Como estamos, nós psicólogos, enfrentando as questões e os desafios do trabalho
contemporâneo?
Fernanda Spanier Amador1
As relações entre Psicologia e Trabalho assumem contornos peculiares quando
consideramos as contingências históricas que as atravessam. Por isso, seguindo o rastro
do pensamento foucaultiano, de que não há relação de poder sem a correlativa
constituição de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua relações
de poder, torna-se imperativo recusar-se tomar como natural, o saber e o fazer da
psicologia no que tange às questões do trabalho. Em lugar disto, é necessário pensá-los
a partir dos sistemas de racionalidade que os sustentam, entendendo que elas são
emergentes de um feixe de forças sociais ligadas a determinados regimes de verdade
que contornam sua consistência e operacionalidade em uma época.
Movida pelas indagações: como estamos, nós psicólogos, enfrentando as
questões e os desafios do trabalho contemporâneo?, discutimos os modos como a
Psicologia tem se voltado para as questões do trabalho, especialmente a partir do século
XX, entendendo que os contornos desta relação estão intimamente relacionados às
transformações pelas quais passou o capitalismo, bem como aos acontecimentos na
esfera das ciências já que essas não são ingênuas em relação aos ideários de
instrumentalização do capital.
Sob este ponto de vista, torna-se estratégico pensarmos no movimento das
teorizações em direção ao trabalho que foram empreendidos pelo campo psi, começando
pela abordagem de como a psicologia emerge como um modo de produção de
conhecimento que visa responder às necessidades do novo arranjo econômico-produtivo
do capitalismo. A partir daí, discutimos a respeito das intrincadas relações entre as
práticas psicológicas e os processos de capitalização subjetiva que marcam os modos de
trabalho contemporâneos visando apostar numa Psicologia do Trabalho com
compromisso social, uma Psicologia que promova a saúde dos trabalhadores por entre
processos de crítica permanente em relação a sua própria constituição.
1
Psicóloga, Pós-Doutora em Educação/UFRGS, Professora Adjunta do Departamento de Psicologia
Social e Institucional e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional/UFRGS.
Coordenadora do n-pista(s) – Núcleo de Pesquisas Instituições, Subjetivação e Trabalho em Análise (s).
O advento das Indústrias sustentou-se nas bases do modelo taylorista de
organização do trabalho proposto por Frederick Taylor, esse um sistema administrativo
forjado no contexto norte-americano das últimas décadas do século XIX. Tendo entre
seus fundamentos a premissa de que o trabalhador tendia ao ócio e à lentidão no
trabalho e advogando pela necessidade de intensificar a divisão técnica laboral entre
aqueles que o pensavam e aqueles que o executavam, tal modelo de administração
científica encontrou na Psicologia da época, de teor, eminentemente cientificista, uma
aliada. Isto, porque se tratou de um saber psicológico preocupado em localizar nos
indivíduos, os elementos para sustentar sua racionalidade. Configurou-se, então, uma
psicologia que, individualizando, produziu técnicas adaptacionistas baseadas em
modelos classificatórios e de recompensa e punição.
Tal Psicologia instrumentalizou, também, o modelo de organização científica do
trabalho chamado Fordismo o qual foi introduzido nas fábricas por Henri Ford nas
primeiras décadas do século XX. Intensificando características da organização do
trabalho já preconizadas por Taylor, tais como a separação entre concepção e execução,
bem como a individualização da prescrição, Ford aprofundou a fragmentação das tarefas
e transferiu para as máquinas as atividades possíveis de serem mecanizadas. O
Fordismo trouxe a fixação do trabalhador em seu posto de trabalho com a implantação
da esteira móvel, a diminuição do tempo de montagem e, ainda, implantou um sistema
de gestão que visava recompensar financeiramente os trabalhadores que apresentassem
boa conduta nos espaços fora da fábrica.
Foi assim que com o advento das Indústrias a Psicologia enquanto campo do
conhecimento se produziu com uma face de Psicologia Industrial (Sampaio, 1995).
