_________________________________________________________ A Supervisão sob a Ótica Dos Auxiliares De Enfermagem
A SUPERVISÃO SOB A ÓTICA DOS AUXILIARES DE ENFERMAGEM
Maria Lúcia Silva Servo1
Valesca Silveira Correia2
RESUMO: Trata-se de uma pesquisa qualitativa, do tipo exploratória e descritiva que tem como
objetivo compreender o significado da supervisão realizada pela enfermeira da unidade básica de
saúde do município de Conceição do Jacuípe-BA, expresso pelos auxiliares de enfermagem. Os
sujeitos que compõem o estudo foram onze auxiliares de enfermagem que estavam em pleno
exercício profissional no referido município. Utilizou-se para a coleta de dados a técnica da
entrevista semi-estruturada. Após análise das entrevistas, chegou-se às seguintes categorias:
supervisão da enfermeira como significado de apoio, orientação e segurança; as relações de
controle entre supervisor e supervisionado; o exercício do poder pela enfermeira. Os dados
analisados apontaram que os supervisionados necessitam da presença constante da enfermeira no
setor, sendo o aspecto controle mencionado como necessário ao desenvolvimento das atividades,
ao mesmo tempo em que possui caráter punitivo e fiscalizador.
Descritores: supervisão/recursos humanos; enfermagem/organização & administração ; técnicas
de administração/ métodos.
ABSTRACT: This paper deals with a qualitative, exploratory and descriptive research which
aims at understanding the meaning of the supervision done by the nurse from the auxiliary
nurses’ point of view at the health basic unit of Conceição do Jacuípe county in Bahia. Eleven
auxiliary nurses’ who were at their professional practice in the refereed county have been
interviewed. A semi – structured interview technique has been used for the data technique has
been used for the data collection. After the analysis of the material, the following categories have
been found: nurse supervision as a supporting aspect; the relationship between the supervisor
and those who are supervised and the nurse empowerment. According to the data analysis, it has
been observed that the presence of the nurse is essential for the development of the auxiliary
nurses’ work, although it has been done under inspection and punishment.
Key words: supervision; nurse’ auxiliary; nurses.
1
Enfermeira. Doutora em Enfermagem –USP. Professora e Coordenadora do Curso de Enfermagem da
Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana - FTC. Professora Adjunta da Universidade Estadual de
Feira de Santana –UEFS. E-mail: [email protected]
2
Enfermeira. Especialista em Formação Pedagógica e Formação Profissional na Área de Saúde –
UEFS/FioCruz-RJ. E-mail: [email protected]
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1 Introdução
A vivência no curso de graduação em enfermagem da Universidade Estadual de Feira de
Santana – BA e a experiência profissional nos proporcionaram entender a relevância da função
supervisão na organização das instituições. Observamos que à medida que o supervisor conhece a
estrutura do serviço e interage com a equipe da qual faz parte, torna-se co-responsável pela
manutenção de um serviço de qualidade.
Além destas observações, apresentamos trabalhos científicos tendo como objeto de
investigação o padrão de supervisão das enfermeiras de Unidades Básicas de Saúde de Feira de
Santana – BA (CORREIA; SERVO, 2002, 2003). Tendo em vista o conhecimento prévio sobre a
supervisão desenvolvida por tais enfermeiras nos interessamos por investigar como os
supervisionados entendiam esta atividade.
A Lei do Exercício Profissional da Enfermagem n.º 7.498/86 em seu artigo 13 afirma que
o auxiliar de enfermagem exerce atividades de nível médio, de natureza repetitiva, envolvendo
serviços auxiliares sob supervisão, bem como a participação em nível de execução simples, em
processo de tratamento, cabendo-lhe especialmente: observar, reconhecer e descrever sinais e
sintomas, executar ações de tratamento simples, prestar cuidados de higiene e conforto ao
paciente e participar da equipe de saúde.
