Particularidades da Pesquisa em Jornalismo1
Fabiana PELINSON2
Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR
RESUMO
As evoluções da pesquisa e as mudanças na sociedade brasileira apresentam
consequências diretas para a realidade dos veículos de comunicação de massa e
influências no modo de fazer jornalismo. Assim, o objetivo deste artigo é discutir, de
forma teórica, as particularidades das pesquisas em jornalismo hoje no Brasil. Como
abordagem metodológica utiliza-se a pesquisa bibliográfica que permite o entendimento
de conceitos e ideias de diversos autores sobre o tema.
PALAVRAS-CHAVE: Jornalismo; pesquisa; Comunicação
INTRODUÇÃO
A partir da década de 1950, a pesquisa em jornalismo no Brasil intensificou-se,
principalmente, com a criação dos primeiros cursos universitários de jornalismo no país.
Inicialmente, os estudos se caracterizavam pela interdisciplinaridade. Passando por
diferentes fases e pela influência de autores de matizes igualmente diversos, a evolução
das pesquisas neste campo acompanhou as mudanças ocorridas na história política,
social e cultural brasileira. Assim, de acordo com Strelow (2001), as evoluções da
pesquisa e as mudanças na sociedade brasileira apresentam consequências diretas para a
realidade dos veículos de comunicação de massa e influências, nem sempre sutis, no
modo de fazer jornalismo.
O desenvolvimento dos meios de comunicação na contemporaneidade modificou a
prática do jornalismo, reconfigurando suas mediações sociais e culturais, em função do
uso das novas tecnologias e das novas relações estabelecidas entre produtores e
consumidores de informação. Isto é, o jornalismo se reinventa cotidianamente como
discurso e prática social e impõe um olhar crítico aos pesquisadores.
1
Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho Estudos em Jornalismo do IV SIPECOM - Seminário Internacional de
Pesquisa em Comunicação
2
Mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), email: [email protected]
1
Dessa forma, ao mesmo tempo, o campo acadêmico do jornalismo se fortaleceu nas
universidades de todo o país, possível de ser dimensionado na observação dos trabalhos
desenvolvidos por diferentes entidades ligadas a essa prática e diante da publicação de
uma vasta bibliografia que veio manter o debate sobre suas questões teóricas e
metodológicas, aperfeiçoando as investigações.
Conforme Benetti & Lago (2008), o perfil atual do pesquisador em jornalismo exige
não somente que ele busque o domínio epistemológico acerca das discussões que
envolvem o seu trabalho científico. Neste campo, outro atributo desejado tem sido o
despertar para uma seleção criteriosa das abordagens metodológicas mais adequadas às
particularidades do objeto de estudo proposto.
Meditsh (s.d), referente aos problemas a serem superados nas pesquisas em
jornalismo, destaca que é necessário romper a inércia que conduziu o campo de estudos
à situação atual e que isto demanda um esforço coletivo e um dispêndio considerável de
energia para superar uma série de problemas específicos, como os problemas de
identidade e de legitimidade, além daqueles mais gerais que dificultam qualquer forma
de produção científica no Brasil.
Diante destas considerações iniciais, o objetivo deste artigo é discutir, de forma
teórica, as especificidades das pesquisas em jornalismo no Brasil. Como abordagem
metodológica utiliza-se a pesquisa bibliográfica que permite o entendimento de
conceitos e ideias de diversos autores sobre o tema.
METODOLOGIA
Considerando que o estudo proposto pretende discutir, de forma teórica, as
particularidades da pesquisa em jornalismo, adota-se a pesquisa bibliográfica como
método.
A pesquisa bibliográfica trata-se do levantamento da bibliografia já publicada
em forma de livros, revistas, publicações avulsas em imprensa escrita e documentos
eletrônicos. A finalidade da pesquisa bibliográfica é colocar o pesquisador em contato
direto com aquilo que foi escrito sobre determinado assunto. Esse tipo de pesquisa
permite que um tema seja analisado sob um novo enfoque ou abordagem, produzindo
novas conclusões. (MARCONI & LAKATOS, 2001).
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Assim, a pesquisa abrange a exploração de fontes bibliográficas leitura, ou seja,
análise e interpretação de livros e periódicos. O material encontrado é submetido, então,
a uma triagem, estabelecendo um plano de leitura. A partir da leitura, as anotações e
fichamentos servem à fundamentação teórica do estudo.
