ILUMINAÇÃO
Eletricidade
Básica
Não existe certo ou
errado quando se cria
um lighting design,
seja na escolha das
cores ou dos
instrumentos, apenas
existe a melhor ou
pior escolha. Mas na
instalação de
dimmers, cabos ou
refletores uma
escolha errada pode
terminar com a vida
de alguém
M
eu objetivo aqui é o de ajudar a
você é novo no ramo ou gostaria de
criar métodos padronizados
trabalhar na indústria de entreteni-
para os novos eletricistas e ilumina-
mento como eletricista, iluminador
dores em todo Brasil, a política de se-
ou até como um lighting designer, use
gurança é a única com a qual me im-
este artigo como guia de referência.
porto. Assim este artigo foi escrito
Sei que não será possível explorar
pensando na importância de se inici-
todo tipo de instalação de alta potên-
arem conversas entre aqueles, ho-
cia ou todo tipo de cabo. Existem
mens e mulheres, que estão envolvi-
muitos; desde cabos de circuito único
dos na indústria de iluminação.
até “multicabos” como o Socapex,
Nos artigos anteriores, escrevi sobre
como existem também muitos tipos
lighting designers e seus trabalhos,
diferentes de dimmers, luzes e plugues.
Meu objetivo aqui é o de ajudar a criar métodos
padronizados para os novos eletricistas e
iluminadores em todo Brasil, a política de segurança
é a única com a qual me importo
ou sobre as criativas ferramentas que
Então vou me concentrar na força, ou
se utilizam para criar os seus traba-
seja, na conexão da eletricidade pro-
lhos, desde como ler um roteiro até o
priamente dita que vem de uma cha-
“paperwork” final de um design. O
ve de força desligada para os cabos,
artigo de hoje é diferente. Este artigo
até os racks de dimmers, seguindo o
de iluminação, designer e consultor de projetos.
NÃO será para todo mundo.
trajeto com cabos diferenciados que
Possui 23 anos de experiência em espetáculos
Se você é um eletricista experiente ou
levam a energia até os refletores. Nes-
de teatro na Broadway, além de programas de
trabalhou em muitos projetos de ilu-
te caminho peço a sua atenção às in-
minação, o que está escrito aqui já lhe
formações e imagens que escolhi para
será conhecido. Se, caso contrário,
ilustrar o assunto.
David Bosboom
É diretor de produção, diretor técnico, diretor
canais de televisão aberto e a cabo. Especialista
em turnês de circuito nacional e internacional.
www.davidhbosboom.com
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ILUMINAÇÃO
Quando comecei minha carreira em
usar dimmers eletrônicos e uma mesa de
Então, por onde começar? Vamos supor
1974, a Broadway ainda estava usan-
controle manual com a possibilidade de
que todo “paperwork” foi providenciado
do dimmers de resistência (foto A).
se controlar duas cenas distintas.
pelo designer e que todo o equipamen-
Eram dimmers que esquentavam co-
Com dimmers eletrônicos vieram me-
to chegou ao teatro conforme combi-
mo torradeiras quando as luzes não
lhorias imediatas pois, além de serem me-
estavam sendo usadas. Quando todas
nores, não produziam a mesma quantidade de calor. Graças a Deus!
E quando a luz estava desligada, nenhuma energia era
usada. Isso foi algo imediatamente aprovado pelos produtores, pois os shows tornaram-se mais econômicos
e sem desperdícios. Entre-
Quando comecei minha
carreira em 1974, a
Broadway ainda estava
usando dimmers de
resistência Eram
dimmers que
esquentavam como
torradeiras
tanto, para o eletricistamestre ou iluminador responsável por conectar os
nado, você está com a faca e o queijo
dimmers à energia e as luzes
na mão e precisa começar o seu traba-
aos dimmers, muito pouco
lho. Todo teatro, ou qualquer espaço
mudou. A montanha de ca-
para performance, com exceção de
bos que vem dos racks de
eventos ao ar livre, terá um caixa de
as luzes eram desligadas, os resistores
dimmers até as luzes tem que ser
força principal ou PC em que você vai
no painel esquentavam e ficavam
sempre acessível e bem organizada, e
buscar energia para as luzes e conexões
vermelhos por conta do calor que
a energia e a sua distribuição conti-
dos cabos (fotos B e B1). Se é uma cai-
produziam. A maior desvantagem de
nuam sendo as mesmas.
xa de força padrão, terá um comando
Foto A
se usar estes dimmers era o fato de que
gastavam eletricidade estando as luzes acesas ou não.
