No Caminhoda Reconstrução Antonio Oliveira Santos Confederação Nacional do Comércio NO CAMINHO DA RECONSTRUÇÃO Santos, Antonio Oliveira. No Caminho da Reconstrução / Antonio Oliveira Santos. Rio de Janeiro; CNC, 1999 p. 226 1. Comércio - Brasil. 2. Brasil - aspectos econômicos. 3. Brasil - aspectos políticos. 4. Brasil - Aspectos Sociais. I. Título. Antonio Oliveira Santos NO CAMINHO DA RECONSTRUÇÃO Confederação Nacional do Comércio, 1999 APRESENTAÇÃO Este é o quarto livro de uma seqüência que a Confederação Nacional do Comércio vem publicando desde 1993: “O Pensamento do Comércio” (1993), “Novos Rumos” (1995), “Comércio e Governo” (1998) e, agora, “No Caminho da Reconstrução” (1999). Procurou-se reunir, nesses trabalhos, uma coletânea dos artigos mais recentes publicados pela imprensa nacional, com os quais o Presidente da CNC vem divulgando as posições emanadas da Diretoria desta Entidade, sobre os temas de maior interesse nacional e, particularmente, do Comércio. No capítulo final desta publicação, encontram-se os discursos de saudação com que o signatário recebeu nesta Casa, diversos Ministros de Estado, e que traduzem o nosso objetivo de procurar manter um diálogo construtivo e permanente com o Governo. Os anos de 1998 e 1999 foram de grandes frustrações para a sociedade brasileira, que tem convivido, neste período, com um quadro de estagnação econômica e de elevado desemprego. As atividades empresariais vêm sofrendo, na atual conjuntura, os efeitos negativos das pesadíssimas taxas de juros, da insuportável carga tributária e do crescente ônus do sistema previdenciário, agravados pelos distúrbios causados nos mercados internacionais pelas crises financeiras do Sudeste Asiático e da Rússia. Por tudo isso, impõe-se a conjugação de todos os esforços, junto ao Governo e ao Congresso Nacional, com o sentido de promover as reformas de base pelas quais o País anseia, para encontrar o Caminho da Reconstrução e retomar o curso histórico do desenvolvimento econômico e social. Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1999 ANTONIO OLIVEIRA SANTOS Presidente da Confederação Nacional do Comércio SUMÁRIO SINDICALISMO XI Encontro de Sindicatos Patronais de Comércio e Serviço 11 III CONSICOMÉRCIO 19 IV Assembléia Geral do Sistema Confederativo Sindical do Comércio 25 Unicidade Sindical 35 XV Encontro de Sindicatos Patronais de Comércio e Serviços 37 União para a Legitimidade 43 REFORMAS DE BASE A Lógica da Reforma Tributária 49 Ditadura Fiscal 53 Brinquedo Proibido 57 A Hora é Agora 61 A Federação e a Reforma dos Impostos 65 A Reforma Tributária e a Ação Empresarial 71 Insensatez Tributária 75 A Falência da Previdência Social 79 Reforma Tributária: Proposta Perigosa 83 As Agruras da Previdência Social 87 ECONOMIA BRASILEIRA Juros: O Grande Vilão 93 Situação Econômica do País 97 1999: Um Ano Difícil 105 Mobilização Nacional 109 Conjuntura Econômica 113 Desafios da Política Econômica 121 Taxas de Juros Mortais 125 Indexação: Nunca Mais 129 O Comércio e a Crise 133 O Setor Público e a Crise Nacional 139 OUTROS TEMAS Cursos de Pós-Graduação 145 A Quebra do Sigilo Bancário 151 As Liberdades 155 A Marcha da Insensatez 159 Gestão Fiscal Responsável 163 DIÁLOGO COM O GOVERNO Ministro Paulo Paiva 169 Ministro Pedro Malan 175 Ministro Francisco Dornelles 183 Ministro Francisco Dornelles 189 Ministro José Botafogo Gonçalves 193 Secretário Executivo Pedro Parente 197 Presidente da República Fernando Henrique Cardoso 203 Ministro Celso Lafer 211 Ministro Francisco Dornelles 217 Ministro Pratini de Moraes 223 Capítulo 1 Sindicalismo ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ XI Encontro de Sindicatos Patronais de Comércio e Serviço III CONSICOMÉRCIO IV Assembléia Geral do Sist. Conf. Sindical do Comércio Unicidade Sindical XV Encontro de Sindicatos Patronais de Comércio e Serviços União para a Legitimidade XI ENCONTRO DE SINDICATOS PATRONAIS DE COMÉRCIO E SERVIÇO PRONUNCIAMENTO EM FORTALEZA - 17 DE MAIO DE 1995 O sistema Confederativo não é criação sindical. O sindicalismo o recebeu da organização do Estado. O Estado norte-americano, por exemplo, começou Confederação. Só depois de sofrida experiência passou a Federação. A autonomia dos Estados confederados diante da União ameaçava destruir o País como unidade. Para corrigir tal excesso foi implantada a Federação, onde são maiores os laços de vinculação hierárquica dos Estados à União. O sindicalismo forma-se de baixo para cima. A solidariedade natural entre os que desempenham a mesma atividade, ou atividades similares ou conexas, ensina e indica o caminho da união através da associação sindical ou sindicato. Como o Estado brasileiro é federativo, compreendendo três níveis de organização - Municípios, Estados e União - distribuídos em um território continental, o sindicalismo teria que se estruturar em condições de exercer suas funções junto aos três níveis dessa estrutura. 11 A federação, no Brasil, é intocável, protegida pela cláusula pétrea colocada no art. 60, § 4o, I, da Constituição Federal. O sindicalismo em país federativo teria que ser organizado como federação ou confederação. Uma vez que a federação, estruturada de cima para baixo, evidencia incompatibilidade com a formação do sindicalismo de baixo para cima, a confederação tornou-se fatalismo. Só o sindicato justapõe-se à atividade ou categoria: seus associados são as empresas. A federação coordena sindicatos, em regra no plano estadual. A confederação coordena federações no plano nacional. Localizada no vértice da pirâmide sindical, converge para a confederação a representação federal de todo o sistema. Para garantir harmonia, ordem e disciplina ao funcionamento do sistema, o relacionamento de seus três níveis segue a linha de sua organização: do sindicato à federação e desta à confederação, bem como, na linha descendente, da confederação à federação e desta ao sindicato. O rompimento desta saudável e inteligente regra só se justifica excepcionalmente. À confederação incumbe zelar pela incolumidade do sistema e para isso é indispensável que dê o exemplo, mantendo-se obediente à hierarquia. Nossa presença neste evento está autorizada pela excepcionalidade que acabamos de mencionar. Iniciaremos lembrando que a Carta de Princípios do SICOMÉRCIO prevê tal excepcionalidade em seu Princípio X. 12 O Encontro Nacional dos Sindicatos do Comércio, que bem caracteriza sua longevidade por ser o décimo primeiro, com suas características é único. Retrata o momento em que as lideranças de base do comércio sindicalizado reúnem-se para, através da autocrítica e da troca de experiências, enriquecer a solidariedade que é a alma da união. Ideal seria que todas as entidades sindicais funcionassem como sistema de vasos comunicantes, onde tudo que chegasse a um, atingisse a todos. A informática permite essa visão projetada em futuro não muito distante. Contudo, o sindicalismo, por natural escassez de recursos, ainda não tem condições para cumprir essa etapa de evolução. Este evento, que reúne representantes dos sindicatos de todos os Estados, permite um verdadeiro encontro das águas, com todos dando e todos recebendo. Nos Encontros, os sindicatos cuidam essencialmente de seus problemas ligados à representação da categoria. Buscam formas e fórmulas capazes de lhes permitir a otimização da prestação dos serviços que devem às empresas comerciais. Contudo, os sindicatos, ou melhor, todas as entidades integrantes do Sistema Confederativo Sindical do Comércio têm problemas sérios e complexos na área de suas estruturas e funcionamento como sistema. Embora o Sistema Confederativo Sindical no Brasil tenha longa história, só depois que a atual Constituição explicitou sua existência através do art. 8o, inciso IV, é que seus problemas passaram a preocupar crescentemente. Isso porque, antes do advento da liberdade concedida pelo mesmo diploma, quem cuidava do sindicalismo com mãos de ferro era o Estado, basicamente pelo Ministério do Trabalho. 13 O desafio trazido pela Constituição de 1988 no sentido de organizar o Sistema Confederativo Sindical do Comércio, com a liberdade que assegurou, teria que ser enfrentado pela CNC, até por imperativo da organização piramidal. Os sindicatos, prestigiados pelas federações, com os encontros de âmbito nacional e regionais, já vinham cuidando de sua função básica. A obra de estruturação do sistema teria que ser tarefa da CNC, tanto mais que dela partiu a idéia e a iniciativa para incluir no texto constitucional a cláusula que é o carro chefe do inciso IV, do art. 8o. Depois de frustrados os esforços para implantarmos o sistema confederativo com abrangência sobre todas as confederações de empregadores e de empregados, resolvemos partir para a estruturação de nossa área através do SICOMÉRCIO. O primeiro trabalho foi como teria que ser a disciplina normativa do SICOMÉRCIO. Custou-nos muito em concepção e recursos financeiros. Quando o SICOMÉRCIO, já normatizado ensaiava os primeiros passos, consideramos que se fazia necessário explicá-lo ao vivo a todos os que o integram. Realizamos o I CONSICOMÉRCIO, onde falou a CNC. Dois anos depois, apresentava-se o momento para realizar o II CONSICOMÉRCIO, cujo slogan, fiel à realidade, foi: “No I CONSICOMÉRCIO falou a CNC. No II falaram os sindicatos”. Agora, já programada para novembro deste ano, teremos o III CONSICOMÉRCIO, cuja vinheta corre na mesma linha lógica das duas anteriores: “No I CONSICOMÉRCIO falou a CNC e, no II, o sindicato. No III, será a vez do diálogo”. 14 Escolhemos o palco deste importante evento para fazer o primeiro anúncio oficial do III CONSICOMÉRCIO. A escolha não foi por acaso. O Sindicato é a base da pirâmide sindical e este XI ENCONTRO define-se como parceiro lógico-necessário do CONSICOMÉRCIO. Em termos de conclaves, os extremos se tocam e se completam. Cada um cuida de sua parte consciente de que as duas são essenciais ao todo. O temário inteligente e a participação significativa do sindicalismo autorizam esperar que este evento terá o êxito que é necessário e lhe desejamos. O sindicalismo, com trabalho sério e lúcido, poderá provar, à Nação, que está aplicando a liberdade para reconstruir-se não só livre do Estado, mas, sobretudo, em condições de caminhar pelas próprias pernas e viver pelas próprias forças. Precisamos evidenciar que não nos limitamos a “perder” a tradicional tutela do Estado decretada e, portanto, doada pela Constituição. É imperativo demonstrar, mais por ação do que por palavras, que nos assumimos, com capacidade para nos organizarmos, autonomia para decidirmos sobre os nossos destinos e compreensão hierárquica para nos auto-disciplinarmos. O SICOMÉRCIO é a auto-organização do sindicalismo do comércio em sistema confederativo. Para estruturá-lo e colocálo em funcionamento valemo-nos das vigas colocadas diretamente na Constituição, basicamente o registro, a unicidade, a contribuição compulsória e o próprio sistema definido como confederativo. 15 Todos sabemos que ainda não conseguimos pacificar o sistema mesmo depois de consagrarmos a Carta de Princípios, memorável documento elaborado e aprovado no II CONSICOMÉRCIO. A pacificação do SICOMÉRCIO terá que resultar, basicamente, de trabalho dos sindicatos. O SICOMÉRCIO já é uma realidade em termos de disciplina normativa. Contudo, ainda deixa muito a desejar no concreto da realidade. O grande empurrão que nos falta só pode vir da base, o sustentáculo da pirâmide. Se a anunciadíssima virada constitucional nos apanhar no contrapé, com a supressão da unicidade, da contribuição compulsória e da forma de organização confederativa, poderemos passar de tudo a nada se não tivermos organização substitutiva capaz de resistir a tal dilúvio. Semelhante organização substitutiva só poderá ser a nossa, feita, aprovada e aplicada por nós. Vemos o SICOMÉRCIO como um grande, forte e prestigioso clube, tão prestigioso quanto tiver de autoridade para estabelecer e impor suas próprias regras. Para bem ilustrar o que estamos afirmando, a título de exemplo,vamos nos referir ao Country Club do Rio de Janeiro, uma instituição forte, um clube poderoso e de enorme prestígio. Um grande Clube que estabeleceu suas normas. Quem quiser nele ser admitido precisa atendê-las. Quem, nele admitido, quiser permanecer, terá que se submeter a suas regras de comportamento. 16 A associação sindical, proclamam os estudiosos, é a mais natural e espontânea das associações. Sua razão de ser é a defesa dos direitos e interesses dos que exercem a mesma atividade, ou atividades afins. Ainda não apareceu no mundo um substitutivo ao sindicato. Ele é uma fatalidade e já que é fatalidade, inteligente será viabilizá-lo. Sabemos que essa viabilização é difícil. Que o diga a soma de problemas que atormenta o SICOMÉRCIO. A união em termos permanentes pressupõe compreensão para ceder, tolerância para aceitar e renúncia para abrir mão do “meu” em favor do “nosso”. Temos não só esperanças, mas razões para acreditar que construiremos rápido o que o SICOMÉRCIO necessita para ser o que deve e pode. Confiamos muito, inclusive porque o trabalho será mais dos sindicatos do que das entidades de nível superior. Com o XI Encontro vocês atestam competência e vontade política. Esses são os ingredientes básicos para a difícil obra de acabamento do SICOMÉRCIO. Apesar da tutela do Estado, o sindicalismo que recebemos de nossos antecessores apresentava-se organizado e em razoável funcionamento. Tanto é verdade que ele, basicamente, está aqui, utilizando a liberdade para sua reestruturação. Precisamos entregá-lo a nossos sucessores não só reestruturado, mas até mesmo reconstruído. Para levar avante essa tarefa, que é essencialmente dos sindicatos, a CNC veio aqui hoje para lhes dizer que estaremos todos juntos. 17 III CONSICOMÉRCIO PRONUNCIAMENTO NO RIO DE JANEIRO - 04 DE DEZEMBRO DE 1995 O acontecimento que, há quatro anos parecia ousadia em excesso, repete-se hoje já com ares de normalidade. Essa é a sensação que nos domina no instante em que proclamamos abertos os trabalhos da terceira Convenção Nacional do Sistema Confederativo da Representação Sindical do Comércio. Enquanto alguns segmentos do sindicalismo, tanto patronais, quanto dos trabalhadores, continuam prisioneiros da perplexidade, o comércio, fiel a suas tradições bandeirantes, ingressa na fase das obras de acabamento da organização. O tão sonhado sindicalismo cumpre a derradeira e decisiva etapa de enfrentamento dos temas polêmicos e controvertidos, com tudo para institucionalizar-se. Nessa longa caminhada, as dificuldades criadas pela incompreensão têm sido maiores e mais numerosas do que as resultantes da natureza complexa da matéria. Apesar de tudo e não obstante as resistências que sempre se multiplicam, o SICOMÉRCIO desponta vitorioso, pronto para transformar-se em instituição. 19 Na semana que hoje se inicia pretendemos cumprir ambicioso programa com a obtenção de bons resultados que irão traduzir o esforço, a experiência, dedicação e a inteligência, dos caros companheiros que aqui vierem. Logrando vitória, sairemos do presente com a certeza de termos construído obra permanente para o futuro. Para bem realizar semelhante feito não basta juntar forças e somar esforços. É necessário muito mais. Precisamos ter fé. Em quatro anos de dedicação e trabalho fizemos bastante: a estrutura normativa está pronta e o sistema funciona. Como o sindicalismo, sem a tutela do estado, está entregue a si mesmo, o que já foi feito representa muito e o normal seria que estivéssemos em meio a boa colheita, comemorando a desejada liberdade sindical. A realidade, entretanto, é diversa. Estamos na estrada certa porque o único tratamento adequado à liberdade é seu exercício através de organização que permita sua concreta aplicação o mais livre possível. A liberdade sem ordem e disciplina resulta em anarquia. Encontramos dificuldades, como é natural. Isso porque ainda falta em alguns setores a vontade para tocarmos o SICOMÉRCIO como estrutura solidária, onde todos devem pensar mais nela do que em si mesmo. A relação de cada entidade sindical com o SICOMÉRCIO precisa ser idêntica à relação da parte com o todo. 20 Cada parte só alcança o bem proporcionado pelo todo quando coloca o todo acima de si mesma. No instante em que cada entidade sindical isoladamente se considerar maior e melhor do que o SICOMÉRCIO, capaz de viver toda plenitude sindical independentemente dele, o sistema tende à falência e a falência do sistema decreta a falência dos que o integram. Há que ter humildade para que todos, entidades sindicais grandes e pequenas, ricas e pobres, frágeis e poderosas, tenham a certeza de que unidos seremos uma força autêntica e em condição de bem cumprir com nossos objetivos. Só os medíocres temem o confronto com a realidade. O sindicalismo autêntico, pela natureza de sua função, não pode ser medíocre. Logo, só podemos ter razões de euforia para iniciar esta CONSICOMÉRCIO III. O temário centrado sobre matérias polêmicas promete discussões acirradas e por vezes até incendiárias. Precisamos considerá-las bem vindas: só o incêndio garante o calor que desperta todas as energias, oferece a luz que permite ver, e o fogo necessário à depuração que o sindicalismo necessita. Simplificando e em síntese didática, diríamos: Primeiro - A lei, dificilmente socorrerá o sindicalismo, oferecendo muletas para construir os caminhos onde poderá exercer a liberdade; 21 Segundo - Abandonado pela lei e entregue a si mesmo pela liberdade sindical, só o próprio sindicalismo, auto regulando-se, poderá compor a organização que permitirá gerir-se a si mesmo; E terceiro - Não existe outra alternativa capaz de evitar que o sindicalismo, acabe enterrando-se na cova rasa da incompetência. Meus caros amigos Desde a primeira hora logo após a constituição de 88 acreditei na construção de uma organização forte e sadia para o sindicalismo do comércio. Meu entusiasmo na organização da CONSICOMÉRCIO III, repete o entusiasmo que começou com a CONSICOMÉRCIO I e cresceu com a CONSICOMÉRCIO II. Creio no sindicalismo senhor de si mesmo, auto-regulandose e auto-gerindo-se por sua organização, à base de suas próprias forças. Acredito no SICOMÉRCIO como centro dessa organização que, por ser confederativa, ajusta-se à estrutura da federação político-governamental brasileira e bem atende às necessidades de nosso país continente com acentuadas disparidades regionais. Creio na nova cultura sindical capaz de perceber que superada a fase de tutela da autoridade pública, são chegados os tempos de estruturar o sindicalismo a imagem e semelhança de nossos interesses econômicos e de nossas preocupações sociais, onde se torna indispensável alargar os caminhos da paz social na linha de entendimento com os trabalhadores. 22 Acredito no bom sindicalismo, no sindicalismo com muita filosofia e nenhuma ideologia, no sindicalismo que confia no diálogo, professa a compreensão e faz o culto da inteligência. Creio na ousadia lúcida e na lucidez ousada do homem do comércio para levar a bom termo a gigantesca tarefa de construção do novo mundo sindical, livre, autônomo, responsável e dono de seu destino. É por isso que aqui estou e permanecerei, trabalhando junto com todos para conseguirmos chegar ao termo desta III Convenção com o SICOMÉRCIO institucionalizado, apto a realizar a missão que o sindicalismo do comércio espera, necessita e alcançará. 23 IV ASSEMBLÉIA GERAL DO SISTEMA CONFEDERATIVO SINDICAL DO COMÉRCIO PRONUNCIAMENTO NO RIO DE JANEIRO - 13 DE OUTUBRO DE 1997 Pela quarta vez nos encontramos os que representamos o sindicalismo do comércio patronal brasileiro. Nas três reuniões anteriores nos reunimos em convenções, designadas I, II e III CONSICOMÉRCIO. Agora estamos constituindo a Assembléia Geral do SICOMÉRCIO. Nas CONSICOMÉRCIO I, II e III estruturamos o SISTEMA CONFEDERATIVO DA REPRESENTAÇÃO SINDICAL DO COMÉRCIO, mais conhecido pela sigla SICOMÉRCIO. Os momentos maiores dessas reuniões foram, na II CONSICOMÉRCIO, a aprovação da Carta de Princípios e na III, além da reformulação e compactação da Carta de Princípios, a aprovação do Estatuto do SICOMÉRCIO. 25 Completado esse importante ciclo de construção normativa, o SICOMÉRCIO institucionalizou-se. Seu estatuto define os objetivos, estabelece os órgãos dirigentes e disciplina o funcionamento do SICOMÉRCIO. Esta AGS realiza-se sob regência estatutária. Com o SICOMÉRCIO ambicionamos tornar o sindicalismo do comércio senhor de si mesmo, realizando a liberdade assegurada pela Constituição. A liberdade como colocação de princípio é apenas promessa. O direito só caminha por força e efeito do exercício. O SICOMÉRCIO, graças à construção normativa, apresentase em condições de concretizar, pelo efetivo exercício, a liberdade que o art. 8o, I, da Carta Magna nos outorga. O momento é de graça, representando paga pelo muito que fizemos em busca do ideal de um sindicalismo regido por normas produzidas pela auto-regulação e que opera pelo mecanismo da autogestão. Os homens não são iguais. É natural que cada um isoladamente alimente ideais, tenha sonhos e procure realizá-los segundo seus interesses e conveniências. Contudo, a figura do escoteiro, do Robson Cruzoé, cada dia é mais lenda voando pelas asas da ficção. O homem em todos os setores da vida é cada vez mais a parcela de uma soma, a parte menor de um todo progressivamente maior. 26 Até 1988 conhecíamos e praticávamos o sindicalismo feito pela lei e amoldado pela vontade das autoridades governamentais. Nosso ideal, contudo, sempre foi um sindicalismo feito pelo sindicalismo e dirigido por sindicalistas escolhidos pelo sindicalismo. Ansiávamos pela liberdade que nos chegou pela definição expressa no art. 8o, I, da Constituição. Não a ganhamos como oferenda do Estado. O texto constitucional resultou de muita reivindicação, de várias sugestões e de enorme trabalho. A liberdade definida na Lei Suprema é conquista do sindicalismo. Tê-la como norma ou princípio representa apenas posse teórica sem efeito prático. Para conquistar o exercício do direito à liberdade vimos trabalhando há quase uma década. Montamos organização destinada a esse objetivo. Ainda não conseguimos tudo que é necessário. Para que o sindicalismo seja senhor de si mesmo é indispensável efetivo exercício da auto-regulação e, segundo as regras desta, da autogestão. A auto-regulação só é completa quando nos é reconhecida competência para estabelecer nossa própria organização, que pressupõe fins e meios, estes para realizar aqueles. 27 A função sindical é das mais importantes da sociedade organizada. Nosso fim é exercê-la e para isso nossa organização, que é o SICOMÉRCIO, está normativamente pronta e em funcionamento. Contudo, bastante ainda nos falta para atingirmos o ideal necessário. O registro das entidades sindicais deve ser feito exclusivamente no SICOMÉRCIO e pelo SICOMÉRCIO. Já o temos disciplinado dentro de casa. Contudo, por força e efeito de decisões judiciais, enfrentamos o problema do registro paralelo no Ministério do Trabalho. Como as sentenças do Poder Judiciário, enquanto não reformadas, devem ser cumpridas, temos desenvolvido esforços para uma convivência pacífica e disciplinada com o registro no Ministério do Trabalho. Tal convivência não significa capitulação. Continuamos lutando para que o sindicalismo tenha o direito de organizar e efetivar o registro das entidades que o compõem, sem qualquer concorrência do Ministério do Trabalho. Uma das dificuldades maiores que enfrentamos diz respeito à cobrança das contribuições previstas no art. 8o, inciso IV, da Constituição. Sempre entendemos que o art. 8o da Carta Magna é autoaplicável. Durante tempo razoável a tese vingou apesar das variações jurisprudenciais. 28 Entretanto, nos tempos mais recentes formou-se jurisprudência uniforme adversa, com duas vertentes. Uma afirma que o sindicato pode fixar e arrecadar a contribuição confederativa unicamente de seus associados. Como a própria Constituição, no inciso III do mesmo art. 8o, estipula que ao sindicato “cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria”, aquela diretriz jurisprudencial anulou a contribuição confederativa, pois, com o menos não se pode fazer o mais. A outra vertente é mais radical pois considera que o art. 8o não é auto-aplicável, necessitando de lei ordinária para garantirlhe execução. Os que combatem o sindicalismo e os que dele nada entendem afirmam que as entidades sindicais que se “virem” para conseguir, da categoria, contribuições espontâneas suficientes. A dificuldade maior reside nesse ponto, dado que o exercício da função sindical exige recursos consideráveis. A alternativa imediata no momento deve ser a reabilitação e a reativação da contribuição sindical, antigamente designada imposto sindical. O emprego de dois substantivos acoplados e conjugados resulta da necessidade de evidenciar a dupla realidade a enfrentar. Com tantas ameaças de extinção, até o próprio sindicalismo foi colocando à margem a contribuição sindical, tanto mais que a grande esperança de auto-suficiência financeira concentrava-se na contribuição confederativa. Assim sendo, antes de reativar a cobrança, é necessário reabilitar a contribuição sindical. Temos razões, especialmente estatísticas, para acreditar que teremos êxito. 29 Na perspectiva do futuro, duas alternativas se apresentam. A primeira refere-se à contribuição confederativa. Precisamos lutar para retirá-la do atoleiro jurisprudencial que a imobiliza. A segunda seria a opção pela contribuição negocial, cuja primeira imagem está definida no Projeto de lei no 3337/97, de autoria do Governo. A vantagem da contribuição confederativa é seu assentamento constitucional. Desembaraçada dos problemas que a aprisionam poderá ser ideal. A contribuição negocial teria o mérito de apagar a idéia de compulsoriedade sem, contudo, afastá-la integralmente. Nela domina a aparência de contribuição contrapartida ao serviço prestado pelo sindicato via negociação coletiva. A história do SICOMÉRCIO evidencia que para compô-lo muita energia tem sido consumida. Isso prova que acreditamos ser a organização capaz de realizar a função sindical. Só a crença e a fé nos fariam batalhar tanto para estruturálo e colocá-lo em operação. Contudo, precisamos de um momento de reflexão para, através da autocrítica, apurarmos se estamos fazendo o que precisamos, podemos e devemos. A população sindical tem crescido muito, exatamente numa época em que a receita sindical registra queda. Como é natural, nossa preocupação tem sido grande com a pirataria sindical. 30 É confortador o êxito que temos alcançado na luta contra as entidades piratas. Isso é bom mas não é tudo, nem é o principal. Precisamos olhar para dentro com o objetivo de fazer o nosso censo, não só o quantitativo, mas, em especial, o qualitativo. Será que todos estamos em condições de bem desempenhar a função sindical, que consiste, em especial, no exercício da defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria? Estamos saindo do período caracterizado pelos dissídios e greves para a era da negociação. A Constituição sinaliza essa evolução ao declarar “obrigatória a participação do sindicato nas negociações coletivas do trabalho”. A Constituição confere mais um privilégio ao sindicato. Apesar da concessão ser importante, ela só terá significado se o sindicato a desempenhar competente e satisfatoriamente. Direito não exercido representa dever não cumprido. Ao invés de glorificar, compromete e desmoraliza. Por várias e variadas razões a organização sindical ensejou e até estimulou a multiplicidade que, em algumas áreas, está atingindo pulverização. Pensamos muito na representação especializada pela especificidade e nos esquecemos de que ela pode levar ao enfraquecimento. Aí se apresenta terrível paradoxo. 31 A força da associação sindical reside na união, atento ao axioma de que a união faz a força. Apesar da lógica desse ponto de partida, a certa altura da evolução o sindicalismo, correndo atrás da especificidade, começou a se multiplicar rumo à pulverização. Aconteceu, simultaneamente, um ganho e uma perda. Ganho para a representação concentrada e especializada e perda para a força da entidade sindical. Esse ganha-perde, mais perde do que ganha, vem se acentuando, com grave perigo para a vida do sindicalismo. O temor a esse problema se agrava quando nos lembramos que a multiplicação nos enfraquece também no setor da receita, sem maior reflexo nas despesas. Sob o ângulo desse enfoque global podemos afirmar que a estrutura sindical perde racionalidade. São chegados os tempos de acordarmos para essa realidade negativa. Precisamos pensar no redesenho do sistema sindical, com inversão da preferência que deve também privilegiar a força ao invés de permanecer monopólio da especificidade. Baseados na realidade praticada, afigura-se-nos aconselhável redimensionar as entidades sindicais. Mesmo mantendo a preferência pelo sindicato específico, o fator tamanho ou força deve ser repensado, repesado e redefinido de modo a lhe garantir posição ao menos de relevância mais expressiva. 32 Para esse fim é indispensável amplo exercício de autocrítica sincera, aberta, transparente, que possibilite ao sistema uma competente e correta reavaliação. Não vamos nos enganar. Só a verdade permite a reconstrução que a reengenharia pode nos trazer. Não basta atirar para fora com pontaria sobre as entidades piratas. Mais importante será confessar nossos erros e reconhecer nossas fraquezas, com o objetivo de sanar aqueles e substituir essas. Caso nos faltem lucidez e coragem para programar e cumprir a compactação através de fusões e adições melhor será nos prepararmos para ingressar no plano inclinado da crise. O mundo caminha para a globalização. A globalização exige mais da competência. Nela exibe atualidade o princípio “quem não tem competência não se estabelece”. Pelo que já fizemos, o sindicalismo do comércio tomou a vanguarda da evolução rumo ao futuro. Este localiza-se muito em nossas mãos. Com isso, nossa responsabilidade espraiou-se pelo universo sindical. Em termos de SICOMÉRCIO, o mais difícil está pronto. A palavra de ordem agora é a compactação. Precisamos ser mais com menos de modo a melhorar nosso índice de viabilidade. 33 E se esse problema é sério a nível de sindicato que se justapõe à categoria nele organizada, que se dizer no patamar das federações, onde o piso é o grupo, por origem e formação uma reunião de categorias idênticas, similares ou conexas. Para constituirmos sindicalismo forte, representativo, respeitável e respeitado é indispensável vencer os desafios que enumeramos, desde o registro, passando pela receita e desaguando na racionalização da estrutura, onde a compactação é a peça de resistência. Já provamos ter condições para enfrentar e superar dificuldades. O muito que avançamos evidencia a quantidade e a qualidade do fôlego que se constitui atributo da fé e da determinação do sindicalismo do comércio. É essa fé e essa determinação que desejo homenagear na sessão que marca a abertura da IV Assembléia Geral do Sistema Confederativo da Representação Sindical do Comércio. 34 UNICIDADE SINDICAL ENTREVISTA AO JORNAL DO COMMERCIO - 30 DE NOVEMBRO DE 1998 JC: O Governo está propondo a pluralidade sindical, que permitiria a criação de sindicatos até por empresa. O que é melhor para o Brasil: a unicidade ou a pluralidade sindical? AOS: Sem dúvida alguma a unicidade. Se nós tivermos no Brasil tantos sindicatos quanto a ambição pessoal dos derrotados em eleições sindicais limpas puderem produzir - o que seria uma conseqüência do regime de pluralidade - teremos o caos, com milhares de falsos líderes sindicais, a maior parte representantes de uma minúscula facção ou até de si mesmos. A pluralidade sindical só interessa àqueles que desejam fracionar a representatividade das categorias econômicas, sejam elas de empregadores ou empregados. JC: Ainda existem sindicatos apenas de fachada? AOS: Claro que existem e nós da CNC já expurgamos muitos deles. Às vezes aparecem até sindicatos piratas, compostos por três ou quatro escroques, que procuram fraudar pequenos empresários mais desavisados. Mas a maioria é formada por líderes sérios, que buscam resultados e fazem o chamado “ sindicalismo civilizado” - um sindicalismo que nasceu para lutar pela paz social, buscando resolver os conflitos entre o capital e o trabalho. Esse sindicalismo é muito sério e tem mais compromisso com o bem 35 do país do que com seu próprio bem. O Sistema possui uma grande capacidade de negociar e transigir, e sua maior recompensa está na conquista do entendimento entre os que trabalham como empregadores e os que trabalham como empregados. JC: E o chamado “Sistema S”, como vai? AOS: Nós do comércio temos o SESC e o SENAC, duas das maiores entidades do mundo dedicadas ao desenvolvimento social. O SENAC vai concluir este ano o treinamento de cerca de 2,1 milhões de pessoas, em mais de dois mil cursos de formação profissional para o comércio de bens e serviços. E o SESC deverá fazer perto de 5 milhões de atendimentos este ano, nos campos da Saúde, Educação, Cultura e Lazer, beneficiando basicamente os comerciários de baixa renda. É um trabalho extremamente eficaz, realizado, não com o dinheiro público, mas apenas com as contribuições dos comerciantes e prestadores de serviços do setor privado. O SESC e o SENAC são modelos de eficiência sob todos os aspectos. 