FRANCISCO ASSIS ARAÚJO ROCHA1 Empresa Itapagé Meu pai, Francisco Rodrigues Rocha, o Chico Rocha, nasceu em Santa Quitéria em 08 de agosto de 1902. Amanhã seria aniversário dele. Minha mãe nasceu em 19 de dezembro de 1912. Era dez anos mais nova que ele e viveu dez anos mais. Meu pai começou na enxada, como lavrador. Nesta semana, nós tivemos uma festa de família. Então, minha irmã pôs um telão com a fotografia dele e da minha mãe, depois colocou as fotos dos carros da empresa e foi contando a história, emocionando todo o mundo: “Nosso pai começou na enxada. Era analfabeto, nunca frequentou escola, mas ele mesmo dizia que sabia ler, escrever, somar, dividir e multiplicar”. E é mesmo: meu pai era uma pessoa muito inteligente. Meu pai vinha de família pobre, paupérrima. Ele repetia isso muitas vezes. Se orgulhava muito de ter vindo da enxada. Ele dizia: “- Eu sei ler, escrever, contar, somar, diminuir e multiplicar. Aprendi tudo sozinho, graças a Deus!”. Sempre dizia isso. Eu aprendi a fazer juros e porcentagem com ele. Nós nos orgulhamos do pai ter se tornado um empresário bem sucedido com seu próprio esforço. Eu mesmo, até pouco tempo não sabia que ele tinha sido homenageado no Memorial do Transporte Coletivo. Soube através do meu irmão. Sinto muito orgulho do meu pai... Ele foi comerciante de algodão, de mamona e de animais. De Santa Quitéria, ele partiu para Fortaleza, depois para Sobral e depois para Itapagé, sempre na vida de comerciante. No ano de 1952 ele comprou um carro, uma caminhoneta GMG daquele ano, para uso particular dele. Com isso, começou a transportar amigos para Fortaleza. Mas não dirigia. Nunca tirou carteira. Meu pai não era vaidoso dessas 1 Depoimento à Patrícia Menezes, na manhã de 07 de agosto de 2012, na sala do Centro Cultural do Transporte. Transcrito em de agosto de 2012, por Patrícia Menezes. coisas. Não tinha vaidade nenhuma, era uma pessoa muito simples de conversa... Era brabo, mas muito caridoso. Ajudou muita gente a ser gente, ajudou nas doenças, nas necessidades. Apesar de grosso, ele era muito generoso. Levava as coisas com a mão firme, até na nossa criação. De criança, eu apanhei bastante... Naquele tempo não tinha essas psicologias... Ele fundou a empresa com a caminhoneta transportando passageiros e registrou a linha, que passou a pertencer a ele. Antes, não existia a linha Fortaleza - Itapagé. As pessoas só podiam viajar para Itapagé nos ônibus das outras empresas que passavam por dentro da cidade, inclusive os da Expresso de Luxo. Então, quando ele registrou, a linha passou a ser direta. A caminhonete saía de Itapagé todos os dias às cinco horas da manhã. Naquela época não havia estrada asfaltada. Era carroçal. Em muitas vezes, no inverno, não dava nem para passar, porque não tinha acesso. O pessoal chegava até a fazer baldeação: a caminhonete parava, ficava do lado de Itapagé, os passageiros desciam e atravessavam pela água para pegar outro transporte até Fortaleza. Isso, antes da construção da BR. Era assim... Ou melhor: já era a BR, só que não era asfaltada, uma estrada muito precária. Só tinha energia em Itapagé até as onze horas da noite. Para o carro sair às cinco da manhã, quando estava escuro, a gente usava uma lâmpada Patromax – lembrei o nome! Era uma lâmpada abastecida com álcool, bombeada e dava uma certa luz na agência de Itapagé. Geralmente, o ônibus chegava aqui em Fortaleza ao meio dia. Hoje, esse percurso é feito em uma hora ou uma hora e meia, mas, naquele tempo, levava quase 10 horas, por causa da situação da estrada. A agência funcionava na nossa casa. Meu pai tirou um dos quartos na esquina – nossa casa era de esquina – e fez a agência ali. Tinha a parte de cargas e a de venda de passagens. Mas as cargas não tinham nada a ver com