector: a paixão segundo C.L. 2. ed. ver. ampl. São Paulo: Escrita, 1992. p. 14. 105 Em Clarice nada é tão simples. Não é somente a sua escrita que possui um ar de mistério, a datação do seu nascimento também traz controvérsias. A certidão original escrita em ucraniano apresenta a data de nascimento no dia 10 de dezembro de 1920 e a data da emissão do documento é de 14 de novembro de 1921. Porém, num passaporte russo, a data é de 10 de outubro de 1920. Cf. GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: uma vida que se conta. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2011. p. 32-36. 106 GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: uma vida que se conta. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2011. p. 37. 107 MOSER, Benjamim. Clarice, uma biografia. Tradução: José Geraldo Couto. São Paulo: Cosac Naify, 2009. p. 27. 108 Ibidem. p. 29. 109 GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: uma vida que se conta. Op.cit. p. 41. 46 prosseguiram viagem”.110 O itinerário da viagem previa atravessar o território russo em direção a Bucareste, passando por Kichinev, na Moldávia, e Galatz, no sul da Romênia, com destino à Hungria. E da Hungria, a família se dirigiria à Alemanha, mais precisamente ao porto de Hamburgo, de onde embarcaria em direção à América. A viagem de navio durou cerca de um mês. Seu pai Pedro 111, sua mãe Marieta, as duas irmãs Elisa e Tania e a recém-nascida Clarice (Chaia) chegaram ao Brasil no ano de 1922, mais especificamente na cidade de Maceió, no Estado de Alagoas, onde passaram a residir. A casa da família Lispector ficava afastada do centro. Pedro trabalhava como mascate e fabricante de sabão, mas os ganhos eram parcos. Já em 1925, a família mudou-se para Recife por motivos de trabalho, como relata o escritor e tradutor americano Benjamim Moser: Era uma atividade comercial, mas bem diferente [...] Ele percorria as ruas dos bairros mais pobres do Recife com um carrinho de mão e anunciava gritando com seu sotaque de estrangeiro e sua voz cansada: “Compa rôpaaaaa, compa rôpaaaaa” [...] Ele adquiria roupas velhas, usadas, e as revendia para comerciantes da cidade [...] até hoje eu guardo aqui no meu ouvido a voz de Clarice imitando o pai [...].112 O trabalho de mascate era intercalado com o de lavrador, mas isso também não era suficiente. A pobreza ainda era marcante, conforme nos relata Nádia Battella Gotlib: “Havia muita pobreza. Era muito pobre, muito pobre. Filha de imigrantes”.113 A vida da família é bem simples; a mãe sofria de paralisia progressiva, doença que a levou a morte em 21 de setembro de 1930, aos 41 anos de idade. Clarice tinha apenas 9 anos. Por volta de 1935 a família deixou Recife e se transferiu para o Rio de Janeiro, para uma casa antiga, no bairro de São Cristóvão, e dali partiu para a Tijuca. Em 1937, Clarice passou a lecionar aulas particulares de português e matemática. 114 No ano de 1939, iniciou o curso de Direito na Universidade do Brasil. A iniciativa teve influência dos outros, conforme 110 LISPECTOR, Clarice. “Esclarecimentos – Explicação de uma vez por todas”. Apud MOSER, Benjamim. Clarice, uma biografia. [trad. José Geraldo Couto]. São Paulo: Cosac Naify, 2009. p. 32. 111 Somente no Brasil a família adotou nomes brasileiros, o pai Pinkhas passou a ser chamado de Pedro, a mãe Mania passou a ser chamada de Marieta, sua irmã Leah adotou Elisa e Chaia virou Clarice. Cf. MOSER, Benjamim. Clarice, uma biografia. [trad. José Geraldo Couto]. São Paulo: Cosac Naify, 2009. p. 71. 112 LERNER, Julio. Clarice Lispector, essa desconhecida. São Paulo: Via Lattera, 2007, p. 44-45; “Compaaaaa rôpaaaaa”, entrevista com Olga Borelli. Apud MOSER, Benjamim. Clarice, uma biografia. [trad. José Geraldo Couto]. São Paulo: Cosac Naify, 2009. p. 27. 113 LISPECTOR, Clarice. Entrevista, MIS-RJ, 20 out. 1976. Apud GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: uma vida que se conta. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2011 p. 59. 114 GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: uma vida que se conta. Op.cit. p. 146. 47 ela mesma nos conta: “Quando eu era pequena, eu era muito reivindicadora de direitos [...] Então, me diziam: ela vai ser advogada. Então isso ficou na cabeça. E como não tinha orientação de espécie nenhuma sobre o que estudar, eu fui estudar advocacia”. 115 Com a morte do pai em 26 de agosto de 1940, aos 55 anos de idade, Clarice passou a morar com a irmã Tania, que já era casada. No mesmo ano, Clarice iniciou a carreira de jornalista. Em 1941, começou seu namoro com Maury Gurgel Valente que, mais tarde, em 1943, se tornaria seu marido. Naquele mesmo ano, Clarice lançou o primeiro romance chamado Perto do Coração Selvagem116. No ano seguinte (1944), a obra faturou o prêmio Graça Aranha como o melhor romance de 1943. Ainda em 1944, seu marido assumiu a função de vice-cônsul na Itália, e ambos foram morar em Nápoles. A obra O Lustre foi publicada em 1945 pela editora Agir, e divulgada no ano seguinte, quando o casal passou a residir na Suíça, mais precisamente na cidade de Berna, onde ficara até 1949. O ano de 1948 foi muito produtivo: Clarice terminara a obra A Cidade Sitiada, após três anos de trabalho. Ela escreveu também outros contos como: Laços de Família, Mistério em São Cristóvão e O crime do professor de matemática. No mesmo ano, o dia 10 de setembro torna-se uma data marcante para ela, pois nasce seu primeiro filho, Pedro. O retorno ao Brasil ocorreu no ano de 1950, mas logo Clarice retorna ao continente europeu, mais precisamente na Inglaterra, onde permanece por seis meses. Dois anos depois a família muda-se para Chevy Chase, cidade próxima a Washington, nos Estados Unidos, onde nasce seu segundo filho, Paulo (10 de fevereiro de 1953). O ano de 1959 é marcado pela separação do casal e pela volta de Clarice ao Brasil com os dois filhos, porém, a oficialização da separação conjugal só ocorrerá em 1964, mesmo ano que é publicada a novela A paixão segundo G. H. que, no ano seguinte, ganhará ensaios críticos de Benedito Nunes, José Américo Mota, entre outros.117 Sua primeira obra a virar peça de teatro será Perto do Coração Selvagem, exibida no teatro Maison de France, no Rio de Janeiro. 115 LISPECTOR, Clarice. entrevista concedida ao Museu da Imagem e do Som, Rio de Janeiro, em 20 out, 1976. Apud GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: uma vida que se conta. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2011 p.164. 116 Ibidem. p. 613. 117 Ibidem. p. 623. 48 O dia 14 de setembro de 1966 foi marcado por um fato trágico. Um incêndio no apartamento da autora lhe causou sérias queimaduras, sobretudo na mão direita. Após dois anos do incêndio suas queimaduras ainda lhe causavam problemas, mas estes não a impedem de continuar seu trabalho. No ano de 1976, a amiga Olga Borelli ajudou Clarice a reunir e datilografar as notas da obra A hora da estrela. Olga escreveu também notas de outras obras como Um sopro de vida e os contos A Bela e a Fera e Um dia a menos.118 Em 1977, Clarice é entrevistada na TV Cultura por Júlio Lerner, com a condição de que a entrevista fosse exibida somente depois de sua morte. A novela A hora da estrela foi publicada em novembro, mesmo mês em que Clarice obteve diagnóstico de um câncer no útero, doença que a levaria à morte um mês depois, no dia 9. Clarice foi sepultada no dia 11 de dezembro no cemitério Comunal Israelita, no Rio de Janeiro. 2. Entre o biográfico e o literário: a relação da escrita com a vida A relação entre o biográfico e o literário é frequentemente apresentada pelos comentadores e críticos de Clarice. Segundo estes, ela “reivindica para si, constantemente, tudo o que experimenta no plano literário, atribuindo este, por sua vez, tudo o que experimenta no biográfico”.119 Logo, a sua escrita está diretamente ligada a sua vida, assumindo o papel de filósofa e/ou simplesmente alguém que deseja aprofundar-se na vida por meio das palavras. Para muitos estudiosos, essa procura pelo sentido da vida está radicada na fé judaica, que busca o real sentido da sua existência nas suas origens. Muitos estudiosos da obra clariceana têm apontado, em diversas ocasiões, as fortes marcas da tradição judaica em seus romances e contos. Talvez influenciados pela própria origem judaica da escritora. [...] A insistência na temática das origens, dos rituais de passagem, da busca, dos desencontros, da revelação de uma verdade, de uma esperança constante, do destino, etc. são algumas características da escritura clariceana que podem remeter às tradições judaicas.120 Nesta busca das origens por meio das palavras, Clarice faz referência à tradição judaico-cristã, que tem como fonte da sua fé a Revelação. Entende-se essa Revelação como percepção; o ser humano capta na sua história aquilo que Deus lhe apresenta; esse aspecto 118 GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: uma vida que se conta. Op.cit. p. 627. KANAAN, Dany Al-Behy. À escuta de Clarice Lispector... Op.cit. p. 19. 120 Ibidem. p. 20-21. 119 49 deriva da escuta atenta da vida. É isso que a linguagem clariceana faz, ela exige do leitor um momento de escuta para poder captar a vida e, assim, nesta nova percepção de caráter revelador, ele, o leitor, poderá interagir com a sua realidade. Pois bem, na obra clariceana, segundo minha leitura, há uma ênfase bastante grande na relação oral versus [grifo do autor] escrito, cujo sentido mantém semelhança com a tradição bíblica. A conversão dos fiéis, a fé, a cura, no contexto bíblico são devidos à escuta da palavra divina e, antes disso, a criação, no Gênesis, se dá pela palavra dita. Na obra clariceana, a palavra escrita assume caráter fundamental, semelhante ao bíblico, de criação e transformação. Portanto, Clarice reivindicará em relação ao seu texto, não uma leitura pura e simples, mas uma escuta, querendo marcar com isso um efeito particular, o da transformação gerada pela palavra, a qual se concretiza, não apenas na escrita, mas sobretudo na fala, ou seja, na palavra dita e escutada.121 A literatura para Clarice é um meio privilegiado de comunicação. Nela, a autora procura, pela linguagem metafórica, captar algo sublime; as palavras seriam um jogo inacabado que remete o leitor a outros horizontes. Para Dany Al-Behy Kanaan, esta procura está relacionada com a caminhada dos israelitas rumo a terra prometida, também ali um caminho de buscas e intensas descobertas do sentido da vida. “Clarice foi testemunha de vários êxodos, para além daquele de seus pais, aqueles que ela viveu ao lado do marido, diplomata de carreira, nas constantes mudanças [...]”.122 Como judia, Clarice sabe muito bem o significado do Êxodo, a libertação não só de um povo, mas de toda humanidade e seus escritos remetem a essa libertação, a esse sentido de busca de liberdade. Gradativamente, a narrativa de Clarice assume uma nuance libertadora diante do leitor, ajudando-o a sair de suas possíveis alienações. Assim sendo, a narrativa clariceana será o resgate da história de ambos, autora e leitor. Ressalta-se que o fato de Clarice ser judia não significa que em sua obra se encontrarão elementos do judaísmo, como sinagogas ou templos. É exatamente no não dito, fora dos lugares comuns, que se percebe a literatura da fugitiva-estrangeira, que está em constante movimento, que deseja encontrar o significado do seu nome: vida. Portanto, à medida que se mergulha no texto se encontram os traços da trama da vida da autora. 121 122 KANAAN, Dany Al-Behy. À escuta de Clarice Lispector... Op.cit. p. 22-23. Ibidem. p. 36. 50 Há autores em relação aos quais os dados da vida entremeiam com a obra, compondo um único objeto. Para Clarice Lispector, no entanto, o fato importante, o acontecimento maior foi certamente o texto. Nele e a partir dele é possível levantar não os seus dias, mas o seu modo de viver os dias. E de morrer.123 3. A literatura nacional moderna e o estilo de Clarice Como seu texto, que instiga o leitor a iniciar um processo de rupturas com os padrões convencionais, também a tessitura clariceana representa uma inovação no País, capaz de sacudir os padrões conformistas e arcaicos da literatura da época. “O surgimento de Clarice Lispector (1920-77) no cenário literário brasileiro dos anos 40 representou um verdadeiro choque para críticos e leitores da época”.124 A primeira obra de Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem, significou uma enorme transformação na literatura nacional, que até então era marcada pelo regionalismo 125, que geralmente procurava retratar as injustiças ocorridas no Brasil, em especial no Nordeste, conforme o apontamento de Márcia Lígia Guidin: “Num segundo momento do nosso modernismo, a literatura brasileira tratava principalmente das relações do homem com a seca e com a miséria. Denunciavam-se as relações de favor e o coronelismo”. 126 O festejado romance regionalista (cf. Pécaut, 1990) era, para a intelectualidade brasileira, um instrumento preciso de conhecimento do país. [...] Mostrava-se um indivíduo inserido numa coletividade e as estruturas familiares e de compadrio. Revelar a realidade social do país era a palavra de ordem para os intelectuais, vistos como poderosos interventores políticos. Jorge Amado em 1934 afirmava que nenhum autor poderia subtrair-se ao engajamento (idem, p. 85).127 123 MOISÉS, Massaud. p. 17. Apud SILVA, Evandro César Cantaria da. O judaísmo encalacrado: mística e religião em A hora da estrela. 2006. 146 p. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) Universidade Metodista de São Paulo, São Paulo. p. 25. 124 ROSENBAUM. Yudith. Folha Explica: Clarice Lispector. São Paulo: Publifolha, 2002, p. 8. 125 Ressalta-se que esta revolução não é obra apenas de Clarice Lispector. Na verdade estava em andamento uma verdadeira revolução artística que tinha como base inúmeras propostas estéticas. Estas propostas estéticas afetaram vários campos da arte como: arquitetura, pintura, publicidade, música, etc.. Cf. VIEIRA, Telma Maria. Clarice Lispector: uma leitura instigante. 1996. 122 p. Dissertação (Mestrado: Comunicação e Semiótica), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. p. 15-16. 126 GUIDIN. Márcia Lígia. A Hora da Estrela: Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1994. p. 13. 127 Ibidem. p. 13. 51 A inovação produzida por Clarice está relacionada à estrutura da narrativa. A narrativa clariceana é descontinuada, fragmentada128, enquanto o modelo literário vigente no Brasil, denominado regionalista, usava das palavras direcionadas diretamente aos fatos e à denúncia. 129 Evidencia-se o “embate” entre estes dois modelos de usar a linguagem. “É nesse cenário que a obra de estreia de Clarice Lispector desestabiliza as referências romanescas instituídas, tais como o descritivismo de cenários e tipos humanos e o viés determinista e fatalista ainda impregnante”.130 3.1 Clarice e a crítica131 Uma das primeiras vozes da crítica a saudar a obra de Clarice foi Antonio Candido. Em 1944, ele analisa Perto do Coração Selvagem, e destaca a rara capacidade de vida interior da autora. O renomado crítico continua sua avaliação salientando que Clarice não caminha por terreno batido; sua escrita é uma aventura, num ritmo diferente, em que por meio da linguagem a autora apresenta a sua visão de mundo. Segundo o crítico, a escrita de Clarice Lispector faz da descoberta do cotidiano uma profunda aventura. Outra crítica importante foi elaborada por Sérgio Milliet no seu diário crítico, volume II, datado de 15 de janeiro de 1944. Sérgio reage de maneira positiva à estreia de Clarice. Mais que isso, ele não contém a surpresa e comemora a descoberta assinalando: Raramente tem o crítico a alegria da descoberta (...) Quando porém o autor é novo há sempre um minuto de curiosidade intensa – o crítico abre o livro com vontade de achar bom, lê uma página, lê outra, desanima, faz nova tentativa, mas qual! As descobertas são raras mesmo. Pois desta feita fiz uma que me enche de satisfação.132 128 Para Dany Al-Behy Kanaan este romper de Clarice com o modelo regionalista refere-se à inserção da autora no contexto social em que ela vive, marcado por uma sociedade fragmentada, dado característico da sociedade moderna. Cf. KANAAN, Dany Al-Behy. À escuta de Clarice Lispector: Entre o biográfico e o literário: uma ficção possível. São Paulo: EDUC, 2003. p. 60. 129 ROSENBAUM. Yudith. Folha Explica: Clarice Lispector. Op.cit. p. 19. 130 Ibidem. p. 19. 131 Esta pesquisa não tem a intenção de fazer uma análise da crítica sobre Clarice Lispector. Por ser uma pesquisa teológica em diálogo com a obra A hora da estrela deixar-se-á a questão técnica e crítica àqueles que são mais competentes nesta área. Ao trabalhar de forma singela a questão sobre a relação da crítica e a autora, não se tem aqui a preocupação de resgatar as discussões e divergências da crítica literária. O objetivo deste tópico é o de apontar a mobilização da crítica diante de uma autora singular no plano da linguagem. 132 MILLIET, Sérgio. Diário crítico (1944). Apud SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Petrópolis-RJ; Lorena-SP: Vozes e Faculdades Integradas Tereza D´Ávila (FATEA), 1979. p. 24. 52 Sérgio ainda destaca o imprevisto chocante do sentido das palavras da autora, que tem como objetivo levar o leitor a compreender melhor as reações das personagens. Ele aponta o estilo de Clarice como um desmaio ou êxtase. Porém, para Sérgio, na obra A Cidade Sitiada de 1949, a autora se perde nos ornamentos, dificultando o entendimento da obra. Mas este apontamento não o faz mudar de opinião sobre a escritora. Pelo contrário, como nos mostra mais esse elogio: Apesar disso, reafirma ser Clarice Lispector uma escritora de grande talento, cujo estilo se desdobra a serviço de um temperamento feito de curiosidade sensual e de sensibilidade angustiada [...] Sua inteligência não analisa, não observa, apenas exprime, em imagens inesperadas e sutis, aquilo que os sentidos apreendem. 133 Para Sérgio, a técnica de Clarice é como um grito de café fresco. Ele se refere ao grito como algo repentino feito o cheiro do café, numa analogia à arte de viver de Clarice. Trata-se de imagens alicerçadas na linguagem que buscam atingir o profundo do ser humano. O crítico Álvaro Lins também não economiza elogios à autora. Em seu entender, a literatura clariceana é lírica e pertencente à tradição de Joyce ou de Virginia Woolf.134 Álvaro Lins assim define a literatura de Clarice devido o seu entendimento sobre o lirismo como uma apresentação da realidade, por meio do sonho: “[...] realidade não fica escondida ou sufocada, porém é levada para os seus planos mais profundos, mais originais, nas fronteiras entre o que existiu de fato e o que existiu pela imaginação”.135 Álvaro entende que Clarice rejeita a forma tradicional do romance, mas alia esse estilo de escrever à jovialidade da autora, apostando que, com o passar dos anos, sua escrita irá amadurecer. Gilda de Mello e Souza percebe que Clarice apresenta a sua visão do mundo por meio do mito. De acordo com Olga de Sá, ela parte dos limites dos gêneros literários regidos por certas normas estéticas. Por isso, ela não é adepta do empréstimo de um gênero ao outro, no caso do barroco, em relação ao requinte. Já para Sérgio Buarque de Holanda existe uma aproximação entre Oswald e Clarice. Ele os coloca como renovadores do romance 133 MILLIET, Sérgio. Diário crítico (1944). Apud SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Petrópolis-RJ; Lorena-SP: Vozes e Faculdades Integradas Tereza D´Ávila (FATEA), 1979. p. 26-27. 134 SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Petrópolis-RJ: Vozes; Lorena-SP: Faculdades Integradas Tereza D´Ávila (FATEA), 1979. p. 29. 135 LINS, Álvaro. A experiência incompleta: Clarice Lispector. In: Os mortos de sobrecasaca: ensaios e estudos (1940-1960). RJ, Civilização Brasileira, 1963, p. 188. Apud SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Petrópolis-RJ; Lorena-SP: Vozes; Faculdades Integradas Tereza D´Ávila (FATEA), 1979. p. 29. 53 contemporâneo brasileiro, reconhecendo a capacidade (e a coragem) de Clarice em romper com o regionalismo dos anos 30. Para Sérgio Buarque de Holanda, superar as paisagens exteriores apresentadas pelo romance nacional em busca da paisagem interior é buscar cenários e recantos novos.136 Assis Brasil, num artigo denominado A volta de Clarice, de 1960, aponta para o fato de a autora ser desconhecida do público brasileiro exatamente por escrever de maneira nova: Clarice Lispector é ainda, praticamente, um nome desconhecido do público ledor [sic] brasileiro. Não só por ter passado quase dez anos sem publicar livro, como e principalmente, por ter surgido em 1944 (“Perto do Coração Selvagem”) com algo novo em nossas letras, concebendo um romance que quebrava (e ainda hoje está em primeiro plano) todos os padrões conformistas de nosso sempre velho e bolorento romance. 