Maria Lúcia Pupo
e n t r e v i s t a
Te
O teatro parece ser privilegiado por conter em si uma série
de outras linguagens artísticas, como a expressão corporal
(a dança), as artes plásticas (presentes na concepção dos
cenógrafos), a literatura, a música, entre outras. A Móbile
reconhece que o teatro pode ser um importante aliado em
suas práticas educacionais, por isso desenvolve uma série de
atividades ligadas a essa arte. Nesta quinta edição, a Revista
da Móbile teve o prazer de entrevistar uma das maiores
autoridades do país em teatro ligado à educação. Maria Lúcia
Pupo é professora titular no Departamento de Artes Cênicas
da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São
Paulo. Atua na formação de professores de Teatro e orienta
pesquisas de mestrado e doutorado no campo da pedagogia
teatral. Sua experiência profissional abrange a coordenação
de processos teatrais com crianças, jovens e adultos em
escolas e oficinas, em diferentes contextos, e inclui a atuação
em grupos teatrais e universidades no Rio Grande do Sul,
onde viveu por alguns anos. Obteve o título de doutora na
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Universidade de Paris III e desenvolveu múltiplas atividades
na França, como docente e membro de grupos de pesquisa.
Faz parte de seu percurso uma estada no Marrocos, o que
originou seu último livro (Entre o Mediterrâneo e o Atlântico:
uma aventura teatral – Editora Perspectiva). Publicou
também No reino da desigualdade, sobre teatro infantil
em São Paulo nos anos 1970, além de inúmeros artigos
especializados, no Brasil e na França.
eatro
Revista da Móbile - Professora, na história da
escola, muitas foram as formas artísticas utilizadas como apoio para o ensino-aprendizagem das disciplinas: as artes plásticas, a
música, a dança. Por que a senhora direcionou
seus estudos para o teatro? Poderíamos dizer
que o teatro seria uma arte mais completa,
que proporciona mais possibilidades artísticoeducacionais?
Maria Lúcia Pupo - Foi sobretudo o prazer de
assistir a peças de teatro e, em menor grau, também de fazer teatro que me levou a escolher essa
arte. Quando soube que a Escola de Comunicações
e Artes da USP oferecia uma formação profissional
na qual era proposta uma aliança entre o teatro e a
educação, fiquei entusiasmada com a perspectiva de
poder mergulhar no casamento entre duas esferas
em torno das quais já tinha grande interesse, desde
o curso normal, hoje extinto. Nosso desafio não é
o de "utilizar o teatro como forma de apoio para o
ensino-aprendizagem das disciplinas"; não se trata
de se valer dele tendo em vista objetivos exteriores
a ele mesmo. As contribuições mais efetivas que
o exercício da cena pode trazer para os jovens
provêm do desvendamento da natureza específica
dessa arte. Vale sempre a pena retomar a pergunta:
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"Quais são as descobertas propiciadas pelo fazer
concretas de intervenção. Infelizmente, isso
teatral que nenhuma outra área do conhecimento
pouco aconteceu e os princípios expostos nos
pode assegurar?" Uma das mais significativas é,
Parâmetros Curriculares não têm recebido a aten-
sem dúvida, a possibilidade de ver o mundo com
ção que merecem. Embora, há cerca de uma
os olhos do outro, o exercício da alteridade, da
década, eles tenham assumido posição em favor
capacidade simbólica.
do "ensino de artes", definindo a especificidade
RM - Os Parâmetros Curriculares Nacionais
de cada uma delas, ainda hoje ocorrem concursos
para o Ensino Fundamental instituíram o
públicos envolvendo a terminologia "Educação
Teatro como uma das linguagens da área
Artística", em flagrante contradição com as dire-
de Arte. Qual a importância prática desse
trizes federais.
reconhecimento?
RM - Muitas escolas parecem ter se apro-
Pupo - A publicação dos Parâmetros na década
priado da concepção segundo a qual o teatro
de 1990 consistiu, sem dúvida, em um avanço
deve fazer parte do currículo. Entretanto,
extremamente significativo no ensino das artes
são muitas as formas que essa expressão
entre nós. Após todo um período entre meados
artística pode assumir no ambiente escolar.
dos anos 1970 e 1990, em que associações de
Há escolas que privilegiam grandes monta-
professores espalhadas por todo o Brasil haviam
gens quase profissionais, outras trabalham
questionado enfaticamente o ensino polivalente
mais com jogos. Qual seria a forma mais
de Artes, a publicação dos Parâmetros na esteira
adequada em sua opinião?