36 XV ENCONTRO DE SINDICATOS PATRONAIS DE COMÉRCIO E SERVIÇOS PRONUNCIAMENTO EM FOZ DE IGUAÇU - 19 DE MAIO DE 1999 É uma alegria estar, mais uma vez, com representantes dos sindicatos de todo o Brasil. Em toda associação a conquista da intimidade é muito importante. O comportamento cerimonioso sempre dificulta a espontaneidade na comunicação. É o bate-papo extra-pauta que nos abre tanto quanto necessário a passar do relacionamento formal ao estágio da informalidade, ante-sala da amizade. É também a partir da informalidade coloquial (ou aconchegante) que os grandes temas são abordados com mais simplicidade e objetividade, tornando-se fonte das idéias aptas à realização dos ideais que fazem e alimentam o associativismo sindical. Na associação sindical está presente contradição que, se não for esclarecida, tem tudo para ser considerada inadmissível. 37 A própria legitimidade do sindicato resulta do fato de cada um que a ele se associa estar movido, ao mesmo tempo, pelo altruísmo e pelo egoísmo. Pelo egoísmo porque, integrante da categoria, busca, individualmente, a proteção que lhe deve o sindicato. Contudo, simultaneamente, objetiva a proteção de todos os que se somam para fazer forte, viável e respeitável a defesa de todos e de cada um. Na expressão “defesa de todos e de cada um” estampa-se a verdade completa, convincente e decisiva que explica a singular aliança entre egoísmo e altruísmo. Somando para formar o coletivo, o individual, longe de desaparecer, também ganha tanto quanto aquele. E é nessa aliança que reside o segredo da longevidade do associativismo sindical. Os que exercem a mesma atividade, ou atividades afins por similitude ou conexão de interesses, se pretendessem defendé-la individualmente, sobretudo quando vitimada por esse Golias chamado Estado, a reação não passaria de gota no oceano. Diríamos que a essência do sindicalismo está em sua vinculação à categoria. Sem esta, conceituada pela CLT a partir de sua melhor concepção sociológica, seríamos apenas mais uma das centenas de associações que os homens organizam pelos mais variados motivos. O conceito de categoria tem, como arma eficientíssima, a homogeneidade que, na matemática, permite a beleza da soma. 38 Na soma estão todas as parcelas, cada uma com sua individualidade latente enquanto soma indispensável à luta por seus direitos e interesses coletivos, mas que, tão logo alcançado o resultado, passa à efetividade, com plena capacidade para usufruir, individualmente, os respectivos benefícios. Na Assembléia Nacional Constituinte a CNC lutou muito para preservar e, tanto quanto possível, reforçar as vigas mestras de sustentação do sindicalismo: unicidade, categoria, representação, base territorial e contribuição compulsória. Para preservar tais conquistas temos trabalhado nas frentes internas e lutado no front externo. Internamente, o sindicalismo tem muito que organizar e, sobretudo, reorganizar. Já fizemos bastante e ainda falta muito. A maior obra de reengenharia do sindicalismo brasileiro é, indiscutivelmente, o SICOMÉRCIO. Por enquanto somente o comércio faturou, racional e amplamente, a liberdade constitucionalmente assegurada. A partir da previsão que a CNC plantou no art. 8o, inciso IV, da Constituição, realizamos a obra máxima da história do sindicalismo. Para efetivar semelhante revolução foi necessário reativar a concepção originária do sindicalismo como pirâmide, não apenas figura geométrica, mas, como estrutura cuja essência, inclusive legitimadora, está na base, onde a categoria, organizando-se, converte-se no sindicato. 39 Por isso é que a Assembléia Geral do SICOMÉRCIO, que reúne todo o sindicalismo, é formada, em pé de igualdade, por sindicatos, federações e confederação. Nossas AGS lembram o povo reunido na Praça Pública de Atenas praticando a mais autêntica das democracias. Até a Constituição de 1988 o sindicalismo dependia do Estado. Afastado este, a liberdade concedida não produziu resultados espontaneamente. Todos ficamos paralisados pela perplexidade. A liberdade, por si mesma, significa muito, mas realiza pouco. O que a realiza é seu exercício. Nosso sindicalismo dependente do Estado nunca pode dizer ao que veio. O Estado, ao mesmo tempo que sustentava, limitava, e acabava sempre limitando mais do que sustentando. Dentro desse quadro, seria difícil conceber o sindicalismo ocupando o latifúndio que o SICOMÉRCIO oferece. Contudo, no caso do sindicalismo brasileiro, o que melhor espelha a potencialidade não é a realidade vivida, mas a perspectiva traçada a partir do pleno exercício da liberdade. Apesar das imensas dificuldades que vem inviabilizando a vida do sindicato livre, desde a guerra movida à contribuição sindical até os ataques repetidos com o propósito de enfraquecer e até destruir a unicidade, o sindicalismo do comércio registra avanço expressivo. 40 Um exemplo diz tudo. Há aproximadamente trinta anos a CNC mobilizou-se, com apoio inicial do Governo, para realizar o ideal da federação única por Estado. A força de um regime de força só valeu como primeiro impulso. Em verdade nossa proposta concreta morreu proposição. A partir da democracia praticada na AGS do SICOMÉRCIO conseguimos, este ano, realizar esse milagre através da compactação. O ideal, que com a derrota sofrida naquele primeiro grande impulso para se realizar, quase foi enterrado pela avalanche da adversidade, renasceu e, com comovente rapidez, veio a se constituir uma das maiores, senão a maior conquista do SICOMÉRCIO. Este 15 o Encontro Nacional de Sindicatos Patronais do Comércio constitui mais um eloqüente atestado da exuberância do associativismo do comércio. A história do comércio confunde-se com a história do desbravamento Em cada novo Vilarejo, antes da Igreja, chega o comerciante. No sindicalismo brasileiro mantemos fidelidade a essa honrosa tradição. Enquanto permanece imóvel em outras áreas, a liberdade sindical, no âmbito do comércio, é convertida em matéria-prima para significativos avanços. 41 Abrimos picadas e já estamos construindo estradas. O exemplo não tardará a sensibilizar os demais planos confederativos. Por enquanto, é animador o balanço do resultado na área do associativismo sindical do comércio. Atesta-o esse concorrido 15o Encontro que, ainda este ano, em novembro, será coadjuvado pela 5a Assembléia Geral do SICOMÉRCIO. Os dois eventos são módulos da mesma construção. Aos que organizaram este evento e aos que o prestigiam, com suas presença e atuação, nossas sinceras e efusivas congratulações. Afinal de contas, o sindicalismo merece. 42 UNIÃO PARA A LEGITIMIDADE ENTREVISTA - MENSÁRIO SISTEMA, DA FECOMÉRCIO-RJ - JULHO DE 1999 SISTEMA: Qual a importância da unificação das federações representativas do empresariado dos setores de comércio e serviços determinada pela CNC no ano passado? SANTOS: A visão moderna da organização sindical evidencia que: a) em cada município devem existir tantos sindicatos quanto o permita o financiamento assegurado pelas respectivas categorias; b) em cada estado inexiste fundamento razoável para sustentar a existência de mais de uma federação; c) a confederação, no vértice da pirâmide social e definindo e delimitando o plano, não pode deixar de ser, como sempre foi, única. No âmbito dos sindicatos, o desejo dos integrantes das categorias em ter seu sindicato específico conduziu à multiplicação, que é boa na medida em que os sindicatos multiplicados têm recursos para bem exercer a representação da respectiva categoria. E é má quando produz sindicatos inconsistentes, sem condições para a defesa da categoria. 43 O SICOMÉRCIO, a maior revolução da história do sindicalismo, sem precedente no Brasil ou no exterior, integrado pelos três níveis de entidades sindicais, representa a mais avançada organização alcançada pelo associativismo. Entendendo que o fundamental é a união compromissada de todos, o SICOMÉRCIO a realiza ordeira, eficiente e disciplinadamente. Como as categorias só se apresentam na base, compondo os sindicatos que a representam, a união se processa pela solidariedade natural e espontânea entre os que desempenham atividades similares ou conexas. A defesa de interesses comuns constitui o substrato da união. O número de sindicatos deve ser proporcional ao número de categorias. Proporcional e não exatamente igual. Isso porque as categorias que não dispõem de meios para sindicalizar-se consistentemente devem unir-se às categorias similares ou conexas para alcançar sindicalização eficiente. Já em segundo grau, correspondente às federações que são organizadas pelos sindicatos, a multiplicidade é erro histórico que o SICOMÉRCIO está corrigindo por dois processos: primeiro, eliminando as federações de categoria e, segundo, compactando as federações estaduais de grupo. O estado do Rio de Janeiro, a segunda unidade federativa e a primeira caixa de ressonância cultural do país, carregava o pesado ônus de ter quatro federações que, somadas, não tinham força de uma. A divisão pulverizou o prestígio e minou a autoridade. Apesar de difícil como se esperava, a compactação das federações do estado do Rio aconteceu e já se manifesta através de realizações de porte. O princípio de que a união faz a força, até há pouco desprezado, mostra sua cara e ostenta seu vigor. SISTEMA: No Rio de Janeiro, em particular, o senhor acredita que a criação da Fecomércio, pode contribuir para o fortalecimento da representação? 44 SANTOS: Em todos os estados onde se tornou realidade a federação única restaura a força da representação e lhe garante a indispensável legitimidade. O comércio, embora compreenda mais de uma centena de categorias organizadas em seis grupos, é, sob o ângulo do interesse econômico, unidade monolítica. Aliás, à luz da ótica política e de horizonte filosófico, o empresamento econômico, cobrindo agricultura, comércio, indústria, transportes e atividades creditícias, totaliza gigantesca unidade localizada no ponto de convergência das linhas de seus interesses. A boa lógica e os resultados já colhidos evidenciam que no Rio de Janeiro, onde o esfacelamento sindical era o maior e com raízes mais profundas, os frutos colhidos são mais expressivos. SISTEMA: A Fecomércio-RJ representa 63 sindicatos em todo o estado do Rio. O senhor acredita que essa abrangência pode contribuir para a interiorização dos investimentos e de atividades para o desenvolvimento das empresas de comércio e serviços? Qual a importância dessa interiorização em um estado que tem vocação na área de serviços? SANTOS: Os mesmos 63 sindicatos que antes estavam filiados a quatro federações de menores portes e expressões não conseguiam totalizar a força que hoje está concentrada em uma grande federação. Esta, no centro do sistema estadual, tem mais força reivindicatória perante os órgãos dos poderes estaduais. Em conseqüência, pode obter e canalizar conquistas endereçadas ao interior. SISTEMA: Além da Fecomércio-RJ, do SENAC e do SESC, o Sistema Fecomércio Rio de Janeiro inclui o Instituto Fecomércio de Pesquisa e Desenvolvimento, que desenvolve estudos sobre o desempenho dos diversos segmentos de negócios. O levantamento desses indicadores pode contribuir para melhorar o desempenho das empresas? 45 SANTOS: O sonho da CNC acabou se realizando por algumas federações. O sindicalismo do comércio, em nível de entidades de segundo grau, tem o dever de ser fonte prestigiosa e prestigiada de indicadores correspondentes ao desempenho do comércio. O pioneirismo é da Fecomércio-SP, e a FecomomércioDF já está ocupando seu lugar na capital da República. Outras federações estaduais estão se alinhando. A Fecomércio-RJ supre lacuna muito lamentada. Por tudo que o estado representa, teria que desenvolver, como já vem fazendo, levantamentos para apuração e divulgação. O tipo de estrutura montada para esse trabalho é secundário. Importante é que o órgão responsável pelos levantamentos e pela preparação e divulgação dos indicadores seja, como está sendo a Fecomércio-RJ. É bom assinalar que, enquanto a Fundação Getúlio Vargas, o IBGE, a USP e outras fontes produzem indicadores gerais, o sindicalismo do comércio, deve realizar, como está realizando, trabalho específico e especializado sobre o comércio que lhe incumbe representar. 46 Capítulo 2 Reformas de Base ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ A Lógica da Reforma Tributária Ditadura Fiscal Brinquedo Proibido A Hora é Agora A Federação e a Reforma dos Impostos A Reforma Tributária e a Ação Empresarial Insensatez Tributária A Falência da Previdência Social Reforma Tributária: Proposta Perigosa As Agruras da Previdência Social A LÓGICA DA REFORMA TRIBUTÁRIA JORNAL DO COMMERCIO - 03 DE JUNHO DE 1998 A Secretaria da Receita Federal está concluindo o novo projeto de Reforma Tributária, que será encaminhado brevemente ao Congresso. A nova matriz é formada pelo IVA, o IVV e o IS (Imposto Seletivo), com extinção do IPI, ICMS, PIS-PASEP, COFINS e CSLL. A nova proposta de Reforma Tributária que visa a reformular o substitutivo do Relator da Comissão Especial, deputado Mussa Demes, ao Projeto de Emenda Constitucional 175/A de 1995, é seguramente fruto de uma longa reflexão feita pelos altos funcionários do Ministério da Fazenda. A proposta parte do pressuposto de que a globalização e os acordos de integração requerem uma linguagem tributária, senão comum, pelo menos similar, na busca da harmonização dos sistemas. Essa harmonização requer que o sistema tenha simultaneamente a marca da simplicidade e da generalidade, porquanto seria impraticável tentar harmonizar sistemas complexos e, ainda mais, carregados de exceções. Posto que em relação ao imposto sobre a renda e aos impostos de caráter puramente regulatório, como é o caso dos tributos cobrados sobre o comércio exterior, não se propõem 49 mudanças, o cerne da reforma está no deslocamento da incidência dos impostos da produção para o consumo. O amálgama de vários impostos e contribuições num único imposto sobre o valor agregado, o IVA, a ser cobrado pela União, caminha obviamente no sentido da simplificação, ao mesmo tempo que desonera as empresas dos custos que hoje arcam com uma complexa contabilidade, a fim de atender ao fisco. A “neutralidade” da nova proposta do Executivo tem duas faces. A primeira é a da manutenção da “carga tributária” estimada em torno de 28,5% do Produto Interno Bruto (PIB). A segunda significa que não haverá perdas de recursos financeiros para os Estados e Municípios, porque um fundo especial da ordem de 10 bilhões de reais, isto é, 8% da receita tributária total, seria destinado a compensar perdas entre as unidades da federação. Uma singularidade dessa nova proposta de reforma é a transformação da Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira (CPMF) em imposto de caráter permanente, pela sua capacidade de conter a sonegação e adaptar-se aos novos tempos em que as transações se fazem pela via eletrônica, com a possibilidade de vir a ser descontável do imposto de renda a pagar. Em contraste, o atual Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), voltaria a ter um sentido regulatório e não arrecadador, podendo variar de acordo com a necessidade de condução da política econômica. Um novo imposto, dito Imposto Seletivo (IS), incidindo sobre combustíveis, bebidas, cigarros e serviços de utilidade pública, ou seja um Imposto que implica exata correlação entre os consumos físicos e o nível de arrecadação teria sua cobrança regulada pela União, embora a arrecadação fosse fonte de receita dos Estados. 50 A lógica dessa nova proposta de reforma tributária fica, portanto, assentada nos princípios da simplificação, da neutralidade e do combate à sonegação. Permanece, contudo, uma questão de fundo, ainda não resolvida, que tem a ver com o pacto federativo. Hoje, a principal fonte arrecadadora dos Estados é o ICMS que, no amálgama dos tributos de competência da União, desapareceria, sendo parcialmente substituído pelo Imposto de Vendas a Varejo ou simplesmente o IVV. Como o objetivo é manter a carga tributária global nos níveis atuais, as alíquotas dos diferentes impostos têm que ser devidamente calibradas pela União. De um lado, essa sistemática certamente elimina a “guerra fiscal” entre os Estados que competem por novos investimentos, mas, de outra parte, será preciso que as transferências do fundo especial, compensatório das perdas para os Estados e Municípios que a reforma acarretaria, tenha um mecanismo automático de repartição. Tal como estão colocados sobre a mesa os dados dessa nova proposta, não pode haver dúvida que constitui importante avanço, quando comparado o sistema nela implícito com o sistema atual. Em tese, portanto, as classes empresariais devem apoiá-la, não porque lhes seja vantajosa, mas porque beneficiaria, isto sim, toda a Nação. Esse apoio, entretanto, não significa que os empresários e a sociedade brasileira devam se conformar com uma carga tributária da ordem de mais de 30%, equivalente à dos Estados Unidos. O imperativo da integração internacional requer o nivelamento do esforço fiscal em igualdade com os nossos concorrentes, favorecidos por um peso tributário em torno de 20%, como é o caso da Argentina, do Chile, do México, da Coréia do Sul, de Taiwan e outros. 51 DITADURA FISCAL CORREIO BRAZILIENSE - 16 DE JUNHO DE 1998 Além da excessiva carga tributária - superior a 30% do PIB - , que sufoca os contribuintes e prejudica o crescimento de nossa economia, algumas medidas governamentais estão a indicar que as autoridades fazendárias pretendem instalar no País uma verdadeira ditadura fiscal talvez sem o conhecimento do Presidente Fernando Henrique, envolvido com as reformas constitucionais, os compromissos internacionais e a campanha da reeleição. Sob o pretexto de dispensar um tratamento duro à sonegação fiscal, as autoridades fiscais querem, na verdade, o aplauso para recordes na arrecadação dos tributos, mesmo que tenham de desrespeitar a Constituição, violar os direitos dos cidadãos, revogar instituições jurídicas consolidadas e aterrorizar os contribuintes. A primeira dessas violências foi concretizada pela Medida Provisória no 1.621 (reeditada pela 34a vez), que criou o CADIN, isto é, o restabelecimento, com outro nome, da “declaração de devedor remisso” que, pelo seu caráter odioso, foi derrubada pela Justiça há cerca de trinta anos. No dia a dia de suas atividades, os contribuintes já são obrigados a obter certidões negativas da Fazenda Pública, da Previdência Social, da Dívida Ativa e dos cartórios distribuidores de ações judiciais. O CADIN, por envolver 53 dívidas de natureza contratual com as empresas estatais, constitui uma violência, reproduz cadastros já existentes noutros órgãos e sua manutenção acarreta desnecessária despesa aos cofres públicos. A segunda medida foi desfechada pela introdução, na citada M.P., de um dispositivo (art. 33) que, modificando o processo fiscal administrativo, condiciona o seguimento do recurso voluntário, interposto para os Conselhos de Contribuintes, ao prévio depósito de valor correspondente a trinta por cento da exigência fiscal, mesmo que esta seja indevida ou abusiva, como , aliás, é freqüente. A propósito, a Confederação Nacional do Comércio enviou ofício aos senhores ministros da Fazenda e do Planejamento, ponderando que o referido dispositivo importa no restabelecimento de antiga exigência fiscal atentatória ao direito de defesa dos contribuintes, revogada, há quase trinta anos, pelo Decreto-lei n o 822/69, e que o ônus pecuniário imposto aos contribuintes cerceia o direito de defesa e elimina as vantagens do recurso administrativo, em matéria tributária. A CNC propôs a revogação daquela inovação legislativa, mas, até o momento, não se conhece qualquer reação de parte do Governo. A terceira medida está no Projeto de lei complementar no 220, aprovado pelo Senado Federal e em curso na Câmara dos Deputados, que prevê diversos casos de quebra de sigilo bancário, independentemente de autorização judicial, por parte de numerosos órgãos públicos, inclusive todos os milhares de agentes do fisco federal, estadual e municipal. Em artigo publicado no “Correio Braziliense” de 13 de abril último, destacamos que o projeto desrespeita a garantia fundamental, assegurada pela Constituição, da inviolabilidade da intimidade, da vida privada e do sigilo de dados (art. 5o, X e XII) e concluímos 54 que “a nova proposta de quebra de sigilo bancário é uma aberração, um passo atrás, uma porta escancarada para todo tipo de abusos das autoridades fazendárias e agentes fiscais”. Esse Projeto não é, formalmente, do Poder Executivo. Não foi enviado ao Congresso pelo Presidente da República, mas é de autoria de uma importante autoridade do Banco Central, como informado pelo autor do projeto, no Senado. Portanto, é, realmente, um projeto governamental ou, então, teríamos uma caso de quebra de hierarquia. Agora, uma quarta medida parece agravar todo esse preocupante quadro. Trata-se do Projeto de lei no 4.530/98, de autoria do deputado Luiz Carlos Hauly, do PSDB do Paraná, que, sob o sofisma de “agilizar o procedimento de cobrança de tributos federais”, objetiva, pura e simplesmente, extinguir todos os Conselhos de Contribuintes e transferir o julgamento final dos recursos administrativos dos contribuintes para os Delegados da Receita Federal, isto é, funcionários de confiança do governo e integrantes da mesma Secretaria que dá início aos processos fiscais, muitos deles procedentes, porém, muitos outros indevidos e instaurados para perseguir contribuintes. Esses colegiados, criados pelo Decreto no 20.350, de 31/8/31, são compostos, paritariamente, por conselheiros indicados pela Receita Federal e pelos contribuintes, por intermédio das Confederações da classe empresarial, neles atuando ainda um procurador da Fazenda, para zelar pelo respeito à lei. Ao longo, portanto, de mais de setenta anos, os Conselhos de Contribuintes, que sofreram numerosas transformações, têm atuado, destacadamente, para a realização da justiça fiscal, evitando a desnecessária sobrecarga do Judiciário com milhares e milhares de litígios fiscais, que encontram solução adequada na própria área administrativa, sobretudo nas questões sobre 55 matéria de fato e nas questões predominantemente técnicas, as quais, na via judicial, sempre dependem de demorados e onerosos laudos dos peritos. As quatro medidas acima indicadas, num inacreditável retrocesso, possibilitarão os abusos dos agentes do Fisco para autuar os contribuintes, aplicar-lhes multas descabidas, denegar os seus recursos administrativos e violar as suas contas bancárias e demais aplicações financeiras . Elas formam um quadro de terror fiscal digno das piores ditaduras e apropriado para a prática dos crimes de excesso de exação, corrupção passiva e concussão, quadro esse que deve ser denunciado, com firmeza e coragem, pelos meios de comunicação e pelas entidades de classe. 56 BRINQUEDO PROIBIDO O GLOBO - 20 DE OUTUBRO DE 1998 Vale a pena pedir a atenção especial de Everardo Maciel, dedicado Secretário da Receita Federal, para certos paradoxos que existem no sistema de controle aduaneiro no Brasil. O primeiro e mais visível é o que se refere à incômoda inspeção de bagagem dos viajantes, recaindo indiscriminadamente sobre passageiros nacionais e estrangeiros ou sobre viajantes portadores de uma única mala, em contraposição àqueles que desembarcaram com uma quantidade incrível de malas e grande número de caixas, acintosamente revelando tratar-se de mercadorias cuja importação deveria ser feita, normalmente, pela via comercial. Enquanto isso se passa no salão de passageiros das alfândegas, nos porões do aeroporto, ao que se sabe pelo relato mesmo das autoridades, um pesado contrabando vai sendo desembaraçado na calada dos expedientes, movimentando enormes contêineres, cujos valores unitários excedem várias vezes toda aquela miuçalha de bagagens dos inocentes viajantes. O espetáculo que se observa nas alfândegas do Brasil não tem paralelo no mundo e, certamente, poderia ser dispensado, como acontece em Nova York, Paris ou Londres, se o trabalho de inspeção fosse feito mediante observação profissional, restringindo-se inteligentemente aos casos de bagagem acintosa, de contumazes viajantes, conhecidos como “sacoleiros” ou 57 “andorinhas”, que todos os meses movimentam os nossos aeroportos, vindos preferentemente de Miami. Mas, nem mesmo esses falsos turistas têm importância, se comparados com as toneladas de contrabando que passam pelos porões dos aeroportos ou se empilham nos cais dos principais portos do País. O que podem representar, no cômputo das importações brasileiras, os gatos pingados dos turistas nacionais que abusam de suas compras no exterior? É uma questão de custos e benefícios fácil de calcular. Por outro lado, é chocante a informação de que nas fronteiras com o Paraguai, nas zonas de maior movimentação de mercadorias contrabandeadas, a alfândega nacional opera com pouco mais de meia dúzia de fiscais, como noticia a imprensa freqüentemente. Impressiona ver, pelo noticiário da televisão, as levas de milhares de sacoleiros indo e vindo pela famosa Ponte da Amizade que vai do Brasil ao Paraguai. Na retaguarda desse falso turismo, a movimentação de milhares de ônibus e de caminhões dão as dimensões desse comércio ilegal que atinge, anualmente, a cerca de dez bilhões de dólares. Não menos impressionantes são os flagrantes nos portos e aeroportos de pesados contêineres de importações escandalosamente subfaturadas, como acaba de ser noticiado pelo presidente da Abrinq, artigo publicado recentemente em O Globo. Ali se informa que milhares de itens, em enormes quantidades, estão faturados por valores até cem vezes inferiores aos preços normais de mercado. Os bilhões de dólares de prejuízo dessas importações irregulares recaem pesadamente sobre o Tesouro Nacional, a indústria e o comércio legalmente organizados, roubando emprego a milhares de trabalhadores brasileiros. E, ainda mais impressionante, é que o produto desse “roubo” se exibe, acintosa 58 e impunemente, nas ruas centrais do Rio de Janeiro, de São Paulo e outras capitais brasileiras, com destaque especial para a famosa “Feira do Paraguai”, em Brasília. É desencorajador para a indústria e o comércio, que cumprem com suas obrigações legais, que pagam pesados impostos e contribuições sociais, sofrer, passivamente, a concorrência predatória desse vergonhoso contrabando. Em países mais organizados, não se verifica esse espetáculo constrangedor, simplesmente porque as importações estão, sujeitas a controles prévios de qualidade. O caso recente a que nos referimos, relacionado principalmente com a importação de brinquedos, certamente poderia ser evitado pela simples exigência dos certificados do INMETRO, o mesmo certificado de qualidade que se exige lá fora dos produtos nacionais. É importante repetir e insistir com as autoridades nacionais que já existem, entre nós, os instrumentos regulamentares para coibir o contrabando pernicioso e a vergonhosa contrafação de mercadorias que alimentam a camelotagem nacional. 59 A HORA É AGORA CORREIO BRAZILIENSE - 04 DE NOVEMBRO DE 1998 O Brasil vem, desde 1994, se endividando cada vez mais no exterior para cobrir o crescente déficit das contas externas, pagando elevadíssimas taxas de juros que arrasaram as contas internas. Agora, mesmo sem querer, deu um passo na direção certa: está propondo trocar os credores tradicionais, ávidos de juros altos, por credores institucionais (FMI, etc.), que não pressionam os juros. Isso ajuda, mas não resolve, eis que, claramente, a única maneira de pagar a deficitária conta Serviços (juros, dividendos, fretes, etc.) é produzindo substanciais superávits na balança comercial. E isso não se consegue sem alterar a política cambial. Os empresários não mais investem no setor exportador porque a exportação passou a ser mau negócio, remunerada por uma taxa cambial inadequada, incapaz de abrir espaço para os nossos produtos nos mercados internacionais, e onerada por diversos impostos em cascata, além da tolerada deficiência dos sistemas de transportes, especialmente do setor portuário. Do lado interno, é certo que, atualmente, o “governo é incapaz de viver com os próprios meios”, como afirmou recentemente o presidente o Banco Central. O governo impõe sobre a sociedade uma carga tributária pesada, de mais de 30% do PIB e, além disso, ainda gasta mais 8%, representados pelo déficit nominal que o Tesouro e o Banco Central só conseguem financiar a taxas de juros letais. Foram muitos erros acumulados 61 ao longo dos anos até chegarmos a essa situação, mas, visivelmente, algumas causas principais podem ser apontadas, tais como a irresponsabilidade com que foram cometidos tantos erros na Constituição “cidadã” de 1988, os privilégios do sistema previdenciário no setor público, o desordenado crescimento do número de municípios e as mordomias financeiras comandadas pelos governos estaduais, pelas Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores. Além disso, é visível o estrago que fizeram as taxas de juros no combalido orçamento dos três níveis de governo, a partir de 1995. Desde a crise do México, em dezembro de 1994, ficou claro que o Brasil caminhava para o epicentro da crise financeira mundial, tal a crescente vulnerabilidade da economia brasileira. A partir de 1995, passamos a conviver com a síndrome da crise, de sobressaltos em sobressaltos, desenvolvendo um esforço inaudito para atrair capitais especulativos e predatórios. O resultado está aí. Durante muito tempo nos escondemos atrás do refrão de que o Brasil não é o México, nem a Tailândia, nem a Rússia. É lógico que não é, tão diferentes são as peculiaridades de cada economia. Também a Rússia não é a Malásia. Mas a dura realidade é que todos têm ou tinham alguns problemas em comum, tais como a valorização dos ativos nas Bolsas de Valores, a dependência de capitais financeiros especulativos, a defasagem da taxa cambial ou o déficit do setor público. Por isso é que a ocorrência da crise em uns países alerta os investidores internacionais para o que possa acontecer nos demais. São esses investidores que mudam a geografia da crise. É evidente que a crise financeira do Japão e do Sudeste Asiático, assim como a moratória decretada pela Rússia, agravaram o quadro de dificuldades da economia nacional. Mas 62 não é certo que “os abalos na Malásia contagiaram o Brasil.” Nossas doenças vêm sendo geradas internamente, há muito tempo. A ajuda externa não resolve os nossos problemas, apenas nos dá prazo para resolvê-los por nossos próprios meios. Agora, não cabe apenas reconhecer a derrota. Cabe, sim, a humildade de reconhecer os erros praticados e tratar de corrigilos. É imperioso fazer uma profunda e urgente reforma nos sistemas previdenciário e tributário, o que, aliás, já vem sendo ensaiado, porém com excessiva cautela e timidez. Então, vamos tratar de fazê-la, convocando à participação dos políticos no Congresso, assim como os governadores e as confederações empresariais e trabalhistas. O programa de desestatização, em boa hora lançado, abriu novos caminhos para transformar o Estado de produtor ineficiente em eficaz agente regulador, para propiciar a redução do número de ministérios, da pesada máquina administrativa e da burocracia oficial. Essa é a hora própria para a grande transformação. O Presidente Fernando Henrique Cardoso não pode perder este momento histórico. E, para tanto, contará com o apoio decisivo da sociedade brasileira. A hora é agora. 63 A FEDERAÇÃO E A REFORMA DOS IMPOSTOS CORREIO BRAZILIENSE - 18 DE MARÇO DE 1999 Há absoluta unanimidade sobre o imperativo de levar a cabo a reforma do sistema tributário nacional. Há mesmo um sentimento de impaciência ante a demora em realizá-la. Esgotou-se o tempo da legislatura anterior sem que, a partir da Proposta de Emenda Constitucional 175, qualquer progresso no rumo da mudança do sistema tenha sido alcançado. Ao contrário, a nova proposta do Executivo coloca o relator na Comissão Especial da Câmara dos Deputados de volta ao marco zero. Pelo que se sabe, o novo projeto de reforma mantém os princípios dominantes da primeira proposta do Executivo ao buscar a simplificação do sistema e deslocar o eixo das incidências da produção para o consumo final, ao mesmo tempo em que corrige inconvenientes da anterior, em especial no que se refere ao imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços. Essa simplificação é fundamental para reduzir os elevados custos da administração fiscal, que tanto pesam sobre o governo como sobre os contribuintes. Mas, ao apresentar o novo projeto diante de um Congresso renovado para uma nova legislatura, abre-se espaço para a total reabertura do tema. 65 Se essa reforma não caminhou, a despeito da necessidade por todos reconhecida de dispor o país de novo sistema tributário mais simples e moderno, desonerando as exportações e eliminando, na atração de investimentos, a competição predatória entre os estados (a chamada guerra fiscal), vale a pena especular sobre as razões da inércia. Suas raízes estão certamente fincadas na Constituição de 1988. De outra forma, não se justificaria emendá-la. Um breve lançar de olhos sobre o regime de repartição das receitas tributárias (seção VI, capítulo I, Título VI) mostra um intrincado mecanismo de repasses entre a União, os estados e os municípios. Apenas para ilustrar a complexidade da repartição, cabem aos estados e ao Distrito Federal, por intermédio do Fundo de Participação, 21,5% do produto da arrecadação dos impostos sobre a renda e produtos industrializados, que são da competência da União, e mais 10% do IPI, para compensar as exportações de produtos manufaturados. Da mesma forma, cabem aos municípios 22,5% da arrecadação desses impostos. Permanece em poder dos estados e municípios o Imposto de Renda recolhido sobre as respectivas folhas de pessoal e outros pagamentos sujeitos ao recolhimento na fonte. Aos municípios cabe, ainda, 25% do ICMS arrecadado pelos estados, assim como 50% dos impostos territorial rural e sobre veículos automotores. Além disso, essa complicada malha de transferências e repasses estende-se a programas de desenvolvimento regional. O sistema tributário vigente tem, ainda, dois altos inconvenientes: mantém verdadeiras barreiras fiscais nas estradas entre um estado e outro, dando margem a todo tipo de achaques e corrupções, e abriga um complexo sistema de crédito fiscal, de complicado acerto entre o estado produtor e o estado consumidor. 