Trata-se de uma Psicologia voltada para a otimização do desempenho humano, valendose da Psicologia Positivista dos laboratórios, uma estratégia para, na época, a Psicologia
se distanciar da Filosofia e receber o estatuto de ciência. Tal Psicologia colocou-se a
serviço de práticas baseadas em modelos classificatórios, de recompensa e de punição,
de modo a evitar os desvios peculiares da singularidade.
Colocando acento nos postos de trabalho, tratou-se de uma psicologia da
aptidão, aquela voltada para testagens e medidas visando colocar o homem certo no
lugar certo, bem como atingir, com precisão, informações relativas ao quantum de
esforço cada trabalhador suportaria empreender para, assim levá-lo ao seu limite.
Contudo, é importante sublinhar que na Europa uma geração de pesquisadores
precedeu a chegada da Organização Científica do Trabalho (Clot, 2010). Diz o autor:
“A análise do trabalho francofônica, e mesmo o que já se chamava de Psicologia do
Trabalho, precedeu a chegada do Taylorismo nas Fábricas, desde o começo do século
XX, na França” (p..208). Nesta linha, destacam-se os nomes de dois pesquisadores:
Maurice Lahy e Suzanne Pacaud os quais tinham por interesse partir dos trabalhadores,
o que os levou a se posicionarem nas fábricas e acompanharem o trabalho lá mesmo
onde ocorre. Empregando métodos que passavam por ocupar o posto dos
trabalhadores, realizar seu ofício e depois, em solicitar a eles que criticassem sua
execução, os pesquisadores visavam partir de uma observação centrada no próprio
trabalho, gerando uma Psicotécnica do Trabalho. Contudo, tal tendência foi cooptada na
direção de uma Psicotécnica da Aptidão, alicerçada em técnicas de testagem e de
previsão dos comportamentos.
Trata-se de uma Psicologia que alinhada com a tecnologia da disciplina forjada,
sobretudo, a partir do século XVIII (Foucault, 1996), tomou os trabalhadores como
objeto de vigilância e controle, já que o capitalismo em expansão investia em seus
corpos enquanto força de produção. Foi assim que Psicologia e Poder disciplinar
ligaram-se em intimidade. Servindo aos intentos de análise e manipulação de maneira a
tornar os corpos dóceis, o saber psicológico incidiu sobre os trabalhadores visando
aperfeiçoá-los na direção dos interesses da produtividade. Instrumentalizando
mecanismos de controle de processos da atividade, ajudou a esquadrinhar os tempos, os
movimentos e os espaços mediante medições que visavam tornar-se predições
interessantes ao sistema de administração científica vigente nas fábricas. Tratou-se
de
uma Psicologia da Sujeição, almejando trabalhadores obedientes, aptos e policiados.
Já em meados do século XX, emergem os estudos que vêm reagir aos traços
empreendidos pela Administração Científica do Trabalho. Surge a Escola das Relações
Humanas enfatizando as relações dos grupos de trabalhadores e as estruturas das
organizações. Neste lastro, as preocupações passam a se localizar em como
compreender as relações estabelecidas entre o indivíduo e o campo social, recaindo o
interesse sobre a organização informal dos trabalhadores, essas baseadas nas relações de
grupo. A Escola das Relações Humanas visou corrigir as distorções da Psicologia da
Indústria mas não operou mudanças substanciais em relação a ela.
É nesse período que emerge a Psicologia Organizacional (Sampaio, 1995), a
qual ultrapassou os interesses pelos postos de trabalho para enfocar as dimensões de
estrutura e funcionamento das organizações e, mais tarde, os processos organizacionais.
Acentuando o interesse na esfera ambiental do trabalho surgem as estratégias de
Desenvolvimento Organizacional, visando flexibilidade nas relações a fim de evitar
conflitos e o emprego de metodologias de cunho motivacional entre os trabalhadores.