Estes dimmers pouco econômicos
ainda estavam sendo usados quando
fiz meu primeiro lighting design na
Broadway para o “Chinese Acrobats
and Magicians” em 1979. Eram chamados de “Piano Board”, pois se pareciam muito com um piano vertical
e tinham sido o “rei na Broadway”
desde 1903.
Mas para ser justo devo também dizer
que a Broadway já estava mudando,
pois no meio de 1975, o musical “A
Chorus Line” foi o primeiro show a
Fotos B e B1
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ILUMINAÇÃO
Foto C
Foto F
fazer uma é muito fácil. Ache um
cano de ferro de água fria e conecte seu
fio-terra usando uma garra para fazer
um forte contato com o cano. Em um
evento ao ar livre, pegue um cabo de
aço reforçado (ou cabo de cobre duro)
de pelo menos um metro de comprimento e o enterre no chão. Conecte o
Foto D
liga/desliga. Desligue! Ninguém preci-
fio-terra de forma adequada. NUN-
sa ou deve trabalhar com um PC liga-
CA utilize dimmers sem o TERRA!
do. Eu tenho algumas histórias pesso-
Agora é a vez do NEUTRO que deve ser
fonte de força. Cuidadosamente ex-
ais, que incluem explosões de cabos,
colocado próximo ao TERRA. Assim
ponha o fio de cobre limpo (3 ou 4
flashes de luzes e ferramentas derreti-
que estes dois fios estiverem termina-
centímetros sem capa) [foto G]. Não
das que eu prefiro não contar.
dos, é hora então de instalar os três últi-
corte dentro do fio. Coloque cada fio
Caixas de força modernas vêm com
mos cabos de fase que vão completar a
equivalente (TERRA, NEUTRO e 3
desconectores e possuem Cam-Locks
força para o seu rack de dimmers.
FASES) na caixa de força e aparafuse
(foto C) imbutidos, posso dizer que é
Estique os cabos (TERRA, NEUTRO e
apertando-os bem firme. É preciso
uma maravilha! Tudo que precisa fa-
3 FASES) no chão ou prenda nas pare-
Foto G
zer é conectar o cabo “feeder” ou ali-
des para que fiquem fora do caminho,
mentador (foto D)
pois são pesados para serem movidos
no Cam-Lock cor-
todos juntos (geralmente 1k e meio por
respondente. Isso
metro). Esse grupo de cabos de força
não é difícil, mas é
fornece a eletricidade principal para o
preciso prestar aten-
rack de dimmers. Nunca o coloque
ção na ordem em que
onde possa ser molhado. Eletricidade e
são conectados. Por
água não se gostam. Cada começo e fi-
segurança, SEMPRE
nal de cabos devem ser presos em cor-
ter certeza de que nenhum peso adici-
conecte o fio TERRA primeiro. Certa-
das para que não haja excesso de peso
onal seja colocado sobre estes cabos
mente, você não gostaria de ser o
nessas conexões com a Caixa de Força e
quando você os conectar. Amarre to-
condutor da eletricidade. Crie o há-
com os Racks de dimmers.
dos os cabos firmemente. Se algum de-
bito de usar apenas uma das mãos ao
Se você possui uma caixa de força
les escapar, enquanto os dimmers esti-
instalar ou trabalhar com alta ampe-
mais antiga que não tem Cam-loks,
verem ligados, você terá um desastre
terá que instalar e
em suas mãos. Então uma palavra para
mãos em uma caixa de força
fazer o que os ele-
os sábios é SEGURANÇA, SEGU-
inadvertidamente ligada e
tricistas nos Esta-
RANÇA, SEGURANÇA (Ok! Fo-
com alta amperagem significa
dos Unidos cha-
ram três palavras).
