________________________ Nada Mais Que Humano ________________________ Tiago Cesario Nada Mais Que Humano © Copyright 2010, Tiago Cesario 1ª edição (2011) Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida - em qualquer meio ou forma -,nem apropriada e estocada sem a expressa autorização de Tiago Cesario. Cesario, Tiago Nada Mais Que Humano. Tiago Cesario ISBN 978-85-7953-272-6 1. Literatura brasileira. Brasil. I. Título. Contos. CDD- B869 2 Tiago Cesario 3 Nada Mais Que Humano À minha família. 4 Tiago Cesario 5 Nada Mais Que Humano Índice Apresentação / 07 Reabrindo Portas / 09 Deixe Estar / 22 Só / 25 Sobre Flores / 29 Tempestade / 33 Vida Assistida / 38 Passeio Na Praia Ou A Inocência Do Poeta / 46 No Lago De Águas Turvas / 52 Prisão / 68 Herdeiros / 71 6 Tiago Cesario 7 Nada Mais Que Humano Apresentação Neste livro estão reunidos contos que foram escritos ao longo dos últimos sete anos. Alguns deles já foram publicados no blog “Nada mais que humano”, outros por terem sido escritos antes do blog ou pelo tamanho, estão sendo publicados aqui pela primeira vez. Os contos foram publicados de forma aleatória, portanto sinta-se á vontade para lê-los na ordem em que bem entender. O ato de escrever para mim sempre foi a melhor forma com que pude olhar a mim mesmo e o mundo que me cerca. Através da escrita pude colocar para fora todos os meus medos, inseguranças, alegrias, conquistas e dúvidas, além de conseguir avaliar e repensar as descobertas que fui fazendo ao longo do caminho, impulsionado por estes mesmos sentimentos. Escrever sob a forma de contos foi a maneira que encontrei para ilustrar tudo isso e de certa forma compartilhar com os outros tudo o que se passava em meu mundo interior. 8 Tiago Cesario Para minha grata surpresa ao começar a escrever no blog, pude perceber que as pessoas se identificavam com as histórias e melhor ainda, cada uma as interpretava a partir de sua própria visão de mundo ou momento de vida. Os contos deixaram de ser algo particular meu e de meu mundo para pertencer a todos aqueles que os leem. Os contos são curtos e não os avalio pelo tamanho, mas como em uma música ou poesia o que vale é a profundidade. Em resumo, este livro é parte da realização daquilo que sou e retrata muito do que fui e do conhecimento, certo ou errado, que fui acumulando nestes poucos anos de vida. Só o que me resta agora é agora é te convidar a vir comigo, para que através de pequenas histórias fictícias possamos compartilhar a realidade de nossos sentimentos e de nossa existência. Tiago Cesario 04/11/2010 9 Nada Mais Que Humano Reabrindo Portas Dentro de casa sinto-me seguro. Apesar dos cômodos em que prefiro não voltar a entrar, este é o meu santuário. O único lugar no mundo onde me sinto protegido de tudo e de todos. Onde nada pode me fazer mal. É dentro de casa que vivo a ler e a criar histórias sobre heróis e vilões. Muitas vezes eu sou o herói que salva o mundo através de seus atos de bravura, isentos de interesse, a não ser o de salvar as vidas de pessoas inocentes. Pessoas que vivem alheias aos perigos que uma vida sempre trás. Acreditam que podem passar ilesas pela vida, livres de se machucar. Sabendo, mesmo reconhecendo ser impossível, que nada de ruim irá lhes acontecer. Estas pessoas comuns e ordinárias, que só diferem umas das outras pelo time que torcem, ou por aquelas que gostam de feijoada com pé de porco, e as que preferem sem pé de porco. Os empregos são o que as definem, e por isso prendem-se a estes rótulos como náufragos em um bote salva vidas. João o 10 Tiago Cesario pedreiro, Maria a secretária, Manuel o empresário, Josias o cantor, todos agindo e vivendo suas vidas de acordo com o que o título lhes confere. Dentro de casa não preciso olhar para as pessoas, que de uma maneira ou de outra me deixam infeliz. Não preciso acreditar na promessa de políticos de que tudo irá melhorar, não preciso ouvir índices econômicos que só dizem respeito a quem tem dinheiro, não preciso ouvir o pedido de esmolas de um menino de seis anos para comprar comida, ou para sustentar o vício de um dos pais. Dentro de casa tudo é calmo. Tudo é sempre o mesmo. Aqui dentro eu posso controlar tudo o que acontece. Não faz diferença se lá fora chove, ou faz sol, se está ventando, ou se está abafado. Tudo aqui é sempre o mesmo. Houve dias em que saía livremente pelas ruas e houve inclusive dias em que pessoas entraram em minha casa. Pessoas em quem eu confiava, amava e que pensava eu, me amavam também e eram capazes de me aceitar do jeito que sou, mas eu estava enganado. Ninguém foi capaz de me aceitar. 