Deve-se ressaltar que, através desse método, agrupou-se em uma única base de
dados diversas informações coletadas que constituem uma base consistente para a
elaboração de estudos mais avançados sobre o tema.
1 A LEGITIMAÇÃO DA PRÁTICA JORNALÍSTICA COMO OBJETO DE
ESTUDO
Uma confusão epistemológica impediu a legitimação das pesquisas acadêmicas
no jornalismo. Até a metade do século XX, a definição do jornalismo como uma prática
profissional, poderia existir sem a necessidade de formação universitária ou da produção
de conhecimento sistemático.
Dessa forma, como afirma Machado (2004), coube ao jornalismo, relegado ao
terreno das práticas profissionais, um status marginalizado dentro das universidades. Os
motivos deste status inferior foram a tardia incorporação à lista dos cursos oferecidos e
pelo fato de permanecer como um espaço para o ensino de técnicas, que desconsiderava
a necessidade de produção de conhecimento novo como um pressuposto para a
formação dos futuros jornalistas.
Ainda de acordo com Machado (2004), dependendo da perspectiva, o jornalismo
desempenha três funções diferenciadas: 1) de prática profissional; 2) de objeto científico
e 3) de campo especializado de ensino.
Como prática profissional deveria ficar claro que o exercício do jornalismo exige
o domínio de determinadas técnicas e conhecimentos específicos e que o jornalista
profissional deve obedecer a um conjunto de normas legitimadas.
Como campo de ensino especializado, Machado (2004) acredita que
deveria ficar claro que a aprendizagem do jornalismo, um trabalho
sistemático que vai muito além do conhecimento obtido por osmose
nas redações, depende do desenvolvimento de metodologias
especializadas, capazes de possibilitar aos docentes, tanto o repasse
3
das novas teorias, quanto uma boa formação técnica aos futuros
profissionais (MACHADO, 2004, p. 02).
Já como objeto científico com status próprio, o autor afirma que deveria ficar
claro que o jornalismo possibilita a fundação de um campo de conhecimento
especializado que tendo na prática jornalística um objeto legítimo necessita para a sua
plena compreensão o desenvolvimento de metodologias próprias, adaptadas as suas
demandas particulares.
Assim, a pesquisa em jornalismo, no Brasil e no resto do mundo, passou por três
fases: 1) histórica de natureza individual por profissionais de outras áreas; 2)
comandada por profissionais individuais, tanto por pesquisadores do campo, quanto de
outras áreas; e 3) redes de pesquisadores para trabalhos multidisciplinares, quer com
profissionais do campo, quer com profissionais de outras áreas.
Antes da exigência de formação universitária para o exercício da profissão para
jornalistas, até os anos 70 do século passado, quando da criação dos primeiros cursos de
pós-graduação em comunicação, a pesquisa dependia das iniciativas isoladas de
pesquisadores talentosos, sem uma articulação nacional clara. Segundo Machado
(2004), dos anos 70 até o começo dos anos 90 do século passado, registrou-se um
período de desenvolvimento da pesquisa de forma sistemática, em cursos de pósgraduação, principalmente em São Paulo. Da metade dos anos 90, até hoje, houve a
disseminação dos pesquisadores em jornalismo, formados nos cursos de pós-graduação,
abertos fora do eixo Rio-São Paulo.
1.1 Abordagens, pressupostos e características do jornalismo como conhecimento
Devido a sua complexidade, a questão do jornalismo enquanto conhecimento
admite muitas interpretações. Para simplificar a exposição, Meditsch (1997) classifica
estas interpretações, que compreendem diferentes nuances, em três abordagens
principais.
A primeira das abordagens entroniza a Ciência como o método de
conhecimento. Segundo essa abordagem, o jornalismo não produz conhecimento válido,
e contribui apenas para a degradação do saber. Apesar das críticas que este ponto de
vista vem recebendo nos últimos anos, sua influência ainda pode ser constatada em
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grande parte da produção acadêmica contemporânea sobre o jornalismo, que de uma
forma ou de outra o situa no campo do conhecimento como uma ciência mal feita,
quando não como uma atividade perversa e degradante, como afirma Meditsch (1997).