137 Clarice ao utilizar o seu método apresenta um processo descontínuo. Esta descontinuidade e fragmentação será espaço necessário para que o leitor possa fazer novas descobertas, ou seja, as suas descobertas. Há uma citação de Goethe, inaugurando o capítulo “Por que reescrevemos continuamente a história?”, na obra de Adam Schaff História e Verdade, que nos alerta para o fato de que: Nos nossos dias, já ninguém duvida de que a história do mundo deve ser reescrita de tempos a tempos. Esta necessidade não decorre, contudo, da descoberta de numerosos fatos então desconhecidos, mas do nascimento de opiniões novas, do fato de que o companheiro do tempo que corre para a foz chega a pontos de vista de onde pode deitar um olhar novo sobre o passado [...].138 A história, portanto, deve ser olhada como algo que poderia ter sido, e não uma verdade absoluta, logo, o texto literário, por ser rico em simbolismo, toca a realidade, fazendo a comunicação do convencional e a projeção de algo maior. Para alcançar este objetivo, Massaud Moisés aponta o tempo como fator determinante: Na verdade, Clarice Lispector representa na atualidade literária brasileira (e mesmo portuguesa) a ficcionista do tempo por excelência: para ela a grande preocupação do romance (e do texto) reside no criar o tempo, criá-lo 136 SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Op.cit. p. 33. SOUZA, Carlos Mendes de. Clarice Lispector: Figuras da escrita. Braga: Universidade de Minho/Centro de Estudos Humanísticos. 2000. p. 74. 138 SCHAFF, Adam. História e Verdade, p. 219. Apud KADOTA, Neiva Pitta. A Tessitura Dissimilada: O social em Clarice Lispector. 2. ed. São Paulo: Editora Liberdade, 1999. p. 25. 137 54 aglutinado às personagens: Por isso correspondem suas narrativas e reconstrução do mundo não em termos de espaço mas do tempo, como se, apreendendo o fluxo temporal, elas pudessem surpreender a face oculta e imutável da humanidade e da paisagem circundante.139 Percebe-se que a literatura brasileira até Clarice, embora rica e com brilhantes escritores, não havia ainda explorado a expressão literária e o uso linguístico como ela. Conforme ressalta Olga de Sá: Clarice “retorna aquela linguagem de invenção, dos raros que fizeram (exploração das palavras), como Oswald e Mário; daí a surpresa que provoca”.140 Verifica-se que a obra de Clarice busca fazer da ficção uma forma de conhecer o mundo, por meio da expressão, agindo sobre a língua como instrumento, criando imagens e associações incomuns. Nesse (romance de aproximações) ela cria uma rara tensão psicológica, que se reflete numa espécie de tensão linguística: vocábulos que perdem o sentido comum e ganham expressão sutil [...] o que leva Antonio Candido afirmar que as palavras do texto se transformam em valores e não somente 141 sons e sinais. Eduardo Portella, em um dos seus artigos, entende que o estilo de Clarice apresenta a complexa intimidade humana; seu estilo é capaz de criar sensações derivadas da intensa carga emocional que se encontram em seus vocábulos, simbolizando um novo estágio da cultura brasileira.142 4. A escritura clariceana A escritura de Clarice tem o desejo de descrever o “instante-já”, trata-se de revelar, por meio das palavras, a vida escondida no cotidiano. Deste modo, a linguagem será a ferramenta utilizada pela autora para esta revelação, pois, por meio da linguagem, o homem se revela ao mundo. Destarte, a narrativa clariceana convida o leitor a ultrapassar a passividade em busca de uma profunda conexão de sua existência com a obra. 139 MOISÉS, Massaud. A criação literária. São Paulo: Melhoramentos, 1967. p. 192. Apud SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Petrópolis: Vozes; Lorena: Faculdades Integradas Tereza D’Ávila (FATEA), 1979. p 190. 140 SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Op.cit. p 102. 141 Ibidem. p. 103. 142 Ibidem. p. 42. 55 Segundo Evando Nascimento, na obra Clarice Lispector: uma leitura pensante, a autora, pela ficcionalização da palavra, procura criar uma inquietante estranheza 143; trata-se de um momento desestabilizador que questiona o leitor. Este questionamento pode ser erigido por símbolos, como a utilização de animais, criando uma verdadeira experiência de afetamento. A radicalidade dessa experiência está no estranhamento de si mesmo que acontece de maneira não calculada. Se cálculo houvesse, ainda se estaria no reino da razão pura, da ratio, do lógos [grifo do autor], da simples lógica, e a experiência descambaria num “exotismo mental”, nada diferente de tantos outros inventados pelas outras escolas literárias, cujo exemplo mais esclarecedor seria o panteísmo simbolista.144 Esta relação de transformação profunda pode ser percebida na obra A hora da estrela, quando o narrador Rodrigo S.M apresenta a sua relação com a personagem nordestina. O texto relata Macabéa olhando-se no espelho e num instante (num rufar de tambor) acontece uma troca, pois o rosto que aparece no espelho não é mais de Macabéa e sim do narrador. 145 Esta intertroca narrador/personagem, segundo Evando Nascimento, indica um tornar-se outro. Este poder de acometer o leitor causado pelo texto clariceano tem como uma das características básicas a metalinguagem. Entende-se a metalinguagem como exploração da palavra que provoca surpresa, conforme relata Olga de Sá: 1°) fazer da ficção uma forma de conhecimento do mundo e das idéias; e com isso, entregando-se a uma aventura da expressão, 2°) tentar agir sobre a língua, como instrumento, para chegar a esses domínios pouco explorados da mente. Clarice corre o risco da aposta, não se resigna à rotina. Seu tom é mais ou menos raro. Cria “imagens novas”, “novos torneios”, associações incomuns. Sua meta é penetrar no mistério acerca do homem. Se não o consegue inteiramente ainda, como ajuíza o crítico, o timbre de Perto do Coração Selvagem [grifo do autor] é das obras de exceção. 146 143 NASCIMENTO, Evando. Clarice Lispector: uma leitura pensante. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. p. 26. (Coleção Contemporânea). 144 Ibidem. p. 32. 145 LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 28. Doravante a obra A hora da estrela será citada com a sigla HE. 146 SÁ, Olga de. A Escritura de Clarice Lispector. Op.cit. p 130. 56 4.1 A escritura epifânica Com objetivo de compreender e aprofundar a obra de Clarice Lispector, seus críticos e teóricos usaram o termo epifania. Entende-se este termo como uma revelação por meio da escritura, em que algo cotidiano inesperadamente propicia uma nova visão da vida. Segundo Luciana Stegagno Picchio, no seu artigo Epifania de Clarice, publicado na revista Remate de Males, esta força epifânica é tamanha que tem o poder de pegar “como uma droga, uma súbita alegria no corpo todo, por simpatia, sintonia, revelação”.147 Destaca-se que o termo epifania não aparece explicitamente na obra de Clarice. Olga de Sá, na sua renomada obra A escritura de Clarice Lispector, apresenta a pertinência deste termo em relação à escrita clariceana148. Olga faz uma ponte entre a obra de Joyce e de Clarice: “Clarice privilegia este momento da obra de Joyce na sua própria inauguração como romancista. Jamais usa o termo epifania e se tem consciência deste processo, não o demonstra explicitamente”.149 A palavra epifania pode ser assim definida: epiphanéia (manifestação, aparição), do grego epi= sobre; phaino= aparecer, brilhar. Esta definição sobre epifania possui duas possibilidades de interpretação, uma religiosa e outra literária. A interpretação religiosa define epifania como uma aparição ou manifestação do divino. Percebe-se esta relação do sentido religioso na festa cristã da epifania. 150 A interpretação literária, por sua vez, apresenta o mesmo conceito de aparição, porém esta aparição é percebida mediante um relato: “relato de uma experiência que a princípio se mostra simples e rotineira, mas que acaba por mostrar toda força de uma inusitada revelação”. 151 Neste sentido, percebe-se uma aproximação entre o termo epifania, em Clarice, e metáfora, em Ricoeur. Para o filósofo, a narrativa deve levar a uma experiência, um modo de habitar e estar no mundo; sua compreensão de metáfora ultrapassa a interpretação tradicional que via nela apenas uma figura dentro do discurso. 147 PICCHIO, Luciana Stegagno. Epifania de Clarice. In REMATE DE MALES, Campinas, (9): p. 17-20, 1989. Olga de Sá apresenta vários exemplos sobre a epifania nos textos clariceanos. Cf. SÁ, Olga de. A Escritura de Clarice Lispector. 3. Ed. Petrópolis- RJ: Vozes, 1979. p. 192-206. 149 SÁ, Olga de. A Escritura de Clarice Lispector. Op.cit. p 194. 150 HOLANDA, 1975, p. 541. Apud MORAES, Rozania Maria Alves de. Epifania e “crise” uma análise comparativa em obras de Clarice Lispector e Marguerite Ruas. <http://periodicos.ufrn.br/index.php/odisseia/article/view/2056/1490> Acesso 29 janeiro 2013, 10:00:20. 151 SANT’ANNA, Afonso Romano de. 1973, p. 187. Apud MORAES, Rozania Maria Alves de. Epifania e “crise” uma análise comparativa em obras de Clarice Lispector e Marguerite Ruas. Disponível em: <http://periodicos.ufrn.br/index.php/odisseia/article/view/2056/1490> Acesso 29 janeiro 2013, 10:00:20. 148 57 Ricoeur entende a metáfora como um poema em miniatura capaz de criar um instante e revelar os sentidos mais profundos da vida humana.152 Evidencia-se que Clarice utiliza os recursos da linguagem para criar uma tensão psicológica. Esta tensão gera um momento imprevisível, capaz de romper com o comum da vida ou com os clichês criados pela sociedade que impedem o equilíbrio do homem moderno justamente por gerar angústias e desconfortos. A crítica brasileira considera o termo epifania como um instante existencial, um retirar o véu; trata-se de uma revelação interior ou um momento explosivo, porém silencioso, um instante interior advindo dessa tensão psicológica. Clarice inaugura uma nova práxis da escrita, e não um conceito novo. Sua práxis deseja exprimir as sensações da vida que serão submetidas às palavras. Antonio Candido relata que o texto em Clarice se transforma em valores, e não somente em sinais, por meio de um processo psicológico. Nesse “romance de aproximação”, ela cria uma rara tensão psicológica, que se reflete numa espécie de tensão lingüística: vocábulos que perdem o sentido comum e ganham uma expressão sutil, de tal forma que a língua adquire o mesmo caráter dramático do enredo. Clarice permite ao leitor respirar uma atmosfera de grandeza [...].153 A escrita clariceana assume uma tentativa de alcançar os espaços secretos do humano, mas o meio para atingir esse espaço será o caos, fazer a experiência da desordem para alcançar a ordem. Neste processo, os seus personagens vivem o caos, a salvação ocorre pelo imaginário que os retira da vida real, o sonho/imaginário será a via para reconhecer a vida real. Verifica-se que a obra clariceana, ao romper com a referência utilizada pelo regionalismo, não assume uma postura alienante, pelo contrário, “ao se despir das marcas de referencialidade, penetra em território simbólico, inaugurando aí a sua realidade”.154 Trata-se de uma nova forma de revelar o mundo e compreender a realidade. Ora, não há em Clarice uma preocupação em envolver o leitor numa trama emocional, atraindo-o mediante um acompanhamento rotineiro fundamentado no “êxtase hipnótico”, para usar uma expressão de Lucrécia D’ Aléssio Ferrara. Clarice força o leitor a dilatar as pupilas para ver melhor, 152 Para um maior aprofundamento confira: RICOEUR, Paul. A metáfora viva. 2. ed. Tradução: Dion Davi Macedo. São Paulo: Loyola, 2000. 153 SÁ, Olga de. A Escritura de Clarice Lispector. Op.cit. p 130. 154 KADOTA, Neiva Pitta. A Tessitura Dissimilada: O social em Clarice Lispector. 2. ed. São Paulo: Editora Liberdade, 1999. p. 26. 58 para identificar com maior nitidez o que se encontra subscrito. “Não é confortável o que te escrevo”, alerta ela, procurando oferecer uma visão singular, insólita da realidade, através de processos desautomatizantes de percepção, que causam estranhamento no leitor e o obrigam a afastar as palavras para descobrir o texto, para liberar seu sentido.155 Este processo de ficcionalização da palavra, utilizado por Clarice, faz com que o leitor se surpreenda com o texto que, por sua vez, flui por meio de “flashes”, ou instantes epifânicos. Esses flashes permitem ao leitor um profundo questionamento sobre a vida, sobre sua realidade, desencadeando uma reflexão sobre seus problemas existenciais e éticos. A escrita de Clarice pode ser considerada uma verdadeira maiêutica socrática, pois realiza no leitor aquilo que a palavra maiêutica significa: um parto. Toda busca em Clarice é feita através do olhar, semelhante a um fotógrafo e sua câmera. Como ele, Clarice cristaliza o instante. Para o fotógrafo, um leve toque e... clic. Um instante do mundo sensível é retido com toda a sua magia no mecanismo da câmera escura. Para o olhar de Clarice, também, em relação à escrita, nem processo de inversão reflexiva da informação ‘luminosa’. Momento único em que a pulsão interior predomina e aquele que escreve fisga um recorte privilegiado do cosmo, e com esse ato se inscreve na leitura desse mundo, eternizando-o, pela mensagem que veicula: a sua mensagem. É o “flash” de Clarice (“epifania”, segundo Olga de Sá), e o seu olhar pleno de significado, cuja omissão das palavras se traduz não só no prazer estético da criação, mas em um registro insólito dos fatos, rarefeitos pela descontinuidade, através de uma pluralização dos significantes. 156 O desejo de compreender a condição humana é extremamente forte na obra de Clarice Lispector. É o ser humano que está no centro de suas interrogações. É esse ser tão estudado e tão pouco conhecido que a escritora obriga a se reconstruir para reencontrar em si mesmo o humano do homem, o coração que, com dor e sofrimento, se aprofunda em si próprio: o ser dentro do ser. 157 Para realizar o seu intento, Lispector utiliza de ferramentas como o silêncio. 4.2 O silêncio A escrita de Clarice é uma busca de exprimir o inexprimível, feito somente realizado por meio do silêncio. O silêncio passa a ser compreendido como um processo de comunicação 155 BATHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética, p.94. Apud KADOTA, Neiva Pitta. A Tessitura Dissimilada: O social em Clarice Lispector. 2. ed. São Paulo: Editora Liberdade, 1999. p. 34. 156 KADOTA, Neiva Pitta. A Tessitura Dissimilada... Op.cit. p. 41. 157 SÁ, Olga de. A Escritura de Clarice Lispector. Op.cit. p. 212. 59 sem palavras, como a própria autora aponta: “Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio”.158 Este momento de iluminação interior (epifania) do leitor é potencializado pelo silêncio de Clarice. A própria Clarice alerta o seu leitor: “Ouve-me, ouve meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa... Lê a energia que está no meu silêncio”. 159 Percebe-se que o texto clariceano é um complexo de signos que aguardam um leitor atento. O silêncio na escrita clariceana não significa ausência e vazio, pelo contrário, é uma ação intensa capaz de afetar a imanência do leitor, provocando uma reação do mesmo diante da existência. É preciso despertar no leitor o interesse pelo que se encontra atrás da névoa cortina de palavras, é preciso fazê-lo descobrir o prazer da descoberta e, assim, o prazer do texto, de que fala Barthes; o prazer do jogo, onde o leitor é o “comparsa” no dizer de Antonio Candido, ou o “parceiro”, na expressão de Julio Cortázar.160 4.3 O grotesco A exploração da linguagem utilizada por Clarice é edificada por meio de várias técnicas. Uma das técnicas utilizadas por Clarice com o objetivo de criar este “instante já” é o grotesco. Ressalta-se que o grotesco é uma constante que atravessa toda a obra de Clarice Lispector, consolidando-se como uma chave para a interpretação de seu imaginário particular. Na obra A paixão segundo G.H. (1964), nota-se claramente esse processo de surpresa causado pela metalinguagem. A obra relata uma personagem que vive num mundo organizado, embora este mundo não fosse tão bom. Observa-se que, ao deparar-se com uma barata, a vida desta personagem não será mais a mesma. Ocorreu uma experiência marcante que levou a protagonista a perceber que perdeu sua terceira perna; sua vida fora afetada, desinstalando-a do comodismo e desorganizando-a. Entende-se o grotesco como um momento imprevisível e indesejado. Segundo Olga de Sá: “As representações do grotesco no mundo moderno constituem a oposição mais ruidosa e 158 HE, p. 16-17. AV, p 33. 160 KADOTA, Neiva Pitta. A Tessitura Dissimilada... Op.cit. p. 44. 159 60 evidente a toda espécie de racionalismo e a qualquer sistema de pensar. Nesse contexto, podemos situar, talvez, o grotesco que aparece na ficção de Clarice”. 161 5. O social em Clarice Embora a obra de Clarice esteja voltada para a linguagem que, por sua vez, é fragmentada e desarticulada, ela está ancorada na realidade. A escrita clariceana fundada na ficcionalização da palavra possibilita ao leitor se deparar com um processo de rupturas com os padrões convencionais. Segundo Neiva Pitta Kadota, o fato de a narrativa clariceana ser fragmentada acabou provocando em alguns de seus leitores e críticos a ideia de que a autora seria subjetiva e intimista. Para Neiva, esta classificação da obra de Clarice é inadequada. Segundo ela, Clarice toca as questões sociais por meio das palavras ficcionalizadas: É o que aqui se pretende mostrar de Clarice Lispector: uma postura consciente, de reflexão contínua, embora muitas vezes dissimulada em sua representação sígnica, alicerçada na linguagem poética e/ou paradoxal, no fluxo de consciência, que confunde/constrange o leitor pouco habituado a uma narrativa fragmentada que atropela continuamente, acostumado que está ao relato linear e factual [...].162 De acordo com Olga de Sá, Clarice não faz literatura engajada. Deve-se entender engajada como uma escrita que explicitamente trata de justiça social ou de lutas de classes. Como fundamento do seu argumento, Olga cita a própria Clarice: Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior do qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria era “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, por mais que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever.163 Olga classifica a obra A hora da estrela como um conto paralelo (paródia), mas um conto que, por meio da personagem principal (Macabéa), é capaz de fazer uma grande denúncia do contexto social nacional: 161 SÁ, Olga de. Clarice Lispector: A travessia do oposto. São Paulo: Annablume, 1993. p. 99. Ibidem. p. 20. 163 LE, p.149. Apud SÁ, Olga de. Clarice Lispector: A travessia do oposto. São Paulo: Annablume, 1993. p.243. 162 61 A hora da estrela [grifo do autor] é também “um conto paralelo”. A quê? A todos os grupos dominantes. Vivendo na cidade do Rio de Janeiro, num quarto alugado, com “quatro moças balconistas das Lojas Americanas” [grifo do autor], não longe do cais do porto, lugar de marinheiros e prostitutas, Macabéa pertence, socialmente falando, à classe dos marginalizados. Essa marginalização se amplia do social ao existencial. 164 Esta denúncia social apontada por Olga de Sá pode ser dividida em três tipos distintos: 1. A marginalização da mulher, de muitas espécies de mulheres (grifo do autor): as feias, incompetentes, mal cheirosas, órfãs de pai e de mãe, encardidas, raquíticas, tuberculosas, alienadas, desamadas, sonhadoras, esfomeadas, migrantes, cartomantes, datilógrafas, estenógrafas, balconistas, virgens, as que vendem o corpo para comer, as manchadas de “pano”, as infelizes que se ignoram, as que morrem nas sarjetas, as velhas, as donas de casa, as neuróticas, as lascivas, as crianças que têm garra de malícia, as Marias, as Glórias, as Macabéas, as Joanas, as Virgínias, as Lucrécias, as Emerlindas, as Vitórias, as Miss Algrave. 2. A marginalização do homem, de muitos homens (grifo do autor): os médicos de pobre, os valentões, os machistas, ingênuos, exploradores, pequenos ladrões, gringos loiros em Mercedes assassinas, patrões, escritores, maridos chatos, maridos medíocres, hipocondríacos, os “representantes”, os Dr. Lucas, os Olímpicos de Jesus, os Mateus, os Perseus. 