Acusada de servir ao amortecimento das distorções do modelo taylorista, a
Psicologia Organizacional continuou, com outras roupagens, a operar enquanto
instrumento de persuasão para aumentar a produtividade. Com ênfase nos grupos e nas
relações humanas aí estabelecidas, a Psicologia focada nas Organizações operou com
uma noção de grupo que não conseguiu romper o dualismo indivíduo-sociedade,
sustentando-se em uma concepção grupista, isto é, do grupo entendido a partir de si
mesmo, centrado em si mesmo, sem colocar em análise o feixe de instituições2 que os
atravessam.
Tendo como referência os estudos realizados pelo australiano Elton Mayo
durante os anos de 1926 e 1947 em empresas, sustenta-se em pesquisa realizada na
Western Electric Company, a qual evidenciou que, o que incide diretamente sobre o
aumento do rendimento no trabalho é o fato de os trabalhadores se sentirem parte de um
grupo. O que se coloca em ênfase aqui é a importância nas normas e no clima grupal.
Assim, a aproximação da Psicologia nesta perspectiva vai se dar, sobremaneira, pela
via do trabalho com grupos, o qual figura como tecnologia para resolução de conflito
no interior dos estabelecimentos de trabalho configurando-se, especialmente, nas bases
de uma Psicossociologia Americana, sustentando-se na crença de que não havia
incoerência ou oposição entre o crescimento da empresa e a satisfação dos seus
funcionários.
É
importante
ressaltar,
contudo,
que
pari
passu
a
emergência
da
Psicossociologia Americana, forjava-se na Europa uma Psicossociologia de outro
caráter: falamos da Psicossociologia Francesa. Com caráter de esquerda, o propósito
dessa última é o de instaurar nas organizações um funcionamento mais coletivo com
decisões tomadas em grupo, buscando maior participação dos trabalhadores. Também
2
Chamamos de instituições aquilo que Barros (2007) define como: “ Uma composição de linhas que ao
atravessarem produzem campos de saber, redes de poder, especialismos” (p.95).
conhecida como Psicologia Social Clínica, tematiza uma dupla inscrição do sujeito:
aquela dos elementos intrapsíquicos singulares e, também, as referidas ao universo
social.
Segundo Sampaio (1995), temos a emergência, ainda, de uma terceira vertente
chamada Psicologia do Trabalho, aquela que “que tem como ponto central o estudo e a
compreensão do trabalho em todos os seus significados e manifestações” (Lima, 1994,
p. 53). Com esse reposicionamento da Psicologia do Trabalho, a obsessão pela
produtividade cede lugar a uma compreensão mais próxima do homem que trabalha
colocando interesse nas dimensões de poder e conflito desde uma perspectiva de como
se enlaçam com a produção da subjetividade dos trabalhadores.
Oriunda de diversos movimentos e iniciativas que visaram aproximar-se do
trabalho tal como é experenciado pelos próprios trabalhadores, esses considerados
enquanto seres de desejo, as preocupações se voltam para a promoção da saúde em
lugar das questões relativas à lucratividade e a produtividade. É assim que os estudos de
Maurice Lahy e Suzanne Pacaud, ambos já mencionados neste texto, bem como os dos
Psicopatologistas do Trabalho, dos Psicossociólogos, sobretudo os de linhagem francesa
e, como veremos a seguir, dos Socioanalistas Institucionais, foram contribuindo para a
produção de uma Psicologia que, no que tange as relações com o trabalho, vai
possibilitar a abertura de uma perspectiva que ultrapassa as fronteiras das chamadas
Psicologia da Indústria e da Psicologia Organizacional.
Clot (2010) apresenta as três principais correntes que fizeram a crítica a
Psicotécnica do Trabalho, aquela que instrumentalizou a chamada Psicologia da
Indústria. São elas: a Psicologia Cognitiva do Trabalho (PCT), a Ergonomia (E) e a
Psicopatologia do Trabalho (PT).
