Ano IX • nº 183 Agosto de 2010 R$ 5,90 AN cartão BRB em poucas palavras Divulgação E o palhaço, o que é? É ladrão de mulher... Não dá para entender a origem desse bordão, nem a razão pela qual ele, vira e mexe, aparece em nossas memórias de infância. Injustiça cruel com os profissionais que dedicam sua vida à nobre tarefa de fazer rir as crianças e os crescidinhos também. Pois é ele, ou melhor, são elas, as palhacinhas Doutoras Música e Riso, as nossas homenageadas da capa. O grupo, criado por Antonia Vilarinho, leva alegria para as crianças internadas em hospitais da cidade e que, portanto, não estão podendo brincar. Leia, em Palhaçadas que confortam (página 24), como o teatro e a música podem ter efeitos terapêuticos. Teatro e música, aliás, têm este mês ótimas opções nos palcos da cidade. Uma delas é o Cena Contemporânea, festival internacional que chega a sua 11ª edição e ocupa praticamente todos os teatros brasilienses (página 29). Na seção Graves & Agudos, o tema do mês é o projeto A música na linha do tempo, que traz o melhor da MPB e da música erudita à Sala Cássia Eller, da Funarte (página 26). Nas artes plásticas, dois bons programas no CCBB e na Caixa Cultural. No primeiro, a exposição Brasília e o construtivismo: um encontro adiado (página 30); na segunda, a mostra Bandeira de Mello, retrospecto (página 31). A seção Água na Boca tem como destaque a matéria em que fazemos 15 sugestões de restaurantes para se comemorar em grande estilo o Dia dos Pais (página 4). Na coluna Pão & Vinho (página 15), Alexandre Franco completa nossa proposta sugerindo a cada pai um tipo de vinho. Para os filhos de Claudes, um Côte du Rhône; para os de Giuseppes, um Toscano; e para os Manoéis e Joaquins, um bom Douro... Aliás, se me permitem, escolho esta última sugestão para fazer um brinde ao meu pai, um Fernandes com ancestrais lusitanos que infelizmente não estará comigo neste 8 de agosto, mas merece a homenagem. Feliz Dia dos Pais, seu Sérgio. E Feliz Dia dos Pais a todos os pais que nos leem. Boa leitura e até setembro. Maria Teresa Fernandes Editora 4 águanaboca O Le Jardin, do Clube de Golfe, criou para o Dia do Pais uma sobremesa que tem tudo para agradar: mousse de cachaça. 12 14 15 16 20 24 26 28 30 32 picadinho garfadas&goles pão&vinho palavradochef dia&noite solidariedade graves&agudos queespetáculo galeriadearte luzcâmeraação ROTEIRO BRASÍLIA é uma publicação da Editora Roteiro Ltda | SHS, Ed. Brasil 21, Bloco E, Sala 1208 – CEP 70322-915 – Tel: 3964.0207 Fax: 3964.0207 | Diretor Executivo Adriano Lopes de Oliveira | Redação [email protected] | Editora Maria Teresa Fernandes | Capa Carlos Roberto Ferreira sobre foto de Rafael Herzog| Diagramação Carlos Roberto Ferreira | Reportagem Akemi Nitahara, Alexandre Marino, Alexandre dos Santos Franco, Beth Almeida, Eduardo Oliveira, Heitor Menezes, Lúcia Leão, Luiz Recena, Quentin Geenen de Saint Maur, Reynaldo Domingos Ferreira, Sérgio Moriconi, Silio Boccanera, Súsan Faria e Vicente Sá | Fotografia Eduardo Oliveira e Rodrigo Oliveira | Para anunciar Seven BSB Representação (3321-4304 / 9666.7755 / 9973.4304) e Ronaldo Cerqueira (8217.8474) | Assinaturas (3964.0207) | Impressão Gráfica Charbel | Tiragem 10.000 exemplares | Errata A foto da capa da edição 182 é de autoria de Eduardo Oliveira. www.roteirobrasilia.com.br 3 água na boca Bife de tira com arroz de brócolis e fritas, do Ilê Eles também merecem O s filhos dotados de algum talento culinário e disposição para encarar um fogão – além de uma pia cheia de panelas e pratos sujos – podem render homenagem a seus pais sem precisar sair de casa. Para os desprovidos dessas virtudes, entretanto, o jeito é “abrir a mão” e convidar o paizão para se refestelar em algum bom restaurante da cidade. Opções não faltam. E a Roteiro selecionou com carinho algumas das melhores maneiras de festejar o Dia dos Pais em alto estilo. 4 O Bottarga Ristorante partiu do princípio de que o 8 de agosto é um dia tão especial que merece um menu também especial. De entrada, um tartare de salmão, seguido de um prato inédito no cardápio: arroz de pato. Para completar, a torta rústica de maçã com chantilly e canela, em nova versão. De acordo com os proprietários, Leo Lynce e Maria Tereza Cavalcanti, os pratos criados para a data ficaram tão bons que eles já pensam em agregá-los ao cardápio. A sequência de É hora de pensar numa maneira especial de homenagear os pais neste 8 de agosto delícias custa R$ 96 por pessoa. O mesmo princípio seguiu o chef Thiago Assunpção, do Pan Doo, que criou três menus completos caprichados, com entrada, prato principal e sobremesa. Pais e filhos podem escolher, de entrada, entre sushi de ceviche, frango Satay e espetada de carne. De prato principal, tornedor ao molho de ostras e legumes à indiana, carneiro com pétalas de cebola ou camarão ao leite de coco. Na sobremesa, as possibilidades são os sorvetes de co- Fotos: Divulgação co malasiano, de chocolate com pimenta ou com calda de frutas do bosque. Qualquer das três opções de menu custa R$ 39,90 por pessoa. Virgínia Prieto e Gustavo Drumond informam que o seu Triplex vai imprimir sotaque espanhol à homenagem. O cardápio especial para o Dia dos Pais tem na entrada tapas e tiraditos variados. Como prato principal, paleta de cordeiro acompanhada de tortilha espanhola de batatas e arroz de açafrão. Ambos apor R$ 43 por pessoa. Para completar, eles recomendam uma sobremesa pra lá de caprichada: massa folhada de uvas verdes com creme de confeiteiro e sorvete de baunilha, que custa R$ 12. Daisy e Daniel Vieira, do 4Doze Bistrô, acreditam que o Dia dos Pais deve ter o mesmo peso do Dia das Mães. Ambos estão no calendário para estreitar os laços familiares. Nada melhor, então, do que reunir a família à mesa e comemorar com um almoço ou jantar caprichado. Eles criaram um prato que, garantem, vai pegar em cheio os pais pela barriga: medalhão ao molho de figos, acompanhado de fettucine na manteiga de ervas. O prato individual sai por R$ 36,90. A inspiração do chef Ville, do Mercado Municipal, veio de sua última viagem gastronômica pela Itália. Ele resumiu os inesquecíveis sabores daquele país europeu criando um prato único, ideal para o Dia dos Pais: macarronada tricolore. A delícia tamanho família vem com fettucine ao molho fredo acompanhado de penne ao molho alichela e espaguete ao molho passata. Mamma mia! E ainda tem o reforço de três carnes: filé mignon, peito de frango e costelinha suína. Ideal para ser compartilhado, com muita disposição, por três a quatro pessoas. Custa R$ 44,90. Como a Itália está mesmo na moda, o Belini Il Ristorante vai celebrar o Dia dos Pais com massa romana, que volta ao cardápio da casa. Trata-se de espaguete com brócolis e linguiças toscanas sem pele. O delicado sabor picante na boca vem do queijo grana padano ralado e da pimenta malagueta. Custa R$ 28,50 e o pai ainda pode escolher entre duas cortesias da casa: uma taça de vinho tinto italiano Montepulciano d ‘ Abruzzo 2008 ou qualquer uma sobremesa do cardápio. Paulo Maurício também oferece a sobremesa de presente ao pai que for festejar em seu Ilê: o delicioso pretão com creme de leite. As carnes também estarão com preço promocional no domingo. Tanto o bife de tira como a picanha e o prime rib vão custar R$ 39. Os acompanhamentos, dois, podem ser escolhidos entre arroz de brócolis, batatas fritas e farofa de ovos. Quem optar pela moqueca de camarão no coco vai desembolsar R$ 29 e poderá escolher também dois acompanhamentos, entre arroz, pirão e farofa de dendê. O chef Bené, do restaurante Le Jardin, criou um prato que cai bem no paladar masculino: risoto de ossobuco com açafrão (R$ 43, individual). Para completar, ele recomenda a mousse de cachaça, acepipe de saborear rezando que custa R$ 18. Pizza de gorgonzola com pêra, da Baco Pizzaria Macarronada tricolore, do Mercado Municipal Risoto de ossobuco com assafrão, do Le Jardin 5 Medalhão ao molho do figos, do 4Doze Bistrô Massa romana, do Belini Il Ristorante Paleta de cordeiro, do Parrilla Madrid Torta de maçã com chantilly, do Bottarga 6 O bufê especial do Dia dos Pais no Armazém do Brás terá como carros-chefes a bacalhoada e a rabada, dois pratos bastante apreciados por eles. Para acompanhar a comilança, o primeiro chope que o pai saborear sairá de graça. O preço do bufê no domingo será de R$ 16,90 por pessoa. Criança paga metade. Já o bufê de almoço da Forneria Baco terá os habituais antepastos, massas frescas, risotos e carnes preparadas na hora, com a inclusão de paella de bacalhau, paella marinera e leitão assado no forno à lenha, a R$ 45 por pessoa. O bufê infantil sai por R$ 19. Pratos também reforçados estão no cardápio especial do Parrilla Madrid, especializado em carnes preparadas ao estilo argentino. São dois os pratos dedicados aos pais: a paleta de cordeiro marinada no vinho com alecrim (R$ 119 a porção para três pessoas) e a super back ribs, suculenta costela de porco assada, defumada e grelhada durante cinco horas (R$ 78 a porção para três pessoas). No Severina, restaurante de comida nordestina, a data será marcada com o lançamento de uma sobremesa típica da região Nordeste: o bolo de rolo. A delícia, acompanhada de sorvete de tapioca com goiabada em pasta, custa R$ 12,90. Como o domingo é sempre bom quando termina com a família em torno de uma bela massa de pizza, a Baco Pizzaria terá rodízio com mais de 30 sabores. Os destaques serão a calabresa bêbada e a gorgonzola com pêra, as queridinhas dos papais. O rodízio sai a R$ 30,80 por pessoa. Criança até 12 anos paga R$16. Na rede Fratello Uno, uma criação especial do chef Dudu Camargo: a pizza de linguiça lança-chamas (com erva doce e cebola, coberta com de salada de rúcula e lascas de queijo burrata). Em três tamanhos, para atender a todo tipo de família: grande (R$ 46,80), média (R$ 41,20) e pequena (R$ 35,80). Para quem preferir terminar o domingo agarrado a um bom sanduíche, Fotos: Divulgação água na boca Bolo de rolo com sorvete de tapioca, do Severina o Respeitável Burguer tem várias opções. A sugestão para encerrar com chave de ouro o Dia dos Pais é pedir um sanduíche de pernil acebolado no pão francês, que custa R$ 9,10. Com a vantagem de que lá a comemoração pode se alongar pelo tempo que pais e filhos aguentarem. A casa de Dudu Camargo fica aberta 24 horas à espera dos esfomeados de plantão. Mais importante do que escolher onde comemorar é fazer do 8 e agosto um dia especial e inesquecível para os pais. Bom apetite e um excelente domingo! Bottarga QI 9 Lago Sul (3234.7871) Pan Doo 306 Sul (3443.5534) Triplex Centro de Lazer Beira Lago (3226.8869) 4Doze Bistrô 412 Sul (3345.4351) Mercado Municipal 509 Sul (3442.4500) Belini Il Ristorante 113 Sul (3345.0777) Ilê 209 Sul (9994.1503) Le Jardin Clube de Golfe (3321.2040) Armazém do Brás 107 Norte (3347.4735) Forneria Baco ParkShopping (3234.7871) Parrilla Madrid 408 Sul (3443.0698) Severina 201 Sul (3224.6922) Baco Pizzaria 408 Sul (3244.2292) 309 Norte (3274.8600) Fratello Uno 103 Sul (3321.3213) 109 Norte (3447.8989) Respeitável Burger 402 Sul (3224.8852) Outros agrados para os pais Quer um espresso ou um lungo? Essa vai ser a grande dúvida do sortudo que ganhar um dos sonhos de consumo de todo pai gourmet que se preze... Com essa Nespresso Le Cube, a possibilidade de degustar diferentes sabores de legítimos grand crus. Acompanham duas xícaras para cada tipo de café. À venda na Belini Pães e Gastronomia (113 Sul). De terça a sábado, das 6h30 à meia noite. Telefone: 3345.0777. R$ 1300. Máquina de fazer pão O pai prático e novidadeiro vai gostar da Artpane, uma panificadora que ele programa para fazer um pão quentinho. É só colocar os ingredientes e seguir as orientações do fabricante que a delícia fica pronta na hora que ele desejar, sem sujar as mãos, até 15 horas depois da programação. O sabor, o tamanho e a cor do pão é ele que decide. À venda no site www. comprafacil. com.br por R$ 239,04 (R$199,90 mais o frete de R$ 39,14). Mini geladeira Livro da hora Ideal para o marinheiro de primeira viagem que quer ter alguma ideia do que seja a paternidade assim que ela é descoberta. No livro Diário de um grávido, da Mescla Editorial, o jornalista Renato Kaufmann conta, de forma bem humorada, como é atrapalhada e emocionante a gravidez sob a ótica masculina. Baseado em fatos reais, o autor divide o livro em quatro partes, incluindo os três trimestres da gravidez, o nascimento e os primeiros dias de convívio com a filha Lúcia. À venda na Livraria Cultura (CasaPark e Shopping Iguatemi) por R$ 31,92. Rádio nostálgico Ideal para o pai que tem um bar em casa e gosta de receber os amigos em paz, sem ter de enfrentar a blitz depois... Com espaço para guardar até 15 latas de 350 ml, a mini geladeira Mobicool dá um toque retrô à decoração. No site www.americanas. com.br ela custa R$ 459,00 e não há despesa com frete. It’s now or never... Para aquele tipo de pai que se amarra no Elvis Presley e acha que o cantor, na verdade, nem morreu. Relógio de parede com a estampa do ídolo. R$ 84. À venda na Cobogó (704/705 Norte, Bloco E. Telefone: 3039.6333. R$ 22. Chaveirinho Para o pai que já tem tudo e se amarra em criações vintage. À venda na Cobogó, que fica na 704/705 Norte, bloco E, lojas 51/56. Telefone: 3039.6333. R$ 85. Se a grana anda curta e a solução for optar pela “lembrancinha”, melhor que ela tenha um toque pessoal e seja estilosa. O mimo já vem com espaço para colocar aquela sua foto caprichada das férias passadas. Também à venda na Cobogó. R$ 22. Fotos: divulgação Máquina de fazer café 7 água na boca Território paulista O Viena e o Galeto’s já chegartam, mas ainda vêm por aí Pobre Ruan e o Gero Texto e fotoS Eduardo Oliveira U m pedaço de São Paulo desembarcou em Brasília junto com o Iguatemi. Não bastasse o próprio shopping ser filial de um paulista, seu mix gastronômico trouxe para cá uma boa leva de restaurantes da maior cidade brasileira. Alguns exemplos: o executivo Viena, já em funcionamento, a parrilla argentina do Pobre Ruan e o italiano Gero, do grupo Fasano, que serão inaugurados em breve. Em julho, quem fincou pé no pedaço foi o Galeto’s, tradicional restaurante paulistano em atividade desde 1971. “Já éramos parceiros do Iguatemi em São Paulo, então fomos convidados para abrir aqui em Brasília”, conta a gerente de marketing Sílvia Corbucci. Com 430m² e capacidade para 212 pessoas, a filial candanga é a maior da rede, que conta ainda com 11 lojas em São Paulo e uma no Rio de Janeiro. Apesar da grande quantidade de filiais, a marca não é franqueada. Todas as casas pertencem a Paulo Gala, filho do fundador, o português Adelino Gala, e têm administração centralizada. Esta é a segunda tentativa do Galeto’s de se instalar em Brasília. Há mais de dez anos, o restaurante chegou a funcionar no 8 ParkShopping, mas não por muito tempo. Para que esta vez seja definitiva, a aposta é no bom treinamento da equipe. Alguns funcionários vieram de São Paulo com o intuito de treinar os demais. “Trouxemos algumas pessoas que têm bastante tempo de casa e em quem confiamos cegamente para ajudarem nesta fase inicial”, informa Sílvia. Como não poderia der diferente, o galeto é de longe o prato mais pedido, se- gundo a gerente de marketing. O corte da ave desossada foi desenvolvido no próprio Galeto´s e até hoje é feito manualmente, exclusivamente para os restaurantes da rede. Os galetos são grelhados com sal grosso e levam o tempero da casa, criado há 40 anos. Para completar, o cliente ainda escolhe um molho especial, entre tártaro, vinagrete, barbecue, mostarda em grãos, ervas finas e champignons. O prato que dá nome à casa é o carro- chefe da rede, mas não a única opção. O cardápio oferece grande variedade de grelhados, como picanha, filé, baby beef, salmão e camarão. Para acompanhar, o cliente pode escolher desde o sofisticado risoto de champignons até as tradicionais batatas e polentas fritas. “Em Brasília, curiosamente, nossa polenta fez muito sucesso, é o acompanhamento que mais sai”, diz Sílvia. Se preferir, o cliente ainda tem como opção de acompanhamento massas com molhos à escolha. Já que uma boa refeição pede uma boa sobremesa, o Galeto’s tem um completíssimo cardápio de doces, dividido em três categorias: “Tradicionais da casa”, “Porque vale a pena” e “Sem culpa”. Na primeira seção, o destaque é o pudim, nas versões clássico, brûlée ou com pêssego. A segunda traz uma seleção de doces com sorvete Häagen-Dazs, do sundae de chocolate e do petit gâteau até o Bossa Nova – sorvete de baunilha com calda de maracujá e flocos de coco. Por fim, a categoria “Sem culpa” é para aqueles que querem manter a forma saboreando frutas da estação ou uma salada de frutas. Galeto’s Shopping Ituatemi – Lago Norte (3577.5261) Diariamente, das 11 às 23h. Planeta doce Gostosuras criadas por confeiteiros de Araxá e Nova York dividem a preferência da freguesia na biscoiteria Pingo de Leite Por Lúcia Leão Fotos Rodrigo Oliveira Q Sílvia Corbucci: em Brasília, a maior filial do Galeto's uem já visitou a mineira Araxá certamente conhece pingo de leite. É aquele docinho que as crianças oferecem aos turistas na entrada das termas e que cativa os sentidos dos visitantes pelo sabor inusitado (resultado da mistura do leite com a rapadura), a tonalidade marrom brilhante, como a do chocolate, e a textura divertida da casquinha crocante que o envolve e contrasta com a massa cremosa. “É o doce que melhor representa a tradição culinária mineira, especialmente da região de Araxá, onde eu nasci e passei deliciosos períodos da infância enrolando e embalando pingo de leite no papel celofane, como todas as meninas da minha geração”, conta Denise Araújo. Ela foi buscar nessas reminiscências o nome para a casa de quitandas que abriu no último mês de maio, em parceria com os filhos João e Marcelo, na 413 Sul. Os pingos de leite estão lá, numa bandejinha bem na entrada da casa, para serem degustados pelos clientes. Para além deles, mais de uma centena de delícias saídas, em sua maioria, dos livros de receitas tradicionais e da memória dos antigos. Denise, com a experiência doméstica e o gosto pela cozinha, e João, com os conhecimentos adquiridos em cursos de gastronomia, resgataram segredos que passaram de mãe para filha por muitas 9 água na boca os bolos exclusivos, em formato de rosas, magnólias, estrelas e uma boa variedade de desenhos que por si só garantem uma mesa especial. Pães doces, ciabatas e salgados – assados ou fritos em óleo de canola – completam as opções de guloseimas, mas não os prazeres oferecidos pela Pingo de Leite. O ambiente simples e elegante projetado pela arquiteta Mônica Pinto – a mesma que assina as decorações do restaurante Piantella e da adega Expand – acolhe na medida o café da manhã ou o chá das cinco – as horas de maior movimento da casa – ou uma parada para um simples cafezinho. Ou nem tão simples assim. Outra vedete da casa, o cafezinho é preparado com grãos especiais numa La Spaziale, a terceira melhor no ranking internacional de máquinas de café italiano. É! A simplicidade é um luxo! Pingo de Leite – Biscoiteria e Café 413 Sul – Bloco B (3445.1330) De 2ª a 6ª feira, das 8h30 às 19h30; sábados, das 8h30 às 18h. gerações e estavam prestes a se perder pela natural mudança de hábitos imposta pela vida moderna. Como o bolo de mandioca, bem molhadinho e cremoso, e o bolo da Maria, um pão de ló preparado à moda da avó Maria. Os aneizinhos de queijo, biscoitinhos salgados bem crocantes, estão no mesmo rol das receitas familiares. São especialidade da mãe de Denise, dona Dulcinéia. “A maior dificuldade foi adaptar essas receitas caseiras à produção em larga escala”, conta Marcelo, o gerente do negócio e único dos sócios que não coloca a mão na massa. “Eu vi minha mãe e meu irmão fazerem várias tentativas até ajustarem as quantidades e a manipulação dos ingre- 10 dientes para chegar à mesma qualidade dos produtos que a gente come nas casas de Araxá”. As quitandas mineiras são o carro-chefe do Pingo de Leite, mas não têm exclusividade no cardápio da casa. Dividem as prateleiras e balcões com ícones da confeitaria internacional, como os brownies, os muffins (bolinhos recheados) delicadamente confeitados e os cupcakes (bolinhos no copo, como o nome diz), uma criação dos confeiteiros novaiorquinos que está virando febre em Brasília. “Quantos a gente faz, tantos a gente vende”, garante Marcelo. Também vieram de Nova York – o contraponto de Araxá no planeta doce Pingo de Leite – as formas de onde saem Pingo de leite A receita é simples e tem só um segredo: paciência. Ingredientes 4 litros de leite 1 quilo de rapadura em barra 1 colher de sobremesa de bicarbonato Modo de preparar Misturar os ingrediente em um tacho (a rapadura picada) e cozinhar em fogo brando, mexendo sempre, até chegar ao ponto de brigadeiro. Isso leva aproximadamente quatro horas. Deixar esfriar, enrolar com a mão untada com manteiga e embrulhar em papel celofane. Chili Peper no Sudoeste Texto e fotos Eduardo Oliveira H á tempos a atividade gastronômica está em franca expansão no Sudoeste. Basta folhear as edições anteriores da Roteiro para constatar que novas opções de uma boa refeição vão surgindo no bairro uma após outra. Agora, os moradores do Sudoeste e redondezas ganham mais um presente, com a chegada da filial de um dos mexicanos mais populares da cidade: o Chili Pepper. “Um é