da Lei de Diretrizes e Bases sugere de modo
Pupo - Quando refletimos sobre o sentido da
articulado os princípios, objetivos e diretrizes rela-
inserção do teatro na escola, seja dentro do cur-
tivos à aprendizagem de diferentes artes dentro do
rículo, o que é sempre desejável, seja enquanto
sistema educacional brasileiro. Como os textos não
modalidade extracurricular, temos a grande vanta-
apresentam aos professores receitas sobre "como
gem de estarmos desvinculados das injunções do
agir", os vetores de trabalho apontados exigem
mercado. O termo "artes cênicas", assim como o
que o corpo docente – preferencialmente de modo
termo "teatro", cobre um sem-núme-
Palco
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coletivo – reflita sobre eles, de modo a escolher e
operacionalizar pro-
postas
ro de concepções artísticas. Em
cada contexto, em cada momento
histórico, em função de diferentes
visões de educação, impõem-se escolhas a respeito do sentido das práticas e da
forma de atuar nas jovens gerações. No século
todas as culturas e em todos os momentos históri-
XVI, por exemplo, em meio ao ideário da colo-
cos, podendo, assim, servir de base sólida para
nização portuguesa, os jesuítas propuseram aos
a descoberta do teatro. Esse caráter lúdico do
indígenas um exercício teatral herdeiro direto dos
teatro não cessa de ser evidenciado e retomado
autos medievais, tendo em vista a sua catequese.
em nossos dias, com intensidade crescente. Uma
Quando pensamos hoje no sentido da abordagem
das explicações para isso está no fato de que
teatral na escola, verificamos que algumas das
não cabe mais ao teatro reproduzir a realidade
maneiras contemporâneas de fazer teatro que
ou criar a ilusão do "verdadeiro", o que o cinema
se contrapõem aos esquemas consagrados do
sempre fará com incomparável competência.
espetáculo no palco italiano são marcadas por
A dimensão do jogo; ela, sim, é intrínseca à cena
características que, em última análise, contribuem
e insubstituível.
para o crescimento de quem está nelas envolvido.
RM - A senhora tem desenvolvido ao longo
Assim, a abertura para a experiência, a importân-
de sua carreira acadêmica uma série de
cia do trabalho coletivo, a reflexão sobre o pro-
trabalhos e pesquisas acerca da interface
cesso de criação, o questionamento das fronteiras
Literatura e Teatro. Em que consiste esse
entre quem faz e quem atua, pontos de referência
diálogo entre o "contar" literário e o "mostrar"
do fazer artístico de nosso tempo, são balizas que
teatral?
podem nortear o sentido dos processos de apren-
Pupo - Tenho procurado construir e experimentar
dizagem que queremos instaurar.
práticas teatrais de caráter lúdico nas quais o
RM - A literatura que trata da relação entre
texto literário – narrativa ou poesia – venha a se
teatro e educação estabelece que os jogos
constituir em parceiro de jogo. A idéia é propiciar
dramáticos são essenciais na escola com
aos participantes a ampliação do seu quadro de
não-atores. Por quê?
referências graças ao conhecimento de outra
Pupo - Antes de mais nada, seria necessário
visão do mundo, expressa pelo texto escrito por
precisar de que exatamente estamos falando
um autor, ausente no momento em que ocorre o
quando usamos o termo "jogo dramático", pois,
processo teatral. A partir de um encaminhamento
dependendo de quem o utiliza, ele pode ter
cuidadoso, os participantes se apropriam do texto
acepções diversas; esse rigor na terminologia
literário jogando com ele, assumindo posições em
é uma preocupação que temos na universidade
relação a ele por meio da linguagem teatral, o que
com os estudantes em formação. O interesse de
envolve estabelecimento de ação, definição de
processos de aprendizagem teatral baseados em
espaço e de papéis, entre outros elementos. Trata-
modalidades lúdicas está no fato de que jogar
se de descobrir como múltiplos significados podem
é uma dimensão do fazer humano presente em
emergir de um texto quando ativado pelo jogo.
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RM - A aprendizagem do Teatro na escola
Seja lá como for, o que me parece importante
deve privilegiar mais a produção, a contex-
hoje são os princípios propostos por ela, que cabe
tualização (histórica) ou a apreciação dessa
reinventar a cada novo processo.
forma artística? Qual o papel da escola na
formação de público?
Pupo - Todas essas vertentes são relevantes.
Uma vez mais, a ênfase e as prioridades vão
depender das características do contexto no qual
o professor atua e dos objetivos que pretende
alcançar. A preocupação com a formação de
público vem se traduzindo entre nós em uma série
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Não
se
trata
de
"aplicar"
o
sistema,
mas
de
estabelecer
novas
sínteses
a
partir dele.
de experiências interessantes, que têm tudo a
RM - Seus estudos ao longo dos anos abran-
ganhar se forem pensadas dentro da instituição
gem, além da interface Teatro e Educação, a
escolar. O prazer da fruição artística resulta da
dramaturgia voltada para o público infantil.
capacidade de apreciar a obra, o que é sempre
Como a senhora enxerga o panorama do
fruto de uma familiaridade com ela, com a sua
teatro infantil hoje? A senhora concorda
"freqüentação". Nesse sentido, a escola, coração
com a famosa afirmação feita, em 1907, pelo
do projeto democrático, pode, sim, desempenhar
diretor russo Constantin Stanislavski, de que
um papel significativo.