A PCT vai destacar que é na situação que vamos encontrar a raiz dos recursos do
desenvolvimento das aptidões. Assim, elas não estão de início no sujeito, e sim nos
problemas postos pela situação, dimensão essa que vem deslocar a questão que
alicerçou a Psicologia da Indústria: a de que é possível prever como alguém vai
trabalhar. Já a E, sobretudo a de linhagem francófona, vai eleger como foco a dimensão
da saúde em suas conexões com a condição social do trabalhador enquanto a PT vai, por
uma primeira linhagem de pesquisadores, tais como Louis Le Guillant, Paul Sivadon e
Claude Veil, colocar acento no fato de que o trabalho consiste em um lugar dramático
para o sujeito. Em uma vertente mais recente, encontramos Cristophe Dejours e seus
estudos que levaram à Psicodinâmica do Trabalho, Yves Schwartz e suas formulações
pela Ergologia, bem como Yves Clot pela Clínica da Atividade, todas essas abordagens
consideradas Clínicas do Trabalho.
A Psicologia do Trabalho vai se caracterizar, portanto, por um conjunto de
modos de compreensão do trabalho humano que coloca centralidade na experiência dos
trabalhadores, articulando conhecimentos do campo da Análise Institucional e, com
isso, visando ultrapassar a dicotomia indivíduo-social. Deste modo, tematiza o próprio
trabalho como produtor de instituições, isto é, como dinâmica histórica que tende a
codificar, regular, regrar, normatizar produzindo efeitos do ponto de vista da saúde dos
trabalhadores.
Pode-se dizer que se trata de uma Psicologia que almeja combater os efeitos de
uma sociedade disciplinar sobre os trabalhadores antes que instrumentalizá-la. Além
disto, trata-se de uma Psicologia que vai se produzindo no lastro da transformação da
Sociedade Disciplinar em Sociedade de Controle, ou seja, uma sociedade que se faz e se
refaz em uma modulação constante e na qual não se está mais diante do par massaindivíduo: nela, os indivíduos tornaram-se divisíveis e as massas tornaram-se amostras,
diz Deleuze (1992). Assim, a Psicologia do Trabalho vai estabelecer uma perspectiva
crítica em relação aos elementos que caracterizam essa nova modalidade social,
especialmente, em seus efeitos no que tange as questões do trabalho.
É nesta terceira perspectiva que as transformações do trabalho sob o ponto de
vista de seus modos de organização, passa a ser objeto privilegiado das análises no
campo da Psicologia, configurando-se como complexos problemas a serem combatidos
pelos psicólogos e psicólogas. Afinal, é por tais transformações que se delineiam os
maiores desafios a serem por eles e elas enfrentados.
O capitalismo contemporâneo tem gerado mudanças na gestão dos processos e
na experiência de trabalho, especialmente a partir dos anos 70 com a passagem do
modelo de acumulação taylorista-fordista para o de acumulação flexível de capital. A
concentração dos trabalhadores nas fábricas se modifica e assistimos ao crescimento de
um sistema produtivo que se dissemina pelo tecido urbano e invade o espaço doméstico,
sobretudo pelo advento das novas tecnologias de informação e comunicação (Allièz e
Feher, 1988). O trabalho torna-se imaterial (Lazzarato & Negri, 2001), isto é, cada vez
mais, intelectualizado de modo que é a personalidade e a subjetividade do trabalhador
que devem ser organizadas e comandadas a fim de manter a engrenagem do sistema
produtivo.
As estratégias neoliberais recrudescem e reforçam a lógica de uma sociedade
pautada na liberdade dos indivíduos e no funcionamento dos mercados, bem como
arrastam consigo a desregulamentação do mercado de trabalho. Com isso, gera-se
precarização e intensificação do trabalho. Ao mesmo tempo, difunde-se um discurso de
que os trabalhadores precisam se tornar empresas, gerando aquilo que Gorz (2005)
define como um processo de auto-exploração, o Eu/SA, aquele sujeito autoempreendedor que se coloca freneticamente a serviço dos ideários produtivistas.