pouco, dois é bom, três é bom demais”, comemora o proprietário Wildemar Silva, que abriu o terceiro restaurante da grife no dia 9 de julho, na quadra 302. Lá se vão 12 anos desde que o empresário inaugurou o primeiro Chili Pepper, na Asa Sul. O sucesso da casa, alavancado pelo bufê a preço justo, levou à abertura da filial na Asa Norte oito anos depois. A chegada ao Sudoeste, que consolida de vez a marca, é um desejo antigo. “A ideia de abrir aqui é de muito tempo atrás, mas faltava encontrar um espaço ideal, porque o Sudoeste é bastante concorrido. Acabamos encontrando um lugar pequeno, mas bastante aconchegante”, explica Silva. A espera compensou: “O movimento já está quase igual ao da Asa Norte e da Asa Sul. Os clientes novos somaram-se aos que herdamos das outras duas casas”. A nova filial segue o lema de que em time que está ganhando não se mexe. O cardápio é o mesmíssimo, assim como o bufê, preferido por 85% dos clientes porque seu preço é bem em conta”, informa o proprietário. Pagando R$ 21, o freguês degusta 11 receitas, como o chili, o taco, a quesadilla, a guacamole, o sour cream e o pico-de-gallo. Para completar, tortilhas doces de sobremesa. Aos domingos e segundas o preço sobe para R$ 24, mas também inclui costelinha suína e chimichangas. Quem preferir pedir à la carte também tem, entre outras opções, Califórnia nachos (tortilha recheada com feijão e carne ou frango) e Fajitas (arroz e feijão mexicanos com carne, frango, salmão ou camarão), além de outros pratos à base de frango, filé e picanha. A decoração da casa é caprichada, e os motivos mexicanos estão por todos os lados. Além de vasos, totens e chapéus, panos e outras peças típicas nas paredes, cada mesa é estampada com uma bela foto do país. Assim, o cliente tem a chance de jantar com vista para as belezas naturais das praias de Cancun e Acapulco, a arquitetura pré-colombiana das pirâmides do Sol e da Lua ou ainda as paisagens urbanas da Cidade do México, a mais populosa do mundo. Chili Pepper 302 Sudoeste – Bloco C (3341.1065) 215 Sul – Bloco C (3345.5565) 213 Norte – Bloco A (3274.5565) Diariamente, das 11h30 até o último cliente. 11 picadinho Praça reforçada Nos próximos meses chegam à praça de alimentação do Brasília Shopping seis novos restaurantes. Entre as novidades, dois nordestinos: Mercado 153 e Coco Bambu. O primeiro, com a proposta de recriar o ambiente de um mercado municipal, tem no cardápio de pratos simples a requintados, tudo a preços acessíveis. Já a pizzaria e tapiocaria cearense Coco Bambu terá como carroschefes as tapiocas doces e salgadas, crepes e pizzas. O shopping recebe em breve também as franquias Salad Creations, Jin Jin Wok, Kopenhagen Gourmet Station e a hamburgueria carioca Zacks. Fotos: Divulgação Gotas geladas do valor arrecadado com a venda de um dos pratos para ajudar as vítimas das enchentes. No primeiro mês da campanha (de 17 de julho a 16 de agosto) o prato solidário será o Bode da Severina (bode guisado, acompanhado de macaxeira cozida, farofa de feijão de corda e arroz branco soltinho). Na casa, há duas versões diferentes do Bode da Severina – para três pessoas (R$ 57,90) ou para duas (R$ 37,20). Volta às origens O Nippon Gourmet (207 Sul), que inicialmente praticava a cozinha francesa, mudou seu foco para a culinária japonesa. Agora, sua proposta gratronômica é praticamente a mesma do Nippon da 403 Sul, com pratos à la carte e rodízio. Mas para os amantes da comida francesa foram mantidos o filé Café de Paris, o filé au poivre e o filé marchand de vin. A frutaria, a padaria e o brunch aos domingos continuam os mesmos. Mestre Francisco Em um compartimento a 196ºC negativos, gota a gota do puro creme do sorvete se transforma em pequenas bolinhas geladas. O resultado, parecido com flocos de neve, está fazendo o maior sucesso entre a garotada. Esse sorvete diferente pode ser encontrado no Deli Drops, que acaba de ser inaugurado no Taguatinga Shopping. Além dos sabores tradicionais, o sorvete pode ser encontrado em versões como doce de leite, blue ice, melão e melancia, podendo ainda ser adicionados cookies, bala explosiva e confete. Pratos solidários O restaurante Severina (201 Sul) ajudará as vítimas das enchentes no Nordeste. Durante três meses, a casa destinará 10% 12 Bar e restaurante inspirado no Rio de Janeiro dos anos 40. O bufê, com cerca de 20 tipos de frios, sanduíches e rodadas de empadas e quibes, e a performance do garçom Tampinha são atrações certas para os frequentadores. Começou na última segunda-feira, 2, mais uma edição do curso Cozinhando com Francisco. Todas as segundas do mês o chef Francisco Ansiliero ensina sua arte das 19 às 23h, no Dom Francisco da Asbac. Sua proposta é orientar os alunos na execução de pelo menos três pratos por noite, ficando a cargo deles a escolha e o preparo das receitas. Intensa A polonesa Belvedere lançou a primeira vodka de luxo com 50% de teor alcoólico, mantendo sua suavidade e sabor. Os apreciadores podem esperar dessa edição limitada notas de caramelo e chocolate amargo com leve toque de pimenta. Duplamente filtrada em carvão, os 50% de teor alcoólico acentuam os aromas e texturas da vodka. A Belvedere Intense estará disponível na embalagem de 1 litro nos aeroportos internacionais e a partir de maio de 2010, no tamanho de 700ml, no mercado interno. O preço sugerido é de R$165. X-Picanha Acaba de abrir as portas em Brasília uma filial dessa rede de restaurantes do interior paulista que ficou famosa com a picanha argentina servida na pedra e os sanduíches com cortes especiais de carne. A X-Picanha fica no Boulevard Shopping, no final da W3 Norte. Tudo sobre restaurante O chef francês Philippe Gobet, diretor da escola de confeitaria Lenôtre de Paris – considerada a melhor da Europa – e membro da Academia Francesa do Chocolate, é uma das atrações do 22º Congresso da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), de 18 a 20 deste mês, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Durante o serão discutidas questões fundamentais do setor de alimentação fora do lar e apresentadas as principais novidades tecnológicas do setor. Completam a programação uma feira da panificação, cursos de degustação de vinhos e uma exposição de grandes marcas de cachaça brasileira. Desde os primórdios O enólogo francês Grégoire Gaumont ministrará mais um curso de vinhos na Vintage do Terraço Shopping. Abordando o tema O vinho desde os seus primórdios, Gaumont explicará quais são os fatores determinantes para a qualidade de um vinho, técnicas de conservação, como degustar e melhor apreciar o produto, além de dicas sobre harmonização com pratos. O curso acontece em dois sábados seguidos, 14 e 21 de agosto, das 16 às 19h. Informações: 3234.1332 ou terraco@ vintagevinhos.com.br. Em plena W3 Sul, o Bar Brasília tem decoração caprichada, com móveis e objetos da primeira metade do século XX. Destaques para os pasteizinhos. Sugestão de gourmet: Cordeiro ensopado com ingredientes especiais que realçam seu sabor. 202 Norte (3327.8342) 506 Sul Bloco A (3443.4323) 13 GARFADAS & GOLES Luiz Recena garfadas&[email protected] Águas de julho Ano passado escrevi sobre chuva na Bahia e a tristeza que sobre Salvador se abate quando a água é miúda e persistente. Foram duas semanas de chuva quase todos os dias. Mais água do que as lágrimas de solidão vertidas em cânticos de saudade. Do sol e da praia, tão perto e tão longe do escriba que busca inspiração na luz e nas areias. E nas garfadas e nos goles! Pois o perrengue voltou. Ruas inundadas, carcaças de casas velhas desabando, vítimas fatais, descasos oficiais. E buracos, buracos e mais buracos. Nem mesmo os borracheiros estão felizes com a desgraça que lhes favorece o negócio. Uma nova quinzena de chuva se completa, com quatro ou cinco “janelas”, breves, para secar roupas ou correr para uma loira na praia. Sem querer pontificar, mas apostando na assertiva: a cidade não foi, mesmo, feita para a chuva. E esta começa a ir embora, finalmente. Limão e limonada Tarde francesa Nossas avós ensinavam que até essa fruta azedinha pode dar um suco gostoso, com açúcar e gelo. E se as chuvas fecham a praia e alagam as ruas, restam os shoppings. Ah! Essa maldita invenção do capital para dar chance para o consumo seguro da burguesia e da classe média. Verdadeiros templos do brega (popular e chique), fortalezas do gastar por impulsos. Mas é ali que moram as limonadas, principalmente nesta época. Então, de garfo em punho e a conhecida sede desértica, ao ataque! O pernambucano Grupo Couvert tem dois restaurantes em Salvador, um deles no Paralela. Com os dois pés atrás, lemos o cardápio exposto na porta e, com lupa, examinamos o ambiente. Dava para encarar. O bom da surpresa boa é quando você, preparado para reagir e resmungar, recebe carinho e fino trato. Bem falantes e sabendo o que diziam, Paulo e Lucas fizeram com esmero as honras da casa, já meio vazia naquele quase fim de tarde. Explicações competentes se sucederam e a casa Couvert ganhou espaço. Carpaccio e filé ao vinho do Porto. Tudo bem apresentado e saboroso. Madame M. gostou, o que é meio caminho andado para o sucesso de uma refeição. Bella Napoli O nome dele é Paralela, feminino, o mesmo da avenida, o mais novo shopping da capital. Mais para o lado do aeroporto, atende principalmente o público das praias do norte, de Piatã ao Flamengo, sem esquecer, nunca, nossa gloriosa e imortal Itapuã. Ali tem um Bella Napoli, franquia nacional com cardápio italiano honestíssimo. Nhoque à bolonhesa, R$ 18,90. Bem feito e saboroso. Para acompanhar, meia garrafa de Trapiche, malbec argentino com gosto de infância. Fundo musical: concerto de Jose Carreras, Plácido Domingo e Luciano Pavarotti. Bravo. Não doeu. 14 Pequenos detalhes O filé tem molho com bacon, cebola e funghi e uma batata gratinada que harmoniza tudo. Entre os filés da casa, destaque ainda para o gourmet (com molho de queijos e fettucine) e o clássico poivre vert. Tudo a menos de R$ 25. Há mais carnes, frutos do mar e risotos. Nada muito caro. E se o distinto está sem saber o que escolher, cada mês tem cinco sugestões do chef para ajudar os indecisos. A carta de vinhos é pequena, mas tem variedade nas origens e bons rótulos de cada uma. A tarde começara no chope e nele continuou, pois era Brahma, caldereta e colarinho cremoso, no capricho. Tem happy hour com petiscos variados, que aquecem a ideia de voltar. No final, Rafael substituiu Pedro, sem comprometer a eficiência e mantendo a ideia de que todos, ali, foram muito bem preparados. Primeira janela Christopher é um descendente de Asterix, dono da Barraca do Francês, que meu vizinho Alexandre Franco chamou de petit bistrô sur mer, de tão boa que