que você será o condutor de
mam de “Tails”,
Agora você está pronto para ligar a
eletricidade e seu coração
(foto E). Quando
eletricidade da Caixa de Força aos
nunca sobreviveria ao choque.
fizer adaptações deve-se sempre cor-
racks de dimmer. Em muitos dos racks
Se você não possui conexão terra se-
tar o fim do cabo (foto F) garantindo
de dimmer você verá luzes indicadoras
parado na sua caixa de força, saiba que
uma boa superfície de contato com a
acima dos Cam-Loks que acenderão
ragem. Trabalhar com as duas
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Foto E
ILUMINAÇÃO
Foto H
Foto I
cenários se enrosquem neles, ou que o
elenco e funcionários tropeçem na
sua instalação.
Coisa importante para se fazer é a
identificação dos racks. Todo rack de
dimmer deve ter os números dos mesmos escritos nas etiquetas claramente, como deve ser colocada também a
assim que a Caixa de Força estiver li-
identificação DMX. Tem muitas for-
gada. Você verá na foto H que não há
mas de se fazer isso. Com racks que
nenhum cabo no chão. O que não é
usam multicabos, cada plugue deve
fica que cada refletor deve ser etiquetado
visto na figura são as varas sobre os
ser etiquetado com o nome do multi-
também. Estas etiquetas devem corres-
racks que seguram todos os multi-
cabo. Em grandes shows é possível
ponder ao “paperwork” feito pelo desig-
cabos e os cabos de alimentação desse
que se tenha até 6 multicabos para
ner ou pelo eletricista-mestre.
rack de dimmer. Mas você pode ver
uma única localização ( como menci-
As etiquetas do plugue no final do
que seria simples repor um rack de
onamos a seção LDP). É muito mais
“breakout” são as que têm mais infor-
dimmer, caso necessário, devido à au-
fácil procurar um cabo quando este
mações. Cada etiqueta deve conter de
sência de desordem ao redor e embai-
está etiquetado. Estas identificações
um lado do plugue o número do canal
xo desses dimmers. Uma preparação
devem estar no fim de cada multi-
e do dimmer, e do outro lado, deve ter
adequada poderá evitar aborrecimen-
cabo. E se você estiver usando diver-
o número do refletor e sua localiza-
tos e muitas horas de trabalho.
sas partes distintas de multicabos
ção. Eu sempre uso esse método. O
Se estiver usando multicabos ou ca-
para completar a distância entre
número do canal vai entre parênteses
bos individuais para múltiplos refle-
dimmer e refletor, cada peça deve ser
e o número do dimmer é o que vem
tores, você precisa de um sistema para
identificada da mesma forma.
depois, como por exemplo (17) 25.
evitar que seus cabos virem “espaguete” nos bastidores. Sugiro que instale
seus cabos organizando em seções
(como por exemplo LDP- seção Luz
De Palco). Deixe uma folga de cabo
suficiente no ar para que se possa
trazê-la das varas ou torres para uma
As etiquetas do plugue no final do “breakout” são as
que têm mais informações. Cada etiqueta deve conter
de um lado do plugue o número do canal e do dimmer,
e do outro lado, deve ter o número do refletor e sua
localização. Eu sempre uso esse método
altura adequada de trabalho. E qualquer excesso de cabo deve ser amarra-
Não existe nesse tipo de organização
Isso significa canal 17 e dimmer 25. O
do sobre a área dos racks de dimmer.
excesso de informação, o zelo excessi-
número do refletor incluirá tambem
Se você trabalhar dessa forma, ou seja,
vo é bem vindo.
a sua localização, como por exemplo,
uma seção ou vara por vez , terá uma
No fim do multicabo tem-se o “break-
LDP-7. Isso seria, como visto anteri-
instalação elétrica bastante organiza-
out”, que se divide em um cabo com seis
ormente, Luz De Palco, número 7.
da. Como sempre, é preciso estar cer-
circuitos em seis circuitos individuais
Estes nomes precisam fazer sentido
to de se obter corda suficiente para
(foto I). CADA circuito deve ter uma
para você. Pode ser abreviações das
amarrar todos os cabos seguramente
identificação que tem o nome do refle-
mais simples possíveis, mas tem que
fora do palco. Você não quer que os
tor que deve ser plugado. Sim, isso signi-
ser lógico.