Nesse sentido, o processo de supervisão realizada pela enfermeira envolve planejamento,
organização, direção e controle do trabalho desenvolvido pela equipe de enfermagem. Segundo
Cunha (1991) a supervisão é um processo educativo e contínuo baseado em normas, que consiste
em motivar e orientar o pessoal de enfermagem na execução de atividades com a finalidade de
manter a qualidade dos serviços prestados.
Com o desenvolvimento da enfermagem o elemento supervisor sofreu modificações,
atentando para as necessidades de seus supervisionados, visualizando-os como sujeitos que
necessitam de compreensão e ajuda para desenvolver-se. Portanto, a enfermeira enquanto
supervisora deve guiar o pessoal de enfermagem no sentido de auxiliar o desenvolvimento dos
mesmos para garantir a prestação de uma assistência de qualidade.
Nesse sentido Servo (2001a) afirma que a supervisão torna-se pertinente e útil na medida
em que auxilia as pessoas da linha de execução a alcançar certas metas ou padrões de atendimento
tendo como referência a política institucional e adaptando-se às realidades locais.
Esperamos que este estudo contribua para a difusão do conhecimento sobre supervisão
em enfermagem e sua importância para a construção do Sistema Único de Saúde (SUS), além de
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proporcionar subsídios para o desenvolvimento de demais pesquisas sobre as relações entre
supervisor e supervisionado na equipe de enfermagem.
Tendo em vista os diversos conflitos existentes na equipe de enfermagem devido ao papel
de chefia do enfermeiro, despertamos o interesse em pesquisar qual o significado da supervisão
realizada pela enfermeira sob a ótica dos auxiliares de enfermagem?
Portanto, este estudo tem como objetivo compreender o significado da supervisão
realizada pela enfermeira da Unidade Básica de Saúde do município de Conceição do Jacuípe BA expresso pelos auxiliares de enfermagem.
2 Concepções Sobre a Atenção Básica e a Supervisão
Devido ao fato de a enfermeira ser responsável pelo planejamento e coordenação das
atividades nas unidades de saúde, a mesma deve atuar como co-responsável pela assistência
integral da clientela através de ações de prevenção, promoção, reabilitação e recuperação rumo à
consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS).
O SUS é um sistema formado por várias instituições das três esferas do governo,
estabelecido pela Constituição da República Federativa do Brasil, a qual afirma no artigo 196 que
a saúde é um direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e
econômicas visando à redução do risco de doença e de outros agravos, além de assegurar o
acesso universal e igualitário às ações e serviços para a promoção, proteção e recuperação da
saúde (NATALINI; BRASIL, 2004).
Para que tais políticas sejam efetivadas as ações de saúde devem ser desenvolvidas em um
conjunto de estabelecimentos, organizados em uma rede regionalizada e hierarquizada de acordo
com o nível de complexidade, ou seja, em atenção primária, secundária e terciária.
Neste contexto, as unidades de saúde funcionam como porta de entrada da atenção
primária, de forma a direcionar o fluxo de atendimento prestado aos usuários, reorganizando a
lógica do acesso aos serviços de saúde.
Corroboramos com Botazzo (1999) quando afirma que desta forma a unidade de saúde
absorveria a demanda universal, estabeleceria um fluxo de referência e contra-referência,
acompanharia programaticamente grupos etários e processaria uma vigilância à saúde.
A enfermeira enquanto supervisora nos serviços de saúde é elemento indispensável para
assegurar que a população seja assistida no primeiro nível de atenção de forma integral, com
desenvolvimento de ações assistenciais e educativas.
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Kron e Gray (1989) assinalam que a palavra supervisão transmite idéias diferentes a
pessoas diferentes, sendo freqüentemente considerada como a inspeção e verificação do
desempenho de um profissional por alguém que só procura coisas que estejam sendo feitas de
modo errado.
Este é o modelo de supervisor que predomina no sistema de saúde vigente, atendendo
aos interesses do modo de produção capitalista, em que a eficácia é avaliada de forma
quantitativa, de acordo com o aumento da produtividade no serviço.