A segunda abordagem admite ainda o jornalismo como uma ciência menor, mas
considera que não é de todo inútil. Já a terceira abordagem dá mais ênfase não ao que o
jornalismo tem de semelhante, mas justamente ao que ele tem de único e original. Para
esta terceira abordagem, segundo Meditsch (1997), o jornalismo não revela mal nem
revela menos a realidade do que a ciência: ele simplesmente revela diferente. E ao
revelar diferente, pode mesmo revelar aspectos da realidade que os outros modos de
conhecimento não são capazes de revelar. Além desta maneira distinta de produzir
conhecimento, Meditsch (1997, p. 03) destaca que “o jornalismo também tem uma
maneira diferenciada de o reproduzir, vinculada à função de comunicação que lhe é
inerente. O Jornalismo não apenas reproduz o conhecimento que ele próprio produz,
reproduz também o conhecimento produzido por outras instituições sociais”.
Conforme Lage (1992), o jornalismo descende da mais antiga e singela forma de
conhecimento – só que, agora, projetada em escala industrial, organizada em sistema,
utilizando um fantástico aparato tecnológico. Filho (1987) ressalva que o jornalismo
como gênero de conhecimento difere da percepção individual pela sua forma de
produção: nele, a imediaticidade do real é um ponto de chegada, e não de partida. Esta
ressalva é importante para se discutir os problemas do jornalismo como forma de
conhecimento e de seus efeitos. No entanto, ao se fixar na imediaticidade do real, o
jornalismo opera no campo lógico do senso comum, e esta característica definidora é
fundamental (MEDITSCH, 1997).
De acordo com o autor, o conhecimento do jornalismo é forçosamente menos
rigoroso do que o de qualquer ciência formal, mas em compensação, será também
menos artificial e esotérico. Embora nesta perspectiva se considere que o jornalismo
produz e reproduz conhecimento, de forma válida e útil para as sociedades e seus
indivíduos, não se pode deixar de considerar que esse conhecimento por ele produzido
tem os seus próprios limites lógicos e, quando observado na prática, apresenta também
uma série de problemas estruturais. Como toda outra forma de conhecimento, aquela
que é produzida pelo jornalismo será sempre condicionada histórica e culturalmente por
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seu contexto e subjetivamente por aqueles que participam desta produção. Estará
também condicionada pela maneira particular como é produzida (MEDITSCH, 1997).
2 DESENVOLVIMENTO DE METODOLOGIAS ESPECÍFICAS PARA AS
PESQUISAS EM JORNALISMO
O aumento da produção científica sobre o jornalismo nos conduz à exigência de
identificar a particularidade do conhecimento resultante destes estudos. Assim, o perfil
atual do pesquisador em jornalismo exige não somente que ele busque o domínio
epistemológico acerca das discussões que envolvem o seu trabalho científico. Neste
campo, outro atributo desejado tem sido o despertar para uma seleção criteriosa das
abordagens metodológicas mais adequadas às particularidades do objeto de estudo
proposto.
Conforme dados observados por Machado (2004), a maioria dos pesquisadores
permanece numa relação instrumental com o objeto, utilizado para testar metodologias
de outras áreas de conhecimento, sem a necessidade de compreender a natureza
específica da prática jornalística e interessada em responder a perguntas oriundas de
espaços de conhecimento distintos.
Para Machado (2004), os pesquisadores em jornalismo devem perceber que,
legitimado como objeto científico com status próprio, torna-se necessário estimular o
desenvolvimento de metodologias adaptadas à compreensão do jornalismo como prática
profissional, como objeto científico ou como campo especializado de ensino. Um
pesquisador que esteja interessado em descobrir as especificidades do jornalismo deve
preocupar-se em como viabilizar a criação de metodologias de pesquisa ou de ensino
adaptadas às particularidades do jornalismo. Assim, torna-se necessário que as
pesquisas em jornalismo adotem uma metodologia específica.
No caso das pesquisas do campo da Comunicação em geral, e do
Jornalismo em particular, marcadas pela multidimensionalidade, é
imperioso aprofundar a compreensão da esfera metodológica das
pesquisas, quando menos porque nossos objetos de estudo são
frequentemente multidisciplinares e se apoiam em metodologias
formatadas em outras disciplinas (BENETTI; LAGO, 2008, p. 17).
