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cDOM QUIXOTE
CMYK
CULTURA
CORREIO BRAZILIENSE
Brasília, terça-feira,8 de agosto de 2006
Editora: Clara Arreguy //[email protected]
Subeditores: Célia Curto,Mariana Ceratti,
Natal Eustáquio,Sérgio Maggio e Teresa Albuquerque
[email protected]
3214 1178 • 3214 1179
apresentar para o público pela primeira vez, foi
pura adrenalina”, observa.
Foi nas dinâmicas desse grupo que Joaley
uando Joaley Almeida subir hoje à noite descobriu o diretor espanhol Carlos Laredo, 36
ao palco do Centro Cultural Brasil-Es- anos. Desde 1999, ele e a mulher, a atriz e produpanha, estará diante de um mistério tora brasiliense Clarice Cardell, vivem entre Maque será decifrado à frente da platéia. dri e Brasília. Convidados para participar de
Completamente nu e sozinho, aquele homem projeto na oficina de Regino, decidiram unir um
de 25 anos de idade enfrentará o universo de grupo de 12 aprendizes de palhaço para uma
poetas trágicos. Vai se debater com o mais pesa- montagem teatral. “Fiquei chocado, emocionado dos temas (a morte, e nada mais) e, por fim, do com os sonhos daquelas pessoas. Com o moembarcará em viagem artística que serve para do como eles queriam fazer florescer um verdaexpurgar lembranças, medos, ansiedade e toda deiro jardim em meio a um deserto”, lembra o
espécie de demônios pessoais. Se pode parecer diretor. A experiência era inusitada: durante um
complicado definir o espetáculo Ser sem nome, ano, Carlos recebeu correspondências dos jopara Joaley trata-se de experiência de vida tam- vens com histórias de vida. Essa foi a base para o
bém complexa, das mais transformadoras. Há espetáculo Terra vermelha, encenado na Sala
poucos anos, a rotina deste
Martins Pena em agosto de
ator corajoso não era feita de
2004. Entre os novos atores,
DESCOBERTO PELO
ensaios, mas de bicos como
estava Joaley – que carregaDIRETOR ESPANHOL
vigia de carros e vendedor
va carga emocional capaz
de jornais em sinais de trân- CARLOS LAREDO DURANTE
de dedurar todo o sofrisito. “Era um jovem muito
mento vivido por um meniOFICINA DE PALHAÇOS
vazio, não tinha o que fazer.
no maltratado pelo pai que,
Não tinha nem com o que
EM SAMAMBAIA, JOALEY depois da morte da mãe –
trabalhar”, lembra. Essa povítima de atropelamento,
ALMEIDA DEIXOU
deria ter sido mais uma hisquando ele tinha 13 anos –,
tória de um talento perdido
foi responsável por uma faOS BICOS DE VIGIA DE
em uma saga de pequenos
mília de cinco.
CARROS E VENDEDOR DE
grandes dramas de pobreza,
Sem o encontro entre
falta de perspectivas, deJORNAIS PARA ENCENAR Joaley e Carlos, não haveria
samparo. Mas não.
Ser sem nome. Com apreMONÓLOGO EM MADRI
Joaley, que acredita ser
sentação única hoje, o escomandado pelo destino,
petáculo, radical ao despir
pegou o desvio da arte e checonvenções cênicas, teve
gou longe. Especificamente, desembarcou em como origem as distantes semelhanças entre a
Madri em abril deste ano. Na capital espanho- trajetória do ator e a vida do dramaturgo, poeta
la, permaneceu por três meses. Lá, apresen- e ator francês Antonin Artaud (1896-1948). “É
tou-se para platéias exigentes, entrou em con- um espetáculo sobre a morte. Estamos morrenfronto com a solidão de uma grande cidade, re- do e nascendo todos os dias, e aceitar isso é
cebeu convite para atuar e viu o mar pela pri- muito difícil. Há sempre o medo do que está demeira vez. “Nunca tinha viajado de avião e pe- trás das transformações”, diz o diretor. Mas reguei logo três”, lembra. Como ele chegou até lá? sumir a peça a esse aspecto seria perder um dos
Em uma dessas felizes misturas de sorte e reco- traços mais curiosos do processo criativo: a
nhecimento de um dom para a interpretação e mescla de textos escritos por Joaley com rol de
para a poesia que poderia ter escapado nas referências mitológicas, simbólicas.