66 Por tudo isso, sendo a Constituição omissa quanto aos encargos das três esferas de governo, a União fica sem massa de manobra financeira para cobrir as tarefas que deveriam ser cometidas aos outros dois níveis da administração. Afinal, como aos estados e municípios só interessa uma reforma tributária que não altere esse estado de coisas, é difícil imaginar reforma inteiramente neutra. Não é de admirar, portanto, que numa fase de penúria financeira, decorrente da má gestão dos negócios públicos, estejamos testemunhando sérios atritos entre o Presidente da República e governadores de Estado, com a retenção de transferências constitucionais pelo Executivo federal diante da inadimplência de certos estados no cumprimento de obrigações contratuais com a União. E mais, reivindicam os novos governadores a redução, senão a eliminação, do Fundo de Estabilização Fiscal, que, embora temporário, serve de alívio para o desequilíbrio fiscal gerado pela Constituição, assim como a revogação da Lei Kandir, que criou importante estímulo às exportações de produtos primários e semielaborados. A restrição imposta a uma reforma tributária que, para ser aprovada pelo Congresso, deveria ter a marca da neutralidade quanto à repartição das receitas, explica, em larga medida, a demora em sua tramitação (diria mesmo sua procrastinação) com tantas idas e vindas. Durante o debate havido em torno da PEC 175, hoje letra morta, ficou patente que um dos obstáculos, talvez o maior, para a aprovação de uma reforma tributária era a questão federativa. Pelos motivos antes assinalados, mais do que nunca o tema da Federação está na ordem do dia. Nesse aspecto, a reforma tributária interage com a reforma política. 67 Ao conduzir a reforma tributária, é possível dar início à reforma política. O presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, em recente artigo sobre a Federação e a distribuição de competências, assinala que “um dos instrumentos mais eficazes para a repactuação é a reforma tributária. É nela e por meio dela que poderemos redistribuir competências, dar aos estados e municípios recursos próprios para geri-las, transferir do centro para as unidades estaduais boa parte das responsabilidades governativas”. Em suma, a modelagem de novo sistema de impostos deveria vir junto com a correção da omissão constitucional quanto aos encargos, eliminando o mais possível mecanismos de transferência de recursos. Nesse sentido, a reforma seria fiscal e não apenas tributária. Ainda no dizer do presidente da Câmara dos Deputados, “é claro que a legislação constitucional modificadora poderá vir logo. Sua execução se dará a médio prazo... podendo-se chegar, no futuro, ao exemplo de estados americanos que, com contas saneadas, puderam abrir mão de recursos federais”. Em 1990, com base em todas essas considerações, a Confederação Nacional do Comércio apresentou ao Poder Executivo, a título de subsídio, um projeto de Reforma Tributária na direção indicada pelo presidente da Câmara dos Deputados. O referido projeto enfatizava a simplificação do sistema tributário, a eliminação da tributação interestadual e nítida separação dos impostos pertencentes ao governo federal e aos estados e municípios, de modo a eliminar a necessidade de incluir no Orçamento da União despesas locais que, pela sua natureza, devam ser realizadas e custeadas com recursos estaduais ou municipais. Dentro de um princípio simples de que “ gasta quem arrecada”. 68 Um projeto político destinado a criar novo pacto federativo certamente terá mais chance de sucesso se outorgar maior autonomia tributária aos estados e municípios para realizar os próprios projetos, liberando a política fiscal das restrições atuais e praticamente acabando com o balcão de negócios em que se transformou a elaboração do Orçamento da União. 69 A REFORMA TRIBUTÁRIA E A AÇÃO EMPRESARIAL JORNAL DO COMMERCIO - 11 DE ABRIL DE 1999 A cada dia que passa, vai ficando mais transparente a vulnerabilidade do setor público brasileiro, vergado ao peso de sucessivos déficits, que resultaram em insuportável dívida interna e externa. A mais recente história dessas dívidas começa com a farra dos empréstimos externos autorizados pelo Senado para os Estados, municípios, autarquias e empresas estatais, numa época em que havia sobra de petrodólares nos depósitos dos bancos internacionais, a juros atraentes, muitas vezes negativos, abaixo das taxas mundiais de inflação. A corrida desenfreada aos empréstimos fáceis do exterior durou até 1980, quando o Federal Reserve dos Estados Unidos elevou a taxa básica de juros de 5% para 20%, ocasionando um brutal prejuízo aos países devedores. É o início da grande crise da dívida externa que abalou o mundo e empobreceu dramaticamente os países em desenvolvimento, principalmente no Leste Europeu, na África e na América Latina, onde Argentina, México e Brasil sofreram um verdadeiro colapso em suas economias, que duraria praticamente toda a década dos anos 80 e início dos anos 90. No Brasil, o ônus maior recaiu sobre a União, na medida em que o Governo Federal negociava com os bancos o reescalonamento da dívida e assumia o compromisso de 71 resgatá-la. Por esse processo, a pesada carga da dívida externa gerou sua contrapartida na dívida pública interna. Em meio a todas essas dificuldades, veio a Constituição “cidadã” de 1988, que arrasou definitivamente as finanças públicas, especialmente a União, sobrecarregada com inúmeros novos encargos sociais e trabalhistas, expansão do Judiciário, incorporação dos funcionários celetistas e verbas vinculadas, ao mesmo tempo em que se ampliava a transferência maciça dos principais impostos (IR e IPI) para os Estados e municípios. O resultado de toda essa irresponsabilidade legislativa e administrativa foi, como não podia deixar de ser, a incrível elevação da carga tributária, que passa de cerca de 20% do PIB para mais de 30% em 1998. A despeito de todas as distorções, abusos e desperdícios praticados pela administração pública, dois itens sobrelevam como os maiores responsáveis pelo caos financeiro atual: os encargos financeiros da dívida e os rombos da Previdência Social. No primeiro caso, é evidente o impacto brutal das taxas de juros, principalmente a partir de 1994, com o Plano Real, que abriu um enorme buraco nas contas externas e criou acintosa dependência dos financiamentos especulativos, de curto prazo, atraídos pelas taxas de juros mais altas do mundo. Em 1998, os juros sobre a dívida pública alcançaram R$ 72 bilhões. Do outro lado, a Previdência Social é uma máquina de fazer déficits. No setor público, a União arrecada R$ 2 bilhões e paga R$ 20 bilhões de benefícios. No setor privado, o INSS deverá apresentar neste ano um déficit de R$ 10 bilhões. A simples menção desses números nos dá a indicação da complexidade do problema fiscal, no Brasil. Por isso mesmo, há uma compreensão generalizada, em favor do governo, admitindo-se que, no momento, seria inviável pensarse na redução da carga tributária. Esta é uma questão que deverá ser equacionada com mais tempo, embora absolutamente 72 necessária quando se trata de dar à empresa nacional condições competitivas para disputar os mercados internacionais com seus principais concorrentes. Mas a reforma tributária tem uma razão fundamental de ser prioritária: é a simplificação. O sistema tributário brasileiro é demasiadamente complexo, ineficiente, injusto e aberto a todo tipo de sonegação, de fraude e de corrupção. Além do mais, a administração fiscal é extremamente onerosa para o governo e para o contribuinte, e bastaria este argumento para justificar uma reforma estrutural profunda, simplificadora e urgente. Os empresários brasileiros, através de suas entidades de classe, têm procurado transmitir estas observações ao governo, através de sugestões e subsídios aos projetos governamentais. Agora, parece ter chegado a hora de se empreender todos os esforços junto à Comissão Especial Tributária da Câmara dos Deputados, buscando uma solução que atenda, fundamentalmente, aos seguintes princípios básicos: 1. Substituir, no que for possível, os impostos declaratórios pelos impostos não declaratórios. Nesse sentido, é importante consagrar os impostos seletivos, fáceis de cobrar e difíceis de sonegar, incidentes sobre a mais ampla base tributária, inclusive a economia informal. 2. Eliminar os tributos em cascata, que oneram os produtos de maior valor agregado e distorcem os cálculos econômicos da produção. Simulações quantitativas comprovam que é perfeitamente possível eliminar tributos, como COFINS, PIS, CSLL e outros, como salário-educação e acidente de trabalho. 3. Utilizar a CPMF apenas como instrumento de identificação dos contribuintes, tornando essa contribuição dedutível do Imposto de Renda, até que seja possível extinguí-la ou integrá-la no conceito de imposto único. 73 4. Desonerar totalmente as exportações de produtos primários, semi-elaborados ou manufaturados e de serviços, assim como as transações relativas a investimentos fixos produtivos. 5. Aperfeiçoar os mecanismos da arrecadação dos tributos com base no valor agregado, mediante simplificação do sistema de compensação e de crédito fiscal. 6. Simplificar ou mesmo eliminar os tributos interestaduais que criam barreiras nas divisas entre os Estados da Federação e complicam o sistema de crédito fiscal. 7. Submeter à legislação e à disciplina federal as normas tributárias, a fim de impor limites às alíquotas e de impedir a desagregação do sistema e as guerras fiscais. Estes princípios estão respaldados por todas as confederações das classes empresariais congregadas na Ação Empresarial e, de um modo geral, estão contemplados no projeto que o ministro da Fazenda enviou ao Congresso Nacional, em novembro do ano passado. Juntamente com o projeto de lei que estabelece a responsabilidade fiscal para os três níveis de governo, tudo indica que estamos próximos de dar um passo decisivo na direção da modernidade e da eficiência tributária e fiscal. 74 INSENSATEZ TRIBUTÁRIA JORNAL DO COMMERCIO - 13 DE AGOSTO DE 1999 O Brasil enfrenta, há muitos anos, uma luta desigual com os Estados Unidos e com os países europeus, para derrubar as barreiras tarifárias e outras, que dificultam e até mesmo impedem a exportação de nossos produtos para aqueles mercados. E por que esses países mais ricos discriminam contra as nossas exportações? Por que são pressionados por suas empresas improdutivas, que não conseguem enfrentar a concorrência, e utilizam o lobby de seus políticos no Congresso, para aprovar as leis de proteção e de reserva de mercado, ou, como é o caso da Europa, onde os agricultores mamam, anualmente, US$ 60 bilhões nas tetas do Governo e não querem perder os subsídios. Do ponto de vista das regras do comércio internacional, traçadas pela OMC, essa prática discriminatória é ilegal, injusta e imoral. Ilegal porque contraria as regras fixadas, injusta porque agrava os desequilíbrios econômicos entre os países ricos e os pobres e imoral porque vai na direção contraria dos princípios da liberdade do comércio defendidos e proclamados por todos os governos, em todos os fóruns internacionais. Baseados na convicção de que a liberdade do comércio e a integração internacional constituem importantes fatores de desenvolvimento econômico e social, os países das mesmas regiões geográficas estão se agrupando em zonas de livre comércio ou mercados comuns, cujos princípios básicos repousam na liberdade do comércio e na abertura econômica. 75 Houve épocas em que dificuldades econômicas e financeiras contribuíram para levantar barreiras entre os países, criando mecanismos de proteção e de reserva de mercados, que limitaram as possibilidades de expansão das exportações. Mas acabou prevalecendo o entendimento de que o comércio é o grande promotor do desenvolvimento e por isso mesmo, deve ser estimulado. Está em marcha um movimento de globalização, que tende para a eliminação das tarifas e restrições, em todas as direções. Situa-se nesse contexto a formação dos blocos econômicos, com a liberação total do comércio e fixação da “tarifa-zero” como meta global, iniciando pela liberação intra-grupo e caminhando para isenção também da tarifa externa comum. Pelo visto, no mundo todo, os países estão abolindo as fronteiras comerciais, no entendimento de que o comércio produz desenvolvimento e progresso. Por isso mesmo, é incrível admitir que estamos caminhando totalmente na direção contrária à dos países mais evoluídos, quando assistimos o Governo do Estado de São Paulo agredir a Federação de maneira acintosa, cobrando um ICMS de 1% sobre a produção gerada pelas indústrias paulistas, enquanto tributa em 18% a produção originária dos outros Estados. Felizmente, prevaleceu um mínimo de bom senso e a medida está sendo revogada. É por essa e outras razões que se faz necessária e urgente uma reforma tributária, com o sentido de transferir para o Congresso Nacional a regulamentação do ICMS e do ISS. O que se viu no Governo do Estado do Rio de Janeiro, elevando alíquotas a 37% e, agora, no Estado de São Paulo, põe a descoberto a inadequação de um tributo regido por 27 legislações diferentes, dentro da Federação. Chegamos ao ridículo de ver os cariocas comprando cigarros em São Paulo e os aviões baseados no Rio se abastecerem em outros Estados. 76 Nesta mesma temporada, surge uma nova proposta para erradicar a pobreza nacional, aumentando os impostos. Deus meu, será que não está claro que este País é pobre, assim como seu povo, porque tem que entregar ao Estado quarenta por cento de tudo que produz? E tem mais: o imposto PPE (parcela de preços específicos) embutido no preço da gasolina acaba de sofrer um aumento de 60% e vem aí um pesado imposto de R$ 0,30 por m³ de água consumida, a título de proteção ao meio ambiente, enquanto o Ministério da Previdência Social anuncia que o crescente déficit crônico do INSS deverá ser coberto com o aumento das contribuições, principalmente se o Congresso não aprovar a idade mínima de aposentadoria para o setor privado. O que está ocorrendo no Brasil não é, realmente, um caso de insensatez tributária? 77 A FALÊNCIA DA PREVIDÊNCIA SOCIAL CORREIO BRAZILIENSE - 18 DE AGOSTO DE1999 O Sistema da Previdência Social, no Brasil, chegou ao fim. Concebido sobre a base falsa de um sistema participativo, que só funciona enquanto as entradas superam os benefícios, a Previdência Social não só caminha para a falência total, como está contaminando todo o organismo econômico-social. O pagamento, pela empresa, de 20% sobre a folha de pessoal, mais 10% da contribuição do empregado, constitui peso insuportável, principal fator de crescimento da economia informal. Basta um simples exercício de matemática financeira para provar que é exagero, verdadeiro absurdo, cobrar contribuição de 30%, durante 35 anos, para assegurar ao trabalhador uma aposentadoria compatível com os custos do programa. Alguns analistas chamam a isso de “estelionato atuarial”, pois o aposentado recebe, de modo geral, muito menos do que é arrecado pelo INSS. O problema está em que essa massa de recursos não se incorpora a um grande fundo, como deveria, cujos investimentos propiciariam o rendimento adequado ao pagamento dos benefícios. Esse fundo foi dilapidado, ao longo dos anos, por má administração, por fraudes e corrupção. Hoje, a Previdência Social vive da “mão pra boca” e, por isso mesmo, faliu. 79 Não adianta procurar “tapar o sol com a peneira”, e continuar inventando novas contribuições que não resolvem os problemas da Previdência, mas arrasam as atividades econômicas, produzindo recessão e desemprego. São remendos que só agravam a situação. A única saída viável é acabar, definitivamente, com o sistema participativo, e inaugurar um sistema de capitalização, sobre bases atuariais corretas, antes que ocorra o grande desastre final. A bem da verdade, registrase que o Poder Executivo vem tentando essa solução, mas não encontra receptividade no Legislativo. O Congresso Nacional será o grande responsável pelo desastre que se aproxima. No setor público, o descalabro da Previdência é ainda maior, tanto na área do governo federal, como dos estados e municípios. De modo geral, o governo nunca contribuiu com a sua parte para a formação de um fundo de investimentos. Constitui, portanto, falácia descabida imputar aos servidores públicos erros que não cometeram. Errado é o sistema, são os abusos e os privilégios, construídos acintosamente no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Em 1998, a previdência privada arrecadou R$46,8 bilhões e pagou R$54,0 bilhões a 18,7 milhões de aposentados e pensionistas. No governo federal, foram arrecadados R$2,6 bilhões e gastos R$18,8 bilhões com 900 mil servidores inativos. No setor público, como um todo, existem 3,1 milhões de servidores, que respondem por 83% do déficit total da Previdência. Neste ano de 1999, o déficit do setor privado aumentará para cerca de R$11,0 bilhões. O do setor público, agora englobando estados e municípios, crescerá para R$50,0 bilhões. Uma verdadeira catástrofe. O pior, nesse quadro, é a tendência de se agravar ainda mais a situação, face ao aumento da expectativa de vida e ao envelhecimento da população. Segundo o ministro da Previdência Social, “até bem pouco tempo atrás, existiam oito 80 trabalhadores na ativa do serviço público, para cada aposentado. Hoje, essa proporção caiu para 1,4. No setor privado, dos 78 milhões da população economicamente ativa (PEA), apenas 18,3 milhões (23,1%) são trabalhadores com registro em Carteira e cinco milhões são autônomos, de modo que a massa de contribuintes do INSS mal chega a 30% do total. No ano passado, 40 % dos brasileiros que se aposentaram tinham menos de 50 anos de idade. A crônica do absurdo não tem fim no regime previdenciário do Brasil. 81 REFORMA TRIBUTÁRIA: PROPOSTA PERIGOSA JORNAL DO BRASIL - 08 DE SETEMBRO DE 1999 Entre as várias reformas de base, anunciadas pelo Governo Federal, nos últimos dez anos, como medidas fundamentais para alcançar um equilíbrio estável nas contas do setor público, figuram as Reformas Administrativa, Previdenciária e Tributária. A primeira, limitou-se, basicamente, a cuidar das relações dos servidores públicos com a Administração, a segunda não foi além de dez por cento de seus objetivos e a terceira, a Tributária, arrasta-se no Congresso Nacional, desde 1990. A importância da Reforma Tributária pode ser avaliada pelas repetidas declarações oficiais. Do Banco Central, informa-se que, sem poupança pública, não se poderá aliviar o custo das operações financeiras e as taxas de juros não baixam. Do Ministério da Fazenda esclarece-se que, sem essa reforma, não haverá como reduzir os entraves do déficit e da dívida pública e da Presidência da República vem o vaticínio de que, sem a reforma tributária, a queda dos juros e o equilíbrio fiscal, a economia brasileira não deslanchará, não sairá da recessão e do desemprego. Portanto, a Reforma Tributária é urgente e imprescindível. 83 Na opinião dos empresários, o diagnóstico não é diferente. A Reforma Tributária é urgente e imprescindível por uma questão de isonomia competitiva, no quadro da globalização e da imperiosa necessidade de expandir as exportações. Duas são as premissas básicas dos empresários: a reforma tem que baixar drasticamente a carga tributária para o nível dos nossos concorrentes nos mercados internacionais e tem que simplificar substancialmente a burocracia fiscal, a fim de reduzir os custos da administração tributária, tanto para o Fisco, como para as empresas. No início do mês de agosto último, foi divulgada a versão preliminar do Substitutivo do deputado Mussa Demes, Relator do projeto da Emenda Constitucional PEC 175/95, em curso na Comissão Especial da Câmara dos Deputados. O projeto vem precedido de lamentável constatação: a carga tributária não vai diminuir e tudo indica que vai crescer; então, sobra apenas a expectativa de que a reforma produza uma simplificação que valha a pena. Em que consiste a anunciada Reforma Tributária? A primeira preocupação está dirigida, visivelmente, para reduzir a parafernália dos dois principais tributos, o ICMS, sujeito a 27 diferentes legislações estaduais, altamente sonegável e oneroso, e o IPI, complicado e ineficiente, pesando sobremaneira sobre a produção industrial. Assim, propõe-se a fusão desses dois impostos em um novo e único ICMS, regulado por lei federal, o que garantirá a harmonização do sistema e a uniformidade das alíquotas, praticamente inibindo o desperdício das guerras fiscais. Até aí, tudo bem. Acontece, porém, que o novo ICMS envolve uma complicação potencial, difícil de ser avaliada, com duas alíquotas, uma cobrável pelo Governo Federal para compensar a perda do IPI, e outra pelos Estados, deixando antever a confusão que advirá dos conflitos e infrações fiscais, com duas fiscalizações 84 sobre os mesmos fatos geradores, confluindo para um contencioso administrativo e um Judiciário colocados na esfera estadual. Acrescente-se a isso a incorporação ao novo ICMS do atual imposto municipal sobre serviços (ISS) e a criação de um nebuloso imposto sobre residuais vendas a varejo e prestação de serviços (IVVS), para compensar a perda de arrecadação dos municípios. Daí, a grande preocupação do comércio em geral, que passaria a sofrer a presença das três fiscalizações simultâneas, federal, estadual e municipal. A confluência desses três impostos deverá produzir um ICMS final de alíquota ou alíquotas muito mais altas do que as atuais, podendo onerar absurdamente a prestação de serviços, hoje sujeita a alíquotas que variam de 0,5% a 5%. Apesar desses inconvenientes previsíveis, há uma evidente vantagem nessa proposta de fusão de impostos, na medida em que se passe a cobrar o ICMS preferentemente no local de destino do produto, representando uma substancial economia de capital de giro na indústria e no comércio, uma vez que o imposto só será recolhido após a realização da venda ao consumidor final. Outra vantagem óbvia poderá advir da exclusividade da alíquota federal nas operações interestaduais, no prazo de 5 anos, eliminando as barreiras rodoviárias entre os Estados e facilitando enormemente a compensação (crédito) do imposto pago nas operações anteriores, na seqüência da cadeia produtiva. Isto, entretanto, não elimina a complexidade relativa às operações interestaduais, quando existirem um ou mais fatos geradores antecedentes, dentro do Estado produtor, sujeitas à dupla tributação do novo ICMS. Um importante e fundamental benefício também advirá da proposta de extinção do PIS/PASEP, da COFINS, da CSLL, assim como do CPMF (a partir do ano 2001), odiosas contribuições sociais cobradas em cascata, que oneram sobremaneira as atividades econômicas e, principalmente, as exportações, ao 85 mesmo tempo em que favorecem as importações, desguarnecendo a defesa da produção e do trabalho nacionais. Também se extingue o “salário educação”. Esse benefício, entretanto, vai depender da natureza e da alíquota da Contribuição Social que se pretende criar em substituição aos impostos e contribuições que forem extintos. É difícil fazer uma avaliação dos resultados e da eficácia da Reforma Tributária proposta pelo Relator deputado Mussa Demes, até mesmo pela precariedade das simulações. Como se disse, tudo aponta na direção de uma carga tributária ainda mais pesada, o que frustraria todos os objetivos e, certamente, agravaria a recessão econômica, o desemprego e a insatisfação social. Daí, a pertinência da pergunta: será que vale a pena dar esse salto no escuro e promover uma dramática e traumática mudança no sistema tributário, ante a expectativa de duvidosos resultados? 86 AS AGRURAS DA PREVIDÊNCIA SOCIAL JORNAL DO COMMERCIO - 06 DE OUTUBRO DE 1999 Qualquer sistema de previdência social, à semelhança das empresas de seguro, tem que, necessariamente, basear-se na acumulação de recursos em um Fundo de Capitalização, cujas reservas técnicas, aplicadas no mercado financeiro, sejam capazes de produzir renda suficiente para atender o pagamento futuro das aposentadorias e pensões de seus associados. Em todo sistema de previdência existem duas fases distintas: a primeira, em que a acumulação das contribuições excede de muito o pagamento dos benefícios; e a segunda, quando o sistema entra em “velocidade de cruzeiro”, e os rendimentos do Fundo mais as contribuições dos ativos e inativos são suficientes para dar equilíbrio atuarial ao sistema. Estas observações, como é óbvio, são elementares, e qualquer especialista, com adequadas estatísticas demográficas, é capaz de montar e administrar um empreendimento do gênero. Entretanto, quando se examina a situação atual do sistema previdenciário no Brasil, toda essa lógica desaba, seja no que se refere ao setor público dos servidores da União, dos Estados e dos Municípios, seja no que tange ao INSS, isto é, ao sistema que compreende os trabalhadores do setor privado. A única exceção 87 são os Fundos de Previdência fechados, tipo Previ, do Banco do Brasil, ou Petros, da Petrobrás, onde ainda prevalece a lógica do cálculo atuarial, embora haja casos flagrantes de deficiência das reservas técnicas, fruto de má administração. O Sistema previdenciário do Brasil foi vítima da falta de previsão e de provisões, no período das “vacas gordas” e, agora, simplesmente, o sistema não tem recursos para auto-sustentar-se. Vejamos o caso do Governo Federal, onde jamais ocorreram as contribuições regulares devidas pela União, em compasso com a contribuição dos servidores, o que, visivelmente, compromete qualquer esquema para dar auto-sustentação ao sistema. Assim, todos os anos, o pagamento dos servidores aposentados e seus pensionistas tem que sair do orçamento, porque não existe um Fundo que administre os recursos acumulados previamente. Some-se a isso, os privilégios e abusos, especialmente no Legislativo e no Judiciário, e também no Executivo, onde a média de idade dos aposentados é de menos de 50 anos e onde ainda existem professores que se aposentam com 25 anos de serviço. Atualmente, a União desconta dos servidores em atividade, R$ 2,8 bilhões e paga R$ 23 bilhões aos funcionários aposentados e seus pensionistas. Não há nada de estranho nesse processo, a não ser a imprevidência e a omissão dos administradores públicos, que permitiram que se acumulasse o brutal déficit atual. Como exatamente o que aconteceu com a União, também aconteceu nos Estados e nos Municípios, o veredicto é fatal: o sistema previdenciário do setor público está falido, e, em mais alguns anos, vai levar à falência os Governos federal, estaduais e municipais. Daí a recomendação: é preciso reformar a Previdência! Mas reformar, como? A idéia básica é tirar o Governo do jogo, o quanto possível, dividindo o sistema em duas partes: uma universal, que atenderia a todos os segurados, servidores públicos ou do setor privado, e que teria 88 como limite o valor de, por exemplo, dez salários mínimos (R$ 1.360,00). O empregado pagaria 10% de seus vencimentos e o empregador 20%, exatamente como funciona o sistema atual do INSS. Acima desse teto, os segurados teriam que, voluntariamente, associar-se a um Fundo de Previdência privado, a fim de complementar suas aposentadorias. Nesse caso, a contribuição do segurado seria variável, de acordo com a idade escolhida para aposentar-se. Até aí, parece possível levar a reforma. O problema, o grande problema, é como lidar com a transição de um regime ao outro, pelo fato espantoso de que o valor presente do passivo previdenciário corresponde ao fantástico valor de três vezes o valor do PIB nacional, segundo o IPEA. Para sustentar a situação atual, o Governo apela para sucessivos aumentos de tributos e até para a apropriação indébita, exigindo das pessoas aposentadas, que voltam a trabalhar, que continuem contribuindo duplamente para o INSS, sem perspectiva de qualquer benefício adicional. Em verdade, ninguém adere, voluntariamente, ao INSS, porque o sistema é caro, a contribuição - 20% do empregador e 10% do empregado - é muito alta e o benefício final é muito inferior à contribuição. Por isso mesmo, o melhor que o Governo pode fazer é reduzir o sistema ao mínimo, com o maior grau possível de liberdade de opção. A exigência de uma idade mínima para aposentar-se e um período mínimo de contribuições são requisitos mínimos para qualquer sistema de base atuarial e o Congresso Nacional cometerá uma leviandade se não der cobertura a essa proposta do Executivo. Essa é a proposta correta, obviamente superior à alternativa do chamado “fator previdenciário”. Enquanto isso, é preciso encontrar uma solução legal para superar a decisão do STF e continuar a recolher dos aposentados e pensionistas atuais as devidas contribuições. Essa é, realmente, a solução mais justa, pois, do contrário, a conta final dos 750 mil servidores públicos aposentados terá que ser paga pelos 163 milhões de brasileiros, que, afinal, nada têm a ver com a inoperância do sistema governamental. 89 Capítulo 3 Economia Brasileira ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ Juros: O Grande Vilão Situação Econômica do País 1999: Um Ano Difícil Mobilização Nacional Conjuntura Econômica Desafios da Política Econômica Taxas de Juros Mortais Indexação: Nunca Mais O Comércio e a Crise O Setor Público e a Crise Nacional JUROS: O GRANDE VILÃO A GAZETA (VITÓRIA) - 15 DE MAIO DE 1998 Em 15.03.98, o então Secretário Econômico do Ministério da Fazenda, Mendonça de Barros, hoje diretor da CAMEX, disse bem: o desemprego só cai com a queda dos juros. Essa questão suscita uma outra: pode a economia brasileira crescer a 7% ao ano, duplicando as suas dimensões a cada dez anos? É lógico que pode. Desde a década dos anos 40 até o ano de 1980, durante mais de quarenta anos, o PIB nacional cresceu a uma taxa média de 7%. E mais, no período de 1956 a 1960 (governo JK), a taxa anual de crescimento chegou a 10%, o mesmo que no chamado milagre econômico, de 1967 a 1974. A economia sofreu um tranco com as duas crises do petróleo. Na primeira crise, de 1973/74, a recessão foi evitada pela política do Governo Geisel, de sustentar o crescimento com endividamento externo. Na segunda crise, que durou de 1979 a 1983, no Governo João Figueiredo, a brusca elevação dos preços do petróleo coincidiu com a explosão dos juros internacionais, acompanhada da deterioração dos preços das commodities e da redução do comércio internacional. Os juros chegaram a 21 % ao ano, mais os spreads, incidindo sobre a dívida externa acumulada no período anterior, que começava a ser paga. Foi um grande desastre. O PIB caiu 8% de 1981 a 1983, em função dessa agressão vinda de fora. Quando os juros externos caíram e 93 também os preços do petróleo, a economia voltou a crescer vigorosamente: 5,3% em 1984, 8,0% em 1985 e 7,6% em 1986. Mas esse novo surto de crescimento não agüentou os desacertos da nova administração, a partir de 1986, respaldados pela inconseqüente moratória de 1987 e as insensatas propostas nacionaleiras, que vieram a se incorporar à Constituição de 1988. Foi o segundo grande desastre. O primeiro veio de fora, inevitável, o segundo veio de dentro do Governo, fabricado em Brasília. Ainda assim, na década perdida dos 80’s, o ritmo anual de crescimento econômico (2,7%) foi superior ao do período 1990/1997 (2,1 %). É uma prática habitual dos Bancos Centrais, em momento de grandes incertezas econômicas, fortes pressões inflacionarias, especulação cambial ou fuga de capitais, elevar aos níveis mais altos as taxas de juros. Pelos seus efeitos abrangentes, a elevação dos juros funciona com inibidor de todas essas ações, convertendo a saída de capitais em novos fluxos de financiamentos externos. Em 1992, a conservadora Suécia, com uma inflação de cerca de 3%, elevou a taxa anual de juros a 500%, durante uma semana. Em 1979, os Estados Unidos elevaram os juros básicos de 5% para 21%. Mais recentemente, na crise asiática, Hong-Kong elevou as taxas de redescontos a 300% ao ano, também por um período de poucas semanas. O Banco Central do Brasil não fugiu à regra: no dia 28/10/97, pressionado por uma brusca demanda de dólares que causou uma perda de US$ 10 bilhões nas reservas cambiais, não teve dúvida em elevar a taxa anual de redescontos bancários de 20% para 43%, reduzida sucessivamente até 23,25% em abril. Com essa ação rápida, o Banco Central conseguiu estancar a saída de dólares e, mais do que isso, inverteu totalmente a situação, provocando um ingresso extraordinário de dólares de curto prazo. Só no mês de março, calcula-se que entraram no País cerca de US$ 12 bilhões, elevando as reservas cambiais a US$ 70 bilhões. 