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A falta de tradição acadêmica acaba por desencorajar qualquer projeto de cunho
metodológico, compelindo os pesquisadores debruçados sobre o jornalismo à
dependência sistemática de metodologias forjadas para destrinchar objetos muito
diferentes, com propósitos muito diversos daqueles postulados pelos pesquisadores do
campo do jornalismo (MACHADO, 2004).
Isto é, a dependência de estudos articulados em torno de metodologias
vinculadas a outros campos do conhecimento estimula a replicação, de estudos muito
similares em que se toma o jornalismo como objeto, sem que ocorra, como
contrapartida, a criação de teorias substantivas a serem ensinadas nos cursos de
graduação em jornalismo.
Ainda de acordo com Machado (2004), o mapeamento das particularidades da
pesquisa em jornalismo, com a distinção entre estudos de jornalismo, realizados com
metodologias oriundas em outros campos de conhecimento e teorias do jornalismo,
responsáveis pela experimentação metodológica dentro do campo, representa o primeiro
passo para um salto qualitativo nas pesquisas em jornalismo e para que o jornalismo
obtenha o certificado de objeto científico com status próprio. Dado este passo,
estaríamos em condições de, como disciplina com objeto e metodologias específicas,
estabelecer redes multidisciplinares de pesquisas sobre o jornalismo.
3 PROBLEMAS A SUPERAR NA PESQUISA EM JORNALISMO
Pensando especificamente na pesquisa da sub-área de jornalismo, no Brasil ou
na América Latina, Meditsch (s.d.) expõe alguns problemas que devem ser superados
neste campo.
O problema de identidade
A classificação das áreas de conhecimento reflete um conceito que incorporou
dois tipos de saberes técnico científico. De um lado, estão as áreas originadas em
disciplinas clássicas, como a Matemática e a História. De outro, as áreas associadas a
práticas profissionais reconhecidas por demandar e reunir conhecimentos específicos de
nível superior, tais como Medicina, Direito e Engenharia.
A área da Comunicação faz parte deste segundo grupo e quando pensamos no
jornalismo em particular, fica evidente esta vinculação com uma prática social
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específica, com os conhecimentos aplicados e necessários ao exercício de uma profissão
socialmente relevante, que demanda uma arquitetura complexa de formação, só atendida
pela universidade.
No entanto, Meditsch (s.d.) afirma que esta vinculação da área da comunicação
às profissões que lhe deram origem é questionada pela própria área, tanto no debate
sobre os seus objetivos quanto na sua prática teórica e de pesquisa. Há setores e grupos
dentro da área da comunicação, que expressam uma crescente autonomia em relação a
estas profissões, afastam-se delas como foco de interesse em sua atividade científica e
tem esta posição respaldada pelas agências de fomento, como Capes, CNPq e Finep,
cujo corpo técnico assessor é representativo do que ocorre na área. Porém, quando se
desvincula de sua origem profissional, a área de comunicação não consegue se
legitimar.
Ao se desvincular de sua origem profissional, a área de comunicação
não consegue alcançar a outra margem, não consegue se legitimar
como disciplina científica diferenciada, não concebe um corte
epistemológico inédito, não constrói um corpo teórico original, não
desenvolve metodologias próprias, sequer consegue delimitar o seu
objeto de estudo. Subsiste, desta maneira, avançando sobre os
domínios das disciplinas vizinhas, como antropologia, sociologia,
política, psicanálise, economia, filosofia, etc, sem submeter os
resultados de suas pesquisas ao julgamento de quem de direito – os
pares pertencentes aos quadros destas outras disciplinas, que poderiam
avaliar a propriedade e o rigor de sua utilização (MEDITSCH, s.d.,
p. 02).
Para o autor, a esta extrema liberdade confere-se um álibi que tudo permite e
tudo absolve: a interdisciplinaridade. Assim, a área da comunicação e do jornalismo cria
a interdisciplinaridade sem objeto definido e à margem de qualquer disciplina. Talvez
essa seja a justificativa do porque as principais referências bibliografias da área sejam
profissionais formados em outras áreas.
Desta maneira, o autor acredita que o fato da identidade do campo da
comunicação é um tabu. É, portanto, um tema que normalmente se foge, se evita, ou
pelo menos se tangencia.