é. Pois nosso gaulês partiu para nova aventura: um bar, Le Petit Bar, um pouco longe da praia, no coração da vila de Stella Maris, praia vizinha de Itapuã. Veio com tudo: balcão em “U”, mesinhas altas e baixas, banquetas e cadeiras, tudo parecido com bares da França. Além de várias cervejas, chope Heineken! Uma dádiva. O verão pode demorar um pouquinho, mas, quando chegar, estaremos preparados. No pasarán! Só Dinho salva E na tarde do domingo sem chuva, uma moqueca de camarão na Toca do Dinho. Caymmi e Vinícius não viveram em vão... PÃO & VINHO ALEXANDRE FRANCO pao&[email protected] Para cada tipo de pai O Dia dos Pais está aí, e com ele alegrias e saudades. No meu caso, alegrias dobradas por ainda poder festejar o meu e ser festejado pelos meus filhos. O almoço de domingo ganha novos ares e, espera-se, novos “comes e bebes”, com capricho especial. Para os “bebes”, é claro, eu sempre sugiro um bom vinho. Nesta época, ainda de frio, ao final do inverno, aconselho um tinto de bom corpo, se possível já um pouco envelhecido, ao menos com uns cinco anos de garrafa. Quem sabe, ainda, para homenagear o pai do pai, do pai, do pai, possamos escolher a origem com base na ascendência da família. Assim, para os filhos dos Manuéis e Joaquins, podemos pensar num Douro; para os filhos dos Dominiques e Claudes, quem sabe um Rhône; dos Giuseppes e Dantes, certamente um Toscano; e assim por diante. Além de providenciar o néctar para acompanhar o festim, podemos ainda pensar em presenteá-los com um bom vinho, uma sugestão que sempre dou aos meus filhos. Nessa linha, porém, sei que temos que pensar nas preferências e costumes de cada um de nossos pais e, portanto, sugiro as seguintes reflexões: Para o pai cervejeiro, o mais comum deles, acostumado a uma bebida gelada, espumante, cremosa, de baixo teor alcoólico e com leve amargor, podemos pensar em um bom espumante, cremoso mas ao mesmo tempo seco. Um champanhe é o ideal, e sugiro o Brut Souverain da Henriot (R$ 220 na Vinci). Para o pai uisqueiro, um tipo também numeroso, acostumado a uma bebida forte, de alto teor alcóolico e sabor marcante, própria para a reflexão ou a digestão, podemos pensar em uma boa aguardente vínica, como um conhaque ou uma bagaceira, mas sugiro mesmo o brandy italiano da Antinori, envelhecido seis anos em carvalho e sedoso como poucos – que, todavia, não tem importador no Brasil (pelo que sei). Portanto, deixo como segunda sugestão o brandy Solera Gran Reserva Hidalgo 200 (R$ 140 na Mistral). Para o pai drinqueiro, aquele que gosta de abrir o apetite com um gin fiss, uma Caipi (rinha, rosca ou ríssima) ou ainda um amaro, podemos sugerir certamente um bom Jerez Fino, ou Oloroso, mas fico com o Amontillado Príncipe 20 anos (R$ 170 na World Wine). Para o pai licoreiro, aquele que curte um licorzinho após a refeição, acostumado a degustar uma “sobremesa líquida”, doce e quase xaroposa, podemos sugerir um bom vinho do Porto, especialmente se for possível arcar com o custo de um Vintage. Fico com o Burmester Vintage 1995 (R$ 190 na Adega Alentejana) ou uma opção mais em conta, o Burmester LBV (R$ 90 na mesma Adega Alentejana). Para o pai vinheiro, cada vez mais comum entre nós, um sujeito eventualmente mais difícil de se agradar, inclusive quanto ao preço a ser pago pelo presente (especialmente se já for experiente na arte de beber vinho), sofisticação seria a palavra-chave que eu escolheria para me orientar. Nesse sentido, nada melhor que um belo Borgonha. Se couber no bolso um Vosne-Romanée, seria perfeito. Sugiro o Vosne-Romanée 1er Cru Vieilles Vignes 2006, de Dominique Laurent (R$ 400 na World Wine). Finalmente, para o pai abstêmio, o mais raro deles, como o meu, aliás, poderíamos pensar em um vinho sem álcool produzido no Brasil. Mas eu, sinceramente, me recuso a ceder a estes, até porque o próprio conceito de vinho, um fermentado de uva, pressupõe a existência de algum álcool. Portanto, nesses casos, podemos pensar em um vinho bem leve e frutado, com baixíssimos teores alcoólicos, como é o caso de alguns bons alemães. Fico com o Piersporter Michelsberg Selbach Riesling Kabinett 2005, com apenas 9,5% de álcool, quase um refresco, inclusive para o bolso (R$ 45 na Vinci). Feliz Dia dos Pais a todos!!! 15 PALAVRA DO CHEF Quentin Geenen de Saint Maur [email protected] Xocoati Foi quando escolhi retirar um refinado tijolinho de chocolate Saveurs du Monde, inserido tal qual uma pedra preciosa lapidada num écrin noir da Maison Pierre Marcolini Chocolatier, que a assinatura cor marfim aplicada na sua face escura chamou minha atenção: Trinidad, Gana, Java, Madagascar, Venezuela, Brasil e Equador. Fechei os olhos e deixei-o derreter lentamente sobre a língua anestesiada pelo prazer da concentração e pelo poder de seu sabor, com o céu da boca abrindo caminho para a via olfativa, compartilhando com outros sentidos as emoções das essências capturadas e realçadas nessa pequena joia. A massa crocante e tenra pouco a pouco desvaneceu para moldar minha boca com uma fina película de doces emoções, que logo se irradiaram para além dos sentidos, para o sonho e uma viagem metafísica. Considerado pelos maias uma fruta que só podia servir para alimentar os deuses, ele foi apelidado de “xocoati”, denominação que carrega até hoje na sua etimologia pelo mundo dos idiomas. A polpa da fruta servia e serve até hoje para fazer um delicioso e refrescante suco. Seus frutos são colhidos a mão, rachados no facão, os caroços retirados e deixados para fermentar por aproximadamente uma semana. Por fim, as favas são derramadas pela terra, formando tapetes monocrômicos deixados ao sol e revirados até secar, remetendo ao processo de secagem do café no terreiro. A próxima etapa, depois da escolha e triagem das sementes por especialistas e conhecedores na matéria, será realizada no atelier do artesão dos sabores, o chocolatier. Ele entra em ação na escolha da qualidade e da origem das favas, que são torradas, trituradas e, por fim, moídas. Na fase de conchagem, adiciona-se açúcar à 16 Ambiente agradável, comida boa e área de lazer para as crianças fazem o sucesso da casa desde 1987. No almoço, além das pizzas, o buffet de massas preparadas na hora, onde o cliente escolhe os molhos e ingredientes para compor seu prato. 306 Norte (3273.8525) pasta que será remexida lentamente durante dias até se obter uma pasta homogênea e cremosa. Temos aí a base primária do chocolate. Para chegar a um sabor padrão, uma textura particular que permite identificar a maison, aromas, óleos essenciais, manteigas, açúcar e segredos são adicionados à massa, que em seguida será enformada e recheada. Você encontra hoje barras de chocolate com o teor de cacau mencionado em sua embalagem, para diferenciá-las das manobras das grandes indústrias, que substituíam, por exemplo, a manteiga por gorduras hidrogenadas e as essências naturais mais sutis por essências químicas, sem destaque para a proporção de cacau. O Brasil, que teve sua produtividade de cacau centralizada no sul da Bahia, está pouco a pouco se recuperando da dizimação das suas plantações vitimadas pela disseminação da vassoura de bruxa como ato de sabotagem política. Hoje, em destaque o trabalho societário de Diego Badaró, descendente de uma família de fazendeiros de cacau, e de um americano, Frederick Schilling. Juntos, eles apostam na retomada do desenvolvimento dos cacaueiros na região de Ilhéus, reforçando a tarefa do pequeno mamífero da família dos procinídeos, o jupará, que por instinto, após se regalar com a polpa da fruta, enterra os caroços para assegurar sua fonte de sobrevivência. Outro projeto na América do Sul: os habitantes da cidade de Tocache, ao norte de Lima, no Peru, vítimas do narcotráfico, estão substituindo o cultivo da coca pelo plantio de cacau. Cacau, sabor, paz e amor. 17 18 19 DIA E NOITE Arthur Simões olharessobreaíndia lúciocosta Última chance para quem ainda não foi à exposição que homenageia o arquiteto. Até agora, 56 mil pessoas já passaram pelo Museu da República para saber mais sobre a trajetória profissional do inventor de Brasília, com a ajuda de maquetes, fotos e recursos de multimídia que permitem ao visitante ver e ouvir o próprio Lúcio Costa falando sobre o acervo ali exposto. Até 8 de agosto, de terça a domingo, das 9 às 18h30. Entrada franca. festazen Vem aí a 37ª edição da Quermesse do Templo Budista de Brasília, mais conhecida como Festa do Buda. Todos os sábados e domingos de agosto, os jardins do templo localizado na entrequadra 315/316 serão palco de apresentações de artes marciais e danças orientais, todas regadas a muita comida típica nas alegres barraquinhas da quermesse. Os organizadores preveem um público de 15 mil pessoas na festa, que já virou tradição na cidade. Das 17 às 22h, com entrada franca. Informações: 3245.3388. 20 fotoearquitetura Tuca Reinés, um dos fotógrafos que ilustraram o livro em homenagem a Athos Bulcão, estará em Brasília no dia 10 para participar do ciclo de palestras Docol sobre a importância da fotografia na decoração. Ele faz uma palestra no Encontro das artes, que acontece no Centro de Convenções Brasil 21, às 19h30. Em 1991, Tuca fez imagens da cidade para o projeto Brasília 2000, uma das ações para a candidatura a sede dos Jogos Panamericanos. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo telefone 0800 7712348, das 9 às 18h. Divulgação Ana Lúcia Arrázola Os fotógrafos Arthur Simões, Renato Negrão e Artur Versiani foram à Índia e captaram, com suas lentes, o cotidiano e a riqueza cultural do país milenar. O resultado desse trabalho está agora em duas exposições na Casa de Cultura da América Latina, da UnB. Na primeira, estão 50 fotos digitais coloridas 40 x 60cm, de Arthur e Renato. Apesar de visitarem o país em momentos distintos, os dois estiveram em Calcutá, Varanasi, Agra e Delhi, onde foi feita a maioria das imagens. Na segunda, intitulada Índia sobre pés descalços, estão 15 fotos digitais também de 40 x 60 cm, feitas por Versiani, “flagrantes diários do universo indiano onde o encanto do simples e do incomum prevalecem”. Até o dia 22, de terça a sexta, das 10 às 20h, e nos fins de semana e feriados, das 12 às18h. A CAL fica no Edifício Anápolis (SCS). Entrada franca. Mauro Baptista Vedia êxtase Londres, 1979. Um grupo de velhos amigos leva uma vida amarga e vive no limite da razão. Assim é Êxtase, em cartaz no CCBB até 26 de agosto. Escrita por Mike Leigh, a peça se propõe a mostrar, de maneira inteligente e divertida, a relação homem-mulher e o universo da classe trabalhadora na Inglaterra pós-industrial, “uma ode ao amor, à amizade e à solidariedade entre as pessoas comuns”. Com direção de Mauro Baptista Vedia, tem no elenco Mário Bortolotto, Erika Puga, Amanda Lyra, Eduardo Estrela, Francisco Eldo Mendes e Fernanda Catani. A obra dá continuidade ao projeto do diretor de fazer um teatro popular e sofisticado ao mesmo tempo. Êxtase vem após seu bem sucedido espetáculo A festa de Abigaiu, que ficou dois anos em cartaz e foi assistido por mais de 40.000 pessoas em São Paulo. Ingressos a R$ 15 e R$ 7,50. Informações: 3310.7087. Divulgação mordendooslábios O título acima sugere dureza e suavidade, algo contundente que corta uma superfície sensível, uma cena que sangra causando dor e prazer. De fato, a proposta da peça em cartaz no Teatro da Caixa Cultural só até o dia 8 é “marcar a pele do espectador, como faz uma mordida forte ou um beijo com sabor picante”. Dirigida por Hamilton Vaz Pereira, criador da trupe Asdrúbal Trouxe o Trombone, nos idos de 1974, a peça já atingiu a marca de 100 apresentações e foi vista por mais de 50.000 espectadores de todo o país. De acordo com Hamilton, “precisamos de textos criados aqui e postos à cena nos palcos dessa parte do mundo, pois queremos saber quem somos, o que podemos com o teatro brasileiro e que contribuição nossa arte pode dar à humanidade.” No elenco, além do diretor, estão Lena Brito, Bianca Comparato e Ivan Mendes. Ingressos a R$ 20 e R$ 10. Os organizadores prometem montar uma superestrutura jamais vista na cidade. Vem aí, dia 19 de setembro, o Carnafacul Brasília, que prevê levar 20 mil pessoas ao Autódromo de Brasília. Serão 12 horas de festa animadas por seis trios elétricos: Timbalada (foto), Cheiro de Amor, Alexandre Peixe, João Neto e Frederico, Clima de Montanha, além de atração surpresa! Ivete Sangalo, Claudia Leite ou outra estrela da música baiana? Os portões do autódromo serão abertos ao meio dia. Ingressos a partir de R$ 40, para elas, e R$ 50, para eles, à venda em ingressonaweb.com.br ou bilheteriadigital.com.br Divulgação Os escoceses do Simple Minds desembarcam pela primeira vez em Brasília no próximo dia 21, no Ginásio Nilson Nelson. O show é comemorativo dos 30 anos de carreira da banda, que teve seu auge em meados dos anos 80, na onda da new wave. Repertório é o que não vai faltar: são 16 discos gravados e alguns sucessos, como Don´t you forget about me, Alive and kicking e Promised you a miracle. Atualmente, a banda divulga o álbum Graffiti soul, lançado ano passado. Jim Kerr (vocais) e Charlie Burchill (guitarra e teclado), os únicos remanescentes da formação original, sobem ao palco acompanhados por Mel Gaynor (bateria e percussão), Eddie Duffy (baixo) e Mark Taylor (teclado). Os ingressos para o show (meiaentrada) estão a R$ 80 (pista) e R$ 150 (Vip Open Bar), e já podem ser comprados nas lojas Free Corner. carnafacul Emi Music devoltaaosanos80 21 Divulgação DIA E NOITE corselvagem aenergiadeprabhu estounaquadra Esse é o título do livro que Fátima Bueno acaba de lançar. Publicada pela Thesaurus Editora, a obra traz um relato pessoal e intimista do tempo em que a artista plástica morou na 407 Norte e descobriu os encantos não só da quadra, como também de outros locais da Asa Norte. Em suas anotações aparecem referências ao Parque Olhos D’Água, ao Beirute, ao Bendito Suco, às paradas culturais disseminadas pelo Açougue T-Bone e ao próprio. De acordo com o poeta e professor Augusto Rodrigues, da UnB, Estou na quadra “funde confissão e relato, onde o espaço urbano revela-se espaço humano. Um relato escrito com passos”. À venda por R$ 30 no site: www.thesaurus.com.br 22 quemnãotemcão... “Expressar-se pela arte, viver de arte, fazer da arte um caminho foi uma forma de continuar a viver e expandir-se essencialmente como Ser”. Nos últimos dez anos, o artista plástico Prabhu produziu inúmeros trabalhos em técnicas diversas. Esse gaúcho residente em Brasília há 32 anos tem como linguagem artística “a tentativa de criar um espaço onde arte, criatividade e meditação sejam uma única energia”. Seu trabalho pode ser visto de 6 a 28 deste mês na Casa Thomas Jefferson (706/906 Sul). De segunda a sexta-feira, das 9 às 21h; sábados, das 9 às 12h. Em ambiente aconchegante, com decoração pontuada por arte e história,pode-setomarumcafezinho ou um chope para acompanhar o pastel de bacalhau, o sanduíche de mortadela ou o autêntico Bauru. No almoço, cardápio paulistano. 509 Sul (3244.7999) Divulgação Divulgação “Embalado pela musicalidade, temperatura e vibração de sua marcante pintura, ele traz à tona revelações, ao expor a intimidade do seu trabalho com uma série de surpreendentes desenhos”. Assim resumiu o artista plástico e curador Glênio Lima o trabalho de Tarciso Viriato, que está na mostra em cartaz na Caixa Cultural até o dia 22. Em Cor selvagem estão expostas 12 telas, 10 cerâmicas e 20 desenhos que têm como tema imagens do cotidiano ou signos do imaginário popular, “como as cruzes que nos levam às linhas cruzadas da moderna e futurista Brasília, cidade que o cearense Tarciso Viriato escolheu para viver”, conclui Glênio. Diariamente, das 9 às 21h. ...caça com gato. Já que as feiras de livro em nossa cidade há um bom tempo não vingam, o jeito é pegar um avião e ir à Bienal do Livro de São Paulo, este ano com programação capaz de envergonhar os que, por aqui, já tentaram realizar eventos do gênero. Quem for ao Pavilhão de Exposições do Parque Anhembi, entre 12 e 22 de agosto, vai ter à disposição agenda de 700 atividades que incluem debates com os escritores Jostein Gaarder (Noruega), Ignácio de Loyola Brandão, Lygia Fagundes Telles, Milton Hatoum, Moacyr Scliar, Ruth Rocha e Ziraldo, só para citar alguns de uma lista com mais de cem nomes já confirmados. Os homena geados desta edição são Monteiro Lobato e Clarice Lispector. Os temas de destaque são a lusofonia e o livro digital. Veja a programação completa em www.bienaldolivrosp.com.br. A casa de Brasília segue a proposta das outras filiais, com shows, boa comida e o tradicional chope cremoso. Frequentado por personalidades da política e da música. A decoração é inspirada nas décadas de 50 a 70. No sábado, tradicional feijoada ao som de chorinho e samba de raiz. Cardápio assinado pelo chef Olivier Anquier. 201 Sul (3224.9313) Depois do sucesso do show que fizeram em 11 de junho passado no Marina Hall, os seis integrantes da banda voltam a Brasília, desta vez para animar o Luau do Iate Clube. A apresentação única será no dia 13, a partir das 22h. No repertório, além dos sucessos do CD Roupa Nova em Londres, as inesquecíveis canções que marcaram três décadas de estrada: Dona, Sapato velho, Anjo, A força do amor e Seguindo o trem azul. O luau integra o calendário de eventos que celebram os 50 anos do Iate Clube de Brasília. Ingressos a partir de R$ 35 (individual) e R$ 45 (mesa). Informações: 3329.8700. jazz contemporâneo O contrabaixista brasiliense Leonardo Cioglia se apresenta nesta sexta-feira, 6, na Casa Thomas Jefferson (706/906 Sul). Radicado nos Estados Unidos há 11 anos, tem seu talento ligado ao jazz brasileiro e seus inúmeros sotaques. Será acompanhado por John Ellis (saxofone), Mike Moreno (guitarra elétrica) e Rafael Barata (bateria). Estudou na Escola de Música de Brasília e, vitorioso num festival de jazz no Canadá, recebeu bolsa de estudos para a Berklee College of Music, de Boston. Às 21h, com entrada franca. debemcomavida Divulgação comacaraeacoragem Eles foram os introdutores do stand up comedy do Brasil, os primeiros a fazer humor sem apoio de maquiagem, figurino, luz ou qualquer recurso cênico, a não ser o microfone, claro. Fernando Caruso, Cláudio Torres, Paulo Carvalho e Fábio Porchat vêm a Brasília pela primeira vez para fazer duas apresentações na Sala Villa-Lobos. Dias 14 e 15, com ingressos a R$ 60 e R$ 30. Bilheteria: 3034.6560. Cícero Rodrigues Wilian Aguiar/Divulgação Divulgação roupanova Divulgação caixacultural30anos A Caixa Cultural faz aniversário no dia 12. Para não deixar a data passar em branco, programou uma série de shows imperdíveis. De 10 a 12, os Demônios da Garoa se apresentam em homenagem ao centenário de nascimento de Adoniran Barbosa. Saudosa maloca, Trem das onze e outros clássicos que imortalizaram o sambista paulista vão remexer o baú de lembranças musicais de quem já passou dos “enta”. E de 13 a 15, Teresa Cristina (foto) e o Grupo Semente ocupam o palco da Caixa Cultural, terceira parada da turnê que começou em São Paulo e depois foi para o Rio. No repertório, sucessos do novo CD, Melhor assim. Ingressos a preço popular: R$10. Informações: 3206.6456. Uma história de amor onde não há ciúme, nem traição. O maior obstáculo é a discriminação sutil e a covardia de se enfrentar preconceitos. Vem aí Gorda, do norte-americano Neil Labute. Em montagem nacional dirigida por Daniel Veronese, a peça vem de temporadas em São Paulo e no Rio, onde mais de 50 mil pessoas já se emocionaram e se divertiram com Helena, mulher inteligente, sensual, divertida e com 30 quilos acima do peso ideal. Fabiana Karla vive a protagonista, que se apaixona por Tony (Michel Bercovithc). Dias 7 e 8, na Sala Villa-Lobos. Ingressos entre R$ 30 e R$ 70. Informações: 3325.6239. oscandidatoseacultura O Movimento Viva Arte, o mais novo projeto do Açougue Cultural T-Bone, promove a partir do dia 19 O candidato e a cultura, série de bate-papos com cada um dos oito candidatos ao governo do Distrito Federal. A ideia é que os participantes discutam com artistas e eleitores suas políticas para o setor cultural. “Não se trata de um debate. Queremos apenas ouvir quais são os planos de cada candidato para o futuro. Teremos tudo gravado, registrado e divulgado na página do Movimento Viva Arte”, informa Luís Amorim, proprietário do açougue. Cada candidato terá 15 minutos para explicar suas propostas e, em seguida, responderá às perguntas do público. Mais informações no site www.movimentovivaarte.com.br. 23 SOLIDARIEDADE Palhaçadas que confortam As Doutoras Música e Riso levam alegria a crianças internadas em hospitais de Brasília Por Vicente Sá Q 24 uando aquela menininha de sete anos, magricela, com dois olhos imensos, entrou na escola do Gama pela primeira vez, em 1969, a professora perguntou: o que essa minha pequenina veio fazer aqui na escola? A resposta esperada era: vim estudar e aprender. Mas o que a professora ouviu foi: vim fazer teatro. E fez mesmo. Todos os dias, no horário do recreio, ela não só montava suas peças como colocava os co- leguinhas para atuar. Estava definido o destino de atriz de Antonia Vilarinho. Hoje, quando ela, transformada em Doutora Fronha, acompanhada de mais quatro palhaças, entra nas pediatrias do Hospital de Base, do Hospital Regional da Asa Sul ou do Hospital de Sobradinho, a intenção é a mesma: levar o teatro e a alegria a crianças