Félix Guattari (1996) problematizando as relações de produção no capitalismo
contemporâneo, ao qual se refere como sendo um Capitalismo Mundial Integrado
(CMI), vai afirmar que na mesma proporção em que ele utiliza-se da produção
econômica para se expandir, utiliza-se também da produção de subjetividade. Assim,
estimula-se a produção desejante dos indivíduos para depois capturá-la nos valores de
mercado de maneira que o desafio está em criarmos resistências ao nível micropolítico
dos processos de subjetivação, produzir interferências entre o desejo e o capital, como
diz Neves (2004), para, assim, escaparmos do controle constante do capitalismo.
No que se refere às experiências dos trabalhadores, o desafio posto à Psicologia
do Trabalho está em compreender como eles dão sentido às experiências do trabalho em
suas experiências cotidianas, gerando práticas que por entre os modos operatórios de
seu fazer laboral, produzem modos de relação consigo mesmos e com o mundo tendo
como lastro, os arranjos forjados pelo CMI.
Nesta direção, o sociólogo Vincent de Gaulejac (2007) destaca que nos últimos
anos vivemos o incremento de uma Sociedade da Gestão, por onde se incentivam o
individualismo, sobretudo na forma de competição e diferenciação por desempenho, e,
por onde, também, é levada em consideração, a participação em grupo, buscando-se
uma mescla de competição e colaboração. Trata-se de tempos em que vivemos o que o
autor chama de Poder Gerencialista, essa uma tecnologia política feita de um conjunto
de microdispositivos que não aparecem como fruto de uma concepção centralizada, nem
de um sistema de dominação pré-estabelecido, mas como um conjunto disparatado de
tecnologias, de regulamentos, de procedimentos, de arranjos, e de discursos que
emergem em dado momento histórico.
O que assistimos hoje, segundo o sociólogo, é a uma recolocação do modelo da
disciplina como modo de gestão das coletividades humanas em favor de um novo
modelo, diferente daquele pautado no modelo disciplinar, que submete os indivíduos
por injunções paradoxais. Se na empresa taylorista há um centramento sobre a
canalização da atividade física a fim de tornar os corpos úteis, dóceis e reprodutivos nas
empresas contemporâneas regidas pelo poder gerencialista, a preocupação não está tanto
em controlar os corpos mas em transformar a energia libidinal em força de trabalho.
Assim, passa-se do controle minucioso dos corpos para a mobilização psíquica a serviço
da empresa.
Neste lastro emergem os experts da gestão, aqueles que com diversos saberes
práticos tem a função de modelar comportamentos e de estabelecer procedimentos e
normas de funcionamento, visando ao invés de controlar os corpos mobilizar os desejos,
incrementando estratégias de investimento ilimitado dos trabalhadores em si mesmos,
levando-os a se engajarem em projetos mais do que a cumprir ordens por meio de
adesão “voluntária” aos propósitos da empresa, bem como a sempre buscar atingir
objetivos maiores do que aqueles fixados pela empresa, configurando, muitas vezes,
processos de submissão consentida.
Em tempos nos quais as empresas são cada vez mais dirigidas por puros
profisisonais da gestão (Duraffoug, 2007), os quais estão longe daqueles que fazem o
trabalho concreto na empresa, coloca-se aos psicólogos o desafio de problematizar sua
posição nesta lógica já que o risco de se forjarem como Psicólogos da Gestão em lugar
de Psicólogos do Trabalho, é grande.
É no arranjo social peculiar que marca o território do trabalho no contemporâneo
neste início de século que se impõe a necessidade dos psicólogos buscarem operar,
permanentemente, uma análise de sua implicação. A Análise de Implicação, essa uma
potente e imprescindível ferramenta proposta pelos Analistas Institucionais franceses,
permite-nos afinar a dimensão criadora do pensamento e perturbar as amarras, muitas
vezes, tão bem estabelecidas, entre saberes, práticas e poderes. Em nada tendo a ver
com o sentido de estar comprometido com alguma causa, o que levaria a crença de que
existem os implicados e os não implicados, o conceito de implicação para os
institucionalistas remete a uma prática que se almeja, seja incessante, de formulação de
perguntas a respeito do que estamos fazendo do mundo e de nós mesmos.