os passageiros. Meu pai tinha uns caminhões que faziam frete, até porque ele já transportava o que ele vendia do algodão, da mamona. Ele tinha um armazém de compra e venda em Itapagé. Era uma loja de tecidos e miudezas que ele montou depois que deixou o comércio do algodão. Vendia de tudo, tudo o que você imaginasse... Ele foi pioneiro nesse sentido também: fez o primeiro armarinho de Itapagé. Então, ele trazia encomendas, não é? Naquela época não existia telefone, nem fax, nada disso. Tudo era através de cartas. Eu tinha uma tia, que foi criada pela mãe, que tomava conta da agência, vendia as passagens, fazia de tudo. Os negócios eram todos com ela, a Dona Nenzinha. Ela era uma pessoa muito prestativa e bem relacionada em Itapagé. Então, as pessoas que precisavam fazer alguma compra em Fortaleza e não podiam viajar, pediam para ela ajudar. Às vezes, mandavam uma carta com um pedacinho de tecido, para a gente comprar um complemento. Era algo assim. A gente fazia as compras e enviava para Itapagé à tarde. Meu pai nunca cobrou por essas encomendas. As únicas mercadorias que eram pagas eram as que iam nos fretes dos caminhões. Aqui em Fortaleza, a empresa funcionava vizinha à primeira sede do Banco do Nordeste, que ficava na [rua] Senador Pompeu. Meu pai se hospedava numa pensão chamada Pensão do Norte, e ali mesmo funcionava o terminal dos ônibus. Pouco tempo depois, meus irmãos mais velhos vieram morar na pensão. Um deles trabalhava num armazém de tecidos, o Armazém Aurora, e outro numa sapataria, Casa Pontes. O terceiro filho, quando se casou, não tinha nem dezessete anos. Como ele não tinha emprego, meu botou para tomar conta da agência lá em Itapagé. Ficavam ele e a esposa. Muitas vezes, ele fazia o serviço de cobrador nos ônibus. O quarto filho também trabalhou muito de cobrador... Em 1953, meu pai alugou uma casa na Senador Pompeu, entre as [ruas] Duque de Caxias e Clarindo de Queiroz. Era uma casa muito grande, com uns doze quartos. Era imensa! Hoje é uma galeria que deve ter uns quarenta apartamentos de quitinetes. Então nós viemos morar aqui e foi na primeira sala dessa casa que ele botou a agência de Fortaleza. Anos depois, ele alugou o prédio da esquina da Senador Pompeu com a Duque de Caxias e fez a primeira “Agência Itapagé”, como o pessoal chamava. Só ele e minha tia Nenzinha trabalhavam na administração naquele tempo. Depois, quando ela se casou, eu fui vender passagem, junto com uma mocinha. Se chamava Ivoneide, eu acho... Fiquei muito tempo trabalhando na agência. Estudava de manhã, no colégio Farias Brito e à tarde ficava na agência. No começo, a agência era só da empresa Itapagé. Com o tempo, alguns mistos de Quixeramobim e Quixadá, do Artur Gonzaga de Sousa, começaram a usar a agência também. Meu pai nunca trabalhou com misto. Eles eram agregados. Mas, conversando com o meu irmão, descobri que ele chegou a comprar um caminhão misto para uma linha de Itapagé para Santa Quitéria. Mas, como tinha que ter firma individual para rodar com misto, logo ele passou para o meu irmão, Airton Rocha. O meu irmão rodou por um bom tempo no misto... Depois, se dedicou ao café e ao ramo da gasolina. Ele tinha caminhões para transportar a gasolina. Chegou a montar dois postos: um em Itapajé e outro em Irauçuba. Acabou prosperando... Chegou a ter 69 caminhões tanques! Isso acabou há pouco tempo.. Ele tinha só dois filhos homens, mas eles não se interessavam pela empresa. O Airton dizia que estava cansado e, para não perder nada, transformou tudo em imóveis. Foi vendendo os caminhões e adquirindo imóveis. Chegou a ter um prédio com trinta apartamentos bons. Ou seja, ele transformou tudo em imóveis exatamente para que os filhos não ficassem sem nada. Fez até um inventário em vida, dividindo tudo