Portanto, a supervisora necessita entender a dinâmica que rege o contexto sócioeconômico e a organização em que está inserida, para defender o interesse da equipe e dos
usuários que assisti, rumo à transformação do modelo hegemônico de saúde que está pautado no
atendimento individual e curativo, para a vigilância à saúde, compatível com a saúde coletiva.
Servo (2001b) apreende a transformação da supervisão tradicional através da prática da
supervisão social, a qual trás em si a lógica do acolhimento, vínculo e participação dos sujeitos
sociais (enfermeira, trabalhadores, usuários/comunidade).
A supervisão surgiu desde a institucionalização da enfermagem como profissão na
Inglaterra, sendo que naquela época já havia a divisão social do trabalho. As “ladies nurses” que
faziam parte da burguesia eram responsáveis pela supervisão dos serviçais, das nurses (classe
proletária) e da administração hospitalar.(SERVO, 2001b)
Essa autora nos reporta que historicamente a supervisão está inserida no processo de
trabalho da enfermeira necessitando ajustar-se às mudanças no contexto social e político da
sociedade em que faz parte.
Observamos que o elemento supervisor ocupa diferentes posições nas instituições,
podendo ser visto sob diferentes enfoques como relata Ciampone (1985, p.112)
[...] quando analisado como elemento - chave na administração de pessoal, é
visto sob o enfoque tradicional, como responsável pelas decisões, controlador
do serviço, detentor do maior conhecimento e aquele que faz com que o
trabalho seja realizado; nesta visão o elemento supervisor é centralizador do
poder no grupo [...].Quando visto como elemento do meio, o elemento
supervisor é situado entre duas forças sociais, a gerência e os trabalhadores,
que são consideradas contrárias. Quando analisado como elemento
pertencente ao grupo, com o qual se relaciona, o supervisor é visto como
indivíduo que tem plena percepção da problemática específica ao grupo e tem
condições para estimular e aprimorar o desempenho individual e grupal”.
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O supervisor deve colocar-se como um elemento pertencente ao grupo e não superior a
este, posicionando-se a favor dos interesses coletivos de forma a possibilitar uma melhoria da
assistência prestada e o desenvolvimento de habilidades e competências nos supervisionados.
Notamos que através da supervisão é possível manter a educação permanente da equipe
de enfermagem através da constante avaliação do serviço realizado por estes, com o propósito de
identificar as necessidades de orientação e treinamento no sentido de prevenir situações
problemáticas.
Como a enfermeira é responsável pelo planejamento e coordenação das unidades de
saúde, a mesma possui o compromisso junto aos demais profissionais de saúde de viabilizar o
SUS, incentivando a participação da equipe na organização e produção dos serviços de saúde de
forma a atender as reais necessidades dos usuários.
A Unidade Básica é o lugar concreto do trabalho em saúde, daquele trabalho
que foi pensado como programação ou planejamento, e por isso este lugar
seria nitidamente a forma de organização que daria as características e os
contornos da saúde pública/coletiva propriamente dita, que as demais formas
organizativas da produção de cuidados não conseguiriam dar. (BOTAZZO,
1999, p.18).
A ação supervisora deve ser vinculada à análise do processo de trabalho nas unidades de
saúde, com vistas à identificação de problemas e busca de soluções, para reorganizar as práticas
de saúde de forma a alcançar os objetivos descritos no Plano Local de Saúde (DANTAS et al.,
2001).
Contudo, o fato de a enfermeira desenvolver atividades administrativas, assistenciais,
educacionais e de pesquisa possibilita-lhe a percepção dos problemas da instituição, de forma a
poder planejar uma melhor intervenção, para sancionar problemas existentes. Assim a supervisão
realizada pela enfermeira é um recurso utilizado na realização de mudanças que se fazem
necessárias à implantação do SUS.
Portanto, para que a enfermeira desenvolva o exercício da supervisão dentro de um
contexto sócio-político e cultural, é fundamental a conscientização sobre a necessidade de liderar,
sendo necessário que a mesma conheça cada pessoa, identificando suas necessidades e diferenças
individuais.(TREVIZAN, 1993).
