Nr.º 3 • Março / Abril de 2014
Oito edições anuais
www.fundacao-ais.pt
ISSN 0873-3317
Foto: ACN/Andrzej Polec
“A Cruz não é uma maldição, mas uma
bênção. Faz parte essencial do
Cristianismo. Cada um de nós tem de
reviver a vida de Cristo na terra.
Por isso, a nossa missão não consiste
apenas em anunciar a Sua Boa Nova e
em praticar o Seu amor, mas sobretudo
em participar no Seu sacrifício na Cruz,
que Ele continua a oferecer
até ao fim dos tempos.”
Viver sob o sinal da cruz: Sexta-feira Santa em Cartum /
Sudão.
Queridos amigos,
Estes dias da Quaresma estão relacionados com os quarenta dias de Jesus no deserto e estão marcados pela recordação da
luta contra o tentador. Alimentado pela
Palavra de Deus, no deserto, Jesus supera
as seduções do demónio e escolhe a vontade do Pai: a nossa redenção
através do sofrimento e da
morte na Cruz.
Durante este tempo também
nós queremos encontrar força
e alegria na Palavra de Deus
para seguir o Senhor no Seu
caminho. Só quem percebe o mistério do
sofrimento por amor compreende a fonte
e a dimensão da força e da alegria cristãs.
É da Cruz que nos vem a força necessária
para seguirmos em frente todos os dias –
na família, no trabalho, nas relações com
o próximo – e para testemunharmos a fé
em Cristo através de boas acções.
O mistério insondável da Cruz torna-se
presente, particularmente, na celebração
da Eucaristia. Aí torna-se para nós alimento no Pão vivo. Na presença eucarística de Jesus também ganhamos uma
consciência maior de que não passamos
de pobres pecadores. Reconhecemos a
P. Werenfried van Straaten (1913-2003)
nossa fraqueza e vulnerabilidade. Mas
esta tomada de consciência da nossa condição pecadora não nos leva ao desânimo
e à resignação. Pelo contrário: o sofrimento e a entrega até à morte na Cruz
acende em nós uma nova confiança no
amor misericordioso de Deus, que nos
atrai como um imã para nos envolver no
rependimento naquela alegria transbordante que distingue a vida da graça. Aceitemos agradecidos também as pequenas
cruzes do dia-a-dia para participarmos no
amor do Crucificado. O beneditino belga,
Paul von Moll, afirmou certa vez: “Se soubessemos a grande graça que é Deus confiar-nos uma cruz, consideraríamos um
martírio não levar nenhuma.”
Voltando-nos
para a Cruz, não
“O sofrimento e a entrega
nos esqueçamos de cuidar
até à morte na Cruz acende
amorosamente daquela parte
em nós a confiança no amor da Igreja marcada pelas feridas
misericordioso de Deus.”
abertas do Redentor. Entreguemos os perseguidos, os que soabraço do perdão. A Quaresma está toda frem, mas também os que ainda não
marcada pela comoção e gratidão face à conhecem o amor de Deus, ao coração de
bondade e à incomparável ternura do Nossa Senhora das Dores – a ela que Jesus
nosso Deus que chama o pecador a Si no nos deu a todos como Mãe, do alto da
Senhor crucificado e o renova pelo arre- Cruz.
pendimento e pela penitência.
Vivamos este tempo conscientemente sob Abençoa-vos,
o sinal da Cruz. Da Cruz nos vêm bênçãos
e salvação. Da Cruz, Satanás tem medo
porque ela nos leva ao caminho do arrependimento e da conversão. Vivamos, por
isso, este tempo de reencontro e conversão
de modo a que leve a uma confissão sacramental sincera. Só esta pode transformar
Cardeal Mauro Piacenza,
radicalmente o desânimo, a tristeza e o arPresidente da AIS
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média
Dar um fundamento ao espírito
“Se lhes enviais o Vosso espírito,
voltam à vida, e renovais a face da
terra.” – pode ler-se no Salmo 104.
Este espírito anima a Palavra e a
Palavra tem letras.
São estas letras que tocam o coração de
muitos santos e que, por meio deles, renovam a face da terra. Agostinho é o exemplo mais conhecido. São incontáveis os
desconhecidos que lêem a Palavra e se
convertem. A Bíblia, livro dos livros, é o
fundamento material da acção do espírito.
No ano passado, apoiámos financeira- Boa Nova ilustrada: no Egipto também
mente 2.032.356 Bíblias e outras publica- as crianças folheiam a Bíblia.
ções não editadas pela AIS. A estas juntam-se centenas de milhares de Bíblias
para Crianças – entretanto traduzidas para
176 línguas com uma tiragem total de 51,2
milhões de exemplares – o livro do Rosário para crianças (1 milhão de exemplares)
e para adultos (2,7 milhões), a Via Sacra,
entre muitos outros.
Aqui estamos em casa: entrevista na
Sat-7, uma emissora cristã do Próximo
Oriente.