que não estão podendo brincar como as outras. A interação é imediata. Pelo menos durante as duas horas que a trupe passa brincando, inventando histórias e fazen- do palhaçadas, as crianças nem se lembram que estão doentes em um hospital. A magia dos palhaços comove pais, mães, médicos, enfermeiros e funcionários. Por um bom tempo, a máxima “rir é o melhor remédio” realmente funciona. O grupo foi criado por iniciativa da atriz-palhaça Antonia Vilarinho, a menina dos olhos grandes, que se inspirou nos Doutores da Alegria, companhia criada em São Paulo em 1991 e que fez e faz escola no Brasil inteiro. O grupo paulista fez tanto sucesso que criou, em 2007, e aliar-se ao programa Adolescentro, da Secretaria de Saúde, especializado no atendimento ao adolescente em situação especial de uso de drogas e vivência de violência sexual. São alguns dos mais experientes talentos de Brasília reunidos, sob a batuta de Antonia Vilarinho, em um projeto de grande alcance social. Depois de toda uma vida em grupos de teatro de Brasília, Antonia descobriu sua faceta de palhaça quando cursava teatro na Univerdidade Federal da Bahia, e participou de um curso-retiro ministrado pelo grupo Lume. Foram 12 dias imersos no universo dos clows. Depois do retiro, ela e seus 16 companheiros de teatro saíram às ruas e periferias de Salvador em grupos de quatro, exercitando tudo o que tinham aprendido. Foi a partir daí que ela se viu realmente como uma atriz-palhaça e entrou de cabeça na história. Primeiro, foi estudar com o grupo Lume, em São Paulo; depois, foi para Londres, estudar com Philipe Gaulier. Quando retornou a Brasília, já era outra pessoa. Aqui desenvolveu o trabalho As caixas, as trouxas e a fronha – sozinha no palco, já provocou ataques de riso do público em várias capitais brasileiras. Sua última apresentação, no Rio de Janeiro, foi aplaudida de pé por um teatro lotado. Um sonho Antonia Vilarinho: fazer rir é um trabalho sério e uma glória para qualquer ator. Atuando como atriz em filmes produzidos em Brasília, e pensando em novos projetos, Antonia não pretende parar o trabalho das Doutoras, o que é um alívio e uma alegria para os pequenos nos hospitais. Enquanto novos trabalhos não aparecem, ela está fazendo pós-graduação em direção teatral na Universidade Dulcina. Só para deixar sem graça quem acredita que uma palhaça não leva nada a sério. Fotos: Rafael Herzog o Palhaços em Rede, programa que oferece orientações e consultoria aos grupos que querem atuar em hospitais. Utilizando esse serviço, Antonia criou, há dois anos, o grupo Doutoras Música e Riso, que tem alcançado grande sucesso na cidade. As “doutoras” são atrizes-palhaças com formação profissional, que decidiram se dedicar também ao trabalho junto a crianças doentes. E que seguem estudando pelo menos dois dias por semana para afinar a música e a graça do clown. O trabalho desenvolvido pelo grupo cresceu em 2010, chegando a uma cidade- satélite. Criada para atuar no Hospital Regional da Asa Sul (HRAS), a companhia está “invadindo” outros espaços onde palhaços e palhaças fazem a alegria de quem costuma ter poucos motivos para rir. Agora, o grupo dedica as terças e quintas-feiras aos internos do HRAS, do Hospital de Base e do Hospital de Sobradinho, levando música e humor às crianças. Patrocinada pela Petrobras e pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura do DF, a companhia ainda se propõe a realizar oficinas de clown, criar um Banco de Palhaças, para ampliar o trabalho, 25 graves & agudos Pachá A arte dos sons A música na linha do tempo prossegue nos fins de semana de agosto Joventino Júnior Quarteto Artesanal Por Heitor Menezes N Divulgação Lorota Boa o calor da seca que abrasa a alma do brasiliense, espremido entre o sufoco do trânsito, a violência e o lero-lero da política, resta mirar a arte. A religião é outro departamento, outro bálsamo (há controvérsias); o que interessa no momento é a arte dos sons, a música, antídoto ao agosto, mês do desgosto. Vejamos o projeto A música na linha do tempo, ora em curso na Sala Cássia Eller (Complexo Cultural da Funarte, no Eixo Monumental). Em julho, aos que ficaram na cidade o projeto proporcionou apresentações às sextas e sábados nas quais privilegiou-se mostras da história da nossa música popular no período compreendido entre 1900 e 1930, bem como um quadro da música renascentista, à qual devemos reverência por ser parte do caldeirão de manifestações que forjaram o que hoje se conhece por cultura brasileira. Em agosto, o projeto continua, nos fins de semana, desta feita escalando, de maneira veladamente didática, no campo da canção popular e da música erudita, compositores que deixaram o legado de rastros históricos a serem seguidos. Estamos falando, no primeiro caso, de figuras do porte de Noel Rosa, Wilson Batista, Ataulfo Alves, Assis Valente, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Lamartine Babo, João de Barro e Ary Barroso. E de Vivaldi, Telemann, Bach e outros ilustres da música barroca. MPB de 1930 a 1949 26 Tonicesa Badu Primeiro os populares, sempre às sextas-feiras, 20h30. Dia 6, a cantora Uliana Dias reúne pérolas de Wilson Batista e Noel Rosa e revive o duelo de sambas antológicos, tipo Palpite Estúdio Barroco voz) apresentam a visão “yin” e matraqueada do samba clássico. Música barroca Nos sábados de agosto, sempre às 17 horas, a conversa é música erudita, que realmente refrigera a alma e espanta a secura do fim de tarde. Alimento para o espírito, digamos assim. Se em julho o tema foi a Renascença, este mês trata-se do Barroco, estilo muito apreciado por peças musicais sublimes, mas muito complicado de entender porque promoveu o encontro (ou o desencontro) entre as coisas da carne e do espírito. Falando sério: o Barroco produziu coisas lindas, mas é de bom tom se ater apenas aos ouvidos e curtir a obra de Antonio Vivaldi, o “padre vermelho” (o cara era ruivo e não comunista), J.S. Bach e ou- Toque de Salto A música na linha do tempo Todas as sextas e sábados de agosto na Sala Cássia Eller do Complexo Cultural da Funarte. Ingressos a R$ 10 e R$ 5. Mércia Batista Nina Orthof Infeliz, que a dupla pôs na rua e os antigos acompanharam com fervor; na verdade, um dos muitos momentos especiais que o Rio de Janeiro testemunhou na formação de nossa música popular, entre 1930 e 1949. Dia 13, Ataulfo Alves e Assis Valente serão o mote da apresentação do cantor e compositor Tonicesa Badu. O primeiro, ao lado de Mário Lago, compôs as imortais Ai, que saudades da Amélia e Atire a primeira pedra. Quanto a Assis Valente, cuja biografia trágica talvez chame mais atenção do que sua produção musical, este tem o nome escrito no Livro de Ouro da MPB e era um dos favoritos do repertório de Carmen Miranda. Semana seguinte, 20 de agosto, tem tributo a Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, com o grupo Lorota Boa. George Lacerda (voz e percussão), Cacai Nunes (viola caipira), Vavá El Afiouni (baixo), Rafael dos Santos (bateria) e Juninho Ferreira (sanfona) estão na formação que apresenta um certo forró sem os tradicionais triângulo e zabumba. Tem sanfona, mas será possível? E na última sexta-feira do mês (27/8), a obra de Lamartine Babo, João de Barro e Ary Barroso será ouvida na interpretação do quarteto feminino Toque de Salto. Sandra Borges (voz e violão), Mônica Borges (voz e percussão), Silvana Moura (voz e percussão), e Marise Pinheiro (surdo e tros representantes do gênero. Dia 7, Sidnei Maia (flauta), Luis Tibana (violão), João Bosco (violão) e Pachá Galina (violoncelo), que formam o Quarteto Artesanal, prometem o deleite tocando the best of Vivaldi, música que sempre vale a pena ouvir, conhecer ou redescobrir. Dia 14, Karla Dias (flauta doce) e Alessandro Santoro (cravo e fortepiano, o avô do piano) enchem a Sala Cássia Eller com sons da partitura escrita pelos bambas do Barroco: Bach, Jacques-Martin Hotteterre e Joseph Bodin de Boismortier, sendo esses dois últimos venerados como mestres da flauta doce. Dia 21, a aventura barroca prossegue com uma audição dedicada à obra do alemão Carl Philipp Emanuel Bach. O recital reúne os professores da Escola de Música de Brasília Paulo Magno (flauta transversal) e Suzi Magalhães (cravo). Fechando a tampa, dia 28, teremos o Estúdio Barroco, formação que reúne Ana Cecilia Tavares (cravo), André Vidal (canto), Cecília Aprigliano (viola da gamba) e Sueli Helena de Miranda (flauta doce). Seja qual for o programa, popular ou erudito, fiquemos com a música, que, nos dizeres de Arthur Schoppenhauer, não é, como nas outras artes, uma reprodução das ideias, “mas uma reprodução da vontade”. Complicou? Então, lembremos Astor Piazolla: fecha teus olhos e escuta. 27 QUE ESPETÁCULO Noite de celebração Jogo de Cena promete muitas surpresas na festa dos seus 25 anos Por Bruno Henrique Peres Fotos: Adla Marques C lassificado como uma tradicional vitrine cultural, o Jogo de Cena comemora, neste mês de agosto, 25 anos de história. Trata-se de um projeto que tem orgulho de ser 100% brasiliense e possuir afinada sintonia com a produção cultural da cidade, nas palavras de seu coordenador-geral, James Fensterseifer. “Muitos e importantes personagens da cultura de Brasília passaram pela organização do Jogo de Cena”, orgulha-se James. Tanto tempo de êxito artístico justifica-se pela brava resistência a adversidades inerentes à produção cultural e por um entendimento simples, mas determinante. “Há 25 anos, um grupo de atores e produtores culturais da cidade decidiu juntar a necessidade de espaço para a apresentação de seus trabalhos com a carência de atrações culturais para o público”, explica James. “Além de ser uma tradicional vitrine cultural, o Jogo de Cena continua abrindo espaço para novos e velhos talentos e se renovando a cada ano”, completa. Em se tratando de uma história construída a partir da colaboração de inúmeros representantes da classe artística brasiliense, nada mais natural que a celebração também contemple convidados mais do que especiais. São artistas que deram os primeiros passos em apresentações do Jogo de Cena, como a Anti Status Quo Cia de Dança, da coreógrafa Luciana Lara, e fiéis companheiros de décadas, como o artista plástico Paulino Aversa, que pintará um quadro ao vivo na noite de 18 de agosto, no Teatro da Caixa, durante a apresentação do Jogo de Cena 25 anos. “O programa especial de aniversário promete muitas surpresas”, diz James. Logo na entrada do teatro estarão expostas fotografias da mostra O Jogo na Caixa, de Adla Marques. Também serão projetados em um telão registros da trajetória do espetáculo. A abertura da noite será feita pelo mímico Miqueias Paz, que acompanha o projeto desde