94 Esse procedimento, entretanto, produziu dois resultados altamente negativos. De um lado, agravou ainda mais o déficit do Governo Federal e dos Estados, obrigando a União, para cobrir o déficit, a cortar gastos e aumentar impostos, no montante combinado de R$ 20 bilhões. De outro lado, houve um resfriamento das atividades econômicas. A produção industrial caiu 8% no bimestre novembro/dezembro e o crescimento do PIB nacional de 1998, previsto inicialmente em 4%, deverá cair para cerca de 2% ou menos. Isto prova que taxas de juros altas não podem durar muito tempo. Não compensam os prejuízos. As taxas reais de juros no Brasil são seis ou sete vezes mais altas que a dos países desenvolvidos e constituem a primeira explicação lógica para justificar a lentidão do nosso crescimento. Taxas de juros altas servem, temporariamente, para aliviar as pressões inflacionárias do lado da demanda, quando elas vêm do setor privado. Fora disso, todos os seus efeitos são negativos, a começar pela redução da propensão a investir, pelo adiamento dos projetos de investimento, pelo encarecimento do capital de giro, redução das atividades econômicas e desemprego, e pela sobrecarga na dívida do setor público, agravando o déficit fiscal. No caso brasileiro atual, as altas taxas de juros também desestimulam as exportações e favorecem a concorrência das importações financiadas. As brutais taxas de juros que se praticam hoje no Brasil são o terceiro grande desastre. E por que o Governo não reduz a taxa de juros? Porque não pode. Está preso à armadilha de um plano de estabilização que, se ancorou na taxa de câmbio sobrevalorizada. A política cambial, a partir de julho de 94, desmontou o equilíbrio do balanço de pagamentos, construído a duras penas desde 1983, e provocou déficits astronômicos nas contas externas: US$ 33,5 bilhões, em 1997! Para financiar esse buraco, o Banco Central tem que atrair capitais financeiros, mediante a oferta de um 95 rendimento muito superior ao que obteriam no exterior. É o câmbio valorizado que produz a taxa de juros alta. Mas é a taxa de juros alta que produz o déficit fiscal, a retração econômica e o desemprego. No final, vários ingredientes se combinam: déficit externo, juros altos, câmbio baixo, salários represados, PIB lento, insuportável carga fiscal, crescente dívida pública. Diferentes na forma, mas de origem comum e, igualmente, de nefastas conseqüências. A grande tarefa nacional, o grande desafio que se coloca, hoje, à frente do Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, é a desmontagem dessa armadilha. Para dar consistência e continuidade ao Plano Real. 96 SITUAÇÃO ECONÔMICA DO PAÍS REUNIÃO DE DIRETORIA - 18 DE JUNHO DE 1998 Senhores Diretores, Eu gostaria de ocupar parte desta reunião para trocar idéias com os companheiros sobre a situação econômica do País. Estão chegando ao meu conhecimento, de vários Estados, manifestações de pessimismo sobre os rumos da economia nacional e sérias preocupações com os desequilíbrios na área externa e no setor público. Ao meu ver, é oportuno procurarmos fazer uma avaliação da situação econômica, principalmente face à crescente carga tributária e ao longo período de juros elevados. Estamos nos aproximando do 4o aniversário do Plano Real e podemos comemorar o extraordinário sucesso no controle da inflação. Em 1990, tivemos 1.500% de inflação em 1992, 1.160%, em 1993, 2.700%. A inflação galopante paralisou o crescimento econômico. No ano passado, a inflação chegou a 7,5% e neste ano não deverá ir além de 4%. Inflação civilizada, equivalente à dos grandes países industrializados. Todos nós esperávamos 97 que com a queda da inflação o País retomasse o ritmo tradicional de crescimento econômico, que já havia começado em 1993, com a mudança de Governo, o aumento das exportações e o início do programa de privatizações. De fato, a economia cresceu quase 5% em 93 e cerca de 6% em 94, com o lançamento do Plano Real e a retomada do consumo. Mas o Plano Real cometeu um equívoco sério, permitindo que nos primeiros seis meses de sua implantação, contra uma inflação de 20%, houvesse uma sobrevalorização cambial de 17%. Esse fato, aliado ao programa de abertura e à drástica redução das tarifas, inundou o mercado nacional de importações. Um erro que desorganizou totalmente as contas externas. Em 1992, em plena recessão, nossas exportações cresceram 13,4% e as importações caíram 2,3%. O saldo positivo da balança comercial foi de 15 bilhões de dólares, contra um déficit de 11 bilhões de dólares da conta “Serviços”. Em 1993 e 94, ainda tivemos um saldo comercial acumulado de US$ 23,3 bilhões. Mas, a partir de 1995, tudo mudou, as exportações perderam impulso, e as importações cresceram vertiginosamente. Para sustentar esse desequilíbrio crescente e financiar os sucessivos déficits externos, o Banco Central elevou as taxas de juros, cerceou a expansão do crédito interno com o recolhimento dos depósitos compulsórios e as cunhas fiscais e abriu as portas para os financiamentos externos. A taxa de câmbio continuou sobrevalorizada. As taxas de juros elevadas, o câmbio sobrevalorizado, a pesada e crescente carga fiscal causaram pesados danos: 98 - o PIB nacional entrou em declínio 1994: 5,85% 1995: 4,22% 1996: 2,76% 1997: 3,03% 1998: 1,50% (estimativa) De 1994 a 1997, as exportações cresceram 36,6%, contra um crescimento de 139,6% das importações. De janeiro a maio de 98, as exportações atingiram US$ 21,2 bilhões (+ 5,7%) e as importações US$ 23,2 bilhões (-0,8%). - O déficit em Transações Correntes passou de US$ 4,3 bilhões em 1994, para US$ 35,6 bilhões em 1997. Em 1998, deverá chegar a mais de US$ 30 bilhões. Em três anos, o País acumulou um déficit de US$ 85,0 bilhões. Em 1997, o Brasil gastou US$ 14,5 bilhões com juros externos, US$ 6,5 bilhões com remessa de lucros, US$ 4,5 bilhões com fretes marítimos e US$ 4,5 bilhões com viagens e turismo. As remessas dos dekasseguis e outros caíram de US$ 2,73 bilhões (1996) para US$ 1,46 bilhão (1997). - O déficit do setor público, que deveria ser zerado, com o Plano Real, chegou a 6,12% do PIB em 1997 (R$ 48 bilhões) e caminha para 7%, apesar do aumento da carga tributária de 24% para 30% do PIB. Em março de 98, o Governo gastou R$ 3,2 bilhões de juros e, em abril, R$ 3,7 bilhões. - A dívida externa do País aumentou de US$ 145,7 bilhões em 1993 para US$ 192,9 bilhão em 1997 e cerca de US$ 220,0 bilhões, atualmente. A dívida pública em títulos federais aumentou de R$ 153,2 bilhões em 99 1994 para R$ 211,0 bilhões em 1997 e continua aumentando. Em compensação as reservas cambiais passaram de US$ 9,4 bilhões, em 1991, para US$ 51,4 bilhões, em 1997, e US$ 73,9 bilhões, em abril de 1998 (!). Observe-se que para cada novo bilhão de dólares acumulados nas reservas, o Brasil perde cerca de cem milhões de dólares. - O desemprego da mão de obra nacional, tradicionalmente ao nível de 4% a 6%, está aumentando rapidamente. Em 1997, chegou a 5,71%, em janeiro de 98 a 7,25%, em fevereiro 8,18%, em março 7,94%. - Não entramos, aqui, em considerações de ordem política, mas, visivelmente, os resultados econômicos estão prejudicando as possibilidades de reeleição do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Do ponto de vista setorial, os resultados, embora contraditórios em algumas áreas, não são muito diferentes. No setor agrícola, a safra de grãos 1998/97 , prevista inicialmente em 80,8 milhões de tons., deverá cair para 75,6 milhões, menor do que a safra de 1997/96, devido às fortes chuvas no Sul e à seca no Nordeste. Os setores mais afetados são feijão, arroz e milho. Entretanto, a produção agrícola deve aumentar nos seguintes setores: algodão (+72,6%), café (+27,8%), soja (+18,9%), cana de açúcar (+2,5%). Os preços médios das nossos principais “commodities” de exportação estão em queda: açúcar (-5,0%), fumo (-22,2%), soja em grãos (-16,4%), farelo (-22,5%), além de carne bovina (-16,3%) e frango (-16,5%). Em alta, com tendência de baixa, café e suco de laranja. De janeiro a abril, a exportação de agropecuários atingiu US$ 3,53 bilhões , comparado com US$ 3,70 bilhões em 1997. Por outro lado, há sinais positivos nas compras de maiores quantidades de adubos e máquinas agrícolas. 100 Na área industrial, em 1997, houve altos e baixos, tendo como fato mais destacado a retração da demanda de bens de consumo duráveis, que tivera forte expansão em 1995 e 1996. A queda se deu pelo esgotamento do poder de compra dos assalariados e pelo crescente índice de inadimplência. A indústria automobilística, entretanto, só sentiu essa recessão a partir de dezembro de 97, após a crise asiática. Apesar da queda de 3,5% em novembro e 5,0% em dezembro, em conjunto, a indústria cresceu 3,9% em 1997, devido ao melhor desempenho da construção civil e da produção de equipamentos. A indústria do Rio de Janeiro foi a que menos cresceu em 97, 1,8%. A indústria têxtil foi a que mais sofreu. Em 1992, tínhamos 4.584 indústrias, com 2,2 milhões de trabalhadores e, em dezembro de 1997, apenas 3 mil, com 800 mil. Em Americana - SP, de 1.500 indústrias só restam 650. Em 1998, de janeiro a abril, a indústria recuou 1,1% , segundo o IBGE. As vendas da indústria automobilística caíram 23,18%, mas a de caminhão cresceu 4,68% e a de ônibus 26,51%, apesar da queda de 1,24% nos ônibus rodoviários. No comércio interno, especialmente o comércio varejista, tem sido um dos setores mais sacrificados com os descompassos da política econômica. Em 1994 e 1995, experimentou um enorme crescimento, devido ao Plano Real: estabilização dos preços, maior poder de compra dos trabalhadores, aumento das importações e, sobretudo, pela volta das vendas a prazo. Mas, a partir de 1996, a situação se inverteu. Naquele ano, o comércio varejista sofreu uma queda no faturamento real de 5,9%. Em 1997, não foi diferente e nas 6 maiores regiões metropolitanas caiu 8,25%. As maiores quedas ocorreram nos setores de bens de consumo duráveis, semi-duráveis, auto-peças e materiais de construção. Em 1998, de janeiro a abril, o comércio varejista recuou cerca de 13%, em praticamente todas as regiões metropolitanas. As maiores 101 quedas são, agora, nos setores mais afetados pelas taxas de juros: automotivo, materiais de construção, semi-duráveis e duráveis. Nos supermercados, houve um aumento de 4,9% em abril sobre março, fazendo com que no acumulado janeiro/abril o resultado fosse positivo em 1,5%. A retração no comércio se deve, basicamente, ao desemprego, ao recuo da massa salarial, ao aumento dos impostos e à inadimplência, pelo resíduos do excessivo crédito ao consumidor. Segundo Abram Szajman (FCESP), a maior queda é no segmento das pequenas e médias empresas. SINAIS POSITIVOS Em meio a esse quadro negativo, cabe assinalar, entretanto, que há indicadores positivos em vários setores. A FIESP, contrariamente ao IBGE, vem registrando continuo crescimento da indústria paulista em 1998: +2,9% em janeiro, 2,3% em fevereiro, 4,0% em março e 2,7% em abril. Por outro lado, o consumo de energia elétrica, que cresceu 6,7% em 1997 (+4,4% na indústria), continuou crescendo, no período janeiro/março: Industrial: + 1,2% Comercial: + 9,8% Residencial: + 9,8% Total: + 6,7% Paralelamente, a produção de petróleo aumentou em 8,4%, de nafta 32,5% e de diesel 8,3%. A indústria de cimento aumentou a produção em 10% (+4 milhões de tons.) e já se aproxima de sua plena capacidade industrial. De janeiro a abril, as exportações de manufaturados cresceu 16,8%, compensando a queda dos produtos primários. 102 Um estudo recente da ECONOMÁTICA indica que, em uma amostra de 166 empresas industriais, 115 registraram lucro no 1o trimestre, 113 aumentaram a receita líquida e 97 conseguiram lucro maior que no mesmo período de 97. As informações mais alvissareiras vêm da Associação Brasileira da Indústria de Base. Segundo a ABDIB, estão em curso, neste ano, US$ 21 bilhões de investimentos nos setores de infra-estrutura, entre os quais se destacam as obras do Gasoduto Brasil-Bolívia, as hidroelétricas de Serra da Mesa (Goiás) e Itá (Santa Catarina), a FERRONORTE, o linhão Norte-Sul, as termoelétricas da CSN, de Uruguaiana e Cuiabá. Esses empreendimentos fazem parte dos 179 projetos de expansão do setor elétrico. Ainda segundo a ABDIB, estão em execução outros 370 projetos industriais, no valor de US$ 60,8 bilhões e em programação mais 729 projetos cujos investimentos, até o ano 2.002, poderão atingir o montante de US$ 154,2 bilhões. Eu gostaria de encerrar estas observações com os resultados apurados em maio, pela FCESP, em pesquisa de opinião com 800 lojistas do comércio tradicional, não incluindo os shoppings. Embora 29% acreditem que a economia piorou em maio, 54% dos lojistas entrevistados acham que a economia do País está estável e 43% acreditam que seus negócios vão melhorar, no médio prazo. Vemos, assim, que os dados publicados sobre a conjuntura nacional apresentam contradições e divergências que, certamente, se devem à deficiência das estatísticas oficiais. Por isso mesmo, esta análise não é conclusiva e espero que possa ser enriquecida com as observações dos diretores aqui presentes. 103 104 10.753 -15.369 Balança Comercial - Saldo Balança de Serv iços - Saldo -2.196 Outros Fonte: Banco Central -1.592 -69 -1.643 -121 Lucros e Div idendos Seguros Transportes Viagens Internacionais -9.748 20.661 Importações (FOB) Juros 31.414 Exportações (FOB) 1990 -2.256 -665 -132 -1.656 -212 -8.621 -13.542 10.579 21.041 31.620 1991 -1.776 -574 -58 -1.359 -319 -7.253 -11.339 15.239 20.554 35.862 1992 -2.539 -1.831 -46 -2.090 -799 -8.280 -15.585 13.307 25.711 38.783 1993 (US$ milhões) -2.168 -2.483 -132 -2.441 -1.181 -6.338 -14.743 10.446 33.168 43.558 1994 BALANÇO DE PAGAMENTOS -2.294 -2.590 -122 -3.011 -2.419 -8.158 -18.594 -3.352 49.858 46.506 1995 -2.359 -2.373 -62 -3.480 -3.593 -9.840 -21.707 -5.539 53.286 47.747 1996 -2.485 -5.597 74 -4.514 -4.377 -10.390 -27.288 -8.372 6.597 52.986 1997 -2.346 -7.181 81 -3.259 -4.146 -11.948 -16.339 -6.591 57.711 51.120 1998 1999: UM ANO DIFÍCIL JORNAL DO BRASIL - 19 DE OUTUBRO DE 1998 Ao terminar a reunião do FMI/Bird, o ministro Pedro Malan disse que o ano de 1999 vai ser muito ruim. O Presidente Fernando Henrique, reeleito, auspiciosamente, para um segundo mandato (1999 a 2002), vai ter que enfrentar os obstáculos mais difíceis que confronta, hoje, a economia brasileira, convivendo com um profundo desequilíbrio estrutural no Balanço de Pagamentos e um crescente e assustador déficit no setor público. Se a situação da economia brasileira já era difícil, tornou-se ainda mais grave com o aprofundamento da crise asiática em outubro de 1997 e a moratória da Rússia em agosto último. E não pararam aí os efeitos negativos da crise. Confirmando as preocupações sobre o que todos temiam, os abalos financeiros estão chegando à Europa e aos Estados Unidos, dentro do quadro de especulações que começou nas Bolsas de Valores e se estendeu aos mercados cambiais, envolvendo as maiores instituições financeiras mundiais. Uma única instituição americana, através da qual operavam grandes bancos internacionais, especializou-se em operações especulativas de alto risco e teve que receber empréstimo de emergência de US$ 3,5 bilhões, para cobrir a queda em seus ativos de US$ 100 bilhões. O Japão tem sido o palco mais recente dessas especulações: no primeiro momento, os operadores levantaram grandes somas de ienes, a juros baixíssimos, para comprar dólares, fazendo com que as 105 cotações chegassem a 147 ienes por dólar; no momento seguinte, esses mesmos operadores começam a vender os T-Bonds dos Estados Unidos, que caem de preço, e usam os dólares para resgatar os empréstimos em iene. Resultado: o iene derrubou o dólar e voltou ao nível de 116, em apenas 15 dias. A volatilidade das bolsas está ameaçando o comércio internacional e a produção mundial e já são claros os primeiros sinais de uma recessão generalizada. O Brasil está pagando, hoje, o preço de sua ingenuidade, ao escancarar as portas da economia nacional, sem contrapartida, sem possuir mecanismos de defesa contra os aventureiros internacionais. Somente agora, será possível construir um cinturão de segurança contra a especulação. Ao que tudo indica, o Brasil vai ser o país pioneiro na construção de um novo esquema de apoio preventivo, a ser configurado em acordo a ser firmado com o FMI, com a participação do Banco Mundial e do BID. O governo vai adotar todas as providências possíveis para equacionar os problemas da área externa, exceto alterar a política cambial. Na área interna, prevê-se um aumento de impostos de cerca de RS 10 bilhões e um corte de despesas de R$ 32 bilhões. O corte das despesas deverá recair principalmente sobre os investimentos e outros custeios, em cerca de R$ 10 bilhões, e sobre a conta dos juros, que deverão ser reduzidos de R$ 64 bilhões em 1998 para R$ 44 bilhões em 1999. Assim, com um superávit primário do setor público da ordem de 2,5% do PIB, poder-se-ia reduzir o déficit nominal de R$ 64 bilhões neste ano, para R$ 22 bilhões no ano próximo. Para que esse programa seja realizado, é preciso que os juros caiam de 7,5% do PIB para 5%, basicamente uma redução da taxa média de 22% nos 12 últimos meses para cerca de 15% no próximo ano. Não se mencionou, até agora, a possibilidade de realizar parte desse ajuste fiscal com emissões de moeda. 106 Na área externa, o objetivo é menos ambicioso e vai depender mais do mercado do que do governo. As exportações poderão cair de 2% a 3% e as importações de 9% a 10%. Com isso, estima-se reduzir o déficit em Transações Correntes de US$ 31 bilhões, neste ano, para US$ 26,5 bilhões em 1999, para cuja cobertura conta-se com o ingresso de investimentos diretos, inclusive privatizações, da ordem de US$ 23 bilhões, segundo o ministro Pedro Malan. Se as linhas de crédito bancário puderem ser mantidas, assim como a rolagem de parte das amortizações, restaria um déficit de cerca de US$ 10 bilhões, a ser coberto pelo FMI, outros financiamentos ou mediante perda de reservas. Paralelamente, o governo, com o decidido apoio do Congresso, deverá empenhar-se na aprovação de duas reformas básicas, a da Previdência Social e a do sistema tributário. Apesar do sacrifício, tudo indica que valerá a pena se, realmente, as taxas de juros puderem ser drasticamente reduzidas. Porque esse será, certamente, o primeiro passo para sair da crise e iniciar a recuperação econômica. 107 MOBILIZAÇÃO NACIONAL FOLHA DE SÃO PAULO - 03 DE NOVEMBRO DE 1998 O Plano Real foi concebido em duas dimensões, a primeira configurada como medida básica para estancar o violento processo inflacionário a que esteve submetida a sociedade brasileira nos anos anteriores, e a segunda voltada para a recuperação das poupanças nacionais e a criação de um quadro de investimentos capaz de promover a retomada do desenvolvimento econômico. Foram muitas as razões que alongaram o prazo de execução da primeira fase do plano de ação do Governo, consumindo-se importantes energias para sustentar a política de combate à inflação. A estratégia adotada para cumprir esse objetivo estava assentada, basicamente, na elevação dos níveis de produtividade da empresa nacional, em confronto com as empresas estrangeiras, através de uma política de abertura econômica e maior integração aos mercados internacionais. Esse processo, obviamente, iria requerer o prazo de alguns anos para sua consolidação, eis que, necessariamente, as primeiras etapas do programa iriam representar um agravamento do desequilíbrio das contas externas, pela precipitação das importações. A estratégia do Plano Real não deveria ser comprometida por esse desequilíbrio, face à existência de adequados financiamentos propiciados pela abundante liqüidez 109 internacional, complementados pelo maior afluxo de investimentos diretos, inclusive atraídos pelo amplo programa de desestatização. A evolução da conjuntura econômica internacional, principalmente a expansão da economia norte-americana e as perspectivas da União Européia, indicava o alto grau de possibilidades para se atingir os objetivos almejados. Do outro lado, colocava-se um programa de reformas de base, principalmente nas esferas administrativas, tributária e previdenciária, indispensáveis para equacionar os problemas derivados do desequilíbrio fiscal, agravados desde a Constituição Federal de 1988. Tragicamente, as reformas não prosperaram, por múltiplas razões, procrastinando as soluções dos problemas internos e agravando a situação deficitária dos três níveis de Governo, assoberbados com os crescentes déficits da previdência social e os pesados encargos da dívida pública. As turbulências nos mercados financeiros internacionais aumentaram as dificuldades de equacionamento dos problemas, na medida em que ampliaram o quadro de incertezas dos investidores nacionais e estrangeiros, elevando penosamente o custo dos financiamentos e refreando as possibilidades de crescimento da economia nacional O primeiro impacto surgiu com a crise do México, no final de 1994, que levou o Banco Central a endurecer a política monetária, agravando ainda mais o desequilíbrio fiscal. Novos choques ocorreram em 1997, em decorrência da crise no Sudeste Asiático e, em seguida, em agosto do corrente ano, com a moratória decretada pela Rússia. A rapidez com que ocorreu a fuga de capitais e a perda de reservas indicaram a necessidade de recorrer ao aval do Fundo Monetário, com o apoio do Governo dos Estados Unidos, a fim de restaurar a confiança dos investidores estrangeiros. Do mesmo modo que na área externa vai se recorrer à ajuda do FMI, na área interna propõe-se a adiar o colapso das contas públicas 110 com um dramático ajuste fiscal, absolutamente indispensável como primeiro passo para se chegar a uma solução definitiva do desequilíbrio orçamentário. A crise do setor público, atualmente, está ancorada no crescente déficit da Previdência Social, cerca de R$ 27 bilhões, anuais, e dos explosivos encargos da dívida pública, calculados, atualmente, em R$ 64,5 bilhões, cerca de 7,5% do PIB nacional. É evidente que a crise do setor público só poderá ser corrigida se houver uma dramática redução dos juros e um adequado equacionamento do sistema previdenciário. Para que se atinja esse objetivo, não há alternativa: o Governo tem que fazer um ajuste fiscal urgente, capaz de estabilizar a dívida pública interna. A proposta anunciada pelo Presidente Fernando Henrique vai nessa direção. É uma proposta de salvação nacional e toda a sociedade brasileira tem que entender e aceitar o sacrifício inevitável para implementá-la. Temporariamente, os empresários vão pagar mais impostos e a classe média pode perder algum poder de compra, com repercussões sobre o nível de desemprego. Mas o sacrifício deverá ter curta duração, pelo prazo suficiente para que o Governo derrube os juros e promova os ajustes necessários no sistema de seguridade social. Se isso acontecer, rapidamente, a queda dos juros vai estimular as atividades econômicas e criar novas oportunidades de emprego, compensando os efeitos do ajuste fiscal. A partir daí, poder-se-á caminhar para uma reforma tributária racional e definitiva, capaz de aliviar o peso do Estado sobre a sociedade civil e abrir caminho para a recuperação econômica. A compreensão desse processo é indispensável, para que se possa contar com o apoio dos empresários, dos trabalhadores e, especialmente, dos políticos, membros do Congresso Nacional e dos Executivos estaduais, além do necessário apoio dos membros do nosso Sistema Judiciário. Estamos em guerra. É hora de uma mobilização nacional. 111 CONJUNTURA ECONÔMICA ENTREVISTA AO JORNAL DO COMMERCIO - 30 DE NOVEMBRO DE 1998 JC: Falando em Economia: na sua opinião, qual é o rumo da economia nacional, na atual conjuntura? AOS: Visivelmente, a economia brasileira vem perdendo dinamismo nos últimos quatro anos. Em 1993, a economia do Brasil chegou a crescer 4,2% recuperando-se da longa depressão do período 1987 a 1992. No ano seguinte, em 1994, ainda a economia cresceu 5,8% passando a declinar daí por diante quando caiu para 4,22%, 2,76% e 3,68% em 1997. Neste ano de 1998, a duras penas, a economia brasileira deverá crescer apenas 1%, contrariando todos os cálculos iniciais que apontavam para um crescimento de 4%. A análise por setores revela igualmente uma situação pouco dinâmica e até mesmo de estagnação ou retrocesso. A agricultura continua produzindo cerca de 75 milhões de toneladas de grãos nestes últimos anos, a indústria cresceu um pouco mais rapidamente, impulsionada pela indústria automobilística e a produção de aparelhos eletroeletrônicos, mas, nos últimos anos, vem apresentando um quadro de produção decrescente. O comércio, como se sabe, há três anos ostenta resultados negativos nas suas vendas, em termos reais. Ainda na mesma direção, temos as exportações com uma taxa de crescimento menor do que a taxa de crescimento do comércio internacional e as importações com um crescimento espantoso principalmente no ano de 1996 quando alcançou um expansão 113 de 50,7%. O comércio exterior tem muito a ver com essa tendência de declínio da produção nacional. De 1994 a 1997 as exportações cresceram apenas 37,3% enquanto as importações cresceram 140,8%. O resultado de toda essa perda de dinamismo foi o crescimento das taxas de desemprego que, de um nível em torno de 4,5% tradicional, está caminhando neste final de ano para cerca de 8%. A crise externa, que abalou os mercados financeiros desde meados de 1997, agravou ainda mais a situação econômica do Brasil. Em 1998, como dissemos, o crescimento da renda per capita será negativo e mais negativo ainda será em 1999, quando o próprio Governo prevê uma queda de pelo menos 1% na produção nacional. JC: A que se pode atribuir essa tendência declinante do PIB nacional? AOS: Creio que em primeiro lugar se pode atribuir essa tendência declinante ao comportamento do Estado. O setor público no Brasil, há bastante tempo, deixou de poupar, isto é, passou a gastar muito mais do que arrecada em termos de tributos e, na medida em que vai apresentando déficits, a cobertura dessa deficiência se faz através da absorção de poupanças do setor privado. Mas não é só o fato de que o setor público apresenta uma poupança negativa que traduz essa tendência. Há um conjunto de fatores que contribuem nessa direção, entre os quais se destacam a pesadíssima carga tributária, as estratosféricas taxas de juros, a taxa de câmbio sobrevalorizada e as deficiências do setor de infra-estrutura JC: Como classifica os resultados do Plano Real? AOS: Creio que o Plano Real deve ser analisado sob três ângulos. O primeiro, altamente positivo, está relacionado com o controle da inflação e a interrupção do longo processo 114 inflacionário que durante tantos anos afligiu a sociedade brasileira. É inegável o extraordinário resultado do Plano Real no combate a inflação. Em 1993, tivemos uma inflação de 2700% e neste ano de 1998, cinco anos após, a inflação estará reduzida a cerca de 2%. De outro lado devemos considerar o fato de que o Plano Real , pela sua concepção e com relação às âncoras da política de estabilização, desestruturou o balanço de pagamentos e agravou o desequilíbrio do setor público. Em minha opinião, houve um equívoco inicial na concepção do Plano, ao condicionar os resultados à abertura econômica, tendo de um lado a redução drástica das tarifas aduaneiras e de outro a sobrevalorização cambial. O terceiro ângulo de visão do Plano Real aponta para os fatores de que tornaram o Brasil mais vulnerável em relação às variações da conjuntura internacional. Os fatores mencionados anteriormente criaram uma forte dependência da economia nacional aos fluxos de capitais especulativos e voláteis. JC: Como avalia os impactos da crise no Sudeste Asiático e na Rússia, sobre a economia brasileira? AOS: Na verdade, não houve uma crise, mas sim três crises e três impactos, em momentos diferentes. O primeiro deles ocorreu no final de 1994 e início de 1995, com a crise do México, seguida de forte desvalorização naquele país. Em outubro de 1997, recebemos os impactos da crise no Sudeste Asiático, que havia começado na Tailândia e se irradiou para os demais países, inclusive a Coréia e, finalmente, afetou o mercado bursátil de Hong Kong, cuja Bolsa de Hong Kong caiu 5,8%, no dia 28 de outubro de 1997, revelando um ataque especulativo a sua moeda. Em conseqüência, desabaram os preços dos títulos da dívida externa dos países emergentes, inclusive do Brasil, e a bolsa de São Paulo, naquele dia, caiu 15%. Isso levou o Governo a elevar a taxa de juros de 20% para 42,3%, revertendo uma situação de expansão econômica que vinha desde o início de 1997. A partir 115 de outubro daquele ano, a economia brasileira entrou em rota de recessão. Ainda não haviam cessado os efeitos da crise do Sudeste Asiático, quando ocorreu a moratória da Rússia, com enormes repercussões sobre todos os mercados mundiais, inclusive os grandes países industrializados. Seus efeitos sobre a economia brasileira foram catastróficos, motivando um enorme movimento de fuga de capitais. Nos meses de agosto e setembro deste ano, saíram do Brasil cerca de 30 bilhões de dólares, que representaram perdas correspondentes em nossas reservas cambiais. Novamente, o Governo recorreu a uma brutal elevação das taxas de juros, fazendo recrudecer os efeitos da recessão que já vinha desde a crise asiática. JC: Por que o Brasil, de repente, se viu colocado no epicentro da crise? AOS: Os impactos da crise asiática e da moratória russa sobre a economia brasileira foram uma espécie de gota d’água que fez entornar o copo. O Brasil já apresentava grandes deficiências na área externa e na área interna, como assinalamos antes, mas foram as crises sucessivas no Sudeste Asiático e na Rússia que puseram em evidência as fragilidades e a vulnerabilidade da economia nacional. Ficou claro que o Brasil abusou da falta de controle do déficit externo e do déficit interno do setor público. Agora, levou um grande choque e acordou. Está tomando as providências rigorosas que há muito se impunham para evitar essas fragilidades. JC: Considera que o pior da crise já passou? AOS: Não. Não só a crise não passou como, hoje, se transformou em uma crise global, uma recessão de demanda que pode significar o início de um ciclo recessivo que ninguém sabe onde vai terminar. Alguns analistas consideram, inclusive, 116 que a presente crise tem contornos semelhantes à crise de 1929/33. Felizmente, os Estados Unidos continuam ostentando uma excelente situação econômica e isso tem muita repercussão sobre o restante da economia mundial. Embora pudéssemos dizer que a economia americana, hoje, é a âncora da economia mundial, ainda assim todas as previsões do Fundo Monetário, do BIRD e da OECD apontam na direção de um PIB mundial menor em 1999. Felizmente há também sinais positivos vindos da Ásia, principalmente na Coréia e na Tailândia, onde já se nota uma recuperação na área das exportações, com uma certa estabilidade econômica e uma taxa baixa de inflação. Há, entretanto, um aspecto negativo que pode agravar as tendências recessivas. Ela está situada na área do comércio internacional, que começa ser afetado pelos movimentos protecionistas adotados em grande número de países, especialmente na Ásia, Europa e Estados Unidos. Sobre esse cenário, pairam dois fantasmas no ar: um provém da expectativa de quebra no ritmo de produção nos Estados Unidos, acreditando alguns que os Estados Unidos poderão também entrar em recessão, em função das perdas do comércio internacional. O segundo fantasma é a ameaça de desvalorização do yuan chinês, que poderá causar um grande estrago nos países do Sudeste Asiático, fazendo repetir a crise e a corrida pelas desvalorizações competitivas. JC: Na sua opinião qual a receita para o Brasil sair da crise? AOS: O Brasil vai estar numa crise muito demorada, enquanto persistirem os elevados níveis tributários e as altas taxas de juros. A rigor, poderíamos dizer que três fatores altamente negativos condicionam a situação atual e condenam a economia brasileira à estagnação. São eles: a carga tributária, os juros, e as deficiências do setor de infra-estrutura. Em suma, é o pesado Custo Brasil que 117 vem minando as potencialidades da economia nacional. Quando se pergunta pela receita para o Brasil sair da crise, a resposta deve ser encontrada nesses três setores, ou seja, temos que rapidamente reduzir a carga tributária, fazer baixar os juros da estratosférica altura que atingiram e concentrar maior atenção para aumentar a eficiência dos setores de infra-estrutura. JC: Considera possível o atual Governo realizar esses objetivos? AOS: Sim e não. O programa de privatização, sem dúvida, vai resolver o gargalo da infra-estrutura. Na medida em que o governo vai privatizando os grandes setores, siderúrgicos, comunicações e energia elétrica, a produtividade e a eficiência desses setores vai aumentando, ao mesmo tempo em que, nessa área, passam a se realizar grandes investimentos. De outro lado, a questão dos juros pode ser resolvida por uma ação corajosa do Banco Central. Os juros podem cair drasticamente se houver uma mudança de orientação na política econômica, a começar pela política de exportações. Assim sendo, restaria solucionar a questão da pesada carga tributária. Mas essa solução vai demorar, porque necessita, em verdade, de uma verdadeira revolução. Uma revolução em termos da revisão do Estado, do enxugamento da burocracia oficial, da repartição das responsabilidades entre os três níveis de governo, uma nova Carta Federativa. Impõe-se um corte drástico no número de ministérios, de secretarias e de instituições públicas. Uma revolução necessária da previdência social, para acabar com os abusos e privilégios do setor privado. Uma revolução na política orçamentária da União, para escoima-la das práticas fisiológicas e concentrar-se nos setores básicos da educação, da saúde e do fomento às atividades essenciais. JC: As medidas adotadas em 28 de outubro e a assinatura do Acordo com o FMI podem resolver nossos problemas atuais? 