Particularidades da Pesquisa em Jornalismo1 Fabiana PELINSON2 Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR RESUMO As evoluções da pesquisa e as mudanças na sociedade brasileira apresentam consequências diretas para a realidade dos veículos de comunicação de massa e influências no modo de fazer jornalismo. Assim, o objetivo deste artigo é discutir, de forma teórica, as particularidades das pesquisas em jornalismo hoje no Brasil. Como abordagem metodológica utiliza-se a pesquisa bibliográfica que permite o entendimento de conceitos e ideias de diversos autores sobre o tema. PALAVRAS-CHAVE: Jornalismo; pesquisa; Comunicação INTRODUÇÃO A partir da década de 1950, a pesquisa em jornalismo no Brasil intensificou-se, principalmente, com a criação dos primeiros cursos universitários de jornalismo no país. Inicialmente, os estudos se caracterizavam pela interdisciplinaridade. Passando por diferentes fases e pela influência de autores de matizes igualmente diversos, a evolução das pesquisas neste campo acompanhou as mudanças ocorridas na história política, social e cultural brasileira. Assim, de acordo com Strelow (2001), as evoluções da pesquisa e as mudanças na sociedade brasileira apresentam consequências diretas para a realidade dos veículos de comunicação de massa e influências, nem sempre sutis, no modo de fazer jornalismo. O desenvolvimento dos meios de comunicação na contemporaneidade modificou a prática do jornalismo, reconfigurando suas mediações sociais e culturais, em função do uso das novas tecnologias e das novas relações estabelecidas entre produtores e consumidores de informação. Isto é, o jornalismo se reinventa cotidianamente como discurso e prática social e impõe um olhar crítico aos pesquisadores. 1 Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho Estudos em Jornalismo do IV SIPECOM - Seminário Internacional de Pesquisa em Comunicação 2 Mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), email: [email protected] 1 Dessa forma, ao mesmo tempo, o campo acadêmico do jornalismo se fortaleceu nas universidades de todo o país, possível de ser dimensionado na observação dos trabalhos desenvolvidos por diferentes entidades ligadas a essa prática e diante da publicação de uma vasta bibliografia que veio manter o debate sobre suas questões teóricas e metodológicas, aperfeiçoando as investigações. Conforme Benetti & Lago (2008), o perfil atual do pesquisador em jornalismo exige não somente que ele busque o domínio epistemológico acerca das discussões que envolvem o seu trabalho científico. Neste campo, outro atributo desejado tem sido o despertar para uma seleção criteriosa das abordagens metodológicas mais adequadas às particularidades do objeto de estudo proposto. Meditsh (s.d), referente aos problemas a serem superados nas pesquisas em jornalismo, destaca que é necessário romper a inércia que conduziu o campo de estudos à situação atual e que isto demanda um esforço coletivo e um dispêndio considerável de energia para superar uma série de problemas específicos, como os problemas de identidade e de legitimidade, além daqueles mais gerais que dificultam qualquer forma de produção científica no Brasil. Diante destas considerações iniciais, o objetivo deste artigo é discutir, de forma teórica, as especificidades das pesquisas em jornalismo no Brasil. Como abordagem metodológica utiliza-se a pesquisa bibliográfica que permite o entendimento de conceitos e ideias de diversos autores sobre o tema. METODOLOGIA Considerando que o estudo proposto pretende discutir, de forma teórica, as particularidades da pesquisa em jornalismo, adota-se a pesquisa bibliográfica como método. A pesquisa bibliográfica trata-se do levantamento da bibliografia já publicada em forma de livros, revistas, publicações avulsas em imprensa escrita e documentos eletrônicos. A finalidade da pesquisa bibliográfica é colocar o pesquisador em contato direto com aquilo que foi escrito sobre determinado assunto. Esse tipo de pesquisa permite que um tema seja analisado sob um novo enfoque ou abordagem, produzindo novas conclusões. (MARCONI & LAKATOS, 2001). 