Renovar a face da terra – é disso que se
trata nos textos, imagens e palavras da
evangelização. Aqui o espírito também
tem de aproveitar os meios modernos. Na
Ucrânia é a televisão EWTN – Cadeia de
Televisão da Palavra Eterna. Ajudámos a
levar este canal de televisão católico, o
maior do mundo, a distribuidores por
O espírito sopra em todo o lado: Pentecostes em Mendi / Papua-Nova Guiné.
cabo. O passo seguinte será a sua emissão
por satélite para que também se possa captar a Palavra no campo (24.000 €). Num
país que ameaça recair num regime ditatorial, a rádio e o canal de televisão católicos são janelas para a liberdade.
•
A Bíblia para África
África é onde o Cristianismo mais
cresce. É aí que se verifica o maior
número de novas congregações, de
seminaristas, de ordenações sacerdotais, de baptismos. Tudo isso sob
a pressão de um Islão em muitas regiões agressivo.
Daí que seja ainda mais importante levar a
Boa Nova de forma pura, integral e, sobretudo, compreensível ao povo. É para este
fim que serve a “Bíblia Africana”. É uma
Bíblia com comentários e explicações, com
contextualizações, introduções e interpretações em notas de rodapé e imagens. E
tudo isso com a maior atenção à doutrina
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da fé. Trata-se de inculturação. Não se pretende que a Palavra de Deus reprima as diferentes culturas e tradições, mas que as
trespasse com amor, no sentido da evangelização, e encarne novamente em cada um.
Em inglês a Bíblia já existe; também em
português. Falta a versão francesa.
Académicos da África Ocidental, da região em redor dos grandes lagos e da
África Central estão a levar a cabo esse
trabalho, sempre em sintonia com Roma.
A Congregação das Filhas de São Paulo
irá encarregar-se da distribuição da
“Bíblia Africana” nos países africanos de
língua francesa. Faltam meios para a impressão. Isso não pode levar ao fracasso
Para que a Palavra seja compreendida:
explicações em notas de rodapé e
imagens.
de um projecto que enraíza a Boa Nova no
coração dos africanos. Prometemos
30.000 €.
•
gu
Perse
iç ã o
Erigir muros pela fé
Mortos à paulada, à facada, a tiro ou
enforcados – na Colômbia, no México, no Brasil, na Venezuela, no Panamá e no Haiti; na Tanzânia, em
Madagáscar e na Nigéria; na Índia,
na Síria e nas Filipinas. Em 2013, dezanove padres e religiosas católicas
deram aí a sua vida ao serviço de
Cristo; a estes juntam-se centenas
de fiéis, vítimas de ataques a igrejas.
Os Cristãos são a minoria religiosa
mais perseguida. O número de cristãos perseguidos, discriminados e
expulsos é estimado em cem milhões no mundo inteiro.
A pequena comunidade em Mpendae, em
Zanzibar / Tanzânia, começou há uns bons
trinta anos com um punhado de fiéis. Embora se situe no meio de uma região com
muitos muçulmanos radicais, cada vez mais
pessoas têm vindo a ser baptizadas ao
longo dos anos, ao ponto de a pequena capela deixar rapidamente de ter espaço para
a comunidade toda. Construíram então uma
igreja e projectaram também uma casa paroquial e uma casa de religiosas. Isso foi
demais para os radicais. Atiçados por falsas
informações – “os Cristãos tiram-vos os
empregos” – um bando de jovens assaltou
a igreja, saqueou-a e incendiou-a. Agora, a
igreja está reparada, mas o perigo não está
eliminado. Como é que se pode rezar e celebrar a Missa em paz? A comunidade quer
construir um muro de três metros de altura
e 210 metros de comprimento à volta da
igreja, da casa paroquial e do convento das
irmãs. Os muros separam, mas também
protegem. Prometemos 30.000 € para esta
protecção.
Perseguição pura:
ataque incendiário à
Igreja El-Amir Tadros,
em Minya / Egipto.
Mas a ajuda de sobrevivência mais consistente é uma fé sólida. Por isso, também
apoiamos projectos que aprofundam e
consolidam os conhecimentos dos cristãos
perseguidos sobre a fé. Por exemplo, em
Cartum, onde o Cardeal Gabriel Zubeir
Wako dá especial importância à formação
de professores de Religião para os refugiados no Norte do Sudão (21.000 €) e
onde o Bispo Auxiliar D. Daniel Adwok
Kur se dedica especialmente aos dezasseis
seminaristas que mais tarde irão prestar serviço como pastores, tanto no Norte como no
Assassinado por muçulmanos: enterro
de vítimas cristãs, em Sadad / Síria.
Sul do Sudão (35.600 €). A Igreja no Norte
do Sudão é estrangulada pelo Governo muçulmano. Sem ajuda de fora, os fundamentos da fé cristã no Sudão cairão.
•
China – A casa de Deus no coração
O Cristianismo na China cresce.
