José Carlos Barros
O Prazer e o Tédio
Capítulo I
(Onde se apresenta Aline, se reflecte sobre o
prazer e o tédio e se fala de uma casa afastada
do mundo, localizada a cinco quilómetros de
uma Aldeia afastada do mundo de cujo nome
Aline não quer recordar-se.)
H
á um momento que pertence ao olhar. Corria o frio
mês de Março de mil oitocentos e sessenta e cinco e
Américo Fontes olhou a encosta e imaginou a casa a desenhar-se nas paredes alinhadas, nos prumos de sustentação
dos alpendres, no pátio onde as folhas horizontais de uma
tília futura estendiam já a sua sombra. Hoje, tantos anos
depois, a ruína é disputada a preços imoderados. Os promitentes compradores antecipam o prazer de ficar à sombra dos carvalhos centenários numa tarde de Verão, de ver
as crianças a jogar à bola na parte de cima do lameiro das
águas sesserigas, de subir a escaleira de pedra, de acordar
com o silêncio apenas cortado pelo rumor do vento nos
ramos das bétulas ou da água dos gralheiros do rio. A ironia é imensa: Aline nasceu nesta casa e esta casa e os seus
anexos caracterizaram sempre a impossibilidade do prazer. Aline recorda o desconforto, a solidão, a tempestade,
o afastamento do mundo. Eis o que faz o tempo: os promitentes compradores privilegiam hoje a ausência de infra-estruturas, o carácter periférico, o isolamento, a distância.
Uns antevêem a ideia de prazer exactamente no mesmo
objecto que significou para outros o seu reverso.
A descoberta da sexualidade é mais precoce no mundo
rural porque no mundo rural a sexualidade é mais reprimida. É tão reprimida que está sempre presente. A igreja
ajudou ao decidir esconder a sexualidade com uma rede de
fios de néon. A ilegitimidade do prazer físico colocou sobre
o corpo um lençol opaco que deixou quase tudo à mostra
no muito que procurou ocultar. O tema da sexualidade
é recorrente no mundo rural e joga-se em permanência
num universo de metáforas e alusões em que é inevitável
falar do que não se pode dizer. Foder ou matar a fome não
andavam longe nos seus pressupostos: libertar o corpo dos
seus excessos ou da sua voracidade insustentável. Só muito
mais tarde, só muitos anos depois, Aline compreendeu a
diferença entre o prazer e o sexo, a pele e o corpo.
Aline também descobriu muito tarde (quase não acreditava) que havia pessoas a sonhar com a neve e que a
neve era «um destino turístico». É verdade que às vezes
se desejava a chegada da neve: quando o sincelo persistia
dias a fio e o frio ficava entranhado nos ossos e congelava
a água dos tanques e dos remansos. Mas a neve, na infância, erguia-se nos caminhos de terra e nas calçadas e misturava-se rapidamente na lama. É verdade que às vezes se
desejava a chegada da neve para que a temperatura deixasse de ser insuportável quando as geadas sucessivas
espetavam as suas facas de vidro nos largos e nos pátios:
mas a neve atravessava o forro dos quartos soprada pelo
vento. Ao descobrir que havia pessoas que sonhavam com
a neve, Aline esforçou-se por imaginar o prazer de acordar e correr à janela a ver as encostas pintadas de branco.
Fechou os olhos por instantes: mas só sentia o desconforto
do Inverno e não via mais que a neve muito escura misturada na lama das ruas.
Aline tem nas mãos uma fotografia antiga da casa.
Aline viveu dezasseis anos nesta casa afastada do mundo,
longe do asfalto, erguida entre a linha de festo e um ligeiro
talvegue. A casa é hoje uma ruína. Aline não assistiu ao
modo como o telhado foi ganhando um ondulado insólito
até o espigão da cumeeira ceder ao Inverno, como a hera
e a vinha-virgem treparam as paredes até ocupar as juntas do perpianho e desalinhar as pedras arrumadas, como
as portas e as janelas deixaram apenas o vazado dos vãos,
como as grades das varandas se inclinaram e desmoronaram no pátio num amontoado de escombros. Aline, muito
tempo depois, tem nas mãos uma fotografia da casa a que
nunca mais regressou. Olha a fotografia. E descobre, num
súbito sobressalto, que a imagem da casa e a memória que
tinha da casa são completamente diferentes. Aline olha a
fotografia com a estranha sensação de que nunca viveu
neste lugar. Como se o tempo tivesse apagado os anos da
infância e da adolescência ou como se a infância e a adolescência não tivessem feito parte da sua vida.