2 Assim, a pesquisa abrange a exploração de fontes bibliográficas leitura, ou seja, análise e interpretação de livros e periódicos. O material encontrado é submetido, então, a uma triagem, estabelecendo um plano de leitura. A partir da leitura, as anotações e fichamentos servem à fundamentação teórica do estudo. Deve-se ressaltar que, através desse método, agrupou-se em uma única base de dados diversas informações coletadas que constituem uma base consistente para a elaboração de estudos mais avançados sobre o tema. 1 A LEGITIMAÇÃO DA PRÁTICA JORNALÍSTICA COMO OBJETO DE ESTUDO Uma confusão epistemológica impediu a legitimação das pesquisas acadêmicas no jornalismo. Até a metade do século XX, a definição do jornalismo como uma prática profissional, poderia existir sem a necessidade de formação universitária ou da produção de conhecimento sistemático. Dessa forma, como afirma Machado (2004), coube ao jornalismo, relegado ao terreno das práticas profissionais, um status marginalizado dentro das universidades. Os motivos deste status inferior foram a tardia incorporação à lista dos cursos oferecidos e pelo fato de permanecer como um espaço para o ensino de técnicas, que desconsiderava a necessidade de produção de conhecimento novo como um pressuposto para a formação dos futuros jornalistas. Ainda de acordo com Machado (2004), dependendo da perspectiva, o jornalismo desempenha três funções diferenciadas: 1) de prática profissional; 2) de objeto científico e 3) de campo especializado de ensino. Como prática profissional deveria ficar claro que o exercício do jornalismo exige o domínio de determinadas técnicas e conhecimentos específicos e que o jornalista profissional deve obedecer a um conjunto de normas legitimadas. Como campo de ensino especializado, Machado (2004) acredita que deveria ficar claro que a aprendizagem do jornalismo, um trabalho sistemático que vai muito além do conhecimento obtido por osmose nas redações, depende do desenvolvimento de metodologias especializadas, capazes de possibilitar aos docentes, tanto o repasse 3 das novas teorias, quanto uma boa formação técnica aos futuros profissionais (MACHADO, 2004, p. 02). Já como objeto científico com status próprio, o autor afirma que deveria ficar claro que o jornalismo possibilita a fundação de um campo de conhecimento especializado que tendo na prática jornalística um objeto legítimo necessita para a sua plena compreensão o desenvolvimento de metodologias próprias, adaptadas as suas demandas particulares. Assim, a pesquisa em jornalismo, no Brasil e no resto do mundo, passou por três fases: 1) histórica de natureza individual por profissionais de outras áreas; 2) comandada por profissionais individuais, tanto por pesquisadores do campo, quanto de outras áreas; e 3) redes de pesquisadores para trabalhos multidisciplinares, quer com profissionais do campo, quer com profissionais de outras áreas. Antes da exigência de formação universitária para o exercício da profissão para jornalistas, até os anos 70 do século passado, quando da criação dos primeiros cursos de pós-graduação em comunicação, a pesquisa dependia das iniciativas isoladas de pesquisadores talentosos, sem uma articulação nacional clara. Segundo Machado (2004), dos anos 70 até o começo dos anos 90 do século passado, registrou-se um período de desenvolvimento da pesquisa de forma sistemática, em cursos de pósgraduação, principalmente em São Paulo. Da metade dos anos 90, até hoje, houve a disseminação dos pesquisadores em jornalismo, formados nos cursos de pós-graduação, abertos fora do eixo Rio-São Paulo. 1.1 Abordagens, pressupostos e características do jornalismo como conhecimento Devido a sua complexidade, a questão do jornalismo enquanto conhecimento admite muitas interpretações. Para simplificar a exposição, Meditsch (1997) classifica estas interpretações, que compreendem diferentes nuances, em três abordagens principais. A primeira das abordagens entroniza a Ciência como o método de conhecimento. Segundo essa abordagem, o jornalismo não produz conhecimento válido, e contribui apenas para a degradação do saber. Apesar das críticas que este ponto de vista vem recebendo nos últimos anos, sua influência ainda pode ser constatada em 4 grande parte da produção acadêmica contemporânea sobre o jornalismo, que de uma forma ou de outra o situa no campo do conhecimento como uma ciência mal feita, quando não como uma atividade perversa e degradante, como afirma Meditsch (1997). A segunda abordagem admite ainda