O problema histórico
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Segundo Meditsch (s.d.), a ruptura entre teoria e prática na área acadêmica da
comunicação em toda a América Latina ocorreu na década de 70, a partir da atuação do
Ciespal, que acabou conseguindo transformar todas as faculdades de jornalismo do
continente em faculdades de comunicação social, com o objetivo de formar não mais
jornalistas, mas outro tipo de comunicador, mais útil à política de contra-insurgência
adotada no continente pelos Estados Unidos, dentro do espírito da Guerra Fria. Quando
o Ciespal, na década de 80, sai da área de influência norte-americana e passa ter
hegemonia de esquerda, afiançada pela social-democracia européia, a idéia do
"comunicador popular de novo tipo" é mantida e aprofundada, principalmente na
produção teórica emanada da entidade, embora com outro viés ideológico.
No entanto, esta teoria não responde às questões suscitadas pelas práticas
profissionais a que as escolas dedicam a sua formação: jornalistas, publicitários,
relações públicas, etc. Estas práticas passam a ser reproduzidas sem nenhuma reflexão a
respeito, a não ser aquela que as nega, propondo a sua substituição pelo "comunicador
de novo tipo", concepção que a maioria esmagadora das escolas - no caso brasileiro, a
unanimidade - jamais colocou em prática, conforme expõe Meditsch (s.d.).
Libertada da prática, a teoria passa a definir os seus caminhos, conforme os
modismos intelectuais importados em cada época e as idiossincrasias dos seus
produtores, diversificando-se de modo que o único critério para dizer se uma pesquisa
pertence ou não à área da comunicação é a vinculação de seu autor com um
departamento ou faculdade de comunicação, independente da questão, tema ou
abordagem que o autor pretende estudar.
Com a estabilização da pós-graduação, esta postura passou a ser reproduzida.
Conforme Meditsch (s.d.), os primeiros doutores que definiram como deveria ser a pósgraduação em comunicação eram todos teóricos, já que a prática não investia na
titulação dos professores. Dessa forma, no meio acadêmico a prática era mantida numa
escala inferior da hierarquia.
Outro fator histórico que pode ajudar a entender este dicotomia foi a presença
maciça de professores com formação em outras áreas, na definição dos caminhos
teóricos da comunicação. Meditsch (s.d.) afirma que é inegável a contribuição trazida à
área por estes professores, ainda mais quando se constata que a maior parte das
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referências bibliográficas que utilizamos hoje foi produzida em suas disciplinas de
origem. Mas é igualmente provável que o controle, exercido por professores oriundos de
outras disciplinas, com preocupações e interesses os mais diversos, sobre uma área que
não preza o seu objeto de estudo, foi um dos fatores que conduziu à reconhecida perda
deste objeto.
O problema da legitimidade
A perda do objeto de estudo da comunicação é uma questão que tem sido
apontada por vários autores desde o final da década de 80. A perda do objeto de estudo
não é um extravio ocasional e inconsciente, é, na verdade, uma rejeição da mídia
enquanto objeto digno de ser estudado. Dessa forma, o jornalismo também será
menosprezado.
A área de comunicação não consegue se livrar da tarefa de seguir formando
jornalistas, publicitários, e outros profissionais para a mídia, até porque é esta função
social que justifica a sua existência. No entanto, consegue se livrar apenas da obrigação
de colocar a produção científica a serviço do aperfeiçoamento do ofício e da formação
de profissionais competentes (MEDITSCH, S.D.). Dessa forma, segundo o autor, os
estudos de jornalismo passam a ser uma sub-área secundária e quase marginal dentro
das chamadas "ciências da comunicação".
O resultado é que muitos pesquisadores com interesse no objeto acabam
mudando o foco de suas pesquisas para contribuir em outras áreas. Por outro lado,
Meditsch (s.d.) considera que é alentador o fato de termos conquistado algum espaço
institucional através dos Grupos e Núcleos de Pesquisa em Jornalismo das entidades
acadêmicas, como a Intercom, a Alaic e mais recentemente a Compós.
Para o autor, na forma como a área acadêmica da comunicação está
institucionalizada, o caminho natural dos estudos de jornalismo talvez fosse o da
extinção.