O tédio é o contrário do sobressalto. O tédio é uma
aranha de silêncio a tecer as suas teias recônditas: a urdidura e a trama. Não é possível definir o momento preciso
em que esse delicado tecido, depois de cruzados todos os
fios da lançadeira, se mistura na pele e a vai atravessando
por osmose: até à indiferença. Aline olha a fotografia da
casa e enreda-se na contradição de supor que não viveu
uma parte da sua vida e de simultaneamente saber que
não poderia deixar de a ter vivido. Aline recorda o desconforto, a solidão, a tempestade, o afastamento do mundo.
Imagens vagas: os candeeiros de gelo, a água da chuva,
muros de pedra, caminhos de terra, as árvores e os bosques. E no entanto uma funda inquietação a percorre e
Aline esforça-se por trazer de longe uma imagem nítida,
límpida, uma âncora, um momento em que a vida e a sensação de estar viva possam coincidir e fazer sentido: uma
imagem nítida, límpida, em vez da sombra e da urdidura
do tédio. E só então compreende que é possível ainda o
sobressalto e que é preciso começar tudo de novo.
O Poeta, um dos poucos namorados de Aline nos últimos anos (Manuela não conta), diria agora, chamado a
terreiro: «O tédio, Aline, é inversamente proporcional ao
desassossego de estar vivo; o tédio é a demonstração de
que a labareda do prazer se alimenta do seu próprio combustível. Há quanto tempo, Aline, uma nuvem não é para
ti senão uma nuvem, há quanto tempo não te percorre verdadeiramente a inquietação de um corpo que se deseja? Há
quanto tempo não choras a olhar a chuva contra os vidros
das janelas num fim de tarde de Novembro? Há quanto
tempo não agitas as mãos na água das levadas a ver a leve
ondulação da corrente? Há quanto tempo não adormeces
com o desassossego de saber que o mundo permanece vivo
por dentro dos sonhos?» Isso diria o Poeta, chamado a terreiro, caso o seu depoimento fosse relevante depois da condenação por associação criminosa num processo de roubo
de automóveis de luxo. O certo é que Aline encontrou
na cidade as suas defesas. Sente-se protegida pelo ruído,
pelo anonimato, pelo movimento das ruas. Da varanda do
apartamento vê o rio, os barcos e o rasto de prata que
deixam nas águas, a outra margem, os telhados dos antigos armazéns, uma alameda com lódãos, uma estrada com
automóveis correndo incessantemente para o lugar de onde
um número igual de automóveis parte em sentido contrário. Mas Aline olha a fotografia da casa antiga e sente um
súbito sobressalto; uma cicatriz no quotidiano; uma incursão inaceitável nas suas defesas. E parece evidente que o
tédio há muito enrolou nos seus pulsos os fios da trama.
E parece evidente que há muito, na sua vida, o prazer deixou de ser alvoroço e exaltação.
Aline compreende que o tédio há muito enrolou nos
seus pulsos os fios da trama. Aline compreende que há
muito, na sua vida, o prazer deixou de ser alvoroço e exaltação. Mas Aline sabe (julga saber) que a vida não é possível sem a aceitação desses fios invisíveis que o destino vai
tecendo à passagem das horas: entre a alba e a penumbra
dos fins de tarde; entre a noite e o seu reverso imperscrutável; entre a aparição e o distanciado sépia dos retratos
antigos. Talvez a procura da felicidade implique o prévio
reconhecimento da inevitabilidade da tristeza e da incompletude. Talvez o prazer não seja mais que uma fogueira
acesa no Inverno; uma lâmpada a iluminar por instantes
breves as encostas da umbria; a pedra disparada; o comprimento entre duas ondas sucessivas. E Aline sente-se tentada a pensar que o tédio, provavelmente, delimita um
território onde se erguem defesas contra a precariedade do
prazer e as incertezas do mundo.