o jornalismo como uma ciência menor, mas considera que não é de todo inútil. Já a terceira abordagem dá mais ênfase não ao que o jornalismo tem de semelhante, mas justamente ao que ele tem de único e original. Para esta terceira abordagem, segundo Meditsch (1997), o jornalismo não revela mal nem revela menos a realidade do que a ciência: ele simplesmente revela diferente. E ao revelar diferente, pode mesmo revelar aspectos da realidade que os outros modos de conhecimento não são capazes de revelar. Além desta maneira distinta de produzir conhecimento, Meditsch (1997, p. 03) destaca que “o jornalismo também tem uma maneira diferenciada de o reproduzir, vinculada à função de comunicação que lhe é inerente. O Jornalismo não apenas reproduz o conhecimento que ele próprio produz, reproduz também o conhecimento produzido por outras instituições sociais”. Conforme Lage (1992), o jornalismo descende da mais antiga e singela forma de conhecimento – só que, agora, projetada em escala industrial, organizada em sistema, utilizando um fantástico aparato tecnológico. Filho (1987) ressalva que o jornalismo como gênero de conhecimento difere da percepção individual pela sua forma de produção: nele, a imediaticidade do real é um ponto de chegada, e não de partida. Esta ressalva é importante para se discutir os problemas do jornalismo como forma de conhecimento e de seus efeitos. No entanto, ao se fixar na imediaticidade do real, o jornalismo opera no campo lógico do senso comum, e esta característica definidora é fundamental (MEDITSCH, 1997). De acordo com o autor, o conhecimento do jornalismo é forçosamente menos rigoroso do que o de qualquer ciência formal, mas em compensação, será também menos artificial e esotérico. Embora nesta perspectiva se considere que o jornalismo produz e reproduz conhecimento, de forma válida e útil para as sociedades e seus indivíduos, não se pode deixar de considerar que esse conhecimento por ele produzido tem os seus próprios limites lógicos e, quando observado na prática, apresenta também uma série de problemas estruturais. Como toda outra forma de conhecimento, aquela que é produzida pelo jornalismo será sempre condicionada histórica e culturalmente por 5 seu contexto e subjetivamente por aqueles que participam desta produção. Estará também condicionada pela maneira particular como é produzida (MEDITSCH, 1997). 2 DESENVOLVIMENTO DE METODOLOGIAS ESPECÍFICAS PARA AS PESQUISAS EM JORNALISMO O aumento da produção científica sobre o jornalismo nos conduz à exigência de identificar a particularidade do conhecimento resultante destes estudos. Assim, o perfil atual do pesquisador em jornalismo exige não somente que ele busque o domínio epistemológico acerca das discussões que envolvem o seu trabalho científico. Neste campo, outro atributo desejado tem sido o despertar para uma seleção criteriosa das abordagens metodológicas mais adequadas às particularidades do objeto de estudo proposto. Conforme dados observados por Machado (2004), a maioria dos pesquisadores permanece numa relação instrumental com o objeto, utilizado para testar metodologias de outras áreas de conhecimento, sem a necessidade de compreender a natureza específica da prática jornalística e interessada em responder a perguntas oriundas de espaços de conhecimento distintos. Para Machado (2004), os pesquisadores em jornalismo devem perceber que, legitimado como objeto científico com status próprio, torna-se necessário estimular o desenvolvimento de metodologias adaptadas à compreensão do jornalismo como prática profissional, como objeto científico ou como campo especializado de ensino. Um pesquisador que esteja interessado em descobrir as especificidades do jornalismo deve preocupar-se em como viabilizar a criação de metodologias de pesquisa ou de ensino adaptadas às particularidades do jornalismo. Assim, torna-se necessário que as pesquisas em jornalismo adotem uma metodologia específica. No caso das pesquisas do campo da Comunicação em geral, e do Jornalismo em particular, marcadas pela multidimensionalidade, é imperioso aprofundar a compreensão da esfera metodológica das pesquisas, quando menos porque nossos objetos de estudo são frequentemente multidisciplinares e se apoiam em metodologias formatadas em outras disciplinas (BENETTI; LAGO, 2008, p. 17). 