Mas ela não ocorre, porque o jornalismo é um objeto de tanta
relevância social, cultural e acadêmica que sempre reaparece em
estudos interessantes, seja na área da comunicação, seja em áreas afins
como nas ciências humanas e da linguagem. Mas, se a extinção não
ocorre, a falta de legitimidade nos traz um problema adicional de
dispersão do conhecimento produzido sobre jornalismo: grande parte
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da pesquisa é feita e discutida em outras áreas e, mesmo nos
congressos de comunicação, mais da metade dos estudos sobre
jornalismo continuam a ser apresentados fora dos grupos de
jornalismo. As interfaces do jornalismo são muitas, e os autores destes
trabalhos procuram os grupos com mais prestígio ou contatos mais
interessantes (MEDITSCH, s.d., p. 05).
O problema da cientificidade
Na grande maioria das teses e dissertações na área, as teorias são expostas como
mera descrição de conceitos, que nada acrescentam ao trabalho e, pelo contrário,
tornam-se um entrave ao desenvolvimento de qualquer metodologia consistente.
Quando não há relação das teorias estudadas com as perguntas suscitadas pelo
objeto de estudo, não há metodologia que se sustente. E o grande problema das
pesquisas é a falta de consistência metodológica. E, nesse caso, o apelo à
interdisciplinariedade, em vez de resolver, apenas agrava o problema.
Meditsch (s.d) destaca que, especificamente, para os jornalistas, a produção
científica é um desafio maior ainda por não se tratar de aprender o método, mas de
trocar de método, na medida em que o jornalismo também é um método de
conhecimento. Além de aprender um método novo, temos que nos descondicionar de
toda uma internalização do antigo, dos critérios jornalísticos que ajudam em muitos
aspectos, mas que atrapalha em alguns momentos a pesquisa científica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A confusão epistemológica e o status marginalizado do curso dentro das
universidades brasileiras impediram a legitimação das pesquisas acadêmicas no
jornalismo, que só a partir da década de 50, se intensificou. Assim, a pesquisa em
jornalismo passou por diversas etapas, sendo influenciada por autores e pesquisas de
diversos campos.
Hoje, a pesquisa em jornalismo exige que o pesquisador selecione
criteriosamente abordagens metodológicas que sejam adequadas às características
particulares do objeto de estudo. É necessário, portanto, que os pesquisadores vejam o
seu objeto de estudo de maneira não instrumental e que utilizem métodos e técnicas que
possam ser empregadas para compreender a natureza específica da prática jornalística.
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De acordo com o relato dos autores aqui abordados, a extrema liberdade do
campo, chamada de interdisciplinaridade, faz com que este não tenha objeto definido e
que fique à margem de qualquer disciplina. Desta maneira, um dos grandes problemas
da área seja a falta de identidade. Além disso, os autores elencam como problemas que
influenciam e caracterizam as pesquisas em jornalismo, o problema histórico da
dicotomia entre teórica e prática, a falta de um objeto de estudo e o problema da
cientificidade.
Portanto, essas abordagens teóricas nos permitem compreender que falta uma
pesquisa genuinamente jornalística, que tenha objeto de estudo, que utilize métodos e
técnicas apropriadas para a pesquisa neste campo. E, acima de tudo, que essa
dependência em torno de metodologias vinculadas a outros campos estimula, apenas, a
replicação, tomando o jornalismo como objeto, sem que ocorra a criação de teorias
próprias para o jornalismo.
REFERÊNCIAS
BENETTI, M.; LAGO, C. Metodologia de pesquisa em Jornalismo. 2 ed. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2008.
CAPARELLI, S. Comunicação de massa sem massa. São Paulo: Editora Cortez, 1980.
FILHO, A. G. O Segredo da Pirâmide: para uma Teoria Marxista do Jornalismo. Porto Alegre:
Editora Tchê, 1987.
LAGE, N. Prefácio. In: MEDITSCH, E. 1992.
MACHADO, E. Dos estudos sobre o Jornalismo às Teorias do Jornalismo. Revista da
Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 2004.
MARCONI, M. de A.; LAKATOS, E. M. Metodologia do trabalho científico. São Paulo:
Atlas, 2001.
MEDITSCH, E. O jornalismo é uma forma de conhecimento? Florianópolis: Biblioteca
Online de Ciências da Comunicação, 1997.
MEDITSCH, E. Problemas a superar na pesquisa em jornalismo. Florianópolis, s.d.
STRELOW, A. A. G. O estado da arte da pesquisa em jornalismo no Brasil: 2000 a 2010.
Intexto, Porto Alegre, UFRGS, v.02, n.25, p. 67-90, dez. 2011.
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