No cenário político em que a enfermagem está inserida, a assistência prestada ao usuário
do SUS sofre influência direta das políticas públicas, exigindo que a enfermeira tenha um
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posicionamento político, ético e profissional, para que possa prestar uma assistência integral,
humanizada, eficiente e eficaz.
Nesse sentido, percebemos a supervisão como instrumento para gerenciar a unidade de
saúde, com o intuito de viabilizar um atendimento universal, gratuito, hierarquizado e
regionalizado, efetivando os princípios e diretrizes do SUS; além de orientar a prática do processo
de trabalho cuidar/assistir, orientar/ensinar, investigar/pesquisar e gerenciar/administrar da
enfermeira no seu cotidiano.
3 Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo do tipo exploratório e descritivo. O campo de estudo
constitui-se da Unidade Básica de Saúde de Conceição do Jacuípe – BA. O critério de inclusão do
campo do estudo foi à existência de enfermeira no quadro profissional da instituição.
Os sujeitos que compuseram o estudo foram onze auxiliares de enfermagem das treze
existentes, sendo que uma estava de licença e a outra se recusou a ser entrevistada, durante o
período de setembro a outubro de 2003 no município de Conceição do Jacuípe - BA.
Tendo em vista o sigilo da identidade dos sujeitos, estes foram identificados pela
nomenclatura de onze estrelas da galáxia como Antares, Sol, Canopus, Veja, Sírius, Rigel, Adhara,
Avior, Alhena, Polaris, Atria.
A técnica escolhida para a realização do levantamento de dados foi à entrevista semiestruturada. Considerando a resolução 196/96 do CNS foi elaborado o termo de consentimento
livre e esclarecido, o qual informou o sujeito em estudo a respeito do tema, riscos e benefícios da
pesquisa assegurando a ética na utilização das informações coletadas.
Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas com o consentimento dos entrevistados
para facilitar a análise dos dados. O método utilizado para o processamento, organização e
ordenação dos dados foi à análise de conteúdo que ocorreu nas seguintes etapas: a pré-análise, a
exploração do material e o tratamento dos resultados.
Os resultados foram apresentados a partir do agrupamento dos núcleos de significação
nas seguintes categorias: orientação, controle e poder, as quais foram relacionadas com a
fundamentação teórica e experiências vivenciadas.
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4 Resultados e Discussão
Frente aos objetivos propostos e a análise dos dados o estudo apontou as categorias a
seguir: supervisão da enfermeira como significado de apoio, orientação e segurança; as relações
de controle entre supervisor e supervisionado; o exercício do poder pela enfermeira.
A supervisão realizada pela enfermeira é concebida pelos auxiliares de enfermagem como
um componente pedagógico no que tange ao seu caráter educativo e contínuo, pois visa o
treinamento e o desenvolvimento destes através da motivação e orientação na execução de suas
atividades.
Segundo Servo (2001b), a supervisão é concebida como uma função administrativa que
envolve orientação contínua dos trabalhadores, com finalidade de desenvolvê-los e capacitá-los
para o trabalho segundo os interesses institucionais, sendo que na prática esta função tem se
convertido no controle do trabalho.
No discurso dos entrevistados percebemos a necessidade de apoio e orientação dos
auxiliares de enfermagem no decorrer de suas atividades, apontando para a importância da
presença do elemento supervisor.
“você sabe que a gente não pode trabalhar sem a enfermeira né, que dá
um apoio, mais uma segurança também pra gente” (Vega).
A lei do exercício profissional assegura que a enfermeira participe das atividades
desenvolvidas pelos supervisionados na unidade em que atua de forma a prevenir e controlar
prováveis danos que possam ser ocasionados aos usuários.
“a supervisão que ela realiza não é 100%, é 70%(...) precisa mais assim
(...), se dedicar mais, assim até na hora, os próprios funcionários mesmo,
entendeu, às vezes tem uma pergunta a ser esclarecida, quase não
encontra” (Sírius).