11 Nada Mais Que Humano Ninguém foi capaz de me ver como sou realmente e nem tampouco houve alguém capaz de me ajudar a entrar naqueles cômodos que tanto me incomodam e amedrontam. Alguns entravam e iam para a sala, onde eu guardo meus livros, e era lá que ficávamos a discutir assuntos que considerávamos importantes para a nossa vida, para nosso dia a dia e para a vida de todos os outros homens. Outros entravam pela porta da cozinha, lá onde a casa é quente, lugar onde tudo é menos formal e mais familiar. Estes me davam carinho e um ombro amigo, ou mesmo um colo para descansar minha cabeça cansada de tantas mentiras. Mas com o tempo tudo o que queriam era o meu colo, o meu ombro e repouso para suas dores. E eu sempre esperando meu dia de descansar e sempre esperando o dia em que receberia um pouco de carinho, sem ter que pagar nada em troca. Somente descansar. Mas esse dia não veio e eu fiquei cada vez mais cansado, cada vez mais calado. Por estes dias, em que só o que faziam era tomar coisas de mim sem me dar nada em troca, 12 Tiago Cesario resolvi que não convidaria mais ninguém à minha casa. Para que ninguém pudesse ver que havia alguém dentro daquela casa, que havia vida dentro daquela casa, fechei as janelas e cobri-as com espessas cortinas. Bloqueando totalmente o interior de minha casa para quem estava do lado de fora. Deixei de ouvir e ver os que estavam longe. Passei a viver por detrás das cortinas que agora me cegavam para o mundo. Nada mais de novos contatos. Tudo isso serviu para impedir que minha curiosidade e ingenuidade me levassem a conhecer novas pessoas, na vã esperança de que estas me trariam conforto e felicidade para o resto de minha vida, para no fim me transformarem mais uma vez vítima dessas sanguessugas desalmadas que são as pessoas. Então nesta época em minhas histórias eu aparecia como vilão destruindo e despejando sobre o mundo todo meu veneno. Eliminando os fracos como quem aniquila mosquitos indesejáveis. Sem pena, sem remorso, sem culpa. Mas no final, como todo vilão, era vencido, aleijado, apedrejado e humilhado por todos, para servir de exemplo aos 13 Nada Mais Que Humano que um dia se atrevessem a duvidar da bondade das pessoas. Para evitar o contato com pessoas que eu não conhecia, o próximo passo foi retirar o telefone. Assim ninguém que estivesse distante faria contato comigo. Aqueles que quisessem ver-me teriam que vir perante a mim e se apresentar, fossem amigos, inimigos ou usurpadores do meu tempo e energia. Passou-se mais um tempo e eu tive que retirar a campainha. Não queria mais ter de me levantar para ver quem era. Passava os dias em meu quarto, deitado à luz das lâmpadas sem saber se era dia ou se era noite. Agora aqueles que quisessem me ver teriam que se anunciar ou me chamar, desta forma poderia eu reconhecer aqueles que eram bem vindos à minha casa apenas pela voz, não precisando me levantar a cada inoportuno toque de campainha. Depois disso parei de atender aqueles que eu acreditava que só queriam me usar e enfraquecer. Quando ouvia suas vozes na porta a me chamar, fingia não ouvi-los. Escondia-me por debaixo de meus lençóis e lá ficava esperando que fossem embora. 14 Tiago Cesario Logo todos aqueles a quem um dia chamei de amigos deixaram de me visitar. Minha casa era só minha. Passava os dias a caminhar, do quarto para a sala e da sala para o quarto. Sem nenhum grande plano, sem nada além de minhas histórias. Agora nas minhas histórias eu não era nem herói nem vilão, era apenas alguém humilhado. Podia ver os outros falando pelas minhas costas, me dizendo o quanto eu era fraco, o quanto eu estava perdendo por ficar prisioneiro de minha própria casa, o quanto eu era idiota e o tipo de monstro que havia me tornado. E elas riam e se divertiam em animadas rodas de conversa sobre a minha condição e enalteciam seus feitos heroicos na tentativa de me salvar, mesmo sem saber do quê. E eu podia vê-las fazendo tudo isso e a cada novo dia meu ódio por elas aumentava assim como minha desesperança de encontrar alguém que me ajudasse. Foi então que num dia como outro qualquer, em que estava deitado em minha cama, ouvi algo que vinha da cozinha, onde uma fagulha ainda mantinha o lugar parcamente aquecido. Demorei a 15