Aline nasceu em mil novecentos e sessenta e oito numa
casa afastada do mundo a cinco quilómetros duma aldeia
afastada do mundo. Pela primeira vez desde o dia distante
em que saiu para não mais voltar, espalhadas numa mesa
com tampo de vidro, Aline tem diante de si fotografias da
casa. Numa delas, a mais antiga, poderia ser o seu rosto o
que se desenha, difuso, por detrás dos vidros da janela da
cozinha. Mas é como se as fotografias e a sua vida contassem histórias diferentes. Aline olha o rosto que se esconde
por detrás dos vidros da janela da cozinha e sabe que esse
rosto não poderá ser o seu rosto. As fotografias mais recentes, curiosamente, parecem-lhe mais próximas do tempo
antigo da infância. São retratos do abandono, da ruína, de
escombros. O abandono (o tempo) investiu contra os telhados e as paredes, a varanda e o pátio, o terraço e a escaleira
de pedra, o muro de xisto e as árvores do terreiro. E é nesse
retrato de escombros que mais se revê. Como se não fosse
já possível regressar senão à ruína e ao abandono. Ao que
não existe. Como se a ruína e o abandono, sobre todas as
coisas (o prazer, o tédio, o desejo, o sobressalto), fizessem
parte da sua vida.
Interrogamo-nos sobre o que é o prazer e descobrimos com surpresa que não há uma definição possível.
A ideia de prazer depende de variáveis inúmeras: geográficas, temporais, sociais, culturais. Depende de quase tudo.
Numa aldeia do interior, na montanha, nos anos sessenta
do século vinte, o prazer poderia decorrer da possibilidade
de se ficar à noite junto ao fogo da lareira com uma caneca
de vinho e um caldo do pote. Hoje, mesmo entre pequeno-burgueses, confunde-se facilmente com o hedonismo.
Uma finíssima membrana separa o prazer e os seus perigos.
A sensação de bem-estar tende para a preguiça, o prazer
da comida tende para a gula e o prazer sexual tende para a
anulação do desejo. A temperança é uma exigência do prazer e simultaneamente a sua bomba-relógio.
Capítulo II
(Onde o dr. João Marcos fala do pai de Aline e
de um amor tocado pela tragédia.)
C
laro (conta o dr. João Marcos) que o conheci. Vivemos
em casas contíguas. António Pequeno veio com a mãe,
não teria mais que dois ou três anos, habitar a casa do padrinho de seu pai. Você deve conhecer a história: um regresso
do Brasil, o mistério de um carro levado pela correnteza
do rio. Se éramos amigos? Sim. Quer dizer. A amizade é
hoje um conceito volúvel; a frivolidade uma das principais
características deste tempo que me foi dado ainda viver.
A amizade, então, era um objecto raro. Não sei se deva
dizer que a amizade nos tocava um ao outro. Conhecemo-nos, partilhámos uma infância que hoje não saberia
classificar entre a ferida e a felicidade, a sombra e o iluminado êxtase. Corríamos nas encostas da urze e nas veredas
que seguiam da escola a caminho do vale, pescávamos tru-
tas palmeiras nos regatos do Covas e do Gondiães, guardávamos gado, ajudávamos no campo, armávamos esparrelas
aos melros. Mas eu saí cedo. A cidade. Os estudos. O meu
tio queria fazer de mim um homem. Eram essas as suas
palavras. O meu pai acabou por ceder. O meu tio dizia
que as raízes dos negrilhos se misturavam em nós e nos
agarravam à terra. Que era preciso cortar cerce essa matéria vegetal incombustível. Para que a pele e o chão da aluvião não acabassem por misturar-se e confundir-se. Mas
eu regressava muitas vezes. Sempre que podia. Nos dias
festivos. No Verão. Eu era o seu confidente. António contava-me tudo. Pedia conselhos. Partilhávamos medos, júbilos, apreensões. Sim, talvez possa dizer que a amizade nos
juntava. Mesmo considerando que a amizade era então um
objecto raro, precioso, singular.
A infância passou a correr. A infância é um vórtice,
um tempo sem cronologia. A infância, verdadeiramente,
não existe. A infância é a memória que guardamos dela
num tempo futuro. Passa sempre a correr. Passou a correr e eu saí a caminho da cidade. Saí cedo, como lhe disse.