118 AOS: Não. Ainda fica faltando muito para uma solução definitiva. O que se pode esperar, no primeiro momento, é que as medidas que estão sendo adotadas têm nítido caráter recessivo e vão agravar a situação. Mas, logicamente, a médio prazo, os resultados do acordo com o FMI vão ser muito positivos. O Governo vai ser obrigado a cumprir um rigoroso programa de austeridade. Vão ficar claras as responsabilidades do Executivo e do Legislativo, em relação à farra orçamentária. O Congresso Nacional vai ser obrigado a aprofundar as reformas básicas e a estabelecer uma lei que discipline os desmandes dos governos estaduais e municipais. Esse será, sem dúvida, o maior benefício que podemos esperar da crise que nos levou a bater às portas do FMI. JC: E os problemas sociais? AOS: O Brasil convive, hoje como ontem, com a pior distribuição de renda do mundo: 50% da população pobre participa em apenas 10% da renda nacional, enquanto 10% da população mais afortunada participa com 50% da renda. Mas esse é um problema secular, que já existe no Brasil desde os tempos coloniais. No momento, na área social, a questão relevante é a do desemprego. Quem está trabalhando convive com a crise mesmo com o achatamento dos salários. O maior drama está no desemprego, no contexto das famílias cujos componentes perderam emprego ou cujos filhos não conseguem ingressar no mercado de trabalho, por falta de oportunidades. A melhor resposta para o desemprego é o aumento de investimentos e o crescimento econômico. Por isso, não adianta alguns ministérios ficarem correndo atrás de medidas tópicas e paliativas. Estamos desconcentrando a atenção do Governo para discutir os problemas mais relevantes. Estamos perdendo tempo com discussões como o da unicidade 119 sindical, que não está atrapalhando ninguém, e só vai desorganizar a disciplina sindical alcançada ao longo de mais de 50 anos. Estamos perdendo tempo com a discussão sobre a demissão de servidores públicos por insuficiência de desempenho, coisa que todo mundo sabe que é uma utopia, e, pior ainda, já fartamente legislada. JC: Alguma observação final? AOS: Desejo enfatizar que o empresariado brasileiro deposita grande confiança nas potencialidades do País e na capacidade do Presidente Fernando Henrique Cardoso para equacionar os problemas nacionais, oferecer soluções adequadas para sair da crise e obter a necessária cooperação do Congresso e do Judiciário. Os empresários e os trabalhadores estão suportando com patriotismo os sacrifícios que lhes estão sendo impostos na conjuntura atual porque acreditam na elevação de propósitos e na ação do Presidente da República. 120 DESAFIOS DA POLÍTICA ECONÔMICA REUNIÃO DE DIRETORIA - NOVEMBRO DE 1998 A economia brasileira está em visível declínio, como se pode ver pela queda constante do PIB: 5,9% em 1994, 4,2% em 1995, cerca de 3% em 1996 e 97, zero em 1998 e menos 1% em 1999. Há um amplo consenso nacional no sentido de que a deterioração da situação econômica no Brasil, resulta de três fatores negativos: o juro alto, o câmbio baixo e a pesada carga fiscal. Sem superar esses três obstáculos, o País não retoma o curso do desenvolvimento econômico tradicional. Como resolver? Os juros altos provêm de duas origens: de um lado, a necessidade de impedir a fuga de capitais e atrair novos financiamentos para o déficit em Transações Correntes; de outro lado, a crescente venda de títulos públicos para cobrir o crônico déficit fiscal. Isso significa que os juros só caem quando houver mega superávits na balança comercial para compensar os mega déficits da conta Serviços e, concomitantemente, o equilíbrio fiscal. Um reajuste drástico da taxa de câmbio poderia resolver o déficit externo e reduzir a taxa de juros, mas o Banco Central resiste à idéia, receoso de que uma maxidesvalorização faça recrudescer o velho processo inflacionário e deixá-lo escapar ao 121 controle das autoridades. Por isso, prefere o sistema das minidesvalonizações graduais, o que significa manter juros elevados por um longo período, com todas as conseqüências inerentes. E importante insistir nesse ponto: as minidesvalorizações cambiais em torno de 7,5% ao ano, somadas ao rendimento dos títulos da dívida externa, condicionam uma taxa mínima de 20%. Abaixo disso, precipita-se a fuga de capitais. Finalmente, a elevada carga fiscal, cuja redução depende, a médio prazo, de uma profunda reforma tributária e da previdência social e, no curto prazo, de uma dramática queda nas taxas de juros. Cabe aqui uma observação sobre uma disputa teórica que apenas confunde as coisas. Segundo se depreende dos pronunciamentos da equipe econômica do Governo, é o déficit do setor público, pressionando a demanda global, que leva ao desequilíbrio do balanço de pagamentos. Ou seja, o excesso de gastos do Governo ou se transforma em inflação ou em déficit externo. De outro lado, não são poucos os analistas que colocam o problema em outra direção: o déficit externo é o principal responsável pelas altas taxas de juros que, por sua vez, são a principal causa do déficit público. O curioso, em todo esse quebra-cabeças, é o fato de que o Governo não pode começar o jogo do ajustamento reduzindo a taxa de juros. Se fizer isso, a reativação das atividades econômicas vai resultar em maiores importações, agravando ainda mais o desequilíbrio externo e precipitando novas fugas de capitais. Por outro lado, também não dá para esperar até que se processe o reajuste fiscal, para adotar as providências necessárias sobre as mudanças do regime cambial e da política monetária. Ao que parece indicar o bom senso, a solução desses problemas deve ser procurada, simultaneamente, nas três frentes. O que, certamente, vai requerer uma enorme coragem para assumir o risco de jogar para baixo a taxa de juros e para cima a taxa de 122 câmbio. E vai requerer, também, uma enorme vontade política para cortar os gastos públicos, reduzindo o tamanho do Estado, fechando ministérios e órgãos públicos dispensáveis e realocando, racionalmente, os gastos locais entre os três níveis de Governo, para evitar superposições e desperdícios. 123 TAXAS DE JUROS MORTAIS A GAZETA (VITÓRIA) - 24 DE FEVEREIRO DE 1999 Constitui um fato irrecusável que o Plano Real, após espetacular vitória sobre a inflação, transformou-se em obstáculo ao crescimento econômico. Há muito tempo que os empresários, de um modo geral, vêm procurando alertar o governo para os problemas que mais afetam as empresas, inibem os investimentos e, portanto, condenam a economia nacional à recessão e ao desemprego. Três têm sido os inibidores econômicos fundamentais, principalmente a partir de 1994: a taxa de câmbio sobrevalorizada, as taxas de juros superelevadas e a asfixiante carga tributária. Por mais estranho que possa parecer, os três elementos são intimamente ligados entre si. Foi a taxa de câmbio sobrevalorizada que produziu os déficits astronômicos nas Transações Correntes do Balanço de Pagamentos; em conseqüência, o Banco Central foi obrigado a elevar as taxas de juros a fim de atrair financiamentos do exterior. Como não podia deixar de ser, os juros altos agravaram tremendamente os déficits do Tesouro Nacional e dos Estados, que se viram forçados a recorrer a um crescente endividamento, gerando novas pressões sobre os juros e maior necessidade de financiamentos externos. Paralelamente, para cobrir parcialmente os déficits, a carga tributária foi sendo elevada continuamente, saindo de 25% do PIB, em 1994, para cerca de 32% nos dias atuais. 125 É impressionante como o erro primário de permitir a sobrevalorização do real, a partir de julho de 1994, desencadeou esse processo de deterioração dos fundamentos da política econômica e acabou tornando a economia nacional tão vulnerável e sujeita às crises externas, com preocupantes perdas de reservas, como aconteceu em janeiro de 1995, em outubro de 1997, em agosto e, finalmente, em dezembro de 1998. Felizmente, ao que tudo indica, o drama cambial chegou ao fim, com a liberação das taxas e a maxidesvalorização, antes que se confrontasse uma situação extrema de insolvência ou moratória. É possível que tenhamos que enfrentar certos dissabores por algumas conseqüências inflacionárias da maxidesvalorização; são coisas administráveis. O sentimento geral é de que o grave problema na área externa está superado. Vamos, agora, cuidar dos problemas internos, a começar pelo “flagelo das taxas de juros”, para usar uma expressão consagrada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso. As taxas de juros foram guindadas ao mastro da política econômica como conseqüência da política cambial. A liberação do mercado de câmbio, se bem que ainda em processo de consolidação, libera automaticamente a taxa de juros. Esse é o entendimento nacional, com base no qual se formam as expectativas dos agentes econômicos. A taxa de juros pode cair drasticamente, porque não é mais instrumento necessário para atrair financiamentos do exterior, nem tampouco para reter, aqui dentro, os capitais estrangeiros que desejam voltar às suas origens. A rigor, aliás, pode-se desenvolver o raciocínio contrário: quanto mais altas as taxas de juros, maior a percepção do risco Brasil pelos investidores, nacionais e estrangeiros. Como vêm acentuando muitos analistas, é a supertaxa de juros que está induzindo à percepção de que a 126 dívida pública é explosiva e está se tornando impagável. Então, as altas taxas de juros serviriam, apenas, para evitar uma explosão de consumo, pelas suas repercussões inflacionárias. Esse é um risco evidente, mas, convenhamos, de reduzida força. A economia brasileira atravessa período de nítida retração, baixos patamares de investimentos, margens de lucros reduzidas e salários congelados. Não há expansão do crédito bancário ao setor privado e também o setor público está com a sua capacidade de gastos contida pelas necessidades imperiosas da política fiscal. Pergunta-se, então: por que o temor de que a redução das taxas de juros possa produzir inflação? Não é muito maior o risco de que a manutenção dos juros nos níveis atuais possa arruinar definitivamente as contas do setor público? É lógico que a maxidesvalorização vai produzir algum aumento de preços, principalmente das tradable goods, mercadorias importadas ou exportáveis. Esse primeiro impacto é inevitável, mas isso não significa que um aumento de preços em setores específicos se derrame pelo resto da economia e se perpetue em forma de espiral inflacionária, principalmente, como é o nosso caso, não existindo mais o sistema de indexação e a correção monetária obrigatória. A conclusão de todas essas considerações é que a economia nacional estava presa a duas travas: o câmbio baixo e os juros altos. A metade do problema já foi, praticamente, resolvida. Falta, agora, administrar os juros para aliviar o déficit público e eliminar o garroteamento da economia nacional. Se a taxa de juros for mal administrada, vamos caminhar para um desastre igual ao que produziu a política cambial. 127 INDEXAÇÃO: NUNCA MAIS JORNAL DO COMMERCIO - 06 DE MARÇO DE 1999 A partir de 1930, principalmente em função da política de expansão monetária adotada para combater a recessão, instalou-se no País um processo inflacionário que, a princípio tímido e incipiente, iria ganhar força e velocidade até atingir o paroxismo da inflação galopante e da hiperinflação. Em 1964, após a deposição do Governo João Goulart, foram tantos os efeitos negativos da inflação, sobre os planos de investimentos, o crescimento econômico, a distribuição da renda nacional, a dívida pública e o comércio exterior, que se decidiu adotar um mecanismo de correção monetária para corrigir, primeiro, a dívida pública e a arrecadação dos impostos, e, em seguida, os salários, os contratos, as tarifas dos serviços públicos, a taxa de câmbio e tudo mais. Pouco a pouco, o princípio da correção monetária se transformou em um sistema de indexação generalizada, amparado por complexa legislação regulatória, através da qual os prazos de reajuste iam se encurtando, à medida em que se aprofundava a inflação. A partir de 1964, adotou-se um mecanismo anual de correção dos salários, com base na expectativa da inflação, que representou um enorme arrocho no poder de compra dos trabalhadores. Entretanto, em 1979, no extremo oposto, as remunerações do trabalho, até três salários 129 mínimos, passaram a ser corrigidas a cada seis meses, com reajuste de dez por cento acima dos índices de preços. O resultado dessa inconseqüência foi a disparada da inflação, agravada pela explosão das taxas de juros internacionais e dos preços do petróleo. Nas décadas seguintes, a inflação tomou o freio nos dentes, em um crescendo vertiginoso. No período de 1980 a 1982, atingiu uma média anual de 100%, que passaria a 200% no período de 1983 a 1985. Em 1993, a inflação brasileira registrou o fantástico índice de 2.700%. A experiência, de todos esses anos, de correção monetária e indexação, foi realmente trágica. O País se acomodou à inflação, os trabalhadores tiveram sua participação na renda nacional reduzida à metade, as taxas tradicionais de crescimento econômico perderam impulso e chegaram a uma profunda recessão, nos anos 1980 a 1982 e 1987 a 1992. As exportações brasileiras ficaram estagnadas em termos de participação no comércio internacional, a carga tributária aumentou sucessivamente, enquanto a qualidade dos serviços públicos caía a níveis de terceiro mundo. De outro lado, deteriorou-se profundamente a situação social, da mesma forma que os princípios da ética e da moralidade e a degradação dos costumes, principalmente na área política. Foram os descalabros da inflação, associada ao mecanismo infernal da correção monetária e da indexação generalizada, que fizeram surgir as experiências heterodoxas dos Planos Cruzado, URP, Verão, Collor I e II, todos eles de triste memória, mas todos eles partindo do princípio de que era imprescindível acabar com a correção monetária e a indexação. Felizmente, a partir de 1994, com o Plano Real, o País conseguiu livrar-se do flagelo da inflação e ingressar em um estimulante período de estabilidade. 130 Agora, no início de 1999, com o recrudescimento das elevações de preços motivado pela recente maxidesvalorização do Real, começou a ser cogitada a possibilidade, ou melhor, a ameaça de que, através da Justiça do Trabalho, se retome a trágica experiência da indexação dos salários. Seria o princípio do fim. O Governo, que conhece todos os dissabores das trágicas experiências anteriores ao Plano Real, não pode, de nenhuma forma, se acomodar a essa idéia. O Poder Executivo, o Congresso Nacional, os Juízes e os Tribunais Superiores do Judiciário não poderão pactuar com quaisquer iniciativas nesse sentido, sob pena de anularem todos os benefícios do programa de estabilização e desprezarem os sacrifícios impostos à sociedade brasileira para se livrar dos males da inflação. Na prática, como nos meios acadêmicos, já se firmou uma nítida diferença entre um aumento de preços, de causa conhecida e duração limitada, e uma espiral inflacionária ou, na linguagem dos heterodoxos uma inflação inercial. Empiricamente comprovada, a inflação só se instala e perpetua se os aumentos de preços passam para os salários, uma verdade que os brasileiros conhecem melhor do que ninguém. A sociedade brasileira não quer o retorno da inflação. Por tudo isso, este é o momento para que os estudantes, os trabalhadores, os empresários e os políticos sejam mobilizados contra essa ameaça e proclamem uma reação vigorosa, de que não teremos de volta a contraditória experiência da correção monetária. “Indexação, nunca mais”. 131 O COMÉRCIO E A CRISE ESTUDOS APEC - EDIÇÃO 1999 A turbulência na área econômica está reduzindo, ainda mais, os planos de investimentos públicos e privados, com menor produção industrial, aumento do desemprego, com reflexos inevitáveis no setor terciário e, em particular, no comércio varejista. A queda do PIB nacional em 1999, esta sendo prevista entre 2 e 3%. Entretanto, equacionado o desequilíbrio no setor externo, com o aumento das exportações e queda das importações, pode-se esperar o início da recuperação a partir do segundo semestre e, principalmente, ao longo do ano 2000. Os maiores problemas vão se situar no setor público, face ao impacto da desvalorização sobre a dívida em dólares e às altas taxas de juros comandadas pelo Banco Central. Neste momento em que a economia se apresenta frágil diante das dificuldades de se materializar o ajuste financeiro do setor público, de se reduzir a taxa de juros reais, o segmento comercial vem fazendo de tudo para contornar a crise recessiva. Crise esta demonstrada pelos dados relativos ao faturamento real varejista acumulado no ano passado, à queda do volume da produção industrial e às sucessivas deflações mensais no último semestre de 1998. Essa tendência recessiva se acentuou, conforme os primeiros levantamentos sobre o comércio varejista em fevereiro do corrente ano. 133 Diante do quadro de desaquecimento do consumo, o comércio tem feito o possível para enfrentar a diminuição das vendas. Neste sentido, as principais lojas de varejo vêm realizando grandes liquidações, às vezes com característica de serem em um único dia, ou num prazo de até uma semana, concedendo grandes descontos para os consumidores, assim como facilitando as formas de pagamento e prolongando os recebimentos com prazo de carência, de sorte a facilitar a vida dos compradores e atraí-los nesta época de redução de estoques. Não é preciso dizer que as margens dos comerciantes foram reduzidas ao mínimo, e, em muitos casos, inteiramente sacrificadas. Para que estas promoções possam se repetir, é evidente que os comerciantes têm que contar com a colaboração dos fornecedores, através de negociações antecipadas, uma vez que os consumidores em geral já parecem esperar tais ocasiões para atender sua necessidade de compra de bens, com os orçamentos familiares enxutos e comprometidos com outros gastos, para não falar da incerteza e insegurança geradas pela ameaça de desemprego. Portanto, as alternativas encontradas pelo comércio para proporcionar a seus clientes bons preços e ofertas especiais, só possibilitarão a renovação de estoques a partir de acordos específicos com o setor industrial. As campanhas com diferentes tipos de liquidações e promoções, seguramente, têm atenuado a queda do movimento de alguns setores, mas é evidente que não podem, por si só, manter a liqüidez do comércio. Embora o comércio tenha apresentado resultados declinantes nos dois últimos anos, comparados com o desempenho observado nos três primeiros anos do Real, verificou-se, no entanto, no período de 1994 a 1998, um intenso processo de modernização dessas atividades distribuidoras de bens. Sob o 134 impacto da competição estimulada pela globalização e da expansão geométrica da tecnologia, o segmento comercial, notadamente o varejo, foi impelido a investir consideráveis recursos tanto na implantação de novos ramos, como na racionalização do varejo tradicional. De acordo com estudo efetuado pela Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, de São Paulo, verificou-se no referido Estado, no intervalo de 1994 a 1998, um aporte de investimentos no montante de US$ 6.140 milhões. Desse total, a parcela de US$ 4.540 milhões foi aplicada na região metropolitana e o restante (US$ 1.600 milhões) nos centros comerciais do interior do Estado. A decomposição por atividade mostra que apenas US$ 90 milhões, representando 1,47% do total, foram alocados no atacado, o que sinaliza um aporte mais lento de tecnologia desse segmento em relação à modernização do varejo. No varejo, o ramo de super e hipermercados caracterizaram-se como o segmento que apresentou maiores níveis de modernização e de adaptação à evolução da demanda do mercado. A entrada progressiva desse segmento na comercialização de bens de consumo duráveis (principalmente eletroeletrônicos, linha branca e autopeças) e, também, de semiduráveis vem determinando a necessidade de aumento das instalações das lojas, bem como, da adoção de novas técnicas como leitura ótica, on-line, etc. Essa intensa transformação do setor supermercadista requereu, no Estado de São Paulo, a alocação de quase metade dos recursos aplicados pelo conjunto do comércio. O esforço desse ramo varejista vem viabilizando o aumento de seu faturamento real conforme mostra o termômetro da ABRAS, em contraposição ao recuo das vendas nas lojas de 135 departamento, de utilidades domésticas, de móveis, de vestuário e de calçados, ramos que vêm perdendo uma fatia da demanda suprida, cada vez mais, pelos super e hipermercados. Os demais investimentos foram aplicados nos shoppings (US$ 1.860 milhões prevalentemente em novas instalações), nas lojas de departamentos (US$ 135 milhões), nas lojas de materiais de construção (US$ 87 milhões) e os restantes US$ 1.128 milhões investidos em redes varejistas não especificadas, inclusive, serviços comerciais. Os resultados pouco satisfatórios das vendas reais e a diminuição das margens de lucro em 97 e 98, determinadas pela alta da taxa real de juros, ocasionaram um processo de concentração, porém não impediram a modernização do varejo. Não se pode deixar de mencionar uma nova forma de comércio que se expande em progressão espantosa. Refiro-me ao comércio eletrônico ou virtual que utiliza a Internet como meio de difusão. Vale ressaltar que nos EUA, país que antecipa tendências na economia, em 1998, ela atingiu faturamento de 17 bilhões de dólares. As previsões para 2002 apontam para cifras que variam entre 330 bilhões de dólares, segundo o Forrester Research, e 434 bilhões de dólares, de acordo com a Price Waterhouse. Embora no Brasil o Comércio Eletrônico esteja apenas começando, não se pode ignorar que já contamos com quatro milhões e meio de computadores pessoais, dos quais um milhão e oitocentos mil estão ligados à grande rede mundial, o que determina nossa posição de 13o país com mais presença na Internet. Além disso, já existem “sites” de mais de 600 empreendimentos comerciais brasileiros, de livrarias a supermercados, de “delicatessens” a lojas de flores. Isso, sem se falar em serviços. 136 As dificuldades do momento se tornaram inevitáveis diante da necessidade de mudança na política cambial. A política anterior, que, a partir de 1994, transformou saldos comerciais em enormes déficits, os quais, somados aos déficits estruturais dos serviços, produziram perdas imensas nas transações correntes. O Brasil se tornou refém dos capitais externos, especulativos ou não, e o momento da verdade tinha que chegar, mais cedo ou mais tarde. A livre flutuação do câmbio pode viabilizar a queda das taxas de juros, o que atenderia às demandas de vários setores da sociedade, inconformados com os juros estratosféricos. São setores que podem dar apoio decisivo para aprovação do ajuste fiscal, no Congresso, nas próximas semanas. Mas, até agora, surpreendentemente, o Banco Central não mostra qualquer disposição de baixar de forma rápida e significativa a taxa de juros. Se não fizer isso, não haverá equilíbrio fiscal, e, ao contrário, um explosivo aumento da dívida interna. Se se procura recuperar a confiança do mercado, não poderia haver nada mais contra-indicado . Na verdade, não só o ajuste fiscal mas as outras reformas estruturais, infelizmente negligenciadas nos últimos 4 anos, precisam, agora, de um curso rápido. A reforma da previdência, tal como a reforma tributária, são peças essenciais na montagem do sistema que permita alcançar o equilíbrio das contas públicas. Nesse contexto se inclui, também, a reforma patrimonial, ou seja, privatização em escala mais ampla e mais rápida do que a até agora realizada. Efetivadas tais reformas, com uma política cambial realista, uma reforma tributária que desonere as exportações, e rápida queda na taxa de juros, o País pode dar um salto nas vendas externas, recuperando os atrasos acumulados em 2 décadas. 137 Se o País tivesse mantido crescimento da taxa de exportações do período de 60 a 83 estaria, hoje, exportando mais do que a Coréia do Sul. Por outro lado, não fora o aumento do déficit público, em grande parte oriundo do sistema previdenciário, da estatização e dos juros, que fez diminuir a poupança global do País, avançando nas poupanças privadas, teríamos, também, uma taxa de investimentos bem maior que a registrada nos últimos anos. Investimento e crescimento econômico têm uma relação direta e inexorável. Se o País tivesse investido entre 20% e 25% do seu PIB nos últimos 20 anos, hoje teríamos uma renda per capita, no mínimo, 2 vezes maior. Os benefícios da estabilidade da moeda despertaram a sociedade brasileira para as vantagens da racionalidade econômica. Apesar dos argumentos dos opositores crônicos, o que se viu foi a melhoria da distribuição da renda e o acesso a bens das classes menos favorecidas. Infelizmente, essas vantagens se diluíram nos erros cometidos subseqüentemente. A falta de investimentos e o desemprego geraram a inquietude social em que vivemos. A crise, agora, obriga correções de rumo que já deveriam ter sido tomadas há mais tempo. Teremos período duro pela frente mas, se dessa vez resultarem mudanças substanciais no setor público brasileiro, que permitam desonerar e incentivar atividades empresariais, o País terá chances reais de se enquadrar nas regras do mundo globalizado, o que significa dizer, terá condições de competitividade que garantam um crescimento sustentado no futuro, com reflexos em todas as atividades, mas, principalmente, no comércio e nos serviços, que são os setores que, em todo o mundo desenvolvido, estão puxando a economia e garantindo empregos. 138 O SETOR PÚBLICO E A CRISE NACIONAL JORNAL DO COMMERCIO - 06 DE SETEMBRO DE 1999 No início deste ano, o Brasil confrontava dois sérios desequilíbrios, com crescente endividamento na área externa e na área interna. A percepção do agravamento desses desequilíbrios, sem perspectivas de reverter a situação, seja conseguindo saldos positivos na balança comercial, seja corrigindo o déficit crônico das contas públicas, alimentava as incertezas em relação à economia nacional. Do mesmo modo que, em situação semelhante, o México, os países da franja asiática e depois a Rússia sofreram precipitada fuga de capitais e mergulharam em profunda crise recessiva, também o Brasil acabou experimentando os mesmos dissabores, pelos mesmos problemas. A mudança do regime cambial, operada em janeiro, foi providencial para que se afastasse o perigo iminente da moratória externa. Hoje, o Brasil ainda carrega uma dívida externa de US$ 230 bilhões e convive com preocupante déficit de cerca de US$ 25 bilhões em Transações Correntes do Balanço de Pagamentos, ao mesmo tempo em que precisa rolar um endividamento externo na ordem de US$ 45 bilhões. Mas ninguém mais aposta em moratória externa, até mesmo porque são melhores as perspectivas para o próximo ano. 139 De outro lado, ainda não conseguimos encontrar os caminhos para nos livrarmos da confusa situação em que se encontram as contas públicas. A Constituição de 1988 foi irresponsável em relação aos problemas fiscais, produzindo uma irreversível expansão dos gastos públicos e uma distorção inconseqüente na repartição dos tributos, transferindo enormes somas de recursos do Governo Federal para os Estados e Municípios, sem que se transferissem, proporcionalmente, os encargos. Paralelamente, foram criados novos Estados, que representaram novas sobrecargas na dívida da União, ao mesmo tempo em que se ampliavam as facilidades para a criação, desde então, de cerca de dois mil municípios, com milhares de novos servidores públicos, municípios esses que, em boa parte, até hoje, não dispõem dos recursos mínimos para sua manutenção, mas sustentam altos salários de seus prefeitos e vereadores. A Constituição de 1988 também aumentou substancialmente os gastos com o Judiciário, alargou as facilidades para o endividamento dos Estados e Municípios e abriu as portas para os atuais precatórios de tão nefastas conseqüências. E, ainda mais, incorporou ao regime previdenciário do setor público algumas centenas de milhares de servidores celetistas, que adquiriram o direito de aposentadoria e pensão com o salário integral, na data da aposentadoria. Na medida em que perdia recursos, a União lançou mão do Fundo de Estabilização, retirando dos Estados e Municípios 20% das transferências constitucionais e passou a ampliar a área dos tributos que escapam à repartição com os outros entes governamentais. O resultado foi a elevação da carga tributária de 22% para mais de 30% do PIB e a fabricação de um sistema tributário complexo, custoso e ineficiente. Some-se a tudo isso a infeliz política das taxas de juros escorchantes, cujo mérito maior tem sido arrasar com as contas do setor público, e assim chegaremos ao absurdo de um déficit 140 público anual da ordem de 8% do PIB, isto é, R$ 72 bilhões, elevando os gastos públicos a 40% do PIB! E ainda temos a Previdência Social, com um rombo anual de R$ 45 bilhões. É essa sangria crônica que empurra o País para um endividamento sem fim. Na primeira semana de julho, o Governo se endividou em mais US$ 700 milhões, em euros, a uma taxa anual de 12,5%, enquanto no mercado interno pagava 26% para levantar mais R$ 500 milhões. Agora, está se preparando para levantar na Europa novo empréstimo de US$ 500 milhões. A dívida pública é como uma grande bola de neve, que transforma o setor público no grande inibidor da economia nacional, responsável pela recessão, o desemprego e a calamidade social. E caminha para uma situação explosiva, de conseqüências imprevisíveis. 141 Capítulo 4 Outros Temas ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ Cursos de Pós-Graduação A Quebra do Sigilo Bancário As Liberdades A Marcha da Insensatez Gestão Fiscal Responsável CURSOS DE PÓS-GRADUAÇÃO PRONUNCIAMENTO NA FEDERAÇÃO DO COMÉRCIO DO ESTADO DE GOIÁS, GOIÂNIA - 19 DE MARÇO DE 1998 Meu caro amigo e companheiro Elias Bufaiçal, presidente da Federação do Comércio do Estado de Goiás Ilustre Professor Carlos Eduardo de Freitas, diretor da Escola de Pós-Graduação em Economia, da Fundação Getúlio Vargas, Caros empresários, Senhores formandos, minhas senhoras e meus senhores, Desejo, em primeiro lugar, registrar que é para mim uma grande honra e uma grande satisfação participar desta significativa cerimônia na Federação do Comércio do Estado de Goiás, na qualidade de paraninfo das primeiras turmas de formandos dos Cursos de Pós-graduação realizados mediante convênio entre a Federação do Comércio e a EPGE da Fundação Getúlio Vargas. Tenho, igualmente, nesta ocasião, uma grande satisfação em felicitar e congratular-me com os 150 formandos dos Cursos de Ciências Contábeis, Gestão de Qualidade, Marketing e Administração Financeira, os primeiros cursos de qualidade, a primeira experiência dentro do convênio firmado entre a Confederação Nacional do Comércio e a Fundação Getúlio Vargas. 145 Esta minha satisfação tem uma razão especial de ser, porque a realização destes cursos foi uma iniciativa da Diretoria da Confederação Nacional do Comércio, que tenho o privilégio de presidir. Desde o primeiro momento, recebemos o apoio entusiasta do nosso companheiro Elias Bufaiçal, presidente da Federação do Comércio de Goiás, também presidente do SENAC e do SESC neste Estado. Elias Bufaiçal abraçou a idéia, desenvolveu rapidamente as negociações com o Professor Carlos Eduardo de Freitas e esta é a razão pela qual os primeiros cursos organizados sob o convênio CNC/FGV se realizam nesta cidade de Goiânia. Devo dizer que havia inicialmente a idéia da criação de uma Universidade do Comércio, no Rio de Janeiro ou em Brasília, mas, desde logo as pesquisas realizadas nos indicaram outro caminho. Já existem faculdades e universidades em número suficiente, no Brasil, em praticamente todos os ramos do conhecimento. Entretanto, o ensino superior, entre nós, ainda é falho e deficitário. Na grande maioria dos casos, os alunos dos cursos superiores deixam as Universidades sem a preparação necessária para ingressar na vida profissional e enfrentar as duras realidades da intensa competição no mercado de trabalho. Verifica-se, então, uma excessiva valorização de um reduzido número de profissionais, os mais qualificados, geralmente com cursos de pós-graduação no Brasil ou no exterior, ao mesmo tempo em que se depreciam as condições de trabalho e as perspectivas de carreira para a grande maioria dos que vão ocupar cargos secundários na hierarquia das empresas. O resultado negativo dessa distorção nos quadros do ensino superior se faz sentir tanto sobre o país como sobre o mercado de trabalho, na medida em que nos confrontamos com as empresas e organizações dos países mais adiantados e desenvolvidos. Eles estão mais preparados do que nós. Nos Estados Unidos, existem 60 milhões de microcomputadores em uso, dos quais 30 milhões estão nas residências particulares. 