o início, nos idos de 1985. A apresentação, como não podia deixar de ser, será dos mestres de cerimônia Welder e Pipo. Completam a noite de celebração uma versão reeditada do espetáculo As namoradeiras, embrião do lendário grupo A Culpa é da Mãe, atual Cia de Comédia Os Melhores do Mundo; a performance atualizada de O motoqueiro fantasma, do comediante Heleno Goiaba; e a exibição do vídeo Quem ganha com o Jogo de Cena. O encerramento será feito pelo quarteto de baterias do Bateras Beat, comandado por Dino Verdade. E, claro, são convidados de honra a cativa plateia e também o público estreante. Jogo de Cena – 25 Anos 28 18/8, às 20h, no Teatro da Caixa (Setor Bancário Sul). Ingressos a R$ 20 e R$ 10 (meia entrada para estudantes, pessoas com 60 anos ou mais, funcionários da Caixa e doadores de 1 kg de alimento). Mais informações: 3206.9448/3206.6456. Classificação etária: 14 anos. Abrem-se as cortinas Cabul, em novembro de 1999. Entre os espetáculos nacionais está ainda a montagem paulista Abracadabra, de Luiz Päetow, com direção artística de Dan Stulbach. O espetáculo-solo foi escrito e é interpretado por Päetow, vencedor do Prêmio Shell 2009 de iluminação por Music-hall. Trata-se de um monólogo sem uma história ou um personagem fixo, que se altera na medida da interação com a plateia e dos questionamentos levantados durante a encenação. Um número restrito de espectadores recebe lanternas e se torna responsável por aquilo que todos irão enxergar. Na pauta dos espetáculos locais, destaque para A comédia dos erros, de Shakespeare, em montagem dos irmãos Adriano e Fernando Guimarães, dias 28 e 29, no Teatro da Caixa Cultural. Estarão em cena dois pares de irmãos gêmeos idênticos, com o mesmo nome, numa mesma cidade. Nem eles próprios nem ninguém sabe da existência dos seus respectivos “duplos”. Com tantas opções interessantes no fim deste mês e no comecinho do próximo, bom mesmo é acessar a programação completa do Cena Contemporânea no site www.cenacontemporanea.com.br e aproveitar o máximo que puder o festival. Cena Contemporânea De 24/8 a 5/9 em todos os teatros de Brasília. Festas de abertura e encerramento no Museu da República. Dirce Vieira Dimitry Tulpanov Por ter participado intensamente das edições anteriores, a Espanha será homenageada nesta edição do festival. O curador Guilherme Reis incluiu quatro montagens procedentes daquele país. O grupo Kabia, do País Basco, apresenta duas peças: Paisagem com argonautas e Dizer chuva e que chova. O grupo Creaciones Artísticas Las Cuatro Esquinas traz El jardín del mundo e o Centro Dramático Nacional e Geografias de Teatro apresenta As terras de Alvargonzáles. Este ano, o Cena Contemporânea abrirá espaço maior para participação dos grupos nacionais e locais. Entre os destaques está a montagem mineira Till – a saga de um herói torto, que marca a volta do Grupo Galpão ao teatro de rua. Num mundo em que é cada vez mais marcante a presença dos excluídos, a parábola das aventuras do anti-herói Till Eulenspiegel, em tudo semelhante a Macunaíma, de Mário de Andrade, é bem atual. Do Rio vem a Cia Amok Teatro, com Kabul, um espetáculo sobre a guerra, vista através da intimidade de dois casais afegãos que refletem o martírio de uma nação traumatizada por 20 anos de violência e entregue à tirania dos fundamentalistas. Criação livremente inspirada no livro As andorinhas de Cabul, do escritor argelino Yasmina Kadra, e na imagem real de uma mulher, coberta com uma burca azul, sendo executada publicamente no estádio de Harold Rodrigez T odos os palcos da cidade se preparam para a passagem da 11ª edição do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, que chega com alentada programação de 30 espetáculos de sete países, com destaque para a Espanha, a homenageada deste ano. Em comum, o fato de serem produzidos por companhias jovens e possuírem propostas arrojadas e criativas, na ponta da criação cênica no mundo. Exemplos disso são o grupo Kabia, do País Basco, que tem merecido excelentes críticas na Espanha, e o ISH Theater, uma companhia de Israel que apresenta um show de cabaré no qual mescla a narrativa mitológica da Odisseia, de Homero, com a história de uma excêntrica família italiana. Reflexões sobre o exílio, a tortura, a solidão e a guerra em territórios que vivem cotidiano conflituoso estão nas montagens não só do País Basco como também nas procedentes da Colômbia, Cuba e Israel, revelando, sob a perspectiva teatral, o que pensam os criadores contemporâneos. O espetáculo Não vá chorar, por exemplo, conta a história de cubanos que decidem abandonar seu país e sequestram várias embarcações para tentar concretizar esse sonho. A montagem do Teatro Viento de Águia, de Cuba, com direção de Boris Villar, reproduz um brutal enfrentamento entre os amotinados e as forças leais à revolução de Fidel Castro. Está chegando a hora dos criativos espetáculos do Cena Contemporânea 29 Gustavo Favoreto galeria de arte O encontro que não houve Amilcar de Castro A arquitetura e a arte construtivista tinham plena identidade na década de 50, mas só se encontram agora, em exposição no CCBB Por Alexandre Marino N César Oiticica Filho o início da década de 50 do século passado, os artistas modernistas de esquerda defendiam o realismo social como linguagem e resistiam à ruptura pregada pelos abstracionistas, vertente de vanguarda que começava a se destacar no Brasil. Uns e outros simpatizavam com as mudanças anunciadas pelo presidente Juscelino Kubitschek (19561961). Ele propunha uma ação desenvolvimentista capaz de superar os obstáculos estruturais do país, de forma a provocar um acelerado avanço em todos os setores econômicos, idéia que deu origem ao slogan “cinqüenta anos em cinco”. Kubitschek projetou Brasília como a capital que levaria o desenvolvimento ao território praticamente desabitado do interior do país, multiplicando a produção de alimentos e indústrias de base. A concepção da cidade foi produto da vanguarda arquitetônica e urbanística representada por Os- 30 car Niemeyer e Lúcio Costa, unida a um grupo de artistas plásticos que deu alma e espírito à cidade – Ceschiatti, Bruno Giorgi, Portinari e Di Cavalcanti, entre outros. As afinidades afetivas e ideológicas de Costa e Niemeyer com esses artistas determinaram a ausência, na composição estética de Brasília, de outros como Amílcar de Castro, Franz Weissmann e Hélio Oiticica, que representavam a arte construtivista brasileira. Eles já eram vanguarda em relação aos artistas que marcaram a paisagem de Brasília, mas estavam plenamente sintonizados com a proposta artística da cidade. JK, criador de um dos ícones da modernidade brasileira – o complexo arquitetônico da Pampulha, quando prefeito de Belo Horizonte – atraiu a empatia de jovens intelectuais e artistas, e todos, modernistas, concretos e neoconcretos, eram favoráveis às mudanças propostas por ele. Agora, o encontro entre a arquitetura de vanguarda e a arte de vanguarda se realiza, 50 anos depois, com a exposição Brasília e o construtivismo: um encontro adiado, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil até 19 de setembro. A curadoria é de Fernando Cocchiarale, que se apressa a avisar que não há qualquer confronto entre os artistas que desenharam a paisagem de Brasília e os construtivistas, ausentes da paisagem urbana da capital. Para Cocchiarale, as esculturas públicas construtivistas eram as de maior importância entre as produzidas à época da construção de Brasília. E, no entanto, estão totalmente ausentes da cidade. O cura- Macaleia, de Hélio Oiticica dor acredita que as explicações para essa ausência, “múltiplas e heterogêneas”, passam pela inadequação do construtivismo à lógica figurativa do monumento, além de razões político-ideológicas que empurravam a esquerda para o realismo. A identidade dos construtivistas com a proposta urbano-arquitetônica de Brasília é de fato enorme. As gigantescas formas metálicas de Amílcar de Castro e Weissmann se amoldam com suavidade aos contornos da arquitetura, o que pode ser facilmente percebido na área externa do CCBB. Outros artistas, como Luiz Sacilotto, Waldemar Cordeiro, Lygia Clark e Hélio Oiticica, apresentam obras e projetos tridimensionais totalmente coerentes com o ambiente urbano brasiliense. Uma xilogravura de Lygia Pape, Tecelar 1, criada em 1956, tem tudo a ver com as formas do Congresso Nacional, que parece ter sido inspirado por ela. Para Cocchiarale, os artistas Athos Bulcão e Rubem Valentim representam “uma rara ressonância da arte construtiva nos espaços públicos de Brasília”, embora não tenham participado desse movimento. Não por acaso, há exemplos de suas obras na exposição. Ele lembra ainda que Brasília “é um cenário perfeito para a sintonia dessas duas produções de ponta do Brasil moderno, que, no entanto, jamais se consumou plenamente”. Brasília e o Construtivismo: um encontro adiado Até 19/9, de 3ª a domingo, das 9 às 21h, no CCBB. O universo de Bandeira de Mello Fotos: Divulgação Uma ótima oportunidade de conhecer o trabalho do pintor modernista Enterro no sertão Por Maria Teresa Fernandes B andeira de Mello, o artista; Bandeira de Mello, o professor; Bandeira de Mello, o homem verdadeiro e sem fachadas. As três faces de Lydio Bandeira de Mello, do alto de seus recém-completados 81 anos, estão reveladas em Bandeira de Mello, retrospecto, em cartaz na Caixa Cultural até o dia 29. Lá estão cerca de 65 obras do artista mineiro, um ícone do modernismo, entre pinturas e desenhos que retratam nus femininos, cenas do cotidiano, animais, pinturas religiosas, paisagens, o sertão, camponeses e retratos. A partir da consultoria do próprio artista, que realizou sua concepção junto com o produtor Anderson Eleotério, a exposição apresenta peças inéditas do acervo pessoal de Bandeira de Mello restauradas especialmente para a mostra. Uma cronologia ilustrada de sua vida e obra é complementada por um documentário em que o pintor revela memórias interessantes dos 38 anos em que foi Retirantes professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, bem como de sua infância, época em que despertou para o desenho e a pintura. Nascido na cidade de Leopoldina, quando tinha seis anos Bandeira de Mello visitou uma vizinha que fazia uma pintura a óleo. Vendo o interesse do menino, perguntou se ele queria pintar um pouco. Foi o bastante para acender nele a chama que marcaria sua vida dali em diante. O que a vizinha levava um mês para fazer, o pequeno aprendiz fez em apenas um dia. Ela então chamou o pai do pequeno artista e contou-lhe a façanha. A partir daí, cada vez que o advogado Lydio Bandeira de Mello ia ao Rio de Janeiro trazia para o filho tintas e telas para suas pinturas. Conforme conta o próprio artista no documentário disponível na mostra, quando tinha 17 anos, “época em que a gente decide o que vai ser amanhã”, comunicou aos pais o desejo de ir para o Rio de Janeiro estudar na Escola de Belas Artes. Apoiado pela família, o estudo da pintura acadêmica seria, de fato, um fator de- Procissão terminante em sua carreira. Dono de um metiê dos mais vigorosos, sua obra acabou se consagrando pela riqueza de detalhes, pela técnica rigorosa e, sobretudo, por sua extraordinária capacidade de trabalho, de forma humilde e incessante. Obcecado pela permanência da obra de arte e avesso a trabalhos contemporâneos efêmeros, “aqueles realizados em gelo, cera e carne”, Bandeira de Mello considera que a arte deve ter como função registrar a interação do homem com o Universo. “Os homens das cavernas já grafavam seus desenhos em pedra e depois em placas de terracota, justamente para divulgar e perpetuar a obra de arte”, afirma no documentário produzido pela Sambacine, disponível para quem for à mostra e quiser se aprofundar no universo do artista. Bandeira de Mello, retrospecto Até 29/8, de 3ª a domingo, das 9 às 21h, na Caixa Cultural, com entrada franca. Agendamento de visitas monitoradas: 3206.9892. 