Diariamente, são criadas cinco
novas comunidades. O número dos
Cristãos aumentou desde 1980, de
cinco para pelo menos 80 milhões;
entre estes, cerca de 12 milhões de
católicos. Apesar disso, não se
Desprotegidos estão os cristãos que fugi- pode falar de liberdade religiosa.
ram do Iraque para a Síria. Regressar, não
podem; por isso, seguem para a Jordânia, Também a Igreja Católica se eno Líbano ou a Turquia. Muitas vezes não contra sob escrutínio permalhes resta nada senão a sua própria pele. nente. Rezar em conjunto
Sem ajuda de fora, perdê-la-ão também. continua a ser um risco em alPrestamos ajuda humanitária concreta, por guns lugares. De uma região na
exemplo, a cinquenta refugiados da Síria, China chega-nos este testemuque agora esperam pelo fim da guerra na nho: “Até agora, muita gente tem
Paróquia católica de Mersin / Turquia tido de celebrar a Santa Missa
(22.000 €).
em tendas velhas; a adoração eu-
carística realiza-se numa casa degradada.
Os fiéis não conhecem vitrais com cenas
bíblicas, nem nunca viram arquitectura gótica. Em dias de festa, os poucos bancos
estão reservados a idosos e crianças. A
maioria está ajoelhada no chão e o número
aumenta cada vez mais. O velho edifício já
não tem capacidade para eles, mas nada
pode travar estes irmãos e irmãs
no seu amor a Deus nem diminuir a sua esperança. A casa de
Deus está no seu coração. Todas
as quintas-feiras, há adoração ao
Santíssimo Sacramento. Apesar
de todas as dificuldades tentaremos construir uma igreja, graças
à misericórdia de Nosso Senhor.”
•
3
© L'Osservatore Romano
Johannes
Freiherr
Heereman,
Presidente
Executivo
Queridos amigos,
Num encontro com o Santo Padre no Vaticano, o nosso Assistente Espiritual Internacional, Padre Martin M. Barta, entregou ao Papa
um documento, em nome de todos os benfeitores, que reunia votos de
felicidade e de bênçãos de vários países pelo aniversário do Santo
Padre. É uma verdadeira torrente de palavras de agradecimento, manifestações de afecto, promessas de fidelidade – uma campanha global de
oração que muita alegria deu ao Papa Francisco.
Necessidade, amor e gratidão – as vossas cartas
Movimento urgente e apaixonante
Os meus melhores desejos de uma boa
saúde e as maiores bênçãos de Deus
para si que é uma grande apóstola e
tanto trabalha para a AIS.
Hoje envio 50 € para os cristãos do Iraque, que têm tantas necessidades de auxílio e sofrem tantas perseguições. Já
tenho uma idade bastante avançada, 93
anos, e o meu marido 99. Mas vou fazendo e falando a várias pessoas sobre
este movimento tão urgente e apaixonante. Agradeço muito as vossas orações e também nós rezamos pelas
vossas intenções. Os meus melhores
cumprimentos e todas as bênçãos de
Deus para si e todos os que trabalham
neste movimento AIS.
Uma benfeitora de Portugal
meus irmãos e irmãs mais próximos e
com dificuldades maiores receberem
ajuda. Aprecio a vossa inesgotável generosidade em relação à nossa diocese,
em especial, e a toda a Igreja, em geral.
Espero que a vossa organização me
possa ajudar da próxima vez e asseguro
que rezo pela vossa obra e pelos benfeitores.
Um padre da Tanzânia
“Mundo que sofre”
Nos meios de comunicação leio tanto
sobre a Ajuda à Igreja que Sofre! Lembro-me sempre das vossas actividades a
nível mundial. Considerando a importância da vossa obra, talvez devessem
mudar-lhe o nome para “Ajuda ao
mundo que sofre”! Em qualquer caso, a
vossa obra é parte da poderosa miseriSolidariedade de Sumbawanga
córdia de Deus neste mundo.
Embora tenham recusado o meu pedido,
Um velho missionário das Molucas,
não estou desiludido. Estou grato por os
Indonésia
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O Arcebispo de Seul, D. Andrew Yeom
Soo-jung, disse após ser nomeado cardeal: “Com este chamamento de Deus,
rezarei e farei o meu melhor para que
a evangelização da Igreja Asiática
avance, sobretudo na China e na Coreia do Norte.” Segundo afirma, o trabalho de proclamação do Evangelho na
Ásia é “uma tarefa importante para a
Igreja coreana”. Nesta tarefa, a AIS
dará apoio e estará no terreno. A Conferência Episcopal sul-coreana deu luz
verde a um secretariado em Seul. Já
demos ajuda anteriormente; agora,
acompanharemos também os benfeitores de lá e recolheremos donativos para
a evangelização.
Também no México, a AIS abrirá um
secretariado, o terceiro no chamado
continente católico, depois do Chile e
do Brasil. Isso reflecte a mudança das
prioridades da Igreja no mundo de
hoje. Assim, estamos, também aí, mais
perto das pessoas, mais perto das necessidades – e mais perto dos benfeitores
da própria região. O amor de Cristo
une-nos atravessando continentes. O
que o torna possível é a vossa generosidade, a vossa fidelidade. Por isso, digovos de todo o coração: “Gracias”
(ainda tenho que treinar o agradecimento em coreano…).
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Queridos amigos,