146 Ao cabo de nossas primeiras investigações, e após consulta às grandes como a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a COPEAD, da Universidade Federal também do Rio de Janeiro, e o Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais - IBMEC, concluímos que o nosso parceiro ideal seria a Escola de Pós Graduação em Economia, da Fundação Getúlio Vargas, por várias razões, entre as quais a sua tradição de mais de 37 anos neste campo, o elevado nível de seu quadro de 500 professores, quase todos com cursos Superiores e Pós-Graduação no exterior e, mais, o trabalho pioneiro que a Fundação vem realizando, atualmente, em várias capitais e grandes cidades do interior do país. Foi grande a receptividade que tivemos por parte da EPGE de Brasília, na pessoa de seu diretor Carlos Eduardo de Freitas, que hoje se encontra conosco, nesta solenidade, e a quem devemos nosso agradecimento por esta primeira experiência vitoriosa. Tenho o sentimento de que estamos fazendo algo importante pelo Brasil. Um dos aspectos mais constrangedores no quadro do desenvolvimento nacional é o que se refere à educação. Sabidamente, o Brasil é um país atrasado, em matéria de educação. Ainda temos, no Brasil, 20 milhões de analfabetos. Dentre os 74 milhões de trabalhadores que compõem a população economicamente ativa (PEA), no Brasil, somente 9% têm acesso a programas de educação profissional, de forma regular. E o que é pior, esses 9% são trabalhadores com média de escolaridade inferior a 4 anos. 147 O sistema confederativo do comércio, através da atuação ampla do SESC e do SENAC, tem procurado dar ao País a sua melhor contribuição, no campo do treinamento, da reciclagem e da educação profissionalizante, o que certamente irá melhorar este quadro. Em 1997, pelas 720 unidades de ensino do SENAC, passaram cerca de dois milhões de alunos. Todos nós temos pela frente o grande desafio da globalização. A integração internacional está se ampliando, cada vez mais, dentro de um contexto geral de eliminação das tarifas aduaneiras e das restrições comerciais. A tendência mundial é a liberação em todas as áreas: no comércio, no sistema financeiro, nas transações cambiais. A competição internacional é cada vez mais intensa e os países e as empresas terão que, forçosamente, adaptar-se à nova ordem mundial. Acabaram as reservas de mercado, as tarifas astronômicas, a proteção ao produto nacional. A regra do jogo, agora, é a competição. O Brasil e as empresas brasileiras vão ter que adaptar-se às novas condições, sob pena de ficarem à margem do progresso e do desenvolvimento. A tecnologia está alterando as velhas estruturas da produção e da comercialização. E nós temos que, forçosamente, repito, preparar os nossos quadros técnicos para enfrentar a competição. Esse é o sentido dos cursos de pós-graduação que vêm se multiplicando em toda parte, na Europa e nos Estados Unidos. O Brasil não pode ficar à margem desses acontecimentos. E essa é a razão de estarmos nós, da Confederação Nacional do Comércio e da Federação do Comércio de Goiás, procurando a cooperação da Fundação Getúlio Vargas, da Escola de Pós-Graduação em Economia e de seus competentes professores, para reciclar os nossos profissionais para o grande desafio da globalização. 148 É importante ressaltarmos um outro aspecto relevante destes cursos de pós-graduação, a nível gerencial, que estão sendo realizados no interior do País. Anteriormente, os estudantes e profissionais do interior tinham que se deslocar para o Rio ou São Paulo, para completar sua formação superior. Esses cursos estão indo, hoje, a muitas outras cidades do País, como é o caso dessa bela capital, Goiânia. Fico feliz com essa escolha e com o patrocínio entusiasta do meu amigo e companheiro, de quem sou grande admirador, o Presidente Elias Bufaiçal. Parabéns à Escola de Pós-Graduação em Economia, da Fundação Getúlio Vargas, e à Federação do Comércio do Estado de Goiás. Parabéns aos senhores formandos. Nós lhes desejamos um grande sucesso em suas carreiras profissionais, certos de que, com os novos conhecimentos aqui adquiridos, estarão capacitados a vencer os grandes desafios colocados à frente de suas vidas e de nossas empresas. Boa sorte a todos. 149 A QUEBRA DO SIGILO BANCÁRIO CORREIO BRAZILIENSE - 13 DE ABRIL DE 1998 A sociedade brasileira aspira, há longo tempo, por alterações constitucionais ou inovações legislativas que possibilitem, sem delongas ou burocracia, a quebra do sigilo bancário, em relação a pessoas envolvidas com crimes graves, como os de corrupção, peculato, seqüestro, contrabando, sonegação fiscal, roubo, extorsão, estelionato, bem assim nos crimes do “colarinho branco” e nos casos de tráfico de entorpecentes e drogas etc. Entretanto, o Projeto de Lei no 219, em curso no Senado Federal, que “dispõe sobre o sigilo das operações das instituições financeiras”, vai longe demais, em relação às aspirações sociais. Nos termos em que está redigido, o Projeto desrespeita, flagrantemente, a garantia fundamental, assegurada pela Constituição Federal, da inviolabilidade da intimidade, da vida privada e do sigilo de dados (art. 5o, X e XII). Em diversas disposições, o questionado Projeto de Lei atribui competência ao Poder Legislativo, federal, estadual e municipal, e a órgãos e funcionários do Poder Executivo, para decidir sobre a quebra do sigilo bancário, independentemente da prévia autorização judicial, como presentemente exigido. 151 Conforme o Projeto, qualquer Câmara de Vereadores de um de nossos 5.500 municípios, as Assembléias Legislativas Estaduais, as respectivas comissões parlamentares de inquérito e os Tribunais de Contas, poderão obter a quebra do sigilo bancário de autoridades e servidores públicos, o que se constituirá, evidentemente, em fantástico instrumento de pressão política. A Comissão de Valores Mobiliários, por sua vez, poderá exigir, diretamente às instituições financeiras, informações e documentos sobre as contas correntes e os investimentos de qualquer dirigente, conselheiro ou acionista de uma sociedade por ações. Ainda mais grave é a ilimitada competência atribuída genericamente a todos os agentes do Fisco federal, estadual e municipal, que poderão ingressar livremente nas instituições financeiras, para examinar documentos, livros, contas de depósito e de aplicações financeiras, mesmo sem processo fiscal instaurado e sem qualquer ordem ou autorização superior. Segundo os juristas mais categorizados, o Projeto em questão é inconstitucional, mas se for aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo Presidente da República, virá permitir, evidentemente, todo tipo de abuso, até que o Judiciário se pronuncie em decisão final. Antes que isso aconteça ou que o Presidente seja levado a vetar o Projeto, expondo-se à crítica de que estaria protegendo o sigilo bancário dos criminosos em geral, é indispensável que as nossas lideranças no Senado reexaminem o texto em votação, substituindo-o por um outro que atenda aos objetivos preconizados, sem desrespeitar a Constituição, sem ferir as garantias fundamentais dos cidadãos, sem assustar e afastar os investidores de que carece a nossa economia e, sobretudo, sem criar novos sobressaltos na atual conjuntura política e social. 152 É oportuno relembrar a contribuição oferecida, ao Governo Federal, pela Confederação Nacional do Comércio, em 8/2/95, no anteprojeto de reforma constitucional tributária, do qual muitas idéias ajustam-se à última proposta governamental nessa matéria, divulgada pelo Ministério da Fazenda, como, por exemplo, a redução do número de impostos, a substituição do nocivo ICM pelo imposto de vendas a varejo, a extinção da COFINS e dos impostos de transmissão da propriedade, a utilização da CPMF (ou IPMF), de efetiva incidência sobre a economia informal, para o financiamento da previdência social. Neste anteprojeto, foi proposta que a quebra do sigilo bancário, por motivo de interesse fiscal, ainda que em ação investigatória, fosse regulada no próprio Código Tributário Nacional, mediante emenda, mas dependendo sempre de ordem judicial proferida à vista de decisão fundamentada da autoridade fiscal, no devido processo administrativo. Da mesma forma, a lei poderia dispor que os órgãos competentes do Legislativo e do Executivo, sempre que necessário, em pedido fundamentado e sigiloso, poderiam pedir à autoridade judicial competente a ordem para a quebra do sigilo bancário, mesmo em casos de investigação prévia e genérica, tal como presentemente, as autoridades policiais obtém mandados de busca e apreensão. Por todas essas considerações, é evidente que a nova proposta de quebra do sigilo bancário é uma aberração, um passo atrás, uma porta escancarada para todo tipo de abusos das autoridades fazendárias e agentes fiscais, sem mencionar a possibilidade do mal uso político pelas Câmaras de Vereadores e Assembléias Legislativas. Sem dúvida, o projeto em curso no Senado não deve merecer aprovação. A sociedade espera uma norma legislativa criteriosa, sob a proteção do Judiciário, e não uma que possa ser instrumento de arbítrio das autoridades. 153 AS LIBERDADES JORNAL DO BRASIL - 17 DE AGOSTO 1999 A palavra liberdade invadiu e monopolizou o mundo moderno. Converteu-se em espécie de santuário freqüentado por todas as pessoas e classes. Tê-la tornou-se condição de cidadania e esta só ganhou o excepcional valor que ostenta graças ao fato de possuir, em sua essência, a liberdade como princípio, meio e fim. Nesse quadro em que a liberdade aparece como centro feericamente iluminado, em torno do qual gravitam os valores que dignificam o homem e enriquecem a sociedade, já se desenha com razoável nitidez o perigo do esvaziamento da substância pela forma. O vocábulo liberdade apenas vocábulo em todas as bocas vai dispensando a liberdade como bem de que é preciso ter a propriedade e especialmente a posse como condição de exercício, ou seja, de uso e gozo. A trajetória da liberdade começou substantivo abstrato até atingir o máximo de concretude dos tempos modernos patrocinados pelo liberalismo e bom será que não perca as pernas, involuindo de volta ao plano da abstração. 155 O avanço da liberdade e a sacramentação do direito que representa o dever do trabalho, também e até principalmente no plano do exercício da atividade empresarial, provocam importantes modificações na sociedade. A Constituição de 1988 revelou aguda sensibilidade ao inscrever, em seu pórtico, “os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa” como fundamentos da República Federativa do Brasil constituída em Estado Democrático de Direito (art. 1 o). O consectário natural e lógico-indispensável dessa consistente colocação de princípio encontra-se no parágrafo único, do art. 170, que se constitui o preceito inicial “da Ordem Econômica e Financeira”, in verbis: “É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei.” A luz de tais postulados endereçados à garantia da liberdade de trabalho organizado pela empresa é difícil explicar e mais difícil entender a proibição de venda de bebidas alcoólicas nos estabelecimentos comerciais conhecidos como Postos de Serviços. Com base em presunção de pouca cabeça e nenhum pé a autoridade municipal deduziu que o momento do veículo ser abastecido de combustível inspiraria o motorista a “abastecer-se” de bebida alcoólica. Na raiz de semelhante presunção estaria o velho e já pouco acreditado provérbio popular, segundo o qual “a ocasião faz o ladrão”. 156 A atividade de venda de bebidas alcoólicas está presente na maioria dos estabelecimentos comerciais do Brasil, com destaque para o Rio de Janeiro. Identificamos aí um dos segmentos que totalizam maior número de empregos no País. Deles os Postos de Gasolina representam percentagem pequena. A prevalecer a tese de que “a ocasião faz o ladrão”, o mínimo de respeito ao princípio constitucional da isonomia (art. 5o) exigiria que a proibição devesse ser estabelecida para todos os estabelecimentos localizados em um raio de tantos metros fixados a partir de cada Posto. Aliás, daí para a lei seca, de tanto fracasso nos EUA, seria passo menor do que a perna de qualquer governante que avaliasse seus atos pela exclusiva bitola da “boa intenção”. Examinando o problema pelas lentes do bom senso, inclusive para evitar passar perto de incêndio das discussões jurídicas sobre que avaliam a possibilidade de a iniciativa de situar dentro da competência municipal para “legislar sobre assuntos de interesse local” (Const. Art. 30, I), concluímos fácil que a Administração Municipal do Rio de Janeiro atropelou a liberdade de trabalho empresarial, enfaticamente assegurada pelo já transcrito parágrafo único, do art. 170 da Lei Suprema. E isso é mal em dose dupla: a uma, por atropelar a liberdade e a duas, por prejudicar atividade econômica sob regência de legislação federal. 157 A MARCHA DA INSENSATEZ JORNAL DO COMMERCIO - 24 DE AGOSTO DE 1999 Inegavelmente, o Brasil vem atravessando uma das fases mais difíceis de sua história econômica recente. A precipitada abertura da economia nacional, sem a contrapartida dos grandes parceiros internacionais, produziu um forte impacto sobre grande número de empresas nacionais menos preparadas para o confronto com modernas empresas estrangeiras, face à inexistência de adequados mecanismos da proteção. A sobrevalorização da taxa de câmbio, a partir de julho de 1994, agravou a situação, como é sabido, desencadeando um círculo vicioso de reações em cadeia. Primeiro, ocorreu um brutal desequilíbrio do Balanço de Pagamentos, com o País sendo inundado por importações; em seguida, subiram as taxas de juros a níveis estratosféricos, para atrair capitais financeiros de todo tipo, inclusive os piores capitais especulativos, a fim de financiar o déficit externo; a elevação dos juros arrasou, de vez, com as contas do setor público, aumentando rapidamente o déficit anual e o estoque da dívida. A defesa do setor público, a partir daí, foi recorrer ao aumento dos impostos e contribuições sociais, a níveis espantosos, sobrecarregando o “Custo Brasil” e fechando o círculo da estagnação. Em 1994, o PIB nacional cresceu mais de 5%, em 1996 e 1997, cresceu 3%, em 1998, zero, e em 1999 o resultado será negativo ou repetirá o mesmo resultado pífio do ano passado. 159 Sobrepondo-se a esse quadro de dificuldades, ocorreram três grandes crises internacionais, a partir da crise do México, em janeiro de 1995, dos países asiáticos, em outubro de 1997 e, finalmente, da Rússia em agosto de 1998, que agravaram, uma vez mais, as dificuldades de exportação, produziram brutais elevações das taxas de juros e aprofundaram os níveis de desemprego. A Indústria e o Comércio sofreram todos os percalços e dissabores da crise. No início do Plano Real, expandiram suas atividades, usufruindo todos os benefícios da estabilização dos preços, assim como os trabalhadores, que tiveram ganhos definitivos, recuperando o poder de compra dos salários e ampliando, de modo generalizado, a escala de consumo, propiciada pelo retorno das vendas a prazo e maior confiança no futuro. O Governo Federal talvez tenha sido o maior perdedor, na medida em que desapareceram os ganhos inflacionários, proporcionados pela faculdade de utilizar-se de maciças emissões de papel-moeda. Atualmente, vivemos um quadro de crises, uma crise mundial, que não é só do Brasil. O País está atravessando um quadro de dificuldades, em que todos sofrem, todos pagam o preço caro da recessão. A Agricultura nacional sofreu severos prejuízos em 1993, assolada pela inflação desbragada e pela falta de uma consistente política de crédito rural. A partir do Plano Real, teve ganhos sucessivos. De início, colheu os benefícios da eliminação dos controles de preços e favoreceu-se em função do maior consumo de alimentos, propiciado pelo aumento do poder aquisitivo da população e pelo ingresso no mercado de milhões de novos consumidores. Evidentemente, sofreu os efeitos negativos da taxa de câmbio sobrevalorizada, e da falta de uma proteção mínima, como é fácil ver pelas oscilações do plantio e da produção nos anos de 1996 e 1997. Recuperou-se, 160 espetacularmente, a partir de 1998, quando produziu a maior safra da história do País, ou sejam 82,6 milhões de toneladas de grãos. Ultimamente, o Governo vem ajudando a Agricultura de muitas formas: desvalorizou a taxa de câmbio, revigorou a assistência financeira através do Banco do Brasil, desenvolveu as operações do Finame-Rural no BNDES, repactuou a dívida dos agricultores, em 1995, criou e ampliou, substancialmente, as linhas de crédito destinadas às famílias dos pequenos lavradores, através do PRONAF, legitimou a propriedade das terras adquiridas através dos programas fundiários e assentou mais de 300 mil famílias, dentro dos objetivos da Reforma Agrária. No período de 1994 a 1998, a Agricultura registrou uma taxa de crescimento de 18%. E no corrente ano de 1999, tudo indica que a performance da Agricultura será igualmente promissora, com um crescimento estimado entre 5% e 6%. A Agricultura é, sem dúvida, o setor da economia nacional que vem apresentando os mais expressivos resultados nos últimos cinco anos. Quando se registram todos esses fatos, é lamentável, simplesmente lamentável, que estejam partindo do setor agro-pecuário movimentos de perturbação da ordem nacional, orientados para uma oposição cega e empedernida, motivações de falso sentido político, que mobilizam contra o Governo pequenos agricultores, assim como grandes proprietários de terra ou pseudos lavradores comandados por profissionais da subversão. Uma mistura inexplicável sob qualquer norma de bom senso. Ninguém pode negar ao Governo, apesar de alguns erros evidentes na condução da política macroeconômica, o enorme esforço que vem fazendo para equacionar os problemas nacionais. Por todas essas razões, por todos os motivos, revela-se totalmente impatriótica essa “Marcha dos 100 mil”, cujos propósitos não vão além de uma provocação pessoal contra o 161 Presidente da República. Esta é a hora de pensar o Brasil, de redescobrir todas as vontades, de mobilizar a compreensão e o concurso das lideranças nacionais, para vencer o pessimismo e a desconfiança. Decididamente, não é hora para as UDR, os MST e as CUT “marcharem” contra o Congresso Nacional, contra o Governo, contra o Brasil. Essa não é a marcha das reivindicações que legitimam os interesses nacionais. É a marcha da insensatez. 162 GESTÃO FISCAL RESPONSÁVEL GAZETA (VITÓRIA) - 08 DE OUTUBRO DE 1999 O empresariado do setor do comércio e serviços apoia o projeto de lei complementar que o Presidente Fernando Henrique Cardoso enviou ao Congresso Nacional, para estabelecer a gestão fiscal responsável, no âmbito da União Federal e dos Estados, Distrito Federal e Municípios. Trata-se de um conjunto de medidas destinadas aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, para acabar com o clássico desequilíbrio fiscal e assegurar, doravante, uma racional situação de permanente equilíbrio nas contas públicas. Uma vez que a controvertida reforma tributária poderá simplificar o sistema, mas não reduzirá a elevada carga tributária, que sufoca o empresariado e as pessoas físicas, as esperanças devem voltar-se para o projeto da gestão fiscal responsável que, promovendo o equilíbrio das contas públicas, criará as condições necessárias para a redução das alíquotas e das incidências dos tributos e contribuições, atualmente exageradas a pretexto de cobrir os déficits públicos. Na linha da legislação mais avançada dos Estados Unidos, União Européia e Nova Zelândia, o projeto fixa princípios e normas gerais para a prevenção dos déficits imoderados e reiterados, a limitação do processo de endividamento e dos montantes da dívida pública, o controle das despesas correntes, a preservação 163 do patrimônio líquido, a administração prudente dos passivos contingentes e eventos imprevistos e a transparência na elaboração e divulgação das contas públicas. O projeto contém uma série de medidas “coercitivas para a correção dos desvios fiscais”, isto é, os afastamentos em relação aos limites e normas preestabelecidos. Além de fulminar com a própria nulidade os atos administrativos que contrariem as suas disposições, o projeto prevê diversas medidas objetivas e eficazes, como, por exemplo, o corte automático de despesas dos três poderes, mediante decreto do chefe do Poder Executivo, justificado perante o Legislativo, para adequá-las às metas fixadas na lei de diretrizes orçamentárias. Os tetos para as despesas relativas ao pessoal ativo, inativos e pensionistas passarão a ser estabelecidos em relação a cada um dos três poderes e ao ministério público, o que permitirá a melhor identificação dos abusos. Para a contenção da despesa dentro do respectivo teto, ficarão vedadas a criação de cargos, o reajuste de vencimentos, a concessão de novas vantagens e a reestruturação de carreiras. O Poder em que ocorrer o excesso terá de exonerar 20% de assessores e demais titulares de cargos em comissão e, se necessário, demitir servidores não-estáveis e estáveis e desativar órgãos ou unidades, temporária ou definitivamente. Nesse particular, o Governo Federal poderia começar a seguir as determinações de seu projeto, evitando a criação de novas agências autônomas, praga que está se alastrando, e a criação de cargos públicos (nessas agências, 2000 cargos foram criados, há menos de dois anos, quando poderiam ser remanejados funcionários de outros órgãos, já que existe excesso). Também poderia ser evitada, nesta hora, a reestruturação de carreiras, como a que privilegiou a Receita Federal e a fiscalização da previdência e do trabalho, dando origem, naturalmente, a pleitos de outros grupos de nível equivalente, tudo agravando os déficits. 164 De modo salutar, afinal será proibido à União conceder empréstimos a Estados e Municípios ou transferir-lhes recursos orçamentários, exceto para a pré-escola, o ensino fundamental e o sistema de saúde e no caso de calamidade pública. Para permitir a identificação dos responsáveis pelas infrações, o projeto obriga o Presidente da República e seus Ministros, os Governadores e os Prefeitos municipais e seus secretários, os presidentes de todas as casas legislativas e de todos os Tribunais federais e estaduais e os chefes do Ministério Público a apresentarem à sociedade brasileira, mediante ampla divulgação, uma declaração trimestral de gestão fiscal responsável quanto à obediência à lei e às metas fiscais preestabelecidas. Um projeto de lei ordinária define os crimes de responsabilidade e os crimes comuns contra as finanças públicas, nos quais incorrerão aqueles que infringirem as normas da lei da gestão fiscal responsável. Aprovados esses projetos, os brasileiros poderão realmente acompanhar o desempenho de seus governantes, melhor se conscientizando para o momento de exercer o seu direito de voto. Por todos esses motivos, a classe comercial aguarda a votação e aprovação dos aludidos projetos pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, a fim de que, já no ano 2000, possa o Brasil se inserir no círculo dos países que tratam com responsabilidade a receita proveniente dos tributos e contribuições das pessoas físicas e jurídicas e cessem, de um vez por todas, o desperdício, a prodigalidade e as apropriações indébitas que têm estarrecido a Nação. Afinal, a gestão fiscal das rendas e do patrimônio públicos tem de ser responsável. Caso contrário, é de perguntar-se: pagar imposto para quê? Para escorrer pelo ralo da irresponsabilidade? 165 Capítulo 5 Diálogo com o Governo ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ Ministro Paulo Paiva Ministro Pedro Malan Ministro Francisco Dornelles Ministro Francisco Dornelles Ministro José Botafogo Gonçalves Secretário Executivo Pedro Parente Presidente da República Fernando Henrique Cardoso Ministro Celso Lafer Ministro Francisco Dornelles Ministro Pratini de Moraes PRONUNCIAMENTO NA REUNIÃO DE DIRETORIA DA CNC BRASÍLIA - 26 DE MAIO DE 1995 Excelentíssimo Senhor Ministro do Trabalho, Dr. Paulo Paiva, Duas vezes em 1994 e agora, em 1995, esta Casa teve a honra de receber o nosso Ministro do Trabalho em reunião com sua Diretoria e Conselho de Representantes de todos os Estados do Brasil e Conselhos Nacionais do SESC e SENAC. Esses encontros, têm servido ao objetivo de construir uma proveitosa ligação entre o Governo e o empresariado nacional do comércio, através da qual discutimos os problemas de interesse nacional, os projetos de reforma, as relações entre o capital e o trabalho e, em especial, a consolidação e o aperfeiçoamento do sistema sindical brasileiro. Foi essa comunhão de interesses que, em agosto do ano passado, levou o Ministério do Trabalho a baixar a Instrução Normativa no 3, definindo a figura do registro, peça fundamental para consagrar o mandamento da unicidade sindical, dentro do princípio da liberdade esculpida na Constituição de 1988. Existem muitas razões, além desta, para que consideremos altamente cordiais e construtivas as tradicionais relações desta Casa com o Ministério do Trabalho, hoje sob o comando de V.Exa. 169 Por tudo isso, a Confederação Nacional do Comércio vive mais um ato importante de sua cinqüentenária história recebendo o titular da Pasta do Trabalho do novo Governo. Seja bem-vindo à nossa Casa, ministro Paulo Paiva. Através de sua Confederação Nacional, a numerosa classe dos empresários do comércio tem apresentado suas sugestões e reivendicações, todas elas pautadas pelo interesse nacional e que, em essência, coincidem com os programas e o patriótico plano do Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Neste nosso primeiro encontro, senhor ministro, que esperamos seja o início de muitos outros, gostaria de concentrar nossas observações em apenas dois assuntos que nos são cruciais. Primeiro, o sindicalismo e, em seguida, os dois braços do sindicalismo, na área assistencial e educacional: o SESC e o SENAC. O sindicalismo tem sido uma constante na história moderna da civilização, crescendo e se aperfeiçoando no clima ideal da democracia, e sobrevivendo até mesmo nas ditaduras. Entre nós, a organização sindical revela pujança surpreendente. Nasceu e viveu tranqüilamente ao longo do período que marca a passagem de estrutura agrária à economia pré-industrial, resistiu durante o Estado Novo de Vargas, engrandeceu-se com a redemocratização do Governo Dutra, atravessou a conturbada administração João Goulart e o regime militar, com a mesma desenvoltura, culminado, com a Constituição de 1988, com a conquista de um criterioso regime de liberdade, plataforma sobre a qual estamos consolidando o moderno sindicalismo brasileiro. A organização sindicalista no Brasil, podemos dizer, nasceu no regime da unicidade. 170 Quando a Assembléia Constituinte se instalou, a maioria dos constituintes era ou se proclamava pluralista. O trabalho de esclarecimento da CNC e das demais confederações de empregados e trabalhadores trouxe como resultado o princípio inscrito no inciso II, do art. 8 o da lei suprema de 1988, consagrando a unicidade, como base fundamental do Sistema Sindical. A Constituinte de 1988 assegurou a unicidade e consagrou a liberdade do sistema sindical, para organizar-se, crescer e fortalecer suas instituições. Essa foi a primeira etapa de uma longa conquista. A segunda etapa, com base nos mandamentos constitucionais, correspondeu à organização e à operacionalidade dos preceitos normativos e da convivência associativa, que nos levou ao SICOMÉRCIO, o Sistema Confederativo Sindical do Comércio, que reúne, hoje, em sólida harmonia, 670 Sindicatos, 44 federações e, no vértice da pirâmide, Confederação Nacional do Comércio. O Sindicalismo do Comércio auto-regrulou-se e autodisciplinou-se. A partir daí, é a prática da auto-gestão que permite decidir sobre seus destinos. Estamos chegando, agora, senhor ministro, à terceira etapa de nosso projeto, com normas adequadas e órgãos preparados para cuidar do enquadramento e do registro de nossos associados, através dos quais, atentamente, vamos zelar para que a unicidade sindical seja preservada. O respaldo das bases sindicais a estes projetos tem sido obtido através de convenções nacionais designadas CONSICOMÉRCIO. Em nossa primeira grande reunião, em agosto de 1991, falou a CNC. 171 No II CONSICOMÉRCIO, em setembro de 1993, falaram os Sindicatos, quando em três dias de amplas discussões em cinco Comissões Técnicas, o Plenário aprovou o documento denominado Carta de Princípios do SICOMÉRCIO Agora, será a vez do diálogo. Já estamos programando o III SICOMÉRCIO, para realizar-se no período de 29 de novembro a 1 de dezembro deste ano, do qual V.Exa., desde já, e nosso convidado de honra. Nossa visão do SICOMÉRCIO, senhor ministro, é a de um grande, forte e prestigioso clube, tão prestigioso quanto tiver de autoridade para estabelecer e impor suas próprias regras. Um grande clube que estabelece suas normas de conduta e de convivência. Quem, nele admitido, quiser permanecer. Terá que se submeter a suas regras de comportamento. No que tange ao SESC e ao SENAC, assim como ao SESI e ao SENAI o mínimo que poderíamos dizer é que constituem uma experiência vitoriosa e consagradora, organizações exemplares que são no campo de mão-de-obra profissional e do atendimento à assistência social e ao lazer de milhões de trabalhadores nacionais. A Constituição de 1988 determinou que as quatro entidades fossem mantidas tal qual existiam, estipulando em seu artigo 240, que “Ficam ressalvados do disposto no art. 195 as atuais contribuições compulsórias dos empregadores sobre a folha de salários, destinados às entidades privadas de serviço social e de formação profissional vinculadas ao sistema sindical”. Os quatro “S” estão consagrados constitucionalmente tal qual existem: 172 a) são entidades de direito privado, b) permanecem vinculados ao sistema sindical e c) são mantidas por contribuições compulsórias dos empregados sobre folha de salários. Certamente, senhor ministro, não há porque mudar. É com grande satisfação que informo a V. Exa. o extraordinário trabalho realizado pelo SENAC, no campo do treinamento e da formação profissional. Em 1994, cerca de 25 mil empresas foram atendidas pelos nossos serviços, alcançando as matriculas a 1 milhão e 400 mil alunos. Paralelamente, o SESC registrou em 1994, 1 milhão e 750 mil matrículas, tendo realizado 43 milhões de atendimentos na área de saúde, 37 milhões de atendimentos na área de assistência e 101 milhões na área de cultura. O empresário do comércio se sente orgulhoso das entidades que idealizou, criou, mantém e dirige, e está seguro de que não faltará ao Governo criatividade para levar o bom termo os objetivos e o alcance dessas organizações, responsáveis por inestimáveis serviços de assistência social e de ensino profissionalizante em favor dos trabalhadores brasileiros. Senhor ministro Paulo Paiva, São esta posições do comércio que trazemos hoje à consideração de V.Exa., registrando, uma vez mais, nossa grande satisfação em contar com a sua presença nesta Casa. 173 PRONUNCIAMENTO NA REUNIÃO DE DIRETORIA DA CNC BRASÍLIA - 23 DE AGOSTO DE 1995 Meus caros companheiros do comércio, empresários e empresários de Brasília, Senhores Presidentes de Federações do Comércio de todo o Brasil aqui hoje reunidos, meus caros amigos, minhas Senhoras e meus Senhores. Meu prezado e eminente Ministro da Fazenda, Dr. Pedro Malan, é grande honra para nós, representantes do Comércio, receber esta primeira visita de Vossa Excelência e prestar-lhe nossa homenagem pelo patriotismo e dedicação com que vem conduzindo a política econômica do Brasil. Desejamos, também, senhor ministro, felicitá-lo pelos inegáveis méritos e êxitos do Plano Real, no combate à inflação. O Plano Real completou o seu primeiro aniversário com uma grande vitória sobre a inflação, ao mesmo tempo em que assegurou a continuidade da expansão da economia, iniciada em 1993, conduzindo a um crescimento inusitado de quase 8% do PIB nacional no primeiro semestre de 1995 Visivelmente, os primeiros frutos do programa de estabilização (os mais saborosos) foram colhidos no primeiro ano: 175 - A inflação caiu para a média mensal de 2%, nos últimos doze meses. - O poder aquisitivo dos salários foi recuperado, pela eliminação do “imposto inflacionário”. - As atividades econômicas foram estimuladas, com maior utilização da capacidade industrial e rápido crescimento das vendas do comércio, que é o nosso setor. - A agricultura produziu a maior safra de sua história, reduzindo o custo da cesta básica para milhões de brasileiros. Da mesma forma em que os preços de mercado do setor privado permaneceram sem controle direto, a eliminação das reservas de mercado foi sustentada, assim como a liberação das correntes do comércio exterior, abrindo novas perspectivas de integração do País na política internacional. Essas decisões, sem dúvida emprestam maior realce aos resultados da política de combate à inflação. A estratégia da política econômica para alcançar esses resultados baseou-se, principalmente, na estabilidade da taxa cambial e na política monetária de altas de juros. Esses instrumentos de maior eficiência na primeira fase da política de estabilização, como bem sabe Vossa Excelência, não podem ter duração demorada, senhor ministro, sob pena de inverter a relação custo/benefícios desse fantástico plano que vem de ser feito, o Real. E aqui eu faria uma breve interrupção nesta saudação que fazemos a Vossa Excelência, Senhor ministro, para citar um fato da grande preocupação dos empresários do setor do Comércio. 