31 luz câmera ação Bang-bang cozido “al dente” CCBB exibe 20 obras essenciais dos westerns spaghetti, versão italiana de um dos gêneros emblemáticos do cinema norte-americano Por Sérgio Moriconi A mitologia do western “na bota”. A referência não diz respeito ao calçado do herói, do mocinho, como se costumava dizer, mas à denominação da península italiana, lugar onde foi gerada uma incrível quantidade de clássicos filmes de “faroeste” nos anos 60 e 70. Obras como Por um punhado de dólares, Três homens em conflito e Era uma vez no oeste, três dos mais célebres longas de Sérgio Leone, ajudaram inclusive a revitalizar um gênero que experimentava certa estagnação em sua pátria- mãe, os Estados Unidos, no final dos anos 50. Como isso pôde acontecer com um tipo de filme por muitos considerado emblemático para a cultura dos EUA? Pode ser que a mostra Faroeste spaghetti – O bang-bang à italiana, em cartaz no CCBB até o dia 22, responda a essa e a outras enigmáticas questões desse surpreendente e improvável fenômeno. O renomado crítico francês André Bazin dizia que o western era “o filme americano por excelência”, fazendo eco ao mestre John Ford, que os considerava a mais justa representação da epopéia da colonização do país. Entretanto, a mística do western povoou corações e mentes do mundo todo, especialmente de crianças, vestidas com suas 32 Meu nome é ninguém A morte anda a cavalo cartucheiras e chapéus de “caubóis”, enfrentando facínoras imaginários. Na Itália, ou em toda a Europa do pós-guerra, obviamente não foi diferente. Fellini declarou certa vez sua fascinação por toda a cultura popular norte-americana, pelos cartoons, pelos faroestes. Tudo isso, segundo ele, tinha um sentido libertário, lúdico, para quem crescera sob a lúgubre ideologia fascista. Os italianos, ao contrário dos franceses, conviveram bem – talvez melhor – com a avalanche cultural dos EUA no velho continente, nos anos 50. A geração toda de Fellini, de um modo geral, gostava dos filmes do período clássico de Hollywood. Os westerns faziam parte desse caldo. Mesmo na época neo-realista, diretores como Pietro Germi e Giuseppe De Santis refletiram em várias de suas obras o interesse pelo gênero. Um nada, se levamos em conta o que viria pela frente, mais precisamente entre os anos de 1963 e 1973. Durante uma década, os westerns, agora chamados spaghetti, dominaram a produção italiana para exportação em termos de lucros auferidos em bilheteria. Ainda que o nome de Sergio Leone venha de imediato à mente quando se procura uma razão para a explosão internacional do “bang-bang made in Italy”, é preciso lembrar que pelo menos 25 westerns haviam sido produzidos na Cinecittà antes de Leone iniciar a realização de Por um punhado de dólares. Numa de suas análises sobre o western à italiana, Christopher Frayling menciona vários fatores econômicos que de alguma maneira explicam a sua gênese. Alguns dados levantados são significativos. Do lado norte-americano, a produção de westerns dos grandes estúdios havia decrescido de 54, em 1958, para apenas 11, no período 62/63, e crescido para 37, apenas em 1967, devido ao inesperado sucesso do filme de Leone. Havia, segundo Por um punhado de dólares Frayling, uma grande demanda para esse tipo de filme, impossibilitada de ser suprida por Hollywood devido a uma importante crise financeira. Roma, no entanto – leia-se Cinecittà –, vivia situação inversa. O cinema italiano experimentava uma era de esplendor na segunda década do segundo pós-guerra. Desde o início dos anos 50, a estrutura de produção cinematográfica da Itália só perdia para a hollywoodiana. A cooperação entre produtores dos dois países era intensa. Não devemos nos esquecer que dezenas de superproduções históricas sobre a Roma antiga e outros dramas de época eram rodados nos EUA com grandes nomes italianos (Sophia Loren, por exemplo) dividindo os cartazes com estrelas e astros norte-americanos. Juntou-se, então, a fome com a vontade de comer: a indústria italiana de cinema procurava financiamento internacional para filmes populares; Hollywood, apesar da crise, tinha algum dinheiro e gostou quando os italianos ofereceram locações baratas na Espanha, disponibilizando ainda, a baixíssimo custo, a quantidade de extras que fosse necessária. Os americanos abraçaram de vez a idéia porque vislumbraram a possibilidade de ganhar um bom dinheiro no seu próprio mercado, já que os westerns tinham um público cativo naquele lado do Atlântico. O que os americanos não esperavam é que os westerns spaghetti mudassem substancialmente a cara do gênero. Muito do impacto do cinema de Leone consiste no seu afastamento do que se convencionou chamar “clássica fórmula do western”, sustentada por três pilares básicos: os cidadãos da cidade, vistos como agentes civilizatórios (civilizados e bons), são ameaçados por grupos de selvagens foras-da-lei (incivilizados e maus), finalmente salvos por um herói com características dos dois grupos, mas que, apesar de desajustado socialmente, acaba agindo como agente civilizador. Nos spaghettis, diferentemente, não há nem bons nem maus. Em Meu nome é ninguém, de Tonino Valleri, o herói age motivado pelo dinheiro. A cidade de San Miguel, cenário do filme, está longe de ser um microcosmo da civilização. Ao contrário, segundo os termos de Peter Bondanella, “é um lugar quase surrealista, onde ninguém trabalha a não ser o coveiro”. Matar é a única forma de ganhar respeito. A mesma caracte- Era uma vez no Oeste rística está presente em Sérgio Corbucci (Sartana/Os violentos vão para o inferno), assim como em Gianfranco Parolini (Sabata/Sartana) e mesmo nas comédias escrachadas de Trinity. Popularíssimo, esse personagem passou pelas mãos de diversos diretores e não deixa dúvida quanto ao caráter politicamente incorreto, iconoclasta, que os italianos impuseram à tradição do western. Pode-se mesmo dizer que eles azedaram o molho da nobre iguaria norte-americana. Faroeste spaguetti – O bang-bang à italiana De 3 a 22/8, no CCBB. Ingressos a R$ 4 e R$ 2. Mais informações: 3310.7087 33 luz câmera ação À prova de morte Por Reynaldo Domingos Ferreira Q num Dodge Callenger RT/1970 pelas ruas de Austin, no Texas, à procura de um lugar para comemorar o aniversário da terceira, uma DJ da emissora da cidade. Elas acampam no Güero´s Taco Bar, que exibe, em sua decoração, cartazes de películas antigas, como Three Irenes, no qual Tarantino – que aparece como Warren, dono do estabelecimento – teria se inspirado para criar (ou reciclar, como é do seu estilo) o argumento da fita. Quase de forma simultânea à chegada das três garotas ao bar, surge também, dirigindo um Chevy Nova, o dublê Mike (Kurt Russell). Instado por Shanna a tomar um drinque, Mike se diz abstêmio de álcool e depois não reage, em absoluto, quando ela o provoca por meio de uma dança de colo de alta potencialidade erótica, que o envolve fisicamente. Posteriormente, sem ser percebido, Mike faz, à disFotos: Divulgação uentin Tarantino fez um thriller do tipo road movie para mostrar como se efetiva o treinamento dos dublês de atores, usando, para isso, argumento de ficção que remete aos dos filmes B, de horror, da década de 70, em que as cenas de perseguição em carros de alta potência – como o Pontiac GTO – se constituíam em grande atração de bilheteria. Sem ter nada do brilhantismo de Cães de aluguel, Pulp fiction, Kill Bill ou Bastardos inglórios, o filme foi rodado também sem muita pretensão. O roteiro faz referência direta aos filmes do gênero dos anos 70, que se caracterizavam por constantes riscos na tela, descontinuidade nas montagens e discrepância da tonalidade fotográfica, ora em preto e branco, ora em colorido. Além disso, o diálogo, apesar de envolvente, é pobre e do nível mais rasteiro possível, como manda o figurino, embora cite, em dado momento, um poema de Robert Frost. A história, narrada em metalinguagem, é a de três amigas – Arlene (Vanessa Ferlito), Shanna (Jordan Ladd) e Julia (Sydney Tamii Poitier) – que transitam tância, várias fotos das garotas, quando estas deixam o bar ou entram numa banca de revistas. A resistência de Mike é posta novamente à prova três meses depois, quando ele encontra, em Lebanon, Tennessee, outras três garotas que desejam enfrentálo num Dodge Challenger tomado de empréstimo de um tal de Jasper (Jonathan Loughran). É principalmente a partir dessa sequência que Tarantino procura tirar ilações sobre a guerra dos sexos em que o carro se torna instrumento de fascínio, poder e domínio. Inegavelmente, as cenas de perseguição nas estradas praticamente desertas do Tennessee são de tirar o fôlego, pois uma das garotas se põe amarrada ao capô do Dodge Challenger, que recebe consecutivas bordoadas do Chevy Nova do alucinado Mike, ansioso por eliminá-las. A se dar crédito à informação de que teria sido Tarantino o operador de câmara a captar os lances dessa eletrizante corrida à beira de precipícios, tem-se de reconhecer que se trata de um trabalho notável, mas de sabor, é claro, de dejà vu. Os atores, que atuam de improviso, em grande parte, estão muito bem, tanto os novos como os veteranos, destacando-se as atrizes, pela extraordinária sensualidade. À prova de morte (Death proof) 34 EUA/ 2007, 114min. Roteiro e direção: Quentin Tarantino. Com Kurt Russell, Rosario Dawson, Sydney T. Poitier, Mary Elizabeth Winstead, Tracie Thoms, Jordan Ladd, Vanessa Ferlito, Quentin Tarantino e Jonathan Loughran. 35