“às vezes a gente tem alguma dúvida, quer falar com ela e ela não está no
momento” (Antares).
"ela precisa ter mais tempo para se dedicar ao trabalho, porque o fato de
trabalhar em outros lugares, que é necessário também, mas deixa algum
serviço a desejar". (Adhara)
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Sírius aponta a necessidade de esclarecimento ao tempo que avalia a atuação da enfermeira
enquanto integrante de uma equipe, sendo as relações interpessoais caracterizadas pelo exercício
de uma comunicação ineficiente entre os membros da equipe de enfermagem.
Servo (2001a) nos reporta que a comunicação significa compartilhar, intercambiar
pensamentos e opiniões, portanto deve ser recíproca, clara, correta, completa e concisa para todo
o pessoal.
Tendo em vista o processo de coordenação desenvolvido pela enfermeira na Unidade
Básica de Saúde ser um elemento decisivo nos processos de tomada de decisão e controle, como
a enfermeira identifica a necessidade de orientação e treinamento dos funcionários se ela não se
faz presente?
Com base nos discursos apreendemos que a ausência da enfermeira no setor em
determinados momentos é considerado um aspecto negativo na avaliação dos auxiliares de
enfermagem como fator que interfere na eficácia das atividades que estes desenvolvem.
Está explícito a necessidade de apoio, orientação e segurança apontado pelos auxiliares de
enfermagem. Assim, a supervisão desenvolvida pela enfermeira é visualizada como apoio na
execução das funções, sendo que a permanência desta na unidade possibilitaria o esclarecimento
das dúvidas e conferiria uma maior segurança.
"ela chega, olha, se tem alguma coisa errada ela me fala (...) se tem dúvida
a gente chega pra ela e pergunta (...) ela é uma pessoa assim, não tem
dificuldade nenhuma em passar nada pra gente". (Atria)
De acordo com a fala de Atria, o elemento supervisor caracteriza-se como um elementochave, detentor do conhecimento, responsável pelas decisões do “como fazer”. Tal fato é
contraposto por Ciampione (1985) quando evidencia que a interação do supervisor com o
supervisionado deve se traduzir pela resolução de problemas em conjunto, de forma cooperativa
e sistematicamente planejada.
Observamos que a avaliação das práticas de saúde focalizam a quantidade dos processos de
intervenção realizados pelos supervisionados, criando um viés na interpretação da capacidade
deste trabalhador.
De acordo com a fala dos entrevistados nota-se o controle exercido pela enfermeira.
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“ela dá o direito de a gente atuar, o que falta, ela toma providência”.
(Alhena)
“Ela já conhece o trabalho de todo dia de cada um”. (Polaris)
Arndt e Huckbay (1983) nos reportam que o controle é tanto avaliativo como punitivo e
está ligado à eficácia e eficiência das atividades administrativas e de enfermagem. Observamos
que através do controle a enfermeira pode organizar as práticas desenvolvidas e o método de
trabalho utilizado, tendo em vista o conhecimento das atividades desenvolvidas como afirmou
Polaris.
Analisando a institucionalização da enfermagem como profissão podemos entender o
contexto atual das relações de controle na equipe de enfermagem, visto que no Brasil a divisão
social do trabalho na enfermagem, deu origem às várias modalidades de trabalho auxiliar.
(PEDUZZI; ANSELMI, 2002)
A partir desta análise os sujeitos em estudo mencionam nas suas falas de forma subjetiva a
hierarquia existente na equipe de enfermagem.
“significa que ela é mais esclarecida que um auxiliar de enfermagem (...).
Ela bota mais ordem na casa” (Alhena)
“É uma pessoa que já deixa determinado o trabalho de cada um”.
(Polaris)
Podemos perceber a influência das raízes históricas da divisão social do trabalho na
enfermagem, tendo em vista que as "ladies nurses" eram responsáveis pela supervisão da
execução do trabalho assistencial desenvolvido pelas "nurses".