6 A falta de tradição acadêmica acaba por desencorajar qualquer projeto de cunho metodológico, compelindo os pesquisadores debruçados sobre o jornalismo à dependência sistemática de metodologias forjadas para destrinchar objetos muito diferentes, com propósitos muito diversos daqueles postulados pelos pesquisadores do campo do jornalismo (MACHADO, 2004). Isto é, a dependência de estudos articulados em torno de metodologias vinculadas a outros campos do conhecimento estimula a replicação, de estudos muito similares em que se toma o jornalismo como objeto, sem que ocorra, como contrapartida, a criação de teorias substantivas a serem ensinadas nos cursos de graduação em jornalismo. Ainda de acordo com Machado (2004), o mapeamento das particularidades da pesquisa em jornalismo, com a distinção entre estudos de jornalismo, realizados com metodologias oriundas em outros campos de conhecimento e teorias do jornalismo, responsáveis pela experimentação metodológica dentro do campo, representa o primeiro passo para um salto qualitativo nas pesquisas em jornalismo e para que o jornalismo obtenha o certificado de objeto científico com status próprio. Dado este passo, estaríamos em condições de, como disciplina com objeto e metodologias específicas, estabelecer redes multidisciplinares de pesquisas sobre o jornalismo. 3 PROBLEMAS A SUPERAR NA PESQUISA EM JORNALISMO Pensando especificamente na pesquisa da sub-área de jornalismo, no Brasil ou na América Latina, Meditsch (s.d.) expõe alguns problemas que devem ser superados neste campo. O problema de identidade A classificação das áreas de conhecimento reflete um conceito que incorporou dois tipos de saberes técnico científico. De um lado, estão as áreas originadas em disciplinas clássicas, como a Matemática e a História. De outro, as áreas associadas a práticas profissionais reconhecidas por demandar e reunir conhecimentos específicos de nível superior, tais como Medicina, Direito e Engenharia. A área da Comunicação faz parte deste segundo grupo e quando pensamos no jornalismo em particular, fica evidente esta vinculação com uma prática social 7 específica, com os conhecimentos aplicados e necessários ao exercício de uma profissão socialmente relevante, que demanda uma arquitetura complexa de formação, só atendida pela universidade. No entanto, Meditsch (s.d.) afirma que esta vinculação da área da comunicação às profissões que lhe deram origem é questionada pela própria área, tanto no debate sobre os seus objetivos quanto na sua prática teórica e de pesquisa. Há setores e grupos dentro da área da comunicação, que expressam uma crescente autonomia em relação a estas profissões, afastam-se delas como foco de interesse em sua atividade científica e tem esta posição respaldada pelas agências de fomento, como Capes, CNPq e Finep, cujo corpo técnico assessor é representativo do que ocorre na área. Porém, quando se desvincula de sua origem profissional, a área de comunicação não consegue se legitimar. Ao se desvincular de sua origem profissional, a área de comunicação não consegue alcançar a outra margem, não consegue se legitimar como disciplina científica diferenciada, não concebe um corte epistemológico inédito, não constrói um corpo teórico original, não desenvolve metodologias próprias, sequer consegue delimitar o seu objeto de estudo. Subsiste, desta maneira, avançando sobre os domínios das disciplinas vizinhas, como antropologia, sociologia, política, psicanálise, economia, filosofia, etc, sem submeter os resultados de suas pesquisas ao julgamento de quem de direito – os pares pertencentes aos quadros destas outras disciplinas, que poderiam avaliar a propriedade e o rigor de sua utilização (MEDITSCH, s.d., p. 02). Para o autor, a esta extrema liberdade confere-se um álibi que tudo permite e tudo absolve: a interdisciplinaridade. Assim, a área da comunicação e do jornalismo cria a interdisciplinaridade sem objeto definido e à margem de qualquer disciplina. Talvez essa seja a justificativa do porque as principais referências bibliografias da área sejam profissionais formados em outras áreas. Desta maneira, o autor acredita que o fato da identidade do campo da comunicação é um tabu. É, portanto, um tema que normalmente se foge, se evita, ou pelo menos se tangencia. O problema histórico 8 Segundo