3.A marginalização da sociedade, do sistema como aparece no livro (grifo do autor): patrocínio da Coca-Cola à literatura e aos terremotos. Rádio Relógio produzindo hora e cultura de massa, estrelas de cinema provocando sonhos, fitas em tecnicolor em cinema pulguento, doenças diagnosticadas sem tratamento, bairros de mulher-dama e marinheiros, banheiros sujos, pensões alugando vagas para moças, cães com mais comida que gente, sociedade de anúncios, sociedade técnica de gente-parafuso, de fetos jogados embrulhados na lata de lixo. 165 Suzi Frankl Sperber, no seu artigo intitulado Jovem com ferrugem, que trata da obra A hora da estrela, faz as seguintes observações sobre a temática social: “‘Clarice Lispector apresenta a estrutura interna do ser humano – massacrado. Com este processo, aparentemente de pura introspeção e de pura fabulação filosófica, ela questiona o mundo organizado e a cultura dominante, resgatando do preconceito os ofendidos e humilhados’”. 166 Segundo Igor Rossani, a proposta estética de Clarice privilegia o interior em detrimento do exterior. Isso pode dar uma falsa ideia de intimismo. Ele argumenta que o fato de Clarice dar prioridade ao interior não significa que ela não apreenda o momento histórico. 164 SÁ, Olga de. Clarice Lispector: A travessia do oposto. Op.cit. p. 244. Idem. Ibidem. 166 SPERBER, Suzi Frankl, “Jovem com ferrugem”. In Os pobres na literatura Brasileira; Roberto Schwarz. SP, organizador, SP, Brasiliense, 1983, p. 160. Apud SÁ, Olga de. Clarice Lispector: A travessia do oposto. São Paulo: Annablume, 1993. p. 246. 165 62 No entanto, essa situação não passa de um bem articulado jogo de máscaras. Lispector assimila a realidade exterior, introjeta-a e, ao exteriorizá-la – em sentido de retorno −, exprime uma disposição crítica demarcada por forte tônus denunciativo, promovendo, assim, uma releitura do mundo e de si. 167 A obra A hora da estrela possui uma profunda denúncia social. Clarice nos revela esses elementos por meio do seu projeto metalinguístico. Para Ana Aparecida Arguelho de Souza, o processo de desumanização em A hora da estrela caracteriza de forma marcante as personagens, especialmente Macabéa. É por meio dela que Clarice denuncia a alienação da sociedade. A abordagem social também é destacada por Márcia Lígia Guidin. Para ela, a obra defronta a miséria e a desigualdade: “Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam”. 168 A narrativa enfrenta a dura problemática do país nos anos 70, evidencia a contradição da sociedade que, junto com o avanço tecnológico, produz igualmente a miséria humana e social. Eis o que a literatura de Clarice nos traz: em meio à banalidade do cotidiano, a ruptura do tempo histórico, mergulhando numa outra realidade que se eterniza e se repete no gosto doce e amargo das coisas de que somos feitos. Essa experiência - de passeio pelo jardim ou de leitura dessa Clarice - realça a inevitável convivência com a difícil e paradoxal realidade da condição humana.169 A personagem Macabéa é totalmente deslocada, sua vida passa despercebida, e em nenhum momento ela é tratada com dignidade; ela é descartável, pouco importa se está feliz ou triste, se terá ou não futuro. “[...] Macabéa assume mesmo a condição de ‘um parafuso descartável’ em uma ‘sociedade técnica’, como ressalta Ana, parafraseando Clarice em sua leitura”.170 O narrador considera Macabéa como uma pessoa inapta à vida. Ela é o avesso da cultura moderna e fruto de obra burguesa orquestrada que marginaliza as pessoas: 167 ROSSONI, Igor. Zen e a poética auto-reflexiva de Clarice Lispector: uma leitura de vida e como vida. São Paulo: UNESP, 2002. p. 144. 168 HE, p.18. 169 GOTLIB, Nádia B. Clarice: uma vida que se conta. Op.cit. p. 70. 170 SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector: Um estudo social em A hora da estrela. São Paulo: Musa Editora, 2006. p. 12. 63 Há, portanto, em HE uma norma burguesa que define por oposição o que é não ter e não ser. Nem bonita, nem culta, nem inteligente, nem independente financeiramente, nem ligada amorosamente a um homem que a conduzisse e amparasse, Macabéa percorre o romance acumulando camadas descritivas e narrativas dessa negação. Clarice Lispector, que tanto se parece com suas personagens anteriores, se debruça agora sobre a mulher de outra classe e condição para dela extrair uma feminilidade outra, virtualmente desconhecida.171 A obra A hora da estrela, sendo a última obra de Clarice, tratará de uma denúncia clara da alienação que se vivia na época, conforme relata Ana Aparecida Arguelho: E lembrando a teoria de Roland Barthes de que “nenhuma mensagem é ingênua”, podemos concluir que a última obra de Clarice foi também a sua última e talvez mais forte denúncia contra a mudez de alguns e a alienação de muitos, reinante no país à época, conforme desejo e modelo imposto pelo autoritarismo vigente. 172 Clarice trabalha com o cotidiano, com o comum, com a vida que se realiza nos becos, nas vielas, nas cidades, nos jardins, com a vida que passa despercebida, que simplesmente escorre. A sua protagonista é uma das milhares de pessoas que passam despercebidas; aí está a sua sensibilidade: denunciar aquilo que o comum finge que não vê, mas que está presente. É uma personagem que se fixa em nossa memória porque é um paradigma de uma camada social que está muito presente em nosso cotidiano, que continuamente passa por nós, que está nas aglomerações populares, nos agitados centros das grandes metrópoles [...] São personagens de uma cena urbana cuja “história é quase nada”. Figuras que transitam por entre a multidão como sombras espectrais. E nada significam para nós, como nada representavam para um país, na década de 1970 [...].173 Ao utilizar a voz do narrador Rodrigo, constata-se a presença do grito social de Clarice: Esta obra trata das confluências entre o projeto estético de A hora da estrela [grifo do autor], de Clarice Lispector, e a ideologia nela subjacente, que pode ser apreendida por meios dos recursos utilizados na escritura da obra, com os quais a autora põe em pauta a natureza social do Homem. A centralidade do projeto escritural de A hora da estrela [grifo do autor] é o Homem. A marca do humano reside na capacidade de linguagem e consciência do homem. [...] A linguagem de Clarice Lispector, pela voz do narrador Rodrigo, revela sua 171 GUIDIN. Márcia Lígia. A hora da estrela: Clarice Lispector. Op.cit. p. 37. SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector... Op.cit. p. 13. 173 Ibidem. p. 12. 172 64 consciência de escritora sobre o mundo, sobre o homem, sobre a própria linguagem. 174 Portanto, como relato mimético, a obra A hora da estrela acaba sendo uma denúncia da situação social. Trata-se de uma busca da existência por meio da linguagem, em que a autora assume o seu status social de cidadã comprometida com o seu país, com o seu tempo e com a vida. Nesta mesma linha, pode-se relacionar o seu engajamento como participação no projeto do êxodo. Não se trata apenas de relatar o contexto social em que a obra foi escrita, mas busca-se por meio da interação obra-leitor uma alternativa de vida que possibilite a libertação do ser humano massacrado por este modelo cultural. Optar pela denúncia social contida na obra A hora da estrela é uma tentativa de conduzir o ser humano a “novas terras”, terras onde a sua humanidade seja fortalecida. As indagações de Clarice são reveladoras de que escrever é a sua forma de amar e fazer algo pelas pessoas. A hora da estrela [grifo do autor], sua última obra, publicada dois meses antes da sua morte, atesta que esse amor declarado pelos outros amadurece, evoluindo para uma clara tomada de consciência social [...].175 6. A hora da estrela Na sua dedicatória, a obra A hora da estrela apresenta uma informação muito importante: “Esta história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Tratase de livro inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta esta que espero que alguém no mundo ma dê. Vós? É uma história tecnicolor para ter algum luxo, por Deus, que eu também preciso. Amém para nós todos”.176 Clarice apresenta A hora da estrela como uma história tecnicolor, justamente porque quer indicar aos seus leitores os sintomas da sociedade técnica e reprodutiva. Segundo a própria autora, trata-se de uma obra que pretende fisgar o seu leitor: “A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa [...]”.177 A autora busca, por meio da obra, invadir o seu leitor, com o objetivo de fazê-lo perceber a precariedade e a falta do essencial que envolve toda a trama e, em especial, a personagem Macabéa. 174 SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector... Op.cit. p. 15. Ibidem. p. 25. 176 HE, p. 10. 177 HE, p. 11. 175 65 Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geleia trêmula. Será essa história um dia meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada – que cada um reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial. 178 O primeiro personagem a aparecer na obra é o narrador Rodrigo S.M., que se declara um dos mais importantes179, e faz referência a um dos títulos da obra denominado “.Quanto ao futuro.”. Rodrigo ressalta o fato de este título ser precedido por um ponto final e seguido por outro ponto e explica: “Se em vez de ponto fosse seguido por reticências, o título ficaria aberto a possíveis imaginações vossas, porventura até malsãs e sem piedade”.180 Porém, o fato de ser um título fechado (precedido e seguido por ponto final) indica que a vida apresentada nesta obra de calamidade pública não é digna de ser vivida. É preciso dar um ponto final a este viver precário, a esta dor de dente que incomoda o ser humano. Rodrigo S.M., o narrador, insiste na necessidade de romper com a situação vigente e pede para o leitor não ser frio diante da narrativa a ser apresentada: Não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, respira. Material poroso, um dia viverei aqui a vida de uma molécula com o seu estrondo possível de átomos. O que escrevo é mais que uma invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. E dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida [...] Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. 181 O narrador ressalta que está se aquecendo para falar da moça nordestina, mas o material que ele utilizará - “as palavras” - será o mais simples possível. Trata-se de um trabalho de carpintaria com o objetivo de captar e apresentar ao leitor a realidade delicada da vaga existência da jovem. 178 HE, p. 12. HE, p. 13. 180 Idem. Ibidem. 181 Idem. 179 66 [...] limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela. Ela que deveria ter ficado no sertão de Alagoas com vestido de chita e sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha até o terceiro ano primário. Por ser ignorante era obrigada na datilografia a copiar lentamente letra por letra – a tia é que lhe dera um curso ralo de como bater a máquina. E a moça ganhara uma dignidade: era enfim datilógrafa. Embora, ao que parece, não aprovasse na linguagem duas consoantes juntas e copiava a letra linda e redonda do amado chefe a palavra “designar” de modo como em língua falada diria: “desiguinar”.182 O narrador insiste no seu projeto de ir apresentando a vida da personagem principal e nas condições em que ela vai sendo vivida. Se é que se pode chamar este relato de vida. Rodrigo S.M. conta que se a personagem refletisse sobre a sua vida “cairia estatelada e em cheio no chão”.183 Trata-se de uma vida sem atrativo algum à sociedade, ninguém a percebe, não a olham e nem respondem ao seu sorriso. 184 Trata-se de matéria opaca e sem brilho algum. O narrador vai adiando a história e afirma este livro ser uma pergunta. 185 Aos poucos, como que em conta-gotas, o narrador Rodrigo S.M. vai apresentando aspectos da moça nordestina: “Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior e nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando [...]”.186 Evidencia-se que A hora da estrela é uma obra patrocinada pelo refrigerante mais conhecido no mundo com sabor de cola − refrigerante que reflete um “modelo cultural” que segrega as pessoas e as coloca em camadas excludentes. A descrição continua, e Rodrigo vai revelando detalhes da moça enferrujada, de ombros curvos, com distúrbios de tireoide, e com o rosto marcado por manchas disfarçadas por uma grossa camada de pó branco. Raramente a moça tomava banho, por isso é descrita como encardida. Esta descrição até aqui relatada da protagonista de A hora da estrela pode ser confundida com a história de muitos brasileiros. Trata-se de um retrato de ser humano, não um retrato feito pelas modernas lentes, ou pelas lentes de fotógrafos, mas de uma escritora que deseja anunciar o retrato da miséria. 182 HE, p. 15. Idem. Ibidem. 184 HE, p. 16. 185 HE, p. 17. 186 HE, p. 23. 183 67 6.1 Macabéa: o retrato da miséria A jovem Macabéa nascera raquítica e aos dois anos de idade ficou órfã de pai e mãe. Após um longo período, ela se mudou de “lá onde o diabo perdera as botas ”187 para Maceió, e passou a morar com a tia, sua única referência familiar, mas que somente a maltratava. Uma vez se lembrava de coisa esquecida. Por exemplo a tia lhe dando cascudos no alto da cabeça porque o cocuruto de uma cabeça devia ser, imaginava a tia, um ponto vital. [...] A menina não perguntava por que era sempre castigada mas nem tudo se precisa saber e não saber fazia parte importante de sua vida.188 Inexplicavelmente as duas passaram a morar no Rio de Janeiro, e a tia lhe arrumou um emprego. Com o falecimento da tia, Macabéa passou a morar num quarto com quatro moças que trabalhavam como balconistas nas Lojas Americanas. Era um quarto, mas não se trata de um quarto numa casa de família, ou um apartamento, mas de um cortiço, localizado na Rua do Acre, lugar próximo ao cais e junto às prostitutas que serviam aos marinheiros. Era um lugar de ratos gordos e vida imunda. 189 A noite da jovem alagoana era marcada por constante tosse, advinda de um resfriado que perdurava por mais de um ano. Antes de dormir sentia fome e “ficava meio alucinada pensando em coxa de vaca. O remédio então era mastigar papel bem mastigadinho e engolir”.190 Quando dormia ela sonhava que sua tia lhe batia na cabeça. Durante o dia sentia fome e às vezes ela comia um ovo duro. Destaca-se que suas noites não eram apenas marcadas pela solidão. Ela tinha uma constante companhia, era um rádio-relógio emprestado por uma amiga, e que ela escutava todas as madrugadas. [...] ligava bem baixinho para não acordar as outras, ligava invariavelmente para a Rádio Relógio, que dava “hora certa e cultura”, e nenhuma música, só pingava em som de gotas que caem – cada gota de minuto que passava [...] Foi assim que aprendeu que o Imperador Carlos Magno era chamado Carolus.191 187 HE, p. 28. Idem. Ibidem. 189 HE, p. 30. 190 HE, p. 31. 191 HE, p. 37. 188 68 Ao descrever alguns aspectos da jovem nordestina, o narrador não lhe poupa atributos como: Ela é feia, ignorante culturalmente, semianalfabeta, ingênua, virgem e profundamente solitária, ser humano desprovido de relacionamentos sociais, ameaçada constantemente de perder o seu trabalho de datilógrafa devido a sua falta de capacidade. O narrador classifica esta moça como “parafuso descartável” diante de uma sociedade técnica. Ela não era mendiga e nem doente mental, trata-se de um ser humano que pertence a um grupo inumano denominado subclasse “de gente mais perdida de fome”. 192 Como diz Rodrigo, o narrador da história: “ela era incompetente. Incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si mesma” (p. 31). “Vivia de si mesma como se comesse as próprias entranhas [...]”.193 6.2 O encontro com o amor Diante desse quadro miserável apresentado por Rodrigo, surge uma nova luz. A miséria não tira o desejo de viver da jovem alagoana. Um dia esta moça desajeitada e solitária resolve faltar ao emprego, para isso ela inventa uma mentira dizendo ao seu patrão que vai ao dentista arrancar um dente.194 Seu patrão acreditou e, a partir daquele instante, ela fez uma experiência que ainda não havia feito: [...] ela teve pela primeira vez na vida uma coisa a mais preciosa: a solidão. Tinha um quarto só para ela. Mal acreditava que usufruía o espaço. E nem uma palavra era ouvida. Então dançou num ato de absoluta coragem, pois a tia não a entenderia. Dançava e rodopiava porque ao estar sozinha se tornava: l-i-v-r-e! Usufruía de tudo, da arduamente conseguida solidão, do rádio de pilha tocando o mais alto possível, da vastidão do quarto sem as Marias. Arrumou, como pedido de favor, um pouco de café solúvel com a dona dos quartos, e, ainda como favor, pediu-lhe água fervendo, tomou tudo se lambendo e diante do espelho para nada perder de si mesma. Encontrar-se consigo própria era um bem que ela até então não conhecia [...].195 Na tarde deste dia de “folga”, Rodrigo S.M. relata o encontro entre Macabéa e Olímpico de Jesus: “O rapaz e ela se olharam por entre a chuva e se reconheceram como dois 192 HE, p. 30. GUIDIN. Márcia Lígia. A hora da estrela: Clarice Lispector. Op.cit. p. 22. 194 HE, p. 41. 195 HE, p. 42. 193 69 nordestinos, bichos da mesma espécie que se farejam”.196 Olímpico de Jesus era paraibano, trabalhava na área metalúrgica e não tinha casa ou sequer morava de aluguel, na verdade morava de favor numa guarita de um canteiro de obras, que roubava quando podia. Macabéa toda ingênua achava que “formavam um casal de classe na cidade grande: ele metalúrgico, ela datilógrafa”.197 Mas Olímpico sonhava alto, tinha sonhos de grandeza demoníaca, gostava de ver sangue. Trazia consigo o desejo de ser deputado pelo Estado da Paraíba. As poucas conversas entre os dois giravam em torno de carne-de-sol, farinha e rapadura.198 Seus encontros se davam em praças, bares, cafés e foram até ao zoológico. 199 Na verdade, Olímpico não demonstrava nenhuma satisfação em namorar Macabéa; o relacionamento entre os dois era muito ralo. Olímpico, entretanto, conheceu uma colega de trabalho de Macabéa chamada Glória e nesta ele pode perceber possibilidades que não via em Macabéa, possibilidades de ascensão social, afinal de contas Glória era carioca da gema e loira. Olímpico rompe o namoro e começa sair com Glória em busca da sua escalada. Glória possuía no sangue um bom vinho português e também era amaneirada no bamboleio do caminhar por causa do sangue africano escondido. [...] Mas mesmo oxigenada ela era loura, o que significava um degrau a mais para Olímpico. [...] O fato de ser carioca tornava-a pertencente ao ambicionado clã do sul do país. Vendo-a, ele logo adivinhou que, apesar de feia, Glória era bem alimentada. E isso fazia dela material de boa qualidade. 200 6.3 Em busca de um futuro A solidão parece ser a grande companheira da vida de Macabéa. Um dia após ir à casa de Glória e ter tomado um copo de chocolate “[...] de verdade e misturado com leite e muitas espécies de roscas açucaradas, sem falar num pequeno bolo”201, ela começa a passar mal. 196 HE, p. 43. GUIDIN. Márcia Lígia. A Hora da Estrela: Clarice Lispector. Op.cit. p. 23. 198 HE, p. 47. 199 Sobre as conversas entre o casal confira: HE, p. 47-55. 200 HE, p. 59. 201 HE, p. 66. 197 70 “Mas teimosa não vomitou para não desperdiçar o luxo do chocolate”. 