176 Hoje, nós tivemos uma reunião da Diretoria da nossa Confederação, ainda na parte da manhã, e sente-se em todos os empresários, de todas as partes do Brasil, a grande preocupação com as elevadas taxas de juro. Disse há pouco que o Plano Real baseia-se fundamentalmente na elevada taxa de juro e na manutenção de uma política constante da taxa cambial. Mas alta taxa de juro, senhor ministro, nós entendemos que seja alguma coisa incompatível com a realidade da atividade econômica acima dos valores da inflação. Se a inflação é de 2% - como felizmente o Plano Real está conseguindo obter - nós admitimos uma taxa de juro de 3%, de 4%, violentamente 5%, que é uma taxa extremamente elevada, é a maior taxa que temos no mundo. Mas eu não quero falar sobre a elevada taxa de juro, eu quero falar sobre taxas letais de juros. Entidades financeiras estão cobrando taxas altíssimas. Eu tive oportunidade, antes do almoço, de falar com o ministro a esse respeito e estou, na realidade, no momento, prestando contas aos meus Companheiros do Comércio sobre as preocupações que nós registramos hoje. Existem entidades financeiras no nosso País que estão cobrando taxas de 162% de juros ao ano! É realmente alguma coisa totalmente incompreensível para nós. Não há atividade econômica que possa sustentar, que possa resistir à tamanha transferência de recurso. E, lamentavelmente, uma das entidades que está praticando esse tipo de juro é o Banco do Brasil. Hoje, entreguei ao ministro a cópia de uma cédula industrial, em que o Banco do Brasil empresta dinheiro a 45 dias de prazo a uma taxa de 162% ao ano. E, ainda mais, se for pago depois do vencimento, como aconteceu neste caso, em que a empresa pagou três dias depois, em cima dessa taxa de juros ele pagou mais 10% de mora. De maneira, senhor ministro, que gostaria que Vossa Excelência saísse daqui com esta mensagem do comércio. Nós queremos pagar uma taxa razoavelmente elevada de juros para, 177 junto com a manutenção do câmbio, conseguirmos consertar a economia do País. Mas, com essa taxa letal, não há atividade que resista. Desculpe-me o desabafo. Vossa Excelência, sem dúvida, sente, como nós, o clamor dos trabalhadores e dos empresários, que se assustam com as perspectivas de recessão e de desemprego. Todos nós sabemos que a recessão não está, nem poderia estar, nos objetivos do Governo. É lógico e compreensível que as autoridades econômicas tratem de corrigir um crescimento explosivo, desordenado, insustentável. É inegável, porém, que o crescimento sustentado, dentro das possibilidades da capacidade industrial e da utilização dos fatores de produção disponíveis, tem que ser a meta constante e permanente do Governo e do setor privado. É na direção desse objetivo que todos nós, empresários brasileiros, desejamos caminhar, juntamente com o Governo, do qual Vossa Excelência brilhantemente faz parte. Vossa Excelência já declarou, em oportunidades anteriores, que o caminho da economia nacional não precisa passar, necessariamente, pela recessão. Isto significa que não há um dilema inevitável entre estabilização e crescimento sustentado. Muito pelo contrário. A partir deste 2o semestre de 1995, a política econômica não poderá deixar de contemplar a redução dos pesados ônus que sobrecarregam o “Custo Brasil”, em termos da excessiva carga tributária e das contribuições sociais. O País todo vive a grande preocupação de ver a carga tributária, neste ano, 1995, ultrapassando o nível altíssimo e absolutamente fantástico de 30% do PIB, o que significa, grosso 178 modo, que nos últimos cinco ou dez anos o setor público se apropriou de mais de 5% do “bolo nacional”, em detrimento do setor privado e dos rendimentos do trabalho. É fácil perceber, senhor ministro, que precisamos de uma profunda reforma fiscal. Não com a visão fiscalista, de arrumar as contas do Governo, mas com o sentido de reduzir substancialmente as alíquotas que pesam sobre os agentes econômicos que pagam legalmente e dentro da lei os seus impostos. A complexidade do sistema fiscal, no Brasil, chegou a tal ponto que sua administração é estimada, hoje, em cerca de 4% do PIB. Ou seja, estamos gastando cerca de 4% do PIB nacional para administrar o sistema fiscal. Não é que seja receita líquida, é para administrar o sistema de fiscalização e recebimento de impostos. Segundo estudos recentes de uma grande empresa internacional de consultoria, o Brasil ocupa o 3o lugar no “ranking” mundial do imposto de renda da pessoa jurídica. E no que tange à pessoa física, em termos relativos, o quadro é o mesmo, o que aliás, se repete no setor da seguridade social. Esta Confederação já teve oportunidade de encaminhar ao Excelentíssimo senhor Presidente da República, e também a Vossa Excelência, senhor ministro, os resultados de nossos estudos e as nossas sugestões sobre a reforma tributária. Em resumo, senhor ministro, consideramos que há duas razões fundamentais para justificar a reforma tributária: 1a - A carga tributária atual é excessiva e a base tributária está cada vez mais reduzida, incentivando a competição desleal 179 da economia informal, a sonegação, o contrabando e, finalmente, o desemprego; e 2a - O sistema tributário é complexo e caro, representando custos burocráticos pesadíssimos, tanto para o Governo, como para os contribuintes. Ainda dentro do quadro das proposições destinadas a equacionar o problema fiscal, esta Confederação considera de especial importância a implantação do programa de privatização, não só com vistas a estancar a sangria de recursos que representam as empresas estatais para o Tesouro, como por uma questão transcendente de interesse nacional, qual seja ampliar a oferta de produtos e serviços, em setores para os quais, sabidamente, o Governo da União não dispõe dos recursos necessários. E, por uma razão natural, também não pode ter competência para uma boa eficiência do sistema. Senhor ministro, este almoço na Confederação Nacional do Comércio, com a honrosa presença de Vossa Excelência, se realiza em momento delicado da conjuntura nacional, em que se faz necessária a serena afirmação dos elevados propósitos do programa de Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Nesta oportunidade, em nome da grande classe do comércio nacional, aqui representada por todos os presidentes das Federações estaduais, desejamos reafirmar a Vossa Excelência, nossa solidariedade e confiança. É nossa maior esperança que o plano de estabilização monetária seja complementado pelas reformas de base que deverão ser aprovadas pelo Congresso Nacional, criando as condições necessárias à consolidação do processo de desenvolvimento econômico e social. Finalmente, senhor ministro, ao reiterar nossos agradecimentos por esta honrosa visita de Vossa Excelência, à Casa do Comércio, 180 desejo também juntar os nossos aplausos aos aplausos que Vossa Excelência, recebeu no Keidaren, em sua recente visita ao Japão. Desnecessário ressaltar quão importante foi esse trabalho de reaproximação, depois de alguns anos de incompreensão em nosso relacionamento com aquele grande país, onde trabalham, hoje, mais de 150 mil brasileiros. Vossa Excelência, prestou um grande serviço ao Brasil. Esta Casa, senhor ministro, tem uma grande admiração por Vossa Excelência e pelo trabalho que vem realizando à frente do Ministério da Fazenda. 181 PRONUNCIAMENTO NA REUNIÃO DE DIRETORIA DA CNC BRASÍLIA - 07 DE AGOSTO DE 1996 Srs. Diretores da Confederação Nacional do Comércio, Srs. Presidentes de Federações de todos os Estados do Brasil, Srs. Conselheiros do SESC e do SENAC, meus amigos empresários, minhas senhoras e meus senhores. Meu querido amigo, ministro e deputado Francisco Dornelles, de longa data merecedor de nossa maior admiração e que nos trouxe grandes alegrias este ano, ao assumir o Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo. A Confederação Nacional do Comércio se sente honrada e prestigiada com a presença de V.Exa., Sr. ministro. Em nome dos meus Companheiros das Federações de todos os Estados do Brasil e dos Conselheiros do SESC e do SENAC, dou a V.Exa. as boas-vindas a esta Casa que também é a sua casa. Gostaria de dizer, Sr. ministro, que temos aqui neste Plenário, nesta sala, representantes de empresários de todas as vinte e sete unidades do País. Todos terão oportunidade de ouvi-lo e transmitir suas idéias e os seus pontos de vista a todos os rincões onde o comércio de prestação de serviços e turismo se fazem presentes neste País. 183 Esta Confederação se colocou ao seu lado, Sr. ministro, desde o momento em que V.Exa. declarou guerra ao Custo Brasil, sem perder de vista a realidade nacional submetida a uma dura concorrência internacional. Ainda ressoa em nossos ouvidos a frase síntese de V.Exa. , afirmando que a política industrial é sinônimo de abertura econômica. Se essa é uma orientação prioritária, e que todos nós aplaudimos, também merece o nosso apoio o cuidado e a prudência com que essa abertura deva ser implementada, para não destruir empreendimentos construídos com sacrifício ao longo de muitos e muitos anos. Uma vez mais, Sr. ministro, estaremos ao seu lado na batalha da redução do Custo Brasil. No contexto da teoria das vantagens competitivas, o Brasil pode perder o trem da integração e ficar à margem da grande expansão do comércio internacional, se não for capaz de competir com outros parceiros mais agressivos. A carga tributária no Brasil atingiu níveis insuportáveis, incluindo o pesado ônus das contribuições sociais e trabalhistas. Ao lado da carga fiscal sobressaem as distorções e os elevados custos dos serviços de infra-estrutura, a começar pela ineficiência ou falta de quantidade e qualidade das telecomunicações, o precário estado das nossas principais rodovias e ferrovias e a lamentável administração dos portos e aeroportos nacionais, com custos quatro vezes maiores do que, por exemplo, os da Argentina. o porto de Amsterdã, de Roterdã e outros. Recente estudo do Banco Mundial nos traz revelações que confirmam as preocupações dos empresários brasileiros. De 1994 até hoje, em meio ao processo de estabilização de nossa economia, o Custo Brasil cresceu 20%, em termos reais. Referido relatório mostra, com absoluta isenção, como são ilusórios os ganhos esperados com a redução de certas contribuições sociais, como as destinadas a entidades como o SESC e como o SENAC. 184 Faço esta referência às nossas duas entidades, porque estamos aqui num Plenário de Conselheiros exatamente do SESC e do SENAC; mas essas observações são válidas para as outras cinco entidades do grupo dos “S”. As grandes transformações necessárias para sustentar a abertura da economia brasileira estão, visivelmente - diz o relatório do BIRD - na redução da carga tributária e no programa de privatização, pela melhoria de eficiência que representarão em termos de Custo Brasil. E aqui eu me permitiria, Sr. ministro, fazer uma observação. Foi necessário uma agência internacional do porte do BIRD fazer um levantamento do Custo Brasil para que tivéssemos, dentro do nosso País, a consciência clara de que não é através do corte de contribuições para entidades como o SESC e o SENAC, SESI e SENAI, SEST e SENAT e SENAR que se vai resolver o Custo Brasil. Sr. ministro, essas entidades recebem um total de 2,5% da folha direta de pagamentos, o que significa 1,2% do total das folhas de pagamentos e encargos. Veja bem o Sr. ministro que significa apenas 0,4% do PIB nacional. Não é isso que faz o Custo Brasil, até porque no total equivale em moeda a uma cifra de cerca de 2 bilhões de reais ou 2 bilhões de dólares por ano. O Congresso Nacional acaba de aprovar uma contribuição - a nosso ver estapafúrdia - sobre a movimentação financeira, o chamado “imposto do cheque”. Somente essa contribuição significa 4,5 bilhões de reais por ano, ou seja, mais de duas vezes a totalidade dos recursos carreados para formação de mão-deobra e bem-estar do trabalhador brasileiro. E eu gostaria de dizer isso, Sr. ministro, porque o seu Ministério, que abrange as atividades econômicas do comércio, indústria e turismo, para ter vida, para funcionar de acordo com a sua 185 programação e seu projeto de trabalho, precisa contar com uma força de trabalho nacional preparada e adequada para levar esse País à frente. Isso, aliás, tem sido feito nos últimos anos. Se nós hoje temos um parque industrial invejado no mundo inteiro é porque SENAI, SENAC e as outras entidades prepararam a mão-de-obra para isso. Se o nosso trabalhador médio tem um padrão de vida razoável é porque o SESC, SESI e as outras entidades entram com colônias de férias, assistência social, escolas, restaurantes e toda essa multidão de benefícios. Esse patrimônio nacional custa menos da metade do que custa o “imposto do cheque”. E todos os empresários que estão aqui. Sr. ministro, nenhum deles recebe salário para trabalhar. Nós que trabalhamos em benefício dessas entidades realmente sentimos desânimo de um lado, e uma certa tranqüilidade, de outro - se é que se pode dizer isso - porque o que se coloca no “imposto do cheque” é duas vezes e meia mais que a totalidade da contribuição para as nossas entidades. Que isso seja feito não é problema nosso, é problema do Congresso. Mas, ao mesmo tempo, que alguns setores do Governo venham procurar dar solução ao Custo Brasil propondo redução dessas contribuições, nos parece uma posição antipatriótica. É nosso dever trazer ao nosso Ministro da Indústria e Comércio essa nossa preocupação por várias razões. Em primeiro lugar, porque este ministro, além de ser meu amigo fraterno, e de muitos aqui presentes, sempre foi um defensor dessas entidades, que realmente têm tanto contribuído para o nosso País e para o nosso sucesso. Um outro aspecto importante da administração do seu Ministério, Sr. ministro, é o turismo, vocação inegável do Brasil pela beleza e pela riqueza de seus recursos naturais. Nesse setor - como já tive oportunidade de mencionar a V.Exa. - o SESC está iniciando um importante projeto na área do Pantanal, nos rios Cuiabá e 186 São Lourenço, no Estado de Mato Grosso, onde pretendemos construir uma das colônias de férias mais atraentes do Brasil, um importante projeto de ecoturismo. Isso significa, Sr. ministro, que os empresários brasileiros hoje já têm consciência de que não basta esperar que o Governo dê solução para todos os problemas nacionais. Ao empresariado nacional e a todos nós compete, também, participar, ajudar, trabalhar no sentido de buscar soluções para os problemas que interessam à coletividade, à sociedade brasileira. É por tudo isso que o SESC , além de estar perseguindo seus objetivos de dar conforto, padrão de vida, bem-estar e lazer ao trabalhador, está também procurando ajudar na solução de um problema que é nacional. É importante para nós que o Presidente da Embratur, aqui presente, receba a nossa mensagem de que o SESC e outras entidades do setor privado também estão ajudando a resolver os problemas de sua área. A sociedade brasileira tem que se irmanar com o Governo. Já passou o tempo em que podíamos ficar parados esperando que o Governo desse solução a todos os problemas. Nesse sentido, reafirmamos aqui neste Plenário que nós também, na área do comércio, estamos procurando ajudar a sua administração. Sr. ministro, o Presidente Fernando Henrique Cardoso nomeou-o Ministro da iniciativa privada. Eu estava presente na sua posse quando o Presidente fez essa declaração. Nós gostaríamos de acrescentar a esse diploma o título de Ministro do Custo Brasil. A meu ver, o ministro Dornelles encarna realmente o espírito combativo que pode levar-nos a dar solução ao Custo Brasil. Tenho certeza, também, de que este Plenário gostaria de dar mais um título a V.Exa.: Ministro da Defesa das Entidades dos Serviços Sociais e Formação Profissional. 187 Sr. ministro, o Brasil tem que deixar de ostentar a degradante posição de país com a mais iníqua distribuição da renda nacional. O Brasil tem que deixar de ser o país do futuro para ser um país do presente, preparado para o futuro. É para que se realize um mutirão nacional com esse objetivo que a Confederação Nacional do Comércio oferece a V.Exa. todo o seu apoio e toda a sua cooperação. 188 PRONUNCIAMENTO NA REUNIÃO DE DIRETORIA DA CNC BRASÍLIA - 23 DE JANEIRO DE 1997 Senhoras e Senhores, prezados companheiros das Federações do Comércio do Brasil, Senhores Empresários. Estimado amigo Francisco Dornelles, Ministro da Indústria, do Comércio e do Turismo. É sempre motivo de satisfação e alegria receber nesta Casa o nosso ministro e, mais que ministro, o nosso velho e estimado amigo. Muito antes que o Presidente Fernando Henrique Cardoso houvesse convocado Francisco Dornelles para integrar o seu governo, à frente desse Ministério, V.Exo., senhor ministro, se havia feito credor do apreço e da estima dos Empresários do Comércio, pelos ideais claros e firmes em favor da livre iniciativa, da liberdade de comércio e da menor ingerência do Estado no domínio econômico. Por diversas vezes, todos aqui sabemos, recorremos ao Deputado Dornelles para discutir nossas idéias e levar ao Congresso Nacional os nossos pontos de vista e as reivindicações dos empresários do comércio, representados por esta Confederação Nacional. 189 Em agosto do ano passado, tivemos oportunidade de receber, em almoço, neste mesmo local, o já então Ministro do Comércio, que o Presidente Fernando Henrique havia feito questão de intitular “Ministro do Setor Privado”. Hoje, temos a renovada satisfação de recebê-lo, para ouvir o balizamento da posição do Governo brasileiro em relação a um dos assuntos econômicos que, em breve, vai se tornar tema dos mais importantes no campo da integração continental, qual seja a proposta hoje em estudo para a criação da ALCA: área de livre comércio entre todos os 34 países das Américas, do Norte ao Sul do continente. A criação de uma área de livre comércio - é importante ressaltar, senhor ministro - com a participação dos Estados Unidos, que representam o grande mercado mundial, em especial o grande mercado para os empresários brasileiros, vai abrir uma frente de múltiplas possibilidades para a economia do Brasil, ao mesmo tempo em que vai constituir um enorme desafio para os empresários brasileiros da Agricultura, da Indústria e do Comércio. Há poucos dias, em cerimônia no Palácio do Itamaraty, tomamos posse, juntamente com o ministro Ernane Galvêas, aqui presente, como membros da Comissão Coordenadora da ALCA, para representar esta Confederação no III Fórum Empresarial, a ser realizado em Belo Horizonte, no próximo mês de maio. Ali, vamos discutir esses problemas de integração continental, apresentando o ponto de vista do nosso Setor. O início desse trabalho começa hoje, senhor ministro, com a sua presença neste almoço, e a seguir com a participação do Embaixador Botafogo Gonçalves em nossa Reunião de Diretoria, que será realizada logo após este almoço. O significado especial deste nosso encontro é a comunhão de interesses do Setor Privado com o Governo Federal. 190 Este encontro pode ser muito importante para todos nós e para o País. E, por isso mesmo, o nosso Departamento Econômico, aqui representado, já vem se preparando cuidadosamente para receber a cooperação de todas as nossas Federações e elaborar os documentos que vão traduzir o posicionamento do Setor do Comércio, dos Serviços e do Turismo no Brasil. Agradeço a presença de todos, de nossos companheiros representantes do comércio do Brasil e, em especial, quero agradecer a presença de dois grandes amigos que nos representam no Parlamento Nacional, o Deputado Wilson Campos e o Deputado Paes Landim, que aqui vêm prestar sua colaboração e reafirmar que o Congresso também está defendendo os pontos de vista do Comércio. 191 PRONUNCIAMENTO NA REUNIÃO DE DIRETORIA DA CNC BRASÍLIA - 14 DE MAIO DE 1998 Prezado amigo Botafogo Gonçalves, ilustre e merecidamente Ministro da Indústria, do Comércio e do Turismo, Constitui para esta Confederação Nacional do Comércio uma grande satisfação poder contar com a presença de V. Exa. neste almoço em que se encontram hoje reunidos os Presidentes das Federações de Comércio de todo o Brasil, bem como os Diretores da Confederação Nacional do Comércio. Esta é a segunda vez que contamos, aqui em nossa Casa, com a sua presença. No ano passado tivemos a satisfação de tê-lo como convidado, em Reunião da Diretoria, para nos fazer uma instrutiva exposição sobre a atual política externa brasileira. Foram muito proveitosas as informações que V. Exa. nos trouxe, naquela oportunidade, sobre as negociações que se desenvolvem no quadro de consolidação do MERCOSUL, assim como sobre os desafios que representa a proposta americana de criação da ALCA, uma zona de livre comércio entre todos os países das três Américas. Hoje, V. Exa. aqui comparece como Ministro da Indústria, do Comércio e do Turismo. Neste honroso cargo, substitui o nosso velho amigo, um grande amigo, que é o ministro Francisco 193 Dornelles, com quem durante muitos anos vimos mantendo um constante e proveitoso diálogo. Este mesmo diálogo, com o mesmo sentido de cooperação, é que, de nossa parte, todos nós desejamos manter com V. Exa. e com o seu Ministério. Estão associadas a esta Confederação, senhor ministro, quarenta e duas federações estaduais e 700 Sindicatos patronais, em estreito relacionamento sindical, político, econômico e social, com cerca de 2 milhões de empresários, grandes e pequenos, do Norte ao Sul do Brasil, de todos os Estados deste País. Por outro lado, estão vinculados ao nosso Sistema Confederativo cerca de 15 milhões de trabalhadores da área do Comércio e Serviços, dos quais um número impressionante passa anualmente pelas salas de aula do SENAC; ou desfrutam, com suas famílias, das colônias de férias e da assistência social proporcionada pelo SESC. Nós gostaríamos muito, senhor ministro, que V. Exa. conhecesse de perto os nossos trabalhos, especialmente os que vêm sendo realizados pelo SESC e pelo SENAC. Gostaríamos também de lhe dizer que estamos preparando milhares de trabalhadores em áreas de atuação do seu Ministério, inclusive na área de Turismo, recentemente incorporada às atividades de Comércio e Indústria desse Ministério do qual V. Exa. é titular. Por outro lado, conforme já tivemos oportunidade de lhe expor recentemente, no Rio de Janeiro; esta Confederação, através do SESC, está realizando uma importante experiência de ecoturismo e preservação ambiental, com um projeto em área de 92 mil hectares, no Pantanal de Mato Grosso. Para os meus companheiros aqui presentes, eu tenho o prazer de anunciar que o ministro Botafogo aceitou nosso convite para visitar o Projeto Pantanal. Estamos na expectativa dessa visita que, conforme planejado, deverá ocorrer em princípios do próximo mês de junho. O nosso ministro, acompanhado pela sua comitiva, 194 deverá passar uns dias lá no Pantanal e, por uma feliz coincidência, na mesma época o nosso amigo Brustolin estará lá presente, capitaneando a equipe campeã de pesca do Estado do Paraná; e ele já assumiu o compromisso de fornecer todos os peixes que S. Exa. e seus acompanhantes quiserem consumir ou levar para casa e distribuir para os amigos. Nosso hotel é bastante amplo, podendo abrigar não só a equipe do ministro, como também os profissionais da pesca do Estado do Paraná. Senhor ministro, nossos Departamentos Técnicos e nossos Diretores têm acompanhado de perto e participado ativamente em todas as negociações do MERCOSUL, assim como das discussões para criação da ALCA. No âmbito do MERCOSUL, esta Confederação é um dos órgãos encarregados pelo Governo Brasileiro da emissão dos certificados de origem que, como sabe V. Exa., são um dos instrumentos básicos na área da fiscalização do MERCOSUL. Existe em nosso meio de empresários do comércio uma grande preocupação com as atividades do Comércio Exterior, especialmente com os desequilíbrios que vêm ocorrendo desde 1994 em nossa balança comercial. Todos nós vemos com apreensão a escalada dos déficits em transações correntes, cujo pesado financiamento exige uma política monetária de elevadas taxas de juros. V. Exa. sabe melhor do que nós, homens do Comércio, que essas elevadas taxas de juros, durante longo tempo, reduzem as atividades econômicas, cerceiam o consumo, inibem os investimentos e sobrecarregam perigosamente as contas do setor público, além de criarem nociva dependência de capitais externos de curto prazo. Essa conjuntura de desequilíbrios vem afetando sobremaneira o Comércio, que desde 1996 vem registrando quedas em seu faturamento. Isso está sendo verificado em termos nacionais, em todo o País. É importante reverter essa situação. É importante 195 retomar o caminho do desenvolvimento econômico, cuja perda de dinamismo tem dado causa ao crescente desemprego, com todas as mazelas e instabilidade social. Causam-nos preocupação, também, senhor ministro, as crescentes atividades de contrabando e de contrafação que vêm se desenvolvendo principalmente nas fronteiras com o Paraguai e pelos portos e aeroportos nacionais, face à precária fiscalização aduaneira. Essas transações ilegítimas e ilegais, que tantos prejuízos causam ao País, afetam fortemente as atividades do Comércio, que se vê constrangido ante a proliferação do comércio marginal, que não paga impostos, não contribui para a Previdência Social e, assim, concorre deslealmente com o Comércio legal e organizado, além de criar uma situação extremamente incomoda para todo o País, que vê o comércio ilegal, o contrabando e a contrafação campeando no Brasil inteiro. Até mesmo aqui em Brasília, perto dos Ministérios, onde a fiscalização deveria ser mais rígida, estamos vendo não só o contrabando como também a falsificação de produtos. O Brasil tornou-se o grande campo de falsificação de Produtos de todos os países do mundo. São vendidos produtos que vêm da China ou da Coréia, através do Paraguai, ou fabricados no Paraguai, assim como mercadorias produzidas no Brasil e apresentadas como fabricadas no Paraguai, que depois vêm ser vendidos no Brasil, sem pagar impostos. Tudo isso, senhor ministro, é uma grande preocupação de todos estes homens do comércio que estão aqui reunidos. Hoje, senhor ministro, na oportunidade dessa sua visita, eu gostaria de lhe dizer, em nome da Confederação e das Federações estaduais, de nossa disposição de cooperar com o Ministério de V. Exa., e ajudar a implementar as medidas que possam promover o desenvolvimento econômico e social do nosso país e também desejar à V. Exa. e a todos os que o acompanham nessa árdua tarefa, todo o sucesso e êxito em sua administração. 196 PRONUNCUMENTO NA REUNIÃO DE DIRETORIA DA CNC BRASÍLIA - 24 DE SETEMRO 1998 Prezados companheiros Presidentes de Federações do Comércio de todo o País, Diretores da Confederação Nacional do Comércio, meus caros empresários, senhoras e senhores; meu prezado e ilustre Secretário Executivo do Ministério da Fazenda, Dr. Pedro Parente. Em primeiro lugar, gostaria de dizer que esta Confederação se reúne todos os meses com as Federações Estaduais do Comércio e, em várias oportunidades, tivemos a alegria e a honra de contar com a participação de homens do governo, responsáveis pela política econômica nacional. Aqui, senhor secretário, todos são empresários. Há, entre nós, um permanente sentimento de otimismo, ao mesmo tempo em que acompanhamos com muita ansiedade qualquer movimento que o governo faça no sentido tributário, seja no sentido de facilitar exportações ou dificultar importações, ou incentivar a criação de novas empresas. Enfim, esta é uma platéia de pessoas extremamente interessadas em tudo aquilo que o ilustre Secretário Executivo do Ministério da Fazenda faz e que possa nos trazer como orientação para os nossos próprios negócios. Das atividades do comércio depende uma grande parte da população brasileira, seja pela distribuição de renda, seja pela geração de empregos, que constitui, hoje, uma das grandes preocupações da sociedade brasileira. 197 Senhor Secretario, a vinda de V.Sa. a esta Casa do Comércio acontece em um momento de grande perplexidade na vida nacional. Outras vezes nos reunimos aqui com autoridades do governo, em momentos também difíceis. Em 23 de agosto de 1995, por exemplo, almoçou aqui, neste mesmo local, o ministro Pedro Malan. Nós estávamos recém-saídos daquela crise do México que tanto nos abalou. Agora, as dificuldades aumentaram e a crise mundial está batendo em cheio na economia nacional. Não é a primeira vez que isso acontece, e ainda estão na memória de todos nós as aflições e sacrifícios experimentados durante os anos da crise da dívida externa e da recessão que marcou a década perdida dos anos 80, em decorrência da explosão dos preços do petróleo e das taxas de juros internacionais. Hoje, os acontecimentos são de origem diversa, basicamente ligados à síndrome coletiva que tomou conta dos mercados financeiros internacionais, a partir da recessão japonesa e das turbulências que assolaram o Sudeste Asiático e a própria Rússia. Os efeitos dessa crise mundial, talvez a mais grave desde a grande depressão dos anos 30, estão se refletindo pesadamente na queda das nossas Bolsas de Valores, na deterioração dos preços das nossas “commodities” de exportação, na retração dos mercados financeiros internacionais e na fuga de capitais. São importantes perdas reais, que inibem o crescimento econômico, agravam o problema do desemprego e põem a descoberto, em toda a sua profundidade, as duas grandes fragilidades da economia brasileira, que são: o pesado desequilíbrio das contas externas e o crescente déficit do setor Público. 198 Os empresários do comércio, senhor secretário, de todos os Estados do Brasil, acompanham com grande preocupação o desenrolar desses acontecimentos. Há três anos, que o comércio varejista brasileiro, em nossas seis maiores regiões metropolitanas, vem apresentando resultados negativos, sem conseguir divisar alguma perspectiva alvissareira. Em conseqüência, existe entre nós, assim como em outros setores de atividades, um grande medo de expandir as atividades do comércio ou de investir em novos projetos. Em um mundo que caminha célere no processo da globalização, em meio a um mercado mundial cada vez mais competitivo, há, um receio geral de que o Custo Brasil está nos acorrentando e bloqueando nossas possibilidades. O Custo Brasil, como todos nós sabemos, tem três dimensões cruciais: 1) as taxas de juros internas, que atingem níveis às vezes três vezes superiores as taxas dos mercados internacionais; 2) a carga tributaria, que se situa muito acima dos nossos principais concorrentes; e 3) a deficiência dos setores básicos e de infra-estrutura, onde ressaltam a baixa produtividade e os custos elevados, como é o caso típico do sistema portuário nacional. Aqui vale a pena um pequeno parêntese. Já que o Custo Brasil é tão importante, muitas vezes fica tentador para as autoridades do governo, e também fora do governo, apresentarem críticas ao Custo Brasil, procurando identificar migalhas que, realmente, não constituem o Custo Brasil. Quando nós falamos em custo portuário, nós que exportamos e importamos, queremos registrar o quanto perdemos em competitividade, em virtude de uma legislação arcaica, que 199 felizmente parece estar mudando. É grande a nossa preocupação, quando ouvimos falar no SESC e no SENAC, cujos recursos se destinam, basicamente, a formar mão-de-obra. Felizmente, esse é o nosso trabalho. Se não houvesse entidades como o SENAC, a indústria automobilística não teria se instalado aqui nos anos cinqüenta. Se não houvesse entidades como o SENAC, nossos supermercados continuariam, ainda hoje, na base de vender por caderno. A menção que fazemos ao Custo-Brasil é um alerta para que a sociedade não seja desinformada e sim por uma coisa absolutamente real. Quando se pergunta porque o Custo Brasil afeta a atividade do comércio, a resposta deve ser encontrada em todos os fatores que prejudicam a nossa capacidade de competir, em termos internacionais. Não é o SESC, nem tampouco o SENAC, assim como não é o SENAI, responsáveis pelo Custo Brasil. As investidas que, respectivamente, vêm sendo feitas contra essas entidades, decorrem, basicamente, da demora, pelo governo e pelo Congresso, de encarar de frente as verdadeiras sobrecargas ao Custo Brasil. Meu caro secretário Pedro Parente: nós, empresários do comércio, estamos confiantes em que o governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, na perspectiva de um novo mandato administrativo, vai-se concentrar na busca de soluções para esses problemas. Por isso mesmo, na oportunidade deste nosso almoço, gostaria de lhe dizer que, no campo fiscal, despertou um grande interesse entre nós a proposta que V. Sa. delineou no início deste ano e que estaria próxima de ser enviada ao Congresso Nacional. É com satisfação que comunico ao caro secretário que, devidamente discutido entre nós, esse projeto, entre todas as propostas em curso, foi o que recebeu o maior apoio de todos os nossos companheiros. 200 Nesta oportunidade, eu gostaria de fazer um lembrete aos companheiros: procurem conhecer o teor do discurso do Presidente da República, feito ontem de manhã no Itamarati. O nosso querido Presidente da República, que todos nós esperamos fique mais quatro anos no governo, para administrar a situação difícil da atual conjuntura, fez uma análise didática, uma análise sintética, correta, daquilo que precisa ser feito pelo próprio governo federal e pelo nosso Congresso Nacional. Os nossos congressistas devem entender que, no momento, além de defender suas reeleições, devem defender os interesses do País. Os governos estaduais, os governos municipais e nós, empresários, devemos assumir a nossa parte nesse trabalho. Este discurso do Presidente da República feito ontem é, para nós, realmente, uma sinalização, um caminho, indicando as providências que precisam ser tomadas. E se, por acaso, o prezado secretário tiver oportunidade de falar com o Presidente, peço-lhe que transmita os nossos cumprimentos, em nome de toda essa comunidade empresarial aqui presente. Esta Confederação Nacional do Comércio estudou cuidadosamente a reforma fiscal e, como sabe V. Sa., apresentou um projeto próprio ao Ministro da Fazenda e ao Presidente da República. Embora resguardando os fundamentos desse nosso projeto, em nome da realidade política nacional de hoje, esta Confederação se dispõe, em princípio, a apoiar as linhas básicas do projeto enunciado pelo Ministério da Fazenda, do qual o ilustre secretário é, realmente, o idealizador. É com esta determinação, meu caro secretário, que gostaríamos que nos esclarecesse em que pé está, hoje, o projeto de reforma tributária, qual a sua estrutura e quais as perspectivas de seu encaminhamento ao Congresso Nacional, ou mesmo o que pode acontecer com ele dentro do Congresso Nacional. 