Meditsch (s.d.), a ruptura entre teoria e prática na área acadêmica da comunicação em toda a América Latina ocorreu na década de 70, a partir da atuação do Ciespal, que acabou conseguindo transformar todas as faculdades de jornalismo do continente em faculdades de comunicação social, com o objetivo de formar não mais jornalistas, mas outro tipo de comunicador, mais útil à política de contra-insurgência adotada no continente pelos Estados Unidos, dentro do espírito da Guerra Fria. Quando o Ciespal, na década de 80, sai da área de influência norte-americana e passa ter hegemonia de esquerda, afiançada pela social-democracia européia, a idéia do "comunicador popular de novo tipo" é mantida e aprofundada, principalmente na produção teórica emanada da entidade, embora com outro viés ideológico. No entanto, esta teoria não responde às questões suscitadas pelas práticas profissionais a que as escolas dedicam a sua formação: jornalistas, publicitários, relações públicas, etc. Estas práticas passam a ser reproduzidas sem nenhuma reflexão a respeito, a não ser aquela que as nega, propondo a sua substituição pelo "comunicador de novo tipo", concepção que a maioria esmagadora das escolas - no caso brasileiro, a unanimidade - jamais colocou em prática, conforme expõe Meditsch (s.d.). Libertada da prática, a teoria passa a definir os seus caminhos, conforme os modismos intelectuais importados em cada época e as idiossincrasias dos seus produtores, diversificando-se de modo que o único critério para dizer se uma pesquisa pertence ou não à área da comunicação é a vinculação de seu autor com um departamento ou faculdade de comunicação, independente da questão, tema ou abordagem que o autor pretende estudar. Com a estabilização da pós-graduação, esta postura passou a ser reproduzida. Conforme Meditsch (s.d.), os primeiros doutores que definiram como deveria ser a pósgraduação em comunicação eram todos teóricos, já que a prática não investia na titulação dos professores. Dessa forma, no meio acadêmico a prática era mantida numa escala inferior da hierarquia. Outro fator histórico que pode ajudar a entender este dicotomia foi a presença maciça de professores com formação em outras áreas, na definição dos caminhos teóricos da comunicação. Meditsch (s.d.) afirma que é inegável a contribuição trazida à área por estes professores, ainda mais quando se constata que a maior parte das 9 referências bibliográficas que utilizamos hoje foi produzida em suas disciplinas de origem. Mas é igualmente provável que o controle, exercido por professores oriundos de outras disciplinas, com preocupações e interesses os mais diversos, sobre uma área que não preza o seu objeto de estudo, foi um dos fatores que conduziu à reconhecida perda deste objeto. O problema da legitimidade A perda do objeto de estudo da comunicação é uma questão que tem sido apontada por vários autores desde o final da década de 80. A perda do objeto de estudo não é um extravio ocasional e inconsciente, é, na verdade, uma rejeição da mídia enquanto objeto digno de ser estudado. Dessa forma, o jornalismo também será menosprezado. A área de comunicação não consegue se livrar da tarefa de seguir formando jornalistas, publicitários, e outros profissionais para a mídia, até porque é esta função social que justifica a sua existência. No entanto, consegue se livrar apenas da obrigação de colocar a produção científica a serviço do aperfeiçoamento do ofício e da formação de profissionais competentes (MEDITSCH, S.D.). Dessa forma, segundo o autor, os estudos de jornalismo passam a ser uma sub-área secundária e quase marginal dentro das chamadas "ciências da comunicação". O resultado é que muitos pesquisadores com interesse no objeto acabam mudando o foco de suas pesquisas para contribuir em outras áreas. Por outro lado, Meditsch (s.d.) considera que é alentador o fato de termos conquistado algum espaço institucional através dos Grupos e Núcleos de Pesquisa em Jornalismo das entidades acadêmicas, como a Intercom, a Alaic e mais recentemente a Compós. Para o autor, na forma como a área acadêmica da comunicação está institucionalizada, o caminho natural dos estudos de jornalismo talvez fosse o da extinção. Mas ela não ocorre, porque o jornalismo é um objeto de tanta relevância social, cultural e acadêmica que sempre