202 Seu mal-estar leva a jovem a procurar um médico pela primeira vez, médico de pobre, é claro! Rodrigo ressalt a que o médico detesta a pobreza, por isso, a trata com desdém. Esse médico não tinha objetivo nenhum. A medicina era apenas para ganhar dinheiro e nunca por amor à profissão nem a doentes. Era desatento e achava a pobreza coisa feia. Trabalhava para os pobres detestando lidar com eles. Eles eram para ele o rebotalho de uma sociedade alta à qual também ele pertencia. Sabia que estava desatualizado na medicina e nas novidades clínicas mas para pobre servia [...].203 Após fazer o exame de Raio X e diagnosticar tuberculose, o médico receita um tratamento não convencional frente ao diagnóstico da doença da jovem. Ele receita o bom e velho espaguete, mas não se trata de qualquer espaguete - deveria ser italiano, e o médico lhe diz que não é tão caro. Macabéa não reclamou da pouca atenção a ela dispensada. Ela não tinha consciência de si. Passado o episódio médico, Glória sugere a Macabéa uma visita a uma cartomante chamada Carlota. Ela vai de táxi até o endereço da cartomante, que já fora prostituta e cafetina, ofícios abandonados pelo avanço da idade. Ao chegar ao endereço de madame Carlota, Macabéa foi atendida pela própria cartomante, que a recebeu com muito carinho, um sentimento que a pobre nordestina desconhecia. Macabéa esperou numa sala que a encantou, enquanto saía o cliente anterior. Ela logo foi chamada e madame Carlota mandou-a cortar as cartas com a mão esquerda. A cartomante vê nas cartas uma vida horrível: “[...] Macabeazinha, que vida horrível a sua! Que meu amigo Jesus tenha dó de você, filhinha! Mas que horror!”204 Madame Carlota acertou tudo com relação ao seu passado, ela citou a morte dos seus pais, a separação do seu namorado e anunciou a perda do seu emprego. Mas, Macabéa não terá apenas revelações ruins; há grandes predições para a jovem alagoana. Macabéa! Tenho grandes notícias para lhe dar! Preste atenção, minha flor, porque é da maior importância o que vou lhe dizer. É coisa muito séria e muito alegre: sua vida vai mudar completamente! E digo mais: vai mudar a partir do momento em que você sair da minha casa! Você vai se sentir outra. Fique sabendo, minha florzinha, que até o seu namorado vai voltar e propor casamento, ele está arrependido! E seu chefe vai lhe avisar que pensou melhor e não vai mais lhe despedir!205 202 HE, p. 66. HE, p. 67-68 204 HE, p. 76. 205 Idem. Ibidem. 203 71 Pela primeira vez Macabéa vislumbrou um amanhã. As coisas seriam diferentes, ela teria um marido, o que por si só já seria suficiente para quem vive na solidão, mas sua previsão vai além: um marido rico e estrangeiro. [...] Ele é alourado e tem olhos azuis ou verdes ou castanhos ou pretos. E se não fosse porque você gosta de seu ex-namorado, esse gringo iria namorar com você. Não! Não! Não! Agora estou vendo outra coisa [...] esse estrangeiro parece se chamar Hans, e é ele quem vai casar com você! Ele tem muito dinheiro [...], vai lhe dar muito amor e você, minha enjeitadinha, você vai se vestir com veludo e cetim e até casaco de pele vai ganhar! 206 6.4 A morte da estrela Macabéa sai da casa da cartomante nocauteada, pois pela primeira vez vê que sua vida era miserável. O narrador Rodrigo exibe uma mulher transformada ao dizer: “Macabéa ficou um pouco aturdida sem saber se atravessaria a rua pois sua vida já estava mudada. E mudada por palavras – desde Moisés se sabe que a palavra é divina. Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa”.207 Mas ao dar o passo de descida da calçada para atravessar a rua, Macabéa foi atropelada por um Mercedes-Benz amarelo. Ela bate com a cabeça na quina da calçada e um fio de sangue começou a correr no meio-fio, enquanto algumas pessoas em meio à garoa olhavam a moça agonizando. “Batera com a cara na quina da calçada e ficara caída mansamente voltada para a sarjeta”.208 Macabéa ainda pensa que as predições estavam se realizando ao perceber o carro de luxo; ela vai lutar para viver, encolhe-se como um feto, olhando o capim da sarjeta. Ela morre só e ignorada pelo mundo urbano que não a acolheu. Clarice encerra sua obra apelando ao leitor diante da morte cruel da personagem: “Ela estava enfim livre de si e de nós. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa logo, eu sei porque acabo de morrer com a moça”.209 206 HE, p. 77. HE, p. 79. 208 HE, p. 80. 209 HE, p. 86. 207 72 7. Análise da obra A obra A hora da estrela foi escrita na década de 70, período marcado pela instauração do regime militar. Verifica-se neste regime uma profunda dependência do país em relação ao capital internacional. Ressalta-se que Clarice não pretende santificar ou demonizar o modelo capitalista/tecnicista. A autora simplesmente quer apresentar os efeitos deste modelo sobre o ser humano. A ditadura militar, incentivada pelo mercado internacional, apoia este projeto e não vai tolerar nenhuma oposição, que será rapidamente entendida como comunismo e, por isso, o opositor poderá ser punido com o exílio. O momento é aqui registrado para que fiquem patentes a realidade sangrenta por detrás do ufanismo desenvolvimentista do “milagre brasileiro” e a natureza ideológica desse discurso; Slogans [grifo do autor] do tipo “Esse é um país que vai para frente” ou “Brasil, ame-o ou deixe-o” significaram a morte para aqueles [sic] não acreditaram no futuro “inventado” e o exílio para quem não amou conforme a concepção da ditadura .210 Analisar a obra A hora da estrela não é algo simples. Trata-se de uma busca por meio de um projeto estético com uma latente inquietação social. Para Clarice, escrever é a sua forma de amar e de fazer algo pelas pessoas. Segundo o relato de Waldman Berta, a preocupação social sempre esteve presente na vida de Clarice Lispector: “[...] o fato social teve nela importância maior do que qualquer outro; e que, em Recife, os mocambos foram a sua primeira verdade. ‘Muito antes de sentir arte, senti a beleza profunda da luta’”.211 A hora da estrela proporciona um enredo simples, e com essa simplicidade Clarice faz uma importante denúncia. O título da obra pode dar ao leitor a ideia de que se trata de uma obra charmosa. Entretanto, quando a autora vale-se do método da desconstrução, ela cria no leitor a percepção para uma nova ótica sobre a existência humana. [...] Clarice leva a cabo uma comovente obra sobre o Homem em sua condição social, de vivente de uma sociedade que o alija da sua condição humana. É muito claro que, ao explicitar contradições sociais, o projeto escritural contraria a ideologia vigente que supõe possibilidades de humanização do homem na “sociedade tecnológica”. O termo é utilizado por 210 SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector... Op.cit. p. 32. BERTA, Waldman. Clarice Lsipector: a paixão Segundo C.L. p. 28-36. Apud SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector: Um estudo social em a hora da estrela. Op.cit. p. 25. 211 73 Clarice para falar da relação de Macabéa, sua personagem de proa, com o mundo que habita.212 A autora trata das contradições sociais produzidas pelo modelo cultural denominado tecnicista, que fere a dignidade humana ou nega o próprio humano.213 O nome Macabéa já indica resistência a um modelo cultural.214 Porém percebe-se na jovem alagoana uma profunda incapacidade em resistir. Ela é o avesso da saga bíblica dos irmãos macabeus 215, pois aceita tudo passivamente, não possui forças para lutar, apenas permanece viva. Esta incapacidade em resistir advém das suas poucas referências culturais oriundas do rádiorelógio, que por sua vez representa a cultura de massa industrializada. Trata-se, portanto, de um processo urbano que acelera a degradação do ser humano, conforme relata Kátia Queiroz Alencar citando Ortega y Gasset: Ortega y Gasset, no texto A chegada das Massas [grifo do autor], diz que a divisão da sociedade não é a divisão em classes sociais, mas em classes de homens. A massa sente-se feliz por ser igual a toda gente, pois não atribui valor a si mesmo e não exige nada de si. Portanto, para a “massa ou maioria” há uma consciência de desejos, ideias e modos de vida nos indivíduos que as constituem [...].216 A diferença entre Macabéa e os macabeus aumenta à medida que eles (os macabeus) se deixavam guiar por sua fé, já Macabéa faz parte de uma sociedade na qual os valores estão 212 BERTA, Waldman. Clarice Lsipector: a paixão Segundo C.L. p. 28-36. Apud SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector: Um estudo social em a hora da estrela. Op.cit. p. 27. 213 A sociedade moderna apesar de tantos avanços em vários setores apresenta um alto índice de pessoas excluídas ou incluídas indevidamente. Esta exclusão pode ser verificada em várias áreas da vida humana como: trabalho, saúde, educação, alimentação, moradia e etc.. Verifica-se na exclusão social a exclusão da dignidade humana, e esta exclusão constrói uma enorme massa de pessoas descartáveis. Este empobrecimento globalizado perceptível na vida da maioria das pessoas do planeta faz com que muitos vivam, ou melhor, teimem em viver em condições de vida inferiores ao mínimo necessário. Ressalta-se que a denúncia feita por Clarice é pertinente, pois este modelo capitalista tecnicista possui unicamente a lógica do lucro, deslocando a sociedade do eixo da alteridade para o eixo da individualidade. Este modelo consumista globalizado acaba sendo um verdadeiro ídolo que consome os seres humanos mais enfraquecidos. Trata-se do sacrifício exigido pelo sistema neoliberal para alimentar as suas próprias veias. Cf. SELLA. Adriano. Globalização neoliberal e exclusão social: alternativas...? são possíveis! 2. ed. São Paulo: Paulus, 2003. (Coleção Temas da atualidade). 214 O nome Macabeu em grego (makkabaios) significa martelo. O livro de 1º Macabeus faz referência a uma oposição do povo hebreu frente ao rei Antíoco Epifanes. Os macabeus são o símbolo da resistência de um povo ao helenismo trazido por Antíoco que tinha como foco a dominação cultural por meio da força militar, pela política e religião. Resistir significava manter a sua identidade própria. Cf. McKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1983. p. 564. 215 A obra A hora da estrela é uma adaptação da história dos macabeus ao mundo contemporâneo representado pela cidade do Rio de Janeiro. Cf. VIEIRA, Nelson H. A expressão judaica na obra de Clarice Lispector. In REMATE DE MALES, Campinas, (9), p. 207-209, 1989. Disponível em: <http://scholar.google.com.br/scholar?start=80&q=clarice+lispector&hl=pt-BR&as_sdt=0> Acesso em: 29 janeiro 2013, 09:36:15. 216 ALENCAR, Kátya Queiroz. A hora da estrela e a indústria cultural: o despertar das massas. Disponível em: <http://www.ufjf.br/darandina/files/2010/01/Katya-Queiroz-Alencar.pdf> Acesso em: 24 janeiro 2012, 17:20:10. 74 direcionados à escolha de cada um e de todos. Neste sentido, o nome Macabéa se afasta do conceito de resistência aproximando-se do termo vítima, conforme a exposição de Karl-Josef Kuschel: “A palavra ‘macabro’ vem do francês ‘macabre’, que por sua vez remonta à história bíblica dos irmãos macabeus [...]. Por isso, o macabro sempre tem algo a ver com a morte, significa o horrível e o sombrio, o horripilante e o deprimente”. 217 Segundo o pensamento de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, na obra A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada, esta sociedade voltada para a técnica/consumo é responsável pela universalização da cultura mercantil, ou seja, uma cultura dominada pelo mercado capaz de afrontar violentamente o ser humano. “Com a cultura-mundo, dissemina-se em todo o globo a cultura da tecnociência, do mercado, do indivíduo, das mídias, do consumo; e, com ela, uma infinidade de novos problemas que põem em jogo questões [...] existenciais (identidade, crenças, crise de sentidos, distúrbios da personalidade...)”.218 Verifica-se neste modelo cultural uma profunda apatia com relação ao sofrimento alheio, trata-se de um mundo sem alma onde o dinheiro impera sobre qualquer outra aspiração humana. 219 Portanto, Macabéa representa o inverso da cultura da técnica, da especialização e do consumo. Segundo Ana Arguelho, a obra A hora da estrela exibe uma vida primária: [...] Todo o livro é um traçado sinuoso dessa “vida primária, que respira, respira, respira” e essa corporeidade vai nos tirando o fôlego devagar e nos deixando em suspenso, com um grito calado na garganta e uma dor funda no peito. É assim que Clarice tece a contraideologia, sem piedade, nem da personagem, nem do leitor. A obra não apenas expõe, de forma contundente e dramática, a condição social de uma das tantas nordestinas pobres que “andam por aí aos montes”. Mais do que isso, A hora da estrela [grifo do autor], a julgar pelo estado de emergência em que é tecida, e pela forma como atinge a natureza social do homem, pode ser a história da própria autora e de todos nós, a história do homem em um mundo que barbariza e expõe a situações de miséria [...] Trazendo ao centro do espetáculo uma personagem do quilate de Macabéa. Clarice instaura a contradição quando derruba por terra a concepção de homem difundida pela burguesia [...].220 217 KUSCHEL, Karl-Josef. Sobre a força destrutiva e libertadora do riso: Aspectos antropológicos e teológicos. In CONCILIUM, Petrópolis, n. 287, p. 122-129. 218 LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada, São Paulo, 2011. p. 9. 219 Ibidem. p. 133. 220 SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector... Op.cit. p. 30. 75 Como foi exposto até aqui, a contradição ao modelo cultural vigente na sociedade é o alvo da obra A hora da estrela. Segundo Ana Aparecida Arguelho de Souza, este modelo cultural é marcadamente burguês. Ana parte do conceito de ideologia apresentado por Terry Eagleton, que considera dois pontos relevantes. O primeiro expõe a ideologia como relações vivenciadas que se consolidam e passam a ser uma visão do mundo. O segundo aspecto, apresentado por Terry e citado por Ana, ressalta que a ideia de ideologia não é oriunda dos interesses de uma classe dominante, mas de uma classe que em um determinado momento histórico assume a representatividade e os interesses da sociedade. 221 Este modelo burguês denunciado por Clarice e apresentado por Ana Aparecida Arguelo de Souza teve início no pensamento de John Locke, que afirmava ser cada indivíduo responsável pela sua existência, e sua existência lhe é outorgada pelo seu trabalho. Este modelo ideológico ganha mais força à medida que a revolução industrial se consolida nas diversas sociedades. Verifica-se também que o fordismo e taylorismo empenhados em aumentar a produção, passam a organizar o mundo do trabalho. O rompimento desse nexo, levado ao paroxismo, gera o fragmento. Significa dizer que sob a égide da sociedade fordista inviabiliza-se a percepção da totalidade; a sociedade gesta o homem-fragmentado, com o seu olharfragmentado, que só consegue apreender o mundo pelos seus múltiplos recortes. O primeiro grande efeito causado por essa materialidade do trabalho é a fragmentação, o recorte, a autonomização do pensamento. 222 A forma que Clarice Lispector utiliza para denunciar esta situação social é a da desconstrução; trata-se de um desvio estético, uma contradição, com objetivo de destacar a urgência da situação. Por isso, verifica-se na obra um retrato medonho da jovem alagoana. Desta maneira, o projeto estético da obra A hora da estrela assinala a contramão da ideologia vigente na sociedade. 7.1 O corpo do texto A abordagem social da obra A hora da estrela é sugerida pelo próprio narrador, que faz menção às características de Macabéa e à sua relação com tantas outras moças espalhadas pelos cortiços do Brasil. “Há, portanto, em HE uma norma burguesa que define por oposição 221 222 SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector... Op.cit. p. 18. Ibidem. p. 32. 76 o que é não ter e não ser [grifo do autor]”.223 Macabéa é a figura do ser humano marginal, que vive à margem da sociedade. Esta marginalidade atribuída à Macabéa vai aumentando à proporção que a história evolui; a nomeação da jovem alagoana só acontece tardiamente na obra. O narrador utiliza de adjetivos como: a pessoa, a jovem, o corpo, sem fazer referência ao nome da pobre alagoana. Esta degradação da personagem se estende ao convívio social. Ela é datilógrafa desqualificada, divide o quarto com quatro amigas, mas está sempre sozinha; ela come em pé e não é vista por ninguém. Destaca-se também a desconstrução da humanidade de Macabéa, uma vez que ela vai se sujeitando à superficialidade produzida por este modelo cultural. Ela se alimenta de hotdogs e Coca-Cola, isso demonstra o abandono dos traços culturais nordestinos. Macabéa assume o modo de vida ditado pela cultura de massa muito bem representada pelo rádiorelógio “A inacessibilidade aos bens materiais e culturais, a condição de pária social fazem dela um ser inacabado pela impossibilidade de desenvolvimento adequado. Em suma, Macabéa não é um ser humanizado em sentido profundo, e essa é a fratura que o livro procura expor”.224 A peregrinação do não ser desta pobre coitada não a impede de ter um caso de amor com seu namorado Olímpico. Evidencia-se que este relacionamento é truncado: Olímpico é arrogante e agressivo e deseja crescer na vida, isto é, fazer parte da elite. O relacionamento fracassa, pois Macabéa não faz o estilo de Olímpico. Já sua amiga Glória... Glória se perfumava, fumava cigarros mentolados e recebia vários telefonemas, que Macabéa invejava por intuí-los como prestígio social. Pertencente a uma “terceira classe da burguesia”, como diz Rodrigo, conhecia alguns segredos baratos de sedução e erotismo, suficientes para seus poucos anseios de vida e liberdade. Expressa com eficiência seu discurso [grifo do autor] corporal quando rebola ou manda beijos com as pontas dos dedos. Loura oxigenada, gorda e extrovertida. Glória representa para Olímpico o desejo do ingresso no clã do sul, pois era “carioca da gema”.225 223 KADOTA, Neiva Pitta. A Tessitura Dissimilada... Op.cit. 37. ARÊAS, Vilma. 2005, p. 81. Apud SPINELLI, Daniela. A construção da forma n’A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. 2008. 132 p. Dissertação (Programa de Estudos de pós-graduados em Literatura e Crítica Literária) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. p. 32. 225 KADOTA, Neiva Pitta. A Tessitura Dissimilada... Op.cit. p. 44. 224 77 Macabéa é um ser humano carente, e esta carência é fruto de um modelo e relações sociais tecido contra ela. A própria narrativa realça o símbolo máximo da sociedade do capital, ao citar a famosa marca de refrigerante sabor cola. “Sabe-se que nenhuma outra sociedade alcançou um grau de tecnologização tão acentuado como o capitalismo, e que a objetivação do trabalho tornou grandes parcelas da população dispensáveis [...] excluídos e miseráveis”.226 Numa sociedade tecnicista o ser humano se torna dispensável, e Macabéa não compreendia que ela e muitos são parafusos descartáveis. A hora da estrela [grifo do autor] tem um caráter de documentário urbano que por si remete à totalidade mais ampla do capital [...] Ao afirmar que, como nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões, trabalhando até a estafa, dimensiona essa singularidade no espaço de uma sociedade problemática [...].227 A autora expõe a desumanização provocada pelo modelo capitalista. Esta situação representada por Macabéa não faz referência somente aos nordestinos que fogem da seca em busca de melhores condições de vida no sudeste. Ela faz referência aos pobres espalhados por todo território nacional. [...] Na sua miséria extrema, Macabéa expressa o humano de forma caricatural e hiperbólica. É mesmo, na forma como foi desenhada, a própria negação do humano. Não obstante, a cada detalhe, o leitor nela reconhece as pegadas humanas. A quem não falte sempre um pouco de consciência? Quanta gente passa fome no mundo das pessoas? Quem já não teve namorado roubado, um desejo de ser uma estrela de cinema ou já não pautou seus desejos por anúncios e propagandas? Quem não cantou Caruso ou outro qualquer com voz desafinada? Quem não sonhou ser feliz mesmo na miséria física e material? Assim, Macabéa, dessemelhante no conjunto, separada dos homens pela barreira da arte, é convincente pelo detalhe, enquanto resposta estética a indagações humanas. E é em cada característica isolada que nela se reconhece o Homem com ser social. Por isso, tão irreal nos aproxima tanto do real.228 Embora o nome Macabéa faça relação aos irmãos macabeus esta aproximação acontece somente no sentido semântico. Na prática, os macabeus possuem consciência da sua identidade e têm objetivos de vida, por isso, lutam contra a tirania que lhes deseja tirar a liberdade – bem ao contrário de Macabéa, apresentada pela autora como um ser humano sem vigor para a luta justamente por lhe faltar encontrar um sentido para a vida. 226 SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector... Op.cit. p. 87. Ibidem. p. 88. 228 Ibidem. p. 110. 227 78 É possível afirmar, pela leitura da obra, que Macabéa é uma personagem reveladora por excelência da trajetória humana. Pode-se entrever nela algo mais profundo, um perfil que está dado nas contradições de uma totalidade social, em que instituições, valores, pessoas não estão bem definidos, sugerindo os escombros informes de uma sociedade que deteriora e escorre como coalhada entre os dedos da mente, quando se tenta apreendê-la com a lógica da modernidade. Só os artistas do porte de Clarice Lispector, com a sensibilidade afinada no universal, conseguem dar conta de construir uma personagem como Macabéa, cujo vigor advém justamente da sua falta de vigor, da sua qualidade terminal, de ser que vai se decompondo devagar até a boca colar no chão. De ser que, por essa qualidade, aponta a urgência não de se retomar o humanismo de uma época, mas de forjar um novo humanismo, em que a realização do homem seja o centro das questões. 