entre eles. Mas, voltando ao meu pai: é interessante que ele nunca tenha dirigido. Sempre teve motorista. A parte administrativa da empresa ficava com a minha tia Nenzinha e, às vezes conosco, os filhos. Mas meu pai estava sempre sabendo de tudo. Vinha quase todos os dias para Fortaleza acompanhando os carros. Ele teve vários motoristas. Um dos cobradores foi praticamente criado por ele e passou quase toda a vida com a gente. Logo que saiu da empresa, ele morreu. Chamava-se Manoel. Esse Manoel tinha uma irmã que virou nossa babá e passou mais de trinta anos morando na nossa casa. Lembro que os meus pais sempre acolhiam os motoristas e cobradores. Alguns dormiam na nossa casa ou faziam as refeições. Um motorista chamado Adail era como uma pessoa da família: sentava a mesa com a gente, tomava café, almoçava, lanchava... A minha mãe o tinha como filho... Era considerado de casa. Todos os trabalhadores eram registrados. A empresa era totalmente legal. Pagávamos até aquele seguro dos passageiros. Era obrigado a ter um quadro pendurado na parede a agência, para as pessoas saberem que estavam asseguradas em caso de acidente ou morte. Lembro que, na época, era a Sulamérica Seguros, que existe até hoje. Trabalhei lá. Depois da linha de Itapagé, meu pai começou a fazer também a linha Fortaleza – Irauçuba. Nesse tempo, a empresa já tinha crescido. Nem sei quantos carros ela chegou a ter... Mas me lembro do primeiro ônibus que meu pai comprou, depois da caminhonete. Foi um Bedford que ele tirou zero [quilômetro]. Ele comprava na Cimaipinto, que era uma concessionária da Chevrolet. A Cimaipinto fazia toda a manutenção dos carros. Por sinal, ficava bem próxima da agência. Nesse caminhão Bedford, meu pai mandou fazer uma carroceria da Companhia da Madeira, que também funcionava na Senador Pompeu. A pessoa comprava o caminhão e tirava a carroceria. Deixava só aquela parte da frente, a cabine, como se chamava. Depois punha carroceria de ônibus na parte de trás. Acho que na fotografia da para ver. O primeiro Bedford era assim. A frente do caminhão com a carroceria de ônibus atrás. No começo, todos os carros foram comprados caminhão e depois transformados em ônibus através da Companhia de Madeira. Eu lembro demais! Aquela carroceria toda feita de madeira, com a janelinha de madeira... Ficava como se fosse uma veneziana, fechando e abrindo com um ferrolho. O primeiro carro que meu pai comprou pronto veio de fora. Acho que foi de São Paulo. Era um Mercedes Benz com carroceria Ciferal. Não tinha nenhum como ele em Fortaleza. O primeiro foi aquele. Depois, todo o mundo começou a comprar também. Rodava com gasolina. Abastecia no posto do Carneiro & Gentil, o maior posto de gasolina de Fortaleza na época. Até hoje existe, mas mudou de dono. Hoje, o posto é do Horácio Bezerra, que era o gerente na época do meu pai. Ele fazia de tudo no posto. Depois, virou dono. Do Bedford, meu pai passou para o Ciferal, que era um carro intermediário e depois foi aumentando. Os outros já eram ônibus maiores, com carrocerias maiores e maior número de passageiros, eu me lembro. Acho que chegou a ter uns dez ônibus. Eles saíam todos os dias, tanto de Itapagé como de Irauçuba. E ficavam parados no quarteirão da rua Senador Pompeu, na frente da agência. Nós éramos conhecidíssimos na cidade por causa da agência. Todos nos chamavam de “Itapagé”! Ainda outro dia, eu estava numa missa de sétimo dia de uma pessoa que morava na frente da nossa casa. Era gente de uma loja que se chamava Samaria, ali no Centro. Pois bem: na missa, a irmã da pessoa que morreu... Não me lembro o nome agora... Eu estava conversando com o marido dela e ela disse: “- Filho! Olha quem está aqui! O Itapagé”. Nós éramos identificados como “Itapagé”. Pois é... Mas isso