Visando pela análise da implicação encontrar meios para recusar a posição de
experts, daqueles que encharcados de vontade de poder, exercem seu saber sobre o
outro, os institucionalistas, inspiram, assim, a retomar a indagação central que animou a
escrita deste texto Como estamos, nós psicólogos, enfrentando as questões e os desafios
do trabalho contemporâneo?
Uma mirada histórica a respeito das aproximações da Psicologia ao campo do
trabalho nos permite compreender que esse movimento é perpétuo e sempre arrimado
nos jogos de forças sociais que marcam uma época, dando contornos peculiares ao que
fazemos enquanto psicólogos e psicólogas. Por esta razão, somos levadas a sustentar
que as análises relativas aos modos como a psicologia se aproxima das questões do
trabalho merecem ser insistentemente ativadas, sempre se quisermos afirmá-la enquanto
prática política, isto é, enquanto prática que possibilite traçar, com os trabalhadores, o
mapa de suas constituições de si e os efeitos de suas práticas no mundo. Prática capaz
de arregimentar as forças capazes de gerar resistências, as quais passam, em nosso
entendimento, pela criação frente aos poderes subjetivantes da lógica capitalística que
atravessam o trabalho e acompanham os modos operatórios de trabalhar.
Há que se buscar a possibilidade de que o próprio trabalho em Psicologia do
Trabalho mantenha-se vivo, aberto a sua reinvenção, perene às problematizações que
possam retirá-la de suas aparentes evidências e relançá-la, em exercício ético, ao eterno
retorno de sua desinstitucionalização.
Referências:
ALLIEZ, Eric & FEHER, Michel. Os estilhaços do Capital. In.: AILLEZ, E.
(etall).Contratempo: ensaios sobre algumas metamorfoses do capital. Rio de Janeiro:
Forense-Universitária, 1988.
BARROS, Regina Benevides de. Grupo. A afirmação de um simulacro. Porto Alegre:
Sulina/Editora da UFRGS, 2007.
CLOT, Yves. A Psicologia do Trabalho na França e a perspectiva da Clínica da
Atividade. Fractal: Revista de Psicologia, c.22 – n.1, p.207-234, jan./Abr. 2010.
DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992.
DURAFFOURG, Jacques. O Trabalho e o ponto de vista da atividade. In:
SCHWARTZ, Yves e DURRIVE, Louis. (Org). Trabalho e Ergologia: conversas sobre
a atividade humana. Niterói: EdUFF, 2007.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1996.
GAULEJAC, Vincent de. Gestão como doença social. Ideologia, poder gerencialista e
fragmentação do social. Aparecida-SP: Ideias e Letras, 2007.
GORZ, André. O Imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo, Annablume,
2005.
GUATTARI, Félix e ROLNIK, Suely. Micropolítica. Cartografias do Desejo.
Petrópolis: Vozes, 1996.
LAZZARATTO, Maurizio e NEGRI, Antonio. Trabalho Imaterial – formas de vida e
produção de subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
LHUILIER, Dominique. Cliniques du travail. Érès: Paris, 2006.
LIMA, Maria Elizabeth Antunes. O Psicólogo Organizacional e sua inserção no
contexto sócio-político. In: Semana de Psicologia Política I, 1993, Belo Horizonte,
Anais. Belo Horizonte: Centro de estudos de Psicologia, UFMG, 1994, p. 50-56.
NEVES, Claudia Elizabeth Abbêz Baeta. Modos de interferir no contemporâneo: um
olhar micropolítico. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 56, n. 1, p. 2-19, 2004.
SAMPAIO, Jader dos Reis. Psicologia do trabalho em três faces. In.: SAMPAIO, J. R. in GOULART,
I. B. Psicologia do trabalho e gestão de recursos humanos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998, p.1940.
Download

Como estamos, nós psicólogos, enfrentando as questões e