229 Esta desumanização experimentada por Macabéa é também percebida em quase todos os outros personagens, ficando de fora somente o narrador. Segundo o narrador Rodrigo S.M., a narrativa possui sete personagens: o próprio Rodrigo, Macabéa, Olímpico, Glória, o patrão, o médico e a cartomante. Verifica-se que seis desses personagens apresentam as mesmas características humanas. Trata-se do “[...] isolamento em que vivem, alienados dos instrumentos da cultura, por sua condição social, e, consequentemente, distinguidos pela precariedade da consciência que têm de si e do mundo”. 230 Percebe-se a exclusão social dos personagens pela ausência da linguagem. O único personagem que tem voz no texto é o narrador Rodrigo S.M. Este isolamento é fruto dos instrumentos da cultura social vigente. Logo, as relações vão cada vez mais se constituindo nos ambientes de trabalho, conforme relata Fukelman: “o patente isolamento das pessoas parece conduzir a uma reflexão sobre a condição do ser humano, agravada por um tipo de organização social que segrega os indivíduos entre si”.231 O namorado de Macabéa (Olímpico), embora trabalhe numa metalúrgica, vive em meio à miséria; sua miséria é material e moral. Ele não tem casa, mora numa guarita de uma obra em demolição. Seu nome remete ao leitor a grande história das divindades antigas, mas nem isso é capaz de lhe dar dignidade. Verificam-se em Olímpico as garras do sistema tecnicista que Clarice denuncia (ele também é vítima). Esta presença (do sistema tecnicista) pode ser verificada pelos seus dentes de ouro; sua humanidade também já fora reduzida ao mercado, por isso o seu relacionamento com Macabéa e Glória está direcionado ao que elas podem lhe oferecer; ambas são apenas objetos materiais disponíveis. Destaca-se também o 229 SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector... Op.cit. p. 119. Ibidem. p. 94. 231 FUKELMAN, C. Escrever estrelas (ora, direis). Apud SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector: Um estudo social em A hora da estrela. São Paulo: Musa Editora, 2006. p. 95. 230 79 contraste das atividades de Olímpico. Ao mesmo tempo em que é metalúrgico, ele esculpe santos em madeira. Era um artista e nem se dava conta desse ofício. Marcado pelo absurdo desconhecimento de si mesmo, de possibilidades de humanização, limita-se a desempenhar um trabalho que consistia em pegar barras de metal de cima da máquina e colocá-las embaixo, sobre uma placa deslizante. Entretanto, “nunca se perguntara por que colocava a barra embaixo”[...].232 Outro personagem que apresenta uma ideia de sociedade fragmentada e descartável é o médico. Ele participa na trama da história ao ser indicado por Glória; sua participação é curta, mas reflete bem o atendimento dispensado àqueles desprovidos de recursos. Ele “trata” de Macabéa com desleixo e lhe falta a consciência da importância da sua profissão. Segundo o relato do próprio texto, trata-se de um médico cujo único objetivo é ganhar dinheiro; sua falta de comprometimento com a profissão é apresentada pela autora ao citar a desatualização do médico em relação às novidades clínicas. 233 Do ponto de vista da perspectiva contraideológica que cumpre a obra, o médico é uma personagem altamente sugestiva da condição mercadorizada da medicina, especialmente em países periféricos aos centros de acumulação de ciência e tecnologia. Aspectos como o preconceito e a valorização do dinheiro do paciente revelam, mais uma vez, o avesso do humano na sociedade. 234 Já a personagem Carlota faz referência ao descarte que a sociedade pode fazer com o ser humano que não é capaz de produzir. Enquanto era atraente ela servia para seus clientes; com o passar dos anos, ela perde o seu poder de atração, o seu vigor, o seu apelo, e é descartada, tendo que assumir um novo papel periférico. A personagem Glória, que trabalha com Macabéa, é a menos desvalida da narrativa de A hora da estrela e representa uma classe social que gasta todo o seu dinheiro com comida. Mas a sua representatividade vai além. Segundo Daniela Spinelli, Glória é representante de um mundo feroz. 232 DIAS, A. M. A hora da estrela e o corpo cariado. Tempo Brasileiro, n. 82, 1985, p.107. Apud SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector: Um estudo social em A hora da estrela. São Paulo: Musa Editora, 2006. p. 98. 233 HE, p. 67-68. 234 SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector... Op.cit. p. 99. 80 [...] Glória era mais que uma conexão, ela era o próprio mundo contra o qual Macabéa travava uma luta perdida. À Aspirina [sic] ??? e ao dinheiro somava-se um certo artificialismo na colega de trabalho. Os cabelos oxigenados, o desejo de confundir-se com o cinema americano contrastavam com a presença incômoda das raízes negras sempre à mostra, espécie de alusão ao sangue dos seus antepassados [...].235 Glória é uma personagem que carrega a ambiguidade de dois mundos: o primeiro faz menção às raízes negras de um passado de escravidão; o segundo indica a sujeição de Glória à modernização alicerçada nas promessas do consumo. A ferocidade do mundo moderno representado por Glória pode ser verificada na amizade fingida desta com Macabéa. Ela é uma perfeita caricatura da banalidade do ser humano, voltado para si, vive a vida à la carte. Ela representa uma sociedade sem as megaideologias; sua relação com o mundo se dá por meio do cuidado com a beleza, representando o narcisismo da atualidade. 7.2 É morrendo que se nasce para a vida A morte é o grand finale da história de Macabéa. Ela é a expressão da desrealização humana. Estava grávida de futuro que não se realizaria. Ao sair da casa da cartomante e descer a calçada para atravessar a rua, um enorme “[...] transatlântico, o Mercedes amarelo, pegou-a [...]”.236 Conforme o texto, a jovem percebe que fora atropelada por um carro de luxo, sinal da técnica e do consumo, símbolo desta cultura desumanizante. Trata-se de um encontro do descarte. Clarice denuncia que neste modelo social não há lugar para Macabéa na cidade inconquistável feita contra ela. O progresso da ciência e da tecnologia aponta para um lado oposto ao humano conforme as marcas de ferrugem (exclusão) no corpo de Macabéa. 237 A morte de Macabéa representa a “a deterioração do homem num mundo fragmentado”.238 Além de o romance finalizar com a palavra "sim", também inicia com esta mesma palavra, o que o torna circular. Trata-se da resposta positiva da autora, pois, mesmo diante de todas as preocupações socioexistenciais exploradas no espaço literário através de uma total negatividade da linguagem, essa circularidade aproxima o leitor do seu alimento essencial, os 235 SPINELLI, Daniela. A construção da forma n’A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. 2008. 132 p. Dissertação (Programa de Estudos de pós-graduados em Literatura e Crítica Literária) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. p. 37. <http://www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=6868 >Acesso 03 janeiro 2013, 15:54:12. 236 HE, p. 79. 237 HE, p. 5. 238 SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. O humanismo em Clarice Lispector... Op.cit. p. 138. 81 morangos (no texto, eles recuperam a estética da primariedade de cores e traduzem um vermelho vital). 239 Macabéa enfim está livre! Livre de nós. Somente rompendo com este modelo que desumaniza o ser humano é que a jovem Macabéa poderá encontrar o sentido primário da existência. O vermelho do morango indica a possibilidade de algo novo, pois ela poderá buscar a vida que tanto lhe foi negada. A obra A hora da estrela, após fazer um relato da desconstrução da vida humana representada por Macabéa, termina com a esperança de que algo novo pode acontecer - as últimas palavras do texto indicam essa possibilidade: “Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim”. 240 A obra A hora da estrela faz uma importante denúncia sobre a situação de exploração e alienação de Macabéa. Trata-se da explosão da falência deste modo de vida, alimentado pela banalidade do consumo e dos relacionamentos descartáveis. Ao apresentar o subtítulo “.Quanto ao futuro.”, verifica-se que a obra é uma denúncia e não uma resposta. Trata-se de uma obra aberta à procura de resposta, à procura de leitor atento que tocado pelas forças das palavras possa ajudar aos milhares de Macabéas e Glórias e desprezados em sua busca por mais dignidade na vida. Mas que fique registrado que neste modelo social vigente não é possível viver. Afinal, “esta história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Trata-se de um livro inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta esta que espero que alguém no mundo ma dê. Vós? [...]”.241 8. Conclusão Clarice Lispector é um importante nome na literatura brasileira. Ela despontou na década de quarenta e representou uma transformação na literatura nacional que até então era marcada pelo regionalismo. Esta inovação trazida por Clarice gerou uma série de repercussões na crítica da época, pois a sua tessitura procura revelar por meio das palavras a vida escondida no cotidiano. No centro da escrita de Clarice está o ser humano. Clarice fala da existência do homem, por meio da ficcionalização da linguagem (epifania, metalinguagem, flashes) com o 239 LANZA, Sonia Maria. A Hora da Estrela: Fragmentos de um texto plural. 1996. 142 p. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. p. 125. 240 HE, p. 87. 241 HE, p. 10. 82 objetivo de criar um instante já. Trata-se de uma tensão psicológica capaz de fazer com que o leitor rompa com os modelos preestabelecidos pela sociedade. Embora a obra clariceana esteja voltada para a linguagem, pode-se perceber nela uma inquietação social, como pode ser verificada nesta obra aqui em análise. Seu texto desvela as contradições sociais oriundas de um modelo social tecnicista que desumaniza. Esta desumanização se faz perceptível em todos os personagens da obra, mas em especial na jovem Macabéa. A hora da estrela é uma obra aberta. A relevância do seu texto (enquanto rede de significados) não deixa o leitor indiferente à saga de Macabéa. Ao contrário, instiga-o a buscar (e a construir) respostas diante das mazelas provocadas por um modelo social que se auto intitula “moderno”, mas que alija, escraviza os que, como a nordestina de Clarice Lispector, não ‘encontram o jeito de se ajeitar’ ao predisposto modelo capitalista/tecnicista, do qual somos todos partícipes. Como nos convida a pensar a própria Clarice, trata-se de uma obra em estado de calamidade pública à procura de respostas. 83 CAPÍTULO III – REFLEXÃO TEOLÓGICA Neste terceiro capítulo buscar-se-á a elaboração de uma reflexão teológica a partir da antropologia apresentada pela obra A hora da estrela. Como já foi dito anteriormente, a teologia como ação humana procura interpretar os dados contidos na Revelação em consonância com a realidade humana, podendo assumir/comparar ou criticar o modelo de vida apresentado pela obra literária. Entende-se o termo Revelação como autocomunicação de Deus, que quer tornar conhecido o seu projeto de amor na história, e especialmente agora, quando é perceptível uma busca ao Sagrado, uma necessidade de satisfação interior que só Deus pode suprir. (At17,23-28.). Diz a Gaudium et Spes: O aspecto mais sublime da dignidade humana está nesta vocação do homem à comunhão com Deus. Este convite que Deus dirige ao homem, de dialogar com ele, começa a existência humana. Pois se o homem existe , é porque Deus o criou por amor e, por amor, não cessa de dar-lhe o ser, e o homem só vive plenamente, segundo a verdade, se reconhecer livremente este amor e se entregar ao seu criador.242 1. Uma antropologia teológica? Antes de ser tratada a relação entre antropologia e teologia vamos relembrar o que já foi comentado nos capítulos anteriores sobre o método utilizado neste estudo, o método do diálogo entre a teologia e a literatura. Conforme Alex Villas Boas, não existe um único procedimento para este diálogo, portanto, a metodologia utilizada nesta pesquisa privilegia o elemento antropológico revelado pela obra, e a partir deste elemento será elaborada a reflexão teológica. 243 Observa-se também a necessidade de saber se a teologia pode elaborar um discurso antropológico. Verificam-se na sociedade atual algumas críticas sobre esta possibilidade; para muitos, a teologia deve se ocupar somente de Deus. Por outro lado, constata-se uma 242 GS 19. 243 Confira sobre a questão do método no primeiro capítulo p. 24-33. 84 revisitação ao sagrado nos dias atuais, talvez para fazer frente a uma sociedade particularmente complexa no que diz respeito à crescente injustiça e à pobreza desumanizadora que resultam de forças geradoras de riquezas incapazes de promover uma distribuição mais justa, mais igualitária. Conforme Adolphe Gesché, esta volta ao sagrado parece indicar um desejo de ouvir novamente a fé: [...] o ser humano é como um texto. Primeiro, um manuscrito [grifo do autor], porque ele já é em parte feito de uma escrita que o antecede e que deve aprender a ler para decifrar. “Eu sou aquilo que os filósofos me contaram” (J. L. Borges). Os filósofos, mas também alguns desses homens que, como Moisés, bateram na rocha. Em seguida, um pergaminho [grifo do autor], porque o próprio ser humano, ser felizmente inacabado, deve, pastor do seu ser, escrever numa página ainda em branco o texto do seu próprio destino. Enfim, um hieróglifo, porque ele também é escrito e deve também se escrever com letras sagradas. Res sacra homo [grifo do autor].244 Na medida em que o ser humano revisita a fé, abre-se novamente um espaço para a teologia refletir e contribuir com a sociedade atual. Certamente seu discurso será sobre Deus, mas não se trata de um Deus distante, pelo contrário, a teologia reflete sobre um Deus próximo do ser humano e que se comunica com ele, chamando-o ao diálogo. A teologia “[...] em grande parte pensa Deus para pensar o ser humano. Ela é uma espécie de antropologia, pois pensa o ser humano por meio dessa chave à qual dá o nome de Deus”. 245 [...] Na lógica do Prólogo joanino associado ao do Gênesis, o ser humano foi chamado a compreender-se como imagem daquele que é a Imagem por excelência de Deus. Cristo torna-se espelho da relação entre Deus e o ser humano, espelho em que o ser humano se decifra. Pode-se dizer que a cristologia constitui uma antropologia profética [...].246 Segundo o pensamento de Karl Rahner, “a teologia dogmática deve tornar-se hoje uma antropologia teológica, que este ‘antropocentrismo’ é necessário e fecundo”. 247 Nesta perspectiva apresentada por este importante teólogo, os problemas dos seres humanos estão diretamente ligados à teologia. Não se trata de deslocar Deus da reflexão teológica, exatamente por não existir teologia cristã sem Deus. “A tese não contradiz o caráter teocêntrico de tôda [sic] teologia (por exemplo, a doutrina de Sto. Tomás, segundo a qual 244 GESCHÉ, Adolphe. O ser humano. Tradução: Euclides Martins Balancin. São Paulo: Paulinas, 2003. p. 6. (Coleção Deus para pensar; 2). 245 Ibidem. p. 6. 246 GESCHÉ, Adolphe. O Cristo. Tradução: Carlos Felício da Silveira. São Paulo: Paulinas, 2004. p. 8. (Coleção Deus para pensar; 6). 247 RAHNER, Karl. Teologia e antropologia. São Paulo: Paulinas, 1969. p. 13. 85 Deus como tal é o objeto formal da teologia da Revelação). Desde que se considere o homem como absoluta transcendência orientada para Deus [...]”.248 O discurso rahneriano sobre Deus admite a real possibilidade do ser humano de captar a presença divina e com Ele travar um diálogo. Este diálogo entre Deus e o ser humano está constituído na amizade como um convite para que este participe da vida divina. A Revelação como um diálogo supõe que o ser humano seja um ouvinte. Todo diálogo conjectura uma resposta, e a fé é a resposta à Revelação de Deus. Assim a teologia radicada na Palavra de Deus é uma ação humana. Este fato por si só já apresenta o aspecto antropológico da teologia. 249 Compreende-se que a Revelação está presente em todas as épocas bíblicas e se esconde na história humana, ou melhor, a Revelação acontece por vontade divina nos caminhos humanos, assim toda história do mundo é história da salvação e de Revelação.250 O cristianismo é a religião da Revelação de um Deus dos homens, isto é central na visão cristã, e é dentro das experiências humanas que o homem recebe e interpreta a Revelação. Por isso, o ser humano é um ser teológico. Esta abertura do ser humano rumo ao transcendente pode ser entendida como uma interrogação do homem também sobre o seu ser. Este interrogar-se, segundo o pensamento de Battista Mondin, em geral, revela no homem uma dimensão transcendental, ou seja, “uma abertura ao ser como horizonte de toda realidade possível”. 251 Para o teólogo Antonio Manzatto, o homem pode pensar além do factual, em busca do eterno e do transcendente. “Assim sendo, a antropologia mesmo pode justificar o discurso teológico sobre o homem, na medida em que aceita que no homem existe esse lado de abertura à transcendência, o que garante a possibilidade de existência da teologia e de reflexão antropológica.”252 Este caminho antropológico servirá de “lugar epistemológico de toda teologia, ou seja, uma nova linguagem para dizer a fé cristã e transmiti-la ao ser humano moderno”.253 Trata-se de uma preferência em fazer teologia, e a teologia atual está consciente da sua necessidade de 248 RAHNER, Karl. Teologia e antropologia. Op.cit. p. 13. MANZATTO, Antonio Teologia e Literatura: Reflexão Teológica a partir da Antropologia contida nos Romances de Jorge Amado. São Paulo: Loyola, 1994. p. 222. 250 BLANK, Renold J. Deus na história: centros temáticos da Revelação. São Paulo: Paulinas, 2005. p. 10. 251 MONDIN, Battista. Antropologia teológica: História - problemas - perspectivas. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 191. 252 MANZATTO, Antonio. Teologia e Literatura... Op.cit. p. 222-223. 253 SALLES, Walter Ferreira. Antropologia, lugar de toda teologia. In HIGUET, Etienne A. (org.). Teologia e Modernidade. São Paulo: Fonte Editorial, 2005. p. 143. 249 86 se mostrar relevante para o mundo, e, por isso, procura compreender o sentido existencial “escondido” na realidade estrutural deste mundo, seja ela quase transfigurada pela sua beleza ou desfigurada pelas contingências históricas, até assumindo formas desumanizadas. Procura-se partir da realidade do ser humano, por um lado reafirmar a pertinência dos conteúdos da fé cristã e da sua aplicabilidade ao contexto atual, e por outro acolher os novos horizontes provocados pelo encontro com o mesmo ser humano. O fato de ter o existencial como ponto de partida obriga a teologia a abrir-se diante da realidade do mundo, e tomar sua posição, não sendo possível uma reflexão teológica fria, descomprometida ou abstrata. 1.1 O confronto com a negatividade Esta aproximação entre teologia e antropologia se faz necessária, e para o teólogo Jon Sobrino é uma questão de “[...] responsabilidade do teólogo para com o mundo e para com Deus”.254 Este confronto com a realidade mediado pela literatura permite à teologia não apenas aproximar-se do contexto social, mas nele interferir para que o rosto de um Deus compassivo se revele e seja reconhecido. Confrontar-se com a realidade é também encontrarse com o negativo presente na história. Este encontro com a negatividade histórica é profundamente reveladora para a teologia e também para a literatura. Desse ponto de vista, percebe-se que a literatura clariceana percorre o caminho da linguagem, na qual a autora apresenta uma vida escondida, um momento de estranheza que afeta o leitor.255 Clarice usa do caos, do grotesco, da desordem e do negativo para afetar o seu leitor, criando a possibilidade de confronto entre o leitor e a obra. A obra A hora da estrela é uma construção literária feita por meio de flashes, que geram reflexões e questionamentos sobre a existência humana e cabe à teologia fazer uso dela para que realmente cumpra seu papel de ajudar a transformar realidades. A teologia também se confronta com o negativo da existência humana, conforme relata Jon Sobrino: Essa negatividade é apresentada sob diversas formas: pecado e culpa, condenação eterna, morte, enfermidade, escravidão, sem-sentido, pobreza, injustiça, etc. Confrontar-se com essa negatividade é essencial para a teologia, pois a mensagem positiva da fé que pretende elaborar não é 254 SOBRINO, Jon. O princípio da misericórdia: descer da cruz os povos crucificados. Tradução: Jaime A. Clasen. Petrópolis-RJ: Vozes, 1994. p. 48. 