201 Finalizando, agradeço a sua presença, em nome de todos os companheiros aqui reunidos. Este ano de 1998 está terminando e nós esperamos que o Presidente seja reeleito. Isso é unânime, não por razões particulares, mas pela defesa da estabilidade, progresso do País e o futuro dos nosso filhos. Em tudo isso, cabe ao ilustre secretário uma grande responsabilidade na definição da política que vai presidir os nossos destinos nos próximos anos, a política que vai nos ajudar a empregar, anualmente, cerca de dois milhões de novos trabalhadores. Isto depende de nós. Nós não poderemos criar novas oportunidades de emprego sem que o governo faça a sua parte. Não compete a nós fazer a reforma tributária; não compete a nós fazer a reforma previdenciária. Esse é o encargo do governo. Nós apenas aguardamos que o governo reencontre os caminhos do crescimento econômico, com estabilidade e justiça social, para que os nossos filhos não tenham, no futuro, tantas preocupações como nós estamos tendo hoje. Seja muito bem-vindo a esta Casa, que também é sua, Dr. Pedro Parente. 202 PRONUNCIAMENTO NA SOLENIDADE DE POSSE DA NOVA DIRETORIA BRASÍLIA - 19 DE NOVEMBRO DE 1998 Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Professor Fernando Henrique Cardoso; Senhor Presidente da Câmara dos Deputados, Dr. Michel Temer; Senhor Ministro do Trabalho, Professor Eduardo Amadeo; Senhor Ministro da Previdência e Assistência Social, Waldeck Vieira Ornelas; Senhor Ministro Interino da Fazenda, Dr. Pedro Parente; Senhor Presidente da Confederação Nacional da Indústria, Fernando Bezerra, nosso Senador; Senhor Presidente da Confederação da Agricultura, Ernesto de Salvo; Senhor Presidente da Confederação Nacional dos Transportes, Dr. Clésio Andrade; Senadores, Deputados, Senhor Governador do Estado do Amapá, João Capiberibe, Senhores Ministros do Judiciário, Senhores representantes dos trabalhadores, meu querido amigo Calixto, Senhores empresários, minhas senhoras e meus senhores. Senhor Presidente, A Diretoria da Confederação Nacional do Comércio, que nessa data toma posse, inicia seu mandato às vésperas do último ano do segundo milênio, devendo concluí-lo no primeiro ano do 203 terceiro milênio. Esses três anos compõem a maior ponte de tempo que a humanidade já transitou. A quadra histórica que se desenha para o calendário da ultrapassagem do milênio obriga a todos os que, de qualquer modo detenham responsabilidades, a amplo pacto com a solidariedade. Nos últimos cinco anos, a economia nacional registrou um amplo espectro de múltiplas realizações, que tiveram a participação decisiva de Vossa Excelência, Senhor Presidente. O marco mais importante dessa jornada foi, sem dúvida, o controle da inflação endêmica e a interrupção do longo e injusto processo inflacionário, iniciado oficialmente com o lançamento do Plano Real em julho de 1994. Um ano antes disso, em agosto de 1993, em visita a esta Confederação, na qualidade de então Ministro da Fazenda, Vossa Excelência se referia à desigualdade social de um país que convivia com duas moedas. A moeda do pobre, que se desvalorizava todos os dias, e a moeda indexada dos mais afortunados. Por outro lado, nesses últimos cinco anos, não foram poucos os sobressaltos vividos pela sociedade brasileira. Em 1994 e 1995, tivemos os reflexos negativos da crise mexicana. Em outubro de 1997, sobreveio a crise asiática, da qual resultaram fragorosa queda das bolsas de valores e desenfreada desvalorização competitiva das taxas de câmbio. Em agosto deste ano, a moratória decretada pela Rússia fendeu ainda mais os alicerces do sistema financeiro internacional, inclusive com perigosas repercussões sobre grandes organizações bancárias multinacionais. A crise ganhou, então, os contornos da globalização. O Brasil não conseguiu passar ao largo desses acontecimentos, e a economia brasileira foi duramente atingida, obrigando o governo de Vossa Excelência, Senhor Presidente, a acionar todos os instrumentos e mecanismos de defesa, para preservar a estabilidade monetária, tão penosamente construída. 204 Pesados sacrifícios foram impostos à sociedade brasileira, desde a elevação defensiva das taxas de juros até a pesada carga tributária que recai sobre o setor privado - consumidores e empresas - afetando o ritmo de crescimento da produção nacional. Depois de longa recessão de 1987 a 1992, o PIB brasileiro voltou a crescer em 1993, mas, infelizmente, não são alvissareiras as previsões para o próximo ano. O setor privado e, particularmente, o segmento do Comércio, que viveu dias de forte expansão em 1994 e 1995, convive, hoje, com um quadro recessivo de suas vendas com reflexos negativos sobre o nível de emprego da mão-de-obra nacional como bem sabe o nosso Ministro do Trabalho, aqui presente. A menção desses fatos, porém, Senhor Presidente, não tem qualquer sentido de crítica vazia, pois todos nós, empresários do setor privado, entendemos perfeitamente as agrúrias e as aflições que sofre o Governo Federal, em busca do caminho das reformas e da recuperação. Na verdade, a mensagem que trago dos meus companheiros do comércio, aqui presentes, é de compreensão, de apoio, e de confiança no programa de estabilidade fiscal do seu governo. Os empresários do Comércio, aqui reunidos, nesta oportunidade, da presença de Vossa Excelência, desejam condenar, com indignação, a forma sensacionalista e antiética com que alguns agentes procuram minar os caminhos do trabalho nacional, de construção e reconstrução deste País, em que estaremos todos envolvidos e comprometidos, na conjuntura atual. Na hora presente, estamos todos com o pensamento voltado para o Brasil. 205 Todos nós entendemos que a defesa dos interesses nacionais está acima de outras preocupações e que, neste momento de crise, é preciso suportar os pesados sacrifícios impostos à sociedade, na expectativa de que eles sejam transitórios, Senhor Presidente. Nós vamos enfrentar esses sacrifícios e vamos aprofundar, mais do que antes, o sentido de cooperação entre o setor privado e o Governo, na certeza de que estaremos caminhando na direção certa. Vamos lutar ao lado do Governo para realizar as reformas de base, para racionalizar o sistema tributário, para reordenar a Previdência Social e, como disse Vossa Excelência, Senhor Presidente, em 27 de outubro último, “para livrar a sociedade brasileira do flagelo dos juros”. Essa frase é sua, mas representa o anseio de todos nós. Nossa condição de país emergente colocou-nos sob o fogo cruzado de um crucial paradoxo, em que, de um lado representamos uma trincheira capaz de resistir aos efeitos da crise e impedir que ela contagie outros países, inclusive os nossos irmãos na América Latina; e, de outro lado, vemo-nos ameaçados pelos movimentos especulativos, que nos obrigam e que nos levam a aceitar a construção de um mecanismo financeiro preventivo, com a participação de vários governos e instituições internacionais. É bom que se diga, esse movimento de solidariedade mundial não visa apenas os interesses do Brasil. Nós nos colocamos no centro do sistema, mas o objetivo é defender não só os nossos, mas, igualmente, e às vezes até principalmente, os interesses de outros países, inclusive os grandes países da América do Norte, da Europa e da Ásia. A grande lição que esperamos tirar desses acontecimentos é que, em relação aos problemas nacionais, nós, brasileiros, teremos que solucionar os nossos próprios erros e buscar, por nossos próprios meios, a correção necessária dos nossos problemas. 206 O Estado brasileiro cresceu demais e apesar do meritório trabalho das autoridades para diminuir o seu gigantismo, através de arrojado programa de privatização. Continua ainda maior que a Nação. Há, hoje, um consenso nacional de que a indispensável sincronia entre Estado e Nação só será alcançada quando o custo da administração pública não superar a receita produzida pela capacidade contributiva do nosso povo. Isso, aliás, está explícito na nossa Constituição. Senhor Presidente, o Comércio está aqui representado, praticamente, por comerciantes de todos os Estados, de todos os rincões do Brasil. O que nós estamos dizendo reflete a opinião de todos esses homens que encaram a labuta do Comércio como atividade-fim, em seu aspecto profissional. O Comércio é pragmático, Senhor Presidente, por formação e por contingência. O espaço que ocupa é a faixa apertada entre o produtor e o consumidor e sua função é tão necessária a um, quanto indispensável ao outro. Nós ficamos no meio. O produtor quer o maior preço pelo seu produto e o consumidor, que somos nós, quer pagar o menor preço. Por isso mesmo, sua sobrevivência deve muito ao pragmatismo e à sua inata vocação para adaptar-se às variações da conjuntura. Neste contexto sobressaem, igualmente, as obrigações sindicais do Sistema Confederativo, que nós representamos aqui. O sindicalismo civilizado - é bom insistir no adjetivo qualificativo - como bem sabe o nosso Ministro do Trabalho, nasceu para lutar pela paz social, buscando denominadores comuns capazes de reduzir as diferenças entre o capital e o trabalho. Ele tem mais compromisso com o bem do País do que com o seu próprio bem. 207 Ao longo das intermináveis missões que vem cumprindo, o sindicalismo nacional compôs marca que o distingue com notoriedade reconhecida até por seus adversários: é a capacidade de ceder, conceder e transigir, considerando-se recompensado pela conquista do entendimento entre os que trabalham como empregadores de um lado, e os empregados, de outro. A Confederação Nacional do Comércio, fiel à tradição do sindicalismo civilizado, que sempre pregou e pratica, está a postos, consciente de que deve assumir os sacrifícios que a emergência da situação impõe. Nós vamos lutar pelas conquistas alcançadas e consagradas em nossa Constituição Federal, que foi colocada em vigor no dia 5 de outubro de 1988, pelo nosso saudoso Ulisses Guimarães. Nós vamos lutar por essas conquistas. Nossa proposta, Senhor Presidente, é que trabalhemos juntos os problemas mais importantes e prioritários, deixando de lado questões que não estão interferindo no curso normal da vida nacional e, pois, não deveriam desviar a atenção dos nossos legisladores. Antes de concluir, Senhor Presidente, desejo registrar que a oportunidade dessa cerimônia e a presença de Vossa Excelência nesta Casa coincidem com a inauguração de nosso edifício-sede, em Brasília; este prédio, que estamos inaugurando hoje, com a presença do Presidente da República, concebido dentro dos requisitos mais modernos da tecnologia - aqui está presente o arquiteto que o projetou, assim como os construtores e consultores, e ostentando inegável padrão de beleza - este edifício destina-se não só à sede própria da Confederação, mas, também, à locação, com a finalidade de subsidiar a receita de que depende a sobrevivência do Sistema Confederativo da Representação Sindical do Comércio - SICOMÉRCIO. Não pensem os Senhores que este prédio é uma demonstração de muita riqueza e poder, este prédio, inclusive, irá sustentar a nossa 208 organização com menores cargas para nossos contribuintes ou para o próprio governo. Mais do que um edifício moderno, a nova sede da Confederação Nacional do Comércio é um símbolo da unidade e congraçamento da numerosa classe dos comerciantes brasileiros, de todas as regiões do País. Aqui estão representados não apenas a Confederação Nacional do Comércio, como órgão de cúpula, mas, igualmente, 33 Federações de Comércio e mais de 800 sindicatos da classe dos comerciantes. Senhor Presidente, nos últimos anos, de dois em dois anos, reunimos no Rio de Janeiro mil sindicalistas do comércio, alguma coisa que nunca aconteceu na América Latina. Acredito que, nosso Ministro do Trabalho, aqui presente, não teve a oportunidade de assistir a esse evento, porque a última reunião foi realizada em outubro do ano passado. Nós reunimos 800 sindicatos representantes dos empregadores do Comércio, por três vezes seguidas, para discutir e redigir a nossa legislação básica e o nosso estatuto. O Comércio é como o marisco que fica entre o rochedo e o mar. O rochedo, o senhor sabe, está aqui (aponta para o Senador Bezerra), e o mar são os consumidores; nós, do comércio, somos os mariscos. Finalmente, desejo agradecer a presença honrosa, nesta solenidade, do primeiro mandatário da Nação, o Presidente Fernando Henrique Cardoso. E estender às demais autoridades e companheiros de outras confederações nacionais os nossos agradecimentos por sua presença. Em nome da Diretoria da Confederação Nacional do Comércio, quero aqui registrar o nosso reconhecimento e a nossa satisfação pela presença de todos os amigos que atenderam ao nosso convite. 209 PRONUNCIAMENTO NA REUNIÃO DE DIRETORIA DA CNC BRASÍLIA - 29 DE MAIO DE 1999 Exmo. Senhor Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Dr. Celso Lafer, Em meu nome pessoal e dos demais companheiros, presidentes das Federações de Comércio de todos os Estados do Brasil, desejo agradecer a Vossa Excelência, senhor ministro, a honra de comparecer a este nosso almoço, acompanhado do empresário Helio Mattar, Secretário da Câmara de Comércio e Serviços de seu Ministério. Este é um momento especialmente importante para que os comerciantes de todas as regiões do País possam ouvir V.Exa. e buscar em suas palavras alguma orientação para o rumo de seus negócios. Desde o final do ano passado, a economia brasileira vem atravessando momentos de grandes inquietações. A recusa do Congresso à aprovação da CPMF e da contribuição dos servidores públicos inativos, as afirmações do ex-ministro Celso Furtado e a declaração de moratória pelo Governo de Minas Gerais precipitaram os acontecimentos. A fuga incontrolada de capitais, cerca de dez bilhões de dólares em quinze dias, acabou provocando a dramática, mas absolutamente necessária mudança do sistema cambial. 211 Até o dia 14 de janeiro, a Bolsa de Valores de São Paulo havia caído 31 %, no dia 15, subiu 33,4%, revelando um componente altamente especulativo. A cotação do dólar em relação ao Real disparou de R$ 1,20 para chegar a R$ 2,15, no dia 29 de janeiro. A taxa de juros do overnight, que remunera a emissão dos Títulos Públicos, subiu a 37% e chegaria a 45% no inicio de março. No mês de fevereiro, o índice geral de preços da FGV atingiu 4,4%. Essa era a conjuntura de incertezas que cercava a economia nacional, no início deste ano, e também no dia 27 de janeiro, quando tivemos a oportunidade e a honra de receber a primeira visita de V.Exa. à nossa (e à sua) Casa, no Rio de Janeiro. Mas as coisas mudaram, felizmente, para um clima de maior estabilidade e confiança. Atualmente, todos nós reconhecemos que esse cenário já se modificou e a situação econômica do País ganhou contornos muito mais definidos. A mudança ocorrida no sistema cambial afastou a iminência de sérios problemas na área externa e abriu novas perspectivas para o futuro próximo. O Governo não tinha alternativa, quando aceitou a liberação do mercado cambial, a partir do dia 15 de janeiro. Foram mais de 4 anos e meio de fortes pressões acumuladas em função de uma taxa de câmbio sobrevalorizada, estimulando importações supérfluas e gastos extravagantes de um falso turismo, destinado a fazer compras no exterior, em detrimento da produção e do trabalho nacionais. V.Exa., que foi Ministro das Relações Exteriores, em 1992, e, em seguida, durante mais de três anos, embaixador do Brasil junto à Organização Mundial do Comércio, conhece bem os equívocos 212 cometidos pela nossa política de abertura econômica, abrindo as portas das importações, sem contrapartida, sem os benefícios de uma necessária e justificável reciprocidade. O Brasil ficou colocado à margem dos acontecimentos, na contramão do processo de globalização que vai caminhando aceleradamente. Sem proteção adequada, a capacidade de competição das empresas nacionais foi gravemente minada pela pesada carga tributária, pelo flagelo das taxas de juros mais altas do mundo e pela baixa eficiência e altos custos da nossa infra-estrutura de transportes, sem falar na sobrevalorização da taxa cambial, que durante estes últimos anos refreou a exportação dos produtos nacionais e estimulou a competição dos concorrentes estrangeiros. Era fatal que a política econômica brasileira inspirasse o descrédito e a desconfiança dos investidores internacionais, pela vulnerabilidade de seus fundamentos. Assim, a mesma crise que se abateu sobre os países do Sudeste Asiático e sobre a Rússia, acabou chegando às nossas praias e pondo a descoberto os pesados desequilíbrios acumulados na área externa e os crescentes déficits do setor público, na área interna. Senhor ministro, V.Exa. tem, hoje, em seu novo Ministério, a responsabilidade de conduzir a bandeira de uma agenda positiva. Agenda positiva, segundo nosso entendimento, significa o conjunto de medidas destinadas, nesta segunda fase da administração do Presidente Fernando Henrique Cardoso, a consolidar as conquistas e a vitória sobre a inflação, sem perder 213 de vista o objetivo e as oportunidades da retomada do desenvolvimento econômico e social. Desde 1994, a taxa de crescimento da produção nacional vem caindo sistematicamente. Em 1998, a economia brasileira permaneceu estagnada e, lamentavelmente, acentuou as perspectivas de uma maior recessão no corrente ano de 1999. Entretanto, senhor ministro, é fora de dúvida, e todos nós sentimos isto, em todos os Estados da Federação, que a economia nacional está ávida para crescer, para alçar vôo, para retomar o ritmo tradicional de crescimento econômico. Nós acabamos de nos liberar das amarras de um sistema cambial restritivo e recessivo. Mas faltam outros ingredientes igualmente importantes para estimular as atividades econômicas e, particularmente, as exportações. Refiro-me, novamente, aos três grandes obstáculos que estão obstruindo uma maior integração da economia brasileira aos mercados internacionais: a elevada taxa de juros, a pesada carga tributária e os custos antieconômicos dos portos nacionais. Convivendo no contexto de uma inflação média de cerca de 3% ao ano, a empresa brasileira não tem condições de suportar financiamentos a juros de 3% ao mês. Os países que conosco concorrem nos mercados internacionais, nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia ou mesmo na América Latina, desfrutam de condições absolutamente superiores às nossas. No México, na Argentina, no Chile, assim como na Coréia do Sul ou em Taiwan, as taxas de juros bancárias chegam a ser dez vezes menores que as nossas. 214 No campo fiscal, é a mesma coisa. Enquanto a nacional se verga ao peso de uma carga tributária equivalente a 32% do PIB, nesses países nossos concorrentes a carga tributária oscila ao redor de 20%. Por último, senhor ministro, temos os custos portuários, algumas vezes intransponíveis. Como V.Exa. bem sabe, o manuseio de um conteiner de 40 pés no Porto de Santos, o maior porto do País, custa hoje US$ 350, em comparação com cerca de US$ 130 em Buenos Aires, Antuérpia ou outros portos europeus. Todos esses fatos aqui mencionados, senhor ministro, vão estar colocados à frente de sua administração no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Uma tarefa difícil aguarda V.Exa. e seus auxiliares. Por isso mesmo, ministro Celso Lafer, nós, empresários do comércio, de todos os Estados do Brasil, queremos colocar-nos a seu lado e emprestar-lhe nossa melhor cooperação. Seja bem-vindo à nossa Casa, ministro, que é também a sua Casa. 215 PRONUNCIAMENTO NA REUNIÃO DE DIRETORIA DA CNC BRASÍLIA - 05 DE AGOSTO DE 1999 Minhas senhoras, meus senhores, meus caros companheiros diretores da Confederação Nacional do Comércio, diretores e presidentes das federações do comércio, meu prezado amigo e tributarista Professor lves Gandra, que faz parte do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio e do Conselho de Economia da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, meu querido e prezado amigo Francisco Dornelles, Ministro do Trabalho e do Emprego, meus caros amigos. Várias vezes o ministro Dornelles esteve nesta Casa, participando do nosso convívio, trazendo-nos informações e esclarecimentos sobre importantes temas nacionais e assuntos relevantes de interesse dos nossos associados do comércio. Em agosto de 1996 e em janeiro de 1997, participou deste nosso almoço, na qualidade de então Ministro da Indústria, do Comércio e do Turismo e, se bem me lembro, esteve aqui com o título de Ministro do Setor Privado, que lhe concedera o Presidente Fernando Henrique Cardoso. 217 Hoje, temos a renovada satisfação de receber o ministro Dornelles, agora Ministro do Trabalho e do Emprego, tão afinado com os nossos problemas, como o ex-Ministro do Comércio e da Indústria. Mas o destaque que desejo fazer é que mais do que nosso ministro, Francisco Dornelles é nosso amigo, um querido amigo desta Casa, de longos e longos anos. Vem de longe a nossa amizade e relacionamento com o ministro Dornelles, desde os tempos em que comandava a Secretaria da Receita Federal, depois Ministro da Fazenda e, em seguida, Deputado Federal pelo Estado do Rio de Janeiro. Em todos esses postos, Francisco Dornelles sempre se mostrou um aliado, um defensor intransigente da iniciativa privada e da empresa nacional. Ministro da Indústria e do Comércio em uma das fases mais difíceis do processo de integração do Brasil aos mercados internacionais, coube ao ministro Dornelles corrigir os rumos de uma abertura precipitada, sobre a qual falávamos há pouco, feita às pressas e sem contrapartidas. Dornelles teve a coragem suficiente de se levantar contra as pressões pseudo-liberais, para construir mecanismos de defesa destinados a resguardar os interesses do trabalho e da empresa nacional, contra insidiosas e desleais práticas de competição internacional, para as quais muito contribuímos nós, brasileiros, da forma como foi feita a abertura, na época em que foi ministro o nosso professor Ciro Gomes, do Estado do Ceará. Por esse seu trabalho, muito lhe ficarão devendo os trabalhadores brasileiros e importantes setores da vida nacional, como as indústrias têxteis, de confecções, de brinquedos, de calçados e muitas outras. 218 Em janeiro deste ano, em boa hora, o Presidente Fernando Henrique Cardoso entregou a Francisco Dornelles a gestão do Ministério do Trabalho. Assim, pela ação do destino, continua sendo o nosso ministro, com quem temos as mais estreitas relações. Todos nós sabemos, e o ministro Dornelles mais do que nós, que o desemprego não se combate com promessas, nem com decretos. E isso principalmente no momento em que o desemprego é um dos grandes problemas da vida nacional. Desemprego se combate com desenvolvimento econômico. Eu até me permitiria dizer que não só desemprego, como a miséria também se combate com desenvolvimento econômico. Por isso mesmo, avultam as atribuições e responsabilidades do Ministro do Trabalho, em emprestar a sua participação importante, no quadro da política econômica nacional, para encontrar os caminhos da tomada do crescimento. O Brasil precisa voltar a crescer, precisa sair da rota de recessão. O País já alcançou adequada estabilidade monetária e precisa, agora, de uma política fiscal eficiente e equilibrada, da mesma forma que precisa de uma política trabalhista capaz de estimular os empresários a criarem novas oportunidades de emprego. Isso vai requerer estabilidade das normas legislativas e respeito às instituições jurídicas. A retomada do desenvolvimento vai requerer importante programa de investimentos, cuja responsabilidade, doravante, vai recair basicamente sobre a iniciativa privada, da qual são dignos representantes todos que estão presentes aqui. 219 Daí a importância do clima de estabilidade e de segurança, para dar ao empresário investidor a confiança que ele precisa para correr os riscos do investimento. Entre as muitas atribuições e responsabilidades do ministro Dornelles estão os assuntos trabalhistas e as questões sindicais, de interesse dos trabalhadores e dos empresários nacionais. Nesta oportunidade, gostaria apenas de mencionar três problemas em pauta: o respeito à unicidade sindical, consagrada no art. 8o da Constituição Federal; a preservação do Sistema “S”, com mais de 50 anos de vitoriosa experiência, amparada pelo art. 240 da Constituição; e a lógica que coloca sob o mesmo teto e a mesma disciplina as atividades do comércio, dos serviços em geral, do sistema hoteleiro, do turismo e da saúde, impedindo que prolifere o germe da destruição da organização sindical. Essa é a nossa trincheira, ministro, onde vamos lutar para ajudar o Brasil a encontrar o seu destino. Eu gostaria de lembrar aqui aos nossos companheiros e ao ministro também, que têm acompanhado a nossa luta e a nossa campanha nesse sentido, que depois da Constituição de 1988, promulgada no dia 5 de outubro, a chamada Constituição Cidadã, essa trouxe para o sindicalismo a liberdade de sair da tutela do Governo. Até então, nos últimos 50 anos, praticamente desde a década de 1930, o Governo disciplinava o funcionamento do sindicalismo no Brasil. Ao conceder liberdade, foi o comércio o pioneiro na busca de uma solução para criar uma estrutura, criar uma legislação própria vinda das bases do sindicalismo. Não havia de ser de cima para baixo que nós iríamos impor um sistema de funcionamento do sindicalismo na defesa das diversas categorias, fossem empregadores ou trabalhadores. 220 Mas, no nosso caso, empregadores e empresários do setor terciário da economia brasileira, desde o ano seguinte da Constituição, temos reunido, sistematicamente, de dois em dois anos, mais de 700 sindicatos empregadores de todo o País, numa composição que chega a mais de mil sindicalistas, a cada dois anos, e a quinta reunião de Assembléia Geral dos Sindicatos dos Empregadores do Comércio será no mês de novembro, deste ano. Portanto, ministro, veja bem que pelo menos há oito anos estamos nos reunindo com as nossas bases para criar a nossa legislação, e com ela o que chamamos de SICOMÉRCIO, a estrutura sindical dos empresários do comércio, onde, entre muitas outras providências, e isto foi citado hoje em conversa anterior ao nosso almoço, verificamos a utilidade e a oportunidade da unificação das federações de comércio nos diversos Estados. Até então, nós tínhamos Estados com duas, três ou quatro federações de comércio, o que as enfraquecia. Essa situação foi corrigida. Temos aqui vários companheiros que participaram, deram o sangue da própria carne no espírito, digamos, figurativo, do sindicalismo, para que essa unificação, essa compactação pudesse ser feita. Hoje, nós temos uma federação em cada Estado do País, no total de 26, mais o Distrito Federal, 27, com exceção do Rio Grande do Sul, que termina a sua compactação no próximo ano. Nós fizemos isso, quando digo nós, a nossa base fez isso; foram os sindicatos que vieram de cada um dos Estados para dizer aquilo que eles pensavam. E esperamos que, realmente, essa estrutura se consolide e que possamos, com o auxílio de V.Exa, Sr. ministro, caminhar na defesa dos interesses do comércio brasileiro e, portanto, dos interesses do nosso País. 221 Meu prezado amigo Dornelles, seja bem-vindo a esta Casa, que é a casa do Comércio, mas que é também a sua casa, e onde conta com tantos amigos e tantos admiradores. Aqui estamos na expectativa de lhe prestar todo o apoio e toda a colaboração à sua gestão do Ministério do Trabalho e do Emprego. 222 PRONUNCIAMENTO NA REUNÃO DE DIRETORIA DA CNC BRASÍLIA - 21 DE OUTUBRO DE 1999 Estimados companheiros de Diretoria, Presidentes das Federações do Comércio de todos os Estados do Brasil, dirigentes do SESC e SENAC, minhas senhoras e meus senhores, Prezado e velho amigo ministro Marcus Vinicius Pratini de Moraes, É um grande prazer, senhor ministro, recebê-lo nesta Casa de Comércio, não só para ouvi-lo, para conhecer as diretrizes de sua administração à frente do Ministério da Agricultura, mas também para lhe tributar merecida homenagem pelo seu trabalho, pelo seu elevado espírito de homem público e pela honrosa incumbência que lhe conferiu o Presidente da República. Neste auditório de homens do comércio, todos ou quase todos são, também, homens do campo, lavradores, criadores de gado ou avicultores, como eu e grande número de meus companheiros. V. Excia. vai encontrar, aqui, uma maioria de homens do interior do país, atacadistas, varejistas, proprietários de cadeias de distribuição ou de supermercados, que conhecem as riquezas e os problemas 223 da agropecuária do Brasil. Assim, prezado amigo Marcus Pratini, V. Excia. deve sentir-se inteiramente à vontade nesta casa de comerciantes, que sempre foi, também, a sua Casa. Da mesma forma como nós conhecemos de Agricultura, o ministro Pratini de Moraes conhece muito de Comércio, até mesmo pelo fato de já ter sido o nosso ministro, Ministro da Indústria e do Comércio (e do Turismo), cargo que assumiu com 30 anos de idade, no Governo Costa e Silva. O nosso ministro foi, também, presidente da Associação Brasileira do Comércio Exterior, a AEB, durante mais de 10 anos, e eu creio que poderia dizer, sem qualquer favor, que Marcus Pratini de Moraes é, hoje, um dos estudiosos que mais entendem e mais conhecem os problemas de nosso comércio exterior, de nossas exportações. Não é demais repetir que a Agricultura abrange um contexto muito amplo, que vai da agricultura à agroindústria e ao “agro-business”. E, aí, todos nós estamos inseridos. O Presidente Fernando Henrique Cardoso deu ao nosso ministro duas tarefas muito difíceis: uma, a de comandar um projeto de produção de uma safra de 100 milhões de toneladas de grãos, até o final do próximo ano; e outra, de fazer com que a Agricultura contribua decisivamente para que o País possa atingir 100 bilhões de dólares de exportações, até o ano 2002. É o que poderemos chamar de “Projeto Brasil 200”, difícil de realizar, que vai requerer muito esforço, muito conhecimento, muita dedicação e criatividade, muita cooperação. Por isso mesmo, o Presidente Fernando Henrique entregou essa tarefa ao ministro Pratini de Moraes. Todos nós antecipamos as dificuldades que o ministro vai enfrentar, internas e externas. Internamente, a Agricultura sofre com as pesadas taxas de juros, o financiamento insuficiente e extemporâneo, uma absurda carga tributária e uma deficiente 224 infra-estrutura, principalmente na área dos transportes. De outro lado, as exportações brasileiras foram duramente castigadas, ao longo dos últimos quatro anos, por uma incompreensível política de sobrevalorização cambial, que nos afastou dos mercados internacionais e transferiu importantes segmentos da nossa agricultura para os países vizinhos, do MERCOSUL. Some-se, a tudo isso, a perversa conjuntura internacional, que derrubou os preços das nossas commodities a níveis “nunca dantes navegados”. E mais, o protecionismo desleal que grassa nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, configurando o que o nosso ministro chama de “dumping institucional”. Entre 1996 e 1999, as exportações brasileiras de produtos primários cresceram, em volume, 45%, mas caíram, em valor, em preços, cerca de 20%. A estrutura do nosso comércio exterior é outro desafio, quando se sabe que apenas 17 empresas respondem por 43% das exportações agropecuárias, enquanto 4 mil empresas, representando 70% do universo exportador, respondendo somente por 1% das nossas vendas externas. O “Custo Brasil” é uma realidade negativa, contundente. Nos Estados Unidos, o custo de exportar um produto agrícola do Meio-Oeste, até o porto de Nova Orleans, numa distância entre 1.400 e 1.600 quilômetros é de US$ 8,00 por tonelada, mais US$ 4,00 de despesas de embarque. No Brasil, num percurso equivalente, do Centro-Oeste até Santos ou Paranaguá, esse mesmo custo é da ordem de US$ 45,00, mais US$ 9,00 de embarque, como noticiava há poucos dias, a Gazeta Mercantil. Enquanto nos Estados Unidos o exportador recebe 95 % do valor do produto exportado, o exportador brasileiro recebe 60%. A Agricultura sofre, ainda, os descompassos da errática política econômica, desde o início dos anos 90. O Plano Collor provocou um descasamento entre a correção monetária de 75% dos saldos devedores do crédito rural e a correção de 41% dos preços mínimos, uma das causas fundamentais da inadimplência que, ainda hoje, castiga os agricultores nacionais. 225 O ministro Pratini de Moraes herdou todos esses problemas atuais e recebeu o desafio de procurar o caminho das soluções. Há poucos dias, em um almoço conosco, no Rio, o ministro falava de seus planos, de suas idéias, inclusive da abertura das Bolsas brasileiras para operações de contratos futuros, o que poderá vir a ser uma verdadeira revolução na área do financiamento rural. É por aí, com o conhecimento de causa dos problemas nacionais, que o ministro Pratini de Moraes assumiu essas responsabilidades. Ninguém melhor do que ele para responder ao desafio. A Confederação Nacional do Comércio tem uma grande afinidade com a AEB, cuja sede se encontra instalada em nosso prédio, no Rio de Janeiro, e de cujos trabalhos participam muitos integrantes dos nossos quadros, como o ministro Galvêas, nosso representante em seu Conselho Diretor. É nossa idéia, objetivo desta Confederação, nos engajarmos mais e mais no esforço de exportação e, para isso, desejo dizer ao velho amigo, ministro Pratini de Moraes, que estamos prontos para cooperar e para ajudá-lo na difícil tarefa que lhe confiou o Presidente da República. Boa sorte, ministro. 226