ruelas do Setor O de Ceilândia, cidade onde
Joaley foi criado e ainda vive. Durante a adolescência, ele chegou a montar um grupo de teatro amador com amigos. Mas o grande salto só
chegou mais tarde, aos 23 anos, quando se inscreveu em Oficina de Palhaços, de José Regino, Direção: Carlos Laredo. Com Joaley Almeida.
do Celeiro das Antas. Nas aulas em Samam- Hoje, às 20h30, no Centro Cultural Brasilbaia, descobriu que não havia nascido para Espanha (707/907 Sul, próximo ao colégio La
trabalhos mecânicos. “No início, era só festa. Se Salle). Entrada franca. Informações: 3443-9916.
TIAGO FARIA
DA EQUIPE DO CORREIO
Q
SER SEM NOME
“O TEMPO LÁ É
SECO,E SEMPRE A
POEIRA INVADE.
O CHÃO DO
QUINTAL É TORTO
COMO A PORTA É
TORTA COMO O
MURO É TORTO.
ASSIM TORTA SE
FAZEM AS ALMAS
QUE DEBAIXO
DAQUELE TETO
HABITAM.
O TETO TEM
FUROS E
LACRIMEJA
QUANDO CHOVE,
O VENTO TRAZ A
ÁGUA QUE JORRA
ABAIXO DA
PORTA.ASSIM AS
SUPERFÍCIES SE
TORNAM ÚMIDAS
E ENTRE AS
PAREDES O SOFÁ
SE MOFA”
A casa, de Joaley Almeida
CARLOS LAREDO E
JOALEY ALMEIDA
VOLTAM A BRASÍLIA
DEPOIS DA
TEMPORADA
ESPANHOLA:
TEATRO DE
VERDADE
Breno Fortes/CB
Salto no vazio
Quando soube da viagem à Espanha, onde se
apresentou no Festival Invertebrados de Teatro
Contemporâneo (em Madri), Joaley se preocupou em deixar a família sem auxílio. Mas o desejo de aprender a atuar venceu a apreensão.
“Quando saí daqui, carregava um peso muito
grande. Parecia que estaria abandonando minha família. Na volta, percebi que não tinha feito nada errado. Estou correndo atrás da minha
história, do que minha alma pede para eu fazer”,
define. Mesmo depois de quatro aplaudidas
apresentações internacionais, Joaley ainda não
sabe muito bem se é ator, se é escritor, se é as
duas coisas ou nenhuma delas. “O que escrevo é
intuitivo, não tenho conhecimento literário. Um
dos meus maiores medos é a insegurança na vida, não sei como vou me sustentar. Num dos ensaios, eu estava diante do abismo da vida. E escrevi sobre isso”, reflete.
Carlos não acredita que a escrita de Joaley seja puramente intuitiva, e vê nele um “talento
bruto” ainda não consciente das próprias capacidades cênicas. “Na arte de Joaley, há uma experiência forte, um pensamento sobre essa experiência e um esforço de confrontar uma página em branco para transmitir a experiência. Isso
é uma metodologia”, explica.
Embora existam planos para outras apresentações internacionais, a peça representa
um momento de indefinição para Joaley. Não é
à toa que a companhia de Carlos, que está no
ramo há 19 anos, se chama La casa incierta. Ele
sabe que continuará a escrever. Mas, e o resto? “Não sei”, despista. “Depois que enfrentei a profundidade do trabalho do
Carlos, não sei se vou ser capaz de
fazer o Lobo Mau da Chapeuzinho Vermelho”, aponta Joaley.
@
Leia texto A casa
na íntegra no
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