255 Confira o segundo capítulo p. 12. 87 compreendida a não ser em relação com a negatividade. Seja esta mensagem positiva – no que consiste formalmente sua verdade e novidade – formulada como salvação, redenção, libertação, boa notícia, reino de Deus, etc., é essencial que determine de que Deus salva. Em outras palavras, a formalidade salvífica da mensagem cristã não acontece num mundo neutro ou simplesmente limitado, mas num mundo privado ativamente de salvação e sujeito a algum tipo de escravidão – o anti-reino contrário ao reino de Deus. Por isso, analisar a negatividade é essencial para a teologia para que sua mensagem positiva tenha sentido.256 A teologia, ao fazer opção de ver a realidade a partir das vítimas (negativo), procura vencer o perigo da apatia social. Entende-se o termo apatia como um estado de insensibilidade, impassibilidade e indiferença ao sofrimento alheio. O modelo social atual profundamente individualista gera uma sociedade de pessoas apáticas, capazes de sofrer suas dores e não ser sensível ao sofrimento alheio. “Experimentam a dor, porém ‘estão satisfeitos’, ela não os comove”.257 Tal cegueira acontece numa sociedade dominada por otimismo banal, em que considera indiscutível não haver quem sofra. [...] A apatia face ao Terceiro Mundo não é uma simples manipulação da mídia, explicável pelo medo do comunismo e pela conivência tácita com a espoliação desses países “indolentes”. É parte da própria apatia burguesa, que não se dá conta das dores por ela mesma suportadas.258 O sofrimento nessa perspectiva teológica será sempre entendido como algo provocado, não existindo espaços para os fatalismos. Esta reflexão teológica que parte da antropologia presente na obra literária tem como opção preferencial as vítimas encontradas na obra A hora da estrela e se colocará como oposição ao modelo social ali exposto (capitalista-tecnológico). Buscar-se-á na força dos pobres/vítimas a verdade da realidade. Na compreensão do teólogo Jon Sobrino, as vítimas deste mundo permitem enxergar a realidade cruel que afeta o ser humano, e estes desumanizados são os prediletos de Deus. Jon Sobrino está convencido de que a perspectiva das vítimas deste mundo oferece uma luz específica para compreender o objeto de teologia: Deus, Cristo, a graça, o pecado, a justiça, a esperança, a utopia. E estabelece uma relação de reciprocidade, um círculo hermenêutico: de um lado, a perspectiva das vítimas ajuda a entender os textos cristológicos e a conhecer 256 SOBRINO, Jon. O princípio da misericórdia... Op.cit. p. 51. SÖLLE, Dorothee. Sofrimento. Tradução: Antonio Estevão Allgayer. Petrópolis-RJ: Vozes, 1996. p. 46. 258 Ibidem. p. 48. 257 88 melhor Jesus; de outro, Jesus conhecido desta forma ajuda a compreender melhor as vítimas e a defendê-las.259 Por conseguinte, esta pesquisa terá como ponto de partida os dados antropológicos colhidos da obra A hora da estrela de Clarice Lispector que serão confrontados com aspectos cristológicos. Trata-se de um reencontro, de deixar-se guiar pela verdade que veio a este mundo (Jo1,9), que não veio falar de si, mas falar de Deus e do humano, conforme relata a Constituição Pastoral Gaudium et Spes: Na realidade o mistério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. Com efeito, Adão o primeiro homem era figura daquele que haveria de vir, isto é, de Cristo Senhor. Novo Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e de seu amor, Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre e sua altíssima vocação. Não é portanto de se admirar que em Cristo estas verdades se encontrem sua fonte e atinjam seu ápice.260 1.2 A teologia A obra literária está diretamente ligada a história, no entanto, a fé cristã também afirma que Deus entrou na história humana (Jo1,1.14). A ideia da encarnação apresenta Deus que se encontra em casa (Jo1,11), assumindo tudo que pertence a condição humana, fazendose solidário à história humana. Nota-se no cristianismo uma afirmação de que Deus e o ser humano podem se conhecer um ao outro; dito de outra forma, eles se inter-significam. O ponto de partida da cristologia é o Jesus histórico. Partir da história de Jesus é partir da sua humanidade, pois sua humanidade é reveladora de Deus. Neste sentido, o caminho da Revelação é o caminho da antropologia para a teologia e que o ser humano é revelador do divino, conforme o relato de Benedito Ferraro: “Verbo, o Logos, se fez carne. Entrou na história. Fez-se gente (cf. GS,22). O que possibilita o processo de revelação é a vida, a prática, a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus. Ele é o núcleo gerador de todas as significações”. 261 259 BOMBONATTO, Vera Ivanise. Seguimento de Jesus: uma abordagem segundo a cristologia de Jon Sobrino. São Paulo: Paulinas, 2002. p. 194. (Coleção ensaios teológicos). 260 GS 22. 261 FERRARO, Benedito. Cristologia. 4. ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2008. p. 20. (Coleção Iniciação Teológica). 89 Sendo a humanidade de Jesus reveladora de Deus, ela não pode ser considerada um mero detalhe. A relação entre cristologia e antropologia realça a ideia que o antropológico/histórico de Jesus é revelador do ser de Deus. De acordo com o pensamento de Jürgen Moltmann, este modelo de cristologia pode ser chamado de Jesuologia: Cristologia antropológica nada mais é do que jesuologia [grifo do autor]. Com a expressão “jesuologia” não se tem em mente um antagonismo à “cristologia”, mas tem-se em mente a cristologia moderna, também chamada de “cristologia de baixo”. Falamos de “jesuologia” porque para ela não está no centro o Cristo exaltado ou preexistente mas o homem Jesus de Nazaré [...].262 A historiografia atual é unânime em afirmar os dados históricos de Jesus. Jesus nasceu num período conturbado da história do povo de Israel. Seu nascimento ocorreu provavelmente por volta dos anos 6-4 a.C, período em que a fé do judaísmo estava enfraquecida devido às sucessivas influências culturais dos estrangeiros, como os babilônicos, os gregos e também os romanos. Entende-se que na Palestina do século I existia um verdadeiro sistema de morte; o império romano ditava a forma de viver de toda sociedade, bem semelhante ao atual modelo capitalista-tecnicista denunciado na obra A hora da estrela. No contexto social do século I d. C., a importância do império romano é incontestável. Era uma presença absoluta em todos os âmbitos da sociedade. [...] existia também grande decepção dos setores sociais mais atingidos e violentados pelo romano, especialmente os pobres, e escravos e escravas. Para estes setores o modelo romano era simplesmente uma camisa de força, da qual era impossível se safar.263 A dominação romana é presença determinante na época de Jesus. Historicamente percebe-se neste período a pax romana. Trata-se de uma relação de direitos entre parceiros, mas não em igualdade, pois Roma, por ser o sujeito da dominação, exige a submissão do outro na parceria. “Para os pobres e dissidentes, a pax romana era uma situação social de crise geral e sem possibilidade de mudança [...]”.264 Jesus e Macabéa vivem dentro de contextos sociais de profunda dominação. Para ambos esta dominação os afeta diretamente, pois estão na camada mais baixa da sociedade. Após fazer esta breve aproximação dos contextos de Jesus e de Macabéa surge uma nova 262 MOLTMANN, Jürgen. O caminho de Jesus Cristo: cristologia em dimensões messiânicas. Tradução: Ilson Kayser. Santo André-SP: Editora Academia Cristã, 2009. p. 98. 263 GODOY, Daniel. Roma, Palestina e a Galiléia do século I. In RIBLA, Petrópolis, n. 47, p. 44-57, 2004/1. 264 Idem. Ibidem. 90 questão. Sabendo que ela representa as vítimas de um sistema sociocultural, e essas vítimas não possuem forças para lutar contra a dominação que lhes é imposta, faz-se necessário saber qual é o comportamento de Jesus diante das forças que oprimem o ser humano no seu tempo. 2. A luta pela vida O ser humano apresentado na obra A hora da estrela é vítima do seu contexto social. Ele é alienado265 e vive uma profunda crise266, não possuindo forças para opor-se ao sistema cruel que lhe oprime. Clarice exibe Macabéa como um ser humano massacrado, mas ao mesmo tempo a jovem alagoana teima em continuar viva, mesmo inconscientemente ela luta pela vida.267 Destarte, a morte prematura de Macabéa é provocada por um sistema sacrificial que não deve continuar, por isso, Clarice faz uma indagação importante a este modelo, por meio da expressão “.Quanto ao futuro.”. Este questionamento perpassará toda a reflexão teológica. Mesmo como pano de fundo ele estará presente, pois faz referência aos questionamentos feitos por muitos povos diante da calamidade em que viviam. 2.1 O messianismo Este sentimento de falta de esperança relatado na obra A hora da estrela, pode ser percebido em outros povos e cultura através do termo messianismo. O termo está diretamente relacionado ao projeto do Reino de Deus, e por muito tempo esteve ligado ao judaísmo. Hoje, já se sabe que o messianismo faz parte da história de muitos povos que geralmente apresentam a ideia típica do herói redentor. “Neste caso o messianismo seria uma resposta clara e inequívoca dos grupos oprimidos para enfrentarem os aspectos críticos da vida”.268 Percebe-se, portanto, que a resposta messiânica é uma resposta sociológica, capaz de fazer uma leitura da realidade com o objetivo de analisar os desnivelamentos que ali se apresentam.269 265 Pode-se interpretar o conceito de alienação como o divórcio de si mesmo. Cf. CODO. Wanderley. O que é alienação? 2. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985. p. 19. 266 Segundo Arlindo Ferreira Gonçalves Júnior o termo crise é uma marca característica da sociedade tecnológica. Cf. GONÇALVES JR, Arlindo Ferreira. (org), Ética e crise na sociedade contemporânea, Aparecida, 2008, p. 7. 267 HE, p. 84. 268 ROSSI, Luiz Alexandre S. Messianismo e modernidade: repensando o messianismo a partir das vítimas. São Paulo: Paulus, 2002. p. 18. (Coleção estudos antropológicos). 269 QUEIROZ, M.I.P. O messianismo no Brasil e no mundo, São Paulo, Ed. Alfa e Ômega, 1977. p. 24. Apud ROSSI, Luiz Alexandre S.. Messianismo e modernidade: repensando o messianismo a partir das vítimas. São Paulo: Paulus, 2002. p. 25. (Coleção estudos antropológicos). 91 Deve-se ressaltar que neste ambiente de mentalidade messiânica o próprio messias deverá intervir, seja saindo das próprias fileiras dos pobres ou ainda vindo de fora; um homem que é igual a todos os outros, principalmente na pobreza. E, exatamente por isso, apresenta-se como negação plena da estrutura social vigente e anuncia o fim de todas as contradições sociais .270 2.2 O messias Galileu – a resposta de Deus à alienação do ser humano A proclamação de fé cristã afirma que Jesus é o Cristo (Messias). A palavra “messias” vem do hebraico mashiah, que significa “ungido”. O messias representa a pessoa na qual os oprimidos esperam a salvação. Ele é a figura da inauguração de um novo tempo que irradia o Reino de Deus, sendo uma resposta à desumanização do ser humano, como a encontrada na obra A hora da estrela, resposta que tem como destinatários prioritários as vítimas. Esta preferência não implica nenhum tipo de sectarismo, pois a salvação é para todos, não há nenhuma exclusão, nenhuma impossibilidade que todos participem desta nova realidade. “Mas não excluir não é a mesma coisa que se dirigir diretamente a certos grupos de pessoas. E estes são os pobres”.271 Segundo o pensamento de Walter Kasper, os pobres são aqueles que não têm nada, não podem esperar nada do mundo, não possuem recurso algum e estão abandonados. São pobres materiais, pobres interior e exteriormente, são mendigos que aguardam ajuda.272 A ação (messianismo) de Jesus expressa a solidariedade de Deus com os mais fracos. Ele resgata a esperança da vida daqueles que estão mergulhados num ambiente de dominação (Jo10,10). Jesus recria a utopia do sonho para aqueles que estão esmagados, aqueles que foram atropelados pelas “estrelas”, que representam os modelos sociais sacrificiais. A boa notícia trazida por Jesus é o anúncio do Ano da graça do Senhor (Lc4, 14-30), como um prenúncio da construção de uma sociedade onde deve haver lugar para todos, sem “sarjetas e atropelamentos”. 270 ROSSI, Luiz Alexandre S. Messianismo e modernidade... Op.cit. p. 18. SOBRINO, Jon. Jesus o Libertador: A história de Jesus de Nazaré. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 124. (Coleção Teologia e libertação: Deus que liberta seu povo- Sér. 2). 272 KASPER, Walter. Jesus, El Cristo. 2. ed. Salamanca: Sigueme, 1978. p. 96. 271 92 2.3 Jesus e a sua missão Como já citado, Jesus e Macabéa são vítimas de modelos sociais sacrificiais. Salientase que a morte de Jesus não é expressão de um desejo cruel e grosseiro do Pai273, mas de uma reação violenta por parte de estruturas poderosas (religiosas e civis) que sufocam e matam aqueles que defendem a vida. A jovem alagoana protagonista da obra A hora da estrela vive uma vida inconsciente, sem projeto de vida; enquanto Jesus conscientemente e deliberadamente desenvolve a sua missão, despertando a consciência dos seus ouvintes. Ao mesmo tempo é cônscio das consequências das suas opções, até o risco de morte (Jo12,22-25). O centro da sua pregação e proclamação é o Reino de Deus, conforme exposição do evangelista Marcos: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc1,14-15). Ao proclamar o Reino de Deus (centro da sua pregação), Jesus faz uma pesada crítica ao modelo sócio-religioso da sua época. A proclamação do Reino é uma alternativa ao modo de viver que não favorece a vida das pessoas e nem está em consonância com a vontade de Deus. Logo, este modo de viver deve acabar. Segundo Walter Kasper, o Reino de Deus é a personificação da esperança e a realização de um ideal de um soberano justo sobre a terra, capaz de libertar os oprimidos dos opressores, trata-se da esperança da salvação.274 Entende-se este processo de libertação da opressão do ser humano como salvação. O conceito de salvação consiste na ideia da intervenção de Deus na história, transformando a situação de não realização do ser humano. Para Adolphe Gesché é preciso reexaminar o conceito de salvação: [...] a salvação não é antes uma realidade negativa, um “salvar de (alguma coisa)”. Apresenta-se antes de tudo como uma ideia totalmente positiva, que os termos salvus [grifo do autor] (forte, sadio, sólido, conservado) e salvare [grifo do autor] (tornar forte, preservar, conservar) demonstram muito bem. Salvar é levar alguém até a própria meta, é permitir que ele se realize, que atinja seu objetivo. Como vemos, trata-se de uma aspiração unânime dos 273 RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo: Predileções sobre o Símbolo Apostólico. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 172-174. 274 KASPER, Walter. Jesus, El Cristo. Op.cit. p. 79-80. 93 homens [...] A ideia de salvação, portanto, conota, essencial e primeiramente, antes de pecado e de falta, realização. 275 A salvação num primeiro momento é a realização da vida humana. Porém, a caminhada humana possui muitos obstáculos, como os apresentados por Clarice na obra A hora da estrela. Destarte, a proclamação do Reino de Deus é algo sumamente bom, é uma notícia que demonstra a inesgotável bondade de Deus. Ele não é apenas utopia futura, é também concretização histórica a partir do interior do homem. Constata-se esta dimensão histórica do Reino na parábola da semente do grão de mostarda (Mc4,30-32), este é um processo que começa na história e culmina na escatologia. O conceito de Reino não deve ser entendido “apenas” como um projeto de justiça social; ele é muito mais amplo. O Reino de Deus é primeiramente graça, ou seja, ele ultrapassa o tempo e o espaço, conforme assinala Maria Clara L. Bingemer: “Porém essa transcendência, que faz o Reino não se esgotar nos limites da história, se revela no seio desta história, nas situações concretas pelas quais passam diariamente homens e mulheres de toda sorte”.276 Portanto, o Reino de Deus não é território fora do mundo, nem limitado no interior do homem. Entende-se este o projeto do Reino como um acontecimento, uma ação na qual Deus manifesta o seu ser e o seu atuar no mundo. Clarice Lispector destaca na obra A hora da estrela que a vida moderna é vazia e solitária e profundamente mergulhada no individualismo, contrária, portanto à proclamação do Reino de Deus ao longo de toda a história, um Reino que tem como alvo homens e mulheres que se propõem a uma conversão, conversão esta que passa primeiro pelo compromisso com a realidade das vítimas de um sistema social e econômico desumanizador. [...] Por isso, o Reino de Deus, que inspira a vida de Jesus e que ele anuncia, diz alguma coisa sobre Deus na sua relação com a humanidade, e ao mesmo tempo fala sobre nossa relação com Deus. É uma realidade experienciada, tanto teológica quanto antropologicamente. De fato, uma realidade [grifo do autor], porque para o próprio Jesus o Reino de Deus não é apenas um conceito ou doutrina, mas em primeiríssimo lugar uma realidade da experiência.277 275 GESCHÉ, Adolphe. A destinação. Tradução: Euclides Martins Balancin. São Paulo: Paulinas, 2004. p. 24. (Coleção Deus para pensar; 5). 276 BINGEMER, Maria Clara L. Jesus Cristo: servo de Deus e Messias glorioso. São Paulo: Paulinas, 2008. p. 58. (Coleção livros básicos de teologia; 8). 277 SCHILLEBEECKX, Edward. Jesus, a história de um vivente. Tradução: Frederico Stein. São Paulo: Paulus, 2008. p. 136. 94 2.4 O Reino de Deus: a desfatalização da história A atuação de Jesus não é neutra, ela manifesta o ser de Deus e convida o ser humano a uma constante revisão de vida. Esta revisão também pode ser compreendida como conversão. Este chamado à conversão é marca característica da presença do anúncio de Jesus (Mt3,2). A conversão expressa a possibilidade de transformação da vida, e esta transformação é explicitada pelo vocabulário bíblico essencialmente por meio da ideia de retorno. O verbo hebraico shoûv significa voltar ao ponto de partida. Ao aplicar esta ideia ao plano moral temse a conotação de mudança de comportamento. Trata-se de voltar-se para Deus e afastar-se do mal. 278 Verifica-se, portanto que a proclamação do Reino de Deus também é a proclamação da desfatalização da história. Dito de outra maneira, o mal que desumaniza o ser humano é o alvo da ação de Jesus. Para Gesché, o mal é aquilo que mais gera revolta no mundo, provocando uma série de indagações e inquietações. Essas inquietações podem ser percebidas na obra A hora da estrela à medida que o narrador Rodrigo S. M relata a sua incapacidade para falar da vida de Macabéa (dificuldade oriunda de uma vida sem atrativo algum). Esta mesma inquietação com relação ao mal é percebida também na Sagrada Escritura. Gesché relata que Deus é o primeiro a se opor ao mal “porque se encontra diante de algo que não pertence de modo algum ao seu plano e ele se preocupa em combatê-lo como uma adversidade com a qual não há aliança possível”. 279 [...] o mal que não pode encontrar sua justificação em uma racionalidade última. Está claro, ao se ler os relatos do Gênesis, que Deus não concorda de maneira alguma com o mal. No jardim do Éden, assim como no do Getsêmani, diante do torvelinho de Babel, assim como diante do dilúvio ou no caminho de Sodoma e Gomorra, dir-se-á que Deus fica “desanimado” (são Francisco de Sales): é verdade esse clamor que subiu até o céu (cf. Gn18,20-21)?[...].280 Esta postura de Jesus o coloca numa rota de colisão (rota de atropelamento) em relação aos dirigentes dos poderes político e religioso. A “colisão de Jesus” é resultado de uma prática consciente, enquanto Macabéa é atropelada num instante de distração. Jesus faz 278 LACOSTE, Jean-Yves. (dir.). Dicionário crítico de teologia. Tradução: Paulo Meneses...(et al.). São Paulo: Paulinas; Edições Loyola, 2004. p. 457. (Verbete conversão) 279 GESCHÉ, Adolphe. O mal. Tradução: Euclides Martins Balancin. São Paulo: Paulinas, 2003. p. 30. (Coleção Deus para pensar; 1). 280 Idem. Ibidem. 