"o teatro para crianças é como o teatro para
RM - De que maneira a metodologia criada
adultos, só que melhor"?
pela norte-americana Viola Spolin (jogos
Pupo - Essa afirmação de Stanislavski serviu
teatrais com estudantes não-atores) influen-
de apoio para vários criadores que muito bata-
ciou o uso dos jogos teatrais no Brasil a
lharam pela legitimação do teatro infantil nas
partir do final dos anos 1970?
principais cidades brasileiras ao longo das últi-
Pupo - Uma das peculiaridades do sistema de
mas décadas. O problema é que a especificidade
jogos teatrais, que contribui para explicar essa
do teatro infantil – que surgiu no ocidente por
penetração em todo o Brasil, vem do fato de eles
volta dos anos 1930 –, em grande número de
se enraizarem em jogos tradicionais, cujas regras
casos, se traduziu em espetáculos marcados por
já são de antemão dominadas pelas crianças e
preconceitos, estereótipos e indigência artística,
também pelos adultos. Spolin teve o mérito de
o que tive a ocasião de apontar no livro No reino
conceber pistas para o aprendizado do teatro
da desigualdade. A situação atual se transfor-
baseadas no recorte da linguagem teatral em uni-
mou, em parte; embora não se possa dizer que
dades mínimas a serem exploradas ludicamente.
esse panorama esteja extinto, observam-se em
nosso meio algumas criações muito inventivas
coordenei oficinas de escrita de ficção nas quais
que podem interessar a pessoas de várias idades,
os participantes partiram da realização de jogos
fruto de um tratamento poético que não subestima
teatrais para chegar à escrita de textos ficcionais
o público infantil.
de sua autoria. Percorremos, portanto, trajetórias
RM - Vladimir Capella é um diretor e dra-
do texto ao jogo e outras, do jogo ao texto.
maturgo que atua desde a década de 1970 e
O desafio era grande, pois as particularidades da
privilegia a busca por uma "poesia cênica"
cultura local exigiram um esforço cauteloso a fim
que não se restrinja a classificações etárias,
de procurar compreender a visão de mundo dos
por isso seu teatro poderia ser fruído por
participantes, de modo a não lançar propostas de
pais e filhos. A senhora acredita que esse é
trabalho teatral que pudessem ferir suscetibili-
um bom caminho para o teatro?
dades. Foi preciso mergulhar nos complexos refe-
Pupo - Sim, acredito. Capella é um dos autores
renciais culturais dos participantes, atravessados
que têm levado mais longe essa perspectiva de
por conflitos entre preceitos religiosos ances-
rompimento das fronteiras etárias, com criações
trais e peculiaridades de um mundo globalizado.
que se tornaram referências dessa postura na
A terminologia utilizada, os gestos e as instruções
cena paulista.
de jogo precisavam ser cuidadosamente pesados
RM - Fale-nos um pouco sobre seu trabalho
a cada momento. Mas o teatro é o lugar de
teatral no Marrocos.
reconhecimento do outro, e pudemos verificar
Pupo - Ao longo de pouco menos de dois anos,
no âmago dos grupos a força dessa arte: entre o
na década passada, tive ocasião de desenvolver
Mediterrâneo e o Atlântico, ou seja, entre os mar-
um trabalho teatral na cidade de Tétuan, no
roquinos e a brasileira, pouco a pouco o jogo foi se
norte do Marrocos, apresentado no livro Entre o
configurando como o veículo de um belo encontro.
Mediterrâneo e o Atlântico: uma aventura teatral.
O prazer lúdico, que se faz presente entre todos
Dentro de oficinas realizadas com jovens e adultos
os seres humanos, nos meios os mais diversos,
de diferentes instituições marroquinas, coordenei
tornou-se o grande elo que possibilitou a desco-
processos de aprendizagem teatral relacionando
berta do outro e abriu as portas do diálogo entre
textos narrativos de ficção e jogos teatrais. Por
as culturas. Nesse processo, novas capacidades
um lado, experimentamos jogar teatralmente com
simbólicas vinculadas à corporeidade foram con-
textos narrativos variados, desde As mil e uma
quistadas pelos membros das oficinas, e textos
noites até passagens de romances e contos de
literários foram apreendidos e explorados como
autores árabes contemporâneos, sem adaptá-los
vetores especiais na descoberta do teatro.
para o teatro, mas mantendo a narrativa como
tal. Também percorremos o caminho inverso;
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