reaparece em estudos interessantes, seja na área da comunicação, seja em áreas afins como nas ciências humanas e da linguagem. Mas, se a extinção não ocorre, a falta de legitimidade nos traz um problema adicional de dispersão do conhecimento produzido sobre jornalismo: grande parte 10 da pesquisa é feita e discutida em outras áreas e, mesmo nos congressos de comunicação, mais da metade dos estudos sobre jornalismo continuam a ser apresentados fora dos grupos de jornalismo. As interfaces do jornalismo são muitas, e os autores destes trabalhos procuram os grupos com mais prestígio ou contatos mais interessantes (MEDITSCH, s.d., p. 05). O problema da cientificidade Na grande maioria das teses e dissertações na área, as teorias são expostas como mera descrição de conceitos, que nada acrescentam ao trabalho e, pelo contrário, tornam-se um entrave ao desenvolvimento de qualquer metodologia consistente. Quando não há relação das teorias estudadas com as perguntas suscitadas pelo objeto de estudo, não há metodologia que se sustente. E o grande problema das pesquisas é a falta de consistência metodológica. E, nesse caso, o apelo à interdisciplinariedade, em vez de resolver, apenas agrava o problema. Meditsch (s.d) destaca que, especificamente, para os jornalistas, a produção científica é um desafio maior ainda por não se tratar de aprender o método, mas de trocar de método, na medida em que o jornalismo também é um método de conhecimento. Além de aprender um método novo, temos que nos descondicionar de toda uma internalização do antigo, dos critérios jornalísticos que ajudam em muitos aspectos, mas que atrapalha em alguns momentos a pesquisa científica. CONSIDERAÇÕES FINAIS A confusão epistemológica e o status marginalizado do curso dentro das universidades brasileiras impediram a legitimação das pesquisas acadêmicas no jornalismo, que só a partir da década de 50, se intensificou. Assim, a pesquisa em jornalismo passou por diversas etapas, sendo influenciada por autores e pesquisas de diversos campos. Hoje, a pesquisa em jornalismo exige que o pesquisador selecione criteriosamente abordagens metodológicas que sejam adequadas às características particulares do objeto de estudo. É necessário, portanto, que os pesquisadores vejam o seu objeto de estudo de maneira não instrumental e que utilizem métodos e técnicas que possam ser empregadas para compreender a natureza específica da prática jornalística. 11 De acordo com o relato dos autores aqui abordados, a extrema liberdade do campo, chamada de interdisciplinaridade, faz com que este não tenha objeto definido e que fique à margem de qualquer disciplina. Desta maneira, um dos grandes problemas da área seja a falta de identidade. Além disso, os autores elencam como problemas que influenciam e caracterizam as pesquisas em jornalismo, o problema histórico da dicotomia entre teórica e prática, a falta de um objeto de estudo e o problema da cientificidade. Portanto, essas abordagens teóricas nos permitem compreender que falta uma pesquisa genuinamente jornalística, que tenha objeto de estudo, que utilize métodos e técnicas apropriadas para a pesquisa neste campo. E, acima de tudo, que essa dependência em torno de metodologias vinculadas a outros campos estimula, apenas, a replicação, tomando o jornalismo como objeto, sem que ocorra a criação de teorias próprias para o jornalismo. REFERÊNCIAS BENETTI, M.; LAGO, C. Metodologia de pesquisa em Jornalismo. 2 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. CAPARELLI, S. Comunicação de massa sem massa. São Paulo: Editora Cortez, 1980. FILHO, A. G. O Segredo da Pirâmide: para uma Teoria Marxista do Jornalismo. Porto Alegre: Editora Tchê, 1987. LAGE, N. Prefácio. In: MEDITSCH, E. 1992. MACHADO, E. Dos estudos sobre o Jornalismo às Teorias do Jornalismo. Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 2004. MARCONI, M. de A.; LAKATOS, E. M. Metodologia do trabalho científico. São Paulo: Atlas, 2001. MEDITSCH, E. O jornalismo é uma forma de conhecimento? Florianópolis: Biblioteca Online de Ciências da Comunicação, 1997. MEDITSCH, E. Problemas a superar na pesquisa em jornalismo. Florianópolis, s.d. STRELOW, A. A. G. O estado da arte da pesquisa em jornalismo no Brasil: 2000 a 2010. Intexto, Porto Alegre, UFRGS, v.02, n.25, p. 67-90, dez. 2011. 12