A fala dos sujeitos revelou uma posição autoritária da enfermeira dentro da equipe de
enfermagem por possuir conhecimento devido a sua formação acadêmica. Tal comportamento
pode criar barreiras no desenvolvimento das relações interpessoais.
Apreendo através dos discursos que a enfermeira no exercício da supervisão em Unidade
Básica de Saúde exerce o controle do trabalho de forma a permitir a manifestação de valores,
atitudes e padrões de comportamento da equipe que coordena. O mero cumprimento de tarefas
não garante uma assistência de qualidade.
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Nesse sentido, Servo (2001b) afirma que a supervisão/controle exercida como forma de
manutenção das formas de organização da divisão do trabalho de enfermagem reproduz o
controle do capital sobre o processo de trabalho.
Ratificando esta afirmativa, apresento a fala a seguir
“Olha, eu não tô aqui tão a parte como ela realiza a supervisão porque
esse lado é um lado técnico, é um lado que fica mais com a área
administrativa, então eu não faço muita parte, meu trabalho é somente o
trabalho técnico, eu não faço muita parte” (Rigel).
Rigel atribui um caráter meramente administrativo a supervisão, embora tal função
caracterize-se como um processo dinâmico que envolve integração dos recursos humanos com
vistas ao desenvolvimento da equipe de enfermagem.
Compreendo que a manutenção de relações interpessoais fundamentadas no respeito
mútuo possibilita a superação de limitações e contribui para um desempenho de melhor
qualidade, o que podemos inferir na fala de Alhena.
"relacionado ao coleguismo dentro do setor de trabalho, porque se não
houver coleguismo não há nada, nem com o auxiliar, nem com a
supervisora que é a enfermeira né, senão houver coleguismo,
organização do trabalho, nada resolve". (Alhena)
Ainda na fala de Alhena está implícita uma ameaça em relação ao não desenvolvimento
adequado do trabalho caso não haja interação na equipe de enfermagem, sendo apontado como
fator condicionante o relacionamento profissional entre a supervisora e o auxiliar de enfermagem.
A enfermeira no desenvolvimento da função supervisão deve traçar estratégias de forma a
possibilitar a compreensão dos valores, atitudes e sentimentos dos supervisionados, para
possibilitar a criação e (re) criação no saber-fazer.
A autoridade exercida pela enfermeira através da supervisão possibilita estabelecer relações
entre os componentes que deverão alcançar os objetivos propostos. Segundo Servo (2001b, p.75)
“poder é um conceito abstrato, presente na relação social entre pessoas ou grupos, cujo
significado se traduz na capacidade ou possibilidade de agir, de produzir efeitos e de determinar o
comportamento de outros”.
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Os relatos expressam uma concepção de poder que favorece a dominação e subordinação
dos supervisionados.
Significa que ela é mais esclarecida que um auxiliar de enfermagem. Às
vezes ela passa o que ela sabe até pra gente como auxiliar de
enfermagem, quer dizer que é alguma coisa [...] Todas que passam aqui
trazem novas experiências que elas aprendem, passa para auxiliar de
enfermagem. (Alhena).
“ela é uma pessoa que não pega no pé de ninguém, sabe?” (Polaris).
Alhena retrata o poder ideológico utilizado pela enfermeira, visto que esta possui como
recurso para instituir seu poder os saberes, conhecimentos e informações adquiridos no exercício
de sua função, o que vem a ser afirmado por Servo (2001b, p.77) em seu discurso.
quanto ao poder ideológico, através do campo dos saberes e códigos de conduta, a
supervisão da enfermeira exerce a influência sobre o comportamento das pessoas e
induz a equipe a adotar ou não determinadas ações, difundindo valores, socializando
saberes e práticas hegemônicas, imprimindo um certo jeito de fazer saúde nos espaços
institucionais.
Na fala do sujeito Polaris podemos perceber que a figura do supervisor pode ser vista de
duas formas: uma como elemento pertencente ao grupo promotor do crescimento da equipe,
outra como elemento superior ao grupo que utiliza o poder como instrumento de
opressão/dominação.