já faz muito tempo... Acabou em 1965. A empresa foi vendida em 1965. O preço da passagem quem dava era o DNER, mas acredito que não era cara, porque os ônibus vinham lotados todos os dias. Até porque, era o único transporte de Itapagé para cá. As pessoas vinham fazer compras, estudar... Sabe, noutro eu fui num lançamento de um livro onde o autor fazia uma menção ao meu pai, dizendo que ele era muito grato pelas vezes que viajou sem dinheiro. Os passageiros chegavam para meu pai: “- Seu Chico Rocha, nós não temos dinheiro”. E ele “- Não tem problema. Você vai. Quando puder, você paga”. Minha tia até queria que eu trouxesse esse livro para mostrar para você, mas eu achei que talvez não fosse interessar... Então ele ajudava muito a população. Nossa casa vivia cheia de gente. Ele hospedava os passageiros que vinham para o médico, para o dentista daqui. Hospedava em casa todos que precisassem ficar dois, três ou quatro dias na cidade. Muitas vezes, esse pessoal dormia no nosso quatro. Se fosse mulher, dormia com as minhas irmãs, se fosse homem, ficava com a gente. Isso sem cobrar nada. Não me lembro do primeiro acidente da empresa, só do segundo, aquele da batida com o caminhão. Nesse, eu já era maior e já entendia as coisas. Naquele dia, nós estávamos em casa. Éramos uma família grande: minha mãe teve vinte filhos e criou treze. Na hora do jantar, meu pai sentava na cabeceira da mesa, minha mãe do outro lado e nós, os filhos, nas laterais. Ele fazia questão de que todos estivessem juntos nas refeições. Então, naquele dia, no meio do jantar, ele botou as duas mãos na cabeça e bateu na mesa. Minha mãe: ”- O que houve, meu filho?” E ele: “-Desta vez eu me acabei. O carro de número tal – não me lembro o número - acabou de se acabar e desta vez foi para me arrasar”. Ele usou essa expressão. Não deram cinco minutos e o telefone tocou avisando do acidente. Ele tinha previsto! Disseram que tinham morrido vinte pessoas, inclusive dois dos meus irmãos, aquele que trabalhava na agência de Itapagé e outro que trabalhava de cobrador. Mas, graças a Deus, eles só se feriram. Um deles passou quase nove meses de perna levantada. Nessa época, a gente morava na General Sampaio, do lado da Faculdade de Direito. Nossa casa ficou parecendo um hospital, com meus dois irmãos na cama por muito tempo. O ônibus tinha batido de frente num caminhão carregado de madeira. Toda a carga entrou na carroceria, mas o carro não chegou a virar. O motorista do caminhão morreu. O motorista do ônibus era o Adail e não sofreu absolutamente nada. Ele ficou muito emocionado, chorava todos os dias, dizia que tinha matado não sei quantas pessoas... Mas continuou trabalhando. Depois de trinta dias exatamente, num dia de domingo para segunda, bateram na nossa porta às três horas da manhã. Meu quarto era o primeiro da casa. Ouvi meu pai falar: “- Abram lá, mas eu já sei o que foi: o Adail morreu!”. Naquele tempo, ninguém fechava a porta. Na minha casa tinha muito filho homem que saía de noite. Então a porta ficava encostada com uma cadeira. Quando eu fui abrir a porta, o rapaz que tinha vindo dar a notícia já tinha empurrado a porta, e tinha ouvido o que meu pai tinha dito. E disse que o Adail tinha morrido. Parece que comeu alguma coisa que fez mal. Passou mal e morreu. Logo que nós soubemos do acidente, fomos providenciar a remoção do pessoal. Uma parte já estava sendo removida, pelos carros que passavam na estrada e davam carona. Vinham em cima de caminhão, em cima de caminhonete. Em Fortaleza, de hospital, só tinha a Assistência Municipal, que hoje é o IJF, um pronto socorro particular e o SOS. Esses dois eram particulares. Meu pai levou pessoas para os hospitais particulares e para o IJF. Eu fiquei no IJF, ajudando a tirar as pessoas, dando