95 da sua prática histórica uma constante contestação dos sistemas que desumanizam. Conforme aponta Maria Clara L. Bingemer: “Jesus assume a conflitividade da vida humana e se posiciona em favor dos excluídos, mostrando um Deus que está em contradição à situação religiosa sustentada pelos sacerdotes e doutores da lei”.281 3. A hora do espetáculo: o confronto mortal A morte de Jesus deve ser entendida como consequência da sua vida. O quarto evangelho denomina a subida de Jesus rumo a Jerusalém como a sua “hora” (que Jesus conhece, espera e aceita). Paralelamente, Macabéa também tem a sua hora, refere-se à hora do espetáculo, pois a obra A hora da estrela é tecnocolor e patrocinada pelo refrigerante sabor cola, fiel representante do modelo cultural atual. As consequências antropológicas pontuadas na obra A hora da estrela estão presentes nos dias atuais, conforme se pode constatar na obra A cultura mundo: resposta a uma sociedade desorientada, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy. A obra A cultura-mundo [grifo do autor] faz uma análise da elaboração da cultura atual. Para os autores da obra, o termo cultura-mundo significa a universalização da cultura mercantil, ou seja, uma cultura dominada pelo mercado (indústria), que, por sua vez, sequestra todos os modos de existência humana. “Com a cultura mundo, dissemina-se em todo o globo a cultura da tecnociência, do mercado, do indivíduo, das mídias, do consumo; e com ela, uma infinidade de novos problemas que põem em jogo questões [...] existenciais (identidade, crenças, crise de sentidos, distúrbios da personalidade...)”.282 Esta universalização apontada por Lipovetsky e Serroy constituiu um modelo cultural (regido pelo mercado econômico) globalizado que se impõe sobre as instituições sociais. A obra A cultura mundo reafirma que o ser humano cada vez mais vive profundamente marcado pelo individualismo e pelo materialismo. Clarice indica esta característica por meio da ausência de diálogo entre os personagens na trama. Os valores hedonistas, a oferta sempre mais ampla de consumo e de comunicação, a contracultura convergiram para acarretar a desagregação dos 281 BINGEMER, Maria Clara L. Jesus Cristo: servo de Deus e Messias glorioso. Op.cit. p. 58. SOUZA, Glaucio Alberto Faria de. O ser humano Imago Dei na Gaudium et Spes: uma abordagem da Doutrina Social da Igreja. 2013. p. 32. TCC (Pós-graduação Lato Sensu em Doutrina Social da Igreja) Faculdade Dehoniana de Taubaté-SP. 282 96 enquadramentos coletivos (família, Igreja, partidos políticos, moralismo) e ao mesmo tempo uma multiplicação dos modelos de existência: daí o neoindividualismo do tipo opcional, desregulado, descompartimentado. A “vida à la carte [grifo do autor]” tornou-se emblemática desse Homo individualis [grifo do autor] desenquadrado, liberto das imposições coletivas 283 e comunitárias. E mais: A obra A cultura-mundo [grifo do autor] relata a transformação no entendimento de cultura. Num primeiro momento, a cultura era edificada com as normas herdadas da tradição. Este entendimento não se concretiza na sociedade atual, na medida em que ela se afasta das grandes narrativas que ajudaram a sociedade a construir os valores sociais, a sociedade pósmoderna se tornou um setor econômico em plena expansão, a tal ponto considerável que se chega a falar, não sem razão, de “capitalismo cultural”. Percebe-se um deslocamento do cultural para o mercantil, a cultura passa a ser massificada, ela não está interessada no ser humano e sim no business [grifo do autor], que tem como objetivo a padronização da produção em série. “Daí em diante, é o planeta inteiro, todas as origens, cores, sexos, classes e idades, de maneira global, que se tornam o público do cinema, dos discos e do audiovisual”.284 Esta massificação do ser humano, como já dito anteriormente, é representada na obra A hora da estrela pelo rádio-relógio, pelos hot-dogs, pelos cabelos alourados de Glória, pelo desejo consumista representado pelo dente de ouro de Olímpico, pela prostituição de Carlota, e pelo descaso do médico que trata a pobre alagoana como um objeto descartável. Este fenômeno de massificação do ser humano, na compreensão de Lipovetsky e Serroy, é fruto da indústria cultural, que tem como único objetivo a diversão e a distração. Por se tratar de uma indústria, entende-se que a cultura deve ser consumida, por isso, “[...] um filme expulsa o outro, uma estrela dá lugar a uma nova, um disco substitui o anterior”. 285 Esta massificação fica mais evidente quando surge o cinema. O cinema lança uma nova figura que servirá de modelo para muitos seres humanos, trata-se da estrela, até Macabéa queria ser como Marylin Monroe. Ressalta-se também a importância da televisão nesta massificação propiciando uma forma de linguagem capaz de modelar uma apreensão do mundo. Atualmente, com a internet, esta cultura comunicacional ultrapassa quase todas as fronteiras. Segundo Lipovetsky e Serroy, esta dinâmica comunicacional somente aumenta o individualismo do ser humano, 283 LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A cultura-mundo... Op.cit. p. 48. SOUZA, Glaucio Alberto Faria de. O ser humano Imago Dei na Gaudium et Spes... Op.cit. p. 33. 285 LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A cultura-mundo.... Op.Cit. p. 72. 284 97 crescendo o número de indivíduos descomprometidos, que assistem passivamente a dor e o sofrimento alheio como um espetáculo, conforme o relato da morte de Macabéa, que morre ignorada pelo mundo urbano.286 Para Lipovetsky e Serroy, o mundo se tornou uma grande tela orientada pela era das celebridades, com o seu quinhão de vazio, são celebridades passageiras, celebridades do efêmero, dos reality-shows, afinal é A hora da estrela. A hipervisibilidade das pessoas revela o avanço imaginário igualitário, o culto do sucesso e dos valores individuais, e ao mesmo tempo o poder da cultura psicológica que acompanha a dinâmica de hiperindividualização contemporânea. Fenômeno de massa, o interesse dirigido às celebridades é o sinal manifesto de uma necessidade de personalização no mundo impessoal do universo mercantil, bem como da expansão do domínio do consumível e da moda, com seu quinhão de sonho e de evasão individualista.287 A hora de Macabéa é a sua morte. Ali ela se torna estrela, uma celebridade passageira que logo será esquecida. Com este relato Clarice expressa a ambiguidade de nossa sociedade atual, pois ao mesmo tempo em que universaliza um modo de viver voltado para o consumo, determina quem dele pode usufruir. O carro de luxo que atropela a jovem alagoana representa a pertença a um grupo, é um elemento de definição de partilha de valores apenas entre os que não estão preocupados com as Macabéas que teimam em sonhar e viver. 3.1 A hora de Jesus Os evangelhos também mencionam “a hora de Jesus”. Entende-se a hora de Jesus como a sua partida deste mundo (Jo13,11); esta hora representa a força dos seus inimigos e do poder das trevas (Lc22,53). Macabéa foi atropelada inconscientemente pelo sistema que exclui, diferentemente de Jesus que: “caminha resoluta e livremente. Os evangelhos deixam claro que não é a multidão que o arrasta e sim ele mesmo [...] decide enfrentar o confronto [...]”.288 A hora de Jesus é relatada no evangelho segundo João na cena do lava-pés (Jo13), na noite que antecede a paixão de Cristo. Segundo a descrição de Joseph Ratzinger (Bento XVI), em seu segundo livro Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressureição, duas 286 Confira o segundo capítulo p. 29. LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A cultura-mundo.... Op.cit. p. 86. 288 BINGEMER, Maria Clara L. Jesus Cristo: servo de Deus e Messias glorioso. Op.cit. p. 100. 287 98 características servem de eixo no qual ele concentra a sua atenção. Para Ratzinger, o essencial da hora de Jesus são a passagem e o amor. As duas expressões clarificam-se reciprocamente, sendo inseparáveis uma da outra. O amor é precisamente o processo de passagem, da transformação, da saída dos limites da condição humana votada [sic] a morte, na qual todos estamos separados uns dos outros e, no fundo, impenetráveis uns aos outros – numa alteridade que não podemos ultrapassar. É o amor até o fim que realiza a “metábasis” [grifo do autor] aparentemente impossível: sair das barreiras da individualidade fechada – eis o que é o agápe [grifo do autor] a irrupção na esfera divina.289 A hora de Jesus assume um aspecto de serviço e doação; trata-se de um momento inclusivo e não do descarte, como Clarice relata na sua narrativa. Jesus realiza um projeto divino do amor que não é fechamento egoísta e sim abertura ao outro. Para Juan Mateos, a hora de Jesus teve início no seu rompimento com as instituições opressoras de Israel (Jo2,13ss). “Esta é a sua hora (2,4; 12,23), a da manifestação da sua glória (12,23) [...]”.290 Se a hora de Jesus é expressão do amor e, segundo Mateos, esta hora se inicia na resistência, logo, o amor cristão não deve ser neutro diante da vida. Conforme a homilia do Papa Francisco na missa pelas vítimas dos naufrágios, na ilha de Lampedusa. 291 Francisco inicia a sua homilia com desejo de cumprir um gesto de solidariedade e também despertar a consciência de todos. E este despertar a partir da luz da Palavra de Deus, segundo ele, implica mudar concretamente certas atitudes. O papa provoca os seus interlocutores com duas indagações bíblicas. A primeira é: “Adão, onde estás?”, a segunda “Caim, onde está o teu irmão? A voz do seu sangue clama até Mim”, diz o Senhor Deus. Francisco continua: “Quem é responsável por este sangue?”. A homilia avança e ele faz uma pesada crítica à cultura do bem-estar. Para Francisco, o homem moderno perdeu o sentido de responsabilidade e solidariedade, pois, preocupado com as estrelas do momento, ele se parece mais como uma bola de sabão, que é vistosa por fora, mas sem vida por dentro. No final, o Papa reza para que a semente de Herodes (a indiferença alimentada pelo egoísmo) se apague do nosso coração. 289 BENTO XVI. Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressureição. Tradução: Bruno Bastos Lins. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011. p. 60. 290 MATEOS, Juan. O Evangelho de São João: análise linguística e comentário exegético. Tradução Alberto Costa. São Paulo: Paulus, 1999. p. 576. (Coleção grande comentário bíblico). 291 Homilia do Santo Padre Francisco. Missa pelas vítimas dos naufrágios. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/francesco/homilies/2013/documents/papa-francesco_20130708_omelialampedusa_po.html>. Acesso em: 10 julho 2013, 10:05:15. 99 A glória de Jesus é caracterizada pelo amor-doação. A cena do lava-pés narra Jesus colocando um avental (sinal de serviço) que não será mais tirado (Jo13,4-5). Na linguagem teológica este serviço é compreendido como esvaziamento (Kenosis). Verifica-se que a glória apresentada na obra A hora da estrela é oposta à proposta da glória de Jesus. Para Clarice, o ser humano moderno está direcionado para o luxo, sucesso, status e riqueza, enquanto a glória de Jesus é despojamento. (Fl2,6-11) Trata-se de uma estranha realeza para os dias atuais, conforme destaca Yves-Marie Blanchard: Embora reconheça a Jesus certo tipo de glória, o quarto evangelho adverte que seria um erro identificá-la pura e simplesmente com a glória humana (5,41;12,43). Esta última não tem outro horizonte além de sua própria satisfação; trata-se de uma espécie de afirmação pessoal (7,18;8,50), à qual Jesus não dá nenhum valor: “Se glorifico a mim mesmo, minha glória nada é” (8,54). Trata-se, na melhor das hipóteses, de um reconhecimento mútuo, adquirido no seio de um grupo voltado para a sua própria identidade, essa atitude narcisista, embora experimentada coletivamente, parece incompatível com a fé, que implica, necessariamente, uma disponibilidade para o outro, uma transposição das perspectivas, uma experiência do encontro: “Como podereis crer, vós que recebeis vossa glória uns dos outros? (5,44)”.292 Clarice, por meio da sua escrita, busca clarificar a existência humana e fala do triângulo amoroso entre Olímpico-Macabéa-Glória. Estes “relacionamentos” são relatados por Clarice como uma relação de gratificação imediata. O que Olímpico busca não é o amor, e sim oportunidade de realização pessoal, ele quer a melhor opção para satisfazer seus anseios. Ao apontar esses modelos de relacionamentos pensa-se que Clarice denuncia uma compreensão arbitrária da palavra amor. A hora de Jesus resgata a compreensão do amor no plano divino. Na concepção bíblica o termo ágape exprime a experiência do encontro, da descoberta do outro. Trata-se do amor que “não se busca a si próprio, não busca a imersão no inebriamento da felicidade; procura em vez disso o bem do amado: tornando-se renúncia [...]”.293 4. Existe esperança? A hora da estrela apresenta um ser humano sedento por viver. Mesmo submetida a uma vida de sofrimento e solidão, Macabéa não perde a esperança e deseja um futuro diferente. Seu encontro com dona Carlota (a cartomante) a deixa cheia de esperança, ela está 292 BLANCHARD, Yves-Marie, São João. Tradução: Mariana N. Ribeiro. Echalar. São Paulo: Paulinas, 2004. p. 62. (Coleção Bíblia e história). 293 BENTO XVI. Deus caritas est. Carta Encíclica, 2006. São Paulo: Loyola; Paulus, 2006. p.13. 100 grávida (fértil) de futuro, enfim, ela vai ser amada e terá felicidade. Mas, esta felicidade não dura muito; num momento de êxtase é atropelada (pisada, desprezada, empurrada, empuxada, preterida) pelo símbolo do luxo que é marca desta cultura desumanizante. Diante deste fato, Clarice questiona: “.Quanto ao futuro.”. No segundo capítulo desta pesquisa, esta expressão foi trabalhada como algo fechado, ou seja, neste modelo de vida denunciado pela obra a vida dos mais fracos está por um fio. Deste modo, as coisas não podem continuar. Diante do sofrimento e da morte de Macabéa (que é símbolo da realidade de milhões de pessoas), Clarice faz uma pergunta e espera por uma resposta. Qual é a resposta do cristianismo para as vítimas desta sociedade apática? Existe esperança para os enferrujados da vida? Existe uma alternativa a uma vida sem sentido? Como frear a opressão do sistema neoliberal? Segundo Adriano Sella, o modelo cultural regido pelo mercado promove um intenso sacrifício humano por meio da fome e da miséria. Trata-se de uma transfusão de sangue, no qual se retira o sangue do ser humano até a morte e o aplica no sistema neoliberal. 294 Para o economista e cientista social Franz J. Hinkelammert, o império do mercado é demoníaco, sendo comparável ao próprio Lúcifer. 295 Percebe-se que Clarice tem razão em colocar este “.Quanto ao futuro.” de forma fechada, pois desta maneira não é possível continuar. Não há como reformar este modelo cultural econômico, é preciso uma alternativa. Para Clarice, a morte de Macabéa será a sua liberdade; nela ela terá uma alternativa de vida: enfim estará livre! Embora Clarice trabalhe a questão do futuro como algo fechado, não significa dizer que ela é negativa. Ela apresenta a morte de Macabéa como a sua liberdade e indica ao seu leitor que é tempo de morangos (possibilidade de algo novo).296 Clarice nutre a esperança de um recomeço, tanto para Macabéa como para a sociedade. 4.1 A morte de Jesus A morte de Jesus é resultado da sua prática. Ele sabe que vai doar a sua vida e também possui consciência de que vai retomá-la (Mc9,31); Macabéa é o oposto de Jesus, ela não resiste, não tem consciência e não doa vida alguma. Jesus foi uma verdadeira resistência 294 SELLA. Adriano. Globalização neoliberal e exclusão social: alternativas...? são possíveis! 2. ed. São Paulo: Paulus, 2003. p. 23. (Coleção Temas da atualidade). 295 Ibidem, p. 53. 296 Confira o segundo capítulo p. 38-39. 101 diante dos dominadores da época e, por esse motivo, Ele enfrentou dois processos, um religioso e o outro político. Em ambos Ele foi condenado à morte, na cruz. Por conseguinte, há de se entender o que significa a cruz no Império Romano. A morte na cruz é uma morte lenta, prolongada. Trata-se de um espetáculo, de um exemplo, para demover as pessoas de fazerem a mesma coisa. Destaca-se que a cruz é um castigo reservado aos criminosos políticos; por meio dela o Império Romano deseja dissuadir os seguidores de Jesus de qualquer adesão ao Reino que já chegou. Para muitos, falar sobre a cruz na atualidade é algo negativo, pois estes a entendem como a negação do bem-estar da vida. “Há quem a julgue perversa por impedir os homens de perseguirem sem remorso a plena expansão, gozarem da vida”. 297 Porém a morte de Jesus revela que é preciso levar com seriedade o amor ao próximo. Sua morte violenta atesta a desumanidade da sociedade, retratada no livro de Clarice pelo atropelamento de Macabéa. E mais, Jesus denuncia a ilusão de existir um “paraíso” enquanto se zomba dos mais fracos. Segundo Duquoc: “A cruz põe a nu a ilusão em que desejamos manter-nos, supondo que o humano é já dado: existe o desumano; o humano está ainda por cumprir-se, é uma tarefa a realizar; e se o seu nascimento é doloroso, é porque o desumano nos cerca por todos os lados”.298 A cruz associada à vida de Jesus revela que toda sua ação é salvífica, toda sua prática é um caminho de solidariedade, de nascimento, de reestruturação do humano e, por isso, é resposta a todas as vítimas, ao mesmo tempo em que ilumina as ações desumanizantes. 4.2 Reavivando a esperança A esperança é um dado antropológico, e reavivá-la é escavar o profundo do ser humano em busca de sua originalidade. A esperança foi o fio condutor de toda a vida de Jesus. A proposta do Reino é proposta de esperança, por isso, Ele dedicou sua vida à construção de uma alternativa à sociedade de sua época. Seu ensinamento sobre o Reino de Deus possui duas dimensões: a do hoje e a do amanhã. O presente e o escatológico indicam que a proposta de construir um novo modelo social, no qual os seres humanos podem se relacionar dignamente, faz parte dos projetos de Deus. 297 DUQUOC, Christian. A loucura da cruz e o humano. In CONCILIUM Revista Internacional de Teologia 175, (1982/5), p. 109. 298 Idem. Ibidem. 102 Porém, é exatamente esta proposta alternativa de vida que leva Jesus à morte. Jesus crucificado para os discípulos era sinal de derrota, no meio deles também surgiu a pergunta: Quanto ao futuro? Verifica-se que os apóstolos também fizeram a experiência de uma morte desconcertante, ao ponto de fugirem (Mc14,27). Percebe-se a frustração dos discípulos no relato do caminho de Emaús (Lc24,21). A morte de Jesus se torna mais escandalosa pelo fato de os judeus entenderem que a pessoa crucificada é abandonada por Deus. Então acabou a esperança? Todos os seus ensinamentos foram em vão? A ressurreição demonstra que não, nada foi em vão! Ela é a confirmação da fidelidade de Deus, é a realização de todas as utopias humanas, é também aprovação da vida de Jesus como vida que vale a pena ser vivida. Para Macabéa, ao contrário, a esperança de uma mudança radical de vida surge apenas em seus últimos instantes de vida. E a mudança de vida se dá quando lhe é interrompida a vida, pois, de outro modo, isso não lhe seria possível. Se Macabéa tem a sua história interrompida pela morte, a vida de Jesus continua. Ele está vivo! Esta é a grande afirmação cristã, a ressurreição o situa no hoje de nossa história, o que implica, portanto, na inserção definitiva do eterno na história. A história é o lugar de Deus. Não se diz que Jesus foi embora, se diz que ele está vivo entre nós. Sendo a ressurreição a confirmação da vida de Jesus e da proclamação do Reino, ela apresenta uma novidade importante. Ela não é obra humana, é obra do Pai que eleva Jesus cumulando-o com a força do Espírito Santo. Verifica-se na ressurreição uma postura crítica por parte de Deus aos modelos sociais que não tenham como prioridade a vida humana e a sua dignidade. Por conseguinte, com a ressurreição os seguidores de Jesus voltaram a ter esperança. Esta esperança aumenta na medida em que o cristianismo “católico” afirma que a ressurreição acontece nos Infernos. Para falar da ressurreição a partir do viés da “descida ao inferno” vale aproximar-se, mesmo que de maneira sintética, da cosmologia do povo hebreu. O ser humano entende a morte como um fenômeno biológico; trata-se de um instante no qual a vida se vai. Mas para os Hebreus a morte é entendida de outra maneira. Morrer é dar o último suspiro e é também entrar no mundo dos mortos (Xeol ou Hades). “A morte não é um drama de um instante, ela é um acontecimento que consiste em viver a vida dos 103 mortos”.299 Segundo Gesché, a ressurreição é a vitória de Jesus que sai da morada dos mortos e não do túmulo vazio. Crer na ressurreição de Jesus é acreditar que a morte pode ser vencida no seu território, que o amor que impulsionou toda a vida de Jesus (Jo3,16) é mais forte que a morte. 