“eu vejo que na unidade de saúde o trabalho vem sendo realizado na
medida do possível, dentro das possibilidades que a gente, na maioria das
vezes vê que falta, é material para que o profissional, principalmente a
enfermeira possa realizar um trabalho mais eficaz (...), e sua vontade de
fazer acontecer né, no centro de saúde para que as pessoas possam se
sentir melhor ao se dirigir a unidade de saúde, para que elas possam ter
um bom atendimento, (...) não acontece, porque entra a parte, eu creio, a
parte política com a parte técnica na qual, é, acaba prejudicando o
trabalho da enfermeira na unidade de saúde” (Avior)
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“(...)então são barreiras que tem que ser quebradas que muitas vezes
esse processo né, político acaba prejudicando o trabalho do profissional
de saúde.” (Avior)
A enfermeira enquanto supervisora deve reconhecer a influência do componente político
como potencial fator de interferência no desenvolvimento de suas atividades e assumir sua
posição em defesa dos interesses coletivos.
Nesse estudo, apreendemos que o auxiliar de enfermagem ao buscar o significado da
supervisão realizada pela enfermeira, reconhece a influência do componente político como
potencial fator de interferência no processo de supervisão.
A atitude da enfermeira frente às interferências políticas vai depender de sua consciência e
de sua formação acadêmica política, pois enquanto profissional inserida em uma equipe
multiprofissional cabe a esta aceitar ou questionar à organização e estrutura do serviço em que
está inserida .
5 Conclusão
O significado da supervisão realizada pela enfermeira, sob a ótica dos auxiliares de
enfermagem, foi apreendida como uma função administrativa com vistas à orientação, segurança,
apoio, controle e poder.
No discurso dos entrevistados percebemos a necessidade de apoio e orientação no
decorrer de suas atividades, apontando para a importância da presença do elemento supervisor.
Com base na avaliação destes, notamos que a ausência da enfermeira no setor foi
considerada como um aspecto negativo, que interfere na eficácia das atividades que os
supervisionados desenvolvem.
Com relação ao controle das práticas de enfermagem, foi enfatizado que a enfermeira
avalia a quantidade dos processos de intervenção realizados pelos supervisionados nas unidades
de saúde, valorizando apenas o cumprimento de metas.
Observamos que a utilização do controle como método avaliativo permite à enfermeira
(re)organizar as práticas desenvolvidas no serviço e adequar o método de trabalho.
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O entendimento sobre o exercício do poder realizado pela enfermeira neste estudo foi
conflituoso, pois a divisão social do trabalho na enfermagem possibilitou a fragmentação de
funções ocasionando divergências ideológicas na equipe de enfermagem.
Compreendemos que o poder pode ser adquirido de várias formas, sendo instituído ou
conquistado. Portanto, apreendemos que a enfermeira supervisora deve conquistá-lo através das
relações estabelecidas no cotidiano da equipe de enfermagem, como forma de assegurar o
desenvolvimento efetivo do trabalho.
É mister o entendimento que o processo de supervisão faz-se necessário para possibilitar
uma assistência de enfermagem livre de danos, riscos e agravos aos usuários do SUS,
contribuindo desta forma para a consolidação deste sistema, na medida em que o elemento
supervisor tem como objetivo o desenvolvimento da equipe na qual trabalha e o atendimento das
necessidades biopsicosociais da população que assiste.
Referências
ARNDT, Clara; HUCKABAY, Luciene M. Administração em enfermagem. 2. ed. Rio de
Janeiro: Interamericana, 1983.
BOTAZZO, Carlos. Unidade Básica de saúde: a porta do sistema revisitada. Bauru, São
Paulo: EDUSC, 1999.
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CIAMPONE, Maria Helena Trench. Supervisão e enfermagem. Revista Paulista Enfermagem,
São Paulo, v.5, n.3, p.11-113, jul./set. 1985.
CORREIA, Valesca Silveira; SERVO, Maria Lúcia Silva. Padrão de Supervisão das Enfermeiras
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