assistência. Lembro que chegavam caminhões com um monte de gente em cima, todos deitados. Você pegava o que estava em cima, pensando que estava vivo, mas estava morto. O vivo estava embaixo dele... Acho que no final morreram umas dezesseis pessoas, não chegaram a vinte. Apesar daquele seguro de que eu falei, as pessoas não se conformaram. Meu pai ficou sustentando viúva. E não foi pela justiça, não. Foi só de boca. Meu pai ficou o resto da vida dando pensão para esse pessoal mais pobre, sem instrução. Foi um desfalque muito grande na empresa, mas mesmo assim ele continuou com os outros ônibus, porque o do acidente se perdeu. Continuou por um bom tempo ainda, nas duas linhas. Ele só vendeu a empresa em 1964 ou em 1965, não me lembro. Não: ele vendeu em 1966, porque eu me lembro que a gente já morava na General Sampaio. Foi por causa de um problema pessoal. Houve um problema com o meu irmão e ele estava sendo ameaçado de morte. A empresa passou a ser marcada por policiais, a agência policiada, cada um de nós andando na rua com um policial. Então, meu pai mandou meu irmão para o Rio [de Janeiro] e, para evitar o pior, ele preferiu vender a empresa. Vendeu tudo: linha, agência, ônibus e trabalhadores. Quem comprou foi o Chagas Ferreira, um comerciante de Itapagé. Na época, ele era solteiro. Logo em seguida ele se casou e veio morar em Fortaleza, continuando com a agência, mas já não era na nossa casa. Eu não sei quanto tempo o Chagas Bezerra passou com a empresa. Aí ele vendeu para o José Arteiro, que na época era da Rápido Crateús. A Rápido Crateús incorporou as linhas e desapareceu o nome da Empresa Itapagé. Tanto é que, até hoje, não tem mais nenhuma linha específica Fortaleza – Itapagé. São só os ônibus da Crateús que passam por lá. Depois que meu pai deixou a empresa, ele foi se dedicar à construção civil. Ele tinha uns terrenos onde hoje é a Imprensa Oficial. Na época, eram terrenos pantanosos, sem acesso. Um negócio totalmente abandonado, ninguém ia lá. Ele tinha também terrenos na Bezerra de Menezes, Tabapuá e Caucaia. Esse terreno da Bezerra de Menezes ele tinha comprado com uma casa em construção, que estava abandonada também, porque ficava numa espécie de lagoa. Daí, meu pai foi aterrar a lagoa, terminou a casa e construiu mais umas quinze casas. Fez até uma rua particular, na frente da [rua] Gustavo Sampaio e da [rua] Érico Mota. Daí ele começou. Chegou a construir umas sessenta casas na Parquelândia! Mas, mesmo quando meu pai investia em terrenos, a atividade dele era a empresa de ônibus. Foi só quando deixou a empresa que ele se dedicou à construção civil. Construía duas casas, depois mais duas e assim seguia. E foi para o mercado imobiliário. Ele morreu em 1984. Nunca tomou remédio, nunca tomou injeção, nunca foi ao médico, nunca reclamou de doença. Paralelo à construção civil, ele mantinha um depósito de material de construção, onde era o escritório, o ponto de apoio dele. Ele era muito ativo. Com quase oitenta anos, pegava uma saca de cimento e jogava em cima de um carro, se fosse preciso. Nos fins de semana ele ia para o depósito, não sei porquê. Acho que se deitava depois do almoço. Num dia desses, ele estava fechado lá e foi assaltado. Levaram tudo que ele tinha, até um relógio antigo que ele usava. Os ladrões deixaram meu pai amarrado, amordaçado e fecharam a porta. Ele foi se arrastando até chegar na porta, alguém viu [e socorreu]. Depois disso, meus irmãos reclamaram: “- Pai, o senhor não precisa disso, não. Vá para casa descansar. Se o senhor precisar de alguma coisa, a gente lhe dá”. E com isso, tiraram a atividade do homem e ele ficou parado. Então, ele adoeceu e com oito dias, morreu. Eu acho que foi de tédio. Morreu no hospital, bem rapidinho. Tinha 84 ou 85 anos.