Mas tarde de mais para que fosse já possível cortarem-me
por inteiro as raízes dos negrilhos que se misturam em nós.
Por isso fiquei a fazer parte da terra, agarrado a ela por
laços invisíveis e inverosímeis. Regressava muitas vezes.
António procurava-me sempre. O fascínio da cidade é
imenso num jovem que vive na montanha, afastado do
mundo, por detrás de demoradas cumeadas que se sucedem e perdem na distância entre o cinzento e o azul ténue
da melancolia. Ele queria saber do mar e das avenidas,
das mulheres e dos aviões, dos barcos e da iluminação das
praças e dos grandes edifícios do comércio; sentia o apelo
forte do desconhecido mundo. Veja como são as coisas:
sentia esse apelo forte e teve várias oportunidades de sair;
quase todos os jovens do nosso tempo acabaram por sair.
Mas não. Foi ficando, ficou sempre, ficou para sempre.
O mais certo é que fosse tarde: que as raízes dos negrilhos
se tivessem já misturado, irrevogáveis, à sua pele e ao ar
que respirava.
O pai de Aline era pouco expansivo. Tímido. Mas de
uma timidez que parecia reverter do orgulho. Havia qualquer coisa de nobre, de distintivo, de delicado, no modo
como caminhava ou se sentava à mesa ou batia a pedra do
isqueiro até iluminar a torcida de trapos. Por isso ficava
quase sempre de fora dos jogos raros do mundo rural: os
dias festivos associados aos trabalhos do campo. Por isso
ficava quase sempre de fora do jogo recorrente de subentendidos e alusões ao sexo. A sexualidade, a ideia de prazer,
numa aldeia de montanha, nesse tempo, eram reprimidas até ao exagero. Compreende-se, pois, que estivessem sempre presentes. Mas António era pouco expansivo.
E portanto se levou tão a sério a sua paixão sem reservas (pública) por uma mulher. Lúcia. Era esse o seu nome.
A tragédia, olhando os seus lábios e as suas pernas esguias,
os seus olhos fundos, o seu aparente distanciamento das
coisas do mundo, era como se estivesse anunciada nas
folhas dos negrilhos ou nas páginas dos livros.
O sobrenatural não configurava um mundo subliminar ou uma entidade desligada do terreno chão e concreto.
O sobrenatural insinuava-se no quotidiano até não haver
separação entre o prodígio ou o milagre e a realidade
material. O sobrenatural estava presente nas mínimas coisas; misturava-se nelas. Ora acontece que Lúcia era duma
beleza trágica: porque à sua beleza se acrescentava uma
sobranceria que parecia reverter do tédio e da distância.
Isso fundava um elemento de instabilidade (de desequilíbrio) inaceitável e que só poderia inscrever-se no domínio do oculto. A Lúcia, portanto, se começaram a atribuir
estranhos poderes; a ela se começaram a associar inusitadas ocorrências. Porque caiu a neblina sobre os campos
da veiga no dia em que nasceu uma criança e aí permaneceu, numa nuvem espessa, até que morreu uma outra afogada num poço? Porque caiu um relâmpago na torre da
igreja à meia-noite do dia doze de Dezembro e os dois ponteiros do relógio ficaram parados, sobrepostos, apontando
ao número doze? Porque começaram a ver-se fogueiras em
deriva nos montes saindo dos buracos dos canhotos furados dos torgos da urze? Porque Lúcia, necessariamente,
tinha estrangeirinha com o demo. António, claro, ria-se de
tudo isto. Ele e Lúcia continuavam o namoro. Eram vistos
de mãos dadas. Tinham casamento marcado. E foi então
que Lúcia desapareceu. Sem deixar rasto. No dia em que
tinha sido vista na cortinha, a manhã inteira, a recolher as
giestas de que se faziam as vassouras das bruxas.
O tempo raramente cura as feridas. Mas as feridas
ficam e o tempo corre. António passaria já dos trinta e
cinco anos quando acordou o casamento com a irmã de
Lúcia. Ana Paula tinha uma beleza e uns modos que não
ultrapassavam os limites do decoro. A Aldeia não sentiu
os perigos insustentáveis da lascívia ou do prazer ostensivo
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