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Foto L
Foto N
Se você escrever no centro, o número
fita de eletricista caso tenha que se-
Foto O
vai se apagar por causa do calor da luz e
gurar no metal.
o público não precisa ver a informa-
4. Canivetes (foto M);
E não se esqueça de identificar a sua
gelatina com o número do refletor e o
número da cor, como L-133 / LDP-7.
Isso pode economizar muito o seu
tempo. Mais uma coisa importante,
escreva o número na gelatina em qualquer lugar EXCETO no centro dela.
ção, apenas você.
Agora que você terminou seu traba-
Foto M
lho, vamos falar de um outro ponto
básico: FERRAMENTAS. Não vou
ditar quais os tipos que deve carregar
para toda etiquetagem que você
para resolver qualquer problema no
precisa fazer.
trabalho. Para estar bem equipado
7. Alicates (foto P );
você não teria como portá-las, precisaFoto P
ria de uma “road box”. E acredite, em
shows maiores certamente serão necessárias. Mas aqui vão algumas sugestões de ferramentas essenciais:
Foto J
Foto K
1. Voltímetros e Ampe-
• Não são baratos, mas são fáceis de
rímetros (foto J):
carregar enquanto se trabalha em es-
• Conectar errado ou
cadas ou andaimes.
puxar mais força do
5. Faca (foto N);
que os cabos supor-
• Ótimo para cortar cordas e fitas e
tam pode iniciar um
tirar capas de cabos.
• Ferramentas básicas de eletricidade
incêndio.
6. Cordas e fitas (foto O);
adicionais.
2. Chaves inglesas
• Fitas são itens essenciais se você
8. Fita métrica (foto Q);
(foto K);
quiser fazer um trabalho bem fei-
• Usada para marcar a colocação das
to. Um rolo de fita é suficiente
luzes nos lugares certos.
• Nem toda garra de um refletor
pode ser apertada à mão livre.
3. Chaves de fenda (foto L);
• Você deve ter algumas de diferentes
tamanhos e tipos. Você pode cobrir
por segurança a chave de fenda com
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Agora que você terminou seu trabalho, vamos falar de
um outro ponto básico: FERRAMENTAS. Não vou ditar
quais os tipos que deve carregar para resolver qualquer
problema no trabalho. Para estar bem equipado você
não teria como portá-las, precisaria de uma “road box”
ILUMINAÇÃO
Foto R
rissem a qualidade de treinamentos
desses profissionais.
Acreditando nesta idéia fui em busca e tomei conhecimento da ABRiC,
Associação Brasileira de Iluminação
Cênica. Uma organização que está
ajudando aos seus membros realizando encontros e seminários com
“haze”,e assim por diante. A tecno-
as novas tendências em iluminação,
logia em iluminação está mudando
segurança e equipamentos. Isso
9. Régua de Refletores (foto R)
muito rapidamente a cada ano. É seu
acontece com frequência nos sindi-
• É sempre bom ter! Muito mais fá-
trabalho manter-se informado atra-
catos na Europa, Estados Unidos e
cil do que desenhar símbolos à mão.
vés de cursos e revistas, e através de
está começando a acontecer aqui no
Se você está começando na profissão
constantes contatos com associa-
Brasil. Informação é poder e a educa-
existem muitos outros tópicos como
ções e profissionais do ramo. Seria
ção é a chave disso tudo.
moving lights e seus canais DMX;
importante que tais associações e
roladores de cores, gobos, efeitos es-
sindicatos também participassem na
peciais como fumaça e máquinas de
divulgação de informação e confe-
Foto Q
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