5. Quanto ao futuro? Para o teólogo Pablo Richard, a comunidade cristã precisa reavivar a esperança e propor alternativas urgentes a este modelo social atual. Não basta ouvir o grito dos pobres e o grito da terra. Não é suficiente defender a vida de todos e todas e a vida da natureza. Também não é suficiente dar um testemunho profético, ético e anti-idolátrico em favor da vida. Tudo isso é necessário, é tarefa permanente. Hoje é urgente reconstruir a esperança e propor alternativas. As palavras-chave, hoje em dia, entre os pobres, são Esperança e Alternativas. É urgente passar do protesto para a proposta. A opção preferencial pelos pobres deve nos acumular de Espírito e Liberdade na busca de alternativas concretas e acreditáveis para os pobres e excluídos. A opção pelos pobres que a Igreja faz só tem sentido num horizonte concreto de esperança, em que apareça a possibilidade de uma sociedade sem exclusão e sem destruição da natureza [grifo do autor].300 Percebe-se a urgência da transformação do modo de viver da sociedade. Verifica-se uma profunda sintonia na denúncia de Clarice (na qual todas as personagens da obra são vítimas do sistema) com o pensamento de Pedro Casaldáliga: “‘Nenhuma escravidão no mundo tem sido mais cruel que o capitalismo neoliberal. Nenhuma escravidão fez mais escravos, nenhuma guerra tem feito mais vítimas que o neoliberalismo mundializado, isto é evidentíssimo’” [grifo do autor].301 O modelo capitalista-tecnicista está remodelando o funcionamento de todas as culturas; em todo o mundo a palavra “crescimento” se tornou sagrada, dito de outra maneira, o mundo se tornou um único bloco que deseja gozar da artificialidade do consumo, como relata Gilles Lipovetsky e Jean Serroy: “Daí em diante, mais nenhuma civilização está à margem do avanço da cultura-mundo, mais nenhuma escapa à experiência da desorientação social e individual que ela gera”. 302 299 GESCHÉ, Adolphe. O Cristo. Op.cit. p. 151-152. RICHARD, Pablo. A Igreja opta pelos pobres e contra o sistema de globalização neoliberal. Em: Revista Convergência, maio 2001. p. 207. Apud SELLA. Adriano. Globalização neoliberal e exclusão social: alternativas...? são possíveis! 2 ed. São Paulo: Paulus, 2003. p. 76. (Coleção Temas da atualidade). 301 SELLA. Adriano. Globalização neoliberal e exclusão social... Op.cit. p. 76. 302 LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A cultura-mundo... Op.cit. p. 64. 300 104 Portanto, hoje é necessário superar este modelo que se impõe como pensamento globalizado, não há como fazer alianças, a humanidade e a natureza não podem ser tratados como instrumento descartável. É urgente a passagem de uma sociedade neoliberal para uma sociedade solidária, capaz de resgatar os valores da proposta alternativa de Jesus presentes no Reino de Deus. Na busca da construção de um novo modelo cultural a esperança aparece como um motor do possível. Não existirá uma mudança se não existir a esperança de que algo novo pode ocorrer. Vê-se que a primeira forma de mudar a realidade dos fatos é acreditar, é sonhar que a história pode ser mudada, pois a vida sem esperança se torna uma vida vazia de significação. Percebe-se na sociedade atual certa resignação com a desumanização do ser humano. Expressões como “não adianta isso”, “as coisas não vão mudar”, “isso não é problema meu” são sinais de um pessimismo preocupante que está sendo espalhado no meio das massas, tentando fazer dissuadir o ser humano de se engajar em um projeto de transformação de realidades, quiçá da própria realidade. 5.1 Um Deus solidário/uma comunidade solidária Para construir uma nova sociedade é necessário um novo modelo social, no qual o ser humano seja respeitado em sua dignidade, um modelo no qual o capital não seja o centro de tudo. O primeiro passo é a construção de um projeto de solidariedade. Entende-se solidariedade como responsabilidade pelo outro, tendo privilégio os mais indefesos da sociedade. Falar de solidariedade para com os mais fracos é falar do Reino de Deus, é retomar a proposta de Jesus como resposta ao individualismo atual, é não ter o outro como um estrangeiro, mas como um concidadão (Lv19,33-34). A solidariedade assume características próprias do amor cristão, que é o acolhimento do outro. A alteridade torna-se proximidade diaconal e, portanto, responsabilidade com a vida de todos, como relembrou o Papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) realizada no Brasil no mês de Julho de 2013, quando reuniu com o episcopado brasileiro (sábado, 27 de julho de 2013).303 Veem então a imagem da Imaculada Conceição. Primeiro o corpo, depois a cabeça, em seguida a unificação de corpo e a cabeça: a unidade. Aquilo que estava quebrado retoma a unidade. O Brasil colonial estava dividido pelo 303 PAPA FRANCISCO. Visita apostólica do Papa Francisco ao Brasil por ocasião da XXVIII Jornada Mundial da Juventude: Pronunciamentos no Brasil. São Paulo: Paulus; Loyola, 2013. p. 57-58. 105 muro vergonhoso da escravatura. Nossa Senhora Aparecida se apresenta com a face negra, primeiro dividida, mas depois unida nas mãos dos pescadores.304 Esta mensagem do Papa Francisco é um profundo ensinamento; quer dizer a “recomposição do que está fraturado”, trata-se da retirada de qualquer muro e distância que separam o ser humano. Segundo Francisco, este relato da aparição de Nossa Senhora é um convite para que a Igreja seja instrumento de reconciliação, reconciliação pelo amor, pela doação, pela simplicidade. Ele ressalta ainda que Aparecida é um lugar de cruzamentos entre os Estados do Rio-São Paulo-Minas Gerais, “indica que Deus aparece nos cruzamentos da vida, nos cruzamentos da história”. Com essa analogia, ele quer exortar os cristãos a assumirem a sua missão retirando os muros, indo aos cruzamentos, às ruas do “Acre” onde se encontram as Macabéas, os Olímpicos, gente que constantemente tem a dignidade afrontada. Retirar os muros é ir ao encontro, é entrar em contato direto com a realidade sofrida, pois este contato precisa gerar indignação e reação de quem se diz cristão. A ação cristã é fruto de uma paixão e mística que ganha força à medida que se encontra com as vítimas da sociedade como Jesus fez (Jo5,5; 8,1-11; 9,1s). Esta solidariedade é percebida nos evangelhos que relatam a presença constante de Jesus entre os pobres (Mt10,47-52). Constata-se que a atitude de Jesus é sempre de proximidade solidária, de compaixão, de envolvimento, como no relato do evangelho segundo Mateus: “Ao ver a multidão teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida [...]” (Mt9,36). A esperança move o ser humano para a realização de novos projetos, mas a ressurreição mostra que o projeto de Deus é o único capaz de gerar vida digna para todos. Toda ação eclesial deve ter como proposta a construção do Reino, que só será possível se envolver toda a comunidade para um engajamento no seguimento de Jesus e na sua prática em favor da vida. Trata-se de promover a vida em todas as suas dimensões, como relata a Carta Encíclica Caritas in Veritate: “[...] Amar alguém é querer o seu bem e trabalhar eficazmente por ele. Ao lado do bem individual, existe um bem ligado à vida social das pessoas: o bem comum”. 305 Entende-se bem comum como o “conjunto de condições da vida social que fazem possível às associações e a cada um dos seus membros atingirem o alvo mais pleno e mais 304 PAPA FRANCISCO. Visita apostólica do Papa Francisco ao Brasil por ocasião da XXVIII Jornada Mundial da Juventude: Pronunciamentos no Brasil. Op.cit. p. 14-16. 305 BENTO XVI, Caritas in Veritate: sobre o desenvolvimento integral na caridade e na verdade. Carta Encíclica, 2009. São Paulo: Paulus; Loyola. n. 7. 106 fácil da própria perfeição”.306 O bem comum é superior ao interesse privado, inseparável do bem da pessoa e compromete os poderes públicos a reconhecer, respeitar, e promover os diretos humanos. A fé cristã tem muito a oferecer à sociedade atual e aos detentores do poder político. Como resposta ao individualismo, pode fomentar a solidariedade olhando para a vida das Macabéas e, a exemplo do Mestre, enfrentando aqueles que dominam e alijam o ser humano. O anúncio do evangelho não é somente um conjunto de doutrinas, ele vai além, tornando-se um combate/resistência perante as forças que jogam seres humanos nas sarjetas da vida. Defender a vida é enfrentar as forças que a ameaçam. Não se trata de uma batalha espiritual travada num mundo platônico, mas da vida concreta, vida de seres como Macabéa que passam fome, vida que se esvai em hospitais por falta de atendimento ou de atenção, vida cheia de opressão e alienação, vida sem futuro, ou, metaforicamente falando, vida sem vida. Antonio Manzatto faz uma alusão interessante a respeito da defesa da vida: “A vida que precisa ser, primariamente, defendida, é a vida humana concreta, atual, terrestre, e não celeste”.307 Nesta mesma linha a Encíclica Caritas in Veritate afirma que o amor ao próximo se torna cada vez mais eficaz na medida em que se trabalha em prol das necessidades humanas. Por fim, dar esperança é fazer-se solidário, é assumir a responsabilidade pelo outro, pois a esperança cristã também se realiza como compromisso social, não estando fechada no íntimo da alma. Não, ela deve transbordar-se numa resistência constante contra os dominadores que insistem em querer dominar e escravizar o ser humano; deve transbordar-se no acolhimento ao outro, como nos falou o Papa Francisco quando em visita à comunidade de Varginha, na cidade do Rio de Janeiro: E é importante saber acolher; é algo mais bonito que qualquer enfeite ou decoração. Isso é assim porque quando somos generosos acolhendo uma pessoa e partilhamos algo com ela – um pouco de comida, um lugar na nossa casa, o nosso tempo - não ficamos mais pobres, mas enriquecemos [...] E povo brasileiro, sobretudo as pessoas mais simples, pode dar para o mundo uma grande lição de solidariedade, que é uma palavra frequentemente esquecida ou silenciada, porque é incômoda [...].308 306 GS 26. MANZATTO, Antonio. Teologia e Literatura... Op.cit. p. 235. 308 PAPA FRANCISCO. Visita apostólica do Papa Francisco ao Brasil por ocasião da XXVIII Jornada Mundial da Juventude: Pronunciamentos no Brasil. Op.cit. p. 20-22. 307 107 No encontro com os jovens argentinos, Francisco destaca a urgência de sair ao encontro das vítimas, de sair às ruas, de ir aos cruzamentos – e por que não às sarjetas encontrar-se com Macabéa (signo das vítimas). (Quinta-feira, 25 de julho de 2013). Desejo dizer-lhes qual é a consequência que eu espero da Jornada da Juventude: espero que façam barulho. Aqui farão barulho, sem dúvida. Aqui, no Rio, farão barulho, farão certamente. Mas eu quero que se façam ouvir também nas dioceses, quero que saiam, quero que a Igreja saia pelas estradas, quero que nos defendamos de tudo o que é mundanismo, imobilismo, nos defendamos do que é comodidade, do que é clericalismo, de tudo aquilo que é viver fechados em nós mesmos. As paróquias, as escolas, as instituições são feitas para sair; se não o fizerem, tornam-se uma ONG e a Igreja não pode ser uma ONG. Que me perdoem os Bispos e os sacerdotes, se alguns depois lhes criarem confusão. Mas este é o meu conselho. Obrigado pelo que vocês puderem fazer.309 A exortação do Papa Francisco (e de São Francisco de Assis) é que os cristãos não fiquem indiferentes ao sofrimento de tantos que estão à margem de um sistema que nós mesmos insistimos em alimentar e que nos aprisiona, corrói nossas esperanças e mata tantas Macabéas ávidas por dignidade, como aquele homem que descia de Jerusalém a Jericó e caiu nas mãos de ladrões que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto (Lc10,30). À luz dos Evangelhos, o pontífice nos chama à solidariedade, ao amor ao próximo, ao seguimento do modelo misericordioso de Jesus, que o apóstolo Paulo tão bem resumiu: "Ele é imagem do Deus invisível, a primazia de tudo. Nele, Deus reconciliou a todos nós” (2Col 1,15-20). O Reino de Deus somente pode ser conquistado pelos gestos da fraternidade: O samaritano aproximou-se dele e fez curativos, derramou azeite e vinho nas feridas; colocou o homem no animal, levou -o a uma pensão, deu-lhe dinheiro, e disse: “quando voltar, vou pagar o que gastar a mais". E Jesus perguntou ao doutor da Lei: “Quem você acha que foi o próximo?”, ao que o doutor respondeu: “Aquele que usou de misericórdia”. Então, Jesus lhe disse: “Vai e faze tu o mesmo" (Lc10,30-37). 309 PAPA FRANCISCO. Visita apostólica do Papa Francisco ao Brasil por ocasião da XXVIII Jornada Mundial da Juventude: Pronunciamentos no Brasil. Op.cit. p. 23-25 108 6. Conclusão A reflexão teológica que procuro fazer a partir da antropologia apresentada pela obra A hora da estrela busca traçar as semelhanças entre Macabéa e Jesus Cristo. Evidentemente que, à primeira vista, é possível vislumbrar apenas as muitas diferenças: Macabéa é um ser alienado, não tem um projeto de vida, e é levada, arrastada mesmo, por uma vida medíocre, sem perspectivas. Jesus, por sua vez assume o projeto de Deus. Em Nazaré, cresce em estatura e graça, prepara-se para o anúncio da Boa-Nova. Para realizar a missão do Pai, sai em defesa da vida, se coloca na contramão de uma sociedade que exclui e marginaliza. Incomoda as autoridades de sua época ao inverter os valores daquela sociedade, ao promover a partilha, a solidariedade e a fraternidade. Acaba crucificado; entrega a sua vida para nos devolver o direito a ela. Sim, embora tão diferentes, os personagens possuem pontos de aproximação. O mais gritante talvez seja a realidade de profunda dominação das sociedades em que viveram. Ambas as realidades não favorecem a vida dos mais pobres, tão própria de nossos dias. A morte da desvalida Macabéa será a sua liberdade, enquanto a morte de Jesus é a esperança de vida de liberdade para toda a humanidade, por isso resposta a todas as vítimas de condições que desumanizam. Diante da vida e morte de Macabéa, a autora Clarice Lispector questiona a possibilidade de existir algum tipo de futuro através da expressão: “.Quanto ao futuro.”. Este “questionamento” de Clarice expressa o desejo de que este modelo cultural econômico tenha um fim, que as coisas mudem. Para a autora, é preferível que Macabéa morra – melhor morrer do que continuar vivendo naquele modelo sacrificial. Clarice espera por respostas para as muitas Macabéas de nosso tempo e para as que ainda estão por vir. Que elas não precisem morrer para alcançarem, enfim a liberdade que talvez nem sonhem. Este questionamento é também o de muitos cristãos, temerosos de um futuro igualmente sem respostas para os sonhos e anseios de tantas outras Macabéas de nosso tempo. O cristianismo afirma que Jesus é o messias, portanto, ele é a resposta, é aquele que traz a esperança da inauguração de um novo tempo, de um novo projeto de vida, voltado preferencialmente para as vítimas da sociedade. Este projeto, denominado Reino de Deus, é uma alternativa de vida e também uma resposta de Deus a todas as forças que desumanizam 109 nossa sociedade, forças tão bem representadas na obra A hora da estrela. A proposta do Reino mostra o caminho da libertação trazida por Deus. Diante do mal, Jesus não teoriza respostas, simplesmente assume a prática da resistência e do combate, ao mesmo tempo em que pede que todos os que se dizem cristãos se questionem e façam o mesmo. Para atender ao chamado de Jesus são precisos decisão e compromisso, deve haver uma mudança de vida, uma verdadeira conversão e acreditar na Boa Nova, no Projeto do Pai que Ele assumiu. Esta paixão pelo Reino e a resistência às forças contrárias a Jesus levaram O à morte. A ressurreição demonstra que a vida baseada no projeto do Reino vale a pena, pois é capaz de vencer a morte em seu território. A esperança é o primeiro passo para a transformação da realidade, logo, as comunidades cristãs são convidadas a serem promotoras da esperança nesta sociedade, assumindo o compromisso de ir ao encontro das Macabéas vítimas de nosso tempo, ou seja, fazer a opção pelos pobres, tal como o fez Jesus. 110 CONCLUSÃO GERAL A temática que envolve literatura e teologia tem sido amplamente discutida nos últimos anos. O trabalho aqui apresentado é resultado de uma pesquisa densa, tecida não por um literato, mas por um teólogo em construção, sedento pelo saber, ávido por entender as nuances de uma relação dialogal entre a teologia e a literatura, em quais circunstâncias se esbarram, se confundem, se complementam. Encontrei em Clarice Lispector o meu porto seguro. Ela é dona de uma obra que privilegia o ser humano, e no romance A hora da estrela revela toda a sua inquietude diante de uma realidade que desumaniza, escraviza, vitima os que não se encaixam nos ditames de uma sociedade capitalista. Se olharmos bem, deve ser essa mesma inquietude a tomar conta da teologia, a todo o momento, desafiada a apresentar respostas para uma sociedade que conserva as mesmas características apresentadas pela autora de A hora da estrela. Na tentativa de achar os pontos de aproximação entre literatura e teologia, que são tão distintas e particulares, busquei sustentação também em alguns escritores e teólogos. A literatura por seus procedimentos próprios aproxima seus interlocutores da vida real, sendo, portanto, uma importante mediação na análise da compreensão do ser humano, que é papel da teologia. Assim, à medida que a teologia se aproxima da literatura, aproxima-se também da vida real e pode manter com ela um diálogo profícuo, enriquecedor para ambas, mas, mais ainda para a teologia ao abrir-lhe novos panoramas para a reflexão. A ficção muito tem de realidade! Clarice Lispector é um dos nomes mais celebrados e enigmáticos da literatura brasileira. Sua obra não é de fácil assimilação. Sua linguagem é exigente, força o leitor a sair do convencional, a ultrapassar os limites do comum, a superar-se, a ir além. Os textos, complexos, não se deixam enquadrar em modelos predefinidos. Eles inspiram uma nova atmosfera, instigando novos questionamentos que tendem a abalar os sistemas de referências impostos pela sociedade e que já se encontram “inseridos” no nosso âmago, enraizados em nossas crenças, por isso mesmo, quase sempre ignorados, mas nem por isso, inócuos, ingênuos. Para entendê-los, também tive que quebrar alguns tabus ao me deparar com a 111 história da inexpressiva Macabéa. Confesso que não é necessário muito esforço para sentir aversão pela insossa personagem. Absorto pela pesquisa, cheguei a me colocar em estado de fastio ao ver a inabilidade de Macabéa em viver. Talvez seja este o esforço que a teologia precisa fazer para transitar em meio aos imensos desafios de nossa contemporaneidade – quebrar paradigmas. Mais que isso, A hora da estrela pode ter sido o último recado de Clarice Lispector aos que se acomodam diante das circunstâncias aparentemente banais da vida. Ela mesma diz que se trata de um livro inacabado. Terminá-lo, dar um final feliz à trajetória de tantas Macabéas de nossos dias pode ser uma tarefa que nós cristãos, teólogos, homens da Igreja temos que abraçar para transformar e construir aqui na terra o Reino de Deus que Jesus inaugurou no meio de nós. Isso só será possível a partir do momento em que, como Clarice Lispector, nos inquietarmos mais e a ponto de sairmos do lugar para transformar realidades, superando todo e qualquer individualismo apático. “Por que viver dessa maneira não é mais possível.” 112 BIBLIOGRAFIA 1. DE CLARICE LISPECTOR LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. LISPECTOR, Clarice. Água viva. 10. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. 2. SOBRE CLARICE LISPECTOR GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: uma vida que se conta. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2011. GUIDIN, Márcia Lígia. A Hora da Estrela: Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1994. KADOTA, Neiva Pitta. A Tessitura Dissimilada: O social em Clarice Lispector. 2. ed. São Paulo: Editora Liberdade, 1999. KANAAN, Dany Al-Behy. À escuta de Clarice Lispector: Entre o biográfico e o literário: uma ficção possível. São Paulo: EDUC, 2003. LANZA, Sonia Maria. A Hora da Estrela: Fragmentos de um texto plural. 1996. 142 p. 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